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EDUCAÇÃO AMBIENTAL

EDUCAÇÃO AMBIENTAL, PEDAGOGIA,


POLÍTICA E SOCIEDADE

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Olá!
Ao final desta aula, o aluno será capaz de:

1. Reconhecer as principais discussões sobre modelo de desenvolvimento, desigualdade social, globalização e a

inserção da educação ambiental nesse contexto.

1 Introdução
A educação ambiental nada mais é do que a própria educação, com sua base teórica determinada historicamente

e que tem como objetivo final melhorar a qualidade de vida ambiental da coletividade e garantir a sua

sustentabilidade.

Isso significa que é obrigatório que o educador ambiental conheça e compreenda a história da educação, e os

pensamentos pedagógicos aí gerados. Seja capaz de escolher as melhores estratégias educativas para atuar sobre

os problemas socioambientais e, com a participação popular, tente resolvê-los (Pelicioni, 2009).

A ação transformadora da educação ambiental deve estar apoiada na ética, na justiça social e na equidade. Os

conhecimentos das outras ciências (como filosofia, psicologia, sociologia e, principalmente subsídios para a

consolidação de um novo projeto civilizatório, de uma nova visão do ser humano em suas relações com a

natureza (Philippi Junior e Pelicioni, 2000 apud Pelicioni, 2009).

Segundo o mesmo autor, a interdisciplinaridade, então, é inerente à educação ambiental. Se os problemas

ambientais são muito complexos e são causados pelos modelos de desenvolvimento adotados até hoje, suas

soluções dependem de diferentes saberes, de pessoas com diferentes formações voltadas para o objetivo comum

de resolvê-los.

2 Histórico
O século XXI inicia-se por meio de uma emergência socioambiental que promete agravar-se caso sejam mantidas

as tendências atuais de degradação; um problema enraizado na cultura, nos estilos de pensamento, nos valores,

nos pressupostos epistemológicos e no conhecimento, que configuram o sistema político, econômico e social que

vivemos (Luzzi, 2009).

Uma emergência que mais do que ecológica, é uma crise do estilo de pensamento, do imaginário social e do

conhecimento que sustentaram a modernidade, dominando a natureza e mercantilizando o mundo. Uma crise do

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ser no mundo, que se manifesta em toda a sua plenitude; nos espaços internos do sujeito, nas condutas sociais

autodestrutivas; e nos espaços externos, na degradação da natureza e da qualidade de vida das pessoas. É nesse

sentido que consideramos que a solução dos problemas do presente não se encontra na mera gestão dos

recursos naturais nem na incorporação das externalidades ambientais aos processos produtivos (Luzzi, 2009).

Ainda segundo o mesmo autor, a resolução requer amadurecimento da espécie humana, ruptura das hipocrisias

sociais, construção de novos desejos, de novos horizontes, de novos estilos de pensamentos e sentimentos.

A humanidade chegou a uma encruzilhada que exige examinar-se para tentar achar novos rumos e refletir sobre

a cultura, as crenças, os valores e conhecimentos em que se baseia o comportamento cotidiano, assim como

sobre o paradigma antropológico-social que persiste nas ações, no qual a educação tem um enorme peso.

A educação deve produzir ser próprio giro copernicano, tentando formar as gerações atuais não somente para

aceitar a incerteza e o futuro. Mas para gerar um pensamento complexo e aberto às determinações, às mudanças,

à diversidade, à possibilidade de construir e reconstruir em um processo contínuo de novas leituras e

interpretações do já pensado, configurando possibilidades de ação naquilo que ainda há por se pensar (Leff,

2000).

3 Educação ambiental
O binômio educação/ambiente deverá então desaparecer com o tempo. A educação será ambiental, ou não será,

no sentido de permitir rumarmos para uma nova sociedade sustentável.

Uma educação que, mais além das denominações que adquira – Educação Ambiental, Educação para o

Desenvolvimento Sustentável, Educação para o Futuro Sustentável, Educação para Sociedades Responsáveis -,

perca os adjetivos e como um todo se encaminhe na busca de sentido e significação para a existência humana

(Luzzi, 2009).

Essa discussão pedagógica sobre a educação ambiental também nos remete a sua interligação com o

desenvolvimento, relacionado à educação ambiental, onde precisamos entender sobre economia, pois o

desenvolvimento econômico sustentável do ponto de vista ambiental pode premiar práticas sustentáveis e

benéficas e também condenar as não sustentáveis e nocivas.

Segundo Miller Junior (2008), neste século, muitos analistas nos desafiam a dedicar mais atenção ao

desenvolvimento econômico sustentável no que se refere ao meio ambiente. Esse tipo de desenvolvimento faz

uso de prêmios econômicos (principalmente subsídios governamentais ou incentivos fiscais) para incentivar

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formas benéficas e sustentáveis de crescimento econômico e utiliza sanções econômicas (especialmente

impostos e regulamentações governamentais) para desencorajar formas nocivas e não sustentáveis de

crescimento econômico ligado ao meio ambiente.

Um sistema econômico produz mercadorias e serviços utilizando recursos naturais, humanos e manufaturados e

é uma instituição por meio da qual as mercadorias e serviços são produzidos, distribuídos e consumidos para

satisfazer as necessidades das pessoas e os desejos ilimitados da maneira mais eficiente possível.

Em um sistema econômico com base no mercado, os compradores (consumidores) e vendedores (fornecedores)

interagem em mercados para tomar decisões econômicas sobre quais mercadorias e serviços serão produzidos,

distribuídos e consumidos (Miller Junior, 2008).

4 Desigualdade social
Isso nos remete a outra discussão, que é a questão da desigualdade social, pois como falar em aquisição de

produtos e até serviços, com o quadro atual de miséria generalizada que temos?

Quando falamos em desigualdade social, o problema não está na escassez de riqueza, mas na sua distribuição. O

século XX tem sido testemunha do aumento do consumo em um ritmo sem precedentes, chegando a 24 trilhões

de dólares em 1998, o dobro do nível de 1975 e seis vezes o de 1950, refletindo o crescimento de mais de 40%

do PIB mundial. Contudo a pobreza cresceu 17% nesse período (Luzzi, 2009).

Segundo o PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (1998) - o mundo se encontra cada vez

mais polarizado, pois no fim dos anos 90:

A quinta parte da população mundial, que vivia nos países de maior renda possuía:
- 86% do PIB mundial; - 82% dos mercados mundiais de exportação.
A quinta parte inferior somente possuía:
- 1% do PIB mundial; - 1% dos mercados mundiais de exportação.

Ainda conforme o PNUD (1998), a não ser que os governos adotem oportunamente medidas corretivas, o

crescimento econômico pode ficar distorcido e defeituoso. O certo é que o modelo de desenvolvimento já se

mostrou defeituoso, gerando um crescimento econômico:

Sem emprego As economias crescem, sem aumentar as oportunidades de emprego.

O processo de globalização cultural unidirecional, liderado pelo livre mercado, gera a

massificação das pautas culturais, sepultando as raízes dos povos, a história e a memória

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Sem raízes coletiva, uma verdadeira armadilha social, pois um povo que não tem memória histórica

está condenado a repetir seus erros sem chance de reflexão e amadurecimento.

S e m Os frutos do crescimento econômico beneficiam principalmente os ricos, deixando milhões

equidade de pessoas imersas em uma pobreza cada vez mais profunda.

Crescem economias, mas não se fortalecem as democracias no que se refere à participação


Sem voz
das pessoas.

Já que o crescimento econômico descontrolado de muitos países está acabando com os

Sem futuro bosques, contaminando os rios, o mar, o solo, o ar, destruindo a diversidade biológica e

cultural e esgotando os recursos naturais não renováveis.

5 Globalização
A globalização está abrindo oportunidades a milhões de pessoas, entretanto encontra-se impulsionada pela

expansão dos mercados; e todos nós sabemos que os mercados competitivos podem ser a melhor garantia de

eficiência, porém não necessariamente de equidade. Quando a ambição do lucro dos participantes no mercado se

descontrola, desafia a ética dos povos e sacrifica o respeito pela justiça e pelos direitos humanos (PNUD, 1999).

Neste mesmo informe do PNUD (1999), destacou-se que o objetivo da globalização do novo século não consiste

em deter a expansão dos mercados, mas é necessário gerar uma globalização com ética, ou seja, com menos

violações dos direitos humanos; com equidade, que implique menos disparidade dentro das nações e entre elas;

com inclusão, isto é, menos marginalização dos povos e países; com segurança humana, gerando menos

instabilidade social e vulnerabilidade; com sustentação, implicando menos destruição ambiental; com

desenvolvimento, ou seja, menos pobreza e privação.

Nesse cenário de sucessos e padecimentos humanos, deve-se encontrar um novo conceito de segurança humana,

um novo paradigma. Segundo Luzzi (2009), um novo modelo de desenvolvimento que:


• Coloque o ser humano no centro do desenvolvimento.
• Considere o crescimento econômico como um meio e não um fim.
• Proteja a vida das futuras gerações e igualmente a das atuais.
• Respeite os sistemas naturais do qual dependem todos os seres vivos.

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6 Modelo atual de desenvolvimento
Conforme Bifani (1997), no atual modelo de desenvolvimento, a sociedade rica explora ao máximo a natureza

para satisfazer às necessidades luxuosas ou supérfluas, enquanto os mais necessitados a deterioram para prover-

se com o mínimo requerido para a subsistência. O século XXI começa com uma crescente tensão socioambiental,

em que se podem identificar três dimensões principais:

• Consumo

No final do milênio, a sociedade industrial moderna não somente consome recursos naturais renováveis

a uma velocidade maior do que requer o planeta para sua natural reposição, mas, além disso, gera

desperdícios em um nível superior do que precisa para sua natural reciclagem.

• Degradação ambiental

A civilização em seu conjunto criou tecnologias capazes de manufaturar produtos não degradáveis e

tóxicos para o ambiente. Centenas de milhões de quilos dessas substâncias são produzidas anualmente

sem ser assimiladas por nenhum organismo vivo. Somente podem acumular, e com isso contaminar a

terra, as águas, o ar, e portanto, a cadeia de alimentos: flora, fauna e seres humanos. Esse ecossistema

demorou milhões de anos para se formar e a civilização industrial o agrediu no transcurso de apenas

dois séculos.

• Pobreza

O consumo crescente de recursos naturais não está associado a uma divisão equitativa, gerando grande

desigualdade. Quase a metade do mundo luta por sua sobrevivência cotidiana. Esta desigualdade está

produzindo conflitos armados e grandes deslocamento de populações das zonas rurais para os centros

urbanos.

7 Educação ambiental
Nesse contexto é que se defende que a educação ambiental não pode ser reduzida a uma simples visão

ecologista, naturalista ou conservadora sem perder legitimidade social, por uma simples questão de ética, e sem

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perder sua coerência, porque a resolução dos problemas socioambientais anteriormente apresentados se

localiza no campo político e social, na superação da pobreza, na desaparição do analfabetismo, na geração de

oportunidades, na participação ativa dos cidadãos (Luzzi, 2009).

Conforme Luzzi (2009), o problema ambiental não se resolve com a assepsia cientificista, seja esta ecológica,

biológica ou tecnológica; sua resolução se localiza no campo da cultura, do imaginário social, dos valores e da

organização política e econômica global. A definição de educação ambiental nesse contexto deve estar

estreitamente relacionada à visão construída sobre a realidade em que se vive, já que toda ação é resultado de

certa compreensão, da interpretação de algo que configure sentido; por isso, é conveniente abordar os principais

problemas ambientais do presente, aprofundando suas origens e suas alternativas de solução, com uma

interpretação própria do problema, a fim de avançar nessa aventura de construção de sentidos que significa

aprender a aprender.

8 Conclusão
Precisamos ter em mente que o desafio que temos é de utilizar de forma criativa os sistemas econômicos e

políticos para implementar soluções dos problemas sobre o funcionamento da natureza e como se sustenta. A

chave é reconhecer que a maioria das mudanças econômicas e políticas é resultado de ações individuais e de

indivíduos agindo conjuntamente para promover mudanças por meio de ação envolvendo pessoas comuns, de

baixo para cima.

Cientistas sociais sugerem que é necessário apenas 5 a 10% da população de um país para provocar uma grande

mudança social. A antropóloga Margaret Mead resumiu nosso potencial de mudança: “Nunca duvide que um

pequeno grupo de cidadãos atentos e comprometidos possa mudar o mundo. Na realidade, só assim se foi capaz

de mudar o mundo até hoje”. Isso significa que devemos aceitar nossa responsabilidade ética de administradores

do capital natural da Terra, deixando-a em uma condição boa, senão melhor, do que aquela que encontramos

(Miller Junior, 2008).

Com isso posto, os educadores ambientais devem integrar-se aos movimentos políticos e sociais que lutam por

uma vida melhor para todos, contribuindo humildemente nesse processo de diálogo permanente, tentando gerar

as bases de uma educação que se objetive na busca do outro, para a construção de uma pluralidade que

fundamente o sentido ético da ida humana, e a presença constante da utopia e da esperança. Esse é o desafio,

segundo Luzzi (2009).

Para que serve uma casa se você não tiver um planeta para colocá-la?

Henry David Thoreau

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Saiba mais
Livro: Educação Ambiental: Pesquisa e Desafios
Autor: Michèle Sato e Isabel Carvalho e colaboradores
Editora: Artmed
Ano: 2005
Capítulo 7 - Interdisciplinariedade e educação ambiental:explorando novos territórios
epistêmicos.
15 páginas

O que vem na próxima aula


Na próxima aula, você vai estudar:
• Política Nacional de Educação Ambiental (Lei 9.795/99).
• Política Nacional do Meio Ambiente e seus Sistemas e Institutos.

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