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Introducao a
Metodologia de
Pesquisa
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F621i ‘Flick, Uwe


Introduc¢ao a metodologia de pesquisa : um guia para iniciantes/
UweFlick ; tradugao: Magda Lopes; revisao técnica: Dirceu da Silva.
— Porto Alegre : Penso, 2013.
256 p.: il.; 25cm.

ISBN 978-85-65848-08-4

1. Método de pesquisa. I. Titulo.

CDU 001.891

Catalogacao na publicagaéo: Ana Paula M. Magnus — CRB 10/2052


UweFlick

Introducao a
Metodologia de
Pesquisa
UM GULA PARAINICIANTES

Traducao:
Magda Lopes
Consultoria, supervisao e revisao técnica desta obra:
Dirceu da Silva
Doutor em Educacao pela Universidade de Sao Paulo.
Professor da Universidade Estadual de Campinas.

¢
2013
Obra originalmente publicada sob otitulo Sozialforschung:
Methoden und Anwendungen. Ein Uberblick fiir die BA-Studiengdange
ISBN 9783499557026

Copyright © 2009 by Rowohlt Verlag GmbH, Reinbeck bei Hamburg

Capa
Paola Manica

Preparacao do original
Adriana SthamerGieseler
Leitura final
Priscila Zigunovas
Editora responsavel por esta obra
Livia Allgayer Freitag
Coordenadoraeditorial
Claudia Bittencourt

Gerenteeditorial
Leticia Bispo de Lima
Projeto e editoracao
Armazém Digital® Editoragdo Eletrénica — Roberto Carlos Moreira Vieira

Reservados todos os direitos de publicacao, em lingua portuguesa, a


PENSO EDITORA LTDA., uma empresa do GRUPO A EDUCACAOS.A.
Av. JerOnimo de Ornelas, 670 — Santana
90040-340 — Porto Alegre, RS
Fone: (51) 3027-7000 Fax: (51) 3027-7070

E proibida a duplicacado ou reproducao deste volume, no todo ou em parte,


sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrénico, mecanico, gravac¢ao,
fotocépia, distribuicao na Web e outros), sem permissdo expressa da Editora.

SAO PAULO
Av. Embaixador Macedo Soares, 10.735 — Pavilhao 5
Cond. Espace Center — Vila Anastacio
05095-035 Sao Paulo SP
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SAC 0800 703-3444 — www.grupoa.com.br

IMPRESSO NOBRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Sobre o autor

UweFlick é formado empsicologia e socio- Hautes Etudes em Sciences Sociales em Paris


logia. E professor de Pesquisa Qualitativa na (Franca), Universidade de Cambridge (Reino
Universidade de Ciéncias AplicadasAlice Sa- Unido), Universidade Memorial de St. John’s
lomon em Berlim (Alemanha). Anterior- (Canada), Universidade de Lisboa (Portu-
mente foi Professor Adjunto na Universida- gal), Universidade de Viena (Austria), na Ita-
de Memorial de Newfoundland em St. John’s lia e na Suécia, e na Faculdade de Psicologia
(Canada); Professor Assistente na Universi- da Massey University em Auckland (Nova
dade Livre de Berlim na disciplina de Meto- Zelandia). Seus principais interesses de pes-
dologia de Pesquisa; Professor Adjunto e quisa sdo os métodos qualitativos, os temas
Professor Assistente na Universidade Técni- sauide e desabrigados, problemas de sono em
ca de Berlim nadisciplina de Métodos e Ava- casas de repouso e representa¢oes sociais nos
liagdo Cientificos; e Professor Associado e camposdesatide individuale publica.
Chefe do Departamento de Sociologia Mé- E autordoslivros Introducdao 4 pesquisa
dica na Faculdade de Medicina de Hannover. qualitativa (Artmed, 2009), Desenho da pes-
Ja trabalhou como Professor Visitante na quisa qualitativa (Artmed, 2011) e Qualida-
London School of Economics, Ecole des de na pesquisa qualitativa (Artmed, 2009).
Sumario

PrOFACIO ieee essessestssssesstssesssastessssasssensassssensarsavsesausssssssssessssussussssassucarssesissessesessussesieasssecsesessecsetees 9

PARTEI
OPi@NtaG AO... csseesesessstsseseacecassessssessassesesnssssessasscsussssssssssvssssssssssssssssisasasasessissceessssscacaceueseneees 13

1 Por que pesquisa SOCIAI? 0... cecccccssescscsssssessessssssesessssssvessesssssecesesssssssessessssssessessssisssssessssiessssssseeesesesnee 15

2 Da ideia da pesquisa a questo da POSQUISA...cccccccccsssssssscssssssssccssesesssssssssssessssssisnsttisisssesteseeteedeee 29


3 Leitura e revisdo da literatura ........cccccsssssssccssssssssssssrsessssssssecsssssssesessevetsesssseeeesssssssseseneeseessteestetsenee 4)

PARTE Il
Plan@jaMENto © CONCEPGAO 2.0... cee eeccscescscsssesessescsesescsesevevscsesesssesevsvssscsesesessuecssevasseseseseseeesasseseseseeeeansesens 53

4 Planejamento da pesquisa social: pasos NO PrOCeSSO da PESQUISA ce... 55

5 CONCEPCAO da PESQUISA SOCIAL... ccecccscessssstesssesescesssessseesssescsnesssesssnessaesusueasaeeeseaeaeenseseceeenseeetetentes 67

6 Decisdo sobre 0S MetodOS .....ccccsscsssssssssssssssssssssesssscssssssssepessesssssssesessssssssassssuneesssesssssnsetessestessssseesees 85

PARTEIll
Trabalhando COM dad wu... eecccccsssssscscscssscsssscscseseseseseccecsescsuseseenececesacecaeeeaseesseeseeieaeneneieenseneransesensanes 105

7 Coleta de dados: abordagens quantitativa @ qualitativa ..........cccccccscscsssssssssssseccssssssseseecsessnssnen 107

8 Andlise de dados quantitativos @ qualitativOS .......ccccccsssssssesssssssecccossssssssssinneseesseeeeeeccessenssssssnneen 133

9 Pesquisa on-line: realizacGdo de PESqUISA SOCIAl ON-NNE oo. ccc tees teseseeneseenseeeneeeenes 163

10 Pesquisa social integrada: combinacao de diferentes abordagens de peSquiSa..........ceee 177


8 Sumario

PARTE IV
Reflexd0 © CSCIITE .ccccccccccccsecesccssecscececsccssececsecescesevasssevssssussusesesessesecsseceseseseessesesecssessssesecatseressaraseessenens, 191

11 0 que é uma pesquisa? Avaliagdo do seu projeto de POSQUISA...........cceccsecsesssteessseeen 193

12 Questies éticas na DESQUISA SOCIAL occ eeeeceeeeceeeeceeneseeesesesescecseeasssssesesesnssssensersusestiteesscsvseneesanen 207

13 Escrita da pesquisa € USO dOS reSUItAdOS ......ssssesssssssssssssesssssesesssseesssseessisesssssecssseesssssetsusestssseseseese 22]

GIOSSANIO. cc ccccceccececscscececescecscecscesvsvscscsecsvevscucsevsvassesscsssessvecsessescsessssssevsssseassesasseeessssscsesevsssavavasestaratetvasasacessess 235


RefCrONCidS ..... cc ccccccccccsccsscsscsscescessescesecsscseceaesevsaessusucesecssccsesscccsussussaussseesssssesseesssscssessssrasseassatevastauesssvasserces, 241
Indice ONOMASTICO ...eccsceccccssssecccsvssessovsssesesssssecsssssesssssscsessssccsssussesssecsenssessssisessstesssesssttsssssisessssissssssavessssneecees 249
Prefacio

Dois importantes desenvolvimentos mol- esta que me ensinou bastante sobre os pro-
daram o contexto deste livro. Em primeiro blemas que surgem na pesquisa e como
lugar, o aumento da relevancia politica e lidar com eles. Em segundo lugar, vem a
pratica da pesquisa social. O conhecimento minha experiéncia em ensinar métodos de
de base empirica sobre quest6es comoa la- pesquisa social a estudantes e em realizar
cunaentre os pobres e os ricos, as mudan- projetos de pesquisa social com eles. Esta
cas na incidéncia das doengas osefeitos da experiéncia tem assumido varias formas,
desvantagem social proporcionam a base incluindo o ensino baseado na pesquisa,
para a tomada de decis6es, tanto na politica projetos para seminarios e a supervisao de
quanto na pratica profissional. varios bacharéis, mestrandos e doutoran-
Em segundo lugar, o fato de um nt- dos. Esse trabalho me ajudou a descobrir
mero crescente de cursos universitarios in- quais exemplos do trabalho de outros pes-
cluir conteudosintrodut6érios ou avancados quisadores sao maisinteressantes para 0 en-
acerca dos principios e métodos da pesqui- tendimento do queé pesquisa.
sa social. Na maioria dos casos, isto cobre
quest6es nao somenterelacionadas a como
entender a pesquisa existente, mas também 'v Objetivos do livro
a como conduzir projetos de pesquisa (de
qualquer escala). As vezes esse conteido Este livro destina-se a ajudaros leitores que
esta incorporado em um curso ou no ensi- estao embarcando em projetos de pesquisa
no baseado em pesquisa. Com frequéncia, social. Ha, evidentemente, numerosos re-
no entanto, 0 projeto de pesquisa constitul cursos sobre pesquisa social ja disponiveis,
uma base para a tese final (bacharelato, incluindo alguns livros didaticos abrangen-
mestrado, doutoramento) e os estudantes tes. Entretanto, para introduzir a pesquisa
podem trabalhar em suas proprias teses e social, a abrangéncia nao é necessariamente
planejar e conduzir seus projetos de pesqui- uma virtude. Os tratamentos abrangentes
Sa aO Mesmo tempo. tendem a ser volumosos e de dificil manejo,
e podem ser opressivos na quantidade de
detalhes que apresentam.
Este livro, em contraste, visa propor-
\™. Historico do livro cionar ao leitor uma visdo geral concisa, de-
lineando as abordagens mais importantes
Duas experiéncias basicas informaram a es- com maior probabilidade de serem usadas
crita deste livro. Em primeiro lugar, minha nos projetos de pesquisa social e proporcio-
propria experiéncia na conducao de pes- nando muitas informac6es praticas sobre
quisa social em varios campos (incluindo de que modo prosseguir com um projeto.
satide, estudos de jovens, mudancatecnold- Ele inclui, além disso, orientac¢ao e encami-
gica, envelhecimento e sono), experiéncia nhamentoa outras fontes sobre o assunto.
10 Prefacio

[™/ Visao geral do livro tulo 7. Pesquisas de levantamento’, entre-


vistas, observacao e 0 uso dos conjuntos de
dados e documentosja existentes sao todos
A primeira parte do livro visa proporcionar
discutidos aqui, e as quest6es relacionadasa
uma orientacdo para o campo da pesquisa
mensura¢ao e a documenta¢ao sao resumi-
social. Ela se concentra em questoes que en-
das. A analise dos dados quantitativos e
tram em jogo quando umapessoa comeg¢a a
qualitativos é o topico do Capitulo 8. Este
abordar umprojeto de pesquisa. O Capitu-
capitulo introduz a andlise de contetido e
lo 1 apresenta umavisdo geral introdutoria
estatisticas descritivas, assim como estudos
do que é a pesquisasocial, o que vocé pode
de caso e o desenvolvimento detipologias.
fazer com ela — e 0 que nao pode. O Capitu-
O Capitulo 9 se concentra nas op¢oese li-
lo 2 mostra como as quest6es de pesquisa se
mitacoes da realizacao da pesquisa social na
originam e como podem ser desenvolvidas
internet (pesquisa on-line) na era da Inter-
e refinadas. Considera as questdes da pes-
net 2.0. O Capitulo 10, por sua vez, discute
quisa no contexto tanto da pesquisa quali-
as limitacées dos varios métodos na pesqui-
tativa quanto da quantitativa. Este capitulo
sa quantitativa e qualitativa e de cada abor-
tambémdelineia 0 papel da hipotese. O Ca-
dagem em geral. Além disso, considera ma-
pitulo 3 mostra como encontrar aliteratura
neiras de combinar abordagens por meio de
de pesquisa existente e como usa-la em seu
triangulacao, métodos mistos e pesquisa in-
proprio projeto.
tegrada, que sao apresentados como alter-
A segunda parte dolivro trata do pla-
nativas.
nejamento e da concepcdo de um projeto de
A quarta e ultima parte do livro trata
pesquisa. O Capitulo 4 apresenta uma breve
das questoes de reflexdo sobre o seu projeto
sintese dos principais passos envolvidos no
como um todo e daescrita dos seusresulta-
processo de pesquisa (tanto para a pesquisa
dos. O Capitulo 11 se concentra na avalia-
quantitativa quanto para a qualitativa). O
cao de estudos empiricos na pesquisa quan-
Capitulo 5 se concentra na concepc¢ao das
titativa e qualitativa. Nele sao discutidos os
pesquisas quantitativa e qualitativa. Em pri-
critérios para avaliacgdo nas duas 4reas,
meiro lugar, apresenta orientacdo sobre
assim como questdes de generalizacgao. O
como desenvolver uma proposta de pes-
Capitulo 12 descreve quest6es de ética de
quisa e um cronogramapara 0 seu projeto.
pesquisa nas pesquisas quantitativa e qua-
No passo seguinte, discute importantes
litativa, incluindo protecao dos dados, cé-
concepgoes de pesquisa nas pesquisas
digos de ética e o papel dos comitésde ética.
quantitativa e qualitativa. A ultima parte
O Capitulo 13 discute questdes acerca da
trata da amostragem, ou Seja, a selecao dos
escrita sobre a pesquisa, descrevendo como
participantes. Nela estao descritas algumas
os resultados das pesquisas qualitativas e
dasprincipais estratégias de amostragem. O
quantitativas podemser apresentadose, em
Capitulo 6 delineia a selecao dos métodos
particular, como proporcionar retorno aos
e abordagens a serem usados na busca da
participantes e como usar os resultados em
sua propria questao de pesquisa. O foco
contextos praticos e em debates mais am-
central esta nas decisdes que vocé precisara
plos.
tomar em varios estagios do processo de
pesquisa.
Naterceira parte do livro, passamosa
questao do trabalho com os dados. Os méto- 'N. de R.T.: Neste livro o termo eminglés survey foi
dos de coleta de dados sao 0 foco do Capi- traduzido como “pesquisa de levantamento”.
Prefacio 11

[4 Caracteristicas do livro bém ¢ disponibilizado um navegador do


projeto de pesquisa para que vocé possa
Todo capitulo se inicia com uma Iista dos compreender comocada capitulo se insere
objetivos. Estes especificam o que cu espero no todo. Para ilustrar, mostramos aqui o
que vocé aprenda comcadacapitulo. Tam- navegadordo Capitulo1.

Tabela [— 0 NAVEGADOR

Vocé esta aqui Orientacgao e O que é pesquisa social?


v

no seu projeto ¢ Questao central de pesquisa


e Revisao da titeratura
Planejamento e « Planejamento da pesquisa
concepcao ° Concepgao da pesquisa
Decisao sobre os métodos

Trabalhando Coleta de dados


com dados Analise dos dados
Pesquisa on-line
Pesquisa integrada

Reflexao e escrita Avaliagao da pesquisa


e Etica
e Aescrita e o uso da pesquisa

Os estudos de caso e outros materiais toes para leituras adicionais concluemcada


sao disponibilizados em todos os quadros capitulo. Um glossdrio no final do livro
para ilustrar as quest6es metodologicas. esta incluido, explicando os termos e con-
Ao final de cada capitulo, vocé vai encon- ceitos mais importantes usados no texto.
trar uma lista de verificagao do que vocé Espero que esta obra estimule a sua
deve ter em mente enquanto planeja e con- curiosidade no quese refere a realizacao de
duz um projeto de pesquisa. Essaslistas de um projeto de pesquisa social e, orientan-
verificagdo proporcionam uma orienta¢ao do-o durante esse projeto, mostre que reali-
prontamenteacessivel a qual se pode re- zar um projeto de pesquisa pode ser uma
correr repetidas vezes 4 medida que oseu experiéncia agradavele excitante.
projeto progride. Pontos principats e suges-
Parte|
Orientacao

A Parte | deste livro tem dois objetivos. Primeiro, ela busca introduzir a pesquisa social em
geral. Considera o que é a pesquisa social, 0 que a distingue, que forma ela assume e como
ela pode (e nao pode) ser usada. Esses sao os topicos do Capitulo 1.
Em segundo lugar, ela busca criar uma base para o seu proprio projeto de pesquisa.
Em particular, introduz as questdes de pesquisa, as hipoteses e a literatura da pesquisa.
O Capitulo 2 se concentra nas questdes de pesquisa. Considera o que 6 uma questao cen-
tral de pesquisa e como essas questdes podem ser desenvolvidas. Este capitulo tambem
considera hipoteses — o que elas sao e como e quando sao Utelis.
QO Capitulo 3 considera a literatura da pesquisa, delineando a natureza desta e como
ela pode — e deve — informar o planejamento do seu proprio projeto de pesquisa.
Estes trés capitulos juntos também introduzem um tema que percorre todo 0 livro: a
distingdo e a relagdo entre a pesquisa qualitativa e a quantitativa.
“OY
Por que pesquisa social?

VISAO GERAL DO CAPITULO w


O Que 6 PESQUISA SOCIAI? ......cccecseccssesesessssesesessesesescencssscseesessscsvsssasscsvsssscsessesescaucsessavsssesassceesstseseeasisarsevasseesseeees 16
AS tarefas da P@SQUISA SOCIAL oo. ccccsssessesesesesessscsessesesessesssesessessscavsssscscsuesessusesscssersssseseesssesesiensseaceeeseeees 17
O que voce pode atingir COM a PESQUISA SOCIAN? 0... ccesccsessescsscetsseesesesussesscstssesesssstessseesssttseseassescaneeeees 21
Pesquisa quantitativa @ QUa@lItatiVa.. ccc cccccccesssecccscscsesenesscscssscseseessessvsvscscssscesesescececsescsesssescsercevscstiees 21
Realizacgao de pesquisa in /ocoe realizagao de pesquisa on-line:
novas oportunidades e desafios para a PESQUISA SOCIAL... cccesccssesescesesesessesearstsseseseeeseseseessscase 25
A pesquisa social entre a frustracao e o desafio:
POF QUE E COMO 4 PESQUiSA POE Sef IVES oo... ccc ccecsssesscsesescseesseseeecsesesesesescsestsceeseenesenesssssestecees 26
Marcos NO CAMPO da PESQUISA SOCIAL... eeeeceescssscsssssssesseeesescsesesescansnsnsnensseneasacaesesesesnecseeeensacasieacseseeeaeseenes 27

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


Vv obter um entendimentointrodutorio da pesquisa social;
¥ comecar a enxergar as similaridades e diferengas entre a pesquisa qualitativa e quantitativa;
Y entender (a) as tarefas da pesquisa social, (b) o que a pesquisa social pode atingir e (c) que
objetivos vocé pode atingir por meio dela.
16 UweFlick

Tabela 1.1 NAVEGADOR PARA 0 CAPITULO 1

Vocé esta aqui Orientagao ¢ O que é pesquisa social?

v
no seu projeto * Questdo central de pesquisa
e Revisao da literatura
Planejamento e e Planejamento da pesquisa
concepgao * Concepc¢ao da pesquisa
Decisao sobre os métodos

Trabalhando Coleta de dados


com dados Analise dos dados
Pesquisa on-line
Pesquisa integrada

Reflexao e escrita Avaliagao da pesquisa


¢ Etica
¢ Aescrita e o uso da pesquisa

[7 O que é pesquisa social? talvez terminar mudando nossoshabitos e


comportamentos — realizando mais exerci-
clos, por exemplo.
Cada vez mais a ciéncia e a pesquisa — suas Essa busca por causas e explica¢ées,
abordagense resultados — informam a vida além das proprias experiéncias das pessoas,
publica. Elas ajudam a constituir a base com frequéncia conduz ao desenvolvimen-
para as tomadasde decisao politicas e prati- to das teorias do cotidiano (por exemplo:
cas. Isto se aplica a umasérie de ciéncias — “Uma maga por dia traz saude e alegria”).
nao apenas as ciéncias naturais e a medici- Essas teorlas nao sao necessariamente ex-
na, mas também asciéncias sociais. Nossa pressadas com clareza, permanecendo com
primeira tarefa aqui é esclarecer 0 que se frequéncia implicitas. A questao de se as ex-
destaca na pesquisa social. plicac6es e teorias cotidianas estao corretas
ou nao é em geral testada pragmaticamente:
elas contribuem paraa resolucao de proble-
A vida cotidiana e a ciéncia mas e a reducdo dos sintomas, ou nao? Se
esse conhecimento permite que o problema
Muitas das questoes e dos fendmenos com em questao seja resolvido,ele satisfez 0 seu
OS quails a pesquisa social se envolve tam- proposito, nao sendo entao relevante se
bém desempenham um papel importante essas explicacdes se aplicam a outras pesso-
na vida cotidiana. Considere, por exemplo, as ou em geral. Neste contexto, o conheci-
uma questao que ¢ obviamente relevante mento cientifico (p. ex., que o fumo au-
para a vida cotidiana, a saude. Para a maio- menta o risco de cancer) é com frequéncia
ria das pessoas, a satide s6 se torna uma obtido dos meios de comunica¢ao.
questao explicita na vida cotidiana quando A satide, os problemas de satide e a
problemas relacionados a ela ocorrem ou maneira como as pessoas lidam com eles
ameacam os individuos. Os sintomas pro- também constituem quest6es para a pes-
duzem urgéncia em reagir e comecamosa quisa social. Mas nas ciéncias sociais nos as-
buscar solucées, causas e explicacGes. Se ne- sumimos uma abordagemdiferente. A ana-
cessario, podemos procurar um médico e lise dos problemas é situada em primeiro
Introdugao a metodologia de pesquisa 17

plano e o estudo se torna mais sistematico. 3. as relagdes mutuas entre o conheci-


Isso tem como objetivo quebrar as rotinas mento do cotidiano e a ciéncia.
para evitar comportamentos danosos — por
exemplo, a relagao entre comportamentos Entao, 0 que caracteriza a pesquisa so-
especificos (como o habito de fumar) e pro-
cial ao lidar com essas questdes? Aqui pode-
blemasde saude especificos (como a proba- mos enumerar varias caracteristicas, e cada
bilidade de adoecer com cancer). Para atin-
umadelas sera explorada neste livro. Sao elas:
gir tal objetivo, precisamos criar uma
situacao isenta de presséo para agir. Por
exemplo, vocé vai planejar um periodo mais « <A pesquisa social aborda as questées de
longo para analisar o problema, sem pres- uma maneira sistematica e, acima de
sao de encontrar de imediato uma solucao tudo, empirica.
para ele. Aqui, o conhecimento naoresulta e Para esse proposito, vocé vai desenvolver
da intui¢gao, mas da investigacao de teorias quest6es de pesquisa (ver Capitulo 2).
cientificas. O desenvolvimento dessas teo- e Para respondera essas quest6es, vocé vai
rias envolve um processo para a expresso e coletar e analisar os dados.
testagem explicita das relacdes, que é basea- e Vocé coletard e analisara esses dados usan-
do no uso de métodos de pesquisa (como do métodos de pesquisa (ver Capitulos 7
e 8).
uma revisdo sistematica da literatura ou
uma pesquisa de levantamento). Para am- e Os resultados destinam-se a ser generali-
zados além dos exemplos (casos, amos-
bos os objetivos — o desenvolvimento e a
tras, etc.) que foram estudados (ver Ca-
testagem de teorias — sao usados os métodos
da pesquisa social. O conhecimento resul- pitulo 11).
tante é captado do exemplo concreto e tam- e A partir do uso sistematico dos métodos
bém desenvolvido na diregao das relacées de pesquisa e dos seus resultados, vocé
gerais. Diferentemente do que ocorre na vida derivara explanacoes e descricées do fe-
cotidiana, aqui a generalizacao do conheci- nomenodoseuestudo.
mento é mais importante do que a resolucao e Para uma abordagem sistematica, as
vezes, liberdade e (outros) recursos sao
de um problemaconcreto no caso isolado.
necessarios (ver Capitulo 5).
O conhecimento do cotidiano e a re-
solucao de problemas podem evidentemen-
Como veremos, ha diferentes manei-
te se tornar o ponto departida para o de-
ras de se realizar a pesquisa social. No en-
senvolvimento da teoria e para a pesquisa
tanto, podemosprimeiro desenvolver uma
empirica. Podemosperguntar, por exemplo,
definicdo geral preliminar da pesquisa so-
que tipos de explicacées cotidianas para
cial derivada da nossa discussao até agora
uma determinada doenga podem ser iden-
(ver Quadro 1.1).
tificadas nas entrevistas com Os pacientes.
A Tabela 1.2 apresenta as diferencas
entre o conhecimentoe as praticas do coti-
diano de um lado, ea ciéncia e a pesquisa de [/ As tarefas da
outro. Isso acontece em trés niveis, a saber:
pesquisa social
1. 0 contexto do desenvolvimento do co-
nhecimento; Podemos distinguir trés tarefas principais
2. as maneiras de desenvolver o conheci- para a pesquisa social. Para isso, usamos os
mento e o estado do conhecimento critérios de como podem serusadososre-
que é produzido; e sultados da pesquisa social.
18 UweFlick

Tabela 1.2 CONHECIMENTO DO COTIDIANO E CIENCIA

Conhecimento e
praticas do cotidiano Ciéncia e pesquisa

Contexto do conhecimento Pressao para agir Alivio da pressao


(producao) A resolucao dos problema é a para agir
prioridade: A prioridade é a analise dos
* as rotinas nao sao questiona- problemas:
das * analise sistematica
e reflexao em casos de * as rotinas sao questionadas e
problemas praticos quebradas

Modos de conhecimento Intuigao Uso de teorias cientificas


{producao) Desenvolvimento empirico das Desenvolvimento explicito de
teorias teorias
Testagem pragmatica das Desenvolvimento de teorias
teorias direcionadas para os métodos
Checagem das solucoes para os Testagem das teorias baseada
problemas nos métodos
Uso de métodos de pesquisa

Estado do conhecimento Concreto, referente as situagoes Abstrato e generalizacao


particulares

Relacao entre o O conhecimento do cotidiano O conhecimento do cotidiano é


conhecimento do cotidiano pode ser usado como ponto de cada vez mais influenciado
ea ciéncia partida para o desenvolvimento pelas teorias cientificas e pelos
da teoria e da pesquisa resultados da pesquisa
empirica

Conhecimento: descricao, zada. Quando um novo fendmeno — uma


entendimento e explicagao nova doeng¢a, por exemplo ~ surge, torna-
-se necessaria uma descricao detalhada de
dos fendmenos suas Caracteristicas (sintomas, progressao,
Uma questao central de uma pesquisa so- frequéncia, etc.). O primeiro passo pode
cial origina-se dos interesses cientificos, ou ser uma descric¢ao detalhada das circuns-
seja, a produgao de conhecimento é priori- tancias nas quais ele ocorre ou uma anilise

Quadro1.1

DEFINICAO DE PESQUISA SOCIAL

Pesquisa social é a andlise sistematica das questdes de pesquisa por meio de metodos empiri-
cos (p. ex., perguntas, observacao, analise dos dados, etc.). Seu objetivo é fazer afirmagoes de
base empirica que possam ser generalizadas ou testar essas declaracgoes. Varias abordagens
podem ser distinguidas e também varios campos de aplicagao (saude, educagao, pobreza, etc.).
Diferentes objetivos podem ser buscados, variando desde uma descrigao exata de um feno-
meno ate sua explanagao ou a avaliacdo de uma intervengao ou instituigao.
Introdugao a metodologia de pesquisa 19

das experiéncias subjetivas dos pacientes. iniciaria O processo de pesquisa imediata-


Isto vai nos ajudar a entenderos contextos, mente naquelas rotinas do cotidiano. E
efeitos e significados da doencga. Mais entao seria dado um retorno aos partici-
tarde, podemosbuscar explicacgées concre- pantes sobre as informacoes coletadas no
tas e testar que fatores desencadeiam os processo da pesquisa.
sintomas ou a doenca, que circunstancias Isso muda o relacionamento entre o
ou medicacées tém influéncias especificas pesquisador e 0 participante. Uma relacado
sobre o seu curso,etc. Para estes trés passos que é em geral monologica na pesquisa tra-
— (a) descricao, (b) entendimento e (c) ex- dicional (p. ex., os entrevistados revelam
plana¢do — o interesse cientifico no novo suas opiniGes, os pesquisadores escutam)
conhecimento é dominante. Uma pesquisa torna-se dialdégica (os entrevistados revelam
assim contribui para a pesquisa basica suas opinides, Os pesquisadores escutam e
nessa area. Aqui a ciéncia e os cientistas fazem sugestdes sobre como mudara situa-
continuam sendoo grupo alvo paraa pes- ¢ao). Umarelacao sujeito-objeto se transfor-
quisa e seus resultados. ma em umarelac¢ao entre dois sujeitos — o
pesquisadore 0 participante. A avaliacao da
pesquisa e de seus resultados nao esta mais
Pesquisa orientada para a pratica: concentrada apenasnoscritérios cientificos
pesquisa aplicada e participativa usuais (questao a ser discutida no Capitulo
11). Em vez disso, a questao da utilidade da
A pesquisa social tem sido cada vez mais pesquisa e seus resultados para o participan-
conduzida em contextos praticos, como te torna-se um criterio principal. A pesquisa
hospitais ou escolas. Aqui as questdes da nao é mais apenas um processo de conheci-
pesquisa se concentram naspraticas — aque- mento para os pesquisadores, mas sim um
las de professores, enfermeiros ou médicos processo de conhecimento, aprendizagem e
— nas instituicdes, ou nas condicées de tra- mudanga para os dois lados.
balho especificas nestas institui¢des — roti-
nas no hospital ou relacées professor-aluno,
por exemplo. Os resultados desse tipo de Base para decisoes
pesquisa aplicada sao também produzidos politicas e praticas
de acordo com regras de anialise cientifica.
Eles devem, entretanto, se tornar relevantes Desde meados do século XX, a pesquisa so-
para o campodapratica, e para a solucao de cial tornou-se mais importante como uma
problemasna pratica. base para as decisdes nos contextos praticos
Um caso especial é a pesquisa de acao e politicos. Na maioria dos paises, as pes-
participatoria. Aqui as mudangasiniciadas quisas de levantamento regulares em varias
pelo pesquisador no campo de estudo nao areas sao pratica comum; relatérios sobre a
surgem apenas apos o final do estudo e a saude, sobre a pobreza e sobre a situacao
comunicacao de seusresultados. A inten¢gao dos idosos, dos jovens e das criancas sao
€ antes iniciar a mudanga durante 0 proces- produzidos, sendo com frequéncia comis-
so da pesquisa e pelo proprio fato de o estu- sionados pelo governo. Em muitos casos,
do estar sendo realizado. Considere, por esse monitoramento nao envolve pesquisa
exemplo, um estudo de assisténcia a mi- extra, mas sim resume a pesquisa existente e
grantes. Um estudo de pesquisa de a¢ao os resultados no campo. Mas como mos-
Participatéria nao seria planejado mera- tram os estudos do Pisa (Programme for
mente para descrever as rotinas cotidianas International Student Assessment [Progra-
da assisténcia a migrantes. Em vez disso, ma Internacional de Avaliagao de Alunos})
20 UweFlick

ou o estudo do HBSC (Health Behaviour in Em muitas areas,as decis6es sobre0 es-


Social Context [Comportamento de Satide tabelecimento, o prolongamento oua conti-
no Contexto Social}) (Hurrelmann etal., nuacao deservicos, programasou instituicdes
2003), em areas comosatide, educacaoe ju- sao baseadasnas avaliagdes de exemplosexis-
ventude, estudos adicionais as vezes contri- tentes ou programas experimentais (para a
buem paraa base destes relatos. No estudo avaliacao, ver Capitulo 5 e Flick, 2006). Neste
do HBSC,sao coletados dadosrepresentati- caso, a pesquisa social nao apenas proporcio-
vos sobre adolescentes de 11 a 15 anos de na os dados e os resultados como umabase
idade na populacao. Ao mesmo tempo,es- para as decis6es, mas faz também estimativas
tudos de caso com casos intencionalmente e avaliac6es — por exemplo, examinando se
selecionados sao incluidos. Quando os um tipo de escola é mais bem-sucedidono al-
dadosde estudos representativos nao estao cance dosseus objetivos do que outro tipo.
disponiveis ou nao podemser esperados, as A Tabela 1.3 resume as tarefas e as
vezes sO os estudos de caso proporcionam a areas de pesquisa social delineadas, usando
base de dados. o contexto da satide como exemplo.

Tabela 1.3. TAREFAS E AREAS DE PESQUISA DA PESQUISA SOCIAL

Area de Os estudos
pesquisa Caracteristicas Objetivos Exemplo se referema

Pesquisa basica Desenvolvimento ou Declaragoes gerais Confianga nos Amostra aleatoria


testagem de teorias sem um vinculo relacionamentos de estudantes ou
especifico com as socials grupos nao
praticas especificos

Pesquisa aplicada Desenvolvimento ou Declaragoes Confianga nas Médicos e pacientes


testagem de teorias referentes ao campo relagoes médico- em um campo
em campos praticos especifico -paciente especifico

Pesquisa de acgao Analise dos campos Intervengao no Analise e melhoria Pacientes com uma
participatoria e sua mudanga campo em estudo na assisténcia a origem étnica
concomitante migrantes especifica, que sao
(nao suficiente-
mente) apoiados
pelos servicgos de
cuidado domiciliar
disponiveis

Avaliagao Coleta e analise dos Avaliagao de Melhoria das Pacientes em um


dados como uma servigos e relagoes de campo especifico
base para avaliagao mudangas confianga entre
do sucesso e do institucionais meédicos e pacientes
fracasso de uma em um campo
intervengao especifico com
melhores
informagoes

Monitoramento Documentagao de Levantamento dos Frequéncias Dados de rotina dos


da saude dados relacionados desenvolvimentos e de doengas seguros-saude
a saude mudangas no ocupacionais
estado de saude da
populagao
Introdugdo 4 metodologia de pesquisa 21

[~ O que vocé pode atingir O que podemoster em vista € desen-


volver, e até mesmo testar empiricamente,
com a pesquisa social? varias teorias. Elas podem ser usadas para
explicar alguns fendmenos sociais. Pode-
Nas areas mencionadas, podemos usar a mos também continuar a desenvolver uma
pesquisa social para: série de métodos das ciéncias sociais. Os
pesquisadores podem entao selecionar os
e explorar quest6es, campos e fendmenos métodos apropriadose aplicad-los aos pro-
e proporcionar descric6esiniciais; blemas que desejam estudar. Finalmente, a
e descobrir novas relagdes coletando e pesquisa social proporciona conhecimento
analisando dados; sobre os detalhes e as relagdes que podem
e oferecer dados empiricos e analises como ser empregados para desenvolver solucdes
uma base para o desenvolvimento de para os problemassocietais.
teorias;
e testar empiricamenteasteorias e 0s esto-
ques de conhecimentoexistentes;
e documentar os efeitos das intervenc6es,
iv} Pesquisa quantitativa
tratamentos, programas, etc. em uma e qualitativa
base empirica;
e proporcionar conhecimento (isto 6, Precisamos agora passar a distingdo entre
dados, analises e resultados) como uma pesquisa qualitativa e quantitativa. Esta dis-
base empiricamente fundamentada para tin¢ao vai se apresentar frequentemente por
tomadas de decisao politicas, adminis- todoeste livro. As nocoes de “pesquisa qua-
trativas e praticas. litativa” e “pesquisa quantitativa” sao ter-
mos abrangentes para varias abordagens,
métodos e fundamentos tedricos. Ou seja,
O que a pesquisa social nao cada um desses dois termos cobre, na ver-
dade, uma ampla série de procedimentos,
€ Capaz de fazer e o que vocé
métodos e abordagens. Ainda assim, 0 uso
pode fazer em relacao a isso? desses termos € util. Por isso, desenvolve-
mos aqui um sumiario das duas abordagens
A pesquisa social tem seus limites. Por (para mais detalhes ver Flick, 2009 e Bry-
exemplo, o objetivo de desenvolver uma man, 2008) considerando o que cada uma
unica grandeteoria para explicar a socieda- caracteriza.
de e os fendmenos que existem dentro dela,
o que também se op6ea testagem empirica,
nao pode ser alcancado. E nao existe um Pesquisa quantitativa
método que estude todos os fenédmenosre-
levantes. Além disso, nao se pode esperar A pesquisa quantitativa podeser caracteri-
que a pesquisa social va proporcionar solu- zada da seguinte maneira: ao estudar um
¢des imediatas para problemasatuais e ur- fendmeno (p. ex., estresse dos estudantes),
gentes. Em todos os trés niveis, temos que vocé vai partir de um conceito (p. ex., um
conter nossas expectativas com relagdo a conceito de estresse), que vocé expressa de
pesquisa social e buscar objetivos mais rea- forma tedrica previamente (p. ex., em um
listas. modelo de estresse que vocé define ou em-
22 UweFlick

prestadaliteratura). Para o estudo empiri- esse proposito, instrumentos sao testados


co, vocé vai formular uma (ou varias) hi- para verificacao da consisténcia da sua
poteses que vocé vai testar (p. ex., que, mensura¢do, como no caso de aplicagoes
para os estudantes de humanidades, a uni- repetidas, por exemplo. O objetivo do estu-
versidade é mais estressante do que para 0s do € atingir resultados generalizaveis: ou
estudantes de ciéncias naturais). No proje- seja, seus resultados devem ser validos para
to empirico, o procedimento de mensura- além da situacdo em que foram mensura-
cao temalta relevancia para encontrar di- dos (os estudantes também sentem estres-
ferencas entre as pessoas com relacao as se ou tém presséo sanguinea elevada antes
caracteristicas do seu estudo (p.ex., ha es- das provas quandonaoestao sendoestuda-
tudantes com mais e menos estresse). dos para propésitos de pesquisa). Os resul-
Na maioria dos casos, nao podemos tados do grupo de estudantes que partici-
expor um conceito tedrico imediatamente a pou da pesquisa precisam ser transferiveis
mensurac¢ao. Em vez disso, temos que en- para os estudantes em geral. Para isso, vocé
contrar indicadores que permitam uma vai extrair uma amostra, escolhida segundo
mensurac¢ao no lugar do conceito. Podemos critérios de representatividade — 0 caso
dizer que o conceito tem de ser operaciona- ideal é uma amostraaleatoria (ver Capitulo
lizado nestes indicadores. No nosso exem- 5 para isto) — da populacao de todosos es-
plo, vocé pode operacionalizar o estresse tudantes. Isso vai significar que vocé pode
antes de uma prova usando indicadoresfi- generalizar a partir da amostra para a po-
sioldgicos (p. ex., pressao arterial mais ele- pulacao em geral. Assim, os participantes
vada) e depois aplicar as mensurac6es da isolados sao relevantes nao como indivi-
pressao arterial. Mais frequentemente os duos (como o estudante Joe Bauer expe-
pesquisadores operacionalizam a pesquisa riencia estresse antes das provas?), mas sim
usando questdes especificas (p. ex., “Antes por suas reacdes especificas (p. ex., fisiold-
das provas eu me sinto com frequéncia sob gicas) a alguma condicao (uma prova que
pressao”) com alternativas especificas de se aproxima), que sao relevantes.
resposta (como no exemplo da Figura 1.1). A énfase na mensuracao, assim como
A coleta de dados é projetada de uma nas ciéncias naturais, esta relacionada a um
maneira padronizada(p. ex., todos os parti- importante objetivo de pesquisa, a replica-
cipantes de um estudo podemserentrevis- bilidade — isto é, a mensurag¢ao tem princi-
tados sob as mesmas circunstancias e da palmente que poder ser repetida, e entdo,
mesma maneira). O ideal metodoldgico é o contanto que 0 objeto sob examenao tenha
tipo de mensura¢aocientifica alcancada nas sido modificado, produzir os mesmosre-
ciéncias naturais. Por meio da padroniza- sultados. No nosso exemplo: se vocé men-
¢ao da coleta dos dados e da situacdo da surar repetidas vezes a pressao arterial do
pesquisa, os critérios de confiabilidade, va- mesmo estudante antes do exame, os valo-
lidade e objetividade (ver Capitulo 11) res mensurados devem ser os mesmos — ex-
podemsersatisfeitos. ceto se houver boas razGes para uma dife-
A RESCUER Quantitativa asta interecca
renga, como se a pressao arterial se eleva a
da em causalidades — por exemplo, em mos- medida que se aproxima o momento da
trar ane no estresce antec de wma nraua.é
I r prova, por exemplo.
causado pela prova e nao por outras cir- A pesquisa quantitativa trabalha com
cunstancias. Por isso, vocé vai criar uma si- numeros. Voltando ao nosso exemplo, como
tua¢ao para a sua pesquisa em que, na me- a mensura¢ao produz um numero especifico
dida do possivel, as influéncias de outras para a pressao arterial, as alternativas para a
circunstancias possam ser excluidas. Para resposta na Figura 1.1 podemser transfor-
Introdugdo a metodologia de pesquisa 23

Totalmente Totalmente
correto Correto Incorreto incorreto

-@- —e oe —o- —e-


Figura 1.1
Alternativas para resposta na escala de Lickert.

madas em numeros de 1 a 5. Estes numeros ¢ao de pesquisa nem, tampouco, em garan-


possibilitam uma analise estatistica dos tir a representatividade por amostragem
dados(ver Bryman, 2008 para uma apresen- aleatoria dos participantes.
tagéo mais detalhada dessas caracteristicas Emvez disso, os pesquisadores quali-
da pesquisa quantitativa). Kromrey (2006,p. tativos escolhem os participantes proposi-
34) define a “estratégia da chamada pesquisa talmente e integram pequenos numeros de
quantitativa” como “um procedimentoestri- casos segundo sua relevancia. A coleta de
tamente orientado para 0 objetivo, quevisa a dados é concebida de uma maneira muito
‘objetividade’ dos seus resultados por meio mais aberta e tem como objetivo um qua-
de uma padronizacao de todos os passos na dro abrangente possibilitado pela recons-
medida do possivel, e que postule umaveri- trucao do caso que esta sendo estudado. Por
ficabilidade intersubjetiva como a norma isso, Menos questoes e respostas sao defini-
central para a garantia da qualidade”. das antecipadamente; havendo um_ uso
Os participantes podem experienciar maior de quest6es abertas. Espera-se que os
a situacao de pesquisa da seguinte maneira: participantes respondam a essas quest6es
eles sdo relevantes como membros de um espontaneamente e comsuas proprias pala-
grupo especifico, do qual foram seleciona- vras. Com frequéncia, os pesquisadorestra-
dos aleatoriamente. Sao confrontados com balham com narrativas de historias da vida
varias quest6es pré-definidas, para as quais pessoal dos entrevistados.
eles tém varias respostas também pré-defi- A pesquisa qualitatrva lida com as
nidas, das quais se espera que eles escolham juest6es usando uma das trés seguintes
uma. As informacg6des que vao além dessas abordagens. Ela visa (a) a captagao do signi-
respostas, assim como suas proprias suposi- ficado subjetivo das quest6es a partir das
¢des, estados subjetivos ou perguntas e co- berspectivas dos participantes (p. ex., o que
mentarios sobre as quest6es ou o problema, significa para os entrevistados experienciar
nao fazem parte da situacdo da pesquisa. seus estudos universitéarios como um
fardo?). Com frequéncia, (b) os significados
atentes de uma situacao estao em foco (p.
Pesquisa qualitativa X., quai$ S40 OS aspectos inconscientes ou
9s conflitos basicos que influenciama expe-
A pesquisa qualitativa estabelece para si riéncia do estresse por parte do estudante?).
mesma outras prioridades. Aqui, em geral, £ menos relevante estudar uma causa e 0
vocé nao parte necessariamente de um mo- seu efeito do que descrever ou reconstruir a
delo tedrico da questaéo que esta estudando complexidade das situacgdes. Em muitos
e evita hipdteses e operacionalizacao. Além casos, (c) as praticas sociais e o modo de
disso, a pesquisa qualitativa nao esta mol- vida e o ambiente em que vivemOspartici-
dada na mensura¢ao, como acontecenas cl- pantes sao descritos. O objetivo é menos
éncias naturais. Finalmente, vocé nao estara testar o que é conhecido(p. ex., uma teoria
interessado nem na padroniza¢aoda situa- ou hipotese ja existente) do que descobrir
24 Uwe Flick

novos aspectos na situacao que esta sendo Diferengas entre a pesquisa


estudada e desenvolver hipoteses ou uma quantitativa e a qualitativa
teoria a partir dessas descobertas. Por isso, a
situacao da pesquisa nao é padronizada; ao A partir das caracteristicas das duas aborda-
contrario, ela é projetada para ser o mais gens ja delineadas, algumas das principais
aberta possivel. Alguns casos sao estudados, diferencgas na avaliacao do que esta sob es-
masestes sao analisados extensivamente em tudo (questao, campo e pessoas) tornaram-
sua complexidade. A generalizagao é um -se evidentes. Estas estao resumidas na Ta-
objetivo nao tanto em umnivel estatistico bela 1.4.
(a generalizacao no nivel da populacao, por
exemplo) como em um nivel tedrico (para
uma apresentacao mais detalhadadestas ca-
Aspectos comuns a pesquisa
racteristicas, ver Flick, 2009).
Os participantes de um_ estudo quantitativa e a qualitativa
podem experienciar a situacdo de pesquisa
da seguinte maneira: eles estao envolvidos Apesar das diferencas, as duas abordagens
no estudo como individuos, sendo deles tém alguns pontos em comum. Nas duas
esperado que contribuam com suas expe- abordagens vocé:
riéncias e visdes de suas situac6es particu-
lares de vida. Ha um escopo para o queeles e trabalha sistematicamente usando méto-
dos empiricos (ver Capitulos 7 e 8);
enxergam como essencial, para abordar as
e visa a generalizacao das suas conclusdes
questdes de maneira diferente e para pro-
para outras situag6es que naoa situacao da
porcionar diferentes tipos de respostas
com diferentes niveis de detalhamento. A pesquisa e para outras pessoas que nao os
situacao de pesquisa é concebida mais participantes do estudo (ver Capitulo 11);
e busca algumas quest6es de pesquisa para
como um didlogo, em que a sondagem,
Novos aspectos e suas proprias estimativas as quais os métodos selecionados devem
encontram o seu lugar. ser apropriados (ver Capitulo 2);

4 Tabela 1.4 —DIFERENCAS ENTRE A PESQUISA QUANTITATIVA E A QUALITATIVA

Pesquisa quantitativa Pesquisa qualitativa

Teoria Como um ponto de partida a ser Como um pontofinal a ser


testado desenvolvido

Selegao do caso Orientada para a representativi- Intencional de acordo coma


dade (estatistica), amostragem fecundidade tedrica do caso
idealmente aleatoria

Coleta de dados Padronizada Aberta

Analise dos dados Estatistica Interpretativa

Generalizacgao Em um sentido estatistico para a Em um sentido teorico


populacgao
Introdugao a metodologia de pesquisa 25

e deve respondera estas questdes usando plorado mais detalhadamente no Capitulo


umprocedimento planejadoe sistemati- 10) com o objetivo de compensar aslimita-
co (ver Capitulo 5); ¢des e os pontos fracos de cada abordagem
e tem de checar o seu processo de pesquisa e produzir sinergias entre elas.
para aceitabilidade ética e adequabilida-
de (ver Capitulo 12);
« tem de tornar seu processo de pesquisa
transparente (isto €, compreensivel para
[Vv Realizacao de pesquisa
o leitor), apresentandoos resultadose os in locoe de pesquisa
caminhos que conduziram a eles (ver
Capitulo 13).
on-line: novas
oportunidadese desafios
Vantagens e desvantagens
para a pesquisa social

Uma vantagem da pesquisa quantitativa é Em torno da ultima década, surgiu uma


que ela permite o estudo de um grande nt- nova tendéncia que tem ampliado conside-
mero de casos para determinadosaspectos ravelmente o alcance da pesquisa social.
em um periodo relativamente curto e que Com o desenvolvimento dainternet, tanto
seus resultados sao extremamente generali- a abordagem qualitativa quanto a quantita-
zaveis. A desvantagem € que os aspectos es- tiva podem agora ser usadas em novoscon-
tudados nao sao necessariamente os aspec- textos.
tos relevantes para os participantes e que 0 Tradicionalmente, as entrevistas, as
contexto dos significados ligado ao que é pesquisas de levantamento e as observac¢ées
estudado pode nao ser suficientementele- tém sido realizadas, em sua maior parte, de
vado em conta. forma presencial. Vocé marca encontros
Uma vantagem da pesquisa qualitati- com seus participantes, retine-se com eles
va € que umaanialise detalhada e exata de em um determinadohorario local, intera-
alguns casos podeser produzida, e osparti- ge com eles face a face ou lhes envia seu
cipantes tém muito mais liberdade para de- questionario por e-mail e eles o devolvem
terminar o que é importante para eles e da mesma maneira. Esse tipo de pesquisa
para apresenta-los em seus contextos. A tem suas limitagGes. As vezes, razOes prati-
desvantagem é que essas analises com fre- cas tornarao esses encontros dificeis: os
quéncia requerem muito tempo e so € pos- participantes moram longe, n4o estado pron-
sivel generalizar os resultados para as mas- tos para se reunir com os pesquisadores ou
sas amplas de uma maneira muito limitada. sao relevantes para o seu estudo como
membros de uma comunidadevirtual.
Estas limitagdes podem algumas
Sinergias e combinagoes vezes ser superadasse vocé decidir realizar
seu estudo on-line. Os métodos quantitati-
Os pontos fortes e fracos mencionados vos e qualitativos tém sido adaptados para
podem constituir a base para decidir qual esse tipo de pesquisa. Entrevistas por e-
alternativa metodoldgica vocé deve esco- -mail ou através de outros meios virtuais,
lher para sua questao especifica de pesquisa pesquisas de levantamento on-line e etno-
(ver Capitulo 6). E importante lembrar, grafia virtual sao agora parte do kit de fer-
porém, que é€ possivel combinar a pesquisa ramentas metodoldgicas dos pesquisado-
qualitativa e a quantitativa (comosera ex- res socials. Isto significa nao tanto (ou, ao
26 UweFlick

menos, nao sO) que vocé aplica os métodos lhe dar a chance de superar seus preconcei-
da ciéncia social para o estudo (0 uso) da tos e perspectivas limitadas sobre a maneira
internet, mas, principalmente, que vocé a como as pessoas vivem e trabalham. Além
usa a fim de aplicar seus métodos para res- disso, vocé vai aprender muito sobre como
ponder suas quest6es de pesquisa. As novas se desenvolvem as historias de vida ou sobre
formas de comunica¢ao no contexto da In- o que acontece no trabalho pratico em ins-
ternet 2.0, em particular, proporcionam tituigdes Ou No campo.
novas op¢des para a comunicacao em e Na maior parte dos processos de pes-
sobre a pesquisa social. Elas também facili- quisa, vocé vai aprender muito nao apenas
tam a realiza¢ao colaborativa da pesquisa sobre os participantes, mas também sobre
(ver Capitulo 9 para detalhes). vocé mesmo — especialmente se vocé traba-
lha com quest6es comosatide, estresse na
universidade, problemas existenciais em
casos de discriminac¢ao social, etc. em situa-
[Vv A pesquisa social entre ¢oes concretas de vida. Em particular no
a frustracao e o desafio: contexto de estudos teoricamente ambicio-
sos e seus conteudos, trabalhar com dados
por que e comoa empiricos pode constituir nao apenas uma
pesquisa pode ser alternativa instrutiva ou complementar
para a teoria, mas tambémum vinculo con-
divertida creto entre ela e os problemase situacGes de
vida cotidianos.
Para muitos estudantes, a realizacao de cur- Trabalhar com outras pessoas pode
sos sobre métodos de pesquisa e estatistica ser uma experléncia enriquecedora, e se
parece ser nada mais que um dever desagra- vocé tiver a chance de realizar sua pesquisa
davel; como se vocé fosse obrigado a passar em meio a um grupo de pessoas — uma
por isso, mesmo nao sabendo por que e equipe de pesquisa ou um grupo de estu-
com que proposito. Aprender métodos dantes — essa sera umaboasaidadoisola-
pode ser exaustivo e doloroso. Se todo o mento que os estudantes as vezes experien-
empreendimento conduz a um dificil teste ciam. Para muitos estudantes, o trabalho
escrito no fim, as vezes qualquer excitacdo com dispositivos técnicos, computadores,
fica submersa pelo estresse causado pela programas e dados podesersatisfatdrio e
prova. Aplicar métodos pode consumir bastante divertido. Usar as formas de comu-
tempoe ser desafiador. nicagao proporcionadas pela Internet 2.0
Entretanto, a natureza sistematica dos para seus propositos de pesquisa, por exem-
procedimentos e 0 acesso concreto a ques- plo, vai Ihe proporcionar novas experién-
toes praticas na pesquisa empirica nos estu- cias de rede social e experiéncias praticas
dos e no trabalho profissional posterior com o que ha de mais moderno no contexto
(como socidlogo, assistente social e afins) do uso de novos meios de comunicacao de
podem proporcionar novos insights. Vocé uma maneira profissional. E, ao final disso,
podese dar conta de novas quest6es na ana- vocé tera produtos concretos na mao: exem-
lise de seus dados. Entrevistas, historias de plos, resultados, o que eles tem em comum
vida ou observagao de um participante e como sao diferentes para uma variedade
podem proporcionar percepcées sobre as de pessoas, assim pordiante.
situagdes de vida concretas ou sobre como Finalmente, trabalhar em um projeto
as instituicdes funcionam. As vezesesses in- empirico requer trabalhar em uma questao
sights chegam como surpresas, 0 que pode de maneira sustentada. Esta é uma boa ex-
Introdugdo a metodologia de pesquisa 27

periéncia, pois as experiéncias de muitoses- quisa existente e talvez para que vocé seja
tudantes hoje sdo mais caracterizadas por capaz de criar um argumentoacerca desta
umtrabalho fragmentado. A pesquisa em- pesquisa. Para ambos podemos formular
pirica em nossos campos de estudo pode varias perguntas norteadoras, que vao per-
ser também um teste do quanto vocé gosta mitir uma avaliacao basica da pesquisa (no
desses campos. Se este teste terminarpositi- planejamento do seu proprio estudo ou na
vamente, isso pode tranquiliza-lo em sua leitura de estudos de outros pesquisa-
decisado de se tornar, por exemplo, um assis- dores). Essas estao explicitadas no Quadro
tente social ou umpsicdlogo. 1.2.
Essas perguntas norteadoras podem
ser formuladas independentemente da me-
'¥{ Marcos no campo todologia especifica escolhida e podem ser
aplicadas a varias alternativas metodoldgi-
da pesquisa social cas. Elas sao relevantes tanto para os estu-
dos qualitativos quanto para os quantitati-
O conhecimento sobre a pesquisa social vos e podem ser usadas para avaliar um
ajuda de duas maneiras. Ele pode propor- estudo de caso e também para uma pesqui-
cionar o ponto departida e a base para vocé sa de levantamento representativa da popu-
realizar seu proprio estudo empirico, como lacao de um pais. Oferecem uma estrutura
no contexto de uma tese ou de um trabalho para as observac6es e também para as en-
profissional posterior em sociologia, edu- trevistas, ou para o uso dos dados e docu-
cacao, assisténcia social, etc; sendo também mentos existentes (ver Capitulo 7 para mais
necessario para entender e avaliar a pes- detalhes a respeito).

Quadro 1.2

PERGUNTAS NORTEADORASPARA UMA ORIENTACAO NO CAMPO DA PESQUISA SOCIAL

1. O que é estudado exatamente?


¢ Qual é 0 tema e qual é a questao central de pesquisa do estudo?
2. Como é garantido que a pesquisa realmente investigue o que supostamente deve ser
estudado?
* Como o estudo é planejado, que concepc¢ao é aplicada ou construida e como possiveis
problemas sao evitados?
3. O que esta representado no que e estudado?
¢ Que reivindicacdes de generalizagao sao feitas e como elas sao satisfeitas?
4. A execucao do estudo é eticamenteintegra e teoricamente fundamentada?
* Como os participantes sao protegidos de qualquer uso inadequado dos dados que se
referem a eles?
* Qual é a perspectiva tedrica do estudo?
| 5. Que reivindicagdes metodologicas sao feitas e satisfeitas?
¢ Que critérios sao aplicados?
-6. A apresentacao dos resultados e as maneiras com que eles foram produzidos tornam trans-
parente para o leitor como os resultados se deram e como Os pesquisadores procederam?
* Oestudo é transparente e consistente em sua apresentagao?
= 1 O procedimento escolhido é convincente?
e Aconcepcao e os métodos sao apropriados para a questao que esta sendo estudada?
8. O estudo atinge o grau de generalizagao que foi esperado?
28 UweFlick

v¥ A pesquisa social é mais sistematica em sua abordagem do que o conhecimento do cotidiano.


v A pesquisa social pode ter varias tarefas: pode ser concentrada no conhecimento, na pratica ena
consultorta.
v A pesquisa quantitativa e a pesquisa qualitativa oferecem abordagens diferentes. Cada uma tem seus
pontos fortes e suas limitagdes quanto ao que pode ser estudado.
v A pesquisa quantitativa e a pesquisa qualitativa podem complementar uma 4a outra.
v Ambas podem ser aplicadas in /ocoe on-line.
v¥ Podemos identificar caracteristicas comuns entre as varias abordagens possiveis.

[MW Leituras adicionais Bryman, A. (2008) Social Research Methods, 3. ed.


Oxford: Oxford University Press.
Flick, U.(2009) Introdu¢do a Pesquisa Qualitativa,
O primeiro e o ultimo textos listados a se-
3. ed. Porto Alegre: Artmed.
guir proporcionam mais detalhes acerca da
pesquisa quantitativa, além de incluirem al- Flick U., Kardorff, E.v. e Steinke, I. (eds.) (2004) A
guns capitulos sobre métodos qualitativos. Companionto Qualitative Research. London: Sage.
O segundo e o terceiro livros apresentam Neuman, W.L. (2000) Social Research Methods:
mais insights sobre a variedade dos métodos Qualitative and Quantitative Approaches, 4. ed.
da pesquisa qualitativa. Boston: Allyn and Bacon.
“wD
Da ideia da pesquisa
a questao da pesquisa

VISAO GERAL DO CAPITULO

Pontos de partida para & POSQUISA ec ccccccsescssseststscecsessessessestecscecsnevsvssensatevavenecsvsveneasetavstacscaveeesseaes 30


Origens das QUeSTOES DE PESQUISA...... ccc cecesesesestscsestesssssesessstscicacsaveneasutisscasecscatesesesesssessstseatsneesiees 32
Caracteristicas das QUeStOES dO PESQUISA oe ccccccscscsessssesesessscscecsvstsesscsescscscauseseseesesesvecststecsvenenessasss 33
Boas questdes de pesquisa, MAS QUESTOES dO PESQUISA 2.0... ccccccccssesessesesesescsescetseseesssssestsssesssestetsesaces 35
O USO de NIPOtESES oo... eeccccccccsecessesesestcuesessavssssescsescscacsussessavessscscessscsesscsssvavesssesensscavsscseneessssansscscsesseseacesesescaes 36
Lista de verificagao para a formulagdo das questOeSs de PESQUISA ..........c.cesseceesessesceseeeesesteetesestseeeteeteneeee 38

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


reconhecer os pontos de partida para a pesquisa social;
KANNAN

compreender de onde vém as questOes de pesquisa;


entender como as questées de pesquisa diferem entre a pesquisa qualitativa e a quantitativa;
entender o uso de hipoteses.
30 UweFlick

Tabela 2.1 NAVEGADOR PARA 0 CAPITULO 2

Vocé esta aqui Orientagao ¢ O que é pesquisa social?


no seu projeto * Questdo central de pesquisa

v
e Revisao da literatura

Planejamento e e Plianejamento da pesquisa


concepcgao ¢ Concepgao da pesquisa
¢ Decisdo sobre os métodos

Trabalhando Coleta de dados


com dados Analise dos dados
Pesquisa on-line
Pesquisa integrada

Reflexao e escrita Avaliagao da pesquisa


e Etica
e A escrita e o uso da pesquisa

Este capitulo busca mostrar como as ques- modifica em resposta ao desemprego em


toes de pesquisa para os estudos empiricos massa. A partir desta ideia geral eles formu-
emergem dos interesses gerais e das origens laram quest6es de pesquisa relacionadas a
pessoais e sociais do pesquisador. Para este atitude da popula¢ao em relacao a esse pro-
proposito, vamos nos voltar primeiro a al- blema e as suas consequénciassocials.
guns exemplos. Outro exemplo, desta vez da década
de 1950, é proporcionado pelo estudo de
Hollingshead e Redlich (1958) sobre classe
[™ Pontos de partida social e doenca mental. Seu estudo origi-
nou-se da observac¢ao geral de que “os ame-
para a pesquisa ricanos preferem evitar os dois fatos estu-
dados neste livro: classe social e doenca
A literatura da histéria da pesquisa social mental” (1958, p. 3). Sendo este o ponto de
relata muitos exemplos de como asideias partida, eles prosseguirampara explorar as
para pesquisa emergiram e foram desenvol- possiveis conex6es entre classe social e do-
vidas em quest6es de pesquisa. Por exem- en¢a mental (e o seu tratamento). Por
plo, Marie Jahoda (1995; ver também Fleck, exemplo, as pessoas com umstatus quo so-
2004, p. 59) descreveu as origens do seu es- cial baixo podemestar mais em risco de se
tudo com Paul Lazarsfeld e Hans Zeisel em tornar mentalmente doentes e sua chance
Marienthal: The Sociology of an Unemployed de receber um bomtratamento para a sua
Community (Jahoda et al., 1933/1971). O doenga pode ser mais baixa em comparacao
impulso para o estudo veio no final da dé- as pessoas com uM status quo social mais
cada de 1920 de Otto Bauer, lider do Parti- elevado. Do seuinteresse geral, os autores
do Social Democratico austriaco. O pano de desenvolveram duas quest6ées de pesquisa:
fundo do estudo incluia a Grande Depres- “(1) A doenca mental esta relacionada a
sao de 1929, além dosinteresses politicos e classe em nossa sociedade? (2) A posicao de
a orientacao dos pesquisadores. Comore- um paciente psiquiatrico no sistema de sta-
sultado, os pesquisadores desenvolveram a tus quo afeta a maneira comoele é tratado
ideia de estudar como uma comunidadese de sua doenga?”(1958, p. 10).
Introdugdo a metodologia de pesquisa 31

Eles entao elaboraram, a partir destas pessoal — as experiéncias autobiograficasre-


duas quest6es, cinco hipoteses de trabalho centes dos pesquisadores.
(1958, p. 11): E — para apresentar mais um exemplo
~— Hochschild (1983, p. ix) descreveu como
1. A prevaléncia de doenga mental trata- suas experiéncias iniciais quandocrian¢a na
da esta significativamente relacionada casa de sua familia e na vida social vieram a
a uma posicao individual na estrutura se tornar a fonte do seuposterior “interesse
de classes. em comoas pessoas lidam com as emocées’.
2. Os tipos de transtornos psiquiatricos Seus pais trabalhavam para o Servico de Re-
estado significativamente conectados a lacdes Exteriores dos Estados Unidos, 0 que
estrutura declasses. proporcionou a Hochschild oportunidades
3. O tipo de tratamento psiquiatrico ad- de ver e interpretar as diferentes formas de
ministrado pelos psiquiatras esta asso- sorrisos — e seus significados — produzidos
ciado a posicao do paciente na estrutu- por diplomatas de diferentes origens cultu-
ra de classes. rais. Ele aprendeu com essas experiéncias
4. Os fatores sociais e psicodinamicos no que as expressOes emocionals, comosorrisos
desenvolvimento de transtornos psi- e apertos de mao, transmitiam mensagens
quiatricos estao correlacionados com em varios niveis — de pessoa para pessoa e
umaposicao do individuo na estrutura também entre os paises que elas representa-
de classes. vam. Isto conduziu, muito mais tarde, ao seu
5. A mobilidade na estrutura de classes interesse especifico em pesquisa:
esta associada ao desenvolvimento de
dificuldades psiquiatricas. Eu queria descobrir 0 que nosafeta. E
entao decidi explorar a ideia de que a
Para testar estas hipoteses, Holling- emogao funciona nas pessoas como
shead e Redlich conduziram um estudo co- um mensageiro de si, um agente que
nos da um relato imediato sobre a co-
munitario em uma cidade com 24 mil habi-
nexdo entre o que estamos vendo e o
tantes. Eles incluiram todos os pacientes
que esperavamosver e nos diz 0 que
psiquiatricos diagnosticados em um certo achamosestar prontospara fazer a res-
periodo, usando um questionario sobre a peito. (1983, p. x)
sua doenga e 0 seu status quo social. Tam-
bém entrevistaram profissionais de satde. Desseinteresse ela desenvolveu um es-
Um exemplo contrastante, também de tudo (The Managed Heart) sobre dois tipos
meados do século XX, é proporcionado por de trabalhadores em contato constante com
um estudo realizado por Glaser e Strauss o publico (comissarios de bordo e cobrado-
(1965). Seguindo sua propria experiéncia res), mostrando comoo trabalho funciona-
de suas maes morrendo em hospitais, eles va para induzir ou reprimir emoc¢oes quan-
desenvolveram a ideia de estudar a “cons- do estes estavam em contato com seus
ciéncia da morte”. Os autores (1965, p. 286- clientes.
-7) descreveram em alguns detalhes como Se compararmosos exemplosanterio-
estas experiéncias estimularam seu interes- res, podemosver que eles mostramdiversas
se nos processos de comunicagéo com e fontes para o desenvolvimentodeinteresses
sobre as pessoas que estado morrendo e o de pesquisa, ideias e subsequentes questdes
que mais tarde descreveram como“contex- de pesquisa. Eles variam de experiéncias
tos da consciéncia”. Aqui o pano de fundo muito pessoais (Glaser e Strauss) a expe-
para o desenvolvimento daideia, do inte- riéncias e circunstancias sociais (Hochs-
resse e da questao de pesquisa foi muito child), passando por observac6es sociais
32 UweFlick

(Hollingshead e Redlich), até problemasso- recentes. Eles dizem respeito ao comporta-


cietais e comissionamentopolitico (Jahoda mento de sauide e a satide dos adolescentes
et al.). Em cada caso, surgiu uma curiosida- que vivem na rua.
de geral, a que os pesquisadores deram se-
guimento e subsequentemente formularam
em termos concretos. O estudo do Health Behavior in Social
A pesquisa, entao, pode assumir va- Context (HBSC) da Organizacao
rios pontos de partida. Em particular:
Mundial da Satide (OMS)
e Os problemas de pesquisa sao com fre-
quéncia descobertos na vida cotidiana. No estudo do HBSC, foram entrevistadas
Por exemplo, no cotidiano de uma insti- criancas e adolescentes de 36 paises, usando-
tuicao, alguém pode descobrir que, diga- -se um questionario padronizado que abor-
mos, os temposde espera emergem emsi- dava seu status quo e comportamento de
tuacdes especificas. Para descobrir o que sauide. Esta pesquisa foi conduzida a fim de
determina os temposde esperae,talvez, produzir um relato de sauide para a geracao
como eles podem ser reduzidos, pode ser jovem e, desse modo, contribuir para uma
realizada uma pesquisa sistematica. melhoria na prevencao de doengas e na pro-
e Em segundo lugar, pode haver uma ca- mogao da satide para este grupo etario. Na
réncia de dados e percepgdes empiricas Alemanha, por exemplo,essa pesquisa dele-
sobre um problema especifico — por vantamento tem sido realizada repetidas
exemplo, a situacao de sauide dos jovens vezes desde 1993 — mais recentemente em
2006 (ver Hurrelmann etal., 2003; Richteret
na Alemanha ~ ou sobre um subgrupo
especifico — por exemplo, adolescentes al., 2008). Hurrelmann e colaboradores des-
que vivem na rua. creveram da seguinte maneira os objetivos
e Umaterceira fonte para a identificacao de deste estudo:
um problema de pesquisa podesera lite- Nesta pesquisa de levantamento da
ratura. Por exemplo, pode ter sido desen- salide de jovens, varias quest6es deve-
volvida umateoria que requeira ser empi- rao ser respondidas: questées descriti-
ricamente testada. Ou ainda a analise da vas sobre a sauidefisica, mental e social,
literatura existente poderevelar a existén- e sobre o comportamento de satide. O
cia de lacunas no conhecimento sobre um que estd em foco é a questao de até que
problema. A pesquisa empirica pode ser ponto estilos de vida relevantes para a
concebida para fecharessas lacunas. saude estao vinculados a saude subjeti-
e Em quarto lugar, os problemas de pes- va; e até que pontoos fatores derisco e
protecdo pessoais e sociais podem ser
quisa podem se desenvolver a partir de
identificados para a prevencdo dos
estudos anteriores que tenham produzi- problemas de satide juntamente com a
do novas quest6es ou deixado algumas sua representacao subjetiva nos aspec-
outras sem resposta. tos fisicos e mentais. (2003, p. 2)

Para esse estudo realizado na Alema-


i“ Origens das nha, adolescentes de 11, 13 e 15 anos foram
entrevistados nas escolas. Para 0 estudo in-
questoes de pesquisa ternacional, foi extraida uma amostra re-
presentativa (ver Capitulo 5), compreen-
Podemosilustrar o desenvolvimento das dendo cerca de 23 mil adolescentes em
quest6es de pesquisa usando dois exemplos diferentes areas da Alemanha. Para 0 estudo
Introdugdo a metodologia de pesquisa 33

alemao, uma subamostra de 5.650 adoles- também os acompanhamosatravés das


centes foi extraida aleatoriamente do nu- fases de suas vidas cotidianas, utilizando
mero inicial. Foi solicitado a esta amostra observacao participante. Os tdpicos das en-
que respondesse a um questionario sobre trevistas foram similares aos do nosso pri-
sua sauide subjetiva, riscos de acidentes e meiro exemplo anterior, com quest6es adi-
violéncia, 0 uso de substancias (tabaco, dro- cionais sobre a situa¢ao especifica de viver
gas e alcool), alimentacao, atividadefisica, na rua e sobre como 0sparticipantes come-
amigos, familiares e a escola. A questao de caram a viver nesta situacao.
pesquisa para esse estudo resultou dointe- Na primeira parte do estudo, a amos-
resse em desenvolver uma visaogeral repre- tragem e as entrevistas nao se concentraram
sentativa da situacao de saude e do compor- na doenga. A segunda parte do estudo se
tamentode satiderelevante dos adolescentes concentrou na situacao dos adolescentes
na Alemanha e em compara¢ao com outros sem-teto cronicamente doentes. Além de
paises. entrevistar adolescentes com varias doencas
crénicas (desde asma a doencas de pele e
hepatite), conduzimos entrevistas com mé-
Saude na rua: adolescentes sem-teto dicos e assistentes sociais para obter suas
opinides sobre a situacao do servico para
Uma abordagem diferente a um tdpico si- esse grupo-alvo.
milar é proporcionada por nosso segundo Nos dois exemplos anteriores, foram
exemplo. O estudo que acabamos de discu- estudadasas situacdes de saudee sociais dos
tir apresentou umaboavisaogeral dasitua- adolescentes — quer dos jovens na Alema-
¢ao de satide do jovem médio na Alemanha nha em geral ou de um subgrupoespecifico
e em outros paises. Entretanto, esse estudo com condicoes de vida particularmente es-
amplo nao podese concentrar em subgru- tressantes. Em ambos oscasos, os resulta-
pos particulares (principalmente os muito dos devem ser uteis para ajudar a prevenir
pequenos). As razdes disso sd4o 0 uso de problemas de satide nos grupos alvo e me-
amostragem aleatoria e também o fato de lhorar a concepcaode servicos para eles.
que 0 acesso aos participantes foi por via
das escolas. Os adolescentes que vivem na
rua, que raramente frequentam a escola — se [¥ Caracteristicas das
é que a frequentam — nao foram representa-
dos nessa amostra. Para analisar a situacao questoes de pesquisa
especifica e 0 comportamento e conheci-
mento de satide deste grupo, uma aborda- As quest6es de pesquisa podem ser encara-
gem diferente era necessaria. Por isso, em das de diferentes Angulos. De um ponto de
nosso segundo exemplo (ver Flick e Rohns- vista externo, devem tratar de um tema so-
ch, 2007; 2008), os adolescentes foram sele- cialmente relevante. Em nossos exemplos,
cionados intencionalmente em locais e os temas sao a situacao de saude e a ajuda
pontos de encontro de adolescentes sem-te- aos jovens — e em particular os déficits em
to e lhes foi solicitado que participassem da ambos. Ha problemas de saude particular-
entrevista. Os participantes tinham idades mente fortes ou frequentes e lacunasdeser-
entre 14 e 20 anos e nao tinham moradia vico para subgruposparticulares ou para os
fixa. Para obtermos um entendimento mais adolescentes em geral?
abrangente do seu conhecimento e com- A resposta a essas questOes deve con-
portamento de sauide sob as condicoes da duzir a algum tipo de progresso — propor-
“rua”, nao apenas os entrevistamos, mas
«
cionando, por exemplo, novos insights ou
34 UweFlick

sugestOes para como resolver o problema As quest6es de pesquisa também


que esta sendo estudado. Por isso, a docu- devem ser adequadas ao estudo mediante
mentacao das mudangas na situacao de métodos da pesquisa social. Elas devem ser
saude em estudos repetidos pode avangar 0 formuladas de tal maneira que vocé possa
desenvolvimento do conhecimento (como aplicar um ou mais dos métodosdisponi-
na pesquisa de levantamento de satide dos veis para respondé-las — se necessario apos
jovens). Se vocé esta estudando um tema que adaptar ou modificar uma delas. (Esse
até agora so tem sido analisado em termos ponto sera examinado mais detalhadamen-
gerais, podera resultar de umestudo deste te nos Capitulos 7 e 8.) Por exemplo, as
tema progresso com um subgrupoespecifico quest6es de pesquisa do seu levantamento
(como no nosso segundo exemplo). de saude dos jovens devem ser investigadas
Visto mais do ponto de vista interno, usando-se 0 método do questionario. No
isto é, da propria ciéncia, as quest6es de pes- segundo exemplo, as quest6es de pesquisa
quisa devem ter uma base te6érica, sendo in- sao estudadas usando-se dois métodos, en-
corporadas em umaperspectiva de pesquisa trevistas (episddicas e especializadas) e ob-
especifica. Na pesquisa de levantamento de servacao participante.
satide dos jovens, por exemplo, a base foi Qualidades importantes das questées
proporcionada por um modelo dos vinculos de pesquisa sao sua especificidade e seu
entre as estruturas sociais, a posi¢ao social foco. Ou seja, vocé deve formular suas ques-
dos individuos nessas estruturas e os am- toes de pesquisa de tal forma queelas sejam
bientes sociais e materiais em que eles vive, (a) claras e (b) dirigidas para o objetivo,
além de fatores comportamentaise fisioldgi- para facilitar as decisOes exatas a serem to-
cos. Esses vinculos influenciam a probabili- madas com relacao a quem ou o que deve
dade de sofrerem de doengas e danosfisicos, ser investigado. Observe que as questées de
com suas respectivas consequéncias sociais pesquisa nao definem apenas exatamente o
(ver Richteret al., 2008, p. 14). A partir deste que estudar e como, mas também queas-
modelo tedrico foram derivadas as questdes pectos de uma questao podemainda naoter
concretas de pesquisa do projeto e depois os sido considerados. Isto nao significa que
itens do questionario. No exemplo dos ado- um estudo nao possa insistir em varias sub-
lescentes sem-teto, a base tedrica foi propor- quest6es; significa apenas que 0 seu estudo
cionada pela abordagem das representacGes nao esta sobrecarregado com excessivas
sociais (ver Flick, 1998a; 1998b). A suposicado quest6es de pesquisa.
fundamental desta abordagem é que, depen- Em geral, varias possiveis questées ba-
dendo das condic6es de contexto social nos sicas de pesquisa na pesquisa social podem
diferentes grupos sociais, sao desenvolvidos ser distinguidas, especialmente:
formas e contetidos especificos de conheci-
mento que ocorrem ao longodaspraticas de De quetipo ela é?
SOO PWN =

grupo especificas. Outra suposicao é que os Qual é a sua estrutura?


topicos tém contetidose significados especi- Qualé a sua frequéncia?
ficos para cada grupo e seus membros.Estas Quais sao as suas causas?
suposicdes formaram a base para o desen- Quais sdo Os seus processos
volvimento das questées gerais da pesquisa, Quais sao as suas consequéncias?
que se concentraramna experiéncia vivida Quais sao as estratégias das pessoas?
do desabrigo e no significado da sauide nessa
condi¢ao, além das quest6es especfficas das Essas quest6es de pesquisa podemser
entrevistas. estudadas em varios niveis (tals como co-
Introdugao a metodologia de pesquisa 35

nhecimento,praticas, situac6es ou institul- menos Ou nos processos que revelam como


¢des) e para diferentes unidades(p. ex., pes- as pessoas lidam com eles. No caso dos pro-
soas, grupos ou comunidades). Falando de jetos de pesquisa discutidos, a pesquisa dele-
modo geral, podemos diferenciar entre vantamento de satide dos jovens pergunta
quest6es de pesquisa orientadaspara a des- pelas frequéncias (item 3 da primeiralista) e
cricao de estados e aquelas que descrevem pelas estruturas (2) ao lidar com a saude em
processos. No primeiro caso, vocé deve des- um grupo especifico (14 — aqui adolescen-
crever um determinadoestado: quetipos de tes). O segundo exemplo se concentra nos
conhecimento sobre uma questdo existem significados (8) e praticas (9) no nivel das es-
em uma populacao? Com que frequéncia tratégias dos participantes (7) com um foco
cada tipo de conhecimento podeser identi- nos tipos (1) de significados e nas praticas
ficado? Ja no segundocaso,o objetivo é des- dos adolescentes.
crever comoalgo se desenvolve ou se modi-
fica: como surgiu este estado? Que causas
ou estratégias conduziram a ele? Como este iv} Boas questoesde
estado é mantido — por meio de que estru-
tura? Quais sao as causas de uma mudanca pesquisa, mas questoes
desse tipo? Que processos de desenvolvi- de pesquisa
mento podem ser observados? Quais sao as
consequéncias de uma mudanca assim?
Evidentemente, vocé precisa nao apenas de
Queestratégias sao aplicadas na promocao
uma questao de pesquisa, mas sim de uma
de mudanca?
boa questao. Aqui vamosconsiderar 0 que
Podemosaplicarestes dois tipos impor-
tende a distinguir as boas questdes de pes-
tantes de questdes de pesquisa — isto é, aquelas
quisa das mas.
relacionadasaosestados e aquelas relaciona-
das aos processos — a umavariedade de uni-
dades de estudo (ver Flick, 2009, p. 101-2; Boas questoes
Lofland e Lofland, 1984). Por exemplo:
O que caracteriza uma boa questao de pes-
8. Significados quisa? Antes de tudo,ela deve ser uma ques-
9. Praticas tao atual. Por exemplo, “A situacao de vida
10. Episddios dos imigrantes do Leste Europeu” nao é
11. Encontros uma questao de pesquisa, mas sim umaarea
12. Papéis de interesse. “O que caracteriza a situa¢ao
13. Relacionamentos de vida dos imigrantes do Leste Europeu?ӎ
14. Grupos uma questao, mas é demasiado ampla e nao
15. Organizacoes especifica para orientar um projeto de pes-
16. Estilos de vida quisa. Ela lida com uma variedade de sub-
grupos implicitamente — e sup6e que os
Podemos agora comecar a diferencia- imigrantes, digamos, da Polénia e da Russia
¢do entre pesquisa quantitativa e qualitativa estejam na mesma situacao. Além disso, o
em relacao as listas anteriores. A primeira termo “situacéo de vida” é demasiado
esta mais interessada nas frequéncias (e dis- amplo; seria melhor se concentrar em um
tribuicdes) dos fenédmenose nas razoes para aspecto especifico da situacao de vida — por
eles, enquanto a ultima se concentra mais exemplo, os problemasde satide e 0 uso dos
nos significados vinculados a alguns fend- servicos profissionais. Um bom exemplo
36 UweFlick

pode entao ser: “O que caracteriza os pro- de droga e alcool dos adolescentes
blemasde sauide e 0 uso dosservicos profis- sem-teto’;
sionais dos imigrantes da Russia?” 3. declaracgdes que incluem um conjunto
Ha trés tipos principais de questdes de de varidveis, mas nao quest6es pro-
pesquisa: priamente ditas, por exemplo, “Os
sem-teto e a satide”;
1. as quest6es exploratorias, que se con- 4. questdes que sao vagas ou ambiciosas
centram em umadadasituacao ou em demais, por exemplo, “Como podemos
uma mudan¢a, por exemplo: “A situa- evitar o desabrigo entre os adolescen-
¢ao de saude dos adolescentes sem-teto tes?”;
mudou nosultimos 10 anos?”; 5. questdes que ainda necessitam ser mais
2. as quest6es descritivas, que tém como especificas, como “A situacao de satide
objetivo a descri¢ao de uma determi- dos adolescentes sem-teto piorou?”.
nada situac¢ao, estado ou processo, por
exemplo: “Os adolescentes sem-teto Como estes exemplos podem mos-
vém de familias desestruturadas?” ou trar, é importante ter uma questao de pes-
“Como os adolescentes se tornaram quisa que seja realmente uma questdo —
sem-teto?”; nao uma declarac4o — que possa ser
3. eas questdes explanatdérias, que se con- respondida. Ela deve ser tao focada e espe-
centram em umarelacao.Isto significa cifica quanto possivel, em vez de vaga e
que se investiga mais que apenas um nao especifica. Todos os elementos de uma
estado de coisas (vai-se além, fazendo questao de pesquisa devem ser claramente
uma pergunta como “O quecaracteri- explicitados, em vez de permanecerem
Za...2”). amplos e repletos de suposic6es implicitas.
Testar sua questao de pesquisa antes de
Além disso, um fator ou uma influéncia é realizar o seu estudovai refletir em como
examinado em relacao aquela situacao. Por poderao ser as possiveis respostas a essa
exemplo: “A caréncia de servicos de satide questao.
especializados em numero suficiente é
uma causa importante de problemas mé-
dicos mais sérios entre os adolescentes lv’ Ouso de hipoteses
sem-teto?”.
Quanto mais explicita e focada for a sua
questao de pesquisa, mais facil sera desen-
Mas questoes de pesquisa volver uma hipotese a partir dela. Uma hi-
potese formula uma relacdo, que por sua
Neuman (2000, p. 144) caracterizou o que vez sera testada empiricamente. (Vimos
ele chama de “mas questdes de pesquisa”. exemplos de hipoteses no estudo de caso
Ele identifica cinco tipos dessas quest6es: prévio, acerca da relacao classe social e do-
en¢a mental, de Hollingshead e Redlich.)
1. quest6es que nao podem ser empirica- Tais relagdes podem ser, por exemplo, de-
mente testadas ou sao quest6es nado claragoes, assumindoa forma de“se, entao”
cientificas, como por exemplo, “Os ou “quanto mais de um, mais do outro”. O
adolescentes devem viver na rua?”; primeiro tipo de relacao é encontrado em
2. declaracdes que incluem tdpicos ge- uma hipdtese como: “Se os adolescentes
rais, mas nao uma questao de pesquisa, vém de uma classesocial inferior, seu risco
por exemplo, “O tratamento de abuso de contrair algumas doencas é muito mais
Introdugao a metodologia de pesquisa 37

elevado.” A segundaformade relagao é ilus- As hipoteses também devem estar in-


trada pela seguinte hipotese: “Quanto mais corporadas a uma estrutura tedrica. Os au-
baixa a classe social de que vémos adoles- tores no nosso exemplo referem-se a varios
centes, mais frequentemente eles serdo viti- outros estudos e trabalhos tedricos em que
mas de determinadas doengas”. a estrutura de classes da América na década
As hipoteses devemesclarecer: de 1950 foi definida, fazendo o mesmo para
“doenca mental”.
® para que area elas sao validas (elas sao As hipoteses devem ser especificas,
supostamente validas sempre e em qual- isto €, todas as previsdes incluidas devem
querlugar ou apenas sob algumascondi- ser explicitadas. No nosso exemplo,os auto-
¢des locais e temporais espectficas?); res ndo buscaram uma relacdo geral entre
® para que area de objetos ou individuos doencga e situacao social; concentraram-se,
elas se aplicam (p. ex., 4 humanidade em vez disso, especificamente na doenga
como um todo, ou apenas aos homens, mental e na posicao em umahierarquia de
ou apenas as mulheres com menosde 30 cinco classes sociais, cuidadosamente iden-
anosde idade,etc.); tificadas e definidas de antemao.
® se elas se aplicam a todos os objetos ou As hipoteses devem ser formuladas
individuosnesta area; em relacao aos métodos disponiveis e ter
® a que quest6es elas se aplicam, isto é, as vinculos empiricos com eles (como e com
caracteristicas dos individuos na area do que métodoselas podemsertestadas?). No
objeto. nosso exemplo, foi formulada a hipotese de
que os instrumentos diagnosticos podem
O exemplo de primeira hipotese de ser utilizados para identificar a situacao de
Hollingshead e Redlich (1958, p. 10) ajuda a doenca dosparticipantes e que as pesquisas
ilustrar essas caracteristicas. Sua hipdtese de levantamento domésticas devem serusa-
foi: “A prevaléncia de doenca mental trata- das paraidentificar sua posicao na estrutu-
da esta significativamente relacionada a po- ra social de classes.
sicao de um individuo na estrutura declas- Assim como as quest6es de pesquisa
ses’. Os dois temassao “classe social” e “risco que caracterizam a pesquisa quantitativa
de doenga”. Eles nao delimitaram a suahi- podemserdistinguidas daquelas que carac-
potese as condicoes locais ou temporais es- terizam a qualitativa, uma distin¢ao entre
pecificas, mas supuseram queela deve ser estes dois tipos de pesquisa podeser feita
valida para todas as pessoas em umasitua- em termos do papel das hipoteses. A pes-
¢40 social especifica (classe social). quisa quantitativa deve sempre iniciar a
Além disso, as hipdteses devem ser partir de uma hipotese, sendo que os seus
claramente formuladas no que se refere aos procedimentos sao normalmente orienta-
conceitos que utilizam. No nosso exemplo, dos para a testagem das hipoteses previa-
tem deser especificado o que é considerado mente formuladas. Isso significa que vocé
como “doenca mental”(p. ex., que diagnés- deve buscar pecas empiricas de evidéncia,
ticos sdo utilizados para identificar esta ca- que permitam que as hipoteses sejam con-
racteristica). Tambémdeve ser identificado firmadas ou negadas.
O que “tratado”significa (p. ex., designando Enquanto a pesquisa quantitativa
apenas pessoas que estado em tratamento parte de hipoteses, estas desempenham um
com medicacdes ou também aquelas que papel menor na pesquisa qualitativa. Neste
recebem consultas?). Finalmente, deve ser tipo de pesquisa, o objetivo nao é testar
definida a expressdo “posi¢ao na estrutura uma hipotese formulada previamente. Em
de classe”. alguns casos, no processo de pesquisa, pode
38 UweFlick

ser formulado o trabalho com hipéteses. l6gico ou podem apenas ser respondidas
Por exemplo, as primeiras observacées das com 0 uso de métodosespecificos. As hipo-
diferencas entre adolescentes homens e teses desempenhamvarios papéis: na pes-
mulheres que vivem na rua na rea¢ao a um quisa quantitativa elas constituem um
sintoma de doengas de pele podem condu- ponto de partida indispensavel; na pesquisa
zir a umahipotese de trabalho de queas re- qualitativa, algumas vezes uma ferramenta
acdes a doenga neste contexto estado ligadas heuristica.
ao género. Essa hipdtese de trabalho vai
proporcionar uma orienta¢ao para a qual
vocé buscara evidéncias ou contra-exem-
plos. Mas o objetivo nao sera testar esta hi- [VW Lista de verificagao
potese da maneira que se faria em um estu- para a formulacao das
do quantitativo. Na pesquisa qualitativa, o
uso da palavra “hipotese” esta mais ligado a questoes de pesquisa
maneira como vocé uSaria este termo na
vida cotidiana do que com os principios de O Quadro 2.1 lista os pontos que vocé deve
testagemde hipdteses na pesquisa quantita- considerar quando for formular sua ques-
tiva mencionados. tao (ou quest6es) de pesquisa. Vocé pode
Cada forma de pesquisa social deve usar estas perguntas norteadorastanto para
partir de uma questao de pesquisa clara. planejar seu prdprio estudo quanto para
Tipos diferentes de questGes de pesquisa su- avaliar os estudos existentes realizados por
gerem um ou outro procedimento metodo- outros pesquisadores.

Quadro 2.1 EESEMPREYY SeeERIE a

LISTA DE VERIFICACAO PARA A FORMULACAODAS QUESTOESDE PESQUISA


1. Seu estudo tem uma questao de pesquisa formulada claramente?
2. Vocé deve ter conhecimento sobre a origem de suas questdes de pesquisa e 0 que vocé
quer atingir com elas.
¢ Oseu interesse no conteudo da questao da pesquisa é a sua principal motivagao?
e Ou responder a questao da pesquisa 6 mais um meio para atingir um fim, como a
obtencao de um diploma académico?
3. Quantas questoes de pesquisa tem o seu estudo?
e Elas sao demasiadas?
¢ Qual é principal questao?
4. Sua questao de pesquisa pode ser respondida?
* Como poderia ser a resposta?
5. Sua questao de pesquisa pode ser respondida empiricamente?
¢ Quem pode proporcionar insights para isso?
© Vocé pode atingir estas pessoas?
¢ Onde vocé pode encontra-las?
e
Que situagdes podem the proporcionar insights para responder as suas questoes de
pesquisa? Estas situagoes sao acessiveis?

(continua)
Introdugao a metodologia de pesquisa 39

Quadro 2.1

LISTA DE VERIFICACAO PARA A FORMULACAO DAS QUESTOES DE PESQUISA(cont.)

6. Até que ponto a sua questao de pesquisa esta claramente formulada?


7. Quais sao as consequéncias metodoldgicas da questao de pesquisa?
¢ (Que recursos sao necessarios (p. ex., quanto tempo é necessario)?
8. Se necessario para o tipo de estudo que vocé escolheu, vocé formulou hipdéteses?
e Elas estao formuladas claramente, de maneira bem definida e passivel de ser testada?
9. Elas podem ser testadas? Por quais métodos?

Vv As questées de pesquisa podem ser desenvolvidas a partir de problemas praticos, podem estar
enraizadas na origem pessoal do pesquisador ou podem surgir de problemas sociais.
Vv As questdes de pesquisa podem ter como objetivo resultados representativos ou ligados a subgrupos
especificos da sociedade.
Vv As questdes de pesquisa devem estar teoricamente incorporadas e prontas para serem empiricamen-
te estudadas. Acima de tudo, devem ser especificas e focadas.
v¥ A pesquisa quantitativa é baseada em hipoteses, que serado empiricamente testadas. Quando a
pesquisa qualitativa usa hipoteses, ela sera baseada em uma concepgao diferente de hipoteses,
como, por exemplo, hipoteses de trabalho.

Bryman, A. (2008) Social Research Methods,3. ed.


[~™/ Leituras adicionais Oxford: Oxford University Press.
Flick, U. (2011) Desenho da Pesquisa Qualitativa.
O primeiro e o ultimo textos listados a se- Porto Alegre: Artmed. Capitulo 1.
guir apresentam mais detalhes sobre as Flick U. (2009) Introducdo a Pesquisa Qualitativa,
quest6es de pesquisa na pesquisa padroni- 3. ed. Porto Alegre: Artmed. Capitulo 9.
zada; enquanto as outras trés referéncias
Lofland, J. e Lofland, L.H. (1984) Analyzing Social
discutem este assunto no que se refere aos Settings, 2. ed. London: Sage.
estudos qualitativos. Neuman, W.L. (2000) Social Research Methods:
Qualitative and Quantitative Approaches, 4. ed.
Boston: Allyn and Bacon.
“w% «3
Leitura e revisao da literatura

VISAO GERAL DO CAPITULO

O escopo de uma revisdo da literatura occ eccscssessesssssstssesessessssssesucsesssseesesecsessssecassesesussesesseasesesscsessesecs 42


O que queremos dizer por “literatura? oc ccssscssesessssesesssscsessescscarsseseacssesssessssescessscsesesscsesssssaesesacscsessesees 42
Encontrando a literatura... cecesesecsesesesscsssesscsescseneseassussesucsssesucseseesaneassssesssssscseeseseacasssesesesucassnessnescanesees 44
Areas da literatura .......cccccccsccccscssssssesssssssssssssessssssssssssssecsssesssssssevessssssssssssssesessssssusesseseessusansessceceeressnnsneeteesessee 45
Leitura de EStUdOS EMPITICOS .......ceceeesccsssessssesessesssccscsescsnessassssseseavesssesuensssavsscaescssssesucsescensasessnesescsesarssseareseetess 46
Us da lit€ratura oo. cccccssesssssssssssesssssessssescscsssessensssssusssssssscscsusessssueosseaessasesussesssessssseesessuesesessssseseseessesescsees 46
Documenta ao © referOncias .........eeccsccessssessssesssssesesessssessesececsesessesessssesnssecessesseeusasensenssesucsesseesesessescsnsateneneess 47
O Plagio © COMO CVITA-lO ec eecccesssssnsnsseseeessesesnsnsssansccsesesuereseerssesssusscaessneseesesesesusassessesescessacsecseseseeseatensens 49
Lista de verificagao para encontrar, avaliar e rever a literatura... eseseesceceenreneeneseseneenseneeeeenens 50

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


v dar-se conta da relevancia da literatura existente para planejar seu proprio projeto de pesquisa;
v¥ reconhecer que vocé deveestar familiarizado com a literatura metodologica e com os achados
de pesquisa em sua area de pesquisa social;
Y entender como encontrar a literatura relevante para seu projeto de pesquisa.
42 UweFlick

Tabela 3.1 NAVEGADOR PARA0 CAPITULO 3

Vocé esta aqui Orientagao * O que é pesquisa social?


no seu projeto * Questao central de pesquisa
e Revisao da literatura

v
Planejamento e e Planejamento da pesquisa
concepcao e Concepgao da pesquisa
¢ Decisao sobre os métodos

Trabalhando Coleta de dados


com dados Analise dos dados
Pesquisa on-line
Pesquisa integrada

Reflexdao e escrita Avaliagao da pesquisa


e Etica
e Aescrita e o uso da pesquisa

empiricos. Ha hoje um consenso tanto


'¥%¥ O escopo de uma entre os pesquisadores qualitativos quanto
revisao da literatura entre os quantitativos de que vocé deve
estar familiarizado com o campo onde
transita e no qual deseja progredir; o en-
De formageral, vocé deve comegar sua pes-
contro de novos insights precisa estar basea-
quisa lendo. Vocé deve procurar, encontrar
do no conhecimentoja disponivel.
e ler o que ja foi publicado acerca do seu
tema, do campo de sua pesquisa e dos mé-
todos que vocé quer aplicar em seu estudo.
(Os métodos de pesquisa serao discutidos [~ O que queremos
em detalhes nos Capitulos 6-10).
Também util ler para entenderos prin-
dizer por ‘literatura’?
cipios basicos da pesquisa social (discutidos
no Capitulo 1) e o processo geral em queeles Tipos de literatura
sao aplicados (discutido no Capitulo 4).
E claro que vocé nao podeler tudo o Quando vocé comeca a pesquisar o tema
que foi dito até agora sobre a pesquisa so- que escolheu, pode buscar e encontrardife-
cial. Felizmente, isso nao é necessario! En- rentes tipos de literatura e evidéncias. Em
tretanto, deve encontrar o que for relevante primeiro lugar, vocé pode encontrarartigos
para realizar um projeto de pesquisa sobre na imprensa. Jornais e revistas podem de
o tema e a questao de pesquisa escolhidos. tempos em tempos levantar esse tema, tal-
As vezes, vocé pode se deparar com a vez para sensacionaliza-lo. Este tipo de lite-
nocao de que um estudo qualitativo nao ratura vai ajudar a lhe mostrar que tipo de
precisa ser baseado no conhecimentodali- aten¢ao o publico da ao seu tema e talvez a
teratura tedrica ou empirica existente. En- sua relevancia no discurso publico. Entre-
tretanto, esta nogao é baseada em uma con- tanto, deve-se tomar cuidado para naotra-
cepcao ultrapassada do que significa tar essas publicag6es comose fossem litera-
desenvolver umateoria a partir de dados tura cientifica.
Introdugdo a metodologia de pesquisa 43

Fontes primarias e secundarias cacoes originais sobre uma teoria e os livros


didaticos que as sumarizam em umdeter-
Vocé deve tomar cuidado para distinguir minado campo deestudo.
entre diferentes tipos de fontes. Ha fontes Entre os artigos de revisao, podemos
primarias e fontes secundarias. Um exem- tambémdistinguir entre revises narrati-
plo aqui podeilustrar esta distingao. As au- vas e sistematicas. Uma revisado narrativa
tobiografias sao escritas pelos autores sobre apresenta umrelato daliteratura no senti-
si proprios. Ja as biografias sao escritas por do de uma visao geral (como em Kelly e
um autor sobre umapessoa, as vezes sem Caputo, 2007), incluindo tipos deliteratu-
conhecé-la pessoalmente (p. ex., se é um ra diferentes (pesquisa, relatérios do go-
personagemhistorico). Se transferimosesta verno, etc.). Uma revisao sistematica tem
distingao para a literatura cientifica, uma um foco mais direcionado aos documen-
monografia sobre uma teoria é uma fonte tos de pesquisa, que foram selecionados
primaria. O mesmo acontece em relacdo a segundo critérios especificos e ttm um
umartigo ou livro descrevendoosresulta- foco mais estreito em um aspecto de um
dos empiricos de um estudo, quandoele foi tema geral. Um exemplo de umarevisao
escrito pelos pesquisadores que realizaram sistematica é€ o trabalho de Burra e colabo-
o estudo. Um livro didatico que resume as radores (2009), em que uma série definida
varias teorias em um campo ou apresenta de bancos de dados foi pesquisada em
uma visdo geral da pesquisa em outro é busca de artigos que satisfizessem varios
uma fonte secundaria. Considere também critérios pré-definidos para avaliar estu-
um terceiro exemplo para esclarecer esta dos de adultos sem-teto e o funcionamen-
distingao: documentos originais como ates- to cognitivo. O método de busca (e a esco-
tados de 6bito sao fontes primarias, en- lha dos bancos de dados, dos critérios, dos
quanto estatisticas oficiais resumindo as periodos de publicacao, etc.) é especifica-
causas de morte emsuas frequéncias e dis- do para tornar a revisao sistematica, repli-
tribuic6es em grupos sao fontes secunda- cavel e passivel de ser avaliada em si
rias. A diferenca esta em 0 quao imediato é mesma.
o acesso ao fato relatado: as fontes prima- Uma formaalternativa de resumir os
rias sao mais imediatas, enquanto nas fon- estudos é a metanalise. Mais umavez a pes-
tes secundarias em geral varias fontes pri- quisa existente € examinada, mas aqui o
marias foram resumidas, condensadas, foco esta no efeito de umavariavel especifi-
elaboradas ou reformuladasporoutros. cae em comoesta podeser identificada nos
estudos sob analise. Coldwell e Bender
(2007), por exemplo, conduziram uma me-
Obrasoriginais e revisdes tandlise de estudos sobre a eficacia de um
tratamento especifico para pessoas sem-te-
Entre os artigos cientificos, podemos dis- to com doeng¢a mentalsevera.
tinguir entre artigos que relatam resultados
de uma pesquisa pela primeira vez (p. ex.,
Flick e ROhnsch, 2007, que relatam achados Literatura cinzenta
de nossas entrevistas com adolescentes
sem-teto) e artigos de revisao (p.ex., Kelly e Além do que é publicado sobre seu tema es-
Caputo, 2007, que examinam varios estu- pecifico noslivros e jornais cientificos, por
dos e apresentam umavisdogeraldasatide exemplo, vocé deve buscar a literatura “cin-
e dos jovens sem-teto no Canada). Similar- zenta’, como relatos ou reflexdes sobre a
mente, podemosdistinguir entre as publi- pratica de profissionais a respeito do seu
44 Uwe Flick

trabalho comeste grupo-alvo. Estas podem para a British Library, ou www.bibliothek.


ser reflex6es em forma de ensaio e algumas kit.edu/cms/website-durchsuchen.php’ para
vezes de relatos empiricos baseados nos nu- a maioria das bibliotecas universitarias ale-
meros de clientes, diagnésticos, resultados mas e também para muitas no Reino Unido
de tratamentos, etc. A literatura cinzenta é e nos Estados Unidos. La vocé pode encon-
definida como “a literatura — com frequén- trar uma visao geral exaustiva doslivros ou
cia de natureza cientifica ou técnica — que das informag6es existentes para completar
nao esta disponivel mediante as fontes bi- suaslistas de referéncia. Muitoslivros estao
bliograficas usuais, como bancos de dados atualmente disponiveis como e-books, que
ou indices. Ela pode estar tanto impressa vocé pode obter via sua biblioteca, mesmo
quanto, cada vez mais, em formatoseletré- de casa ou doseu trabalho.
nicos” (University Library, 2009). Exemplos Para os artigos de revistas, vocé pode
disso sao relatérios técnicos, pré-impres- usar mecanismosde busca como wok.mimas.
soes, documentosde pesquisa, documentos ac.uk. Este vai levd-lo até o Social Sciences
do governo ou atas de conferéncias. Este Citation Index de Thomson Reuters (tam-
tipo de literatura vai, com frequéncia, lhe bém acessivel por meio de http://thomson-
proporcionar um acesso mais imediato a reuters.com), no qual vocé pode buscar por
pesquisa ou aos debates em andamento, autores, titulos, palavras-chave, etc. Outros
assim como as maneiras institucionais de bancos de dadoseletrénicos que vocé pode
documentare tratar os problemas sociais. usar se adequadosao seu temaincluem, por
Porisso, a literatura cinzenta pode ser uma exemplo, o PubMed e o MEDLINE. O Pub-
valiosa fonte de primeira maopara 0 seu es- Med compreende mais de 20 milhées deci-
tudo. tagoes da literatura biomédica do MEDLI-
NE, revistas de ciéncias naturais e livros
on-line. As citacdes podem incluirlinks para
o contetido de texto completo do PubMed
[M7 Encontrando a literatura Central e para os websites das editoras (http://
www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed). Estes sao
De uma maneira geral, depende doseu t6- bancos de dados que documentam as publi-
pico o lugar onde vocé deve procurar e em cages em revistas no campo dasatide e da
que vai encontrar literatura relevante. Se medicina. “Athens” é um sistema de acesso
quer descobrir se sua biblioteca de uso ha- desenvolvido pela Eduserv que simplifica o
bitual tem a literatura que vocé esta procu- acesso aos recursoseletrénicos assinados por
rando, pode simplesmenteir até ela e che- sua organizagao. A Eduserv é um grupo de
car o seu catdlogo. Isto pode consumir servicos de TI profissional nao lucrativo
tempo e ser frustrante se o livro desejado (https://auth.athensams.net/my/). Se vocé
nao estiver disponivel em seu estoque. Se quiser ler todo 0 artigo, pode precisar com-
vocé quer descobrir que biblioteca tem o prar o direito de baixa-lo da editora da revis-
livro (ou revista) que vocé esta buscando, ta ou do livro. Cada vez mais artigos estao
pode acessar o OPAC (Online Public Access disponiveis on-line e gratuitamente em repo-
Catalog [Catalogo de Acesso Publico On-li- sitérios de acesso aberto (p. ex., o Social
ne|) da biblioteca via internet. Por isso, vocé
deve ir até a pagina de uma ou maisbiblio-
tecas. Comoalternativa, pode usar um link
para varias bibliotecas ao mesmo tempo. ‘N. de R.T.: No Brasil, pode-se acessar diversossites de
revistas e€ os sites da CAPES (www.capes.gov.br) e do
Exemplosdisso sao http://copac.ac.uk para CNPq (www.cnpgq.br) parase obterliteratura cientifi-
24 das principais bibliotecas universitariase ca de qualidade.
Introdugado a metodologia de pesquisa 45

Science Open Access Repository em http:// literatura tedrica da sua area de pesquisa
www.ssoar.info/); “open access” (acesso aber- devera ajuda-lo a responder quest6es como:
to) significa que todos podem usarestalitera-
tura sem pagarpelo acesso. © O queja é conhecido sobre esta questao
Vocé também pode usar os servicos de em particular ou sobre a area em geral?
publica¢ao on-line organizadosporeditoras. ® Quais sao as teorias usadas e discutidas
Em online.sagepub.com, vocé pode buscar nesta area?
todas as revistas publicadas poresta editora, Quais conceitos sao usados ou debatidos?
ler resumos e conseguir as datas de referéncia Quais sao os debates tedricos ou meto-
exatas gratuitamente. Se quiser ler o artigo doldgicos e as controvérsias neste campo?
inteiro, vai precisar assinar 0 servico Ou a re- © Quais quest6es continuam abertas?
vista ou comprar0 artigo diretamente da pa- ® O que ainda naofoi estudado?
gina (ou verificar se a sua biblioteca assinou
a publicacao em questao). Aqui vocé deve sintetizar a discussao,
E claro que um primeiro passo para os conceitos e as teorias utilizados no
encontrar o seu caminhona literatura pode campo que vocé estuda. O ponto de chega-
ser 0 uso de um mecanismode buscadain- da deve ser que fique claro quais destes inte-
ternet, como 0 Google, o Google Académi- gram Seu interesse de pesquisa, 0 seu estudo
co, o Intute ou o AltaVista. No entanto, este e a sua formulacao.
é apenas um primeiro passo, e certamente Podemos distinguir varias formas de
nao deve ser 0 unico. teorias. Ha aquelas que conceituam o seu
tema — como as teorias do desabrigo em
nosso exemplo — e aquelas que definem a
( Areasdaliteratura perspectiva da sua pesquisa, comoas repre-
sentacoes sociais (ver Flick 1998a). Estas ul-
Vocé vai precisar rever a literatura em varias timas postulam queha diferentes formas de
areas, em especial: conhecimento sobre um tema ligadasa di-
ferentes origens sociais e que estas diferen-
e literatura tedrica sobre o topico do seu ¢as sao um ponto de partida para analisar o
estudo; proprio tema.
e literatura metodoldgica sobre comorea-
lizar sua pesquisa e comoutilizar os mé-
todos que vocé escolheu; Revisao da literatura metodologica
¢ literatura empirica sobre pesquisas ante-
riores no campo do seu estudo ou em Antes de decidir sobre um métodoespecifi-
campos similares; co para o seu estudo, vocé develer a litera-
e literatura tedrica e empirica para ajudar tura metodologica relevante. Se vocé quiser
a contextualizar, comparar e generalizar usar, digamos, grupos focais (focus group,
seus achados. discutidos no Capitulo 7) em um estudo
qualitativo, deve obter uma visao geral de-
Vamos examinar estas areas uma a uma.
talhada do estado atual da pesquisa qualita-
tiva —lendo, por exemplo, um livro didatico
Revisdo da literatura teorica ou uma introducao ao campo. Em seguida,
vocé deve identificar as publicagées rele-
A literatura tedrica é a que englobaas obras vantes sobre o métodoescolhido lendo uma
sobre os conceitos, definicdes e teorias usa- publica¢ao especializada, alguns capitulos a
das em seu campodeinvestiga¢ao. Rever a respeito dele e exemplosanteriores de pes-
46 UweFlick

quisas que o utilizaram. Isto vai lhe permitir criticamente — tanto no que se refere aos
escolher seu método(s) especifico com uma seus métodos quanto aos seus resultados.
apreciacao das alternativas existentes. Tam- Vocé deve considerar, emparticular, até que
bémvai prepara-lo para os passos maistéc- ponto o estudo atingiu seus objetivos e até
nicos do planejamento do uso do método e que ponto satisfaz os padrées metodoldgi-
ajuda-lo a evitar as ciladas mencionadas na cos apropriados na coleta e andlise dos
literatura. Esse entendimento vai ajuda-lo a dados. A lista de verificacao no Quadro 3.1
compor um relato detalhado e conciso de destina-se a ajuda-lo a fazer avaliacoescriti-
por que e como vocé usou 0 método em seu cas da literatura que voceélé.
estudo, quando escrever posteriormente o
seu relato.
Em geral, examinar a literatura meto-
doldgica de sua area de pesquisa deve aju- '“™ Uso da literatura
da-lo a responder quest6es como:
Modos de argumentacao
® Quais sao as tradicées, alternativas ou
controvérsias metodoldgicas aqui? Ha varias maneiras de usar a literatura que
e Ha alguma maneira contraditoria de vocé encontrou. Em primeiro lugar, deve-
usar os métodos que vocé possa conside- mosdistinguir entre, de um lado,listar li-
rar um pontode partida? teratura e, de outro, examina-la ou analisa-
-la.Simplesmentelistar o que vocé encontrou
e onde nao sera muito util. Uma revisao ou
Revisao da literatura empirica umaanalise da literatura serao mais produ-
tivas, ordenando o material e produzindo
No proximo passo, vocé deve examinar e umaavaliacao critica dele, 0 que envolve a
resumir a pesquisa empirica que tem sido selecao da literatura e a ponderacao sobre
realizada em seu campo deinteresse. Isto ela.
deve lhe permitir contextualizar sua abor- Os resultados da sua analise podem
dagem e, mais tarde, suas descobertas, ven- incluir uma sintese da extensao daliteratu-
do ambos em perspectiva. ra na qual vocé se baseou e algumasconclu-
A revisao daliteratura empirica na sua sdes. Estas conclusdes devem conduzir os
area de pesquisa deve ajuda-lo a responder leitores aos seus proprios questao e plano
perguntas como: de pesquisa, proporcionando uma justifica-
tiva para ambos.
® Quais sao os métodos usados ou debati- Na maioria dos casos, nao sera neces-
dos aqui? sario apresentar um relato completo do
e Ha alguns resultados e achadoscontradi- que foi publicado em uma area. Em vez
torios que voce possa considerar um disso, vocé deve incluir o que é relevante
ponto de partida? para 0 seu projeto, para justifica-lo e para
planeja-lo.
As vezesé dificil decidir quando parar
[™ Leitura de de trabalhar com literatura. Uma sugestao
aqui € continuar a ler e talvez resumir 0 que
estudos empiricos vocé for lendo de novo enquantoesta reali-
zando o projeto. De qualquer forma, vocé
Quando vocé estiver lendo os estudos exis- tera que voltar a literatura quandofor dis-
tentes, é importante ser capaz de avalid-los cutir suas proprias conclusdes. Outra su-
Introdugdo a metodologia de pesquisa 47

Quadro 3.1

MARCOS PARAA AVALIACAO DOS ESTUDOS EMPIRICOS EXISTENTES


1. Os pesquisadores ou autores definiram claramente 0 objetivo e o propdsito do seu
estudo e por que eles 0 conduziram?
2. Qual é a questao de pesquisa do estudo?
3. O autor examinou, integrou e resumiu a literatura basica relevante?
4. Em que perspectiva tedrica o estudo esta baseado? Ela esta explicitamente formulada?
5. Que concep¢ao foi aplicada no estudo? Ela se ajusta 4 questao de pesquisa que foi
formulada?
6. Que forma de amostragem foi aplicada? Ela foi adequada aos objetivos e a questao da
pesquisa?
7. Que métodos de coleta de dados foram aplicados?
8. Até que ponto as questées éticas foram levadas em conta (p. ex., consentimento
informado e protecao dos dados)?
9. Que métodos foram aplicados para analisar os dados? Esta claro como eles foram
usados e talvez modificados?
10. Os métodos de coleta e analise dos dados se ajustam quando usados em conjunto?
11. Que abordagens e critérios os pesquisadores aplicaram para avaliar suas proprias
maneiras de proceder?
12. Os resultados foram discutidos e classificados mediante referéncia a estudos anteriores
e a literatura tedrica sobre o tema do estudo?
13. O estudo define sua area de validade e seus limites? Os temas de generalizagao foram
tratados?

gestao € que vocé estabeleca seu plano de tudo que vocé conduziu umabusca atenta e
pesquisa depois de examinar a literatura e qualificada naliteratura existente. A sua revi-
entao, a partir do momento em que Iniciar sao da literatura também deve evidenciar
o seu trabalho empirico, tentar nao deixar que vocé tem um bom dominio da areate-
sua atencdoser desviada pela novaliteratu- matica e que entende o tema, dos métodos
ra e nao revisar seu projeto continuamente. que usa e que esta informadosobre o que ha
Uma definicaéo concisa do conteudo de mais atual na pesquisa em seu campo.
de uma revisao daliteratura é apresentada
por Hart:
ivy Documentacao
A selecao de documentos disponiveis
(tanto publicados quanto nao publica- e referéncias
dos) sobre 0 tépico, que contenham
informacoes, ideias e evidéncias escri- E importante desenvolver uma maneira de
tas a partir de um determinado ponto documentar 0 que vocé leu — tanto no quese
de vista parasatisfazer alguns objetivos refere as fontes quanto ao conteudo. Para
ou expressar algumas opinides acerca
este ultimo, vocé deve fazer anota¢gdes dos
da natureza do topico e como ele deve
principais topicos de um artigo ou livro que
ser investigado, além da avaliacaoefeti-
va destes documentos em relacao a
leu, derivando da sualeitura algumaspala-
pesquisa que esta sendo proposta. vras-chave que podera usar para buscas adi-
(1998,p. 13) cionais. Vocé deve semprerecorrer4 lista de
referéncias do que leu como uma inspiracao
Vocé deve demonstrar na maneira paraleituras adicionais. Vocé podefazer suas
comoapresenta a literatura usada em seu es- anotacdes eletronicamente, escrevendo-as
48 UweFlick

em um arquivo com seu processador de cione os nomes de ambosligados por “e’, o


texto, por exemplo, ou usando ferramentas ano da publicacao e o numero da pagina
de software comercial como o Microsoft (como no exemplo 3). Casose refira a um
OneNote (www.office.microsoft,com/en-us/ trabalho com trés ou mais autores, mencio-
onenote) ou 0 “servico gratuito para 0 ma- ne o nome do primeiro autor e acrescente
nejo e a descoberta de referéncias acadé- “et al”, o ano e o numero da pagina (como
micas” chamado “citeulike” (http://www.ci- no exemplo 4).
teulike.org). Ferramentas como estas lhe Na lista de referéncias ao final do seu
permitem armazenarseusresultados e ano- trabalho, vocé devera mencionar o material
tacdes de busca incluindo as fontes de suas que usou da seguinte maneira’:
informacg6es. Comoalternativa, vocé pode
fazer suas anota¢des a mao emfichas. Certi- 1. Livro. Nome(s) e iniciais do autor(s),
fique-se de anotar a fonte de qualquerinfor- ano entre parénteses, titulo do livro
macao que vocé tenha considerado digna de em italico, local da publicac¢ao,editora.
ser anotada, para que possa voltar ao artigo Geiser, T.J. e Schreiner, A.E. (2009) A
original e recuperar o contexto de um argu- Guide to Conducting Online Research.
mento ou conceito. London: Sage.
Vocé também precisa decidir sobre um 2. Capitulo de livro. Nome(s) e iniciais
sistema de referenciacao da literatura usada do autor(s), ano entre parénteses,ti-
em seu texto e na sua lista de referéncias. tulo do capitulo, “in” inicial e nome
Vocé pode, por exemplo, usar o caminho que do editor, “(ed.)’, titulo do livro em
eu usei para fazer referéncia a outras fontes italico, local de publicacao, editora,
neste livro ea lista de referéncias ao final dele primeiro e ultimo numeros de pagi-
como um modelo para sua propria organi- nas do capitulo.
zac¢ao desta questao.Isto significa fazer refe- Harré, T. (1998) “The Epistemology of
réncia as obras de outros autores no texto, Social Representations’, in U. Flick
como nos exemplos que se seguem: (ed.), Psychology of the Social: Represen-
tations in Knowledge and Language.
1. Como afirma Allmark (2002), .... Cambridge: Cambridge University Press,
Umaavaliacao desse tipo normalmen- pp. 129-37.
te considera trés aspectos: “qualidade 3. Artigo de revista. Nome(s) e iniciais do
cientifica, o bem-estar dos participan- autor(s), ano entre parénteses, titulo
tes e...” (Allmark, 2002, p. 9). do artigo, nome darevista em italico,
3. Gaiser e Schreiner (2009, p. 14) lista- numero do volume,primeiro e ultimo
ram varias questoes... numerosde paginasdoartigo.
4. Flick et al. (2010, p. 755) declaram Allmark, P. (2002) “The Ethics of Rese-
que... arch with Children’, Nurse Researcher,
10: 7-19.
De modogeral,isto significa que vocé Flick, U., Garms-Homolova,V. e R6hns-
se refere as obras de outros autores usando ch, G. (2010) “Whenthey Sleep, they
o formato de nome doautor, seguido pelo
ano da publicacao entre parénteses (como
no exemplo 1). Quando vocé usar uma cita-
¢do direta dos autores (suas proprias pala-
vras), tera que acrescentar o numerode pa-
"N. de R.T.: Os exemplos estao no padrao APA. Para
gina (como no exemplo 2). Quando se exemplos do padrao ABNT,consultar manuais dispo-
referir a um trabalho de dois autores, men- nibilizadospelas universidades.
Introdugdo a metodologia de pesquisa 49

Sleep”: Daytome Activities and Sleep tar reconhecimento por isso e tornar eviden-
Disorders in Nursing Homes’, Journal te que vocé as captou deles. Ha trés formas
of Health Psychology, 15: 755-64. principais de plagio (ver Neville, 2010, p. 29):
4. Fonte da internet. Nome(s) e iniciais
do autor(s), ano entre parénteses,ti- 1. copiar o trabalho de outra pessoa (isto
tulo do artigo,titulo do artigo em ita- é, ideias e/ou formulagoées) sem citar os
lico, numero do volume, link/URL, autores;
data em quevocé acessoua fonte. 2. misturar seus proprios argumentos
Bampton, R. e Cowton, C.J. (2002). com asideias e palavras de outras pes-
“The E-Interview’, Forunt Qualitative soas sem sereferir a elas; e
Social Research, 3 (2), www.qualitative- 3. parafrasear as formulac6es de outros
-research.net/fqs/fqs-eng.htm (acessa- autores sem se referir a elas, fingindo
do em 22 defevereiro de 2005). que o trabalho é seu.

Comoalternativa, vocé pode usar notas


de rodapé para as referéncias. O formato a Plagio involuntario
ser usado dependera das preferéncias — das
suas proprias e das do seu supervisor ou
O plagio pode ocorrer por varias razGes (ver
orientador. O ponto importante aqui € que
Birbaum e Goscillo, 2009). O mais dbvio
vocé deve trabalhar sistematicamente: todo
deles é aquele em que as pessoas intencio-
artigo de revista deve ser referenciado no
nam usar asideias e/ou formulacoées de outra
mesmo formato e cadalivro citado consis-
pessoa, fingindo serem suas proprias. Neste
tentemente.
caso, elas teriam consciéncia do seu plagio.
Vocé também pode usar um software
Isto também podeser visto como umafrau-
bibliografico como o EndNote (www.end-
de intencional. Entretanto, pode haver ou-
note.com) ou ProCite (www.procite.com)
tras razOes — por exemplo, alguém que nao
para administrar sua literatura. Vocé vai de-
saiba o que € plagio, que esteja inseguro de
morar algum tempo para aprendera usar 0
como citar corretamente sua fonte ou que
software, e deve comecgar a usa-lo no inicio
seja descuidado no uso dos materiais de ou-
do seu trabalho e continuar a usd-lo quan-
tras pessoas. Isto é referido como“plagio in-
do examinar a literatura.
voluntario’, que no fim tera as mesmascon-
sequéncias do plagio intencional.
lv Oplagio e comoevita-lo
Nos ultimos anos, 0 tdpico do plagio tem Por que vocé deveevitar o plagio
atraido atencao crescente nos melos de co-
municac¢ao e nas universidades. Esta € uma Em geral, o plagio ofende as regras da boa
questao séria, particularmente porque se pratica no trabalho cientifico e é ilegal. O
tornou tecnicamente muito mais facil co- uso do software de deteccao de plagio é mais
piar e usar o trabalho de outras pessoas. frequente, tendo hoje a finalidade de identi-
ficar o uso das formulacoées de outros auto-
res sem cita-los explicitamente. Quando é
O que é plagio? detectado, o estudante ou o pesquisador vai
enfrentar consequéncias muito sérias, Como
Plagio significa que vocé simplesmente usou ser reprovado em suatese ou ser afastado de
formulacoes de outros autores sem lhespres- sua universidade.
50 UweFlick

Comoevitar o plagio por Autor I, p. 182-93)". Ambos devemapa-


recer nas referéncias.
Havarias maneiras de evitar o plagio (in- Para evitar 0 plagio, vocé deve usar
cluindo o involuntario). A primeira é pres- seus proprios pensamentos e formulacées
tar atencao suficiente para incluir uma lista como a base da sua tese, documentar cuida-
completa de todas as referéncias que vocé dosamente suas fontes e fazer anotacées de
usou ao escrever sua tese. A segunda€ ser onde vocé encontroue leu algo. Finalmente,
muito criterioso na citacgao quando usar as vocé deve usar mais que umafonte para de-
palavras de outras pessoas. Assim, vocé deve senvolver seus argumentos. (Para maiores
colocar todasas palavras dos outros autores detalhes, ver a sintese destes temas apresen-
que vocé usou entre aspas. Vocé também tada por Birnbaume Goscillo, 2009.)
deve usarreticéncias (elipse) quando deixa
algumas palavras fora de umacitac¢ao, e
deve indicar quando acrescenta umapala-
vra colocando-a entre parénteses: por
[Lista de verificacgao
exemplo, “a pesquisa social... [é] valiosa”. Se para encontrar, avaliar
vocé parafraseia uma sentencga de outro
autor, de forma que o mesmo conteudo e
e rever a literatura
ideias estao ainda na base das suas formula-
ces, sem Mencionaro autor ea fonte origi- Ao comporumarevisao daliteratura para
nal, isto ainda constitu plagio. Se vocé traz um projeto empirico na pesquisa social,
uma citacdo de um texto em que outro vocé deve considerar as quest6es apresenta-
texto ja foi citado, deve notificar esta citagao das na lista de verificagdo mostrada no
secundaria: por exemplo, “(Autor 2, citado Quadro 3.2.

Quadro 3.2

PEEeat 8aOT
LISTA DE VERIFICACAO PARA O USO DA LITERATURA NA PESQUISA SOCIAL

1. Sua revisao da literatura esta atualizada?


2. Sua revisao da literatura esta conectada com o tema do seu estudo?
3. Sua revisao da literatura e sua escrita sobre ela sao sistematicas?
4. Ela cobre as teorias, os conceitos e as definigdes mais importantes?
5. Ela é baseada nos estudos mais importantes em seu campo de pesquisa e sobre o seu
tema?
6. Vocé documentou como e onde buscou a literatura?
7. Sua questao e concepgao de pesquisa resultam da sua revisao da literatura?
8. Sao consistentes com ela?
9. Vocé tem lidado com cuidado com as citacées e as fontes?
10. Vocé resumiu ou sintetizou a literatura que encontrou?
11. Vocé tomou o cuidado de evitar 0 plagio?
Introdugdo a metodologia de pesquisa 51

Pontos principais

v Na pesquisa social, a busca e a analise da literatura existente sdo os passos mais importantes.
Vv Ha varios pontos no processo da pesquisa em que 0 uso da literatura pode ser util e necessario.
v Ao planejar a pesquisa, analisar os materiais e escrever sobre seus achados vocé deve fazer uso da
literatura existente sobre (a) outras pesquisas, (b) teorias e (c) os métodos que vocé usa no seu
estudo.

'% Leituras adicionais sobre formas da literatura cinzenta e como


utiliza-la.

O primeirolivro listado a seguir apresenta Hart, C. (2001) Doing a Literature Search. Lon-
uma visao geral abrangente de comoreali- don: Sage.
zar uma buscadeliteratura para a sua pes- Hart, C. (1998) Doing a Literature Review. Lon-
quisa, a que fontes recorrer e como proce- don: Sage.
der. O segundo proporciona uma sintese Neville, C. (2010) Complete Guide to Referencing
abrangente de como fazer uma revisao da and Avoiding Plagiarism. Maidenhead: Open
literatura para o seu estudo, que armadi- University Press.
lhas evitar e como escrever sobre o que University Library (2009) “Gray Literature’,
vocé encontra. O terceiro explica como California State University, Long Beach, www.
usar as referéncias e evitar o plagio, en- csulb.edu/library/subj/gray_literature/(Acessed
quanto o ultimo proporciona informa¢oes 17 August 2010).
Parte Il
Planejamento e concepcao

A Parte | deste livro foi destinada a ajudar a orienta-lo na realizacado do seu projeto de
pesquisa. A ParteIl, por sua vez, o guiara pelos passos fundamentais nas fases iniciais do
projeto em si, seja ele qualitativo ou quantitativo. 0 Capitulo 4 oferece-Ihe uma visdo geral
dos principais passos do processo de pesquisa, que constituem a base para o planeja-
mento do seu projeto de pesquisa — tema do Capitulo 5. O primeiro passo pratico para dar
forma aos seus planos é escrever uma proposta e conceber um cronograma. Para este
passo, sera util saber mais sobre que concepcoes e que formas de amostragem sao usa-
das na pesquisa social, além das implicagOes destas no seu projeto.
Seu plano de projeto val se tornar mais concreto quando vocé decidir que métodos
deseja aplicar. 0 Capitulo 6 esboga as decisGes que vocé precisa tomar no processo de
pesquisa quando escolher o seu método, a forma de amostragem ou 0 tipo de pesquisa.
Isto deve conduzi-lo ao estagio reflexivo, o meio caminho do processo, em que vocé con-
sidera mais uma vez as implicag6es do seu plano de pesquisa antes de comecar efetiva-
mente a aplicar métodos concretos e a trabalhar com dados.
vy A
Planejamento da pesquisa social:
passos no processo da pesquisa

VISAO GERAL DO CAPITULO

ViISAO Geral dO ProceSsO da PESUISA .........cceccccsessessssscssssesescsesessesssesssscstsssscsesscsesssstsssscssssssscsucsssenssasesseescesss 56


O processo da PeSqUisSa Na PESQUISA QUANTITATIVA 0... cceccesessesessessesesesscsessssseseesssesstssssecsssscsssssseesesseevanes 56
O processo da pesquisa na pesquisa qualitativa NAO PpadrOniZada.........cccesessseesesesesssssessssssseseseseeseeees 61
0 processo da pesquisa social: comparag4o entre a
PESQUISA QUANTItatiVa @ a PESQUISA QUATItATIVA 0. ccc essscsteseseeseseseesesesscseseseesesesseseseessssenesaeeenesees 63
Lista de verificagdo para 0 planejamento de uM eStudO CMPITICO oes eseseeesesesessessseesesssseaterseeneeness 63

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


v desenvolver uma visdo geral do processo da pesquisa social;
v apreciar, do ponto de vista do planejamento, o que a pesquisa qualitativa e a quantitativa tém em
comum eno que elas diferem;
v desenvolver um entendimento de que passos no processo de pesquisa vocé precisa considerar
ao planejar 0 seu projeto.
PR te epee Tete A ee aed 8
56 UweFlick

Tabela 4.1. NAVEGADOR PARA 0 CAPITULO 4

Orientagao e O que é pesquisa social?


¢ Questao central de pesquisa
* Revisao da literatura

Vocé esta aqui > Planejamento e * Planejamento da pesquisa


no seu projeto concep¢ao ¢ Concepcao da pesquisa
¢ Decisao sobre os métodos

Trabalhando Coleta de dados


com dados Analise dos dados
Pesquisa on-line
Pesquisa integrada

Refltexao e escrita Avaliagao da pesquisa

e
* Etica
¢ Aescrita e o uso da pesquisa

digdes ocorrem osatrasos, a fim de encon-


[¥{ Visao geral do trar uma possivel solucdo para o problema,
processo da pesquisa a instituicado pode seguir dois caminhos: ou
encomenda a um pesquisador de fora
Na pesquisa quantitativa, o processo da (como um socidlogo ou um psicélogo) um
pesquisa é planejado principalmente de estudo sistematico das situacdes em que os
uma maneira linear: um passo segue o tempos de espera sao produzidos; ou al-
outro, em uma sequéncia. Na pesquisa qua- guém da equipe é encarregado dessatarefa.
litativa, o processo é menos linear: alguns
destes passos sao mais intimamenteinterli- Passo 1: selegao de um
gados, enquanto outros sao omitidos ou problema de pesquisa
estao localizados em um estagio diferente Cada projeto de pesquisa se inicia com a
do processo. Este capitulo proporciona um identificacao e a selecao de um problemade
esboco dos processos de pesquisa para as pesquisa. Como vimos no Capitulo 2, as
duas abordagens. fontes potenciais dos problemasde pesqui-
sa sao diversas. Em nosso exemplo aqui, a
motiva¢ado para a pesquisa é um problema
pratico.
[vj O processo da pesquisa
na pesquisa quantitativa Passo 2: busca sistematica da literatura
Como 0 passo seguinte, a revisdo sistemati-
Alguns dos processos esbocados neste capi- ca daliteratura é requerida. Esta deve cobrir
tulo sao muito abstratos. Para entendé-los, trés areas:
um caso concreto pode ser util. Imagine,
como exemplo, que os membros de um e as teorias sobre o tema ou a literatura te-
hospital perceberam que, em suas rotinas oricamente relevante (ver Capitulo 3);
cotidianas, os tempos de espera séo muito e outros estudos sobre este tema ou sobre
longos. Para analisar quando e sob que con- temas similares;
Introdugdo a metodologia de pesquisa 57

e visdes gerais da literatura relevante Passo 5: operacionalizacao


sobre os métodos de pesquisa em geral Para testar uma hipotese, vocé tem primeiro
ou sobre métodos especificos (ver Capi- de operacionaliza-la. Isto significa que vocé a
tulo 6). transforma em entidades que possam ser
mensuradas ou observadas, ou em quest6es
No nosso exemplo, os pesquisadores
que possamser respondidas. No nosso exem-
devem buscar modelos tedricos relaciona-
plo, vocé deve operacionalizar o termo
dos a como emergem os temposde espera e “tempo de espera” e definir mais concreta-
a como funcionam as rotinas em institui- mente como medi-lo. Quanto tempo(p.ex.,
cdes deste tipo. Eles devem também se con- mais de 10 minutos) é considerado como
centrar nos estudos empiricos sobre a orga- tempo de espera? Quando se deve comegar a
nizagdo dos processos em hospitais e mensurar um tempo de espera? Ao mesmo
empresas de servico similares. tempo,para nossa hipotese, devemosdefinir
o que significa “depois do fim de semana”(p.
Passo 3: formulacao da ex., 0 espaco de tempoentre as 9h e as 12h as
questao da pesquisa segundas-feiras).
Nao basta identificar um problemade pes-
quisa. Para virtualmente todos os proble- Passo 6: desenvolvimento de um plano
mas de pesquisa, pode-se estudar varias de projeto ou concepgao de pesquisa
quest6es de pesquisa — mas nao todas ao O proximo passo é desenvolver umplano de
mesmo tempo.Por isso, Os pr6ximospassos projeto e uma concep¢do de pesquisa para o
sao: decidir sobre uma questao de pesquisa seu estudo. Primeiro, vocé escolhe uma das
especifica; formula-la em detalhes; e, acima concepcées usuais, definindo em seguida
de tudo, delimitar 0 seu foco. como padronizar e controlar os processos
No nosso exemplo, a questao da pes- em seu estudo para que possa interpretar
quisa pode ser ou “Quando esperar que os quaisquer relacdes que encontre de maneira
tempos de espera ocorram com muita fre- nao ambigua. No nosso exemplo, vocé pode-
quéncia?” ou “O que caracteriza as situa- ria testar nossa hipdtese primeiro compa-
¢des em que ocorrem os temposde espera?” rando os tempos de espera noinicio da se-
Dependendo das questdes da pesquisa, sera mana com os que ocorrem em dias como
(mais) apropriado o uso da pesquisa quali- quinta e sexta-feira (ver Capitulo 5).
tativa ou quantitativa, ou de um método
qualitativo ou quantitativo especifico (ver Passo 7: amostragem
Capitulo 2).
No pr6ximo passo, vocé precisa definir
que grupos, casos ou campos devem ser
Passo 4: formulagao de uma hipotese
integrados ao seu estudo. Estas decisdes de
Na pesquisa padronizada, o proximo passo selecionar unidades empiricas sao toma-
é formular uma hipotese. No nosso exem- das aplicando-se procedimentos de amos-
plo, uma hipdtese poderia ser “Esperar que tragem. No nosso exemplo, vocé pode con-
os temposde espera ocorram mais frequen- siderar um periodo de quatro semanas e
temente depois do fim de semana em com- incluir todas as alas de um hospitalas se-
paracaéo com os outros dias da semana.” gundas e quintas-feiras. Para definir em
Uma hipotese formula uma conexaoassim que alas vocé coletara os dados nos dois
de maneira que esta possa ser testada (ver dias, podera usar um procedimento alea-
Capitulo 2). torio (ver Capitulo 5).
58 UweFlick

Passo 8: escolha dos métodos apropriados umtodo. Segundo, vocé deve ter acesso aos
individuos na institui¢ao que devem parti-
Emseguida, vocé precisa escolher os méto-
cipar do estudo. Em terceiro lugar, vocé
dos apropriados para coletar e analisar os
deve esclarecer as quest6es de permissao.
dados. Aqui vocé temtrés alternativas ba-
Emquarto, as questoes de como proteger os
sicas: participantes de qualquer uso inadequado
dos dados e do anonimato devem serres-
e primeiro, vocé pode selecionar um dos
pondidas.
métodos existentes. Por exemplo, vocé
Considere novamente 0 nosso exem-
pode usar um questionario que esteja
plo. Vocé tem primeiro que encontrare se-
sendo aplicado com sucesso por outros
lecionar os hospitais apropriados(isto 6,
pesquisadores;
aqueles que sao relevantes para a questao da
e comfrequéncia, vocé tera que modificar
pesquisa). Em cada hospital, é necessaria a
um método existente. Por exemplo, vocé
concordancia do diretor (e talvez do conse-
pode pular algumas quest6es do questio-
lho dos representantes) antes que vocé
nario ouacrescentar novas;
possa ter acesso as alas e aos seus adminis-
e se isso nao for suficiente para o estudo
tradores. Uma vez que eles tenham concor-
que esta planejando, a terceira op¢ao é
dado em participar do estudo, vocé deve
desenvolver seu proprio método, como
convencer os membrosindividuais dainsti-
um novo questionario ou uma nova me-
tuicdo a também participarem dele — de
todologia, criando algo como uma nova
acordo com a amostra pretendida (p. ex.,
forma de entrevista (ver Capitulo 7).
sua amostra deve incluir nao apenasoses-
tagidrios, mas também médicose enfermei-
No nosso exemplo,as observacées nas
ras experientes, talvez até mesmo em posi-
alas selecionadas proporcionariam mensu-
cdes de lideranca). No que diz respeito a
racoes de temporelacionadas ao quanto os
pacientes esperam apos a admissao ao hos- protecao dos dados, vocé deve esclarecer
pital para o inicio da avaliacao ou dotrata- como impedir a identificacao de determi-
mento em cada ala. Ao mesmo tempo,vocé nadosparticipantes de dentro e de fora da
pode entrevistar membrosda equipe naala instituicao. Por exemplo, vocé pode desen-
usando um questionario que lide com fre- volver um sistema de apelidos ou desenvol-
quéncia em que esses tempos de espera ver uma forma diferente de anonimizacao.
ocorrem segundo a sua experiéncia e o que Finalmente, deve ser definido quem tem ou
eles enxergam como raz6es para isso (ver nao o direito de acesso aos dados e de que
Capitulo 8). forma.

Passo 9: acesso ao local da pesquisa Passo 10: coleta de dados

Uma vez que vocé tenha terminado o pla- Depois do término dessas preparacdes me-
nejamento do seu estudo no quese refere ao todol6gicas, vocé esta pronto para comegara
nivel metodoldgico, o préximo passo — es- coletar seus dados. Vocé pode, basicamente,
pecialmente se esta conduzindo uma pes- escolher entre trés alternativas principais
quisa aplicada — € encontrar um local em (ver Capitulo 7): realizar uma pesquisadele-
que vocé possarealizar o estudo. Quatrota- vantamento de uma maneira oude outra(p.
refas normalmente tém deser realizadas ex., Com um questionario); realizar observa-
aqui. Primeiro, se for esperado que a sua ¢oes (no nosso exemplo, com uma mensu-
pesquisa tenha lugar em uma instituicao, ra¢ao dos temposde espera); ou, ainda, ana-
vocé tem de organizar o acesso a ela como lisar os documentos existentes (no nosso
Introdugdo a metodologia de pesquisa 59

exemplo, a documentacao dasrotinasde tra- uma categoria. Isto conduz ao desenvolvi-


tamento podeser analisada para os tempos mento de um sistema de categorias (ver Ca-
de espera, que podemser encontradosoure- pitulo 8 para mais detalhes).
construidos a partir desses documentos). Em umestudo quantitativo, a codifica-
¢ao e a categorizacgao sao seguidos por uma
Passo 11: documentagao dos dados andlise estatistica. No nosso exemplo, vocé
Antes de poder analisar seus dados, vocé pode sereferir 4 extensdo média dos tempos
tem que decidir como documenta-los. Uma de espera no dia da semana em que foram
pesquisa de levantamento pode ser comple- medidos ou diferencid-los com relagado as
tada pelos participantes ou, alternativa- alas em que esta mensuracao ocorreu. Asres-
mente, pelo pesquisador, baseando-se nas postas nos questionarios sao analisadas por
suas frequéncias e distribuicdéo em diferentes
respostas dos participantes. A forma da do-
cumentacaotera influéncia nos conteudos e grupos profissionais, por exemplo.
na qualidade dos dados. Por isso, devera ser
Passo 13: interpretagdo dos resultados
idéntica para todosos participantes.
O proximo passosera editar os dados. Nem toda analise estatistica produz resulta-
Tome o exemplo dos questionarios. Empri- dos significativos. A forma de interpretar
meiro lugar, eles precisamser inseridos em quaisquer relagdes encontradas nos dados
seu banco de dados. Questionarios com fre- se torna, portanto, muito importante. Ob-
quéncia incluem quest6es com respostas serve que quando uma anilise estatistica
abertas, nas quails os respondentes podem mostra que alguns eventos ocorrem conco-
escrever suas respostas com suas proprias mitantemente ou que se relaclonam em
palavras. Estas respostas terao de ser codifi- suas frequéncias ou intensidades, isto nao
cadas. Isto significa queelas terao de ser re- proporciona qualquer explicacao para o
sumidas em alguns tipos de respostas e que porqué de isto acontecer e o que significa
a cada um destes tipos sera atribuido um em termos concretos. Se vocé mostra no
numero. Esta elaboracao dos dados tem in- nosso exemplo que os temposde espera nas
fluéncia em sua qualidadee deveser realiza- segundas-feiras sao muito mais prolon-
da de maneira idéntica para cada caso (cada gados do que nas quintas-feiras, este resul-
questionario, cada observacao). Isto possi- tado nao proporciona qualquer explicacao
bilita a padronizacao dos dadose dos pro- para o motivo disto. Se as estimativas dos
cedimentos (ver Capitulo 7). tempos de espera diferem entre as enfer-
meiras e os médicos, precisamos encontrar
Passo 12: analise dos dados uma explicacao para esta divergéncia (ver
Capitulo8).
A analise dos dados constitui um passo im-
portante em qualquer projeto. Nos estudos
Passo 14: discussao dos achados
padronizados, a codificacao dos dados é es-
e de suas interpretacoes
sencial. Isto requer preencher as respostas
em categorias previamente definidas ou A anilise e a interpretacao dos dados e dos
atribuidas a valores numéricos (comoasal- resultados sao acompanhadospela discus-
ternativas de responder de 1 a 5, na Figura sao deles. Isto significa que os achadosestado
1.1). Se vocé nao conseguiu definir as cate- ligados a literatura existente sobre o tema
gorias antecipadamente, os dados (declara- (ou a metodologia usada) e a outros estu-
¢des, observagdes) tém agora que ser cate- dos importantes. Nosso estudo pode en-
gorizados. Isto significa que declaracoes contrar algo novo? Ele confirmou o que ja
idénticas ou similares séo resumidas em era conhecido ou surgiram contradicées
60 Uwe Flick

comrelacao aos resultadosja existentes? O isso. Com frequéncia, também é necessario


que significa se nado puderam ser compro- escolher as informa¢oes importantes — dei-
vadas as hipoteses de que os tempos de es- xando de fora o que € menos importante-,
pera ocorrem mais frequentemente ou sao devido aoslimites de espa¢o e da capacida-
mais estendidos depois dosfins de semana, de de leitura das potenciais audiéncias. Ao
e se este resultado é diferente daquele en- apresentar os resultados e os processos, é
contrado em outros estudos? Comoas per- também importante que vocé consiga tor-
cepcdes dos membros da equipe sobre o nar O processo do estudo transparente para
problema aqui encontrado diferem dosre- os leitores e, assim, lhes permitir avalia-lo e
sultados de pesquisas de levantamento si- aos seus resultados (ver Capitulo 13).
milares realizadas por outros pesquisado-
res?’ No contexto dessa discussdo, vocé Passo 17: 0 uso dos resultados
continuara buscando explicagoes para o Nos camposde pesquisa aplicados ~ como a
que foi encontrado emseus dados. sauide — surge a questao de comoutilizar os
resultados. Isto significa formular implica-
Passo 15: avaliagdo e generalizagao
¢6es ou recomendac¢oes. Por exemplo, como
De um ponto devista metodoldgico, esta vocé pode desenvolver sugestdes para
etapa é particularmente relevante. Vocé vai mudaras rotinas na ala por meio da anilise
avaliar criticamente seus resultados e os dos tempos de espera na vida cotidiana
métodos que a eles conduziram, 0 quesig- dela? O uso dos resultados também pode
nifica checar sua confiabilidade e sua vali- significar aplica-los em contextospraticos —
dade (ver Capitulo 11 para mais detalhes). por exemplo, que um modelo tedrico espe-
Ao mesmo tempo, vocé deve checar que cifico (usado no estudo) seja aplicado em
tipo de generalizacao os resultadosjustifi- algumasalas. Finalmente, “usar” podesig-
cam, perguntando: eles podem sertransfe- nificar testar os resultados em contraposi-
ridos para outros campos, para outras ¢40 as condicées no trabalhopratico e assim
amostras, para uma populacao especifica avalia-los criticamente.
(p. ex., todas as enfermeiras, todasasalas,
todos os hospitais; ou todos os hospitais, Passo 18: desenvolvimento de
médicos, etc., de um tipo especifico)? Um novas questdes de pesquisa
elemento importante aqui é tornar transpa-
rente quais sao os limites dos resultados ob- Um resultado importante de um estudo
tidos: 0 que nao pode ser encontrado ou empirico é a formulacdo de novas questdes
confirmado, que limites sao estabelecidos ou hipéteses de pesquisa para analisar as
para a possibilidade de transferéncia para questOes que permaneceram sem resposta,
outras instituigdes, por exemplo (ver Capi- de forma que a pesquisa no campo possa
tulo 11). progredir.

Passo 16: apresentacdo Passo 19: um novo estudo


dos resultados e do estudo As novas questées de pesquisa podem entao
O fato de os resultados de um estudo serem conduzir a um novoestudo.
reconhecidos depende principalmente da
maneira como estes sao apresentados. Isto Sumario
significa primeiro resumir 0 estudo e seus Estes passos do processo de pesquisa imple-
principais resultados e depois escrever (um mentados na pesquisa padronizada podem
relatorio, um artigo, um livro, etc.) sobre ser vistos como um processo linear, pois
Introdugado a metodologia de pesquisa 61

eles normalmente acompanham um ao aplicados um apos 0 outro e sao em maior


outro. Na pratica, no entanto, o processo é ou menorgrau independentes um do outro.
com frequéncia mais recursivo: vocé vai Na pesquisa qualitativa, estas fases podem
descobrir que com frequéncia precisa voltar também ser importantes, mas sao mais pro-
atras e revisar um passo quandose torna ximamente conectadas. Estas conex6es
evidente que umadecisao anterior nao fun- estao ilustradas na discussao quese segue; €
ciona na pratica. A Tabela 4.2 resume os os numeros dos passos estado especificados
passos do processo da pesquisa na pesquisa na Tabela 4.3.
padronizada. Vocé podeusareste esboco do
processo para planejar seu estudo empirico Passos 1-6: selegao de um problema
tanto na pesquisa padronizada quanto na de pesquisa, busca da literatura,
quantitativa. Ele também pode ser util da questao da pesquisa e do acesso
como uma estrutura paraa leitura e a ava-
Alguns dos passos do processo esbo¢ados
liacao dos estudos empiricos existentes.
para a pesquisa padronizada se aplicam
tambéma pesquisa nao padronizada. Em
particular, vocé vai ter que escolher umpro-
[¥/ Oprocesso da pesquisa blema de pesquisa, formular uma questao
para esta, realizar uma buscasistematica na
na pesquisa qualitativa literatura e obter acesso ao local da pesquisa
nao padronizada antes de podercoletar e analisar os dados.
Se considerarmos novamente o nosso
Comoja vimos, 0 processo da condugao de exemplo, vocé também vai formular uma
pesquisa padronizada podeser fragmenta- questao de pesquisa se estiver realizando
do em umasequéncia linear de passos con- um estudo qualitativo: por exemplo, 0 que é
ceituais, metodolégicos e empiricos. Os caracteristico de situa¢des em que ocorrem
passos isolados podem ser apresentados e tempos de espera (ver exemplo dado). Vocé

Tabela 4.2 PASSOS DO PROCESSO NA PESQUISA PADRONIZADA

Selecao de um problema de pesquisa


ODYWRAORWNH >

Busca sistematica da literatura


Formulagao da questao central da pesquisa
Formulagao de uma hipotese
Operacionalizagao
Desenvolvimento de um plano de projeto ou concepgao da pesquisa
Amostragem
Escolha dos métodos apropriados
Acesso ao local da pesquisa
10. Coleta de dados
11. Documentacao dos dados
12. Analise dos dados
13. Interpretagao dos resultados
14. Discussao dos achados e de suas interpretagoes
15. Avaliagao e generalizacao
16. Apresentacao dos resultados e do estudo
17. Ouso dos resultados
18. Desenvolvimento de novas questoes de pesquisa
19. Um novo estudo
62 UweFlick

vai examinar aliteratura e buscar permis- temente na interpretagdo dos dados, nao
so para ter acesso ao campo. Vocé nao vai, importando como foram coletados. Aqui, a
no entanto, formular uma hipotese a ser questao de que método usar para coletar os
testada. dados torna-se menos importante. As deci-
soes sobre os dados a serem integrados e os
Passo 7: amostragem, coleta, métodos a serem usados paraisto baseiam-
documentacao e analise dos dados -se no estado da teoria em desenvolvimento
Na pesquisa qualitativa, as partes remanes- apos a analise dos dados ja disponiveis na-
centes do processo da pesquisa tendem a quele momento (ver Capitulo 8).
estar mais inter-relacionadas do que na pes- Na documenta¢ao dos dados, o regis-
quisa padronizada. Glaser e Strauss (1967) tro é normalmente o primeiro passo. As en-
desenvolveram esta concepc¢ao do processo trevistas, por exemplo, sao gravadasem fita,
da pesquisa em sua abordagem dateoria gravadores de mp3 ou video. Nas observa-
fundamentada (ver também Strauss e Cor- ces, as anotacgdes de campo ou protocolos
bin 1990 e Strauss 1987). O objetivo da teo- sao escritos, algumas vezes baseados em
ria fundamentadadentro da pesquisa quali- gravacoes em video. Para as entrevistas, a
tativa a torna muito diferente da pesquisa transcricao — isto €, compor um textoescri-
padronizada. O objetivo é realizar pesquisa to a partir do que foi registrado acustica-
empirica para usar os dadose suas anadlises mente — é 0 proximopasso (ver Capitulo 7).
a fim de desenvolver umateoria acerca da Na pesquisa qualitativa, a interpreta-
questao em estudo. Assim, a teoria nao é cao pode envolvera analise das declaracdes
um ponto de partida para a pesquisa, mas da entrevista, eventos ou acdes documenta-
sim oO resultado intencional do estudo. dos nas anotacées de campofeitas a partir
Isso tem consequéncias para o planeja- das observacées. Aqui vocé também busca-
mento e para Os passos no processo da pes- ra explicagoes: por que algumasdeclarac¢oes
quisa. A abordagem dateoria fundamenta- ocorrem em contextos especificos junta-
da prioriza os dados e 0 campo em estudo mente com outras declarac6es, ou por que
em vez das suposic6es tedricas, ou seja, as elas ocorrem com mais frequéncia em de-
teorias sao menosaplicadas ao tema em es- terminadas condic6es (ver Capitulo 8).
tudo. Em vez disso, elas sao “descobertas”e No nosso exemplo, os pesquisadores
formuladas no trabalho com o campo e os come¢ariam com observacées nao muito
dados empiricos a serem nele encontrados. estruturadas em umaala e conversariam
As pessoas a serem estudadassao seleciona- com os membros(equipe, pacientes, pessoal
das segundoa sua relevancia para 0 t6pico administrativo, etc.) com o grau de formali-
da pesquisa. Elas nao sao selecionadasalea- dade mais adequadoa cada caso. Depois de
toriamente para construir uma amostra es- analisarem seus primeiros dados, eles vao
tatisticamente representativa de uma popu- selecionar e incluir outra ala, continuar as
lacao geral. O objetivo nao é reduzir a observacGes e as conversas nesta e analisar
complexidade fragmentando-a em varia- Os materiais resultantes. Eles vao continuar
veis, mas sim aumentar a complexidadein- a incluir mais casos e fazer comparacoes
cluindo o contexto. Os métodos também entre todos os casos até entao incluidos.
tém que ser apropriados ao tema queesta
sendo estudado e ser escolhidos de acordo Passos 8-13: discussao,
com ele. Esta abordagem se concentra for- generalizagao, uso dos resultados
€ novas questoOes da pesquisa
“N. de R.T.: Neste livro, 0 termo grounded theory foi Assim comona pesquisa padronizada,a co-
traduzido como“teoria fundamentada”. leta e andlise dos dados (ver Capitulos7 e 8)
Introdugao a metodologia de pesquisa 63

conduzirao a uma discussao dos resultados dados — por exemplo, a primeira entrevista.
e a sua validade e confiabilidade (ver Capi- A partir da analise destes dados, vocé pode
tulo 11). No entanto,a generalizacao aqui se chegar a novas decisdes, como quem entre-
refere menos a uma maneiraestatistica do vistar em seguida (por isso, neste exemplo, o
que a uma maneira teorica. Apresentar e processo da amostragem continua). Vocé
usar os resultados e desenvolver novas ques- também vai come¢ar imediatamente a com-
toes da pesquisa tambémserao ospassosfi- parar seus dados — por exemplo, a segunda
nais aqui. com a primeira entrevista, e assim pordian-
te. O objetivo aqui é desenvolver umateoria
a partir do material empirico e da andlise,em
‘vO processo da pesquisa que o ponto de partida foram as suposic6es
preliminares sobre a questao que vocé quer
social: comparacao entre estudar. Este processo esta representado na
a pesquisa quantitativa parte inferior da Figura 4.1.
Apesar desta interligacao de alguns
e a pesquisa qualitativa Passos essenciais no processo da pesquisa,
vocé pode também ver 0 processo de pes-
A pesquisa qualitativa é compativel apenas quisa qualitativo ou nao padronizado como
até certo ponto com ldgica tradicionale li- até certo ponto formando uma sequéncia
near da pesquisa empirica (quantitativa ou de decisées (ver Flick, 2009). Estas decis6es
padronizada). A interligacao dos passos em- se referem a selecao do(s) método(s) especi-
piricos segundo o modelo de Glasere Strauss fico(s) de coleta e analise dos dados a ser(em)
(1967) tende a ser mais apropriada ao carater aplicado(s), ao procedimento de amostra-
da pesquisa qualitativa, que é mais orientada gem usado noestudo concreto (ver em se-
para a exploracao e descoberta do que é guida) e as maneiras de documentar e apre-
novo. A Figura 4.1 resumeas diferencas entre sentar os resultados.
as duas abordagens. Na pesquisa quantitati- Neste capitulo, a Tabela 4.3 justapde
va, vocé tem um processo linear (passo a de maneira comparativa os conceitos do
passo) que parte da teoria e termina com a processo de pesquisa da pesquisa padroni-
sua validacao, baseada em sua testagem. A zada e nao padronizada. Isto indica as prin-
amostragem é em geral terminadaantes do cipais diferencas entre os processos de
inicio da coleta dos dados — 0 quesignifica, ambas. Estas envolvem principalmente o
por exemplo, que vocé fixou a estrutura da grau de padronizacao dos procedimentos,
sua amostragem antes de enviar um questio- proporcionando uma base para o planeja-
nario. S6 faz sentido comegara interpretar os mento dos passos do seu proprio projeto e
dados — por exemplo, uma aniliseestatistica para o desenvolvimento de uma concep¢ao
— quandoa coleta dos dados for concluida adequada para o seu estudo(ver Capitulo 5
(ver Capitulos 7 e 8). Por isso, estes passos para mais detalhes).
podem ser vistos como formando umasequ-
éncia e vocé vai trabalhar com eles, um apos
© outro, como representado na parte supe- iv} Lista de verificacao
rior da Figura 4.1.
Na pesquisa qualitativa, estes passos
para o planejamento
sdo mais interligados. As decis6es sobre a de um estudo empirico
amostragem sao tomadasdurante a coleta de
dados, e a interpretacao dos dados deveser Para planejar o seu proprio projeto empiri-
iniciada imediatamente com os primeiros co, vocé deve levar em conta os aspectos
ose)

Modelos de processo da pesquisa padronizada e nao padronizada (Flick, 2009,p. 95).


oedejesdsayy}
e180
oedeiedwo7 oedeiedwo0y
ose4) ose)
oedejaidsaju| saieulu|aid
e10ay q— oedejaidiayuy
saodisodns
e39|09 213(09
esitnbsaed
ep ossao0id
op deynod19
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ep ossao0id
soesalodiy |< el0aL Op JeeUul|
e1a|09 wabesjsowy Ke oedezijeuolsesadQ
UweFlick

oedepien oedejaidiajyu| o|apo-w

Figura 4.1
64
Introducgdo a metodologia de pesquisa 65

mostrados no Quadro 4.1 e encontrar res- seu proprio estudo, mas vocé pode também
postas para as questOes que surgem. Esta _usd-lo para avaliar os estudos existentes de
lista de verificagdo pode ajuda-lo a planejar outros pesquisadores.

Tabela 4.3. PASSOS 00 PROCESSO NA PESQUISA PADRONIZADA E NAO PADRONIZADA

Pesquisa padronizada Pesquisa nao padronizada

1. Selecao de um problema de pesquisa 1. Selegao de um problema de pesquisa


2. Busca sistematica da literatura 2. Busca sistematica na literatura
3. Formulagao da questao da pesquisa 3. Formulagao da questao da pesquisa
4. Formulagao de uma hipotese 4. Desenvolvimento de um plano do projeto
Ou concepcgao da pesquisa
5. Operacionalizacgao 5. Selecionar os métodos apropriados
6. Desenvolvimento de um plano do projeto 6. Acesso ao local da pesquisa
ou concepgao da pesquisa
7. Amostragem 7 Amostragem, coleta de dados, documenta-
¢ao dos dados, analise dos dados,
comparagao, amostragem, coleta de
dados, documentacao dos dados, analise
dos dados, comparagao...
8. Selecao dos métodos apropriados
9. Acesso ao local da pesquisa
10. Coleta dos dados
11. Documentagao dos dados
12. Analise dos dados
13. Interpretagao dos resultados
14. Discussao dos achados e suas interpreta- 8. Discussao dos achados e suas interpreta-
coes coes
15. Avaliagao e generalizagao 9. Avaliagao e generalizagao
16. Apresentagao dos resultados e do estudo 10. Apresentacao dos resultados e do estudo
17, Uso dos resultados 11. Uso dos resultados
18. Desenvolvimento de novas questoes de 12. Desenvolvimento de novas questoes de
pesquisa pesquisa
19. Um novo estudo 13. Um novo estudo

Quadro 4.1

LISTA DE VERIFICACAO PARA O PLANEJAMENTO DE UM ESTUDO EMPIRICO

1. Estar consciente de quais passos no processo da pesquisa sao apropriados para 0 tipo de
estudo que vocé planeja.
2. Buscar estabelecer se o conhecimento e a pesquisa existentes sobre o seu tema sao
suficientes para planejar e realizar um estudo padronizado em que vocétestara hipoteses.
3. Ou buscar esclarecer se 0 conhecimento empirico e tedrico sobre a questao do seu estudo
é tao limitado ou tem tantas lacunas que faria mais sentido planejar e realizar um estudo
qualitativo nao padronizado.
4. Checar os procedimentos em seu plano com relagao a sua conveniéncia. O plano metodo-
logico do seu estudo se ajusta (a) aos objetivos do seu estudo, (b) a sua baseteorica (c)
ao estado da arte da pesquisa?
5. Este tipo de processo de pesquisa sera compativel com o tema que vocé quer estudar e
com o campo em que vocé pretende realizar sua pesquisa?
66 UweFlick

Y Os estudos quantitativos e qualitativos seguem alguns passos similares e alguns passos diferentes no
processo da pesquisa.
Y A pesquisa quantitativa é planejada em um processo linear.
v Na pesquisa qualitativa, em muitos casos Os passos no processo da pesquisa estarao interligados.
Y Captar com firmeza os passos que compreendem o processo da pesquisa em cada caso vai |he
proporcionar uma base para planejar seu proprio estudo.

Bryman, A. (2008) Social Research Methods, 3. ed,


[~ Leituras adicionais Oxford: Oxford University Press.
Flick U. (2004) “Design and Process in Qualitative
No primeiro e no ultimo livros, sao discuti- Research’, in U. Flick, E.v. Kardorff e I. Steinke
das visdes gerais do planejamento da pes- (eds), A Companion to Qualitative Research.
quisa social em uma abordagem quantitati- London: Sage. P. 146-152.
va, enquanto os outros dois estao focados Flick U.(2009) Introdugao a Pesquisa Qualitativa,
neste tema no quese refere aos estudos qua- 3. ed. Porto Alegre, Artmed. Capitulo 9.
litativos. Neuman, W.L. (2000) Social Research Methods:
Qualitative and Quantitative Approaches, 4.ed.
Boston: Allyn and Bacon.
“6&5
Concepcao da pesquisa social

VISAO GERAL DO CAPITULO

Escrita de uma proposta para UM Projet de PESQUISA ou... ccecessceccsssestsscsescsescaeetscsnscsrssessseseessesesesesees 68


Desenvolvimento de UM CrONOGFAMA ou... cececesssesesesescsssessscscscstscscssssseavscecscstssssssscsesescsessscesatesissseeteaserees 69
CONCEPGAO de UM CStUGO... eee scesecceseeseceesesseseeseseceessssssesusseesssussessesusseessavesessesctesuesusseesssesneseateseeasssetesseeteess 70
AMOStFAGEM ooceeccececcctetsesesssesscseseceeseseseesesssecsuseeasaesssssssssssvscecaesessssssssavavacauersssassssssesasaesenecesasasineseasasseetscseseateneass 77
AVANIAG AO... ee eceecceeeeceseesssesesccscsessscacesuesesssscssscsusnesssvenensssessscsussesesvesesvescssessscacsusscaseisiuensacaussssesseseesaeeessessneseeeenss 82
Lista de verificagao para a CONCEPGAO de UM EStUdO EMPIFICO «ue ccectesteeeeeeeseeesesestsertseeereeneeee 83

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


entender como e por que escrever uma proposta e desenvolver um cronograma;
NS

desenvolver uma visdo geral das mais importantes concepcoes de pesquisa;


entender os procedimentos para selecionar os participantes do estudo;
apreciar as Caracteristicas especiais da pesquisa avaliativa.
68 Uwe Flick

Tabela 5.1 NAVEGADOR PARA 0 CAPITULO 5

Orientagao ¢ O que é pesquisa social?


¢ Questao central de pesquisa
e Revisao da literatura

Vocé esta aqui Planejamento e e Planejamento da pesquisa


no seu projeto concepgao * Concep¢ao da pesquisa

v
e Decisao sobre os métodos

Trabalhando Coleta de dados


com dados Analise dos dados
Pesquisa on-line
Pesquisa integrada

Reflexdo e escrita Avaliacgao da pesquisa


Etica
e Aescrita e o uso da pesquisa

O Capitulo 4 apresentou um esboco topico. Na descrigao do problema dapes-


do processo da pesquisa. Agora vamosusar quisa, vocé deve resumir 0 estagio de evolu-
este esboco para apresentar umabase para cao da pesquisa e daliteratura e derivar seu
o planejamento da pesquisa. proprio interesse na pesquisa a partir das
lacunas que se tornam evidentes neste su-
mario. A énfase que vocé vai colocar em
[¥% _Escrita de uma proposta cada um dos pontos vai depender do tipo
de estudo que vocé planeja. Para um estudo
para um projeto de quantitativo, a revisdo da literatura sera
pesquisa mais extensiva do que seria para um estudo
qualitativo. O proposito do estudoe o obje-
O planejamento da pesquisa social torna-se tivo da sua realizacao devem ser brevemen-
mais concreto quando vocé esta preparando te descritos. Um ponto importante em
a tese final em um programa universitario. qualquer proposta é a questao central da
Na maioria dos casos, vocé vai precisar de pesquisa (ver Capitulo 2) que, se possivele
uma proposta para inscrever a sua tese e necessario, podera ser dividida em quest6es
também para se candidatar a uma bolsa de principais e subquestoes.
estudos. Se isto nao for requerido, a escrita A necessidade de formular ou nao
de uma proposta pode ainda ser um passo uma hipotese vai dependerdotipo de pes-
importante e util para planejar o seu projeto quisa que vocé pretende fazer. Para um es-
e para estimarse ele € realista sob condicées tudo quantitativo, este passo deve ser sem-
como tempo disponivel e habilidades que pre incluido. Em qualquer dos casos, vocé
vocé possui. Umaproposta para um projeto precisa descrever os procedimentos meto-
empirico deve incluir tépicos e subitens, doldgicos que pretende aplicar. Com rela-
como segue (ver Tabela 5.2). ¢aO a pesquisa qualitativa, vocé deve apre-
Na introdug¢ao, vocé deve esbocarbre- sentar uma justificativa curta de por que
vemente a base do seu projeto (por que usaraé métodos qualitativos e trabalhara
vocé pretende realiza-lo) e a relevancia do com este método especifico. Na pesquisa
Introdugao a metodologia de pesquisa 69

quantitativa, tal justificativa com frequén- seada) e deve aumentar a probabilidade de


cia nao é considerada necessaria. Ja a estra- vocé realizar umtrabalho bem-sucedido.
tégia da pesquisa — uma abordagem explora-
toria, de testagem da hipotese ou avaliativa
— deve ser também descrita. Na proposta [~% Desenvolvimento
vocé deve esbocar a concep¢ao da pesquisa
(ver em seguida) em seus principais aspec- de um cronograma
tos: que amostra sera incluida, qual sera o
seu tamanho, em que perspectiva compara- Um cronograma para0 seu projeto devees-
tiva ela é baseada? No passo seguinte, sua bogar tanto os passos requeridos no proces-
proposta deve incluir uma descri¢aoe justi- so da pesquisa (ver Capitulo 4) quanto o
ficativa breves dos métodos que vocé pre- tempo estimado para cada um deles. Vocé
tende usar para coletar seus dados (ver Ca- também podeindicar marcos, indicando os
pitulos 6 e 7), para analisa-los (ver Capitulos resultados que devem ser esperados a cada
6 e 8) ecomo vocévai avaliar a qualidade do
passo completado. No Quadro 5.1, vocé vai
seu estudo (ver Capitulo 11). Em muitos encontrar um exemplo de um cronograma
contextos, ha a exigéncia de que uma pro-
para um estudo qualitativo usando entre-
vistas e observacao de participantes (este foi
posta cubra as questoes éticas (prote¢ao dos
dados, nao maleficéncia, consentimentoin- extraido do nosso estudosobre conceitos de
formado,etc.: ver Capitulo 12) e demonstre saude de adolescentes sem-teto — ver Flick e
Rohnsch, 2007). Tal cronograma pode ter
como os pesquisadores pretendem leva-las
em contaao realizar o seu projeto. duas funcdes. Em uma proposta para se
Neste contexto, vocé deve considerar candidatar a um financiamentoestudantil,
ela deve demonstrar quanto temposera ne-
que resultados espera do seu estudo e qual
cessario e para o qué, a fim de convencer a
sera sua relevancia a luz de resultados an-
teriores e quest6es praticas (ver Capitulos
agéncia de financiamento de que a bolsa de
estudos que vocé pede é justificada. Ao con-
1 e 13). Vocé vai elaborar em mais detalhes
ceber a pesquisa (ver a seguir), 0 cronogra-
o estado da pesquisa ao escrever a sua tese
ou 0 relatorio final dela. Nao obstante, eu ma vai ajuda-lo a se orientar no planeja-
mento do projeto.
recomendaria enfaticamente que vocé ob-
tivesse uma primeira visao geral da litera- Para a realizacao do trabalho de pes-
quisa (e, anteriormente, a proposta) deve-se
tura enquanto estiver planejando o seu
ter em menteas seguintesdiretrizes:
projeto, de forma a garantir que nao adote
uma questao de pesquisa queja tenha sido
respondida antes em extensao suficiente. e vocé deve tentar tornar a concepcao da
Finalmente, vocé deve discutir brevemente sua pesquisa e os métodos a serem utili-
as condicoées praticas da realizacgao do seu zados 0 mais explicitos, claros e detalha-
estudo. Para este proposito, sera conve- dos quanto for possivel;
niente desenvolver um cronograma (ver e as quest6es de pesquisa e a relevancia dos
em seguida) e delinear sua propria expe- procedimentos planejados e dos dados e
riéncia com a pesquisa. Aofinal dela, deve- resultados esperados para respondeé-los
ra ser acrescentada uma lista de referéncias também devem ser o mais explicitas e
preliminar. claras possiveis;
Explicar claramente os tdpicoslistados e oestudoe os resultados e implica¢oes es-
na Tabela 5.2 é util para o desenvolvimento perados devem ser situados em seus con-
do seu projeto de pesquisa (e a tese nele ba- textos académicose praticos;
70 Uwe Flick

Tabela 5.2 MODELO PARA UMA ESTRUTURADA PROPOSTA

1. Introdugao
2. Problema central da pesquisa
a) Literatura existente
b) Lacunas na pesquisa existente
c) Interesse da pesquisa
Proposito do estudo
ae w&

Questoes da pesquisa
Metodos e procedimentos
a) Caracteristicas da pesquisa qualitativa e por que ela é apropriada neste caso
b} Estrategia da pesquisa
c) Concepgao da pesquisa
i) Amostragem
ii) Comparagao
iii) Numero esperado de participantes, casos, locais, documentos
d) Métodos de coleta de dados
e) Métodos de analise dos dados
f} Questoes de qualidade
6. Questoes éticas
7. Resultados esperados
8 . Significancia, relevancia, implicagoes praticas do estudo
9. Conclusées preliminares, pesquisas anteriores, experiéncia do(s) pesquisador(es)
10. Sua propria experiéncia com a realizacao de pesquisa social
11. Cronograma, orgamento proposto
12. Referéncias

e a ética e os procedimentos devem estar o tenha colocado. A concepgao de uma


investigacao aborda quase todososas-
mais refletidos quanto for possivel;
pectos da pesquisa, desde os menores
« os métodos devem ser explicitados nao
detalhes da coleta de dados até sele-
apenas no como (doseu uso) mas tam- cao das técnicas de analise destes.
bém no porqué (de sua escolha); (1994, p. 191)
e garantir que os planos, os cronogramas,
as experiéncias e competéncias existentes, Quando vocé constré6i ou usa uma
além dos métodos e os recursos a serem concep¢ao de pesquisa especifica, os objeti-
usados,estejam todos ajustados a um pro- vos sdo, em primeiro lugar, possibilitar a
grama solido para sua pesquisa. resposta a questéo da pesquisa e controlar
os procedimentos. “Controle” aqui se refere
aos meios de manter as condic6es do estudo
[7 Concepcao de um estudo constantes, de forma que as diferengas nas
respostas de dois participantes possamestar
Um conceito fundamental no planejamen- enraizadas em suas proprias diferengas (em
to da pesquisa € a sua concepcao, que Ragin suas atitudes, por exemplo) e nao resultem
define da seguinte maneira: do fato de os participantes terem sido inda-
gados de maneiras diferentes. Isto, por sua
A concep¢ao da pesquisa é um plano vez, requer que vocé mantenha constantes
para a coleta e a andlise de evidéncias as condicées do estudo e defina seus proce-
que ira possibilitar ao investigador res- dimentos de amostragem (quem foi sele-
ponder quaisquer questdes que ele cionadoe por qué:ver em seguida).
Introducao a metodologia de pesquisa 71

CRONOGRAMAPARA UM PROJETO DE PESQUISA(FLICK E ROHNSCH, 2007)

Passodo trabalho Mésdo projeto


17/2/3]/4/5];61718 10} 11112) 13] 14) 15] 16 17} 18} 19 |20 21] 22 |23 24
Pesquisa
da literatura

Desenvolvimento
de instrumentos
e preé-teste

Trabalho de
campo: encontro
dos participantes
e coleta de dados
(p. ex., entrevistas)

Transcrigao

Trabalho de
campo:
observagao
participante

Escrita dos
protocolos da
observacao

Analise das
entrevistas

Analise dos
protocolos da
observacao

Vinculagao dos
resultados com
a literatura

Relatorio final
e publicagoes

£2 Marcos

Na pesquisa quantitativa, outro obje- durante o tratamento) nado influenciem o


tivo das concepcoes de pesquisa € 0 contro- curso da doenca. Uma maneira de controlar
le das varidveis externas. Isto se refere a fa- essas variaveis externas é usar amostras ho-
tores que nao fazem parte das relagdes que mogéneas (ver a seguir). Por isso, vocé vai
sao estudadas, mas influenciam o fenédme- selecionar pacientes que sejam bastante si-
no em estudo. Se vocé estuda osefeitos de milares em suas caracteristicas (p. ex., ho-
uma medicacéo no curso de uma determi- mens de 50-55 anos com profissdes especi-
nada doenca, deve se certificar de que ou- ficas). A desvantagem dessa amostra tao
tros fatores (p. ex., caracteristicas especifi- homogénea é que vocé s6 podera generali-
cas de alguns pacientes ou a alimentagao zar os resultados para pessoas que também
72 UweFlick

preencham os critérios da amostra (ho- Para descobrir se existe realmente


mens de 50-55 anos com profissdes especi- uma relaca4o desse tipo — que a cura depen-
ficas). E mais consistente extrair uma amos- de da medicagao (e nao de alguma outra
tra aleatoria (ver a seguir). A desvantagem coisa) — vocé vai aplicar uma concepcao de
aqui é que a amostra val precisar ser mais grupo-controle. Dois grupos de pacientes
consideravel caso se queira representar nela sao selecionados; os membros destes gru-
caracteristicas especificas (de subgrupos de pos sao comparaveis em caracteristicas
pessoas). comodiagnésticos, idade e género. O grupo
Umasegunda maneira de controlar as de intervencao recebe 0 medicamento que
influéncias externas é usar métodosconsis- esta sendo estudado. O grupo-controle nao
tentes para a coleta de dados. Isto significa recebe o medicamento ou recebe um place-
que os dadossao coletados de todosos par- bo (comprimido sem substancia e efeitos).
ticipantes da mesma maneira, de forma a Apos o final do tratamento no primeiro
garantir que as diferencas nos resultados grupo, vocé pode comparar os dois grupos
venham dasdiferengas nas atitudes dospar- para ver se nele o tratamentofoi mais bem-
ticipantes e nao das diferencgas na situa¢ao -sucedido do que no grupo-controle. Se no
da coleta dos dados. Algumas das concep- fim os dois grupos exibem as mesmas mu-
¢des mais comuns na pesquisa empirica dancas, o efeito nao pode ser atribuido a
serao apresentadasa seguir. medica¢ao (ver Figura 5.1).

Concepcoes da pesquisa na Concep¢oes experimentais


pesquisa padronizada
A concepc¢ao de grupo-controle também
Concep¢oées dos grupos-controle constitui a base da pesquisa experimental.
Para continuar 0 nosso exemplo aqui, o ob-
Vamos comecar com um exemplo. Na pra- jetivo é menos descobrir os efeitos de um
tica de um hospital, pode ser observado medicamento do que testar osefeitos de to-
que, em pacientes que recebiam determina- ma-lo. Os experimentos consistem em atos
da medica¢a4o, os sintomas foram reduzidos direcionados para o objetivo sobre os gru-
e desapareceram ao final do tratamento. pos experimentais para analisar os efeitos
Isto indica que ocorreu cura. Para descobrir destes atos. Uma concepcao experimental
se a melhora do estado dos pacientes é cau- inclui pelo menos dois grupos experimen-
sada pela medicacdo em estudo, sao com tais, aos quais Os participantes sao aleatoria-
frequéncia aplicadas concepcoes dos gru- mente alocados. A variavel independente ¢
pos-controle. Nessa concepcao, 0 medica- manipulada pelo pesquisador (Diekmann,
mento é rotulado comoa varidvel indepen- 2007, p. 337).
dente. A melhora que ele produz no estado Em um estudo experimental, em con-
do paciente € a varidvel dependente. Obser- traste com uma concepcao de grupo-con-
ve que o termovaridavel “dependente” refe- trole, a medicacao (variavel independente)
re-se a varidvel que é causada ou modifica- é dada ou modificada para propositos de
da poroutra (a variavel independente). No pesquisa. Parase ter certeza de que um efel-
nosso exemplo, a cura depende do recebi- to observado (de cura, p. ex. — varidvel de-
mento da medicacao. Por isso a medicacdo pendente) ndo vem de o paciente saber que
é rotulada de independente, pois nao é in- “eu estou sendo tratado”, ja que os partici-
fluenciada pela outra variavel neste lugar; a
pantes nao sao informadosse fazemparte
cura nao tem efeito sobre a medicacao.
do grupo que recebe a medicacdo ou do
Introdugao a metodologia de pesquisa 73

Variavel independente Variavel dependente

Grupo de intervencgao Medicacao ? - Cura


(experimental) "

Grupo-controle Sem medicacao ? ~ Cura

Figura 5.1
Concepc¢ao do grupo-controle.

grupo que recebe um placebo sem efeito. hospital, mas em um localartificialmente


Como0 paciente nao sabe se recebeu a me- concebido.Isto permite, na medida do pos-
dicacao ou o placebo, esta concepcao tam- sivel, o controle ou a exclusao de quaisquer
bém é chamadadeteste cego. influéncias externas. A desvantagem é que
No nosso exemplo, se uma diferenca os resultados sao de dificil transferéncia
clara é evidenciada — queosefeitos de cura para contextos fora do laboratério — isto é,
no grupo de interven¢ao podem ser docu- para a vida cotidiana.
mentadospara significativamente mais pa-
cientes do que no grupo-controle, isto pode
ainda se dever a outra influéncia. Pode nao Concep¢ao pré-pos
ser a medicacao em si que produz o efeito
da cura, mas sim a atencao por parte das Outra maneira de excluir as variaveis de in-
enfermeiras ou dos médicosassociada a ad- fluéncia externa é realizar uma mensura¢ao
ministracao do comprimido.Para se poder pré-pds com os dois grupos. Primeiro si-
excluir esta influéncia, em muitas experién- tuacao inicial é mensurada nos dois grupos
clas com medicacao é aplicado um teste (mensuracao pré-teste). Depois 0 grupo ex-
duplo cego. Aqui os dois grupos recebem perimental recebe o tratamento (interven-
tratamentos, o grupo de intervencao com a ¢40). No fim, em ambosos gruposa situa-
medica¢ao e o grupo-controle com um pla- ¢4o pds-teste é documentada. Um problema
cebo com aparéncia idéntica. Para evitar aqui € que a primeira mensura¢ao podein-
qualquerinfluéncia por parte das enfermei- fluenciar a segunda, devido a um efeito de
ras ou dos médicos que dao a medica¢ao — aprendizagem, por exemplo. Isto significa
por exemplo, quaisquer sinais subconscien- que a experiéncia com ostestes, as mensu-
tes enviando a mensagem de que o placebo racoes ou as questoes pode facilitar a reacao
nao tem efeito — vocé nao informaria aos na segunda mensuragao — por exemplo,
médicos e as enfermeiras qual comprimido uma questao podeser mais facilmente res-
€ a medicacao e qual € 0 placebo. Nem os pondida (ver Figura 5.2).
pacientes nem os médicos nem as enfermei-
ras sabem quem recebeu a medicacao e
quem recebeuo placebo. Por isso, esta con- Estudos de corte transversal e
cepcao é chamadadeteste duplo cego. estudos longitudinais
Para excluir, na medida do possivel, as
influéncias de outras varidveis, Os experi- A concep¢ao apresentada até agora tem por
Mentos sao com frequéncia conduzidos em objetivo controlar as condi¢ées do estudo.
laboratérios. Eles sao realizados nado nas ro- Isto permite captar o estado no momento
tinas do servico ou na vida cotidiana do em queele ocorre. A maior parte dos estudos
74 UweFlick

Intervencao Pos-teste
Pre-teste

Figura 5.2
Concepgao pre-pos.

é planejada parase obter um retrato do mo- cia de um evento especifico sobre atitudes
mento: as entrevistas ou as pesquisas dele- ou o curso da vida. Um exemplo é comose
vantamento sao realizadas em um determi- desenvolve a doenga mental de um membro
nado momento — por exemplo,para analisar da familia e comoela influencia a atitude
a atitude de um grupoespecifico (os france- dos seus outros membros com relacao a
ses) comrelacaéo a umobjeto especifico (um doencga em geral ao longo dos anos. Um
partido politico). Essa retratagao é baseada problema neste contexto pode ser que este
em uma concep¢ao decorte transversal: uma processo de atitudes em mutac¢ao so pode
mensuracao é realizada para captar o estado ser coberto de uma maneira abrangente
em um momentoespecifico. Na maioria dos quando atitude foi mensurada pela pri-
casos, vocé assume umaperspectiva compa- meira vez antes de o evento ter ocorrido.Se
rativa, por exemplo, comparandoas atitudes isto nao é possivel, com frequéncia é reali-
de varios subgrupos — como aqueles que vo- zado um estudoretrospectivo. Depois que a
taram em um partido politico e aqueles que doenga foi diagnosticada, os membros da
votaram em outro partido em umaeleicao. familia sao indagados sobre quais mudan-
Entretanto, se os processos, cursos ou Gas ocorreram em suaatitude com rela¢ao a
desenvolvimentos constituem o foco does- doenca mental antes do seu advento e quais
tudo, tal concep¢ao de corte transversal nao estao ocorrendo agora.
sera suficiente. Em vez disso, vocé devepla-
nejar um estudo longitudinal para docu-
mentar um desenvolvimento — por exem- Concepcoesde pesquisas
plo, as atitudes de um ou mais grupos ao nao padronizadas
longo dos anos. Esta atitude é mensurada
repetidamente: por exemplo, os mesmos A pesquisa qualitativa ou nao padronizada
instrumentos sao usados a cada dois anos presta menos atencao as concepcoesda pes-
com as mesmas amostras para se descobrir quisa e ainda menosao controle das condi-
como mudaram asatitudes com relacao a goes através da construcdo de concep¢oes
um determinadopartido politico. Se vocé especificas. Em geral, o uso do termo“con-
repetir essas pesquisas de levantamento nao cepcao de pesquisa” refere-se aqui ao plane-
apenas uma vez, mas varias, vocé podera Jamento de um estudo: como planejar a co-
produzir séries temporais ou andalises de leta e a analise dos dados e comoselecionar
tendéncia para documentar mudangas de o “material” empirico (situacdes, casos, in-
longo prazo nasatitudespoliticas. dividuos, etc.) para se poder responder a
Os estudos longitudinais tambémsao questao da pesquisa no tempo e com 0sre-
interessantes se vocé quer estudara influén- cursos disponiveis.
Introdugdo a metodologia de pesquisa 75

A literatura sobre as concepcoes da conhecimento especializado de varias pes-


pesquisa na pesquisa qualitativa (ver tam- soas Com respeito a uma experiéncia con-
bémFlick, 2004b, 2008b ou 2009, Capitulo creta de doenca. Pode, também, comparar
12) trata da questao a partir de dois angu- biografias de pessoas com uma doencaes-
los. Creswell (1998) apresenta um numero pecifica e o subsequente curso da vida. Aqui
de modelos basicos de pesquisa qualitativa surge a questao da selecado dos casos nos
a partir dos quais os pesquisadores podem grupos a serem comparados.
selecionar um para seu estudo concreto. Outro problema é qual grau de pa-
Maxwell (2005) discute as partes a partir droniza¢ao ou constancia é requerido para
das quais uma concepcgao de pesquisa é aquelas condi¢6es nas quais vocé nao esta
construida. (Ver Flick, 2009, Capitulo 12, focado, Por exemplo, para conseguir mos-
para mais detalhes do que segue). trar diferencas culturais nas vis6es de
saude entre mulheres portuguesas e ale-
mas em um estudo que conduzimos, opta-
Estudos de caso mos por entrevistar casais das duas cultu-
ras. Tivemos que garantir que, no maximo
O objetivo dos estudos de caso é descri¢ao de aspectos possiveis, eles vivessem sob
ou reconstrucado precisa dos casos (para condi¢6es ao menos bastante similares (p.
mais detalhes, ver Ragin e Becker, 1992). ex., vida em cidade grande, profiss6es,
Aqui 0 termo “caso”€ entendido como algo renda e nivel de educacéo comparaveis)
mais amplo. Vocé pode usar pessoas, comu- para conseguir relacionar diferencas com
nidades sociais (p. ex., familias), organiza- relacao a dimensao comparativa de “cultu-
Gdes e Instituicdes (p. ex., uma casa de re- ra’ (ver Flick, 2000b).
pouso) como o tema de uma analise de
caso. Seu principal problema sera entao
identificar um caso queseria relevante para Fstudos retrospectivos
a sua questao de pesquisa e esclarecer 0 que
mais esta ligado ao caso e que abordagens A reconstrucao de caso é caracteristica de
metodoldgicas sua reconstrucao requer. Se um grande numero de investigacdes bio-
0 seu estudo de caso esta preocupado com a graficas que examinam uma Série de anali-
doenca cronica de uma crianga, vocé tem ses de caso de uma maneira orientada para
que esclarecer, por exemplo,se é suficiente a tipologia ou 0 contrastante (ver Capitulo
observar a crianca no ambiente do trata- 8). A pesquisa biografica € um exemplo de
mento. Vocé precisa integrar uma observa- uma concep¢ao de pesquisa retrospectiva
¢ao da familia e sua vida cotidiana? E neces- em que, partindo do ponto no tempo em
sério entrevistar as professoras e/ou os que a pesquisa é realizada, alguns eventos e
colegas? processos sao analisados retrospectivamen-
te com respeito ao seu significado para as
hist6rias de vida individuais ou coletivas. As
Estudos comparativos questées de concepgao em relacao a pesqui-
sa retrospectiva envolvem a sele¢gao de in-
Com frequéncia, mais que observar algum formantes que sejam significativos para o
caso isolado como um todo e em toda sua processo a ser investigado. Envolvem defi-
complexidade, vocé vai observar uma mul- nir grupos apropriados para comparag¢ao,
tiplicidade de casos, concentrando-se em justificando os limites do tempo a serem in-
aspectos particulares. Por exemplo, vocé vestigados, checando a questao da pesquisa
pode comparar o contetdo especifico do e decidindo que fontes e documentos (his-
76 UweFlick

toricos, ver Capitulo 7) devem ser usados Estudos longitudinais


além das entrevistas. Outra questao € como
considerar as influéncias das opinioes atuais A pesquisa qualitativa pode envolver estu-
sobre a percepcao e avaliacdo de experién- dos longitudinais em que se passe a analisar
clas anteriores. novamente um processo Ou estado em épo-
cas posteriores a coleta de dados. Asentre-
vistas sao realizadas repetidas vezes e as ob-
Instantaneos: analise do estado servacdes sao, algumas vezes, estendidas
por um periodo muito longo.
e do processo no momento
A Figura 5.3 apresenta mais umavezas
da investigacao concepcéesbasicas da pesquisa qualitativa.
Em seguida, examinaremos mais de-
A pesquisa qualitativa com frequénciavaise talhadamente um aspecto do planejamento
concentrar em instantaneos. Por exemplo, de estudos empiricos, a questao de como
vocé pode coletar diferentes manifestacoes selecionar os participantes para um estudo
da especializacao que existem em um deter- de modo que os insights produzidos ve-
minado campo no momento da pesquisa nham ser (geralmente) validos e represen-
nas entrevistas e comparar uma com a tativos. Ou vocé parte de um grupo grande
outra. Mesmo quealguns exemplos de pe- (p. ex., os jovens alemaes) que nao podeser
riodos de tempoanteriores afetem as entre- estudado empiricamente em sua totalidade
vistas, sua pesquisa nao visa essencialmente ou seleciona os casos que vai estudar para
a reconstruc¢ao retrospectiva de um proces- que os resultados possam ser generalizados
so. Ela esta preocupada, sobretudo, em dar mais tarde para 0 grupo ou populacaoori-
uma descricao das circunstancias no mo- ginal. Isto abrange a questao da amostra-
mento da pesquisa. gem estatistica na pesquisa quantitativa. Ou

Estudo de caso

Estudo
: Instantaneos:
Descricgao dos estados Estudo
retrospectivo longitudinal!
: Analise do processo

Estudo comparativo

Figura 5.3
Concepcgoes basicas na pesquisa qualitativa (Flick, 2009, p. 140).
Introdugao a metodologia de pesquisa 77

vocé quer selecionar aqueles casos que sdo rios hospitais em que vocé quer estudar o
particularmente relevantes para responder aumento da frequéncia dos temposde espe-
a sua questao da pesquisa. Isto abrange a ra. As unidades empiricas sao situac6es es-
questao da amostragem intencional na pes- pecificas nestes hospitais em que os tempos
quisa qualitativa. de espera ocorrem ou sao esperados— situ-
acoes de preparacaéo para cirurgia, por
exemplo. O problema da amostragem surge
(Vv. Amostragem de maneira similar nos estudos qualitativos
€ quantitativos, mas é tratado de maneira
diferente: a amostragem estatistica é tipica
A maioria dos estudos empiricos envolve
da pesquisa quantitativa, enquanto os pes-
fazer uma selecao de um grupo para o qual
quisadores qualitativos aplicam procedi-
as proposicoes serdo avancadasnofinal. Se
mentos da amostra intencional ou teorica.
vocé estuda 0 estresse profissional das en-
fermeiras, vai abranger uma selecdo de
todas as enfermeiras (no Reino Unido, por A amostragem na
exemplo), que é um grupo demasiado gran-
de para ser estudado. Todas as enfermeiras pesquisa quantitativa
sao a populacao basica, da qual vocé vai ex-
Ha varias exigéncias para uma amostra. Ela
trair uma amostra para 0 seu estudo.
deve ser umarepresentacao minimizada da
A populacao é a massa de individuos, populacao em termos da heterogeneidade
casos e eventos aos quais as declara¢ées dos elementos e da representatividade das
do estudo vao se referir e que tem de ser variaveis e os seus elementos tém deser de-
delimitada de antemao sem ambiguida- finidos. A populac¢ao deve ser clara e empi-
de no quese refere a questao da pesqui- ricamente definida, ou seja, claramenteli-
sa e a operacionalizacao. (Kromrey, mitada. Aqui encontramosduasalternativas
2006, p. 269) para a amostragem: procedimentosaleato-
rios e nao aleatorios.
Emcasos excepcionais, vocé pode usar
a estratégia da coleta completa, em que
todos os casos de uma populacao estarao Amostragem aleatoria simples
incluidos no estudo. O outro extremo € se-
lecionar e estudar uma pessoa em um Unico Com frequéncia nao sabemoso suficiente
estudo de caso (ver previamente). Na maio- sobre a constituicao ou as caracteristicas de
ria dos estudos, sera extraida uma amostra uma populacao para poderrealizar uma se-
segundo um dos procedimentos em seguida lecdo intencional de forma que a amostra
descritos, sendo osresultados entao genera- seja uma representacao minimizada dela.
lizados para a populacado. Os argumentos Nestes casos, sugere-se extrair uma amostra
contra a coleta completa e a favor da amos- aleatoria. Aqui, podemos distinguir entre
tragem sao que esta ultima economiza amostragem aleatoria simples e complexa.
tempo e dinheiro, além de permitir mais Um exemplo de amostragem aleatoria sim-
acuracia. ples é selecionar a partir de um fichario. Os
Aqui, vocé deve distinguir entre os elementos de uma populacao sao docu-
elementos da amostra e as unidades empiri- mentados em uma lista ou em um fichario;
cas. Estas ultimas se referem as unidades por exemplo, todosos habitantes de uma ci-
que vocé inclui em sua coleta de dados. Por dade sao registrados em umfichario no car-
exemplo, os elementos da amostra sao va- torio dosresidentes. Vocé pode usar este fi-
78 UweFlick

chario para extrair uma amostra aleatoria cular interesse para 0 seu estudo. Na amos-
simples ou sistematica. Uma amostraalea- tragemaleatoria simples, sao muitolimita-
toria simples ocorre quando todos osele- das as chances de os membros desse
mentos da amostra sao extraidos indepen- subgrupo serem incluidos ou de serem em
dentemente da populacao, em umprocesso numerosuficiente. As informacoes do con-
aleatorio. Um exemplo aqui € usar uma texto (relacionadas, digamos, as minorias
caixa de sorteio: todos os cartées de uma étnicas) nado podem ser levadas em conta
competicdo estao em umacaixa de sorteio e sistematicamente em uma amostraaleaté-
so extraidos um apos0 outro. A cada roda- ria simples sem que seu principioseja negli-
da, os cartées sio novamente misturados genciado.
antes que o seguinte seja extraido. Se trans-
ferimos este principio para extrair uma
amostra de um arquivoderegistro dosresi- Amostragem aleatoria
dentes, vocé daria um nimero a cadaentra-
sistematica: amostragem
da neste arquivo, fazendo umtiquete para
cada numero e misturando-os, em seguida, estratificada e por agrupamento
em uma caixa de sorteio. Vocé extrairia os
numeros, um apos 0 outro, até completar a Por esse motivo, as formas mais complexas
sua amostra. Este processo podeser simula- ou sistematicas da amostragem aleatoria
do com um computador. podem ser aplicadas extraindo-se uma
Para populacoes grandes, sugere-se a amostra estratificada. A intencao com fre-
amostragem sistematica. A primeira selecao quéncia é conseguir analisar os dados da
(o primeiro caso, 0 primeiro cartao) é reali- amostra separadamente para grupos espe-
zada aleatoriamente (dando um lance ou cificos — por exemplo, comparar os dados
escolhendo aleatoriamente um numero de da minoria étnica com aqueles de todos os
uma tabela de numeros aleatéria). Os ou- participantes. Em conformidade com isso,
tros elementos a serem incluidos na amos- vocé dividira a populacao em varias subpo-
tra sao definidos sistematicamente. Por pulacgées (no nosso exemplo, segundo a ori-
exemplo, de uma populagao de 100 mil pes- gem étnica dos membros). De cada uma
soas, vocé extral uma amostra de mil ele- destas subpopulacoes, vocé vai entao extrair
mentos. O primeiro numero é selecionado uma amostra aleatéria (na maioria dos
aleatoriamente entre um e 100 — 37, por casos, simples). No nosso exemplo,vocé di-
exemplo. Depois vocé inclui sistematica- vidiria a populacao das enfermeiras segun-
mente um caso de cada 100 da amostra do suas origens étnicas e depois extrairia
(isto é, os casos 137, 237, 337... 99.937). uma amostra aleatéria dos subgrupos das
Outra desvantagem dessa amostra enfermeiras britanicas, turcas, africanas, co-
aleatoria simples é a dificuldade em repre- reanas,etc. Se vocé aplica o mesmoprocedi-
sentar subpopulacées pequenase relevantes mento de amostragem para cada grupo e
na amostra. Nesta amostragem, vocé vai leva em conta a proporcao de cada subgru-
também negligenciar o contexto do caso po na populacao, vocé recebera uma amos-
isolado, ou seja, suas caracteristicas vao tra proporcionalmente estratificada. Na
além do principal critério para sua selecao, amostra, a percentagem de cada subgrupo ¢
e perderao aquele para a analise. Para dar exatamente a mesma quena populacao. No
um exemplo da primeira desvantagem, em nosso exemplo, se vocé sabe que a propor-
uma populacao de enfermeiras da qual vocé ¢ao de enfermeiras turcas é de 20%de todas
quer extrair uma amostra, vocé encontra as enfermeiras e que a das coreanas é 5%,
uma minoria étnica que podeserdeparti- vocé extraira amostras aleat6rias para cada
Introdugao a metodologia de pesquisa 79

umdestes grupos na populacao até ter 20% uma amostra aleatéria simples. Depois vai
de enfermeiras turcas e 5% de coreanas na dividir as escolas selecionadas em unidades
sua amostra. de tamanhosimilar — por exemplo, turmas.
Em amostras pequenas, a consequén- De todas estas turmas, vocé vai extrair outra
cia é que o numeroreal dos casos comori- amostra aleatoria. Esta amostra é entao di-
gem coreana sera muito pequeno — por vidida em subgrupos segundo o seu desem-
exemplo, um caso em um tamanho de penho (p. ex., todos os alunos com uma
amostra de n = 20. Este valor nao é suficien- nota média maior que 5, todos com notas
te para as analises estatisticas que compa- entre 2 e 4 e todos com menos de 2). Destes
ramas enfermeiras coreanas com as outras subgrupos, vocé vai mais uma vez extrair
enfermeiras. Como solu¢ao, vocé pode es- uma amostra aleatoria, que finalmente
tender a amostra de forma que em cadasu- constitul o grupo daqueles tratados com
bamostra haja casos suficientes, 0 que vai um questionario.
aumentar os recursos financeiros e de A grande vantagem da amostragem
tempo necessarios para 0 estudo. Uma al- aleatoria € que as amostras extraidas desta
ternativa € construir uma amostraestratifi- maneira sao representativas de todas as ca-
cada desproporcional; o que equilibraria a racteristicas dos elementos empiricos. Uma
subrepresentagao de uma subamostra. A amostra nao aleatoria s6 podereivindicar
amostra é extraida de tal maneira que o ser representativa das caracteristicas segun-
mesmo numero de casos seja incluido em do as quais ela foi extraida.
cada subamostra. No nosso exemplo, vocé
visaria um tamanho de amostra de 20 casos
e aplicaria em cada subgrupo uma amostra- Amostragem naoaleatoria:
gem aleatoria até ter cinco casos para cada
grupo (enfermeiras britanicas, turcas, afri-
amostragem Casual,
canas e coreanas). intencional e por cota
Para levar os contextos mais em conta
do que nas amostras aleatorias simples, Nem sempre é possivel ou mesmo desejavel
pode ser aplicada a amostragem por agru- extrair uma amostra aleatoria. Nao obstan-
pamento. Na pesquisa em escolas, vocé vai te, a amostragem deve ser o mais sistemati-
selecionar os estudantes nao como elemen- ca possivel. Um método de amostragem re-
tos empiricos, mas em subgrupos como lativamente nao sistematico é a amostragem
turmas de escola, em que vocé coleta os casual. Aqui nao temos um plano ou estru-
dados e faz declarac6es para cada membro tura de amostragem definidos, a partir dos
(os estudantes individuais). Os estudantes quais decidimos que elementos da popula-
sao os elementos empiricos (aos quais vocé cao estao integrados na amostra. Um exem-
aplica um questionario) e as turmas sao os plo éa entrevista de uma pessoa na rua, em
elementos da amostragem. Vocé so vaifalar que todos que estejam passando em um de-
de uma amostra por agrupamento quando terminado momento e prontos para serem
as unidades empiricas nao forem os pro- entrevistados sao integrados na amostra. A
prios agrupamentos(isto é, as turmas), mas decisao é tomada casualmente, ou seja, nao
seus membros individuais (os alunos). segue nenhum critério definido.
Vocé também pode extrair amostras Uma estratégia diferente é a amostra-
em estagios, trabalhando em varios niveis. gem intencional. Por exemplo, vocé realiza
Por exemplo, vocé vai primeiro produzir um estudo em que especialistas serao entre-
uma visdo geral da localizacgao de todas as vistados e define os critérios segundo os
escolas de enfermagem, da qual vai extrair quais alguém € um especialista ou nao para
80 Uwe Flick

a questao do estudo. Depois vocé vai procu- pode ser de quatro seis, isto €, em 10 en-
rar individuos que satisfagam estes crité- trevistas quatro homens e seis mulheres
rios. Se seu numero for suficientemente serao incluidos. Os grupos etarios podem
grande, vocé pode aplicar um questionario ser distribuidos de maneira que em 10 en-
a eles, o que sera analisadoestatisticamente. trevistas dois participantes tenham menos
A amostragem da popula¢ao de todososes- que 30 anos, trés tenham mais que 60 e
pecialistas nesta questao nado é€ aleatoria. cinco tenham entre 30 e 60 anos. Nestas
Devidoaos critérios aplicados, esta também cotas, vocé buscara entao os participantes
nao é uma amostragem casual. Entretanto, casualmente — isto é, nao aleatoriamente. Se
na maioria dos casos, vocé tem que assumir este procedimento funcionar, algumascon-
que os especialistas sao casos tipicos (de es- dicdes devem ser especificadas. A distribui-
pecialistas). Entéo surge o problema de cao das caracteristicas da cota (no nosso
como decidir se o individuo é ou nado um exemplo, a idade e 0 género) na populacao
caso tipico. Com frequéncia, esta defini¢ao tem que ser conhecida. Uma relacao sufi-
é determinada pelos pesquisadores. Para ciente entre as caracteristicas da cota e as
isto, eles necessitam de conhecimentosufi- caracteristicas a serem estudadas(p.ex., 0
ciente sobre a populacao a fim de serem ca- comportamento de sauide) tem de ser atri-
pazes de decidir se um caso é ou naotipico. buida ou assumida. Estas caracteristicas da
Se os especialistas so especialistas tipicos cota tém de ser de simples avaliacao.
para esta questao é algo que com frequéncia Finalmente, vocé pode usar o princi-
s6 pode ser decidido ao final do estudo, pio da bola de neve: ou seja, vocé indaga o
comparando-os com outros especialistas. seu caminho do primeiro participante ao
Por isso, a amostragem aqui é com frequén- seguinte (“Quem vocé acha que pode ser
cia realizada usando-se critérios substitutos também relevante para este estudo?”). Com
— por exemplo, a experiéncia profissional frequéncia, por raz6es praticas, esta é a me-
em umaposic¢ao especifica. Mas isto, mais hor ou a nica maneira de se chegar a uma
uma vez, supde um vinculo entre a especia- amostra. No entanto, a representatividade
lizacao e a experiéncia profissional. dela é muito limitada.
Outra op¢aoseria aplicar o principio
da concentracao, que significa se concen-
trar na amostragem naqueles casos que sao
particularmente importantes para a ques-
Estratégias da amostragem
tao do estudo.Os casos sao selecionadosse- na pesquisa qualitativa
gundo a sua relevancia — sejam os casos
muito raros, os que tém a influéncia mais Na pesquisa qualitativa, sao aplicadas algu-
forte no processo em estudo ou aqueles que masdas estratégias de amostragem discuti-
podemser encontrados com mais frequén- das nos pardagrafos anteriores. Outras, con-
cla, por exemplo. tudo, como a amostragem aleatéria, rara-
A pesquisa de levantamento usa com mente sao encontradas. Aqui vocé também
frequéncia a técnica da amostragem por pode usar amostragem por cotas (de idade
cotas. Neste caso,as caracteristicas especifi- ou género), casual ou intencional (de espe-
cas (p. ex., idade e género) sao definidas por clalistas, por exemplo). Os principios da
aquilo pelo que os participantes devem ser bola de neve ou da concentracdo sao tam-
caracterizados. Para estas caracteristicas, bém usados. Alguns principios espectficos
vocé tera entao que definir cotas de valores, podem refinar e sistematizar estas aborda-
que, no final, serao representadas na amos- gens para os objetivos especificos da pes-
tra. Por exemplo, a distribuicéo do género quisa qualitativa.
Introdugao 4 metodologia de pesquisa 81

Amostragem teorica visam ao material que promete os maiores


insights, vistos a luz do material ja usado e do
Se o objetivo da pesquisa é desenvolver uma conhecimento dele extraido. A principal
teoria, as estratégias da amostragem prova- questao para selecionar os dados é: “A quais
velmente serao baseadas na “amostragem grupos ou subgruposse passa em seguida na
tedrica” desenvolvida por Glaser e Strauss coleta de dados? E com qual propositoteori-
(1967). As decis6es sobre a escolha e a reu- co? |...] As possibilidades de comparacoes
niao de material empirico (casos, grupos, multiplas sao infinitas, e por isso os grupos
institul¢6es, etc.) sao tomadas no processo devem ser escolhidos de acordo com crité-
da coleta e da interpretacao dos dados. Gla- ros tedricos” (1967, p. 47).
ser e Strauss descrevem esta estratégia da A amostragem e a integracao de mate-
seguinte maneira: rial adicional sao completadas quando a
“saturacao teérica” de uma categoria ou
A amostragem tedérica € 0 processo de grupo de casos foi atingida (isto 6, nada
coleta de dados para a geracaode teo- novo emerge mais). Em contraste com uma
ria em que o analista coleta, codifica e amostragem estatisticamente orientada, a
analisa conjuntamente seus dados e amostragem teérica naose refere a uma po-
decide que dados coletar em seguida e
pulacao cuja extensao e caracteristicas ja
onde encontra-los para desenvolver
sejam conhecidas. Vocé também nao pode
sua teoria a medida em que ela emer-
ge. Este processo de coleta de dados é definir antecipadamente qual sera o tama-
controlado pela teoria emergente. nho da amostra a ser estudada. As caracte-
(1967, p. 45) risticas tanto da populacéo quanto da
amostra sO podem ser definidas no fim do
Aqui vocé seleciona os individuos, os estudo empirico, tendo por base a teoria
grupos, etc. segundo seu nivel (esperado) de que foi nele desenvolvida.
novos insights para o desenvolvimento da te- AS principals caracteristicas das estra-
oria em relacao ao estagio da sua elaboracao tégias de amostragem tedricas e estatisticas
até o momento. As decisGes de amostragem sao comparadasna Tabela 5.3.

Tabela 5.3 AMOSTRAGEM TEORICA E ESTATISTICA

Amostragem teorica Amostragem estatistica

A extensao da populacao basica nao é previa- A extensao da populacao basica é previamente


mente conhecida conhecida

As caracteristicas da populagao basica nao sao A distribuicao das caracteristicas na populacao


previamente conhecidas basica pode ser estimada

Extracgao repetida de elementos da amostragem Extracao eventual de uma amostra em seguida


com critérios a serem definidos novamente em a um plano previamente definido
cada passo
O tamanho da amostra nao é antecipadamente O tamanho da amostra é antecipadamente
definido definido

A amostragem esta terminada quando a A amostragem esta terminada quando toda a


saturacao teorica foi alcancgada amostra foi estudada

Fonte: Wiedemann, 1955, p. 441.


82 UweFlick

Amostragem intencional Sumario

Patton (2002) sugere as seguintes variantes A amostragem refere-se a estratégias para


da amostragem intencional: garantir que vocé tenhaoscasos “certos” no
seu estudo. “Certo”significa que eles permi-
¢ Casos extremos, que sao caracterizados temgeneralizacoes da amostra para a popu-
por um processo de desenvolvimento lacao por esta ser representativa dela. Por
particularmente longo oupelo fracasso exemplo, os resultados de um estudo de
ousucesso de umainterven¢ao. questionario com uma amostra de jovens
e Casos tipicos, que sao tipicos para a devem poderser generalizados aosjovens na
média ou para a maioria dos casos po- Alemanha. “Certo” tambémpodesignificar
tenciais. Aqui o campo é mais explorado que vocé encontrou e incluiu os casos mais
do que apartir de dentro, do centro, instrutivos nas suas entrevistas — que vocé
e A amostragem de variagado maxima in- tem a extensdo de experiéncias de satide dos
clui alguns casos que so 0 mais diferen- adolescentes sem-teto, e nao queseusresul-
tes quanto possivel para analisar a varie- tados sejamvalidos para os jovens na Alema-
dade e diversidade no campo. nha em geral (ver exemplos do Capitulo 2).
A amostragem de varia¢a4o maxima in- Estas estratégias de amostragem sao
clui alguns casos que tém uma intensida- um passo importante no planejamento da
de diferente das caracteristicas, processos pesquisa. Algumas concep¢oes de pesquisa
ou experiéncias relevantes, ou para os vao necessitar de uma ou de outra forma de
quais vocé assumeessas diferencas. Seja amostragem. Os experimentos, os estudos
como for, vocé vai incluir e comparar os de grupo-controle ou duplo-cegos necessi-
casos com a maximaintensidade ou com tam de uma amostragem aleatoria a fim de
intensidadesdiferentes. serem bem-sucedidos. Para um estudo qua-
e Casos criticos, que mostram as relac6es litativo nao padronizado, desenvolvido a
em estudo de forma particularmente partir da teoria, as estratégias de amostra-
clara ou que sao muito relevantes para o gem teorica ou intencional séo mais apro-
funcionamento de um programa em es- priadas. O mesmo acontece com os mode-
tudo. Aqui vocé busca com frequéncia los do processo de pesquisa que discutimos
conselhos de especialistas sobre que anteriormente: formas de amostragem ale-
casos escolher. at6ria e similares sao mais adequadaspara 0
e Casos politicamente importantes ou sen- modelo de processo da pesquisa quantitati-
siveis podemser uteis para tornarosre- va; enquanto a amostragem tedrica e a in-
sultados positivos amplamente conheci- tencional sao mais adequadas para 0 pro-
dos. cesso da pesquisa qualitativa.
e A amostragemde conveniéncia refere-se
a escolher aqueles casos que s4o mais fa-
cilmente acessiveis nas dadas circunstan-
cias. Isto pode reduzir 0 esforco na amos- lVi Avaliagao
tragem, as vezes, sendo a unica maneira
de realizar um estudo comrecursos de O que tem sido dito até agora se refere a
tempolimitados e com dificuldades para pesquisa empirica como um todo. Vamos
aplicar uma estratégia mais sistematica agora nos concentrar em umadreaespecifi-
da amostragem. ca da pesquisa social, a avaliacao. Aqui 0
Introdugao a metodologia de pesquisa 83

foco esta na avaliagao de interveng6ées por liagdes empiricamente fundamentadas das


meio de métodos empiricos. A pesquisa da intervengoes e de seu sucesso e consequén-
avaliacao foi desenvolvida no contexto da cias. As avaliacdes sdo, com frequéncia, en-
politica social nos Estados Unidos e desde comendadas aos pesquisadores, tendo por
entao foi estendida para a educacao, a objetivo responder a questao da estimativa
saude, a terapia e a politica em geral. Varias de uma maneira transparente e nao ambi-
fases podemser distinguidas (ver Guba e gua. Um aspecto essencial aqui é que os re-
Lincoln, 1989). A primeira delas (inicio do sultados sao elaborados e apresentados de
século XX) foi fortemente orientada para a tal maneira que os nao especialistas (em
mensuracao (do desempenhonaescola, si- pesquisa) possam tambémentendé-los (ver
milar a pesquisa da ciéncia natural). A se- Capitulo 13).
gunda fase (1920-1940) concentrou-se na Podemos distinguir entre a autoava-
descricao exata do processo (p. ex., de pro- liagéo e a avaliacao externa. No primeiro
mover o desempenhodosalunos). A tercei- caso, umainstituicdo organiza a avaliacao
ra fase (década de 1950 a década de 1970) de um de seus programas ou departamen-
viu a avaliacdo essencialmente como uma tos contratando empregados para este pro-
estimativa e a tornou um instrumento do posito. Na avaliacao externa, um grupo ou
bem-estar e da politica social do Estado. O instituto de pesquisa independente vai ser
foco foi estendido para 0 uso e a utilidade solicitado a realizar a avaliacao, que pode
dos resultados obtidos desta maneira, além conduzir a resultados mais confiaveis e in-
da qualidadecientifica da avaliacao. A quar- dependentes. Se vocé pretende realizar uma
ta fase (desde a década de 1980) foi caracte- avaliacao, nao somente necessitara de habi-
rizada pelo conceito de receptividade, com lidades nos métodos de pesquisa, mas tam-
uma mudangcana énfase da qualidadecien- bém de competéncias comunicativas para
tifica (como um critério principal) para a negociar com sucesso o seu caminho para e
utilidade da avaliacao. através da instituicdo. Outra distin¢ao aqui
Esta mudanca esta incorporada em é entre avaliacao sumativa e avaliacao for-
uma volta aos métodos de avaliacao quali- mativa. A primeira se localiza apos o final
tativos e mais dialdgicos: de um programa se concentra nosseusre-
sultados; a segunda trata da introduc¢ao e
As praticas de avaliacdo baseadas em dos procedimentos do programa.
uma estrutura de valor fundamental
descentralizam a concep¢ao do objeti-
vo, da natureza, e colocam a investiga- iv) Lista de verificacao
cao social na vida social. Elas fazem
isso redefinindo a investigacgao social para a concepcao de
como um processo dialdgico e reflexi-
vo da discussao democratica e da criti-
um estudo empirico
ca filoséfica. (Schwandt, 2002, p. 151)
Para planejar seu proprio projeto empirico,
A avaliacdo em geral ainda trata da vocé deve levar em conta os aspectos mos-
questao de como e com que esfor¢os os ob- trados no Quadro 5.2 e encontrar respostas
jetivos (de uma intervencao, por exemplo) para as quest6es que surgem. Esta lista de
sao atingidos, e que efeitos colaterais inde- verificacdo pode ajuda-lo a planejar seu
sejaveis ocorrem. Por isso, a avaliagao é 0 proprio estudo e a avaliar os estudos de ou-
uso de métodos de pesquisa visandoa ava- tros pesquisadores.
84 UweFlick

erpvennen tps
Quadro 5.2

LISTA DE VERIFICACAO PARA A CONCEPCAO DE UM ESTUDO EMPIRICO


1. Escrever uma proposta para o seu projeto de forma a indicar que passos ele devera seguir.
2. Desenvolver um cronograma para o seu projeto para se certificar de que vocé conseguira
ao
administra-lo no periodo de tempo dado ou disponivel.
3. A proposta e o cronograma cobrem Os principals passos do seu projeto:
4. Aconcepcao que vocé escolheu é adequada para os objetivos do seu estudo e para as
condicdes no campo que vocé estuda? — -
5. A forma de amostragem que vocé quer aplicar e apropriada para atingir os objetivos do
— 7
seu estudo e para atingir os grupos-alvo dele?
6. Se vocé fizer uma avaliacao ~— seu plano de pesquisa e adequado para este proposito?

Pontosprincipais

v Escrever uma proposta e desenvolver um cronograma Sao passos necessarios para fazer um projeto
funcionar.
v As concepcoées da pesquisa diferem — tanto em termos de planejamento quanto de procedimentos
— entre a pesquisa qualitativa e a quantitativa.
Vv A pesquisa quantitativa se concentra mais no controle e na padronizacao das condicées de coleta de
dados. Ja a pesquisa qualitativa esta mais interessada em planejar 0 estudo em uma concepcao.
v Aamostragem estatistica pretende permitir a generalizacdo dos resultados para a populacao
(conhecida).
v Aamostragem na pesquisa qualitativa esta mais voltada para a selec4o intencional dos casos, que no
fim vai permitir insights sobre as caracteristicas da populacao.
v A pesquisa de avaliagao faz uma série de exigéncias especificas para o planejamento de um estudo.

1 im . Bryman, A. (2008) Social Research Methods,3. ed.


wi Leituras adicionais Oxford: Oxford University Press.
Flick, U. (2011) Desenho da Pesquisa Qualitativa.
O primeiro e o ultimo livros discutem ques- Porto Alegre: Artmed. Capitulo 1.
toes da concepcao da pesquisa social em
Flick U. (2009) Introdu¢dao a Pesquisa Qualitativa,
uma abordagem quantitativa, enquanto os
3. ed. Porto Alegre, Artmed. Capitulo 9.
outros dois estado focadosneste tema no que
Neuman, W.L. (2000) Social Research Methods:
se refere aos estudos qualitativos.
Qualitative and Quantitative Approaches, 4. ed.
Boston: Allyn and Bacon.
| §
Decisao sobre
os metodos

VISAO GERAL DO CAPITULO

DecisO@S NO PrOCeSSO da PESQUISA.......c.cccccccscsssssessesscsessevscscatscccscercecssssstsesacscsvasucasscavsvseeasscanssasscseseaneateees 86


DeCISOES NA PESQUISA PACFOMIZADA...... cc ccccsssesssescsesesesesssscsescsnsssscacsvsvsucessvevsrsacasavscsesesavacausesacevevsvensesenenes 86
DecisO@s Ma PESQUISA QUAINITAtIVA occ ccccceccsssesesesscscscevsvssesecseacscsrsesassessecacecsesvsvsesscsvsnensesavansesneasacevseuens 93
DecisOes dentro das pesquisas quantitativa @ QUalitatiVa cee cece cecsesestsestsnecsesassestersesaeseeres 99
Decisdo entre pesquisa qualitativa € PadrOMiZad ann... ccc sscscsescesscsesesesesesesststsesesessesesesessssesenssesacessens 99
Decisdo entre realizar PESQUISA IN 1OCO OU ONK-MING .oocececcccccccsscssssesessssesecssssstssscscssscstseessessseasseevscsessscseseeesses 99
Decisdo sobre abordagens especificas da P@SQUISA ........cccccccccsscsccscscssstsesessssessseseecsscscsescersucssstsnereseaesees 100
Reflexd0 GUraNnte O PFOCESSO..... cc eescssesescsseccscscesesecsscsesesenseceseseeseseecssassesseesssseaensecsssesensesestsstenesecstsenensesssees 101
Lista de verificagao para a escolha de UM MEtOdO CSPECIFICO oo... eesesneteceeessestesesesseseeseetenesesteneens 102

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


v entender as séries de decisdes requeridas no processo da pesquisa;
v reconhecer que a escolha de um método especifico para a coleta de dados é uma decisao
importante — embora apenas uma entre muitas;
v perceber como suas decisoes referentes aos métodos estao relacionadas a quest6es mais
gerais relacionadas (a) a sua pesquisa, (b) 4s condigdes no campo e (c) ao conhecimento
disponivel sobre a questao.
86 Uwe Flick

Tabela 6.1 NAVEGADOR PARA 0 CAPITULO 6

Orientagao ¢ O que é pesquisa social?


e Questao central de pesquisa
e Revisao da literatura

Planejamento e e Planejamento da pesquisa


Vocé esta aqui concep¢ao e Concepg¢ao da pesquisa
no seu projeto —> e Decisao sobre os métodos

Trabalhando Coleta de dados


com dados Analise dos dados
Pesquisa on-line
Pesquisa integrada

Reflexao e escrita Avaliagao da pesquisa


e Etica
e Aescrita e 0 uso da pesquisa

[¥ Decisdes no '“™ Decisdes na


processo da pesquisa pesquisa padronizada

No Capitulo 4, esbocamos os passos envol- Selecionando o


vidos nos processos de pesquisa quantita- problema da pesquisa
tivos e qualitativos. Nos capitulos que se
seguem, os métodos mais importantes A primeira decisao que vocé precisa tomar
serdo discutidos mais detalhadamente (ver diz respeito 4 selecao de um problema de
Capitulos 7 e 8). Tanto a pesquisa qualita- pesquisa. Isto tera implicagées muito im-
tiva quanto a pesquisa quantitativa envol- portantes para os procedimentos subse-
vem uma série de decis6es que vocé preci- quentes. Bortz e Déring (2006) formularam
sara tomar — desde definir sua questao varios critérios para a avaliacao de proble-
central de pesquisa até coletar e analisar os mas de pesquisa ou de ideias para os estu-
dados e finalmente apresentar seus resul- dos. Estes podem ser usados para informar
tados. Cada decisao tera implicag6es para sua decisao. Seus critérios sao:
os estagios subsequentes emseuprojeto de
pesquisa. e Precisaéo na formulacao do problema: até
As sinteses dos métodos na pesquisa que ponto a ideia articulada é vaga ou
social raramente oferecem muitos conse- exata? Até que ponto sao claros os con-
lhos na escolha dos métodosde pesquisa es- ceitos nos quaisela é baseada?
pecificos. O objetivo deste capitulo é com- ¢ O problema pode ser estudado empirica-
pensar essa caréncia. mente? As ideias podem ser tratadas em-
Introdugao a metodologia de pesquisa 87

piricamente ousao baseadas emconteti- sem evidéncias que o justifiquem. Porisso,


do religioso, metafisico ou filosdfico (p. quandose planeja e se concebe o estudo,
ex., no que diz respeito ao significado da sera necessdrio haver uma forte énfase na
vida)? E até que ponto é provavel que um padronizagao do maior numeropossivel de
numero suficiente de participantes po- condicées e na definicado das variaveis.
tencials possa ser atingido sem esforco E importantedistinguir entre variaveis
exCessivo? independentes e dependentes (ver também
« Escopocientifico: 0 topico ja foi estuda- Capitulo 5). A condicao “causa” é rotulada
do de forma tao abrangente que naose como “variavel independente”e as consequ-
possa esperar novosinsights de outras in- éncias como a “varidvel dependente”. Por
vestigacdes? exemplo, uma infecgao pode ser a causa de
e Critérios éticos: o estudo violaria alguns alguns sintomas. Os sintomas ocorrem devi-
principios éticos (como discutido no Ca- do a infeccao. Por isso, eles dependem da
pitulo 12) ou, visto por outro angulo, o existéncia da infeccaoe, assim sendo,saotra-
estudo é eticamentejustificavel? tados como variaveis dependentes. A infec-
¢4o independe dos sintomas: ela simples-
Estes critérios vao ajuda-lo tanto a mente ocorre. Por isso é tratada como
avaliar as ideias da sua pesquisa quanto a varidvel independente.As vezes, porém, esta
justificar sua selecao. relagao nao é tao imediata. Outros fatores
podem desempenhar um papel importante:
por exemplo, nem todos os expostos a uma
Objetivos do estudo infeccao adoecem; algumaspessoas tém sin-
tomas mais dramaticos devido a umainfec-
Os estudos quantitativos em geral tém por ¢40, enquanto outras tém sintomas menos
objetivo testar uma suposicao ja anterior- dramaticos apesar de tratar-se da mesmain-
mente formulada na forma de umahipote- feccdo. Porisso, deve-se supor que outras va-
se. Aqui, 0 objetivo sera avaliar as conex6es ridveis sao importantes. Estas sao chamadas
entre as variaveis ou identificar as causas de varlaveis intervenientes. Este termo € um ro-
eventos especificos. Deve-se tomarcuidado, tulo para aquelas outras influéncias na cone-
porém, para n4o reivindicar um relaciona- xao entre as variaveis independentese as de-
mento ou vinculo causal entre as variaveis pendentes. No nosso exemplo, a situa¢ao

Quadro6.1

DECISAO QUANTITATIVA 1: PROBLEMA DA PESQUISA

Sua decisao, neste ponto, diz respeito ao problema da pesquisa como tal e aos aspectos dele que
estarao no primeiro plano do seu estudo. Eles devem estar orientados para seus interesses e para
até que ponto vocé pode formula-los empiricamente. Além disso, vocé deve avaliar se o conheci-
mento existente sobre o problema é suficiente para a realizacao de um estudo padronizado e se
vocé sera capaz de acessar um numerosuficiente de participantes. As decisoes neste estagio
terao subsequentemente uma influéncia em suas decisoes metodologicas.
88 UweFlick

social das pessoas infectadas pode ser uma modelo tedrico especifico da questéo que
intervencao variavel(p. ex., as pessoas social- vocé pretende estudar. Com frequéncia es-
mente em desvantagem desenvolvem sinto- tarao disponiveis varios modelosalternati-
mas mais fortes do que pessoas em melhores vos. Por exemplo,se 0 seu estudodiz respei-
situacdes de vida.) Testar o relacionamento to ao comportamento de enfrentamento no
entre as varidveis independentes e depen- caso de uma doenga, ha varios modelosdi-
dentes pode ser o seu objetivo — no nosso ferentes de copia do comportamentoa par-
exemplo, a relacdo entre infecgao e doenga tir dos quais fazer sua selecao. Além disso, 0
(como foi visto a partir dos sintomas) e, por- estudo podeser planejado dentro daestru-
tanto, a identificagao da infecgado como a tura de um modelote6rico geral ou de um
causa da doenca. Neste exemplo,sera impor- programa de pesquisa. Por exemplo, no
tante controlara influéncia da variavel inter- caso do estudo de um comportamento de
veniente. enfrentamento, pode-se adotar uma abor-
Outro objetivo de um estudo quanti- dagem de escolha racional.
tativo podeser descrever um estado ousitu-
acdo — por exemplo, a frequéncia de uma
doenga na populagao ou em varias subpo- Formulagao da questao da pesquisa
pulagées. Esses estudos sao conhecidos
como “estudos de descricao da popula¢ao” Para o sucesso de qualquer estudo, é impor-
e como distintos dos “estudos de testagem tante limitar o problemade pesquisa escolhi-
de hipoteses” (Bortz e Doring, 2006, p. 51). do a uma questao de pesquisa passivel de ser
Quando o estado da pesquisa e literatura manejada. Por exemplo,se vocé esta interes-
tedrica nao sao suficientemente desenvolvi- sado no problema de pesquisa “Satide de
das para que vacé possa formular hipoteses idosos’, esta nao é ainda uma questaodepes-
possiveis de serem testadas empiricamente, quisa, pois € algo muito vasto e vago. Para
vocé pode primeiro conduzir um estudo transformar isso em uma questao de pesqui-
exploratorio. Neste tipo de estudo, vocé Sa, Voce tera que se concentrar naspartes da
pode desenvolver conceitos, explorar um formulacao do problema. Que aspecto da
campo e terminar formulando hipdéteses sauide vocé quer estudar? Quetipo de cida-
baseadas na exploracao do campo. daos seniores é 0 foco do seu estudo? Qualé
o vinculo entre a sade e as pessoasidosas?
Entao vocé pode chegar a uma questao
Estrutura teorica como: “Que fatores delimitam a autonomia
de pessoas com mais de 65 anos com depres-
AS questoes tedricas podem se tornar uma sao vivendo em cidades grandes e em con-
questao para decisGes em varios niveis. Vocé textos rurais?” Aqui os elementos da sua
deve tomar como seu ponto de partida um questao de pesquisa estao claramente defini-

Quadro 6.2

DECISAO QUANTITATIVA 2: OBJETIVOS

Sua decisao sobre o tipo de estudo que vocé empreendera deve ser determinada por seu inte-
resse de pesquisa e pelo estado da pesquisa antes do seu estudo. A questao relevante neste
estagio é: até que ponto sua decisao foi determinada pela questao e pelo campo do seu estudo?
j
Ou ela é (principalmente) influenciada por sua orientagao metodold
gica geral?
i
Introdugao a metodologia de pesquisa 89

Quadro 6.3

DECISAO QUANTITATIVA 3: ESTRUTURA TEORICA


Se vocé decidir usar uma estrutura tedrica, esta tera varias consequéncias metodologicas. A
decisao sobre um modelo tedrico do tema da pesquisa determinara a estrutura da forma de
operacionalizagao das caracteristicas relevantes deste tema em seu estudo. Uma questao
importante neste contexto é até que ponto a estrutura tedrica 6 compativel com a sua questao
de pesquisa ou com o tema. Estas decisoes devem ser orientadas para o tema em estudo e para
oO campo em que este estudo esta inserido.
Por exemplo, se vocé estuda a qualidade de vida segundo um dos modelos tedricos desen-
volvidos sobre as pessoas que vivem sozinhas com relativa saude e independéncia, isto condu-
zira a operacionalizagoes como questoes sobre a capacidade das pessoas para caminhar deter-
minadas distancias, por exemplo. Se vocé quer estudar este tema (qualidade de vida) em uma
casa de repouso com pessoas frageis e idosas, vocé tera que considerar se essas quest6es e os
modelos teoricos no pano de fundo sao apropriados para este contexto.

dos e vocé pode comecar a considerar como sera dificil fazer uma estimativa de custo. Em
ira realizar sua amostragem e coleta de dados geral, quanto mais elevados os padr6es meto-
para abordaresta questao empiricamente. Se doldgicos, maior 0 gasto. Denscombe (2007,
vocé quiser realizar um estudo quantitativo, p. 27) menciona neste contexto que osinsti-
deverefletir sobre se havera pessoassuficien- tutos de pesquisa de levantamento comercial
tes para as quais se voltare se elas serao capa- na Gra-Bretanha informam aosseusclientes
zes de participar de uma pesquisa de levanta- que, por um determinadopre¢o, podera ser
mento,etc., e até que ponto esta pesquisa de estimado nivel especifico de exatidao na
levantamentovai cobrir questdes de autono- mensuracao e na amostragem, e que niveis
mia de limitagGes, de condicGes de vida (ci- mais elevados irao incorrer em precos mais
dade, campo) e de depressao (ver Capitulo 2 elevados. Em conformidade com isso, Hoin-
para mais exemplose distingdes entre ques- ville e colaboradores declaram no caso da
toes de pesquisa boas e ruins). amostragem que “Na pratica, a complexida-
de dos fatores concorrentes de recursos e
acuracia significa que a decisao sobre o ta-
Recursos manho da amostra tende a se basear na ex-
periéncia e no bom julgamento, em vez de
Um fator-chave é 0 custo de um estudo. Sem em uma formula estritamente matematica”
o conhecimento detalhado sobre o projeto, (1985, p. 73).

Quadro 6.4

DECISAO QUANTITATIVA 4: QUESTAO DA PESQUISA


A decisao sobre a questao da pesquisa tera implicagoes para (a) qual ira se tornar o tema do
seu estudo, (b) que aspectos vocé vai omitir e (c) que métodos vocé pode aplicar no seu estudo.
Neste estagio, é importante que a formulagao da sua questao da pesquisa 0 ajude a orienta-la.
E também importante pensar sobre até que ponto a sua questao da pesquisa é util para estimu-
lar novos insights sobre ela, de forma que o seu estudo nao se limite apenas a reproduzir o
conhecimento ja disponivel de outras pesquisas.
90 UweFlick

Quadro 6.5

DECISAO QUANTITATIVA 5: RECURSOS

Sua decisao neste contexto se refere em geral a pesar seus recursos disponiveis (dinheiro,
tempo, experiéncia, forga de trabalho) em relagao as reivindicagoes metodologicas (de exati-
dao e escopo da amostragem, por exemplo) para que vocé possa fazer seu projeto funcionar
com reivindicacgoesrealistas.

Amostragem e criagao de grupos Capitulo 5), pois o foco da amostragem es-


tritamente aleatéria podeser insuficiente-
comparativos
mente especifico.
A amostragemna pesquisa quantitativa se
baseia principalmente na preocupa¢ao
com a representatividade das pessoas, situ- Metodos
acoes, instituig¢des ou fendmenos estuda-
dos em relagao 4 populacao em geral. Com As decis6es relacionadas aos métodospreci-
frequéncia, vao ser criados grupos compa- sam ser tomadas em umasérie de niveis. O
rativos para que eles se correspondam primeiro diz respeito ao carater dos dados
entre si o maximopossivel (p. ex., 0 grupo com os quais vocé quertrabalhar. Pergunte
experimental sera construido o mais simi- a si mesmose vocé podeusar os dadosexis-
larmente possivel ao grupo-controle). O tentes (p. ex., dados de rotina sobre o segu-
objetivo aqui é controlar e padronizar o ro-saude) para a sua propria andlise. Aqui,
maior numero possivel de caracteristicas tem de se considerar a questao da acessibili-
do grupo; depois, as diferencas entre eles dade dos dados (p. ex., nem toda compa-
podem ser rastreadas a variavel que vocé nhia de seguro-satidese disp6e a disponibi-
esta estudando. A abordagem mais consis- lizar seus dados para propdsitos de
tente é uma amostragem aleatoria, em que a pesquisa). Ou seja, as vezes, os temas de
aloca¢do ao grupo experimental ou ao gru- protecdo dos dados também constituem
po-controle também é realizada aleatoria- obstaculos. Havera também questées sobre
mente (ver Capitulo 5). Entretanto, a amos- a adequabilidade dos dados: em particular,
tragem estritamente aleatéria nem sempre vocé deve verificar se 0 tema no qual vocé
é a maneira melhor ou mais apropriada. esta interessado esta na verdade coberto
Dependendo do tema e do campo que vocé pelos dados e se a maneira comoos dados
estudar, a amostragem por cotas ou por estao classificados permite a andlise neces-
agrupamento pode ser mais coerente (ver saria (ver Capitulo 7).

Quadro 6.6

DECISAO QUANTITATIVA 6: AMOSTRAGEM E COMPARACAO

Suas decisOes aqui estao relacionadas a questao da adequacao de uma forma especifica de
amostragem. Até que ponto isto permite que se leve suficientemente em conta os grupos-alvo
especificos do seu estudo?
Pre eines
Introdugao a metodologia de pesquisa 91

Em seguida, vocé deve decidir entre a Naanalise dos dados quantitativos, os


pesquisa de levantamento e a observacao. pacotes de estatistica existentes, como o
Por exemplo, ao coletar dados sobre os fe- SPSS (Statistical Package for the Social
ndmenos importantes, vocé esta mais inte- Sciences) sdo muito frequentemente usa-
ressado no conhecimento e nas atitudes ou dos. Aqui, vocé deve decidir que tipos de
na pratica? andlise relacional séo melhores para res-
A proxima decisdo a ser tomada se, ponder a sua questdéo de pesquisa. Além
para a coleta de dados, vocé usara um instru- disso, deve checar antecipadamente quetes-
mento ja existente ou se desenvolvera um tes deve aplicar aos seus dados — por exem-
novo. As vantagens da primeira alternativa plo, checagens de plausibilidade (ha respos-
sdo que os métodos foram, em sua maioria, tas contraditérias no conjunto de dados,
bem testados e que, através deles, vocé pode comopensionistas de 20 anosde idade?) ou
facilmente vincular seus dadosa outros estu- checagens de dados ausentes (ver Capitulos
dos. Por exemplo, na pesquisa de qualidade 7e 8).
de vida, questionarios pré-existentes sao
com frequéncia utilizados; similarmente, na
pesquisa de atitude, as interacdes sao fre- Grau de padronizagao e controle
quentemente analisadas com os inventarios
disponiveis nas observacdes. Entretanto, A pesquisa quantitativa baseia-se em:
vocé deve checarse os instrumentosexisten-
tes cobrem os aspectos que sao relevantes a) a padronizagao da situacao da pesquisa e
para 0 seu proprio estudo e se sao apropria- dos procedimentosda pesquisa;
dos para o seu grupo-alvo especifico. b) o controle do maximo de condicées pos-
O desenvolvimento do seu préprio sivel.
instrumento lhe permite adapta-lo ascir-
cunstancias concretas do seu estudo. Neste Em muitoscasos, sao definidas as va-
caso, vocé deve refletir sobre se o conheci- riaveis que estao vinculadas as hipoteses
mento tedrico ou empirico existente é sufi- para testar estas conex6es. As unidades ana-
cientemente desenvolvido para que vocé liticas sao definidas (p. ex., todo paciente
possa formular as quest6es ou as categorias que esteja esperando por umacirurgia com
de observacao “certas”. Finalmente, 0 pré- um clinico-geral). As medidas concretas sao
-teste e a checagem daconfiabilidade e da definidas pelas variaveis isoladas (p. ex., 0
validade (a ser discutido no Capitulo 11) do tempo quecadapaciente espera antes deser
instrumento sao necessdarios antes de que chamadopara sala de consultas para ver o
vocé possa realmente aplica-lo. médico). Estas sao definidas antes da entra-

DECISAO QUANTITATIVA 7: METODOS

Sua decisao aqui reside entre usar os dados e instrumentos existentes ou coletar seus proprios
dados, talvez com instrumentos desenvolvidos especificamente para o seu estudo. Esta decisao
deve estar relacionada as suas quest6es de pesquisa, as condigoes no campo em que ela esta
inserida e ao conhecimento existente sobre a questao em estudo. Finalmente, suas decisdoes
podem estar ligadas aos seus recursos — como o tempo disponivel, por exemplo.
92 Uwe Flick

Quadro 6.8
oP igSe dees

DECISAO QUANTITATIVA 8: PADRONIZACAO E CONTROLE


Suas decisées neste contexto referem-se a até que ponto voce pode ou deve avangar com a
3 padronizacao e o controle. Os estudos experimentais sao muito sistematicos quando encarados
de um ponto de vista metodoldgico. Entretanto, nao podem ser aplicados a todo campo e a toda
questao. Outras formas de estudo sao menos padronizadas e controladas, podendo, no entanto,
ser mais facilmente ajustadas as condigoes no campo em estudo. As decisoes que vocé toma
; neste contexto com relacdo a padronizagao e ao controle em maior ou menor grau devem ser
* definidas tanto pelas condigdes no campo do seu estudo quanto pelos objetivos dele.

da no campoe sao entao aplicadas a todos Apresentacgao


os casos de maneira idéntica. Isto se destina
a garantir a padronizacao da pesquisa e, na A quem vocé quer se dirigir com sua
medida do possivel, o controle das condi- pesquisa e seus resultados? Qualsera a au-
¢6es na situacao da pesquisa. diéncia e o grupo-alvo quandosetratar de
apresentar suas conclusdes? Aqui podemos
distinguir entre audiéncias:
Generalizacao
a) académicas;
A generalizagao normalmente envolvea in- b) gerais; e
feréncia de um pequeno numero (de pesso- Cc) politicas.
as no estudo) para um numero maior (de
pessoas que poderiam ter sido estudadas). Se, no final, o seu estudo for ser apre-
De acordo com isso, a generalizacao pode sentado em uma tese (uma dissertagao de
ser vista como um problema numérico ou mestrado, por exemplo) sera mais impor-
estatistico, estando intimamente ligada a tante que vocé demonstre competéncias
questao da representatividade (estatistica) metodoldgicas especificas do que se osre-
da amostra que vocé estudou para a popu- sultados visassem a atrair a atencao do pu-
lagao que supds (como discutido nos Capi- blico em geral para um problemasocial. Se
tulos 5 e 11). Observe aqui que a “popula- a sua pesquisa e seus resultados destinam-se
¢ao” nao se refere necessariamente a toda a a ter uma influéncia sobre a tomadadede-
populacao de um pais; pois, em muitos es- cisdo politica, sua apresentacao tera que ser
tudos, o termo vai se referir a populacées concisa, facilmente compreensivel e focada
basicas mais limitadas. nos resultados essenciais (ver Capitulo 13).

Quadro 6.9

DECISAO QUANTITATIVA 9: GENERALIZACAO


A decisao sobre a populacao-alvo especifica para os propdsitos de generalizacdo tera conse-
quencias para a concep¢ao da pesquisa e para os métodos que vocé aplica. Esta decisao deve
ser direcionada pelos objetivos do seu estudo em
geral e pelas condigdes no campo do estudo.
A questao geral aqui é até que ponto a generalizagao pretendida é apropriada (a) a questao do
seu estudo, (b) ao campo e (c) aos participantes.
Introdugdo 4 metodologia de pesquisa 93

Quadro 6.10

DECISAO QUANTITATIVA 10: APRESENTACAO


Neste estagio, suas decisoes dizem respeito aos tipos de informacao que vocé deveselecionar
para a audiéncia a que quer se dirigir. Uma segunda questao é que estilo de apresentacgdo é
apropriado para este proposito.

[¥ Decisodes na a) objetivos pessoais, como realizar uma


dissertacao de mestrado ou uma tese de
pesquisa qualitativa doutorado;
b) objetivos praticos, como descobrir se um
Selecao do problema da pesquisa programaouservico especifico funciona; e
c) objetivos da pesquisa, relacionados ao
Muitos fatores afetam a escolha do problema desejo de um maior conhecimentogeral
da pesquisa na pesquisa qualitativa. E possi- sobre uma questao especifica.
vel que a literatura tedrica ou a pesquisa em-
Os estudos qualitativos frequente-
pirica até o momentoesteja de algum modo
mente tém o objetivo de desenvolverteoria
carente. Como alternativa, pode-se escolher
fundamentada, segundo a abordagem de
uma abordagem qualitativa porqueos parti-
Glaser e Strauss (1967). Entretanto, este é
cipantes em questao seriam dificeis de serem
um objetivo ambicioso e exigente. Se vocé
atingidos mediante os métodos quantitati-
esta escrevendo um trabalho final de bacha-
vos. Outro fator que influencia a escolha
relato, este objetivo pode naoserrealista:
podeser o de que o numero dosparticipantes
vocé pode nao ter o tempo ou a experiéncia
potenciais (p. ex., pessoas com um diagnosti-
requerida. Em vez disso, pode ser mais rea-
co especifico, porém raro) seja pequeno (em-
lista ter como objetivo apresentar uma des-
bora nao pequeno demais). Ou pode-se que-
cri¢ao ou avaliacao detalhada de algumas
rer explorar um campopara descobrir algo
praticas continuadas. Em geral, a pesquisa
novo. A decisdo sobre a escolha do problema
qualitativa pode ter comoobjetivo oferecer
também vai envolver a consideracao de ques-
uma descri¢ao ou avaliacao, ou o desenvol-
toes éticas (discutidas no Capitulo 12).
vimento de uma teoria.

Objetivos do estudo Estrutura teorica

Maxwell (2005, p. 16) distinguiu tipos dife- Na pesquisa qualitativa, pode ser que vocé
rentes de objetivos da pesquisa. Ha: nao use um modelo tedrico da questao que

Quadro 6.11

DECISAO QUALITATIVA 1: PROBLEMA DA PESQUISA

As quest6es nas quais vocé deve se concentrar aqui sao: o que € novo em relagao ao problema
que esta sendo considerado; que aspectos dele podem ser pesquisados empiricamente e des-
cobertos; as limitacoes da pesquisa existente; e se um numerosuficiente de participantes pode
ser acessado. Suas decisdes neste estagio vao influenciar os passos metodologicos que vocé
dara posteriormente no projeto.
94 Uwe Flick

Quadro 6.12

DECISAO QUALITATIVA 2: OBJETIVOS

Sua decisao diz respeito aos objetivos que vocé pode querer atingir realisticamente com o seu
estudo.

erm -

esta sendo estudada para apresentar um Strauss (1987) chama estas ultimas de
ponto de partida a fim de determinar as “quest6es degenerativas’. Ele as define
questdes que vocé usard (ou aquelas que como “Quest6es que estimulam a linha de
vocé fara em umaentrevista). Nao obstante, investigacao em dire¢oes lucrativas; condu-
os estudos podemestar relacionadosa tra- zindo a hipoteses, a comparag¢oes Uteis, a
balhos tedricos e empiricos anteriores sobre coleta de certos tipos de dados, e até as li-
o tema em questao. O estado atual da pes- nhas gerais de ataque a problemas poten-
quisa existente deve influenciar seus proce- cialmente importantes” (1987, p. 22).
dimentos metodoldgicos e empiricos sub- Na pesquisa qualitativa, Maxwell
sequentes. Na pesquisa qualitativa, pode (2005) propés distin¢gdes alternativas. Ele
haver varias possibilidades de estruturas distingue primeiro entre quest6es generali-
para o estudo de uma questao. Por exemplo, zadoras e particularizadoras, e segundo
pode ser que vocé possaanalisar tanto: entre questOes que se concentram nasdis-
tingGes e aquelas que se concentram nades-
a) as visdes e experiéncias subjetivas; quanto cricao dos processos. As quest6es generali-
b) as interacdes relacionadas ao t6pico na zadoras colocam a questéo em estudo em
questao. um contexto mais amplo — por exemplo,
quando a biografia de uma pessoa ou de
um grupo podeser entendida ao contrapo-
Formulacao da questao da pesquisa -la ao pano de fundo de umtumultopoliti-
co. As questoes particularizadoras colocam
Podemosdistinguir entre: em primeiro plano algum aspecto especifi-
co — por exemplo, um evento especifico,
a) as questdes da pesquisa em queas respos- como o inicio de uma doenga. As questoes
tas se concentram napossivel confirmacao que se concentram na distin¢ao tratam as
de umasuposi¢4o ou de umahipotese; e diferencas no conhecimento das pessoas —
b) as quest6es destinadas a descobrir novos digamosqueas diferencas de varios pacien-
aspectos. tes naquilo que conhecemsobre a sua doen-

Quadro 6.13

DECISAO QUALITATIVA 3: ESTRUTURA TEORICA

sane voce decide qual sera a perspectiva da pesquisa e os pontos


substanciais dela, na ver
2 € estara se comprometendo a proceder de determinadas maneiras. Assim fazendo, deve
omar como seus pontos de referéncia o conhecimento que lhe esta disponivel e as condigoes
i no seu campo de estudo.
Introdugao a metodologia de pesquisa 95

Quadro 6.14

DECISAO QUALITATIVA 4: QUESTOES DA PESQUISA

A escolha de uma questao da pesquisa envolve decis6es sobre 0 que exatamente vocé estara
estudando e tambem o que estara excluindo do seu estudo. Isto tera implicagdes subsequentes
para a sua escolha dos metodos para a coleta e analise dos dados.

ca. AS questOes que se concentram em exemplo, sugere que, para os transcritores


descrever um processo observam comoesse que digitam rapido, a duracao da fita que
conhecimento se desenvolve em um grupo contém a entrevista seja multiplicada por
de pacientes no progresso da sua doenga. um fator de quatro. Se a checagem entre a
transcri¢do acabada e a gravacao for tam-
bém incluida, a duracao da fita deve ser
Recursos multiplicada por um total de seis. Para o
calculo completo do projeto, ela aconselha
Quandose esta elaborando a concepcao de dobrar o tempo para permitir dificuldades
umprojeto, os recursos requeridos (tempo, imprevistas e “catastrdficas”. Exemplos de
pessoas, tecnologias, competéncias, expe- planos para calcular a programacgao do
riéncias) sao com frequéncia subestimados. tempo ou os projetos empiricos podem ser
Nas propostas de pesquisa, € comum ver encontrados em Marshall e Rossman(2006,
uma ma combinacaoentreos pacotes detra- p. 177-80) e Flick (2008b).
balho vislumbrados e os recursos pessoais
que foram solicitados. Para planejar um pro-
jeto realisticamente, vocé precisa avaliar de Amostragem e construcgao
maneira precisa o trabalho serrealizado. de grupos comparativos
Por exemplo, para umaentrevista que
dura 90 minutos, recomenda-se que vocé As decis6es sobre amostragem na pesquisa
permita uma quantidade equivalente de qualitativa se referem, acima de tudo,a pes-
tempo para recrutar o entrevistado, organi- soas Ou situacées na coleta de dados. As de-
zar o encontro, etc. Para calcular o tempo cis6es de amostragem tornam-se mais uma
necessario para a transcri¢ao das entrevis- vez relevantes para as partes do material co-
tas, as estimativas variam segundo o grau de letado que vocé vai tratar com interpreta-
preciso das regras de transcrigdo que ces estendidas ao analisar seus dados. Para
foram aplicadas. Morse (1998, p. 81-2), por a apresentacdo da sua pesquisa, a amostra-

Quadro 6.15 opt” ese mar wagear reine oremYeos mans BY aRENEE

DECISAO QUALITATIVA 5: RECURSOS

Nas decisoes neste contexto, vocé deve acima de tudo considerar a relagao entre os recursos
disponiveis e os esforcos planejados do estudo. Isto deve ajuda-lo a garantir que os dados que
vocé coletou nao sao demasiadamente complexos e diferenciados para que vocé possa analisa-
-los no tempo disponivel.
a
96 UweFlick

Quadro 6.16 ons

DECISAO QUALITATIVA 6: AMOSTRAGEM E COMPARACAO


Aqui vocé toma decisoes sobre as pessoas, grupos ou situagoes que inclu em seu estudo. As
decisoes devem ser orientadas para a relevancia de quem ou 0 qué voce seleciona para o seu
estudo. Elas devem também ser orientadas para se ter suficiente diversidade nos fenomenos
que vocé estuda. Se este for 0 seu topico, deve buscar pessoas com uma experiéncia de doenca
especifica (e nao apenas pessoas que estado de uma maneira ou de outra doentes). Ao mesmo
tempo, sua selecdo deve proporcionar alguma diversidade — por exemplo, pessoas que vivem
em diferentes circunstancias sociais com esta experiéncia de doenca € nao apenas pessoas que
vivem sob as mesmas condicoes.

gem diz respeito ao que vocé apresenta cao. No segundo caso, vocé vai trabalhar
como resultados ou interpretacoes exem- com as entrevistas com Osparticipantes e
plares (ver Flick, 2009, p. 115). As decisdes com as narrativas deles. Vocé pode decidir
de amostragem aqui nao sao normalmente entre diferentes graus de abertura e estrutu-
tomadasseguindocritérios abstratos (como racao: a coleta de dados podese basear nas
na amostragem aleatoria), mas sim seguin- quest6es previamente formuladas ou nas
do critérios substantivos referindo a casos narrativas, enquanto a observacao pode ser
ou gruposde casos concretos. estruturada ou aberta e participante. A ana-
Um risco importante para as decisdes lise dos dados pode ser orientada emcate-
de amostragem € a construcao de grupos gorias (algumasvezes anteriormentedefini-
comparativos. Aqui vocé decide em que das) ou no desenvolvimento do texto (da
nivel quer realizar suas comparacoes. Por narrativa ou do protocolo daintera¢ao: ver
exemplo, o seu foco seraoas diferencas e se- Capitulos 7 e 8).
melhangas entre pessoas e instituicdes, ou
entre situa¢des e fendmenos?
Graus de padronizagao e controle
Metodos Miles e Huberman (1994, p. 16-18) distin-
guem entre concepcoes de pesquisa rigidas
A distingao fundamental aqui é entre:
e flexiveis na pesquisa qualitativa. Concep-
a) a andlise direta do que ocorre; e ¢des rigidas de pesquisa envolvem ques-
b) a analise dos relatos sobre o que ocorreu. toes delimitadas de forma restrita e proce-
dimentos de selecao rigorosamente deter-
A primeira vai envolver a observacado minados. Os autores enxergamessas con-
(do participante) ou os estudos de intera- cep¢oes como apropriadas quando os

Quadro 6.17

DECISAO QUALITATIVA 7: METODOS


Sua decisao aqui diz respeito ao nivel dos dados (relato ou observagao) e ao grau de abertura
ou estrutura na coleta e na analise dos dados. Outros pontos de referéncia — alem da sua ques-
tao de pesquisa e das condicéesparticulares no campo - serao os objetivos do seu estudo e dos
recursos disponiveis.
Introdugao a metodologia de pesquisa 97

Quadro 6.18 |

DECISAO QUALITATIVA8: PADRONIZACAO E CONTROLE


Na pesquisa qualitativa, a padronizagdo e o controle desempenham um pape! menos impor-
tante em comparagao ao seu papel na pesquisa padronizada. Vocé pode, entretanto, tentar
reduzir a variedade no seu material e tentar focar a sua abordagem 0 maximo possivel (produ-
zindo concep¢oes rigidas). Como alternativa, vocé pode reduzir a padronizacao e o controle se
decidir por uma abordagem mais aberta e menos definida (concepcao flexivel). Ambas tém
suas vantagens e desvantagens.

pesquisadores carecem de experiéncia em a) apresentar uma analise detalhada de um


pesquisa qualitativa, quando a pesquisa nico caso no maior numeropossivel de
opera tendo por base constructos estrita- seus aspectos; ou
mente definidos, ou quandoela é restrita a b) comparar varios casos; ou ainda
investigacao de relacionamentos particu- c) desenvolver uma tipologia de diferentes
lares em contextos familiares. Nesses casos, casos.
eles encaram as concepc6esflexiveis como
um desvio do resultado desejado, pois A generalizacao envolvida pode ser
estas sao caracterizadas por conceitos mais tedrica do que numérica. A considera-
menos definidos e dificilmente tém, no ¢ao mais importante tende a ser maisligada
inicio, quaisquer procedimentos metodo- a diversidade dos casos levados em conside-
ldégicos. As concepcoes rigidas facilitam racdo ou ao escopo tedrico dos estudosdes-
decidir que dados sao relevantes paraa in- tes do que ao numero de casos incluidos
vestigacao. Elas facilitam comparare resu- nele. Desenvolver uma teoria pode ser tam-
mir os dados de diferentes entrevistas ou bém umaformade generalizacao em varios
observacoes. niveis. Esta teoria pode se referir a area
substantiva que foi estudada (p. ex., uma te-
oria acerca da confianca nas relacdes de
Generalizacao aconselhamento). A generaliza¢ao pode ser
avancada por meio do desenvolvimento de
Na pesquisa qualitativa, os objetivos podem uma teoria formal se concentrando em
variar. Por exemplo,entre: contextos mais amplos (p. ex., uma teoria

Quadro 6.19

DECISAO QUALITATIVA 9: GENERALIZACAO


Sua decisao em relacao ao tipo de generalizagao que vocé objetivou tera implicagoes para o
planejamento do seu estudo e, em particular, para a sua selegao dos casos. Esta decisao deve
levar em conta os objetivos do seu estudo e, ao mesmo tempo, a questao do que é€ possivel no
campo que vocé estuda. Deve também levar em consideracao a situagao dos possiveis partici-
pantes. De modo mais geral, surge a questao do quao apropriado é€, para 0 seu campo de
estudo, o tipo de generalizagao que vocé esta pretendendo fazer.
98 UweFlick

m= Quadro 6.20

° DECISAO QUALITATIVA 10: APRESENTAGAO


* Vocé deve decidir cuidadosamente como apresentar sua pesquisa. E importante que nao apre-
~ sente apenas alguns resultados, mas deixe também transparente como adentrou este campo,
como entrou em contato com as pessoas relevantes e como reuniu os dados de que precisou
para sua analise. E também importante que seus leitores tenham acesso a maneira como vocé
coletou seus dados e como os analisou. O caminho percorrido entre os dados originais e as
declaracdes e conclusdes mais gerais (comparativas, analiticas) deve ser elucidado com exem-
plos na secao dos métodos do seu relatério e com suficiente material original (citagoes) na sua
secao de resultados. As ilustragdes com materiais da amostra, com quadros ou tabelas, podem
ser muito uteis aqui.
Bs

de confianca interpessoal relacionada a va- mais ilustrativa? Ou seu objetivo é realizar


rios contextos). Esta distin¢ao entre a teoria um estudo sistematico dos casos que estado
substantiva e a teoria formal foi sugerida sendo estudados e as variac6es entre eles?
por Glaser e Strauss (1967). Vocé precisa considerar aqui oscritérios de
avaliacao que serao aplicadospara a suatese.
Em geral, a questao sera comorelacionar de-
Apresentacao claragdes e evidéncias concretas com inter-
pretac6es mais gerais ou profundas para que
Finalmente, vocé deve considerarnoseu pla- suas inferéncias sejam substanciadas de ma-
nejamento as questdes da apresentacao. O neira clara e convincente. (As questdes de
material empirico constituira a base de um apresentac¢ao serao discutidas em maisdeta-
ensaio ou de umanarrativa com uma funcao lhes no Capitulo 13.)

Questao central
Estrutura teorica da pesquisa Recursos Padronizacao

\ 7
Objetivos Decisoes no Amostragem e
processo da pesquisa comparacao

_
Problema da
pesquisa Apresentacao Generalizacao Metodos

Figura 6.1
DecisGes no processo da pesquisa.
Introdugdo a metodologia de pesquisa 99

[~ Decisoes dentro das As abordagens teoricas tém implicagoes


na escolha de suas abordagens metodo-
pesquisas quantitativa ldgicas.
e qualitativa e Sua questdo de pesquisa concreta vai de-
sempenhar um papel importante na de-
Na pesquisa padronizada, o processo de finicdo de como vocé se concentra no seu
decisao esbocado na primeira parte deste tema conceitualmente e como o cobre
capitulo destina-se a ajudar a selecionar as empiricamente.
alternativas no procedimento e aplica-las e As decis6ées metodoldgicas entre os méto-
em maior ou menor extensdo a questao do dos qualitativos e quantitativos e as con-
seu estudo. Cada uma das decisées delimi- cep¢6es devem derivar dos pontosderefe-
ta a perspectiva que vocé pode assumir réncia mencionados, nao devendo ter
sobre o que € o seu estudo e define que comobase a simples crenca de que apenas
partes deste tema vocé pode cobrir por uma ou outra versao da pesquisa social é
meio dos seus dados e da sua analise. Na cientifica, aceitavel ou digna de crédito.
pesquisa qualitativa, assim como na quan- e Uma referéncia importante deve ser a dos
titativa, podemos descrever 0 processo recursos disponiveis. (Entretanto, com re-
como uma série de decisdes. Planejar um lagao ao tempo,observe que a realizacao
projeto de pesquisa envolve uma série de de uma analise qualitativa consistente e
decis6es que poem em primeiro plano al- cuidadosa na maior parte dos casos re-
guns aspectos e exclui outros. Estas de- quer tanto tempo quanto um estudo
cis6es requerem a consideracdo de ques- quantitativo.) Sob o titulo de “recursos”
toes inter-relacionadas relativas ao seu aqui estao incluidos seu prdéprio conheci-
campo de estudo, ao tema a ser pesquisa- mento metodologico e a sua competéncia.
do, ao contexto tedrico e a metodologia
envolvida. Nogeral, sua decisao entre as metodolo-
As decisdes discutidas até agora neste gias qualitativas e quantitativas deve estar
capitulo estao resumidas na Tabela 6.2. mais direcionadapelo seu interesse na pesqui-
Estas decisdes (exibidas na Figura 6.1) vao sa e pelas caracteristicas do campo e do tema
informar a forma da concep¢ao da pesquisa que vocé estuda do que por preferéncias me-
e do processo da pesquisa em seus passos todologicas anteriores. Se nao for possivelde-
posteriores.
cidir inequivocamente entre as duas aborda-
gens, uma possibilidade € o uso de uma
combinacao das duas (ver Capitulo 10).

[¥ Decisao entre pesquisa


qualitativa e padronizada [~™ Decisao entre realizar
pesquisa Jn loco ou
Os fatores que se seguem proporcionam
pontos de partida para decidir entre aborda- on-line
gens qualitativas e quantitativas para o seu
projeto empirico: Comosera tambémdiscutido no Capitulo 9,
as abordagens quantitativa e qualitativa
¢ O temadoseu estudoe suas caracteristi- podem assumir a forma de pesquisa on-line.
cas devem ser seus principais pontos de Vocé pode, por exemplo, conduzir umapes-
referéncia para umadecisao desse tipo. quisa de levantamento por meio da internet,
100 Uwe Flick

Tabela 6.2 DECISOES NAS PESQUISAS QUANTITATIVA E QUALITATIVA

Decisao Estudo quantitativo Estudo qualitativo

Problema da O conhecimento existente é suficiente? O que € novo sobre o problema?


pesquisa Um numero suficiente de participantes Um numero suficiente de participan-
é acessivel? tes é acessivel?

Objetivos Tipo de estudo Area do conhecimento de interesse e


Interesse da pesquisa objetivos praticos?
Estado da arte da pesquisa

Estrutura teorica O modelo foi uma base para a opera- Foi captada a perspectiva da pes-
cionalizagao? quisa?

Questoes da Uteis para o trabalho com o problema Delimitam a questao da pesquisa?


pesquisa da pesquisa?

Recursos Reivindicagoes metodologicas em E possivel analisar os dados coletados


relacao a dinheiro, tempo, etc. no tempo delimitado?

Amostragem e Apropriagao da amostragem: seus Ha diversidade dos fenomenos na


comparagao grupos-alvo sao suficientemente amostra?
considerados?

Meétodos Os métodos sao seus ou foram usados A abertura e estrutura dos dados
métodos ja existentes? Dados novos ou advém dos metodos?
ja existentes?

Padronizagao e Limites para a padronizagao no campo Ha comparabilidade das diferengas


controle nos grupos Ou campos?

Generalizagao Até que ponto é pretendida uma Ate que ponto pode ser pretendida
generalizagao? uma generalizagao?
Apresentacgao Ha condensacao dos aspectos essen- Os procedimentos sao compreensiveis
cialis? e transparentes?

em vez de enviar formularios pelo correio e que concerne a escolha entre métodosespe-
esperar que a resposta deles seja também en- cificos para um projeto. A maioria dos lhi-
viada assim. Vocé pode tambémconsiderar vros trata, separada e isoladamente, cada
realizar suas entrevistas on-line em vez de método ou concepcao de pesquisa descre-
presencialmente. Os argumentos esbocados vendosuas caracteristicas e problemas tam-
na literatura relacionada as vantagens e des- bém em separado. Na maioria dos casos,
vantagens de realizar projetos de pesquisa eles falham em proporcionar umaapresen-
on-line em comparacaéo com a maneira tra- tag¢ao comparativa, quer de alternativas me-
dicionalestao detalhados no Capitulo9. todoldgicas ou das bases para a selegio de
métodos apropriados para o tema da pes-
quisa em questao.
[VW Decisao sobre abordagens Na medicina ounapsicoterapia, € ha-
bitual checar a adequabilidade de umdeter-
especificas da pesquisa minado tratamento para problemas ¢ gru-
pos de pessoas especificos. Isto levanta a
Os compéndios sobre pesquisa social com questao da “indicacdo”: 6 perguntado se um
frequéncia proporcionam pouca ajuda no tratamento especifico é “indicado”(isto
Introdugdo a metodologia de pesquisa 101

apropriado) para um problemaespecifico com morbidade multipla em casas de re-


em um caso especifico. Similarmente, na pouso?” — é apropriada. Entretanto, devido
pesquisa social podemos perguntar quando as condi¢oes concretas sob as quais vocé vai
(em termosde, p. ex., a questao, 0 campo e estuda-lo, vocé pode precisar de outros mé-
o tema da pesquisa) os métodos qualitati- todos de analise além do estabelecido SF-
vos sao indicados e em que casos, em vez 36. Para esta populacao, um método dife-
deles, sao indicados os métodos quantitati- rente (p. ex., entrevistas abertas) pode ser
vos. Por exemplo, é pratica comum estudar mais indicada do que 0 método comum.
a “qualidade de vida” para as pessoas que Isto pode ser diferente se vocé estudar a
vivem com uma doenca cronica. Vocé vai questao da qualidade de vida para uma po-
encontrar muitos instrumentosestabeleci- pulagao mais geral. Neste caso, pode nao
dos para a mensuracao da qualidade de vida haver necessidade de usar métodos muito
(p. ex., 0 SF-36) que sdo regularmenteapli- abertos e partir de uma abordagem muito
cados para mensurar a qualidade de vida de aberta para desenvolver teorias e instru-
diferentes populacoes. A questao da indica- mentos. Aqui, conhecimento suficiente
¢do torna-se relevante se vocé querusar este sobre 0 tema e a populacao esta disponivel
instrumento para estudar a qualidade de para ser aplicado aos métodos padroniza-
vida de, digamos, uma populacao de pesso- dos e bem estabelecidos. A Tabela 6.3 ilustra
as muito idosas vivendo em umacasadere- esta comparacao diagramaticamente (para
pouso, sofrendo de varias doencas (nao mais detalhes sobre esta questao na pesqui-
apenas uma) e que estao um pouco deso- sa qualitativa, ver Flick, 2009, Capitulo 20).
rientadas. Entao vocé vera que este instru-
mento bem estabelecido encontra seusli-
mites nas caracteristicas especificas destes
grupos-alvo: como mostrou Mallinson '“ Reflexao durante
(2002), a aplicacao deste instrumento nao
esta totalmente clara para uma populacao 0 processo
desse tipo e a situacao concreta em queela
esta vivendo. A questao da pesquisa — “Qual Antes de considerar em detalhes os méto-
é a qualidade de vida das pessoas idosas dos mais comuns disponiveis para a reali-

Tabela 6.3 INDICACAO DOS METODOSDE PESQUISA

Psicoterapia e medicina Pesquisa social


Quais doengas, qual tratamento Qual tema, qual método ou
sintomas, ou terapia? populacao, métodos?
diagnésticos, questao da
populagao indicam pesquisa, indicam
conhecimento
do tema eda
populagao

1. Quando um método particular é apropriado e indicado?


2. Quando a combinacao de métodos é apropriada e indicada?
3. Como vocé toma uma decisao racional contra ou a favor de determinados métodos?
102 UweFlick

zacao de um projeto de pesquisa, voce (‘Lista de verificagao


podeser aconselhado a recuar por um Mo-
mentoe refletir sobre o processo do plane-
para a escolha de um
jamento até o momento.A Tabela 6.4 apre- método especifico
senta uma lista de questdes de orientacao
para examinar a consisténcia e a adequa- Para escolher seus métodos concretos, vocé
cao do seu planejamentoaté agora. A refle- pode usar como orienta¢ao os pontos do
xdo acerca destas quest6es vai proporcio- Quadro 6.21. Estas questdes podem serre-
nar uma base sdlida para escolher seus levantes para planejar seu proprio projeto e
métodos para a coleta e a analise dos seus para avaliar os estudos existentes de outros
dados. pesquisadores.

! Tabela 6.4 DIRETRIZES BASICAS PARA A REFLEXAO SOBRE O SEU PROJETO DE PESQUISA

Tema Diretrizes basicas Aspectos relevantes

Relevancia Para que finalidade o seu ¢ Que progresso de conhecimentotedrico e empirico


estudo é importante? vocé espera de seus resultados?
Que relevancia pratica vocé vé para seus resultados?

Clareza O quao clara e a conceitua- O quao claros sao os objetivos do seu estudo?
lizagao do seu estudo? Sua questao de pesquisa esta formulada com
clareza?

Conheci- Quais sao as bases do seu Vocé checou o estado da arte da pesquisa e o
mento estudo e da realizagao conhecimento sobre o tema da sua pesquisa? Ambos
basico dele? justificam um estudo padronizado e de testagem de
hipoteses? Ou ha lacunas suficientes para justificar
um estudo qualitativo?
Que habilidade metodologica vocé tem pararealizar
o estudo?

Viabilidade O estudo pode ser Seus recursos (p. ex., tempo) sao suficientes para
realizado? que vocé possa realizar 0 estudo?
Vocé esclareceu 0 acesso ao campo e aos participan-
tes? Quao provavel é a possibilidade de organizar
este acesso?
Ha pessoas (suficientes) para responder as suas
perguntas?

Escopo A abordagem foi planejada Vocé vai incluir casos, grupos, eventos, etc. em
muito estreitamente? diversidade suficiente?
O indice de resposta e a presteza em participar serao
suficientes?
Que generalizagao vocé pode conseguir com seus
resultados?

Qualidade Que reivindicagdes de Vocé conseguira aplicar os métodos de maneira


qualidade podem ser consistente?
formuladas para os As declaragées dos participantes serao confiaveis?
resultados? Os dados serao suficientemente consistentes para
que vocé realize a analise pretendida com eles?

(continua)
Introdugdo a metodologia de pesquisa 103

Tabela 6.4 —_DIRETRIZES BASICAS PARA A REFLEXAO SOBRE 0 SEU PROJETO DE PESQUISA(cont)

Tema Diretrizes basicas Aspectos relevantes

Neutralidade Como vocé pode evitar ¢ Vocé pode abordar o campo os participantes de
vieses e parcialidade? uma maneira nao tendenciosa, mesmo que nao
compartilhe dos seus pontos de vista?
e Vocé pode evitar agir pro ou contra alguns participan-
tes de uma maneira parcial?
e Vocé pode aceitar os limites dos seus procedimentos
metodoldgicos?

Etica Sua pesquisa é eticamente © Vocé pode prosseguir em sua pesquisa sem decep-
solida? cionar os participantes ou causar danos a eles?
¢ Como vocé pode garantir o anonimato, a protecao
dos dados e a confidencialidade?

Quadro 6.21

LISTA DE VERIFICACAO PARA A ESCOLHA DE UM METODO ESPECIFICO

1. Até que ponto sua abordagem metodologica é adequada para os objetivos e pontos de
partida teoricos do seu estudo?
2. Seus métodos de coleta de dados se adequam aqueles de andalise dos seus dados?
3. Seus dados se adequam ao nivel de escalonamento e aos calculos que vocéfara a partir
deles?
4. Os métodos de analise a serem usados sao apropriados ao nivel de complexidade dos
dados?
5. Que implicagd6es os métodos selecionados - desde a amostragem até a coleta e a analise
- tém para a questao do estudo e qual a abrangéncia deles?
6. Sua decisao sobre determinados procedimentos baseia-se no tema e no campo do seu
estudo ou nas suas preferéncias metodoldgicas?
7. Vocé avaliou que abordagens sao “indicadas” ?

Pontos principais

v Ao realizar pesquisa socia!, sejam os métodos qualitativos ou quantitativos, vocé enfrenta decisOes
em cada um dos passos esbogados no Capitulo 4.
v As decisées sao inter-relacionadas. 0 método de coleta de dados deve ser levado em conta quando
vocé decide como realizar a sua analise.
Y Os objetivos da sua pesquisa ~ por exemplo, quem vocé quer atingir e talvez convencer com seus
resultados — e as condicées estruturais (p. ex., os recursos disponiveis e as Caracteristicas das
pessoas ou dos grupos e campos do seu estudo) também tém um papel importante.
Y As decisoes entre as abordagens qualitativas e quantitativas devem ser direcionadas pelo tema que
vocé estuda e pelos seus recursos.
Y Omesmo se aplica a decisdo de conduzir ou nao o seu projeto por meio da internet.
Y Checar a “indicagdo” dos métodos de pesquisa proporciona um ponto de partida para as decisoes
discutidas neste capitulo.
104 UweFlick

Bryman, A. (2008) Social Research Methods, 3. ed.


' Leituras adicionais Oxford: Oxford University Press.
Flick U. (2009) Introdu¢ao a Pesquisa Qualitativa,
O primeiro e o ultimo textos a seguir assu- 3. ed. Porto Alegre, Artmed. Capitulo9,
memuma abordagem mais integrativaa es-
Miles, M.B. & Huberman, A.M. (1994) Qualitative
colha dos métodos de pesquisa, enquanto a Data Analysis: An Expanded Sourcebook, 2. ed.
segunda e a terceira referéncias adotam Thousand Oaks, CA: Sage.
umaperspectiva qualitativa.
Punch, K. (1998) Introduction to Social Research.
London: Sage.
Parte Ill
Trabalhando com dados

A parte central de um projeto de pesquisa consiste em coletar e analisar os dados. Esta


terceira parte do livro explica estes processos.
O Capitulo 7 introduz trés formas principais de coleta de dados. A primeira é 0 uso
de questionarios ou entrevistas; a segunda é o uso de observacées; e o terceiro é a pes-
quisa documental. 0 Capitulo 8 se concentra nas trés principais formas de analise dos
dados. A primeira é a analise do contetido; a segunda é a estatistica descritiva; e a tercei-
ra é@ a analise interpretativa para dados qualitativos. Os estudos de caso sao discutidos ao
final do capitulo. O Capitulo 9, por sua vez, considera o uso da internet na pesquisa, espe-
cialmente para as pesquisas de levantamento e entrevistas on-line e para a etnografia
virtual.
Todo método tem suas limitagdes, podendo por isso ser proveitoso combinar dife-
rentes métodos. O Capitulo 10 esboga as maneiras diferentes de fazé-lo mediante a pes-
quisa de métodos mistos, a triangulagdo e a pesquisa integrada.
“7
Coleta de dados: abordagens
quantitativa e qualitativa

VISAO GERAL DO CAPITULO s


Pesquisas de levantaMmento © ENtreVistas.....c.cccccccssssesseesessesscssesseasessecsesseesecssssecssssesseesessusanseseeseesessessees 108
ODSEFVAG HO... eee csecceseenescenescaeenssecaesnscsssesuscsssescesusseenesusseesscusaucsvsseasesecsussesseessarsseaneansausaesstesecsecneseaneensenees 121
Trabalho COM COCUMENTOS.......eececcccssessesesseseesesesuesesssssssscseescseescsesessescesescesssvsscavsnssesueacsteasssesseseacssssesseseanenes 124
Obtengdo e documentacao das infOrMagGe..... eeecsesssneenessesseereesreseresseeenesacsuersrecseseesuseaseieenteassneees 126
Lista de verificagao para a CONCEPGGO da Coleta de CAdOS oo... eeeecesecsesessesseecessesteseeecntesneseeeseesneetenees 130

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-loa:


v entender uma série de métodos da pesquisa social para a coleta de dados;
¥ compreender as semelhancas e diferencgas, com relagdo aos métodos, entre a pesquisa qualitati-
va e a quantitativa;
v avaliar os métodos disponiveis para vocé e o que vocé pode conseguir com eles.
108 Uwe Flick

fg Tabela 7.1 NAVEGADOR PARA 0 CAPITULO 7

Orientagao e O que é pesquisa social?


e Questao central de pesquisa
Revisao da literatura

Planejamento e e Planejamento da pesquisa


concepgao e Concepgao da pesquisa
Decisao sobre os métodos

Vocé esta aqui Trabalhando Coleta de dados


v

no seu projeto com dados Analise dos dados


Pesquisa on-line
Pesquisa integrada

Reflexao e escrita Avaliagao da pesquisa


° Etica
e Aescrita e 0 uso da pesquisa

Na pesquisa social, ha trés formas princi- [V) Pesquisas de


pais de coleta de dados: vocé podecoletar os
dados fazendo perguntas as pessoas (me- levantamento e entrevistas
diante pesquisas de levantamento e entre-
vistas), observando-as ou estudando docu- Como umaforma de preparacao para 0 en-
mentos. Este capitulo delineia cada uma tendimentodas alternativas para fazer per-
delas separadamente. guntas as pessoas, por favor responda ao
questionario apresentado no Quadro7.1.

QUESTIONARIO
Por favor, preencha o trecho do questionario a seguir, cujo foco é avaliar o estresse causado por
estudar, segundo as seguintes instrugdes:
“Nos Ihe pedimos para responder a algumas perguntas sobre sua situacao pessoal e sobre
caracteristicas da sua universidade. Por favor, circule sem hesitar em até que ponto cada uma
das areas mencionadas nas quest6es é estressante e satisfatoria para vocé. Muito estressante
é indicado pelo valor 5 na escala do estresse; muito satisfatoria, pelo valor 5 na escala de satis-
fagao. Nao estressante Ou satisfatoria é indicado por 1 na respectiva escala. Se, para vocé, uma
das areas € apenas estressante ou apenas satisfatoria, por favor faga um circulo em uma das
escalas (estressante ou satisfatoria).” Se vocécircular 0 0, isso significa que esta area nao é nem
estressante nem satisfatoria para vocé.
Estressante Satisfatorio
SB n--- G ---- 3-2 wnn- Y= Oe Dna2 wn3 5

Estressante Satisfatorio

Estudar nesta universidade significa B wane Gan Bane Q nae | nee QaPan2BA
para mim uma limitacgao do
meu comportamento

(continua)
Introdugao a metodologia de pesquisa 109

Quadro 7.1

QUESTIONARIO (continuagao)

Estressante Satisfatorio

Fazer provas para mim é B nnn Gn Binns Dae Dna QaPe 2BeGS
Na universidade, contatos B nee Gane 3 nnDae a a Do 2BS
acontecem com frequéncia
Na universidade, contatos raramente B n=G ---- Bn 2 mae Dane QaDa2Bo
acontecem

Os professores e os conferencistas B nnG wnBann Q vane Vane QaDn2BoAB


dificilmente me perturbam por causa
dos meus estudos ou do meu trabalho
Despender muito tempo(de lazer) 5 ---- 4 ~~~ 3 -n= Denne Vinee QaDee 2Ba
com meus estudos para mim é
Com frequéncia tenho que decidir B nn-- 4 == B n-= 2 nee Dn ee Da 2Bo
entre a familia/amigos e estudar
As vezes tenho de fazer coisas com as 5 wn-- Q n= Bnne 2a Oe De 2Bo
quais eu nao concordo na universidade
As pessoas esperam muito de mim B wn-- Qn 3B nnn 2 a De Oe De 2Bo

Agora — mais umavez titulo de pre- acha que melhorcobriria a situa¢ao dores-
paracao — por favor use o material do Qua- pondente? Que forma deu mais espaco para
dro 7.2 para entrevistar um dosseus colegas as proprias opinides dele? Qual vocé acha
estudantes. que produz os dados maisclaros?
Que diferencas vocé percebe entre es- Os instrumentos de pesquisa nos
tas duas experiéncias? Que exercicio vocé Quadros 7.1 e 7.2 foram adaptados de um

Quadro 7.2

ENTREVISTA SOBRE A VIDA COTIDIANA E OS ESTUDOS

Eu gostaria de realizar uma entrevista com vocé sobre 0 tema “a vida cotidiana e os estudos” E
importante que vocé responda segundo seu ponto de vista subjetivo e expresse suas opinides.
Vou Ihe fazer varias perguntas relacionadas a situagdes com as quais vocé tem experiéncia no
que se refere aos estudos e Ihe pedir para me recontar essas situagoes.
Antes de tudo, eu gostaria de saber...
1. Qual foi a sua primeira experiéncia em estudar aqui? Vocé poderia, por favor, me dar um
exemplo concreto a respeito disso?
2. Por favor, fale-me sobre como foi o seu dia de ontem e em que momento seus estudos
desempenharam um papel nele.
3. Quando vocé observa o que faz em seu tempolivre, que papel os seus estudos desempe-
nham nele? Por favor, dé-me um exemple concreto disso.
4. Se vocé observar a sua vida em geral, tem a sensagao de que estudar ocupa uma parte
maior dela do que vocé esperava? Pode resumir isto me dando um exemplo?
5. O que vocé vincula a palavra “estresse”?
6. Quando vocé olha para tras: qual foi a sua primeira experiéncia com o estresse quando era
estudante? Vocé poderia me falar sobre esta situagao?
110 UweFlick

questionario usado para estudar o estresse das, e o proposito de formula-las. As per-


no local de trabalho e em umaentrevista guntas devem coletar, direta ou indireta-
episddica. Eles representam formas con- mente, as razGes de um comportamento ou
trastantes de indagar as pessoas sobre sua atitude especifica de um entrevistado, mos-
situacao. A principal diferenga esta no grau trando seu nivel de informacao no que se
de padronizac¢ao do procedimento: 0 ques- refere 4 questao sendo examinada.
tiondrio surge com uma lista pré-definida Até que ponto a informagao recebida
de perguntas e respostas, enquanto a entre- é instrutiva vai depender tanto do tipo de
vista é mais aberta. Na entrevista, as per- pergunta quanto da sua posi¢ao no questio-
guntas podemser variadas em sua sequén- nario. Vai também dependerdese:
cia e os entrevistados podem usar suas
palavras e decidir a que queremse referir a) as perguntas se ajustam a estrutura de re-
em suas respostas. A seguir discutimos os feréncia do respondente; e
dois métodos mais detalhadamente. b) se as estruturas de referéncia dele e do
entrevistador correspondem.

Pesquisas de levantamento Finalmente, a situagao em que uma


padronizadas: questionarios pergunta é formulada e deve ser respondida
desempenha um papel importante.
A maioria das pesquisas de levantamento é Se vocé deseja identificar a estrutura
baseada em questionarios. Estes podem ser de referéncia do entrevistado, deve pedir a
respondidos na formaescrita ou oralmente, ele que apresente suas raz6es (p. ex., “Por
em uma interrogacdo presencial, com um que vocé escolheu este tema para os seus
pesquisador anotando as respostas. Uma ca- estudos?”). Vocé vai precisar levar em
racteristica dos questiondarios é a sua extensiva conta o nivel de informac¢oes do entrevis-
padronizacao. Os pesquisadores vao determi- tado: se as perguntas forem demasiado
nar a formulac¢ao e a sequenciagado das per- complexas, é provavel que sejam mal in-
guntase as possiveis respostas. As vezes, tam- terpretadas e produzam respostas difusas.
bém sao incluidas algumas questées de texto De acordo com isso, vocé deve traduzir
aberto ou livre, as quais os respondentes temas complexos em perguntas concretas,
podem responder com suaspréprias palavras. claramente entendiveis. Quando possivel,
Os estudos de questiondrio tém por use linguagem coloquial. Observe aqui que
objetivo receber respostas comparaveis de pode nao fazer muito sentido incorporar a
todos os participantes. Por isso, as questées, linguagem da sua hipotese diretamente
assim como a situacao da entrevista, sao de- nas suas perguntas.
signadas de forma idéntica para todos os Seja cuidadoso e evite perguntas
participantes. Quandose esta criando um multidimensionais, como, por exemplo,
questionario, as regras para a formulacao “Como e quando vocé descobriu que...?”.
das perguntase a disposicao da sua sequén- Se as perguntas incluem varias dimens6es,
cia devem seraplicadas. sua comparabilidade sera reduzida porque
os respondentes podem captar dimens6es
diferentes nelas. Também evite perguntas
Construcao da pergunta com um viés, que sugiram uma resposta
especifica (perguntas sugestivas) ou com
Ha aqui trés quest6es importantes: como algumas suposic6es. Por exemplo, se vocé
formular uma pergunta, que tipos de per- esta estudandoosprocessos de exaustao, a
guntas e possiveis respostas sao apropria- pergunta “Quanto vocé se sente esgotado
Introdugao a metodologia de pesquisa 111

porseu trabalho?” supoe que o responden- ¢ Todas as perguntas sdo necessdrias?


te ja se sinta esgotado. Em vez disso, vocé e O questionario inclui perguntas redun-
deve descobrir mediante uma questao an- dantes?
terior se este é realmente o caso. As per- e Quais perguntas sao supérfluas?
guntas devem ser 0 mais curtas e simples « Todas as perguntas séo formuladas de
possiveis, € alinhadas o mais préximo pos- formafacil e clara?
sivel da estrutura de referéncia do respon- e Ha perguntas negativas cujas respostas
dente. Negagdes duplas devemser evita- podemser ambiguas?
das. O mesmo tambémse aplica a termos e As perguntas formuladas sao muito gerais?
pouco claros ou técnicos. Por exemplo, em ¢ O entrevistado sera potencialmente ca-
vez de perguntar “Qual € a sua definicao paz de responderas perguntas?
subjetiva de saude’, pergunte “O que vocé « Existe risco de que as perguntas sejam
associa a palavra‘satide’?” embaracosaspara 0 entrevistado?
Vocé tambémdeve reconhecer que as ¢ O resultado pode ser influenciado pela
caracteristicas do evento que voce esta es- posicao das perguntas?
tudando vao influenciar a qualidade das e As questdes sao formuladas de uma ma-
respostas apresentadas. Quanto mais no neira sugestiva?
passado um evento esta, menos exatas « As perguntas abertas sao adequadamente
serao as respostas. Quanto mais interessa- formuladas e 0 questionario tem um fim
dos em umaquestao os entrevistados este- adequadamenterefletido?
jam, mais detalhadas e acuradas serado as
respostas. Quanto mais amedrontador um
evento tiver sido para os entrevistados,
maior a probabilidade de que eles o te- Tipos de perguntas e
nham esquecido. Quanto mais algo esta de possiveis respostas
vinculado a rejeicao social (p. ex., tempo
passado emalas psiquiatricas), menos uma As perguntas podemser distinguidas se-
pessoa vai falar ou fazer declaracoesa res- gundo a maneira como elas podem serres-
peito. Quanto mais valorizado algo é (p. pondidas. As perguntas abertas nado vém
ex., renda, status), maior a probabilidade com respostas previamente definidas, en-
de que as respostas incluam superestima- quanto as perguntas fechadas ja especifi-
goes. Para perguntas fechadas com duas cam as alternativas para respondé-las.
respostas possiveis, é mais provavel que a Essas alternativas podemser especificadas
segunda seja dada. Para perguntas com na construgao da pergunta (p. ex., “A
uma lista de possiveis respostas (“pergun- maioria das enfermeiras esta satisfeita ou
tas dalista”), alguém que naosaiba a res- insatisfeita com seu trabalho?”), que per-
posta podeescolher uma alternativa a par- mite apenas um numero limitado de res-
tir do terco inferior da lista: isto é postas (no nosso exemplo, duas). Uma
conhecido como “efeito da posicgao”. Estes pergunta fechada pode limitar o numero
e outros problemas de como formular e de possiveis respostas usando umaescala
colocar uma pergunta sdéo tratados com de concordancia, como visto na Figura7.1.
detalhes por Neuman (2000, Capitulo 10). Uma alternativa é apresentar diferentes
Alguns textos (p. ex., Bortz e Déring, possibilidades para responder, comoilus-
2006, p. 244-6) apresentamlistas de verifi- trado no Quadro 7.3.
cacao para avaliar perguntas orais Ouescri- Também€ possivel apresentar umasi-
tas padronizadas. Essaslistas incluem pon- tuacao. Aqui vocé listaria varias respostas
tos de orientagao como: possiveis 4 pergunta “O que vocéfaria nessa
112 UweFlick

Grau de concordancia

Nenhum Total

A Aciéncia e a tecnologia serao capazes 1 2 3 4 5


de resolver os problemas ambientais

B Mais crescimento econdmico é a


precondicao mais importante para a 1 2 3 4 5
resolucao dos problemas ambientais

Figura 7.1
Escala de resposta de cinco niveis (extraida de Diekmann, 2007,p. 212).

situagao?” Ou poderia fazer perguntasrela- por exemplo, “Muitas pessoas acham que a
cionadas a como alguma outra pessoa rea- enfermagem, comoprofissdo, é subestima-
giria nesta situacdo. As vezes os questiona- da na nossa sociedade. Vocé também acha
rios incluem perguntas de controle, que isso?” Assim, pode evitar uma confronta¢ao
reformulam os temas de perguntas anterio- direta com um temapossivelmente delica-
res usandopalavras diferentes. As perguntas do, apesar de ainda assim recebera opiniao
também podem ser feitas indiretamente: do entrevistado.

Quadro 7.3

MANEIRASDE DEFINIR POSSIVEIS RESPOSTAS

1. A primeira alternativa e usar uma escala. Um exemplo é a escala de Likert, que inclui cinco
possiveis respostas, uma das quais é neutra (“nao sei”). Isto pode ser usado para a
declaragao “A maioria das enfermeiras esta infeliz com o seu trabalho”
Totalmente Correto Nao sei Incorreto Totalmente
correto incorreto
O- Ox —O ~O- —O
2. Com frequéncia sao apresentadas perguntas simples e escalas de muitos passos para
respondé-las: “Até que ponto vocé esta feliz com o seu trabalho?”

luite
Muito Um pouco Um pouco Muito
satisfeito satisfeito insatisfeito insatisfeito
O- > ——O— ————~O— ~O- O —O)
Satisfeito Nenhum dos dois Insatisfeito

3. Uma terceira opcao e apresentar varias respostas possiveis a pergunta “O que vocé acha?
Por que as enfermeiras estao insatisfeitas com o seu trabalho?” (pode-se assinalar mais de
uma resposta).
* Horas de trabalho desfavoraveis [J
¢ Remuneragao insuficiente O
e Estresse emocional O
¢ Estresse com os colegas CL]
Introdugao a metodologia de pesquisa 113

Posicionamento das perguntas Os “mandamentos”destinam-se a as-


segurar que as perguntas sejam claramente
As perguntas podem influenciar uma a formuladas e nao desafiem em excesso ou
outra. Isto é, a maneira como algumaper- confundam os respondentes. Porst preten-
gunta € respondida podeser influenciada de que estas regras proporcionem apenas
pela pergunta formulada imediatamente uma oOrientacao: “a maioria das regras deixa
antes. Isto € conhecido como0 “efeito halo”. espaco para interpretacao e as vezes [...] até
Os vinculos entre as duas perguntas nao sao competem uma com a outra e porisso nao
necessariamente criados deliberadamente. podem ser aplicadas 100% ao mesmo tem-
Em geral, € sugerido que vocé agrupe as po” (2000,p. 2).
perguntas a partir da mais geral no inicio
até a mais concreta nofinal.
Perguntaspraticas
Sugestdes para Com frequéncia, os questiondrios sao dis-
formular as perguntas tribuidos e é solicitado aos destinatdrios
que os devolvam dentro de um tempoesta-
Porst (2000) apresentou os “10 mandamen- belecido. Neste caso, 0 questionario preci-
tos” da formulacado da pergunta para pes- sara ser acompanhado de umacarta que
quisas de levantamento.Estes sao apresen- proporcione informacoes suficientes sobre
tados no Quadro 7.4. Seu ponto de partida o estudo, explicando a sua importancia e
€ oO seguinte: encorajandoo destinatario a participar. Um
problema importante é a percentagem de
A razao das perguntas terem de ser respostas(isto é, o numero de questionarios
“boas’, isto é, metddica e tecnicamente que realmente sao preenchidos e devolvi-
perfeitas, deve ser evidente por si: as
dos). Nao € apenas necessario que um nu-
perguntas ruins conduzem a dados
merosuficiente de questionarios seja devol-
ruins e nenhum procedimento deatri-
buicdo de pesos e nenhum meétodo de vido (50%seria uma propor¢ao muito boa
analise dos dados consegue apresentar aqui); pois, além disso, um numerosignifi-
bons resultados a partir de dados ruins. cativo daqueles devolvidos deve ter sido
(2000,p. 2) completamente preenchido.

Quadro 7.4

OS “10 MANDAMENTOS” DA FORMULACAO DA PERGUNTA(PORST,2000)

1.Vocé deve usar conceitos simples e nao ambiguos que sejam entendidos da mesma
maneira por todos os respondentes!
Vocé deve evitar perguntas longas e complexas!
QAahwnr

Vocé deve evitar perguntas hipoteticas!


Vocé deve evitar estimulos duplos e duplas negacoes!
Vocé deve evitar suposicées e perguntas sugestivas!
Vocé deve evitar perguntas que tenham como objetivo uma informagao que muitos
respondentes provavelmente nao terao disponivel!
Vocé deve formular perguntas com uma referéncia clara ao tempo!
© %© nw)

Vocé deve usar categorias de respostas exaustivas e disjuntivas (sem justaposi¢ao)!


Vocé deve assegurar que o contexto de uma pergunta nao tenha um impacto em sua
resposta!
10. Vocé deve definir conceitos que nao estejam claros!
114 UweFlick

Finalmente, voce deve checar ate que Resumo


ponto a distribuigao dos questionarios de-
volvidos corresponde a amostra original. Os questionarios sao apropriados para um
Para usar um exemplo simples: a proporgao estudo quando:
de homens emrelagao as mulheres em uma
populagdo & de dois para um, A selegao da a) o conhecimento sobre a questaolheper-
amostra e o envio dos questiondrios devem mite formular um numerosuficiente de
levar em conta esta proporgao, Se a propor- perguntas de maneira nao ambigua; e
cdo que caracteriza a distribuigao nos ques- b) um grande numerode participantes es-
tiondrios devolvidos é completamente dife- tara envolvido.
rente da proporgado na amostra original, os
resultados do estudo podemser generaliza- Os questionarios sao altamente pa-
dos para a populagao apenas de maneira dronizados. A sequéncia e a formulacao das
muito limitada. Uma alternativa é decidir perguntas sao definidas previamente,assim
ndo enviar os questionarios, mas em vez como as possiveis respostas. Porém, por
disso realizar uma pesquisa de levantamen- serem frequentemente enviados em vez de
to padronizado com umentrevistador visi- entregues em mdaos, podera haver proble-
tando os participantes. [sto pode melhorar mas comos indices de resposta.
o retorno dos questionarios, embora con-
suma muito mais tempoe seja dispendioso.
InvestigacOes nao padronizadas:
Exemplo: uma pesquisa de entrevistas e grupos focais
levantamento de saude dos jovens
Passamos agora a considerar formasalter-
A pesquisa de levantamento de saude dos nativas de entrevistas. Ha as entrevistas se-
jovens jafoi descrita no Capitulo 2. Ela ¢ ba- miestruturadas, baseadas em umguia da
seada em um questionario gue cobre os t6- entrevista com — algumas vezes — tiposdife-
picos apresentados no Quadro 7.5 (ver Ri- rentes de perguntas a serem respondidas de
chter, 2003). um modo em maior ou menor grauaberto

Quadro 7.5

TOPICOS NA PESQUISA DE LEVANTAMENTODE SAUDE DOS JOVENS

e Informagoes demograficas: género, idade, estrutura familiar, localizacao, nivel e tipo de


escola, situagao socioeconémica, origem étnica.
Saude subjetiva: queixas psicossomaticas, saude mental, alergias, satisfagao com a vida, etc.
Risco de acidentes e violéncia: lesdes por acidente, assaltos (agressor e vitima), participa-
Gao em brigas, uso de substancias (tabaco, alcool, drogas ilegais).
Comportamento alimentar e dietas: habitos alimentares, indice de massa
corporal, etc.
Atividadefisica: esportes, esforgosfisicos, inatividade devido a televisao e o computador, etc.
Recursos sociais: numero de amigos, apoio dos pais e dos pares, situagao familiar,
condigoes de vida, etc.
Escola: exigéncias de desempenho, qualidade do ensino, apoio dos pais,
colegas e
professores, amigos na escola, envolvimento na escola,
etc.
Grupo de parese atividades de lazer: frequéncia dos encontros, uso dos meios de comuni-
ca¢ao, participagao em associacdes e organizacoes
, etc.
Introdugdo 4 metodologia de pesquisa 115

e extensivo; ha também, entrevistas basea- e especificidade das opinides e definicao


das em narrativas, cujo foco é convidar os da situacao a partir do seu pontode vista;
entrevistados a contar (aspectos de) suahis- e cobertura de uma amplasérie de signifi-
toria de vida; a possibilidade das entrevistas cados do tema;
que misturamas perguntas e os estimulos e a profundidade e o contexto pessoal exi-
narrativos; e, finalmente, as entrevistasapli- bidos pelo entrevistado.
cadas a grupos, emvez de a participantesiso-
lados. Os grupos focais sao outra forma de Para este proposito, na maioria dos
coletar dados verbais. Em seguida, conside- casos sao formuladas varias perguntas. As
ramos mais detalhadamente alguns destes perguntas podemser abertas (“O que vocé
tipos. vincula a palavra ‘sauide’?”) ou semiestrutu-
radas (“Se vocé pensar sobre como vocé se
alimenta, que papel a saude desempenha
Entrevistas semiestruturadas neste contexto?”). As perguntas estrutura-
das sé sao usadas raramente, pois apresen-
Para as entrevistas semiestruturadas, sao tam uma declaragéo com a qual se espera
preparadas varias perguntas que cobrem o que o entrevistado concorde ourejeite (p.
escopo pretendido da entrevista. Para este ex., “Muitas criancas estao se alimentando
proposito, vocé precisara desenvolver um de modo muito desequilibrado. Na sua vida
guia da entrevista como uma forma de cotidiana comoprofessor, esta é também a
orientacao para os entrevistadores. Em con- sua impressdo?”). Essas declaracdes tem um
traste com os questiondarios, os entrevista- carater quase sugestivo, embora sejam algu-
dores podem se desviar da sequéncia das mas vezes usadas neste contexto para esti-
perguntas. Eles também nao ficam necessa- mular os entrevistados a refletir sobre sua
riamente presos a formulacao inicial exata posicao ou talvez também para fazé-los ex-
das perguntas quando as formulam. O ob- pressar explicitamente sua concordancia ou
jetivo da entrevista € obter as visdes indivi- discordancia da pergunta ou declara¢ao. Ou-
duais dos entrevistados sobre um tema. Por tros elementos em umaentrevista semiestru-
issO, as quest6es devem dar inicio a um dia- turada — como apresentar uma historia de
logo entre o entrevistador e o entrevistado. caso ficticia com perguntas referentes a ela
Mais uma vez em contraste com os questio- (também conhecido como técnica da “vi-
narios, em umaentrevista vocé nado vai nheta”) — podem ter umafuncao similar.
apresentar umalista de possiveis respostas. Decisivo para o sucesso de umaentre-
Em vezdisso, espera-se que os entrevistados vista estruturada é que o entrevistador
respondam da forma maislivre e extensiva sonde em momentos adequados e conduza
que desejarem. Se suas respostas nao forem a discussao da questao em maior profundi-
suficientemente ricas, o entrevistador deve dade. Ao mesmo tempo,os entrevistadores
sondar mais. devem trazera entrevista todas as perguntas
Ao construir um guia da entrevista e que sejam relevantes para esta questao. As
realizar a entrevista, quatro critérios sao questdes abertas devem permitir espaco
liteis. Estes foram apresentados (inicial- para as visOes especificas e pessoais dos en-
mente para as entrevistas focadas) por Mer- trevistados e também evitar influencid-los.
ton e Kendall (1946). Eles tem como foco: Essas perguntas abertas devem ser combi-
nadas com perguntas mais focadas, que se
e nao direcdo na relacéo com o entrevis- destinam a conduzir os entrevistados além
tado; das respostas gerais e superficiais e a intro-
116 UweFlick

visada |...] A tarefa do entrevistador ¢


duzir temas que eles nao teriam menciona-
fazer o informante contar histdéria da
do espontaneamente.
area de interesse em questéo como
A construcdo de uma entrevista deve, uma historia consistente de todos os
é claro, estar vinculada de perto aos objeti- eventos relevantes do inicio ao fim.
vos e ao grupo-alvo da pesquisa. As entre- (1995, p. 183)
vistas habeis (ver Bogneret al., 2009), por
exemplo, nao ficam tao focadas nas perso- A entrevista narrativa compreende va-
nalidades dos entrevistados, mas sim na ne- rias partes — em particular:
cessidade de recuperar sua pericia em uma
drea especifica. Por outro lado, se vocé en- a) a narrativa principal do entrevistado, em
trevista pacientes sobre a doenga deles, as seguida a uma “pergunta geradora da
proprias pessoas e suas experiéncias pesso- narrativa’;
ais serao 0 principal interesse. De acordo b o estagio da sondagem narrativa, em que


com isso, no primeiro caso serao requeridas fragmentos narrativos que nao foram
dos especialistas perguntas mais focadas, exaustivamente detalhados antes sao
enquanto no segundocaso serao formula- completados;e
das aos pacientes perguntas mais abertas. ts o estagio final da entrevista (conhecido

Em todas as aplicacées de entrevistas se- como a “fase do equilibrio”), consistindo
miestruturadas, é apenas na situacao da en- em perguntas que consideram os entre-
trevista que vocé pode decidir quando e vistados comoespecialistas e tedricos de
como sondar extensivamente. Para este
si Mesmos.
proposito, pode ser proveitoso realizar pri-
meiro um treinamento da entrevista antes Se vocé tem por objetivo suscitar uma
da coleta dos dados. Este vai consistir em narrativa que seja relevante para a sua ques-
encenacoes dasentrevistas praticas e de co- tao da pesquisa, deve formular a pergunta
mentarios dos outros. narrativa geradora de forma ampla, embora
ao mesmo tempo de uma formasuficiente-
mente especifica para produzir o foco dese-
Entrevistas narrativas jado. O interesse pode serelacionara historia
de vida do informante em geral. Neste caso,a
Um caminho diferente para descobrir as pergunta narrativa geradora sera mais gene-
opinides subjetivas dos participantes é en- ralizada: por exemplo, “Eu gostaria de lhe
contrado na entrevista narrativa. O funda- pedir que comecasse com sua histdéria de
mental aqui nao sao as perguntas. Em vez vida”. Ou 0 interesse pode estar em algum as-
disso, os entrevistados sao convidados a pecto especifico, temporal e tdpico da bio-
apresentar relatos mais longos e coerentes grafia do informante, como, por exemplo,
(digamos, de suas vidas como um todo, ou umafase de reorientac¢ao profissionale suas
da sua doenga e seu curso) na forma de uma
consequéncias. Um exemplo do tipo de
narrativa. O métodose destaca na pesquisa
questao geradora aqui requerida é:
biografica. Hermanns descreve da seguinte
maneira seu principio basico de coleta dos
Eu querolhe pedir que me conte como
dados:
aconteceu a historia da sua vida. A me-
lhor maneira de fazer isto seria voce
Naentrevista narrativa, o informante é
partir do seu nascimento, com a crian-
solicitado a apresentar a histéria de ¢a pequena que vocé foi um dia, e
uma area de interesse de que tenha entao contar todas as coisas que acon-
participado em umanarrativa impro- teceram, uma apos a outra, até hoje.
Introdugao a metodologia de pesquisa 117

Vocé pode demorar o quanto quiser fa- 2. A orientacao do escopo para os entre-
zendoisto, incluindo também detalhes,
vistados na parte principal da narrati-
porque para mim interessa tudo o que
va, que Os Capacita a contar suas hist6-
é importante para vocé. (1995, p. 182)
rias talvez até mesmo por varias horas.
3. O adiamento das intervencOes concre-
E importante assegurar que a primei- tas, estruturantes e tematicamente
ra pergunta seja realmente uma pergunta aprofundadas na entrevista até a parte
narrativa geradora e que o entrevistador final, quandoo entrevistador deve cap-
nao impe¢aa narracao dahistoria por parte tar as quest6es mencionadas breve-
do entrevistado com perguntas ou inter- mente e formular perguntas focadas.
vencoes diretivas ou avaliativas. Um teste Isto significa que as atividades estrutu-
importante da validade aqui é a questao de rantes do entrevistador estao localiza-
se foi realmente apresentada umanarrativa das no final da entrevista e, talvez ainda
por parte do entrevistado. Aqui vocé deve mais profundamente, no inicio dela.
levar em conta que “E sempre apenas‘a his-
toria de’ que podeser narrada, nao um esta-
do ou uma rotina sempre recorrente”(1995, A entrevista episddica
p. 183).
Se apresenta aqui um problema de- Os dois métodos apresentados até agora
corrente das expectativas da atribuicao de escolhem uma abordagem — sejam per-
papéis das partes envolvidas. Elas incluem guntas e respostas, ou estimulo narrativo e
uma violacao sistematica das expectativas a narracao dashistorias de vida —- como a
usuais que cercam uma “entrevista’, porque principal abordagem de um tema em estu-
a principal parte da entrevista narrativa nao do. Entretanto, para muitas questées de
consiste em perguntas a maneira tradicio- pesquisa é necessdario usar um método que
nal. Ao mesmo tempo,as expectativas em combine os dois principios — as narrativas
rela¢ao a situacao da “narrativa do cotidia- e a indagacao — igualmente. A entrevista
no” sao também violadas, pois 0 espaco ex- episddica (ver Flick, 2008a; 2009) parte da
tensivo para a narracdo que o entrevistado suposicdo de que as experiéncias dos indi-
apresenta aqui de maneira unilateraldificil- viduos sobre certa area ou questao estado
mente ocorre em situacdes cotidianas. Isto armazenadas nas formas de conhecimento
pode produzir dificuldades para as duas narrativo-episddico e semantico. Embora
partes envolvidas. Aqui, o treinamento da a primeira forma esteja focada de perto
entrevista se concentrou na escuta ativa e é nas experiéncias e ligada a situac6ese cir-
necessario um esclarecimento do carateres- cunstancias concretas, a segunda forma de
pecifico da situacdo da entrevista para 0 en- conhecimento contém suposi¢Ges e cone-
trevistado. x6es abstratas e generalizadas. No primei-
A entrevista narrativa tem comoobje- ro caso, 0 curso da situa¢ao em seu contex-
tivo 0 acesso as experiéncias subjetivas dos to é a unidadecentral, em torno da qual o
entrevistados mediante trés meios: conhecimento é organizado. No segundo
caso, os conceitos e suas inter-relacoes for-
1. A pergunta de abertura, que visa esti- mam as unidades centrais. Para cobrir as
mular nao simplesmente uma narrati- duas partes do conhecimento sobre uma
va, mas especificamente uma narrativa questao, o método coleta conhecimento
sobre a area topica e o periodo na bio- narrativo-episddico em narrativas e co-
grafia do entrevistado que sao deinte- nhecimento semantico em perguntas con-
resse do entrevistador. cretas e focadas.
118 UweFlick

O objetivo disso é a conexao sistema- vez de apenas menciona-las. Vocé deve se


tica dos dois tipos de dados(isto é, narrati- certificar de que o entrevistado entendeu e
vas € respostas) e desse modo dosdois tipos aceitou o método. Um exemplo de umain-
de conhecimento que eles tornam acessi- troducao desse tipo para 0 principio da en-
veis. A entrevista episddica da espa¢o para trevista é: “Nesta entrevista, vou lhe pedir
apresentagoes relacionadas ao contexto na varias vezes para me contar as situac6es em
forma de narrativas, pois elas tratam as ex- que vocé teve experiéncias com 0 tépicoda
periéncias em seu contexto original de saude.”
forma mais imediata do que outras formas Com as perguntas de abertura, vocé
de apresentacao. Ao mesmo tempo,as nar- solicita que os entrevistados apresentem
rativas podemelucidar mais sobre os pro- sua definicao subjetiva do tema da pesquisa
cessos de construgao das realidades por e narrem situagoes relevantes. Exemplos
parte dos entrevistados do que outras abor- dessas perguntas sao: “O que ‘satide’signifi-
dagens que se concentram em conceitos e ca para vocé? O que vocé vincula a palavra
respostas mais abstratos. ‘saude’?” ou “O que influenciou de modo
O foco na entrevista € em situacdes e particular suas ideias sobre satide? Vocé
episddios em que 0 entrevistado teve expe- pode, por favor, me falar sobre umasitua-
riéncias relevantes para a questao em estu- cao que torne isto claro para mim?” A si-
do. A forma de apresentacao (descri¢ao ou tuacdo exemplar queeles escolherem e nar-
narrativa) que sera escolhida paraa situa- rarem para este proposito é sempre uma
¢ao isolada, assim comoa selecao das situa- decisao dos entrevistados. Vocé pode subse-
¢des, pode ser decidida pelos entrevistados quentementeanalisar tanto a escolha quan-
segundo a sua relevancia subjetiva para a to o relato da situacao narrada porcada en-
questao. O objetivo da entrevista episddica trevistado.
é permitir que, para cadaarea substancial, o A proxima parte da entrevista vai se
entrevistado apresente experiéncias de concentrar no papel ou relevancia da ques-
forma geral ou comparativa, e ao mesmo tao em estudo paraas vidascotidianas dos
temporelate situa¢6es e episddios relevan- participantes. Para este propdsito, vocé
tes. O planejamento,a realizacao e a andlise pode lhes pedir para recontar como foi o
das entrevistas episddicas incluem os se- transcorrer de um dia (p. ex., ontem) e que
guintes passos (ver Flick, 2000a). Como relevancia a questao teve nesse dia. Se for
uma prepara¢ao, vocé deve desenvolver um mencionada uma multiplicidade de situa-
guia da entrevista, que inclui estimulos e ¢6es, vocé deve se concentrar nas mais inte-
questOes narrativas paraas areas e aspectos ressantes e procurar buscar uma apresenta-
que vocé considera relevantes para a ques- cio mais detalhada. Mais uma vez, ¢
tao do seu estudo. Noinicio da entrevista, interessante que os analistas identifiquem
vocé deve introduzir o principio central que situacgdes os entrevistados escolhem
dela, explicando que vocé ira convidar 0 en- narrar. Um exemplo de pergunta quetrata
trevistado repetidas vezes a narrarsituacdes das mudancas na relevancia da questao ©:
especificas. O problema geral das entrevis- “Vocé tem a impressdo de que a suaideia de
tas baseadas em narrativas também rele- satide mudou durante a sua vida profissio-
vante aqui; algumas pessoas tém mais pro- nal? Vocé pode, por favor, me falar sobre
blemas em narrar do que outras. Porisso, é umasituacdo que mostre esta mudan¢a?”
muito importante que vocé explique aos Emseguida, vocé vai pedir aos entre-
entrevistados 0 principio da narracdo das vistados que esbocem sua relacao pessoal
situagoes. Os entrevistados devem ser enco-
com aspectos importantes da questao que
rajados a narrar situacdes relevantes, em
esta sendo estudada. Por exemplo, “O que
Introdugao a metodologia de pesquisa 119

significa para vocé promover a saide como -teto. Nossas entrevistas com os adolescen-
parte do seu trabalho? Vocé pode, por favor, tes foram baseadas na entrevista episddica e
me falar sobre umasituacao deste tipo?” cobriram as dreas presentes no Quadro7.6,
Vocé deve pedir ao entrevistado queilustre no qual alguns exemplos de perguntase de
estes exemplos de experiéncias pessoais e estimulos narrativos sao apresentados.
conceitos subjetivos da maneira mais subs-
tancial e abrangente possivel, aprofundan-
do a questao se necessario.
Grupos focais e
Na parte final da entrevista, vocé vai
pedir aos entrevistados que falem sobre os discussdes em grupo
aspectos mais gerais da questao em foco e
que apresentem suas opinides pessoais Uma alternativa para entrevistar individuos
neste contexto. Isto tem o proposito de es- é usar entrevistas em grupo em que a mesma
tender o escopo da entrevista. Vocé deve pergunta é feita a varios participantes, que
tentar ao maximo vincular estas respostas respondem um apos 0 outro. Como alterna-
gerais a exemplos mais pessoais e concretos tiva — e mais comumente — um grupo pode
usados anteriormente, de forma que possi- ser usado como uma comunidade deinte-
veis discrepancias e contradic6es se tornem racao. Desde a década de 1950, as discus-
visiveis. Um exemplo de questao generali- s6es em grupo tém sido usadas principal-
zante dessa maneira é: “Quem vocé acha mente nas areas de lingua alema e, em
que é responsavel por sua saude? Ha uma paralelo, os grupos focais eram usados no
situacao por meio da qual vocé possa des- mundo anglo-saxénico. Nos dois casos, a
crever isto?” coleta de dadosse baseia na inauguracao de
Como nas outras entrevistas, a per- uma discussao em um grupo sobre a ques-
gunta final deve solicitar ao respondente os tao do estudo. Por exemplo, os alunos dis-
aspectos omitidos das perguntas ou ques- cutem as suas experiéncias com a violéncia
tionar se ha alguma coisa que deva ser e comoeles lidam com ela, ou os estudantes
acrescentada (p. ex., “Ha mais alguma avaliam a qualidade deseus cursos e do en-
coisa...?”). sino em gruposfocais.
Imediatamente aposa entrevista, vocé O ponto de partida para o uso deste
deve completar uma folha em que vai docu- método é que estas discussdes podem tor-
mentar as informacdes sociodemograficas nar aparente o modo como as atitudes ou
sobre o entrevistado e caracteristicas dasi- avaliacGes sao desenvolvidas e modificadas.
tuacao particular da entrevista. Quaisquer Os participantes provavelmente expressam
perturbagoes e alguma coisa mencionada mais e vao além emsuasdeclarac6ées do que
sobre a questdo da entrevista depois que o nas entrevistas individuais. A dinamica do
gravador foi desligado também devem ser grupo torna-se uma parte essencial dos
anotadas, contanto que seja eticamente dadose da sua coleta.
aceitavel (ver Flick, 2009, p. 299 para um Para as discussOes em grupo, podem
exemplo dessa folha de documentario). ser usadas varias formacoes de grupo. Vocé
pode iniciar a partir de um grupo natural
(isto é, um grupo queexiste na vida cotidia-
Exemplo: conceitos de saude na além da pesquisa); de um grupo real
(que é confrontado em sua vida cotidiana
dos adolescentes sem-teto
pela questao do estudo) ou de gruposartifi-
No Capitulo 2, foi descrito o estudo sobre ciais (estabelecidos pela pesquisa segundo
os conceitos de sauide dos adolescentes sem- critérios especificos). Vocé pode também
120 UweFlick

Quadro 7.6

VISTA EPISODICA
TRECHOS DE UM GUIA DE ENTREVISTA PARA UMA ENTRE
a . arrears,

Conceitos
itos de saude:: definigado geral e individual de saude, relevancia e possiveis

me ajude a entender isto?


Vinculos entre fatores e riscos na vida com os conceitos e praticas de saude
Se vocé pensar em como vive atualmente, ha alguma coisa que influencie a sua saude?
Vocé pode me falar sobre uma situa¢ao que explique isso: ide? Pod
. ~ . . ?
° e Vv

¢ Vocé vé alguma relagao entre sua atual situagao de alojamento e a sua saude? Pode me
i a que exp lique isso?
r sobre uma situagao ; | |
e Como vocé lida com a doenga? Vocé pode me falar de uma situagao que explique isso?
e Vocé acha que a sua situagao financeira tem alguma influéncia sobre a sua saude? Como?
Vocé pode exemplificar uma situagao para isso?

O comportamentode risco e a prevengao secundaria comoparte daspraticas de


saude . ;
e Vocé acha que vocé as vezes arrisca a sua Saude devido ao que faz? Ha uma situacao sobre
a qual vocéé possa me falar?? ; . . ;
e E se vocé pensar em drogas e alcool, 0 que vocé usa? Por favor, me diga uma situacao em
que faga isso.

Experiéncias
iénci de doengae lidando
i come las a ;
* Quando vocé nao se sente bem, quais sao seus principais problemas? Como vocé acha que
este problema (mencionado pelo entrevistado) surge?

distinguir entre grupos homogéneose hete- grupo focal ou uma discusséo em grupo
rogeneos. Nos grupos homogéneos, os com um estimulo para a discussao, que
membros sao similares nas dimensoes es- pode ser uma pergunta provocativa, um
senciais com respeito a questao da pesquisa: gibi ou um texto, ou a apresentagao de um
por exemplo, eles podem ter uma origem filme curto. .
profissional similar. Nos grupos heterogé-
Em geral, vocé deve estar consciente
neos, os membros devem diferir nas carac- de que dirigir grupos focais requer muito
teristicas que sdo importantes para a ques- esforco organizacional (p. ex., para corde:
tao da pesquisa. Os grupos focais e as nar a data do encontro). Além disso, sa0 0S
discuss6es de grupo podem ser moderados varios grupos que podem ser comparados,
de diferentes maneiras. Vocé pode se abster
mais que todos os participantes dos grupos.
de qualquer forma de moderacao, realiza
r Por isso, vocé deve comparar 0s var1os gru-
algum direcionamento formal (determi
- pos um com o outrosetiver razoes para a
nando umalista de palestrantes) ou realizar
devido 4 questao da pesquisa, e nao devido
uma modernizacao mais substancial
(intro- ao tempo que vocé espera economizal "i
duzindo tépicos ou intervindo com
algu- compara¢ao com as entrevistas individual
mas perguntas provocativas). Inicia-se
um (ver também Capitulo 11).
Introdugao a metodologia de pesquisa 121

Conclusao complexas séo agora observadas com


métodos abertos e adaptados. Entretan-
Os métodos apresentados até agora tém por to, sao também aplicadas as abordagens
objetivo coletar dados verbais — seja entrevis- que usam as categorias de observacao
tando individuos, convidando-os a narrar sua previamente definidas para observar
experiéncia autobiografica ou fazendoos gru- uma amostra desituac6es.
pos discutirem uma questado. Estes métodos e Observacao experimental e nao experi-
tornam acessivel o conhecimento sobre as mental: no primeiro caso, vocé vai inter-
praticas e OS processos, mas nado dao acesso vir especificamente e observar as conse-
imediato as praticas e processos em seu curso. quéncias dessa intervencao.

Observacoespadronizadas
[¥% Observacao
Bortz e Doring descrevem esta abordagem
Mais acesso as praticas e processos € pro- da seguinte maneira:
porcionadopelo uso das observacgées. Aqui
podemos tambémdistinguir varios concei- O plano de observagao de uma obser-
tos relacionados ao papel do pesquisador: vacgao padronizada define exatamente
o que observar e como protocolar o
que é observado. Os eventos a serem
« Observacao velada e aberta: até que observadossao conhecidosdesdeo ini-
ponto as pessoas ou Os camposobserva- cio e podem ser fragmentadosem ele-
dos sao informados de que estao sendo mentos isolados ou segmentos, que sao
observados? exclusivamente a questao ou a aten¢ao
« Observacao participante e nao partici- do observador. (2006, p. 270)
pante: até que ponto os observadores se
tornam partes ativas do campo queesta Para a observacao padronizada, vocé
sendo observado? vai extrair uma amostra dos eventos ou do
« Observacadosistematica e nao sistemati- tempo. A primeiraalternativa esta orienta-
ca: € aplicado um esquema de observa- da para alguns eventos (p. ex., uma deter-
¢40 padronizado em maior ou menor minada atividade) em sua frequéncia no
grau ou os processos sao observados de periodo da observacao ou na frequéncia da
forma mais aberta? ocorréncia em combinacao com outros
« Observacdo em ambientes naturais ou eventos: com que frequéncia as garotas res-
artificiais: os pesquisadores entram nos pondem em uma aula de matematica ou
camposrelevantes ou “transferem”as in- com que frequénciaelas o fazem depois que
teracOes para uma sala (um laboratorio) umapergunta especifica ¢ formulada? Para
especifica para melhorar a qualidade das respondera estas perguntas, uma turma in-
observacoes? teira é observada e a frequéncia dos eventos
¢ Introspeccdo ou observacao dos outros: é anotada. Uma alternativa é extrair uma
na maioria dos casos, a observacao vai se amostra de tempo. Aqui, a observacao é
concentrar em outras pessoas. Que papel segmentada em periodos fixados, em que
tem a introspeccaoreflexiva do pesquisa- vocé observa ou talvez mude o objeto de
dor em tornar maissolidasas interpreta- observacao — por exemplo, em intervalos de
¢des dos observados? cinco minutos, que sao aleatoriamente
¢ Observacao padronizada e nao padroni- amostrados segundo o periodo de informa-
zada: na maioria dos casos, as situa¢des cdo (aula de matematica). As observacoes
122 UweFlick

como relevantes. No nosso exemplo, os


sio realizadas com um esquemade obser-
vacdo padronizado, com frequéncia depois
dadosainda serao coletados em umaobser.
vacao de campo (na turma).
do treinamento dos observadores em lidar Isto tornarg
com situacdo e com0 instrumento.As ob- mais complicada a padronizac¢ao dasitua-
cao da pesquisa. Por isso, a observ
servacdes podem ser documentadas em acao no
video e depois em papel. Um problema laborat6rio — isto é, umasituacao artificial
sob condigées controladas — é a alternativa
podeser a camera (ou 0 esquemade obser-
vacao) nao cobrir os aspectos essenciais da a ser observada no contexto naturaldassj-
situacdo. Na amostragem de tempo, os tuacoes de ensino.
eventos relevantes podem ocorrer fora dos
periodos selecionados.
Esta situacdo basica da observagao da Observacao participante
ciéncia social — os pesquisadores observam
0 campo € as pessoas que estao nele, usando Uma forma de coleta de dados contrastante
uma amostra e se limitam a anotar os pro- é proporcionada pela observacao partici-
cessos — podeser estendida em varias dire- pante. Aqui, a distancia do pesquisador da
¢des na pratica da pesquisa. situacao observada é reduzida. Suapartici-
pacdo durante um periodo de tempoesten-
dido no campo queé estudado torna-se um
Experimentos instrumento essencial da coleta de dados.
Ao mesmo tempo, a observa¢ao é muito
Na pesquisa experimental, especialmente menos padronizada. Aqui vocé fara tam-
na psicologia, a observac4o pode ser con- bém uma amostragem dassitua¢6es obser-
centrada em umaintervencao deliberada vadas, mas nao no sentido de uma amostra-
em um grupo, que é entao comparado com gem do tempo comodescrito anteriormente.
um segundo grupo em queesta interven¢ao Em vez disso, vocé vai selecionaras situa-
esta ausente. Por exemplo, nas observacoes Gdes, aS pessoas e os eventos segundoaté
na escola, o professor pode aplicar uma in- que ponto os fenédmenos interessantes se
terven¢do que reduza a agressdo em um tornam acessiveis nesta selecao. O principal
grupo — por exemplo, uma unidadede ensi- procedimento podeser resumido naspala-
no sobre a diminuicao de situacdes de con- vras de Jérgensen por “uma ldgica e um
flito. Entao, em um segundogrupo,esta in- processo de indagacao que é aberto,flexivel,
tervencao nao é aplicada. Os dois grupos oportunista e requer uma constante redefi-
serao entao observados e comparados em nigao do que é problematico, baseado em
seu comportamento na proxima situacao fatos reunidos em ambientes concretos da
de conflito que ocorra. Se os grupos forem existéncia humana”(1989, p. 13).
montados por amostragem aleatoria, este A observacao participante pode ser
sera um estudo experimental. Se os grupos entendida como umprocesso de duas pat-
ja existirem (duas turmas de 7? série) este tes. Primeiro, supde-se que os pesquisado-
sera um estudo quase-experimental. A ob- res se tornem participantes e encontrem
servacao € aplicada segundo os principios acesso ao campoe as pessoasqueestaonele.
mencionados anteriormente — por exem- Segundo, a propria observacao se torna
plo, em amostragem do tempo ou de pes- mais concreta e mais fortemente orientada
soas. Os pesquisadores realizarao uma ob- para os aspectos essenciais da questao da
servacao nao participante e usardo um pesquisa. Podemosaqui distinguir trés fases
protocolo de observacgao para documentar
(ver Spradley, 1980, p. 34). Em primero
os comportamentos definidos previamente
lugar, supde-se que a observacao descritiva
Introdugdo a metodologia de pesquisa 123

para a orientacao no campo de estudo pro- servacao participante. Entretanto, a obser-


porcione descri¢des menos especificas, para va¢ao e a participacao também estao inter-
cobrir ao maximo a complexidade do cam- ligadas com outros procedimentos nesta
po e para tornar as quest6es da pesquisa estratégia:
mais concretas. Em segundolugar, a obser-
vacao focada é cada vez mais limitada aos Em sua forma mais caracteristica, ela
processos e aos problemas que sao particu- envolve a participacao do etndégrafo,
larmente relevantes para a questao da pes- explicita ou implicitamente, nas vidas
quisa. SupGe-se que observacao seletiva ao cotidianas das pessoas durante um pe-
final da coleta de dados encontre mais evi- riodo de tempo estendido, observando
O que acontece, ouvindo o que é dito,
déncias e exemplos para os processos iden-
formulando perguntas — na verdade,
tificados no segundo passo. A documenta-
coletando quaisquer dadosdisponiveis
¢a0 consiste principalmente em anotacées ~ para lancar luz as quest6es que sao o
de campo detalhadas dos protocolos dassi- foco da pesquisa. (Hammersley e
tua¢oes. Sempre que possivel, a ética da pes- Atkinson, 1995, p. 1)
quisa (ver Capitulo 12) exige que as obser-
vacoes sejam conduzidas abertamente, de Essa estratégia vai ajuda-lo a adaptar
forma que as pessoas observadas saibam mais consistentemente a coleta de dados a
que estao sendo observadas e concordem sua questao da pesquisa e as condic¢ées do
previamente com isto. Em terceiro lugar, campo,ja que os métodos sao subordinados
com relacao a observacao (participante), o a pratica da pesquisa no campo. Ha uma
problema com frequéncia é que algumas forte énfase na exploracao de um campo ou
questOes nao sao imediatamente acessiveis fendmeno. Vocé vai coletar principalmente
no nivel da pratica, mas apenas ou princi- dados naoestruturados em vez de usar ca-
palmente se tornam “visiveis” nas intera- tegorias previamente definidas e um esque-
¢des quando as pessoas falam sobre os ma de observacao. Para este propésito, al-
temas. Alguns topicos s4o apenas um tema gunscasos estao envolvidos (ou mesmo um
nas conversas com a pesquisa ou em entre- unico caso). A andalise dos dados se concen-
vistas ad hoc’. Entretanto, os resultados de tra na interpretacdo dossignificados e das
uma observacao participante serdo mais funcoées das praticas, declaracoes e proces-
proveitosos quando mais insights surgirem sos (ver Hammersley e Atkinson, 1995, p.
dos protocolos das atividades e menossur- 110-11). Ltuders encara as principais carac-
girem dos relatos sobre as atividades. Nao teristicas definidoras da etnografia da se-
obstante, as conversas, indagacG6es e outras guinte maneira:
fontes de dados sempre compreenderado
uma parte grande do processo do conheci- primeiro [ha] 0 risco e os momentos
mento na observac¢ao participante. do processo de pesquisa que nao
podemser planejados e sao situacio-
nais, coincidentes e individuais [...] Em
segundo lugar, a habilidade dos pes-
Etnografia quisadores em cada situacao torna-se
mais importante [...] Emterceiro,a et-
Recentemente, a estratégia mais geral da nografia [...] transforma-se em uma
etnografia tem tendido a substituir a ob- estratégia de pesquisa que inclui tantas
op¢odes de coleta de dados quanto pos-
sam ser imaginadas e_ justificaveis.
"N. do R.T.: Ad hoc: expressdo do latim quesignifica (1995, p. 320-1; ver tambémLiiders,
“por ocasido”. 2004a)
124 UweFlick

Conclusao que foram produzidas nao para pesquisa,


mas para propositos de documentacao.
Os métodos de observacdo anteriormente
descritos variam na distancia que os pes-
Andlise secundaria
quisadores mantém do campo que é obser-
vado; as alternativas sdo participar ou sim- O termo “andalise secundaria” significa que
plesmente observar de fora. Além disso,os vocé analisa os dados que nao foram coleta-
métodos diferem no grau de controle das dos para 0 seu proprio projeto de pesquisa.
condicées do estudo exercido pelos pesqui- Em vez disso, vocé usa os conjuntos de
sadores. O controle é mais forte nos experi- dados existentes que foram produzidos
mentos de laboratério e mais fraco na ob- para outros propositos.
servacao participante. Eles podem também
ser distinguidos pela padronizacaodassitu-
acdes de pesquisa — mais uma vez, mais li- Tipos de analises secundarias
mitadas na observacao dos participantes e
mais fortes para o experimento. Em geral, Aqui, podemos distinguir entre reanalisar
com relacao a observacao, a ideia norteado- os dados de outros projetos de pesquisa e os
ra da coleta de dados é que ela proporciona dados produzidos para outros propositos
um acesso mais imediato as praticas e roti- que nao os de pesquisa. Na segundacatego-
nas em comparacdo com asentrevistas e as ria, encontramos dados de institutos de
pesquisas de levantamento. Entretanto, na pesquisa e estatistica’ que sao coletados,
maioria dos casos, as conversas, as declara- elaborados e analisados para propésitos de
ces e€ as questdes OU, aS vezes, entrevistas monitoramento. Eles podem ser usados
ad hoc estao envolvidas nas observacoes. para muitas quest6es de pesquisa. Na pri-
meira categoria, vocé vai encontrar dados
produzidose analisados por outros pesqui-
sadores ao estudarem umaquestaoespecifi-
(VW Trabalho com documentos ca, que agora podemser novamenteutiliza-
dos por outros pesquisadores para suas
Os métodosapresentados até agora tém em proprias quest6es de pesquisa. Isto podeser
comum que vocé vai produzir dados com organizado mediante a coopera¢ao direta
eles — dados como respostas em umapes- de pesquisadores com outros pesquisado-
quisa de levantamento, uma narrativa em res. Mas ha também varias instituicdes que
uma entrevista ou observacoes e descric6es coletam conjuntos de dados de projetos de
no campo ou nolaboratorio. Comoalter- pesquisa e os fornecem para outros pesqui-
nativa, vocé pode usar materiais ja existen- sadores, que pagam pelo direito de usar
tes, como, por exemplo, documentosresul- estes dados. Exemplos dessas_ instituigoes
tantes de um processo institucional. Estes sao o GESIS na Alemanha e o GALLUP nos
podem ser textos ou imagens, que podem Estados Unidos. Em varios contextos, 0s
ser analisados de maneira qualitativa ou conjuntos de dados sao elaborados como
quantitativa, dependendo da questao da “arquivos de uso publico” e disponibiliza-
pesquisa. A andlise dos documentos podese
dos para os pesquisadores interessados em
referir a materiais existentes — como diarios
realizar um trabalho futuro comeles.
— que nao foram ainda usados como dados
em outros contextos. As vezeseles se refe-
rem a conjuntos de dadosexistentes de ou-
'N. de R.T.: No Brasil, o IBGE mantém um grande nu-
tros contextos — comoestatisticas oficiais
mero de dadosde pesquisas (www.ibge.gov.br).
Introdugdo a metodologia de pesquisa 125

Selecao e atribuig¢ao de Analise qualitativa dos documentos


peso aos dados secundarios
Como alternativa, vocé pode usar os docu-
A vantagemde analisar os dados secunda- mentosexistentes para uma analise qualita-
rios é que vocé naoprecisa coletar dados e tiva. A definicao que se segue esboca o que é
pode, assim, economizar tempo. Entretan- em geral entendido como “documentos”:
to, vocé deve considerar algumas quest6es e
problemas que surgem quandose usa dados Os documentossaoartefatos padroniza-
secundarios. Em primeiro lugar, deve che- dos, na medida emque ocorrem habitu-
car se estes dados se ajustam a sua questado almente em formatos particulares: ano-
tacdes, relatos de caso, rascunhos,ates-
de pesquisa: eles incluem as informac6es
tados de obito, observacées, didrios,
necessarias para respondé-la? Em segundo
estatisticas, relatorios anuais, certifica-
lugar, vocé deve avaliar se a forma deelabo-
dos, julgamentos, cartas ou opinides de
racao em que os dados estao disponiveis especialistas. (Wolff, 2004, p. 284)
corresponde aos objetivos do seu estudo.
Um exemplo simples ilustra bem isso: se a Mais umavez, vocé podeutilizar os
sua questao de pesquisa se refere a umadis- documentos produzidospara o seu estudo.
tribuicao de idade em intervalos de um ano, Por exemplo, vocé pode pedir a um grupo
masos conjuntos de dados disponiveisclas- de pessoas que escreva um diario durante
sificaram as pessoas estudadas em grupos os proximos 12 meses e depois analisar e
etarios (p. ex., em intervalos de cinco anos) comparar o que foi anotado nestes diarios.
e se esta classificagao nao podeserrastreada Ou vocé pode usar documentosexistentes,
ao valor especifico em anos,isto pode pro- como, por exemplo,os didrios escritos por
duzir problemas na possibilidade de poder um grupo especifico de pessoas (p. ex., pa-
usar os dados para 0 seu proposito. Um se- cientes com um diagnéstico especifico) em
gundo exemplo: muitos estudos epidemio- suas vidas cotidianas independentes da pes-
ldgicos tém sido baseadosnasestatisticas de quisa. Os documentos sao, em sua maioria,
causa de morte nas jurisdi¢des de sauidelo- disponiveis como textos (em formato im-
cais para a reconstrucdo das frequéncias de presso) e, cada vez mais, disponibilizados
algumas doencas como causas de morte. também — ou exclusivamente — em formato
Aqui, em muitos casos, nao foi 0 atestado de eletrénico (p. ex., em um banco de dados).
Obito isolado que foi usado comodado, mas Muitos documentos oficiais ou priva-
a classificagdo realizada pela jurisdi¢do de dos destinam-se apenas a um circulo limi-
sade. Neste caso, mais umavez, o proble- tado de destinatarios que sao autorizados a
maresulta de quea classificacao de diferen- acessa-los ou aos quais sao destinados. Os
tes causas de morte (ou doengas) em cate- documentos oficiais permitem conclusdes
gorias nao necessariamente serd a mesma sobre oO que seus autores ou as instituicdes
que os pesquisadores necessitavam ou te- que eles representam fazem ou pretendem
riam aplicado para o seu estudo e para sua fazer, ou como eles avaliam. Os documen-
questao da pesquisa. O erros cometidos na tos sao produzidos com um determinado
alocacaéo de um Unico caso a uma Categoria proposito — por exemplo, para fundamen-
nao podem seravaliados em tal conjunto de tar uma deciséo ou para convencer uma
dados (ver Capitulo 8). O problema mais pessoa ou umaautoridade. Mas isso tam-
comum é que os dadosestao disponiveis bém significa que os documentosrepresen-
apenas em uma formaagregada, isto6, ela- tam as quest6es apenas de uma maneira
boradose processados, e que os dados bru- limitada. Ao analisa-los para propositos de
tos originais nao sao acessiveis. pesquisa, vocé deve sempre considerar
126 UweFlick

quemproduziu um documento, para quem o seu estudo, vocé economiza temponafase


e com que proposito. A maneira como OS da coleta de dados, ja que esta selecao serg
documentos sao concebidos é umaparte do limitada a partir dos materiais existentes.
seu significado e a maneira como algo ¢€ Mas vocé nao deve subestimar os obstacu-
apresentado influencia os efeitos que serao los que surgem desses materiais; fotos, tex-
produzidos por um documento. tos e estatisticas tém sua propria estrutura e
De um pontodevista pratico, o primei- esta € com frequéncia extremamente in-
ro passo € identificar os documentosrelevan- fluenciada por quem as produziu e com que
tes. Para analisar os registrosoficiais, vocé tem proposito. Se esta estrutura nao for compa-
que descobrir onde eles estao armazenados e tivel com as demandas dos dadosadvindas
se so acessiveis para propositos de pesquisa. da sua questao de pesquisa,isto pode pro-
Entao vocé tera de fazer a selecao apropriada: duzir problemasde seletividade. A resolu-
que registros existentes vocé vai usar efetiva- cao desses problemas pode asvezesser mais
mente e por qué (ver tambémRapley, 2008)? dispendiosa e consumir mais tempo do que
a coleta dos seus préprios dados. Porisso, 0
uso de dados secundarios em particular e
Dadosvisuais: fotos e filmes de materiais existentes em geral so é sugeri-
do se a questao de pesquisa lhe der boasra-
Os dadosvisuais, tais como fotos, filmes e z6es para fazé-lo.
videos, tém atraido a atencao como docu-
mentos a serem utilizados na pesquisa (ver
Knoblauchetal., 2006). Mais umavez, po-
demos distinguir duas abordagens: as ca- [¥/ Obtencao e documentacao
meras podem ser usadas como instrumen- das informacgoes
tos para a coleta de dados e as imagens
podem ser produzidas para propdsitos de
A pesquisa social é baseada em dadoscole-
pesquisa; ou ainda as imagensja existentes
tados com métodos empiricos. Em geral,
podem ser selecionadas para a pesquisa e
podemosdistinguir dois principais grupos
analisadas. Uma abordagem possivel seria
de métodos. Os métodos quantitativos tém
analisar as fotos dos Albuns de familia e da
por objetivo cobrir os fenémenos em estu-
historia familiar ou individual documenta-
do em suas frequéncias ou distribuic¢6es e,
da nestas fotos ao longo do tempo.Napes-
quisa com familias ouinstituic6es, a analise por isso, trabalham com grandes numeros
das autoapresentac6es em fotos ou imagens de casos na coleta de dados. Os numeros
dos membros exibidas nas paredes dos apo- estao em primeiro plano. Por exemplo,voce
sentos pode proporcionar insights acerca pode investigar com que frequéncia ocor-
das estruturas do campo social (ver Banks, rem os tempos deespera no hospital, qual 0
2008). As analises da midia também serefe- tempo médio que um paciente espera (des-
rem filmes ouséries de TV para analisar a necessariamente) antes de um tratamento ¢
apresentagao de alguns problemas e de comoisto é distribuido durante a semana.
como uma sociedade lida com eles (sobre 0 Os métodos qualitativos, porém,estao
assunto, ver Denzin, 2004). mais interessados na descricao exata de pro-
cessos € concepcoes, e por isso com frequen-
cia trabalham com pequenos numeros de
Conclusao casos. Em primeiro plano estao os textos ~
por exemplo, entrevistas transcritas. No
Quando vocé usa materiais ja existentes
nosso exemplo vocé coletaria dados sobre
(textos, imagens, conjuntos de dados) para
como ocorrem as situacdes em que OS Pa
Introdugao a metodologia de pesquisa 127

cientes esperam (desnecessariamente), quais que 2 minutos sao sempre 2 minutos e 4 m1-
as explicagdes subjetivas que a equipe tem nutos demoram duas vezes mais que 2 mi-
para isto Ou como os pacientes individuais nutos. Outro exemplo ilustra os outros dois
encaramestas situacdes de espera. problemas, ou seja, clareza e significancia. O
A coleta de dados na pesquisa qualita- estresse do paciente tem de ser traduzido
tiva busca objetivos diferentes e se baseia primeiro em um valor numérico. Se numa
em principios diferentes dos da pesquisa escala “extremamenteestressado”é igual a 4,
quantitativa. A pesquisa quantitativa dedi- “muito estressado” igual a 3 e “estressado”
ca-se aos ideais de mensura¢ao e trabalha igual a 2, vocé nao pode supor nem que a
com numeros, escalas e construcao deindi- distancia entre 2 e 3 é tao grande quanto
ces. Ja a pesquisa qualitativa é mais orienta- aquela entre 3 e 4, nem que um valorde2 re-
da para a produgao de protocolos das suas presenta sempre o mesmograu deestresse
quest6es de pesquisa e para sua documen- subjetivo. Esta é a questao da clareza dos va-
tacéo e reconstrucao. Antes de voltarmos lores de mensuracdo. Finalmente, vocé nao
nossa atencao para os métodos de analise pode supor neste exemplo que um valor de
dos dados (ver Capitulo 8), vamos exami- 4 aqui representa o dobro dovalorde2. Este
nar brevemente estes objetivos e principios. é o problemada significancia. Isso levanta
questoes sobre que operacdes matematicas
fazem sentido tendo por base as mensura-
Mensuragao ¢6es realizadas.

Uma mensuracao é presumida para os mé-


todos quantitativos, em uma medida de Escalonamento
tempo, por exemplo, a duracao de um even-
to é identificada com um instrumento de A atribuicao de valores numéricos a um ob-
mensuracao (um reldgio). Isto é bastante jeto ou a um evento conduz a construcao de
simples se houver uma unidadeestabelecida uma escala. Aqui quatro tipos de escalas
(p. ex., 1 minuto, | centimetro) e um meio podem serdistinguidas.
de mensuracaoparaidentificar quantas des- Uma escala nominal atribui valores
tas unidades sao apresentadas no caso con- numéricos idénticos a objetos com caracte-
creto (p. ex., 15 minutos de tempo de espe- risticas idénticas. Por exemplo, o masculino
ra). Entretanto, com frequéncia esta unidade como género pode receber o rétulo de 1,
nao existe para os objetos nos quais a ciéncia enquanto o feminino como género podere-
social esta interessada; tendo nesses casos ceber o rdtulo de 2. Nao existe uma relacao
queser definida pelo pesquisador. Mensurar entre os valores.
é, portanto, alocar um numero a um deter- Nas escalas ordinais, existe um valor
minadoobjeto ou evento. Existem trés pro- de ordenacao entre os valores. Se no nosso
blemas nesta alocacao. Em primeiro lugar, o exemplo o grau do estresse subjetivo dos
numero vem representar o objeto ou suas pacientes é rotulado como 4 quandoa situ-
caracteristicas no processo adicionalda pes- acao é extremamente estressante, 3 quando
quisa — em outras palavras, o objeto em si é muito estressante e 2 quando estressan-
nao faz mais parte do processo. Além disso, te, isto representa uma ordem entreosdife-
os diferentes valores numéricos represen- rentes graus de estresse subjetivo. Mas aqui
tam diferencas e relacdes entre os objetos. as distancias entre os valores nao sao neces-
Por exemplo, as extensdes do tempo de es- sariamente iguais.
pera antes de uma opera¢ao séo mensuradas Em uma escala intervalar, em contras-
em minutos. Neste caso, vocé pode presumir te, as distancias entre dois valores sao sem-
128 UweFlick

pre as mesmas. Umexemplo disto € a escala Contagem


de temperatura Fahrenheit.
Umescala de razao é apresentada se nao Se vocé quiser contar determinadosobjetos,
apenas as distancias entre os valores forem isto supOe que os objetos a serem contados
iguais, mas também se vocé puder supor que sao iguais em suas principais caracteristicas:
duas unidades de distancia representam o ou seja, que vocé nao esté “comparando
dobro dadistancia de uma unidade. Os exem- macase laranjas”. Se quiser contar pessoas,
plos séo mensuracdes de comprimento ou atividades ou situacdes, a uniformidade
massa: a distancia entre 2 kg e 3 kg €a mesma como uma precondicao da contabilidade
que a distancia entre 5 kg e 6 kg,e 6 kg €0 tem de ser produzida previamente. As pes-
dobro do peso de 3 kg. Além disso, umaescala soas sao caracterizadasporforte individua-
de razdo tem um pontozero real. As escalas de lidade e diversidade. Elas podem serconta-
razao raramente sao encontradasnas ciéncias das se puderem ser classificadas de acordo
sociais € na sua pesquisa. com caracteristicas especificas — por exem-
O tipo de escala determina quais cal- plo, suas idades. A idadeja é definida como
culos sao justificados para cada escala (ver um numero. Para outras caracteristicas,
Capitulo 8). A Tabela 7.2 resume os varios mais qualitativas, primeiro tem deserreali-
tipos de escala. zada umaclassificagao na forma numérica.

4
Z Tabela 7.2 TIPOS DEESCALA

Tipo deescala Declaragoes possiveis Exemplos Respostas e valores


Escalanominal Diferengas de igualdade Género CO) Masculino
O Feminino
Grupos profissionais O) Médico
(1 Professor
Satisfeito com o tratamento O Sim
O Nao
Escala ordinal Relacoes Status quo social 0 Classe alta
maiores-menores O Classe média
O Classe trabalhadora

Notas na escola O Muito boas


O Boas
1) Satisfatorias
O) Suficientes
cece
CO) Fracas
scala Uniformidade Tem peratura ° (°F °
intervalar das diferencas ad 0 37 of
0 38 °F
Calendario, intervalos de O Um dia
tempo (p. ex., de licenga QO Dois dias
de saude/ano) O Trés dias
Escala Uniformidade Massa 0D Um quilograma
de razao das relacoes
oO boisquilegramas
0 Trés quilogramas
Comprimento DO Um centimetro
O Dois centimetros
CO Trés centimetros

SeaSANANAEmTen
tatentation
Introdugdo 4 metodologia de pesquisa 129

Alguém é homem ou mulher. Ascaracteris- vezes maior que as outras partes da situagao
ticas podem ser Uteis em varios graus social. Na pesquisa sobre qualidade de vida
(nada, um pouco, média, muito ou extra- (ver, p. ex., Guggenmoos-Holzmann etal.,
ordinariamente util). Para ser capaz de 1995) foi estabelecida uma variedadede in-
contar umaspecto, a caracteristica tem de dices de qualidade de vida.
ser classificada e rotulada com um valor
numérico (nada util é classificado como 1,
um pouco util como 2, etc.). Depois, vocé Protocolos
pode contar estas caracteristicas e relacio-
na-las as outras usandovalores numéricos. Enquanto a pesquisa quantitativa é basea-
Umaprecondi¢ao é que uma caracteristica da na mensurac4o e na contagem, a pes-
como a prestimosidadepossaserclassifica- quisa qualitativa tende a evitar 0 uso des-
da a partir de tais categorias. Para este pro- ses valores numéricos. Em vez disso, o
posito, deve ser possivel definir as catego- primeiro passo € produzir um protocolo
rias exatamente (p. ex., 0 que “um pouco dos eventos e do contexto em que eles
util” ou “nada util” significam?). As cate- ocorreram. O protocolo deve ser 0 mais
gorias devem ser capazes de descrever a ca- detalhado, abrangente e exato possivel.
racteristica de uma maneira exaustiva Para as observacoes, vocé vai produzir des-
(deve ser possivel relacionar todasas possi- cricdes detalhadas das situacdes e de seus
veis formas de prestimosidadea estas cate- contextos. As entrevistas sao gravadas em
gorias). fita ou em mp3 players e isto é complemen-
tado por protocolos de memoria da situa-
¢ao da entrevista. As interacées sao docu-
Construgao de um indice mentadas em fitas de audio ou video para
possibilitar um acesso repetido e o menos
Para caracteristicas quantitativas como a filtrado possivel aos dados basicos. En-
idade, todas as pessoas com um determina- quanto nas entrevistas os dados sao pro-
do valor (idade) sao sumarizadas(p. ex., duzidos com métodos (as quest6es condu-
todos aqueles com 25 anos de idade) ou zem a respostas ou narrativas, que sao
alocadas a gruposetarios especificos (p. ex., produzidasespecificamente para a pesqui-
pessoas de 20-30 anos de idade). Com fre- sa), varias outras abordagens na pesquisa
quéncia, caracteristicas mais complexas qualitativa — como etnografia ou analise
tém de ser contadas. Muitos estudos partem da conversa (ver Capitulo 8 e Flick, 2009
do status quo social de uma pessoa (p. ex., para mais detalhes) — se restringem regis-
para descobrir se as pessoas com umstatus trar e protocolar as situa¢goes da vida coti-
quo social elevado ficam doentes com diana sem o uso de perguntas ou questées,
menosfrequéncia do que pessoas com sta- isto é, apenas pela observacao. A pesquisa
tus quo social baixo). O status quo social é quantitativa produz uma condensa¢ao es-
construido a partir de varias caracteristicas pecifica dos dados ja na sua coleta, delimi-
isoladas — a situac¢ao educacional, a profis- tando-os a quest6es especificas e possiveis
sao, a renda, a situacdo habitacional. Isto respostas, enquanto a pesquisa qualitativa
significa que é construido um indice em esta em primeiro lugar interessada em
que estas caracteristicas isoladas sao combi- dados menos condensados. A reducao das
nadas. A contagem, entao, é aplicada a este informac6es aqui € parte da analise. Os
indice. As partes do indice podem ter o dados originais devem permanecer dispo-
mesmo peso ou pesos diferentes — por niveis de uma maneira nAofiltrada e repe-
exemplo, quando a renda tem um peso duas tidamente acessivel.
130 UweFlick

a questao principal € até que ponto estes


Documentacgao
tipos cobrem a extensaodastrajetérias exis.
tentes e permitem inferéncias sobre quando
A documentacio dos dados tem uma rele-
vancia especifica aqui. Um registro abran- e sob que condi¢ées cada tipo é relevante.
gente é considerado de suma importancia
para a pesquisa qualitativa. Por isso, a gra-
Sumario
vacdo em audio ou video tem prioridade
sobre as anotacoes rapidas das respostas ou Os dois tipos de métodos — quantitativo e
praticas. Somente quando os dispositivos
qualitativo — sao com frequéncia caracteriza-
de gravacao técnicos atrapalham o método dos, respectivamente, como “métodos pa-
— quando eles impedem o pesquisador de dronizados” e “nao padronizados”, porque
participar e de se integrar ao camponaob-
uma diferenca essencial entre eles é 0 sey
servacdo participante, por exemplo — a pre-
grau de padroniza¢ao dos procedimentos. A
feréncia ainda é anotacées de campo e pro-
andlise dos dados a partir de um questioné-
tocolos criados a partir da observagao (ver
rio de maneira quantitativa e estatistica sé
Flick, 2009, Capitulo 22 para mais deta-
faz sentido quandoa coleta dos dadosfoi pa-
lhes). Um registro detalhado e abrangente
dronizada por umaformulacao e sequencia-
conduz, na maioria dos casos, a uma trans-
¢ao uniforme das questoes,além dealterna-
cricao similarmente exata dos dados. Isto
tivas uniformes para respondé-las. Isto
deve incluir 0 maximo possivel das infor-
requer que cada participante esteja exata-
macoes do contexto para as declaracoes dos
mente sob as mesmascondicoes ao respon-
entrevistados. Aqui, mais uma vez, uma
der as quest6es. Os estudos qualitativos, ao
visao nao obstruida da realidade em estudo
contrario, sao com frequéncia maisproveito-
€ considerada extremamenterelevante.
sos quando os procedimentossao menospa-
A exatidao na documentacao dos
dronizados e aplicados de maneira flexivel
eventos é uma precondicao para umainter-
para que aspectos novos e inesperadosse
pretacao detalhada das declaracdes e das
tornem relevantes. Ao mesmo tempo, deve-
ocorréncias baseadas nos dados.
-se atentar para inclusao de informacoes do
contexto: as respostas dos participantes nao
Reconstrucgao podem se afirmar como fatos em si. Em vez
disso, eles devem estar incorporados em uma
Na anilise e na interpretacdo dos dados,tor- narrativa mais longa ou em umaapresenta-
na-se possivel reconstruir — perguntando, cao estendida. Isto vai entao permitir insights
por exemplo, como algo ocorreu ouocorre, quanto ao significado subjetivo do que foi
Ou O que Os participantes pensaram sobre apresentadoe, desse modo,deixar claro em
esta ocorréncia. Em uma reconstrucao deta- quais contextos os proprios entrevistados
lhada das trajetérias do caso, sio obtidos entendemsuasdeclarac6es.
dados que entao serao 0 objeto da compara-
¢ao. Esta comparacao nao funciona com nu-
meros, mas nao obstante destina-se a conse- lv{_ Lista de verificagao
guir declaracoes generalizadas. Por exemplo,
as reconstruc¢oes de trajetérias isoladas con- para a concepgao da
duzem a construgaode tipos de processos ea coleta dos dados
descri¢des detalhadas destes tipos. E menos
importante aqui a frequéncia com que estes
Ao realizar seu projeto empirico na pes
tipos podem ser identificados. Em vez disso,
quisa social, vocé deve considerar 0s po?
Introdugdo a metodologia de pesquisa 131 7

tos destacados no Quadro7.7 paraselecio- _a realizacdo do seu proprio estudo e tam-


nar e conceituar os métodos de coleta de bémparaavaliar os estudos de outros pes-
dados. Estas quest6es podemser titeis para quisadores.

Quadro 7.7

LISTA DE VERIFICACAO PARA A CONCEPCAODA COLETA DE DADOS

1. Quais sao Os principais aspectos que devem ser cobertos pela coleta de dados?
2. O foco esta mais nas praticas referentes a uma questao ou mais no conhecimento a
respeito dela?
3. Os dados existentes ja incluem as informagdées relevantes, para que nao seja necessario
coletar seus prdprios dados?
4. Os dados existentes e 0 seu conteudo, seu grau de detalhamento, se adequam a sua
questao da pesquisa?
_ 5, Qual € a intengao para os dados em sua analise posterior? Os dados foram proporcionados
pelo metodo de coleta de dados apropriado para este tipo de analise (em sua exatidao,
estrutura e nivel de escalonamento)?
. 6. Que escopo para as idiossincrasias (dos conteudos ou da maneira de apresenta-los por
parte dos participantes) os métodos selecionados oferecem, e que escopo é€ necessario
para responder a questao da pesquisa?
7. Que grau de exatidao na documentagao e na transcrig¢ao dos dados qualitativos é necessa-
rio para responder a questao da pesquisa?

Pontos principais

V As pesquisas de levantamento, as entrevistas, a observagdo e o uso dos dados existentes sao os


principais métodos na pesquisa social.
v Estes métodos desempenham um papel importante tanto na pesquisa qualitativa quanto na
quantitativa.
Vv As pesquisas de levantamento podem ser feitas de uma maneira aberta ou com varias possibilidades
pre-definidas para responder as questoes.
v Eles podem ser realizados com questdes ou estimulos narrativos, com participantes isolados ou em
grupos.
v Aobservacao pode ser aplicada de maneira padronizada ou pode ser aberta e participante.
V As analises secundarias ou materiais tem de levar em conta a estrutura inerente de seus dados.
v Na pesquisa quantitativa, os dados sao coletados em mensuragoes e em diferentes niveis de escalo-
namento, os quais tem implicacGdes para os tipos de analises possibilitados.
v Em alguns casos, os eventos sao contados. Algumas vezes as caracteristicas so podem ser acessa-
das indiretamente, mediante a construcao de um indice que cubra varias caracteristicas isoladas.

Ma Leituras adicionais dos métodos da pesquisa social e focam prin-


cipalmente os métodos quantitativos. O se-
O primeiro e o quarto textoslistados a seguir gundo € 0 terceiro, por suavez, se concentram
proporcionam uma visdo geral abrangente —mais nos métodosqualitativos.
c k
Fi Pesquisa u ; ;
3. ed. Flick U. (ed.) (2011) Colegao
ial Research Methods, (Qualitative,
Bryman, A. (2008) Soc 6 vols. Porto Alegre: Artmed.
y Press.
Oxford: Oxford Universit Neuman, W.L. (2000) Social Research Meth
ods:
tativa,
u¢ao a Pesquisa Qu ali i
Flick U. (2009) Introd Qualitative and Quantitative Approaches, 4 e
Artmed. Capitulo 9. Bacon. ee
3. ed. Porto Alegre, Boston: Allyn and
Analise de dados
quantitativos e qualitativos

VISAO GERAL DO CAPITULO

AnaliSe d@ CONTCUCO ooo... ccsesessesesessesessesesscsesccsssuesesecseesesssssssusensceessecassussesacsucatsnesssesessussusausecnesecanensavsavavees 134


Andlise de dados QuantitativOs ..........c.cccccsccscssssscssscssscscsessscscseevsvscsesecesscacavsvasauavsssusscavacasavscerauavscstsaseceeacneacees 140
Analise INtErPretativa.......cccccccccesesssesescssscscscsescesscsescssscssssevsvscsvsesesecssecasacsvavavacsesesacecscasasavevevensesssasacasseataveverens 147
Estudos d@ CaSO € TiPOlOGiaS oe cceesscscsesesscsessscssscseseesassssscsesscstsvessscsusucsescsssasscsussssceesasauevensecsesesavsssessseavens 159
Lista de verificag ao Para ANAlise DOS adOS 0.0... ececcccccesssessessesessessesesessescesesseseessseescseeseseeseessseseseesseteneaess 161

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


¥ entender alguns dos métodos principais de analise dos dados na pesquisa social;
v entender as similaridades e diferencas entre os procedimentos de analise de dados qualitativos e
quantitativos;
v ser capaz de avaliar quais métodos esto disponiveis para a sua pesquisa e o que eles podem
oferecer.
134 UweFlick

Tabela 8.1 NAVEGADOR PARA0 CAPITULO 8

Orientagao ¢ O que é pesquisa social?


e Questao central de pesquisa
e Revisao da literatura

Planejamento e e Planejamento da pesquisa


concep¢gao e Concepg¢ao da pesquisa
Decisdo sobre os metodos

Vocé esta aqui Trabalhando Coleta de dados


no seu projeto com dados Analise dos dados
Vv

Pesquisa on-line
Pesquisa integrada

Reflexao e escrita Avaliacao da pesquisa


e Etica
e Aescrita e o uso da pesquisa

O capitulo anterior discutiu métodossele- dentemente se possa examinar as categorias


cionados paraa coleta de dados. Neste capi- a luz dos textos em analise. A analise de
tulo, vamos passar a descrever os métodos conteudo tempor objetivoclassificar 0 con-
para analise dos dados que foram coletados. teudo dos textos alocando as declaracées,
Primeiro vamos considerar a analise de sentenc¢as oupalavras a umsistema decate-
contetido quantitativa e qualitativa, focan- gorias.
do emseguidanasanalises de quantificagao Distinguimos, a seguir, as analises de
de dados padronizados. Por ultimo, exam1- conteudo quantitativo e qualitativo.
naremos os métodos para analise de dados
quantitativos advindos de entrevistas e de
observacoées do participante.
Analise quantitativa de conteudo

Analise de periddicos
iv) Analise de contetdo
Enquanto a andlise qualitativa de conteudo
A analise de conteudo é um procedimento é vista como um método de anilise de
classico para analisar materiais de texto de dados de entrevistas, algumas fontes consl-
qualquer origem, de produtos da midia a deram a andlise quantitativa de conteudo
dadosde entrevistas. E “um método empi- mais como um método especifico de coleta
rico para a descricao sistematica e intersub- de dados (ver, por exemplo, Bortz e Doring,
jetivamente transparente das caracteristicas 2006). Schnell e colaboradores (2008, Pp.
substanciais e formais das mensagens” 207) consideram o método “uma mistura
(Frih, 1991, p. 25). O método é baseado no de ‘técnica analitica’ e procedimento de co-
uso de categorias derivadas de modelos te6- leta de dados”, sendo usado para coletar ¢
ricos. Normalmente, se aplica essas catego- classificar informacées, por exemplo, em
rias aos textos, em vez de desenvolvé-las a artigos de periddicos. Encontramos como
partir do proprio material — embora evi- definicao:
Introdugao a metodologia de pesquisa 135

A analise quantitativa de conteido ca¢ao. Um passo fundamental é que vocé


capta as caracteristicas isoladas do escolha os materiais certos (a amostra que é
texto categorizandopartes dele em ca-
extraida do texto) e as unidades corretas
tegorias, que sao operacionalizacdes
para a sua analise. Que textos de que perié-
das caracteristicas que interessam. As
frequéncias das categorias isoladas in-
dico e de que dias de publicacao vocé deve
formam sobre as caracteristicas do selecionar? Vocé vai analisar palavras isola-
texto analisado. (Bortz e Doring, 2006, das ou vai alocar sentencgas ou paragrafos
p. 149) inteiros as categorias?

Na linha de frente dessas analises estao


as questoes: Estratégias analiticas

a) O que caracteriza a comunicacao sobre Podemosdistinguir varias estratégias anali-


uma questao especifica em alguns meios ticas. Em andalises de frequéncia simples,
de comunicac¢ao? vocé indaga com que frequéncia determi-
b) Qual o impacto queisto tem nos destina- nados conceitos sao mencionados nostex-
tarios? tos que vocé analisa. Este método é usado
para inferir a presenca medial de um tépico
De acordo com este modelo, a comu- nos jornais didrios: por exemplo, com que
nicacdo podeser definida segundo a formu- frequéncia o tdépico “fundo de satde”foi
la de Laswell (1938): QUEM (0 comunica- um tema citado nos mais importantes co-
dor) DIZ (escreve, menciona na forma de municados de imprensa alemaes no perio-
sinais...) O QUE (a mensagem) em QUE do em estudo (ver a Tabela 8.2)?
CANAL (0 meio) a QUEM (o receptor) e Em umaanilise de contingéncia, vocé
COM QUEEFEITO? nao procura apenas a frequéncia dos con-
O cerne metodologico da analise de ceitos (e, portanto, dos t6picos) na impren-
conteudo é o sistema de categorias usado sa durante o periodorelevante. A andlise de
para classificar os materiais que vocé estu- contingéncia esta interessada em quais ou-
da. A atribuicao de uma passagem notexto tros conceitos aparecem ao mesmo tempo:
para umacategoria é descrita como codifi- por exemplo, com que frequéncia a questao

Tabela 8.2 A ANALISE DE FREQUENCIA NA ANALISE DE CONTEUDO

Fundo de satide

Periodico A - 20/10/2008
Periodico B ~ 20/10/2008
Periodico A — 21/10/2008

Periodico B — 21/10/2008
Periodico A ~ 22/10/2008
Periodico B - 22/10/2008
Periddico A — 23/10/2008

Periodico B — 23/10/2008
136 Uwe Flick

Tabela 8.3 ANALISE DE CONTINGENCIA NA ANALISE DE CONTEUDO

Fundo de Deficits com Interesse dos


saude o cuidado Custos seguros-saude

Periodico A — 20/10/2008
Periodico B - 20/10/2008

Periodico A — 21/10/2008

Periddico B — 21/10/2008

Periodico A — 22/10/2008

Periodico B - 22/10/2008

Periodico A — 23/10/2008

Periodico B — 23/10/2008

“fundo de satide” é mencionada junto com em seguida derivar um sistema de catego-


“déficits com o cuidado”ou “custos” (ver a rias. Estas devem ser:
Tabela 8.3)?
a) mutuamente exclusivas (claramente dis-
tinguiveis);
Analise quantitativa de b) exaustivas;
Cc) precisas;
conteudo de outros textos
d) baseadas em dimens6essutis; €
A analise quantitativa de conteido é com e) independentes uma daoutra.
frequéncia usada para analisar artigos de A classificacao dos textos por catego-
jornal. No entanto, vocé pode utiliza-la rias diz respeito principalmente a reducao
como um método para a analise de entre- do material. O sistema de categorias pode
vistas ou outros materiais que tenham sido consistir em conceitos e subconceitos. Com
produzidospara propositos de pesquisa. frequéncia é estabelecido um dicionario
que inclui os nomesdas categorias e as defi-
ni¢des e regras para atribuir palavrasasca-
Passos na analise de tegorias. Para aplicar as categorias aos tex-
conteudo quantitativa tos, sao definidas regras de codificacgao. Os
codificadores coletam as unidades analiti-
Podemosdistinguir varios passos na anali- cas aplicandoas categorias que foram defi-
se. Primeiro vocé deve decidir quais textos nidas previamente. Os codificadores sao
sao relevantes para 0 propdsito doseu estu- treinadosparaeste proposito e o sistema de
do. O passo seguinte é extrair uma amostra codificacao é checado em umpré-teste para
destes textos antes de definir a unidade de sua confiabilidade (correspondéncia da
contagem (todas ou algumaspalavras, gru- atribuicdo por diferentes codificadores).
pos de palavras, sentengas, artigos comple- Depois, as analises estatisticas sao aplicadas
tos, manchetes, etc.). Partindo da questao para identificar com que frequéncia algu-
da pesquisa e da sua basetedrica, vocé vai mas palavras — no total ou em conexao com
Introdugdo a metodologia de pesquisa 137

outras palavras ~ aparecem no texto e para dimentos podem ser padronizados em alto
a andlise da distribuicdo de categorias e grau. As frequéncias e as distribuicdes das
conteudos (ver a seguir). declaragées,atitudes, etc. podem ser calcula-
das. O seu pontofraco, porém, é que desde o
inicio se exclui a analise de casosisolados: o
Problemas da analise texto isolado e a suaestrutura ou particulari-
dade como um todo naosao considerados,
quantitativa de conteudo
Ou seja, 0 contexto das palavras é muito ne-
gligenciado. Até que pontoa anilise dasfre-
Os problemas na andlise quantitativa de quéncias ou dos topicos nos textos é sufi-
conteido surgem do isolamento necessa- cliente para responder a questGes de pesquisa
rio de palavras ou passagens quesao, deste substantivas é um tema que tem sido debati-
modo, extraidas do seu contexto. Os textos do desde os primoérdios da pesquisa com
sao decompostos em seus elementos, que analise de contetido.
podem entdo ser usados como unidades
empiricas. Isto dificulta mais captar qual-
quer significado ou coeréncia dos e nos
textos. Analise qualitativa de contetido
Por exemplo, tem havido tentativas
Em contraposi¢ao ao pano de fundodasli-
para identificar mudangas nas atitudes com
mitacgdes das abordagens de quantificacao,
relacao aos idososatravés da analise dearti-
Mayring (1983) desenvolveu sua abordagem
gos de periddicos, usando,paraisto, as fre-
de umaandalise qualitativa de contetido.
quéncias com que algumas palavras (p. ex.,
“fragil” ou “experiéncia”) aparecem junto
com “idade” ou “idosos”. Se os conceitos ou
as frequéncias em queeles sao usadosjunta- 0 procedimento da analise
mente com “idade”e “idosos” estao mudan- qualitativa de conteudo
do,isto € usado para inferir as mudangas nas
atitudes com relagao ao envelhecimento. O primeiro passo aqui é definir o material (p.
A aplicacao da andlise de conteudo6, ex., selecionar as entrevistas ou aquelas par-
por isso, frequentemente, muito reducio- tes que sao relevantes para respondera ques-
nista. Isto pode resultar da forte padroniza- tao da pesquisa). Em seguida, vocé vai anali-
¢ao e do uso de unidades analiticas peque- sar a situacdo da coleta de dados (como o
nas (p. ex., uma tinica palavra) para material foi gerado, quem estava envolvido,
proporcionar a repetitividade, a estabilida- quem estava presente na situagao da entre-
de e a exatidao da anilise. A repetitividade vista, de onde vieram os documentos a serem
se refere ao grau em queasclassificacgdes do analisados e assim por diante). Vocé vai con-
material sio completadas da mesma manei- tinuar caracterizando formalmente o mate-
ra por varios analistas; a estabilidade signi- rial (o material foi documentado com um
fica que o métododeclassificagao do conte- registro ou um protocolo? Houve umainflu-
ido nado varia com o tempo; e a exatidao éncia na transcri¢ao do texto quandoele foi
indica até que ponto a codificag¢ao de um editado? E assim por diante). Depois vocévai
texto corresponde a norma de codificagao definir a direcado da analise para ostextos se-
ou a codificagao-padrao. lecionados e “o que realmente se querinter-
Um pontoforte da analise quantitativa pretar deles” (1983, p. 45).
de contetido é que com ela vocé pode anali- No passo seguinte, a questao da pes-
sar grandes quantidades de dados. Os proce- quisa € mais definida tendoporbaseas teo-
138 UweFlick

rias. Uma precondi¢ao é que a “questao de Técnicas da analise


pesquisa da andlise deve ser claramente de- qualitativa de conteudo
finida por antecipacao, estar teoricamente
vinculada as pesquisas anteriores sobre a O procedimento metddico concreto envol-
questao e ser, em geral, diferenciada em ve essencialmente trés técnicas. No resumo
subquestdes” (1983, p. 47). Depois disso da andlise de contetido, vocé vai parafrasear
vocé vai selecionar a técnica analitica (ver a o material de forma a poder deixar de fora
seguir) e definir as unidades. A “unidade de passagens e pardfrases menosrelevantes
codificagao” define qual é “o menor ele- com os mesmossignificados (esta é a pri-
mento do material que podeser analisado,a meira reducado) e agrupar e resumir para-
minima parte do texto que pode cair em frases similares (a segunda reducdo). Por
umacategoria”; a “unidade contextual” de- exemplo, em uma entrevista com um pro-
fine qual é o maior elemento no texto que fessor desempregado, a declaracao “e na
pode cair em umacategoria; e a “unidade verdade foi bem o contrario, eu fiquei
analitica” define que passagens“sao analisa- muito, muito entusiasmadoporestarreal-
das uma apos a outra’. Agora vocé vai con- mente ensinandopela primeira vez” (1983,
duzir as analises reais antes de interpretar p. 59) foi parafraseada como “totalmente o
seus resultados finais no que diz respeito a inverso, muito entusiasmadona pratica” e
questao da pesquisa. No fim, vai perguntar generalizado como “estou aguardando an-
e responderas questoes da validade(ver Fi- slosamente comecara praticar”. A declara-
gura 8.1). cao “portanto, eu ja esperava por isso,ir

Definigao do material

Andlise da situagao em que ele foi produzido

Classificagao formal do material

Diregao da analise

Diferenciagao tedrica das questdes da pesquisa

Definicgao da(s) técnica(s) analitica(s) e do


modelo do processo concreto

Definigao das unidades analiticas

Passos analiticos com o sistema de categorias

Sumario Explicacao Estruturacao


L
Reavaliacgao do sistema de categorias em
contraposicao a teoria e ao material

Interpretacao dos resultados segundo as


principais questoes de pesquisa

Aplicagao dos critérios de qualidade analitica do conteu


do

Figura 8.1
Modelo do processoanalitico de contetido geral (Fonte: Mayring
, 1983, p. 49).
Introdugdo a metodologia de pesquisa 139

para umseminario,e até finalmente poder mais no material. Vocé pode procurar e
ensinar ali pela primeira vez”foi parafrase- encontrar quatro tipos de estruturas. Pode
ado como “esperava finalmente ensinar” e encontrar topicos ou dominios especificos
generalizado como “aguardando ansioso que caracterizam os textos (estruturas de
pela pratica’. Devido a similaridade das conteudo) — por exemplo, declaracées xe-
duas generalizacoes, a segunda entdo é ex- nofobicas em entrevistas estao sempre vin-
cluida e reduzida com outras declarac6es culadas a questées de violéncia e crime.
para “a pratica nao vivenciada como um Ou encontra uma estrutura interna em um
choque, mas como umagrande diversdo” nivel formal que caracteriza o material —
(1983, p. 59). por exemplo, todo texto comeca com um
A analise explicativa de contetdo exemplo e depois segue-se uma explicacao
opera da maneira oposta. Ela esclarece pas- do exemplo. A estruturacdo escalonada
sagens difusas, ambiguas ou contraditorias significa que vocé encontra varios graus de
envolvendo material contextual na anilise. uma Ccaracteristica no material — por exem-
As definicdes extraidas de dicionarios ou plo, textos que expressam xenofobia de
baseadas na gramatica sao usadas ou for- uma maneira mais forte do que outros tex-
muladas. A “analise do contexto estrito” ex- tos no material. Finalmente, vocé pode en-
trai declaracées adicionais do texto para ex- contrar as estruturastipificadas — por exem-
plicar as passagens a serem analisadas, plo, aquelas entrevistas com participantes
enquanto a “andalise do contexto amplo” mulheres sao sistematicamente diferentes
busca informacoes fora do texto (sobre o daquelas com participantes homens na
autor, as situacdes geradoras,de teorias). E forma como as principais perguntas sao
deste modo que uma“pardafrase explicativa” respondidas.
é formuladae testada. A analise estruturante de conteudofoi
Por exemplo: em umaentrevista, uma assim descrita:
professora expressou suas dificuldades no
ensino declarando queela — ao contrario de De acordo com aspectos formais, uma
seus colegas bem-sucedidos — nao era do estrutura interna podeser filtrada (es-
“tipo humorista” (1983, p. 109). Para desco- truturacao formal); o material pode ser
extraido e condensado para alguns do-
brir o que ela queria expressar usandoeste
minios de contetido (estruturacao com
conceito, definicdes de “humorista” foram respeito ao conteuido). Pode-se buscar
extraidas de dois dicionarios. Entdao, as ca- caracteristicas salientes isoladas no
racteristicas de um professor quese ajusta a material e descrevé-las de maneira
esta descricao foram buscadas de declara- mais exata (estrutura¢ao caracteriza-
¢6es feitas pela professora na entrevista. da); e finalmente, o material pode ser
Outras passagens foram consultadas. Tendo avaliado segundo as dimens6des na
por base as descrig6es desses colegas inclui- forma deescalas (estrutura¢ao escalo-
das nestas passagens, uma “parafrase expli- nada). (1983, p. 53-54)
cativa pode ser formulada: um tipo humo-
ristico é alguém que representa o papel de
um ser humano extrovertido, espirituoso, Problemas da analise
brilhante e seguro de si” (1983, p. 74). Esta qualitativa de conteudo
explicacdo foi novamente avaliada aplican-
do-a ao contexto direto em que o contetdo A elaboracao esquematica dos procedimen-
foi usado. tos faz com que este método pareca mais
Com analise estruturante de conte- transparente, menos ambiguo e mais facil
ido, vocé busca tipos ou estruturas for- de lidar do que os outros métodosqualitati-
140 Uwe Flick

vos de anilise. Isto acontece devido a redu- Elaboracao dos dados


cdo que o método permite, como esbocado
anteriormente. Ele 6 adequado principal- Antes de vocé poder analisar os dados do
mente a reducao de grandes quantidades de questionario, tem primeiro de elabora-los,
texto e analises em sua superficie (O que € Isto inclui construir uma matriz com eles,
dito neles?). Entretanto, com frequéncia a isto é, uma compilacao de todasasvariaveis
aplicacdo das regras apresentada por para toda unidadede estudo, maisespecifj-
Mayring se mostra pelo menos tao demora- camente de todas as respostas para cada
da quanto em outros procedimentos. A ca- caso (ver Tabela 8.4), que vocé vai transfor-
tegorizacao rapida do texto baseado em te- mar em valores numéricos (ver Tabela 8.5).
orias pode obscurecer a visao dos contetidos, O questionario no nosso exemplo comeca
em vez defacilitar a analise do texto em sua com quatro perguntassobreas caracteristi-
profundidade e em seussignificados subja- cas demograficas dos respondentes(género,
centes. A interpretacado do texto (Como idade, profissao, escolaridade) antes das
algo é dito? Qual € 0 seu significado?) é apli- quest6es substantivas que se seguem. Um
cada mais esquematicamente com este meé- plano de codifica¢ao foi desenvolvidopre-
todo, em especial quando é usada a técnica viamente, mostrando que numero é 0 cédi-
da analise explicativa de conteudo. Outro go para umapossivel resposta. Para o géne-
problema é o uso de pardafrases, que sao ro, as mulheres sao codificadas com 1, os
usadas nao apenas para explicar o texto ba- homens com 2. A escolaridade é codificada
sico, mas também para substitui-lo — prin- com “sem”até “ensino médio” com valores
cipalmente no resumo daanilise de conte- de 1-4, e a profissao atual de uma maneira
udo. Quanto mais quantitativamente uma similar. Para as respostas as perguntas | e 2,
analise de conteudo é orientadae aplicada, os valores foram extraidos da escala (ver
mais ela reduz o significado dotexto asfre- exemplo na Figura 7.1). Os casos recebem
quéncias e ao surgimento paralelo de algu- um numero de identifica¢gao e as variaveis
mas palavras ou sequéncias de palavras. sao rotuladas com numeros(p.ex., a idade
na Tabela 8.4 torna-se a variavel V2 na Ta-
bela 8.5).
Exemplo de umaanalise de conteudo Neste contexto, a codificacao signifi-
ca alocar valores numéricos as respostas.
O exemplo apresentado no Quadro 8.1 é Nesta matriz dos dados, vocé vai inserir
umaanilise de contetidosistematica de pe- todas as respostas de todos os questiona-
riddicos. rios. Se as perguntas (sem umaescala defi-
nida de respostas) forem usadas, as respos-
tas (o texto observado pelo participante
[v) Analise de dados neste momento) témde ser alocadas a Ca-
tegorias, que serao entao rotuladas com
quantitativos valores numéricos.

Na primeira parte deste capitulo, foram


apresentadas as abordagens quantitativas e
Esclarecendo os dados
as qualitativas para a analise de contetdo.
No proximo passo, vamosconsiderarosas- No proximo passo, é necessario esclarecer
pectos gerais da andlise de dados quantitati- os dados. Emprimeiro lugar, vocé deve tes-
vos, passando em seguida as anilises quali- tar no primeiro calculo da frequéncia se 0S
tativas interpretativas. dados foram inseridos na coluna errada.
Introdugao a metodologia de pesquisa 141

Quadro 8.1

IDADE E SAUDE NOS PERIODICOS: EXEMPLO DE UMA ANALISE DE CONTEUDO

Neste estudo (Walter et al., 2006), quatro periodicos, sendo dois periodicos médicos e dois de
enfermagem, tiveram seu conteudo analisado. Nos selecionamos artigos que se concentravam
nos topicos de saude,idade, envelhecimento, pessoas idosas ou muito idosas, e na prevencao
e promogao da saude para os idosos. Com este propésito, (1) 0 conteudo do titulo dos artigos,
(2) o sumario e (3) 0 artigo inteiro foram analisados.
O numerode artigos selecionados mostra que as representacdes de satide, de envelheci-
mento e de pessoas idosas, assim como as areas de prevengao e promocao da sauide para os
idosos raramente sao temas de destaque nas quatro publicacgées. Dos 3.028 numeros das publi-
cagoes nos anos de 1970-2001, apenas 83 artigos tratam explicitamente de representacdes de
saude; 216 (7,1%) tratam de representagdes do envelhecimento e de pessoas idosas; e 131
(4,3%) mencionam prevengao e promogao de sauide para os idosos num periodo de trés déca-
das e em quatro importantes publicagées.
Para uma analise de conteudo mais detalhada, 283 publicacées de 1970 a 2011 estavam
disponiveis. A relevancia das questOes de envelhecimento e dos idosos nos peridédicos médicos
e de enfermagem foi muito baixa. A distribuigao das 216 publicacdes no periodo de 1970-2001
mostra, em particular, que o periddico dos clinicos-gerais e o da enfermagem abordaram este
topico, enquanto os outros dois se referiram a ele mais esporadicamente. Na década de 1970,
somente 37 (171%) artigos puderam ser identificados tratando do envelhecimento; na década
de 1980, 71 (32,9%); e, na década de 1990, 91 artigos (42,1%) se referiram a esse topico. Trés dos
periodicos prestaram mais atengao ao topico no decorrer do tempo, e apenas o segundo peri-
odico de enfermagem abordou-o mais frequentemente na década de 1970.
Na maioria dos 131 artigos identificados, a prevengao e a promogao de saude para os ido-
sos sao mencionados segundo a distingao de prevengao primaria, secundaria e terciaria. Ape-
nas 12% dos 131 artigos tratam da promogao da saude segundo a Carta de Otawa da Organiza-
¢ao Mundial de Saude (1986).
A parte quantitativa da prevengao e da promogao da saude para pessoas idosas e menor do
que 10% na maioria dos artigos. Isto significa que 0 topico so €é mMencionado em uma a cada trés
sentengas. Isto ja mostra a relevancia marginal da prevengao e da promogao da saude nos
periodicos estudados.
Com frequéncia, estes temas nao sao explicitamente mencionados nos periddicos médicos
e de enfermagem na Alemanha. Isto se aplica em particular as publicagoes de enfermagem, que
usam em vez deles o termo “auxilios profilaticos”
Em suma, a distribuicao da publicagao identificada no decorrer da década mostra 0 seguinte:
as representacoes de saude eram uma preocupacao menos frequente nos periddicos medicos
e de enfermagem na década de 1990 do que nos da década de 1970; imagens de envelheci-
mento e de pessoas idosas tém sido cada vez mais um tema no decorrer das decadas, mas sem
terem muita relevancia. Alem disso, as questdes da prevencao e da promogao da saude sao
cada vez mais mencionadas. Todas estas conclusdes mostram a crescente importancia destes
tdpicos no decorrer do tempo, mas também que eles ainda sao mencionados de maneira muito
limitada.

Por exemplo, se somente 10 possiveis valo- rificados e corrigidos. Depois, os dados que
res foram definidos para “profissao”, mas estado faltando tém de ser checados. Na Ta-
varios casos tém valores de 25 ou 35, isto in- bela 8.4, para o caso 3 a idadeesta faltando
dica que talvez os valores de idade tenham e foi codificada com “999” para o valor que
sido codificados na coluna referente a pro- esta faltando na Tabela 8.5. Vocé deve tam-
fissao. Esses erros nas colunas tém deser ve- bém realizar uma checagemdeplausibili-
142 Uwe Flick

Tabela 8.4 MATRIZ DOS DADOS 1

Variavel

Unidade Questao 1: grau Questdo 2: grau


de estudo Género Idade Profissao Escolaridade de consenso de consenso

Caso 1 M 21 Estudante Ensino medio 5 3


Caso 2 F 28 Vendedor Ensino tecnico 3 4
Caso 3 M _ Motorista de taxi Escola fundamental 1 1
Caso 4 F 25 Médico Sem 2 5

dade para os dados. Na Tabela 8.4, vocé vai certa caracteristica de uma varidvel é calcu-
encontrar entradas no caso 4 que sao pelo lar sua distribuicao na amostra em estudo.
menos improvaveis (um médico sem diplo-
ma e com 25 anosde idade). Aqui vocé deve
também checarse este € um erro de codifi- Frequéncias
cacao ou se pode ser realmente encontrada
uma combinacao destas respostas nos ques- Se houver, digamos, quatro possiveis res-
tionarios. Talvez esta resposta tenha que ser postas, vocé pode primeiro calcular suas
tratada como “ausente”. Depois desta ava- frequéncias relativas dividindo o numero
liagao dos dados, que pode ser muito demo- de casos em umacategoria pelo numero de
rada para os grandes conjuntos de dados, e casos na amostra. Se vocé quiser calcular a
depois de corrigir todos os erros identifica- percentagem da frequéncia, o resultado
dos, vocé podera analisar os dados nos va- desta divisao é multiplicado por 100. Se,di-
rios niveis de complexidade. gamos, 27 de uma amostra de 100 pessoas
marcaram “ensino fundamental” como seu
grau mais elevado, a frequéncia relativa do
“ensino fundamental” comoseu grau esco-
Analises univariadas: lar é de 0,27 e a percentagem é de 27%. Fi-
referéncia a uma variavel nalmente, vocé pode calcular a percenta-
gem relativa cumulativa. Se no nosso
Uma maneira comum de demonstrar os exemplo outras 33 pessoas indicaram “ensi-
pontos em comum as diferengas para no técnico’, 20 pessoas “sem escolaridade”e

Tabela 8.5 MATRIZ DOS DADOS 2

Variavel

Unidade de estudo v1 V2 V3 v4 V5 V6
01 2 21 4 4 5 3
02 1 28 1 2 3 4
02 2 999 3 3 1 1
03 1 25 5 1 2 5
Introdugao a metodologia de pesquisa 143

Tabela 8.6 —_DISTRIBUICAO DE FREQUENCIA DA VARIAVEL “ESCOLARIDADE”

Frequéncia
Numero Frequéncia relativa Percentagem
Categoria decasos relativa’ Percentagem acumulada acumulada
Sem escolaridade 1 20 0,20 20% 0,20 20%
Ensino fundamental 2 27 0,27 27% 0,47 47%
Ensino tecnico 3 33 0,33 33% 0,80 80%
Ensino médio 4 20 0,20 20% 1,00 100%

20 pessoas “ensino médio’, vocé podeclassi- notas é 1 (pois é 0 que ocorre com mais fre-
ficar os valores segundo nivel de escolari- quéncia). A mediana é o valor médio de
dade. Acumulando (ou adicionando) os va- uma distribuicgao, que é onde a frequéncia
lores isolados, vocé pode ver, por exemplo, relativa acumuladaatinge 50%. Isto signifi-
que aqui a frequéncia relativa das pessoas ca que a distribuicao é separada de forma
com nao mais que o ensino técnico é de que 50%dosvalores estejam abaixo e 50%
0,80 (ver a Tabela 8.6). estejam acima da mediana. No nosso exem-
Para demonstrar a distribuicaéo das plo da escolaridade (ver Tabela 8.6), a me-
respostas em uma amostra, vocé pode se- diana deve se situar entre os respondentes
guir dois caminhos: por um lado, pode “ensino fundamental” e “ensino técnico’,
identificar a tendéncia central; por outro pois 50% dos respondentes estao nesse in-
lado, a dispersao. tervalo.

Tendéncia central Dispersao

A medida mais proeminente para a tendén- As medidas da tendéncia central nao lhe
cia central é a média aritmética, que é calcu- dirao tudo sobre uma distribuicao. O exem-
lada dividindo-se a somadosvalores obser- plo da média de duas notas na escola pode
vados pelo numero de casos. Um exemplo demonstrar isto. Uma nota 3 e uma nota 4
familiar é a escolaridade. Um estudante tem tém uma média de 3,5. O mesmo se aplica
as notas 1, 1, 4, 3 e 5 em seu boletim. Para as notas | e 6. A dispersao das notas € muito
calcular a média, vocé vai somar as notas menor no primeiro caso (os dois valores
isoladas e dividir pelo numero de matérias s4o proximos um do outro) do que nose-
(a somaé 14, o numero de mateérias é 5, 0 gundo caso (em quea distancia entre os va-
que perfaz uma média de 2,8). Para calcular lores € muito maior). Levando em conta
as médias, vocé precisa de dados sobre o esta dispersao, a primeira maneira é calcu-
nivel das escalas intervalares (as distancias lar a variacao dosvalores. Esta é a diferenca
entre os valores tém queser iguais — ver Ca- entre o valor minimo e o maximo.Paraisto,
pitulo 7). Se seus dados s6 consistem em vocé vai subtrair o valor minimo do valor
uma escala ordinal, vocé pode calcular a maximo. No nosso exemplo, no primeiro
tendéncia central com a moda ou com a caso (notas 3 e 4) a variacao é 1. No outro
mediana. caso (notas 1 e 6), é 5.
A moda € 0 valor que ocorre mais fre- A variagao é também bastante in-
quentemente. A modano nosso exemplo de fluenciada por valores discrepantes, pois sd
144 UweFlick

é baseada nos valores minimo e maximo; dizer qual sera o valor da variavel 2 se 0
nao levando emconta a frequéncia dos va- valor da variavel 1 for alto ou baixo). O co-
lores entre os valores discrepantes. Definin- eficiente de correlacao varia entre -1 (uma
do os quartis e a distancia entre eles, voce correlacao fortemente negativa) e +1 (uma
pode analisar a distribuicao dos valores correlacao fortemente positiva), e um valor
com mais exatidao. Consequentemente, ha de 0, que indica a auséncia de uma correla-
os quartis Q,-Q,: 25% dos valores sao me- cao. Por exemplo, vocé encontrara umacor-
nores ou iguais ao valor do primeiro quartil relacéo entre educacao e renda (mais edu-
Q,, 50% sao menoresouiguais ao segundo cacdo é associada a uma renda mais
quartil Q;, e 75% sao menoresou iguais ao elevada).
terceiro quartil Q;. O segundo quartil é As correlag6es precisamser interpre-
equivalente 4 medianae separa 0 segundo e tadas; umacorrelacao em si naoindica qual
o terceiro quartos dos valores. A varia¢ao das variaveis é causal (p. ex., mais educacao
entre os quartis é a diferenca entre o tercel- conduz a mais renda ou uma renda mais
ro € O quarto quartis. elevada torna um maiornivelde escolarida-
Se os valores mensurados forem ex- de mais provavel?). Além disso, umacorre-
pressos em escalas intervalares ou de razao, lacdo nao estabelece uma conex4o causal.
vocé pode obter a dispersao calculando o No nosso exemplo,talvez outra variavel(p.
desvio padrao e a varidncia. O desvio padrao ex., 0 status quo social da familia de origem)
é a quantidade média de variacao em torno seja a razao de valores mais altos para a
da média e a variancia é o valor do desvio educac¢ao e a renda: os dois sao consequén-
padrao ao quadrado.Estas medidasesclare- cias daterceira variavel e nao estao em uma
cem a distribuicao dos valores isolados na relagdo causal uma com a outra. No nivel
amostra. Com os calculos discutidos até dos calculos, vocé pode encontrar rela¢ées
agora, vocé pode identificar a tendéncia inexpressivas nos calculos (p. ex., vinculos
central nos dados, quais sao os valores mé- entre o bom tempo e renda).
dios em umavariavel e como osvalores sao Com frequéncia, as quest6es em estudo
distribuidos no conjunto de dados. sao mais complexas do que poderiaser re-
presentado por meio de umacorrelacaobila-
teral. Schnell e colaboradores (2008, p. 446-
Analises referentes a duas variaveis: 7) demonstram isto usando um exemplo de
correlacoes e analises bivariadas Rosenberg (1968). Aqui, as atitudes com re-
lacao aos direitos civis foram examinadas e
Se vocé quiser identificar as relacdes entre relacionadasa classesocial dos respondentes:
duasvariaveis, pode calcular sua correlacao. classe média versus classe trabalhadora,e ati-
A correlagao significa que uma mudan¢a no tudeliberal (atribufda a um alto valor) versus
valor de uma variavel é associada a uma atitude conservadora (atribufda a um valor
mudanga na outra variavel. Trés formas de baixo). Uma pesquisa de levantamento com
correlagao podem ser distinguidas: uma 240 pessoas (metadedelas da classe trabalha-
correlacao positiva (quando a variavel 1 dora e metade da classe média) conduziu aos
tem um valor alto, a variavel 2 também tem valores mostrados na Tabela 8.7. Esta da a
um valor alto); uma correlacdéo negativa impressdo de que as pessoasda classe traba-
(quando a variavel 1 tem um valor alto, a lhadora, mais que os membros da classe
variavel 2 tem um valor baixo e vice-versa); média, tém umaatitude positiva em rela¢ao
e a auséncia de correlacdo (vocé nao pode aos direitoscivis.
Introdugao a metodologia de pesquisa 145

Tabela 8.7 ANALISE BIVARIADA

Direitos civis Classe média Classe trabalhadora


Alta 37% 45%
Baixa 63% 55%
N 120 120

Fonte: Schnell et al., 2008, p. 445 (Copyright: Methoden der empirischen Sozialforschung, p. 446, Tabelle 9-4, Schnell
et al., 3.ed. [2005] Oldenbourg Wissenschaftsverlag GmbH).

Analises com mais de duas rente nos dois subgrupos: quanto maisalta
variaveis: analises multivariadas a classe social, mais positiva a atitude em re-
lagao aos direitos civis. Podemos ver uma
Se vocé pretende mostrar as relac6es entre avaliagao mais alta dos direitos civis em
mais de duas variaveis, deve aplicar uma 70%da classe média negra em comparac¢ao
analise multivariada. Se tomarmos nosso com 50%daclasse trabalhadora, e em 30%
ultimo exemplo e acrescentarmosa diferen- na classe média branca em comparacao
ciacao da cor da pele dos respondentes,este com 20%naclasse trabalhadora, em vez de
estudo conduzira as distribuigdes mostra- 37% da classe média em comparacao com
das na Tabela 8.8. 45%daclasse trabalhadora na Tabela 8.7.
Vemos aqui que levar em contaa ter-
ceira varidvel (cor da pele) conduz a um
quadro diferente. As diferengas entre as Descoberta das relacOes
duas classes nas duas partes da tabela sao
mais fortes (20% e 10% do que na primeira Os métodos da andalise multivariada tam-
tabela, que nao considerou a cor da pele bém podem ser usados para testar as re-
(apenas 8%). Além disso, a relacao nos dois lagées — em especial as diferencas — entre
grupos esta invertida. Na Tabela 8.7, nos grupos, se os dadosestiverem em niveis in-
dois subgrupos, uma porcao maior dos tervalares ou de razao. A regressao multipla,
membros da classe média deu um maior por exemplo, comeg¢a pela analise das dife-
valor aos direitos civis do que a classe traba- rencas entre as médias nos grupos e mostra
lhadora. Mas na Tabela 8.8 a relacao é dife- até que ponto um conjunto devaridveis ex-

Tabela 8.8 ANALISE MULTIVARIADA

Negros Brancos

Direitos civis Classe média_ Classe trabalhadora Classe média Classe trabalhadora
Alta 70% 50% 30% 20%
Baixa 30% 50% 70% 80%
N 20 100 100 20

Fonte: Schnell et al., 2008, p. 447 (Copyright: Methoden der empirischen Sozialforschung, p. 447, Tabelle 9-5, Schnett
et al., 3.ed. [2005] Oldenbourg Wissenschaftsverlag GmbH).
146 UweFlick

plica a varidvel dependente, no sentido de responder a essas quest6es, vocé pode apli-
prever valores desta varidvel nos campos de car um teste de hipotese. Depots, vocé deve
informacao sobre varidveis independentes. testar se um resultado ja era esperado e
Além disso, a regressdo avalia a direcao e a previsivel ou se ele representa um relacio-
forca do efeito de cada variavel sobre a va- namento entre duas varlaveis que nao é
riavel dependente (ver Neuman, 2000, p. previsto pelo acaso.
337). Se, digamos, vocé quer estudar a au-
Pacotes de software, como o SPSS, fa- séncia dos alunos da escola por motivo de
cilitam essas analises multivariadas. Apesar doenca e descobrir se isto esta relacionado
disso, deve-se ter sempre em mente 0 se- ao género, pode contar as frequéncias de
guinte: auséncia para meninos e meninas. Se vocé
descobre que 76%das auséncias documen-
E caracteristico deste e de outros méto- tadas ocorrem para estudantes do sexo fe-
dos multivariadoso fato de eles dificil- minino, isto pode ser notavel a primeira
mente produzirem solucées claras; em vista e parece indicar um relacionamento
vez disso, ha varios modelos e parame-
entre o género e a auséncia. Entretanto, se
tros a escolher em umaanalise de agru-
na escola que esta sendo estudada e na
pamento, que pode conduzir a diferen-
tes resultados também independentes
amostra que vocé extraiu trés quartos dos
dos nimerosideais de agrupamentos a estudantes sao meninas, podeser esperado
serem definidos. Isso conduz ao pro- que também 75% das auséncias se apli-
blema geral de que estes procedimen- quem as meninas. Isso significa que vocé
tos agora podem serutilizados muito deve testar se ha diferenca suficiente entre o
facilmente com os atuals pacotes de valor medido (em nosso exemplo 76%) e 0
programasdeaniliseestatistica. Entre- valor esperado (em nosso exemplo 75%)
tanto, a questao de qual modelo esco- para poder derivar um relacionamento
lher e a interpretacdo dos resultados entre as variaveis — aqui, 0 género e os tem-
que sao produzidos ainda requerem
pos de auséncia. Comparandoosvaloreses-
robustas habilidades metodolégicas e
perados e os valores observados, vocé vai
consideracées tedricas refinadas com
referéncia a questao dos estudos. testar a hipdtese nula: nao ha diferencas
(Weischer, 2007, p. 392) entre meninos e meninas na frequéncia es-
colar. Se no nosso exemplo o valor de 76%
foi observado, vocé podetestar em umteste
de hipotese (p. ex., o teste qui-quadrado) se
Testagem das associacgoes a diferenca entre os valores esperados e ob-
e das suas diferencas servados é expressiva o suficiente para con-
firmar uma relacdo entre o género e a au-
Encontrar relacionamentos entre as varia- séncia. Para este proposito,estao disponiveis
veis nos dados muitas vezes nao é suficien- varios testes de hipdtese que podem ser
te para responder a uma questao de pes- aplicados dependendodotipo de dados que
quisa. Em vez disso, torna-se necessario foram mensurados. Estes incluem teste-f e
testar se os relacionamentos observados o teste de Mann-Whitney.
ocorrem por acaso e 0 quao forte é a rela- No teste-t, dois conjuntos de dados
¢ao observada entre duas varidveis. Pode sao comparados com relacado as suas di-
ser necessario também saber se uma varia- ferencas — por exemplo, medidas em dois
vel é a causa da outra ou se as duas sao momentos ou medidas de dois subgrupos,
condi¢6es mutuas uma para a outra. Para tails como:
Introdugdo 4 metodologia de pesquisa 147

a) as notas de uma turmadaescola noini- Analise quantitativa das


cio e no fim de um semestre; ou
relacgoes: uma conclusado
b) as notas de duas turmas nofim dose-
mestre. Os procedimentospara a analise das relacdes
previamente delineados destacam a tendén-
Com0 teste-t é aplicado um teste de cia central nos dados ou a distribuicéo dos
significancia estatistica, em que as médias e valores neles. Eles também calculam asrela-
os desvios padrao dos dois conjuntos de ¢des entre duas ou mais varidveis e testam o
dados sao usadosparacalcular a probabili- significado das relacGes encontradas.
dade de que as difereng¢as entre os dois con- A Tabela 8.9 resume as abordagens da
juntos de dados seyam devidas ao acaso. andlise quantitativa, os tipos de variaveis
Aqui também vocé vai considerar que a hi- que cada uma requere Os testes usuais para
potese nula esteja correta — que naohadife- as relacdes que podem seraplicados.
rencas reais e que as diferencas observadas A sintese apresentou apenas alguns
ocorrem por acaso — até que0 teste estatis- principios basicos das analises quantitati-
tico demonstre que a probabilidade é ex- vas. Para aplica-los e estuda-los mais exten-
pressiva o suficiente para que as diferencas sivamente, vocé deve consultar um manual
encontradas sejam devidas ao acaso. O ulti- mais abrangente de pesquisa quantitativa e
mo acontece quando vocé pode mostrar de estatistica (como Bryman, 2008 ou Neu-
que ha uma probabilidade menor que 5% man, 2000).
de que as diferencas sejam acidentais. O tes-
te-t podeser aplicado para amostras peque-
nas e também para amostras com tamanhos
diferentes - como turmasda escola com 18 '~% Analise interpretativa
e 25 estudantes no nosso exemplo.Este teste
requer dadosintervalares. As interpretagdes também sao relevantes na
O teste-U de Mann-Whitney pode ser analise quantitativa. As inter-relacGes, que
aplicado a dados ordinais. Aqui vocé fara podem ser encontradas mediante calculos,
uma ordem hierarquica dos casos nos dois como, por exemplo, as correlagdes de duas
grupos e umahierarquia geral de todos os varidveis, sao interpretadas buscando-se
casos nos dois grupos. A posic¢ao dos mem- uma explicacdoinerente a estas relacdes nu-
bros de cada grupo nesta hierarquia sera a méricas. Entretanto, o tema dasinterpreta-
base para o calculo e a testagem dasignifi- cdes nao é tanto o dos dados em si, mas
cancia estatistica das diferengas entre os antes os calculosfeitos comelese os seusre-
dois grupos. sultados. Nos métodos apresentadosa se-

Tabela 8.9 _TIPOS DE VARIAVEIS E TESTES DESCRITIVOS-ESTATISTICOS APROPRIADOS

Tipos de variaveis Tendéncia central Dispersao Testes estatisticos

Nominal Moda Distribuicao da frequéncia Qui-quadrado


Ordinal Mediana Quartis Teste-U de Mann Whitney
Intervalar Media Desvio padrao Teste-t

Fonte: Segundo Denscombe, 2007, p. 271.


148 UweFlick

guir, a interpretagao remete imediatamente A codificagao aberta tem como objeti-


aos dados e éa andlise em si (ver Flick, 2009 vo expressar os dados e os fendmenos na
para mais detalhes). forma de conceitos. Para isto, os dados sao
primeiro desemaranhados (“segmenta-
dos”). “Unidadesde significado”classificam
as expressoes (palavras isoladas, sequéncias
Andlises para a geragao de
curtas de palavras) para ligar a elas anota-
codificagao de teorias na ces e “conceitos” (cédigos).
pesquisa da teoria fundamentada Este procedimento nao pode ser apli-
cado ao texto completo de uma entrevista
No desenvolvimento de uma teoria funda- ou de um protocolo de observac¢ao. Em vez
mentada a partir de material empirico, a disso, vocé vai usa-lo para passagens parti-
codificagao é o método para analise dos cularmente instrutivas ou talvez extrema-
dados que foram coletados para este propo- mente obscuras. Com frequéncia, 0 inicio
sito. Esta abordagem foi introduzida por de um texto é 0 pontode partida para a co-
Glaser e Strauss (1967) e mais profunda- dificagao. Este procedimento serve para
mente elaborada por Glaser (1978), Strauss elaborar um entendimento mais profundo
(1987) e Strauss e Corbin (1990/1998/2008) do texto. Possiveis fontes para cdédigos de
ou Charmaz (2006). No processo da inter- rotulacdo sao os conceitos emprestados da
pretacao, varios “procedimentos” para tra- literatura da ciéncia social (cédigos cons-
balhar com o texto podem ser diferencia- truidos) ou extraidos de expresses dos en-
dos. Vocé nao deve enxergar estes procedi- trevistados (cédigos in vivo). Dos dois
mentos nem como claramentedistinguiveis tipos de cddigos, o ultimo é preferivel por-
entre si nem como fases sequenciais em um que os codigos estao mais proximos do
processo linear. Em vez disso, eles sao ma- material estudado. As categorias encontra-
neiras diferentes de lidar com material tex- das desta maneira sao entao mais desen-
tual entre as quais os pesquisadorestransi- volvidas. Para este fim, as propriedades
tam se necessario, combinando-as (ver que pertencem a uma categoria sao rotula-
também o Capitulo 31 em Flick, 2009). das e dimensionalizadas. Isto significa que
Apesar de 0 processo de interpreta- estao localizadas ao longo de um continuo
¢ao comecgar com a codificacao aberta, a fim de definir mais precisamentea cate-
proximo aofinal de todo o processo é a co- goria em relacdo ao seu contetido. A codi-
dificacgao seletiva que vem mais a tona. A ficagao aberta podeser aplicada em varios
codificacao aqui é entendida como repre- graus de detalhamento. Vocé pode codifi-
sentando as operacoespelas quais os dados car um texto linha por linha, senteng¢a por
sao fragmentados, conceituados e reuni- senten¢a ou paragrafo por paragrafo. Um
dos de novas maneiras. E processo central cédigo também pode estar ligado a um
pelo qual as teorias sao construidas a par- texto no todo (um protocolo, um caso,
tir de dados (Strauss e Corbin 1990/1998, etc.).
p. 3). Segundoeste entendimento,a codifi- Para a codificacao aberta, e na verdade
cacao inclui a constante comparacao dos para outras estratégias de codificagao,€ su-
fenédmenos, casos, conceitos, etc., além da gerido que vocé regularmente aborde 0
formulagao de questdes que estado dirigi- texto com a seguinte lista das chamadas
das ao texto. Comecando pelos dados, o quest6es basicas (Strauss e Corbin, 1998):
processo de codificagao conduz ao desen-
volvimento de teorias mediante um pro- © O qué? Qual é a questao aqui? Que feno-
cesso de abstracao. meno € mencionado?
Introdugdo a metodologia de pesquisa 149

© Quem? Que pessoas ou atores estado en- para identificar e classificar os vinculos
volvidos? Que papéis eles desempe- entre as categorias substantivas. Na codifi-
nham? Como eles interagem? cacao axial sao elaboradasas relac6es entre
* Como? Que aspectos do fenémeno sao as categorias. Para formular estas relacdées,
mencionados (ou nao mencionados)? Strauss e Corbin (1998, p. 127) sugerem um
¢ Quando? Por quanto tempo? Onde? Tem- modelo do paradigma de codificacao que
po, curso e localiza¢ao. esta simbolizado na Figura 8.2.
e Quanto? Quao forte? Aspectosde intensi- Isto serve para esclarecer as relacoes
dade. entre um fendmeno, suas causas e conse-
« Por qué? Que raz6es sao dadas ou podem quéncias, seu contexto e as estratégias da-
ser reconstruidas? queles envolvidos nele. O paradigma da co-
e Para qué? Com que intencao, com que dificacao esbo¢a as possiveis relac6es entre
proposito? os fendmenos e os conceitos, sendo usado
e Por meio de qué? Meios, taticas e estraté- para facilitar a descoberta ou o estabeleci-
gias para atingir o objetivo. mento das estruturas de relagdes entre os
fendmenos, entre 0s conceitos e entre as ca-
Formulandoessas quest6es, vocé pode tegorias. Aqui também as questoes referen-
“abrir” o texto, tornando-o mais acessivel. tes ao texto e as estratégias comparativas
Elas podem ser aplicadas a passagens espe- mencionadas sao empregadas mais uma vez
cificas ou a textos inteiros. de maneira complementar. Vocé vaitransi-
Depois de terem sido identificadas va- tar entre o pensamentoindutivo (desenvol-
rias categorias de fundo, o proximo passo é vimento de conceitos, categorias e relacdes
refinar e diferenciar as categorias que resul- do texto) e o pensamento dedutivo. O ulti-
tam da codificacao aberta. Como um se- mo significa testar os conceitos, as catego-
gundo passo, Strauss e Corbin sugerem a rias e as relacdes em oposi¢ao ao texto, es-
realizacao de uma codificagao mais formal pecialmente em oposicao a passagens ou

Contexto e
condicoes
intervenientes

Causas Fenomeno Consequéncias

Estrategias

Figura 8.2
O modelo do paradigma.
150 Uwe Flick

casos que sao diferentes daqueles a partir umentendimento mais profundo dos con-
dos quais eles foram desenvolvidos. teudos e dos significados do texto ~ um en-
Noterceiro passo,isto é, a codifica¢gao tendimento que vai além da pardfrase e do
seletiva, vocé vai se concentrar na elabora- sumario (as principais abordagens da andli-
¢ao dos potenciais conceitos ou variaveis se qualitativa de contetdo discutida no ini-
principais. Isto conduz a uma elaboragao cio deste capitulo). A vantagem € que, aqui,
ou formulacao da histéria do caso. Em qual- a interpretacao dos textos se torna metodo-
quer caso, o resultado deve ser usa catego- logicamente percebida e manejavel. Ela di-
ria central e um fendmeno central. Vocé fere de outros métodosde interpretacado de
deve desenvolver a categoria principal mais textos porque deixa o nivel dos textos puro
uma vez em suas caracteristicas e dimen- durante a interpretacao para desenvolver
sdes e vincula-la a outras categorias (todas categorias e relagoes e, portanto, teorias.
elas, se possivel) usandoaspartes e relagdes Um problema desta abordagem é que
do paradigma de codificacao. A andlise e 0 a distincao entre métodoe arte torna-se ne-
desenvolvimento da teoria visam a desco- bulosa. Isto, em algunslocais, dificulta ensi-
berta de padrées nos dados e as condicdes na-lo ou aprendé-lo como método. Com
sob as quais estes se aplicam. Agrupar os frequéncia a extensao das vantagens e a po-
dados segundo o paradigmade codificacao tencialidade do métodoso fica clara quan-
da especificidade a teoria e vai habilita-lo a do ele é aplicado efetivamente. Se os nume-
dizer, “Sob estas condicées (lista-las) isto ros dos cédigos e as possivels comparac¢oes
acontece; enquanto sob estas condicées é tornam-se muito expressivos, sugere-se es-
isto que ocorre” (Strauss e Corbin, 1990, p. tabelecer listas de prioridades: quais cédi-
131). gos tém de ser mais elaborados em todosos
Finalmente, vocé vai formulara teoria casos, quails aparentam ser menosinstruti-
em mais detalhes e mais uma vez checa-la vos e quais podem ser omitidos quando
em oposi¢ao aos dados. O procedimento de vocé toma a sua questao de pesquisa como
interpretacao dos dados, assim comoa inte- um ponto dereferéncia?
gracao do material adicional, termina no
ponto em quefoi alcancadaa sattracdo ted-
rica. Isto significa que a codifica¢ao adicio- Codificagao tematica
nal, o enriquecimento das categorias, etc.,
nao mais proporcionam ou prometem Se vocé quiser mantera referéncia aos entre-
novo conhecimento. Ao mesmo tempo, o vistados, por exemplo, como umcaso(isola-
procedimento é suficientemente flexivel do) quando usa um procedimentode codifi-
para que vocé possa entrar de novo nos cacao, a alternativa é usar a codificacdo
mesmostextos de fonte e nos mesmos cédi- tematica (ver Flick, 2009, Capitulo 23). Aqui
gos da codificagao aberta com uma questao vocé come¢a a sua andlise com estudos de
de pesquisa diferente, visando ao desenvol- casO para OS quais vai desenvolver uma es-
vimento e a formulacao de uma teoria fun- trutura tematica (o que caracteriza entre va-
damentadaacerca de uma questao diferen- rias areas substantivas a forma como0 entre-
te. O Quadro 8.2 apresenta um estudo de vistado lida com a satide? Vocé consegue
caso deste método em operacao. identificar as quest6es que permeiam estas
Este método tem por objetivo uma maneiras de lidar com as areas?). Na codifi-
fragmentagao consistente dos textos. A ca¢ao tematica, vocé primeirovai analisar 0s
combina¢ao de uma codifica¢ado consisten- casos em seu estudo emvarios estudos de
temente aberta com procedimentos cada caso, que vocé pode checar e modificar con-
vez mais centrados pode contribuir para tinuamente durante toda a interpretacao
Introdugao a metodologia de pesquisa 151

adicional docaso, se necessario. Esta descri- rial, concentrando-se no caso isolado no


¢ao vai incluir uma declaragao que é tipica proximo passo (p. ex., observando umaen-
para a entrevista, uma caracterizac¢ao curta trevista isolada como um todo). Esta analise
do entrevistado com respeito 4 questao da de caso isolado temvarios objetivos: preser-
pesquisa (p. ex., idade, profissao, numero de va as relacoes significativas com as quais a
filhos, se isso é relevante com respeito a ques- respectiva pessoa lida no tdpico do estudo,
tio em estudo). Esta primeira descricao motivo pelo qual umestudo de caso feito
breve € um instrumento heuristico para a para todas as entrevistas; e desenvolve um
analise que se segue. sistema de categorias para a andlise do caso
No procedimento de Strauss (1987), isolado.
vocé vai codificar o material também entre Na elaboracao adicional deste sistema
os casos isolados, de uma maneira compa- de categorias (similar ao de Strauss), apli-
rativa, desde o inicio. Na codificacado tema- que primeiro a codificacao aberta e depois a
tica, vocé vai se aprofundar mais no mate- codificagao seletiva. Com a codificac¢ao se-

Quadro 8.2

EXEMPLO: “CONSCIENCIA DA MORTE”

s O exemplo a seguir representa um importante exemplo inicial de um estudo que tinha por
m objetivo desenvolver uma teoria a partir da pesquisa qualitativa no campo. Barney Glaer e
m Anselm Strauss trabalharam a partir da década de 1960 como pioneiros da pesquisa qualitativa
e e da teoria fundamentada no contexto da sociologia médica. Eles realizaram este estudo em
; varios hospitais dos Estados Unidos, na regiao de San Francisco. Sua questao da pesquisa era
- acerca do que influenciava a interagao de varias pessoas com outras que estavam morrendo e
. como o conhecimento de que a pessoa logo morreria determinava a interagao com ela. Mais
* concretamente, estudaram que formas de interacao podiam ser observadas entre a pessoa que
estava morrendo e a equipe clinica do hospital, entre a equipe e os familiares e entre os fami-
liares e a pessoa que estava morrendo.
O ponto de partida da pesquisa foi a observagao de que, quando os familiares dos pesquisa-
dos estavam no hospital, a equipe nos hospitais (naquela €poca) parecta nao informar aos pacien-
tes com uma doenca terminal nem aos seus familiares sobre 0 estado ou a expectativa de vida
dele. A possibilidade de que o paciente pudesse morrer ou morreria logo era tratada como um
tabu. Esta observacao geral e as questoes que ela levantava foram tomadas como ponto de par
tida para uma observacao mais sistematica e entrevistas em um hospital. Estes dados foram
analisados e utilizados para desenvolver categorias. Essa também foi a base para decidir pela
inclusao de um outro hospital e a continuagao da coleta e analise dos dados la.
Os dois hospitais - como casos — foram diretamente comparados para a verificagao de
similaridades e diferencas, e os resultados dessa comparagao foram incluidos no estudo. Estes
incluiram um hospital-escola, um hospital para Veteranos de Guerra, dois hospitais municipais,
um hospital privado catdlico e um hospital estadual. As alas incluiam, entre outras, as alas de
geriatria, cancer, cuidado intensivo, pediatria e neurocirurgia, em que os pesquisadores de
campo permaneceram duas a quatro semanas cada um. Os dados de cada uma destas unida-
des (alas diferentes em um hospital, alas similares em hospitais diferentes, os hospitais entre
si) foram contrastados e comparados para exibir as similaridades e as diferengas.
Ao final do estudo, situagdes e contextos comparaveis fora dos hospitais e da atengao a
saude foram incluidos como outra dimensao de comparagao. A analise e comparagao dos
dados permitiram o desenvolvimento de um modelo tedrico, que depois foi transferido para
outros campos a fim de ser mais desenvolvido. O resultado deste estudo foi uma teoria dos
contextos de consciéncia como sendo maneiras de lidar com as informacoes e com a necessi-
dade de os pacientes serem mais informados sobre a sua situagao.
152 UweFlick

letiva vocévai visar mais a geracao de domi- Por isso, 0 escopo para umateoria ser de-
nios e categorias tematicas para o primeiro senvolvida é mais limitado do que no pro-
caso isolado do que ao desenvolvimento de cedimento deStrauss.
uma categoria principal fundamentada em
todos os casos.
Depois da primeira analise de caso, Procedimentos hermenéuticos
vocé vai fazer a checagem cruzadadascate-
gorias que desenvolveu com os dominios Na pesquisa qualitativa, 0 pesquisador faz
tematicos que estao ligados aos casos isola- grandes esforg¢os quando coleta os dados
dos. Umaestrutura tematica resulta desta para poderentendere analisar depois as de-
checagem cruzada, que constitul a base da claracgdes em seu contexto. Por isso, nas en-
analise dos casos adicionais para aumentar trevistas, sao formuladas perguntasabertas.
sua comparabilidade. Naanalise dos dados, a codificagao é usada
A estrutura que vocé desenvolveu com este proposito, ao menos no primeiro
desde os primeiros casos deve ser continua- passo. Os métodosanaliticos que acabamos
mente avaliada para todos os casos adicio- de discutir, assim como a analise qualitativa
nais. Vocé deve modifica-la se emergirem de contetido, partem cada vez mais da ex-
aspectos novos ou contraditérios e usa-la pressao original do texto: as declaracoesas-
para analisar todos os casos que fazem parte sumem uma nova ordem segundoascate-
da interpretacao. Para uma boa interpreta- gorias ou — no método deGlaser e Strauss
¢ao dos dominios tematicos, passagens iso- — as teorias que sao desenvolvidas. Mais
ladas do texto (p. ex., narrativas de situa- consequentemente orientados para a Ges-
ces) sao analisadas mais detalhadamente. talt do texto sao os métodos guiados pelo
O paradigma da codificagao sugerido por principio da analise sequencial.
Strauss (1987, p. 27-8; ver anteriormente) é
considerado o ponto de partida. O resulta-
do deste processo complementado por um Andalises narrativas
passo de codifica¢ao seletiva é uma exibicao
orientada para o caso da maneira com que Para a analise das entrevistas narrativas,
ela lida com a questao do estudo, incluindo Schtitze sugere como um “primeiro passo
topicos constantes (p. ex., a estranheza da analitico [isto é, a analise do texto formal]
tecnologia) que podem ser encontrados nos [...] eliminar todas as passagens nao narra-
pontos de vista entre os diferentes domi- tivas do texto e depois segmentar o texto
nios (p. ex., trabalho, lazer, familia). narrativo ‘purificado’ para suas se¢ées for-
A estrutura tematica desenvolvida mais” (1983, p. 286). Segue-se uma descri-
também servira para comparar casose gru- ¢ao estrutural dos conteudos, especificando
pos (ou seja, para elaborar as correspon- as diferentes partes das narrativas (“estru-
déncias e as diferencas entre os varios gru- turas do processo temporalmente limitadas
pos do estudo). Desse modo,vocéanalisa e do curso da vida, tendo por base conectores
avalia a distribuicao social das perspectivas narrativos formais”: Riemann e Schiitze,
sobre a questao em estudo. 1987, p. 348), como “e entdo” ou pausas. A
Este procedimento é util, acima de abstracao analitica — como um terceiro
tudo, para estudos em que comparacées de passo — afasta-se dos detalhes especificos
grupo baseadas teoricamente sao conduzi- dos segmentos da vida. Em vez disso, sua
das em relacéo a uma questao especiffica. intencao é elaborar “a moldagem biografica
Introdugao a metodologia de pesquisa 153

in toto, isto é, a sequéncia historica da vida vida, mudangas tematicas) para que se
das estruturas processuais dominantes da possa delinear a estrutura interna dotexto.
experléncia nos periodos da vida do indivi- Além disso, algumaspassagens da entrevis-
duo até a estrutura processual presente- ta sdo selecionadas para a analise refinada
mente dominante”(1983, p. 286). nesta etapa. O ideal é que vocéselecione, do
Somente depois desta reconstrucao inicio da entrevista, uma passagem que nao
dos padroes do processo é que vocé devein- seja longa demais e que represente comple-
tegrar a analise as outras partes — nao narra- tamente um episddio claro na forma narra-
tivas — da entrevista. Finalmente, as andlises tiva. Os excertos devem ser pequenos0 su-
de caso produzidas desta maneira séo com- ficiente e distintos em seu tdpico, além de
paradase contrastadasentresi. O objetivo é determinados em sua légica da acao e da
menos reconstruir as interpretagdes subje- sua estrutura narrativa.
tivas dos narradores acerca das suas vidas A andalise refinada deve prosseguir
do que reconstruir a “inter-relagao de cur- com um excerto selecionado em umaseg-
sos de processo factuais” (1983, p. 284). mentacao refinada estritamente sequencial
Em conformidade com isso, Rosen- (uma que progrida palavra por palavra,
thal e Fischer-Rosenthal (2004) sugerem a sentenca por senten¢a, sem transitar no
analise das entrevistas narrativas em seis texto). Além disso, os aspectos estruturais
passos: do texto que vao além das sentengasisola-
das (que fun¢ao tem a passagem comoparte
1. andalise dos dados biograficos (dados da narrativa mais longa?) devem ser consi-
dos eventos); derados ao mesmo tempo.
2. andalise do texto e do campo tematico Como umaheuristica da analise de
(analise sequencial dos segmentostex- um texto, os autores sugerem varias ques-
tuais da autoapresenta¢ao na entrevis- toes (2002, p. 321):
ta);
3. reconstrucao da histéria do caso (a © O que é apresentado?
vida como foi vivida); ¢ Como é apresentado?
4. analise detalhada das localizacées tex- * Com que proposito isto é apresentado —
tuais do individuo; e nao outra questao?
5. contraste da historia de vida narrada ¢ Com que propdésito isto é apresentado
com a vida como ela foi vivida; agora — e ndéo em um momentodiferente?
6. formacao de tipos. ¢ Com que proposito isto é apresentado
desta maneira — e nao de uma maneira
Lucius-Hoene e Deppermann (2002) diferente?
propuseram um procedimentoalternativo.
Eles descrevem os seguintes passos, em que Finalmente, vocé vai elaborar umaes-
passam de uma analise estrutural (bruta) trutura de caso coletando, agrupando e
para uma andlise refinada do material. Em comparando achadosrecorrentes, conceitos
primeiro lugar, a andlise estrutural identifi- basicos e caracteristicas estruturais mais
ca os segmentos da apresenta¢ao no texto abstratas em diferentes passagens da andlise
(transices, secdes, rupturas na historia de sequencial. Por exemplo, vocé pode desen-
volver umatipologia baseada na analise de
"N. de R.T.: A expressao do latim in toto significa “no varias narrativas; pode identificar pontos
todo” ou “em todo”. de virada em varias narrativas sobre as ex-
154 Uwe Flick

periéncias de doenca que mostrem algum cdes. Um segundo problema € 0 quaoes-


tipo de regularidade; ou pode, ainda, iden- treitamente as analises se prendem aos
tificar que varios narradores passam a usar casos individuais. O tempo e 0 esforco des-
uma linguagem muito abstrata quandotra- pendidos na anilise de casos individuais
tam do aspecto da terminalidade na narra- restringem os estudosdeir além da recons-
tiva da sua doen¢a. trucdo e comparacao dealgunscasos.
O que os métodos para analise dos
dados_ narrativos discutidos tém em
comum? Eles tomam a formageral da nar- Hermenéutica objetiva
rativa como umponto departida paraa in-
terpretacao das declaracdes, que sao vistas A hermenéutica objetiva foi originalmente
no contexto do processo da narrativa. Além formuladapara a analise das interacées na-
disso, incluem umaanalise formal do ma- turais (p. ex., conversas familiares). Subse-
terial: quais passagens do texto sao passa- quentemente, a abordagem tem sido usada
gens narrativas, quais outras formas de tex- para analisar todo tipo de outros documen-
to podem ser encontradas? tos, incluindo até mesmo obras de arte fo-
Nestes métodos, a narrativa tem uma tografias. Esta abordagem faz umadistin-
importancia varidvel para a analise das cao basica entre:
quest6es em estudo. Se algo é apresentado
na entrevista na forma de uma narrativa, a) o significado subjetivo de umadeclara-
Schiitze encara isto como um indicador de ¢ao ou atividade para um ou maisparti-
que a situacao aconteceu da maneira como cipantes; e
foi contado. Outrosautores, no entanto,en- b) 0 seu significado objetivo.
caram as narrativas como uma formaespe-
cificamente instrutiva de apresentacado dos Este ultimo € entendido usando-se o con-
eventos e das narrativas, analisando-as ceito de uma “estrutura de significado la-
comotal. As vezes, é feita a suposicao de tente”. Esta estrutura so pode ser examinada
que as narrativas como umaformade cons- utilizando-se o sistema de referéncia de um
trucao dos eventos podem ser encontradas procedimentodeinterpretacaocientifico de
na vida cotidiana e também no conheci- varias etapas. Devido a sua orientacao para
mento. Assim, este modo de construcado essas estruturas, também tem sido usado o
pode ser utilizado para propositos de pes- rotulo “hermenéuticaestrutural”.
quisa de uma maneira particularmentefru- As analises na hermenéutica objetiva
tifera. Combinar uma anilise formal com devem ser “estritamente sequenciais”; ou
um procedimento sequencial na interpreta- seja, vocé deve seguir 0 curso temporal dos
cao de apresentacgoes e experiéncias é tipico eventos ou do texto na conducaodainter-
das andlises narrativas em geral. pretacao. Deve trabalhar como um inte-
Entretanto,as abordagens particulares grante de um grupo deanalistas trabalhan-
que derivam de Schtitze exageram a carac- do no mesmotexto. Em primeiro lugar, os
teristica da realidadenasnarrativas. A influ- membrosdefinem o caso a ser analisado ¢
éncia da apresentacao sobre o que foi con- em qual nivel ele deve ser localizado. Ele
tado é subestimada; a possivel inferéncia da pode, por exemplo,ser definido como uma
narrativa aos eventos factuais nas historias declaracao ou atividade de umapessoa es-
de vida é superestimada. Somente em exem- pecifica, de alguém que desempenha um
plos muito raros as analises das narrativas determinado papel em um contextoinstitu-
sao combinadas com outras abordagens cional, ou ainda de um membrodaespécie
metodoldgicas para superar suas limita- humana.
Introdugdo 4 metodologia de pesquisa 155

Esta definigao é seguida de umaandli- siderados e depois os excluindo de novo,


se bruta sequencial destinadaa analisar os umapos outro. Aqui, a analise dossignifica-
contextos externos em que uma declaracao dos subjetivos das declaragoes e das acdes
esta inserida para levar em contaa influén- desempenha um papel de menor importan-
cia desses contextos. O foco desta andalise cia. Os intérpretes refletem sobre as conse-
bruta esta principalmente em considera- quéncias que a declaracao que eles acaba-
cdes sobre a natureza do problema da acao ram de analisar podem ter para o proximo
concreta, para o qual a acao ou interacao es- turno na interacao. Eles perguntam: O que
tudada oferece umasolucgao. Em primeiro O protagonista poderia dizer ou fazer em se-
lugar, vocé vai desenvolver hipoteses de es- guida? Isto produzvarias alternativas possi-
trutura de caso que poderefutar em etapas veis de como a intera¢ao poderia prosseguir.
posteriores, e a estrutura bruta do texto e do Entao, a proxima declaracaoreal é analisa-
caso. A especificacao do contexto externo da, sendo comparada comaquelas possiveis
ou da incorpora¢ao interacional do caso alternativas que poderiam ter ocorrido
serve para responder perguntas sobre como (mas que na verdade nao ocorreram). Ex-
os dados surgiram. cluindo cada vez maisas alternativase refle-
Na andlise refinada sequencial que se tindo por que os protagonistas nao as esco-
segue, a interpretacgao das interac6des pros- lheram, os analistas elaboram a estrutura
segue em nove niveis (Oevermann et al., do caso.Esta estrutura é finalmente genera-
1979, p. 394-402): lizada para o caso como um todo.Para este
proposito, ele é testado em contraposi¢ao a
1. explicagao do contexto que precede materiais adicionais do caso — 0 quesignifi-
imediatamente uma interacao; ca acoes e interacées subsequentes no texto.
2. parafrase do significado de umainte- Aqui,a analise dos significados subje-
racao de acordo com textoliteral que tivos das declaracées e das acdes desempe-
acompanha a verbaliza¢ao; nha um papel menos importante. O proce-
3. explicacao da intencao do sujeito inte- dimento no nivel 4 é orientado para
ragente; interpretacdes que usam a estrutura da ana-
4. explicacgao dos motivos objetivos da lise da conversa (ver em seguida), enquanto
interacao e das suas consequéncias ob- no nivel 5 o foco sao as caracteristicas lin-
jetivas; guisticas (sintaticas, semanticas ou pragma-
9. explicacao da funcao da intera¢ao para ticas) formais do texto. No nivel 6, 0 foco
a distribuicao dos papéis da intera¢ao; sao as caracteristicas linguisticas (sintaticas,
6. caracterizacao dos aspectos linguisti- semanticas ou pragmaticas) do texto.
cos da intera¢ao; Os niveis 7 a 9 se empenham por uma
7. exploragdéo da interacao interpretada generalizagao crescente das estruturas en-
para figuras comunicativas constantes; contradas(p. ex., é realizado um examepara
8. explicacdo das relagoes gerais; verificar se as formas de comunicacao en-
9. teste independente das hipotesesgerais contradas no texto podem serrepetidamente
que foram formuladas no nivel prece- encontradas como formas gerais — isto 6,
dente, tendo por base as sequéncias de dados comunicativos — e também emoutras
interacao de casos adicionais. situacdes). Estes nuimeros e estruturas sao
tratados comohipotesese sao testadas passo
O procedimento nos niveis 4 e 5 se a passo em relacao a materialadicional.
concentra na reconstru¢ao do contexto ob- Segundo Wernet (2006), as praticas
jetivo de uma declaracéo, construindo os interpretativas sao orientadas em cinco
possiveis contextos nos experimentos con- principios:
156 UweFlick

1. Liberdade do contexto. De acordo com forma de gravacao e transcri¢ao como ma-


isso, uma declaracéo é analisada in- teriais para interpretacao. A analise sequen-
dependente do contexto especifico em cial busca reconstruir a extensao dos signi-
que ela foi feita. Por isso, sio formu- ficados sociais a partir dos processos das
lados contextos experimentais com- aces. Quandoos materiais empiricos estao
pativeis com o texto (p. 23). Isto es- disponiveis como um registro em fita ou
clarece que significados a declaragao video e como transcri¢ao, vocé podeanali-
pode ter, e depois disso se segue uma sd-los passo a passo, do inicio ao fim. Por
interpretacao referida ao contexto con- isso, comece sempre a analise pela sequén-
creto. cia de abertura da interacao. Quando seesta
2. Literalidade. De acordo com isso,a de- analisando entrevistas que usam esta abor-
claragéo tem que ser interpretada da dagem, surge 0 problema de que osentre-
maneira comofoi realmentefeita e nao vistados nem sempre relatam os eventos e
como quem a expressou possivelmente Os processos em sua ordem cronol6gica.
teve a intencdo de fazer — ern particular Por exemplo, os entrevistados podem nar-
quando é cometido um erro. “O prin- rar algumasfases de suas vidas e depois se
cipio da literalidade faz uma aborda- referirem a elas durante suas narrativas dos
gem interpretativa direta da diferenga eventos, que tém deser localizadas em um
entre os significados manifestos e as trecho anterior. Também na entrevista nar-
estruturas significativas latentes de um rativa, e particularmente na entrevista se-
texto” (p. 28). miestruturada, os eventos e as experiéncias
3. Andlise sequencial. Aqui vocé nao pro- nao sao narrados na ordem cronologica.
cura contetido no texto, masinterpreta Quando usar uma sequéncia de método
O seu processo passo a passo. “Para a analitico para analisar entrevistas, vocé pri-
analise sequencial é absolutamente im- meiro tem que reconstruir a ordem sequen-
portante nao considerar o texto que cial da historia — ou do sistema de acao em
segue Como uma sequéncia que esteja estudo — a partir das declaracées do entre-
sendo interpretada”(p. 28). vistado. Portanto, rearranje os eventosrela-
4. Extensao. Isto significa incluir uma tados na entrevista na ordem temporal em
multiplicidade de interpretacdes (os que eles ocorreram. Depois oriente a analise
significados que o texto podeter). sequencial segundo esta ordem de ocorrén-
5. Parcimonia. “O principio da parcimé- cla, em vez de no curso temporalda entre-
nia [...] define que s6 podem serfor- vista: “O inicio de uma analise sequencial
muladas aquelas interpretacdes que nao € a analise da abertura da conversa na
sao impostas pelo texto que é interpre- primeira entrevista, mas a andlise daquelas
tado, sem nenhuma suposicao adicio- acoes e eventos relatados pelo entrevistado
nal sobre 0 caso”(p. 35). que sao Os primeiros ‘documentos’ dahisto-
ria de caso” (Schneider, 1988, p. 234).
Seguir estes principios deve garantir Uma consequéncia desta abordagem¢
que o seu texto seja analisado de uma ma- que o procedimento analitico sequencial se
neira abrangente — sem se basear em supo- desenvolveu para um programa compassos
sigdes adicionais fora do material ou leitu- metodolégicos claramente demarcados.
ra de algo no texto que nao esteja nele Uma consequéncia adicional disto é que
documentado. ficou claro que asvisOes subjetivas propor-
A hermenéutica objetiva foi desenvol- clonam apenas uma forma de acesso aosfe-
vida para analisar as interacdes da lingua- noOmenos sociais: 0 que um individuo ve
gem do cotidiano que estejam disponiveis na como 0 significado da sua doenca esta em
Introdugdo a metodologia de pesquisa 157

um nivel, e isto talvez esteja vinculado prin- chamentos das conversas foram iniciados
cipalmente as formas de lidar com situa- pelos participantes. As suposicdes basicas
cao. Ha também significados sociais acerca da andlise da conversa sao que:
dessa mesma doenga, estes estando talvez
mais ligados a estigmatiza-la do que lidar a) a interacao procede de uma maneira or-
com ela. (Sobre isto em um contexto dife- denada;e
rente, ver Silverman, 2001.) Outro aspecto é b) nada nela deve ser encarada como alea-
o chamado para conduzir interpretacdes torio.
em grupo a fim de aumentar a variedade
das versdes e das perspectivas trazidas para O contexto da interacao a influencia;
o texto e para usar 0 grupo para validar as Os participantes da interacao terapéutica
interpretacoesfeitas. agem de acordo com essaestrutura, e 0 te-
Um problema comesta abordagem é rapeuta fala como um terapeuta devefazer.
que, devido ao grande esforco envolvido no Ao mesmo tempo, este tipo de conversa
método,ele é com frequéncia limitadoa es- também produz e reproduz este contexto:
tudos de caso isolados. O salto para declara- falando como um terapeuta deve falar, ele
c6es gerais € com frequéncia realizado sem contribul para transformar esta situacado
quaisquer passos intermediarios. Além em umaterapia e para evitar que ela assuma
disso, o entendimento do método como um formato diferente de conversa — como
arte, que dificilmente pode ser transforma- “fofoca’, por exemplo. A deciséo sobre o
do em elaboracao e mediacao didaticas, di- que é relevante na interacao social e, por-
ficulta mais a sua aplicacao geral (para o ce- tanto, para a interpretacao s6 podeser to-
ticismogeral, ver Denzin, 1988). mada mediante a interpretacao, e nao por
opcodes prévias. Drew (1995, p. 70-2) for-
mulou uma série de preceitos metodoldgi-
Analise da conversa cos para analises de conversa (AC). Ele su-
gere concentrar-se em como a conversa €
Ao aplicar este método, vocé estara menos organizada e, emparticular, em como osfa-
interessado em interpretar o conteudo dos lantes organizam a tomadadapalavra nela.
textos do que em analisar os procedimentos Outro foco esta nos erros e em como eles
formais com que as pessoas se comunicam sao reparados pelos falantes. A AC busca
e€ em quais situacdes especificas eles sao padroes de conversa e de sua organizacao
produzidos. Os estudos classicos analisa- comparandovarios exemplosde intera¢des
ram a organizacao da tomada de palavra do tipo. Ao apresentar a andlise de uma
nas conversas ou explicaram como osfe- conversa, é importante que vocé apresente

Quadro 8.3

EXEMPLO: INTERACOES ENTRE CONSELHEIRO E CLIENTE

Sahle (1987) utilizou este procedimento para estudar as interagoes dos assistentes sociais com
seus clientes, entrevistando também os proprios profissionais. Ela apresenta quatro estudos de
caso, tendo em cada um delesinterpretado extensivamente a sequéncia de abertura das intera-
¢des para elaborar a “formula da estrutura” para a interagao, que é entao testada em oposi¢ao
a uma passagem aleatoriamente amostrada a partir do texto adicional. Das andalises, ela deriva
hipoteses sobre o autoconceito profissional dos assistentes sociais e depois Os testa nas entre-
vistas. Em uma comparacao muito breve, Sahle relata os estudos de caso um para o outro e
finalmente discute seus resultados com os assistentes sociais envolvidos.
158 UweFlick

exemplos suficientes em citac6es literais isto é, o texto em umsentido mais amplo


para que os leitores possamavaliar sua ana- (Bergmann, 2004).
lise. Por exemplo, se vocé analisa 0 aconse-
lhamento, pode observar as interagoes de
abertura e como os dois participantes che- Andalise do discurso
gam a definicdo da questao sobre a qualira
versar a consulta. Comparando varios A analise do discurso foi desenvolvida a
exemplos, vocé pode exibir padrées de or- partir de diferentes origens, entre elas a
ganizacao de um tema para a conversae, analise da conversa. Ha varias versoes da
assim, uma consulta com um foco. analise do discurso atualmente disponiveis.
O procedimentoda analise da conver- A psicologia discursiva, como foi desenvol-
sa do proprio material envolve os seguintes vida por Edwards e Potter (1992), Harré
passos: primeiro vocé identifica uma deter- (1998) e Potter e Wetherell (1998), esta in-
minada declaracao ou séries de declaragdes teressada em mostrar como, nas conversas,
nas transcric6es como um potencial ele- as versOes conversacionais dos “participan-
mento de ordem norespectivo género de tes” dos eventos (memodrias, descricées, for-
conversa. O segundo passo € reunir uma co- mulacées) sao construidas para realizar o
lecao de casos em que este elemento de trabalho interativo comunicativo (Edwards
ordem pode ser encontrado. Vocé entao e Potter 1992, p. 16). Ha uma énfase especial
especificara como este elemento é usado na construcao das versdes dos eventos em
como um meio de produzir ordem nasinte- relatos e apresentacoes. Os “repertorios in-
racoes e para qual problema na organiza¢ao terpretativos” que sd4o usados nessas cons-
das interacoes ele é a resposta (ver Berg- trucdes sao analisados. Estes sao maneiras
mann, 2004). Isto é seguido por umaanialise de falar sobre um temaespecifico e sao cha-
dos métodos pelos quais estes problemas mados repertorios, pois se considera que
organizacionais sao tratados mais geral- estas maneiras nado sao completamentees-
mente. Assim, um ponto de partida fre- pontaneas, mas sim queas pessoas aplicam
quente paraas analises de conversa é inqul- certas maneiras de falar sobre um tema. Ao
rir como algumasdelas sao iniciadas e que mesmo tempo, por exemplo, a maneira
praticas linguisticas sao aplicadas parater- como um tema é€ tratado na imprensa esta-
mina-las de maneira ordenada. belece tais repertorios (p. ex., se uma mino-
A pesquisa na analise da conversa é ria étnica especifica é sempre mencionada
originalmente concentrada nas conversas com referéncia a violéncia e ao crime).
cotidianas (p. ex., chamadastelefénicas, fo- Willig (2003) descreveu 0 processo de
focas ou conversas de familia em que nao ha pesquisa na andalise do discurso em varios
distribui¢ao especifica dos papéis). Cada passos. Depois de selecionar os textos e a
vez Mais, no entanto, ela tem se ocupado conversa que ocorre em contextos naturais
das distribuicgées especificas de papéis e as- — que tém de ser descritos primeiro — vocé
simetrias como aquelas encontradas, por vai ler atentamente as transcric6es. Segue-
exemplo, nas conversas de aconselhamento, -se entao a codificacado e depois a anilise do
nas interacdes médico-paciente e nos ex- material a partir de quest6es norteadoras
perimentos (isto é, conversas que ocorrem como: por que estou lendo esta passagem
em contextos institucionais especificos). A desta maneira? Quecaracteristicas do texto
abordagem tem sido também estendida produzemesta leitura? A analise se concen-
para incluir a analise de textos escritos, tra no contexto, na variabilidade e nas cons-
meios de comunicacao de massa ou relatos, trugdes do texto e, finalmente, nos reperto-
Introdugao a metodologia de pesquisa 159

rios interpretativos usados neles. O ultimo dos de interpretacao dos dados discutidos
passo, segundo Willig, é a escrita de uma até agora trabalham com estudos de caso
pesquisa analitica do discurso. Escrever em varias fases de tratamento do material.
deve ser parte da analise e fazer 0 pesquisa- Os métodos hermenéuticos, em sua maio-
dor retornar ao material empirico. ria, produzem um estudo de caso nopri-
meiro estagio, consistindo de uma intera-
¢ao, documento ouentrevista isolada. A
Caracteristicas dos comparac¢ao doscasos é umpasso posterior.
métodos interpretativos Entretanto, na abordagemde Glaser e
Strauss, 0 caso isolado (a entrevista, um do-
O que é comum nos métodos hermenéuti- cumento ou uma intera¢gao) recebe menos
cos discutidos é 0 fato de eles se concentra- atencao. Quandoeles falam de “caso”, estado
rem na estrutura temporal-ldgica do texto e se referindo ao campo ou tema do estudo
toma-la como um pontode partida da in- como um todo. Esta abordagem se inicia
terpretacao. Por isso, eles se concentram imediatamente, comparandoentrevistas ou
mais no texto do que os métodosbaseados situacgoes especificas.
nas categorias, discutidos antes. A relacdo
do conteudo e dos aspectos formais é mol-
dada aqui de diferentes maneiras. Nas ana- Producao e leitura
lises narrativas, a diferenca formal entre as
de estudos de caso
passagens narrativas e argumentativas nas
entrevistas informam as decisdes sobre
quais passagens recebem quanta atencado As vezes, como, por exemplo, na avaliacao
interpretativa e até que ponto os conteuidos de umainstituicao, um estudo de caso pode
ser o resultado da pesquisa. Em outras
sao dignos de crédito. Nas analises herme-
abordagens, os estudos de caso constituem
néuticas objetivas, em contraste, a analise
O inicio, antes de a compara¢ao se tornar
formal dos textos é um nivel mais subordi-
mais central. Uma terceira possibilidade é
nado deinterpretacao. A analise da conver-
usar os estudos de caso para ilustrar umes-
sa se concentra principalmente nos aspec-
tudo basicamente comparativo para destacar
tos formais, que sao usados para conceber
os vinculosentre os diferentes temas estuda-
as conversas — por exemplo, as conversas de
dos na pesquisa. Neste sentido, incluimos
aconselhamento — e comoestes sao empre-
varios estudos de caso, além de umaapre-
gados para a negociacao dos conteudoses-
sentacao comparativa tematicamente estru-
pecificos de um tdpico. A analise do discur-
turada, no nosso estudo sobre os conceitos
so da, mais uma vez, um giro, passando a
de satide e doengade adolescentes sem-teto
analisar textos e conversas em relacao aos
(ver Flick e R6hnsch, 2008).
seus contetidos e aspectos formais.
Um pontoessencial na produgao e na
avaliacao dos estudosde caso é localizac¢ao
do caso e a sua analise. O que o caso repre-
[¥ Estudos de caso senta e 0 que vocé pretende mostrar anali-
e tipologias sando-o? A apresentacao diz respeito a pes-
soa (ou instituicéo, etc.) isolada? Ela
No Capitulo 5, os estudos de caso foram representa a pessoa como tipica para um
discutidos como uma das concep¢oes basi- subgrupo especifico no estudo ou represen-
cas na pesquisa nao padronizada. Os méto- ta uma perspectiva profissional especifica
160 Uwe Flick

(p. ex., os médicos neste campo)? Quais as declaracées relevantes e de sua ordenacado
foramoscritérios para a selecao deste caso ao longo de uma dimensao. No exemplo de
especifico — para a coleta de dados, para a Gerhardt (1988) sobre a reabilitacao depois
analise e para a apresentacao? do maridoter sido acometido de uma doen-
ca cronica, este espaco caracteristico consis-
te na série de atividades encontradas para o
Criacao de tipologias marido (trabalho profissional; em casa) e
para as esposas (trabalho profissional; em
As tipologias sao criadas também na pes- casa) e para as combinagoes que resultam
quisa quantitativa. Entretanto, este passo de das quatro possibilidades nos casos concre-
condensa¢ao e apresentacado dosresultados tos. No estudo de Gerhardt, quatro tiposre-
é mais frequentemente parte da pesquisa sultam disso: carreira dupla (ambos tém um
qualitativa. Kelle e Kluge (2010) fizeram al- trabalho profissional), tradicional (marido
gumas sugest6es para comoaplica-lo, o que trabalhando e esposa em casa), racional (o
podeser usado para desenvolver 0 seguinte inverso quando o marido nao pode maisde-
procedimento. sempenharseu trabalho profissional) e de-
O primeiro passo é criar estudos de semprego (quando nenhum dosdois esté
casO para os casos que estao incluidos na trabalhando). Gerhardt comparou estes
pesquisa ou, comoalternativa, comec¢ar com quatro tipos para ver em quecircunstancia a
andlises referentes a determinadas questoes. reabilitacao do marido cronicamente doen-
Isto é seguido por comparac¢oessistematicas te foi mais bem-sucedida.
(dos casos oureferentes as quest6es). O passo seguinte na construgao de
O passo seguinte é definir as dimen- uma tipologia é analisar os significados
sdes relevantes da comparacao. Considere substantivos. Por isso, vocé val novamente
qual é o foco das comparac¢ées pretendidas analisar os casos nos diferentes tipos para os
— por exemplo, de um lado, os contetdos quaisos significados para as propriasprati-
dos conceitos de satide que foram mencio- cas de uma pessoa podemser identificados
nados; de outro, a idade e o género. Isto nas entrevistas e quais regularidadessetor-
pode revelar aqui qual dimensao substan- nam visiveis por meio disto.
cial caracterizou as extensoes dos conceitos Finalmente, vocé vai caracterizar os
de sade que foram mencionados e como as tipos criados, explorando quais caracteristi-
varias dimens6es podemserdistribuidas na cas ou combinacoes de caracteristicas ca-
diferenciacao da idade dos casos ou 0 que racterizam os casos que foram atribuidos
pode ser encontrado mais nos homens ou as variostipos: o que eles tem em comum,
nas mulheres entrevistados. O que distingue os casos nos diferentes
O proximo passo é agrupar os casos tipos? Pode ser necessdério removerOs casos
(segundo a dimensao substancial e/ou que se desviam dotipo isolado para depois
idade) e analisar as regularidades empiricas combinar os grupos, com 0 objetivo dere-
(p. ex., alguns conceitos podem ser encon- duzir a variedade ou de diferencid-los em
trados principalmente para garotas mais jo- mais grupos no caso de haver diferen¢as
vens, enquanto outros conceitos para garo- importantes dentro dos tipos construidos
tos mais velhos). até entao.
Na medida do possivel, a extensao das Este procedimento envolve analisar
declaracdes deve ser documentadae delimi- sistematicamente os casos, comparando-
tada a fim de desenvolver uma estrutura -os e definindo uma tipologia. A tipologia
contrastante para declaracéesisoladas. Isto podese referir aos casos como umtodo,0
podeser o resultado da compilacao de todas que significa, por exemplo,alocar os entre-
Introdugao a metodologia de pesquisa 161

vistados aos diferentes tipos. Pode também


se referir a tOpicos especificos, 0 que con- Ww Lista de verificagao
duz a uma tipologia de como os adoles- para analise dos dados
centes entrevistados lidam com os riscos
sexuais em suas vidas na rua e a uma tipo- Se vocé for conduzir um projeto empirico,
logia que se refere a sua utilizagao de su- convird considerar as quest6es apresentadas
porte médico no caso de problemas de no Quadro8.4 para a analise dos seus dados.
satide. A alocagao dos entrevistados nestas Estas questdes podem ser usadas para a rea-
duas tipologias nao serdo necessariamente _lizacao do seu préprio estudo ou para ava-
idénticas. liar a pesquisa de outros pesquisadores.

Quadro 8.4

LISTA DE VERIFICACAO PARA ANALISE DOS DADOS

O metodo de analise que vocé escolheu é apropriado aos dados que vocé coletou?
PWN >

Ele satisfaz a complexidade dos dados?


A natureza dos dados permite que vocé aplique a estrutura analitica que escolheu?
O tipo de analise permite reduzir a complexidade dos dados de tal maneira que os
resultados se tornem facilmente compreensiveis?
5. Vocé pode responder a sua questao de pesquisa com o formato da analise que esco-
lheu?
6. Qual é a questao da pesquisa ou 0 aspecto dela que se pretende que seja o foco da
analise?
7. Sua analise pode avaliar se o seu resultado ocorreu por acaso ou se é€ um resultado
singular?
8. Seus resultados quantitativos sao estatisticamente importantes?
9. Algumas regularidades (p. ex., uma tipologia) tornaram-se visiveis nos resultados
qualitativos?
10. Como a sua analise considera os casos ou dados desviantes?

Pontos principais

v Aanalise de contelido trabalha com textos — de uma maneira quantitativa na analise de periodicos,
por exemplo, e de uma maneira qualitativa na analise de entrevistas e outros dados.
Y Aanalise quantitativa se inicia com a elaboracgao, avaliagao e esclarecimento dos dados.
Y 0 proximo passo é a analise descritiva das frequéncias, distribuigdes, tendéncias centrais e disper-
sdes nos dados.
V As analises quantitativas podem focar em uma, duas ou mais variaveis e no relacionamento entre
elas.
Y Os relacionamentos encontrados desta maneira sdo testados para sua significancia estatistica por
meio de diferentes testes.
V As analises qualitativas podem ter como objetivo o desenvolvimento de uma teoria por meio do uso de
varios métodos de codificagao dos dados.
v Elas também podem se concentrar na analise de narrativas para os processos e as historias de vida
nelas representadas.
V Aanalise das interacdes é uma op¢ao na andlise dos dados qualitativos. . .
V Aanilise qualitativa se move, com 0 objetivo de desenvolver tipologias, entre a analise orientada para
0 Caso e a analise comparativa.
fo k
U w e
Bryman, A.(2008) Social ResearchM ethods, 3. ed,
Press
nais Oxford: Oxford University
‘ Leituras adicio Flick U. (ed.) (2011) Col ¢ao
e¢a Pes ; .
vol s. Por to Ale gre : Ar tm ed . quisa Qualitativa,
- 6
oporcionam uma dis
Os textos a seguir pr es co be r-
das questo i ,
cussio mais detalhada Flick U. (20o09) Introduc
3. ed. Port Alegre,
ao a Pesquisa Qualitat
Artmed. Capitulo 9
ativa
tas neste capitulo.
Flick, U., Kardoff, E.v. e Steinke,I. (eds) (2004
Companion to Qualitative Research. London:: .Sage.

“vw YG
yo

Pesquisa on-line: realizacdo de


pesquisa social on-line

VISAO GERAL DO CAPITULO

O que @ pesquisa on-line @ por Que FeAliZG-la? oo ec cescccsssccssssessessescavesvssssesseevesecsesssetsessesaescsesnsenensaeess 164


AMOSTFAGEM © ACESSO 00... ecccsesecesesesessssesesenescecsesessesesssessvesesavscsescscsesaessesssesesssavesacsusseessessesssusevassvesaenenseaseesenes 165
Pesquisas de levantamento, entrevistas @ QrupOS de GISCUSSHO ON-HINE....c.cccccccesccsesscescseseseseseeteeseeees 167
Etrmografia Virtual... cccccsecesesesesescssseeeecsessssecanssssesssesssesescassnecessssscssscecscsvssessscseacscecaavssesessseassnesseseeeeseneass 170
Analise de documentos e interagGes da INtermet ....... ce ccessssesesssesesessssescescsessssescsssssearsscssessaeseseeseaeenens 172
Pesquisa on-line hoje: uso da Internet 2.0 oo. eseesesscsssssesessesestesestacssssecssssnsnsscsescessenensseeeeesieassteasanseeees 172
Lista de verificagdo para 0 projeto de pesquisa SOCIal ON-11E.....ceecsecssesseeceresseectesnecseeseeneenteneeseesseees 174

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


v¥ entender o uso da internet na pesquisa social;
v avaliar as vantagens de usar a internet como um suporte para 0 seu estudo;
v entender como as abordagens tradicionais da pesquisa social podem ser transferidas para uma
pesquisa baseada na internet;
v reconhecer os limites da realizagado da pesquisa social on-line.
164 UweFlick

Tabela 9.1 NAVEGADOR PARA 0 CAPITULO 9

Orientagao ° O que é pesquisa social?


e Questao central de pesquisa
e Revisao da literatura

Planejamento e e Planejamento da pesquisa


concepcao e Concep¢ao da pesquisa
e Decisao sobre os métodos

Trabalhando ¢ Coleta de dados


com dados e Analise dos dados
Vocé esta aqui = e Pesquisa on-line
no seu projeto - e Pesquisa integrada

Reflexao e escrita ® Avaliagao da pesquisa


° Etica
e Aescrita e o uso da pesquisa

[¥% O que é pesquisa on-line net tornou-se um instrumento importante


na realizacao de pesquisa — as vezes sobre
e por que realiza-la? temas nao diretamente ligadosa ela. A pes-
quisa que usa a internet como uminstru-
De uma maneira ou de outra, a internet mento para a realizacao de pesquisasocialé
tornou-se uma parte das vidas de muitas as vezes chamada de “pesquisa on-line” e é
pessoas. Porisso, podeser interessante estu- este o foco neste capitulo. Aqui encontra-
dar: mos os métodos tradicionais da pesquisa
social transferidos — e as vezes adaptados — a
a) quem esta usandoa internet; pesquisa on-line. Exemplos incluem pesqu!-
b) para que propdositos; e sas de levantamento on-line, entrevistas on-
c) quem naoa esta usando. -line por e-mail, grupos focais on-line, etno-
grafia virtual e questdes do tipo.
Se vocé fosse levar adiante essas ques- Ha dois conjuntos de questéespreli-
toes, estaria tornando a internet um tema minares que vocé precisa formular a SI
da sua pesquisa. mesmo antes de partir para a realizacao de
Nesses estudos, vocé poderia eviden- uma pesquisa on-line.
temente aplicar de modotradicional os mé-
todos discutidos nos capitulos precedentes. 1. Vocé gosta de trabalhar com computa-
Vocé poderia, por exemplo, distribuir um dores e usar a internet e suas varias for-
questiondrio ou realizar entrevistas presen- mas de comunica¢ao? Vocése sente con-
clais na sua comunidade de estudantes ou fortavel trabalhandoneste contexto?
em uma amostra da populac¢ao geral. Isto 2. Vocé tem as habilidades técnicas para
seria util, especialmente para levar adiante a criar e utilizar as ferramentas on-line
terceira das questoes citadas acima isto é, (p. ex., uma pesquisa de levantamento
quem nao esta usando ainternet. ou uma entrevista)? Caso nao tenha,
Além de se tornar um tema da sua vocé tem o suporte necessario para
pesquisa da maneira exemplificada, a inter- fazer isso?
Introdugado a metodologia de pesquisa 165

Se a sua resposta a estas questdes é (por meio, digamos, de um banner em


“nao”, talvez vocé prefira um método dife- um sife) e podem até participar varias
rente para oO seu projeto de pesquisa. vezes;
e painéis de voluntarios que lidem com os
potenciais participantes atraidos por um
[¥ Amostragem e acesso determinadotema;
e captagao de pesquisas de levantamento
Assim como na pesquisa geral, também na que desenhem uma amostraaleatéria de
pesquisa on-line o conceito da amostragem todas as pessoas que visitam uma certa
envolve uma popula¢ao mais ampla da qual pagina, convidando entéo os membros
extrair uma amostra, e por isso a sua amos- desta amostra a participarem de uma
tra dos participantes reais representa um pesquisa;
grupo maior de potenciais participantes. e pesquisas de levantamento baseadas em
Na pesquisa on-line, no entanto, vocé pode lista, que usam instituigdes com uma
ter o problema de uma dupla realidade. To- lista completa de e-mails dos seus mem-
mando um exemplo simples, se vocé quer bros (p. ex., uma universidade com todos
estudar as tendéncias na aquisicdo delivros os seus estudantes e funcionarios), todos
e utiliza uma loja on-line como a Amazon eles sendo convidados a participar da
para encontrar seus participantes, estara pesquisa (ou da qual é extraida uma
usando uma amostra muito seletiva: vocé amostraaleatoria);
nao pode necessariamente comparar os e pesquisa de levantamento de modo mis-
clientes desta loja com aqueles de: to, que usa uma amostra aleatoria da
populacao; os membros da amostra
a) livrarias tradicionais; ou mesmo de podem entdo escolher entre participar
b) outras lojas na internet. por meio de questionarios em papel ou
on-line;
Por isso, neste exemplo sera dificil ex- e painel da populacao previamente recru-
trair conclus6es de uma amostra (de usua- tada, extraido de uma amostra aleatoria
rios de livrarias na internet) para a popula- da populacao e em que, se os membros
¢ao de compradoresdelivros em geral. Este desta amostra nao tiverem acessoa inter-
exemplo envolve quest6es nao somente de net, os pesquisadores lhes proporcionam
até que ponto sao representativas as amos- acesso.
tras on-line para as populacgoes do mundo
real, mas também deacesso — onde vocévai Estas alternativas diferem emrelacao a
encontrar Os participantes, como vai entrar onde vocé encontra uma popula¢aoa partir
em contato com eles, e assim por diante. da qual extrair uma amostra e também em
Podemos aqui considerar varias for- até que ponto vocé pode concebera ideia de
mas de acesso para uma pesquisa de levan- uma amostragem aleatoria neste contexto.
tamento on-line (ver a seguir) que tenham A populacao pode consistir em usuarios de
por objetivo uma amostra aleatéria (ver umsite ou de umportal da internet, ou da
Baur e Florian, 2009). Sao elas: populacao geral de um pais. No ultimo
caso, vocé tem que levar em conta que os
e pesquisas de levantamento on-line sem usuarios da internet constituem uma sele-
apelos cientificos; cao da populacao geral: de forma alguma
e pesquisas de levantamento abertas na todos usama internet. Por exemplo,os usu-
rede, sem limitac6es sobre quem se espe- drios dela tendem a ser mais ovens do quea
ra que participe; todos sao convidados média da popula¢ao e tém uma maior pro-
166 UweFlick

babilidade de terem recebido um_ nivel varias pessoas dentro da mesma casa podem
maior de educacado. Isto pode conduzir a usar 0 mesmo computador (ver Bryman,
problemas de subcobertura na sua amostra 2008,p. 647).
da internet em comparagao com a popula- Varias respostas a estes problemas de
cao geral: ou seja, alguns grupos da popula- amostragem témsido sugeridas. Umadelas
cao (p. ex., pessoas idosas ou aquelas sem é que nem todo estudo necessita de uma
filhos) estaraéo sistematicamente subrepre- amostra tao rigorosamente representativa
sentadas em sua amostra baseadanarede. quanto possivel da “populagao em geral”, o
Ao mesmotempo,vocé podeestar diante da quese aplica tanto a pesquisa on-line quan-
cobertura excessiva como um problema: to a pesquisa off-line (Hewsonetal., 2003).
pessoas que nao estado no seu grupo-alvo ou Os estudos qualitativos seguem umaldégica
amostra podem responder ao seu questio- de amostragem diferente e talvez faca mais
nario, as vezes semrevelar suaidentidade, o sentido estudar as tendéncias de compras
que torna dificil exclui-las do seu conjunto dos clientes da amazon.com (em nosso
de dados; além dapossibilidade de algumas exemplo citado) para o mesmo propésito.
pessoas preencherem seu questionario va- Entao, tal amostra pode ser adequada con-
rias vezes. Outros problemas incluem a nao tanto que vocé evite generalizar seus resul-
resposta a determinados itens/perguntas ou tados para populacoes inadequadas(p.ex.,
os respondentes que se retiram, por exem- aos compradoresde livros em geral). Vocé
plo, depois de responder ao primeiro con- precisa ter cautela na generalizacao dosseus
junto (ou pagina) de quest6es e entao per- resultados para outras populacoese refletir
dem o interesse, ou devido ainda a uma sobre 0 que é adequado e o que nao€. Final-
queda na conexdo com internet. mente, para alguns estudos e questdes de
Outro problema de acesso é 0 que e pesquisa pode nao ser um problema que os
quanto vocé realmente sabera sobre seus participantes respondam repetidasvezes ou
participantes se usar o endereco de e-mail usem identidades duvidosas, pois isto pode
ou o nome ficticio que eles usam nos gru- representar as praticas do usuario tipico da
pos de discussao ou redessociais para iden- internet. As quest6es e temas mencionados
tifica-los. Em alguns casos, vocé nao sabera por Gaiser e Schreiner neste contexto
mais sobre elas ou tera que confiar nas in- podem seruteis:
formacoes queelas lhe deram sobre seu gé-
nero, idade, localizacao, etc. Isto pode le- Pense em quem vocé quer que participe
vantar duvidas sobre a confiabilidade dessas do seu estudo e onde vocé vai encontrar
informacgoes demograficas e conduzir a essas pessoas. Quemé provavel quefre-
problemas de contextualizac¢ao das declara- quente seu tipo de ambiente on-line?
Como vocé vai conseguir que essas pes-
¢des na entrevista posterior. Como indaga
soas participem do seu site? Como um
Markham, “O que significa entrevistar al-
pesquisador podecriar uma maiorpro-
guém por quase duas horasantes de perce-
ximidade com uma determinada popu-
ber que ele (ou ela) nao pertence ao género lacdo? Que tecnologiasos participantes
que o pesquisador achou queele(ela) per- da amostra usam ou tém maiorproba-
tencesse?” (2004, p. 360). bilidade de usar? (2009, p. 15)
Além disso, usar 0 endereco de e-mail
como o identificador para os partipantes Em geral, como em outras formas de
em seu estudo pode levantar outras ques- pesquisa de levantamento, vocé deve consi-
toes. Muitas pessoas usam mais de um en- derar dois passos para aumentar o indice de
dereco de e-mail ou varios provedores da resposta. Antes de enviar um questionario
internet ao mesmo tempo.Por outro lado, para os potenciais participantes, vocé deve
Introdugao a metodologia de pesquisa 167

contata-los e pedir sua permissao para in- podem produzir problemas com a
clui-los no seu estudo. Vocé deve repetir o formatagao. As pesquisas de levantamento
contato com os nado respondentes pelo pela rede sao mais flexiveis na formatacao do
menos umavez (Bryman, 2008, p. 648). questionario todo e nas opc¢ées de resposta.
Os questionarios podem ser concebidos de
maneira atrativa e é facil incluir perguntas
ivf Pesquisas de comfiltro ou perguntas com salto (a respos-
levantamento, ta dirige o participante para perguntas dife-
rentes a serem respondidas em seguida, ou
entrevistas e grupos de algumas perguntas sdo deixadasde fora apos
umaresposta especifica). E possivel captar os
discussao on-line participantes colocando um bannersimilar a
uma propaganda em umapagina da rede em
Os trés métodos basicos para a coleta das
que os participantes podem clicar no ques-
declarac6es dos participantes — isto é, ex-
tionario e preenché-lo. Ha também ferra-
trair suas opinioes, historias e outras for-
mentas e servicos eletrénicos disponiveis na
mas de dadosverbais — foram transferidos
internet que podemfacilitar a realizagao da
para a pesquisa on-line.
Sua pesquisa on-line: muitas companhias
oferecem estes servicos profissionalmente
Pesquisas de levantamento on-line (ou seja, vocé tem de pagar poreles). Se vocé
buscar 0 Google Survey, vai encontrar uma
Ha varias avaliac6es das pesquisas de levan- longa lista desses servicos, como o Survey
tamento on-line. A maiorparte das pesquisas Monkeyouo Bristol Online Surveys (http://
que usama internet € quantitativa e consiste survey. bris.ac.uk).
em pesquisas de levantamento on-line, ques- Comparados com as pesquisas dele-
tionarios baseados na rede ou experimentos vantamento por questionarios postals, as
na internet (ver Hewson et al., 2003). Tem pesquisas de levantamento on-line tém va-
sido estimado que pelo menos umter¢o de rias vantagens. Estas incluem:
todas as pesquisas de levantamento no
mundosaorealizadas on-line (Evans e Ma- e Baixo custo. Como vocé nao tem que im-
thur, 2005, p. 196) e a tendéncia é que este primir seus questionarios, pode econo-
numero aumente. Bryman (2008) discute as mizar dinheiro em envelopes e selos. Os
pesquisas de levantamento por e-mail e na questionarios que vocé recebe de volta ja
internet. Os primeiros, como 0 nomesugere, estado inseridos no computadore sao mais
sao enviados por e-mail a destinatarios pre- facilmente transferidos para o software
viamente selecionados. O questionario é estatistico.
anexado a uma mensagem coma expectativa e Tempo. Os questionarios on-line retor-
que Os recipientes respondam as perguntas e nam mais rapidamente do que os ques-
devolvam o questionario anexadoa suares- tionarios enviadospelo correio.
posta por e-mail. Umaalternativa é enviar 0 e Facilidade do uso. Os questionarios on-line
questionario incorporadoao proprio e-mail, sao mais faceis de formatar e mais faceis
e€ as respostas sdo dadas adicionando-se um de navegarpara 0 participante (ver ante-
“x” as perguntas ou escrevendo o texto na riormente).
propria mensagem,e enviadas de voltacli- e Auséncia de restrig¢des espaciats. Voce
cando na opcao “responder”. Emboraa ulti- pode alcangar pessoas em longasdistan-
ma versao seja mais facil de lidar para 0 res- clas sem esperar que os questionarios
pondente, alguns programas de e-mail cheguem aoseu destino.
168 UweFlick

« Indice de resposta. O numero de pergun- a 9° semanasestao focadas em fazer um novo


tas nado respondidas na maioria doscasos contato comos nao respondentese analisaros
é menor nas pesquisas de levantamento dados. Nas quatro semanasrestantes, vocé vai
on-line, enquanto os questionarios aber- escrever os rascunhos do seu primeiro e se-
tos tendem a ser respondidos de uma gundorelatorios da pesquisa e apresenta-los.
maneira mais detalhada e as respostasja Este cronograma parece muito rigido, em
sao dadas em formatodigital. particular na parte em que a pesquisa reali-
zada — masele da, ao menos, umaindicacao
Entretanto, ha também varias desvan- inicial de como avangar.
tagens nos questionarios on-line em com-
paracao com as pesquisas de levantamento
tradicionais. Os indices de resposta podem Entrevistas on-line
ser mais baixos em alguns casos; vocé so
atingira populacGes que ja estao on-line (ver Vocé pode organizar as entrevistas on-line
anteriormente). Ha ceticismo com relagao de varias maneiras, como com a forma sin-
ao anonimato, especialmente por parte dos cronica, por exemplo.Isto significa que vocé
potenciais participantes; o que pode reduzir contata 0 seu participante enquanto ambos
a motivacao para responder.Por outrolado, estao on-line ao mesmo tempo — por exem-
as pessoas as vezes respondem mais de uma plo, em uma sala de bate-papo onde vocé
vez (ver Bryman, 2008, p. 648; Hewson et pode trocar diretamente perguntas e res-
al., 2003, p. 43). postas. Isto € 0 que mais se aproxima ao In-
Sue (2007, p. 20-1) tragou um cronogra- tercambio verbal na entrevista presencial.
ma de pesquisa para as pesquisas de levanta- Comoalternativa, vocé pode organizar as
mento on-line para ser completado em 13 se- entrevistas on-line de uma forma assincr6-
manas. As primeiras trés semanas sao nica, eM que vocé envia suas perguntas aos
dedicadas a estudar os objetivos, examinara participantes e eles encaminham suasres-
literatura e rever os objetivos. As trés semanas postas de volta mais tarde: neste caso vocés
seguintes sao dedicadas a escolher o software nao precisam necessariamente estar conec-
da pesquisa de levantamento e ao desenvolvi- tados ao mesmo tempo. Esta ultima verso
mento,pré-teste e revisao do questionario. Na é€ realizada principalmente mediante trocas
72 semana,€ realizada a coleta dos dadose as de e-mails ou pelas redes sociais e se aproxi-
respostas que chegam séo monitoradas. A 8? e ma do que vocé faz em um estudode ques-

Quadro 9.1

ESTUDO DE CASO: MONITORAMENTOLONGITUDINAL


DAS AVALIAGOES DE QUALIDADE DOS ESTUDANTES

Na universidade de Potsdam, foi estabelecido um painel on-line para monitorar as biografias,


as avaliagoes de curso e as avaliagoes da qualidade do programa de estudo dos estudantes em
uma perspectiva longitudinal. Os estudantes foram convidados para se juntar ao painel on-line
mediante contatos on-line e off-line. Eles foram contatados antes de iniciarem seus estudos e
antes de se inscreverem nos programas e foram motivados por um sorteio para os participan-
tes. Apesar disso, dos 18 mil estudantes da universidade, somente 700 permaneceram no pai-
nel apos um ano. A equipe da pesquisa tomou muitas precaugoes para garantir o anonimato
dos participantes e para conseguir vincular os dados das varias ondas da pesquisa de levanta-
mento (ver Pohlenzet al., 2009, para mais detalhes).
Introdugao a metodologia de pesquisa 169

tionario. Vocé tambémpodeusar servicos Se vocé realiza suas entrevistas de


de mensagens e imagens como o Skype para formaassincr6nica, 0 tempo transcorrido
estabelecer um dialogo imediato no forma- entre a pergunta e a resposta pode influen-
to de pergunta e resposta. Se recursos técni- clar a qualidade dos seus dadose o fio con-
cos estiverem disponiveis, vocé pode inclu- dutor da entrevista pode ficar perdido. No
sive estabelecer um didlogo em video, em transcurso da propria entrevista, vocé pode
que podever seu respondentee vice-versa. enviar uma ou duas perguntas, esperar as
Cada uma destasalternativas necessi- respostas e entao se aprofundar (como em
ta de recursos técnicos (como uma came- uma entrevista presencial), ou continuar
ra, uma conexao rdpida em banda larga, enviandoas perguntas seguintes. Se houver
etc.) de ambos os lados. Mann e Stewart um intervalo de tempo mais longo antes da
(2000, p. 129), acompanhando Baym chegadadasrespostas, vocé pode enviar um
(1995), citam cinco quest6es importantes lembrete (apos alguns dias, por exemplo).
a serem consideradas para uma interacao Bampton e Cowton (2002) percebem um
mediada por computador nas entrevistas. declinio na extensao e na qualidade das res-
Sao elas: postas, assim como umatendéncia para as
respostas chegarem mais lentamente, como
1. Qual o propésito da interacao/entrevis- um sinal de um interesse declinante por
ta? Isto vai influenciar o interesse dos parte do participante e um sinal para um
possivels participantes no quese refere encerramento da entrevista.
a se Vao ou naose envolver no estudo. As vantagens mencionadasparaas en-
2. Qual a estrutura temporal da pesquisa? trevistas on-line s40 as mesmas que para a
Os métodos utilizados sao sincrénicos pesquisa on-line em geral. Vocé pode eco-
ou assincronicos, e havera ou nado uma nomizar tempo e custos e alcancar pessoas
série de interagées na pesquisa? que estao a grandes distancias. Umavanta-
3. Quais sao as possibilidades e limita- gem adicional € 0 maior anonimato para a
cdes do software que vao influenciar a participacao, particularmente nas entrevis-
interagao? tas por e-mail. Se vocé optar por uma cha-
4. Quais sdo as caracteristicas do entre- mada em video, a anonimidade proporcio-
vistador e dos participantes? E quanto nada ao participante nao é tao grande
a sua experiéncia em relacao a tecnolo- quanto na entrevista pore-mail, onde ape-
gia e a sua atitude quanto utiliza-la? E nas as declarac6es sao trocadas comotexto.
quanto ao seu conhecimentodostépi- Ao mesmo tempo, vocé pode mais facil-
cos, escrita das habilidades, insights, mente contextualizar as declarac6es em
etc.? A interacdo individual ou a inte- contextos paralinguisticos, como nas ex-
racdo pesquisador-grupo € planejada? pressoes faciais. As desvantagens sao as du-
Houve algumaintera¢ao anterior entre vidas sobre as identidades “reais” (com
O pesquisador e o participante? Como quem euestou falando), a perda no relacio-
a estrutura do grupo€ tratada pelo pes- namento direto com os participantes e os
quisador (pela hierarquia, 0 género, a problemas na sondagem quanto as respos-
idade,a etnia, o status quo social, etc.)? tas que permanecemobscuras. Estas ulti-
5. Qual é 0 contexto externo da pesquisa mas se aplicam mais as entrevistas por e-
~— as culturas internacionais/nacionais -mail, que se aproximam mais da situa¢ao
e/ou as comunidades significativas do preenchimento de um questionario (ver
estao envolvidas? Como realizar suas Salmons, 2010, para mais detalhes dopla-
praticas comunicativasfora da influén- nejamento e da realizacao de entrevistas on-
cia de pesquisa destas ultimas? -line de maneira sincrOnica).
170 Uwe Flick

municacado que deverao existir entre os par-


Gruposfocais on-line
ticipantes (p. ex., “por favor, seja educado
Tem havido uminteresse particular nos comtodos”) e assim por diante (ver 2000, Dp.
gruposfocais on-line. Mais uma vez, pode- 108 para um exemplo). O pesquisador deve
mos distinguir entre grupos sincrénicos — assim como com qualquer outro grupo
(ou em tempo real) e assincrénicos (nao focal — criar um ambiente relaxado.
em temporeal). O primeiro tipo de grupo As vantagens derealizar grupos focais
focal on-line requer que todos os partici- on-line sao que vocé pode economizar tempo
pantes estejam conectados ao mesmo tem- e custos, pois nao tera que resumir seu grupo
po. Eles podem participar via sala de bate- no mesmo tempo e lugar e economizara em
-papo ou usando um software especifico custos de transcri¢gao se os dadosja chega-
para conferéncia. Esta ultima op¢ao requer rem na formadigital. Outras vantagens sao
que todos os participantes tenham este que ha um maior grau de anonimatopara os
programa em seus computadores ou que participantes e que a dinamica de grupode-
este lhes seja proporcionado. Além dos sempenha um papel menor em comparacao
problemas técnicos que isto pode causar, com os grupos focais no mundoreal: aqui, é
muitas pessoas podem hesitar em receber e menos provavel que os participantes domi-
instalar programas com0 proposito de par- nem o grupo ou inibam outra contribuicdo
ticipar de um estudo. Os gruposfocais as- dos participantes.
sincrOnicos nao requerem que todosos par- Ao mesmo tempo, ha desvantagens,
ticipantes estejam conectados ao mesmo Um grupo assincrénico pode demorar um
tempo (e isto previne os problemas de co- longo tempo para responder. As contribui-
ordenacao). ¢des também podem “vir tarde”: a discus-
Para que os gruposfocais on-line fun- sao pode ja ter progredido quando, apdés
cionem, 0 pronto acesso aos participantesé algum tempo, os respondentes se referem a
necessario. Mann e Stewart (2000, p. 103-5) um estado anterior da discussao. A tendén-
descrevem com algunsdetalhes 0 programa Cla para a nao resposta podeser mais eleva-
que vocé podeutilizar para montar grupos da do que nas entrevistas presenciais. As
focais sincrénicos (“software de conferén- exigéncias e os problemas técnicos (p. ex.,
cia’). Eles também descrevem asalternati- dificuldades de conexaéo) podem influen-
vas de como criar sites e como estes podem ciar a qualidade dos dados e também 0 pro-
facilitar o acesso daqueles que se deseja que cesso de umadiscussao assincrénica.
participem e excluir outros aos que nao se
deseja dar acesso. Os autores também dis-
cutem como os conceitos de naturalidade e
neutralidade relacionados ao local de en- iv Etnografia virtual
contro de um grupofocal também seapli-
cam on-line. Por exemplo, é importante que Se vocé transferir os métodos de pesquisa
Os participantes possam participar das dis- de levantamento ou as entrevistas indivi-
cussOes a partir de seus computadores em duais e de grupo para a pesquisa on-line,
casa ou em seulocal de trabalho, em vez de vocé recorre 4 internet como um local ou
partindo de um site especifico de pesquisa. como uma ferramenta por meio daquales-
Para comegar, € importante criar uma men- tudar pessoasas quais vocé nao teria acesso
sagem de boas-vindas que convide osparti- de outra forma (para estas trés perspectivas,
cipantes, explique os procedimentos e 0 que ver Markham, 2004). Nestes casos, vocé
é esperado deles, e descrevaas regras de co- pode estudar a internet como uma forma
Introdugao a metodologia de pesquisa 171

de meio ou cultura em que as pessoas de- para observar o que eles fazem on-line e
senvolvem formas especificas de comunica- tambémo que eles dizem que fazem”(Ken-
cao ou, as vezes, identidadesespecificas. Isto dall, 1999, p. 62). O Quadro 9.2 apresenta
requer uma transferéncia dos métodoset- um estudo de caso da etnografia on-line.
nograficos para a pesquisa na internet e Emgeral, o interesse na realizagao de
para estudar os modos de comunicacao e de etnografias da internet — também chama-
autoapresentacao na rede: “Conseguir um das “netnografias” (Kozinets, 2010) — esta
entendimento da percep¢ao de si dos parti- aumentando. Estruturas de entrevistas sao
cipantes e dos significados que eles atri- usadas com frequéncia, em oposicéo a
buema sua participa¢ao on-line requer des- métodos etnograficos no senso estrito do
pender algum tempo com osparticipantes termo.

Quadro 9.2

ESTUDO DE CASO: ETNOGRAFIA VIRTUAL

Em seu estudo, Hine (2000) tomou como ponto de partida um julgamento amplamente discu-
tido (o caso de Louise Woodward — uma baba britanica processada pela morte de uma crianga
pela qual ela era responsavel em Boston). Ela queria descobrir como este caso foi construido
na internet, analisando as paginas relacionadas a esta questao. Ela também entrevistou por
e-mail escritores da internet sobre suas intencdes e experiéncias e analisou as discussdes em
grupos de discussao em que foram postadas 10 ou mais intervencoes referentes aos casos. Ela
usou 0 www.dejanews.com’ para encontrar os grupos de discussao. Neste site, todas as posta-
gens dos grupos de discussao sao armazenadas e podem ser recuperadas usando-se palavras-
-chave. Sua busca se limitou a um més em 1998.
Hine postou uma mensagem para varios dos grupos de discussao que haviam tratado mais
intensivamente da questdao. Entretanto, as respostas foram muito limitadas, como outros pes-
quisadores obviamente apontaram repetidamente (2000, p. 79). Hine tambem montou sua pro-
pria pagina na internet e a mencionou enquanto entrava em contato com os potenciais partici-
pantes ou enviava mensagens sobre a sua pesquisa. Ela fez isto para torna-la e a sua pesquisa
transparentes para os potenciais participantes.
Resumindo seus resultados, ela declarou que:
A etnografia constituida por minhas experiéncias, meus materiais e os escritos que
produzo sobre o topico é definitivamente incompleta... Em particular, a etnografia e
parcial em relagao a sua escolha de aplicagoes particulares da internet ao estudo.
Comecei a estudar “a internet” sem ter tomado uma decisao especifica com relagao a
que aplicacées eu pretendia estudar em detalhes. (2002, p. 80)

Nao obstante, Hine produziu resultados interessantes sobre como as pessoas lidam com a
questao da internet. Suas ideias e discussdes sobre a etnografia virtual sao muito instrutivas
para além do seu estudo. No entanto, elas também mostram as limitagdes de transferéncia da
etnografia — ou, de maneira mais geral, da pesquisa qualitativa — para a pesquisa on-line, como
ilustra o comentario critico de Bryman: “Estudos como estes estao claramente nos convidando
a considerar a natureza da internet como um dominio a ser investigado, mas também nos con-
vidam a considerar a natureza e a capacidade de adaptagao dos nossos métodos de pesquisa”
(2008, p. 636).

"'N. de R.T.: Famososite de arquivos de newsgroup — grupos publicos de debate e ajudanainternet.


172 UweFlick

métodos qualitativos para um estudo desse


[¥% Analise de documentos tipo — como uma abordagem hermenéutica
e interacoes da internet ou uma analise qualitativa de contetdo,
abordar estes objetos com métodos quanti-
Bergmann e Meier (2004) vao um passo tativos como analise de contetdoou anali-
além. Partindo de uma conversa analitica, sar as frequéncias com que eles sao tratados
eles sugerem a andlise das partes formais da ou usados.
interacdo narede. A andlise da conversa esta Uma caracteristica especifica das pagi-
interessada nas ferramentas linguisticas e nas de internet é a intertextualidade dos do-
interativas (como as tomadas da palavra, cumentos na rede, organizada e simbolizada
reparos, aberturas de fechamentos: ver Ca- por links (eletrénicos) de um texto (em uma
pitulo 8) que as pessoasutilizam quandose pagina) para outrostextos. Este tipo derefe-
comunicam sobre uma questao. De um réncia cruzada vai além da definicao e dos
modosimilar, os autores sugerem que vocé limites tradicionais de um texto e vincula
identifique os vestigios que a comunica¢ao um grande numero de paginas (ou textos)
on-line deixa para o entendimento de como isolados a um grande(e as vezes infinito)
a comunicacaéo € praticamente produzida texto. Muitas paginas sao constantemente
na web. Por isso, elas usam os dadosdopro- atualizadas, modificadas, desaparecendo e
cesso eletrénico, ou seja, “todos os dados reaparecendo na web. E necessario,porisso,
que sao gerados no decorrer dos processos sempre mencionar a data em que vocéaces-
de comunicac¢ao e atividades de trabalho sou a pagina quandosereferir a ela como
auxiliados pelo computador — quer auto- uma fonte. Como acontece com outrasfor-
maticamente, quer tendo por base 0s ajus- mas de analisar documentos como meios de
tamentos feitos pelo usuario”(2004, p. 244). interacao, vocé deve perguntar: quem pro-
Estes dados nao estao simplesmente pron- duziu estas paginas, para quem e com que
tos para serem manuseados: em vez disso, inten¢gdes? Que meios foram utilizados para
devem ser reconstruidos tendo por base atingir estes objetivos?
uma documentacao detalhada e continua
do que esta acontecendonatela (e, se possi-
vel, diante dela), por exemplo, quandoal- [vf Pesquisa on-line hoje:
guém envia um e-mail. Isto inclui os co-
mentarios do remetente quando esta uso da Internet 2.0
digitando um e-mail, além de aspectos pa-
ralinguisticos como risos, etc. E importante As abordagens mencionadasaté agora fo-
documentar a estrutura temporal da comu- ram possibilitadas pelo desenvolvimento da
nicag¢ao mediada por computador. Aqui internet nas duas Ultimas décadas. Mais re-
vocé pode usar um software especial (como centemente, de cerca de 2005 em diante,
o Lotus ScreenCam), que permite a filma- uma série de novos desenvolvimentos mu-
gem do que esta acontecendo na tela do dou novamente as formas de comunica¢ao
computador juntamente com registro da na rede. Em conjunto, eles sao em geralre-
interagao diante da tela com video, por feridos como a “Internet 2.0”. Novas formas
exemplo. de comunicagao (os blogs, por exemplo) &
Do mesmo modo,vocé utilizar as pa- os sites de rede social (como Facebook,You-
ginas da internet como um meio deintera- Tube ou Twitter) tornaram-se publicos ¢
¢4o on-line e analisa-las por seu contetido e amplamente usados.
pelos meios quesaoutilizados para a comu- Mais uma vez, estes desenvolvimentos
nica¢ao destes conteudos. Vocé pode usar podem ser um temapara a pesquisa (quem
Introdugdo a metodologia de pesquisa 173

os utiliza e para que propositos?). Eles po- informagoes é uma questao fundamental.
dem tambémser usados comoinstrumen- Isto envolve:
tos para a realizacao de pesquisas, em con-
junto com outros desenvolvimentos da a) recuperar informacées (publicacdes, por
Internet 2.0. Umestudo recente (RIN 2010) exemplo);
concentrou-se no uso das ferramentas desta b) tornar as informacées acessiveis (com-
para propositos de pesquisa e sobre quem ja partilhamento de dados, conjuntos de
as esta utilizando e a que desenvolvimentos dadospublicos, etc.); e
elas vao conduzir. c) divulgar pesquisas (resultados, relaté-
rios, etc.).

O que é a Internet 2.0? Por isso, a questao principal é saber


como esta nova midia é usada para organi-
A definicao a seguir destaca 0 que é caracte- zar e facilitar a comunicacgaéo académica.
ristico na Internet 2.0 e o que a tornarele- Vocé pode usar esta midia para a pesquisa
vante para propositos de pesquisa: colaborativa por meio do compartilhamen-
to dos seus dados e experiéncias com outros
A Internet 2.0 engloba umadiversidade pesquisadores. Assim, vocé pode trabalhar
de diferentes significados que incluem com os mesmos conjuntos de dados com
uma énfase aumentada no conteudo ge- outras pessoas, usar blogs para este proposi-
rado pelo usuario, nos dados e no con- to e tornar publicos seus resultados neste
tetido compartilhado e no esforco cola- contexto.
borativo, juntamente com o uso deva-
A variedade dos desenvolvimentos
rios tipos de software sociais, novas
esta evidente no que foi estudado na pes-
maneirasdeinteragir com 0saplicativos
quisa mencionada:
baseados na rede, e no uso dela como
umaplataformaparagerar, redirecionar
e consumir conteudo. (Anderson, 2007, Incluimos formas comuns como blogs
citado em RIN 2010,p. 14) e wikis, servicos genéricos amplamente
adotados como compartilhamento de
Uma caracteristica fundamental da videos, marca¢ao ou compartilhamen-
to de referéncias e sistemas de rede so-
maneira como a comunicacao e a producao
cial oferecidos por provedores comer-
do conhecimentosao organizadas:
ciais. Além disso, investigamosservi¢os
proporcionadospor agentes comoedi-
Os servicos da Internet 2.0 enfatizam a
tores e bibliotecas, alguns editores e
geracao descentralizada e coletiva, a
agregados de acesso individual aberto,
avaliacdo e a organizacao das informa-
juntamente com mais algumas ferra-
c6es, frequentemente com novas for-
mentas especializadas para fluxos de
mas de intermediagao tecnoldgica.
trabalho ou comunidades de pesquisa
(2010, p. 14) especificos. (2010, p. 14)

Exemplos da aplicacao destas formas


Como vocé pode fazer uso da de comunicag¢ao sao usar e contribuir para
Internet 2.0 para realizar a sua wikis publicos (o mais conhecido podeser a
propria pesquisa? Wikipedia, mas ha outros exemplos), ou
para wikis privados estabelecidos para um
Para usar esta abordagem no contexto da proposito especifico. Outras formassao es-
pesquisa social, o compartilhamento das crever blogs ou comentarios neles de forma
174 UweFlick

a postar publicamente apresentacoes, slides, forte tendéncia para repdsitorios de acesso


imagens ouvideos. Estas formas podemser aberto disponibilizandoa literatura on-line e
usadas paratrabalhar em equipes colabora- gratuitamente (p. ex., Social Science Open
tivas em umainstituigdéo ou emvarias insti- Acess Repository in http://www.ssoar.info/),
tuicdes (ver também http://www.oll.ox.ac. Estes desenvolvimentos vao modificar
uk/microsites/oess/ para mais informagoes a pesquisa social em umfuturo proximo ao
nesta area em geral). facilitar a criacéo de novas formas decola-
boracao, de recuperacao de informacées e
de publicagao de resultadose relatorios.
Comunicagao sobre a sua pesquisa

Umaquestao importante neste contexto € 0 [Lista de verificacgao


uso de software de acesso aberto, e ainda
mais o uso de publicac6es on-line de acesso
para o projeto de
aberto para as proprias publicacées dos au- pesquisa social on-line
tores, para a busca das publicacgées existentes
€ para comentarios sobre as publicagées de Quando vocé realiza seu projeto de pesqui-
outros autores. Ha também servicos comer- sa na internet, deve considerar as questées
ciais como o SlideShare (www.slideshare. listadas no Quadro 9.3. Estas quest6es po-
net), em que apresentac6ées de slides podem dem ser Uteis para a realizacao do seu pro-
ser tornadas publicas como uma maneira prio estudo on-line, mas também paraava-
mais informal de comunicagao sobre a pes- liar os estudos deste tipo feitos por outros
quisa e os achados. E, finalmente, ha uma pesquisadores.

Quadro 9.3 FT ONERPTReT

LISTA DE VERIFICACAO PARA 0 PROJETO DE PESQUISA SOCIAL ON-LINE

1. Por que vocé quer realizar sua pesquisa on-line em vez de in loco?
2. Seu grupo-alvo €é uma populac¢ao especificamenteligada a internet, motivo pelo qual se faz
necessario um estudo on-line?
3. Sua populagao-alvo tem provavelmente o acesso a internet requerido para participar do
seu estudo?
4. As vantagens de aplicar os seus métodos on-line superam as desvantagens?
5. Vocé possui as habilidades necessarias com computador para criar os seus instrumentos
i de pesquisa e para administrar 0 seu projeto on-line?
. Qual € o potencial da comunicagao da Internet 2.0 para a realizagdo da sua pesquisa?
Introdug4o 4 metodologia de pesquisa 175

v Pesquisa de levantamento, entrevistas, observagao e pesquisa documental so os principais métodos


na pesquisa social que foram transferidos para a pesquisa on-line.
v Apesquisa on-line requer conhecimento de computacao e da internet por parte dos pesquisadores,
mas também por parte dos potenciais participantes.
v As questdes de amostragem sao duplicadas aqui: que inferéncias vocé pode fazer da amostra da sua
pesquisa on-line para (a) as populagdes no mundo virtual e (b) as populagdes do mundo real?
v Pode ser dificil preservar as caracteristicas especificas de um método quando ele é usado on-line
— por exemplo, impedir que uma entrevista por e-mai/ se torne um questionario por e-mail.
v Para analisar a comunicagao on-line como um topico de pesquisa, os métodos precisam ser mais
desenvolvidos.
v¥ Novas formas de comunicagao on-line dao suporte e modificam a maneira de realizar e publicar
pesquisa.

[“/ Leituras adicionais Hewson, C., Yule, P., Laurent, D. e Vogel, C. (2003)
Internet Research Methods: A Practical Guide for
the Social and Behavioral Sciences. London: Sage.
Os cinco textos listados a seguir proporcio- RIN (2010) “If You Build It, Will They Come?
nam uma sintese util da pesquisa on-line. How Researchers Perceive and Use Web 2.0”,
http://www. rin.ac.uk/our-work/communicating-
Flick U. (2009) Introducao a Pesquisa Qualitativa, -and-disseminating-research/use-and-relevance-
3. ed. Porto Alegre, Artmed. Capitulo9. -web-20-researchers (acesso em 21 ago. 2010).
Gaiser, T.J. e Schreiner, A.E. (2009). A Guide to Salmons,J. (2010) Online Interviews in Real Time.
Conducting Online Research. London:Sage. London: Sage.
“ 10
Pesquisa social integrada:
combinacao de diferentes
abordagens de pesquisa

VISAO GERAL DO CAPITULO

Limites da PESQUISA QUANTITATIVE... cc ccccsssesssscsesssscsesececsesesessesessesucseseesssussssssesessesssarsesscsesssarsssssacsssessees 178


Limites da Pe@SQUISA QUANITAtIVA oo. c i ccscccscecscscseessestsssssssssseatsssscessavavssssssssssessesesssssnsesesceusesveveteetesses 180
Combinagao de diferentes abordagens.........cccccccesscsccsessesssssessesseesesssssesavssssecesecersnessesseeavearenesarsnecaeententensens 182
THAN GUIAG GO oo... ee eeetesesessesssesssnsesvesssssesusssseasansuesesususseacsnsucsessescssscsscevevesuavsusseaucarsecevssecevsecatersesstessnsatansanseaseaeses 183
MEtOdOS MIStOS.........eeeesesecseseeesessessssssssuessessasaveassutsessssancsussesscssnssessssssavesssecsvsscsncsusatsessssassnenesssssesssaeescesesneaeesees 185
Pesquisa SOCial INteGrada oe cccesestssesescssssesesnesesesnencsesessescssesescssssssucscsessesesscersseessserssscessssssscassesseeseecs 186
A pesquisa on-line Como estratégia COMPIOMENTAL...........cccccscessesessessssecsesecsessessesteseassscsseessanssseseeecseeneeseaes 188
O pragmatismo e€ 0 tema COMO PONTOS de refErENCla 0... ec eececcssessseesesececsessesescesescstesestsssseseateeeesseeneens 188
Pesquisa Social integrada © SEUS IIMITES eee ececsessesessessestesecsscessesnesscsecnecsesecsesusetesecueseseesessesseeeseteatenees 189
Lista de verificagao para a concepcao de combinagdes de MetodOS.....0.... ee eeesseceeseseseeseetesessteseenenee 190

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


entender os limites da pesquisa social;
KNANRN

avaliar os argumentos para combinar varios procedimentos em um projeto de pesquisa,


entender o conceito de triangula¢ao,;
entender a ideia da pesquisa social integrada;
perceber que combinar métodos pode ser produtivo se vocé utiliza-los para coletar ou analisar
os dados em diferentes niveis.
178 UweFlick

Tabela 10.1 NAVEGADOR PARA 0 CAPITULO 10

Orientagao * O que é pesquisa social?


e Questao central de pesquisa
e Revisao da literatura

Planejamento e e Planejamento da pesquisa


concepgao e Concepgao da pesquisa
e Decisao sobre os métodos

Trabalhando Coleta de dados


com dados Analise dos dados
Vocé esta aqui Pesquisa on-line
no seu projeto Pesquisa integrada
v

Reflexao e escrita Avaliacao da pesquisa


e Etica
e Aescrita e o uso da pesquisa

Apesar de todo o valor da pesquisa social, vocé vai descobrir que surgem vieses na
deve-se reconhecer queela tem seuslimites. amostra. Por exemplo, vocé pode achar que
Nao se pode estudar tudo — por razoes éti- nao consegue alcanc¢ar alguns dos poten-
cas (ver Capitulo 12), metodoldgicas e as clais participantes: eles podem ter se muda-
vezes praticas. Os projetos de pesquisa limi- do para outro lugar ou morrido, por exem-
tados a métodos isolados sao particular- plo, ou podemserecusar a participar do seu
mente limitados. Este capitulo destina-se estudo. Em particular, o numero crescente
tanto a tornar mais claras estas limitacdes de pesquisas por telefone no contexto da
quanto a lhe mostrar como o uso de uma pesquisa de mercado poderesultar em re-
combinagao de métodos pode ampliar a ex- sisténcia por parte dos potenciais partici-
tensao do que é possivel na pesquisa. pantes. As vezes, um aumento nosrecursos
para uma determinada area de pesquisare-
sulta em uma abordagem excessivamente
iv Limites da pesquisa frequente dos participantes, que se tornam,
por isso, esquivos. Comoresultante, obter
quantitativa uma amostra representativa pode exigir um
esforco consideravel.
Vamos primeiro considerar as principaisli-
mitagdes da pesquisa padronizada.
Limites das pesquisas de
levantamento padronizadas
Limites da representatividade
As pesquisas de levantamento padronizadas
Para garantir que os estudos sejam repre- destinam-se a coletar opinides sobre as ques-
sentativos, os pesquisadores precisam ex- toes em estudo, independentementedasitu-
trair amostras apropriadas. Masfalar disto é acao em queos dadossao coletados e do en-
mais facil do que fazer. Em muitos casos, trevistador. Esse é 0 objetivo, nao importa se
Introdugdo a metodologia de pesquisa 179

vocé esta usando questiondrios a serem com- Limites da analise de


pletadospelo participante ou entrevistas pa-
conteudo qualitativa
dronizadas com umcatalogo de perguntas a
serem formuladas por um_ entrevistador. AS analises de contetdosao apenas tao boas
Aindasim, ha dificuldades comestes méto- quanto os documentos que vocé estuda
dos. As caracteristicas dos entrevistados — com elas. Além disso, é dificil desenvolver
por exemplo, sua idade ou género — podem um sistema de categorias que até certo
influenciar a maneira como eles abordamas ponto nao dependadainterpretacao do co-
questOes em umasituagaode entrevista (ver dificador. Os significados subjacentes ou la-
Bryman, 2008, p. 2010-11). As respostas tentes sao muito dificeis de captar mediante
podem ser influenciadas por ideias sobre a analise de conteudo: essa andlise, em geral,
conveniéncia social: os entrevistados podem permanece em um nivel superficial. Tam-
perguntar a si mesmos “Que resposta espe- bém é€ dificil identificar as razGes que estao
ram de mim? Que opiniaoeuprefiro nao ex- por tras de algumas declaracoes. Finalmen-
pressar?” Outro problemaé que os entrevis- te, este método temsido criticado por sua
tados podem respondera todas as perguntas auséncia de referéncia tedrica (sobre isto,
com respostas consistentemente positivas ver Bryman, 2008, p. 291).
(ou consistentemente negativas).
Alémdisso, ha o problema de que os
entrevistados podem interpretar as pergun-
tas diferentemente um do outro. Por exem- Limites na analise de
plo, sera que vocé pode assumir que todos dados secundarios
que tenham marcado “concordo completa-
mente” em umaresposta a tenham entendi- A principal limitagao dos dados secunda-
do da mesma maneira que todos os outros rios (estatisticos ou de rotina) é que os pes-
que deram a mesma resposta,e que esta res- quisadores podem estar apenas parcial-
posta representa a mesmaatitude em todos mente familiarizados com os dados. Vocé
os casos? O entrevistado e o entrevistador podeficar desafiado em demasia pela com-
compartilham o mesmo significado das pa- plexidade dos dados (seu volume,sua estru-
lavras na pergunta? Ambas seriam uma pre- tura interna, etc.). Além disso, vai ter pouco
condic¢ao para resumir respostas idénticas controle sobre a qualidade dos dados(até
sob a mesma categoria. que pontoera exata a documentagao naes-
tatistica, quem conduziu a controle de erros
ou o esclarecimento dos dados, e como?).
Limites da observacao estruturada Ademais, as vezes podemestar faltando en-
tradas ou valores importantes para a sua
Para a observacao estruturada que usa um questao de pesquisa (2008, p. 300). Em
esquema de observacao oudiretrizes com muitos casos, sera impossivel vocé voltar
categorias pré-definidas, ha também limita- aos dadosbrutos, pois os dadossao acessi-
¢des. Tais instrumentos podemforcar uma veis apenas na forma agregada (sumarios,
estrutura inapropriada ouirrelevante ao ce- calculos, distribuicdes). Se vocé usa estatis-
nario que vocé observa. A observag¢ao estru- ticas oficiais como dados, vai precisar se as-
turada documenta mais os comportamen- segurar que os rotulos de categoria nao
tos do que as intengdes subjacentes, em sejam enganosos e que as suas definicdes
geral prestando pouca aten¢ao ao seu con- sdo as mesmas que aquelas usadasna coleta
texto (2008, p. 269). de dados.
180 UweFlick

Limites da pesquisa padronizada dade, o escopo do material que vocé de-


pois analisa e a generalizabilidade dos seus
A pesquisa padronizada tem a vantagem de resultados podem permanecer muito li-
trabalhar com umgrande numero de casos mitados.
e ter umabase de dados claramente estrutu-
rada. Por isso, frequentemente proporciona
resultados representativos. O preco disto, Limites da entrevista
entretanto, é que a coleta e a anialise dos
dados tém que ser fortemente estruturadas Quando vocé utiliza quest6es previamente
e focadas de antemao. O escopo para novos preparadas comoa base das suasentrevis-
aspectos, para as experiéncias especificas tas, ha um risco de que elas possam omitir
dos participantes individuaise para se levar pontos que sao na verdadeessenciais para
em conta contextos concretos na coleta de os entrevistados. Entretanto, em compara-
dados permanece muito limitado. Os dados cao com os estudos de questionario, isto
disponiveis para a anialise sao entao signifi- pode se tornar mais facilmente um proble-
cativamente reduzidos na sua diversidade e ma, mas pode também ser reparado mais
riqueza devido a maneira como saocoleta- facilmente. Apesar do uso de umaprogra-
dos (p. ex., os participantes podem estar li- macao da entrevista, vocé s6 sera capaz de
mitados a cinco respostas alternativas). As prever de maneira relativamente limitada o
visOes subjetivas que fiquem de fora da que vai acontecer em suas entrevistas. Isto
gama prevista quando vocé concebeu seus também se refere a até que pontoassitua-
instrumentosserao dificeis de manejar. Isto ¢Oes em suas entrevistas serao comparaveis
pode limitar 0 que vocé conseguira estudar entre si. A flexibilidade na realizacao da en-
por meio de métodos padronizados. trevista permite mais sensibilidade em rela-
¢ao ao entrevistado, mas ao mesmo tempo
reduz a comparabilidade dos dadoscoleta-
[¥/ Limites da dos. As narrativas sao mais orientadas para
o caso isolado quando vocé coleta seus
pesquisa qualitativa dados. Por isso, o caminho doentrevistado
isolado para as declarac6es (teoricamente)
A pesquisa qualitativa também tem suasli- generalizadas é ainda mais longo. A quali-
mita¢6es, como descrito em seguida. dade dos seus dados vai depender muito do
seu “sucesso”na situacao daentrevista: vocé
conseguefazer a mediacao entre o que 0 en-
Limites da amostragem teodrica trevistado menciona e as suas perguntas, ou
iniciar narrativas que incluam os aspectos
Se vocé usa a amostragem teOrica, vai adaptar, relevantes para o seu estudo? Em qualquer
na medida do possivel, a selecdo do material caso, os dados serao limitados aosrelatos
as lacunas existentes no conhecimento. Os sobre um evento ou uma atividadee naolhe
casos adicionais sao entao selecionadosse- daraoacesso direto eles.
gundo aqueles aspectos da questao da pes-
quisa que a analise nao respondeuaté entao.
O problema aqui € que nem 0 inicio nem o Limites da observagaoparticipativa
fim da selecao do material podemserdefi-
nidos e planejados previamente. A menos O pontoforte da observacao participativa ¢
que vocé possa aplicar esta estratégia com que, como observador, vocé esteja realmente
muita sensibilidade, experiéncia e flexibili- envolvido nos eventos. Devido a suapartici-
Introdugdo a metodologia de pesquisa 181

pagao, vocé tera insights sobre a perspectiva derivadas externamente ou de teorias do


interna do local. Como acontece em outras que do proprio material pode direcionar o
formas de observac¢ao, a observacao partici- foco dos pesquisadores mais para o conteu-
pativa tem acesso apenas ao que acontece do do que para a exploracao dossignifica-
durante o tempo em que os pesquisadores dos e para a profundidadedotexto. A inter-
participam e observam. O que aconteceu pretacao do texto mediante métodosanali-
antes ou além dolocal ou das situagdes con- ticos, como a hermenéutica objetiva ou a
cretas permanece fechado a observagao e sé analise da teoria fundamentada, s6 desem-
pode ser coberto mediante conversas com o penha um papel importante na analise qua-
grau de formalidade adequado. A proximi- litativa de contetido de uma maneirasiste-
dade do que € estudado é, ao mesmo tempo, matica — na analise explicativa do conteudo
o ponto forte e o ponto fraco do método. Em (como descrito no Capitulo 8). Outro pro-
muitosrelatos (p. ex., Sprenger, 1989), é evi- blema é que na anilise qualitativa de conte-
dente que a situacao da pesquisa podeopri- udo se trabalha frequentemente com para-
mir os pesquisadores; seu distanciamento da frases: estas podem ser uteis para explicar o
situacao OU as pessoas que sao observadas material original, mas causam problemasse
estao entao sob risco. Ao mesmotempo,ha a usadas no lugar do material original para a
questao de como assitua¢6es — e 0 acesso a analise de conteudo.
elas — sao selecionadas. Nds podemosper-
guntar: até que ponto os periodos em que
vocé realiza suas observac6es lhe permitem Limites das analises
obter os insights que vocé busca? Suas obser- qualitativas dos documentos
vacoes realmente elucidam a questao que
vocé esta pesquisando e mostram a suarele- A vantagem dos documentos é que eles com
vancia para 0 campo? frequéncia ja estao disponiveis, pois foram
produzidospara outros propositos além da
pesquisa. As instituigdes produzem regis-
Limites da analise tros, notas, declaracdes e outros documen-
de contetdo qualitativa tos que vocé pode usar para a sua pesquisa.
No entanto, mais uma vez vocé enfrenta o
Em comparacao com a analise de conteudo problemade nao poder influenciar na qua-
quantitativa, havera na pesquisa qualitativa lidade dos dados (producao). Os documen-
uma consideracao mais forte do contexto e tos podemter outros pontos de foco e con-
do significado dos textos. Comparada com teudos diferentes daqueles requeridos para
outras abordagensinterpretativas ou her- responder as suas questdes da pesquisa. As
menéuticas, sera obtida uma analise muito vezes os documentosnao foram produzidos
mais baseada em regras e em pragmatismo. de uma forma suficientemente sistematica
Com frequéncia,as regras que sao formula- para permitir sua compara¢ao entre as ins-
das para uma analise de contetido sao tao tituicdes. Finalmente, podem surgirproble-
exigentes na sua aplicacao quanto outros mas de acesso a documentosespecificos.
métodos. A necessidade de interpretar o
texto durante suaclassificagao podedificul-
tar a manutengao da clareza do procedi-
mento, o que coloca mais uma vez em pers- Limites da pesquisa nao padronizada
pectiva a prometida clareza de procedimen-
to do métodoe desuasregras. A categoriza- A pesquisa qualitativa tambémtemlimita-
¢ao do material que emprega mais categorias cdes importantes. As proprias abertura, fle-
182 UweFlick

xibilidade e riqueza dela podem dificultar 1. A légica da triangulacao significa che-


comparacées entre os dados oua visao do car os achadosqualitativos em compa-
quadro amplo — o pesquisador fica perdido racao com osresultados quantitativos,
nos detalhes. 2. A pesquisa qualitativa pode apoiar a
A pesquisa qualitativa também pode pesquisa quantitativa.
invadir mais as vidas e as esferas privadas 3. A pesquisa quantitativa pode apoiar a
dos participantes do que a pesquisa padro- pesquisa qualitativa.
nizada. Por exemplo, se uma doen¢a condu- 4. A integracao pode proporcionar um
ziu a uma situacdo estressante na vida de quadro mais geral da questao em estu-
umapessoa, podeser mais facil responder a do.
algumas perguntas em um questionario do 5. As caracteristicas estruturais sao anali-
que contar em uma entrevista narrativa sadas com métodos quantitativos, e os
todo o processo de adoecimento. aspectos processuais, com abordagens
Em geral, podemosver poresta sintese qualitativas.
acerca das limita¢des tipicas associadas aos 6. A perspectiva dos pesquisadoresdire-
métodos de pesquisa isolados que tanto a ciona as abordagens quantitativas, en-
pesquisa qualitativa quanto a padronizada quanto a pesquisa qualitativa enfatiza
tém seus limites. Podemos agora considerar os pontosdevista dos participantes.
se estes limites podem ser superados por 7. O problema da_ generalizabilidade
meio da combinacao de diferentes métodos. podeser resolvido para a pesquisa qua-
litativa por meio da adicao de achados
quantitativos.
'¥¥ Combinacao de 8. Os achados qualitativos podem facili-
tar a interpretacao dos relacionamen-
diferentes abordagens tos entre as variaveis em conjuntos de
dados quantitativos.
Nofinal do Capitulo 6, foi destacada a im- 9. O relacionamento entre os niveis
portancia de se decidir entre a pesquisa micro e macro na area que esta sendo
qualitativa e a quantitativa. Entretanto, para estudada pode ser esclarecido combi-
muitos problemas de pesquisa uma decisado nando-se as pesquisas qualitativa e
pode conduzir a um estreitamento dapers- quantitativa.
pectiva na questao em estudo. O numero de 10. O uso da pesquisa qualitativa ou da
problemas de pesquisa que requerem uma pesquisa quantitativa pode ser apro-
combinacgao de abordagens qualitativas e priado em diferentes estagios do pro-
quantitativas, e por isso de varias perspecti- cesso da pesquisa.
vas sobre 0 que é estudado,esta aumentan- 11. Formas hibridas podem usar a pesqul-
do. Por isso, vamos considerar abordagens sa qualitativa em concepcoes quase-ex-
para: perimentais (ver Bryman, 1992, p. 59-
61).
a) combinar os métodos dentro da pesquisa
qualitativa ou quantitativa; Em geral, esta classificacao inclul uma
b) combinar a pesquisa qualitativa e quan- ampla série de variantes. Os itens 5, 6 € 7
titativa dentro do mesmo estudo. baseiam-se na ideia de que a pesquisa qua-
litativa capta aspectos diferentes daqueles
Bryman (1988; 1992) identificou 11 captados pela pesquisa quantitativa. As
maneiras de se integrar as duas formas de consideracdes tedricas nao sao muito proe-
pesquisa: minentes na lista das 11 variantes que Bry-
Introdugdo 4 metodologia de pesquisa 183

man identifica, pois o foco esta mais volta- res Ou entrevistadores para equilibrar as
do para a pragmatica da pesquisa. influéncias subjetivas dos individuos.
e A triangulagdo das teorias significa “abor-
dar os dados tendo em mente perspecti-
[MW Triangulacao vas e hipdteses multiplas [...] Varios
pontosde vista tedricos podemser colo-
cadosladoa lado para avaliar sua utilida-
Nas ciéncias socials, triangulacao significa
de e seu poder” (1970, p. 297).
encarar um tema de pesquisa a partir de
e Oconceito central de Denzin é triangu-
pelo menos duasperspectivasprivilegiadas.
lac¢ao metodoldgica “dentro do método”
A analise de dois ou mais pontosé realizada
(p. ex., mediante o uso de subescalasdi-
principalmente utilizando-se varias abor-
ferentes dentro de um questiondrio) e
dagens metodoldgicas. Como uma estraté-
“entre os métodos” “Para resumir, a
gia para a pesquisa empirica fundamental e
triangulacao metodolégica envolve um
seus resultados (ver Capitulo 11), a triangu-
processo complexo de colocar cada mé-
lacdo tem atraido muita aten¢ao no contex-
todo em confronto com o outro a fim de
to da pesquisa qualitativa. Em particular, a
maximizar a validade dos esforcos de
conceituacao apresentada por Denzin tem-
campo”(1970, p. 304).
-se provado popular (1970/1989). Este
autor inicialmente entendia a triangulacao A partir destas formas, podemosde-
como umaestratégia de validacao (ver Ca- senvolver a definicao de triangulacao apre-
pitulo 11), mas depois desenvolveu um sentada no Quadro 10.1.
conceito mais amplo. Como resultado,
Denzin distinguiu quatro formas de trian-
gulacao: A triangulagao na
pesquisa qualitativa
e A triangulacao dos dados combina dados
extraidos de fontes diferentes e em mo- A triangulacao pode envolver a combinacao
mentos diferentes, em locais diferentes de diferentes abordagens qualitativas. O
ou de pessoasdiferentes. caso apresentado no Quadro 10.2 ilustra a
e A triangulagdo do investigador é caracte- definicao de triangulacao apresentada no
rizada pelo uso de diferentes observado- Quadro 10.1.

Quadro 10.1 TNS ERTORRPORNHEEA


NE

DEFINICAO DE TRIANGULACAO
Triangulacao significa vocé assumir diferentes perspectivas sobre um tema que vocé esteja
estudando ou no responder as suas questdes de pesquisa. Estas perspectivas podem ser fun-
damentadas mediante o uso de varios métodos ou varias abordagens tedricas. Alem disso, a
triangulacdo pode se referir 4 combinagao de diferentes tipos de dados no pano de fundo das
perspectivas tedricas que vocé aplica aos dados. Na medida do possivel, vocé deve tratar estas
perspectivas em condicdes de igualdade. Ao mesmo tempo, a triangulagao (de diferentes
métodosou de tipos de dados) deve proporcionar um conhecimentoadicional. Por exemplo, a
triangulacao deve produzir conhecimento em diferentes niveis, ou seja, ela vai alem do conhe-
cimento possibilitado por uma abordagem unica e, desse modo, contribui para a promogao da
qualidade na pesquisa.
184 UweFlick

Quadro 10.2

A TRIANGULACAO NA PESQUISA QUALITATIVA: ESTUDO DE CASO


No Capitulo 2, mencionei o nosso estudo sobre a situagao dos adolescentes sem-teto com
doencas crénicas (Flick e Rohnsch, 2007/2008). Neste estudo, combinamos trés abordagens
metodologicas: (a) observacées participativas nas vidas cotidianas dos adolescentes; (b) entre-
vistas episodicas com os adolescentes sobre seus conceitos de saude e doenga e suas expe-
riéncias em relacdo ao sistema de saude; e (c) entrevistas de especialistas com assistentes
sociais e médicos sobre a situacdo da atengao a saude dos adolescentes que vivem nessas
circunstancias. Desse modo, conseguimos uma triangulagao entre os metodos e entre os dife-
rentes tipos de dados (declaragoes e observacoes). Tambem conseguimos a triangulagao den-
tro do método, pois as entrevistas episddicas combinaram duas abordagens (“quest6es” e
“estimulos narrativos”), conduzindo a dois tipos de dados (“respostas" e “narrativas”) (ver
Capitulo 7). Ao mesmo tempo, diferentes abordagens teoricas foram reunidas:

a) uma abordagem orientada para as interacoes e as praticas no grupo em observagao;


b) uma abordagem mais baseada nas teorias narrativas nas entrevistas com os adolescentes; e
c) uma abordagem concentrada no conhecimento especializado como uma forma especifica
de conhecimento nas entrevistas com especialistas.

A triangulacgao na tros. Eles podem também confirmar


pesquisa quantitativa apenas parcialmente uns aos outros e
corroborar as mesmasconclusoes. Por
Similarmente, vocé pode usar a triangula- exemplo,as declaracdes de uma pesqui-
¢a4o para combinar varias abordagens quan- sa de levantamento representativa com
titativas. Por exemplo, vocé podeusar varias questionarios padronizados podem se
subescalas em um questionario ou combi- alinhar com declarac6es de entrevistas
nar varios questionarios, ou ainda comple- semiestruturadas com uma parte da
mentar os questionarios com observacGes amostra na pesquisa de levantamento.
padronizadas. Os resultados podem se concentrar em
diferentes aspectos de uma questao(p.
ex., Os significados subjetivos de uma
doenca especifica e sua distribuicao
A triangulagao das pesquisas social na populacao), mas serem com-
qualitativa e quantitativa plementares uns aos outros e conduzi-
rem a um quadro mais amplo. Por
Finalmente, a triangulacao pode envolver a exemplo,as entrevistas podempropor-
combinacao das pesquisas qualitativa e cionar resultados que complementem
quantitativa. A triangulacao das pesquisas (mediante, digamos, aprofundamento,
qualitativa e quantitativa com frequéncia se detalhamento, explicitagao ou exten-
torna concreta no nivel dos resultados pro- sd0) os resultados obtidos dos dados
duzidos. E é neste nivel que Kelle e Erzber- do questionario.
ger (2004) se concentram na sua discussao, Os resultados podem serdivergentes ou
acerca da combinacao das duas abordagens. contraditoérios. Por exemplo, vocé rece-
Eles discutemtrés alternativas: be nas entrevistas opinides diferentes
daquelas proporcionadas pelos ques-
1. Os resultados podem convergir. Ou seja, tiondrios. Vocé pode entao tomarisso
os resultados confirmam uns aos ou- como 0 ponto de partida para outro
Introdugao a metodologia de pesquisa 185

esclarecimento tedrico ou empirico da Concepcoes de métodos mistos


divergéncia e das raz6es por tras dela.
Quando vocé usar métodos mistos em seu
Emtodasastrés alternativas surgem proprio projeto, a questao de como conce-
questdes similares. Por exemplo: até que ber um estudo com métodosdeste tipo sera
ponto vocé leva em conta a baseteérica es- mais interessante em um nivel pratico.
pecifica dos dois métodos que usou na co- Creswell (2003) distinguiu trés formas de
leta e analise de seus dados? Algumas dife- concep¢ao de métodos mistos, sendo elas:
rencas sao simplesmente o resultado do
entendimento diferente das realidades e 1. Concepcées de fase, em que os méto-
quest6es nas abordagens qualitativas e dos qualitativos e quantitativos sao
quantitativas? Deveriam as convergéncias aplicados separadamente umdooutro
mais acentuadas deixa-lo cético, em vez de (nado importa em que ordem). Essas
vé-las como uma simples confirmacao de concepgoes podem incluir duas ou
um resultado pelo outro? E, finalmente: mais fases.
até que ponto as duas abordagens e seus 2. Concepgao dominante/menos domi-
resultados sao vistos como achadosigual- nante, que esteja principalmente com-
mente relevantes e independentes, de prometida com uma das abordagens e
forma que 0 uso do conceito da triangula- use a outra de um modo apenas mar-
¢40 seja jJustificado? Até que ponto uma ginal.
das abordagens é reduzida a um papelsu- 3. Concepcées de metodologia mista, que
bordinado, como meramente tornando vinculam as duas abordagens em todas
plausiveis os resultados da outra aborda- as fases do processo da pesquisa.
gem — a mais dominante?
Para a abordagem de metodologias mis-
tas, Tashakkori e Teddlie (2003a), Creswell
(2003) e Creswell e colaboradores (2003) su-
lv) Métodos mistos geriram uma versao mais elaborada das con-
cepcdes que combinam aspesquisas qualitati-
Quandose esta vindo da direcao oposta — va e quantitativa. Creswell e colaboradores
isto €, vindo da pesquisa quantitativa — o (2003, p. 211) encaram os métodos mistos
termo “métodos mistos” tende ser preferi- como concep¢ées por exceléncia vinculados
vel a “triangulacao”. Aqueles que apoiam as as ciéncias sociais, e usam a seguinte definicao:
metodologias mistas estao interessados em
combinar pragmaticamente as pesquisas Umestudo de métodos mistos envolve a
qualitativa e quantitativa, procurando por coleta ou andlise de dados quantitati-
vos e/ou qualitativos em um unico es-
um fim as “guerras de paradigma”entre as
tudo em que os dados sejamcoletados
duas abordagens. Tashakkori e Teddlie
concomitantemente ou sequencial-
(2003b,p. ix) declaram que esta abordagem mente, recebam prioridade e envolvam
é um “terceiro movimento metodoldgico’, a integracao dos dados em umou mais
encarando a pesquisa quantitativa como o estagios no processo da_ pesquisa.
primeiro movimento; a pesquisa qualitativa (2003, p. 212)
como o segundo movimento; e a pesquisa
de métodos mistos como 0 terceiro movi- Em geral, os métodos mistos tém sido
mento — aquele que resolve todos os confli- usados cada vez mais desdeo final da déca-
tos e diferencas entre o primeiro e o segun- da de 1990 para superar as tenses entre a
do movimentos. pesquisa qualitativa e quantitativa. Aqui, é
186 Uwe Flick

escolhida uma abordagem metodologica Procedimentos da


mais pragmatica. pesquisa social integrada
1. Em umprimeiro passo, vocé deve con.

‘Pesquisa social integrada


siderar 0 quao desenvolvido esta 0 co-
nhecimento atual sobre a questo da sua
pesquisa e quais abordagens empiricas
Como veremos, 0 conceito de pesquisa inte- sao requeridas, talvez em combinacao,
grada vai um passo além dos conceitos que 2. Seguindo a abordagem dapesquisaso-
foramdiscutidosaté entao. Este conceito ba- cial integrada, vocé deve levar em
seia-se na extensao dasalternativas e aborda- conta as diferentes posicées e distin-
gens metodoldgicas descritas nestelivro. goes tedricas das abordagens quando
planejar seus procedimentos metodo-
ldgicos concretos.
Relevancia da pesquisa 3. Ao planejar um estudo na pesquisa so-
social integrada cial integrada, vocé pode tomar como
orientac¢ao as diferentes concepcéessu-
Um argumento para a pesquisa integrada geridas por Miles e Huberman(1994, p.
foi aprofundado em meados do século XX 41), comoilustrado na Figura 10.1. Na
por Barton e Lazarsfeld (1955). Os autores primeira concep¢ao, voce busca as duas
se referem a capacidade da pesquisa quali- estratégias em paralelo. Na segunda,
tativa com pequenos numerosde casos para uma estratégia (p. ex., a observacao
tornar visiveis as relacdes, causas, efeitos e continua do campodepesquisa) vai lhe
dinamicas dos processos sociais que nao proporcionar umabase. Vocé pode usar
podem ser encontrados mediante as andali- esta base para planejar as ondasde
ses estatisticas de amostras maiores. Segun- uma pesquisa de levantamento. As va-
do eles, a pesquisa qualitativa e a quantitati- rias ondasestao relacionadas a observa-
va serdo usadas em diferentes estagios de cao de onde estas ondas foram deriva-
um projeto de pesquisa. A pesquisa qualita- das e moldadas.Na terceira combina¢ao,
tiva seria principalmente usada no inicio, vocé vai comecar com um método qua-
embora possa ser também empregada sub- litativo, como, por exemplo, umaentre-
sequentemente para a interpretacao e 0 es- vista semiestruturada. Estas entrevistas
clarecimento dasanilisesestatisticas. sao seguidas por um estudo de questio-
O debate sobre as pesquisas qualitati- nario como um passo intermediario,
va OU quantitativa, que foi originalmente antes de vocé se aprofundare avaliar 0s
suscitado por pontos de vista epistemoldgi- resultados de ambos os passos em uma
cos e filosoficos (ver Becker, 1996 ou Bry- segunda fase qualitativa. Na quarta con-
man, 1988 para vis6es gerais), deslocou-se cepcao, vocé fara um estudo de campo
para questoes de pesquisa pratica, relacio- complementar para adicionar mals
nadas a adequabilidade de cada abordagem. profundidade aos resultados de uma
Wilson declara que,para a relacdo das duas pesquisa de levantamento no primeiro
tradicoes_metodoldgicas, “as abordagens
qualitativa e quantitativa so métodos mais "N. de RT: Nas pesquisas de levantamento € comum
complementares do que competitivos fe o| fazer a chamada ou “Jembranga” dos participantes por
uso de um método particular |...) muito meio de “ondas’, isto é, como uma grande parte das pes
mais baseado na natureza do problema de soas demora a responder,faz-se: 14 onda: distribuigao €
pesquisa real em questao” (1982, p. 501). convite de pesquisa; 24 onda: lembranga aos que nao res-
ponderama pesquisa; 3# onda: idem; 4° onda: idem.
introdugdo a metodologia de pesquisa 187

1. QUAL (coleta continua de


# ambos >
QUANT OS tipos de dados)

2. QUANT onda 1 onda 2 onda 3

pesquisa de campo continua


QUAL —>
3. QUAL —————> QUANT ———» Qual
{exploracao) {questionario) (aprofundamento e
avaliacao dos resultados)
4. QUANT —————-> QUAL ——————————— OuANtT
(pesquisa de (estudo de campo) (experimento)
levantamento}

Figura 10.1
Concepcoes de pesquisa para a integragao da pesquisa qualitativa e quantitativa (adaptada de Miles e
Huberman, 1994,p. 41).

passo. O ultimo passo é umainterven¢ao binacao das abordagens da pesquisa —


experimental no campopara a testagem combinando os estudos de caso com
dos resultados dos dois passosiniciais. visOes gerais nas tabelas ou nosgrafi-
As abordagens metodoldgicas de coleta cos, por exemplo.
e analise dos dados baseiam-se nos
conceitos de triangulacao metodoldgi-
cae dos dados formulados por Denzin. Convém considerar aqui um exemplo
5. Finalmente, a apresentacao dos resul- de pesquisa integrada. O Quadro 10.3 des-
tados (ver Capitulo 13) reflete a com- creve umdesses casos.

Quadro 10.3

PESQUISA SOCIAL INTEGRADA: UM EXEMPLO

Na realizacao de um estudo sobre as questdes do sono e dos transtornos ligados a ele na vida
cotidiana institucional em casas de repouso (ver Flick et al., 2010; Garms-Homolova et aJ., 2010},
assumimos diferentes perspectivas com relagao a este problema na analise de sua relevancia
para as rotinas de cuidado dos pacientes e do desenvolvimento de doengas. Em varias institui-
cdes de cuidado, analisamos os dados rotineiros em uma perspectiva longitudinal. Repetidas
avaliacdes de cerca de 4 mil residentes em casas de repouso foram analisadas trés vezes apos
periodos de um ano. Buscamos inter-relagoes entre problemas do sono documentados nelas,
os numeros ea intensidade de doencas neste periodo. Paralelamente a essas analises secunda-
rias, realizamos entrevistas com enfermeiras e médicos nas mesmas instituigoes e as comple-
mentamos com entrevistas de familiares dos residentes neste contexto. Estas entrevistas con-
centraram-se na percepcao do problema nas rotinas de cuidado e em como estes problemas
sao tratados. A concepcao foi orientada de acordo com a segunda sugestao de Miles e Huber-
man (1994: ver Figura 10.1). Este estudo permite a analise da questao em dois niveis:
a) arealidade do cuidado dos pacientes;
b) a percepcao profissional acerca do problema.
Para este proposito, ele combina duas perspectivas metodologicas: uma analise quantita-
tiva secundaria dos dados rotineiros e uma coleta e analise qualitativas primarias das entrevis-
tas. No nivel metodoldgico, foi realizada uma triangulagao de varias abordagens. Este projeto
de pesquisa é um exemplo de pesquisa social integrada, nado apenas porque os resultados das
analises qualitativas e quantitativas remetem uns aos outros, mas também porque as duas
abordagens estao integradas em uma concepgao abrangente.
188 Uwe Flick

No geral, a abordagem da pesquisa so- na as vantagens das duas formasde pesqui-


cial integrada pode noslevar além de algumas sa. Similarmente, vocé pode complementar
limitacdes da pesquisa unilateral. Ela usa para as entrevistas presenciais com entrevistas
seu objetivo a triangulacao tedrica e metodo- (ou grupos focais) on-line. Em tudo e¢ por
ldgica de varias abordagens em uma concep- tudo, a pesquisa on-line estende as opcées
cio complexa, o que possibilita um entendi- para quais métodos misturar ou quais
mento mais abrangente da questao emestudo. perspectivas triangular ou integrar ao seu
estudo.

[¥@ Apesquisa on-line como O pragmatismo e


estrategia complementar o tema como pontos
Devidoas limitacées das formastradicionais de referencia
de pesquisa social, a internet é com frequén-
cia utilizada como um contexto para este As partes precedentes deste capitulo de-
tipo de pesquisa. Algumas destas limita¢des monstraram que umaretdrica de separacdo
sao praticas, relacionadas aos custos e ao (ou incompatibilidade) rigida entre as abor-
tempo. Entretanto, ha também limitacdes dagens de pesquisa isoladas tem seus limi-
mais genéricas. Por exemplo, vocé podeatin- tes. O ponto de referéncia para a escolhaea
gir pessoas de distancias matores quando usa combinacgao das abordagens de pesquisa
uma pesquisa de levantamentofeita pela in- deve ser as exigéncias da questao em estudo,
ternet em vez de uma pesquisa de levanta- e nao certezas e reivindicacoes metodolégi-
cas unilaterais. As combinacoes podemsig-
mento em papel. Vocé vai atingir algumas
nificar que vocé vincula as pesquisas quali-
pessoas apenas por meio da rede, como,por
tativa e quantitativa, assim como triangula
exemplo, membros de uma comunidadees-
diferentes abordagens qualitativas ou dife-
pecifica on-line (ver Capitulo 9). Ao mesmo
rentes abordagens quantitativas. Ao mesmo
tempo, foram identificadas limitacdes da
tempo, vocé deve encarar pragmaticamente
pesquisa on-line. Elas incluem indicesderes-
a combinacao das abordagens da pesquisa.
posta limitados, estruturas de amostragem
Ou seja, vocé pode perguntar a si mesmo: 0
pouco claras, restrigdo das amostras a pes-
que € necessdrio para umentendimento su-
soas que usam a internet, e assim pordiante. ficientemente abrangente dos temas do seu
Para superar estas limita¢des, varios
estudo? O que é possivel nas dadas circuns-
autores sugerem combinar pesquisas de le- tancias dos seus recursos e no campo que
vantamento em papel e pela internet (ver vocé estuda? Quandovale a pena fazer um
Bryman, 2008, p. 651-2). Isto podeserfeito esfor¢o extra para combinar métodos? Para
de duas maneiras. Ou vocérealiza seu estu- tomartal decisao, considere se os diferentes
do em duas fases, enviando um questiona- métodos irao realmente se concentrar em
rio por correio para um grupo de destinata- diferentes aspectos ou niveis ou se eles irao
rioseenviando um segundoeletronicamente meramente captar a mesmacoisade varias
para outro grupo via internet; ou oferece maneiras semelhantes.
aos seus respondentes em uma pesquisa de E util aqui diferenciar entre os varios
levantamento de questionario via correio a niveis de pesquisa possiveis, como os quatro
op¢ao de preencher 0 questionario em pa- a seguir, cada um dos quais sendoexplicado
pel ou on-line. Nos dois casos, vocé combi- mediante exemplos.
Introdugao a metodologia de pesquisa 189

Significado subjetivo e [V] Pesquisa social


estrutura social
integrada e seus
Para o entendimento dosignificado subjeti- limites
vo de um fendmeno— por exemplo, de uma
doeng¢a — pacientes sao entrevistados.Isto é
complementado pela andlise da frequéncia Discutimos noinicio deste capitulo as limi-
e da distribuigao da doencga na populacao tagdes da pesquisa social, iniciando pelasli-
ou em subpopulacoes com diferentes ori- mitacgdes dos métodos isolados. Isto teve a
gens sociais (ver Flick, 1998b). inten¢do de mostrar que nenhum método
isolado em si pode proporcionar um acesso
abrangente a um fenédmeno queesteja sendo
Estado e processo estudado ou pode ser sempre aquele em que
se confia semrestri¢6es para proporcionara
A situac¢ao e as praticas atuais de adolescen- abordagem apropriada. Tambémdeveterfi-
tes que vivemnas ruas sao analisadas para cado claro que as abordagens quantitativa e
questoes de satide e doenga utilizando a ob- qualitativa em geral tém suaslimitacées.
servacao participativa como uma aborda- Um passo rumo a superac¢ao daslimi-
gem. Esta descri¢ao de um estado € combi- tacdes especificas de métodos ou aborda-
nada com entrevistas que revelam quais gens particulares é a combina¢ao ou 0 uso
processos nas biografias isoladas dos ado- integrado de varios métodos. Isto naoresol-
lescentes os levaram a sua situa¢ado atual ve totalmente o problema da limitacao da
(ver Flick e R6hnsch, 2007). pesquisa, pois cada um dos métodos usados
permaneceseletivo naquilo que pode cap-
tar. Entretanto, a combina¢ao ou integracao
Conhecimento e praticas pode tornar umprojeto de pesquisa menos
restritivo no que ele podealcancar.
Asteorias subjetivas da confianga que os con- Alémdestas limitagoes, limites funda-
selheiros mantém nasrelagdes com osclientes mentais a pesquisa social permanecem.
sao reconstruidas em entrevistas. Estas sao
Além das questées éticas discutidas no Ca-
justapostas com andalises das conversas nas pitulo 12, ha quest6es que nao podemser
consultas mantidas entre os conselheiros e os “traduzidas” para conceitos ou abordagens
clientes para descobrir como a confianca é empiricas. Por exemplo, nao é muitorealis-
criada ou prejudicada (ver Flick, 1992). ta tentar estudar empiricamente o significa-
do da vida! (Vocé pode, € claro, perguntar
Conhecimento e rotinas aos participantes de um estudo qual, para
eles pessoalmente, seria o significado de
O conhecimento das enfermeiras sobre os suas vidas — mas o fendmeno “significado
efeitos dos problemas do sono sobre a satide da vida’, em umsentido abrangente, vai es-
dos residentes em casas de repouso é anali- capar em um estudo empirico.) Além disso,
sado em entrevistas. Além disso, sao anali- a pesquisa social atinge seus limites quando
sados os dados rotineiros baseados nos sao esperadas solucées imediatas. O fato de
diagnosticos de algumas doengas e em do- isto ser um problema menos metodoldgico
cumentacoes do transtornos do sono (ver do que fundamental deveter ficado eviden-
Flick et al., 2010). te no Capitulo 1.
190 Uwe Flick

questées listadas no Quadro 10.4. Estas


‘v1 Lista de verificagao
questdes podemser usadaspara informar o
para a concepcao de planejamentodo seuproprio estudo ¢ tam-
combinacoes de métodos bém paraavaliar os estudos de outros pes-
Ao decidir sobre 0 uso e a combinacao de quisadores.
varios métodos, vocé deve considerar as

Quadro 10.4 soe

LISTA DE VERIFICACAO PARA A CONCEPGAO DE COMBINACOES DE METODOS


1. Quais s40 os limites do método isolado que podem ser superados combinando-se varios
métodos?
2. Qual é 0 ganho extra em conhecimento que vocé pode esperar da combina¢ao dos metodos?
3. Os métodos realmente lidam com diferentes niveis ou caracteristicas nos dados, justifi-
cando a sua combinacgao?
4. Oesforco extra requerido para combinar os métodos pode ser acomodado na estrutura da
sua pesquisa (recursos, tempo, etc.)?
5. Estes esforcos sao proporcionais ao ganho em conhecimento que eles possibilitam?
6. Os métodos combinados sao compativeis um com o outro?
7. Como vocé deve sequenciar os métodos que vai usar? Como a sequenciagao ira afetar o
estudo?
8. Até que ponto os métodos sao aplicados de acordo com suas caracteristicas, de forma que
suas forgas especificas sejam levadas em conta?

Pontosprincipais

v Todo método tem suas limitagdes quanto ao que ele pode captar e como ele pode fazé-lo.
v Limites distintos podem ser identificados para a pesquisa quantitativa e para a pesquisa qualitativa.
v As combinacées de estratégias de pesquisa podem ajudar a superar esses limites.
v Atriangulacao, os métodos mistos e a pesquisa social integrada proporcionam maneiras para
combinacao de meétodos.
v As combinagées devem ser fundamentadas no tema em estudo e no ganho adicional de conhecimen-
to que elas possibilitam.

[“ Leituras adicionais Flick, U. (2009) Qualidade na Pesquisa Qualita-


tiva. Porto Alegre: Artmed.
Kelle, U. e Erzberger, C. (2004) “Quantitative
Os dois primeiros livros tratam da aborda-
and Qualitative Methods: No Confrontation’,
gem da triangulacao, enquantoas obras se-
in U. Flick, E. v. Kardorff e I. Steinke (eds), A
guintes se concentram na pesquisa de mé- Companion to Qualitative Research. London:
todos mistos. Sage, p. 172-7.
Denzin, N.K. (1989) The Research Act: A Theore- Tashakkori, A. e Teddlic, Ch. (eds) (2003) Han-
tical Introduction to Sociological Methods, 3. ed. dbook of Mixed Methods in Social and Behavioral
EnglewoodCliffs, NJ: Prentice Hall. Research. Thousand Oaks, CA: Sage.
Parte IV
Reflexao e escrita

A pesquisa social bem-sucedida envolve muito mais do que meramentea aplicagao de


meétodos de pesquisa. Também é importanterefletir sobre como os métodos foram aplica-
dos — e tornar seus procedimentos transparentes para outras pessoas. Por isso, esta
parte final do livro esta concentrada nas questdes de reflexao e escrita.
Em primeiro lugar, consideramos a avaliacgao da qualidade nas pesquisas quantita-
tiva e qualitativa, nos concentrando em seguida nestas questdes no contexto da pesquisa
on-line (Capitulo 11).
Em segundo lugar, discutimos a ética na pesquisa e o que significa realizar um
projeto de pesquisa eticamente sdlido. Consideramos no processo os comités e os co-
digos de ética, assim como problemas especificos da pesquisa on-line neste contexto
(Capitulo 12).
O capitulo final considera como escrever a pesquisa e os resultados de maneira
transparente, como dar retorno disto aos participantes e como usar os dados e os resul-
tados em contextos praticos ou politicos (Capitulo 13).
“11
O que é boa pesquisa?
Avaliacao do seu
projeto de pesquisa

VISAO GERAL DO CAPITULO

AvaliaGao de @Stud0S CMPIFICOS oo... eccssessessessessessessecsssnecnesssssecsecsnesseesscssssseesscsssssesssecsecsesesessessaesscesess 194


Qualidade e avaliagao da pesquisa QUANTITATIVA 0... cscsestssesescsescesesesscsssecsesessearsesansssatsneassesssersesees 194
Qualidade e avaliagdo da pesquisa Qualitativa oo. ccccccsssssesseesesessssscsssscescssesesssescsssessssesesseeatsesseeseeeees 200
GENE TAliZAG HO occas esseeseeeesessesscesecuceussecsusausessecsessesssasessessscsssusssessessseseesecseesscseesseneeseesserseseeseesecareaeess 202
Padrdes @ qualidade Na P@SQuiSa ON-liME ..u.c.cecccccccccsesssscccssssessssssscscsvessscsessssecsvesssesssscacsesscsesasstsscassveasanescesees 205
Lista de verificagdo para a avaliagdo de um projeto de POSQuISA............cccccessesscseesesseesecseeseeseesesseeseesee 205

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


¥ identificar os critérios mais importantes para a avaliagdo da pesquisa empirica;
v perceber que estes critérios foram originalmente desenvolvidos para a pesquisa padronizada;
¥ compreender que, para a pesquisa qualitativa, outros critérios e abordagens de avaliagao sao
aplicaveis;
v reconhecer que a generalizac4o dos resultados constitui uma parte importante na avaliacao da
pesquisa social;
¥Y distinguir entre a pesquisa quantitativa e a pesquisa qualitativa no que se refere as abordagens
para a avaliagao.
194 UweFlick

Tabela 11.1 NAVEGADOR PARA 0 CAPITULO11

Orientagao e O que é pesquisa social?


e Questao central de pesquisa
e Revisao da literatura

Planejamento e e Planejamento da pesquisa


concepcao e Concepcao da pesquisa
e Decisao sobre os métodos

Trabalhando e Coleta de dados


com dados e Analise dos dados
e Pesquisa on-line
e Pesquisa integrada

Vocé esta aqui — Reflexao e escrita ¢ Avaliagao da pesquisa


no seu projeto © Etica
e Aescrita e o uso da pesquisa

[/ Avaliacgao de Uma questaéo fundamental aqui é até


que ponto os resultados podemser generali-
estudos empiricos zados. Ouseja, até que ponto eles podemser
transferidos para outras situacoes alémdasi-
Além da questao da utilidade da pesquisa tuacao da pesquisa? Devemos aqui, mais
empirica, precisamos também examinarsua umavez, questionar se os procedimentos ou
qualidade. Aqui precisamosavaliar se os mé- as reivindicacoes de generalizacao devem ser
todos aplicados sao confidveis, e até que formulados de maneira unificada para todos
ponto os resultados obtidos podem reivin- Os tipos de pesquisa empirica ou se necessi-
dicar validade e objetividade. Este ultimo tamosde abordagensdiferenciadas.
fator é essencialmente uma questao de até
que ponto os resultados podem ter sido ob-
tidos por outros pesquisadores, sendo inde- [~@ Qualidade e avaliacao
pendentes do pesquisador que realizou o
estudo. Para avaliar a qualidade da pesquisa da pesquisa quantitativa
empirica, é necessario formular critérios
que facilitem a avaliacao dos procedimen- Confiabilidade’
tos metodoldgicos que conduziram aosre-
sultados. Aqui podemosperguntar se um O primeiro critério geralmente aceito para
conjunto decritérios uniforme é adequado avaliar estudos origina-se dateoria doteste:
a todas as formas de pesquisa empirica ou “A confiabilidade [...] indica o grau de exa-
se devemos diferenciar entre que critérios tidao na mensuracao (precisao) de um ins-
sdO apropriados para pesquisa qualitativa e trumento. A confiabilidade é mais elevada
para pesquisa quantitativa. Em conformi- quanto menor é parte de erro E vinculado
dade com isso, neste capitulo vamospri- a um valor X de medida” (Bortz e Doring,
meiro discutir os critérios de confiabilida-
de, validade e objetividade, que sao em geral
aceitos na pesquisa quantitativa, conside- “N. do R.T.: Confiabilidade € um conceito da Psico-
metria e significa que aplicacées repetidas, por exem-
rando em seguida as abordagensespecificas plo, de uma escala do tipo de Likert, produzem resul-
na pesquisa qualitativa. tados semelhantes.
Introdugdo a metodologia de pesquisa 195

2006, p. 196). Podemos avaliar a confia- metade dos itens (quest6es), comparando
bilidade de uma medida de diferentes ma- emseguida os dois escores. Mas asim os re-
neiras. sultados vao depender do métodode divi-
sao dos instrumentos em duas metades(p.
ex., a primeira e a segunda metade das ques-
Confiabilidade do reteste toes, numeros pares e impares das quest6es,
Para avaliar a confiabilidade do reteste, vocé atribuicao aleatoria das quest6es a uma ou
vai necessitar aplicar uma medida (um teste outra metade). A fim de excluir os efeitos da
ou questionario) duas vezes para a mesma posicao das questoes, é calculada a consis-
amostra, calculando depois a correlacao en- téncia interna. Paraisto, vocé vai tratar cada
tre os resultados das duas aplicacdes. Em um questao separadamente como testes inde-
caso ideal, vocé obtera resultados idénticos. pendentes e computara correlacao entre os
Entretanto, isso pressup6e que o atributo resultados, isto 6, as respostas dadas as va-
que foi medido é emsi estavel e nao mudou rias questées.
entre os dois momentos da mensuracao.
Quandoseesta repetindo ostestes de desem-
penho, as diferencas nos resultados podem Confiabilidade entre os codificadores
se originar de uma mudanga no desempe-
nho nesse meio tempo(p. ex., devido ao co- Quando vocé usa a analise de conteudo,
nhecimento adicional obtido). E possivel pode calcular a confiabilidade entre os co-
ainda que haja diferencas nas mensura¢6es dificadores para avaliar a extensao em que
porque na segunda ocasiao as questdes sao diferentes analistas distribuem as mesmas
reconhecidas pelos participantes, podendo declarac6es para as mesmascategorias, ad-
haver ocorrido efeitos de aprendizagem. vindo disto a confiabilidade do sistema de
categoria e sua aplicacao.

Confiabilidade do teste paralelo


Para avaliar a confiabilidadedoteste parale- Validade
lo, vocé precisara aplicar dois instrumentos
diferentes de forma a operacionalizar o A validade é testada tanto para as concep-
mesmo constructo em paralelo. Por exem- cdes da pesquisa quanto para os instrumen-
plo, se vocé quiser descobrir até que ponto tos de mensurac¢ao.
um determinadoteste de inteligéncia é con-
fiavel, pode aplicar um segundo teste em
paralelo. Se o primeiro mediu a inteligéncia Validade das
de um modo confiavel, o segundo teste deve concep¢oées da pesquisa
produzir 0 mesmo resultado — isto é, o
mesmo quociente de inteligéncia. “Quanto No caso das concep¢ées da pesquisa, 0 foco
mais parecidos forem os dois testes, obvia- sera a avaliacao dos resultados. Vocé vai
mente menosefeitos de erro estao envolvi- precisar checar a validade interna de uma
dos” (Bortz e Déring, 2006, p. 197). concep¢ao da pesquisa. A validade interna
caracteriza até que ponto os resultados de
um estudo podemseranalisados de manei-
Avaliacaobipartida (split half)
ra nao ambigua. Se vocé pretende estudar
Em um teste ou questionario, vocé pode os efeitos de uma intervencao, deve checar
calcular as pontuac¢éesresultantes para cada se as mudancas nas varidveis dependentes
196 UweFlick

podemser rastreadas até as mudangas na A validade interna é conseguida se as


variavel independente ouse elas podem re- mudangas nas variaveis dependentes
puderemser rastreadas até a influéncia
sultar de mudangas em algumaoutra varia-
da varidvel independente, ouseja, se
vel (ver Figura 11.1).
nao houver explicagdes alternativas
Considere, por exemplo, 0 caso de um mais plausiveis que a da hipotesedo es-
projeto de pesquisa sobre cuidado intensi- tudo. (Bortz e Déring, 2006, p. 53)
vo, em que a introduc¢ao de cuidado ainda
mais intensivo constitui a variavel indepen- A validade interna é mais bem atingi-
dente, sendoa satisfacao dos pacientes a va- da no laboratorio e na pesquisa experimen-
riavel dependente. Se vocé quer estudar a tal. Entretanto, isto acontece as custas dase-
hipdtese “cuidado mais intensivo conduz a gundaformade validade de uma concep¢ao
mais satisfacao dos pacientes’, deve esclare- de pesquisa, ou seja, da validade externa.
cer como a relacao entre 0 cuidado intensi- Aqui a questao geralé: até que ponto pode-
vo e a Satisfacao pode ser mensurada de ma- mostransferir os resultados para além das
neira nao ambigua. Para avaliar a validade situacdes e das pessoas para as quais eles
interna, vocé devera tentar excluir outras foram produzidos, para situa¢Ges e pessoas
influéncias: até que ponto outras condicdes fora da pesquisa? Por exemplo, podemos
tém-se modificado em paralelo para au- transferir uma relacao entre a intensidade
mentar a intensidade do cuidado, e até que do cuidadoe satisfacao dos pacientes para
ponto o aumentona satisfacao dos pacien- outras alas, hospitais ou situacées de cuida-
tes advém dessas condicées. do emgeral, ou isto sé é valido sob as con-
Para assegurar a validade interna, as dic6es concretas sob as quais ela foi estuda-
condicées precisam ser isoladas e controla- da e encontrada(ver Figura 11.2)?
das. Uma maneira de avaliar o efeito de Ha umadificuldade aqui. Embora no
uma intervencao é aplicar uma concep¢ao laboratorio e sob condigées controladas, em
de grupo-controle (ver Capitulo 5). No maior ou menor grau, a validade interna
nosso exemplo, em um segundo grupo, venhaa ser alta, a validade externa, em con-
comparavel ao primeiro tanto quanto pos- traste, sera mais limitada. Em pesquisa no
sivel, a intervencao naoseria introduzida — campo deestudo e sob condi¢6es naturais, a
ou seja, a intensidade do cuidado naoseria validade externa é mais alta e a interna é mais
aumentada. Seria entdo possivel checar se o baixa, pois aqui o controle das condic6essé é
efeito encontrado no grupo experimental — possivel de maneira muito limitada: “A vali-
isto €é, 0 aumento na Satisfacao dos pacien- dade externa é obtida quando resultado
tes — é evidente. encontrado no estudo de uma amostra pode

Variavel Variavel
independente dependente

Grupo Cuidado mais ? Mais satisfagao


experimental intensivo —_—_—_—> do paciente

Outras influéncias
Figura 11.1
Validade interna.
Introdugao 4 metadologia de pesquisa 197

Outros locais (grupos de pacientes, hospitais, etc.)

Validade
Transferibilidade ? externa

Grupo Cuidado mais ? , Mais satisfacao


experimental intensivo ~ do paciente

; Validade
Outras influéncias interna

Grupo- Cul mais ? , Mais satisfagao


-controle infefisi do paciente

Figura 11.2
Validade externa.

ser generalizado para outras pessoas, situa- suracao capta a questao em estudo em seus
¢des ou momentos”(Bortz e Doring, 2006, p. aspectos essenciais e de maneira exaustiva.
53). Satisfazer aos dois critérios em uma Vocé mesmopode checaristo com base em
concepgdo de pesquisa ao mesmo tempo e seu julgamento subjetivo — refletindo sobre
na mesma extensdo é considerado dificil até que ponto seu instrumento cobre todos
(Bortz e Doring, 2006). Aqui enfrentamos os aspectos importantes da sua questao e se
um dilema da pesquisa empirica,algo dificil isso acontece de uma maneira apropriada a
de resolver em uma concep¢ao de pesquisa. esta questao. Ainda melhor é ter o instru-
As validades externa e interna sao ava- mento de mensura¢ao avaliado porespecia-
liadas em relacao as concepcoes da pesquisa. listas ou porleigos. Os erros devem chamar
A validade, no entanto, é também avaliada a atencdo nessas avaliacées. Assim, 0 termo
em relacao aos instrumentos da mensuracao. “validade de face” é usado para esta situa-
¢ao. Continuando o nosso exemplo, consi-
dere se vocé documentaria a intensidade do
Validade dos instrumentos cuidado nassituac6es relevantes das rotinas
didrias em um hospital ou apenas em uma
de mensura¢ao
situacao especifica — por exemplo, na ad-
A questao da validade de um instrumento missao dos pacientes.
de pesquisa pode ser resumida na questao: A validade do critério é obtida se o re-
o método mensura o que se espera queele sultado de uma mensuracao corresponde a
mensure? Para responder a esta pergunta, um critério externo. Este sera 0 caso, por
vocé pode aplicar varias formas de checa- exemplo, se o resultado do teste vocacional
gens de validade,ou seja: corresponde ao sucesso profissional da pes-
soa testada (ver Figura 11.3). Esses critérios
a) validade do contetdo; externos podem ser definidos em paralelo,
b) validade docritério; e © que permite checara validade concorren-
C) validade do constructo. te. Isto significa que vocé pode aplicar uma
segunda mensura¢ao ao mesmo tempo.Por
A validade do contetido é alcancada exemplo, vocé realiza o teste e observa ao
quando o método ou instrumento de men- mesmo tempo o comportamentodo candi-
198 Uwe Flick

Teste a ?
Sucesso profissional
vocacional

Figura 11.3
Validade do critério.

dato em um grupode discussao. Em segui- do constructo é usar varias Mensuracoes: os


da, comparaos resultados das duas mensu- constructos séo medidos por varios méto-
racdes — até que ponto a parte do teste dos. Quando varios métodos mensuram o
vocacional sobre as habilidades de comuni- mesmo. constructo com resultados corres-
cacao corresponde a comunicagao no pondentes, consegue-se uma validade con-
grupo. Comoalternativa, vocé checa poste- vergente. Por exemplo, vocé pode estudar a
riormente a Mensuragao, CM Cujo Casoa Vva- satisfacao dos pacientes com umquestiona-
lidade prevista sera avaliada — por exemplo, rio e com umaentrevista. Quandoos dois
os resultados de um teste vocacional permi- métodos produzem resultados que confir-
tem a previsao de sucesso profissional? mam um ao outro, isto mostra a validade
Umproblema aqui € que ocritério ex- convergente do seu constructo. Isto indicaria
terno tem deser valido emsi se sera usado se oO seu conceito tedrico de “satisfacgao dos
como um meiopara a checagem das mensu- pacientes” é valido e se o seu estudocorres-
racdes. Aqui vocé tem que levar em conta a ponde a este critério de validade. A validade
validade diferencial: a concordancia entre a discriminante refere-se a questao de até que
pontuac¢aodo teste e 0 critério externo pode ponto suas mensuracoes sao capazes de dis-
ser diferente em diferentes populacoes. Se to- tinguir o constructo do seu estudo de outros
marmos de novo 0 nosso exemplo, 0 com- constructos. No nosso exemplo, vocé avalia-
portamento comunicativo nos grupos de ria até que ponto seu conccito tedrico € suas
discussao pode ser sistematicamente dife- mensuragodes realmente captamasatisfacao
rente para participantes homens e mulheres, dos pacientes com 0 cuidado que recebem.
enquanto o teste original concentrou-se Ouelas apenas captam umestado geral do
principalmente nos aspectos gerais da quali- bem-estar, em vez da satisfacao especifica
ficagao vocacional. Entao, a relacao entre a comaspectos da situagdo de cuidado? Nesse
pontuacao doteste e os critérios externos caso, 0 seu conccito de “satisfagao dos pa-
sera diferente para os dois subgrupos de gé- cientes” nao é valido e o seu estudo falha
nero. Os métodos em geral devem poder neste critério de validade (ver Figura 11.4).
captar as diferencas em gruposdiversos.
Finalmente, deve ser avaliada a valida-
de do constructo. Aqui vocé vai checar se o Validade dos indices
constructo que € captado por seu método
esta vinculado suficientemente de perto as Um indice vai precisar ser construido quan-
variaveis que podem ser teoricamente justifi- do algo nao pode ser diretamente observa-
cadas. Vocé também devera checar aqui até do ou medido (ver Capitulo 7), porque va-
que ponto o constructo permite a derivacao rios aspectos de um constructo tedrico
de hipoteses que possamser testadas empiri- estao integrados nele. Por exemplo, a satis-
camente. Uma maneira de avaliar a validade fagdo geral dos pacientes com a sua estada
Introdugdo a metodologia de pesquisa 199

em umhospital nado pode ser mensurada Outro problema aqui é que se vocé
diretamente. Essa satisfacdo inclui satisfa- quer avaliar a validade do indice, as pro-
cdo com 0 tratamento, com a cordialidade prias variaveis incluidas — por exemplo,
da equipe, com a alimentacado, com at- qualidade de vida, satisfagdo com a equipe
mosfera e assim por diante. Para mensurar — tém que ser mensuradas de uma maneira
a “satisfacdo geral” do constructo vocéteria valida para que 0 indice como um todo
que selecionar um ou mais indicadores. possa ser valido. Por isso, as avaliacdes de
Para reduzir ao maximoOs vieses na men- validade se tornam relevantes em dois ni-
suracao de constructos complexos, varios vels aqui: no nivel do indicador isolado e no
indicadores devemser usados para aumen- nivel do indice construido com estes indica-
tar a qualidade da mensuracao. (p. ex., a dores. “A qualidade de um indice depende
nota atribuida a umtrabalho escolar com- essencialmente de até que ponto todas as
bina avaliacées de ortografia, de estilo, de dimensoes relevantes foram selecionadas e
conteudo e de forma — quer em partesiguais ponderadas adequadamente” (Bortz e
ou com pesos diferentes, porque o estilo é Doring, 2006, p. 144). Para os indices, a va-
visto como mais importante do que o nu- lidade geral é composta da validade de:
mero de erros de ortografia).
De um modosimilar, seria possivel a) itens ou questéesisoladas;
tentar avaliar a satisfacao do pacientea par- b) as escalas construidas com estesitens; e
tir de varios indicadores. Por exemplo, vocé C) 0 peso ou ponderacoes dos componentes.
poderia usar um instrumento paraavaliar a
qualidade de vida, um questionario para A construcao de um indice é baseada
mensurara satisfacao com 0 servico presta- no uso de varios indicadores para mensurar
do pelo pessoal do hospital e outro tratando um valor que nao podeser diretamente ob-
da satisfacao com a infraestrutura do hospi- servado ou medido.Isto levanta problemas
tal. Entao, a questao é como pesar as varia- especificos com relacao a validade dosindi-
veis isoladas. Por exemplo, ao construir um ces. Por isso, vocé deve checar se:
indice de satisfacao do paciente, quanto
peso deve ser atribuido aos resultados do e as dimensoes relevantes foram adequa-
questionario sobre o servico dos funciona- damenteselecionadas e pesadas;
rios em comparacado com, digamos,os re- e os instrumentos para mensura¢ao dos
sultados relacionados a qualidade de vida indicadores selecionados sao validos;
no hospital? e os itens nos indicadoressao validos.

Bem-estar
Satisfagao
geral
do paciente

Entrevista Questionario

Figura 11.4
Validade do constructo.
200 UweFlick

A validade trata de diferentes aspectos palmente a padronizacao das maneiras em


para checara qualidade dosresultados does- que os dadossao coletados, analisadose in-
tudo. Se vocé considerar a validade externa, terpretados. Isto vai excluir as influéncias
isto ja inclui aspectos da possibilidade de subjetivas ou individuais do pesquisador oy
transferéncia e generalizacao dosresultados. a situacao concreta em que os dados foram
coletados.

Objetividade
[™@ Qualidade e avaliacao
A objetividade dos instrumentos, como tes-
tes ou questiondrios, depende da extensao
da pesquisa qualitativa
em que a aplicacao do instrumento inde-
Oscritérios discutidos até agora estao bem
pende da pessoa que 0 aplica. Se varios pes-
estabelecidos para a pesquisa quantitativa.
quisadores aplicam 0 mesmo métodopara
Eles séo, em maior ou menor grau, basea-
as mesmas pessoas, os resultados tém que
dos na padronizacao dasituacao da pesqui-
ser idénticos. Trés formas podem serdistin-
sa. Algumas vezes tem sido sugerido que os
guidas:
critérios classicos da pesquisa social empiri-
ca — confiabilidade, validade e objetividade
e A objetividade na coleta dos dados diz
— podem ser aplicados também pesquisa
respeito a até que ponto as respostas ou
qualitativa (ver Kirk e Miller, 1986). Isso le-
resultados do teste do participante sao
vanta a questao de até que pontoessescrité-
independentes do entrevistador ou do
rios, com sua forte énfase na padronizacao
individuo pesquisador. Isto sera obtido
pela padronizacao da coleta dos dados dos procedimentos e na exclusao dasinflu-
(instruc6es padronizadas para a aplica-
éncias comunicativas por parte da pesquisa,
¢ao do instrumento e condicdes padro- podem fazerjustica a pesquisa qualitativa e
aos seus procedimentos, que sao baseados
nizadasna situacao da coleta dos dados).
e A objetividade da andlise diz respeito a até principalmente na comunicac¢ao,na intera-
que pontoa classificacao das respostas em ¢40 e nas interpretacdes subjetivas do pes-
um questionério ou teste € independente quisador. Com frequéncia estas bases sao
vistas nao como vieses, mas como pontos
da pessoa que faz a classificacao no caso
concreto (p. ex., atribuindo uma resposta
fortes ou mesmo precondicoes da pesquisa.
a uma pontuacaoespecifica). De acordo comisso, Glaser e Strauss
e A objetividade da interpretacao significa levantam duvidas quanto a aplicabili-
que qualquer interpretacao das declara- dade dos canones da pesquisa quanti-
goes OU pontuagoes em um teste deve ser tativa como critérios para julgar a cre-
independente dos individuos dos pes- dibilidade da teoria substantiva basea-
quisadores e de suas opinides ou valores da na pesquisa qualitativa. Em vez
subjetivos. Por isso, os valores da norma disso, eles sugeremque os critérios de
(p. ex., idade, género ou educacao) julgamento sejam baseados nos ele-
podem ser identificados com amostras mentos genéricos dos métodos qualita-
representativas, que podem ser usadas tivos paracoleta, analise e apresentagao
para classificar a realizacdo ou os valores dos dados e para a mancira comoas
do participante no estudo concreto. pessoas interpretam as analises quali-
tativas. (1965, p. 5)

Conseguir a objetividade de um ins- A luz de tal ceticismo, varias tentativas


trumento ou de um estudo requer princi- foramfeitas ao longo do tempoparainiciar
Introdugao a metodologia de pesquisa 201

um debate sobre os critérios na pesquisa Uma segunda sugestao é checar a vali-


qualitativa (ver Flick, 2009, Capitulo 28). dade integrando os participantes como in-
Também possivel encontrar varias tentati- dividuos ou grupos no processo adicional
vas de desenvolver “critérios apropriados ao da pesquisa. Uma maneira incluir a vali-
método” (ver Flick, 2008a) para substituir dacao comunicativa num segundo encon-
critérios como a validade e a confiabilidade. tro, depois de umaentrevista ter sido con-
duzida e transcrita (para sugest6es concretas
ver Flick, 2009, p. 159). A validagéo comu-
Reformulacao dos nicativa tem sido algumas vezes discutida
para validar as interpretacdes dos textos.
critérios tradicionais
Devido aos problemas éticos na confronta-
¢4o dos participantes com interpretacgdes
Sugest6es para reformular o conceito de das suas declaracoes, esta forma de valida-
confiabilidade com uma énfase mais proce- ¢a0 comunicativa so é raramente aplicada.
dural tém se concentrado na questao de Para uma aplicacao mais geral da validacao
como os dados sao produzidos. Umaexi- comunicativa, permanecem duas quest6es a
géncia é que: ser respondidas, ou seja:

a) as declaracées dos participantes e e Como se pode conceber o procedimento


b) a interpretacao por parte do pesquisador metodoldgico na validacao comunicati-
sejam claramente distinguiveis. va (ou checagens do membro) de uma
maneira que faca justica as quest6es em
Finalmente, uma maneira de aumen- estudo e aos pontosde vista dospartici-
tar a confiabilidade de todo o processo é pantes?
documenta-lo de maneira detalhadae refle- e Comose pode responder a questao da va-
xiva. Isto se refere principalmente a docu- lidade além do acordo dos participantes
mentare refletir sobre as decis6es tomadas em relacao aos dadose as interpretacdes?
no processo de pesquisa — mostrando quais
foram tomadas e por que (ver Capitulo 6 Mishler (1990) vai um passo adiante
para a questao da tomada de decisdo no na reformulacao do conceito da validade.
processo da pesquisa). Ele parte do processo da validagao (em vez
O conceito de validade também re- do estado da validade). Ele define “a valida-
quer reformulacao. Uma sugestao € que os ¢a0 como a constru¢ao social do conheci-
pesquisadores examinem de perto as situa- mento” (1990, p. 417) por meio da qual nés
cdes da entrevista para quaisquersinais de “avaliamos a ‘fidedignidade’ das observa-
comunicac¢ao estratégica. Isso significa que ¢6es, interpretacodes e generalizacoesrelata-
o entrevistado nao reagiu abertamente as das” (1990, p. 419).
quest6es, mas foi seletivo ou relutante ao
dar as respostas, 0 que conduz a uma ques-
tao de até que ponto vocé pode confiar nas Critérios apropriados ao metodo
declaracées dele. Vocé deve também checar
se ocorreu uma forma de comunicacao na Os critérios usados para avaliar a objeti-
entrevista que nao seja adequadaa situa¢gao vidade precisam ser apropriados aos mé-
dela. Por exemplo,se a entrevista produziu todos da pesquisa qualitativa. Além davali-
umaconversatipo terapia, isto deve levan- dacao e da triangulacao comunicativas ja
tar duvidas sobre a validade das declaragoes mencionadas (ver Capitulo 10), encontra-
do entrevistado (Legewie, 1987). mosvarias sugestOes para novoscritérios na
202 UweFlick

discussao americana(ver Flick, 2009, Capi- ricas, memorandos, sumarios, descricdes


tulo 29; 2008a). Por exemplo, Lincoln e breves dos casos, etc.;
Guba (1985) propuseram: « reconstrucao dos dadose resultados das
sinteses de acordo com a estrutura das
a) a fidedignidade; categorias (temas, definicoes, relaciona-
b) a credibilidade; mentos), descobertas (interpretacGes e
C) a fidelidade; inferéncias) e os relatos produzidos com
d) a transferéncia; e sua integracao de conceitose de vinculos
e) a confirma¢ado como critérios apropria- com literatura existente;
dos para a pesquisa qualitativa. « anotacgdes do process, isto é, anotacgéese
decis6es metodolodgicas relacionadas a
Destas, a fidedignidade é considerada producao da fidedignidadee da credibi-
a mais importante. Lincoln e Guba descre- lidade dos achados;
veram cinco estratégias para aumentar a e materiais relacionadosas intenc6ese dis-
credibilidade da pesquisa qualitativa: posicdes, como Os conceitos da pesquisa,
anotacdes pessoais e expectativas dos
e atividades para aumentar a probabilida- participantes;
de de que resultados dignos de crédito e informagdes sobre o desenvolvimento
sejam produzidos por um “engajamento dos instrumentos, incluindo a versao-pi-
prolongado” e pela “observacao persis- loto e planos preliminares.
tente” no campo e na triangulag¢ao dedi-
ferentes métodos, pesquisadores e dados; A questao da transferéncia dos resulta-
e “inquiricgao dos pares”: encontros regu- dos ja foi discutida no contexto da validade
lares com outras pessoas que nado estejam externa. Vamos tratar disso novamente em
envolvidas na pesquisa, com o intuito de seguida, desta vez em relacao a avaliacao.
revelar os pontos cegos desta através da
discussao de hipoteses de trabalho e re-
sultados;
e aanalise de casos negativos no sentido de l/ Generalizacao
inducaoanalitica;
e adequacao dos termos de referéncia das Na pesquisa quantitativa, a extensao em que
interpretacoes e de sua avaliacao; os resultados podem ser generalizados pode
« “checagem dos membros”no sentido da ser checada de duas maneiras.Pela avaliacao
validacao comunicativa dos dados e das da validade externa, pode-se:
interpretagdes com os membros dos
campos em estudo. a) assegurar que os resultados encontrados
para a amostra sao validos para a popu-
Para avaliar a fidelidade, sugere-se um lagao; e também
processo de verificacao baseado no procedi- b) testar até que ponto eles podem sertrans-
mento das auditorias no dominio da conta- feridos para outras populacdes compara-
bilidade. O objetivo é produzir um cami- vels.
nho da verificagao (Guba e Lincoln, 1989)
cobrindo:
Bortz e Doring afirmaram que a “ge-
neralizacao na pesquisa quantitativa é atin-
¢ os dadosbrutos,suacoleta e registro; gida pela inferéncia de uma amostraaleato-
e reducao dos dadose resultadosdassinte- ria (Ou parametros da amostra) para as
ses por meio de resumos, anotac¢Ges ted- populacées (ou parametros da populagao),
Introdugdo a metodologia de pesquisa 203

que se baseiam nateoria da probabilidade” co, a ser resolvido por meiosestatisticos. Na


(2006, p. 335). pesquisa qualitativa, esta questao é mais di-
Varios procedimentos de amostragem ficil. Na raiz disso esta a questao familiar da
(ver Capitulo 5) podemser usados paraga- generalizagao: um numero limitado de
rantir isso. Um procedimento é usar uma casos ~ ou algumasvezes um caso isolado —
amostra aleatoria, em que todos os elemen- que foram selecionados segundo critérios
tos da populacao tém a mesmachance de especificos sao estudadose se afirma que os
ser um elemento dela. Este procedimento resultados sao validos além do material do
permite a exclusao de quaisquer vieses re- estudo. O caso ou os casos sao considerados
sultantes da distribuicao desproporcional- representativos de situa¢gdes, condicdes ou
mente pesadadas caracteristicas da amostra relagoes mais gerais. Mas a questaoda gene-
comparadas com a populacao. Assim sendo, ralizacao na pesquisa qualitativa surge com
ela é representativa da populacgao. Uma in- frequéncia de uma maneira fundamental-
feréncia da amostra para a populacao com mente diferente. Em algumas pesquisas
respeito a validade dosresultados é, portan- qualitativas, o objetivo é desenvolver teoria
to, justificada. Outros procedimentos tém a partir de material empirico (segundo Gla-
comoobjetivo representara distribuicgao na ser e Strauss, 1967) — tipo de caso em que é
populacao de uma maneira mais focada, levantada a questao de até que pontoa teo-
como, por exemplo, quando se extrai uma ria resultante pode ser aplicada a outros
amostra estratificada. Nesse caso vocé vai contextos.
levar em conta que a sua populac¢ao consiste Em conformidade com isso, uma
em varios subgrupos distribuidosirregular- abordagem para a avaliacdo da pesquisa
mente. Vocé vai tentar cobrir essa distribui- qualitativa é perguntar que medidas foram
¢4o na sua amostra. Isto lhe permitira gene- tomadas para definir ou estender a area de
ralizar seus achados da amostra para a validade de resultados empiricos (e na ver-
populac¢ao em geral. dade de quaisquer teorias desenvolvidas a
A generalizacao podeser checada ava- partir deles). Os pontos de partida sao a
liando-se a validade externa de um estudo analise dos casos e as inferéncias a partir
(ver topico “Validade’, no subcapitulo “Ava- deles para declaracoes mais gerais. O pro-
liacgao e estudos empiricos”). Esta generali- blema aqui é que 0 ponto de partida é com
zacao se baseia no grau de semelhanga entre frequéncia uma andlise concentrada em um
Os participantes do estudo e das popula¢oes contexto especifico ou em um caso concre-
para as quais o estudo e seus resultados to, tratando de condicoes, relacdes e condi-
devem ser validos. Campbell (1986) usa o cdes especificas. Mas, com frequéncia, é
termo “similaridade proximal” em vez de precisamente a referéncia a umcontexto es-
validade externa: nas dimens6es que sao re- pecifico que proporciona valor a pesquisa
levantes para o estudo e seus resultados, a qualitativa. Se depois se passa a generali-
amostra deve ser o mais similar possivel a zar, porém, 0 contexto especifico é perdido
populacao para a qual os resultados devem e se deve considerar até que ponto os acha-
ser transferidos. dos sao validos independentes do contexto
original.
Chamando a atenc¢aoparaeste dilema,
A generalizagao na Lincoln e Guba (1985) sugeriram que “a
pesquisa quantitativa unica generalizacao € que naoexiste gene-
ralizacdo”. Entretanto, em termosda“trans-
Na pesquisa quantitativa, a generalizacgao é feréncia dos achados de um contexto para
fundamentalmente um problema numéri- outro” e da “adequa¢ao em relagao ao grau
204 UweFlick

de comparabilidade de diferentes contex- Este procedimento se torna um méto-


tos”, eles descrevem critérios para julgar a do de comparac¢ao constante quando0sin-
generalizacdo de achados além de um dado térpretes cuidam para que comparem re-
contexto. Um primeiro passo é esclarecer 0 petidamente a codificagao com cédigos e
grau de generalizacao que a pesquisaesta classificagdes que ja foram realizados. 0
visando e que sera possivel de atingir. Um material que ja foi codificado nao € consi-
segundo passo envolve a integragao caute- derado acabado depois desta classificacao;
losa de diferentes casos e contextos em que ao contrario,ele é continuamenteintegrado
as relacdes em estudo sao empiricamente ao processo adicional de comparacao.
analisadas. A generalizacdo dos resultados
esta com frequéncia intimamente ligada a
maneira como a amostragem realizada. A Compara¢ao dos casos com
amostragem tedrica, por exemplo, oferece a analise dotipo ideal
uma maneira de conceber a variacao das
condi¢6es nas quais um fendmeno € estu- O processo de compara¢ao constante pode
dado da forma mais abrangente possivel. O ser ainda mais sistematizado medianteases-
terceiro passo consiste na comparacao siste- tratégias de comparacao doscasos. Gerhardt
matica do material coletado. (1988) fez sugest6es muito consistentes ba-
seadas na construcao dos tipos ideais. Esta
estratégia envolve varios passos. Depois de
0 método comparativo constante
reconstruir e comparar os casos um com o
outro, os tipos sao construidos. Entao os
No processo do desenvolvimento deteorias,
casos “puros” sao localizados. Comparados
Glaser (1969) sugere 0 “método comparati-
com estes tipos ideais de processos, 0 enten-
vo constante” como um procedimento para
dimento do caso individual pode se tornar
interpretar textos. Este consiste em quatro
mais sistematico. Depois de construir outros
estagios: “(1) comparar os incidentes apli-
tipos (ver Capitulo 8), este processo culmina
caveis a cada categoria, (2) integrar as cate-
em um entendimento estrutural (isto é, 0
gorias e suas propriedades, (3) delimitar a
entendimento dos relacionamentos que
teoria e (4) escrever a teoria” (1969, p. 220).
apontam para além do caso individual).
Para Glaser, a circularidade sistematica
Os principais instrumentos aqulsao:
deste processo é uma caracteristica essen-
cial:
a)a comparacéo minima dos casos que
Emboraeste método seja um processo sejam tao similares quanto possivel; e
de crescimento continuo — cada estagio b) a comparacéo mdxima dos casos que
depois de algum tempose transforma sejam tao diferentes quanto possivel.
no seguinte — os estdgios anteriores
permanecem em operacdo durante Eles sao comparados em relagao as
toda a andlise e proporcionam umde- suas diferencas e as correspondéncias.
senvolvimento continuo para 0 estdgio A generalizacao na pesquisa qualitativa
seguinte, até que a andlise esteja termi- envolve a transferéncia gradual dos achados
nada. (1969, p. 220) dos estudosde caso e do seu contexto para as
Introdugdo a metodologia de pesquisa 205

relacdes mais gerais e abstratas — por exem- ponto se podeinferir a partir de uma amos-
plo, na forma de umatipologia. A expressivi- tra de usuarios on-line (que participaram de
dade desses padroées pode entaoser especifi- umapesquisa de levantamento) a populacao
cada de acordo com até que ponto as de usuarios da internet em geral, mas tam-
diferentes perspectivas tedricas e metodolé- bém a até que ponto essa amostra especifica
gicas sobre a questao — se possivel por dife- on-line se relaciona a populagoes além da
rentes pesquisadores — foram trianguladas e rede. HA também questdes especificas de
como foramtratados os casos negativos. O protegao dos dados que precisam ser consi-
grau de generalizacao declarado para um es- deradas. Por esta razao, tém sido formulados
tudo deve também ser levado em considera- “padroes extras para a garantia de qualidade
cao. Entao, a questao de se o nivel pretendido para as pesquisas de levantamentorealizadas
de generalizacao foi atingido proporciona on-line” (ver ADM 2001) que sao Uteis para
um critério a mais para avaliar o projeto de avaliar a (sua) pesquisa com esta abordagem
pesquisa qualitativa em questao. especifica (ver tambémCapitulo 9 para algu-
masdestas quest6es).

[¥™. Padroes e qualidade


na pesquisa on-line [¥% Lista de verificagao para
a avaliacao de um
Tudo o que foi dito neste capitulo sobre os
critérios e a qualidade das pesquisas quanti- projeto de pesquisa
tativa e qualitativa se aplica em principio
tanto a pesquisa on-line quanto a pesquisa Para a avaliacao de um projeto empirico na
tradicional. No entanto, algumas quest6es de pesquisa social, as quest6es no Quadro 11.1
qualidade podem ser levantadas aqui tendo foram criadas de formaa informara sua pra-
como foco especifico a pesquisa on-line. Por tica. Estes aspectos sao relevantes para ava-
exemplo, na pesquisa on-line a questao da liar a sua propria pesquisa e também para
generalizacao se refere nao apenas a até que avaliar os estudos de outros pesquisadores.

Quadro 11.1

LISTA DE VERIFICACAO PARA A AVALIACAO DE UM PROJETO DE PESQUISA

1. Em um estudo quantitativo, foram checados oscritérios de (a) confiabilidade, (b) validade


e (c) objetividade?
2. Em um estudo qualitativo, quais critérios ou abordagens de avaliagao da qualidade foram
aplicados?
3. Até que ponto vocé tornou o estudo e a avaliagao da qualidade dele transparentes e
explicitos na apresentagao dos resultados e dos procedimentos?
O que vocéfez com relagao aos resultados desviantes ou aos casos negativos?
op

. Como vocé examinou a possibilidade de generalizagao dos seus resultados? Quais foram
os objetivos disto e como eles foram atingidos?
206 UweFlick

Pontos principais

Y Para avaliar a pesquisa quantitativa, os critérios estabelecidos sao confiabilidade, validade e


objetividade.
Vv Na pesquisa qualitativa, na maioria dos casos estes criterios ndo podem ser imediatamenteaplicados.
Em vez disso, eles tem primeiro que ser reformulados. Varias sugestdes foram feitas para Como fazer
esta reformulagao.
Vv Além disso, foram desenvolvidos critérios apropriados ao método para a pesquisa qualitativa.
Vv Ageneralizacao na pesquisa quantitativa 6 baseada na inferéncia (estatistica) da amostra para a
populacao.
Vv Na pesquisa qualitativa, ao contrario, a generalizacao tedrica pode ser o objetivo.
v Na pesquisa qualitativa, a construcdo de tipologias e a comparacgao dos casos desempenham um
papel importante.

[~ Leituras adicionais Campbell, D.T. e Russo, M.J. (2001) Social Mea-


surement. London: Sage.
Flick, U. (2009) Qualidade na Pesquisa Qualita-
A primeira e a terceira referéncias a seguir
tiva. Porto Alegre: Artmed.
discutem as questdes de qualidade na pes-
May, T. (2001) Soctal Research: Issues, Methods
quisa quantitativa; ja a segunda e a ultima
and Process. Maidenhead: Open University Press.
cobrem a questao da qualidade na pesquisa
Capitulo1.
qualitativa.
Seale, C. (1999) The Quality of Qualitative Rese-
arch. London: Sage.
|. 12
Questdes éticas na
pesquisa social

VISAO GERAL DO CAPITULO

Principios da PESquisa etiCAMENte ACEMAVE 0... eeecesecsessssecssesessssessssesesecseseesescsscsessssessssssessessssssssesseees 208


Consentimento INfOrMad oo... eeccceseesssseseeseesecesseceesnsnscesstssecscsesscsvessssancscsssessessesaesussecssaussesscesesesseaseaneneeneess 209
Confidencialidade, anonimato € proteg dO GOS dadOS 0... eseeceecessecessesseeseeseeressessessesensessenssteseeseeeneneees 211
Como evitar CaNOS AOS PArtiCiIPANteS........ ee eccceccsessseesssesesesesseseseseseesesesssesceeesseseseevssesescseaavesescsesesseeeeeneens 211
COdIGOS dO AtiCA ooo. cccccecccccscsssescessssseseseseseesscevssesssesesssessrsessscsssussesesescsesececsrssecssusesssseesesessosscasssssecessessseseeasacecs 213
COMITES dO OtiC A occ cccccccccccsesssecescsessseseesscscscsesseusvessaesesesssnsasssssaaseusssseseaavasenesesesvsssasseseavseeaeacscssseensasaeenseees 214
Regras da boa praticad ClENtifiCa ec ecesssssssesesesescsescsescsesescsesesesescscacscacssscessescseseseseacseteseasseasasecsesennseness 215
Etica na pesquisa: CaSOS € PESQUISA EM MASSA .aaeccccscsscssssesesessssssssessssssssseessessessssssssssssnissecsesesessesassusseerees 216
Etica Ma P@SQUISA ON-IIME .....ccccesssscssssssssssssssssssssscsssssuteessessssssevesssssssssuesessesssssustessetesssuseessssessssesuesessssssnnneeseesen 217
COMCIUSHO 0... cececcscescsssessesescsscsesesscscssesesesssseseesecsususssseenenessssenecneseaessesssussesnsucassnesesetecasecseeussesusacaesnsansneausnsseaeeneass 217
Lista de verificagao para a consideragao de questOeS CtiC AS. cesses eee eeteneesneneeneneaees 218

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


Vv ver como as questées éticas estao envolvidas nos projetos de pesquisa social;
¥ desenvolver sua sensibilidade para as quest6es éticas na pesquisa social;
v apreciar a complexidade das consideragoes éticas;
v planejar e conduzir seu projeto de pesquisa dentro de uma estrutura etica.
208 UweFlick

Tabela 12.1 NAVEGADOR PARA0 CAPITULO12

||
Orientagao e O que é pesquisa social?
e Questao central de pesquisa
e Revisao da literatura

Planejamento e e Planejamento da pesquisa


concep¢ao e Concepcgao da pesquisa
Decisao sobre os metodos

Trabalhando Coleta de dados


com dados Analise dos dados
Pesquisa on-line
Pesquisa integrada

Vocé esta aqui Reflexao e escrita Avaliagao da pesquisa


no seu projeto —> e Etica
e Aescrita e 0 uso da pesquisa

No Capitulo 10, consideramosas limita¢des vantes na pesquisa médica e de enferma-


da pesquisa social. Nele, 0 principal foco gem. Aqui, encontramos a seguinte defini-
foram as limitacdes metodoldgicas ou téc- cao de ética da pesquisa, que podeserapli-
nicas. Consideramos quest6es como: 0 que cavel também a outras areas da pesquisa:
podemoscaptar com um método,o que foi
A ética na pesquisa trata da questao de
esquecido por ele, como podemos superar
quais problemas eticamente relevantes
isto usando varios métodos? Também con-
causados pela intervencao de pesquisa-
sideramos uma limitacao mais fundamen- dores pode-se esperar que causem im-
tal, perguntando: quando vocé deve preferir pacto nas pessoas com as quais ou
evitar a realizacao da sua pesquisa? sobre as quais eles pesquisam. Ela tam-
Este capitulo também se concentra bém esta preocupada com ospassosto-
nas limitagdes da pesquisa social, embora madospara proteger aqueles queparti-
de um tipo diferente. Exploramos quest6des cipam da pesquisa, se isto for necessa-
como: quais problemaséticos devem serle- rio. (Schnell e Heinritz, 2006, p. 17)
vados em conta na pesquisa? Quais limites
éticos sdo tocados e como vocé pode abor-
dar quest6eséticas ao realizar 0 seu projeto Principios
de pesquisa social? Como veremos, estas
No contexto das ciéncias sociais, Murphye
questOes nos envolvem em algumasregrase
problemas muitogerais. Dingwall (2001, p. 339) desenvolveram
uma “teoria ética’, que proporciona umaes-
trutura util para este capitulo. Sua teoria e
baseada em quatro principios:
[¥/ Principios da pesquisa
¢ Nao prejuizo — os pesquisadores devem
eticamente aceitavel evitar causar danosaosparticipantes.
¢ Beneficéncia — a pesquisa sobreseres hu-
Definicgoes de ética na pesquisa manos deve produzir alguns beneficios
positivos e identificaveis, em vez de ser
As questoes éticas sao relevantes paraa pes- simplesmente realizada em_ beneficio
quisa em geral, sendo especialmenterele- proprio.
Introdugao a metodologia de pesquisa 209

e Autonomia ou autodeterminacao — os va- a) tenham sido informadas de estar sendo


lores e decisdes dos participantes da pes- estudadas; e
quisa devem serrespeitados. b) estejam participando voluntariamente.
e Justiga — todas as pessoas devemsertra-
tadas igualmente. Os principios de consentimento in-
formadoe de participa¢ao voluntaria para a
A seguir, vamos examinar mais deta- pesquisa social podem ser encontrados no
lhadamente como estes principios se apli- codigo de ética da Associacdo Socioldgica
cam a pesquisasocial. Alema. Por exemplo:
Além disso, Schnell e Heinritz (2006,
p. 21-4), trabalhando no contexto dascién- Uma regra geral para a participagao
cias sociais, desenvolveram um conjunto de nas investigacdes sociologicas € que
principios especificamente relacionados a esta participacao seja voluntaria e que
ética da pesquisa. Seus oito principios estao ocorra tendo por base as informagées
listados no Quadro 12.1. mais completas possiveis sobre os ob-
jetivos e métodos da pesquisa em ques-
Em geral, esses principios tém por ob-
tao. O principio do consentimento in-
jetivo garantir que os pesquisadores sejam formado nem sempre podeser apli-
capazes de tornar seus procedimentos cado na pratica — por exemplo, caso
transparentes (necessidade, objetivos, mé- informagoes prévias abrangentes pos-
todos do estudo), que possam evitar ou eli- sam distorcer os resultados da pesquisa
minar qualquer dano ou logro aospartici- de uma maneira injustificavel. Nesses
pantes, e que cuidemda protec¢ao dos dados. casos, deve-se fazer uma tentativa de
usar outros modos possiveis de con-
sentimento informado. (Ethik-Kodes,
1993: I B2)
[™/ Consentimento informado
Evidentemente, aqui encontramos
0 consentimento informado algumas dificuldades. Como foi mencio-
como um principio geral nado na citacao, informar previamente os
participantes pode prejudicar os objetivos
Deveser evidente que os estudos devem, em de um estudo. Além disso, ha locais de pes-
geral, envolver apenas pessoas que: quisa em que nao é possivel informar com

Quadro 12.1

PRINCIPIOS DA ETICA NA PESQUISA (SCHNELL E HEINRITZ, 2006, P. 21-4)

1. Os pesquisadores tém que ser capazes de justificar por que a pesquisa sobre o seu tema é
realmente necessaria.
2. Os pesquisadores devem ser capazes de explicar qual é o objetivo da sua pesquisa e sob
que circunstancias os individuos participam dela.
3. Os pesquisadores devem ser capazes de explicar os procedimentos metodologicos em
seus projetos.
4. Os pesquisadores devem ser capazes de estimar se os atos da sua pesquisa terao conse-
quéncias positivas ou negativas eticamente relevantes para Os participantes.
5. Os pesquisadores devem avaliar as possiveis violagoes e danos decorrentes da realiza¢gao
do seu projeto — e ser capazes de fazé-lo antesde inicia-lo.
6. Os pesquisadores tém de tomar medidas para evitar as violagdes e danos identificados de
acordo com o principio 5.
7. Os pesquisadores nao devem fazer declaracées falsas sobre a utilidade da sua pesquisa.
8. Os pesquisadores tém que respeitar as regulamentacées atuais de protecao dos dados.
210 UweFlick

antecipacao todas as pessoas que podem se Entao, como proceder se vocé quer
tornar parte dela. Por exemplo, em obser- realizar uma pesquisa Com pessoas que nao
vacdes em espacos abertos (mercados, es- sao Capazes OU nado sao vistas como Capazes

tacdes de trem, etc.) muitas pessoas que de entender seus procedimentos concretos
estao simplesmente passando podem se ou avalia-los e decidir independentemente?
tornar parte da observagao por momentos Exemplos disso incluem crian¢as pequenas
muito breves. Seria muito dificil obter o Ou pessoas que estao muito velhas ou que
consentimento destas pessoas. No entanto, sofrem de deméncia ou de problemas men-
se este ndo for o caso e 0 consentimento tais (para pesquisa com pessoas vulnera-
puderser praticamente obtido, vocé nunca veis, ver Liamputtong, 2007). Nesses casos,
deve se abster de fazé-lo. Em conformida- vocé deve pedir a outras pessoas que deem
de com isso, €é em geral presumido que o o consentimento como substitutos — os pais
consentimento informado é uma precon- das criancas, membros da familia ou equi-
dicdo para a participacao na pesquisa. Para pes médicas ou de enfermagem responsa-
aplicar este principio em termos concre- veis no caso de pessoas idosas ou doentes.
tos, vocé pode encontrar alguns critérios Mas, nesse caso, vocé satisfez os critérios do
na literatura: consentimento informado? Vocé pode
sempre presumir que essas outras pessoas
e o consentimento deve ser dado por al- vao ter a mesma perspectiva dos participan-
guém competente para fazé-lo; tes que vocé quer estudar? Se vocé aplicar o
* a pessoa que da o consentimento deve principio do consentimento informado em
estar adequadamente informada; um sentido muito estrito nesses casos, a
e oconsentimento é dado voluntariamen- pesquisa nao é permitida com estes grupos
te (Allmark, 2002, p. 13). de participantes, e, com isso, a pesquisa
sobre questées relevantes do ponto devista
daqueles envolvidos seria perdida. Se vocé
O consentimento informado na esta conduzindo umapesquisa envolvendo
pessoas vulneraveis, certamente nao deve
pesquisa de grupos vulneraveis ignorar o principio do consentimentoin-
formado. Vocé deve estabelecer uma ma-
A pesquisa com pessoas que, por razGes es- neira por meio da qual o consentimento
peciais, so incapazes de dar o seu consenti- informado possa ser obtido dos partici-
mento levanta problemaséticos especificos. pantes ou em nome deles, considerando
Estas pessoas sao chamadasde gruposvul- com cuidado quem é capaz de dar este
neraveis:
consentimento junto com ele ou em nome
dele. Entretanto, estas sao alternativas que
Individuos vulneraveis [...] so pesso- sO podem ser usadas para umestudo espe-
as que, devido a sua idade ou Aas suas
cifico, nao geral. Nao ha regra geral sobre
habilidades cognitivas limitadas, nao
podem dar seu consentimento infor-
0 modo de lidar com este problema: vocé
mado ou que, devido a sua situacdo tera que pensar, para o seu estudo especi-
especifica, ficariam particularmente fico e para o seu grupo-alvo especifico,
estressadas ou até sob risco devido a como resolver este dilema entre a realiza-
sua participagao em um projeto de ¢ao da pesquisa necessaria e evitar qual-
pesquisa. (Schnell e Heinritz 2006, p. quer tratamento inadequado dos seus par-
43) ticipantes.
Introdugdo a metodologia de pesquisa 211

[v) Confidencialidade, na apresentacao do seu local de trabalho em


comum ou no que o pesquisador revelar
anonimato e protecao sobre o seu estudo. Para este propdsito, sao
dos dados necessarios uma constante anonimizacao
dos dados e um uso cuidadoso das informa-
O Quadro 12.2 proporciona um exemplo ¢des do contexto.
de uma forma de lidar com essa questao, Se criancas forem entrevistadas, os
desenvolvida para os projetos de pesquisa pais com frequéncia querem saber o que
do proprio autor. Convém considera-lo seus filhos disseram nas entrevistas — o que
aqui como uma maneira de se concentrar pode ser problematico no caso de entrevis-
tanto nas quest6es do consentimento infor- tas que se refiram as relacées entre pais e fi-
mado (anteriormente discutido) quanto no lhos ou a conflitos entre eles. Para evitar
anonimato e na protecaéo dos dados dos este problema, pode ser necessario infor-
participantes. mar aos pais antecipadamente quandotais
O formulario deve ser completado e informac6es nao puderemser repassadas a
assinado tanto pelo pesquisador quanto pelo eles.
participante. Um acordooral pode algumas E particularmente importante arma-
vezes ser usado como um substituto para o zenar os dados (questionarios, gravacoes,
contrato escrito, caso o participante nao transcric6es, anotacdes de campo,interpre-
queira assina-lo. Observe que o formulario tacdes,etc.) fisicamente, em um lugar segu-
especifica certo periodo apos 0 qualosparti- ro e trancado (cofres de dados, armarios
cipantes podem retirar seu consentimento. que possam ser trancados, por exemplo),
Além disso, o formulario especifica quem para que ninguém além daspessoas com di-
tera acesso aos dadose se estes poderao ser reito aos dados tenha acesso aos mesmos
usados para 0 ensino apos a anonimiza¢ao. (ver Liiders, 2004b). As mesmasprecaucdes
A confidencialidade e 0 anonimato tém de ser tomadasse os dados forem ar-
podem ser particularmente relevantes se a mazenados eletronicamente — sendo que
pesquisa envolver varios participantes em neste caso eles deverao estar ao menos pro-
um local especifico, muito pequeno.Se vocé tegidos por senha, além de que o numero de
entrevistar empregados da mesma empresa pessoas com acesso aosite seja estritamente
ou membrosda familia independentemen- limitado.
te um do outro, sera necessario assegurara
confidencialidade, nao apenas com respeito
ao publico além desse local, mas também '¥/ Comoevitar danos
dentro dele. Os leitores de uma publicacao
nao devem ser capazes de identificar os in- aos participantes
dividuos que participaram como entrevis-
tados, por exemplo. Por isso, vocé deve O risco de danos aos participantes € uma
mudar os dados pessoais, tais como nomes, questao ética importante na pesquisa social.
endere¢os, locais de trabalho,etc., para que Por exemplo, se vocé pergunta em uma en-
as inferéncias as pessoas, etc., tornem-se trevista ou em uM questiondrio como as
impossiveis ou, no minimo,sejam dificulta- pessoas convivem comsua doenga crénica
das. Em conformidade com isso, 0 pesqui- ou como a enfrentam, vai confrontar seus
sador tem de assegurar que os outrosparti- respondentes com a gravidade da sua con-
cipantes nao possam identificar seus colegas dicdo e talvez com os limites da sua vida ou
212 UweFlick

com a sua auséncia de expectativa de vida, Um problema especifico na testagem


repetida ou adicionalmente. Isto pode cau- dos efeitos de medicacgoes (ou de outros
sar umacrise ou provocar um estresse adi- _tipos de intervencgao) surge em estudos
cional aos entrevistados. Sera eticamente controle randomizados (ver Capitulos 5 e
correto produzir um risco deste tipo para os 11). Aqui, as pessoas com um diagnéstico
participantes da pesquisa? sao aleatoriamente alocadas a um grupo de

Quadro 12.2

Acordo sobre a protegao dos dadospara entrevistas cientificas

A participagao na entrevista é voluntaria. Ela tem o seguinte proposito:


[tema do estudo]
Os responsaveis pela realizagao e a analise da entrevista sao:
Entrevistador:
[nome]
[nome da institui¢gao]
Supervisor do projeto:
[nome]
[nome e endere¢o da instituigao]
As pessoas responsaveis vao garantir que todos os dados serao tratados confidencial-
mente e apenas para o proposito aqui acordado.
O entrevistado concorda que a entrevista seja gravada e cientificamente analisada. Depois
de terminar a gravagao, ele pode pedir para apagar do gravador determinados trechos da
entrevista.
Para garantir a protegao dos dados, os acordos a seguir sao feitos (por favor, apague o que
nao é aceito):
O material sera processado segundo o acordo a seguir sobre a protecao dos dados:
Grava¢ao
1. A gravagao da entrevista sera armazenada em um armario trancado e em midia de
armazenamento protegida por senha pelos entrevistadores ou supervisores e apagada
apos o final do estudo ou, no maximo, ao final de dois anos.
2. Somente o entrevistador e os membros da equipe do projeto terao acesso ao registro
para analise dos dados.
3. Alem disso, a gravacgao pode ser usada para propositos de ensino. (Todos os participan-
tes do seminario serao obrigados a manter a protecao dos dados.)
Andlise e arquivamento
1. Para a analise, a gravagao sera transcrita. Os nomes e locais mencionados pelo entrevis-
tado serao anonimizados na transcri¢ao ~ no grau que for necessario.
2. Nas publicagoes, é garantido que uma identificacdo do entrevistado nao sera possivel.
O entrevistador ou o supervisor do projeto detém os direitos autorais das entrevistas.
O entrevistado pode revogar sua declaracao de consentimento, completa ou parcialmente,
dentro de 14 dias.
Local, data:
Entrevistador:
Entrevistado:
No caso de um acordo oral:
Confirmo que informei aos entrevistados sobre 0 Proposito da coleta de dados, expliquei os
detalhes deste acordo sobre a protegdo dos dados e obtive
a sua concordancia.
Local, data:
Entrevistador:
Introducado a metodologia de pesquisa 213

intervencao (recebendo tratamento com a especialmente a luz dassituacdes especificas


medicagao) e a um grupo-controle (rece- deles. Por exemplo, vocé deve considerar se
bendo emvez disso umplacebo semefeito, um confronto coma sua propria historia de
o que significa nao receber tratamento). E vida e doenca em umaentrevista ou pesqui-
eticamente justificado privar este segundo sa de levantamento podera até mesmo in-
grupo de um tratamento ou fornecé-lo a tensificar a doenga dosseusparticipantes.
eles somente apos o final do estudo? Vocé
deve realizar estudos randomizados nesses
casos — emparticular, caso se trate de uma Regra de parcimonia
doenca séria ou ameacadora a vida? (Para de demandas e estresse
esta questao, ver Thomson et al., 2004.)
Os exemplos dados sao extraidos da Se vocé esta solicitando informagées pes-
pesquisa médica. No entanto, a necessidade soais, deve sempre considerar se realmente
de evitar danose aplica a todas as pesquisas, necessita de toda a historia de vida (em uma
ndo apenas aos estudos médicos. Segundo o entrevista narrativa, por exemplo) para res-
codigo de ética da Associagao Socioldgica pondera sua questao de pesquisa, ou se res-
Alema: postas a perguntas mais focadas podem ser
suficientes. Entretanto, podemos observar
AS pessoas que séo observadas, ques- uma tendéncia na pesquisa padronizada
tionadas ou envolvidas de alguma para adicionareste questionario a coleta de
outra maneira nas investigacdes, por dados ou para incluir essa questao na pes-
exemplo, em conexao coma anilise de quisa de levantamento. Isso conduz, por
documentos pessoais, nao estarao su-
um lado, a uma extensao dos conjuntos de
jeitas a quaisquer desvantagens ou pe-
dados em um estudo individual. Por outro
rigos como resultado da_ pesquisa.
lado, vejo isso como uma demonstracao de
Todos os riscos que excedam o que é
normal na vida cotidiana devem ser que as quest6es de parcimé6nia nao sao ape-
explicados as partes interessadas. O nas uma questao da pesquisa qualitativa.
anonimato dos entrevistadores ou in- Nos dois contextos vocé deve checar quais
formantes deve ser protegido. (Ethik- sao as demandas justificaveis de serem fei-
-Kodex, 1993: 1 B 5) tas aos participantes, 0 que ja é estressante e
nao mais justificado como uma demanda, e
quando o dano aos participantesinicia.
Exigéncias aos participantes
resultantes da pesquisa
[¥¥ Codigosde ética
Os projetos de pesquisa sempre fazem
exigéncias aos participantes (ver Wolff, Muitas associagoes cientificas tém publi-
2004). Por exemplo, pode ser requerido que cado cddigos de ética. Eles sao formulados a
Os participantes sacrifiquem tempo para fim de regulamentar as relacdes entre os
preencher um questionario ou para respon- pesquisadores, as pessoas e os campos que
der as perguntas dos entrevistadores. Além eles estudam. As vezes, eles também regu-
disso, eles podem esperar lidar com per- lamentam como osterapeutas ou cuidado-
guntas e questdes embaracosas e dar aos res devem trabalhar com seus clientes ou
pesquisadores acesso a sua privacidade. pacientes, como na psicologia e na en-
De um pontodevista ético, vocé deve fermagem. Alguns deles se referem a ques-
refletir sobre se as demandas que a sua pes- tOes especificas da pesquisa na area, como
quisa faria aos participantes sao razoaveis — na pesquisa com criangas na educacao.
214 Uwe Flick

Exemplos de cédigos de associagoes cienti- Os comités de ética estao encarrega-


ficas, disponiveis na internet, incluem: dos de avaliar se os pesquisadores fi-
zeram consideracgées ¢ticas suficientes
¢ A Sociedade Britanica de Psicologia (Bri- antes de iniciar a pesquisa que planc-
tain Psychological Society — BPS) publi- jam. Para este propOsito, estes comités
cou um Codigo de Conduta, Principios t¢ém dois instrumentos. Eles podem
decidir sobre os projetos aceitando-os
Eticos e Diretrizes (www.bps.org.uk).
ou rejeitando-os. Em segundo lugar,
e A Sociedade Britanica de Sociologia
podem se tornar ativos na consulta
(British Sociological Association — BSA) aos pesquisadores e discutindo com
formulou uma Declaracao de Pratica eles sugest6es para o planejamento
Etica (www.britsoc.co.uk). ético de um projeto. (Schell e Hein-
¢ A Sociedade Americana de Sociologia ritz, 2006, p. 18)
(American Sociological Association — ASA)
refere-se ao seu Codigo de Etica (www. Para este proposito, os comités ava-
asanet.org). liam os projetos e métodos de pesquisa
e A Associacgao de Pesquisa Social (Social propostos antes de eles serem aplicados
Research Association — SRA) formulou as aos seres humanos. Essas avalia¢oes nor-
Diretrizes Eticas (www.the-sra.org.uk/). malmente consideram trés aspectos (ver
e A Associacao Alema de Sociologia (Ger- Allmark, 2002, p. 9):
man Sociological Association — GSA) de-
senvolveu um Codigo de Etica (www.so- a) qualidadecientifica;
ziologie.de/index_english.htm). b) o bem-estar dos participantes; e
c) o respeito a dignidade e aos direitos dos
Esses codigos de ética exigem que a
participantes.
pesquisa seja realizada apenassob as condi-
¢des de consentimento informado e sem
Uma questao relevante para o comité
prejudicar os participantes. Isto inclui uma
de ética é se um projeto de pesquisa vai
exigéncia de que a pesquisa nao invada de
proporcionar novos insights a serem acres-
maneira inadequada a privacidade do par-
centados ao conhecimento existente. Um
ticipante e queele naoseja iludido comres-
projeto que simplesmente duplica resulta-
peito aos objetivos da pesquisa.
dos anteriores pode ser visto como nao
ético — em particular, a pesquisa que repe-
[~i Comités de ética tidamente realiza os mesmos estudos de
novo (ver, por exemplo, Department of
As associagoes profissionais, os hospitais e Health 2001). E levantada aqui a questao
as universidades normalmente tém comités de como o estresse para os participantes¢
de ética para garantir que seus padroeséti- justificado pelos beneficios a ciéncia e pelo
cos sejam cumpridos. ineditismo dos resultados. As excecdes sao
estudos com o objetivo explicito de testar
se € possivel replicar achados de estudos
anteriores.
"N. de R.T.: No Brasil, ha comités de ética nas principais Na consideracéo da qualidade da
universidades, que tém preceitos pautados pela Comis-
pesquisa, podemos enxergar umafonte de
sao Nacional de Etica na Pesquisa - CONEP (www.
conselho.saude.gov.br/web_comissoes/conep/index. conflito. Para conseguir julgar a qualidade
html). da pesquisa, os membros do comité de
Introdug¢ao a metodologia de pesquisa 215

ética devemter o conhecimento necessario menos no momento) e, por outro lado,ser


para avaliar uma proposta de pesquisa em incapaz de estudar adequadamente os efei-
um nivel metodoldgico. Na verdade, isto tos desta medicacao (ver Thomsonet al.,
pode significar que os membros do comité 2004). Mais uma vez, encontramos aqui
— ou ao menos alguns deles — devemser, umconflito potencial: pesar os riscos e be-
eles proprios, pesquisadores. Mas, se vocé neficios é com frequéncia relativo, em vez
conversar durante algum tempo com os de claro e absoluto.
pesquisadores sobre suas experiéncias com A dignidadee os direitos dos partici-
os comités de ética e com as propostas a pantes estao conectados a quest6es de:
eles submetidas, encontrara muitas hist6-
rias sobre como uma proposta de pesquisa a) o consentimento dadopelo participante;
foi rejeitada porque os membros nao en- b) informacées suficientes proporcionadas
tenderam sua premissa, nao dispunham da como uma base para o consentimento
base metodoldgica do requerente ou sim- dado; e
plesmente nao gostaram doestilo da pes- c) a necessidade de que o consentimento
quisa. Por isso, na pratica, os comités seja voluntario (Allmark, 2002, p. 13).
podem terminar rejeitando propostas de
pesquisa por raz6es nao éticas. Uma reser- Além disso, os pesquisadores preci-
va desse tipo pode ser particularmente sam garantir a confidencialidade dosparti-
forte quando uma proposta de pesquisa cipantes. Isto requer que as informacdes
qualitativa é abordada por comités ou sobre eles sejam utilizadas apenas de ma-
membros que pensam apenas nas catego- neira que impossibilite a outras pessoas
rias das ciéncias sociais, ou onde a pesqui- identificarem os participantes ou que qual-
sa experimental é abordada por comités querinstituicao as utilize contra os interes-
que pensam principalmente em categorias ses deles.
interpretativas. Os comités de ética examinam e Ca-
Nas avaliacdes dos comités de ética, nonizam os principios aqui discutidos.
as questdes do bem-estar com frequéncia Para umadiscussao detalhada desses prin-
envolvem ponderar os riscos (para Os par- cipios, ver Hopf (2004) e Murphy e Din-
ticipantes) contra os beneficios (do novo gwall (2001).
conhecimento e de insights sobre um pro-
blema ou de encontrar uma nova solucao
para um problema existente). Por exem- (v¥Regras da boa
plo, se vocé quer descobrir os efeitos de
uma medicacao em um estudo de grupo- pratica cientifica’
-controle (ver Capitulo 5), isto significa
que vocé vai dar aos participantes deste Infelizmente, os pesquisadores témsido por
grupo um placebo, em vez da medica¢ao vezes considerados culpadosde ocultar seus
que esta sendo estudada. Para que este resultados (para exemplos, ver Black, 2006).
grupo seja comparavel ao grupo do estu-
do, vocé vai precisar de pessoas que tam-
bém estejam necessitando de um trata- “N. de R.T.: No Brasil, ha diversas manifestacoes sobre as
mento com a medicag¢ao. Assim, surge 0 boas praticas na pesquisa cientifica. Ver, por exemplo, o
dilema entre privar os membrosdo grupo- portal da Fapesp (www.fapesp.br/boaspraticas/FAPESP-
-controle de um possivel tratamento (pelo codigo_de_boas_praticas_cientificas_jun2012.pdf).
216 UweFlick

Devido a isso, o Conselho Alemao de Pes- Etica da pesquisa: casos


quisa desenvolveu propostas para a salva-
guarda da boapraticacientifica. Estas estao
e pesquisa em massa
descritas no Quadro 12.3 e estao disponi- Os principios éticos na pesquisasocial se aphi-
veis (em inglés) em http://www.dfg.de/an- cam tanto a pesquisa qualitativa quanto a
tragstellung/gwp/index.html. Estas regras quantitativa — embora as quest6es e os deta-
definem padrées relacionados a honestida- Ihes concretos envolvidos possam ser muito
de no uso de dados,a fraude cientifica e a diferentes. A protecao dos dados e a anonimi-
documentagao dos dados originais (ques- zacao podemser mais facilmente garantidos
tiondrios preenchidos, registros e transcri- para umparticipante isolado na amostragem
cdes de entrevistas, etc.). aleatoria e na andlise estatistica dos dados do

Quadro 12.3

REGRAS PARA A BOA PRATICACIENTIFICA (EXCERTO)


(Deutsche Forchungsgemeinschaft 1998)

Recomendagao 1
As regras da boa pratica cientifica incluem os principios para as seguintes questoes (em geral,
e especificadas, quando necessario, para as disciplinas individuais):
e fundamentos do trabalho cientifico, tais como:
~ observar os padroes profissionais;
- documentar os resultados;
- questionar consistentemente os proprios achados;
— praticar uma honestidade inabalavel com relagao as contribuigoes de parceiros, concor-
i rentes e antecessores.
cooperagao e responsabilidade da lideranga nos grupos de trabalho [...];
aconselhamentopara jovens cientistas e académicos (recomendacao 4);
garantia e armazenamento de dados primarios (recomendagao 7);
publicagoes cientificas (recomendagao 11).

Recomendagao7
Dados primarios como a basepara as publicagoes devem ser armazenados, de forma duravel e
segura, por dez anos em sua instituigao de origem.
Recomendacao 8
As universidadese os institutos de pesquisa devem estabelecer procedimentos para lidar com
alegagoes de ma conduta cientifica. Estes devem ser aprovados pelo orgdo responsavel.
Levando em conta as regulamentagoes legais relevantes, incluindo a lei sobre acoes disciplina-
res, eles devem incluir os seguintes elementos:
uma definigao das categorias de acao que se desviam seriamente da boa pratica cientifica
(recomendagao 1) e sao consideradas ma conduta cientifica, como, por exemplo, a fabrica-
gao e falsificagao de dados, o plagio ou a quebra de confianca como revisor
ou superior:
jurisdigao, regras de procedimento (incluindo regras para o énus da prova) e os
limites de
tempo para indagacoes e investigacdes conduzidas Para apurar os
fatos;
* os direitos das partes envolvidas de serem ouvidas, 0 critério d
a descrigao e as regras para
a exclusao de conflitos de interesse;
° sangoes, dependendo da seriedade da ma conduta comprovada;
* a jurisdigao para a determinacao de sancoes.

Recomendacao 11
Os autores de publicagdes cientificas sao sempre con juntame
nte responsaveis por seu
conteudo. Uma chamada “autoria honoraria” é inadmissiv
el,
oe
Introdugdo a metodologia de pesquisa 217

que para umparticipante em um estudo qua- para a pesquisa on-line quanto para a pes-
litativo com uma amostragem intencional e quisa tradicional.
(algumas) entrevistas comespecialistas. Ob-
serve, particularmente, que se vocé planeja re-
alizar uma pesquisa com umacoleta de dados [~™ Conclusao
repetida das mesmas pessoas do primeiro
momento, vai precisar armazenar os dados Podemos terminar com dois pontos gerais
reais de contato dos participantes para que relacionados aos principios éticos na pes-
possa retornar a eles. Ha aqui umrisco dese quisa. Primeiro, devemosnos lembrar que a
infringir inadvertidamenteosdireitos de ano- pesquisa envolve questées de integridade e
nimato e de protecao dos dados dospartici- objetividade. Como declara a Associagao
pantes. Os dadosde contato e as respostas dos Socioldégica Alema:
questionarios deverao ser separados.
Os sociélogos lutam emprol da inte-
gridade e objetividade cientifica no
'W Etica da pesquisa on-line exercicio da sua profissao. Eles estao
comprometidos com os melhores pa-
Gaiser e Schreiner (2009, p. 14) listaram va- dr6es possiveis na pesquisa, no ensino
rias quest6es a considerar, de um ponto de e em outras praticas profissionais. Se
vista ético, para o caso de vocé estar plane- eles fizerem julgamentos disciplinares
jando umestudoon-line. Saoelas: especificos, deveraéo representar seu
campode trabalho, a situagao do co-
e A seguranc¢a do participante podeestar nhecimento, sua especializacao disci-
garantida? O anonimato? A protecao dos plinar, seus métodos e a sua experién-
dados? cia de uma forma nao ambigua e
apropriada. Ao apresentar ou publicar
e Pode alguém realmente estar anédnimo
insights sociologicos, os resultados sao
on-line? E, se nao, como isto pode impac-
apresentados sem qualquer viés de
tar a concepcao geral do seu estudo? omissao de resultados importantes.
e Alguém pode “enxergar” a informacao Os detalhes das teorias, métodos e
de umparticipante quandoele (ela) par- concepcdes de pesquisa que sdo im-
ticipa? portantes para avaliar os resultados da
e Alguém nao associado ao estudo podeter pesquisa e dos limites de sua validade
acesso aos seus dados em um discorigido? sdo relatados de forma exaustiva pelos
e Deve haver um consentimento informa- pesquisadores. Os socidlogos devem
do para que alguém participe? Se houver, mencionar todas as suas fontes de fi-
nanciamento em suas publicacées, ga-
como os problemas de seguranga on-line
rantindo que seus achados nao sao in-
podem causar impacto no consentimen-
fluenciados pelosinteresses especificos
to informado?
de seus patrocinadores. (Ethik-Kodex,
e Se uma concep¢ao de estudo requer ob- 1993: 1a 1-3)
servacdes participativas, tudo bem se
“infiltrar”? Nunca ha problemas em rela-
¢40 a isso? O que fazer quando ha? Quais Esta citacao se refere especificamente
sao os fatores determinantes? aos “socidlogos”. Entretanto, ela pode tam-
e Tudo bem fraudar on-line? O que consti- bém ser aplicada aos pesquisadores sociais
tui uma fraude on-line? emgeral.
Emsegundolugar, as quest6es de ética
Esta lista mostra comoas questoes ge- na pesquisa sao levantadas em qualquer
rais da ética na pesquisa sao relevantes tanto tipo de pesquisa social e comtodos os tipos
218 Uwe Flick

de métodos. Nenhuma abordagem meto- [Lista de verificagao


dolégica esta isenta de problemas éticos,
ainda queestes difiram entre os métodos: para a consideracao
Os métodos de pesquisa nao sao etica-
de questoes eticas
mente neutros. Isso se aplica da mesma
maneira aos métodos qualitativos, Na busca de um projeto empirico em pesqui-
quantitativos e triangulados. Os crité- sa social, vocé deve considerar as quest6eséti-
rios para a avaliagdo da qualidade da cas no Quadro 12.4. Estas questoes podem ser
pesquisa, ao menos implicitamente, re- aplicadas ao planejamento doseu proprioes-
querem tambémquestoes éticas. (Sch- tudo e de maneira similara avaliacao de estu-
nell e Heinritz, 2006, p. 16) dos existentes de outros pesquisadores.

Quadro 12.4 teem ek

LISTA DE VERIFICACAO PARA A CONSIDERACAODE QUESTOESETICAS NA PESQUISA SOCIAL


1. Como vocé colocara em pratica o principio do consentimento informado?
2. Vocé informou a todos os participantes que eles estao participando de um estudo ou
que estao nele envolvidos?
Como vocé vai garantir que os participantes nao sofram quaisquer desvantagens ou
danos devido ao estudo ou ao fato de participarem dele?
Como vocé vai garantir que os participantes de um grupo-controle nao sofram nenhuma
desvantagem devido a intervencao que nao receberam?
Como vocévai garantir a voluntariedade da participagao?
Como vocé vai garantir que as criangas ou as pessoas com dano cognitivo tenham
concordado em ser entrevistadas (p. ex.) ~ isto €, que nao apenas foi obtido o consenti-
mento dos pais ou dos cuidadores?
Como vocévai organizar a anonimizagao dos dados e como ira lidar com as questoes
da protegao destes no estudo?
Como vocé levara estas questdes em conta para a armazenagem dos dados ena
apresentacgao dos resultados?
Vocé checou o seu metodo de procedimento com relagao ao cddigo(s) de ética rele-
vante?
10. Se o fez, que problemas se tornaram evidentes?
11. Uma declaragao de um comité de ética é necessaria para o seu estudo e, se for este o
caso, vocé ja a obteve?
12. Como 0 projeto ira se conformar as exigéncias formuladas neste processo?
13. Qual € o ineditismo dos resultados esperados, 0 que justifica a realizacao do seu
projeto?
14. Vocé pode especificar os resultados esperados?
Introdugdo a metodologia de pesquisa 219

v Todo projeto de pesquisa deve ser planejado e avaliado segundo principios éticos.
v Avoluntariedade da participagao, o anonimato, a protecdo dos dados e a evitacdo de dano aos
participantes sao precondicoes.
v Oconsentimento informado deve ser obtido para todo projeto de pesquisa. As excecées tém de ser
rigorosamente justificadas.
v Os codigos de ética proporcionam uma orientacdo para se levar em conta os principios éticos e a sua
aplicagao.
v Os comités de ética procuram assegurar que os principios éticos sejam preservados.
v Para as pesquisas qualitativa e quantitativa, as questOes éticas podem ser levantadas de diferentes
maneiras.

[¥™/ Leituras adicionais Flick U. (2009) Introducao a Pesquisa Qualitativa,


3. ed. Porto Alegre, Artmed. Capitulo 4.
Hopf, C. (2004) “Research Ethics and Qualitative
Os recursos que se seguem apresentam uma Research: An Overview,in U.Flick,E. v. Kardorff
discussao adicional sobre a ética da pesqui- e I. Steinke (eds.), A Companion to Qualitative
sa social. Research. London: Sage, p. 334-9.
Bryman, A. (2008) Social Research Methods, 3. ed. Mertens, D. e Ginsberg, P.E. (Eds) (2009) Hand-
Oxford: Oxford University Press. book of Research Ethics. London: Sage.
“ 13
Escrita da pesquisa e
uso dos resultados

VISAO GERAL DO CAPITULO

Objetivos da escrita da P@SQUuISA SOCIAl 0... ccc cssssecsssessseesesescecarssssescsesessssesssesssuessscscseseesssessseseeneassesseses 222


Escrita da POSQUuISA QUANTITATIVE occ sessesesescecssscseseeeessesesesesesesesssnscesessassesssscaesseseseessavasaeeseaearssseestees 223
Escrita da peSquiSa Qualitativa occ cecssessscsesscsssescstssesesesssessescscsesssesscsessasessescsrecsssasscsescsrsasssssansetesscseess 226
QUESTOES da CSCHITA oie cccceccssesesssscsessscessesescevasssesssesesvevssessacsusesuessseesessseseseseesessseseseseesssesestsetsesssseceeteeseaes 230
Retorno dos resultadOs Para OS PartiCiPANteS ........cccccccccsesssessssesesssessesesesessssssesssestsussssescesseseasssseesesesessecess 230
Uso dos dados nO debate ou... cccccsesessssssessssesnssseeesssesseecessseesnsnssesavssesesesesasesasesssessecseceeasecseseseeearecseeteeneaes 230
Lista de verificagado para a apresentagao dos procediMeNntOS EMPIICOS «0... ec eeeeeeseceesteeeeeteeeetene 232

OBJETIVOS DO CAPITULO

Este capitulo destina-se a ajuda-lo a:


v¥ reconhecer que a apresentacdo dos resultados e dos métodos é uma parte integrante dos
projetos de pesquisa social;
v entender quais formas de apresentacao sao apropriadas para projetos:
a) qualitativos e
b) quantitativos;
v saber quais fatores considerar quando se apresenta os resultados a:
a) participantes e a
b) instituigdes e outras audiéncias interessadas.
222 UweFlick

Tabela 13.1 NAVEGADOR PARA 0 CAPITULO 13

Orientagao © O que é pesquisa social?


e Questao central de pesquisa
e Revisao da literatura

Planejamento e e Planejamento da pesquisa


concepcgao e Concep¢ao da pesquisa
Decisao sobre os métodos

Trabalhando Coleta de dados


com dados Analtise dos dados
Pesquisa on-line
Pesquisa integrada

Reflexado e escrita Avaliagao da pesquisa


Vocé esta aqui e Etica
no seu projeto e Aescrita e o uso da pesquisa
v

Em esséncia, a pesquisa social consiste para o leitor. No processo, vocé deve visar a
em trés passos: demonstracao de que seus achadosnao sao
arbitrarios, singulares ou questionaveis —
1. planejamento de um estudo; mas sim que sao baseados em evidéncias.
2. trabalho com os dados; e Este capitulo considera a relevancia da pes-
3. comunicacao dosresultados. quisa, a utilizacao de seus resultados e sua
elaboracdao e apresenta¢ao.
Segundo Wolff, a comunica¢ao (na
forma de um “texto”) é integrante da cién-
cia social:
[Vv Objetivos da escrita
Fazer ciéncia social significa principal-
mente produzir textos [...] As expe-
da pesquisa social
riéncias de pesquisa tém de ser trans-
formadas em textos e ser entendidas Quandovocérelata a sua pesquisa, pode ter
tendo-os por base. Um processo de varios objetivos. Por exemplo:
pesquisa tem achados apenas quando e
a medida que estes podem ser encon-
documentarseus resultados;
oh

trados em um relatorio, nao importa se


mostrar como vocé procedeu durante
€ quais experiéncias foram realizadas
por aqueles que estavam envolvidos na
sua pesquisa — como chegou aos seus
pesquisa. A possibilidade de observa- resultados;
¢ao e a objetividade pratica dos fend- apresentar os resultados de maneira tal
menos das ciéncias sociais estado pre- que possa alcancar objetivos especifi-
sentes nos textos e em nenhumoutro cos — por exemplo, obter uma qualifi-
lugar. (1987, p. 333) cacao, influenciar um processo (por
exemplo, mediante a formulacgdo de
Quando vocé comunica seus achados politica baseada em evidéncias) ou
de pesquisa, deve ter por objetivo tornar o mostrar algo fundamentalmente novo
processo que o levou a eles transparente em seu campo cientifico;
Introdugdo a metodologia de pesquisa 223

4. legitimar a pesquisa de algum modo — 4. Qual éa sua amostra? Quantos indivi-


mostrando que os resultados nado sao duos ou respondentes estao envolvidos
arbitrarios, Mas rigorosamente basea- no seu estudo? Comovocé os selecio-
dos em dados. nou?
5. Como vocé lidou com as questées éti-
cas € com os interesses especificos da
[~™/ Escrita da concepcao?

pesquisa quantitativa O ponto essencial € permitir que olei-


tor avalie o seu estudo. Isto possibilitara
Na pesquisa quantitativa, um relatorio de avaliar a relevancia e confiabilidade dos
pesquisa normalmente incluira os seguintes seus resultados.
elementos:

1. o problema da pesquisa Elaboragao dos resultados


2. aestrutura conceitual
3. a questao central da pesquisa Com frequéncia os pesquisadores enfren-
4. o método dacoleta de dados tam o problema de que um estudo pode
5. aanalise dos dados produzir uma multiplicidade de achados.
6. as conclusédes Aqui, 0 primeiro passo é apresentar varios
7. a discussao dos resultados achadosdetalhados. Vocé pode entao desti-
lar, extrapolar ou construir os resultados
Ao apresentar sua pesquisa, vocé deve fundamentais que emergem dos achados
incluir declaracées referentes a cada um des- detalhados. Por exemplo, vocé pode fazer
tes pontos. Elas devem permitir umaavalia- mais paraclassificar os dados em classes.
cao da sua metodologia, a solidez dos seus Talvez até os prdéprios pesquisadores
resultadose 0 seu relacionamento com lite- sintam-se confusos diante da multiplicida-
ratura e a pesquisa anteriores a sua pesquisa. de de achados produzidos no seu estudo.
Neste caso,eles necessitam desenvolver uma
estrutura para continuar a analise. Por
0 procedimento empirico exemplo, eles podem se concentrar na dis-
tribuicgéo dos dados ou podemadotar uma
Ao escrever sobre 0 seu procedimento em- perspectiva comparativa (concentrando-se,
pirico, vocé deve responder as seguintes por exemplo, nas diferencgas entre dois sub-
perguntas para os seus leitores (ver Neu- grupos na amostra). Acima de tudo,os pes-
man, 2000, p. 472): quisadoresvao precisarser seletivos. Como
explica Neuman:
1. Que tipo de estudo (p. ex., experimen-
to, pesquisa de levantamento) vocé Os pesquisadores fazem escolhas na
maneira de apresentar os dados. Ao
conduziu?
analisar os dados, eles buscam dezenas
2. Exatamente como vocé coletouos da-
de tabelas e estatisticas univariadas, bi-
dos (p. ex., concepcao do estudo,tipo variadas e multivariadas para terem
de pesquisa de levantamento, tempo e umapercepgao dos dados. Isto naosig-
local da coleta dos dados, concep¢ao nifica que todaestatistica ou tabela es-
experimentalutilizada)? teja em um relatério final. Ao invés
3. Como asvariaveis foram mensuradas? disto, o pesquisador seleciona o nume-
Elas sao confiaveis e validas? ro minimo de graficos ou tabelas que
224 UweFlick

informem plenamente o leitor e rara- resumidas segundo a idade das criancas,


mente apresenta ele proprio os dados que podiam dar mais de uma resposta.
brutos. As técnicas de analise dos dados Estes exemplos demonstram comy
devem resumir os dados e testar hipo- vocé pode apresentar os achados visual-
teses (p. ex., distribuigdes da frequén-
mente de forma que eles se tornem claros
cia, tabelas com médias e desvios pa-
para os leitores “a primeira vista. Obvia-
drao, correlag6es ¢ outras estatisticas).
mente os trés métodos apresentados nado
(2000, p. 472)
sao os tinicos disponiveis; estao incluidos
aqui apenas para ilustrar a utilidade da
Apresentacao dos resultados apresentagaovisual.

As frequéncias e os numeros podem ser


apresentados mais claramente em graficos Evidéncias
do que por meio de palavras. Considere,
Em muitas areas de pesquisa, a nocao de
por exemplo, a Figura 13.1, que apresenta
pratica baseada em evidéncias tornou-se
os tamanhos das amostras em um estudo
muito importante. Isto enfatiza a necessida-
longitudinal em trés momentos de mensu-
de de distinguir resultadoscientificos con-
racao (2006, 2007, 2008).
fiaveis dos menosconfiaveis. Aqui podemos
Uma alternativa é usar graficos de
considerar 0 exemplo da pratica médica. Na
pizza. A Figura 13.2 proporciona um exem-
medicina baseada em evidéncias, uma me-
plo em que a distribuicao da idade das pes-
dicagao é testada em uma forma de pesqui-
soas sem-teto na Alemanha esta resumida
sa especifica antes de ela ser introduzida nas
em gruposetarios (p. ex., 30-39 anos).
rotinas médicas_ regulares. Greenhalgh
Um terceiro meio de apresentacao é
apresenta uma definicao:
usar tabelas. A Tabela 13.2 proporciona um
exemplo, Aqui, as frequéncias das respostas A medicina baseada em evidéncias é 0
a pergunta de como prevenir doencas estao uso de estimativas matematicas do

Amostras

2600 7
2577

2550 7

2500 - 2484

2450 7 2443

2400 4

2350
2006 2007 2008

Figura 13.1
Grafico de barras.
Introdugao a metodologia de pesquisa 225

risco de beneficio e dano, derivadas de a alguns fatores de risco (p. ex., fumar),
pesquisa de alta qualidade em amos- Stark e Guggenmoos-Holzmann declaram:
tras de populacao para informar a to-
mada de decisdo clinica no diagnosti-
Se alguns critérios de evidéncias cienti-
co, Na Investigagdo Ou no manejo dos
ficas forem satisfeitos, é geralmente
pacientes individuais. A caracteristica
aceita uma relacao causal entre a varia-
definidora da medicina baseada em
vel influente (fator de risco) e a varia-
evidéncias é, portanto, 0 uso de figuras
vel-alvo (doenca). Como critérios im-
derivadas de pesquisas realizadas em
portantes descobrimosque:
populacgées para informar as decisdes
sobre os individuos. (2006, p. 1) > Existe uma forte correlagao entre a
variavel influente e a variavel-alvo.
Aqui sao aplicados os testes duplo-ce- * Os resultados podemser confirma-
gos (ver o Capitulo 5), que sao também ro- dos em varios estudos (reprodutibi-
tulados de estudos randomizadoscontrola- lidade).
+ Existe uma relacao dose-efeito entre
dos (ERCs). Os participantes de um estudo
a varidvel influente e a variavel-alvo.
de medicacdo sao alocados aleatoriamente
* Ocurso temporal de causa e efeito é
ao grupo de tratamento (com a medicac¢ao) ldgico.
e a um grupo-controle (com um placebo) * Os resultados sao biologicamente
para testar 0 efeito da medicagao compa- plausiveis.
rando os dois grupos. Para a existéncia de * Seo fator de risco for eliminado, o
evidéncias na area da epidemiologia das do- risco de doenga é reduzido.(2003, p.
encas(p. ex., cancer de pulmdo) em relacdo 417)

4,90%

ae
28,40%

yARUUy

[] <29 anos BB 30-39 anos WB 40-49 anos


MMMM 50-59 anos WM > 60 anos
Figura 13.2
Grafico de pizza.
226 Uwe Flick

Tabela 13.2 PREVENCAO COM RELACAO A SAUDE (EXTRATO DOS RESULTADOS)


(%, MULTIPLAS RESPOSTAS POSSIVEIS)

Categorias 5 anos 8anos 12 anos 16 anos

Alimentacao saudavel, frutas, vegetais, chas, sucos 28 56 83 88


Vitaminas, minerais - 8 29 16
Atencao com o vestuario, roupas quentes 24 24 33 8
Movimento, esportes 20 32 38 76
Ar livre 12 20 17 16
Nao fumar - - 25 32
Nao ingerir bebidas alcoolicas - - 13 12
Pouco ou nenhum estresse - - - 4
Relaxamento, sono - 4 4 8
Nao ficar infectado, evitar contato com pessoas doentes - 4 4 12

Fonte: Schmidt e Frohling, 1998, p. 39

Assim, foi desenvolvido um entendi- cias. A tendéncia para se basear em evidén-


mento muito especifico do que sao evidén- cias ameaca questionar outras formas de
cias e, além disso, que tipo de pesquisa pode pesquisa. Aqui surge um problema: o que
produzir essas evidéncias. De um modo faz muito sentido em avaliar o efeito da me-
mais geral, a pratica baseada em evidéncias dicacao nao é necessariamente justificado
significa que a pratica e a tomadade decisao para a pesquisa social em geral. Outrasfor-
no caso isolado devem ser baseadas na pes- mas a serem substituidas pelas evidéncias
quisa e nos resultados, isto é, nas evidéncias. sao Os conceitos de minimiza¢ao dos custos,
Esta base cientifica da pratica profissional etc. (Greenhalgh, 2006, p. 9-11). O desafio é
deve substituir a tomada de decisao baseada desenvolver um entendimento mais amplo
em relatos (“Eu soube de um caso simi- do que sao evidéncias. Por isso, a analise de
lar...”) Ou no que esta simplesmente em historias de vida de pacientes com cancer,
moda na imprensa. por exemplo, naosatisfara os critérios de
Aqui podemos notar duas implicagées base em evidéncias descritos anteriormente
do desenvolvimento antes mencionado. Em — mas produzira evidéncias uteis quandose
primeiro lugar, este entendimento dasevi- trata de entender como as pessoas vivem
déncias e da pesquisa ameaga opor resistén- com cancer e comotentam enfrenta-lo.
cia a outras abordagens da pesquisa e desa-
fiar sua relevancia. Consequentemente,
encontramos varias sugest6es para classifi-
car os tipos de evidéncias. Essa classificacao
‘”% Escrita da
varia desde as metandalises — baseadas em pesquisa qualitativa
estudos randomizados — como a forma
mais acelta, até os estudos de caso e as ava- Com relacao a pesquisa qualitativa, muitos
liagdes de especialistas, que sao as formas analistas tem expressado duvidas de que
com menor aceita¢ao (ver 0 Capitulo 3). possamos usar a mesma abordagem usada
Em segundolugar, outras disciplinas para a pesquisa quantitativa. Lofland (1976)
— como servico social, educa¢ao, enferma- e Neuman (2000, p. 474) propuseram uma
gem e outras — também tém desenvolvido estrutura alternativa para relatar a pesquisa
em seu campoa pratica baseada em evidén- qualitativa:
Introdugao a metodologia de pesquisa 227

1. introducao de vista dos membros de um campo ou dos


a) aspectos mais gerais da situacado entrevistados sao enfatizados na apresenta-
b) principais contornos da situacado cao: comoeles experienciaram sua propria
geral vida em seu curso? O que é satide para os
c) comoos materiais foram coletados entrevistados? A interpretacao nao para nos
d) detalhes sobre local pontos de vista subjetivos, mas vai além
e) como o relatério é organizado deles mediante interpretagdes varias e de
2. a situacao longo alcance.
a) categorias analiticas As hist6rias confessionais sao caracteri-
b) contraste entre a situacdo e outras zadas pela autoria personalizada e pela au-
situa¢des toridade do pesquisador como um especia-
c) desenvolvimento dasituacao no de- lista. Aqui, os autores expressam o papel
correr do tempo que desempenharam noquefoi observado,
3. estratégias de interacao em suas interpretacdes e nas formulac¢6es
4. sumario e implica¢6es usadas. Os pontos de vista dos autores sao
tratados como um tema na apresentac¢ao, ao
Esta estrutura proporciona um possi- longo dos problemas,das falhas, dos erros,
vel enquadramento para o seurelatorio. A etc. (1988, p. 79) no campo. Nao obstante,
vantagem é que vocé entao partira dos as- os autores tentarao aqui apresentar seus
pectos mais gerais do seu tema de pesquisa achados como fundamentados no tema que
para os procedimentos mais concretose,fi- estudaram. Esses relatos combinam des-
nalmente, para os achados que obteve. cricdes do objeto estudado e das experién-
Assim, esta estrutura contribui para condu- cias de estuda-lo. Um exemplo deste tipo de
zir os seusleitores através do seu relatério e relato € o livro de Frank The Wounded
dirigi-los para os pontos centrais que vocé Storyteller (1997).
querressaltar em seus achados. As historias imipressionistas assumema
forma de uma recordacao dramiatica. O ob-
jetivo é colocar a audiéncia imaginativa-
O procedimento empirico mente na situacao da pesquisa, incluindo as
caracteristicas especificas do campo e da
Para os projetos qualitativos, a apresentacao coleta de dados. Um bom exemplo paraeste
dos procedimentos empiricos é com fre-
tipo de relato é a analise de Geertz (1973),
quéncia cronologico, proporcionando insi- acerca da briga de galos balinesa.
ghts do processo no campo ounasituagdo em
estudo. Van Maanen (1988) distingue trés
formas de apresentacao,ouseja, historias:
Resultados
a) “realistas”;
b) “confessionais”; e
<4 : * 9?
Os estudos qualitativos podem produzir va-
c) “impressionistas”.
ace . ‘ »”»
riadas formasde resultados. Eles podemva-
riar desde estudos de caso detalhadosaté ti-
Nas historias realistas, as observac6es pologias (p. ex., varios tipos de conceitos de
sao relatadas como fatos, ou documentadas satide) ou a frequéncia e distribuicao das
usando-se citacées de declarac6es ou entre- declaragdes em um sistema de categorias.
vistas. A énfase é colocada nas formastipi- Na pesquisa qualitativa pode-se também
cas do que é estudado(verFlicket al., 2010, conseguir condensar as informagoes na
para um exemplo). Porisso, vocé vai anali- forma de tabelas — por exemplo, sobre a
sar € apresentar muitos detalhes. Os pontos composicao de uma amostra com relacao
228 Uwe Flick

Tabela 13.3 AMOSTRAI: JOVENS DE RUA POR IDADE E GENERO

Género

Idade (anos) Masculino (N= 12) Feminino (N = 12) Total (N = 24)

14 - 3 3
15 1 3 4
16 2 2 4
17 2 | 36
18 4 2
19 3 ~ 3
20 _ 1 1
Media 175 16,0 16,75

Fonte: Flick e Rohnsch, 2008

ao género e a idade em anos(ver a Tabela 3. A especificagao clara dos relacio-


13.3) ou gruposetarios e género (ver a Ta- namentosentre as categorias, com
bela 13.4). niveis de conceituacao também
mantidosclaros.
Na pesquisa qualitativa, este foi prin-
4. A especificagao de variagées e de
cipalmente o objetivo da contextualizagao
suas condi¢des, consequéncias,etc.
das declaracoes isoladas e de suas interpre- relevantes, incluindo as mais am-
tacoes (Ver a Tabela 13.5, que resume as de- plas. (1990, p. 229)
finicdes de satide dadas pelos adolescentes
nas duas amostrasexibidas nas Tabelas 13.3
Aqul, a apresentacao da pesquisa vai
e 13.4, de acordo com o género e subgru-
destacar os conceitos e linhas basicos da
pos).
teoria que foi desenvolvida. A visualizacao
Uma formaespecifica de resultado de
na forma de redes conceituais, trajet6rias,
um estudo qualitativo pode ser o desenvol-
etc. ێ um meio de dar mais volume a apre-
vimento de umateoria. A apresentacao de
sentacdo. As sugestoes de Lofland (1974)
uma teoria desse tipo requer, segundo
para a apresentacao dos achados na forma
Strauss e Corbin, quatro componentes:
de teorias nos conduzem a umadirecaosi-
1. Uma historia analitica clara. milar. Ele menciona comocritério para a
2. Escrever em um nivel conceitual, escrita OS mesmos que serao usados para
com a descrigao sendo mantida avaliar esses relat6rios, ou seja, assegurar
como secundaria. que:

Tabela 13.4 AMOSTRAII: JOVENS DE RUA CRONICAMENTE DOENTES POR GRUPO ETARIO E GENERO

Género
Idade (anos) Masculino (N= 6) Feminino (N = 6) Total (N = 12)
14-17 1 3 4
18-25 3 8
Média 21,5 168 19,2
Fonte: Flick e Rohnsch, 2008
Introdu¢do a metodologia de pesquisa 229

Tabela 13.5 CONCEITOS DE SAUDE DOS JOVENS DE RUA ENTREVISTADOS

Jovens de rua

Cronicamente
Conceito de satde Total Masculino Feminino Geral doentes
A saude como bem-estar fisico 14 9 5 9 5
e mental
A saude como auséncia de 11 4 7 4 7
doenga e de queixas
A saude como resultado 7 2 5 7 -
de algumas praticas
A saude como funcionalidade 4 3 1 4 -
N 36 18 18 24 12

Fonte: Flick e Rohnsch, 2008

1. O relatério foi organizado por Evidéncias na pesquisa qualitativa


meio de uma estrutura conceitual
genérica; O conceito de evidéncias segundoas aborda-
2. aestrutura genérica empregada era
gens baseadasnelas anteriormente descritas
nova;
nao pode ser transferido sem problemas
3. aestrutura foi elaborada ou desen-
volvida eme através do relatério;
para a pesquisa qualitativa. Entretanto, tem
4. a estrutura foi movimentada no de ser formulada a questao de como definir
sentido de estar abundantemente as evidéncias no uso dos métodos qualitati-
documentada com dados qualita- vos, € que papel a pesquisa qualitativa pode
tivos; desempenhar neste desenvolvimento (ver
5. a estrutura foi entrelagada com Denzin e Lincoln, 2005; Morseet al., 2001).
materiais empiricos. (1974, p. 102) A discussao inclui a sugestao da vinculacao
de varios estudos — no sentido da metanalise
Na pesquisa qualitativa, mais uma — e também estendendoe transferindo osre-
vez se enfrenta o problema deselecionar os sultados para contextos praticos como uma
aspectos essenciais de uma multiplicidade formade “teste” (Morse, 2001). Por exemplo,
de dados e relacionam