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Universidade Eduardo Mondlane


Faculdade de Filosofia
Hermenêutica filosófica – 4o laboral
Docente: Mestre Pedro Cebola Mazi
Discente: Beijamim João Dionísio

O sentido ontológico da hermenêutica em Gadamer: uma abordagem em torno da


alteridade textual

A relação entre Gadamer e Heidegger constituiu um passo importante dentro da história da


hermenêutica das ciências humanas e, com isto, se quer inicialmente afirmar uma via de
ruptura com o contexto científico-metodológico da hermenêutica, principalmente aquele que
foi proposto por Schleiermacher e Dilthey. Como consequência deste primeiro momento, a
hermenêutica filosófica desenvolvida por Gadamer, representou um desdobramento da
hermenêutica da facticidade de Heidegger. A hermenêutica gadameriana pode entreter os
horizontes conceituais da ontologia fundamental e da analítica existencial do Dasein para
compreender a questão das ciências humanas, percepcionada posteriormente por Dilthey.

Na perspectiva de Gadamer (1999: 561), o problema hermenêutico encontrou, inicialmente,


como dificuldade a ser superada a direcção do conceito histórico de Dilthey que estava mais
próximo do idealismo especulativo, também analisou que foi Heidegger, embasado pela
fenomenologia, quem libertou a intenção filosófica de Dilthey, isto, porque ele viu a
inadequação do conceito de substância para o ser e para o conhecimento histórico. O ponto de
inspiração de Gadamer esteve marcado pelo esforço diltheyano de fundar filosoficamente as
ciências humanas, ou, como Gadamer (2003: 561) apresentou em “O problema da
consciência histórica”, que a vontade de Dilthey era descobrir um fundamento novo e
epistemologicamente consistente acercas das ciências do espírito, o que pode ser entendido
como tentativa de complementar a crítica da razão pura de Kant com uma crítica da razão
histórica.

Gadamer (1999), no intuito de superar o enredamento do historicismo diltheyano, procurou


pensar a experiência da verdade como participante de uma ontologia fundamental proposta
por Heidegger. Portanto, a hermenêutica filosófica em Gadamer deve muito ao pensamento
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heideggeriano, principalmente aquele esboçado na obra “Ser e tempo”. Desta forma, podemos
auferir o sentido ontológico da hermenêutica em Gadamer, na medida em que Gadamer
sublinha a necessidade de se pensar numa compreensão e interpretação do texto a partir dele
mesmo.

Segundo Ricoeur (1990: 54) a autonomia do texto tem uma primeira consequência
hermenêutica importante: o distanciamento não é o produto da metodologia, na medida em
que ele é constitutivo do fenómeno do texto como escrita; ao mesmo tempo, também é a
condição da interpretação. Portanto, a Verfremdung não é somente aquilo que a compreensão
deve vencer, mas também aquilo que a condiciona. Permanecemos, assim, em estados de
descobrir, entre objectivação e interpretação, uma correspondência muito menos bifurcada e,
por conseguinte, muito mais complementar que a que havia sido instituída pela tradição
romântica.

Embora a alteridade do texto seja uma categoria específica, ela comunica-se intrinsecamente
com as outras. As categorias epistemológicas complementam-se mutuamente, vincadas pela
dialéctica da compreensão do todo pelas partes, e das partes pelo todo, isto é, pelo círculo
hermenêutico “tudo isso, que caracteriza a situação do pôr-se de acordo na conversão toma
sua versão propriamente hermenêutica, onde se trata de compreender textos” (GADAMER,
1999:562).

Alteridade de texto ou autonomia textual significa que o texto tem vida própria, ou seja, o
texto tem o seu mundo pelo que o intérprete assim como o texto, ambos são livres. “Essa
libertação em relação ao autor possui seu equivalente por parte daquele que recebe o texto”
(RICOUER, 1990:53). Essa liberdade consiste na realidade, a tradição sempre é também um
momento da liberdade e da história. Mesmo a tradição mais autêntica e venerável não se
realiza naturalmente, em virtude da capacidade de permanência do que de algum modo já está
dado, mas ainda necessita ser afirmada, assumida e cultivada. “A tradição não se coloca pois
contra nós; ela é algo pelo qual nos situamos e pelo qual existimos; em grande parte é um
meio tão transparente que nos é invisível – tão invisível como a água o é para o peixe”
(PALMER, 1969:180).
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A alteridade textual cruza-se com a categoria do preconceito, quando o intérprete vai ao texto
com uma dada ideia, porém, essa ideia pode ser de acordo com o texto ou não. Quando o
preconceito vai de acordo com texto Gadamer denomina de preconceito legítimo, e quando o
preconceito não acorda com o texto denomina-se de preconceito ilegítimo.

Em si mesmo, ‘preconceito’ (Vorurteil) quer dizer um juízo (Urteil) que se


prova antes da prova definida de todos os momentos determinantes segundo a
coisa. No procedimento juris-prudencial um preconceito é uma pré-decisão
jurídica […], um preconceito desse tipo representa […] redução de suas
chances. Por isso, préjudice, em francês, tal como praejudicium, significa
também simplesmente prejuízo, desvantagem, dano. Não obstante, […]
"Preconceito" não significa, pois, de modo algum, falso juízo, pois está em
seu conceito que ele possa ser valorizado positivamente ou negativamente. É
claro que o parentesco com o praejudicium latino torna-se operante nesse
fato, de tal modo que, na palavra, junto ao matiz negativo, pode haver
também um matiz positivo. Existem préjugés légitimes. Isso se encontra
muito distante de nosso actual tato linguístico (GADAMER, 1999: 407).

Partindo do supra, vale salientar, que na autonomia textual o sentido da realização da


compreensão dos textos depende também consciência histórico-efectual que Se realiza nas
possibilidades do círculo hermenêutico e na fusão de horizontes. Esta contínua consciência
histórico-efeitual (ponto central do pensamento gadameriano) constitui o engajamento
filosófico do intérprete das ciências humanas em face à experiência da verdade ligada
inextricavelmente às suas condições históricas. Para isso, as bases de uma postura neutra e
dogmática deveriam ser progressivamente abandonadas da problemática da filosofia da
história, abrindo caminho a uma experiência hermenêutica que reconduza filosoficamente a
consciência humana em relação à sua experiência com o mundo. Em contrapartida, nessa
autonomia do texto já está contida a possibilidade de aquilo que Gadamer chama de a
“coisa” do texto ser subtraída ao horizonte intencional finido de seu autor. Em outras
palavras, graças à escrita, o “mundo” do texto pode fazer explodir o mundo do autor.
(RICOEUR, 1990: 53).

No referido círculo, os conceitos de fusão de horizontes e consciência histórica constituem


instâncias fundamentais da compreensão hermenêutica, são a partir delas que Gadamer
evidenciará o carácter de linguagem ou linguisticidade (Sprachlichkeit) que mantém a relação
dialógica do intérprete e seu objecto de focalização. Este artigo argumenta, ainda, por meio da
obra Verdade e Método que Gadamer pensou a experiência da compreensão histórica como
experiência do diálogo, e essa afirmação pode ser constatada na estrutura da pergunta e
resposta.
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Alteridade textual, assim como as outras categorias tem a finalidade de compreensão, na


medida em que a compreensão para o autor tem uma dimensão originária, à medida que
reconhece nela o comportamento essencial do homem em sua relação com o mundo. Pode-se
afirmar que a hermenêutica Gadameriana organiza-se em uma postura, um modo de ser que
articula a compreensão da verdade e do bem, por meio do exercício dialógico.

De acordo com Gadamer (1998: 40) a compreensão tem um peso ontológico, é constitutiva da
situação do homem no mundo, é a forma originária de realização do ser-aí humano enquanto
ser no mundo. Portanto, a desenvolver e ampliar as descobertas Heideggerianas sobre a
compreensão, como “modo de ser originário da vida humana mesma.

Gadamer se apropria da ideia heideggeriana da “estrutura de antecipação da


compreensão”, segundo a qual qualquer acto compreensivo está
condicionado, de modo ontológico, pelos preconceitos e opiniões daquele que
o empreende. Para o filósofo “quem quer compreender um texto tem sempre
um projecto. Assim que se desenha um primeiro sentido no texto, o intérprete
antecipa um sentido para o todo” (GADAMER, 1999: 107).

Partindo do que se dissemos acima, entendemos que a compreensão surge da revisão


constante dos “projectos” durante a leitura do texto ou da relação estabelecida como os
materiais de pesquisa. Sendo que o diálogo é uma experiência que evidencia, essencialmente,
a dimensão intersubjectiva da vida e da vida ética. Precisamos de palavras que nos remetam
ao diálogo, palavras que não se esgotem em verdades absolutas, mas que busquem verdades
provisórias e se constituam considerando a vulnerabilidade da condição humana em relação
aos outros, isto é, a permanente necessidade que temos do outro para nos estabelecermos
como sujeitos históricos. Somente compreendemos quem é o outro ao compreendermos a
narrativa que ele mesmo ou outros nos fazem. Assim, a relação entre a narrativa, o acto
compreensivo e a auto-compreensão é estreita.

Para Gadamer (2003: 71) Compreender é operar uma mediação entre o presente e o passado, é
desenvolver em si mesmo toda uma série contínua de perspectivas na qual o passado se
apresenta e se dirige a nós. Nesse sentido radical e universal, a tomada de consciência
histórica não é o abandono da eterna tarefa da filosofia, mas a via que nos foi dada para
chegarmos à verdade sempre buscada. E vejo na relação de toda compreensão com a
linguagem a maneira pela qual se revela a consciência da produtividade histórica.
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O círculo da compreensão não é cumulativo, não é um círculo fechado que se fecha sobre si
mesmo, não tem a forma de uma circunferência, mas de uma espiral. Por isso, “não é correto
falar em compreender melhor”, como se a verdade fosse um objecto a ser alcançado ao final
do processo de elaboração de compreensão e de uma vez para sempre. Não se trata de um
círculo epistemológico-metodológico, que se efectiva nos padrões da relação sujeito-objecto,
mas de um círculo ontológico-hermenêutico, que explicita a prévia estrutura da compreensão
e concebe a verdade como o sentido possível de ser manifestado e jamais esgotável.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GADAMER, Hans-Georg. (1998). Herança e futuro da Europa. Trad. A. Hall. Lisboa:


Edições 70.

______. (1999). Verdade e método: Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica.


Trad. Flávio P. Meurer. 3.ed. Petrópolis: Vozes.

______. (2003). O problema da consciência histórica. Trad. Paulo César. Rio de Janeiro:
Editora FGV.

PALMER. Richard. (1969). Hermenêutica. Trad. Maria Luísa Ribeiro Ferreira. Lisboa:
Edições 70.

RICOEUR, Paul. (1990). Interpretação e ideologias. Trad. Milton Japiassu. Rio de Janeiro:
Francisco Alves.

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