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FITOVIGILÂNCIA: USO SEGURO DE PLANTAS MEDICINAIS E

FITOTERÁPICOS

O uso de plantas medicinais remonta aos primórdios da humanidade e


fundamenta-se no acúmulo de informações passadas de geração em geração. A
utilização dessa matéria-prima vegetal em formas farmacêuticas que não possuem na
sua composição substâncias ativas isoladas, das quais se conhecem as ações benéficas e
os riscos de seu uso é chamada de fitoterapia (BRASIL, 2006b).
Apesar do crescente interesse em pesquisar e descobrir uma metodologia segura
de se trabalhar com medicamentos à base de plantas, poucos são os sistemas nacionais
de vigilância que monitoram e avaliam essas reações adversas associadas a esses
produtos. Além disso, a falta de comunicação eficaz acerca do assunto está presente em
todos os níveis, do nacional ao internacional. De acordo com a OMS, uma pesquisa
mostrou que apenas 90 países, aproximadamente, regulam os medicamentos à base de
plantas. Além disso, existem disparidades na regulação entre países, o que dificulta o
acesso e distribuição internacional desses produtos. A OMS afirma ainda que os
sistemas nacionais de farmacovigilância devem estar ligados rigorosamente à
regulamentação dos medicamentos para atuar com afinco e tomar medidas reguladoras
cabíveis sobre os efeitos adversos do uso de medicamentos à base de produtos vegetais
(WHO, 2004).
O Brasil é um país com fortes tradições quando se trata do uso de plantas
medicinais. Por possuir a maior biodiversidade vegetal do mundo, o país possui amplo
espaço para o desenvolvimento dessa prática terapêutica (LIMA-SARAIVA et al.,
2015). A venda de fitoterápicos atingiu, em 2001, 5,9% do mercado farmacêutico
nacional, superando a venda de medicamentos genéricos, esta que correspondeu a 5%.
Os fatores que contribuíram e permitiram essa ascensão foram (CALISTO, 2003):
 A tendência para automedicação;
 A crença de que os fitoterápicos podem ser eficazes no tratamento de
certas doenças que não respondem a terapias convencionais e
medicamentos alopáticos;
 A preferência da população para medicina preventiva, em função do
aumento da expectativa de vida;
 O grande interesse em medicinas alternativas;
 A crença de que substâncias vegetais são livres de efeitos adversos;
 A preocupação dos usuários em relação a efeitos adversos indesejáveis
da medicina moderna;
 A preferência do consumidor por terapias naturais;
 A melhoria da qualidade, da prova de eficácia e de segurança dos
fitoterápicos;
 O alto custo dos medicamentos sintéticos;
 A falsa ideia de que medicamentos naturais, como plantas medicinais ou
fitoterápicos, são inócuos e não apresentam efeitos adversos, já que
provêm da natureza.
Por esses motivos, observa-se o crescente interesse da população e da
comunidade médica pelo uso de derivados vegetais para o tratamento de doenças
crônicas e de distúrbios menores, tornando-se uma grande fonte de inovação em saúde.
Nessa perspectiva, o governo brasileiro aprovou a Política Nacional de Plantas
Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF), Decreto nº 5.813, de 22 de junho de 2006
(BRASIL, 2006b), a qual apresenta nove diretrizes que objetivam a melhoria da atenção
à saúde, o uso sustentável da biodiversidade brasileira, o fortalecimento da agricultura
familiar, a geração de emprego e de renda, o desenvolvimento industrial e tecnológico, e
a perspectiva de inclusão social e regional. Os outros objetivos compreendem a
ampliação das opções terapêuticas, a pesquisa e o desenvolvimento de toda a cadeia
produtiva, até o uso e o reconhecimento das práticas populares, além do uso de plantas
medicinais e de remédios caseiros (BRASIL, 2006b).
Desde 2007, o Governo Federal disponibiliza fitoterápicos no Sistema Único de
Saúde. Em 2009, já havia 512 fitoterápicos registrados pela Anvisa, sendo 432 simples
e 80 compostos (CARVALHO et al., 2008). Atualmente, com a publicação da Relação
Nacional de Medicamentos Essenciais, 2012 (BRASIL, 2012b), são oferecidos 12
fitoterápicos, sendo que todos atendem aos atributos de segurança, qualidade e eficácia,
pois obtiveram o registro da vigilância sanitária.
Também em 2009, o Ministério da Saúde lançou o Programa Nacional de
Plantas Medicinais e Fitoterápicos, o objetivo do programa é garantir o uso racional e
seguro de plantas medicinais e fitoterápicos pela população brasileira, além de
promover o uso sustentável da biodiversidade e produtividade das indústrias nacionais
(BRASIL, 2009a). Além disso, foi lançada a Relação Nacional de Plantas Medicinais de
Interesse ao SUS (RENISUS) (BRASIL, 2009b), a qual apresenta 71 espécies vegetais
de interesse em saúde pública. Os critérios para a seleção das plantas medicinais foram:
ser nativa ou exótica adaptada, ser utilizada amplamente pela população brasileira e a
presença de evidências para indicação de uso na atenção básica de saúde. O principal
intuito dessa relação é subsidiar o desenvolvimento de toda cadeia produtiva
relacionada à regulação, cultivo/manejo, produção, comercialização e dispensação de
plantas medicinais e fitoterápicos. Sua função respalda a orientação de estudos e
pesquisas os quais poderão subsidiar a elaboração da Relação Nacional de Plantas
Medicinais e Fitoterápicos (RENAFITO). Incluir-se-ão nessa relação somente os
produtos vegetais que podem ser disponibilizados aos usuários do SUS. O RENAFITO
poderá gerar o desenvolvimento e a inovação na área de plantas medicinais e
fitoterápicos.
Em 2001, a Anvisa publicou o Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia
Brasileira, este apresenta formulações já utilizadas pelos serviços do SUS e,
posteriormente, em 2012, lançou o Caderno de Atenção Básica, intitulado de “Práticas
Integrativas e Complementares: plantas medicinais e fitoterapia na atenção básica”
(BRASIL, 2012a).
Nesse contexto, para garantir a qualidade, o uso seguro, efetivo e racional de
plantas medicinais e fitoterápicos são necessárias a regulamentação sanitária para o
registro, a comercialização e a vigilância do uso desses produtos, para prevenir e reduzir
os riscos inerentes à utilização das substâncias e para desmistificar o conceito
equivocado de que o que é natural é inócuo à saúde.

Efeitos adversos
O uso indiscriminado de plantas medicinais gera grande preocupação para a
saúde, pois o conhecimento que se tem sobre a toxicologia delas é baixo (HOCAYEN et
al., 2012). São várias as causas dos efeitos adversos provenientes do uso de plantas
medicinais, principalmente as interações com os constituintes do próprio derivado
vegetal, fitoterápicos ou outros medicamentos. Ainda podem ocorrer problemas como
superdosagem e ineficácia terapêutica, decorrentes da identificação errônea e preparo
inadequado empregado a essas plantas, levando sérios danos aos usuários, podendo
comprometer a recuperação da saúde (BALBINO; DIAS, 2010; WHO, 2004).
Por isso, a utilização dessas substâncias para a promoção da saúde deve ser
cautelosa, pois, para a maioria delas, o perfil tóxico do princípio ativo e o modo de
preparo, posologia (doses, intervalos e tempo de tratamento) ainda não foram
elucidados (CAPASSO et al., 2000; VEIGA JUNIOR, 2008). Sem conhecer exatamente
seus efeitos, podem ocorrer reações adversas, inefetividade terapêutica (IT),
superdosagem ou intoxicação, interações medicamentosas (OPAS, 2005),
contraindicações e potencialização ou redução do efeito de tratamentos convencionais
(CAPASSO et al., 2000). Além disso, os efeitos adversos também podem decorrer da
contaminação por agrotóxicos, metais pesados e micro-organismos (WHO, 2004).
A obtenção de informações relacionadas ao desenvolvimento de eventos
adversos associados à terapia, bem como o controle de qualidade desses produtos são
parâmetros importantes para a regulamentação do mercado fitoterápico e para a
promoção do uso correto e seguro pelos usuários. Assim, questões como desvios de
qualidade, erros de medicação, uso de plantas para indicações não aprovadas,
notificações de intoxicações agudas e crônicas, avaliação de mortalidade, abuso e
interações são alvo de estudo da fitovigilância (WHO, 2002).
Os efeitos adversos relacionados a plantas medicinais e fitoterápicos podem ser
classificados de duas formas, sendo eles intrínsecos ou extrínsecos. O primeiro está
relacionado à constituição química da planta, podendo ser do tipo A (toxicidade
previsível, overdose ou interação medicamentosa) ou do tipo B (reação idiossincrática).
O segundo grupo de classificação refere-se às reações ocorridas durante a manufatura
do produto, como a falta de padronização, contaminação, adulteração, entre outras
(DREW; MYERS, 1997).
Um dos grandes problemas para o rastreamento dessas reações associadas às
plantas medicinais são as diferentes nomenclaturas aplicadas para uma mesma espécie.
A identificação incorreta, seja na colheita ou na compra do material vegetal pelos
grandes fabricantes, poderá resultar em muitos problemas de saúde para a população
que for consumi-lo. Diferenças entre formas de cultivo, solo, época de colheita,
processos de secagem e estabilização afetam diretamente a concentração de princípios
ativos e, consequentemente, a efetividade e a segurança do produto. Essa variação da
concentração do princípio ativo pode resultar em possíveis quadros de intoxicação, bem
como na inefetividade de tratamento (DREW; MYERS, 1997).
A adulteração é outro fator que contribui para a ocorrência de reações adversas e
pode ser realizada misturando-se drogas vegetais da mesma planta, espécies
semelhantes de plantas medicinais e também adicionando-se medicamentos alopáticos.
Nesse último exemplo, cita-se a presença de anti-inflamatórios não esteroidais,
diuréticos tiazídicos, ansiolíticos e corticosteroides (PINN, 2001).
Ademais, parte dessa dificuldade em identificar esses casos de efeitos adversos
deve-se à falta de conhecimento do usuário e profissional de saúde sobre a importância
do questionamento aos pacientes sobre o uso de fitoterápicos e de plantas medicinais. A
orientação dos profissionais aos pacientes sobre a notificação das reações adversas ao
Sistema Nacional de Farmacovigilância é de extrema importância, para que,
eventualmente, a informação possa chegar a Anvisa (BALBINO & DIAS, 2010).

Notificação de eventos adversos


O Sistema Nacional de Notificações para a Vigilância Sanitária (Notivisa) define
o termo “evento adverso” como o dano provocado ao paciente após utilização de um
medicamento. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), o evento adverso é
qualquer ocorrência médica indesejável que acometa um paciente após utilização de um
produto farmacêutico tendo ou não uma relação causal inerente ao tratamento
(OLIVEIRA et al., 2013).
No Brasil, em 2007, o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas
Psicotrópicas (Cebrid) iniciou o Sistema de Farmacovigilância de Plantas Medicinais,
com o lançamento de boletins informativos (PANFLAVI), de periodicidade trimestral.
Além desse meio de comunicação, o Cebrid implantou o Sistema de Coleta de
Informações sobre Reações Adversas produzidas por Fitoterápicos e Plantas Medicinais,
com dados informados por profissionais de saúde. O objetivo do projeto é elaborar uma
base de dados com publicações científicas, relatos (notificações) espontâneos por
médicos, além de outros profissionais da saúde e com dados de pesquisa clínica para
levantamento do quadro nacional de RAMs causadas por produtos naturais (TABACH
et al., 2007).
É estabelecido um critério de gravidade com intuito de priorizar eventos
adversos na análise das notificações. Nesses critérios, estão inclusos eventos que
resultem em morte, ameaça à vida (referente ao risco de morte no momento da reação),
hospitalização (igual ou superior a 24 horas) ou prolongamento da hospitalização pré-
existente, incapacidade persistente ou significativa, efeitos clinicamente importantes
(tendo julgamento médico e científico para decidir outras situações graves), anomalia
congênita e malformações ao nascimento.
Regulamentação de fitoterápicos no Brasil
A resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 17, de 24 de fevereiro de 2000, foi
a primeira regulamentação sanitária sobre o registro de medicamentos fitoterápicos. Ela
estabeleceu os critérios de qualidade, eficácia e segurança desses medicamentos.
Atualmente, os critérios para o registro de fitoterápicos no Brasil estão publicados na
RDC nº 14, de 31 de março de 2010, a qual estabelece os requisitos mínimos para a
comercialização desses produtos no mercado nacional (BRASIL, 2010). Os
medicamentos fitoterápicos são aqueles:
 Obtidos com emprego exclusivo de matérias-primas ativas vegetais, cujas
eficácia e segurança são validadas por meio de levantamentos
etnofarmacológicos, de utilização, de documentações tecnocientíficas ou de
evidências clínicas;
 Caracterizados pelo conhecimento da eficácia e dos riscos de seu uso, bem
como pela reprodutibilidade e pela constância de sua qualidade;
 Que não incluem, na sua composição, substâncias ativas isoladas, sintéticas
ou naturais, nem as suas associações com extratos vegetais.

Pré-registro
Para a obtenção do registro (BRASIL, 2014), a empresa farmacêutica
responsável pelo desenvolvimento e/ou pela manipulação do fitoterápico deverá
fornecer um dossiê a Anvisa com as seguintes informações:
 Relatório técnico: Nesse documento é necessário conter as informações
referentes à nomenclatura botânica completa, parte da planta utilizada,
local de fabricação, dados da produção, controle de qualidade, dados
sobre segurança e eficácia, além de layout da bula, do rótulo e da
embalagem.
 Relatório de produção: Deve conter informações sobre a forma
farmacêutica, descrição detalhada da fórmula completa designando a
nomenclatura botânica oficial, o excipiente, conforme a Denominação
Comum Brasileira (DCB) ou, em sua ausência, a Denominação Comum
Internacional (DCI), ou a denominação citada no Chemical Abstract
Service (CAS) respeitando-se a ordem de prioridade; descrição da
quantidade de cada substância expressa no sistema internacional de
unidades (SI) ou unidade padrão indicando sua função na fórmula;
tamanhos mínimo e máximo dos lotes industriais a serem produzidos;
descrição de todas as etapas do processo de produção contemplando os
equipamentos utilizados; metodologia de controle do processo produtivo;
descrição dos critérios de identificação do lote industrial.
 Relatório de controle de qualidade: Deve conter informações referentes à
droga vegetal, informações referentes ao derivado da droga vegetal e
controle de qualidade do produto final. Resultados do estudo de
estabilidade acelerada e acompanhados dos estudos de estabilidade de
longa duração em andamento.
 Relatório de eficácia e segurança: Um critério de importância é a
comprovação da eficácia e segurança do produto. Para isso, de acordo
com a RDC 48/04, as empresas podem usar três alternativas. Uma delas é
apresentar estudos farmacológicos e toxicológicos com base na literatura
descrita na “Lista de Referências Bibliográficas para Avaliação de
Segurança e Eficácia de Fitoterápicos”. Outra forma é apresentar um
levantamento bibliográfico etnofarmacológico o qual mostre a eficácia e
segurança do produto efetivado por um período de 20 anos ou mais. A
terceira e última alternativa é realizar testes pré-clínicos e clínicos até a
terceira fase.

Pós-registro: renovação do registro e vigilância do produto


Para a renovação do registro, as empresas fabricantes deverão apresentar, no
primeiro semestre do último ano de validade do registro, entre outros documentos, o
comprovante da existência de um sistema de farmacovigilância na empresa. Esse
sistema deverá monitorar falhas terapêuticas e efeitos colaterais, de acordo com a
legislação específica, além de relatórios de segurança, de eficácia, de produção e de
controle de qualidade, conforme determinado pela resolução da Anvisa, caso as
informações não tenham sido comunicadas no dossiê pré-registro (BRASIL, 2014).

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