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BIBLIOTECA

DOS

PRÊMIOS NOBEL
CE

LITERATURA
patrocinada pela

ACADEMIA SUECA
e pela

FUNDAÇÃO NOBEL
COLEÇÃO DOS PRÊMIOS NOBEL DE LITERATURA
PATROCINADA PELA ACADEMIA SUECA
E PELA FUNDAÇÃO NOBEL

Prêmio de 1953

WINSTON S. CHURCHILL
(INGLATERRA)

EDITÔRA DELTA
Rio de Janeiro
1969
f WINSTON
S. CHURCHILL

I SANGUE, SUOR
I E

LÁGRIMAS
I

Nota introdutiva de
RANDOLP S. CHURCHILL

Tradução de
R. MAGALHÃES JÚNIOR E LYA CAVALCANTI

Estudo introdutivo de
HUGH H. TREVOR — ROPER

Ilustrações de
DANIEL DUPUY

EDITORA DELTA
Rio de Janeiro
1969
Título do original inglês:
I nto B attle

Título da edição norte-americana:


B lo o d , S w e a t a n d T e a r s

Todos os direitos desta edição


(introdução, prefácios, notas, tradução,
ilustrações e demais características)
pertencem à Editora Delta
"PEQUENA HISTORIA"
DA ATRIBUIÇÃO DO
PRÊMIO NOBEL
A
WINSTON S. CHURCHILL

Pelo DR. KJELL STRÕMBERG


Antigo Conselheiro Cultural
da Embaixada da Suécia em Paris
A lgumas vêzes a Academia sueca já surpreendeu o mundo
com a escolha dos seus laureados. Foi exatamente o caso do Prêmio
Nobel de Literatura de 1953, quando se proclamou Sir Winston .
Churchill como vencedor, depois de Par Lagerkvist e François
Mauriac, laureados dos anos precedentes. Quaisquer que fôssem
os méritos literários dêsse extraordinário nome, o certo é que para
a imensa maioria dos homens, êle era sobretudo, ou talvez exclu­
sivamente, o grande estadista que havia conseguido a vitória na
maior de tôdas as guerras. Além disso, Churchill voltara a ser, em
1951, Primeiro Ministro da Grã-Bretanha, após haver passado
kcís anos afastado do poder, e se generalizara a idéia de que a
Academia sueca, numa espécie de tácito compromisso, jamais
premiava um escritor que ocupasse cargo administrativo ou político
ilc primeiro plano em seu país, no momento da apresentação da
nua candidatura.

Ora, a Academia sueca desprezou tôdas essas considerações.


Ê verdade que Churchill vinha sendo candidato ao Prêmio Nobel
dc Literatura, e provàvelmente também ao da Paz, desde 1946,
(|uando teve que abandonar o poder após a vitória eleitoral do
l,abour Party, no ano anterior. O nobre areópago, portanto, se o
quisesse, teria tido tempo suficiente para coroá-lo na qualidade de
simples cidadão que, embora membro do Parlamento e chefe da
oposição à Sua Majestade britânica, era decididamente escritor de
profissão. Êle utilizara seus seis anos de involuntário lazer na
composição de seis vigorosos volumes de notas e lembranças da
Segunda Guerra Mundial, dos quais o último só apareceu em 1953.

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Talvez a Academia sueca tivesse desejado esperar o término de
tôda essa obra de historiador e memorialista, abarcando quase
meio século, antes de o consagrar püblicamente com um Prêmio
Nobel.

Convém notar que foram os suecos os primeiros a associarem


o nome de Churchill ao Prêmio Nobel; em seguida, sua candida­
tura, que se tornou ràpidamente popular, foi apresentada e reapre-
scntada quase exclusivamente por historiadores e escritores suecos,
dos quais vários membros da Academia, que não tardou a escolher,
entre tantos, êsse nome ilustre, mas somente após o haver sub­
metido ao exame de nada menos que dois relatores.

Aliás, o primeiro relatório sôbre a atividade do candidato,


feito pelo velho Per Hallstrõm, antigo Secretário perpétuo da
Academia, é negativo nas suas conclusões. Não poderia reconhecer
qualquer mérito literário no pequeno romance de aventuras
Savrola, composto pelo jovem tenente Churchill em 1897 para
enganar o tédio de sua vida de guarnição na Índia, quando não
havia inimigos a combater. Por outro lado, o retrato que o futuro
homem político esboçou de si mesmo, através das recordações da
infância e da juventude no seu primeiro livro autobiográfico, Meus
Jovens Anos, possui, aos olhos do relator, graça e altas qualida­
des artísticas. Ora, segundo a opinião de Hallstrõm, um julga­
mento dos méritos de Churchill historiador só poderia ser feito
em relação aos quatro volumes que êle dedicou ao seu grande
antepassado, o primeiro Duque de Marlborough, vencedor de
Luís XIV. Da vasta e tão louvada obra sôbre a Primeira Guerra
Mundial, A Crise Mundial, Hallstrõm fala mais ou menos nos
mesmos têrmos de meia admiração e meia ironia que usa Lord
Arthur Balfour, então Secretário de Estado dos Negócios Estran­
geiros, aos olhos do qual êsse livro de seu colega da Marinha não
foi senão a “brilhante autobiografia de Winston disfarçada em
História Universal”. Recordando que, até aquela data, só Theodor
Mommsen fôra considerado digno de um Prêmio Nobel por sua
obra de historiador, e fazendo um apêlo a seus confrades historia­
dores da Academia, o relator pergunta, concluindo, se semelhante
distinção, conferida ao autor do único livro sôbre Marlborough,
poderia realmente ter fundamento.

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Dois anos mais tarde, em 1948, o Professor Nils Ahnlund,
ilii Academia sueca, responde ao apêlo do seu venerável confrade
c expõe, num segundo relatório, seus pontos de vista, não apenas
lôbre as obras históricas de Churchill. Em primeiro lugar, êle se
refere ao Professor Jorge Trevelyan, da Universidade de Cam-
brldge, eminente conhecedor da história da Inglaterra no tempo
de Marlborough. Cheio de admiração pela obra de Churchill, o
próprio Trevelyan o apresentaria ao Prêmio Nobel, e isso apesar
da violenta crítica com a qual Churchill censurara o célebre histo­
riador Macaulay, tio-avô de Trevelyan e o primeiro biógrafo de
Marlborough.

Ao contrário de Hallstrõm, Ahnlund ressalta o grande valor


documentário da magnífica obra de Churchill sôbre a Primeira
(iucrra Mundial. Em nenhum outro lugar da riquíssima literatura
consagrada a essa guerra, observa êle, sente-se tão intensamente
o palpitar da época e dos seus grandes acontecimentos. Quem con­
segue criar tais impressões, implicitamente possuirá qualidades
artísticas e literárias bem acima do comum. Churchill, na opinião
dêsse relator, é o pintor incomparável da história de nosso tempo.
Hntretanto, conclui, sua obra histórica talvez não pudesse bastar,
por si só, para justificar a recompensa de um Prêmio Nobel. Mas
no caso de se completar a personalidade literária de Churchill por
sua atividade de orador público, sem igual entre os contemporâ­
neos, sem dúvida êle preencheria, como poucos, tôdas as condições
que se poderia exigir para um Prêmio Nobel. “Nenhum homem
conseguiu produzir, com a sua eloqüência, tal eco e ninguém atin­
giu um público tão vasto”, lemos por fim. “É, portanto, como
orador que Churchill merece, antes de mais nada, seu Prêmio; mas
o resto de sua produção forma um quadro adequado à arte ora­
tória”.

Malgrado êsse segundo relatório extremamente satisfatório,


a Academia sueca houve por bem esperar ainda cinco anos, antes
de ceder aos apelos que de tôda parte se tornavam cada vez mais
insistentes. O ano de 1953, por outro lado, deveria trazer a Chur­
chill não só o Prêmio Nobel, mas também, por ocasião da coroa­
ção da Rainha, a sua nomeação para a Ordem real da Jarreteira.

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A disputa do Prêmio Nobel naquele ano não foi própria-
mente árdua. O Pen Clube sueco que, em conseqüência da viva
atuação do seu presidente de então, o Príncipe Guilherme da
Suécia, tivera muita sorte com os candidatos dos anos anteriores,
contentou-se em apoiar o nome apresentado pelo clube coirmão
inglês, o do velho romancista Edgar Morgan Forster. Entre os
demais concorrentes, vinte e cinco ao todo, convém citar o ameri­
cano Ernest Hemingway, o irlandês Halldor Laxness e o espanhol
Juan Ramón Jiménez, que seriam, nessa ordem, os vencedores
dos anos sucessivos. Não possuíam envergadura para ameaçar
sèriamente a candidatura de Churchill, a quem o Prêmio foi, por­
tanto, atribuído a 15 de outubro, “pela perfeição com a qual
apresenta a matéria histórica e biográfica, assim como pela bri­
lhante eloqüência que o tornou defensor de altos valores humanos”.

Por causa da situação particular do nôvo laureado, a Aca­


demia fêz uma alteração na regra, sempre escrupulosamente obser­
vada, sôbre o voto secreto até ao escrutínio final. Assim, Churchill
foi sondado por via diplomática, alguns dias antes da data fixada
para a votação, a fim de se saber se êle estaria disposto a aceitar
o Prêmio. O Primeiro Ministro respondeu imediatamente que se
sentiria muitíssimo honrado, caso fôsse escolhido. Isso êle repetiu
com efusão ao Embaixador da Suécia, em Londres, Sr. Gunnar
Hágglõf, quando êste se dirigiu a Downing Street, n? 10, para lhe
confirmar a decisão da Academia. O Primeiro Ministro acres­
centou que apreciava sobretudo o fato de haver sido distinguida
exatamente a sua obra literária. Sentir-se-ia feliz em ir a Estocolmo,
a fim de apresentar pessoalmente os seus agradecimentos e respei­
tos à “ilustre e douta Academia sueca” e também para admirar
as belezas da cidade, única das capitais européias que êle jamais
visitara, para seu grande pesar. Entretanto, frisou, ser-lhe-ia neces­
sário, ao aproximar-se de seu octogésimo aniversário, poupar as
fôrças e limitar ao estritamente necessário a sua participação nas
festas Nobel; salvo as poucas palavras de praxe, em agradecimento,
no banquete após a distribuição dos Prêmios, eliminaria os dis­
cursos e a entrevista à imprensa, mas evidentemente compareceria
ao jantar tradicional do Rei, do qual êle seria hóspede de honra
durante a sua estada, e, quanto ao mais, muito sightseeing.
Infelizmente, nem mesmo êsse programa tão reduzido seria
cumprido, para profunda decepção de todos, na Suécia e no resto
do mundo, pois o grande estadista foi retido por uma conferência
internacional nas Ilhas Bermudas, onde o Presidente Eisenhower
havia convocado os dirigentes inglêses e franceses, para discutir
com êles certas questões referentes à defesa comum da Europa,
11 pós a morte de Stalin e as primeiras experiências de guerra atô­
mica. Foi Lady Clementina Churchill que, acompanhada pela filha
mais môça, Mrs. Mary Soames, deveria representar seu ilustre
marido nas solenidades Nobel da capital sueca.

Evidentemente, foi geral a satisfação da imprensa inglêsa,


que, desde a véspera do dia em que o Prêmio foi oficialmente outor­
gado a Churchill, publicou a notícia como fato consumado. Vários
jornais comentaram o acontecimento em seus editoriais. “O Prêmio
é dado ao Primeiro Ministro, como se podia esperar — lemos por
exemplo em The Times — por seus trabalhos históricos e auto­
biográficos e, provàvelmente, em primeiro lugar, pela obra consa­
grada a Marlborough e seu tempo.” Mas o Prêmio lhe foi dado
também, salienta com satisfação o grande órgão londrino, “por
sua eminente arte oratória. As palavras são fugitivas e, outrora,
ter-se-iam perdido completamente, ou a rigor, seriam lembradas
numa ou noutra paráfrase fragmentária. Ora, os melhores de seus
discursos estão conservados na totalidade e para todos os tempos.
Os compatriotas de Churchill poderão participar do seu orgulho,
vendo êsses discursos — que durante os anos mais sombrios da
guerra alimentavam sua coragem e ainda permanecem vivos em
suas almas — serem recompensados por uma das palmas de maior
prestígio da literatura universal”.

O Daily Telegraph, principal órgão conservador, cumpri­


menta a Academia sueca pelo “julgamento pràticamente infalível
de que dá prova na atribuição dos Prêmios Nobel, de maneira a
ser possível considerar insigne honra o recebimento de um dêsses
Prêmios. Que historiador desdenharia ver-se igualado a Mommsen
e que escritor não se sentiria orgulhoso em ser comparado aos
Kipling, Maeterlinck, Hauptmann, Anatole France, Shaw e
Yeats?” É verdade, resume êsse jornal, que para Churchill “a lite­
ratura não foi senão uma ocupação acessória de uma vida de
intensa ação, o que não o impediu de demonstrar, como nenhum

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outro em nossos dias, que a eloqüência pode continuar uma fôrça
viva da História”.
O grande jornal liberal Manchester Guardian regozijou-se
igualmente por haverem dignificado a arte oratória como um gê­
nero literário entre outros: “Se os discursos de Demóstenes e Cícero
pertencem às belas-letras, o mesmo se dirá em relação às palavras
pronunciadas por Sir Winston em 1940 e em várias outras oca­
siões. É justo que o seu valor literário tenha sido reconhecido.
Quanto à sua produção de historiador, parece difícil distinguir
suas obras principais dos acontecimentos aos quais deram seu
aspecto definitivo.”

Na França, o Prêmio Nobel de Churchill teria certamente


provocado uma satisfação mais unânime e profunda, se êle não
tivesse, num discurso recente, agradecido aos franceses pelos bons
conselhos paternais e advertências ameaçadoras quanto à questão
que se discutia no momento com ardor, sôbre uma Comunidade
européia armada. Le Figaro, que publicava em folhetins suas me­
mórias da última guerra, testemunhou evidentemente o mais vivo
contentamento. Le Monde constatou que, durante sua longa car­
reira, o grande homem havia incontestàvelmente “combatido tanto
com a pena quanto com a espada”. Por outro lado, Franc-tireur e
Combat, antigos jornais da Resistência, de maneira alguma angló-
fobos, fizeram reservas explícitas contra uma escolha que ambos
atribuíram a motivos políticos louváveis, mas que, segundo sua
opinião, deveria causar, ao mesmo tempo, sensação e espanto no
mundo das letras. Quanto a L ’Aurore, é da opinião que jamais
um Prêmio Nobel teria suscitado tal entusiasmo na Suécia, “nem
mesmo o Prêmio atribuído ao sueco Par Lagerkvist no ano pre­
cedente”.

Não faltaram, contudo, vozes críticas na imprensa sueca.


Particularmente duro foi o Morgen-Tidningen, órgão oficioso do
partido sociaüsta no poder, para o qual a vitória de Churchill eqüi­
vale a um atestado de derrota da Academia sueca. “Em vão canta
César, êle jamais será Orfeu”, aprendemos. Através dessa inopi-
nada escolha, a Academia não teria feito mais que patentear o
seu completo oportunismo. Outros jornais, igualmente de esquerda,
puseram em evidência a significação política de um prêmio lite-

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rárlo atribuído a um estadista, para quem a literatura nunca pas-
N t i r i a de algo acessório, uma ocupação das horas de lazer. Haveria
vários outros escritores de profissão mais merecedores do que êle
ile semelhante distinção; o nome de Laxness reaparece freqüente­
mente em suas colunas, como um refrão, ao qual, aliás, a imprensa
progressista da Islândia faz um eco amplificado. Tanto mais entu-
NlaNta é a imprensa de direita na Suécia, que reflete, sem dúvida,
n opinião da grande maioria do povo sueco. “Churchill é uma
jirande figura da História Universal, mas pertence também à
História da Literatura, pois, nos seus livros, Clio permanece real­
mente uma das nove Musas”, escreve o Svenska Dagbladet, sob a
assinatura de Knut Hagberg, e acrescenta: “Um mundo foi des­
pertado pelos discursos de Churchill. Jamais, anteriormente na
História, uma voz humana exerceu ação de tal importância, direta
e imediata. Precisamente a perfeição artística da eloqüência com­
bativa de Churchill tornou-se arma temível na grande luta dos
povos livres.”
A Sigfrid Siwertz, romancista e ensaísta de fama internacio­
nal, coube a honra de saudar Churchill em nome da Academia
Sueca, por ocasião da entrega solene dos Prêmios Nobel do ano.
Siwertz compara-o a Júlio César, a Cícero, a Marco Aurélio, a
Napoleão e, por fim, a Lawrence da Arábia, todos homens de
ação, que sabiam servir-se da palavra para chegar a seus fins.
Não concorda com Churchill, quando êste escreve a propósito do
seu grande antepassado: “As palavras são fáceis e múltiplas, mas
as grandes ações são difíceis e raras”. Também são difíceis e raras
as palavras grandes, vivas e operantes, observa Siwertz, acrescen­
tando que o próprio Churchill havia muito bem demonstrado que
elas podem algumas vêzes assumir o caráter de altos feitos. E
chega a esta conclusão: “Rápida, fortemente impressionante, gran­
diosa e patética, tal se apresenta a arte oratória de Churchill na
idade madura. Aí existe uma fôrça que comanda a marcha da
1íistória. As proclamações de Napoleão algumas vêzes foram ope­
rantes e, todavia, resplandescentes por seu estilo lapidar. Mas os
apelos de Churchill nas horas decisivas da liberdade e da digni­
dade humanas emocionam de maneira diversa. Talvez tenha êle
erguido, por seus grandes discursos, o monumento mais duradouro
de sua vida.”

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Em lugar do seu marido, compareceu Lady Churchill para
receber o Prêmio Nobel das mãos do Rei, de quem foi hóspede,
em companhia de sua filha. Durante o banquete no Palácio, após
a cerimônia da entrega dos Prêmios, ela leu o discurso de agrade­
cimento do grande homem ausente, discurso fascinante, onde se
misturava o humor brincalhão que lhe é peculiar a certos acentos
mais graves, às vêzes patéticos.

Primeiramente, eis alguns amáveis gracejos a propósito do


Prêmio e dos juizes acadêmicos:

“A lista dos laureados à qual meu nome se associou com­


preende alguns dos maiores nomes da literatura universal do sé­
culo XX. O julgamento da Academia Sueca é aceito como impar­
cial, decisivo e sincero em todo o mundo civilizado. Sinto-me orgu­
lhoso, mas também, devo confessá-lo, aterrorizado por vossa deci­
são em me inscrever nesta lista. Espero que vós tenhais tido razão.
Sei que ambos, a Academia e eu próprio, corremos considerável
risco, mas não por culpa minha. Contudo, não terei receio de espé­
cie alguma, se a Academia também não tiver.”

E aqui está a peroração, ouvida num silêncio recolhido por


uma assistência de quase mil pessoas e coroada por uma explosão
de aplausos:

“Desde a morte de Alfred Nobel, em 1896, entramos numa


era de tumulto e tragédia. O poder do homem aumentou em todos
os domínios, exceto no que concerne ao controle de si mesmo.
No campo da ação, jamais os acontecimentos pareceram diminuir
tão duramente a personalidade humana. Raramente na História,
tantos fatos brutais dominaram tanto o pensamento. A grave ques­
tão se apresenta a todos nós: será que nossos problemas ultrapassa­
ram o nosso controle? Sem dúvida alguma, atravessamos um perío­
do em que isso pode ser verdadeiro. Portanto, devemos, com
humildade, procurar o caminho da salvação.

“Nós que, primeiramente, na Sociedade das Nações, e, hoje,


nas Nações Unidas, tentamos dar bases duradouras à paz, essa
paz com que os homens sonham há tanto tempo, vivemos para ver
um mundo despedaçado por suas divisões e ameaçado por discór­

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dias ainda mais graves e violentas do que aquelas que convulsiona-
ram a Europa após a queda do Império Romano.

“Sem perder de vista êste sombrio back-ground, é que pode­


mos apreciar com mais sinceridade a nobreza e a esperança que
inspiraram o pensamento de Alfred Nobel.”

Com efeito, o mundo acabava de entrar na era atômica, e


Churchill aproveitou o ensejo que lhe proporcionou o seu Prêmio
Nobel, para fazer ressoar êste primeiro grito de alarma, na tribuna
de um país neutro.
Tradução de Helena Parente Cunha

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DISCURSO DE RECEPÇÃO
PRONUNCIADO POR
S. SIWERTZ
POR OCASIÃO DA ENTREGA DO

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA


A
W INSTO N S. CHURCHILL
NO D IA 10 D E DEZEMBRO DE 1953
I xeelência,

Minhas Senhoras,

Meus Senhores,

É muito raro que os grandes estadistas e os grandes guerrei­


ros tenham sido igualmente grandes escritores. Pensa-se em Júlio
César, em Marco Aurélio e mesmo em Napoleão, cujas cartas a
Josefina, escritas no curso da primeira expedição na Itália, estão
seguramente impregnadas de paixão e brilho. Mas o homem que
mais fàcilmente se pode comparar a Sir Winston Churchill é
Disraeli, que foi também um grande escritor. Sôbre Disraeli pode­
mos dizer o que Churchill disse de Rosebery, a saber, “que êle se
desenvolveu numa época de grandes homens e pequenos aconte­
cimentos”. Êle jamais se viu exposto a provas verdadeiramente
temíveis. Mas utilizou seus escritos, em parte como trampolim polí­
tico, em parte como derivativo de seus sentimentos. Numa série
de romances românticos e autobiográficos, às vêzes de leitura
muito difícil, tirou sua desforra contra as humilhações e os ataques
sorrateiros que êle, o Judeu estrangeiro numa Inglaterra dominada
por aristocratas, sofria, malgrado a sua prodigiosa carreira. Não
foi um grande escritor, mas um grande ator, que desempenhou seu

21
papel principal de maneira surpreendente. Êle teria podido muito
bem repetir as palavras de adeus pronunciadas por Augusto:
“Aplaudam, meus amigos, a comédia terminou!”

O perfil à John Buli de Churchill sobressai na máscara esbran­


quiçada e exótica do velho estadista, com o seu anel de cabelos
negros na fronte. O conservador Disraeli venerava as modalidades
de vida e as tradições inglêsas, que Churchill, radical em vários
pontos de vista, tem no sangue, inclusive a segurança em meio à
tempestade e o ímpeto resoluto, que caracterizam ao mesmo tempo
suas palavras e ações. Não usa máscara, não é uma natureza com­
plexa e enigmática, porém simples. A morbidezza analítica, sem
a qual a geração atual acha difícil imaginar um autor, lhe é desco­
nhecida. É um homem para quem a realidade não forma senão
um só bloco. O mundo está aí, simplesmente, com seus caminhos
e suas metas, sob o sol, as estréias e as bandeiras. Sua prosa é tão
consciente da meta e da glória, quanto o corredor no estádio. Cada
uma de suas palavras já é uma ação iniciada. De corpo e alma,
êle é um homem da época vitoriana, que nasceu fora do seu tempo
e foi atingido pela tempestade, ou melhor, que preferiu enfrentar
a tempestade por livre escolha.
As façanhas políticas e literárias de Churchill são de tal
grandeza, que a tentação nos vem de o aproximar da figura de
César, que também possuía o dom de manejar o estilo de Cícero.
Jamais antes dêle, um personagem proeminente da história esteve
tão próximo de nós, por motivo de uma associação também única.
Na importante obra sôbre seu antepassado Marlborough, Churchill
escreve: “As palavras são fáceis e múltiplas, enquanto os grandes
feitos são difíceis e raros”. Certamente, porém, mesmo as pala­
vras grandiosas, vivas e persuasivas são difíceis e raras. E Churchill
mostrou que elas podiam também assumir o caráter de grandes
ações.
Talvez seja o aspecto resoluto e colorido da obra de Churchill
o que impressionou em primeiro lugar o leitor. Para muitos, Meus
Jovens Anos é também uma das mais divertidas histórias de aven­
turas do mundo. Mesmo um espírito muito jovem pode acompa­
nhar com o mais profundo prazer o ardoroso início da vida do

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herói, vendo o menino inadaptado à escola, o tenente de cavalaria
apaixonado pelo pólo (consideraram-no muito pesado para a infan­
taria), o correspondente de guerra em Cuba, nas províncias limí­
trofes da índia, no Sudão e na África do Sul durante a guerra dos
bôeres. Rapidez de ação, intrépidos julgamentos e viva percepção
distinguem-no mesmo aí. Como pintor de palavras, o jovem Chur­
chill não tem apenas verve, mas também acuidade visual. Mais
tarde adotou a pintura como derivativo, encantando-nos em Pen­
samentos e Aventuras com a narração das alegrias que ela lhe
proporcionou. Confessa o seu amor pelas cores brilhantes e se
sente contristado diante da pobreza das cores escuras. Entretanto,
Churchill pinta melhor com palavras. Suas cenas de batalha pos­
suem colorido incomparável. O perigo é o mais antigo mestre do
homem e, no ardor da ação, o jovem oficial se inflama com uma
clarividência quase visionária. Durante uma visita a Omdurman, há
bastante tempo, descobri até que ponto o combate final, no mo­
mento da derrota do levante do Mahdi, tal como está pintado em
A Guerra do Rio, ficara gravado em minha memória. Eu podia
ver diante de mim as hordas do derviche brandindo os seus dardos
e os seus fuzis, as fortificações de areia, de um amarelo ocre, des­
baratadas pelos canhões, o avanço metódico das tropas anglo-
•egípcias e a carga da cavalaria que por pouco não custou a vida
a Churchill.
Mesmo antigas batalhas que devem ser exumadas de arquivos
poeirentos são descritas por Churchill com terrível clareza. Treve­
lyan é o pintor magistral das campanhas de Malborough, mas
quanto à fôrça de imaginação, é difícil que as cenas históricas de
batalhas feitas por Churchill possam ser superadas. Tomemos, por
exemplo, a batalha de Blenheim. Acompanhamos fascinados os
movimentos dêsse sangrento jôgo de xadrez, vemos as balas de
canhão traçarem suas trajetórias através dos esquadrões compac­
tos, sentimo-nos transportar pela fulminante descarga e o feroz
corpo-a-corpo da cavalaria e, após encerrar a leitura do livro,
podemos imaginar, fechando os olhos, que, molhados de suor frio,
encontramo-nos na primeira fila, em meio ao vermelho do uni­
forme dos inglêses, os quais, sem hesitar, permanecem entre as
pilhas de cadáveres e que, apesar dos ferimentos, carregam seus
fuzis e disparam seus tiros chamejantes.

23
Mas Churchill tornou-se muito mais que um soldado e um
pintor de guerra. Já na prática severa, porém brilhante do jôgo
parlamentar pelo poder, êle se mostra, talvez desde a origem,
muito semelhante a um menino colérico. O jovem Aquiles, entre­
tanto, aprendeu a refrear sua impetuosidade, tornando-se logo um
eminente orador político com o mesmo dom de réplica de Lloyd
George. Seus repentes, muitas vêzes cruéis, não excluem o calor
nem o espírito cavalheiresco. No vaivém entre o torismo e o radi­
calismo, seguiu as pegadas de seu pai, Lord Randolph Churchill.
Dêste, êle também pintou a vida política e pessoal, breve, difícil
e tràgicamente interrompida, numa obra que ocupa indiscutível
lugar de honra na abundante literatura biográfica da Inglaterra.
Mesmo a Primeira Guerra Mundial, malgrado todos os ata­
ques sorrateiros, deu a Churchill uma ocasião única de se revelar
ao mesmo tempo como político e escritor. Nas obras históricas, as
lembranças pessoais e os fatos materiais foram intimamente mes­
clados. Êle sabe do que fala. O encadeamento fatal dos aconteci­
mentos manifesta sua profunda experiência. É um homem que se
viu no fogo, que se arriscou e resistiu a influências consideráveis.
Isso confere a suas palavras uma fôrça vibrante. Talvez tenha
primazia, às vêzes, o lado pessoal. Lord Balfour chamou A Crise
Mundial "a brilhante autobiografia de Winston disfarçada em his­
tória mundial”. Com todo o respeito devido aos arquivos e aos
documentos, algo existe de particular na História escrita por um
homem que ajudou a fazê-la.

Em seu grande livro sôbre o Duque de Marlborough, cuja


obra é tão semelhante à do próprio Churchill, êste se entrega a um
arrojado ataque contra os detratores de seu antepassado. Ignoro
o que dizem os historiadores profissionais sôbre a sua polêmica
contra Macaulay. Mas suas diatribes contra os inimigos e os difa-
madores tenazes do grande general certamente são divertidas e
estimulantes.

A obra sôbre Marlborough não apresenta só uma série de


cenas vivas de batalhas e uma hábil defesa do estadista e do mili­
tar. Ê, ao mesmo tempo, o estudo penetrante de uma personalidade
enigmática e única, mostrando que Churchill é também capaz de

24
traçar uma autêntica pintura de caráter. Volta incessantemente
àquela mistura confusa em Marlborough de metódica parcimônia
e brilhante virtuosismo: “Baseado nos mesmos princípios obser­
vados pelo Estado-Maior em suas campanhas, êle havia edificado
sua fortuna particular, a qual constituía uma parte do mesmo
plano. Era somente no amor e no campo de batalha que êle acei­
tava todos os riscos. Nesses instantes de suprema exaltação, abolia
seu sistema e suas regras de vida e resplandecia de heroísmo. Em
seu casamento e em suas vitórias, o egoísmo cauteloso, o espírito
previdente, o excesso de segurança que regulavam sua vida habi­
tual e sustinham seu comportamento eram afastados, como se êle
tirasse uma roupa muito carregada de bordados; o gênio então
podia jorrar, qual dominador seguro e triunfante.”
No seu entusiasmo militar, Churchill esquece por um instante
que Sara, o célebre e terno amor de Marlborough, não era abso­
lutamente alguém que se deixasse subjugar. Apesar dessa omissão
trata-se de uma passagem maravilhosa.
Churchill lamentou jamais ter podido fazer os estudos em
Oxford. Teve que dedicar suas horas de lazer para se educar. Mas
certamente não se percebem lacunas em sua prosa, quando atinge
a maturidade. Tomemos, por exemplo, Os Grandes Contempo­
râneos, uma de suas mais fascinantes obras. Segundo sua opinião,
modelou aí o estilo pelo de Gibbon, Burke e Macaulay, mas sobre­
tudo, é êle próprio. Que finura de tato e, ao mesmo tempo, que
soma de conhecimentos humanos, de generosidade e chistosa malí­
cia, nessa galeria de retratos!
A reação de Churchill face a Bernard Shaw é muito diver­
tida, encontro mordaz de duas personalidades literárias, entre as
maiores da Inglaterra. O estadista não pode deixar de zombar da
tagarelice do escritor, de uma alegria involuntária, e da sua facún-
dia que contrastam com a gravidade inerente ao homem. Êle se
afasta, meio divertido, meio apavorado diante da maneira com a
qual êsse gênio, incorrigivelmente clown, dá rasteiras e saltos peri­
gosos entre as mais arriscadas antíteses. É o contraste entre o
escritor que deve a qualquer preço provocar surprêsas e o estadista
cuja função é enfrentá-las e vencê-las.

25
Não é fácil resumir em algumas palavras a grandeza do estilo
de Churchill. Êle diz, em relação ao seu velho amigo, o estadista
liberal John Morley: “Bem que na conversação êle se pavoneasse
e, com agilidade e elegância fizesse manobras em tôrno de suas
próprias convicções, apresentando ao adversário saudações e osten­
tosos cumprimentos, como nas guerras antigas, sempre ia dormir
no seu campo fortificado.”
Como estilista, Churchill, apesar do ardor cavalheiresco, não
é propenso a tão amáveis arabescos. Não faz rodeios; usa sempre
de franqueza. De fervor realista, sua fôrça de ataque só é abran­
dada pelo humor e amplitude de visão. Sabe que uma boa história
se conta por si mesma. Despreza os floreados inúteis e suas metá­
foras são raras, mas expressivas.
Churchill escritor se apóia em Churchill orador, o que explica
o fluir e a vivacidade de suas frases. Muitas vêzes nós nos defi­
nimos inconscientemente, fazendo elogios aos outros. Churchill,
por exemplo, diz sôbre um amigo seu, Lord Birkenhead: “Quando
êle se entusiasmava por seu assunto, irrompia êsse ardor instintivo
e inestimável que constitui a eloqüência verdadeiraEssas pala­
vras poderiam ser aplicadas ao próprio Churchill, com mais razão
ainda.
O famoso guerreiro do deserto, Lawrence da Arábia, autor
das Sete Pilastras da Sabedoria, foi também um dos que fazem e
e ao mesmo tempo escrevem a História. Churchill disse, sôbre êle:
“Assim como um avião voa por causa da sua velocidade e da
pressão do ar, da mesma forma êle, no furacão, voava melhor e
mais fàcilmente.”
Ê novamente impressionante ver como Churchill fala, tam­
bém aqui, sôbre o mesmo gênio que conduzia suas próprias pala­
vras através da tempestade dos acontecimentos.
A eloqüência amadurecida de Churchill é rápida, infalível no
seu objetivo e emocionante em sua grandeza. É a fôrça que forja
os elos da História. As proclamações de Napoleão foram muitas
vêzes eficazes por seu estilo lapidar, porém a eloqüência de Chur­
chill, nas horas decisivas da liberdade e da dignidade humana,

26
tinha um outro tipo de ardor. Seus grandes discursos constituem,
sem dúvida, seu monumento mais duradouro.
Lady Churchill,
A Academia sueca exprime sua alegria pela vossa presença
e vos roga que transmitais a Sir Winston Churchill a expressão de
seu profundo respeito. Um prêmio literário se propõe a dar mais
brilho ao nome do autor, mas, no caso presente, é o autor que
faz brilhar mais o prêmio. Rogo-vos receber neste momento, em
nome de vosso marido, o Prêmio Nobel de Literatura de 1953 das
mãos de Sua Majestade o Rei.

Tradução de Helena Parente Cunha

27
V ID A
E
OBRA
DE

W IN ST O N S. CHURCHILL

POR

HUGH R. TREVOR — ROPER


Professor da Universidade de Oxford
WINSTON S. CHURCHILL
S i r Winston Churchill é uma das grandes figuras da His­
tória européia. Tem também um grande nome na literatura inglêsa.
Antes dêle, nenhum estadista deixou uma dupla marca tão forte
em sua geração. Os grandes tribunos do passado não se dirigiam
senão a seus concidadãos e assim mesmo a uma insignificante
parte dêles. Mas os grandes discursos pronunciados por Churchill
durante a Segunda Guerra Mundial, graças ao rádio, atingiram,
cheios de calor, o mundo inteiro. Incitavam a Inglaterra, como o
fizera outrora William Pitt, “a se salvar pelos próprios esforços e
a salvar a Europa por seu exemplo”. E nada perderam de sua
fôrça. Lidos hoje, pela primeira vez ou num segundo encontro,
agora que uma geração nova chegou à idade adulta, arrastam
sempre, também irresistivelmente, à adesão. Embora a situação
dramática que os gerou não seja mais que uma recordação, uma
vicissitude da história, seu estilo cheio de majestade, sua constru­
ção impecável, seu ritmo sem defeito, fazem sempre dêsses discur­
sos um monumento literário. Foi ao homem de letras e não ao
homem de Estado que se conferiu o Prêmio Nobel.

Seu lugar na poderosa literatura da Inglaterra

Mas, se os acontecimentos de 1939-1945 deram a Churchill


ensejo de atingir a grandeza, suas qualidades de estadista e escri­
tor estavam bem estabelecidas havia longo tempo. Se êle tivesse
morrido em 1938, teria tido seu lugar na História inglêsa, e mesmo

31
na do mundo, e suas obras já publicadas — autobiografias, bio­
grafias, livros políticos e históricos — já lhe garantiam um lugar
no panteão literário de sua pátria. Para os que vêem nêle o esta­
dista e o orador dos anos 1940-1945, torna-se às vêzes difícil per­
ceber que a vida política de Churchill se iniciou em 1900, que
Churchill foi ministro em 1905 e várias vêzes depois, e que seu
primeiro livro foi publicado em 1898. Sua dupla atividade, polí­
tica e literária, não conheceu interrupção durante sessenta anos.
Como é normal para um estadista, a política e a literatura
se alternavam na sua vida. Os livros de Churchill foram escritos
nos anos de eclipse político. Bom número de estadistas, talvez
sobretudo na Inglaterra, dedicaram-se à literatura nos intervalos
do poder, felizmente assegurado pelo sistema britânico dos dois
partidos. No século passado, Lord Derby traduzia Homero, Dis­
raeli escrevia romances, Gladstone derramava uma onda de erudi­
ção bombástica, bíblica e clássica, Arthur Balfour publicava livros
de filosofia, Lord Rosebery, livros de história, e Lloyd George,
memórias de guerra. Sir Winston Churchill entrou no domínio de
vários de seus predecessores e a todos superou em produtividade.
Se o seu único romance não poderia competir com os de Disraeli,
por outro lado, êle é um historiador melhor e mais bem documen­
tado que Rosebery; soube evitar a minúcia na erudição, com o
que Gladstone se ridicularizou; como memorialista, é muitíssimo
superior a Lloyd George. Além de tudo isso, triunfa sôbre a maio­
ria dos seus rivais, deixando de cada qual um retrato duradouro.
Balfour, Curzon, Rosebery e Asquith, em Os Grandes Contempo­
râneos, foram todos pintados, liberais e conservadores, com uma
imparcialidade natural, pois Churchill foi membro dos dois par­
tidos.

Em política, está sempre do lado dos vencedores

A estrita verdade não permite afirmar que Churchill tenha


pertencido aos dois partidos britânicos exatamente como os seus
predecessores imediatos. Nesse bem lubrificado mecanismo, êle
sempre foi uma espécie de grão de areia. Quando ingressou no
Parlamento, em 1900, foi na fileira dos conservadores; mas, como
seu pai, aí figurava como esquerdista. Três anos depois, passava
para os liberais, justamente a tempo de ficar do lado dos vence­

32
dores nas eleições seguintes, reviravolta que levou o partido liberal
ao poder, primeiramente sozinho, depois em coalizão, durante
dezessete anos. No decorrer dêsses dezessete anos, Churchill parti­
cipou do govêrno quase sem interrupção. Ao término dêsse lapso
de tempo, êle se encontrava na eminência de executar uma segun­
da conversão. E voltou a ser tory, no momento exato de poder
receber uma pasta ministerial no primeiro govêrno puramente
tory, desde a sua conversão precedente. De 1900 a 1929, na me­
dida em que o pêndulo político oscilou entre liberais e conserva­
dores, pode-se dizer que Churchill conseguiu sempre ficar do lado
dos vencedores. Só em 1929, quando o Labour obteve pela primeira
vez a maioria, foi que Churchill se instalou nos bancos da oposi­
ção. Fôsse qual fôsse o partido a que pertencesse, Churchill nunca
apoiou o socialismo.

Suas obras não políticas


anteriores à Primeira Guerra Mundial

É natural que muita gente visse nêle um oportunista. Para


os conservadores, a partir de 1903, êle foi um renegado e como
tal detestado durante longos anos. Quando os tories ingressaram
num govêrno liberal, para a coalizão de guerra, exigiram a exclusão
de Churchill, no que foram atendidos. Nos anos trinta, em que
dominaram Baldwin e Chamberlain, adquiriu fama de ser “pouco
sério”. Mas, evidentemente, é absurdo ver nêle um banal oportu­
nista. Para um homem comum, o êxito na vida política britânica
passa pelo sistema dos partidos; porém os maiores estadistas bri­
tânicos mudaram, quer de partido, quer de opinião. Peel, Disraeli,
Gladstone — os três maiores chefes de govêrno do século XIX —
foram tidos como traidores por seus companheiros de partido.
E o “oportunismo” de Churchill não o levou ao poder pelo caminho
fácil. Nos anos trinta, embora membro do partido conservador,
êle se manteve fora da ortodoxia oficial, preocupando ao mesmo
tempo o govêrno e a oposição. Nessa época, pronunciou os seus
mais célebres discursos anteriores à guerra, os que denunciavam
a inércia de Stanley Baldwin e a política de apaziguamento de
Neville Chamberlain. Pertencem também a essa época as obras
não políticas de Churchill: Meus Jovens Anos, Os Grandes Con­
temporâneos, e Marlborough. Por uma ironia da sorte, no mo-

33
mcnto da grande crise, êle apareceu como o único homem capaz
de realizar a união dos partidos. Conservadores, liberais e socia­
listas participaram do grande Ministério da Guerra que êle pre­
sidia. Sua “independência”, seu “oportunismo”, que lhe tornavam
difícil a vida em qualquer partido, faziam dêle o chefe ideal de
uma coalizão. Mas, como êle próprio disse a um amigo, “só me
tornaria Primeiro-Ministro com o Apocalipse”. Essa não é uma
reflexão de oportunista.
Por que se suspeitava tanto de Churchill, na década de trinta?
Uma nova geração surgiu, as paixões se acalmaram e nós pode­
mos debruçar-nos com muito mais serenidade sôbre êsse desastroso
decênio. Isso nos permitirá fazer justiça aos políticos da época,
aos Baldwin e aos Chamberlain, que a História condenou por seu
fracasso. Com tôda a justiça, devemos admitir que êles não erra­
ram completamente. Apenas aconteceu que o problema em relação
ao qual êles fizeram a opção indevida era, na época, o problema
primordial, aquêle que tirava provisoriamente tôda realidade con­
creta a suas outras ambições, por mais honrosas que fôssem.

O romantismo, uma de suas fôrças primordiais

O primeiro objetivo dêsses homens havia sido realizar um


ideal antigo, o ideal de seus pais, destruído pelo terrível holocausto
de 1914-1918. Êsses homens queriam a paz para a Europa, talvez
visando isolar a Grã-Bretanha; e protegidos por essa paz ou êsse
isolamento, êles desejavam concentrar-se no progresso material,
elevar o nível de vida, pacificar a luta entre as classes e as nações
do Império, racionalizar e abrandar a sociedade industrial de engre­
nagens emperradas e que, tendo tomado a guerra tão terrível, de­
veria aprender a não mais fazer a guerra. Homens razoáveis, pen­
savam que o mundo inteiro se tornara permeável à razão. Não
davam grande crédito à História, às atitudes tradicionais, às toma­
das de posição românticas. Não possuíam sentido algum da His­
tória, o que era inteiramente dispensado pela filosofia dêles. Nessas
condições, não podiam convencer-se da realidade de Hitler. Hitler
não era um personagem do século XX. Tampouco podiam consi­
derar Churchill como realista. Era um romântico, que vivia no
passado, no tempo longínquo de Carlos I, de Cromwell, de Luís
XIV, de Marlborough, tempo em que os ditadores e as guerras de

34
conquista correspondiam a uma realidade que não pertencia mais
à sua época.
Sim, um romântico. O romantismo é, no seu entender, uma
das fôrças primordiais, talvez a principal, do caráter de Churchill,
uma fôrça que mesmo o inevitável cinismo da vida política não
esmoreceu. Êsse romantismo jorra espontâneamente na sua juven­
tude, através dêsse amor pela aventura que o arrastou, como com­
batente ou correspondente de guerra, a Cuba, à Índia, ao Sudão,
à África do Sul. Aparece sob maneira menos crítica e mais extro­
vertida nas narrações que dedicou a suas experiências da juven­
tude: História da Fôrça de Malakand (1898) e A Guerra Fluvial
(1899). Transparece num romance em que o escritor revela o
fundo da alma, escrito na Índia e publicado em 1900, Savrola.
Fica visível, corrigido, e a maturidade o toma mais complexo, na
incomparável autobiografia, escrita trinta anos depois, Meus
Jovens Anos.

Desde a juventude, defensor das tradições liberais

Savrola, o único romance de Churchill, sua única obra de


imaginação pura, não é um grande livro. Se não fôsse êle o autor,
ninguém o leria hoje em dia. Pertence a um gênero literário que
estêve em voga e desapareceu. É uma aventura política e roma­
nesca, onde gentlemen, inglêses ou anglicizados, de sentimentos
nobres, são arrastados aos meandros melodramáticos das conspira­
ções de países imaginários, anárquicos ou anacrônicos. A moda
havia sido lançada por Sir Anthony Hope Hawkins que, sob o
pseudônimo de Anthony Hope publicara um romance, O Prisio­
neiro de Zenda, tendo enriquecido o vocabulário inglês com um
nome, para êsse tipo de país de opereta, a Ruritânia. Em Savrola,
Churchill criava uma nova Ruritânia, que êle chamava Laurânia.
Savrola era um chefe liberal, apaixonado pelo progresso, que,
como o próprio Churchill explicaria logo depois, “derrubava um
govêrno arbitrário, para se deixar absorver por uma revolução
socialista”. Desde a juventude, portanto, Churchill se identificava
assim como um defensor das tradições liberais contra as ditaduras
de direita ou de esquerda, sem esquecer a necessidade — e também
o perigo — de ter aliados extremistas.

35
Seria tentador se pudéssemos deter-nos na parte mais român­
tica da vida de Churchill, mas é impossível atingir a mestria com
que êle mesmo a conta. Fazer reviver a própria infância, a adoles­
cência, eis uma das maiores dificuldades para um biógrafo. Como
encontrar, na idade em que a maturidade desenvolveu seu sentido
das nuanças, o tom que permitirá tornar vivo o idealismo um tanto
desastrado, a ingenuidade, a desproporção das esperanças e dos
receios da própria juventude? Como evitar cair nos excessos
opostos de uma identificação ou do afastamento? Meus Jovens
Anos de Churchill é um modêlo do gênero. O estilo ardoroso,
majestoso, a ironia gentil, a humanidade e, ao mesmo tempo,
uma certa indiferença, dão a êsse livro um lugar entre as gran­
des autobiografias inglêsas. E a própria narração é a de uma
pura e alegre vida de aventuras, tornando-se impossível imaginar
que o seu herói venha a ser o grande estadista ou então (salvo
pela graça do estilo do narrador) o homem de letras que conhe­
cemos.

Descendente de família ducal

Winston Churchill nasceu numa espécie de púrpura histórica,


que êle sempre ostentou altivamente, embora com leveza e de
modo muito pessoal. Pertencente a uma família de duques, des­
cendente de um dos maiores soldados da Inglaterra, viu a luz numa
casa ducal, talvez a maior do país. Seu pai, Lord Randolph Chur­
chill, foi um brilhante derrotado da política inglêsa. “Tory de
esquerda”, êle tornava a vida difícil mesmo a seu Primeiro Minis­
tro, Lord Salisbury; cometeu depois o grave êrro de se demitir,
persuadido de ser indispensável e convencido de que seu pôsto lhe
seria restituído dentro das condições que êle impusesse. Lord
Salisbury mostrou mais habilidade política que êle: “Quando aca­
bamos de nos livrar de um furúnculo no pescoço, — declarou —
pensam que desejamos ter outro?” Êle não chamou Lord Randolph,
que definhou e morreu. Winston Churchill jamais esqueceu nem
perdoou essa ofensa. Bem que os elos tenham sempre sido muito
frágeis entre êle e o pai, Winston o respeitou enquanto vivo e o
honrou na morte. Lord Randolph, por outro lado, jamais reconhe­
ceu o mínimo valor político no filho. Após uma educação inglêsa

36
normal, mas que não comportava estudos universitários, êle o fêz
seguir a carreira militar. “Durante anos — escreveria depois o
filho — acreditei que meu pai, com sua experiência e intuição,
tivesse entrevisto em mim as qualidades do gênio militar. Mas
aprendi que êle simplesmente chegara à conclusão de que eu não
tinha inteligência suficiente para tomar-me advogado.”

Voltou da Guerra dos bôeres


aureolado com o prestígio dos heróis

O jovem Winston tomou-se então oficial de cavalaria. Mas


um oficial de cavalaria — sobretudo quando revela grande entu­
siasmo pelo pólo — tem gostos dispendiosos para o seu magro
sôldo. Churchill empregou o seu tempo livre em ganhar o dinheiro
necessário à manutenção de seus cavalos de pólo e em saborear
as delícias de uma vida de aventuras. Não se contentou, portanto,
em participar da guerra na fronteira nordeste da Índia, nem de
integrar a célebre carga de cavalaria de Omurman, que permitiu a
Kitchener conquistar o Sudão, esmagando os exércitos fanatizados
do “mollah louco”; foi também correspondente de guerra em Cuba,
onde os espanhóis lutavam contra os rebeldes, e, na África do
Sul, onde foi feito prisioneiro e capturado pelos bôeres. Dado que
era não-combatente, achou injusto ser pôsto na prisão, em violação
às leis da guerra; escreveu uma carta de protesto ao attorney do
Estado bôer, um certo Smuts, que deveria, bem mais tarde, na
qualidade de Primeiro Ministro da África do Sul, tornar-se um
dos seus amigos mais íntimos. “Winston Churchill não-combatente?
— replicou secamente Smuts. — É impossível.” Mas nesse meio
tempo Churchill fugira da prisão em Pretória, conseguiu esconder-
se no vagão de um trem de carvão e chegou à África oriental por-
tuguêsa. Voltou à Inglaterra aureolado com o prestígio do herói
que havia tido um bom desempenho na guerra com os bôeres e
se elegou para a Câmara dos Comuns. Apresentara-se, como seu
pai, sob a denominação de “tory de esquerda”. Menos de um ano
depois, fazia campanha “para terminar a guerra pela fôrça e gene­
rosidade, e voltar, o mais ràpidamente possível, ao caminho da
paz, da economia e das reformas”. Essas últimas palavras já o
mostram na direção de uma conversão às doutrinas liberais.

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0

“Meus Jovens Anos”


a mais perfeita autobiografia da língua inglêsa
Meus Jovens Anos, que termina no momento em que Chur­
chill estréia no Parlamento, explica também como êle se tomou
escritor. Quando fazia seus estudos em Harrow, jamais chegara a
tomar gôsto pelo latim ou o grego. Assim foi condenado a ficar
muito tempo na classe mais atrasada, onde “Mr. Somervell, um
homem realmente maravilhoso, a quem devo imensamente, era
incumbido de ensinar às crianças mais apalermadas a tarefa mais
desprezível, a arte de escrever em inglês. Êle conhecia essa arte.
Ensinava-a como jamais ninguém a ensinou”, em outras palavras,
explicava sua construção e articulação. “Vi-me assim impregnado
até à medula da estrutura essencial da frase inglêsa corrente, que
é uma nobre coisa.” Alguns anos mais tarde, oficial subalterno em
Bangalore na índia, sentiu “desejo de se instruir” e, lembrando-se
de que seu pai passava por ter lido com deleite o Declínio e Queda
do Império Romano de Gibbon, e por ter sabido páginas inteiras
de cor e ainda por se ter servido do livro como modêlo de estilo
para seus discursos e escritos, pediu em carta a sua mãe que lhe
enviasse a prestigiosa obra. Ficou de tal forma deslumbrado, que
continuou com a Autobiografia de Gibbon. Para qualquer leitor
de Churchill que tenha também M o Gibbon, a influência dêste
salta aos olhos. Nenhum outro mestre marcou de maneira tão nítida
todos os escritos de Churchill. Nos seus grandes discursos, bem
como nas suas memórias das duas guerras, percebemos a dignidade
sem esforço, os nobres períodos, o romantismo disciplinado, o
espírito cortês e majestoso do Declínio e Queda. E atrás de Meus
Jovens Anos há, indiscutivelmente, a mais perfeita autobiografia
em língua inglêsa, com sua ironia distante, sua cálida humanidade,
o estilo elegante e natural cheio de encanto.
Em Bangalore, Churchill não se contentou em ler Gibbon.
Leu também a grande História da Inglaterra de Macaulay e tam­
bém sentiu-se fascinado; mas a retórica rebuscada de Macaulay
não deixou senão poucos traços na eloqüência mais sutil de Chur­
chill. Além do mais, acontece a Macaulay ser muito injusto para
com certas pessoas, sendo uma das pessoas de que êle trata com
mais injustiça, o antepassado de Churchill, o grande Duque de
Marlborough. Na época, Churchill ignorava até onde ia a injustiça
de Macaulay. “Não havia ninguém perto de mim para me dizer

38
que êsse historiador, de estilo cativante e segurança sem limite,
era o príncipe dos patifes literários, que preferia sempre os contos
à verdade.” Foi o que Churchill deveria aprender depois, para
recolocar por si mesmo as coisas no lugar.

Impossível dissociá-lo do pai, a quem tanto admirou

Em 1903, Churchill mudou de partido político pela primeira


vez. Em 1905 o partido liberal, no qual ingressara, subiu ao poder
e logo lhe ofereceu uma pasta. Mas enquanto Churchill estava na
oposição, não ficou inativo. Não se encontrava ainda maduro para
defender seu antepassado contra Macaulay, mas já se empenhara
num trabalho de reabilitação familiar mais próxima dêle. Redigia
a biografia vingadora de seu pai.
É difícil dissociar totalmente Churchill de seu pai, a quem
tanto admirou e cuja obra êle se esforçaria para continuar com
tanta consciência. Lord Randolph Churchill fora, em sua breve
vida, o meteoro do partido tory. Segundo a maneira do jovem
Disraeli, derramava sua retórica impetuosa contra os seus próprios
líderes — “o bando dos velhos” (the old gang), como êle o cha­
mava — sendo acusado de querer destruir o próprio partido. Mas,
contràriamente a Disraeli, êle jamais provocaria cisão. De fato,
reforçou seu partido, criando no país um conjunto de engrenagens
novas. Reforçou-o também pela sua popularidade pessoal e pelos
projetos de progresso social. Fazia campanha para uma redução
das despesas públicas e para reformas como, por exemplo, sem
dar autonomia a Irlanda, adotar uma atitude generosa diante das
reivindicações dos camponeses irlandeses. Sua fama e populari­
dade o haviam tornado indispensável mesmo aos líderes que êle
atacava. Aos 37 anos, tornara-se o mais jovem Ministro das Fi­
nanças e Líder da Câmara dos Comuns, desde Pitt. Aos 38 anos,
após a malfadada demissão, caiu, definitivamente. Menos de dez
anos mais tarde, morreu. Até o fim, embora detestasse Lord Salis­
bury e as tendências tradicionalistas que o predomínio dêste impu-
sera ao partido conservador, Lord Randolph recusou-se a mudar
de partido. Depois, entretanto, seu filho, tendo mudado de partido,
lutava pela mesma política, sob as côres dos liberais; e na bio­
grafia do pai empenhou-se em mostrar a constância profunda e real
das convicções de ambos.

39
0

A biografia de seu pai é uma das seis


melhores da literatura inglêsa
A Vida de Lord Randolph Churchill é a longa história de
uma breve carreira. Mas as biografias da época eram sempre lon­
gas. E essa biografia é importante. É densa de sabedoria política.
Dá, além do mais, a primeira amostra do estilo da maturidade de
Churchill. Êsse estilo estava destinado a se desenvolver ainda, a
ganhar em fôrça e complexidade, em esplendor oratório, em ironia
e em humor. Mas a fôrça e o espírito de penetração já existiam.
Um historiador contemporâneo disse que era “uma das melhores
biografias políticas de todos os tempos”; e um historiador mais
velho, que havia também sido Primeiro Ministro e iria também
compor textos sôbre Lord Randolph Churchill, Lord Rosebery,
dizia que se tratava de “uma das doze melhores e, talvez, uma das
seis melhores biografias da literatura inglêsa”. Nenhum político
poderia esperar monumento mais belo erigido a sua memória.
Mas êsse livro não é apenas um monumento familiar. É um
credo familiar. Um biógrafo tem necessidade de simpatizar com
o seu herói. Nessa biografia, porém, há mais que simpatia, há iden­
tidade de ideal. Ao apresentar a defesa dos pontos de vista do pai,
Winston Churchill esboça muitas vêzes os seus; ao demonstrar a
lógica coerente do pai, é a sua própria que êle afirma. Chega a
dar a entender que se o pai tivesse vivido, teria feito o que êle
mesmo acabava de fazer, isto é, “destruiria os elos sentimentais
com o seu partido”, para se tornai liberal. “Malgrado a aparência
de interrupção e de trágica ruptura, — escreve êle — a vida de
Lord Randolph denota harmonia e unidade dos objetivos e dos
pontos de vista de conjunto. A não-contradição nos discursos tem
apenas pouca importância.. O nome de Lord Randolph, escre­
ve, não ocupará lugar de honra em nenhum dos partidos; mas que
importa? “A personalidade e o papel de um homem político me-
dem-se, enquanto vive, nas dimensões do partido. Quando morre,
tudo o que pôde executar em nome do partido está acabado. . .
Existe uma Inglaterra que se estende muito além das massas disci­
plinadas reunidas pelas engrenagens do partido, com o fim de
saudar com aclamações apropriadas os discursos dos porta-vozes
oficiais.. .. Era àquela outra Inglaterra que se dirigia Lord Ran-

40
dolph Churchill; foi aquela Inglaterra que êle quase conquistou
com suas opiniões; é aquela Inglaterra que lhe dará um julgamento
justo.”

Toma posição agressiva contra o voto das mulheres

Prestando homenagem ao pai conservador, desde as fileiras


do partido liberal no qual ingressara, Winston Churchill já prepa­
rava o caminho para a afirmação da sua própria lógica coerente.
Durante os anos seguintes, continuou, como liberal, a preconizar
medidas firmes, porém generosas, economias orçamentais, refor­
mas sociais. Mas, como acontece muitas vêzes, as reformas sociais
estavam à mercê da situação internacional, e a situação interna­
cional exigia pesadas despesas de armamento, que absorviam os
créditos das reformas sociais. A época eduardiana, que hoje apa­
rece opulenta e calma, era, de fato, uma época de tensões crescen­
tes e paixões furiosas. Na Grã-Bretanha, havia a agitação das
sufragistas, muitas vêzes dirigidas contra o próprio Churchill em
pessoa, pois êle tomara uma posição agressiva contra o voto das
mulheres; houve a longa luta constitucional entre as Câmaras dos
Comuns, de maioria liberal, e a Câmara dos Pares, onde domina­
vam os conservadores, terminando com o ataque brutal de 1911;
e havia o problema perpétuo do Home Rule irlandês, reivindica­
ção de autonomia, que no seu tempo parecera um simples proble­
ma de manutenção da união parlamentar dos dois países, união
realizada por Pitt em 1800, e que se tornava infinitamente mais
complexa desde que o Ulster protestante recusava antecipadamente
o predomínio da católica Dublin, chegando-se à entrever a ameaça
de uma guerra civil. E durante êsse tempo, no resto do mundo,
todos os problemas passavam mais ou menos para o segundo plano,
eclipsados pela política ofensiva da Alemanha Imperial, uma polí­
tica de agressão cujas etapas sucessivas foram marcadas pela visita
do Kaiser a Tanger, o início da construção da nova frota alemã,
a anexação por parte da Áustria da Bosnia-Herzegovina e, enfim,
o repentino aparecimento, em 1911, da canhoneira alemã Panther
em Agadir. Durante êsses anos de crescente tensão, Churchill
ocupou diversos postos; contribuiu para as reformas sociais do go­
vêrno liberal; viu o programa social desviar-se inexoràvelmente
diante dos perigos externos; e, em 1911, no momento da crise de

41
Agadir, foi transferido do Home Office, o Ministério das Refor­
mas, para o Almirantado, pôsto-chave da Defesa. Tinha então 37
anos, a mesma idade em que seu pai obtivera seu pôsto-chave.
Em retrospectiva, o ano de 1911, quando a canhoneira do
Kaiser se aventurou no Atlântico e o próprio Churchill se tomou
Ministro da Marinha, se lhe apresentou como o começo da Pri­
meira Guerra Mundial, chamada na época a Grande Guerra.
Terminada essa guerra, publicou sua segunda grande obra, a pri­
meira das duas grandes séries das memórias de guerra, A Crise
Mundial.

“A Crise Mundial", talvez a mais importante das


memórias de guerra que já se escreveu

A publicação de A Crise Mundial, em quatro volumes, se es­


tendeu de 1923 a 1931. A obra abrange o período de 1911 a 1925,
a partir do aparecimento repentino da canhoneira Panther, diante
da Agadir, dando o sinal da guerra a ser preparada, até ao Tra­
tado de Locarno, em que se podia proclamar — enquanto perma­
neceu em vigor — o “fim da crise”. Êsses anos, seja dito de passa­
gem, coincidiam com os anos de atividade ministerial de Churchill.
De 1911 a 1915, êle foi o Primeiro Lord do Almirantado. Em
1915, após sua tentativa audaciosa para forçar a passagem dos
Dardanelos, foi obrigado a pedir demissão. É a época em que ao
govêrno dos liberais sucedeu uma coalizão de liberais-conserva-
dores; e os conservadores, que jamais haviam perdoado a Churchill
sua “deserção” de 1903, exigiram que êle fôsse excluído da combi­
nação. Mas em 1917 êle voltou ao govêrno, na qualidade de Mi­
nistro das Munições, e, em 1918, depois do fim da guerra, tomou-
se Ministro da Guerra e Secretário de Estado da Aeronáutica. Três
anos mais tarde, era Secretário das Colônias. Mas nesse ano per­
deu seu lugar no Parlamento. Dois anos mais tarde, deixava o
partido liberal. Nesse período de lazeres forçados, no qual teve
também problemas de saúde, é que foi escrita A Crise Mundial.
A Crise Mundial talvez seja a mais importante obra de me­
mórias de guerra que já se escreveu, muito superior às memórias
vingativas e tendenciosas de Lloyd George que foi, durante a
guerra, um Primeiro-Ministro muito capaz, porém controvertido.
Durante os quatorze anos decorridos desde a publicação da bio­

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grafia de seu pai, Churchill mergulhara completamente na política,
uma política cheia de exaltação, muitas vêzes violenta. Pois os
povos britânicos não entraram unidos na guerra de 1914, ao invés
do que se passaria em 1939. As causas do conflito eram menos
claras; a opinião estava menos preparada; as oposições políticas
provocadas pela política interna do govêrno liberal eram profun­
das e virulentas. A guerra, por si mesma, foi aceita como inevitável
por todos os partidos; mas os conservadores odiavam os liberais,
por motivo de sua atitude diante do autonomismo irlandês e,
mesmo no interior do partido liberal os desacordos se agravavam
entre os partidários de Asquith e os de Lloyd George. A queda de
Asquith e a passagem do cargo de Primeiro-Ministro para Lloyd
George foram o ponto culminante de uma conspiração cujos mé­
todos sem escrúpulos fenderam o partido liberal de alto a baixo
e deixaram até nosos dias uma lembraça envenenada. Além disso,
havia divergências violentas a respeito da estratégia, pois os “Oci­
dentais” estavam persuadidos de que a totalidade do esfôrço alia­
do deveria dirigir-se para a frente do Oeste, enquanto os “Orien­
tais” esperavam pôr fim mais depressa àquilo tudo, através de
uma manobra em tôrno do flanco alemão no Sudoeste da Europa.
E essas oposições eram reforçadas pelas discórdias entre militares
e civis. Da mesma forma que na França, os políticos do radicalis­
mo anticlerical desconfiavam dos generais católicos e reacionários,
também na Grã-Bretanha um abismo separava os generais tories
e aristocratas dos políticos do partido liberal que, tão pouco tempo
antes haviam destruído os podêres da Câmara dos Lords, tendo
também levado o exército britânico à revolta através da sua polí­
tica em favor da Irlanda. Os imperativos da guerra podiam muito
bem mascarar êsses conflitos, mas não os suprimir. E uma vez
conquistada a vitória, quando as diversas memórias de guerra sur­
giram, êsses conflitos naturalmente apareceram. Cada homem po­
lítico havia sido um homem de partido e, inevitàvelmente, suas
memórias o mostravam como tal. Nenhum apareceu mais sectário
do que o líder que, só por sua energia de homem político, sem
nada perder de seu dinamismo nos ardis tortuosos, conquistara
pela fôrça o poder supremo, reduzira seus críticos ao silêncio,
triunfara dos generais e, segundo os seus adeptos entusiastas, ga­
nhara a guerra — Lloyd George.

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A magnífica objetividade do memorialista
Mas Churchill, embora tenha tido naturalmente concepções
bem marcadas e se houvesse mostrado partidário de medidas auda­
ciosas e controvertidas, jamais cessa de ser, mesmo fazendo sua
própria apologia política, um historiador. Por mais abertamente
subjetiva que seja a narrativa de A Crise Mundial, tôda ilustrada
de documentos pessoais, a obra não deixa de ter uma objetividade
magnífica. Colocando-se sempre fora dos partidos, considerando
êstes e suas lutas como um fato necessário à vida política, êle
nunca foi prisioneiro de uma ortodoxia partidária; isso lhe permitia
— infinitamente melhor que a Lloyd George — ver no conjunto
das lutas um imenso drama histórico, cujos atôres, não importando
que suas interpretações fôssem exatas ou falsas, estavam todos
igualmente preocupados com os interrêsses do país. É feita justiça
à opinião de cada um. São apresentados no seu conjunto e com
tôda objetividade os argumentos de Lord Fisher, o tirânico Pri­
meiro Lord do Mar que Churchill obrigara a sair de sua aposenta­
doria, para lhe confiar um serviço ativo no Almirantado e que se
opôs com tôdas as fôrças ao projeto churchilliano de romper as
linhas defensivas na frente oriental e desembarcar nos Dardanelos,
a fim de pôr a Turquia fora de combate. Dá-se o mesmo em relação
aos argumentos do General Joffre e de Lord Kitchener, adeptos
de grandes ofensivas no Oeste, e aos argumentos de todos e à per­
sonalidade de cada um. Todos os protagonistas são apresentados
numa língua vigorosa e inesquecível. Mas êsses retratos são, além
de tudo, justos e até magnânimos. Não há panegíricos fúteis e con­
vencionais. Tôdas as nuanças dos caracteres e das situações são
postas em evidência. Todos os recursos do estilo são empregados.
Mas o julgamento vem sempre marcado pela generosidade, não ha­
vendo condenação para quem fracassou.
“Êstes capítulos — escreve Churchill — relatarão a queda
de vários homens, do alto de suas posições eminentes; e talvez não
seja inútil, neste ponto da narração, colocar o leitor de sobreaviso
contra julgamentos não justificados ou sem caridade. Com a mesma
prodigalidade de quando se tratava da vida dos simples soldados
de infantaria, a Grande Guerra usou e depois, justa ou injusta­
mente, rejeitou os chefes de todos os setores; French, Kitchener,

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Joffre, Neville, Cadoma, Jellicoe, Asquith, Briand, Painlevé e mui­
tos outros, mesmo nas nações vitoriosas. Todos trouxeram sua con­
tribuição, depois caíram. Qualquer que seja a dor sentida nesse
momento pelos indivíduos, ser substituído naquelas condições em
nada diminui um homem. Só aquêles que alcançaram êxito e con­
seguiram mantê-lo durante todo o conflito, tendo aparecido como
vitorioso no final, sabem por que labirintos obscuros da sorte evi­
taram a queda. Os dois impostores que são o Triunfo e o Fracasso
jamais executaram seu jôgo ilícito de maneira mais despudorada
que durante a Grande Guerra. Quando um homem cumpriu seu
dever e o fêz da melhor maneira possível, sem ter fugido a qualquer
dificuldade, sem ter recuado diante de uma decisão que êle tinha
por obrigação tomar, êsse homem não estará desonrado se tiver
fracassado. Não deixam de ser bons amigos os que caem nas pri­
meiras filas de um assalto, enquanto os outros, aproveitando-se dos
seus esforços e de sua experiência, assumem o comando até à
vitória.

“A Crise Mundial”, numa opinião de Keynes

A Crise Mundial é um livro de agradabilíssima leitura. Seus


quatro tomos transbordam de vitalidade e frescor. O estilo é conci­
so, ágil, e o autor domina a língua, sem esfôrço. Pode-se criticar a
obra da mesma forma que se discute tôda visão pessoal da História,
mas nunca deixará de ser lida. Poucas obras de fôlego são tão
difíceis de se abandonar, depois de começada a leitura. A mais
bela inteligência que deu um resumo crítico da obra é, indubità-
velmente, J. M. Keynes, um homem que teve, sôbre o século XX,
influência quase igual à do próprio Churchill e cujo domínio da
língua inglêsa é equivalente. Embora em desacôrdo sôbre deter­
minados pontos, Keynes enunciou um julgamento de conjunto
inequívoco: “A Crise Mundial — escreveu — é, incontestàvel-
mente, a mais importante contribuição à história da guerra, a única
obra em que estão reunidos os dons do historiador e do escritor
nato com a experiência mais profunda e o conhecimento direto dos
fatos que pode ter um dos principais protagonistas.”

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Ausente do govêrno em dez anos
Quando Churchill perdeu seu pôsto no Parlamento, em 1922,
era liberal, porém liberal desiludido. A atividade política do tempo
de guerra havia cindido o partido liberal e isso definitvamente.
Em 1916, Lloyd George suplantara Asquith à frente do govêrno
de coalizão. Nunca fizeram as pazes. Em 1918, nas eleições que
confirmaram os mandatos da coalizão, Lloyd George usara do
seu prestígio de “homem que ganhou a guerra” para derrotar todos
os candidatos que haviam apoiado Asquith contra êle. Em 1923,
nas eleições seguintes, os partidários de Asquith tiraram a desforra,
dando apoio aos socialistas que, graças a êles, chegaram ao poder.
Foi então que Churchill, desgostoso, mudou mais uma vez de
partido. Voltou ao Parlamento em 1924, sob o rótulo de conserva­
dor e, no ano seguinte, quando os conservadores voltaram ao
poder, tornou-se, pela primeira vez, ministro conservador. Foi
Ministro das Finanças no gabinete de Stanley Baldwin. Os histo­
riadores não consideram sua atividade de financista como benéfica.
A crítica mais conhecida veio, desta vez também, de J. M. Keynes.
Em 1920, Keynes publicou seu célebre ataque contra a política
aliada referente a reparações devidas pela Alemanha, As Conse­
qüências Econômicas da Paz. Em 1925, após o primeiro orçamento
apresentado por Churchill, que supunha uma volta ao lastro
ouro, publicou um panfleto intitulado As Conseqüências Econô­
micas de Mr. Churchill.
Malgrado os ataques de Keynes, Churchill permaneceu Mi­
nistro das Finanças durante cinco anos. Só deixou o cargo com a
queda do govêrno tory, em 1929, ano em que o segundo govêrno
socialista ocupou o poder. Isso não durou quase. Dois anos mais
tarde o partido socialista se cindia, como anteriormente se cindira
o partido liberal, e, em 1931, os conservadores retomaram o poder
efetivo, sob a aparência de uma coalizão. Mas Churchill não fazia
mais parte da equipe governamental. Em 1929, tomara uma posi­
ção diametralmente oposta à de Baldwin, em relação à Índia.
Baldwin, com o seu sentido das realidades do século XX — ao
menos relativamente às questões sociais — procurava um acôrdo
com o nacionalismo indiano, da mesma forma que procurava enten­
der-se com os sindicatos e os socialistas. Churchill, com o seu
romantismo aristocrático, teria feito frente a todos. Rejeitara os
liberais porque êstes haviam aberto o caminho para um govêrno

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socialista. Lançara-se com hilariante ardor à tarefa de extinguir
a greve geral de 1926. E êle jamais reconheceria as aspirações do
nacionalismo hindu nem a grandeza de Gandhi. Nessas condições,
quando Baldwin retomou o poder com o apoio dos remanescentes
do govêrno socialista, nenhuma pasta foi proposta a Churchill. “O
que eu teria feito, se me tivessem pedido a participação — escre­
veria êle mais tarde — não saberia dizer. E é inútil discutir tenta­
ções duvidosas que jamais tiveram existência real.” Durante dez
anos, de 1929 a 1939, êle ficou como simples deputado conser­
vador, a criticar o govêrno dos bancos mais recuados dos Comuns;
e nos momentos de folga, colocava tijolos na sua casa de campo de
Kent, fazia pintura no Sul da França e escrevia.

De 1929 a 1939, parecia ter-se tornado uma


figura do passado.. .

Sua produção durante êsse período foi muito regular. Come­


çou por textos não políticos. A política, segundo parecia, o aban­
donara. Para os membros do govêrno, como para os eleitores, era
uma figura do passado, um reacionário que se recusava a ver as
realidades do momento, quer se tratasse da Grã-Bretanha, ou do
seu Império. E nos escritos dêsse período, êle se desviava, com
efeito, do presente para o passado. Em primeiro lugar apareceu
sua notável autobiografia, Meus Jovens Anos, da qual já falei.
A obra foi publicada em 1930. Escrevia também os estudos de
caracteres, que deviam ser publicados (em 1937) sob o título Os
Grandes Contemporâneos. A maior parte dos textos dêsse livro
fôra escrita, sob forma de artigos para a imprensa, entre 1929
e 1931. Depois Churchill se lançou na sua segunda grande obra de
história e de reabilitação familiar, o monumental Marlborough,
Sua Vida e Seu Tempo.

“Os Grandes Contemporâneos”: retrato político de uma época

Os Grandes Contemporâneos, exatamente como Meus Jovens


Anos, permite apreender o estilo de Churchill no que tem de mais
desembaraçado. Aqui, o historiador se liberta de todo aparato
e cerimonial, para descrever, numa língua falada, uma sucessão

47
de homens que, pelas contingências da vida do autor, podiam ser
mostrados simultaneamente nas funções oficiais e na sua intimi­
dade de homens. Inúmeros dêsses personagens — Asquith e Bal-
four, Foch e Clemenceau, French e Haig — já haviam aparecido,
ou estavam para aparecer, como protagonistas de A Crise Mun­
dial’, era inevitável que êsses ensaios biográficos fôssem às vêzes
uma repetição da grande obra da qual êles constituem, uma excres-
cência. Mas isso não é, absolutamente, um defeito. A sua própria
desenvoltura lhes dá relevos mais vivos; e êles concentram alguns
dos maiores dons do autor, isto é, o conhecimento do caráter hu­
mano e, mais particularmente, o caráter do homem político, o que
tornava Churchill tão feliz no mundo da política e o deixava
tão pouco à vontade nas disciplinas partidárias; e também essa
familiaridade com o ambiente encantador e brilhante da política
que não impede um olhar penetrante de distinguir o que se trama
nos bastidores. Os Grandes Contemporâneos formam o retrato
político de uma época, através de alguns de seus personagens do­
minantes. Aí se encontra a delicadeza, o encanto cheio de indul­
gência de um retrato retrospectivo. Os que procurarem, encontra­
rão em Os Grandes Contemporâneos, nos julgamentos feitos sôbre
o imperialismo e sôbre a Irlanda especialmente, um tom bem dife­
rente daquele que permitia que se reconhecesse, vinte e cinco anos
antes, um representante liberal de Dundee, Winston Churchill.

“Marlborough”, tentativa de destruição da “sombria lenda”


criada em tôrno dêsse antepassado de Churchill

Se Os Grandes Contemporâneos constituem a última etapa de


A Crise Mundial, Marlborough representa um empreendimen­
to de máxima importância e inteiramente nôvo. Churchill, já vi­
mos, tivera sempre atração e, ao mesmo tempo, desdém pelo “prín­
cipe dos patifes literários”, Lord Macaulay. Era seduzido pelo seu
estilo incisivo, o equilíbrio retórico, o julgamento político seguro,
o talento para recriar as grandes cenas do passado. Mas desgosta­
va-se com o parti pris constante de Macaulay contra o seu antepas­
sado, homem que marcou a origem da grandeza de sua família, o
grande Duque de Marlborough. Mas como refutar Macaulay? No
comêço, Churchill não teve coragem de se lançar ao empreendi­
mento. Mas um dia, almoçando com Lord Rosebery, soube que

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essa refutação já era coisa feita. Lord Rosebery lhe mostrou “a
obra-prima desconhecida, que não se encontrava nas livrarias”, na
qual, ainda em vida de Macaulay, um advogado liberal chamado
John Paget, denunciara de maneira completa e concludente o his­
toriador, acusando-o de haver truncado fatos a propósito de Marl-
borough e também de outros acontecimentos. Macaulay jamais
respondera a Paget, e a obra dêste, O Nôvo Exame, caiu no es­
quecimento. Maravilhado com essa descoberta e encorajado por
Rosebery e também por Balfour, Churchill decidiu retomar as
coisas da estaca zero e escrever uma biografia inteiramente nova
de Marlborough, partindo das fontes de origem; agindo assim, des­
truiria para sempre a “sombria lenda” criada por Macaulay. No
programa da campanha a executar com seu aliado, reeditou, em
1934, O Nôvo Exame de Paget.

Na qualidade de historiador, foi um mestre-de-obras exigente

A partir de 1929 Churchill se dedicou ao seu grande em­


preendimento de historiador. Para levá-lo a têrmo com êxito, dis­
punha de trunfos máximos e não poupava esforços. Somente para
êle, único de todos os historiadores, os arquivos de Blenheim Pa-
lace — que contêm os papéis pessoais de Marlborough — se abri­
ram. Êle visitou (à maneira de Macaulay) todos os sítios e campos
de batalha, coligindo detalhes de côr local. Aproveitou também a
preciosa ajuda de outros eruditos, mais especializados. Mas, acima
de tudo, possuía seu conhecimento pessoal e a compreensão da es­
tratégia bem como da política, sua própria energia coordenadora.
Por vêzes já se afirmou que Churchill, para suas pesquisas histó­
ricas, se fiava no trabalho de escritores auxiliares. É absolutamen­
te falso. Em tôda a sua obra, política ou histórica, Churchill utili­
zou, sem hesitação, o trabalho de outrem. Foi um mestre-de-obras
exigente. Mas se houve quem lhe fornecesse a matéria-prima dos
fatos e dos números, a ninguém jamais deveu a forma e a quali­
dade literárias de seus discursos e de seus livros e sempre se empe­
nhou com muito cuidado na sua composição. Escreveu sempre
os discursos integralmente, antes de os aprender de cor. Começa­
va ditando os textos e depois, nas fôlhas datilografadas ou nas
provas tipográficas, êle os corrigia e recorrigia. Foi assim, e sò-
mente assim, que pôde ser obtido o seu estilo musical, um estilo

49
que, da mesma forma que o de Gibbon ou Macaulay, é medido
pelo autor através do ouvido e penetra no espírito do leitor pelo
ouvido e não pelos olhos. Um estilo assim é intensamente pessoal;
exprime uma personalidade, um espírito. E Marlborough, apesar
de tôda a colaboração dos profissionais que lhe garantem as bases,
é uma obra autêntica e original de Churchill, tanto quanto A Vida
de Lord Randolph Churchill ou A Crise Mundial.
É também uma obra máxima em matéria de história. Os qua­
tro grossos volumes, cuja publicação iniciou-se em 1933, podem
ter parecido muito abundantes a certos críticos e muito apologé-
ticos a outros. Mesmo com tôdas as reservas feitas, a grandeza da
obra permanece. Pois não se trata apenas do jôgo complicado de
um espírito que pratica o culto do antepassado. Trata-se de gran­
de estilo histórico. E as conclusões históricas submeteram-se com
sucesso à prova do tempo. Todo o mundo admite, daí em diante,
que o Marlborough de Macaulay, êsse traidor de melodrama de
sua Gloriosa Revolução, é um personagem romanceado. Foi o
Marlborough de Churchill que assumiu o lugar do outro, na His­
tória. E se acontece o fato do Marlborough de Churchill algumas
vêzes brilhar com uma luz quase bela demais para ser verdadeira,
não concluamos com isso que deva ser desdenhado e sim levemos
em conta a parte de parcialidade de um descendente.

“Marlboroughprograma político de um Churchill vindouro

A redação de Marlborough teve início numa época de paz in­


ternacional, naqueles anos que se seguiram ao Tratado de Locar-
no, em que o próprio Churchill acabara pensando que a crise mun­
dial havia enfim terminado. A amável ilusão durou pouco. Em
1933, Hitler ocupava o poder na Alemanha. Logo depois, todos
os olhares se fixaram na Europa Central e o espectro de uma nova
guerra, uma guerra de vingança, começou a preocupar o espírito
dos políticos, passando a sua sombra mesmo por uma obra pura­
mente histórica. Em 1935, Churchill acrescentou, aos ensaios que
reunia para Os Grandes Contemporâneos, um trabalho de profun­
da meditação sôbre Hitler. A Europa, dizia, merecera Hitler. “Sem­
pre defendi o ponto de vista de que o consolo da desgraça dos
vencidos deve ser anterior ao desarmamento dos vencedores.” Nada
se fizera nesse sentido e era preciso pagar pelo êrro cometido. Por

50
“um prodígio na História, um prodígio inseparável dos esforços pes­
soais e do empenho total de um único homem”, a situação fôra
“completamente invertida, em detrimento dos vencedores cheios
de auto-suficiência, fracos e míopes”. E o que Hitler iria fazer
com a potência que edificara? A exemplo de alguns outros,
que haviam conquistado o poder por “meios rudes, inexoráveis e
mesmo pavorosos”, iria êle afastar-se da violência, para se atirar
numa política construtiva? Havia algum tempo, certamente, que
Hitler oferecia “muitas palavras tranqüilizantes àvidamente bebi­
das pelos que, de modo tão trágico, se enganaram sôbre a Alema­
nha no passado”. Mas, visivelmente, Churchill não estava conven­
cido. Êle via o passado de crimes; via o vasto rearmamento da Ale-
nha tomar impulso; recusava os fáceis discursos de pacificação.
Durante êsse tempo, em seu Marlborough, esboçava o retrato de
Luís XTV, “maldição e peste da Europa”, cujo insaciável apetite
de conquistas só foi detido pela Grande Aliança, forjada por Gui­
lherme III e que chegou à vitória graças a Marlborough. A obra,
iniciada para reabilitar um antepassado caluniado, tornava-se o
nôvo programa político de um Churchill que deveria vir.

O temor de Hitler: a volta de Churchill ao poder

E assim começou o período de maior prestígio da carreira


de Churchill, período em que êle foi primeiro o profeta, depois
o chefe da resistência da Europa, diante de Hitler. O profeta co­
meçou pregando no deserto. Entre 1933 e 1939, Churchill não
tinha nenhum meio de ação. Até o seu longo passado político o
prejudicava. Para os socialistas, êle era o imperialista romântico,
o aristocrata voltado para o passado, o destruidor da greve de
1926; para os conservadores fiéis a Stanley Baldwin e a Neville
Chamberlain, êle era “um homem sem juízo”, passando de um
partido para o outro e cujas iniciativas políticas, bem que freqüen­
temente espetaculares, jamais foram, a seus olhos, justificadas pelos
acontecimentos. À medida que Hitler consolidava seu poder na
Europa, conservadores e socialistas eram igualmente exasperados
pelo único homem que fazia sem cessar um apêlo à resistência e
exigia meios concretos para resistir, antes que fôsse tarde demais.
Os socialistas deploravam a existência de Hitler, mas não admi­
tiam o rearmamento; os conservadores afirmavam que, tendo con­

51
quistado o poder e reestabelecido a Alemanha na sua independên-
ca política e econômica, Hitler se sentiria “saciado” e “se pacifi­
caria”. E se êle estava “pacificado” e se fôra evitado o desperdí­
cio, em bens e homens, de uma guerra ou mesmo de um rearma­
mento eficaz, a Grã-Bretanha podia concentrar seu esfôrço nos
problemas internos e imperiais. Para um povo que desejava a paz,
Neville Chamberlain garantia que o seu método traria a paz. O
método Churchill, afirmava êle, conduziria à guerra. E Hitler,
que temia a ida de Churchill para o poder, fazia eco a Chamber­
lain. Com o pacífico Chamberlain, afirmava, êle podia negociar;
mas, que certeza poderia ter de que a Inglaterra seria sempre go­
vernada por um Chamberlain? O “promotor de guerra” Churchill
não estava sempre à espreita nos bastidores? Era a razão pela qual,
por pura precaução, êle se via obrigado a se rearmar sempre cada
vez mais.

Uma voz de Cassandra


Contra essa frente unida, Churchill não teve no comêço se­
não uma única arma, sua eloqüência. A partir de 1933 pronun­
ciou a grande série de discursos que terminaram por despertar os
inglêses, permitindo, à medida que as agressões se sucediam às
agressões na Europa, que a Inglaterra aparecesse como a salva­
dora predestinada. Em vão os “pacificadores” tentavam justificar
sua política; os atos de Hitler, de um lado, os discursos de Chur­
chill, do outro eram mais eloqüentes que tôdas as suas justifica­
tivas. O momento decisivo veio em 1938, com o acôrdo de Muni­
que. Às multidões entusiastas Chamberlain afirmava que o acôrdo
significava “a paz para nossa época”; mas no alívio universal tra­
zido pelo que parecia ser uma guerra evitada, a voz de Cassandra
de Churchill pronunciou um sobreaviso: “Em tôda a Europa —
exclama — as luzes se apagam”. Hitler dissera que o país dos sude-
tas, que acabava de lhe ser dado, constituía “sua última reivindi­
cação territorial”. Chamberlain acreditara. Churchill, não. “Não
pensem — afirmava — que seja o fim. É apenas o comêço da
conta a pagar. É apenas o primeiro trago, para provarmos a taça
de amargura que nos será apresentada, ano após ano, a menos que,
por um sobressalto de saúde moral e vigor marcial, sejamos leva­
dos a nos levantar de nôvo, para combater pela liberdade, como
outrora”.

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Sempre confiante, mesmo em pleno fracasso
Seis meses mais tarde, estava feita a prova de que Churchill
tivera razão. Hitler se apoderou repentinamente de tôda a Tcheco-
-eslováquia. Logo os olhos se abriram. A opinião pública exigia
cada vez mais a entrada de Churchill no govêrno. Chamberlain se
opôs até o fim. Foi só após a declaração de guerra oficial que
êle se resolveu a oferecer a Churchill seu antigo pôsto de Primei­
ro Lord do Almirantado. Seis meses mais tarde, quando Hitler con­
quistou a Noruega e invadiu a França, Chamberlain foi varrido
com os destroços de sua política. Mas então, mesmo reconhecendo
sua derrota, êle esperava ainda evitar que o seu sucessor fôsse
Churchill. Entretanto, no ponto em que estavam as coisas, nem
as Câmaras nem a Nação teriam admitido outro sucessor. E o
próprio Churchill tinha confiança, mesmo em pleno fracasso. Após
ter sido nomeado pelo Rei, escreveu: “Sentia um profundo alívio.
Tinha por fim os meios de dar diretivas de ordem geral. Eu tinha
a sensação de seguir com o destino, via em tôda a minha vida pas­
sada uma simples preparação para essa hora e para essa prova.
Dez anos no deserto da política me haviam libertado da rotina dos
antagonismos partidários. Minhas advertências, no decorrer dos
seis anos anteriores, haviam sido tão numerosas, de tal forma pre­
cisas, e dali por diante tão justificadas, que ninguém podia contra­
dizer-me. Não me podiam censurar nem de fazer a guerra nem de
me ter preparado insuficientemente. Eu julgava estar bem a par
de tôda a situação e tinha certeza de que não fracassaria.

Uma vitória que parecia inconcebível

O grande Ministério Churchill, de 1940 a 1945, é um capí­


tulo da história mundial. Representa a história da Segunda Guer­
ra Mundial, da primeira grande campanha no Oeste, até a vitória
final dos Aliados. Quando Churchill assumiu o poder, essa vitória
parecia inconcebível, sendo sua primeira tarefa a de convencer o
mundo inteiro de que, apesar da avalancha de fracassos que se
haviam abatido sôbre o Ocidente, a vitória final não era somente
possível, mas seria adquirida. Nos dias mais sombrios de 1940,
pelos maiores de todos os seus discursos, êle soube excitar e cana­
lizar a determinação do povo britânico como ninguém, talvez, ti-

53
vcsse sabido fazer antes. Todos os inglêses bebiam suas palavras
c, nas cidades bombardeadas que êle visitava, êles se comprimiam,
segundo escrevia Harry Hopkins, enviado especial de Roosevelt,
“para tocar a orla de sua roupa”. E Churchill não galvanizava só
os britânicos. Os países não comprometidos ouviam-no e chegavam
a se convencer de que a resistência britânica merecia ser ajudada.
Em volta dêsse núcleo, uma Grande Aliança podia ser assim pouco
a pouco edificada, para destruir a nova tirania que ameaçava con­
quistar o mundo.
Mas governar em tempo de guerra não consiste apenas em
pronunciar discursos. Churchill havia sempre pensado e depressa
convenceu os outros de que êle podia não só dirigir o povo bri­
tânico, mas também levá-lo do fracasso à vitória. Êle tinha, é
verdade, a imensa vantagem de sua experiência na Primeira Guer­
ra Mundial. Essa experiência deixara também nêle um certo nú­
mero de convicções inextirpáveis. Jamais duvidou de que sua ten­
tativa de forçar a passagem dos Dardanelos em 1915, malgrado
seu revés, tivesse sido uma concepção estratégica eficaz e, duran­
te a Segunda Guerra Mundial, êle estêve decidido — excessiva­
mente, dizem os detratores — a recomeçar a manobra. Uma lição,
mais essencial, de 1914-1918, tratava das relações entre o govêrno
e os generais. Durante a Primeira Guerra Mundial, Lloyd George
jamais estivera seguro a respeito dos seus generais. Na época em
que êle cessara de ter confiança em Haig, não ousou dispensar um
general que desfrutava, ao invés dêle próprio, de inegável respeito
por parte do exército e do povo. Começou então a combatê-lo sor­
rateiramente; e por êsse trabalho de sapa envenenou as relações
entre civis e militares e enfraqueceu sua própria autoridade. Desde
que assumiu o poder, Churchill (conforme êle mesmo confessou)
estava decidido a não deixar general algum adquirir prestígio igual
ao de Haig na Primeira Guerra Mundial. A autoridade do govêrno
civil devia ser absoluta. Sua própria autoridade moral era, bem
entendido, infinitamente maior que a de Lloyd George. Mas êle
soube como confiar nos seus generais. A disposição da estratégia
arrastava oposições ferozes; mas Churchill sabia quando era pre­
ciso ser firme e quando convinha ceder. À oposição conjunta do
estado-maior do Exército, êle terminava sempre cedendo; essa com­
preensão lhe valeu o respeito dos militares e lhe deu a autoridade
necessária para impor seus pontos de vista em tôdas as outras cir­
cunstâncias. A Segunda Guerra Mundial é única nos anais, pela

54
harmonia entre o govêrno e os executantes e também pela perma­
nência garantida às pessoas que se achavam no centro da estra­
tégia; e isso, da mesma forma que os sucessos políticos e estratégi­
cos que tornaram essa permanência possível, resultou sobretudo da
personalidade do homem que dirigia conjuntamente a política e a
estratégia.

Discursos de guerra que são obras literárias


Os discursos pronuncados por Churchill, tanto antes como
durante a guerra, foram todos publicados. Um discurso é sempre
difícil de se dissociar das circunstâncias que o levaram a ser pro­
nunciado e da atmosfera na qual foi escutado; e ninguém pode
experimentar agora o choque que êsses discursos provocavam no
seu tempo. Contudo, mesmo lidos a sangue-frio, conservam grande
parte de seu poder. Pois os discursos de Churchill, contràriamente
aos da maioria dos oradores que sabem apaixonar as multidões,
são obras literárias. Os períodos suntuosos são construídos com
uma arte perfeita, constituindo o produto de uma vida de amor
pela língua inglêsa. Sem cessar, nas suas mais insignificantes e va­
riadas conversas, Churchill manifestou seu interêsse pelos mínimos
detalhes da linguagem e sua repulsão pela gíria, pelos modernis-
mos vulgares e pelos têrmos profissionais; tem paixão pela cla­
reza, pela simplicidade, pela concisão (“as palavras breves são
as melhores e as palavras antigas, quando são breves, são as me­
lhores de tôdas” ); e isso não impede absolutamente a sua língua
de possuir uma sutileza extrema, com seus períodos perfeitamente
equilibrados, sua alternância hábil da língua falada e das fórmulas
clássicas, seus repentinos latinismos e as palavras mais longas que
se inserem no martelamento dos vocábulos saxônicos, breves e vi­
gorosos. O respeito de Churchill pelo estilo foi notàvelmente ilus­
trado por uma nota que êle fêz circular em agôsto de 1940, no
tempo em que a Grã-Bretanha era cada vez mais ameaçada, espe­
rando todos os dias ser invadida. Essa nota era dirigida a seus co­
legas do Ministério e aos chefes de serviço; pedia a todos que
cuidassem de escrever nos textos oficiais em bom inglês, claro e
gramatical. “Libertemo-nos das frases pesadas.. . do enxêrto es­
téril . . . Não temamos recorrer a frases breves e animadas, mesmo
que pertençam à língua falada”. Em 1940, Churchill não pensa­
va somente em salvar a Inglaterra, queria também salvar a língua

55
inglêsa; e pode-se dizer que êle tentava salvá-las não só pelo exem­
plo como também pelas ordens dadas.

Afastado pelos eleitores, retoma a pena para redigir a História


que êle havia contribuído a fazer

Conquistada a vitória, Churchill, para seu próprio espanto,


perdeu a maioria. Em 1945, os eleitores, embora multiplicando
as demonstrações de reconhecimento e afeição ao homem, pro­
clamaram tranqüilamente sua preferência por um govêrno socia­
lista. Para o povo, o partido conservador continuava a ser o de
Baldwin e de Chamberlain, sendo Churchill o gênio romântico,
mas reacionário, que êsses homens haviam excluído do poder, en­
quanto as necessidades da guerra não impunham novamente sua
presença. Mas agora, graças a êle, a paz voltara; e a paz exigia
outras opções. E assim, para citar Churchill: “Fui afastado pelos
eleitores britânicos, que não me queriam mais ver dirigir o país.”
Com as horas vagas que lhe ficaram, uma vez mais, como entre
1922 e 1926, retomou a pena para redigir a História que êle
tanto havia contribuído a fazer. De 1922 a 1926, dedicara seu
tempo aos quatro tomos de A Crise Mundial; de 1945 a 1953; de­
dicou seu tempo aos seis tomos de suas novas memórias de guerra,
A Segunda Guerra Mundial.

“A Segunda Guerra M u n d i a l u m relatório pessoal,


mas, apesar disso, objetivo

A Segunda Guerra Mundial é um documento, essencial de


História. Certos críticos afirmam que, comparado a A Crise Mun­
dial, êsse livro excessivamente documental, prejudicando-se por
vêzes o estilo pela documentação. Mas êsse defeito, se é que o
é, constitui o reverso de suas qualidades. Na Primeira Guerra
Mundial, Churchill não fôra o chefe. Havia sido um participante,
aliás vencido e repelido a partir de 1915. E sua defesa, em A
Crise Mundial, malgrado a sua objetividade magnânima, fica
sendo uma defesa. Na Segunda Guerra Mundial, graças a um
chefe bem mais capaz e bem mais magnânimo, não houve mais
disputas funestas e o próprio Churchill, para citar Hopkins, era
“o govêrno no sentido mais amplo da palavra”. As controvérsias

56
que existiram eram discussões entre aliados, e jamais chegaram
a ser lutas intestinas dividindo um govêrno. Portanto, é normal
que as Memórias da Segunda Guerra sejam bem menos pessoais
que as da Primeira, constituindo com mais razão uma narrativa
de historiador oficial. Mas a personalidade do autor se manifesta
a todo momento, particularmente no primeiro tomo, o que se re­
fere a todo o período entre o Tratado de Versailles de 1919, e a
sua chegada ao poder, em 1940. O estilo é bem cuidado, sempre
igual, claro, objetivo, suntuoso pelo ritmo, com as grandes pas­
sagens ornadas de púrpura e que às vêzes vacilam à beira da gran­
diloqüência, mas são surpreendidas no último instante pelo infalí­
vel dom churchilliano para a humanidade, o humor e a ironia. No
conjunto, A Segunda Guerra Mundial é uma obra digna de seu as­
sunto, é o relatório pessoal e apesar disso objetivo da maior guerra
que já houve, relatório feito pelo homem cuja coragem e cujos
dons de político e estrategista transformaram uma derrota em
vitória.
Tão bom profeta na paz como na guerra
A redação de A Segunda Guerra Mundial não excluiu as
outras atividades, durante os anos do govêrno socialista. Churchill
era o líder da oposição e sua atividade foi grande nos negócios
públicos. Particularmente pronunciou dois discursos célebres e que
o fazem aparecer como um profeta tão seguro na paz quanto na
guerra. O primeiro foi pronunciado em Fulton, no Missouri; os
americanos, que se deleitavam então numa lua de mel de russofi-
lia, receberam de Churchill um sobreaviso contra Stalin, que edifi-
cava na Europa oriental e na Ásia um poderio tão temível e amea­
çador quanto fôra o de Hitler na Europa central. Êsse discurso foi
muito mal acolhido na época. Se tivesse sido melhor compreendi­
do, talvez o povo americano não tivesse precisado tomar as medi­
das de pânico que se sabe, quando a agressão russa na Coréia,
quatro anos mais tarde, veio repetir a lição de maneira mais bru­
tal. O segundo discurso célebre foi pronunciado pouco depois em
Zurique. Era a apologia da união dos velhos países da Europa,
face o grande poderio continental, cuja sombra vinha do Leste e
se abatia sôbre êles. O que Churchill preconizava foi ouvido então
e convenceu em parte.
O período na oposição terminou em 1951, ano em que òs

57
socialistas foram derrotados na Grã-Bretanha e Churchill tornou-
se, pela segunda vez, Primeiro-Ministro. No fim de quatro anos
ôlc se retirava e Sir Anthony Eden lhe sucedia. Churchill contava
oitenta anos e lhe pareceu chegado o momento de se afastar, pelo
menos no que se referia à vida política.

“A História dos Povos de Língua Inglêsa”: obra


completa de historiador profissional

Mas êle não abandonava a literatura. Antes de depor a pena,


tinha uma antiga ambição a satisfazer. Meio americano, persua­
dido de que o futuro do mundo depende da cooperação entre a
Grã-Bretanha e a América, fizera o projeto de dar, como conti­
nuação a Marlborough, uma história completa não só da Grã-Bre­
tanha, mas dos “povos de língua inglêsa”. Munique e suas terrí­
veis conseqüências, evidentemente, fizeram com que o projeto se
adiasse; mas vinte anos depois, concluídas com êxito a guerra e
as Memórias dessa guerra, um nôvo período de lazeres lhe permi­
tiu retomar a tarefa meio terminada. Dedicou-lhe tôda a energia
de outrora e, entre 1956 e 1958, apareceram os quatro tomos
sucessivos de A História dos Povos de Língua Inglêsa.
Esta, como tôdas as obras históricas de Churchill, é uma
obra precisa de historiador profissional. Como sempre, recorreu
a colaboradores especializados, e os críticos mais capciosos teriam
dificuldade em descobrir erros materiais. As objeções que podem
ser feitas são de outra ordem. O conhecimento histórico, nas mãos
dos profissionais, mudou, da época de Macaulay e Michelet aos
nossos dias. Novas fôrças foram empregadas, encontrando a His­
tória dimensões novas. A Economia, a Sociologia, a Antropologia
intervém agora, para ilustrar e explicar a ascensão e o declínio
das nações, a trajetória das ideologias, as crises de estrutura. Os
que buscam explicações dêsse gênero, não as encontrarão nos
livros de Churchill. Por outro lado, os historiadores modernos ra­
ramente apresentam suas novas descobertas de maneira tão legí­
vel. Tendo feito da História uma ciência, muitas vêzes asfixiaram-
na em um dialeto científico. Esqueceram que, se a História é uma
ciência, a Historiografia é uma arte. A Historiografia de Churchill
é sempre uma obra de arte e, na sua última obra, que se fixa aber­
tamente no objetivo de contar uma história, e mesmo uma história

58
para o grande público, os métodos antigos revivem com tôdas as
suas antigas virtudes. Aí se encontra a História da Inglaterra, da
Grã-Bretanha, das colônias inglêsas e britânicas e do seu desen­
volvimento comum, desde as origens até 1900, contada por um
estadista romântico, num desenrolar eloqüente, mas preciso. É
uma história de reis e estadistas, de batalhas e crises, e não de cres­
cimento econômico e de mudanças sociais. Mas no seu gênero, a
obra jamais foi superada e êsses livros, sem dúvida alguma, ainda
serão lidos muito tempo depois que os técnicos escritos de van­
guarda de seus rivais profissionais tiverem caído no esquecimento.

A obra literária de Churchill, por si só, lhe


garantirá a posteridade

A Vida de Lord Randolph Churchill, A Crise Mundial, Meus


Jovens Anos, Os Grandes Contemporâneos, Marlborough, os
grandes discursos de guerra de 1938 a 1945, A Segunda Guerra
Mundial e talvez A História dos Povos de Língua Inglêsa são as
grandes obras literárias de Winston Churchill. Há também obras
de menor importância que não citei, panfletos políticos a propó­
sito de acontecimentos do momento, diversos discursos na Câmara
dos Comuns e ensaios menores, às vêzes agradabilíssimos, como
o pequeno livro dedicado a seu hobby, a pintura. E há também
os apócrifos, isto é, livros que lhe são muitas vêzes atribuídos errô-
neamente, sobretudo obras do outro Winston Churchill. Pois houve
um outro Winston Churchill, um romancista americano, cujos
livros — A Crise, A Encruzilhada, Richard Carvel etc. — esta-
vam muito em voga na América, na época em que o Winston
Churchill inglês começava sua carreira. Felizmente, o Winston
Churchill inglês não tardou a descobrir a existência dêsse homô­
nimo e, para evitar tôda confusão, decidiu assinar sempre “Wins­
ton S. Churchill”; esta assinatura, e só ela, constitui uma garan­
tia de autenticidade. É por suas grandes obras que êle passará à
posteridade como homem de letras. Elas são suficientes para lhe
garantirem uma reputação no mundo das letras — uma grande
reputação. É preciso fazer um esfôrço para lembrar que essas obras
não foram senão a produção das épocas de lazer do maior estadista
de nosso tempo.
Tradução de Helena Parente Cunha

59
WINSTON
S. CHURCHILL

SANGUE, SUOR
E

LÁGRIMAS
NOTA INTRODUTÓRIA

D ois anos e meio se passaram desde a publicação de


Arms and the Covenant, coleção de discursos do Sr. Winston Chur-
chill sôbre a defesa nacional e a política exterior, proferidos de
1932 a 1938. Grande número de pessoas, tanto da Inglaterra
como dos Estados Unidos, me tem pedido que atualize êsse livro.
Com a permissão do atual primeiro-ministro, preferi, porém, coli-
gir todos os seus discursos e declarações públicas, desde maio
de 1938 até os presentes dias. Êste volume demonstra quão fun­
dados eram os temores e quão certos eram os prognósticos feitos
pelo Sr. Churchill na coletânea anterior. Ao tempo em que foram
proferidos os primeiros discursos reunidos neste livro a situação
já se havia tornado tão grave que já não se fazia mister tanta
ênfase com respeito à lentidão do nosso rearmamento como nas
orações anteriores. Com o perigo tão perto de nós e com tão pouco
tempo para ativar a nossa defesa, o Sr. Churchill, sem perder a
esperança de deter o agressor, pensou limpidamente ser mais pro­
veitoso procurar desenvolver os recursos de resistência de que dis­
pomos, em lugar de exibir a nossa fraqueza nuamente ao mundo.
Através das entrelinhas, porém, as advertências persistem, com
mais imperiosidade do que antes. Como no volume anterior, êsses
discursos se destinam não somente a reviver muitas advertências,
que hoje estamos em condições de julgar se necessárias ou não,

63
como também a fornecer ao público um comentário correntio sô­
bre o imperdoável comprometimento da nossa situação interna­
cional.
O livro começa com a sábia advertência do Sr. Churchill
contra a estulta entrega dos portos estratégicos irlandeses ao Es­
tado Livre da Irlanda, advertência que, é interessante recordar, foi
apoiada apenas por uma mancheia de membros do Parlamento.
Êsse discurso nos transporta ao tremendo e lutuoso acontecimento
de Munique e à inevitável seqüência de Praga. E assim, etapa por
etapa, veremos como se desenvolveu o desafio à guerra, que o
Sr. Churchill procurou demonstrar quantas vêzes pôde, e que uma
oportuna intervenção e adequadas medidas preparatórias poderiam
ter evitado.
A princípio como primeiro lord do Almirantado e, em se­
guida, como primeiro-ministro, seus discursos se tornaram, natu­
ralmente, cada vez mais oficiais. A despeito disso e da inevitá­
vel pressão dos seus afazeres, não penso que hajam perdido o
conteúdo literário e a qualidade dramática que tinham quando
o Sr. Churchill era um simples membro do Parlamento. Na ver­
dade, êsses discursos constituem a história contemporânea da
guerra, com tanta vivacidade quanta autoridade. E, tanto quanto
possa a história contemporânea ter valor, são êsses discursos a
última palavra sôbre a guerra.
Bem poucos são os homens públicos que podem sem preocupa­
ções ver os seus discursos impressos sem a menor alteração, dois
ou três anos depois de terem sido proferidos. Aqui como em Arms
and the Covenant, não alterei sequer uma frase no campo dos
pronunciamentos políticos e, exceto a supressão de algumas passa­
gens que já não são de interêsse geral e algumas sínteses ocasionais
exigidas para distinguir a palavra escrita da palavra falada, os
discursos são publicados neste volume tal como foram proferidos.
R a n d o lp h S. C h u rc h ill

Ickleford House,
Novembro de 1940*

64
O PROBLEMA DO EIRE
D is c u rs o p r o f e r id o n a C â m a ra d o s C o m u n s.
5 DE m a io d e 1938

Janeiro, 12. O Sr. de Valera e dois colegas vêm a Londres


para discutir importantes questões pertinentes às
relações entre o Reino Unido e o Eire.
Fevereiro, 4. A demissão do marechal de campo von Blom-
berg e do general von Fritsch é precipitada pelo
casamento do primeiro.
Fevereiro, 12. O Dr. Schuschnigg, chanceler da Áustria, cha­
mado a Berchtesgaden por Herr Hitler.
Fevereiro, 16. O Dr. Schuschnigg submete-se à imposição de
Herr Hitler e introduz um nazista em seu gabi­
nete.
Fevereiro, 21. O Sr. Anthony Eden renuncia ao pôsto de mi­
nistro do Exterior devido à obstinação do Sr.
Chamberlain em concluir um nôvo pacto com
a Itália, não obstante as constantes violações,
por parte dêsse país, do acôrdo de não-interven-
ção.
Março, 11. Ultimato alemão à Áustria, seguido de imediata
invasão.
Março, 13. A Alemanha anuncia a incorporação da Áustria
ao Reich.

65
Abril, 16. Acôrdo assinado entre a Grã-Bretanha e a Itá­
lia, dependendo, porém, da retirada das fôrças
italianas da Espanha.
Abril, 24. Herr Henlein, líder dos nazistas na região sudeta,
elabora o “Programa de Karlsbad” com oito exi­
gências a serem feitas ao govêrno tcheco-eslo-
vaco.
Abril, 25. O Sr. de Varela e outros ministros do Eire assi­
nam um acôrdo pelo qual, entre outras coisas, o
Reino Unido abdica de qualquer poder ou auto­
ridade sôbre os portos irlandeses. A Armada não
pode, por isso, no futuro, usar êsses portos como
bases.
Maio, 2. O acôrdo anglo-italiano é aprovado pela Câma­
ra dos Comuns.

. N o momento em que se discute esta lei, não posso conci­


liar o silêncio com o meu dever, quer como deputado, quer como
signatário de um tratado que foi violado e pôsto à margem. Por
mais ingrata que possa ser esta tarefa, sinto-me inclinado a mani­
festar o ponto de vista que formei em razão de longo e íntimo
contato com os negócios irlandeses. Quando, há uma semana, tive
pelos jornais notícia de que se processava êste acôrdo, não pude
conter a minha profunda surprêsa. Na verdade, o que se concluía
era que abríamos mão de tudo, sem nada receber em trôco,(1)
exceto o pagamento de dez milhões de libras. Pensei, entretanto,
que houvesse outras disposições nesse acôrdo, segundo as quais
teríamos algumas facilidades e direitos na Irlanda do Sul em tempo
de guerra. Êsse era, estou certo, o ponto de vista de uma parte da

<*> A Irlanda do Sul se tornou Estado Livre em 1922, mediante tratado fir­
mado com a Inglaterra, tomando o nome de Eire, que, na língua gaélica, significa
Irlanda.
Pelo acôrdo ^ e 1938 a Irlanda recobrou o direito aos portos da Quenstown
(Cobh para os irlandeses), Berehaven e Lough Swilly, pagando à Inglaterra dez
milhões de libras, como indenização pelas anuidades de terras, em atraso desde
1932. Até 1987, o Eire continuará, por êsse acôrdo, a pagar à Inglaterra indeniza­
ções pelos estragos causados às propriedades inglêsas, durante as agitações da Irlanda
— N. do T.

66
imprensa, mas logo o Sr. de Valera falando no Dail<a) deixou
hcm claro que não havia assumido obrigações de qualquer natu­
reza e, como o primeiro ministro confirmou esta tarde, nenhuma
«arantia oferece o acôrdo naquele sentido. Ao contrário, o Sr. de
Valera nem mesmo abandonou suas pretenções quanto à incor­
poração do Ulster (s) à República Independente Irlandesa, por
élc estabelecida. Na verdade, declarou êle, no seu discurso do
Dail, — não estou repetindo rigorosamente as suas palavras, mas
o que elas expressam — que o fim da divisão continuaria ser o
propósito de sua vida e que acreditava que se aproximava dêsse
objetivo através do presente acôrdo.
É necessário fazermos uma recapitulação do passado, a fim
de verificar sôbre que bases repousam essas negociações. O pri­
meiro ministro disse que precisamos olhar para o intangível e
para o imponderável, como contrapêso às grandes concessões que
acabamos de fazer através dêste acôrdo. Examinemos a situação,
por um breve instante. Dizem-nos que o acôrdo encerra uma an-
tiquíssima querela entre a Inglaterra e a Irlanda, mas isso não
é verdade, porque o Sr. de Valera declara que nunca descansará
enquanto não tiver unificado o território irlandês, incorporando-
lhe o Ulster. Além disso, o verdadeiro conflito ainda não surgiu
e nada com o caráter de um ajustamento definitivo atingiu ainda
o ponto mais nevrálgico, dentre todos. Têm-nos dito, — e não
desejo contestar isso, — que nos beneficiaremos de uma preciosa
atmosfera de boa vontade e de simpatia e que o povo da Irlanda
do Sul daqui por diante será cordial e amistoso para conosco, le­
vantando-se e formando ao nosso lado quando qualquer dificulda­
de venha a surgir. Não há novidade nisso. No início da Grande
Guerra, o povo irlandês revelou êsse espírito de amizade para co­
nosco e lançou-se à luta com o mais ardente entusiasmo, em de­
fesa da causa comum. A Irlanda estava amplamente representada
nesta Câmara. Êsses representantes estavam em constante con­
tato com os seus eleitores. Unidos, creio eu, em expressiva unani­
midade, os representantes da Irlanda do Norte e da Irlanda do

(2) O Taviseach Dail Eireann é a Câmara dos Deputados da Irlanda, país onde
é adotado o regime bi-camaral. O Dail tem a prerrogativa de nomear onze mem­
bros do Senado e de escolher o primeiro ministro. — N . do T.
<3> O Ulster é a denominação dada ao domínio inglês da Irlanda do Norte
que o Sr. de Varela pretende incorporar ao Estado Livre da Irlanda. Tem uma área
de 5.238 milhas quadradas e possui um Parlamento local. Belfast é a capital do
Ulster. — N. do T.

67
Sul votaram pela declaração de guerra e, não apenas pela guerra,
mas por tôdas as medidas, por mais severas que fôssem, no sentido
de sustentá-la sem desfalecimentos. Lembro-me bem de que, nessa
época, a Irlanda era descrita como um dos mais calmos lugares
do mundo. Gozávamos, sem dúvida, a amizade e a camaradagem
da nação irlandesa, sentimentos que nos eram demonstrados da
maneira mais formal pelos seus representantes, mas isso não evitou
que fôrças obscuras das camadas inferiores da Irlanda procuras­
sem ferir-nos pelas costas no período mais crítico e mais perigoso
da luta. Depois da guerra, um doloroso conflito se seguiu e foi
então que tivemos de fazer um tratado com essas mesmas fôrças.
Sou um dos raros remanescentes, entre os signatários dêsse tra­
tado. Um Parlamento Irlandês, livremente constituído, aceitou
êsse tratado por maioria. E êsse tratado, mantido pela Grã-Breta­
nha na letra e no espírito, foi, no entanto, violado e repudiado em
cada cláusula, em cada detalhe, pelo Sr. de Valera, que já se havia
rebelado contra os seus colegas, por haverem negociado o tratado
sem a sua colaboração. Em tudo por tudo, repudiou a Coroa. Re-
pudiu o Conselho Privado. Repudiou os compromissos financei­
ros. Proclama haver constituído a Irlanda em República Indepen­
dente e confessa a intenção de fazer com que tôda a ilha fique su­
bordinada ao govêrno de que faz parte.
O govêrno de Sua Majestade, apoiado pelo Partido Conser­
vador e pelos Partidos Oposicionistas, aceitou agora as reivindica­
ções do Sr. de Valera praticamente sem protesto, exceto quanto
ao fato de não estar a Irlanda Independente preparada para fazer
pressão contra o Ulster, para forçá-lo a desligar-se do Reino Uni­
do. Não tenho dúvidas quanto a isso. Sei que todos defenderiam
o Ulster com tôdas as suas fôrças, se essa região fôsse atacada.
Quanto ao resto das pretenções do Sr. de Valera, ao que me pa­
rece, foram tácita ou diretamente aceitas. Creio que aí está um
quadro perfeito da situação.
Tenho, há muitos anos, seguido as pegadas do meu muito
honrado amigo primeiro-ministro, com respeito à questão irlan­
desa. Quando estava eu dirigindo nesta Câmara as discussões
sôbre a lei do Estado Livre da Irlanda, lembro-me bem de que,
como simples representante, deu poderoso e resoluto apoio ao
govêrno, falando no momento mais aceso e difícil, imediatamen­
te depois de haver sido Sir Henry Wilson assassinado perto desta
casa, em Eaton Square. Em 1925, éramos ambos membros do

68
mesmo govêrno, quando o juiz Feetham, da comissão de frontei­
ra n, proferiu uma sentença que decepcionou profundamente os
ministros irlandeses. Nessa ocasião fiz, como o honrado represen­
tante por Country Down (Sir D. Reid) mencionou, substanciais
modificações quanto aos compromissos financeiros, a fim de colo­
car cm posição mais fácil os homens que haviam assinado o tra­
tado e que estavam lealmente se esforçando para cumpri-lo.
Respeito aos tratados é um fator de capital importância nas
relações dos povos e não pode a quebra dêsse respeito ser enca­
rada como um assunto sem maiores conseqüências. Lembro-me
de que o govêrno irlandês de então encarava as condições estabe­
lecidas não apenas como justas, mas também como generosas.
Q u a n d o o Sr. de Valera assumiu o poder, em 1 9 3 1 , opondo-se a
ôsses homens, o govêrno nacional, do qual meu honrado amigo
primeiro ministro era viga-mestra, não hesitou em impor represá­
lias, em face do repúdio dos compromissos financeiros pelo nôvo
govêrno irlandês. Essas represálias tiveram o proveito de nos inde­
nizar de quase tudo quanto nos era devido, forçando o Sr. de
Valera a pagar uma larga soma das suas obrigações para com o
nosso país pelo sistema indireto, mas eficaz, de taxas sôbre a ex­
portação. Foi essa a decisão do meu honrado amigo nessa emer­
gência.
O govêrno inglês, da maneira mais justa que se podia exigir,
comprometeu-se a resolver por arbitragem tôda a questão relativa
às anuidades devidas pelas compras de terras, bem como a dos
compromissos financeiros constantes do tratado. O Sr. de Valera
estava inclinado a aceitar a arbitragem, mas insistiu que devia
haver um estrangeiro como árbitro, no tribunal. O govêrno britâ­
nico, para todos efeitos e propósitos o mesmo govêrno de hoje,
não concordou em que tivesse assento no tribunal pessoa que não
fôsse súdita do rei-imperador. Pensei então e ainda penso que a
posição assumida por meu muito honrado amigo e pelo govêrno
era a mais correta. Tanto era certa que a Câmara dos Comuns
se apressou a aprová-la. Agora, tôdas as dificuldades concernen­
tes ao tribunal arbitrai estão resolvidas, e resolvidas pelo pro­
cesso mais simples dentre todos: o completo desprêzo do nosso
interêsse nessa questão. Concedemos tudo, quanto às condições
financeiras, que eram justas e aceitáveis; abrimos mão de nossos
direitos quanto ao aforamento das terras sem arbitramento de
qualquer espécie, em troca de um pagamento de dez milhões de

69
libras, a título de indenização, soma irrisória se a considerarmos
como uma solução definitiva, um ajuste final da questão. Prati­
camente, abrimos mão de cem milhões de libras, sôbre as quais
tínhamos direito líquido. Como o chanceler do Tesouro nos lem­
brou, no seu discurso sôbre o orçamento, êsse ato impôs a êste
país, nestes dias de onerosa taxação, de grandes necessidades e
restrições, um onus de mais de quatro milhões de libras anual­
mente, neste ano e nos anos vindouros.
Que eram essas anuidades sôbre as terras? Não representam
um tributo arrancado à Irlanda pela Inglaterra. Eram o preço de
compra pelo qual o camponês proprietário, — luxo que nunca
conseguimos implantar na Inglaterra, — se estabelecia no solo
irlandês. Além disso, larga parte dos quatro ou cinco milhões de
libras que recebíamos da Irlanda anualmente para lá voltava e
continuará a voltar, sob a forma de pensões pagas pelo Tesouro
' Britânico a irlandeses. Por isso mesmo, devo dizer que estou estu­
pefato e que lamento que o govêrno tenha abandonado nossos
direitos, totalmente, nessa questão.
Confesso que estava inteiramente desprevenido, quando li nos
jornais que havíamos abandonado tôdas as nossas reservas quanto
à violação do tratado e tôdas as nossas prerrogativas quanto às
anuidades e, — é êsse o ponto mais importante dentre todos, —
nossos direitos sôbre os portos estratégicos. É êsse aspecto da ques­
tão que me obriga a assumir a ingrata missão de trazer êstes assun­
tos, muito respeitosamente, à atenção e ao exame da Câmara dos
Comuns. Os portos estratégicos são os de Queenstown, Berehaven
e Lough Swilly, agora entregues incondicionalmente, sem garan­
tias ou compensações de nenhuma espécie, como uma demons­
tração gratuita de confiança e de boa vontade, como disse o pri­
meiro ministro, para com o govêrno da República Irlandesa. Quan­
do o tratado com a Irlanda estava sendo elaborado, em 1922,
fui incumbido pelo gabinete de preparar essa parte do acôrdo,
com relação aos portos estratégicos. Negociei com o Sr. Michael
Collins e nessas negociações tive como conselheiro o Almirante
Beatty, que tinha por trás dêle o Estado Maior do Almirantado,
o mesmo que acabara de demonstrar o seu mérito e o seu valor
na condução da campanha naval da Grande Guerra. Por isso
mesmo, tínhamos a máxima autoridade para assegurar à Ingla­
terra, sôbre êsses portos, garantias que seriam o mínimo exigido
pelas necessidades estratégicas da nossa segurança.

70
O Almirantado, nessa época, asseverou-me que, sem êsses
portos, seria muito difícil, senão impossível, abastecer e alimentar
a nossa ilha em tempo de guerra. Queenstown e Berehaven abri­
gariam as flotilhas incumbidas de limpar as proximidades de Bris-
tol e do canal britânico, e Lough Swilly é a base pela qual o acesso
a Mersey e a Clyde é mais garantido. Numa guerra contra um
inimigo que possua uma grande e poderosa frota de submarinos,
essas bases da Irlanda são essenciais às operações de caça de sub­
marinos e de proteção aos comboios que se dirijam aos portos in-
glêses. Sinto-me bastante consternado por quebrar o ambiente de
lírica confiança em que se acham os meus pares. Mas creio que
tôdas as opiniões devem ser ouvidas e registradas. Se rejeitamos
o uso de Lough Swilly e teremos de utilizar Lamlash como base,
isso representa um prejuízo de 200 milhas no raio efetivo de ação
das nossas flotilhas, quer no ataque ao inimigo, quer na proteção
aos nossos navios. Se abrimos mão de Berehaven e de Queenstown,
teremos de nos transferir para Pembroke Dock, o que diminui
de 400 milhas o raio de ação das nossas flotilhas, quer num, quer
noutro sentido. Êsses portos são, de fato, sentinelas avançadas da
nossa costa do Oeste, da qual quarenta e cinco milhões de sêres,
nesta ilha, dependem extremamente, pois é por ela que recebem
o pão de cada dia, vindo do estrangeiro, e por ela é que se pro­
cessa o nosso comércio, igualmente indispensável à nossa exis­
tência.
Em 1922, os delegados irlandeses não nos criaram dificulda­
des quanto a isso. Reconheceram que era de uma necessidade
vital para a nossa defesa o uso dêsses portos e o assunto foi in­
cluído no tratado sem maiores discussões e sem nenhuma contro­
vérsia realmente séria. Agora, abrimos mão dêsses portos, incon­
dicionalmente, entregando-os ao govêmo irlandês, chefiado por
homens, — não quero usar palavras contundentes, — cuja ascen­
são ao poder foi um produto da animosidade que desencadearam
contra o nosso país explorando o sentimento patriótico irlandês
contra a Inglaterra, e cuja presença nos altos postos políticos se
baseia na violação das solenes disposições de um tratado. Nas co­
lunas do Times, li estas palavras:
“O acôrdo de agora... alivia o govêmo do Reino Unido das
obrigações que assumiu no tratado anglo-irlandês de 1921, pelo
qual teve de arcar com a onerosa e delicada tarefa de defender

71
os portos fortificados de Cork, Berehaven e Lough Swilly em caso
de guerra.”
Eis como a questão é apresentada, — como uma libertação
de compromissos incômodos. Ousarei dizer que podemos fazer
uma série de acordos e transações com vários outros países, para
nos libertarmos de obrigações idênticas. Não quero passar dos
limites da discussão, citando aqui os nomes dêsses países que esta-
riam prontos para facilitar a quebra ou abolição da nossa delicada
obrigação de defender os portos do Império Britânico. Sacrifica­
mos quatro milhões de dólares de renda para nos livrarmos dêsse
fatigante problema e nos aliviarmos da obrigação de defender
êsses portos e, ao mesmo tempo, o Império Britânico, em caso de
guerra. É absolutamente certo que o primeiro-ministro previu as
cláusulas que seriam repelidas pelo Estado Livre da Irlanda. É
certo que falamos, nessas cláusulas, da defesa das costas irlandesas.
Foi um ato de polidez. Ambos os lados sentiram que era melhor
colocar as coisas nesses têrmos. Mas êsse portos não fazem parte
apenas da defesa das costas irlandesas. Êles são as defesas naturais,
os pontos vitais da segurança da população da Inglaterra. A posse
dêsses portos, por uma poderosa Armada Britânica, capacita-nos,
por outro lado, a oferecer proteção à Irlanda contra uma invasão
estrangeira, a proteger seu tráfego marítimo e seu comércio e dar-
-lhes garantias contra quaisquer ataques, exceto os aéreos. Mas o
objetivo primordial da retenção dêsses portos é a defesa da Grã-
-Bretanha.
Em tôda a minha longa experiência política, nada me sur­
preende mais do que me encontrar agora tomando posição con­
tra o Govêrno Nacional e contra o Partido Conservador. Bem
se diz que “as vicissitudes políticas são inexauríveis”. Disseram-
nos que essa resolução foi tomada, em definitivo, depois de terem
sido consultados os chefes dos estados-maiores. Se isso é verdade,
se êles realmente recomendaram tal coisa como isenta de perigo,
se não levantaram nenhuma objeção séria a tal propósito, devo
então dizer, por minha parte, que êsses estados-maiores aconse­
lharam o contrário do que o interêsse nacional exigia e do que os
peritos estratégicos recomendaram quando se fêz o tratado com
o Estado Livre da Irlanda. Não sabemos, na verdade, como as
questões foram apresentadas aos preopinantes e é evidente que os
assuntos da defesa nacional e da política estão inextrincàvelmente
misturados. Se aceitarmos que, nessas bases, teremos ao nosso lado

72
uma Irlanda amistosa e que êsses portos se acham em mãos capazes
c dignas de tôda confiança, então os argumentos resvalarão, sem
conseguir aprumar-se de pé. Mas para afirmar isso precisamos
examinar a questão em tôda a sua complexidade. Que lastro de
experiência temos nós, para assegurar que tudo isso dará bom
resultado no futuro? Estamos concedendo direitos, mas não temos
garantias, a não ser a esperança e a asserção de que essas conces­
sões serão retribuídas em amizade e boa cooperação. Necessària-
mente, se êsses portos ou qualquer outra parte da Irlanda cair em
mãos de uma potência inimiga, então a questão passará para o
domínio da fôrça, — e estaremos, nesse caso, preparados para
retificar a situação, se tivermos poder superior.
Não quero prognosticar, — conquanto essa possibilidade
não deva ser excluída, — que êsses portos caiam em mãos de uma
potência inimiga. Precisamos tomar em conta a declaração pe­
remptória do Sr. de Valera de que a Irlanda repelirá qualquer
desembarque de fôrças estrangeiras em suas costas e que o seu
desejo máximo é prevenir o seu país contra os riscos de tais intru­
sões. Mas quer me parecer que há um perigo a ser considerado,
— e essa hipótese também não deve ser excluída, — se a Irlanda
vier a se tornar neutra. Não estou aparelhado a formar uma idéia
precisa da situação jurídica do govêrno dessa parte da Irlanda,
chamada Irlanda do Sul e agora crismada com o nome de Eire.
Entretanto, pergunto: que garantia teremos se a Irlanda do Sul,
ou a República da Irlanda, como querem os irlandeses, — e não
queremos contrariá-los, não declarar neutralidade se entrarmos em
luta com uma nação poderosa? O primeiro passo que o inimigo
daria seria o de oferecer imunidades completas de qualquer espé­
cie, à Irlanda do Sul, para que seu govêrno proclamasse a neutra­
lidade. Que resposta o Sr. de Valera ou seus sucessores, — o
mundo não termina com a vida de cada homem, — dariam a isso?
Êle talvez dissesse: “Ficaremos a vosso lado”. É isso o que todos
nós esperamos. Mas também pode dizer: “Seremos neutros”. Mas
há uma terceira resposta, para a qual quero chamar a atenção da
Câmara dos Comuns. Poderá dizer, igualmente: “Restaurem a
integridade territorial do meu país, dêem-me a Irlanda inteira, e
eu farei causa comum convosco”. Eis uma séria contingência que
teremos de enfrentar no futuro. Podemos dizer isso, porque na
verdade é êsse o seu pensamento, o pensamento que se depreende

73
das suas palavras, ao dizer que êste nôvo acôrdo conduziria, pos­
teriormente, a supressão da “divisão”.
Os ministros da Coroa estabeleceram amistosas e agradáveis
relações com o Sr. de Valera. Reconheço que a sua convicção, —
aliás tipicamente irlandesa, — é a de que o único meio de unir
efetivamente as duas ilhas é dissolver todos os laços e conexões
existentes entre elas. Os ministros certamente formaram essa im­
pressão e, além do mais, tiveram a vantagem de um demorado
contato com êle. Mas se nêle confiaram, logo veremos essa con­
fiança desmentida. O Sr. de Valera não fêz promessas de qualquer
natureza, não ofereceu as menores garantias e cada um dos seus
atos coloca-o em posição contrária à nossa. Graças a êste acôrdo,
parece-me mais do que provável, — de modo algum podemos
excluir esta hipótese, — que o Sr. de Valera em qualquer emer­
gência suprema exigirá a entrega do Ulster, como uma condição
essencial para a declaração da neutralidade irlandesa. Êle, repito,
não fêz promessas e mesmo que não tenha pensado o que afirmo,
acho que não devemos deixar os nossos direitos sem proteção
eficaz.
Podeis dizer que êle é um homem de palavra. É isso o que
se pode dizer do Sr. Michael Collins, que morreu pela fé de sua
palavra. É o que se pode dizer do Sr. Kevin 0 ’Higgins, que tam­
bém morreu pela sua, e do Sr. Arthur Griffiths, que não morreu
cm conseqüência do tratado, mas do esgotamento e das preocupa­
ções que teve para mantê-lo de pé. E ainda poderia citar o Sr.
Cosgrave e seus colegas, que perderam todo o poder em seu país,
no esfôrço para revalidar os compromissos assumidos para com
a Grã-Bretanha, e que se mostram, agora, estupefatos, por termos
nós aberto mão de tudo aquilo cujo cumprimento representava,
para êles, uma questão de honra. Outra teria sido a época propícia
para fazermos concessões. Se essas concessões eram possíveis e
não prejudicavam a nossa segurança, devíamos tê-las feito quando
se achavam no poder êsses homens que tão veementemente se
mostravam interessados em colaborar conosco. Isso teria tornado
a tarefa dêsses homens mais fácil. Fazer o que agora fazemos é,
porém, premiar todos aquêles que incitaram a Irlanda a quebrar
seus compromissos para com o govêrno inglês e desamparar os
homens que tão lealmente se esforçaram para mantê-los.
O Ilustre membro da Câmara dos Comuns, o Sr. Logan, diz
que o Sr. Cosgrave aplaudiu o nôvo acôrdo, pelo qual abrimos

74
mão dos nossos legítimos interêsses. Naturalmente teria de aplau­
dir. Só tenho razões para admirar o gesto dêle, aplaudindo imedia­
tamente as grandes concessões feitas ao seu país. Apesar de tudo,
continuo a afirmar que se as concessões tinham de ser feitas que
o fôssem aos que eram leais e fiéis à Inglaterra. O Sr. Cosgrave,
seus amigos e seu partido, ficarão na história irlandesa como os
que menos alcançaram ou realizaram, e o Sr. de Valera como
aquêle que tudo conseguiu. É uma pesada restrição que será
imposta, pela história, a homens que lealmente procuraram cum­
prir os compromissos de solenes tratados. O Sr. de Valera não teve
preocupações, senão as de lutar contra a divisão da ilha, como o
objetivo principal de sua vida. Mas, por trás dêle, há outras fôrças
da Irlanda, as fôrças sombrias que se renovam de ano para ano.
Quando alguns se conciliam conosco, outros surgem para tomar
os lugares vacantes. No momento, essas fôrças são poderosas na
Irlanda. Ninguém mais, desde a assinatura do tratado, foi trazido
à barra dos tribunais, na Irlanda, por haver assassinado um inglês.
Mas ali existe uma associação secreta de homens que se uniram
em tôrno do velho princípio de que o perigo da Inglaterra repre­
senta a grande oportunidade da Irlanda. Mesmo o Sr. de Valera,
com suas surpreendentes conquistas, com seus espantosos triunfos
sôbre aquêles a quem os irlandeses consideram como inimigos here­
ditários, tem tido certa dificuldade para conter essas fôrças. Dei­
xem-no proclamar que adotará uma política amistosa para com a
Inglaterra e vereis essas fôrças crescerem e se tomarem, em breve,
um partido preponderante. Deixem-no expor a êsse povo as pers­
pectivas dramáticas de uma guerra em defesa da Inglaterra e vereis
o que êles querem que suceda. Parece-me que acreditais que a pos­
sibilidade da neutralidade é a que se confirmará em tal oportu­
nidade. Asseguro-vos, porém, que os portos nos serão negados na
hora da nossa maior necessidade e nos encontraremos na mais
grave das contingências para proteger a população inglêsa contra
as privações e talvez mesmo contra a fome. Quem desejaria meter
a cabeça sob tão ameaçador cutelo? Existe outro país, em todo o
mundo, onde tal coisa pudesse ser objeto de consideração? Quero
dizer-vos, — e espero não ofender a ninguém, — que não acredito
que exista, em qualquer parte, uma Câmara em que tais propo­
sições fôssem aceitas com tanta facilidade. Precisamos considerar,
além do mais, o problema dos Domínios. Não faltarão membros da
Câmara que sôbre êsse problema possam discorrer, focalizando a

75
África do Sul, o Canadá e a Austrália. O caso da Irlanda não pode
ser comparado com o dos nossos Domínios. A Irlanda do Sul não
é um Domínio. Nunca aceitou essa posição. É um Estado Livre,
baseado num tratado que foi postergado e destruído. Portanto, um
Estado em situação anômala. Ninguém conhece os direitos jurí­
dicos e internacionais, o status em que repousa. Os D om ínios são
distantes, e podemos, apesar disso, garantir-lhes a integridade,
por meio da nossa esquadra. Os Domínios são leais. Por maior que
possa ser a perda de sua cooperação, durante o curso de uma
guerra, ainda assim penso que não seria fatal para nós se um dêles
proclamasse a sua neutralidade. Com o caso irlandês, porém, sen­
timos o perigo à nossa porta. Sem o uso dos portos estratégicos
irlandeses, sobretudo se êsses portos vierem a ser cedidos a um
inimigo, encontraremos as maiores dificuldades em garantir o nosso
abastecimento.
Desejaria que fôsse possível, mesmo a esta altura, adiar a
passagem desta lei, fazendo-a voltar ao primeiro ministro, até que
novos entendimentos possam ser feitos com relação aos portos
estratégicos ou estabelecido um acôrdo de ação comum e mútua
assistência, em caso de guerra. Não seria melhor abrir mão dos
dez milhões de libras e adquirir o direito legal de, *— como um
empréstimo permitido pelo tratado, — usar os portos quando isso
se tornasse imperioso? Devemos, por certo, assegurar-nos êsse di­
reito. Nossas guarnições, na Irlanda, são pequenas, o suficiente,
apenas, para manter a vigilância sôbre as nossas posições. Mas
constituiria um passo muito sério, para o govêrno de Dublin, atacar
êsses fortes enquanto em nosso poder e enquanto temos o direito
de ocupá-los. Seria, porém, muito fácil ao govêrno de D ublin re­
cusar-nos permissão para utilizá-los, se os abandonarmos por um
dia que seja. Os canhões alí estarão. As minas alí estarão também.
Mas o mais importante de tudo é o direito jurídico, que então não
nos assistiria. Estamos abandonando uma causa, abrindo mão dês-
ses portos, dando a êsse govêrno antagônico o direito e o poder de
nos proibir o regresso. Tivemos direitos. Mas abrimos mão dêles.
Esperamos, em recompensa, lealdade e boa vontade, tão fortes
quanto bastem para garantir a nossa segurança. Mas suponhamos
que assim não seja. Violar a neutralidade irlandesa, que seria
proclamada no momento da declaração de uma guerra, viciaria a
nossa causa, a causa pela qual teríamos ido à luta, e nos colocaria
em má posição perante o tribunal da opinião pública mundial. Se

76
tivermos de lutar novamente, lutaremos em nome da lei e do res­
peito aos direitos dos pequenos países, — como a Bélgica, por
exemplo, — sob as bases e de acôrdo com o âmbito do convênio
da Liga das Nações.
Quando estivermos procedendo, como pode vir a acontecer
em deploráveis circunstâncias para o mundo e a civilização, no
sentido de restaurar a lei e a eqüidade, como poderemos nos jus­
tificar a nós mesmos, se começamos por violar uma neutralidade
que o mundo vigiará, — a da República Independente Irlandesa?
No momento em que a boa vontade dos Estados Unidos, em maté­
ria de bloqueio e de abastecimento, possa ter as mais altas conse­
qüências no destino de uma guerra, poderemos ser forçados, talvez,
a tomar uma atitude violenta, contra tôdas as leis e usos estabele­
cidos, ou, para fugir a essa alternativa, entregar à Irlanda do Sul
todo o Ulster, ou ainda, numa terceira hipótese, nos conformarmos
a não usar êsses portos estratégicos. Por que tudo isso há de acon­
tecer? Quais serão os novos fatos que nos conduzirão a êsse cami­
nho? Para mim, é muito clara e compreensível a situação. Para
tôdas as famintas nações agressivas, a Inglaterra deve ser premida
e ameaçada, com a maior violência e constância, afim de lhes dar
caminho, intimidade. Se é assim, por êsse simples fato, estaremos
tornando a possibilidade de uma guerra cada vez mais próxima,
ao mesmo tempo que diminuímos os nossos recursos para enfrentar
o perigo. Estamos desprezando meios de segurança e sobrevivên­
cia, por sombras vãs e vagas esperanças de cordialidade em campo
pouco propício a tal sentimento.

77
A EUROPA TERÁ D E ESCOLHER
D is c u r s o p r o f e r id o n aB ô l s a d e C o m é r c io de M anchester.
9 DE m a io d e 1 9 3 8

Maio, 3-9. Visita de Herr Hitler a Roma.

S into que é o meu dever esforçar-me, tanto quanto me seja


permitido, para levantar o país em face de um sempre crescente
perigo. Isso não representa campanha contra o govêrno atual, nem
contra a oposição. Não tem o propósito de promover o interêsse
de nenhum partido ou de influenciar o curso de qualquer eleição.
Todos os partidos, Conservador, Liberal, Trabalhista e Socialista
estão unidos. Igrejas e capelas, protestantes e católicos, judeus e
gentios, também estão. Os líderes das uniões trabalhistas, das
cooperativas, comerciantes, exportadores, industriais, êsses que
estimulam e fortalecem as nossas fôrças territoriais, como os que
trabalham pela nossa defesa, nenhum dêles se sente desobrigado.
Que propósito foi êsse que nos reuniu? A convicção de que
a vida da Inglaterra, sua glória e sua mensagem ao mundo só
podem ser preservados através da união nacional. Só a união na­
cional pode fortalecer uma causa que é maior e mais ampla do
que a nossa própria nação em si mesma. Conquanto possamos di-

79
ferir em matéria de opinião política, conquanto divirjam os inte­
rêsses dos nossos partidos, conquanto diversificadas as nossas
situações e inclinações, temos todos uma coisa em comum: o
empenho em defender a nossa ilha contra a tirania e a agressão e,
tanto quanto possamos, em dar também mão amiga como ajuda
aos outros, que estão em perigo imediato maior do que o nosso.
Nós repudiamos as idéias abjectas e indignas dos derrotistas. Espe­
ramos fazer o nosso país forte e seguro, — só poderá sentir-se
seguro se fôr forte, — e esperamos que êle desempenhe a sua parte,
ao lado das outras democracias parlamentares, em ambos os lados
do Atlântico, para salvaguarda da civilização, combatendo os de­
vastadores e terríveis erros de uma outra guerra mundial. Deseja­
mos ver inaugurado o império da lei internacional, alicerçada,
como deve ser nestes dias turbulentos, por amplas e, se possível,
super-abundantes fôrças armadas.
Neste momento da história, as massas populares, em todos
os países, têm pela primeira vez a oportunidade de viver com
maior amplitude e sem maiores restrições. A ciência encontrou
meios de oferecer mesa mais dadivosa e mais farta do que até
agora havia sido possível a milhões e milhões de indivíduos. As
horas de trabalho foram diminuídas, aumentaram as garantias
contra os acidentes e riscos pessoais. A cultura se tornou mais
ampla e mais acessível. Um senso de justiça social mais conscien­
cioso, uma sociedade mais eqüitativa e fraternal, tais são os tesou­
ros que, depois de todos êsses séculos de confusão e de impotên­
cia, foram incorporados ao patrimônio da humanidade.
Tôdas essas esperanças, tôdas essas perspectivas, tôdas essas
conquistas que o gênio do homem criou serão destruídas pela tira­
nia, pela agressão e pela guerra? Ou se tornarão baluartes da liber­
dade e fortaleza da paz?
Nunca foi dado à humanidade escolher tão simplesmente
entre o bem-estar e a opressão. Nunca foi êsse problema apresen­
tado ao mundo tão singela e ao mesmo tempo tão brutalmente. A
escolha está aberta. A terrível balança estremece. Pode ser que
a nossa ilha e tôdas as,Commonwealths, reunidas com o mesmo
propósito, possam desempenhar um papel importante e talvez
mesmo decisivo, no sentido de modificar a sorte da humanidade
de má para boa, do mêdo para a confiança, das misérias e crimes
incomensuráveis para as bênçãos e os proveitos do trabalho ordei­
ro e pacífico.

80
Fizemos de nós mesmos os servidores desta causa. Mas não
se pode servir a uma causa sem ter primeiro estabelecido um plano
e um método de ação, capazes de lhe assegurarem a vitória. Não
quero cansá-los inutilmente com generalidades. Deve-se ter uma
visão de conjunto. Deve-se ter um plano e a ação deve segui-lo
inflexivelmente. Definiremos o nosso plano imediato e a nossa po­
lítica em uma simples sentença: “Armemo-nos e mantenhamos
os princípios estabelecidos pela Liga das Nações.” Nisso, apenas,
repousa a garantia da nossa segurança, a defesa da liberdade e a
esperança de paz.
Que são os princípios estabelecidos pela Liga das Nações,
pelos quais nos bateremos? São os que, depois das calamidades da
Grande Guerra, vários Estados e povos, em assembléia solene,
deliberaram adotar como um sistema de segurança coletiva, atra­
vés do qual a agressão violenta de um país contra outro deve ser
reprimida e prevenida e através do qual, igualmente, as questões
entre povos ou comunidades devem ser resolvidas sem o apêlo à
guerra. Pelo convênio da Liga das Nações, como pelo Pacto Kellog,
quase todos os países adotaram êsses princípios, deliberaram man-
tê-los e submeteram-se a êles, quando em causa.
A aplicação prática das grandes inspirações humanas redun­
da, muitas vêzes, em fracasso, devido ao fato de faltarem à fé
da sua palavra muitos daqueles que antes batalharam por uma
idéia. Alguns são seduzidos e desviados pela intriga e se tornam
por si mesmos cínicos e egoístas. Muitos se deixam abater por
falta de espírito de cooperação e de fortaleza nas suas decisões.
Outros se deixam dominar pelo pavor. Foi por isso que o convê­
nio perdeu a sua significação. Foi por isso que a Liga não passou
de uma boa intenção frustrada. Acima dos interêsses dos gover­
nos e das massas, estendeu-se a sombra tôrva da desunião e da
discórdia. Aos nossos ouvidos, chegam zombarias e motejos como
reprovação a êsse fracasso.
Ainda assim, aqui estamos, para proclamar que êsse era o
plano supremo, o mais sábio, o mais nobre, o mais sadio, o mais
prático de todos os caminhos que os homens e mulheres de todos
os países poderiam escolher. Era um caminho pelo qual poderiam
seguir para a frente de mãos dadas. Se a Liga das Nações foi mal
conduzida e destroçada, devemos reconstruí-la. Se a Liga de povos
pacíficos não produziu resultado, devemos convertê-la numa Liga
de nações armadas, tão leal e bem intencionada que não moleste

81
os outros e tão forte que por êles não seja molestada. Por que
devemos considerar essa tarefa acima das nossas fôrças, no mo­
mento presente?
Fora da nossa ilha feliz, o mundo está tempestuosamente agi­
tado. No Oriente longínquo, um brutal massacre vem sendo feito,
contra um povo tão vasto quanto desorganizado. Mas os chineses,
pacientes, inteligentes, bravos, conquanto dolorosamente despro­
vidos de recursos bélicos, têm oferecido cada vez maior resistência
ao cruel invasor e agressor. E não é pouco provável que êste, no
fim, acabe sendo castigado e repelido. Devemos reconhecer, aqui,
o serviço que a Rússia está prestando ao Extremo Oriente. A Rús­
sia Soviética, sem disparar um tiro, está mantendo as melhores
tropas japonêsas em guarda nas fronteiras siberianas e o resto
dos exércitos japonêses não é capaz de subjugar, sozinho, os qua­
trocentos milhões de chineses. Internamente, no Japão, não existe
apenas esgotamento econômico e financeiro, mas ainda o desper­
tar das massas japonêsas, hoje com uma consciência social mais
nítida, toma a forma de sério descontentamento. Se a nação japo-
nêsa refletir a tempo, recuará da inglória emprêsa, cujo prosse­
guimento será a destruição de todo o maravilhoso progresso que
conseguiu elaborar nos últimos cinqüenta anos.
Voltemos, porém, as vistas para a Europa. Dois ditadores,
homens de invulgar fôrça e habilidade como condutores de mas­
sas, estão se abraçando e beijando em Roma. Mas qualquer pessoa
pode ver os antagonismos de interêsses e, talvez, de sentimento
também, que separam os dois povos. Todos podem verificar que
o ditador italiano está em apuros. A conquista da Abissínia foi
um êrro. As fôrças e os recursos do industrioso e amigável povo
italiano estão sendo desperdiçados. A Abissínia está ocupada, mas
não submetida. A sua agricultura e indústria estão no mesmo. Um
grande exército de ocupação está sendo mantido, em região dis­
tante, a ruinoso custo. O povo italiano está sobrecarregado, super-
onerado, empobrecido. O seu standard de vida declinou grande­
mente. Mal pode, agora, comprar no exterior, por meio de câmbio,
certas utilidades que necessita, para seu conforto, devido à obri­
gação de sustentar o pêso esmagador dos armamentos que é obri­
gado a pagar. A violenta ocupação da Áustria pelos nazistas ger-,
mânicos expõe a Itália ao contato direto com um poder agressi­
vo muito maior e os líderes alemães já falam de um caminho aberto
através do Mediterrâneo para o que êles chamam de “riquezas da

82
África”. Mesmo os fascistas da Itália, os homens de partido, estão
perguntando a si próprios que poderá isso representar para a se­
gurança e proveito de sua pátria. Agora, como antes, o poder
ditatorial não está firme. Os cavaleiros podem, de um momento
para outro, perder o equilíbrio. Em meio do seu festim, devem
êles ler, como Baltazar, os signos proféticos escritos na parede:
“Mane, Thekel, Phares”.
Lancemos a vista um pouco mais para o Oeste. A agonia da
guerra civil peninsular continua. Tivesse sido apenas uma luta
interna, uma querela entre espanhóis, teríamos desviado os nossos
olhos dêsse trágico panorama. Mas a vergonhosa intrusão dos
podêres ditatoriais, com tropas organizadas e munições em grosso,
depois da enganosa mascarada da não-intervenção, deu a essa luta
uma amarga significação, que a projeta fora dos quadros penin­
sulares. O govêrno republicano está ainda resistindo. O fim pode
ser retardado por longo tempo ainda. A simpatia dos Estados Uni­
dos, pela sua causa, tem se manifestado em alto grau. Alimenta­
mos ainda a esperança de que o nosso país, que sempre agiu com
inteira boa-fé na questão, possa encontrar uma fórmula de media­
ção entre os combatentes, de sorte a fazer com que a Espanha,
pacificada, possa abrigá-los a todos.
Agora, chegou o momento de me referir à melhor de tôdas
as notícias que temos tido. A França e a Inglaterra, as duas demo­
cracias parlamentares, acabaram de ajustar entre si, aberta e pübli-
camente, uma aliança defensiva, fazendo causa comum e tomando,
se necessário, medidas comuns para sua mútua segurança e de­
fesa dos princípios de liberdade e livre govêrno pelos quais se re­
gem. Que é isso, senão o primeiro e o mais importante dos passos
em favor da segurança coletiva? Não nos sentiremos todos mais
garantidos, por estarem os povos francês e inglês, num total de
85 milhões de indivíduos, — só na Europa, — de mãos dadas e
empenhados na defesa, um do outro, em caso de agressão não
provocada?
Por que devemos parar aqui? Por que não convidaremos ou­
tros a participar dessa combinação? Por que não associamos essa
ação necessária com as sanções e autoridade da Liga das Nações?
Essa não seria, além do mais, uma política que reuniria a mais
ampla soma de aprovações, unificando a opinião interna inglêsa?
Seria um grande êrro se a nação fôsse sem razão alguma dividida
por qualquer tentativa de oposição aos princípios de direito inter­

83
nacional e de segurança coletiva, que representaram uma idéia
comum, entre os diversos partidos, durante as últimas eleições.
Não é melhor isso do que nos lançarmos à guerra, quando
metade dos que poderiam ser nossos amigos ou aliados tenham
já sido aniquilados, um por um? Nenhuma nação isolada pode ser
convidada a participar de tão solene compromisso, a menos que
saiba existirem outros fortes e valentes companheiros, unidos não
sòmente por um convênio de altos ideais, como também pelas mais
práticas combinações militares. Dêsse modo, teremos as melhores
possibilidades de evitar a guerra ou, se isso falhar, de sobreviver
com independência, sem capitular às mãos dos conquistadores.
Para ser mais preciso, — os países que deviam ser convida­
dos a juntar-se à Inglaterra e à França com o propósito especial de
defender a Liga são a Iugoslávia, a Romênia, a Hungria e a Tche­
coslováquia. Êsses países podem ser dominados um a um, mas
reunidos representam uma enorme fôrça. Em seguida, vêm a Bul­
gária, a Grécia e a Turquia, nações que desejam preservar a sua
independência nacional e as suas características, sendo que, com
as duas últimas, temos sempre mantido a mais cordial amizade.
Se êsse poderoso grupo balcânico e danubiano se unir firmemente
às democracias francesa e inglêsa isso constituirá um imenso e,
certamente, também decisivo passo no sentido da estabilidade da
situação européia. Contudo, pode ser que isso seja um simples
comêço. A leste da Europa, jaz o enorme poder da Rússia, cuja
forma de govêrno eu detesto, mas que de modo algum visa agredir
militarmente os seus vizinhos, um país cujo interêsse é o da paz,
um país que se sente também profundamente ameaçado pela hosti­
lidade nazista, um país que constitui uma grande barreira e serve
de contrapêso a todos os outros Estados da Europa central que
acabo de mencionar. Certamente, nós não devemos ir à Rússia
de chapéu na mão, nem contar de maneira definitiva com as ati­
tudes do govêrno soviético. Seria, entretanto, uma imprevidência
e uma insensatez, tentarmos criar barreiras desnecessárias no sen­
tido de uma aüança com as massas russas com o propósito de
resistir a um ato de agressão nazista.
Há ainda um terceiro período, nesse processo. É o caso da
Polônia e dos países do Norte, os Estados Bálticos, as nações es­
candinavas. Se tivéssemos reunido as nossas fôrças como já tive
oportunidade de explicar, estaríamos em condições de oferecer
a êsses países as melhores garantias m ilitares em favoz da paz. No

84
momento presente, não sabem essas nações que caminho tomar.
Se, no entanto, vissem uma forte e poderosamente armada união
de fôrças, tal como já descrevi, tão desejosa de paz quanto elas
próprias, fàcilmente poderiam ser induzidas a entrar para êsse
grupo, duplicando a nossa segurança. Que seria isso, senão uma
Liga das Nações recriada, reorganizada, devotada ao propósito
original de prevenir a guerra? Se pudéssemos atingir êsse objetivo,
o perigo da guerra seria removido, pelo menos, durante a duração
das nossas vidas. E, através do Oceano Atlântico, os Estados Üni-
dos nos expressariam sua simpatia e seu encorajamento.
Poderiam dizer-me: “Mas isto é o encurralamento da Ale­
manha.” Eu respondo: “Isto é o encurralamento de um agressor.”
As nações subordinadas ao convênio, por mais fortes que possam
vir a ser, nunca constituirão uma ameaça à paz e à independência
de outros Estados. Essa é a essência das condições sob as quais
se uniram. Organizar uma combinação destinada a mover a guerra
a um único Estado seria um crime. Organizar uma combinação de
defesa mútua contra um provável agressor, não é um crime, mas
o mais alto dever moral e a virtude suprema. Não queremos para
nós mesmos uma segurança de que a própria Alemanha não possa
também gozar. Se a Alemanha não nutre desígnios agressivos,
se a Alemanha tem também receio de ser atacada, então junte-se
a Alemanha a nós outros, participe do nosso grupo e partilhe eqüi-
tativamente de todos os nossos privilégios e garantias.
Fizemos um acôrdo com a Itália, a respeito do qual há mui­
tas esperanças e também muitas dúvidas. Ninguém sabe, por en­
quanto, de que lado ficará a Itália se a Alemanha precipitar outra
guerra mundial. Mas a Itália tem um grande serviço a prestar, en­
trando para uma Liga como a que descrevi. Nada poderia tornar
o acôrdo anglo-italiano mais efetivo e real do que essa associação
de todos os países para manter a paz no Sul e no Centro da Europa.
Diz-se que a Liga nos envolveria em questões de outros povos
e não conseguiríamos, em retribuição, auxílio correspondente ao
que teríamos dado. Examinemos essa objeção. Estamos já pro­
fundamente envolvidos nas questões da Europa. Há apenas um
mês atrás o primeiro-ministro enunciou, na Câmara dos Comuns,
a longa lista dos países em cuja defesa poderíamos ir à guerra:
França, Bélgica, Portugal, Egito e Iraque. Agora, vejamos os
países que poderiam vir a ser vítimas de agressões, e pelos quais
não iríamos à guerra, mas cuja sorte nos interessa sobremaneira.

85
Não temos nenhum compromisso, nenhuma obrigação imediata
para com êles, mas examinaríamos o ato de agressão quando viesse
a ocorrer. Tomemos, como exemplo, o caso da Tchecoslová­
quia, que acabo de mencionar. Conquanto não tivéssemos ido tão
longe quanto a França, fazendo um apêlo à Tchecoslováquia, o
Sr. Chamberlain avançou bastante. E como somos aliados da Fran­
ça estamos, certamente, envolvidos na questão. Podemos ser en­
volvidos, como disse o primeiro-ministro, pela fôrça das circuns­
tâncias, mesmo não existindo compromisso legal, neste como em
outros casos. Estamos, finalmente, neste instante, oferecendo con­
selhos à Tchecoslováquia e, se ela tomar êsses conselhos e fizer
as concessões que julgamos acertadas, sendo, contudo, atacada,
não é claro que estamos moralmente obrigados? Eis como neste
caso, — o mais urgente, — chegamos a assumir compromissos
que excedem aos que o convênio da Liga das Nações prescreve.
O convênio não diz que devamos ir à guerra pela Tchecoslová­
quia, ou qualquer outro país, mas apenas que devemos ser neutros
(no sentido de indiferentes) entre o agressor e a vítima da agressão.
Se a guerra rebenta na Europa, ninguém pode prever até
onde se alastrará ou quem terá poder suficiente para detê-la. Não
é melhor, pois, que sejamos prudentes, ganhando a fortaleza, a
resistência, a fôrça que resultam da ação combinada? Não é acer­
tado procurar aplicar o convênio da Liga à realidade presente,
para unir o maior número de nações possível em tôrno dêle, ga­
nhando nós, dêsse modo, certa parcela de proteção para nós mes­
mos, como compensação dos riscos que estamos enfrentando pelos
outros? Com a presente política de malsinação da Liga e dissenção
partidária em tôrno da aplicação do convênio estamos apenas
tendo desvantagens em todos os sentidos. Nada mais desastroso
do que nos dividirmos, internamente, quanto à nossa política ex­
terior. Uma eleição travada em tôrno de problemas de ordem do­
méstica é coisa que estamos habituados a assistir. Mas uma eleição
cujas discussões giram em tôrno dos problemas da nossa defesa
e da política exterior tornará a Inglaterra um país dividido, com
um Parlamento desequilibrado e incoerente, no momento justo em
que os perigos que ameaçam o continente alcançam o seu apogeu.
É por isso que faço um apêlo em prol da unidade nacional e de
uma política que só através dela pode ser estabelecida.
Dizem-nos que não nos devemos envolver em questões ideo­
lógicas. Se isso significa que não devemos sustentar o comunismo

86
p

contra o nazismo, ou vice-versa, estou de acôrdo. Ambas as dou­


trinas são igualmente nocivas aos princípios de liberdade. Certa­
mente não sustentaremos uma contra a outra. Mas, sem dúvida,
temos o direito de opinião. Não podemos discernir entre o certo e
o errado, entre o agressor e a vítima? Não se trata de uma questão
de combater ditadores pelo simples fato de serem ditadores, mas
apenas pela sua agressividade contra outros povos. Não temos nós
mesmos uma ideologia, — se me permitem o uso desta feia pala­
vra, — no nosso sistema liberal, no nosso govêrno parlamentar
c democrático, na Magna Carta e na Petição de Direito? Não esta­
mos prontos para fazer todos os sacrifícios e esforços pela nossa
própria ideologia, pela nossa própria causa, pela nossa própria
organização, como os fanáticos de qualquer dêsses novos credos?
Não estamos dispostos a defender o direito, com ardor, zêlo, com­
batividade e ímpeto igual ao de que dispõem os líderes dos Esta-i
dos totalitários?
Deve existir um abase moral para a política exterior da In­
glaterra. O povo inglês, depois de tudo por quanto temos passado,
não deseja ser arrastado a uma outra guerra terrível em nome de
velhas alianças e combinações diplomáticas. Se as profundas causas
de divisão forem removidas do nosso meio, se tôdas as nossas ener­
gias forem concentradas na tarefa essencial do nosso fortaleci­
mento e da nossa segurança, isso se dará apenas porque nobres
e generosos ideais animam tôdas as nossas classes e ecoam até
mesmo entre os povos dominados pelos ditadores, unindo tôdas as
populações de língua inglêsa em todos os quadrantes do mundo.
Eis porque eu vos digo: “Mantenhamos os princípios da Liga das
Nações e procuremos revivê-la e fortificá-la.”
Eis um plano prático. A Inglaterra e a França estão unidas.
Juntas, representam uma imensa fôrça moral e material, que pou­
cos ousariam desafiar. Gostaria de ver êsses dois países se dirigirem
aos pequenos Estados que estão ameaçados, que vão ser devorados
pela tirania nazista, e dizer-lhes sinceramente: “Nós não os ajuda­
remos se vocês não se ajudarem a si mesmos. Que pretendem
fazer? Qual a contribuição que podem dar à sua própria defesa?
Estão dispostos a se baterem pelos princípios do convênio da Liga?
Se estão decididos a isso e se o querem provar por meio de atos,
então estaremos convosco, em ativa colaboração militar, sob a au­
toridade da Liga, com o propósito de proteger cada Estado e o
mundo contra outro ato de agressão.”

87
Não espero que todos os Estados da Liga assumam obriga­
ções iguais. Alguns estão à distância, muito longe, e outros não
correm perigo. Mas podemos reunir dez Estados bem armados,
todos empenhados em resistir a qualquer agressão contra um dêles,
todos decididos a contra-atacar o agressor em ação combinada e si­
multânea, e assim seriamos tão fortes que o perigo imediato estaria
afastado e haveria lugar para estabelecer a estrutura de um sistema
de paz.
Eis uma política exterior que não nos envolveria em compro­
missos mais sérios do que aquêles que já tomamos e nos daria
possibilidades maiores de êxito no sentido de estabelecer uma
efetiva, senão absoluta segurança. Não há nada de visionário ou
de sentimental em tal política. Ela é nada mais, nada menos, do
que a aplicação do senso comum e, por outro lado, se entrelaça
na grande estrutura da lei internacional e da união dos povos,
corporificadas pela Liga das Nações e pelo seu convênio. Isso
pode ser um belo sonho, mas é também um plano prático, que,
acredito, se fôr levado a efeito com coragem, com compreensão
e energia, pode reunir uma Europa pacífica em redor de uma
Inglaterra e de uma França fortes. Ainda não é muito tarde para
estabelecermos essa política e a conduzirmos ao desejado bom
têrmo. Então, quando tivermos reunido essas fôrças e por uma
forte união afastado o receio da guerra, será tempo oportuno para
resolver as queixas das nações descontentes, eliminando as causas
de ódio e de inveja, do mesmo modo que removemos o temor da
guerra. Será tempo oportuno para edificarmos a cúpula de todo
êsse trabalho, sobretudo no que toca à redução geral dos arma­
mentos e dos seus ônus, que, se continuam a crescer como até aqui,
conduzirão os povos, através da bancarrota, à mútua destruição.
Antes de rejeitardes êsse plano, com tôdas as suas grandes
esperanças, com todos os seus riscos e dificuldades, que não desejo
esconder, considerai a alternativa que nos resta. Não há, fora dessa,
outra política exterior a seguir, a não ser a do conformismo. É não
nos incomodarmos com todos êsses países da Europa Central, não
nos aborrecermos com a preocupação de preservar o convênio da
Liga, reconhecendo que tudo isso é efêmero e vão e nunca poderá
ser restaurado, e fazermos um pacto especial de amizade com a
Alemanha nazista. Diz-se que não há razão pela qual não devamos
viver em têrmos amigáveis com a Alemanha. É do nosso dever
fazer isso, por menos que apreciemos o seu sistema de govêrno.

88
por mais que estejamos revoltados com as cruéis perseguições ra­
ciais e religiosas com as quais se alimentam as chamas do ódio na­
zista. No caso de fazermos um acôrdo internacional para preservar
a paz do mundo, com menos razão devemos excluir a Rússia So­
viética. Quando nos dizem que devemos fazer um pacto especial
com a Alemanha nazista, tenho desejo de saber que espécie de
pacto será. êsse e que irá custar à Inglaterra. Sem dúvida, nosso
govêrno pode fazer um acôrdo com a Alemanha.' Tudo quanto
terá que fazer será devolver-lhe suas antigas colônias e tudo o mais
quanto ela desejar, amordaçar a imprensa inglêsa, baixar uma
lei de censura, dar a Herr Hitler plena liberdade para a difusão
do sistema nazista e a dominação de tôda a Europa Central. Essa
é a alternativa que restaria à nossa política exterior. Na minha
opinião, nenhuma outra poderia ser tão desastrosa e nociva.
Em primeiro lugar, isso nos conduziria diretamente à guerra.
O regime nazista, encorajado por êsse triunfo, com todos os emba­
raços removidos, prosseguiria avante em sua rota de ambição e
de agressão. Seriamos então inermes, silenciosos, titubeantes e
aparentemente solidários espectadores dos horrores que se desen­
rolariam na Europa Central. O govêmo que encorajasse tal política
cedo seria destituído. O simples instinto de conservação nos impe­
diria de comprar tão passageira e precária imunidade ao preço da
ruína e da escravidão da Europa. Depois de um intervalo, longo ou
curto, seriamos levados à guerra, tal como se deu com os Estados
Unidos durante a Grande Guerra. E a êsse tempo teríamos de
enfrentar um antagonista extraordinàriamente forte, ao passo que
nos encontraríamos privados de qualquer amizade ou aliança.
Não explanei de maneira suficientemente clara as condições
em que nos encontramos? Existe alguma dúvida quanto ao cami­
nho reto e ao pôrto seguro? Tenho estado a tratar de questões
acêrca das quais há opiniões muito confusas no nosso país e em
tôrno das quais pode haver divisões em momentos em que a nossa
união seja de vital importância. Agora, porém, chego a uma ques­
tão sôbre a qual. todos nós estamos de acôrdo, — o rearmamento
do nosso país para sua própria defesa, para o desempenho do seu
papel histórico,"para a manutenção da sua segurança. É necessário
que façamos um,grande esfôrço, um esfôrço ainda maior. É neces-
sárioíque estejamos unidos nesse esfôrço. É preciso que ponhamos
de lado as nossas comodidades, para nos dedicarmos de corpo e
alma à efetivação de um largo e eficiente plano nacional.

89
Grande parte dos perigos que nos ameaçam, como dos que
ameaçam o resto da Europa, são devidos especialmente ao fato de
não nos têrmos rearmado em tempo oportuno. Não foi, certamente,
por falta de advertências previdentes. E o pior é que, quando nos
decidimos a isso, enfrentamos a tarefa com meia vontade apenas,
de maneira indecisa e confusa, querendo fazer ridículas economias
de dinheiro, em vez de pensar nos resultados a que isso nos con­
duziria. Não é lamentável, por exemplo, que a nossa Fôrça Aérea
não seja agora ao menos igual à de qualquer outra grande potência
com capacidade para atingir as nossas costas? Não é lamentável
que a vasta e adaptável indústria inglêsa tenha sido incapaz de
produzir a torrente de material bélico de tôda espécie de que neces­
sitamos? É preciso notar que faz quase três anos que o Sr. Baldwin
reconheceu, em declaração solene, os perigos que nos cercam. De­
víamos, portanto, estar agora em situação de verdadeira pujança.
O Parlamento vai discutir o assunto esta semana. Deve haver, com
certeza, um inquérito sôbre as condições da Fôrça Aérea e das
razões pelas quais a solene promessa do Sr. Baldwin ao país sôbre
a paridade aérea não foi até hoje cumprida.
Igual confusão e atraso se verifica com respeito ao suprimento
de munições. É profundamente deplorável que, depois de quase
três anos de alertado sôbre os perigos que se tomavam aparentes,
o govêrno não haja conseguido aparelhar o nosso pequeno exér­
cito regular com equipamentos completos, nem o nosso exército
territorial com apetrechos modernos. Tudo está ainda em estado
puramente rudimentar. Quanto ao ARP1, artilharia, balões, orga­
nização de qualquer espécie, vós o sabeis por vós mesmos, — tão
bem quanto os alemães o sabem, — que prevalecem as mais lamen­
táveis condições de descrédito. Não se trata de mero pretexto da
oposição para retaliar o govêmo. Nem há razão, também, para que
o govêrno procure esconder a sua incompetência e a sua má con­
duta. Tudo isso deve ser aplainado. Eis porque entendo que deve
haver um inquérito profundo e minucioso, sôbre os erros do pas­
sado, para com destemor afastarmos quaisquer obstáculos que
entravem o caminho para a reconquista da nossa segurança nacio­
nal. Nesse sentido, todos devem empenhar os seus melhores es­
forços.

(1) ARP é a abreviatura do Serviço de Defesa Contra os “Raids” Aéreos, ou seja,


Air Raid Precautions, — N. do T.

90
Lancemos os olhos em tôrno dos perigos que nos ameaçam.
A Alemanha tem se rearmado incessantemente, dia e noite, nos
últimos quatro anos. Nos quatro últimos anos, a Alemanha des­
pendeu nada menos de oitocentos milhões de libras, anualmente,
em preparativos béücos. Todos os homens do país estão sendo
treinados para a guerra. Mesmo as crianças estão organizadas.
Todos os pensamentos estão voltados para a afirmação da raça
e para a conquista dos mais fracos, mais exaustos e menos deter­
minados a resistir. Estão prosseguindo no seu caminho para a
frente. Cada seis semanas um nôvo corpo de exército é acrescen­
tado às suas fôrças ativas. Nunca houve tão abundante produ­
ção de munições de guerra. Presentemente, estamos admirados
com alguns aspectos do fortalecimento do exército francês, mas as
cifras germânicas ultrapassam êsse esfôrço, mês a mês, de maneira
esmagadora. Ainda temos, felizmente, a nossa Marinha, suprema,
como nunca, nas águas européias. Mas a Fôrça Aérea, de que
muito dependemos, longe de sobrepassar a germânica, está cada
vez mais se distanciando dela, ficando para trás, muito para trás.
Se quisermos garantir a nossa própria segurança, devemos encarar
de frente, resolutamente, o problema da defesa nacional, com o
vigor e a concentração de esforços que a Alemanha agora está
empregando.
Não se trata de uma causa sem importância ou de ordem
particular a que estamos advogando hoje. Devemos marchar em
boa companhia, no concêrto das nações, sob a égide da Lei, da
Justiça e da Liberdade. Devemos juntar as fôrças da Inglaterra e
da França, sob a autoridade de uma Liga de tôdas as nações pre­
paradas para resistir e, se possível, para prevenir atos de agressão
e violência. É êsse o caminho da segurança. São essas as únicas
verdadeiras garantias da Liberdade. Somente sôbre a rocha do
convênio da Liga das Nações poderemos edificar o alto, majestoso
e duradouro templo da Paz.

91
A DEFESA AÊREA DA INGLATERRA

D is c u rs o p ro n u n c ia d o n a C â m a ra d o s C o m u n s.
25 DE m a io d e 1938

Maio, 12. Lord Halifax levanta perante a Liga das Nações,


em Genebra, a questão do reconhecimento da
conquista da Abissínia pela Itália.
Maio, 12. A situação da Real Fôrça Aérea é debatida
em ambas as casas do Parlamento. — O go­
vêrno responde de maneira insatisfatória. Lord
Swinton, secretário de Estado da Aeronáutica,
renuncia ao cargo, sendo substituído por Sir
Kingsley Wood.
Maio, 13. Visita de Herr Henlein, líder dos sudetos nazis­
tas, a Londres.
Maio, 20-21, As fôrças tchecoslovacas são mobilizadas, como
resposta à concentração de tropas alemãs ao'
longo da fronteira.
Maio, 25. O Sr. Hugh Dalton, na Câmara dos Comuns,
solicita um inquérito a respeito da defesa aérea
britânica e apóia o movimento no sentido de
ser criado o Ministério do Material Bélico. O
Sr. Chamberlain rejeita ambas as propostas.

93
H á longo tempo venho solicitando um inquérito sôbre o
estado em que se encontra nosso programa aéreo. Mas a nova
situação criada pela súbita mudança de controle do Ministério do
A r(') vem introduzindo um nôvo elemento na questão. Verdadei­
ramente, não acredito que o nôvo ministro possa ser ajudado ou
fortalecido na execução de sua tarefa por um inquérito de tal natu­
reza, que demanda pesquisas e cujos resultados muitas vêzes pode­
riam ser desagradáveis, enquanto que êle está se informando dia
a dia e passo a passo por si mesmo, a respeito do seu nôvo cargo
e dos seus novos deveres. Além disso, parece-me que a afirmação
que eu e outros vimos fazendo durante êstes últimos anos, de que
os programas são inadequados, que não estão sendo cumpridos a
risca e que as condições da Real Fôrça Aérea estão longe de ser
satisfatórios, não é mais contestada pelo govêrno de Sua Majes­
tade. O inquérito poderia, sem dúvida, revelar muitos detalhes
ainda ignorados, mas desde que um sério e completo fracasso é
agora admitido e vai haver uma renovação de fôrças e um nôvo
impulso para a frente, parece-me que, quando menos, alguns dos
argumentos que justificavam o inquérito estão agora inutilizados.
Isto, porém, não significa que a situação seja satisfatória ou
que tenha sido melhorada, de qualquer forma, por uma simples
substituição de direção. Alguém vai fazer uma tentativa para acer­
tar. Devemos esperar com o máximo interêsse o depoimento do
nôvo ministro, — não o depoimento que êle vai fazer esta noite,
porquanto se limitará necessàriamente ao campo oferecido pelo
desenvolvimento dos nossos debates, — mas o depoimento que
estará em condições de fazer dentro de poucas semanas sôbre o seu
programa e a política que decidiu adotar. Espero que êle estará
então animado do desejo de dirigir-se a esta Câmara com absoluta
sinceridade e que uma das suas regras de conduta será dizer ao
Parlamento tudo quanto tenha razão para acreditar que os países
estrangeiros já conhecem. O crédito das informações governamen­
tais tem sido comprometido pelo que se tem verificado. A Câmara
tem sido persistentemente enganada com respeito à nossa situação
como potência militar. O próprio primeiro-ministro tem sido enga­
nado a êsse respeito, até o último momento. Vejamos o depoimento
que fêz em março, quando falou a respeito dos nossos armamentos:

(1) A demissão de Lord Swinton e a nomeação de Sir Kingsley Wood.

94
“A vista dêsse enorme, quase terrífico poder que a Grã-Bretanha
está construindo, há de produzir um soberbo efeito, um duradouro
efeito, sôbre a opinião do mundo” (7 de março de 1938).
De fato, isso seria verdade se estivesse apoiado por uma sólida
base real. Mas o primeiro-ministro disse nesse mesmo dia: “Deve­
mos ter em conta o volume e a solidez dos nossos recursos e, quanto
aos vários programas que temos em execução, posso dizer que à
Câmara que estamos satisfeitos e fazendo o máximo e o mais
efetivo uso dêsses mesmos recursos”.
Mas, agora, sabe-se que esforços muito maiores são exigidos
e que programas muito mais amplos são necessários. Por isso,
digo que o primiro-ministro partilha com esta Câmara o infortú­
nio de ter sido enganado por informações divulgadas, sob tôdas
as aparências, com a responsabilidade do ministro do Ar. Deixem-
-me ler para a Câmara, — porquanto penso que temos alguma
divergência neste assunto, — o depoimento feito pelo meu muito
honrado amigo, o ministro da Coordenação da Defesa, Sir Thomas
InskipC1): “A rapidez dos aparelhos em produção presentemente,
para uso regular na Real Fôrça Aérea, ter-lhes-ia, há cinco anos
atrás, dado condições para entrar em séria competição na disputa
da taça Schneider. O fato que trago ao conhecimento dêste comitê
revela o extraordinário avanço que tem sido logrado. Não são
super-aeroplanos que estão sendo agora fabricados, mas máquinas
em regular e ordenada produção para o regular uso diário da Real
Fôrça Aérea”. Como eu lhe perguntasse se êsses aparelhos estavam
sendo entregues na ocasião, Sir Thomas Inskip declarou: “Sim.
Alguns fôram entregues. Serão entregues ordenadamente e em
número sempre crescente”. Quando a Câmara supõe que êsse de­
poimento foi feito? Não no último mês, nem mesmo no ano passa­
do. Data de 20 de julho de 1936, há portanto vinte e dois meses
atrás.
Devo acrescentar que essa declaração deu à Câmara a im­
pressão de que tudo ia bem, de que uma grande quantidade de
modernas máquinas estava saindo das fábricas para a Real Fôrça
Aérea. Sei que o meu honrado amigo seria incapaz de procurar
iludir esta Câmara, mas êle próprio foi enganado, uma vez que
não tem conhecimento e experiência de assuntos tão vastos quanto

(1) Agora Lord Caldecote, Lord Chefe da Justiça.

95
seu tirocínio jurídico e capazes de habilitá-lo a fazer o necessário
inquérito de ordem técnica.
Espero que o nôvo ministro do Ar imite o exemplo de Lord
Baldwin e, quando vier a praticar um êrro, corrija-o corajosamente,
de maneira pública, sem nenhuma reserva, porque assim, se tiver­
mos contra êle alguma queixa, essa não há de ser a de havermos
sido iludidos. Várias vêzes adverti esta Câmara de que os nossos
programas de preparação aérea estão caindo em atraso. Apesar
disso, nunca ataquei Lord Swinton. Nunca pensei que êle fôsse o
único a culpar. É muito usado, entre os que criticam o govêrno,
descobrir virtudes não existentes em todos os ministros que são
forçados a renunciar aos seus cargos. Talvez seja interessante citar
aqui, — porque se trata de uma transcrição inteiramente cabível,
— o que a respeito disse três meses atrás: “Seria injustificável que
se malsinasse qualquer um dos ministros ou Lord Swinton pelas
nossas deficiências. Qualquer outro que tivesse sido colocado no
seu lugar em julho de 1935 teria praticado os maiores erros e teria
sido incapaz de executar os programas anunciados, dentro dos
limites que lhes haviam sido traçados. Êle certamente fêz, — e
digo-o com a expressão da minha inteira simpatia pelo desem­
penho que deu a essa tarefa, — um hábil e dedicado esfôrço no
sentido de expandir, o mais possível, o nosso poder aéreo. Os resul­
tados obtidos seriam mais brilhantes se não tivessem sido obscure-
cidos pelos horários de produção e ofuscados por outros fatos
ocorridos em outros lugares. Cada país admira o que tem feito por
si mesmo, mas o que nem sempre vê é o que está sendo feito nos
outros. Sustento que a mais forte responsabilidade pelo fracasso
da execução total do nosso programa aéreo cabe àqueles que gover­
naram esta ilha pelos últimos cinco anos, vale dizer, desde a data
em que o rearmamento alemão começou a se tornar ostensivo e
impossível de esconder aos olhos do mundo”.
Não quis, é evidente, participar da perseguição cerrada con­
tra Lord Swinton, empreendida e levada a efeito. E sinto-me con­
tente por ver que o primeiro-ministro lhe presta um tributo de
aprêço. Êle merece, sem dúvida, a nossa simpatia. Teve a con­
fiança e a amizade de uma imensa maioria parlamentar. Foi arran­
cado do seu pôsto no momento pior, na mais difícil contingência
da história da expansão aeronáutica da Inglaterra. Pode ser que
dentro de poucos meses a nossa produção de aviões tenha aumen­
tado consideràvelmente, como resultado do seu esfôrço, embora
êle tenha sido afastado do cargo. Ainda outro dia estive lendo
uma carta do duque de Marlborough, na qual dizia: “Remover
um general no meio de uma campanha, — eis um golpe mortal”.
Por que foi êle substituído? Certamente não foi porque sua
presença no cargo representasse inconveniente para a Câmara dos
ComunsO. O primeiro-ministro, em outras ocasiões, teve argu­
mentos decisivos contra tais objeções. Quando reclamei um inqué­
rito, disseram-nos no início de sessão parlamentar e, novamente,
agora: “Não obtereis o inquérito, porque isso conduziria Lord
Swinton a uma côrte marcial”. O que aconteceu foi uma execução
privada. Não houve côrte marcial. Agora, nem ao menos vai haver
autópsia, ou, — devo dizer? — a verificação do óbito pelo médico
legista? Êsse episódio é um dos mais estranhos na nossa vida parla­
mentar. Nunca vi coisa igual na minha época. Chego a crer que
fôrças ocultas estão trabalhando contra nós. Não têm mais os votos
de confiança a virtude de manter os ministros? Podem êles ser
afastados sem razão ou causa, por mera formalidade, sem que com
isso seja afetado o govêrno? E o vivo desejo de centenas de mem­
bros do Parlamento, agindo em determinado sentido, não mais tem
o privilégio de fortalecer o govêrno e a administração? São as
circunstâncias mais poderosas do que os votos dados nesta sala?
Os negócios que competem à Câmara dos Comuns devem ser resol­
vidos lá fora? Se é assim, devo dizer que, embora se trate de uma
inovação, de um aprimoramento, prefiro ainda o velho sistema,
no qual os deputados votavam com a máxima independência e os
governos assumiam atitudes sinceras e viris.
Mas ainda existe uma razão pela qual estou longe de tran­
qüilizar-me e pela qual tenho motivos para crer que o primeiro
ministro não enveredou pelo caminho certo. Passar-se-ão vários
meses, antes que meu honrado amigo, o nôvo ministro, possa saber
sôbre a Real Fôrça Aérea metade do que Lord Swinton sabe. A
saída dêsse ministro é um acontecimento de grande importância.
Será isso necessário? Não teria sido mais prático deixar Lord
Swinton como ministro do Ar, libertando-o e ao seu departamento
das contingências atuais, com a criação do Ministério do Material
Bélico? Se, por exemplo, meu honrado amigo, o nôvo secretário
de Estado do Ar, tivesse sido nomeado ministro do Material Bélico,

(1) Tem sido argüido que representa uma desvantagem exercer um par o
cargo de ministro do Ar.

97
Lord Swinton poderia continuar a desincumbir-se de sua magr*a
tarefa, — na qual tem feito grande progresso, — organizando e
aperfeiçoando a Real Fôrça Aérea para efeito combativo.
Se êsse critério tivesse sido adotado, ter-se-ia evitado um
grande choque na opinião pública, cuja confiança ficou abalada,
e ter-se-ia conseguido maior eficiência na Real Fôrça Aérea do
que a que poderemos conseguir nos próximos meses. Cada um
dêsses ministros, o ministro do Ar e o do Material Bélico podiam
executar uma harmoniosa e integral tarefa, devotando-lhe tôdas as
suas energias. Assim, o secretário de Estado não seria tirado do seu
salubre emprêgoO e forçado a empunhar a panóplia de Marte
ou, para usar de linguagem mais caseira, a meter uma cavilha
redonda num buraco quadrado.
Estou deveras ansioso por ferir êste ponto, o da criação do
Ministério do Material Bélico. Vejamos em que consiste a pre­
sente organização que produz armamentos para a Inglaterra. É
uma organização extraordinàriamente complicada e complexa. Em
primeiro lugar, está o Almirantado, com seus estabelecimentos em
atividade. O Departamento do almirante Brown no Ministério da
Guerra vem em segundo lugar. O almirante Brown é o diretor
geral das munições fabricadas para o Ministério da Guerra e mem­
bro do conselho do Exército. Numa e noutra função, seu trabalho
se tem recomendado. Na sua esfera, está também incluído o antigo
Departamento Geral de Artilharia, que se dizia estar trabalhando
esplêndidamente há um ano atrás, mas, quando o nôvo secretário
de Estado da Guerra o visitou, foi encontrado em tal estado que
teve de ser transferido en bloc e colocado sob o controle do almi­
rante Brown. Em terceiro lugar, vem o imenso conjunto de comi­
tês que trabalham sob o controle do Comitê da Defesa do Império.
Tive a satisfação de ler o completo relatório de Lord Zetland
sôbre êsse assunto em outra ocasião a esta Câmara e hoje o próprio
primeiro-ministro se referiu a alguns dêstes comitês. Mencionou
particularmente o comitê dirigido por Sir Arthur Robinson (Prin­
cipal Supply Officers’ Committee), que tem funcionado sem inter­
rupção, continuamente. Paralelamente com essa organização,
segundo as declarações de Lord Zetland, existe uma outra, con­
trolada pela Junta de Comércio, conhecida pelo nome de Junta
de Organização do Abastecimento (Board of Trade Supply Orga-

(1) Sir Kingsley Wood havia sido, anteriormente, ministro da Saúde Pública.

98
nizatioh). Sob a autoridade do comitê dirigido por Sir Arthur
Robinson existem ainda, segundo me disse há cêrca de dois anos
o ministro da Coordenação da Defesa, nada menos de sete outros
importantes comitês e vários pequenos departamentos. Nenhuma
dessas organizações, sejam as subordinadas ao Comitê da Defesa
Imperial, sejam as que obedecem ao controle de Sir Arthur Robin­
son, tem, no entanto, qualquer poder executivo. Todos êsses comi­
tês e organizações ligadas à defesa do império são meramente con­
sultivos e acessores. Enquanto, porém, deliberam e aconselham, o
tempo se escoa, porque os papéis levam uma semana para transitar
de uma para outra, isto quando não sucede ser de uma quinzena o
intervalo.
Não há nada de secreto nisso, mas é difícil saber-se clara­
mente o que acontece. Em nenhum dêsses comitês existe autori­
dade para dar ordens executivas. Isso é reservado, tanto quanto
posso alcançar, aos departamentos administrativos. Estuda-se mui­
to. Os assuntos apreciados são inúmeros. O que se faz, entretanto, é
muito pouco. Eis porque, quando se faz uma série de interrogações
sôbre assuntos pertinentes à segurança nacional, o ministro da
Coordenação da Defesa diz: “O assunto está sendo objeto de consi­
deração.” “Temos dado a melhor atenção a isso.” “O caso está
sendo examinado com o mais vivo interêsse.” “Estamos estudando
isso” etc. Não há dúvida que isso representa a expressão da ver­
dade. Não creio que exista um assunto qualquer, relacionado com
a defesa nacional, que não tenha sido considerado, ventilado,
explorado, iluminado pelas luzes de inúmeros comitês e juntas.
Tive oportunidade de tratar de três, o Almirantado, o Comitê do
Ministério da Guerra dirigido pelo almirante Brown e o enxame
de comitês subordinados à Defesa Imperial. Agora, chego a um
outro, que é o mais importante, dentre os que temos a considerar,
— a organização destinada a nos abastecer de aviões. Também
essa é dual. Existem duas organizações completamente separadas.
Em primeiro lugar, o diretor de Produção do Ministério do Ar,
que cuida de um programa, e em segundo, o almirante Brown,
no Ministério da Guerra, que cuida de outro inteiramente diverso.
Além disso, há outro nôvo comitê sôbre o qual ouvimos Lord
Winterton falar longamente, o comitê dos fabricantes, encabeçado
por êsse meu nobre amigo, que também age em sentido mais ou
menos independente. É necessário, pois, que no seu todo essa orga­
nização seja remodelada. É no meio dessa floresta intrincadíssima

99
que, sem podêres executivos e preocupado com outros deveres mais
importantes, tem de mover-se meu muito honrado, esclarecido e
infortunado amigo, o ministro da Coordenação da Defesa, encar­
regado especialmente não de mera coordenação, mas da prepara­
ção da indústria do país para a transição necessária em caso de
guerra. A maquinaria a utilizar é a que está trabalhando presen­
temente.
Confesso que meu muito honrado amigo me surpreendeu.
Na verdade, tratou êle do assunto, quando enunciou suas razões
contra a criação de um Ministério do Material Bélico, como se
tudo quanto tivesse acontecido fôsse inteiramente satisfatório.
Pelo menos, parece ser êsse o seu ponto de vista. Assevero, porém,
que êsse aparelho de produção falhou, porquanto não tem sido
entregue a mercadoria. Essa maquinaria é a que alguns entendem
que deva ser substituída imediatamente, por um eficiente Minis­
tério do Material Bélico, sob a responsabilidade de um membro
do Parlamento, com todos os podêres executivos. O primeiro-mi-
nistro obstinadamente resiste a essa idéia. Criou hoje dificuldades
a respeito da concessão de podêres e pareceu deliberadamente que­
rer excitar uma oposição, que não creio que exista, em uma parte
desta Câmara, contra a concessão de razoáveis podêres. Quem
sempre sugeriu que êsse Ministério devia ser provido com podêres
necessários para prevenir greves em tempo de paz? Não estou pre­
parado para, no curso destas observações, revelar a esta Câmara
o caráter exato dêsses podêres, mas isso fàcilmente pode ser feito.
Há podêres que são necessários e apropriados, não num estado
de guerra, mas no estado intermediário de emergência e de pre­
paração.
Por que meu honrado amigo, o primeiro-ministro, resiste a
êsse plano tão persistentemente? Na verdade, tenho feito pressão
junto a êle e a seu predecessor, nesse sentido, há já dois anos ou
mais, porém isso, por si só, não representa uma razão em contrário.
Continuarei a bater-me pela mesma idéia e procurarei valer-me
das minhas relações pessoais no govêrno para tratar disso pessoal­
mente, na intimidade, com o primeiro-ministro. Já ouvistes falar
de Santo Antônio, o eremita? Santo Antônio, o eremita, foi muito
condenado pelos padres da igreja porque se recusou a fazer o bem
quando o diabo lho ordenou. Meu muito honrado amigo deVe
libertar-se, a si mesmo, dessa irracional inibição, pois estamos ape­
nas no início das nossas dificuldades. Advirto o primeiro-ministro

100
de que dificuldades graves irão surgir na esfera administrativa.
Êle não é o único que deve ser advertido, entre os homens com
responsabilidade na direção dos negócios públicos. Três hábeis,
leais e industriosos ministros da Coroa estão sendo profundamente
prejudicados pelas suas tarefas mal concebidas e pior aparelhadas.
Ò secretário de Estado da Guerra, o ministro da Coordenação da
Defesa e o ministro do Ar têm sido prejudicado no seu trabalho
c terão arruinadas suas reputações pelo simples fato de lhes terem
sido distribuídas tão ingratas missões.
O ministro do Ar se foi e agora existe outro em seu lugar,
outro que, neste momento, ainda não está inteiramente preparado
para investigar as extremas dificuldades que oferece o terreno em
que começa a pisar. Quando poderei eu convencer o govêrno de
que um simples departamento administrativo é incapaz de lidar
com uma produção industrial em larga escala? Em tempo de paz
prolongada, quando o programa anual do Ministério do Ar ou do
Ministério da Guerra é relativamente pequeno, quando o último
não tem senão o trabalho de entender-se com Vickers, Enfield e
Wollwich, quando o Ministério do Ar não precisa senão estar em
contato com algumas firmas selecionadas, não existem dificuldades.
Mas, desde o momento em que precisamos desenvolver um plano
de vastas proporções, para o eficiente rearmamento do país, mobi­
lizando tôda a indústria e todo o trabalho da nação, tendo de con­
quistar a confiança e a boa vontade dos operários e das uniões
trabalhistas, nós nos encontramos diante de uma tarefa de real
magnitude, que exige a atenção permanente e total de um Minis­
tério, equipado com tôda a fôrça e prestígio.
Teria sido fácil para o primeiro ministro salvar Lord Swinton
na semana passada. Tudo quanto devia ter feito, para isso, era
simplesmente eximi-lo de uma tarefa que não deve nem pode efeti­
vamente ser combinada com a direção da Real Fôrça Aérea. Era
eximi-lo das responsabilidades da produção aeronáutica, da fabri­
cação de aviões e material de aviação, o que pode ser feito em
escala gigantesca apenas pela indústria civil. Do mesmo modo,
meu honrado amigo, o ministro da Coordenação da Defesa enfren­
tou uma tarefa excepcional, com a sua usual coragem e paciência,
mas sem conseguir alcançar bons resultados, pois nenhum homem,
por mais hábil que fôsse, conseguiria levá-la a bom têrmo, poderia
desempenhá-la a inteiro contento.

101
Eu predisse que estavam acima dêle, como estão acima de
qualquer um de nós, muitas das mais complexas e difíceis tarefas
a realizar. Não excetuo nem mesmo o secretário da Guerra, Sr.
Hoare-Belisha, que singra orgulhosamente através de calmas águas
abrandadas pelo seu colega do Ministério do Ar.
O honrado membro desta Câmara, que abriu o debate em
nome da oposição, fêz uma formidável carga sôbre as presentes
condições das nossas defesas aéreas. Eu não contestarei nenhuma
parte substancial das declarações que êle fêz. Seu discurso deve
ser lido com profunda atenção por tôdas as pessoas que querem
conhecer a extensão dos perigos que envolvem e ameaçam presen­
temente o nosso país. Considero que êsse discurso, por si só, for­
nece e esta Câmara razões suficientes para uma decisiva transfor­
mação nos métodos de tôda a fabricação de material de guerra.
Se houvesse um inquérito, outros aspectos da questão chegariam
ao nosso conhecimento. Estou aparelhado para dizer que os nossos
programas militares estão igualmente em atraso. É verdade que o
secretário de Estado da Guerra tem um método mais fácil de sair-
se das suas dificuldades do que o ministro do Ar. Quando as entre­
gas de munições e equipamento se atrasam, o que êle tem que fazer
é simplesmente reduzir o número de divisões que considera neces­
sárias para enfrentar a contingência de uma guerra. Assim, todos
nós podemos dizer, como êle próprio disse outro dia: “Tudo está
prosseguindo de acôrdo com o programa”. Tem a vantagem que
podemos chamar de dupla saída. O programa é desconhecido, do
mesmo modo que o grau de desenvolvimento em que se encontra.
O momento, entretanto, é sombrio. Não é tempo para essa espécie
de respostas. Foram essas, porém, as confusas respostas que ontem
tivemos às perguntas vitais formuladas por esta Câmara.
Estamos agora no terceiro ano de rearmamento aberto e de­
clarado. Se tudo corre tão bem, como se justificam tantas deficiên­
cias? Por que, por exemplo, estão as tropas se exercitando com
bandeirolas e não com metralhadoras? Por que o nosso pequeno
exército territorial se encontra em tão precárias condições? Está
na verdade tudo se processando de acôrdo com o programa? Como
pode estar, se verificamos quão diminutas são as nossas fôrças?
Como pode estar, se é impossível equipar o nosso exército terri­
torial ao mesmo tempo que o nosso exército regular? Isso teria
sido uma tarefa de mínima importância para a indústria britânica,
que é mais flexível e mais fértil do que a germânica, em todos os

102
sentidos, menos no tocante a munições. Durante várias gerações
temos competido com êxito com a indústria alemã, em têrmos
iguais ou, mesmo, em têrmos adversos, nos mercados mundiais.
Se a Alemanha pôde produzir nestes três anos equipamento e arma­
mento de tôda espécie para a Fôrça Aérea Germânica e para
sessenta ou setenta divisões do Exército Alemão, como podemos
ter sido incapazes de aparelhar nossas modestas e humildes fôrças
com o estritamente necessário? Se tivésseis dado o contrato a
Selfridge ou aos Army and Navy Stores, acredito que as ordens
teriam sido executadas a tempo.
Essas deficiências de tôda sorte, que são patentes e podem
ser claramente verificadas por qualquer pessoa, — devendo da
mesma forma ter chegado ao conhecimento das potências estran­
geiras, — tocam o seu ponto crucial quando chegamos ao assunto
que foi abordado por todos os oradores de hoje, — o da defesa
antiaérea. Outro dia, o secretário de Estado da Guerra foi inque-
rido a respeito do estado da artilharia antiaérea. Parecia inteira­
mente satisfeito com as nossas condições. Os velhos canhões de
três polegadas da Grande Guerra, disse êle, haviam sido moderni­
zados e o fornecimento de novos canhões, — há vários tipos dêles,
— estava se processando “de acôrdo com o programa”. Mas, que
programa é êsse? Se êsse programa prevê um fornecimento de meia
dúzia, de dez, de uma dúzia, de vinte, ou mais canhões por mês,
não há dúvida de que será fácil satisfazer ao programa e até mesmo
adiantar-se a êle. Mas, pergunto, será êsse programa na verdade
o programa adequado às nossas necessidades efetivas de defesa?
Há um ano atrás, adverti esta Câmara sôbre os progressos da arti­
lharia antiaérea alemã, dados à publicidade, — trinta regimento
de doze baterias móveis de artilharia cada um, possuindo entre mil
e duzentos e mil e trezentos canhões, além de três mil a quatro mil
canhões em posições fixas. E todos são canhões modernos, não
canhões de 1915, mas peças novas, forjadas depois de 1933.
Não dá isso a esta Câmara uma idéia exata da situação?
Nós não necessitamos de um gigantesco exército, como o dos paí­
ses continentais, mas de uma poderosa defesa antiaérea. Somos
vulneráveis e talvez mais do que vulneráveis. O nosso govêrno
pensa em artilharia antiaérea em escala de centenas, quando os
alemães pensam nisso em escala de milhares. E ainda nos dizem:
“Tudo está se processando de acôrdo com o programa. Tudo vai
às mil maravilhas. Estamos nos antecipando ao programa”. O

103
primeiro-ministro considera a organização, tal como se desenvolve
sob o controle do comitê da Defesa Imperial, como sendo a última
palavra. Não sabe como poderá ela ser melhorada. O secretário
de Estado da Guerra, proclamando o avanço conseguido sôbre o
programa, quase nos convida a lhe colocar na frente uma grinalda
de murtas. Proclamo que o Ministério do Ar e o Ministério da
Guerra são incompetentes para produzir a grande quantidade de
apetrechos que são agora exigidos da indústria inglêsa. Proclamo,
ainda, que a indústria inglêsa tem capacidade para corresponder a
essa exigência, de maneira edificante, produzindo o material aéreo
e militar de tôda espécie, quer em quantidade quer em qualidade.
Mas, para isso, será preciso organizá-la e, para organizá-la, preci­
samos da cooperação das melhores cabeças para que a indústria
inglêsa produza, dirigida pela mais poderosa fôrça que o Estado
poderia pôr a seu serviço. Sem isso, ela não corresponderá.
Se isso é certo neste período de rearmamento pacífico, muito
mais certo será quando uma imensa expansão industrial nos fôr
exigida pela eclosão de uma guerra. Já nos disseram que “tudo
está preparado, para a eventual criação de um Ministério das
Munições, em tempo de guerra”. Lord Zetland nos disse que para
isso será bastante apenas que êle ou outro nobre personagem com-
prima um botão. Espero que êsse botão não seja como aquêle de
que se falou antes da guerra de 1870. Será preciso apertar um
botão e um Ministério das Munições, armado de alto a baixo,
como Minerva, saltará da cabeça do ministro da Coordenação da
Defesa. Não deixemos que esta Câmara acredite nessa mágica, eu
vô-lo peço.
E possível reunir e manter em estreita colaboração um grupo
de funcionários do Estado, em suas variadas funções. É possível
reunir comitês consultivos de homens de negócios e de indústria.
Mas o que realmente necessitamos é uma completa e ativa orga­
nização em completo dinamismo, em tôda a sua capacidade de pro­
dução. O que realmente necessitamos desde o primeiro momento é
uma organização completa e acabada, uma indústria planejada em
todos os detalhes a fim de produzir sem tropeços. A compressão
de um botão produziria uma organização apenas no papel, que
levaria meses para se adaptar às necessidades da produção e meses,
ainda, — trágicos meses de agonia, — antes que pudesse corres­
ponder à expansão do programa de tempo de guerra.

104
Devemos pensar, — disse já isso há dois anos e repito-o agora,
— em ter tôdas as fábricas do país aparelhadas, não apenas no
papel, mas também com os necessários artífices, instrumentos e
material à mão, a fim de que possam dedicar-se, em tempo opor­
tuno, a qualquer sorte de indústria de guerra. As transformações
c adaptações de cada fábrica devem ser agora previstas e elabora­
das, porque só assim, ao apertar-se o botão, não apenas se criarão
fábricas, mas ter-se-á o controle de tôdas as indústrias vitais
do país, que imediatamente entrará a produzir munições em larga
escala. Isso é o que já está sendo feito em vários países e em
nenhum dêles tão bem como na Alemanha. Não creio que possa
ser levantada qualquer objeção contra êsse meio de preparação.
Não se trata de uma tarefa dispendiosa, mas se trata de um assunto
das conseqüências mais amplas e gerais.
Quanto mais nos preparemos e quanto mais nos saibamos
bem preparados, maiores serão as possibilidades de não nos envol­
vermos na guerra e de salvar a Europa da catástrofe que a ameaça.
Tôdas as vêzes que nos vêem fazer um grande movimento para a
frente, estabelece-se uma onda de confiança, que lava todos os
pequenos países da Europa e tôdas as nações sinceramente aman­
tes da paz. Se amanhã se disser que criamos um Ministério do
Material Bélico e que estamos tomando providências para fazer
com que tôda a nossa indústria produza munições, isso desde logo
inspirará um forte sentimento de confiança e de segurança. Como
disse o primeiro-ministro, a confiança se espraia através do mundo
em razão do progresso dos nossos armamentos. Assim, não estabe­
leçamos nenhuma divergência em assunto em que todos nós pode­
mos nos pôr de acôrdo.
Permitam-me juntar mais uma ou duas razões em favor da
criação do Ministério do Material Bélico. Estamos pensando, pre­
sentemente, em programas de produção para três diferentes fôrças
armadas. De fato, o suprimento de armas e munições a tôdas as
fôrças combatentes se concentra num problema único, comum,
que é o da preparação e distribuição eficiente de trabalho, fábri­
cas, maquinismos e detalhes técnicos. Êsse problema só pode ser
resolvido de forma compreensiva, harmoniosa e econômica através
de um só controle dominante. Presentemente, há ineficiência, atra­
so e, possivelmente, desperdício. Por que essa abalizada indústria
britânica de aviões exige noventa mil trabalhadores especializados
e produz apenas um têrço do que é produzido por cento e dez mil

105
homens na Alemanha? Não representa isso um fato extraordinário?
Ê incrível que não tenhamos sido capazes de produzir maior supri­
mento de aeroplanos até agora. Dadas tôdas as facilidades, escri­
tório, área para localização, dinheiro e trabalhadores, devíamos
estar recebendo, há dezoito meses, uma avalanche de aeroplanos.
Mas já fêz trinta e quatro meses que Lord Baldwin decidiu que a
Real Fôrça Aérea devia ser triplicada.
Até quando êsses remédios necessários nos serão negados?
Não é, apenas, uma substituição de ministros o que deve ser feito.
É também uma substituição de métodos. Sem uma mudança de
sistema continuaremos a enfrentar as mesmas dificuldades e ainda
maiores vexames e os ministros a sofrer desprestígios imerecidos
ou, se merecidos, oriundos apenas da excessiva confiança com que
êles assumem responsabilidades difíceis de cumprir. Basta acen­
tuar que ainda não conseguimos estabelecer nenhum acôrdo com
as uniões trabalhistas, depois de dois anos inteiros. Somente agora
essas negociações se iniciaram. Se vamos pedir a essas uniões tra­
balhistas que façam sacrifícios, sem dúvida alguma necessários,
precisamos primeiro convencê-las da gravidade desta emergência.
Cada vez que a criação do Ministério do Material Bélico é recusa­
da, a gravidade da emergência é atenuada ou negada pelo govêrno.
Presentemente, a atitude do govêrno parece querer demonstrar que
tudo poderá ser levado a bom têrmo de acôrdo com os velhos pro­
cessos, com um mínimo de perturbação da vida geral do país.
É tempo, indubitàvelmente, de tomarmos outra atitude, de acôrdo
com a emergência atual. Durante a semana passada muitos de
nós pensamos nas labaredas daquela fornalha de que falou o pri­
meiro-ministro há um ano ou dois, e sentimos que um vivo calor
nos abrasava as faces. Pensamos que tivesse chegado o momento,
mas nos asseguram que não. Ousarei dizer o contrário. Sim, segu­
ramente, é tempo para que os ministros se levantem e encarem a
seriedade indisfarçável dos fatos, dando-nos mais efetiva defesa,
mais eficiente proteção, serviço que a nação lhes confiou e que há
tanto tempo aguarda.

106
CIVILIZAÇÃO

O ração U n iv e r s id a d e
f e it a n a de B r is t o l .
2 DE JULHO DE 1938

Maio, 30. Uma deputação espera obter do primeiro-minis­


tro o pedido de urgente organização do registro
nacional. O Sr. Chamberlain recusa.
Maio, 31. A possibilidade do recrutamento é discutida na
Câmara dos Comuns.
Junho, 8. Os nazistas, na Tchecoslováquia, apresentam
ao govêrno exigências baseadas nos oito pontos
do “Programa de Karlsbad”.
Junho, 14-21 A política de não-intervenção na Espanha, do
govêrno inglês, é atacada na Câmara dos Co­
muns, depois de crescentes perdas de navios
britânicos nas águas espanholas. Êsses ataques,
porém, não logram sucesso.
Julho, 2. O govêrno tchecoslovaco torna público que
várias das exigências dos sudetos nazistas, apre­
sentadas a 8 de junho, são inaceitáveis.

xistem poucas palavras usadas tão inütilmente como a


palavra “civilização”. Que signicado tem êsse vocáculo? Significa
uma sociedade baseada na opinião dos civis. Significa que a vio-

107
lencia, o predomínio dos guerreiros e dos tiranos, dos chefes des­
póticos, dos campos de concentração da belicosidade e da fôrça
cega, cedem lugar aos Parlamentos onde as leis são forjadas e às
côrtes de justiça através das quais essas mesmas leis são mantidas.
Eis o que é “civilização”, — solo em que, continuamente, ininter­
ruptamente, frondejam e florescem a liberdade, o conforto e a
cultura. Quando a civilização impera num país, uma vida mais
ampla e menos opressiva pode ser fruída pelas massas populares.
As tradições do passado são cultivadas com entusiasmo e a herança
legada às gerações do presente pelos nossos antepassados, cheios
de sabedoria ou de heroísmo, se torna um precioso patrimônio
comum, a cujo gôzo todos os cidadãos têm igual direito. O prin­
cípio fundamental da civilização é representado pela subordinação
da autoridade governante aos costumes estabelecidos de um povo
e às vontades dêsse mesmo povo, expressadas através de sua Cons­
tituição. Em nossa ilha, conseguimos alcançar, em alto grau, as
bênçãos da civilização.
Temos liberdade. Temos lei. Temos amor ao nosso país.
Temos uma grande harmonia entre as classes que compõem o
nosso todo social. Temos uma ampla prosperidade. Possuímos
possibiüdades incomensuráveis em vários sentidos, inclusive de
corrigir abusos e de aplainar caminho para ainda maior progresso.
Nesta mesma semana, acabamos de ver o primeiro ministro,
à frente de grande e leal maioria, inclinar-se de bom grado aos cos­
tumes do Parlamento, e ouvimos membros do Partido Socialista
falando com orgulho dos precedentes do início do século XVII e
do princípio da Petição de Direito 0 ) . Nesse respeito à lei e nessa
continuidade histórica, repousa uma das glórias da Inglaterra. E,
mais do que isso, repousa também nesses mesmos fundamentos,
uma parte da nossa fôrça e da nossa segurança. Tais episódios são
surpreendentes, mas também educativos, para os países onde pre­
valece a ditadura e onde ninguém ousa levantar-se contra o poder
arbitrário. São um estímulo e um exemplo que eleva a opinião de
vários países.
Temos, é certo, de enfrentar o problema de um mundo turbu­
lento, para além das nossas costas. Por que êsses mesmos princí­
pios, sôbre os quais se tem assentado a livre, ordeira e tolerante

(1) Referência ao relatório do Comitê de Privilégios, que fêz inquérito sôbre o


incidente entre o Sr. Hoare-Belisha e o Sr. Duncan Sandys.

108
civilização das ilhas e do Império Britânico, não pode servir à reor­
ganização dêsse mundo inquieto e ansioso? Por que as nações não
se unirem em um largo sistema e estabelecerem regras e leis em
benefício de tôdas? Essa é, sem dúvida, a suprema esperança não
apenas dos estadistas serenos, mas da própria humanidade, e o
objetivo para o qual devemos marchar a passo resoluto.
É vão supor, porém, que a simples concepção ou declaração
de princípios de direito quer por um, quer por vários países, possa
ter qualquer valor, a menos que sejam apoiados e fortalecidos por
êsses atributos de virtude cívica e varoniHdade, pelos instrumentos
e agentes da fôrça e da ciência, que em último caso servirão para
a defesa do direito e da razão.
A civilização não perdurará, a liberdade não sobreviverá,
a paz não poderá ser mantida, a menos que uma larga maioria da
humanidade se una para defender êsses altos princípios e revele,
ao mesmo tempo, um poder tão supremo que, em face dêle, a
barbárie e as fôrças obscuras do mundo moderno se detenham
desencorajadas de qualquer reação.
É por isso que julgamos do nosso dever tomar a peito a tarefa
de exortar a nova geração britânica, que agora se apresta para os
embates da vida, e dar um passo em favor da organização de um
mundo pacífico, preparando, através do “maelstrom” dos anos pre­
sentes, o próximo advento de uma era de verdadeira fraternidade
humana.

109
MANOBRAS DA ALEMANHA
D is c u r s o f e i t o e m T h e y d o n B o is ( d is t r it o e l e i t o r a l q u e
REPRESENTA NA CÂMARA DOS C O M U N S).
2 7 DE AGÔSTO DE 1938

Julho, 11. O govêrno britânico publica a proposta para a


retirada dos combatentes estrangeiros da Espa­
nha.
Julho, 19-22, Visita oficial do rei e da rainha a Paris.
Julho, 25. As tropas do govêrno espanhol contra-atacam
através do rio Ebro.
Agôsto, 3. Lord Runciman chega a Praga como “concilia­
dor e mediador”. A situação continua tensa e
inalterável.
Agôsto, 15. As manobras, de amplitude sem precedentes,
do Exército Alemão, se iniciam e prosseguem
durante o resto do mês.
Agôsto, 22. A Rússia informa ao embaixador germânico em
Moscou que, se a Tchecoslováquia fôr atacada,
estará solidária com essa nação, pois de acôrdo
com o tratado de 1935 tem a obrigação de de­
fender os tchecos.
Agôsto, 26. Herr Henlein, numa proclamação aos seus par­
tidários, ordena-lhes que “se mantenham em
defesa própria e ponham fim aos elementos mar­
xistas e tchecos irresponsáveis’.

111
N o coração da pacífica Inglaterra, é muito difícil para
nós avaliar quão ferozes são as paixões que atualmente agitam a
Europa. Durante êste mês cheio de ansiedade todos vós encontras-
tes, por certo, nos órgãos da imprensa, notícias do que se passa,
verificando a alternativa de uma semana boa com outra semana
má; uma semana melhor e outra semana pior. Devo dizer-vos que
tôda a Europa e mesmo o mundo estão caminhando ràpidamente
para um climax que não pode ser adiado ou evitado.
A guerra, de certo, não é inevitável. Mas o perigo da paz
precária não poderá ser removido enquanto os vastos exércitos
alemães, há pouco chamados às armas, não tiverem sido disper­
sados. Se um país que não está ameaçado por ninguém, que não
tem mêdo de ninguém, colocar 1.500.000 soldados em pé de
guerra, isso constitui coisa bastante grave. As despesas que tal
mobilização acarreta não podem ser inferiores a 600.000 libras
por dia, o que sobe, durante dois meses, a mais de trinta milhões.
E isso ocorre num país cujas finanças estão sempre sob severo
controle e cujo povo tem estado vivendo sob o que o resto do
mundo usualmente chama de “condições de guerra”.
Parece-me, — e eu devo dizer-vos isso francamente, — que
essas grandes fôrças não foram colocadas em pé de guerra sem
a intenção declarada de chegar a essa conclusão no mais breve
espaço de tempo. As elaboradíssimas histórias sôbre um complot
marxista na Tchecoslováquia e as ordens aos sudetos nazistas
para se armarem e cuidarem de sua própria defesa são sinais
inquietantes, similares àqueles que precederam a ocupação da
Áustria.
Estamos inteiramente de acôrdo com a medida que o nosso
govêmo tomou, enviando Lord Runciman a Praga. Esperamos,
— mais do que isso, rezamos para que tal suceda, — que essa
missão de conciliação seja bem sucedida. Parece, realmente, que
o govêmo da Tchecoslováquia está fazendo tudo quanto é possí­
vel para pôr a sua casa em ordem e para atender a tôdas as exigên­
cias que não representem a ruína da nação como Estado livre.
Tenho, porém, uma pequena dúvida, quanto à possibilidade de
poder Lord Runciman resolver o problema amistosamente. Pode
acontecer que fôrças externas, as mais fortes e ambiciosas, desejem

112
evitar essa solução e que a Europa e o mundo civilizado tenham
de enfrentar novas exigências da Alemanha Nazista e, talvez, —
eis uma probabilidade que não deve ser excluída, — uma súbita
e violenta ação por parte do Partido Nazista Alemão, para promo­
ver a invasão de um pequeno país com o objetivo de sua domi­
nação. Tal episódio não seria apenas um ataque à Tchecoslo­
váquia. Seria um ultraje contra a civilização e a liberdade de todo
o mundo. Qualquer país, em face de tal atentado, poderia então
perguntar: “Qual será a próxima vítima?”
Temos um govêmo que todos reconhecem ser inteiramente
devotado à causa da paz, — cuja posição e política não visam
senão a manutenção da ordem internacional; que se tem mostrado
disposto a revelar afrontas, injúrias e agravos que em nenhum
outro período tolerados, tudo isso para salvaguarda da paz. Mas
seria um êrro se alguma potência estrangeira supusesse que a
Inglaterra já não é mais capaz de, como se faz necessário, partilhar
com as outras nações do honroso dever de defender as conquistas
da humanidade.
Sempre desejei ver a Inglaterra, a França e a Alemanha
trabalhando juntas pelo progresso das nações, pela união da famí­
lia européia e pelo melhoramento, — um grandioso melhora­
mento, — das condições de salário e sustento das massas, que a
ciência moderna oferece oportunidade de desenvolver. Neste trá­
gico momento, o destino da paz da Europa se acha nas mãos de
um único homem. Sabemos que o povo germânico não quer a
guerra. Mais do que isso: sabemos que não quer a guerra com o
Império Britânico. Nossas ansiedades e nossas esperanças; por isso
mesmo, se concentram no extraordinário homem que domina a
Alemanha. Êle levantou o seu povo da derrota e transfromou-o
novamente numa das mais poderosas potências mundiais. Seria,
na verdade, um ato fatal se êsse homem deitasse a perder tudo
quanto já conquistou para o seu povo, impelindo-o ao que, por
certo, se converteria numa guerra mundial.
Minha esperança, por todos êsses motivos, é de que êsses
perigos passarão. Se passarem, o caminho ficará aberto para várias
soluções de mútuos benefícios para todos. O caminho estará aberto
também a uma larga expansão das condições de vida das camadas
populares de tôdas as raças. Poderemos, na verdade, testemunhar

113
um movimento no sentido de elevar a raça humana a novos níveis
de segurança e de bem-estar, como nunca foram antes estabeleci­
dos. Mas, aconteça o que acontecer, os países estrangeiros devem
saber, — e o govêrno agora o está proclamando, — que a Grã-
-Bretanha, o Império Britânico, não deve ser considerado incapaz
de desempenhar o seu papel e de cumprir com o seu dever, como
o tem feito em muitas outras grandes ocasiões, que hoje, como
sempre, hão de ser lembradas na História.

114
O ACÔ RDO D E M UNIQUE
D is c u r s o f e it o n a C âm ara do s C om u n s.
5 de outubro de 1938

Setembro, I . Por sugestão de Lord Runciman, Herr Henlein


leva a Herr Hitler, em Berchtesgaden, a proposta
do presidente Benes, favorável à constituição de
um “govêrno cantonal autônomo”, juntamente
com outras generosas concessões.
Setembro, 8. Ligeiros incidentes durante um tumulto provo­
cado pelos nazistas em frente à prisão de Maeh-
risch-Ostrau (território sudeto) servem ao govêr­
no germânico como pretexto para romper total­
mente as relações com a Tchecoslováquia.
Setembro, I I . Lord Runciman é aplaudido pelos nazistas como
o “libertador dos sudetos alemães?’. Sérias de­
monstrações, assumindo o caráter de uma revol­
ta, ocasionam 23 mortes, nos dias 11 e 12.
Setembro, 12. No inflamado discurso de Nuremberg, Herr
Hitler declara que a “opressão aos sudetos ale­
mães deve ter um fim”.
Setembro, 14. Herr Henlein apresenta um ultimato, que é re­
jeitado pelo govêrno tchecoslováquio, e em se­
guida foge do país.

115
Setembro, 15. O Sr. Neville Chamberlain voa para Berchtesga-
den.
Setembro, 18. A convite do govêrno inglês, os Srs. Daladier e
Bonnet vêm a Londres para uma conferência, na
qual o desmembramento da Tchecoslováquia
e o abandono dos pontos de vista da França são
aprovados. O govêrno tcheco proclama o “esta­
do de emergência".
Setembro, 21. Os embaixadores da Inglaterra e da França in­
formam ao presidente Benes que a Tchecoslo­
váquia deve aceitar incondicionalmente os têr­
mos dos seus países ou, do contrário, enfrentar
a Alemanha sozinha.
Setembro, 22. O govêrno tchecoslovaco, depois de uma reu­
nião que durou uma noite inteira, aceita os têr­
mos. O Sr. Chamberlain parte para Codesberg.
Setembro, 24. O Sr. Chamberlain regressa com um memoran­
do das exigências germânicas, que excede a tô­
das as suas expectativas por uma larga margem.
 luz dêste fato, a Inglaterra e a França dizem
à Tchecoslováquia que, conquanto não quei­
ram influenciar a sua atitude, estarão a seu lado,
para apoiá-la na resistênca contra novas exigên­
cias. A Tchecoslováquia mobiliza suas fôrças.
Setembro, 28. O primeiro Lord do Almirantado, Sr. Duff Coo­
per, ordena a mobilização da esquadra. Em meio
do seu discurso, na Câmara dos Comuns, o Sr.
Chamberlain declara que foi convidado a encon­
trar-se com Herr Hitler em Munique, juntamen­
te com o Sr. Daladier e o Signor Mussolini.
Setembro, 29. Realiza-se a célebre conferência de Munique. O
Sr. Chamberlain oferece maiores concessões por
conta dos tchecos, aos quais foi recusada admis­
são na sala da conferência.
Setembro, 30. Anunciado que o Sr. Chamberlain deve ter uma
resposta pela manhã, o govêrno tchecoslovaco
se inclina aos têrmos ditados. O general Syrovy
transmite essa notícia velo rádio às 5 horas da
tarde.

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Outubro, 1. O Sr. Chamberlain regressa e anuncia, no aero­
porto de Heston, que consolidou a “paz para
nosso tempo”. À chegada, em Downing Street,
diz que conseguiu a “paz com honra”.
Outubro, 2. O Sr. Duff Cooper, primeiro Lord do Almiran­
tado, renuncia. A Câmara dos Comuns inicia um
debate de três dias em tôrno do acôrdo.
Outubro, 5. O presidente Edouard Benes renuncia ao govêr­
no da Tchecoslováquia.

S e não começo hoje por prestar os usuais e quase invariá­


veis tributos de homenagem ao primeiro ministro, por haver con-
jurado a crise política internacional, não é, decerto, um indício
de desconsideração pessoal êsse meu procedimento. Sempre man­
tivemos, — e há longos anos, — as mais agradáveis e amistosas
relações. Compreendo, por experiência própria, em crises seme­
lhantes, quão profundas foram as lutas e responsabilidades que
teve de suportar. Mas, apesar de tudo isso, estou certo de que é
melhor dizermos sinceramente o que pensamos sôbre os negócios
públicos do que perder tempo em cortesias pessoais. O momento
não é dos que favorecem a côrte à opinião pública e o jôgo dos
interêsses políticos. Acabamos de testemunhar um brilhante exem­
plo de firmeza de caráter que nos foi dado há dois dias pelo pri­
meiro Lord do Almirantado. Êsse homem público mostrou essa
firmeza de carater resistindo às correntes de opinião, sem se afas­
tar da sua norma de conduta, por mais violentas e caudalosas que
elas fôssem. Meu honrado amigo, Mr. Law, deputado por South­
west Hull, cujo impressivo discurso foi ouvido segunda-feira últi­
ma, teve muita razão quando nos recordou que o próprio primeiro
ministro tem revelado uma conduta, nesses assuntos, inteiramente
independente, recebendo com indiferença os aplausos e os apupos,
as críticas e os encômios.
Tais qualidades e tal elevação mental tornam possível a troca
das mais severas expressões de honesta opinião nesta Câmara, sem
ruptura de relações pessoais, podendo cada ponto de vista ser es­
clarecido da maneira mais ampla e completa. Fortificado pelo
exemplo alheio, procurarei, também, fazer o mesmo, começando

117
por dizer a coisa mais indesejável e impopular. Começarei por
dizer o que tôda gente ignora ou finge ignorar, — isto é, que aca­
bamos de sofrer uma total e irremediável derrota e que a França
com isso sofreu mais ainda do que a própria Inglaterra. Eis uma
verdade que precisa ser dita por alguém. Com tôdas as suas dili­
gências, com todos os seus imensos esforços e com a mobilização
que se processou no nosso país, tudo quanto o meu muito honrado
amigo primeiro-ministro conseguiu, com respeito à Tchecoslo­
váquia e às pretensões do ditador germânico, foi apenas isto: em
vez de trinchar a vitualha na mesa do banquete, Herr Hitler teve-a
servida, peça a peça, pelo próprio Sr. Chamberlain.
O chanceler do Tesouro, Sir John Simon, disse que, pela pri­
meira vez, Herr Hitler havia feito um recuo, — creio que foi essa
a palavra, — em qualquer escala. Não queremos perder tempo
prolongando um debate já muito demorado, sôbre as diferenças
que existem entre as posições assumidas pela Alemanha em
Berchtesgaden, Godesberg e Munique. Essas posições podem ser
sintetizadas de forma muito simples e clara — se a Câmara me
permite uma metáfora. No primeiro caso, de pistola apontada, a
Alemanha reclamava uma libra. Quando a libra lhe foi dada,
ainda de pistola apontada, — é o segundo caso, — a Alemanha
exigiu duas übras. Finalmente, o ditador, — é o terceiro caso, —
conformou-se em recolher apenas uma libra, dezessete xelins e seis
dracmas, além de promessas de boa vontade para o futuro.
Agora chego ao ponto que diz respeito à salvação da paz.
Ninguém foi mais resoluto e mais incondicional paladino da paz
do que o primeiro-ministro. Todos sabem disso. Ninguém jamais
teve uma tão intensa e tão indomável determinação de manter e
assegurar a paz. Isso é certo. A despeito disso, não compreendo
claramente porque podia haver tanto perigo de que a Inglaterra e
a França viessem a se envolver numa guerra com a Alemanha
nesta conjuntura, se ambas estavam prontas para sacrificar a Tche­
coslováquia. Os têrmos que o primeiro-ministro conseguiu obter
poderiam ter sido conseguidos através dos canais da diplomacia
ordinária, creio eu, durante o verão, a qualquer tempo. Devo dizer
que creio firmemente que os tchecos, entregues a si mesmos, sa­
bendo que não teriam nenhum apoio das potências do Oeste, te­
riam podido conseguir melhores têrmos do que os que foram com­
pelidos a aceitar depois de tôdas essas espetaculares e tremendas
perturbações. Dificilmente êsses têrmos poderiam ser piores.

118
Não se pode prever a possibilidade de uma luta quando um
dos lados está disposto a ceder em tudo por tudo. Quando se lêem
os têrmos de Munique, quando se sabe minuto a minuto o que
se passa na Tchecoslováquia, quando se está certo, não digo da
aprovação do Parlamento, mas da aquiescência do Parlamento,
quando o chanceler do Tesouro faz um discurso em que a todo
custo, em linguagem sugestiva e da maneira mais persuasiva pos­
sível, procura demonstrar que a situação era grave e a solução dada
inevitável e correta; quando vemos tudo isso, — e todos, neste
lado da Câmara, incluindo muitos membros do Partido Conser­
vador que são vigilantes defensores do interêsse nacional, estão
certos de que a questão não afeta a Inglaterra, — parece-me que
alguém deve perguntar: “Por que todo êsse barulho e agitação?”
A resolução relativa à Tchecoslováquia foi tomada pelos
governos da Inglaterra e da França. É muito importante acentuar
que não se trata de uma resolução tomada isoladamente pelo go­
vêrno inglês. Nem se tratava, mesmo, de um caso que o govêrno
britânico, por si só, pudesse decidir. Admiro muito a maneira
pela qual, nesta Câmara, foram evitadas tôdas as referências de
caráter recriminatório. Mas, se é certo que essa deliberação não
emanou particularmente de um ou de outro dêsses países, não me­
nos certo é que devemos ambos partilhar da responsabilidade co­
mum. Quando essa decisão foi tomada e o seu curso se desenvol­
veu, — podeis achá-la sábia ou ignara, prudente ou imprudente,
— estava já estabelecido em princípio que não seria promovida a
defesa da Tchecoslováquia em caso de guerra. Por isso mesmo,
se o assunto podia ser conduzido através dos canais diplomáticos
ordinários, durante o verão, não havia razão para emprestar à
crise todo êsse formidável aparato. Creio que êsse ponto merece
ser considerado.
Discute-se agora uma moção de apoio ao govêmo, que diz:
“Esta Câmara aprova a política do govêrno de Sua Majestade,
pela qual a guerra foi evitada, e apóia seus esforços para assegu­
rar uma paz duradoura”. Não posso manifestar concordância com
os passos que foram dados e, embora o chanceler do Tesouro haja
apresentado o caso a seu modo com muita habilidade, procurarei,
se me fôr permitido, mostrá-lo sob um ângulo diferente. Sempre
mantive a opinião de que a manutenção da paz depende da acumu­
lação de obstáculos em frente do possível agressor, entretendo-o
com um grande esfôrço para desimpedir o caminho. A vitória de

119
Herr Hitler, como muitas lutas famosas que governaram o destino
dos povos, foi conquistada por pequeníssima margem. Quando da
invasão da Áustria em marcha, enfrentamos o problema nos nossos
debates. Aventurei-me a pedir ao govêrno que fôsse um pouco mais.
longe do que o primeiro-ministro foi. Pedi que, juntamente com
a França e outras potências, fôssem dadas garantias à Tchecos­
lováquia, enquanto a questão dos sudetos fôssem examinada por
uma comissão da Liga das Nações ou outro corpo imparcial. Ainda
acredito que se êsse caminho tivesse sido seguido não teríamos che­
gado a tão desastrosa situação. Concordo inteiramente com meu
muito honrado amigo, Sr. Amery Sparkbrook, que disse nessa
ocasião: “Façamos uma coisa ou outra; ou proclamemos o nosso
desinterêsse pelo caso, ou assumamos uma atitude enérgica, ofe­
recendo plenas garantias, que serão a melhor forma de proteger
êsse país.”
A França e a Grã-Bretanha, juntas, especialmente se tivessem
mantido íntimo contato com a Rússia, o que certamente não se
deu, poderiam ter influenciado, no curso do verão, enquanto ti­
nham prestígio, muitos dos pequenos Estados europeus e acredito
que poderiam ter determinado a atitude da Polônia. Tal combina­
ção, preparada a tempo, quando o ditador alemão não estava
ainda profunda e irrevogàvelmente empenhado nesta aventura, po­
deria, acredito, ter reforçado tôdas as fôrças que, na Alemanha,
se opunham a êsses desígnios. Essas fôrças eram de variados mati­
zes: as fôrças militares, que achavam que a Alemanha não pode­
ria suportar uma nova guerra mundial e tôdas as massas de mode­
rada opinião, a opinião popular que teme a guerra, bem como
alguns elementos que ainda tinham influência sôbre o govêrno.
Tal ação teria fortificado o intenso desejo de paz que as desam­
paradas massas alemãs partilham com as populações inglêsa e fran­
cesa e que, como estamos lembrados, tiveram uma das apaixona­
das e raras manifestações permitidas, nas alegres ovações com que
o primeiro ministro foi recebido em Munique.
Tôdas essas fôrças, juntas a outros impecilhos, criados em
combinação pelas grandes e pequenas potências, com o intuito de
manter a lei e de resolver pacificamente as questões internacio­
nais, deviam ter sido mantidas e estimuladas, pois seus resultados
deviam ser efetivos. Entre a submissão e a guerra imediata, pode­
ria haver uma terceira alternativa, capaz de oferecer não apenas
uma esperança de paz, mas também de justiça. É bem verdade

120
que uma política de tal natureza, para ser bem sucedida, exigiria
que a Grã-Bretanha se tivesse definido sem vacilação e que, há
longo tempo, o mais cedo que pudesse, tivesse juntamente com
outras potências corrido a defender a Tchecoslováquia contra
uma agressão não provocada. O govêrno de Sua Majestade se
recusou a dar essa garantia quando ainda era possível salvar a si­
tuação e, afinal, deu-a quando era tarde demais, renovando-a de
então por diante várias vêzes, embora sabendo que não tem o me­
nor poder para tomá-la válida.
Tudo está perdido. Silenciosa, enlutada, abandonada, despe­
daçada, a Tchecoslováquia mergulha nas trevas. Muito sofreu,
sob todos os aspectos, pela sua associação com as democracias in­
glêsa e francesa e com a Liga das Nações. Sofreu mais particular­
mente em conseqüência das suas ligações com a França, sob cuja
guia e inspiração sua política vinha sendo desenvolvida há longo
tempo. As próprias medidas tomadas pelo govêrno de Sua Majes­
tade no acôrdo anglo-francês, a fim de dar-lhe a melhor solução
possível, — sobretudo a desmembração de metade de certos dis­
tritos em vez de um plebiscito, — reverteram em seu detrimento,
porque foi exigido plebiscito em largas áreas e outras potências que
tinham também reclamações territoriais se apressaram a se atirar
sôbre a vítima indefesa. As eleições municipais em cuja votação foi
calculada a base de cinqüenta por cento se realizaram em lugares
que nada tinham que ver com a Alemanha. Quando aqui me en­
trevistei com Herr Henlein, êle me assegurou que não era êsse o
desejo do povo. Reiteradas e positivas declarações fôram feitas de
que se tratava apenas de uma questão de ordem interna, uma
disputa de posições dentro do próprio Estado tchecoslovaco.
Ninguém tem o direito de dizer que o plebiscito vai se realizar em
zonas como a do Sarre, e a divisão de cinqüenta por cento dessas
áreas, ou, melhor, essas duas medidas juntas não passam de uma
farsa e de uma fraude.
Nós, neste país, como também sucede nos outros Estados
democráticos, temos pleno direito de exaltar o princípio da livre
escolha nas assembléias eleitorais, mas isso não soa do mesmo
modo na bôea dos Estados totalitários, que negam a mais come-
zinha tolerância a qualquer opinião ou crença pública. Seja, po­
rém, como fôr, êsse pedaço de terra, essa aglomeração de sêres
humanos, êsse recanto da Tchecoslováquia, nunca exprimiu o
desejo de ser governado pelos régulos nazistas. Tal seria a opinião

121
do povo tcheco, se, mesmo a esta altura, fôsse chamado a mani­
festar-se.
Qual é, pois, a posição atual da Tchecoslováquia? Não
está apenas politicamente mutilada, mas, também, econômica e
financeiramente, em completa confusão. Seu aparelhamento ban­
cário, seus contratos de estradas de ferro, foram tumultuados, vio­
lados, quebrados. As indústrias estão sendo mutiladas e o movi­
mento de sua população, de um lado para outro, é o que há de
mais cruel. Os mineiros sudetos, que são todos tchecos e cujas
famílias viviam nessa área há séculos, devem agora mudar-se para
outra área, onde raras minas foram deixadas para que nelas traba­
lhem. O que ocorreu, nesse particular, é por si só um atragédia.
Há de existir sempre, no coração da Inglaterra, um arrependi­
mento e um profundo sentimento de desolação, diante do infor­
túnio que recaiu sôbre a República da Tchecoslováquia. Mas o
seu sacrifício, é preciso que saibamos, não terminou ainda. A qual­
quer momento, deve iniciar-se uma nova etapa do programa. A
qualquer momento, a uma ordem de Hitler ou de Goebbels, pode
recomeçar a propaganda de calúnias e de mentiras. A qualquer
momento, um incidente pode ser provocado, como pretexto para a
conquista total. E, agora, que a linha fortificada foi abandonada,
que poderá conter a vontade do conquistador? Certamente, não
podemos oferecer neste momento nenhuma ajuda eficaz, nem o
mais ligeiro auxílio à Tchecoslováquia, além daquele que todos
aplaudem com satisfação, — o amparo financeiro já dado pelo
nosso govêmo.
Ouso pensar que, no futuro, o Estado Tchecoslovaco não
se poderá manter como entidade independente. Penso que essa
previsão se confirmará num período de tempo que pode ser me­
dido por anos, mas também pode ser medido apenas por meses,
e que a Tchecoslováquia será, então, absorvida pelo regime na­
zista, deixando-se, possivelmente, empolgar pelo desespêro e pelo
desejo de vingança. De qualquer modo, a situação de abandono,
de ruína da Tchecoslováquia não deve ser considerada apenas à
luz do que aconteceu no último mês. Isso representa a mais grave
conseqüência de tudo quanto fizemos e deixamos de fazer nos
últimos cinco anos, — cinco anos de fúteis boas intenções, cinco
anos de ansiosa procura da última linha de resistência, cinco anos
de recuos e desprestígio do poder inglês, cinco anos de negligência
da nossa defesa aérea. Tais são os assuntos que vim expor neste

122
momento e que assinalam a conduta imprevidente pela qual a
Inglaterra e a França terão de pagar. Fomos reduzidos e rebaixa­
dos, nestes cinco anos, de uma situação de segurança tão absoluta
c sólida, que nós mesmos não nos preocupamos com ela. Fomos
rebaixados de uma situação em que o uso da palavra “guerra” só
parecia susceptível de ser usada pelos candidatos à internação em
hospícios. Fomos rebaixados de uma situação de segurança e de
poder, — poder para o bem, poder que admitia a generosidade
para com o inimigo vencido, poder que admitia um reajustamento
c uma solução adequada para as injustiças e agravos, poder para
deter o rearmamento alemão, se o quiséssemos, poder para dar
qualquer passo no sentido do fortalecimento próprio, como da in­
dulgência e da justiça que nos parecessem louváveis, — fomos
rebaixados, dizia, de uma situação de segurança e de poder às
condições em que agora nos encontramos.
Quando penso nas caras esperanças de paz duradoura que
ainda existiam na Europa no início de 1933, quando Herr Hitler
obteve a primeira investidura no poder, e em tôdas as oportunida­
des de coartar o crescente poder nazista então fácil de esmagar,
quando penso nas imensas possibilidades e nos recursos que foram
desperdiçados ou negligenciados, não posso acreditar que exista
caso paralelo em todo o curso da história dos povos. Tanto quanto
toca a êste país, a responsabilidade deve ser lançada sôbre aquêles
que tinham então o controle indisputável dos nossos negócios
políticos. Êsses homens de Estado nunca impediram a Alemanha
de se rearmar, nem procuraram ao menos rearmar também a In­
glaterra no momento oportuno. Querelaram com a Itália, sem no
entanto haver salvo a Abissínia. Exploraram e desacreditaram a
vasta instituição da Liga das Nações e se esqueceram, negligen­
temente, de fazer alianças e combinações que poderiam ter corri­
gido os seus erros anteriores. E nos deixaram, por fim, na hora
crítica, sem defesa nacional organizada e sem garantias interna­
cionais efetivas.
Em minhas férias, tive oportunidade para estudar o reinado
do rei Ethelred, o Vagaroso. A Câmara deve lembrar-se de que
êsse foi um período de grandes infortúnios, no qual, da forte e
segura posição conquistada pelos descendentes do rei Alfredo,
caímos subitamente em verdadeiro caos. Foi êsse o período de
Danegeld, de grande pressão estrangeira. As palavras colhidas
nessa velha crônica anglo-saxônia, escrita há nul anos atrás, pa­

123
recem-me vir muito a propósito, tão a propósito como as citações
de Shakespeare com que fomos brindados pelo último orador da
bancada da oposição. Eis o que diz a crônica anglo-saxônia, —
e creio que essas palavras se aplicam com extrema precisão ao
nosso caso com a Alemanha e às nossas relações com êsse país.
“Tôdas essas calamidades caíram sôbre nós apenas por imprudên­
cia, porque não lhes oferecemos tributos em tempo próprio nem
mesmo quando êles resistiam; mas, depois de haverem feito o
pior, fizemos pazes com êles”. Essa é a sabedoria do passado, pois
de lá é que vem tôda a sabedoria humana.
Ouso manifestar êsses pontos de vista para justificar-me ao
negar o meu voto de aprovação à moção que foi apresentada
esta noite, mas reconheço que a importante questão da Tchecos­
lováquia e os deveres da Inglaterra e da França para com ela
passaram à história. Novos episódios se desenrolarão, mas não
estaremos aqui para decidir os passos que devem ser dados ou
não. Êsses passos já foram dados. Foram dados por aquêles que
têm o direito de fazê-lo, porque arcam com as mais altas respon­
sabilidades como ministros da Coroa. Pensemos disso o que pen­
sarmos, devemos encarar essas soluções como pertencendo à cate­
goria de negócios que são resolvidos acima de qualquer revoca-
tória. O passado passou e só podemos tirar dêle algum conforto
quando temos a certeza de que fizemos o possível e demos os
melhores e mais sábios conselhos, em tempo oportuno. Agora,
o que nos resta é olhar para o futuro e para a nossa presente
situação. E ainda uma vez tenho a certeza de que vou dizer, a
tal propósito, mais algumas verdades duras de ouvir.
Estamos em frente de um desastre de grande magnitude,
desastre em que a Inglaterra e a França são atingidas em cheio.
Não sejamos cegos a isso. Devemos partir do princípio de que
os países do Leste e do Centro da Europa se acomodarão, nos
melhores têrmos possíveis, com o poder nazista triunfante. O
sistema de alianças na Europa Central, sôbre o qual a França
quis edificar a sua segurança, foi varrido para longe e não vejo
como possa ser reconstituído. O caminho do vale do Danúbio
ao Mar Negro, o caminho que conduz à Turquia, está aberto.
De fato, creio que todos os países do Centro da Europa, tôdas
as nações danubianas, entrarão nesse vasto sistema de poder po­
lítico, — não apenas militar, mas também econômico, — que se
irradia de Berlim. Creio que isso pode ser alcançado pacífica e

124
ràpidamente, sem ser necessário disparar um só tiro. Se desejais in­
vestigar os malefícios da política externa da Inglaterra e da Fran­
ça, podeis atentar no que se passa e no que é registrado diària-
mente nas colunas do Times. Nesse órgão, li hoje alguma coisa a
respeito da Iugoslávia e pude saber dè interessantes detalhes a res­
peito dêsse país.
“Os efeitos da crise iugoslava, — escreve o Times, — po­
dem ser desde já prefigurados. Desde as eleições de 1935, que se
realizaram pouco depois da morte do rei Alexandre, a oposição
sérvia e croata ao govêrno do Dr. Stoyadinovitch conduziu tôda
a sua campanha baseada no slogan: “Volta à França e à Ingla­
terra; volta à Pequena Eníeníe; volta à democracia”. Os aconte­
cimentos dos últimos quinze dias reforçaram triunfantemente a
política do Dr. Stoyadinovitch, — política de íntima cooperação
com a Alemanha, — e a oposição entrou subitamente em colapso.
As novas eleições, cuja data ainda não foi fixada, devem resultar
em esmagadora vitória para o govêmo do Dr. Stoyadinovitch”.
Eis aí um país que, três meses antes, poderia ter entrado em
linha, ao lado de outras nações, para evitar o que sucedeu.
Mais, ainda: que aconteceu em Varsóvia? Os embaixadores
da Inglaterra e da França visitaram o ministro do Exterior, coro­
nel Beck, ou pensaram visitá-lo, para solicitar-lhe a mitigação das
duras medidas tomadas contra a Tchecoslováquia, a respeito de
Teschen. A porta lhes foi batida na cara. O embaixador francês
nem sequer logrou que lhe fôsse concedida uma audiência e o
embaixador inglês recebeu uma lacônica resposta de um alto
funcionário. O assunto foi tratado na imprensa polonesa como
uma indiscreção cometida pelas duas potências e hoje temos notí­
cias do êxito do golpe do coronel Beck. Eu não estou esquecido,
devo dizer, de que ainda não faz vinte anos que as baionetas in-
glêsas e francesas libertaram a Polônia de um cativeiro de século
e meio. Penso que êsse episódio é tanto mais contristador quanto
envolve um país por cuja liberdade e direitos muitos de nós sempre
tivemos a mais ardente e viva estima.
Êsses exemplos são típicos. Assistimos, dia a dia, semana a
semana, à inteira alienação dessas regiões. Muitos dêsses países,
temendo a expansão do poderio nazista, elevaram ao poder polí­
tico pró-nazismo. A despeito disso, ainda existia um grande e pro­
fundo movimento popular na Polônia, Romênia, Bulgária e Iugos­
lávia, que olhava para as democracias ocidentais com simpatia e

125
repelia a idéia de um govêrno arbitrário sob os moldes totalitá­
rios, que confiava em nós e esperava que uma resistência viesse a
ser, afinal, oferecida. Tudo isso, porém, está perdido. Estamos fa­
lando a respeito de países que já não contam como expressões
próprias. Qual será, em face disso, a posição da Inglaterra e da
França êste ano e nos anos que se seguirão? Gostaria de sabê-lo.
Qual seria a situação do front ocidental, de que, em último caso,
somos os fiadores? O exército germânico, presentemente, é mais
numeroso do que o da França e, segundo creio, mais sazonado e
mais perfeito. No ano próximo, tomar-se-á ainda maior, em nú­
mero, e mais capaz, em técnica. Aliviada das dificuldades a Leste
e tendo acumulado recursos que diminuirão grandemente, se não
removerem inteiramente, os efeitos de um bloqueio naval, a Alema­
nha nazista poderá escolher livremente qual o caminho que lhe
interessa seguir, em que direção quer fazer marchar as suas tropas.
Se o ditador nazista olhar para o nosso lado, a Inglaterra e a
França muito terão que deplorar a perda dêsse fino exército da
antiga Boêmia, que, segundo as estimativas da última semana,
exigiria pelo menos trinta divisões germânicas para o total aniqui­
lamento.
Poderemos continuar cegos às grandes transformações que
se operam no cenário militar e ao aumento dos perigos que tere­
mos de enfrentar? Estamos em preparativos, segundo creio, para
em quatro anos aumentar quatro corpos no Exército Britânico.
Nada menos de dois corpos acabam de ser completados. Nada
menos de trinta divisões devem ser concentradas pelos alemães
no front francês, sem contar com as doze que foram capturadas
quando a Áustria foi invadida. Muitas pessoas julgam, sem dú­
vida sinceramente, que abrindo mão de qualquer interêsse no caso
da Tchecoslováquia estamos fazendo apenas isso, e não avaliam
que estão profunda e perigosamente comprometidas nesse caso
também a segurança e a independência da Inglaterra e da França.
Não haverá apenas uma questão de entrega de colônias, como sere­
mos intimados a fazer, nem de perda de influência na Europa.
Os efeitos irão muito além. É preciso considerarmos o movimento
nazista e métodos de que se utiliza. O primeiro-ministro deseja ver
estabelecidas as mais cordiais relações entre o nosso país e a Ale­
manha. Não há dificuldade em estabelecer-se relações cordiais
entre os povos. Entretanto, nunca existirá amizade entre nós, in-
glêses, e o presente govêrno alemão. Poderemos manter relações

126
corretas e diplomáticas, mas nunca existirá amizade entre a demo­
cracia britânica e o poder nazista, o poder que repele a ética
cristã, que se alimenta de um paganismo bárbaro, que se vangloria
do espírito de agressão e de conquista, que tira sua fôrça e seus
pervertidos prazeres das perseguições e do uso, como temos visto,
da brutalidade sem peias, e da ameaça da fôrça e da violência ho­
micida. Êsse poder nunca poderá ser considerado um amigo digno
de confiança pela democracia inglêsa.
O que não posso admitir é a idéia de que o nosso país caia
sob o domínio dêsse poder, fique na órbita de influência da Ale­
manha nazista e que a nossa existência venha a se tornar depen­
dente da boa vontade ou da mercê dos nazistas. É para evitar isto
que tenho procurado fazer o possível para manter todos os baluar­
tes da nossa defesa, — primeiro, a oportuna criação de uma Fôrça
Aérea superior a tôdas as que possam ameaçar as nossas plagas;
segundo, a união das fôrças de várias nações para um movimento
de defesa coletivo; terceiro, a realização de alianças e convênios
militares, dentro do espírito do convênio da Liga das Nações, para
restringir os movimentos daquele poder. Tudo isso, porém, foi em
vão. Tôdas as posições em nosso poder foram uma a uma solapa­
das e abandonadas sob razões especiosas.
Não queremos um largo caminho para, através dêle, chegar­
mos à situação de satélites do sistema nazista alemão, depois de
sua dominação na Europa. Em poucos anos, talvez mesmo em
poucos meses, estaremos em face de exigências que não seremos
convidados, mas intimados a cumprir. Essas exigências podem afe­
tar os nossos territórios e a nossa liberdade. Eu prevejo e predigo
que a política de submissão implicará a adoção de restrições à
liberdade da palavra e do debate no Parlamento, nas plataformas
públicas, na imprensa, e então nos dirão, — na verdade, já tenho
ouvido isto algumas vêzes, — que não podemos permitir que o sis­
tema nazista seja criticado por um ordinário e comum político
inglês. Então, com a imprensa sob controle, em parte direta, mas
mais potencialmente de modo indireto, com todos os órgãos
da opinião pública amordaçados e cloroformizados com a nossa
aquiescência, seremos conduzidos a jornadas nunca dantes sonha­
das em nossa história.
Tenho estado a imaginar que espécie de medidas podería­
mos tomar para nos proteger contra o alastramento do poder na­
zista e para preservar estas formas de existência digna que nos

127
são tão caras. Qual o único método ao nosso alcance? O único
método ao nosso alcance é o de reconquistar a antiga independên­
cia da nossa ilha adquirindo a supremacia do ar que nos haviam
prometido, a segurança aérea que nos asseguraram possuirmos, e,
assim tornando a Inglaterra verdadeiramente insular outra vez.
Isso, em todo êsse sombrio panorama, brilha luminosamente na
esfera dos fatos indiscutíveis. Um esfôrço em prol do rearmamen­
to como ainda não foi testemunhado deve ser feito sem demora.
Todos os recursos do país e tôda a sua fôrça devem ser empenha­
dos nessa tarefa. Fiquei muito satisfeito por saber que Lord
Baldwin, na Câmara dos Lords, disse que amanhã mobilizaria a
indústria. Contudo, penso que teria sido muito melhor se Lord
Baldwin tivesse resolvido fazer isso há dois anos e meio atrás,
quando todos exigiam a nomeação de um ministro do Material
Bélico. Ousarei dizer aos colegas que tão pacientemente me ouvem
que êles também têm uma parcela na responsabilidade de tudo isto,
porque se tivessem dado os mesmos aplausos que deram à tran­
sação da Tchecoslováquia aos esforços de um punhado de mem­
bros desta Câmara, que vinham se batendo pelo oportuno rearma­
mento da Inglaterra, não estaríamos na posição em que agora nos
encontramos. Lembro-me de que, durante dois anos enfrentei, não
apenas as deprecações do govêmo, mas também a severa desapro­
vação dos meus pares. Agora, Lord Baldwin deu-lhes o sinal,
embora tardiamente. Obedeçamos, afinal.
Já não há mais segredos acêrca do nosso poder aéreo e da
mobilização das nossas defesas antiaéreas. Êsses assuntos, como
disse ontem meu digno e honrado amigo Sir Sydney Herbert, depu­
tado pela Abbey Division, são agora de domínio público. Milha­
res de pessoas assistiram suas experiências e exercícios e podem,
agora, formar sua própria opinião a respeito da consistência dos
depoimentos persistentemente feitos pelos ministros sôbre êssè as­
sunto. Quem pode pretender, agora, que estamos em paridade
com a Alemanha? Quem pretende que as nossas defesas antiaéreas
sejam bem manejadas e bem equipadas? Sabemos que o estado-
-maior germânico é bem informado a êsse respeito, mas a Câma­
ra dos Comuns não teve a mesma curiosidade, não tomou tão a
sério o seu dever de bem se informar sôbre assunto de tanta im­
portância. O secretário do Interior, Sir Samuel Hoare, disse outro
dia que o pedido de uma investigação seria bem acolhido. Muitas
coisas têm sido feitas e merece a administração que se lhe reco-

128
nheça êsse esfôrço. Mas os assuntos vitais, os problemas nevrálgi­
cos são os que nos interessa saber. Tenho pedido e repedido, du­
rante êstes três anos, uma sessão secreta em que êsses problemas
pudessem ser examinados, uma investigação, por um comitê desta
Câmara, ou qualquer outro processo de averiguação cabal. Pe-
ço-o agora, mais uma vez, por estar convencido de que, neste
assunto, deve a Câmara merecer a confiança do govêrno, porque
temos o direito de saber a quantas andamos e quais são as medi­
das que estão sendo tomadas para garantia da nossa posição.
Eu não censuro o nosso leal e bravo povo, que estava pronto
para cumprir o seu dever custasse o que custasse, e que nunca
tergiversou durante os dias de tenebrosa expectativa da última
semana, — eu não o censuro pela natural e espontânea explosão
de júbilo e alívio, quando soube que a dura prova de marchar
para o campo da luta já não lhe era exigida, naquele momento.
— Mas, agora, êsse povo já conhece a verdade verdadeira. Sabe
que tem havido imperdoável negligência e que há deficiências enor­
mes na nossa defesa. Sabe que sofremos uma derrota sem guerra
e que por longo tempo sofreremos as conseqüências dos nossos
erros. Sabe que acabamos de cobrir uma tremenda etapa da nossa
história, durante a qual o equilíbrio da Europa foi perturbado.
Sabe que terríveis palavras foram proferidas contra as democracias
ocidentais: “Fôstes pesados numa balança e encontramos deficiên­
cia de pêso”. Não se pense, porém, que tudo terminará aí. Isso é
apenas o princípio da suputação. É apenas o primeiro gole de uma
taça de amargura que nos será oferecida ano a ano, a menos que
uma suprema convalescença da saúde moral e do vigor marcial
nos levante o ânimo e nos faça retomar a luta pela liberdade
como nos tempos de outrora.

129
EM DEFESA DA LIBERDADE E DA PAZ
S a ud a çã o p e l o r á d io a o p o v o d o s E sta d o s U n id o s
16 DE OUTUBRO DE 1938

Outubro, 10. A Alemanha ocupa as áreas cedidas pela Tche-


coslováquia, — excedendo em muitos casos
às suas reclamações territoriais, — enquanto a
Gestapo leva a efeito seus costumeiros pogrom.

H > com grande prazer que me dirijo hoje ao povo dos Es­
tados Unidos. Não sei até quando tal liberdade poderá ser permi­
tida. Os redutos da palavra livre e sem censura estão sendo fecha­
dos. As luzes estão se apagando. Mas ainda é tempo, para que
aquêles que acreditam no significado dos vocábulos “liberdade”
e “govêmo parlamentar” se dêem as mãos e se aproximem. Per­
miti, pois, que eu vos fale, enquanto é tempo, com a franqueza e
a sinceridade que sempre cultuei.
O povo americano formou, segundo me parece, um julga­
mento exato sôbre o desastre que aniquila a Europa. Compreen­
de, talvez mais claramente do que o povo francês e inglês o tem
feito, as imprevisíveis conseqüências do abandono e da ruína em
que foi precipitada a República Tchecoslovaca. Mantendo a con­
vicção que manifestei há alguns meses atrás, de que em abril,

131
maio ou junho, a Grã-Bretanha, a França e a Rússia declarariam
que agiriam em comum, se Herr Hitler cometesse um ato de agres­
são não-provocada contra um pequeno Estado, e de que, se tives­
sem dito à Polônia, à Tchecoslováquia e à Romênia, o que
pretendiam fazer em tempo oportuno, convidando-os a participar
da coligação de potências, o ditador alemão teria de enfrentar tão
formidável concentração de fôrças que, por certo, preferiria desis­
tir do seu propósito. Isso seria também uma oportunidade para
todos os pacifistas e para os elementos moderados da Alemanha,
que, juntamente com os chefes do exército, poderiam fazer um
grande e profícuo esfôrço para restabelecer as condições de vida
sã e civilizada no seu país. Se a França e a Inglaterra viessem a
correr os riscos de uma guerra, as perspectivas seriam muito di­
ferentes daquelas que atualmente temos de enfrentar.
Tôdas essas especulações, entretanto, já pertencem ao do­
mínio da história. Não é de boa ética usar têrmos pesados entre
amigos lembrando casos passados ou repreendê-los por coisas que
não podem mais ser emendadas. É ao futuro, e não ao passado,
que devemos dedicar tôda a nossa capacidade e nosso empenho,
tôda a nossa devoção e todo o nosso espírito. Devemos reconhecer
que as democracias parlamentares e as fôrças liberais e pacíficas,
onde quer que seja, apresentam um defeito que as enfraquece físi­
ca e moralmente para resistir às ameaças de perigos que cresceram
exageradamente. Mas a causa da liberdade tem em si mesma um
poder de recuperação e virtude que transforma os infortúnios em
novas esperanças e nova fortaleza. E se já houve tempo em que
os homens e mulheres que aplaudem os ideais das Constituições
inglêsa e americana devessem sinceramente aconselhar-se uns aos
outros, êsse tempo é o presente.
O mundo inteiro deseja paz e segurança. Quem ganhou al­
guma coisa com o sacrifício da República da Tchecoslováquia?
Êsse era o Estado modêlo entre as democracias da Europa cen­
tral, um país em que as minorias eram tratadas melhor do que em
qualquer outra parte. Foi apresado, destruído, devorado. Agora,
está sendo digerido. Resta saber, — e isso é uma questão que
interessa a um grande número de cidadãos, — se a destruição
da Tchecoslováquia trará ao mundo algum proveito ou algum
malefício.
Todos nós devemos esperar que seja um proveito. Que, de­
pois de havermos desviado os olhos do espetáculo da subjugação,

132
possamos respirar mais livremente. Que um pêso seja tirado de
sôbre o nosso peito. Que possamos dizer a nós mesmos: “Bem,
fôsse como fôsse, isso passou. Agora, recomecemos a nossa vida
regular, a nossa rotina diária”. Mas serão tôdas essas esperanças
bem fundadas ou teremos feito tudo ao nosso alcance em pura
perda, sem fôrça e capacidade para pôr um fim a isso? Eis a
pergunta que todos os povos de língua inglêsa dirigem a si mes­
mos. É o fim, ou virá ainda alguma coisa mais?
Há mais uma questão que surge dessas considerações. Podem
a paz, a boa vontade e a confiança repousar na submissão obtida
pela fôrça? Pode-se formular essa questão em bases ainda mais
amplas. Pode algum benefício ou progresso ser alcançado pela raça
humana através da submissão pela violência calculada e orga­
nizada? Se olharmos para trás, para a longa história das nações,
veremos que, ao contrário, suas glórias legítimas repousam no es­
pírito de resistência contra a tirania e a injustiça, especialmente
quando êsses males são oriundos da fôrça bruta. Desde a aurora
do cristianismo, certos princípios de vida foram-se impondo entre
os povos ocidentais e certas normas de conduta e de govêrno come­
çaram a ser estimadas. Depois de grandes misérias e não menores
confusões, surgiu à luz plena do dia a concepção do direito indi­
vidual. O direito de ser consultado pelo govêrno do seu país e o
direito de invocar a lei em seu favor, ainda que contra o próprio
Estado. Côrtes independentes de justiça foram criadas para afir­
mar e manter essa conquista tão trabalhosamente obtida. Isso foi
implantado em todo o mundo de língua inglêsa e na França através
das duras lições da Revolução, que Kipling chamou de “Deixar
de viver para que nenhum homem vivesse abaixo da lei”. Agora,
para nós, nisso reside tudo quanto toma a vida preciosa e digna
para um homem.
Abordemos, agora, um outro tema. Não se trata de assunto
nôvo. Vem de longe. Vem da Idade Média aos nossos dias, —
a perseguição racial, a intolerância religiosa, a perseguição ao
pensamento livre, a concepção de que o cidadão é mera partícula
do Estado, sem alma e sem personalidade. A tudo isso, junta-se
o culto fanático da guerra. As crianças, desde as escolas primá­
rias, aprendem a avaliar os proveitos e aceitar como naturais as
conquistas e agressões. Uma comunidade inteira, sofrendo severas
privações, foi condenada a viver como em tempo de guerra, man­
tida nessa situação por um partido organizado de vários milhões

133
de indivíduos fortes e bem armados, que tiram tôda a sorte de
proventos, bons e maus, da manutenção do regime. Como os co­
munistas, os nazistas não toleram opinião que não seja a dêles
próprios. Como os comunistas, alimentam-se no ódio. Como os
comunistas, devem descobrir, de tempos em tempos, um nôvo
objetivo, um nôvo propósito, uma nova vítima, um nôvo prêmio.
O ditador, com todo o seu orgulho, está atrelado à máquina do
partido. Tem de marchar sempre para a frente. Não pode recuar
nunca. Deve espicaçar seus mastins e mostrar-se alegre e fanfarrão,
ou então, como o Actéon dos antigos, deixar-se devorar por êles.
São como Byron escreveu há cem anos atrás:
“These Pagode things of sabre sway,
Wiíh fronts of brass and feet of clay”.
(Êsses instáveis ídolos chineses,
De cabeças de bronze e pés de barro).
Ninguém deve, contudo, subestimar o poder e a eficiência
de um Estado totalitário. Quando tôda a população de um grande
país, amigável, de bom coração, amante da paz, se acha inteira­
mente subjugada pelo gasnete e pelo cabelo por um dêsses tiranos
comunistas ou nazistas, — pois êles são a mesma coisa, embora
soletrados de maneira diferente, — os governantes do momento
podem exercer o poder com o propósito da guerra e de domina­
ção externa em circunstâncias que jamais poderiam ser alcança­
das pelas democracias parlamentares ordinárias, evidentemente em
desvantagem. Devemos reconhecer isso. E ainda, acima de tudo,
vem êsse maravilhoso domínio dos ares que nosso século desco­
briu mas do qual, — a verdade seja dita, — a humanidade não
tem sabido se mostrar digna. Eis aqui um poder aéreo que se van­
gloria de torturar e aterrorizar mulheres e crianças, a população
civil dos países vizinhos. Essa combinação de paixões medievais,
de loucura partidária, de aproveitamento dos modernos processos
científicos e utilização, como recurso de intimidação, — um pou­
co de chantagem, — dos bombardeios aéreos, — tudo isso cons­
titui uma tremenda ameaça à paz, à ordem e ao progresso mag­
nífico que o mundo tem conhecido desde a invasão dos mongóis,
no século XIII.
A questão principal a que quero chegar é esta: o mundo que
conhecemos, o mundo cheio de esperanças de antes da guerra, o

134
mundo de melhores perspectivas e de maiores prazeres para o ho­
mem médio, o mundo de honrosas tradições e de progresso cien­
tífico crescente, enfrentará essa ameaça pela submissão ou pela
resistência? Vejamos quais são os meios de resistência que nos
restam. Sofremos um imenso desastre. O prestígio da França está
diminuído. A despeito de seu bravo e eficiente exército, sua in­
fluência está profundamente reduzida. Ninguém tem o direito de
dizer que a Inglaterra, com tôdas as suas imprudências, faltou à
sua palavra. Na verdade, quando já era tarde demais, ela ainda
foi além do que havia prometido. Contudo, a Europa neste mo­
mento se acha perturbada e aviltada com as crescentes imposições
dos podêres ditatoriais. Na península ibérica, uma questão tipi­
camente espanhola foi objeto da intervenção dos ditadores. Mas
não é apenas na Europa que tais opressões prevalecem. A China
está sendo espostejada pelo facão de magarefe do Japão. O pobre
e aflito povo chinês está se defendendo com a maior bravura e
persistência, embora com fôrças inferiores e não tão bem organi­
zadas quanto as do agressor. O antigo império da Etiópia foi do­
minado. Os etíopes haviam confiado na garantia das leis interna­
cionais, no tribunal das nações, reunido em imponente união. Mas
tudo falhou. Em tôda parte, foram enganados. E agora reconquis­
tam o direito de viver começando outra vez, do início, a luta titâ-
nica contra o invasor. Mesmo na América do Sul, o nazismo amea­
ça solapar as bases do edifício social brasileiro.
À distância, protegido ditosamente pelos oceanos Atlântico
e Pacífico, vós, o povo dos Estados Unidos, a que tenho agora o
ensejo de falar, sois os espectadores, — os espectadores cada vez
mais envolvidos, devo ajuntar, — destas tragédias e crimes. Não
temos dúvida alguma às convicções e simpatias que os americanos
professam. Mas pergunto: esperareis até que a liberdade e a inde­
pendência da Inglaterra tenham sucumbido, para adotar-lhe a
causa depois que três quartos da sua resistência estiver aniquilada
e vos encontrardes pràticamente sozinhos? Tenho ouvido falar que
se diz nos Estados Unidos que, se a Inglaterra e a França falharem
ao cumprimento de sua própria missão, o povo americano pode
lavar as mãos serenamente, sem se envolver em coisa alguma. Tal­
vez seja essa a opinião de muita gente. Mas, apesar de tudo, não
existe o menor senso nisso. Quanto piores as condições, tanto mais
nos devemos esforçar por corrigi-las.

135
Examinemos, por exemplo, as fôrças remanescentes da civi­
lização. Essas fôrças são surpreendentes. Se estivessem unidas em
tômo de uma concepção comum de razão e de direito não haveria
guerra. Ao contrário, o povo germânico, industrioso, leal, valente,
mas, apesar de tudo, desprovido de verdadeiro espírito cívico, po­
deria libertar-se do pesadelo atual e tomar um lugar de honra, à
vanguarda da sociedade humana. Alexandre, o Grande, assinalou
que o povo da Ásia era um povo de escravos porque não havia
aprendido a dizer “Não”. Que não seja êsse o epitáfio dos povos
de língua inglêsa e das democracias parlamentares, ou da França
e dos estados liberais que ainda sobrevivem na Europa.
Nessa única palavra se concentra a salvação das fôrças que
representam a liberdade e o progresso, a tolerância e a boa von­
tade, pois não é privilégio de uma nação, por mais bem armada
que ela seja, e muito menos de um pequeno grupo de homens,
violentos e empedernidos, que olham o resto da humanidade com
desprêzo, por cima dos ombros, mudar o curso do destino dos
povos. As fôrças preponderantes do mundo estão ao nosso lado.
Mas devem ser combinadas e preparadas para obedecer a um plano
comum. Devemos nos armar. A Inglaterra deve armar-se. Os
Estados Unidos devem também armar-se. Se, por um sincero e
ardente desejo de paz, nós nos colocarmos em situação desvan­
tajosa, devemos melhorar a nossa posição por meio de redobradas
e incessantes diligências e, se necessário, pela bravura no sofri­
mento, pelo estoicismo nas horas de sacrifício pessoal ou coletivo.
Devemos, sem dúvida alguma, cuidar dos nossos armamentos. A
Inglaterra, abolindo hábitos de séculos, deve decretar o serviço
militar obrigatório. O povo inglês deve manter-se erecto, de pé, e
enfrentar o que virá, suceda o que suceder.
É preciso notar que as armas, — instrumental, como dizia
o presidente Wilson, — por si sós não nos bastam. Devemos ajun-
tar-lhes a fôrça das idéias. Disse que não devemos estabelecer um
antagonismo teórico entre o nazismo e a democracia, mas o anta­
gonismo está definido. É precisamente êsse conflito de idéias mo­
rais e espirituais que dá aos povos livres uma grande parte de sua
fôrça. Vemos os ditadores nos seus pedestais, cercados pelas baio­
netas dos seus soldados e pelos porrêtes dos seus policiais. Por todos
os lados, êles são guardados por batalhões de homens armados,
canhões, aeroplanos, fortificações etc. — e vangloriam-se e
jactam-se diante do mundo, embora nos seus corações haja uma

136
boa dose de mêdo secreto. Temem palavras e pensamentos. Pala­
vras proferidas no estrangeiro e pensamentos formulados pelos seus
próprios concidadãos, — todos muito poderosos, porquanto proi­
bidos, — são para êles elementos de terror. O pensamento de um
ratinho que aparece num quarto pode infundir pânico mesmo ao
mais poderoso potentado. Por isso, fazem êles um esfôrço frené­
tico para banir as palavras e os pensamentos, temerosos da peri­
gosa fôrça da mente humana. Canhões, aeroplanos, metralhadoras,
isso podem êles fabricar em larga escala. Mas, como poderão estan­
car e impedir as legítimas inclinações da natureza humana, que
depois de todos êsses séculos de processo evolutivo e de progresso
adquiriu a poderosa e indestrutível armadura do conhecimento?
Ditadura, — a adoração fetichista de um homem — é uma
fase do passado. A organização social em que os homens não
podem enunciar os seus pensamentos; em que as crianças denun­
ciam seus pais à polícia; onde um homem de negócio ou pequeno
lojista arruina seu competidor contando histórias sôbre sua opinião
privada; evidentemente não pode perdurar, em contraste com o
mundo livre e remansoso cá de fora. A luz do progresso e da tole­
rância e da cooperação, da dignidade e da alegria, tem muitas
vêzes sido obscurecida, mas guardo, apesar de tudo, a convicção
de que temos poder para evitar que ela ainda uma vez seja obum-
brada, combatendo de frente o barbarismo, controlando-o, impe­
dindo-lhe a expansão. Havemos de fazer isso, mais dia menos dia.
Mas quanto mais difícil será essa tarefa, por cada dia de retarda­
mento que sofremos!
É isto um chamado para a guerra? Pretenderá alguém que
os preparativos para resistir a uma agressão conduzam irrecor-
rivelmente à guerra? Eu vos assevero que é essa a única verda­
deira garantia de paz. Necessitamos de uma rápida reunião de
fôrças, para enfrentar não só as agressões militares como as agres­
sões morais. E essa reunião de fôrças seria a resoluta e enérgica
aceitação dos seus deveres e responsabilidades pelo povo de língua
inglêsa e por tôdas as nações, grandes e pequenas, que desejem
acompanhá-lo. Essa leal e dedicada colaboração poderia quase que
do dia para a noite aclarar o caminho do progresso e banir de tôdas
as nossas almas o mêdo que obscurece as vidas de centenas de
milhões de homens.

137
A CRIAÇÃO DO MINISTÉRIO DO
MATERIAL BÉLICO

P alavras e m f a v o r d a e m e n d a c ria n d o o M in ist é r io do


M a t e r ia l B é l ic o , p r o f e r id a s n a C â m a ra dos C o m u n s .
17 d e novem bro d e 1938

Outubro, 18. O comitê executivo do Partido Liberal, em ma­


nifesto, descreve a conduta do govêrno em ma­
téria de política exterior como “um descanso
armado e precário”.
Outubro, 22. O Dr. Benes deixa a Tchecoslováquia, na qua­
lidade de exilado político.
Outubro, 27. Lord Stanhope ê nomeado primeiro Lord do
Almirantado, pôsto vacante desde a demissão
do Sr. Duff Cooper, a 2 de Outubro.
Outubro, 28. Novos pogroms são levados a efeito na Ale­
manha. Todos os judeus poloneses são expulsos
do Reich.
A Alemanha e a Itália resolvem dificuldades ter­
ritoriais entre Tchecoslováquia e a Hungria,
com desvantagem para a primeira, em arbitra­
gem feita em Viena.

139
Novembro, 7. Vítima de estado maníaco-depressivo, H. Gryn-
span, de 17 anos de idade, filho de um judeu
polonês expulso de Berlim, mata a tiros von
Rath, membro da representação diplomática ale­
mã em Paris.
Novembro, 10. As represálias alemãs pela morte de von Rath
assumem a forma de pogroms de ferocidade
nunca vista.
Novembro, 13. O marechal de campo Goering decreta que os
judeus devem pagar os danos ocorridos durante
sua própria perseguição pela população germâ­
nica, além da multa de um bilhão de marcos pela
morte de von Rath.
Novembro, 17. Sir Hugh Seely, do Paritdo Liberal, apresenta
uma emenda em favor da criação do Ministério
do Material Bélico. O Sr. Churchill faz o dis­
curso que se segue, em favor do projeto. Mas o
primeiro-ministro é contra a emenda e, em con­
seqüência, o projeto é rejeitado.

(C onfesso que sinto certa dificuldade em fazer outro dis­


curso em favor da criação do Ministério do Material Bélico. Já
usei todos os argumentos para demonstrar quão necessária e urgen­
te é essa medida e me esforcei por explicar vários aspectos do
problema, há três anos atrás, há dois anos e, finalmente, há seis
meses atrás. Batalhei por essa causa em tempo oportuno. Batalhei
quando já era tarde para isso e talvez meu muito honrado amigo
se lembre de que o adverti de que não devia deixar de fazer o que
era acertado, apenas porque nisso era aconselhado pelo diabo...
Mas nem a razão, nem a persuação, nem a lisonja, tiveram o
menor poder contra a maciça obstinação do govêrno, o govêrno
que nos conduziu ao ponto em que agora nos achamos. Êste de-,
bate, contudo, difere dos outros que temos tido sôbre o mesmo
assunto. É possível que a votação desta tarde constitua uma deci­
são perfeitamente clara. Estamos em dívida com o Partido Liberal
por ter colocado a Câmara dos Comuns mais uma vez em frente
ao obstáculo a vencer. Ou a Câmara salta êsse obstáculo ou se

140
I

desvia ignominiosamente dêle, perdendo a corrida cuja meta não


representa somente a segurança do nosso país, mas também afeta
grandes causas de universal significação.
Quero dirigir-me especialmente aos meus colegas. Não posso
crer que muitos dêles não participem das ansiedades que a maioria
dos seus concidadãos experimentam. Apelo, por isso, para êles,
mas não apelo em têrmos de súplica. Dirijo-me a êles em tom inti-
matório, porquanto todos sabem quão graves são as suas respon­
sabilidades no presente momento. A história da Inglaterra está
ainda para ser escrita e revelada. A história separará e definirá as
responsabilidades individuais e deixará que a culpa recaia sôbre
aquêles em quem deve realmente recair. Por isso, os honrados cava­
lheiros que ocupam lugares nesta Câmara, — leais, ardentes e fiéis
defensores do govêrno de Sua Majestade em tôdas as ocasiões, —
não têm o direito de supor que podem lançar as responsabilidades
apenas sôbre os ministros da Coroa. Muito do que se podia ter
feito estêve nas mãos dos representantes desta Câmara. Um movi­
mento dessas bancadas há três anos atrás, como teria modificado
a presente situação! Teríamos dado outro ritmo à nossa produção
de armamentos! Entretanto, êsse serviço não foi prestado. Desper­
diçamos três anos inteiros sem ter chegado a um resultado, — não
três anos de ignorância ou desconhecimento de causa, mas três
anos em que o poder de convicção dos fatos não deixou de saltar
aos nossos olhos, na mais insistente das advertências.
Quanto mais tempo desperdiçamos, mais grave se tomou o
nosso problema, e mais agudo, premente, brutal mesmo há de
se tornar, quer continuemos daqui por diante ainda a desperdiçar
tempo precioso, quer façamos um duplicado esfôrço para nos
erguermos à altura dos sérios acontecimentos do presente. Expo­
nho o caso da maneira mais chã que é possível. Se cinqüenta
membros do Partido Conservador vierem à sala para votar por essa
emendaC1) isso não afetará a vida do govêmo, mas obrigá-lo-á
a agir. Isso impulsionará um movimento para a frente, com grande
energia. Teremos um Ministério do Material Bélico e, além disso,
devemos contar com uma repercussão sem dúvida favorável, que
dará uma idéia de renovação de fôrça e de prestígio do nosso país
no exterior, de grande importância e valor para nós. Penso que é
(1) Os únicos conservadores que acompanharam o Sr. Churchill na votação foram
os Srs. Brendan Brackner, representante de North Paddington, e Capitão H. Macmillan,
representante de Stockton-on-Tees.

141
do meu dever salientar essas conseqüências em minhas observa­
ções, que são as de um homem disposto a partilhar com os hon­
rados membros desta Câmara os perigos que atualmente nos amea­
çam. Não se trata de uma questão de partido. Isto nada tem que
ver com partidos. É puramente uma medida que afeta a própria
segurança da nação, sob todos os aspectos.
Examinando a emenda apresentada pelo Partido Liberal,
pode-se fixar três pontos de alta importância, que devem ser postos
em relêvo. Primeiro: é o atual sistema um sistema aceitável? Se­
gundo: tem êsse sistema sido eficaz e continua a ser? Terceiro:
precisamos considerar os aperfeiçoamentos que podem ser intro­
duzidos nesse sistema. Examinemos a primeira questão: é o atual
sistema um sistema aceitável? Sem dúvida, grande parte do traba­
lho preliminar está feito. Largas somas foram ganhas e largas
somas serão ainda ganhas pelos contratantes. (Interrupção).
Encaro as largas somas ganhas pelos contratantes como um sinal
de progresso. Não estou querendo significar que os seus lucros
tenham sido exagerados. Largas somas têm sido ganhas pelos
contratantes, que agora emergem da fabricação de tijolos e ferra­
gens para o campo das indústrias bélicas, ajustamento em que,
necessàriamente, gastaram uma parte do primeiro ano destinado
à expansão dessas atividades. Volumosas e importantes entregas
de material começam agora e continuarão a ser feitas daqui por
diante. Não contesto isso. Ao contrário, rejubilo-me por ver que
tal coisa acontece. Podeis verificar, pois, que não quero apresentar
essa iniciativa à Câmara baseado em falsas premissas. Minha con­
vicção, falando de um modo geral, é que os programas anteriores
eram baseados em apenas um têrço das necessidades reais, além
de terem sido desenvolvidos com uma série de imprevisões que
não se teriam verificado, se uma visão segura tivesse orientado
êsses planos. Além disso, os fornecimentos constantes dêsses pro­
gramas, quer o original, quer o suplementar, estão em muitos casos
com doze meses de atraso, no mínimo, sôbre os prazos razoavel­
mente estabelecidos. Até que sejam tomadas novas providências,
essas tendências maléficas continuarão, êsse lamentável atraso per­
sistirá, e as confusões perdurarão, multiplicadas, à proporção que
a escala dos negócios aumenta, a menos que novos esforços sejam
feitos para elevar todo êsse sistema a bases mais elevadas e mais
eficientes de organização e produção. É isso, de modo geral, o
que estou propondo a esta Câmara. O primeiro-ministro disse-nos

142
outro dia, — e meu honrado amigo, o ministro da Coordenação
da Defesa, voltou a ferir o mesmo ponto em seu minucioso e per-
suasivo discurso desta tarde, — que estamos empenhados em de­
senvolver um plano qüinqüenal de rearmamento, que por enquanto
se encontra ainda no terceiro ano. Já é alguma coisa, mas isso não
significa que a resposta possa ser considerada completa e defini­
tiva. Que relação tem êsse plano qüinqüenal com os fatos presen­
tes? Pensará por ventura o govêrno que as outras nações não têm,
também, os seus planos de expansão bélica? Elas sabem que esta­
mos no terceiro ano de um plano qüinqüenal, mas sabem também
que os alemães estão no terceiro ano de um plano quadrienal.
Qual é a conexão que têm êsses planos com as nossas atuais
necessidades? Não nos oferecem garantias de segurança ou de
suficiência. Não devemos contar com o que está ainda em pro­
jeto, misturando o que agora temos com o que viremos a ter em
dado momento. Não devemos comparar o que temos com o que
outros países têm e o que possamos vir a necessitar. A única coisa
que deve ser levada em consideração é a nossa capacidade para,
mês após mês, enfrentar os perigos a que estamos expostos. Tudo
está em atraso, com atraso de vários meses. Conseqüentemente,
tôda a situação para a qual foi preparado o plano original, mesmo
admitindo-se que êsse plano tivesse sido concebido na medida
exata das necessidades, se acha agora inteiramente mudada. A
realidade presente é outra. Mais do que nunca é necessário que
seja, sem demora, estabelecida uma autoridade suprema e única
para o controle de tôda a espécie de material bélico e sôbre a inter­
ferência do fornecimento de munições com o comércio vital da
nação.
Expliquei minuciosamente a esta Câmara, em maio, o meca­
nismo existente, tal como nos foi aqui revelado pelo ministro da
Coordenação da Defesa e, particularmente, por Lord Zetland em
outro lugar. Trata-se de um plano, um processo, um mecanismo
tímido e vacilantemente elaborado.
Talvez deva explicar, em resposta a uma observação que
me fizeram algum tempo atrás, a diferença entre os conselhos
consultivos atuais e os conselhos existentes no Ministério das Mu­
nições que criamos durante a Grande Guerra, já quase ao fim da
mesma. O Conselho das Munições superintendia cêrca de setenta
ramos de fornecimento de munições, divididos em dez ou doze
grupos, cada um dos quais representado por um conselheiro. Con-

143
seqiientemente, era possível resolver-se expeditamente qualquer
problema de produção e qualquer reclamação, constituindo-se um
grupo de quatro ou cinco dêsses principais departamentos num
comitê, para produção em conjunto. Não havia indivíduos nos
exercícios de meras funções consultivas ou deliberativas. Eram
todos homens que tinham sob o seu contrôle ramos particulares
do fornecimento de material bélico e que, portanto, juntando seus
esforços uns aos outros, podiam em uma semana ou menos produ­
zir um plano digno de ser submetido à aprovação do Conselho e
das autoridades políticas, porquanto fôra preparado por homens
que conheciam a fundo os seus departamentos e a capacidade de
cada um, que tinham prática efetiva e concreta do assunto. É sim­
plesmente negativo criar conselhos consultivos e deliberativos que
transferem os problemas uns aos outros, em vez de colocar-se as
funções executivas na sua própria esfera, com plenos podêres para
executar os planos que se fizerem necessários.
Penso que nunca tivemos um plano completo, na escala neces­
sária para enfrentarmos os programas estrangeiros. Tivemos mui­
tas medidas parciais e muitas providências tardias, ao mesmo
tempo que várias causas se conjuraram para prejudicar os nossos
esforços. Sempre tive dó do meu honrado amigo, o ministro da
Coordenação da Defesa. Com espírito público, embora com consi­
derável sacrifício pessoal, aceitou êle há quase três anos um pôsto
para o qual seus altos dotes e tirocínio médico não o haviam, de
modo algum, preparado. E, como esta Câmara parece compreen­
der presentemente, conquanto não tenha conseguido sacudir o seu
Ministério da inércia em que jaz, não tem êle grande culpa disso,
pois o seu departamento se acha enquadrado em tão curiosas cir­
cunstâncias que não lhe deu a menor oportunidade de poder desem­
penhar-se cabalmente de sua missão, dificultada pelas rivalidades
e interêsses interdepartamentais.
Reconheço quão esforçadamente meu muito honrado amigo
tentou desempenhar sua missão dentro dos estreitos limites a que,
imprudentemente, se subordinou, e não tenho dúvida quanto à
sua tradição de operosidade, que há longo tempo conheço. Referiu-
nos êle esta tarde algumas das coisas que tem feito e não duvido
que tenha ainda muito a nos dizer. Não há dúvida de que desem­
penhou um papel preponderante dando impulso a êsse grande
plano de produção. Mas, continuo a perguntar: por que um Minis­
tério tão irracionalmente concebido foi aprovado pelo govêmo e

144
por que esta Câmara o tolera? Nunca poderia essa singular inven­
ção nos proporcionar fluente, rápido e abundante suprimento de
material bélico. Nunca poderia definir com clareza e exatidão as
nossas necessidades estratégicas. A junção de esferas e funções
opostas foi suficiente para viciar essa iniciativa da administração
desde o nascedouro. Tal sistema, em face disso, estava destinado
a produzir resultados menos que satisfatórios. Prima facie, podería­
mos ter esperado um fracasso. Qual foi o resultado? Asseguro-vos
que são maiores as deficiências atuais do que em qualquer outra
época, desde que êste Parlamento é Parlamento. Não se pode pre­
tender que êsse sistema tenha sido bem sucedido. Uma prova disso
pode ser encontrada na substituição referida por meu distinto
amigo, comandante-de-asa James, representante de Wellinborough,
da palavra “paridade” por “suficiência”. Ora, “paridade” era a
aspiração do próprio govêmo. A primeira linha do nosso programa
de defesa era representada por essa pretenção, a “paridade” da
nossa aviação com a aviação germânica. Isso não foi coisa inven­
tada pela oposição. Foi enunciado pelo ministro do Ar, veemente e
repetidamente, como sendo a mais satisfatória das nossas linhas de
defesa. Mas, tal “paridade” foi abandonada. Por que razão? Sei
que em conseqüência do atraso e do fracasso dos suprimentos de
material. Essa é a razão pela qual essa legítima e necessária aspi­
ração foi posta à margem.
Agora, temos a palavra “suficiência”. Que significa “sufi­
ciência”? Suficiência não exprime um grau determinado de coisa
alguma. Isso foi inventado apenas porque os ministros de Sua
Majestade, dando um balanço ao que já temos, resolveram dizer
que isso é suficiente. Se me perguntassem: “tendes confiança no
govêrno de Sua Majestade?” — eu responderia: “Sim, tenho e
não tenho”. Tenho grande confiança em que os meus muito honra­
dos amigos administrem lealmente e com boa intenção a Consti­
tuição dêste país, que guardem honradamente as suas finanças, que
esmaguem a corrupção onde quer que ela seja encontrada, que
preservem a paz e a ordem pública, que preservem a imparciali­
dade das nossas çôrtes de justiça e mantenham os velhos princípios
conservadores... (Risos). Em todos êsses assuntos tenho uma
sincera e inabalável confiança nêles. Mas se me perguntarem se
tenho confiança na execução dos seus programas de defesa, ou
mesmo nas suas declarações sôbre o pé de desenvolvimento em que

145
se encontram êsses programas, — pedirei a esta Câmara que não
me constranja a fa la r... (Risos renovados).
Estou fazendo crítica mais ou menos cáustica a alguns aspec­
tos da nossa defesa, mas aproveito esta oportunidade para dizer
que, na minha opinião, a nossa Marinha Real não somente é mais
forte do que as circunstâncias exigiriam, mas também mais do
que o foi em qualquer outra época anterior, como igualmente a
Real Fôrça Aérea reune um dos mais finos e magníficos corpos de
homens e conhecimentos científicos existentes em todo o campo
do progresso militar moderno. Nenhuma crítica pode dar a idéia
de que não possuímos grandes e poderosas fôrças aéreas em nosso
país, e nada do que eu disse pode constituir detrimento para elas.
Mas, se me fôsse dada uma oportunidade, em sessão secreta, eu
estaria aparelhado para revelar-vos um largo número de assuntos,
de questões de detalhes, — e detalhes importantes — que mos­
trariam existirem, além dos defeitos de ordem material, também
defeitos de organização. Não pretendo, porém, tratar publicamente
dêsses assuntos, concernentes à Fôrça Aérea, por motivos que já
expusemos ao ministro da Coordenação da Defesa e que ocorrerão
a qualquer um, dentre nós. Gostaria muito de ver êsses assuntos
discutidos numa sessão secreta, não para que as discussões se
revestissem de um sigilo absoluto, mas para que pudéssemos utili­
zar aqui, durante os debates, certas informações de caráter privado.
Quando falei da nossa defesa aérea, disse que vamos ter’
“suficiência” em vez de “paridade”, porque o sistema de produção
é ineficiente. Em que pé está a questão da defesa antiaérea? Faz
dois anos e meio que informei esta Câmara de que a Alemanha
havia formado trinta regimentos móveis de artilharia antiaérea de
doze baterias cada um, com um total de 1.200 a 1.300 canhões,
além de vários milhares de canhões fixos com o mesmo propósito,
preparados para a ação, — todos êles, sem dúvida, modernos, pois
os canhões antiaéreos fabricados na Alemanha nos últimos quatro
anos sobem a mais de sete mil. Qual é a nossa posição? Somos vul­
neráveis, de certo modo mais vulneráveis aos ataques aéreos do
que qualquer outro país, — uma vez sejamos alcançados. Qual o
estado da nossa artilharia antiaérea? Aqui, mais uma vez, não
posso descer a detalhes, mas o secretário de Estado da Guerra, em
seu costumeiro estilo, discorreu meses atrás sôbre a rápida pro­
dução de modernos canhões de 3,7, que, como todos sabem, são
superiores aos recondicionados canhões de 3 polegadas de vinte

146
anos atrás. O muito honrado cavalheiro, em certo momento, che­
gou a ir mesmo mais longe, quase desconhecendo a existência de
qualquer perigo, diante da saturação de c anhões que iríamos ter.
Mas, quantos são os que temos disponíveis neste grave momento?
Creio que, de modo algum, seriam necessários três anos para o
desenvolvimento dêsse programa de produção. Com energia e
decisão, pode-se iniciar a fabricação e começar a fazer a entrega
de canhões num período de dezoito a vinte meses. Asseguro-vos
que os alemães, sem dúvida mediante cuidadosas preparações pré­
vias, estão fabricando canhões em enorme escala, numa média de
6.000 a 7.000 por ano, desde há quatro anos e meio atrás. Quantos,
repito, são os que temos disponíveis neste grave momento, —
quantos os que já foram experimentados e julgados em boas con­
dições para o uso efetivo? Não vou responder a estas questões,
mas a Câmara dos Comuns não tem o direito de se satisfazer com
o silêncio ou as evasivas em tômo dêste assunto, como se dá agora
e se deu no passado, escondendo-se a verdade, ocultando-se os fatos
concernentes a êsse importante item da defesa, não só em Londres,
mas das fábricas de munições e dos portos de todo o país. Teria
outra Câmara dos Comuns, exceto esta, deixado de fazer pes­
quisas, de realizar um inquérito sôbre tão importantes assuntos?
Nos dias do século XVIII e do século XIX, o Parlamento teria
escolhido um certo número de seus membros de inteira confiança e
reconhecida discrição, incumbindo-os de examinar o assunto, —
e êles teriam comunicado aos seus colegas não apenas os fatos,
mas o que devia ainda ser feito, os esforços que julgassem mais
convenientes para reparar e corrigir as deficiências verificadas.
Por que não procedemos desta maneira? Não acredito que outra
Câmara, exceto esta, tivesse deixado de fazer isto, como também
não acredito que outro govêmo, exceto êste, tão poderoso politi­
camente e acima, portanto, de qualquer desafio, tivesse deixado de
conceber tal medida.
Agora, o secretário de Estado da Guerra, não direi incorri­
gível, mas impenitente, nos diz que o nôvo canhão Bren está sendo
produzido “ao máximo”. Que quer isso significar? Que é “ao má­
ximo”? Exprime isso alguma noção precisa de quantidade? A
razão humana não pode conceber frase mais vaga e enganosa.
Também disse que as nossas “necessidades”, em matéria de ca­
nhões de 3,7, estarão cobertas em junho, ou talvez antes. Mas, per­
gunto, quais são essas “necessidades”? O Boletim do Exército, —

147
publicação muito recente, — diz que as nossas instalações de uni­
dades de defesa antiaérea exigem não mais de seiscentos canhões
e que grande parte são de três polegadas. Por aí se pode ver, sob
certos limites, quais serão as “necessidades” que em junho estarão
satisfatòriamente atendidas.
Talvez isso esteja realmente realizado em junho, mas que
relação tem isso com as nossas necessidades? Que relação têm
essas cifras com o que está acontecendo fora daqui? E o canhão
de 4,5 polegadas? Temos lido quase diàriamente nos jornais como
está sendo desenvolvido um gigantesco plano de defesa do país
e como o nôvo canhão de 4,5 polegadas é a última maravilha do
mundo. Pode ser que sim. Mas onde está essa maravilha? Quando
teremos um milhar dêles? M ilhar é a única cifra em que se pode
pensar nos dias que correm. Quando falei ao ministro da Coorde­
nação da Defesa, na ocasião em que êle, há dois e meio anos atrás,
veio a esta casa, a palestra girou em tômo de milhares. Essa cifra
tem forçosamente de aumentar em proporção se pretendemos pos­
suir alguma coisa comparável com o que existe lá fora. Não estou
querendo altercar com o meu muito honrado amigo. Ao contrário,
tôdas as minhas observações são formuladas no mais amistoso sen­
tido, em tudo quanto lhe concerne.
Há um lamentável atraso com relação ao canhão de 4,5
polegadas. Um comitê desta Câmara, numa manhã, se dispensar
a êsse assunto a atenção que êle merece, poderá, usando a sua
autoridade parlamentar, descobrir a razão dêsse atraso. Por que,
então, a Câmara não usa essa autoridade? Afinal de contas, se um
desastre sobrevier, não serão esmagados apenas os ministros e
membros do Parlamento, mas a nossa longa e gloriosa história terá
um fim abrupto e melancólico. Com respeito à artilharia antiaérea
não há apenas escassez de material, mas o fracasso de não têrmos
podido organizar êsse material em tempo oportuno, o que é ainda
mais grave. O secretário de Estado confessou existirem canhões
sem quadrantes e aparelhos de cálculo, canhões sem munições ou
com munições inadequadas, montanhas de munições sem canhões
e pequenas peças que, se fôssem procuradas, seria fácil constatar-
lhes a sua absoluta inexistência. Muitas outras falhas poderiam ser
mencionadas, mas não desejamos juntar mais nada a essa longa
catalogação de erros e deficiências.
Tomemos como exemplo a surpreendente confissão de que
os modernos canhões disponíveis para a defesa de Londres teriam

148
tido o seu número duplicado, se não fôsse a falência de uma pe­
quena firma, encarregada da execução dessa parte essencial do
nosso programa de rearmamento. Peço ao primeiro-ministro que
atente na importância dessa confissão. Êle é um homem de negó­
cios de grande competência, como é notório. Não é chocante que
tal coisa tenha acontecido? Não quero invectivar o secretário de
Estado da Guerra, nem quero fazer carga contra êle, mas, se tivés­
semos um Ministério do Material Bélico, quero crer que as coisas
não teriam chegado ao pé em que chegaram, pois devia existir,
nesse Ministério, um departamento incumbido especialmente de
verificar o estado da produção nas diferentes firmas ligadas à vital
questão dos canhões de 3,7 polegadas.
Devemos ter, sem sombra de dúvida, um departamento de
fiscalização em qualquer Ministério do Material Bélico que venha
a ser criado, ou, melhor dito, um pequeno organismo que, quando
uma decisão fôr tomada, dois dias depois siga o curso do que está
sendo feito e indague: “Onde está o contrato?” “Que fêz para cum­
pri-lo?”. Se alguém responde: “Estamos sendo embaraçados por
isto ou aquilo”, a providência deve ser imediata: “Vamos estudar
a dificuldade e resolvê-la o mais depressa possível”. Uma semana
depois, êsse serviço comunicaria cada indecisão ou fracasso, de
acôrdo com o que o contrato tivesse estabelecido, em matéria de
urgência. Tal instituição, funcionando num Ministério Bélico, teria
descoberto que essa firma estava às portas da bancarrota e poderia
ter sido prontamente tomada uma providência, que transferisse o
contrato a outra firma e nos desse oportunidade para duplicar, no
prazo desejado, o número dos nossos canhões. Devemos pensar
nessas coisas e preveni-las a tempo.
Vou continuar a exposição de fatos que provarão que o
presente estado dos negócios não é satisfatório e deve ser emen­
dado. Tratarei agora do Exército. Posso falar com um pouco mais
de liberdade sôbre o Exército, porque, afinal de contas, temos a
Marinha, que se encontra, segundo acredito, em excelentes condi­
ções, conquanto ainda susceptível de aperfeiçoamento. O Exército
não é, para nós, um instrumento vital. A Inglaterra não será salva
ou aniquilada, em razão das boas ou más condições do nosso
Exército, embora devamos fazer todos os esforços para melhor
aparelhá-lo. Afirmarei que o equipamento do nosso Exército Regu­
lar é deplorável. Penso que é quase inacreditável que, depois de
três anos de rearmamento, ainda se encontre nas condições em

149
que o vemos. Não estou atacando o secretário de Estado de Guerra,
mas simplesmente apontando fatos. Tomemos como exemplo a
cavalaria mecanizada. A primeira divisão móvel, — a única divi­
são móvel, — devia ter setecentos tanques ligeiros e pesados.
Quantos já possui? Gostaria que o secretário de Estado da Guerra
nos afirmasse que já podemos contar com um décimo dessa quanti­
dade em perfeitas condições, com peças de artilharia montadas e
todos os pertences. Notai bem: todos êsses regimentos estão sendo
mecanizados há cêrca de três anos. Num sentido, apenas, foram
êles mecanizados. Vale dizer, os cavalos foram retirados do ser­
viço. Tais são suas condições, neste período de crise, que não
será exagêro dizer que estão pràticamente desarmados. Tomemos
também como exemplo os batalhões dos Guardas. O armamento
de um dêsses batalhões consta de 52 metralhadoras ligeiras e de
24 fuzis antitanques. Quantos exigem em uso? Não vou citar nú­
meros. Mas me contentaria bastante saber que temos, ao menos,
uma pequena fração dêsses armamentos.
Se essas tremendas condições prevalecem nas mais impor­
tantes e famosas unidades do Exército Regular, que é se pode
supor do estado em que se acham os regimentos de linha? Quais
podemos supor que sejam as condições das nossas fôrças territo­
riais? Há dois e meio anos atrás, quando o plano de expansão
béüca foi anunciado, tive oportunidade de dizer, — e não fui con­
traditado, — que o equipamento da nossa fôrça territorial com
modernos armamentos não teria início antes de 1940. Nada foi
feito para retificar essa situação. O recrutamento, para todos os
corpos do Exército, aumentou consideràvelmente. Enquanto os
perigos ameaçam o país, o espírito cívico da mocidade dá as mais
vibrantes provas de existência. As semanas de crise são as semanas
de mais intenso alistamento. Entretanto, chega a ser escandaloso
o que acontece. Enquanto êsses homens se apresentam, aos milha­
res, para o serviço das armas, enquanto o país está gastando suas
reservas financeiras, enquanto as vastas e versáteis indústrias britâ­
nicas esperam as ordens dos ministros, o nosso govêrno, o govêmo
nacional da Inglaterra, mostra-se incapaz de provê-los de arma­
mentos e de equipamento completo de guerra. A tarefa de abas­
tecer o exército inglês, de um modo geral, é coisa relativamente
fácil, atendendo-se à riqueza do país e à significação das suas indús­
trias. E ainda há quem, depois dêste fracasso de três anos, se anime
a nos dizer que não há necessidade de uma mudança de sistema,

150
que tudo está se processando de acôrdo com o plano prèviamente
estabelecido e que são necessários apenas pequenos reajustamentos
para que tudo prossiga na melhor ordem possível!
Encaro a questão do Ministério do Material Bélico e as solu­
ções gerais que isso possibilita como uma demonstração do ardor
e do interêsse do govêmo de Sua Majestade, no sentido de apare­
lhar o país na proporção igual à dos perigos que nos ameaçam.
Não desejamos que aquêles que possuem influência política na
Inglaterra venham nos dizer: “Na verdade, já ficamos para trás e
a tarefa de reparar os êrros e negligências do passado é tão grande
que melhor nos parece tomarmos uma atitude de acomodação, nos
melhores têrmos possíveis, aceitando uma posição de inferioridade
e de subordinação”. Se tais doutrinas fôssem expostas à luz do dia,
sofreriam, irrefragàvelmente, a mais severa reprovação, o mais
enérgico repúdio. Bato-me pela criação do Ministério do Material
Bélico no interêsse dos ministros incumbidos da Defesa Nacional.
E a êsses também me dirijo, neste instante.
O secretário de Estado do Ar, o secretário de Estado da
Guerra e o ministro da Coordenação da Defesa têm mais interêsse
na criação do Ministério do Material Bélico do que quaisquer
outros homens, em tôda a Inglaterra. O secretário de Estado da
Guerra é um ministro enérgico, ativo, dinâmico, que conseguiu
melhorar bastante a organização do Exército. Intensificou o recru­
tamento e melhorou a paga dos oficiais e soldados do Exército
Regular. Se quiserem levá-lo ao descrédito, só poderão encontrar
motivos no fracasso do fornecimento de material bélico e não por
que êle haja deixado de fazer as mais esforçadas diligências em
qualquer sentido. Não me surpreenderia se um dêstes dias êle apa­
recer em Cardiffe, depois de um rápido exame, proclamar que não
podemos atingir um alto grau de expansão nas indústrias estraté­
gicas sob o presente regime. Quanto ao meu honrado amigo, Sir
Kingsley Wood, secretário de Estado do Ar, já nos comunicou o
gigantesco programa por êle planejado. Mas, como poderá êle orga­
nizar a Real Fôrça Aérea e pensar em problemas estratégicos
quando, ao mesmo tempo, lhe assiste a responsabilidade de estar
em contato com centenas de firmas, fiscalizando-as e vendo se mi­
lhares de cláusulas estão sendo rigorosamente cumpridas? Adverti
Lord Swinton repetidamente, em público e em particular, a êsse
respeito e consegui, finalmente, convertê-lo ao meu ponto de vista.

151
Se êle tivesse tido a cooperação eficaz do necessário, do indispen­
sável Ministério do Material Bélico, seria hoje o respeitado chefe
da Real Fôrça Aérea, continuaria cercado de prestígio no seu pôsto
ministerial.
Direi ao meu nobre amigo Sir Kingsley Wood, a quem conhe­
ço há longo tempo e com quem sempre mantive as relações mais
cordiais, apenas isto: atente no destino que teve seu predecessor.
Melhor será, pois, que se desvencilhe de obrigações e responsabili­
dades que não poderá cumprir por si mesmo e que devem estar a
cargo de departamento mais adequado. Em tempo de paz, quando
a produção de munições é muito diminuta, o suficiente, apenas,
para os exércitos e para fazer com que os arsenais não fiquem intei­
ramente desprovidos, pode-se repousar no serviço normal de abas­
tecimento e Enfield e Woolwich podem partilhar o fornecimento do
Exército. Mas, quando atingimos uma situação excepcional, com
um orçamento de centenas de milhões de libras, anualmente, e tôda
a indústria do país tem de ser mobilizada, outra orientação se
impõe, sem dúvida alguma. Deixar que essa tarefa fique subor­
dinada à organização deficiente sob a qual se encontra é nocivo
aos interêsses do país, aos interêsses da administração e aos inte­
rêsses dos próprios ministros.
Examinemos êsse assunto sob um outro ângulo, sob o ponto
de vista do público. Presentemente, os ministros a quem incumbe
a Defesa Nacional se apresentam como apologistas do sistema con­
denado. Meu honrado amigo, o ministro do Ar, ainda não estêve
no cargo o tempo suficiente para ficar com a consciência pesada
de culpas, devo ressaltar. É certo que todos procuram desempe­
nhar o melhor possível as suas tarefas, mas, quando ocorre um
fracasso, em matéria de suprimento de material bélico, não têm
grande pressa em comunicar êsse fiasco ao público ou a esta Câ­
mara, procurando atenuá-lo o mais que podem. Tomando os mi­
nistros do Ar e da Guerra responsáveis pelo seu próprio supri­
mento de material bélico e o embaraçado ministro da Coordena­
ção da Defesa responsável igualmente, porque lhe compete ajudar
os dois primeiros a aparelhar suas fôrças, não se faz senão uma
compressão desnecessária e improdutiva contra êsses três membros
do govêrno, que nada de particular podem fazer para apressar o
fornecimento dos apetrechos de guerra e das munições. Se, po­

152
rém, houvesse um Ministério do Material Bélico, o ministro que
detivesse essa pasta passaria a ser o bode expiatório. Tôdas as
censuras seriam dirigidas contra êle. Êsse ministro, entretanto, po­
deria dirigir-se ao gabinete e dizer: “O caso é que não tive apoio
financeiro para isso ou aquilo. Era muito tarde para começar.
Não me deram orçamento à altura das circunstâncias. Não tive
fundos para isto. Não tive podêres para aquilo. Tive tais e tais di­
ficuldades com os sindicatos operários”. Ou outro qualquer caso
ou problema que ocorresse. A atividade, a pressa, o ritmo febril
do trabalho seria intensificado e estimulado por uma razoável dis­
tribuição de funções. Teríamos em ação uma nova fonte de ener­
gia, energia da qual, aliás, tanto necessitamos. Ainda há pouco,
o ministro da Coordenação da Defesa combatia a criação de um
Ministério do Material Bélico porque, como explicou, seria de
importância conservar relações harmônicas entre as considerações
de ordem estratégica e o aprovisionamento de armas e munições.
Mas não seria bem melhor efetivar essa harmonia, não apenas com
respeito aos três órgãos incumbidos da Defesa Nacional, mas tam­
bém no que interessa às emprêsas industriais que têm contratos
a cumprir? O ministro da Coordenação da Defesa sentar-se-ia, no
tôpo de uma organização natural e simétrica, em lugar de ser ora
um coordenador, ora um produtor de material. Assim, a harmo­
nia seria completa. Assim, haveria probabilidades de êxito e pode­
ríamos cuidar melhor da nossa segurança...
Essa parte do argumento do govêmo não parece muito lógica.
O ministro da Coordenação da Defesa diz que não podemos ter
um Ministério do Material Bélico porque isso seria separar a estra­
tégia do aprovisionamento de armas e munições. Outros ministros
dizem que isso estancaria a iniciativa privada, os esforços de ordem
individual. Tais argumentos, porém, são falaciosos. Em tempo de
guerra, por que se há de divorciar a estratégia do aprovisionamento
de material bélico? Êsse aprovisionamento é que ditará a estratégia
da maioria das guerras que serão travadas no futuro. Têm-nos
dito, com a autoridade emanada do exercício do poder, que um
Ministério do Material Bélico envolve uma subversão dos negó­
cios normais do país e afetará até mesmo o importante comércio
de exportação, de que depende a nossa fortaleza financeira. La­
mento muitas vêzes ouvir os oradores do govêmo procurando ani­

153
quilar o projeto da criação dêsse Ministério, — sabemos muito
bem com que parcialidade a questão tem sido examinada, — e
lançando contra êle o Partido Trabalhista e as organizações pro­
letárias. Chegaram a exagerar as conseqüências do serviço militar
obrigatório. Apelaram para tôdas as formas de particularismo que,
se não tivessem sido varridas e inutilizadas pelos mais nobres ges­
tos de patriótica repulsa, teriam até mesmo prejudicado a Defesa
Nacional. Quem afirmou, porém, que um Ministério do Material
Bélico, em tempo de paz, implicaria o recrutamento dos trabalha­
dores? Qual foi o advogado dêsse Ministério que disse, para usar
das palavras do meu honrado amigo, que isso envolvia uma com­
pleta substituição de todo o comércio e de tôda a produção normal
pelo fabrico de armamentos de guerra? Quem sugeriu qualquer
medida dêsse caráter? Falar dêsse modo revela, na pior das hipó­
teses, riqueza de imaginação. . .
Aventuro-me a definir com mais precisão o escopo da me­
dida que deve ser introduzida, o mais depressa possível. Essa me­
dida deve compreender duas etapas. A segunda etapa, compreen­
dendo medidas de alcance mais vasto, só se tomaria efetiva em
caso de guerra e mediante aprovação da Câmara dos Comuns.
Poderia compreender mesmo o serviço de guerra de caráter geral,
no momento em que estivéssemos lutando pela nossa existência.
Na execução dessa segunda parte, devemos adotar o princípio que
os Estados Unidos deliberaram adotar, depois de estudado longa­
mente o assunto: eliminar o lucro em época de guerra. Temos
ouvido falar várias vêzes de conscrição das riquezas, de recruta­
mento de capitais. Prefiro, porém, a isso, o salutar princípio da
eliminação do lucro em tempo de guerra. Se, por infelicidade, che­
garmos a nos envolver numa guerra, convém têrmos preparado o
caminho, antecipadamente, através de cuidadosa e bem elaborada
legislação, para suprimir qualquer possibilidade de exploração ga­
nanciosa, de lucros de qualquer espécie por parte dos industriais,
o que não é justo, enquanto outros morrem, abnegadamente, nos
campos de batalha, pela sua pátria. Tudo isso, que aí fica exposto,
pertencerá à segunda parte da lei. Longe de conservar êsses deta­
lhes em segrêdo, devemos comunicá-los a todos, certos de que
mereceremos inteiro apoio da opinião pública. Proclamemos o
nosso propósito de suprimir lucros de guerra. Os Estados Unidos

154
publicaram com todos os detalhes a sua organização de guerra.
Nada pode resultar disso, senão grandes vantagens morais.
A primeira parte da lei, que desejamos ver aprovada, estabe­
lece aprovisionamento de caráter compulsório para dar ao minis­
tro do Material Bélico podêres sôbre todos os materiais, de qual­
quer espécie, necessários à defesa do país, e autoridade para dis­
tribuí-los, não só nos diversos departamentos governamentais, mas
através de todo o comércio inglês. Teremos podêres para dirigir
firmas de tôda e qualquer categoria, para transformar sua produ­
ção industrial, qualquer que ela seja, em fabrico de material de
guerra, total ou parcialmente, como melhor parecer. Será fácil,
ainda, com a ajuda de um conselho de líderes das indústrias, cada
um dos quais dirija uma diferente esfera da produção nacional,
corrigir as deficiências atuais do sistema de aprovisionamento de
munições, fazendo com que o trabalho prossiga, dia após dia, sem
a menor interrupção.
Na prática, êsses podêres compulsórios não envolvem nenhu­
ma violência aos direitos tradicionais. O primeiro-ministro outro
dia, procurou demonstrar os nocivos efeitos de tais podêres sôbre
firmas individuais, dizendo que uma poderia ser considerada neces­
sária e outra não. Mas não é dêsse modo que se deve conduzir o
assunto. O ministro do Material Bélico terá autoridade para dizer
aos líderes da indústria: “Reclamo metade, um têrço, ou o quer
que seja, da vossa capacidade total, aplicada à fabricação de me­
tralhadoras ou de tanques ligeiros, ou o quer que seja mais fácil
de fabricar. Ide e estabelecei um plano entre vós mesmos. Consi­
derai cuidadosamente o que é justo e razoável. Considerai cuida­
dosamente os interêsses do comércio exportador, ao qual atribuí­
mos grande importância, e voltai dentro de uma quinzena com o
vosso plano”. Parece-me que êsse é um meio perfeitamente razoá­
vel de encaminhar o assunto. Há muitos ramos importantes das
grandes indústrias dos quais poderíamos nos aproximar de maneira
idêntica. Desejaria que o ministro tivesse a necessária autorização
legislativa para fazer essas requisições, que seriam atendidas com
orgulho cívico pela indústria e pelo comércio. Ao mesmo tempo,
devia o Parlamento investi-lo de autoridade para resolver as difi­
culdades que porventura possam surgir. Se houvesse alguma má
vontade, falta de espírito de cooperação ou censurável atraso, po­

155
deria com sua autoridade dizer o ministro do Material Bélico:
“Não tendes capacidade para fazer planos, nem para desenvolvê-
los. Sou forçado a intervir, a tentar por mim mesmo”. Não seria
isso um passo prático e perfeitamente razoável? Uma vez que o
grande capitalismo demonstrasse um espírito de leal e esforçada
colaboração, conformando-se às necessidades nacionais, não creio
que o trabalho organizado, através das grandes associações ope­
rárias, não estivesse também ao nosso lado, convencido da justiça
da causa pela qual nos batemos, da nobreza da nossa conduta po­
lítica, dando-nos por isso a mais ampla das contribuições ao seu
alcance.
Há ainda um ponto a examinar, entre as questões suscitadas
pelo discurso há dias proferido pelo primeiro-ministro. Lamento
muito a reflexão por êle feita a propósito dos preparativos de
guerra de 1914. Creio que foi bastante desprimorosa essa alusão.
Houve, sem dúvida, enganos. Haverá sempre enganos. Contudo,
a Marinha mobilizou 537 navios, dos 542 que então possuía. Os
navios em alto mar estavam em condições de guerra antes de
haver sido feita a declaração. Nesse momento, assumimos o do­
mínio dos mares. Durante dezoito meses, o aumento de apenas
1% sôbre os seguros de riscos marítimos bastou para cobrir as
perdas que tivemos em luta com o segundo poder naval do mundo.
Tal domínio dos mares nunca teve paralelo na história do nosso
país depois da batalha de Trafalgar. Quanto ao Exército, quatro
semanas depois da declaração de guerra, seis divisões lutavam nos
campos da França e, para ufania nacional, tomaram parte decisiva
na batalha do Mame. Tanto a mobilização como o transporte
dessas fôrças se fêz sem tropeços, com perfeita ordem e pontua­
lidade. Essa notável performance foi resultado dos esforços de
homens capazes, como o grande ministro da Guerra, Lord Hal-
dane, e como o grande chefe do Estado Maior, Sir Henry Wilson.
Antes do Natal de 1914, — deixemos que o secretário de Estado
reavive a memória a êsse respeito, — quatorze divisões britânicas
combatiam em solo francês e o orçamento do Exército era metade
do atual. Espero que o meu honrado amigo não continue a malsi-
nar os feitos do nosso passado, mesmo se dando, como se dá, o
fato de têrmos vivido o bastante para ver malbaratados os êxitos
que então conseguimos.

156
Tenho dito, e agradeço a esta Câmara, por me haver ouvido
tão pacientemente. Agradeço especialmente aos ilustres represen­
tantes que não apreciam aquilo que eu disse. Em tempo: ajunta-
rei ainda uma palavra ao meu discurso. Êsse projeto não é um pro­
jeto de caráter meramente administrativo. O voto que vamos dar
é, sob certos aspectos, um voto simbólico. A questão que vamos
decidir, por êsse voto, é nada mais nada menos que o seguinte:
faremos mais um supremo esfôrço para manter a nossa posição
como grande potência ou adotaremos posição comodista, fácil,
menos estrênua, menos fatigante, com tôdas as imensas renúncias
que tal decisão implica? É êste o momento em que, ao ouvir as
profundas e repetidas vibrações do sinal de alarma, devemos nos
preparar para a ação e não para dobrar os joelhos, humilhados,
desmentindo a nossa raça e a nossa fama.

157
OS FRUTOS DE MUNIQUE
D is c u r so W altham A
p r o f e r id o e m b b ey .
14 DE MARÇO DE 1939

Novembro, 17. Tratado de Comércio Anglo-Americano.


Novembro, 21. A Tchecoslováquia cede à Alemanha um cor­
redor através do território tcheco, a fim de se
tornar possível a construção de uma estrada li­
gando Viena a Breslau.
Novembro, 23. O Sr. Chamberlain e Lord Halifax visitam Paris.
Dezembro, 6. Assinatura de um acôrdo entre a França e a Ale­
manha, com o intuito de evitar o emprêgo da
fôrça em pendências entre os dois países, — se­
melhante ao pacto obtido pelo Sr. Chamberlain
em Munique.
Dezembro, 21. Sir John Anderson, Lord do Sêlo Privado, apre­
senta seu plano para a construção de abrigos
antiaéreos.
1939.
Janeiro, 11. O Sr. Chamberlain e Lord Halifax visitam Roma,
sem resultados tangíveis.
Janeiro, 21. Herr Hitler despede o Dr. Schacht e nomeia
Funk diretor do Reichsbank.
Janeiro, 22. A Alemanha decreta que todos os homens de
mais de 17 anos que ainda não estejam alistados
em um dos corpos regulares devem receber ins­
trução militar nas tropas de assalto.

159
Janeiro, 24. Distribuição a todos os lares do livro publicado
pelo govêrno sôbre as medidas a adotar em caso
de ataque aéreo e discriminação das ocupações
reservadas.
Janeiro, 25. O general Franco toma Barcelona. Colapso do
exército catalão.
Janeiro, 29. Sir Thomas Inskip ocupa o pôsto de secretário
de Estado dos Domínios, e seu antigo pôsto, de
ministro da Coordenação da Defesa, é ocupado
por Lord Chatfield, almirante da Esquadra.
Fevereiro, 6. O primeiro-ministro confirma as declarações fei­
tas pelo Sr. George Bonnet dez dias antes, na
Câmara dos Deputados da França: se a França
ou a Inglaterra fôsse atacada, a outra nação po­
ria todos os seus recursos à disposição do país
ameaçado.
Fevereiro, 15, O chanceler do Tesouro anuncia que o limite
do crédito para a defesa nacional foi elevado de
quatrocentos para oitocentos milhões de libras.
Fevereiro, 28. O Sr. Chamberlain anuncia que a Grã-Bretanha
reconhecerá o govêrno do general Franco na Es­
panha.
Março, l 9. O presidente do Reichsbank dá garantia às ex­
portações comerciais alemãs. Os Estados Unidos
imediatamente elevam os direitos sôbre as mer­
cadorias alemãs de 25%.
Março, 10. O Sr. Chamberlain declara que o panorama in­
ternacional entrou em fase de tranqüilidade.
Março, 13. O Dr. Hacha, sucessor de Edouard Benès como
presidente da Tchecoslováquia, é intimado por
Herr Hitler a comparecer a Berlim. O padre Tiso
declara a Eslováquia um Estado independente,
colocando-a sob a proteção germânica.

V árias queixas foram levantadas contra conceitos do meu


discurso sôbre o pacto de Munique, no qual declarei que a Ingla­
terra e a França haviam sofrido, com êsse acôrdo, um desastre

160
de primeira grandeza, um insucesso de real magnitude. Então, não
foi isso mesmo? Por que estamos agora fazendo todos êstes pre­
parativos? Por que o serviço militar na França teve o seu prazo-
limite prorrogado e por que prometemos mandar dezenove das
nossas divisões para o continente? Porque, — eis a resposta, —
a destruição da Tchecoslováquia alterou totalmente o equilíbrio
da Europa.
O poderoso e cada vez maior exército germânico está livre,
agora, para voltar-se numa única direção. E essa direção nós sa­
bemos muito bem qual será. Tôda a estrutura da cooperação inter­
nacional destinada a proteger os pequenos países contra violên­
cias e ilegalidades já desapareceu, foi destruída e posta à margem.
Apontei isso e salientei que o pacto de Munique selara a ruína
da Tchecoslováquia. Estais lembrados, sem dúvida, das lendas
que vos foram contadas. Dizia-se que os tchecoslovacos teriam
uma vida melhor, livres dos embaraços representados pela rebel­
dia dos sudetos germânicos que entre êles viviam. Demais, além
de terem a própria Alemanha como garantia da sua fronteira rede-
marcada, teriam também a França e a Inglaterra. Exprimi o ponto
de vista de que essas garantias só tinham o valor do pedaço de pa­
pel em que se achavam escritas. Na verdade, que sucedeu? A Repú­
blica da Tchecoslováquia foi despedaçada sob as nossas vistas.
Seu ouro foi saqueado pelos nazistas. O sistema nazista está fa­
zendo perecer tôdas as formas de liberdade interna. O seu exér­
cito foi reduzido a proporções mínimas ou incorporado à máqui­
na germânica. Por fim, os tchecoslovacos perderam todos os sím­
bolos que caracterizam um Estado independente.
Eu disse que, uma vez que os tchecoslovacos haviam cedido
sua linha fortificada, um pretexto seria encontrado para arrancar
dêles tudo o mais que possuíssem. Vimos serem utilizados os mes­
mos métodos postos em uso em setembro. Foram fomentados dis­
túrbios na Eslováquia, por instigação do Partido Nazista Germâ­
nico. A imprensa germânica começou então a atacar os tchecos
e a acusá-los de violentas agressões contra os alemães. O que fize­
ram a seguir foi reduzir o exército tcheco e colocar no poder os
ministros que entenderam, escolhidos segundo as conveniências de
Berlim. Começaram então os tchecos a ser completamente absor­
vidos e, a menos que a sombra do nazismo seja banida da Europa,

161
— como eventualmente estou certo de que será, — a Tchecoslo-
váquia e a antiga Boêmia não recobrarão novamente a liberdade.
Por que não dizermos tôdas estas coisas? São a expressão da
verdade. Era do meu dever dizê-las. Poderá alguém contestá-las?
Li nos jornais de hoje que não estamos envolvidos nesta nova
crise da Tchecoslováquia. Parece-me quase certo que não iremos
intervir. E já é muito tarde para qualquer intervenção. Os tchecos
entregaram aos alemães suas linhas fortificadas. Seus canhões estão
sendo transportados para o front ocidental. O país está pràtica-
mente sem defesa. As ferrovias estão interrompidas. Em vez de po­
derem resistir a trinta divisões germânicas por longo tempo, os
tchecos já não têm o menor poder de resistência, o que é para
deplorar. Não adianta dar-lhes ajuda, se êles não estão em situação
de poder reagir, se estão indefesos. Não se justificaria que désse­
mos agora essa ajuda, se a recusamos quando êles eram fortes.
Por isso mesmo, concordo com aquêles que julgam que não deve­
mos intervir. Não podemos fazê-lo. É o fim dêste episódio.
Mas, daí a supormos que não estamos envolvidos no que está
acontecendo, é uma profunda ilusão. Conquanto nada possamos
fazer para deter o curso dêsses acontecimentos, dêles participamos
e seremos, em larga escala, atingidos pelas suas conseqüências.
Devemos fazer tôda a espécie de sacrifícios em prol da nossa
própria defesa, sacrifícios que não seriam necessários se tivés­
semos tomado uma firme resolução no momento em que começa­
ram a aparecer as primeiras nuvens turvas no horizonte. Teremos
de fazer sacrifícios não só de dinheiro, mas também de caráter
pessoal, a fim de podermos recuperar aquilo que já perdemos. Isso
é uma verdade ainda mais aplicável à França do que a nós mesmos.
Muitos, durante a crise de setembro, julgaram estar se de­
sinteressando apenas dos destinos da Tchecoslováquia, mas, na
verdade, estavam também se desinteressando do destino da Ingla­
terra e da paz e da justiça. Agora, defendendo minhas palavras,
que naquela ocasião foram tão atacadas, devo dizer que nunca
fiz previsão mais verdadeira. Pràticamente, tudo quanto eu disse
já o tempo se encarregou de provar que era verdade. E onde estão
os que dizem que, mesmo que fôsse verdade, tais coisas não deviam
ser ditas? A êstes, pergunto: por que mistificar o povo? Para que
a existência de um Parlamento, se as verdades não podem ou não

162
devem ser ditas ao povo? Qual a utilidade de eleger-se para a
Câmara dos Comuns membros que dizem apenas trivialidades e
apenas se esforçam por agradar ao govêmo, enchendo de louva-
minhas e elogios todos os ministros, estadeando pose nas tribunas
sem dar importância às críticas que provocam? O povo fala sôbre
o nosso Parlamento e a democracia parlamentar. Mas se êsse sis­
tema tem de sobreviver, não será porque os regimentos parlamen­
tares tomam os representantes do povo submissos, dóceis, subser­
vientes, e procuram impedir a manifestação de qualquer forma
de opinião independente.

163
FORTALECIMENTO DO PODER NAVAL
D is c u r so p r o f e r id o n a C âmara dos C omuns n a d iscu ssã o
do O rçam ento da M a r in h a .
16 DE MARÇO DE 1939

Março, 15. Herr Hitler estende oficialmente a sua proteção


aos povos tchecos. Extingue-se a República da
Tchecoslováquia. Tropas alemãs entram em
Praga.
Março, 16. Do Hradschin, em Praga, Herr Hitler faz pro­
clamações anexando a Boêmia e a Morávia. O
Sr. Geoffrey Shakespeare, secretário do Almi­
rantado, apresenta ao Parlamento o orçamento
da Marinha.

F oi uma grande oportunidade para o secretário das Fi­


nanças, tanto no ano passado como no presente, ter que fazer
uma exposição geral em nome do Almirantado, ao apresentar o
Orçamento à Câmara. Creio que todos estão convencidos de que
êle se agarrou àvidamente a esta oportunidade e tirou dela o me­
lhor partido possível. Com prazer a êle me associo no tributo que
prestou ao almirante Sir Reginald Henderson. Todos os que co­
nhecem êste oficial (conheci-o quando, no pôsto de tenente de

165
artilharia, dirigia os exercícios de tiro nos navios que estávamos
construindo antes da guerra) apreciam as raras e notáveis quali­
dades que êle trouxe para o serviço da Marinha Real. Aqui gastou
êle as fôrças, a vida, o pensamento, a energia mental — atributo
raro hoje em dia — da maneira mais generosa e, se foi abatido
por uma enfermidade que todos esperamos seja temporária, está
exatamente na mesma situação em que um bravo oficial ferido
em combate por seu país. É sabido que, no período mais crítico
da Grande Guerra, êsse oficial, então numa posição subalterna,
pôs em risco sua carreira para apresentar certos dados, números
e argumentos que, chegando eventualmente ao conhecimento da
autoridade suprema — o primeiro-ministro — serviram para fazer
uma grande alteração na nossa organização naval, sem a qual é
bem provável não tivéssemos podido repelir a ameaça dos sub­
marinos (1). É claro que eu não poderei comentar senão alguns dos
muitos pontos da exposição que acabamos de ouvir — exposição
de extrema importância e que foi maduramente estudada. O pri­
meiro ponto é aparentemente insignificante, mas, como estou tra­
tando com o secretário financeiro do Almirantado, direi que é de
relevância particular para êste Gabinete. Êste ano, a despesa da
Marinha aumentou de vinte e três milhões de libras; contudo, o
Orçamento é apresentado de uma forma que revela, da maneira
mais decisiva, uma redução líquida de vinte e seis milhões. É isto
devido, segundo notas explicativas, ao fato de provirem oitenta e
quatro milhões das verbas de empréstimos e pensões de 1939, em
vez dos trinta e quatro milhões provenientes da mesma fonte em
1938. Dificilmente poderia fazer-se uma exposição financeira de
forma mais enganosa e, direi mesmo, mais tôla. Afinal de contas,
o fato de fornecermos cento e cinqüenta e três milhões para o
serviço da Marinha é um fator que poderá representar um papel
importante na manutenção da estabilidade neste ano crítico. Por­
que, pois, apresentá-lo da pior maneira possível? Acontece que
muitas pessoas, algumas das quais deveriam ser melhor informa­
das, se iludiram com a forma pela qual êstes números lhes foram
apresentados e pela declaração de que havia uma redução líquida
de vinte e seis milhões na despesa da Marinha.
A mesma falsidade se nos apresenta quanto ao número de
homem. Também aqui temos uma diminuição de 13.500 no núme-

U) o sistema de comboios.

166
ro de homens de primeira categoria. Mas é, realmente, assim?
Deverá haver êste ano uma diminuição de 13.500 homens na
Marinha? Eu diria que a Marinha estava tendo anualmente um au­
mento de 6.000 a 7.000 oficiais e marinheiros. Esta, segundo
creio, é a realidade, mas, devido a não sei que complicada con­
venção quanto ao modo de calcular a proporção do pessoal de
primeira categoria relativamente ao ano financeiro, dizemos ao
mundo, em face do nosso Orçamento, que estamos reduzindo a
nossa fôrça naval de 13.000 homens. Notei que isto foi objeto de
mofa em certos países estrangeiros, os quais, com aparente razão,
poderão dizer que nem sequer podemos prover de homens os ser­
viços que requerem maior capacidade técnica. Espero ter razão
em supor que isto não passa de uma forma burocrática de expo­
sição. Disso, aliás, sem a menor dúvida, o Ministério da Guerra
é igualmente culpado. A mesma forma confusa de apresentar o
Orçamento da Marinha se dá com o orçamento da Guerra; e eu
pergunto: por que, em nome do senso comum, não pode ser apre­
sentado à Câmara um orçamento que demonstre, inteligível e evi­
dentemente, as realidades das finanças do ano?
Alegrou-me ouvir que, mesmo os pesados programas de novas
construções, pelos quais fui responsável antes da Grande Guerra,
estão sendo excedidos — 220.000 toneladas contra 170.000. Não
tenho ciúmes. Alegra-me verificar que outra geração está aumen­
tando o esforço feito por nós e que é provadamente necessário.
Permitir-me-eis observar que o aumento do pessoal é igualmente
importantíssimo? Em 1914, a primeira categoria atingiu o total
record de 148.000 homens, isto é, igualou o número mais eleva­
do obtido pela Marinha britânica no auge das Guerras Napoleôni-
cas. Segundo êste orçamento, agora temos apenas 133.000 ho­
mens como fôrça máxima para 1939. Devemos lembrar-nos de
que, atualmente, não temos à nossa disposição os recursos da Ma­
rinha Mercante que tínhamos em 1914. A Reserva Naval, devido
à redução dos oficiais de Marinha Mercante e homens de mar,
será empregada quase inteiramente no comércio. Por isso, toma-se
necessário o aumento do pessoal, particularmente dos oficiais.
Associo-me inteiramente ao que disse o ilustre membro por
Hillsborough(1), ao proclamar que deveria facultar-se, da maneira
mais ampla possível, a promoção de todos os homens, desde os da

U) O Sr. A. V. Alexander, atual primeiro lord do Almirantado.

167
coberta inferior, dando-lhes a possibilidade de subirem aos mais
elevados postos de comando na profissão naval. Tenho absoluta
certeza de que, nos nossos navios, com suas grandes classes de pes­
soal técnico altamente adestrado, há muitos homens que poderão
vir a tornar-se oficiais e a comandar navios da Marinha Real no
futuro. Foi no meu tempo que abrimos esta porta, fechada havia
muitos anos, e que só recentemente se manteve inteiramente aberta.
Espero que a necessidade de aumento do nosso pessoal fará sentir
que, embora haja e deva haver rígidas barreiras de disciplina entre
os diferentes graus, todos devem progredir e ter oportunidade de
chegar aos postos mais elevados e de maior responsabilidade.
Há, nestes orçamentos, várias coisas que me alegro extrema­
mente de ver. Em primeiro lugar, temos o restabelecimento da
Reserva Imediata. Trata-se, naturalmente, de melhoria de impor­
tância secundária. Que é a Reserva Imediata? São três ou quatro
mil homens que serviram na esquadra durante 12 anos e estão
passando à reserva, para assumirem, mediante uma pequena taxa
de retenção, a obrigação extraordinária de se apresentarem a um
simples chamado do Almirantado, antes da Proclamação Real con­
vocando tôdas as reservas. Estabeleci esta medida antes da guerra
passada, e a sua utilidade foi provada logo na primeira fase da
emergência. Quando insisti no seu restabelecimento em 1937,
observaram-me que não era necessária no momento e seria muito
dispendiosa. Considerando tratar-se apenas de uma taxa de reten­
ção de cinco ou seis libras anuais, para 3.000 ou 4.000 homens,
esta resposta não tinha razão de ser. Mas, com certeza, foi perfei­
tamente fácil, para o Almirantado e para o govêrno, uma vez de­
cididos, rechaçar a proposta. Fiz quatro ou cinco tentativas, mas
tôdas foram inúteis.
O govêrno vê-se diante de dificuldades para recrutar o pes­
soal extra necessário para os caça-minas e outros serviços especiais
nas fases preliminares da mobilização. Não quis acreditar na expe­
riência do passado. Desprezou as suas lições, como desprezou
tantas outras. Mas, agora, que o atual Almirantado experimentou
por si, não há mais discussão; êste pequeno recurso, que as mais
altas autoridades profissionais e políticas nos asseguraram era per­
feitamente dispensável, foi adotado, e eu desejo congratular-me
com o Almirantado e com o govêrno por sua decisão, que, feliz­
mente, pode ser posta em prática imediatamente.

168
No ano passado, quando examinamos o programa de cons­
truções novas, muitas pessoas ficaram assombradas verificando que
do mesmo não fazia parte um único destróier. Eu observei que
talvez houvesse aí um êrro de impressão, pois nada era mais ne­
cessário do que a construção de destróieres, sobretudo quando o
Tratado Naval Anglo-Alemão autorizara a Alemanha a construir
uma frota de submarinos. Agora sabemos que a Alemanha come­
çará a construir submarinos até atingir uma paridade 100 por
cento com a Grã-Bretanha, e eu creio que não será desacertado
supor que grande parte desta tonelagem já está construída por se­
ções e a única coisa que falta fazer é reunir essas seções. Em ne­
nhuma parte do seu discurso, o secretário parlamentar fala com
tanto acêrto como quando se refere aos perigos que ameaçam o
poderio naval da Inglaterra neste momento. Estou inteiramente de
acôrdo com êle quanto à nossa boa posição relativamente aos sub­
marinos. Não se trata apenas da questão do aperfeiçoamento de
maravilhosas invenções, mas da familiarização de grande número
de homens da Esquadra com o uso dêstes engenhos de guerra.
Conseguiu-se isso.
Também confirmarei o seu testemunho de que os perigos
que os submarinos correrão numa guerra futura serão incom­
paràvelmente maiores do que aquêles a que sucumbiram em 1918.
Mas eis o que tenho a dizer com relação aos destróieres. Só obtere­
mos essa boa posição, essa superioridade em matéria de submari­
nos, se tivermos abundância ou, melhor, superabundância de des­
tróieres e outros vasos de guerra menores. Pela primeira vez, no
ano passado não constou do programa nenhuma flotilha de des­
tróieres e, naturalmente, foram apresentadas fortes razões técni­
cas etc., para demonstrar quão importuna seria tal disposição. Con­
tudo, êste ano, não projetamos apenas uma flotilha, mas duas,
além de 20 vasos de escolta de 900 toneladas. Não estou particular­
mente informado quanto ao tipo dêstes últimos, mas é de crer que
se trate de inovação valiosíssima. Lamentamos que, no ano passa­
do, se tenha abandonado a flotilha de costume, pois, a esta hora,
já todos os cascos estariam construídos. Mas creio que a Câmara
está satisfeita por ter sido retificada a omissão, e eu felicito o Almi-
rantado pela medida que tomou.
Há, porém, um ponto nas propostas ora feitas que não posso
aprovar. Trata-se, no meu modo de ver, de uma questão grave,

169
que afeta, até certo ponto, todo o nosso sistema de defesa e
enfraquecerá os nossos meios de sobrevivência no caso de uma
grande guerra. Estou horrorizado em saber que o Almirantado
tenciona desmontar cinco navios de guerra, com canhões de 15
polegadas, da classe do “Royal Sovereign”, um em 1942, outro
em 1943 e os restantes no ano seguinte, creio. A Câmara talvez
não tenha percebido, devido à eufêmica palavra “substituição”
empregada pelo secretário parlamentar, que êstes dois navios deve­
rão ser destruídos. Noutros tempos, eu costumava dizer que, quan­
do o ás está fora do jôgo, o rei é a melhor carta. Êstes velhos navios
podem desempenhar o seu papel, embora devamos evitar pô-los
em contato com navios novos, em caso de guerra.
Eis o que tenho a dizer contra êste procedimento. Por mais
velhos que sejam, os “Royal Sovereigns” têm um serviço vital e
final a prestar-nos. Pelo Tratado de Londres e vários outros acor­
dos, nós não podemos construir cruzadores armados de canhões
de 8 polegadas durante êstes cinco ou seis anos, e a Alemanha
terá, em data muito próxima, cinco cruzadores munidos de canhões
de oito polegadas, que serão incontestàvelmente superiores, em
velocidade, couraçamento e armamento combinados, a qualquer
vaso da nossa Esquadra, com exceção dos nossos couraçados e dos
nossos cruzadores-couraçados. E isto é uma questão muito grave.
Êstes vasos alemães seriam super-“Emdens” lançados contra as
nossas rotas comerciais e inflingir-nos-iam graves perdas. Mas, ao
passo que, quando do “Emden” e outros da mesma categoria, o
“Karlsruhe” e o “Koenigsberg”, tínhamos cem cruzadores para
envolvê-los, persegui-los e destruí-los, agora temos apenas número
muito reduzido dêsses navios e o problema é muito sério. E há
mais. O “Emden” era um naviozinho de 3.000 toneladas, com ca­
nhões de 4 polegadas, que, para ser destruído, bastou ser apanhado.
Agora, contra cinco super-“Emdens” de 10.000 toneladas, com ca­
nhões de 8 polegadas, possuiremos apenas metade do número ante­
rior de cruzadores para obrigá-los a aceitar combate e enfrentá-los
em condições de igualdade. Tudo isto provém das complicações dos
tratados que, de uma maneira ou de outra, embaraçaram a nossa
construção naval, impossibilitando-nos de aproveitar bem o dinhei­
ro dos contribuintes, empregando-o na produção das melhores
classes de vasos de combate.
Que conclusão tiramos de tudo isto? A conclusão de que, em
qualquer guerra que possa haver, nestes anos mais próximos sere-
mos obrigados a recorrer de nôvo ao sistema de comboio, não
tanto devido aos submarinos como aos cruzadores inimigos. O
afugentamento do perigo dêstes cruzadores de assalto levará talvez
um ano de guerra; e, entrementes, os quarenta e cinco milhões de
pessoas desta ilha terão que ser alimentados e nós teremos que
. prosseguir com o nosso comércio, sem o qual não poderemos com­
prar o abastecimento de que precisamos, não só para continuar a
guerra, mas também para conservar o corpo e a alma unidos. Sim.,
seremos obrigados a adotar o sistema de comboio.
É com estas bases que volto ao caso dos “Royal Sovereigns”.
Êstes são justamente os navios que serviriam para escoltar, com
mais segurança, os comboios oceânicos. Nenhum cruzador assal­
tante ousaria se colocar ao alcance dos seus possantes canhões de
15 polegadas. A sua velocidade é muito maior do que a de qual­
quer comboio de navios mercantes. São os vasos ideais para trazer,
em segurança, através dos oceanos, até as regiões onde seriam ne­
cessárias outras escoltas contra os submarinos, um comboio trimes­
tral, da Austrália, do Cabo ou da América do Sul. O alcance dos
seus enormes e pesados canhões seria proteção completa contra
qualquer cruzador de assalto, mesmo tratando-se de um grande
comboio. E isto pelo menos nas primeiras fases da guerra, seria de
enorme conveniência para nós. Contudo, são exatamente êstes os
navios, cuja substituição custaria tantos milhões, que deverão ser
tirados do mar e destruídos... embora êles possam vir a repre­
sentar um papel vital na manutenção desta ilha.
Ouvimos algumas das razões que inspiraram tão monstruosa
decisão. O acôrdo anglo-alemão não estabeleceu, como alguns de
nós sugerimos, que os navios velhos fôssem contados como de
tonelagem inferior à dos navios novos, na estimativa da tonelagem
para a construção naval alemã. Se conservarmos os “Royal Sove­
reigns”, a Alemanha, segundo as cláusulas do Tratado, terá o di­
reito de construir mais dois couraçados no período de quatro anos
em questão. Conseqüentemente os alemães pediram-nos — e estão
em seu direito — que declarássemos de antemão o que tencioná-
vamos fazer. Prometemo-lhes desmontar ou afundar os dois pri­
meiros “Royal Sovereigns” e, já agora, creio que não há mais
esperanças de salvar os outros desta imprudente decisão. Seria
bem melhor deixar que êles construíssem os dois outros coura­
çados. Temos duas razões para isto. A primeira é que, só para

171
construírem o seu primeiro couraçado extraordinário, os alemães
demorarão quatro anos a contar de 1942, e, para bem ou mal,
esta odiosa corrida armamentista encontrar-se-á numa posição
inteiramente diversa em 1946. Mas eis que, à simples ameaça do
lançamento ao mar de mais um couraçado alemão, daqui a sete
anos, nós, em 1942, decidimos destruir êstes importantes “Royal
Sovereigns”, que, nesse ínterim, poderão prestar-nos inestimáveis
serviços. Decidimos agir assim, sem necessidade real, durante um
período crítico, para desviar um perigo hipotético, pois é possível
que a Alemanha não tenha interêsse algum em construir dois cou­
raçados que, além do mais, não estarão prontos senão quando o
período crítico talvez já tenha passado.
E poderemos ter a certeza de que, depois de destruídos os
“Royal Sovereigns”, a Alemanha não dirá que a situação mudou
e construirá, assim mesmo, os seus couraçados? Coisas semelhantes
têm acontecido. De qualquer forma, devemos ser cautelosos em
desfazer-nos de alguma coisa que tenha valor para nós, devido à
simples possibilidade de que, desta maneira, impediremos a Ale­
manha de construir uma coisa que, no meu modo de entender, não
é de grande valor para ela. Por que nos preocuparmos com que
a Alemanha deseje construir mais um couraçado? Prefiro vê-la
construir mais um couraçado a construir alguns esquadrões extra­
ordinários dêsses terríveis salteadores do comércio marítimo. E
digo-o com inteira franqueza.
Devemos lembrar-nos de que a Alemanha, como todos os paí­
ses, está agora no auge da sua produção de armamentos, gastando
26 por cento de sua renda nacional em preparativos bélicos. Todo
o trabalho, especializado ou não, é aí empregado até o máximo.
As cêrcas dos jardins e até as cruzes de ferro dos cemitérios estão
sendo fundidas e transformadas em armas. O que, nestas circuns­
tâncias, é dado a um serviço, deve ser tirado a outro. E isto se
aplica não só ao dinheiro, mas especialmente ao trabalho especia­
lizado e aos materiais de guerra de alta qualidade, que devem ser
adquiridos pela permuta. Digo francamente que preferiria ver a
Alemanha construir mais dois navios de guerra, do que empregar
os vinte milhões de libras que suponho lhe custariam na expansão
do programa aéreo alemão. Aconteça o que acontecer, façam o
que fizerem, no mar nós levaremos sempre uma dianteira extraor­
dinária. Mas como é diferente quanto à aviação! Nesse terreno,

172
lutamos desesperadamente para alcançar os alemães. Por que deve­
remos tentar impedir que a Alemanha consuma o seu material e a
sua energia naturais numa esfera onde temos meios seguros de
conservar a supremacia e assim desviar talvez a sua atividade para
uma esfera, em que, por negligência nossa, já estamos condenados
a uma posição muito mais fraca? Por que, para êste fim, tão preju­
dicial, deveremos arrastar para os estaleiros de desmontagem êstes
grandes vasos, que têm uma função importantíssima e provàvel-
mente vital a desempenhar?
Espero que êste assunto será reconsiderado, como se fêz com
o da Reserva Imediata, o da omissão da flotilha de destróieres no
ano passado e o da destruição de cinco pequenos cruzadores, em
1936. Êstes navios eram considerados inteiramente inúteis, antes
de decidirmos destruí-los; agora, no entanto, são unidades do má­
ximo valor e importância na esquadra. Todos êstes erros foram
defendidos com uma exuberância extraordinária de argumentos,
apoiados por conceituadas autoridades profissionais... e só foram
corrigidos depois de muitas discussões e perda de muito tempo
valioso. Não cometamos nôvo êrro, em escala muito maior, pri­
vando-nos do fator tempo, durante anos, na época mais perigosa
da nossa história, e de recursos já existentes e dos quais precisa­
mos. Espero que isto seja levado em conta. Penalizam-me profun­
damente os fatos já consumados. Salvemos pelo menos o pouco
que ainda podemos salvar. Pensando nas enormes exigências feitas
aos contribuintes, experimento certa sensação de ansiedade ao ver
que navios desta espécie são assim aniquilados, simplesmente, sem
qualquer tentativa para discutir o assunto.. . para depois têrmos
que recorrer a novos impostos, a fim de obtermos fundos para
novas e vastas construções.
Nestes anos mais próximos, a marinha alemã não poderá
construir uma esquadra suficientemente forte para um choque
geral. Poderíamos temer que os seus cruzadores atacassem o nosso
comércio, mas eu creio que poderemos ter a certeza de que o
principal objetivo da marinha alemã será a preservação do domí­
nio do Báltico, da máxima importância para a Alemanha, não só
pelos abastecimentos que poderá receber dos países escandinavos
e pela influência que poderá exercer sôbre êles, como também
porque a perda do domínio naval dêsse mar deixaria tôdas as costas
bálticas da Alemanha abertas para um possível ataque ou invasão

173
1

por outras potências dessa parte da Europa, das quais a maior e


mais importante é, naturalmente, a União Soviética. Assim, pode-
reis ter a certeza de que a esquadra alemã nunca será empregada
de maneira a comprometer o seu domínio do mar Báltico. Foi
por isto que os alemães se contentaram e contentam com uma
esquadra equivalente a 35 por cento da esquadra britânica, porque
esta porcentagem absorve inteiramente os seus recursos para cons­
truções navais, ou os recursos que acham conveniente empregar
no seu desenvolvimento naval, e porque isto lhes permite atingir o
objetivo prático e necessário que têm em vista: a manutenção do
domínio do Báltico.
Por outro lado, o domínio do Mediterrâneo deve ser o prin­
cipal objetivo da Inglaterra. Isto não deveria ser difícil de conse­
guir, mesmo que precisássemos nos empenhar sozinhos numa luta
com quaisquer potências mediterrâneas e mesmo que, a êsse tempo,
devêssemos estar atentos a possíveis sortidas procedentes do Bál­
tico ou do Elba. Embora as grandes esquadras britânicas, agora
em construção, não estejam prontas, mesmo assim ainda temos
uma ampla superioridade de poderio com que conquistar e manter
o predomínio no Mediterrâneo. Pelo que o secretário parlamentar
do Almirantado nos expôs esta tarde sôbre as medidas anti-sub-
marinas e a artilharia antiaérea da nossa esquadra e as alterações
estruturais feitas em nossos navios, a fim de defendê-los contra o
ataque de cima, temos razões para esperar que a nossa grande
preponderância à superfície será tão eficaz no futuro como o foi no
passado. Creio que é uma regra de segurança considerar os mari­
nheiros de todos os países dotados de igual bravura e destreza:
por isso tenho confiança na grande superioridade naval numérica
dos inglêses no caso de guerra contra uma potência mediterrânea.
Essa superioridade se tornaria maior ainda, se as esquadras bri­
tânica e francesa agissem em combinação. Provàvelmente assim
acontecerá, pois jamais faremos guerra senão em conseqüência de
uma agressão não provocada contra nós ou contra um aliado
nosso. Conseqüentemente, parece-me que poderemos contar com
uma superioridade esmagadora.
Existe uma escola de pensamento que defende o chamado
“fechamento das duas extremidades do Mediterrâneo”, transfor­
mando-o assim num mar fechado. Espero que esta política seja
rejeitada pelo Almirantado.. . Espero-o particularmente do atual

174
r
primeiro Lord do Almirantado que, em questões como esta, poderá
ouvir a voz insistente de um dos seus antepassados(1). Obter e man­
ter o domínio do Mediterrâneo, em caso de guerra, é um dever da
esquadra. Conseguido isto, tôdas as fôrças de terra européias nas
costas da África do Norte serão afetadas. Os que dominarem o
Mediterrâneo poderão receber reforços e abastecimentos à von­
tade. Os que não o dominarem serão como flôres cortadas num
vaso. Uma potência mediterrânea hostil que tivesse comércio com
o Ultramar não poderia permitir-se conservar a sua esquadra no
pôrto; seria obrigada a sair para ver se as comunicações com as
suas fôrças não eram interceptadas ou o bombardeio do mar não
interferia nas suas operações e, por conseguinte, não teria meios
de escapar a um combate naval, possivelmente com grande desvan­
tagem.
Não há dúvida de que nos primeiros meses ou semanas, en­
quanto durasse a luta pelo domínio do Mediterrâneo, seria pru­
dente desviar o nosso comércio com o Oriente para a rota do
Cabo. Isto, entretanto, não afeta as razões que aconselham ope­
rações decisivas imediatas para obter o domínio completo e inques­
tionável das águas mediterrâneas. Por isso é que foi um grande
prazer para mim ouvir Lord Chatfield expor a sã doutrina de que
é dever da Marinha Real “procurar e destruir a esquadra do ini­
migo”. Êsse é o verdadeiro modo de atacar. Mas não é possível
ser-se forte em tôda a parte ao mesmo tempo. Será preciso fazer
sacrifícios e sofrer perdas em alguns lugares para poder obter uma
vitória rápida no último teatro da guerra. Conseguida a vitória
decisiva, haverá amplos recursos para restaurar as posições em
teatros mais distantes. Proponho, pois, que o nosso primeiro e
principal esforço seja para conquistar e conservar o domínio do
Mediterrâneo. A declaração de Lord Chatfield tem, indubitàvel-
mente, aplicação geral. Êle não sugeriu uma aplicação particular.
Não obstante, foi extraordinariamente oportuna, porque tal dou­
trina, vigorosamente aplicada, influenciará a política estrangeira
de tôdas as potências mediterrâneas, tanto no sentido de fazer com
que possíveis adversários percam as suas intenções de nos ataca-

í1) O primeiro conde, antepassado de Lord Stanhope (1673-1721), comandou


o exército da Espanha e, sob as ordens do duque de Marlborough, capturou Minorca,
em 1708'.

175
rem ou aos nossos aliados, como no de levar outras nações das
costas mediterrâneas, animadas de sentimentos mais cordiais para
conosco, a desempenharem, confiantes, o seu papel.
É animador, em tempos como êstes, tirarmos uma tarde aos
cuidados sombrios de todos os dias, para nos ocuparmos do grande
e crescente poderio da nossa Marinha e verificarmos, confiantes,
que as novas invenções aéreas e submarinas, se devidamente *
enfrentadas como foram e estão sendo, não poderão privar-nos,
num grau decisivo, dos nossos recursos imensuráveis de grande
potência marítima.

176
1
A INVASAO DA ALBANIA

D is c u r s o p r o f e r id o n a Câm ara d os C o m u n s.
13 d e a b r il d e 1939

Março, 17. O Sr. Chamberlain denuncia a Alemanha em


têrmos de inesperada energia.
Março, 20. Alarmada pela sorte da Tchecoslováquia, a
Romênia apressa-se a assinar um tratado de co­
mércio com a Alemanha.
Março, 21. Visita do Sr. Lebrun, Presidente da República
Francesa, a Londres.
Março, 21-23. O coronel Casado entrega os restos do território
do govêrno republicano da Espanha ao general
Franco.
Março, 29. A Grã-Bretanha garante a Polônia contra a
agressão.
Março, 31. Convidado por Berlim, o ministro dos Negócios
Estrangeiros da Lituânia entrega Memel à Ale­
manha.
Abril, 6. O coronel Beck, ministro dos Negócios Estran­
geiros da Polônia, visita Londres.
Abril, (Sexta-
Feira Santa), 7. A Itália invade a Albânia.

177
Abril, 12. A Assembléia Constituinte de Tirana oferece a
Coroa da Albânia ao rei Vítor Emanuel, que
magnânimamente a aceita.

K m linhas gerais, verifico que estou de acôrdo com a decla­


ração feita esta tarde pelo primeiro ministro sôbre a política do
govêrno. Não insistirei para que o meu ilustre amigo denuncie
o acôrdo anglo-italiano, feito por êle, quando rompeu com o meu
ilustre amigo Sr. Anthony Eden, membro por Warwicke Leaming-
ton, e assumiu pessoalmente a direção suprema dos nossos negó­
cios estrangeiros. Seria realmente muito penoso para o primeiro
ministro repudiar formalmente um instrumento em que empenhou
tanto. É verdade que o acôrdo foi violado pela Itália em todos os
sentidos materiais; mas eu não creio que ganhássemos alguma
coisa com uma denúncia formal nesta conjuntura. O fato é que
o dito acôrdo representa uma tentativa sincera — se bem que até
agora não correspondida — por parte da Grã-Bretanha para con­
servar-se em têrmos amistosos com a Itália e o povo italiano no mar
Mediterrâneo. Creio que o govêrno tem tôda a razão em deixar
que êste acôrdo continue de bene esse, como dizem os advogados,
usando de uma expressão artística que aplicam a coisas que não
tem muita importância. Apesar da má-fé com que temos sido trata­
dos pelo govêrno italiano, ainda não estou convencido de que a
Itália e principalmente o povo italiano estejam dispostos a envol-
ver-se numa luta mortal com a Grã-Bretanha e a França no Medi­
terrâneo.
É bom nos lembrarmos de que, se tivemos uma desagradável
experiência com o govêrno italiano, a Alemanha experimentou
um efeito bem mais grave ainda da política italiana, quando estalou
a Grande Guerra. A recordação que os inglêses guardam dêsses
acontecimentos é bastante agradável, mas a Alemanha conserva
dêles uma impressão bem diferente. Podemos supor, pois, que a
Alemanha há de querer pôr à prova a lealdade da Itália, lançan­
do-a numa guerra contra as potências ocidentais, antes de desfe­
char os golpes principais no teatro central e norte-europeu. Temo
que tenhamos chegado a um ponto em que é conveniente olhar as
coisas sob um prisma realista. Se isto tiver que acontecer, no inte-

178
rêsse dos nazistas, parece-me a mim que não é conveniente para
nós facilitar-lhes a tarefa. Enquanto o govêmo não tiver ilusões
relativamente ao acôrdo com o govêmo italiano, não insistirei para
que o denuncie. Dessa maneira, apenas conseguiríamos dar motivo
para que êles expressassem os seus sentimentos naturais de indig­
nação pelo modo como foram tratados. Deve ter sido um grande
desapontamento e uma grande surprêsa para o primeiro-ministro
ver-se assim tratado por um ditador em quem tanto confiara e em
quem nos aconselhou a depositar confiança especial. Todos sabem
que êle foi nessa conjuntura absolutamente bem intencionado e
sincero. Tudo quanto podemos fazer é nos solidarizarmos com o
seu desencanto e o seu pezar.
Concordo igualmente com as medidas práticas que o primei­
ro-ministro anunciou em nome do govêmo de Sua Majestade no
sentido de dar garantias à Grécia e fazer entendimentos ainda mais
eficazes com a Turquia. A validez dessa garantia reside principal­
mente, é claro, no poder naval britânico, na certeza de que as
esquadras britânica e francesa, combinadas, terão, no Mediterrâ­
neo, uma superioridade que possa ser considerada decisiva.
Quero pedir ao govêmo que mantenha uma vigilância con­
tínua no Mediterrâneo, uma vigilância adequada à tensão exis­
tente e à prova a que indubitavelmente está sendo pôsto o nosso
poder naval. Não posso admitir que as disposições tomadas pela
esquadra britânica na recente crise se coadunem com os ditames
ordinários da prudência. Na têrça-feira da semana passada, antes
de nos separarmos, Lord Stanhope, primeiro Lord do Almirantado,
fêz um discurso que causou alarma. Talvez não fôsse um discurso
muito feliz no fraseado, mas nos revelou que estavam sendo man­
tidas condições da mais extrema vigilância na Home Fleet. As
equipagens dos canhões antiaéreos não podiam deixar seus postos
para assistir a qualquer diversão nos seus próprios navios.
Quais foram, entretanto, as condições da esquadra do Medi­
terrâneo nessa ocasião? Não há segrêdo quanto a isso. Os fatos
foram publicados por todos os jornais. Eram conhecidos neste país
e no estrangeiro. A posição de qualquer navio que entre em pôrto
estrangeiro é conhecida e telegrafada imediatamente. Não falo,
pois, de coisa que não seja absolutamente conhecida. Demais, a
esquadra está agora concentrada e, por conseguinte, perfeitamente
segura, mas é extremamente necessário, para evitar dificuldades
futuras, que não tome a acontecer o que aconteceu quando foi

179
desferido o golpe albanês. De acôrdo com as declarações publica­
das nos jornais de todos os países, a esquadra estava dispersa atra­
vés do Mediterrâneo. Dos cinco navios principais, um estava em
Gibraltar, outro no Mediterrâneo ocidental e os três restantes,
separados, navegavam à altura de portos italianos, dois dêles desa­
companhados de suas flotilhas protetoras. As próprias flotilhas de
destróieres andavam dispersas ao longo das costas européia e afri­
cana e certo número de cruzadores encontravam-se na baía de
Malta, sem a proteção das poderosas baterias antiaéreas dos cou­
raçados. Não compreendo como foi permitida esta situação, agora
felizmente retificada.
Estamos atravessando tempos graves e não podemos nos per­
mitir um momento de descuido. Fiquei extraordinariamente assom­
brado com isto e não pude acreditar na veracidade de tal fato,
enquanto não o vi proclamado pelos jornais. Como é possível con­
ciliar as extremas precauções extraordinárias e a vigilância, man­
tidas em Portsmouth, com o prosseguimento simultâneo do roti­
neiro programa decretado pelo Almirantado para o período da.
Páscoa? O programa foi publicado, creio, em fevereiro, indicando
exatamente onde os navios deveriam ir, sendo executado como se
nada devesse acontecer, ao mesmo tempo em que a Home Fleet
ouvia a ordem: — “Não, não haverá licenças”. Justamente quando
se permitia que a esquadra se dispersasse desta maneira, tínhamos
notícias de que a esquadra italiana estava concentrada no estreito
de Otranto e tropas italianas eram reunidas e embarcadas em
transportes que, poderia supor-se, se destinavam a algum empreen­
dimento de certa gravidade. Parece-me incrível que, quando rece­
bíamos tôdas estas informações e quando o primeiro Lord do Almi­
rantado achava que o estado de tensão existente exigia o máximo
de precauções internas, a esquadra do Mediterrâneo não estivesse
concentrada e ao mar. Êstes assuntos afetam a própria vida do
Estado e espero que imprevidências desta natureza não se repe­
tirão nos meses de ansiedade que temos diante de nós.
Desejo chamar a atenção da Câmara para a “oportunidade”
do golpe italiano. O hábito britânico do week-end e a grande impor­
tância que os inglêses dão aos feriados, que coincidem com as
festas da Igreja, é conhecido no estrangeiro. Podereis tê-lo verifi­
cado em muitas ocasiões. Êsse é o momento perigoso. Não quero
sugerir que, para êsse determinado golpe contra a Albânia, fôsse
escolhida exatamente a Sexta-feira Santa, pelo desejo de ultrajar

180
êsse dia, mas o fato é que o mesmo teve lugar no dia seguinte ao
da dispersão do Parlamento, quando não se poderia discutir ques­
tão alguma imediatamente. Também era sabido que nesse dia a
esquadra britânica, de acôrdo com o programa, que estava sendo
cumprido à risca, estaria espalhada em todos os sentidos. Sob
todos os pontos de vista, os italianos poderiam dizer que “a costa
estava livre”. Sou de opinião que, se a nossa esquadra estivesse
atenta a êsses acontecimentos antes de consumados — pois é antes
dos acontecimentos que devemos estar preparados, não depois —
sou de opinião, repito, que se a nossa esquadra estivesse concen­
trada ao sul do mar Jônio, a aventura albanesa não teria tido
lugar. Em vez de, ao terem os italianos reunido os seus transportes
e seus homens, o nosso embaixador em Roma ir avistar-se com o
conde Ciano para indagar: “Que significa tudo isto?” — seriamos
nós que teríamos a visita do chargé cTaffaires italiano ao secre­
tário dos Negócios Estrangeiros para dizer: “Estamos muito sur­
preendidos por ver uma grande concentração da esquadra britâ­
nica nas águas mediterrâneas, não longe da embocadura do
Adriático”. Então, talvez tivesse lugar uma troca de explicações
e poderíamos dar alguns passos com perfeita segurança, os quais
forneceriam ensejo para recuperar alguma coisa, ainda que não
mais do que a iniciativa em política estrangeira.
E agora permiti-me que diga algumas palavras sôbre o Ser­
viço Secreto Inglês. Depois de 25 anos de experiência na paz e
na guerra, creio que o Intelligence Service é a melhor organização
da sua espécie do mundo. Estou certo de que o ilustre membro
por Camarvon Boroughs, o Sr. Lloyd George, que teve a respon­
sabilidade suprema do govêrno nesses últimos anos, corroborará
as minhas palavras. Sempre acreditei, da mesma maneira que os
países estrangeiros, que o Intelligence Service é o melhor serviço
secreto do mundo. Contudo, vimos, tanto no caso da dominação
da Boêmia como no da invasão da Albânia, que os ministros da
Coroa não tinham, ao que parece, idéia alguma ou, pelo menos,
convicção do que ia acontecer. Não posso convencer-me de que a
culpa fôsse do Serviço Secreto Inglês. Vários dias antes do golpe
contra a Boêmia, eram conhecidas as intenções nazistas em vários
países da Europa. O programa era inteiramente conhecido. Igual­
mente no caso da Albânia, a concentração italiana e seus prepara­
tivos foram publicados repetidamente pela imprensa. Costumamos
escarnecer da Imprensa, mas o fato é que ela nos descreve um

181
quadro extremamente verídico de um grande acontecimento que
se está processando, um quadro muito mais completo e detalhado^
do que o que nos é possível obter dos ministros da Coroa. Enfim,
era perfeitamente sabido que havia uma reunião de tropas e navios
nos portos orientais da Itália. Falou-se muito que a Albânia seria
a prêsa, embora eu esteja perfeitamente disposto a acreditar que
não nos seria possível dizer de que maneira se estabeleceu a auto­
ridade italiana sôbre a Albânia ou até que ponto o ex-rei da Albâ­
nia e o povo albanês pactuaram com o que aconteceu.
Como é que nas vésperas do ultraje os m inistros se entrega­
vam calmamente ao que se chamou, com muita propriedade, “con­
versa de soalheira”, predizendo o alvorecer de uma idade de ouro?
Como é que o programa de festas da semana passada foi executado
à risca, num momento em que, devia saber-se, estava iminente
alguma coisa de caráter excepcionalíssimo e conseqüências imen­
suráveis? Não sei. Conheço muito bem o patriotismo e o sincero
desejo de agir com retidão que anima os ministros da Coroa, mas
diante disto, sou obrigado a perguntar-me: Não haverá, porven­
tura, qualquer mão que intervem em todos os casos para “filtrar”
as informações antes de chegarem ao seu destino ou impedir que
cheguem ao conhecimento dos m inistros? Não pode haver dúvida
de que assim aconteceu no caso dos preparativos aéreos da Ale­
manha, quatro anos atrás. Os fatos não chegaram ao conhecimento
dos ministros senão depois de modificados de tal maneira que,
quando êles os receberam, não produziram impressão alarmante.
Parece-me que os ministros correm um risco extraordinário, per­
mitindo que os informes colhidos pelo Departamento de Informa­
ções e, tenho a certeza, enviados a êles a tempo e a hora, sejam
peneirados, descoloridos e reduzidos em suas conseqüências e
importância. Ou se êles se colocam em estado de espírito de só
darem importância às informações que estão em acordo com o
seu ardente e louvável desejo de que a paz do mundo continue
inalterada?
Creio que a grande maioria da Câmara apóia o govêmo na
política atual para a formação duma forte aliança de nações que
possa resistir a uma futura agressão. É com prazer que apóio a
linguagem empregada esta tarde pelo primeiro-ministro sôbre o
assunto. Para isto êle tem direito incontestável ao auxílio de todo
o país. Na última vez que discutimos êstes assuntos, chamei a
atenção geral para os grandes perigos que corríamos enquanto as

182
medidas em andamento não tivessem concluídas. Rapidez e vigor
são a essência duma política desta natureza. Se ela não fôr levada
avante com o máximo de rapidez e vigor, seria melhor não a ter
iniciado. Êste não é o momento para meios-têrmos.
Para que a paz seja preservada, parece-me haver duas me­
didas, que espero já estejam sendo tomadas ou serão tomadas com
a maior decisão e imediatamente. A primeira é, naturalmente, a
da inclusão completa da Rússia Soviética no nosso bloco defensivo
de paz. Quando o ilustre membro por Caithnesse, Sir A. Sinclair,
tratou da questão da Rússia, frisando-a, eu percebi uma espécie
de agitação atrás de mim. Ouvi a nobre dama, representante da
Divisão de Sutton de Plymouth, viscondessa Astor, expressar o
seu desagrado diante de qualquer contato com a Rússia bolchevista.
Onde estava essa sua antipatia quando visitou a Rússia Soviética
com o Sr. Bemard Shaw? A nobre dama foi tratada com grande
consideração. Mas o ponto que a Câmara deverá notar — é um
ponto muito grave e espero que poderei expô-lo sem qualquer
ofensa — é que, quando ela visitou a Rússia e lhe deu todo o seu
apoio, nós nos encontrávamos numa época em que a influência da
Rússia era profundamente prejudicial aos interêsses dêste país.
Concordo com tudo o que se tem dito sôbre a Rússia, inclusive
com os poderosos argumentos do líder do Partido Liberal, mas, ao
mesmo tempo, não devemos supor que isto dependa inteiramente
de nós. Há grande perigo em pedir favores em épocas como esta.
Não sou de opinião que devamos pedir favores a quem quer que
seja. Outro dia tentei demonstrar à Câmara o profundo interêsse
que a Rússia tinha de impedir uma extensão maior do poder na­
zista para os lados de leste. É sôbre êste profundo, natural e legí­
timo interêsse que devemos basear-nos. Tenho a certeza que em
breve ouvirei o govêrno comunicar que estão sendo tomadas me­
didas que nos permitirão obter a máxima cooperação possível da
Rússia e que não se permitirá que quaisquer preconceitos por parte
da Inglaterra ou da França interfiram na cooperação mais íntima
entre os dois países, ganhando assim para as nossas exaustas e
ansiosas combinações o auxílio, embora um tanto incerto, mas
enorme, da nação russa.
A segunda medida que, na minha opinião, deveremos tomar,
e que não posso deixar de supor o govêrno já está tomando, é o
fomento da unidade nos Bálcãs. As quatro nações balcânicas e a
Turquia são uma combinação imensa. Unidas, estarão seguras.

183
Bastar-lhes-á que se unam para estarem seguras. Pouparão assim
suas populações aos horrores de outra guerra e, por sua maciça
fôrça estabilizadora, poderão representar um papel decisivo no
esfôrço para evitar uma catástrofe geral. Se elas se dividirem, se
abandonarem ainda que parcialmente o princípio de “os Bálcãs
para os povos balcânicos”, renovarão as horríveis experiências que
as retalharam e devastaram a tôdas na Grande Guerra e nas
Guerra dos Bálcãs que precederam aquela. Tenho a certeza de
que o govênro de Sua Majestade está fazendo todo o possível para
fomentar a união autoprotetora dêstes Estados. Os entendimentos
feitos com a Grécia e a Turquia são, naturalmente, apenas o
primeiro passo. O primeiro ministro anunciou hoje um nôvo passo
— a garantia oferecida à Romênia. Mas estas medidas, embora
altamente importantes, benéficas, salutares e prudentes em tôdas
as circunstâncias em que nos temos encontrado, não bastarão por
si sós para salvar os Bálcãs de outra grande dose de miséria e
ruína.
Os entendimentos que nos dizem foram feitos entre a Ro­
mênia e a Turquia são também de grande alcance e constituem
um passo para a segurança dêstes dois países. Sou, porém, de
opinião que um entendimento entre a Romênia e a Bulgária é
vital para obter-se a segurança dos Bálcãs. Há mais de um quarto
de século atrás, quando eu estava no Almirantado e lia todos os
telegramas sôbre a primeira guerra balcânica de 1912, pude ava­
liar muito bem o valente esfôrço da Bulgária, das terríveis perdas
que sofreu, a enorme coragem de suas tropas e depois como, por
exorbitantes exigências, além do que seria razoável, sofreu a malí­
cia dos seus dois aliados e sofreu a mais terrível tragédia no fim
dessa guerra. Podereis dizer que ambas as partes foram culpadas,
mas o fato é que as conseqüências dêsses erros se estenderam a
tôdas as nações balcânicas durante a Grande Guerra. Parece-me,
uma vez que a Romênia está recebendo o apoio das potências oci­
dentais e de outros Estados balcânicos, que existe uma boa base
para se poder chegar a um acôrdo amigável com a Bulgária. Só
isso soldará a estrutura dessa parte do mundo e a conservará a
salvo da tempestade da guerra. E talvez isto influencie definitiva­
mente o rumo de acontecimentos de muito maior importância,
fora dos quadros balcânicos.

184
Permiti que vos diga que, se em nossa ação através dos sé­
culos, temos sobrevivido a tôdas as grandes lutas, não o devemos
apenas às proezas dos grandes comandantes ou às famosas bata­
lhas ganhas em terra e no mar, mas também ao fato de terem sem­
pre os verdadeiros inimigos da Inglaterra coincidido com os de
muitos outros Estados e nações e têrmos podido marchar sempre
muito bem acompanhados pela elevada estrada do progresso e da
liberdade para todos. Esta é, indubitàvelmente, uma condição que
devemos estabelecer na política que ora estamos seguindo na pe­
nínsula balcânica. Tanto nós, como os franceses, poderemos dizer
que não temos nenhum interêsse particular, nenhuma exigência
especial a fazer. Não receberemos vantagens que estejam em cho­
que com o interêsse geral. Isto deveria animar o govêmo em seu
rumo, pois a política que seguimos e continuamos a seguir, nos traz
de volta, através do Oceano Atlântico, um eco reverberante, cada
vez mais animador em seu tom. Entrevemos um grande desígnio
que se, mesmo agora, à undécima hora, pudesse ser aperfeiçoado,
pouparia o mundo à pior das agonias. Mas tôdas as coisas se
movem simultâneamente. Tôdas elas têm avançado juntas, ano
após ano, mês após mês. Quando nós chegamos a certas posições
no pensamento, outros chegaram a certas posições na realidade.
O perigo está agora muito próximo. Grande parte da Europa
está mobilizada. Milhões de homens estão sendo preparados para
a guerra. Por tôda a parte, são guarnecidas as defesas das fron­
teiras. Por tôda a parte, sente-se que algum nôvo golpe está imi­
nente. Se o golpe vier, pode haver alguma dúvida de que seremos
envolvidos? Não mais nos encontraremos onde estávamos há dois
ou três meses. Na minha opinião, estamos comprometidos em todos
os sentidos, relativamente a tudo o que tem acontecido. É necessá­
rio citar os países a que, direta ou indiretamente, demos ou estamos
dando garantias. O que nem sonharíamos fazer um ano atrás,
quando ainda havia tanta esperança, o que nem sonharíamos fazer
mesmo um mês atrás, estamos fazendo agora. É claro que, se aspi­
ramos a desviar tôda a Europa da beira do abismo para as saudá­
veis planícies da lei e da paz, devemos nós mesmos dar o melhor
exemplo. Não podemos negar coisa alguma. Como poderemos
continuar a levar esta nossa vida confortável e fácil aqui em casa,
evitando até pronunciar a expressão “serviço compulsório”, sem

185
sequer fazermos menção de tomar as necessárias providências para
equipar os exércitos que prometemos? Como poderemos continuar
— digamo-lo com particular franqueza e sinceridade — sem incor­
porar tôda a fôrça da nação ao instrumento de govêrno? Êstes mé­
todos, cuja adoção o govêrno deve à nação e a si mesmo, não só
indispensáveis em face das responsabilidades atuais, mas, ainda,
pela sua simples decretação, poderão salvar o nosso povo e os
povos de muitas terras da sombria e ameaçadora inundação que
vem crescendo ràpidamente, de todos os lados.

186
os d o m ín io s d o r e i
O ração f e it a n oC anadá C l u b , n a H o m en a g em ao
Sr . R . B . B e n n e t t .
20 DE ABRIL DE 1939

Abril, 13. A Grã-Bretanha oferece garantias à Grécia e à


Romênia.
Abril, 14. O presidente Roosevelt apela para Herr Hitler e
para Signor Mussolini, para que prometam abs­
ter-se de qualquer agressão durante dez anos.
Abril, 20. O Sr. Chamberlain anuncia que formará um
Ministério do Material Bélico e nomeia o Sr.
Leslie Burgin ministro sem pasta, para que,
entrementes, estude o assunto.

O jantar oferecido ao sr. R. B. Bennett tem lugar num


momento oportuno. Todos esperamos um resultado pacífico, mas
todos podem ver por si que o perigo está à porta. Não demorará
muito que o Império Britânico seja de nôvo obrigado a ordenar
e revelar a sua fôrça latente. Nesse momento, o Canadá tornar-se-
-á um importante fator nos negócios do mundo. Não só através do
Império, mas em todos os países, observa-se atualmente a atitude

187
e ação do povo canadense e de seu govêmo. O Canadá é um país
com govêmo de partidos, como o que nós tínhamos no tempo em
que a Inglaterra estava a caminho de se tomar a potência de pri­
meira grandeza que é. Por mim, acho que podemos nos considerar
felizes por têrmos dos dois lados da política canadense estadistas
capazes e resolutos, dotados de profunda dedicação às grandes
causas da liberdade individual e da lei pública, agora tão direta­
mente ameaçadas. Felizmente, o tempo se incumbiu de tomar evi­
dente a “todos os homens e tôdas as terras” o seu desejo comum
de viverem livres, unidos e amigos.
A política seguida pelo “govêmo de Sua Majestade na Grã-
Bretanha e na Irlanda do Norte” — para empregar a expressão
do Estatuto de Westminster — poderá dar motivo a críticas por
falta de perfeição e vigor. Ninguém poderá dizer que essa política
não tem sido animada de paciência e boa fé, de persistente desejo
de evitar a guerra e de crescente disposição para correr riscos, ao
lado de outras nações, no esfôrço para evitar a guerra. Tenho às
vêzes discordado do primeiro-ministro; mas o fato é que, se num
dia aziago, o Sr. Chamberlain fôr obrigado, pelo ultraje ou pela
agressão, a dar o temido sinal, não haverá partido na Grã-Bretanha
ou parte do Império Britânico, nem país livre que não esteja dis­
posto a tomar parte na luta — na dura luta — sem a menor
recriminação.
Certos estrangeiros zombam do Império Britânico por não
ter obrigações gravadas em pergaminhos ou anéis de duro aço que
o obriguem a uma ação conjunta. Há outras fôrças muito mais
sutis e muito mais compulsórias às quais cede espontâneamente
tôda a estrutura do Império. Essas fôrças profundas e invencíveis
estão agora em movimento, varrendo, em sua pujança, tôdas as
diferenças de classe e de partido, vencendo os vastos espaços oceâ­
nicos que separam os Domínios do Rei. O telégrafo elétrico é
uma velha história; a radiodifusão é uma invenção modema. Mas,
na verdade, nós nos baseamos num processo de muito maior
alcance e igualmente espontâneo. Há certas coisas que não tería­
mos necessidade de discutir. Não haveria necessidade de recursos
constitucionais. Todo o mundo, desde o rancho mais solitário à
maior cidade, sentiria a solicitação do dever diante de si e todos
os corações experimentariam a mesma convicção. E não só a
mesma convicção, mas a mesma resolução para agir.

188
Tendo o Sr. Bennett, em sua vital mensagem ao Canadá e ao
Império, expressado e simbolizado, de maneira notável, estas ver­
dades latentes, achamos esta ocasião particularmente oportuna
para honrá-lo.
Julgar-se-iam mal o sentimento e a paixão reprimidos que
unem o Império Britânico ou a “Commonwealth” como muitos
gostam de chamá-lo, supondo que o jingoísmo démodé ou o impe­
rialismo ganancioso representam aqui alguma parte importante.
Se, nesta ilha, nos desenvolvemos gradualmente até o ponto de
nos tomarmos um Estado considerável, se pudemos aíiviar os
nossos trabalhadores das formas mais duras da opressão econô­
mica e edificar uma sociedade decente, tolerante, compassiva, fle­
xível e infinitamente variada, é porque, em tôdas as grandes crises
da nossa história, o interêsse da Inglaterra c aminhou sempre ao
lado do progresso e da liberdade da humanidade. Se nestas horas
de ansiedade — não de mêdo — muito longe disso! — sentimos
que o impulso da unidade e do dever fazem pulsar o sangue da
raça inglêsa, é porque estamos ligados por princípios, motivos e
concepções que interessam fundamente, não só ao Império Britâ­
nico, mas à consciência e ao gênio da humanidade.
É animador verificar que na grande República Americana
são instintivas e fortes as mesmas resoluções de resistir, a todo o
custo, às novas formas de tirania e opressão da nova máquina
política. O Canadá tem um grande papel a representar nas rela­
ções da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. O Canadá nos oferece
uma porta no Oceano Atlântico com a sua lealdade. Aperta a mão
americana com a sua fé e boa vontade. A grande fronteira que vai
do Oceano Atlântico ao Pacífico, guardada apenas pelo respeito
de vizinhos, é um exemplo para todos os países e um modêlo para
o futuro do mundo.
O Sr. Bennett, vosso hóspede desta noite, tem sabido sempre,
em sua memorável carreira, estreitar os laços de união dessas fôr­
ças que, ao mesmo tempo, consolidam o Império Britânico e tor­
nam harmoniosa a sua crescente camaradagem com o govêrno e o
povo dos Estados Unidos. Temos para com êle uma dívida imorre-
doura. Valiosíssimos têm sido seus serviços. O Sr. Bennett sempre
foi fiel à nossa velha bandeira. Tem sido fiel a tudo o que essa
velha bandeira representa. Lamentamos que sua enfermidade lhe
tenha impôsto um período de repouso e nos regozijamos por vê-lo
de nôvo em nosso meio tão forte e ativo. Êste não é momento para

189
poupar-se um homem como êle. Todos serão necessários, todos
deveremos gastar-nos. Sabemos que não há nada que êle não tenha
feito, nem nada que não venha a fazer para suster e engrandecer o
Império Britânico, quando tudo aquilo por que temos lutado esti­
ver em jôgo.
Não devemos nos desviar do caminho do dever. Se o Impé­
rio Britânico estiver fadado a passar da vida para o simples domí­
nio histórico, esperamos que isso não aconteça pelo lento processo
da dispersão e da decadência, mas se consuma num supremo es­
fôrço pela liberdade, o direito e a verdade. Por que é que os ho­
mens de tantas nações voltam suas vistas para nós hoje em dia?
Não há de ser, certamente, porque obtivemos vantagens numa
corrida armamentista ou porque marcamos um tento em alguma
intriga diplomática profundamente planejada, ou porque exiba­
mos a arrogância e o terrorismo do poder implacável. É porque
estamos do lado da necessidade geral. No Império Britânico, nós
não olhamos apenas uns para os outros através dos mares, mas
para trás, para a nossa própria história, para a Magna Carta, para
o Hapeas Corpus, para a Petição de Direitos, para a instituição do
Juri, para a Lei Comum Inglêsa e para a Democracia Parlamentar.
Êstes são os marcos e os monumentos que indicam o caminho ao
longo do qual a raça inglêsa tem marchado para a liderança e para
a liberdade. E sôbre tudo isto, unindo os domínios uns aos outros
e unindo-nos todos ao nosso passado majestoso, está o círculo de
ouro da Coroa. Que há dentro dêsse círculo? Há não somente a
glória de um velho povo nunca vencido, mas a esperança, bem
fundada, de uma vida mais ampla para centenas de milhões de
homens.

190
A FALA DE HITLER

D isc u r so a o p o v o dos E sta d o s U n id o s da A m é r ic a , através


RÁDIO.
do
28 DE ABRIL DE 1939.

Abril, 23. Sir Nevile Henderson volta a Berlim.


Abril, 26. O primeiro-ministro anuncia a intenção de de­
cretar o serviço militar obrigatório.
Abril, 28. Em discurso no Reichstag, em Berlim, Herr Hi­
tler se recusa a levar a sério a mensagem de
paz do presidente Roosevelt e denuncia o trata­
do naval anglo-alemão e o pacto de não-agressão
com a Polônia.

discurso de Herr Hitler apresenta, em caráter como


em qualidade, certa melhoria sôbre tôdas as suas arengas ante­
riores. Esta melhoria é devida, sem dúvida, em grande parte, ao
ato do presidente dos Estados Unidos, enviando, há uma quinze­
na, a sua memorável mensagem de paz e advertência ao mundo.
O presidente Roosevelt é objeto de muitas ironias e expressões
zombeteiras por parte do Führer alemão. Mas os seus elevados
fins e a sua alta posição estão fora do alcance de ironias. A demo­

191
cracia americana é igualmente objeto de ridículo. O povo ameri­
cano saberá passar por cima de tudo isso.
Parte do serviço prestado à causa da paz pela intervenção
do presidente Roosevelt já é evidente. É bem possível também
que a sua mensagem, que mereceu a gratidão de quase todo o
mundo, tenha evitado, ou, pelo menos, suspendido, desígnios que
nós não conhecemos. A atitude prudente adotada pelo Japão, re­
cusando unir-se a um movimento anti-democrático, fato que Hi­
tler não deve desconhecer, é diretamente atribuída ao movimento
da esquadra dos Estados Undios para o Pacífico. A melhoria da
declaração de Herr Hitler também é devida à revivescência, na
Europa, de um sistema de auxílio mútuo contra a agressão e à
formação ativa do bloco de paz das nações, grandes e pequenas,
as quais estão se armando e se preparando para a defesa recíproca.
É, finalmente, devida à consolidação da França e ao rear­
mamento da Inglaterra.
Naturalmente, todos aceitamos de bom grado uma melhoria,
ainda que só nas palavras pronunciadas pelo chefe de tão gran­
de nação. Mas, depois de tudo o que temos passado neste último
ano, somos obrigados a dizer francamente que palavras e declara­
ções não podem, por si sós, restabelecer a confiança e a boa-fé,
enquanto não forem apoiadas por fatos e uma boa conduta du­
rante um considerável período de tempo. Enquanto oito milhões
de tchecos forem mantidos na opressão; enquanto a violação do
acôrdo de Munique permanecer sem reparação — para não falar
de outras penosas dificuldades — existirá uma formidável bar­
reira entre a Alemanha nazista e a civilização pacífica, respeita-
dora da lei e amante da liberdade do mundo.
A denúncia do acôrdo naval anglo-alemão não deverá pro­
vocar recriminações ou alarme. A Marinha Britânica não será
alcançada por mais esforços que a Alemanha nazista possa fazer.
É melhor que êsses esforços sejam desviados para a construção
de uma esquadra alemã do que concentrados no desenvolvimen­
to do seu poderio aéreo, que é uma ameaça para todos, ou em
armamentos terrestres, com os quais poderão dominar os vizinhos
menores.
Despido de sua verbosidade e floreios, o discurso de Herr
Hitler revela o desejo de isolar a Polônia e de apresentar a êsse
caso particular uma solução mais conveniente, apoiada na fôrça
e na ameaça. A denúncia do pacto de não-agressão com a Polônia,

192
cujo prazo terminaria em 1944, deve ser considerada como o
aspecto mais grave do discurso e uma nova causa de ansiedade.
O método de Hitler tem sido sempre dar um passo de cada vez e,
enquanto procura desvanecer as preocupações de todos os outros,
isolar um país completamente. Por estas razões, é da mais alta
importância que não haja enfraquecimento da vigilância e dos
preparativos por parte das potências da Europa que desejam a
paz, nem diminuição da influência que os Estados Unidos estão
exercendo para o bem comum.
É da continuação dessa conduta que depende a nossa se­
gurança. Há muitas passagens no discurso de Herr Hitler que pa­
recem destinadas a induzir a Grã-Bretanha a abandonar as suas
precauções e o papel que se propôs representar na Europa Orien­
tal. Bajulações dessa natureza têm sido, em várias ocasiões, o
prelúdio de atos de violência nazistas. Mas não terão elas efeito
algum sôbre a opinião pública inglêsa, completamente desperta
como está agora. Não retardarão, sobretudo, no menor grau, o
desenvolvimento da nossa fôrça de defesa.
É perfeitamente natural que Herr Hitler não tenha gostado
da maneira pela qual a Grande Guerra terminou. Preferia que
tivese terminado com a vitória alemã e com a espécie de tratados
de paz que a Alemanha ditaria, como o Tratado de Brest Litovsk,
o tratado com România, ou em condições como as que estavam
para ser impostas à Bélgica ainda em meados de 1918. Por mais
que se possa argüir contra o Tratado de Versalhes, o fato é que,
na realidade, foi um instrumento suave, em comparação com as
concepções alemãs. Segundo o ponto de vista alemão, que Herr
Hitler compartilha, a pacífica Alemanha e a pacífica Áustria
foram atacadas em 1914 por uma malta de nações malvadas, enca­
beçadas pela Bélgica e a Sérvia, das quais entretanto, se teriam
ambas defendido com sucesso, se não fôssem apunhaladas pelas
costas pelos judeus. Contra opiniões assim é inútil discutir.
Mas quando Herr Hitler se queixa das reparações exigidas
da Alemanha, não podemos deixar de observar que muito mais
que isso lhe foi emprestado, em parte pela Inglaterra e em parte
ainda maior pelos Estados Unidos da América, sendo pouco pro­
vável que o grosso dessas somas venha a ser pago algum dia. As
cláusulas das reparações do Tratado de Versalhes nunca foram
reforçadas e, longe de sangrarem a Alemanha até à palidez cada-
vérica, os aliados vitoriosos e as potências associadas, depois da

193
guerra, canalizaram enormes riquezas para a Alemanha, a fim
de que ela pudesse modernizar as suas indústrias e restabelecer
o seu bem-estar econômico. Infelizmente, a Alemanha tem pro­
curado utilizar êstes benefícios na construção de horrendo apare­
lho de morte para pôr o mundo a resgate ou reduzi-lo à escra­
vidão.
O sistema de serviço militar obrigatório, agora introduzido
na Grã-Bretanha, em tempo de paz, ou chamado tempo de paz,
traz consigo o sacrifício dos hábitos mais profundamente arraiga­
dos dêste povo insular. É um ato de fé e um símbolo da resolução
que a Inglaterra tomou de não falhar às suas responsabilidades no
conflito que agora está se iniciando pela liberdade individual e
a lei pública. As grandes causas em jôgo deverão marchar para
a frente até vencerem e se entronizarem com segurança. Mas por
isso mesmo é mais necessário proclamar que nós na Inglaterra e
da França — e, tenho a certeza, nos Estados Unidos — não pedi­
mos para nós próprios uma segurança que não estejamos dispostos
a partilhar espontâneamente com uma Alemanha livre, pacífica e
feliz. Se existe um cêrco da Alemanha, não é certamente um cêrco
militar ou econômico. Ê um cêrco psicológico. As massas dos
povos de todos os países em volta da Alemanha estão obrigando
seus governos a ficar em guarda contra a tirania e a invasão e a
se unirem, para êsse fim, a outros Estados de intenções análogas.
Nada poderá deter êsse propósito, exceto uma mudança de senti­
mentos nos chefes alemães ou uma mudança dêsses chefes. Mas
não há país na Grande Aliança que se está formando na Europa,
com a profunda simpatia e a aprovação dos Estados Unidos, que,
por um momento sequer, tolere a idéia de atacar a Alemanha ou
de tentar impedir o seu pacífico e legítimo desenvolvimento. Ao
contrário, a volta da Alemanha ao círculo da paz e à família da
Europa, o seu ingresso nas amplas e elevadas perspectivas de uma
civilização progressiva, tolerante e próspera, continua sendo a má­
xima esperança das democracias inglêsa, francesa e americana. E
será isso exatamente o que acontecerá no fim.

194
O N Ô V O EXÉRCITO INGLÊS

D is c u r s o p r o f e r id o em C a m b r id g e .
19 d e m a io d e 1939.

Maio, 6. O rei e a rainha partem para a sua viagem ao


Canadá.
Maio, 10. O primeiro-ministro faz a sua primeira declara­
ção na Câmara dos Comuns sôbre as malogradas
negociações secretas com a Rússia.
Maio, 12. Anuncia-se o pacto anglo-turco.
Maio, 13. O projeto de lei de recrutamento, apresentado
no princípio do mês, entra em terceira discussão
na Câmara dos Comuns.

im aqui esta noite, porque a Universidade de Cambridge


deseja uma oportunidade para testemunhar a sua resolução e a
sua convicção num momento de grave necessidade pública. Os
estudantes de Cambridge têm o direito de fazer ouvir a sua voz,
que certamente será levada em conta, visto tantos dêles serem
atingidos pela nova lei da conscrição, agora e nos dois anos pró­
ximos, e muitos outros farão todo o possível para se enfileirarem
ao seu lado. É uma honra comparecer ao chamado do rei e da

195
pátria e prestar a mais elevada forma de serviço pessoal ao Estado.
Mas também é nosso dever verificar se a causa é boa. É sôbre êste
aspecto que, antes de tudo, versará a minha palestra.
Depois de muitas hesitações e longas demoras, algumas das
quais nos custaram caro, a Grã-Bretanha resolveu tomar o primei­
ro lugar na formação e manutenção de uma liga de povos arma­
dos e que se armam para resistir — pela fôrça, se necessário fôr
— a novos atos de agressão das potências nazistas e fascistas. O
surgimento dos sistemas totalitários de govêmo teve diversas cau­
sas. Na Itália, temia-se o comunismo. Na Alemanha, havia a amar­
gura da derrota. Dois homens notáveis foram elevados por essas
fôrças poderosas à autoridade ditatorial. Ambos, nas primeiras
fases, prestaram grandes serviços aos seus países. Mas ambos se dei­
xaram levar demasiado longe pelo hábito do despotismo e o ardor
da conquista e ambos, neste momento, parecem dispostos a unir-se
contra o progresso e a liberdade da idade moderna. Não poderão
êles, contudo, continuar seu curso de agressões sem que isso pro­
voque uma guerra de devastação geral.
Submeter-se às suas ambições seria condenar uma grande
parte da humanidade ao jugo do seu govêrno. Resistir-lhes, em
paz ou em guerra, será perigoso, penoso e duro. É inútil, no atual
estado de coisas, ocultar estas rudes realidades de quem quer que
seja. Ninguém deve continuar nessa emergência sem compreender,
exatamente, a quanto poderá montar o custo dessa luta e quais
os valôres em jôgo.
Esclareçamos, pois, quanto antes, desde o seu início, que certo
número de nações se está unindo numa Grande Aliança que, em
circunstância nenhuma, atacará as potências ditatoriais. Tampouco
procurará impedir ou obstruir os seus desejos naturais e legais;
ou invadirá a sua jurisdição interna; ou procurará privá-las de
sua parte legítima na futura expansão do mundo. Nem nós derra­
maremos sangue senão em legítima defesa e na defesa comum. A
nossa posição baseia-se inteiramente no convênio da Liga das Na­
ções. Êsse convênio não só obriga os membros leais da Liga a se
ajudarem mutuamente, de acôrdo com as suas possibilidades, mas
obriga-os ainda a fornecerem meios eficazes para reparar injusti­
ças e ofensas fundadas. Isto é inerente ao convênio da Liga e eu,
por mim, jamais convidaria e muito menos obrigaria qualquer ho­
mem ou mulher — pois todos devem fazer o que lhes compete —
a agir sob qualquer base, conforme com a letra e o espírito do

196
solene e perpétuo acôrdo assinado por quase todos os países do
mundo. Não há elemento de ambição imperial em nossa política;
nem escámeos, nem provocações verbais, nem afronta ao orgu­
lho, nem embaraços diplomáticos nos tentarão a um ato agressivo.
Estamos unidos contra a violência e a tirania e nada mais pro­
curamos senão fazer um grande esfôrço, com os povos de outros
países, para defender o império da lei e da liberdade para todos.
A causa é boa. E o govêmo? É bom, é mau ou é apenas
indiferente? Como sabeis, não tenho hesitado em falar e votar
contra o govêmo — embora esteja êle formado em volta do par­
tido a que pertenço — sempre que, segundo o meu ponto de vista,
o meu dever a isso me obriga. Há mais de um ano que insisto na
formação desta Grande Aliança ou “bloco de paz das nações”,
que teria evitado a ruína da Tchecoslováquia e que ainda poderá
preservar a Polônia e as nações menores da Europa Oriental de
destino semelhante. Fui um forte adversário de Munique e assim
o disse na ocasião em que o assunto não parecia tão simples como
agora. Por conseguinte, falando a uma assembléia onde todos os
partidos estão representados, tenho o direito de pedir a considera­
ção dos liberais ou socialistas que porventura aqui se encontrem.
Os assuntos de defesa nacional e política exterior devem ser con­
siderados num plano superior, acima de partidos e fora dos anta­
gonismos naturais que separam govêmo e oposição. Na verdade,
êsses assuntos afetam a vida da nação e influem na sorte do mundo.
Direi a todos os liberais e socialistas aqui presentes que não é legí­
timo permitirem que quaisquer prevenções que possam ter contra
o atual govêmo ou contra o seu chefe os impeçam de dar um voto
franco e simples a favor de um ato de segurança e defesa nacio­
nal. Não está no poder de qualquer um de nós controlar ou regu­
lar os acontecimentos. Êstes podem ser bem ou mal regulados. É
nosso dever, entretanto, fazer o máximo ao nosso alcance para
o fim principal e a causa comum. Dessa maneira, espero ter aberto
o caminho para poder tratar diretamente do projeto da conscrição.
Eu próprio só recentemente comecei a insistir na necessidade
da conscrição junto ao govêmo de Sua Majestade. Todos sabem
que, devido ao descuido em preparar fábricas a tempo e a hora
para a produção de equipamento e munições e da recusa, até há
poucas semanas, em organizar um Ministério do Material Bélico,
sofreremos a deficiência dêsses produtos essenciais durante muitos
meses. Por isso eu me contentava com um Registro Obrigatório

197
Nacional, que deveria ser instituído pelo menos logo após o desas­
tre de Munique, e com uma declaração de que o Serviço Militar
seria obrigatório e geral quando estalasse uma guerra.
Mas que aconteceu desde então? Tudo tomou nôvo aspecto.
O govêrno que permitiu que a Tchecoslováquia fôsse retalhada
e desarmada, viu, surprêso e horrorizado, Herr Hitler entrar em
Praga com os seus exércitos e subjugar o povo tcheco. Êsse revol­
tante ultraje abriu os olhos aos cegos, fêz ouvir os surdos e até
houve alguns casos em que os mudos falaram. O primeiro-ministro
viu que fôra iludido e ludibriado por Herr Hitler exatamente como
pelo Signor Mussolini, em quem também depositara a melhor con­
fiança. E assim é que êle e o govêrno que dirige mudaram de ati­
tude de um momento para outro, adotando — creio que de todo
coração, — exatamente a política que seus adversários vinham
propondo. Embora muito se tenha perdido, embora muito tenha­
mos ainda de pagar bem caro, acredito, contudo, que esta nova
política contém em si as melhores esperanças de paz e, se algum
dia, por infelicidade, a paz tiver que ser interrompida, as melhores
esperanças de vitória estarão com as nações livres do mundo.
Fiquei muito impressionado com algumas das palavras pro­
nunciadas pelo general Weygand quando, algumas semanas atrás,
assistiu à comemoração do vigésimo primeiro aniversário da no­
meação do marechal Foch para o Supremo Comando dos Exérci­
tos Aliados, em abril de 1918. Então, num momento de grande
desastre, quando parecia que os exércitos francês e inglês iam ser
separados um do outro pelo avanço alemão, o ilustre marechal
assumiu o comando do campo desolado e, depois de um mês de
desespêro, inverteu a sorte da guerra. O general Weygand, que foi
chefe de sua “família militar” — como dizem os franceses — disse:
“Se o marechal Foch estivesse aqui, não perderia tempo a deplorar
o que se perdeu. Mas diria: “Não cedamos mais um passo”.
O govêrno, em sua nova política, já fêz esforços de tôda
espécie. Fêz esforços que, um ano atrás, teriam indubitàvelmente
conjurado a situação e os quais, se forem continuados com energia
e resolução, ainda poderão desviar o pior dos perigos. Deu garan­
tias à Polônia, à Romênia, à Grécia e fêz uma aliança com a Tur­
quia, tudo isto com o objetivo de formar uma frente na Europa
Oriental contra novos atos de agressão dos nazistas. Além dêstes
tratados, com os quais visamos equilibrar o outro lado da Europa
e nos quais empehhamos a nossa honra nacional, consideramo-nos

198
obrigados por nossos interêsses diretos a lutar, se a Suíça, a Ho­
landa ou a Dinamarca forem atacadas. E, acima de tudo, temos
as nossas obrigações para com a França.
Algumas pessoas observam que é muito belo e generoso da
nossa parte irmos em auxílio da França. Posso, porém, assegu­
rar-vos que, no estado a que as coisas chegaram, nós temos pelo
menos tanta necessidade de auxílio da França quanto esta da aju­
da da Grã-Bretanha. Há muitos anos venho expressando os meus
sentimentos de que a principal esperança de liberdade e seguran­
ça está numa íntima união das democracias inglêsa e francesa.
Estas duas velhas nações, que estão à testa da civilização européia,
foram rivais e inimigas durante séculos. Agora estão unidas em
presença do perigo comum. Os franceses têm o melhor, senão
também o maior dos exércitos existentes na atualidade. A Grã-Bre­
tanha possui uma esquadra que, enquanto conservarmos a simpa­
tia e a boa vontade dos Estados Unidos da América, sobrepujará
tôdas as outras nos mares. Sempre achei que a união dessas duas
grandes fôrças, não para fins de agressão ou acanhados interêsses,
mas para uma causa honrosa, constituirá a âncora central da liber­
dade e do progresso humanos. Por isso, alegro-me por ver, embora
lentamente, tàrdiamente, passo a passo, mês após mês, êsses dois
países vizinhos se fundirem finalmente numa aliança franca e in-
quebrantável, baseada na mais íntima cooperação militar, naval e
aérea. E aqui chego à causa principal e urgente do projeto de cons-
crição.
Os dois Estados parlamentares ocidentais já esclareceram que
não tomam partido, nem procuram alistar outros no atual conflito
de ideologias rivais. Há a ideologia nazi-fascista e a ideologia co­
munista. A Inglaterra e a França se opõem igualmente a ambas.
Os Estados parlamentares acham que os povos pequenos, agindo
dentro de seus direitos, não devem ser pisados pelos mais fortes.
Acham que a civilização, em qualquer sociedade, implica a liber­
dade para criticar o govêrno do momento; a liberdade de palavra;
a liberdade de imprensa; o livre pensamento; a liberdade de reli­
gião; a liberdade racial; o leal tratamento das minorias; tribunais de
lei e justiça com autoridade independente do executivo e livres de
tendências partidárias. São êstes os ideais que se concentram em
volta da Liga das Nações. São estas as esperanças do mundo. São
êstes os meios pelos quais esta geração lograria uma abundante
prosperidade. Poderemos considerá-los uma simples “ideologia”?

199
Ao contrário, pois êsses princípios e ideais representam o caminho
médio, sóbrio, decente, apropriado, que não só a maioria das na­
ções, mas a vasta maioria em tôdas as nações desejaria seguir.
Sim, êstes ideais são bem dignos de defesa em tôda a Europa en­
quanto fôr possível defendê-los.
A propaganda nazista na França continua incessante. “A
Inglaterra — dizem êles — lutará até o último soldado francês”.
Contudo, se Gibraltar fôsse bombardeado, a França declararia
guerra à Alemanha, e o seu exército — que compreende cinco
milhões de homens bem adestrados — suportaria generosamente
o fogo, só porque uma fortaleza britânica fôra atacada. Da mesma
forma, nós declararíamos guerra à Alemanha, se o território fran­
cês fôsse invadido. Mas devemos pensar nos sentimentos do sol­
dado francês médio, marchando, com milhões de seus camaradas,
contra o que muito bem poderia ser uma provocação a todos nós.
Os franceses não compreendem fàcilmente que um povo insular
que há mil anos não vê em seu solo as fogueiras de um acampa­
mento inimigo tenha profundos preconceitos contra o militarismo
e esteja historicamente apegado ao sistema de voluntariado. Ape­
nas sabem que deveriam resistir durante muitos e terríveis meses
ao exercício alemão e que nós não estaríamos dispostos a pôr de
parte os nossos preconceitos e a abandonar o nosso sistema tra­
dicional. Não achariam isso leal e, de fato, não seria mesmo leal.
Se essa insidiosa propaganda conseguisse levantar uma bar­
reira entre os dois países a nossa ruína seria rápida e final. O
princípio da segurança coletiva implica um sacrifício próprio igual­
mente leal, oferecido por todos os membros, em proporção com
a sua fôrça e meios. As contribuições dos diferentes países pode­
rão variar de volume, mas devem ser as mesmas na forma e iguais
em qualidade e boa vontade. Estas considerações aplicam-se a
todos os países que ora se unem à Inglaterra. Além disso, o suces­
so do nosso plano para evitar a guerra depende, não só da união
de muitas nações, grandes e pequenas, para resistir à agressão, mas
de obtermos de cada uma delas o serviço mais completo possível.
Sem isto não haverá segurança. Esta é a grande verdade.
Temos tôdas as razões para estarmos contentes com a recep­
ção que o projeto da conscrição teve no estrangeiro. Não pode­
ríamos esperar sobrepujar a Alemanha e a Itália. Nesses países, os
soldados contam-se aos milhões e só o Signor Mussolini diz ter
oito milhões. Por conseguinte, o acréscimo de duzentos mil ho­

200
I

mens às nossas fôrças armadas não é ameaça às potências dita­


toriais. O importante é o efeito sôbre os nossos aliados e os países
aos quais temos dado garantias. Esta limitada medida é suficiente
para demonstrar que se, infelizmente, fôssemos envolvidos em
outra grande guerra, a contribuição britânica não seria apenas na­
val e aérea, mas também militar. Não será apenas uma questão
de dinheiro e munições, mas da expressão numérica dos homens
do Impérito Britânico, os quais, à medida que forem sendo mobi­
lizados e adestrados, farão sentir o seu pêso com fôrça crescente
até que tenhamos atingido o fim. O que temos ouvido da França
demonstra quão importantes foram as vantagens obtidas sôbre a
opinião do público e do exército francês por esta medida. A pro­
paganda hostil recebeu uma resposta convincente. Países como
a Polônia e a Romênia e, com efeito, todos os países situados em
volta do reduto do nazismo, exultaram e se sentiram mais fortes
com as medidas que o govêrno de Sua Majestade achou conve­
niente tomar.
Mas os resultados dentro do país não foram menos satis­
fatórios. Os partidos da oposição acharam que deviam combater a
instituição do serviço militar obrigatório em tempo de paz e esta­
vam em seu direito. Quando alguém me disse outro dia que era
chocante que o Partido Trabalhista, os Liberais e os Sindicatos
Profissionais não estivessem todos unidos em tômo do projeto,
não pude deixar de observar que talvez êles ainda estivessem im­
pressionados com os argumentos que nós próprios vínhamos ou­
vindo até um mês atrás (1). Nós não queremos fomentar desaven­
ças com a oposição relativamente a isto. O protesto da oposição
é perfeitamente natural. Em vista de tudo o que se disse no pas­
sado, não vejo que outra coisa pudesse fazer. Mas não há nada de
antidemocrático nesta medida. É a coisa mais democrática que
já fizemos nesta ilha. Contanto que não se permitam exceções, ela
acabará com as diferenças entre as classes e talvez seja o início de
uma sociedade com perspectivas mais amplas e justas do que ja­
mais tivemos.
Quando estalou a guerra de 1914, os chefes políticos se viram
obrigados a convencer o povo de que a causa era boa. Consegui-

í1) O Sr. Chamberlain ainda há algumas semanas condenara a Conscrição como


“antidemocrata”.

201
ram-no e o fato de ter sido a causa reconhecida como boa aplainou
tôdas as outras dificuldades e conduziu-nos à vitória. Mas, agora,
o principal impulso para resistir à ditadura nazista e à agressão, em
todos os países a que estamos ligados, provém das massas do povo.
Por quase tôda parte vemos governos hesitantes e cautelosos e
povos resolutos. No nosso país, o espírito do povo está muito adian­
te do govêmo e talvez do próprio Parlamento. Ainda é tempo para
que os países governados por ditadores se coloquem em harmonia
com a vasta maioria da raça humana e se unam ao seu irresistível
movimento para a frente.
Não devemos, nesta conjuntura, fazer qualquer coisa que
anime êstes ditadores a supor que não estamos dispostos a ir a
todos os extremos, com outros países de igual pensamento, para
cumprir a parte que nos compete do dever comum. Ouvi dizer que
um dos mais altos funcionários de Berlim disse a Herr Hitler: —
“No dia em que as classes trabalhadoras da Inglaterra aceitarem
a conscrição e o Partido Conservador admitir uma aliança com
a Rússia, podemos nos convencer de que a Inglaterra estará firme”.
Êste é um momento em que todos os preconceitos, de um e de
outro lado, devem ser abolidos, a fim de que se estabeleça perfeita
camaradagem entre todos os partidos e classes da nossa terra.
O projeto e a sua aceitação geral é um grande ato de fé
por parte da Democracia britânica. No comêço da guerra de 1914,
tínhamos, em pouco tempo, um milhão de voluntários à nossa dis­
posição, para o grosso dos quais não havia armas. Pouco tempo
depois, mais de dois milhões de homens pediam para serem con­
duzidos ao front. Mas, logo em seguida, se esgotavam as possibi­
lidades do recrutamento voluntário. A guerra continuava e os
exércitos não podiam ser mantidos. Depois tivemos o odioso es­
petáculo de voluntários, feridos duas e atés três vêzes, que eram
mandados de volta para as trincheiras e de soldados regulares, que
haviam servido durante dois anos inteiros na linha de frente e que
eram privados de seu direito de abandonar o serviço ao têrmo do
seu contrato. Foi intolerável para o senso de justiça nacional. Além
disso, os dois milhões de famílias, cujos homens haviam arcado
com todos os sacrifícios, estavam furiosas pelo fato de grande nú­
mero de homens perfeitamente aptos terem ficado em casa, preen­
chendo os empregos dos que se tinham oferecido voluntàriamente
e auferindo salários muito mais elevados. O reconhecimento dos

202
erros e injustiças dêsse sistema se impôs ao país na primavera e no
verão de 1916, determinando a apresentação do projeto da cons­
crição.
Que diferença a de hoje! Antes de ser disparado um tiro, esta­
mos tomando, a sangue-frio, esta momentosa medida e temos a
favor dela uma grande maioria nacional. Nada poderia indicar de
maneira mais viva a compreensão com que as classes laboriosas
— sem as quais não é possível formar exércitos — acolhêram
o terrível sacrifício que está sendo impôsto aos seus direitos e liber­
dades fundamentais. O que só com mil dificuldades conseguimos
realizar em 1916, está agora pràticamente realizado pela vontade
da Nação, num período de paz nominal. Eis uma coisa que deve
impressionar os países estrangeiros, porque constitui a garantia
mais explícita da resolução do povo britânico de concorrer para
a defesa do que é hoje, evidentemente, uma causa mundial.

203
TRÊS MESES DE TENSÃO

D is c u r so p r o n u n c ia d o n o C it y C a r l t o n C lub, em L o n d res.
28 de ju n h o de 1939.

Maio, 26. Em seguida à conversação de Lord Halifax com


o Sr. Maisky, em Genebra, no dia 23, é despa­
chada nova nota britânica para Moscou. Entre­
tanto, no dia 31, a Rússia declara que não está
ainda convencida da boa-fé do govêrno britâ­
nico.
Junho, 5. O Banco de Inglaterra transfere para o Banco
Internacional de Ajustes títulos tchecos no valor
de cinco a seis milhões de libras, para uso e be­
nefício da Alemanha.
Junho, 17. O govêrno britânico decide enviar a Moscou o
Sr. William Strang, do Foreign Office.
Junho, 22. O rei e a rainha desembarcaram na Inglaterra,
de volta de sua viagem ao Canadá e aos Estados
Unidos.

X enho impressão pouco lisonjeira da posição em que nos


encontramos. Esta posição é semelhante à do ano passado por
êste tempo, mas com a importante diferença de que êste ano não

205
temos meios de recuar. Então, não tínhamos obrigações de tra­
tado para com a Tchecoslováquia, nem havíamos garantido a
sua segurança. Agora demos garantia absoluta à Polônia de que,
se fôr objeto de agressão não provocada, nós, com os nossos alia­
dos franceses, seremos obrigados a declarar guerra à Alemanha.
É essa a rude contingência que agora enfrentamos.
Que está acontecendo na Alemanha? Ao que parece, os na­
zistas fazem todos os preparativos possíveis para obrigar a Polô­
nia a ceder às exigências alemãs ou, se não ceder, atacá-la com
as suas grandes fôrças, pelo oeste e pelo sul. No ano passado,
quando se projetava a subjugação da Tchecoslováquia, ouvimos
uma série de rumôres sôbre manobras alemãs e que grandes mas­
sas de tropas germânicas estavam sendo reunidas em volta dêsse
desventurado país. Havia muitos sinais do que estava acontecen­
do, perfeitamente inteligíveis para as pessoas bem informadas, de­
sejosas de saber a verdade. De nôvo êstes sinais estão agora à
nossa vista, se bem que em maior escala do que no ano passado,
e novamente nos dizem tratar-se apenas de manobras de outono,
de combates simulados, de exercícios do exército alemão, de ades­
tramento de tropas. Ninguém me iludiu no ano passado e advir­
to-vos que não deveis deixar-vos iludir êste ano. As fôrças de
agressão estão se reunindo, estão já, com efeito, reunidas em gran­
de parte. Muitas pessoas dizem que nada acontecerá até o fim das
colheitas e talvez tenham razão, mas, pessoalmente, sempre des­
confio de datas mencionadas de antemão, porque podem muito
bem ser antecipadas. Ademais, o fim das colheitas não está tão
longe assim. Creio que deveremos considerar julho, agôsto e se­
tembro como os meses em que a tensão da Europa será maior.
Estou convencido de que estamos entrando numa quadra de pe­
rigo, mais aguda e mais carregada de acontecimentos sombrios
do que qualquer das que conhecemos no duro e perturbado período
que temos atravessado.
Assim falando, não quero dizer que eu considere a guerra
como certa. Se levarmos em conta somente os preparativos alemães,
a imensa massa de homens e armas e o tom adotado pela impren­
sa germânica, controlada pelo govêrno, e pelos chefes do Partido
Nazista, a única conclusão que podemos tirar é que o pior está
para acontecer e muito breve. Todos os planos e preparativos pare­
cem ter chegado ao máximo de perfeição e, contudo, é possível
que o temido sinal não seja dado. Será dado ou não, isso depende

206
inteiramente do humor, temperamento e decisão de um único ho­
mem, que se elevou da mais obscura posição a um fastígio amea­
çador, de onde poderá talvez desencadear sôbre a maior parte da
humanidade catástrofes e tribulações imensuráveis. Se as minhas
palavras pudessem chegar até êle, como espero chegarão, dir-lhe-ia:
“Espera, considera bem antes de dares um mergulho no desconhe­
cido. Considera se a obra da tua vida, que poderá tomar-te famo­
so aos olhos da história, a obra de erguer a Alemanha da prostra­
ção e da derrota até um ponto onde todo o mundo espera ansiosa­
mente as suas ações, considera se tudo isto não será irremediàvel-
mente destruído!”
Desejaria poder convencer Herr Hitler de que a nação in-
glêsa — e sei que poderia dizer o Império Britânico — chegou
ao limite de sua paciência. Temos recuado e concordado uma vez
após outra, ante a quebra de promessas e tratados solenes. Temos
feito isto pelo nosso desejo de paz e também, é claro, porque os
interêsses do Impérito Britânico estão na paz. Herr Hitler come­
teria um êrro profundo, se se persuadisse de que tôdas estas reti­
radas foram os resultados de covardia e degenerescência. Quando
a propaganda nazista de Herr Goebbels trombeteia e grita através
do éter que a Inglaterra e a França perderam a sua capacidade de
fazer guerra, nós não nos irritamos, porque sabemos que não é
verdade. Sabemos que os nossos sofrimentos serão muito grandes e
estamos resolvidos a evitar o desencadeamento de um choque,
cujas conseqüências nenhum homem poderá medir. Também sa­
bemos que só poderíamos nos lançar a uma tal luta se as nossas
consciências estivessem limpas. Aqui nesta velha ilha, livre e inde­
pendente, nós não estamos vivendo na Idade Média. Antevemos
grandes esperanças para o futuro de todo o mundo. Prevemos a
oportunidade da elevação, com o auxílio da ciência, de todos os
homens, em tôdas as terras, a um nível muito melhor de bem-estar
e cultura. É uma oportunidade que a humanidade nunca teve e
talvez não tome a ter, se fôr desprezada agora, senão depois de
muitas gerações, de séculos talvez. Estamos dispostos a evitar que
caia sôbre nós a culpa e a vergonha de nos colocarmos entre as
massas laboriosas do mundo e as perspectivas cada vez mais lumi­
nosas que estão finalmente ao seu alcance. Êsse senso de respon­
sabilidade diante dos altos monumentos da história tem governado
a nossa política e a nossa conduta. Nem zombarias nem insultos
nos demoverão dessa atitude. A Inglaterra não se sentiria ames-

207
quinhada por viver lado a lado no mundo com uma Alemanha
próspera, feliz, livre, bem intencionada. De bom grado aceitaría­
mos a sua participação na direção efetiva da família européia.
Com efeito, temos a certeza de que o amplo futuro, em cujo limiar
estamos, ou poderíamos estar, jamais será completamente alcan­
çado sem a ativa cooperação alemã. Mas, se houver outro ato de
violência nazista, que conduza à guerra, não procuraremos ficar
inertes.
Somos uma velha nação. Há cêrca de mil anos que não somos
vencidos. Edificamos o nosso Estado e modo de vida lenta e gra­
dualmente, através dos séculos. Podemos, por conseguinte, fazer,
a favor da paz, esforços que não seriam fáceis para uma raça me­
nos segura de si mesma e do seu dever. Duas obrigações supremas
tem o govêmo inglês. Ambas são igualmente importantes. Uma é
a de esforçar-se por evitar a guerra e a outra a de estar preparado,
se porventura a guerra vier.
Como sabeis, tenho criticado insistentemente o atual govêr­
no, tanto no que se refere à política estrangeira como às medidas
de defesa. Minhas advertências e censuras estão registradas e hoje
ninguém me pede que desdiga uma só palavra. Se apoio o govêrno
atualmente não é porque tenha mudado de modo de pensar. É
porque o govêmo adotou, em princípio e mesmo em detalhe, a
política em que insisti. Só espero que não a tenha adotado dema­
siado tarde para evitar a guerra. Quando um perigo está longe,
quando há tempo suficiente para fazer os preparativos necessários,
quando podemos dobrar vergônteas em vez de sermos obrigados
a quebrar grossos galhos, é que é direito, é que é um dever dar
o sinal de alarma. Mas quando o perigo está muito próximo, quan­
do é evidente que não se poderá fazer muito no tempo que resta,
não adianta lamentar a incúria ou imprevidências dos responsá­
veis. A época para se ficar assustado é quando os males ainda
podem ser remediados. Quando não é mais possível remediá-los
completamente, devemos encará-los com coragem. Quando o pe­
rigo está longe, podemos pensar na nossa fraqueza. Quando está
próximo, não devemos esquecer a nossa fôrça.
Alegrou-me ouvir o primeiro-ministro dizer, com todo o seu
conhecimento dos nossos negócios, que as nossas defesas estavam
em boa ordem e que podemos encarar o futuro com calma e con­
fiança. Êste não é o momento para analisar detalhadamente uma
declaração como esta — e muito menos em público — mas creio

208
[

que o primeiro-ministro tem inteira razão em acreditar que a nossa


Marinha é mais forte agora, relativamente às outras fôrças navais
da Europa, do que no comêço da última guerra, quando se verifi­
cou era forte bastante. Creio que êle tem tôda a razão em dizer
que a nossa fôrça aérea fêz um grande progresso nos últimos doze
meses. Talvez não seja tão grande como nos prometeram solene-
* mente, isto é, igual a qualquer fôrça aérea ao alcance de ataque
das nossas costas. Essa promessa não foi cumprida. Mas creio não
exagerar dizendo que a Real Fôrça Aérea é uma organização
maciça, de alta qualidade, tanto em homens como em máquinas.
Os vastos e flexíveis recursos das indústrias e das riquezas britâ­
nicas estão sendo há vários anos concentrados na criação de uma
grande fôrça aérea, cujos resultados estão aparecendo ràpidamen-
te. Espero que essa fôrça não seja subestimada em certos lugares,
neste momento. Quanto ao Exército, temos os homens. Com a
aproximação do perigo, os homens se apresentaram. A conscrição
foi posta em prática quase com assentimento universal. Os jovens
não só se apresentaram de boa vontade, considerando uma honra
o chamado às armas, mas ainda ficavam tristes e abatidos quan­
do a incapacidade física os impedia de tomar seu lugar nas fileiras.
Fiquei extraordinàriamente animado ao ler informações sôbre a
imensa melhoria da nova m ilícia. Temos ouvido muito de fontes
alemãs e italianas sôbre o miserável estado de ânimo da juventu­
de educada sob as condições democráticas. Agora descobrimos
que apresenta um padrão de qualidade muito mais elevado do que
na Grande Guerra e, nessa época, era suficientemente bom. Mes­
mo então vimos orgulhosos impérios militares pedirem armistício
em campo aberto e alguns países, que hoje se mostram tão arro­
gantes, alegrarem-se de ter soldados inglêses e franceses para aju­
dá-los a defender o seu solo.
Que compensação é tudo isto para os nossos serviços sociais
e para os que trabalharam para êles! Não há emprêgo de capital
de maior alcance para uma nação do que gastar leite, bons alimen­
tos e educação com as crianças. Se se acrescentar a isto o respeito
pela lei, o conhecimento das tradições do país e o amor à liberda­
de, tereis, pelo menos, as bases da sobrevivência nacional. É tam­
bém animador verificar que a introdução do serviço obrigatório
não evitou nem deteve uma imensa onda de voluntários que não
pertenciam à classe convocada. Se ao menos o nosso govêrno ti­
vesse feito a tempo os necessários preparativos para ter uma grande

209
reserva de equipamento e munições, como poderia ter feito e como
se insistiu repetidamente que fizesse, não tardaria que possuísse­
mos um Exército num elevado estado de preparação, igual ao da
nossa Marinha e da nossa Fôrça Aérea. Entretanto, ó primeiro-
-ministro concordou finalmente em organizar um Ministério de Ma­
terial Bélico e a única coisa que nos resta, presentemente, é espe­
rar que tudo seja feito com a maior brevidade possível.
Mas voltemos, agora, assim reanimados, ao supremo aconte­
cimento que temos diante de nós. Que fará Herr Hitler? Tentará
ou não dinamitar o mundo? O mundo é uma coisa muito grande
para ser dinamitada. Um homem extraordinário, no pináculo do
poder, pode produzir uma grande explosão e, todavia, o mundo
civilizado permanecerá inabalável. Os enormes destroços e estilha­
ços da explosão poderão cair sôbre a sua própria cabeça e destruí-
lo, a êle e tudo quanto o cerca, mas o mundo prosseguirá. A civili­
zação não sucumbirá. O trabalho do povo nos países livres não
tomará a ser escravizado. Se o mundo fôr empolgado pelo Partido
Nazista da Alemanha, quase três quartas partes da raça humana
emprestarão sua fôrça contra os agressores, e não tenho a menor
dúvida de que, após uma luta que será indubitàvelmente dura e
talvez longa, a Democracia e a Civilização repelirão o assalto, re­
tomando a marcha para a frente.
Têm-nos dito várias pessoas que o ditador alemão não se
convence de que o govêmo de Sua Majestade lutará por Dantzig.
Que é Dantzig? Não é apenas uma cidade. Dantzig tomou-se um
símbolo. Um ato de violência contra a República da Polônia, quer
venha de fora quer de dentro, provocará um acontecimento de im­
portância mundial. O secretário dos Negócios Estrangeiros diz-nos
que a fôrça será enfrentada pela fôrça e nenhuma voz na Inglater­
ra se elevou para contradizê-lo. Um ataque à Polônia, neste mo­
mento, seria um acontecimento decisivo e irrevogável. É da mais
alta importância que o Partido Nazista da Alemanha não se iluda
pela aparente disposição pacífica das democracias inglêsa e fran­
cesa.
Vejo que Herr Goebbels e seu comparsa italiano, Signor
Gayda, têm zombado de nós por não têrmos declarado guerra ao
Japão pelos insultos de que foram alvos alguns inglêses e neo-ze-
landeses em Tientsin. Dizem êles que estamos exaustos e isto é o
que na Alemanha e na Itália está sendo ensinado hoje em dia.
Mas talvez os homens que pensam nestes países ditatoriais, se é

210
que lhes permitein conhecer a verdade, sintam que estamos guar­
dando a nossa fôrça para coisas de mais importância. Reju-
bilo-me por ter o govêmo resistido à provocação a ponto de des­
viar a vista do seu alvo. Êsses insultos e afrontas estudados dos
japonêses, nação até aqui famosa pelas suas boas maneiras, pode­
riam ser uma armadilha para nos desviar dos mares, onde será de­
cidido qualquer conflito de maior vulto que porventura venha
surgir.
Não devemos enviar a nossa esquadra para o Extremo Orien­
te enquanto não estivermos certos da nossa posição no Mediter­
râneo, então, provàvelmente, isso não será mais necessário. Não
acredito que o Japão, profundamente enredado na China, san­
grando por todos os poros no território chinês, esgotando as suas
fôrças numa tarefa injusta e inexeqüível, com todo o pêso da
Rússia sôbre êle ao norte da China, deseje fazer guerra ao Impé­
rio Britânico, enquanto não vir como estão as coisas na Europa.
Por conseguinte devemos aprovar a paciência e a firmeza de ati­
tude do nosso govêmo com relação ao problema do Extremo
Oriente.
Todos nós esperamos que seja feita, sem demora, uma alian­
ça completa e sólida com a Rússia. Parece-me que o ponto de
vista da Rússia, de que deveríamos nos unir todos para resistir a
um ato de agressão contra as nações bálticas, é justo e razoável,
e espero que cheguemos a um acôrdo o mais completo. Franca­
mente, não compreendo a hesitação de tôdas estas semanas. No
ponto a que chegamos, estas garantias não aumentarão muito o
nosso perigo. Com efeito, o nosso perigo não aumentará absolu­
tamente nada, se levarmos em conta o que se ganhará em segu­
rança coletiva por uma aliança entre a Inglaterra, a França e a
Rússia. O nazismo ameaça os principais interêsses da Rússia, e é
natural que todos os que se sentem assim ameaçados reunam, con­
fiantes, todos os seus recursos e participem dos riscos.
É da máxima importância, entre os fatôíes que poderão
preservar a paz do mundo, a íntima compreensão, demonstrada
pelos Estados Unidos, da causa da liberdade agora em jôgo na
Europa. Não pedimos favores a nação alguma. Todos os países
podem julgar por si mesmos o seu próprio interêsse e o seu dever.
Mas, a compreensão, a boa vontade e a simpatia daquela Repú­
blica é uma grande animação para nós nestes meses e semanas
de crescente ansiedade.

211
Como terminar tudo? Tentar subornar o nazismo ou dar
qualquer outro sinal de fraqueza, seria apressar justamente o que
pretendemos evitar. É claro que não podemos continuar assim.
Através de todo o país, tôdas as classes e partidos têm os mesmos
sentimentos. O comércio está paralisado. O progresso de todo o
mundo está interrompido. Todos os recursos estão sendo dèvora-
dos pelos armamentos. Ninguém pode fazer planos para o futuro.
Passamos de uma crise para outra. Existe uma convicção profun­
da e quase universal através do país de que não será recuando que
escaparemos aos perigos que nos ameaçam. Chegou o momento
em que devemos enfrentá-los e vencê-los. Temos um govêrno que
provou e confirmou repetidamente sua fidelidade à causa da paz
e, se êsse govêrno declarar que a segurança e a honra nacionais
nos obrigam a resistir ao ultraje e à agressão, todos teremos que
fazer o máximo que estiver ao nosso alcance. E é possível que o
que nós fizermos seja suficiente para salvar o mundo, senão da
guerra e do sofrimento, pelo menos da servidão e da vergonha.

212
FÉRIAS DE VERÃO

D is c u r s o p r o f e r id o n a C âmara dos C o m u n s.
2 d e a g ô st o d e 1939

Julho, 3. O primeiro-ministro anuncia, na Câmara dos Co­


muns, que os comunicados indicam que estão
sendo tomadas medidas militares em grande es­
cala dentro e em volta de Dantzig.
Julho, 4. É feito um acordo entre a Alemanha e a Itália
pelo qual os habitantes do Sul do Tirol deverão
ser transportados para o Reich. Cêrca de
200.000 pessoas serão afetadas.
Julho, 15. O conde Ciano, ministro dos Negócios Estran­
geiros da Itália, regressa de uma visita oficial à
Espanha, sem concluir o tratado ítalo-espanhol.
Julho, 27. A oposição na Câmara dos Comuns propõe que,
em vista da situação internacional, o Parlamen­
to, depois de interromper os seus trabalhos em
4 de agôsto, se reúna dentro de duas semanas
para uma discussão dos acontecimentos. O Sr.
Chamberlain não aprova.
Agôsto, 2 O Sr. Chamberlain propõe que a Câmara inter­
rompa os seus trabalhos de 4 de agôsto a 3 de

213
outubro. A proposta é atacada de todos os lados
da Câmara, mas o primeiro-ministro mantém-se
intransigente e consegue o seu objetivo.

D evo dizer que lamento os têrmos da moção do govêmó


e, embora não inteiramente pelas mesmas razões, vejo-me obriga­
do a apoiar as propostas feitas pelos dois partidos da oposição da
Câmara. Espero, porém, o primeiro-ministro não tenha dito a últi­
ma palavra sôbre êste assunto. É com esta esperança que me aven­
turo a apresentar algumas das razões por que me oponho à moção.
Em nosso país, esta Câmara não é levada em grande conta algu­
mas vêzes, mas no estrangeiro ela é importante. No estrangeiro,
principalmente nos países ditatoriais, a Câmara dos Comuns é
considerada a expressão mais formidável da vontade britânica e
um instrumento dessa vontade de resistir à agressão. Êste é um
fato que devemos admitir. Os próprios ditadores não têm sido len­
tos em notar que a opinião da minoria desta Câmara tem influído,
de certa maneira, no rumo da ação do govêrno. É de acôrdo com
a opinião da minoria desta Câmara que formulamos uma política
exterior com a qual todos estamos agora de acôrdo, uma polí­
tica exterior que os dois Estados ditatoriais desaprovam profun­
damente. Por isso digo que representamos um lugar eminente nos
seus pensamentos.
Podeis verificar isto pela maneira esquisita como têm êles
calculado os seus vários golpes para as ocasiões em que a Câmara
tem os seus trabalhos interrompidos e os seus membros estão de
férias. Tomemos como exemplo o último de todos, o ultraje à
Albânia, na Páscoa. Foi lindamente preparado para o momento
em que era sabido que o Parlamento estava disperso, os ministros
ausentes e, infelizmente, a esquadra do Mediterrâneo estava dis­
persa também. E vêde o ano passado, quando nos separamos em
circunstâncias como estas. Até então não havia movimentos sus­
peitos de tropas na Alemanha. Só então se iniciaram todos êsses
movimentos para os pretensos fins pacíficos de uma manobra local.
Talvez isto pareça vaidade na bôca de um membro do Parlamen­
to, mas quer me parecer que esta Câmara é um auxiliar reconhe­
cido das defesas do Império Britânico, que estamos mais seguros

214
quando a Câmara está aberta, que a ação e a vontade desta casa
representam muito e, quando devidamente dirigidos, reforçam o
poder do govêmo de Sua Majestade. Parece-me, pois, que seria
lamentável o fato de abandonar o Parlamento a ação exatamente
no momento em que a crise é mais aguda.
Não irei ao ponto de insinuar que, se esta Câmara con­
tinuar em sessão dia e noite, não haverá crise. Isso seria exagerar.
Tenho, porém, a impressão de que os acontecimentos estão em
perfeito equilíbrio e não podemos desprezar qualquer coisa favo­
rável, ainda a mais insignificante, se puder ser posta no convenien­
te prato da balança. Por isso, muito lamentaria se aprovássemos a
resolução de nos dispersarmos aos quatro ventos até outubro. Es­
tranho momento é êste para a Câmara declarar que deseja ter
dois meses de férias. Não é por puro acaso que as nossas férias
de verão coincidem com os meses de perigo da Europa, com o
fim das colheitas e com a época em que as potências do mal estão
mais fortes. A situação da Europa é mais grave do que no ano
passado por êste tempo. O govêmo alemão já tem 2.000.000 de
homens em armas, incorporados ao seu exército. Quando a nova
classe se lhes juntar, antes do fim de agôsto, mais de 500.000 ho­
mens serão acrescentados automàticamente a êsse número. En­
quanto isso, a fronteira da Polônia, de Dantzig a Cracóvia, está
guarnecida por grandes massas de tropas e todos os preparativos
se estão fazendo para um avanço rápido. Só em volta de Breslau
há cinco divisões alemãs em elevado estado de mobilização. As
estradas para a Polônia, através da Tchecoslováquia, segundo
disse o chefe do Partido Liberal, estão sendo melhoradas. Com o
auxílio do trabalho forçado dos tchecos, abrem-se pedreiras para
a extração de material.
Disseram-me — poderei enganar-me, mas nem sempre me te­
nho enganado — que muitos dos edifícios públicos e escolas, de
várias partes da Tchecoslováquia e certamente da Boêmia, foram
desocupados e preparados para a acomodação de feridos. Mas
êstes não são os únicos lugares onde se fazem preparativos nesse
sentido. Há um movimento definido de abastecimento e tropas,
através da Áustria, para Leste. O ilustre colega que dirige a opo­
sição indica-nos outro ponto perigoso, que poderia facilmente ser
trocado pelo que atualmente ocupa os nossos pensamentos. O caso
do Tirol é da maior significação porque indica a tensão do mo­
mento, pois aí Herr Hitler resolveu fazer uma coisa que lhe deve

215
ter causado um penoso esfôrço, a fim de se certificar de seus alia­
dos italianos. Todos êsses sinais são terrivelmente significativos.
Da mesma forma, por nosso lado e entre os aliados, há grandes
preparativos. A esquadra está mobilizada em grande parte. Con-
gratulamo-nos com o govêmo pela medida oportuna que tomou e
apoiamo-lo nisso. Temos em exercício tantos homens quantos os
acampamentos comportam e os artilheiros dos canhões anti-aéreos
estão em seus postos. Será êste, pois, o momento em que nos deva-/
mos separar e declarar que continuaremos separados até 3 de ou­
tubro? Quem duvida de que está em elaboração uma suprema ten­
tativa armada? Neste momento de sua longa história, seria desajs-
troso, seria patético, seria vergonhoso para a Câmara dos Comuns
interromper sua atividade como fator eficaz e potente que é ou
reduzir a fôrça que poderá oferecer contra a agressão.
Depois, perguntam-nos, naturalmente: “Confiais no primeiro-
-ministro?” Os chefes das duas oposições tiveram a franqueza de di­
zer claramente que não confiam nêle, mas essa não é a posição de
alguns dos que tão desejosos estão de que se chegue a um acôrdo
pelo qual o Parlamento não renuncie por completo à existência
durante tanto tempo. Essa não é a posição adotada por nós dêste
lado da Câmara. Por mim, aceito o que o primeiro-ministro diz e,
quando êle faz declarações públicas solenes, acredito que envidará
tudo quanto fôr possível para cumprir o que promete. Confio na
sua boa-fé em todos os sentidos, mas isso não resolve realmente
tôda a questão. Pode ser que a sua boa-fé não esteja em jôgo, tanto
no que se refere à interrupção dos trabalhos da Câmara como em
outros assuntos, mas pode haver uma diferença de juízo. Uso a
palavra “juízo” com um pouco de temeridade, porque algum tem­
po atrás, meu ilustre amigo me censurou por êsse meu evidente
defeito. Não tenho examinado as suas declarações com qualquer
parcela de espírito capcioso e não analisarei a que fêz esta tarde,
mas é perfeitamente evidente que o juízo que o primeiro-ministro
viesse a formar a respeito do desenrolar dos acontecimentos seria
um tópico legítimo e natural de debate.
Tomemos, por exemplo, uma questão recentíssima — a ques­
tão de Dantzig. O chefe do Partido Trabalhista expôs a gravidade
da situação em Dantzig, e meu honrado amigo disse que os fatos
estavam sendo exagerados. Isso foi apenas há dois dias, mas agora
lemos em The Times que a gazeta oficial da Polônia fêz uma de­
claração sôbre o que está acontecendo em Dantzig, declaração

216
que vai muito além da do chefe do Partido Trabalhista, que meu
ilustre amigo, o primeiro-ministro, achou exagerada. Poderá, pois,
como fica demonstrado, haver diferenças, diferenças perfeitamen­
te naturais, e por causa destas diferenças que surgem entre ho­
mens empenhados na mesma política, é que seria aconselhável hou­
vesse, de vez em quando, um intercâmbio de opinião na Câmara
dos Comuns. Seria uma coisa grave — espero não a ouvir — o
govêrno dizer à Câmara: “Ide! Ide divertir-vos. Levai convosco
as máscaras contra gases. Não vos preocupeis com os negócios pú­
blicos. Deixai-os a cargo dos talentosos e experimentados minis­
tros”, os quais, afinal de contas, no que se refere à nossa defesa,
nos colocaram onde nos encontrávamos em setembro do ano pas­
sado, e nos conduziram, em matéria de política exterior, ao ponto
de sermos obrigados a garantir a Polônia e a Romênia, depois de
havermos perdido a Tchecoslováquia e sem têrmos conquistado
o favor da Rússia. Trata-se, pois, de uma proposta grave, irracio­
nal e absurda. Por mim, esperava que o meu ilustre amigo tomasse
exatamente o ponto de vista opôsto e que os papéis fôssem inver­
tidos. Esperaria vê-lo vir à Câmara e, dessa tribuna, assumindo um
ar de excepcional gravidade, dizer que lamentava dever apelar para
a boa vontade e a paciência da Câmara e para o seu espírito cívico,
mas as circunstâncias eram tais que êle não podia suportar tôda a
responsabilidade durante meses seguidos, sem recorrer à opinião
dos Comuns e reconhecer que, por conseguinte, devia pedir à Câ­
mara que voltasse freqüentes vêzes durante as férias. Então, seria
a vez da oposição dizer: “É claro que o pedido é muito grave, mas,
se o primeiro-ministro acha que isso é necessário para executar a
política com a qual concordamos, será nosso dever atender ao seu
pedido.”
Não seria, por exemplo, razoável voltarmos dentro de um
período de três semanas, antes do fim de agôsto, afim de ver
se podíamos chegar a um acôrdo completo? Acharia conveniente
adiarmos os trabalhos por uma quinzena ou três semanas, a contar
de agora. É claro que não vamos pedir a ninguém que fique aqui
dia e noite. Seria demasiado rigoroso. Lord Balfour costumava
dizer que êste é um mundo singularmente mal engendrado, mas
que, afinal de contas, não é tão mal engendrado assim. Desejo
apoiar o argumento exposto de que não será nada fácil convocar
o Parlamento uma vez disperso. A razão é que os acontecimentos
mudam de dia para dia e é difícil dizer em que altura será preciso

217
convocar o Parlamento. Além disso, convocar o Parlamento, nas
atuais circunstâncias, denotará uma situação da mais grave emer­
gência, visto a esquadra já estar mobilizada. Convocar o Parla­
mento significará, com tôdas as probabilidades, algum aconteci­
mento que nos coloca diante da decisão suprema.
Entendo que seria previdente e seguro estabelecer-se um dia,
em fins de agôsto, para que todos os membros da Câmara estives­
sem à disposição do primeiro-ministro. Poderia marcar-se o dia
22, o dia 25 de agôsto ou qualquer outra data e, então, se tudo
corresse bem, poucas pessoas precisariam comparecer. Os minis­
tros não teriam necessidade de comparecer. Afinal de contas, esta­
mos todos no mesmo barco. Tenho notado nestes bancos uma
espécie de disposição para tentar resolver êste assunto obedecendo
aos ditames da lealdade ordinária ao Partido, mas nós não vamos
resolver estas questões baseados em lealdades a partidos e chamai
impatriota todo aquêle que discordar de nós. Se uma atmosfera
assim fôsse criada, ela seria, tenho certeza, absolutamente des­
truída pelo país.
Sou muito sensível à atmosfera da Câmara, mas creio que
neste momento devemos todos nos esforçar pela união geral e não
imaginarmos que os outros deixarão de dizer o que entendem em
qualquer ocasião, porque isso provocará impopularidade ou por­
que há uma espécie de má vontade organizada contra êles. Creio
que seria uma medida muito sábia e prudente, sob o ponto de
vista da administração nacional, têrmos esta data à nossa dispo­
sição, caso seja necessária a reunião do Parlamento. Se não, passar-
-se-ia por alto como uma formalidade desnecessária. Sugiro e
espero que isto seja estudado maduramente pelo meu ilustre amigo.
Só uma coisa mais desejo dizer e é na forma de um apêlo
ao meu ilustre amigo. Numa eleição recente, êle escreveu uma
carta — ao eleitorado de Monmouthshire, creio — fazendo um
apêlo a favor da unificação nacional. Que significa unificação
nacional? Significa que todos façam razoáveis sacrifícios de opi­
niões partidárias e pessoais, bem como de interêsses de partido,
afim de contribuírem para a segurança nacional. Eis uma oportu­
nidade para meu honrado amigo fazer uma importante concessão,
a fim de se colocar em melhores relações com as fôrças do país que
estão fora das fileiras de seus numerosos e fiéis adeptos. Êste não
é momento para a Câmara se separar com censuras e diferenças
de opinião. Ao contrário, deveríamos nos separar como amigos

218
que enfrentam problemas comuns e decididos a nos ajudar uns aos
outros na medida do possível. Espero, com efeito, que o meu ilustre
amigo não se recusará, pelo menos neste momento, a tomar em
consideração a opinião de tôda a Câmara, inclusive as minorias
da Câmara e, se ela quiser reunir-se de nôvo no fim do mês, se
esforce por concordar com isso. Se assim proceder, estará pres­
tando um grande serviço ao seu país, porque êste país não poderá
ser guiado através das atuais dificuldades senão pelo chefe do
Partido Conservador, e o chefe do Partido Conservador nunca
será escolhido por qualquer outro grupo que não seja êsse mesmo
partido. Ê, por conseguinte, necessário que êle faça o máximo
que estiver ao seu alcance para conciliar outras opiniões, agora
tão grandemente alheadas, e assim se tomar o verdadeiro chefe
da nação unificada em um só todo, integrada em tôdas as suas
fôrças e energias.

219
A EUROPA EM EXPECTATIVA

M ensagem a o p o v o dos E sta d o s U n id o s da A m é r ic a do


N o r t e , a tr a v é s do r á d io .
8 d e a g ô sto d e 1939

Meados de julho
a 1 de agôsto. Sob vários disfarces, a Alemanha introduz tropas
na Cidade Livre de Dantzig.
Agôsto, 3. Sir Thomas Inskip diz: A guerra hoje não só é
inevitável, mas é até improvável. O govêrno tem
boas razões para assim dizer
Agôsto, 6. São notificados os funcionários aduaneiros polo­
neses da fronteira oriental prussiana de Dantzig
que não podem continuar a desempenhar suas
funções. O comissário geral polonês em Dantzig
insiste em que êsses funcionários devem conti­
nuar em seus postos e a medida é suspensa por
tempo indeterminado. Herr Foerster, “gauleiter”
de Dantzig, vai a Berchtesgaden receber instru­
ções.

/■

E poca de férias, senhoras e senhores! Férias, meus amigos


do outro lado do Atlântico! Férias, quando o verão convida os
trabalhadores de todos os países a um brevíssimo repouso fora

221
dos escritórios, das fábricas, da rígida rotina da vida diária, do
ganha-pão, e os manda procurar, senão descanso, pelo menos mu­
dança, num meio diferente, a fim de, reanimados, poderem conser­
var as miríades de rodas da sociedade civilizada em movimento.
Olhemos o passado.. . vejamos! Como passamos as nossas
férias de verão vinte e cinco anos atrás? Essas férias coincidiram
justamente com os dias em que as guardas avançadas alemãs
estavam entrando na Bélgica, atropelando a população, em sua
marcha sôbre Paris. Foi nos dias em que o militarismo prussiano
— para citar a sua própria frase — “abria caminho a machado
através de um pequeno e fraco país vizinho”, cuja neutralidade
e independência a Alemanha jurara não só respeitar, mas ainda
defender.
Mas talvez estejamos enganados. Talvez a nossa memória
nos iluda. Herr Goebbels e sua máquina de propaganda têm uma
versão própria do que aconteceu há vinte e cinco anos. Ouvindo-os
falar, suporíamos que foi a Bélgica que invadiu a Alemanha! Lá
estavam aquêles pacíficos prussianos fazendo as suas; colheitas,
quando a malvada Bélgica — armada e industriada pela Inglaterra
e pelos judeus — caiu sôbre êles e certamente teria atingido Ber­
lim, se o sargento Adolf Hitler não chegasse a tempo pára salvar
a capital alemã e inverter a sorte da guerra. Com efeito, a lenda
vai mais longe ainda. Após quatro anos de guerra na terra e no
mar, quando os alemães estavam prestes a obter uma vitória esma­
gadora, os judeus novamente os atacaram, desta vez pelas costas.
Armados com os quatorze princípios do presidente Wilson, dizem-
-nos, apunhalaram os exércitos alemães pelas costas, obrigaram-
-nos a pedir um armistício e chegaram mesmo a persuadi-los, num
momento de distração, a assinar um papel declarando que tinham
sido êles e não os belgas que começaram a guerra. Tal é a história
que êles contam.
E agora estamos em férias novamente. Onde nos encontra­
mos? Ou como vós nos Estados Unidos perguntais algumas vêzes:
para onde iremos? Sôbre tôda a Europa, não! sôbre o mundo intei­
ro paira um silêncio de expectativa, que é alterado apenas pelo
baque surdo das bombas japonêsas caindo em cidades chinesas,
em universidades chinesas ou em volta de navios inglêses e ameri­
canos. Mas a China está muito longe... por que nos preocupar­
mos? Os chineses lutam pelo que os fundadores da Constituição
Americana, em sua imponente linguagem chamaram “vida, liber­

222
r

dade e busca da felicidade”. E parece que lutam bem. Muitos julga­


dores autorizados acham que êles vão ganhar. Enfim, desejemos-
lhes felicidades! Enviemos-lhes uma onda de estímulo como fêz
o vosso presidente, na semana passada, quando deu parte do venci­
mento do tratado comercial. Afinal de contas, os sacrificados chi­
neses estão empenhados na nossa luta — a luta da Democracia.
Estão defendendo o solo, a boa terra, que é sua desde o alvorecer
dos tempos, contra a agressão cruel, não provocada. Enviemos-
lhes uma palavra de solidariedade através do oceano, pois ninguém
sabe a quem caberá a próxima vez. Se êste hábito da ditadura
militar entrar em outras terras e, com bombas, granadas e balas,
roubando bens e matando os proprietários, atingir um raio de ação
demasiado amplo, talvez não possamos pensar em férias de verão
durante muito tempo.
Mas, voltando ao silêncio, que eu disse pairava sôbre a
Europa.. . que espécie de silêncio é êste? Ai de mim! é o silêncio
da expectativa e, em muitas terras, é o silêncio do mêdo. Escutai!
Sim, escutai atentamente. Creio ouvir alguma coisa... De fato,
é perfeitamente perceptível. Não ouvis? É o tropel dos exércitos
esmagando o cascalho dos campos de exercício, chapinhando atra­
vés de terrenos alagadiços — o tropel de dois milhões de soldados
alemães e mais de um milhão de italianos. . . “em manobras” . ..
sim, apenas em manobras! Naturalmente, são apenas manobras. . .
como no ano passado. Afinal de contas, os ditadores precisam ades­
trar os seus soldados. Assim o reclama a necessária prudência,
quando os dinamarqueses, os holandeses, os suíços e os albaneses
e, naturalmente, os judeus, podem cair sôbre êles a qualquer mo­
mento, roubar-lhes o seu espaço vital e obrigá-los a assinar outro
papel dizendo quem começou a luta. Além disso, os exércitos
alemães e italianos talvez venham a ter outro trabalho de liber­
tação a realizar. Só no ano passado puderam libertar a Áustria
dos horrores de um govêmo autônomo. Só em março puderam
libertar a República da Tchecoslováquia da miséria da existência
independente. Só há dois anos o Signor Mussolini pôde dar ao
antigo Reino da Abissínia a sua Magna Carta. Há apenas dois
meses que a pequena Albânia obteve o seu mandado de Habeas
Corpus e Mussolini mandou sua “Conta de Direitos” para o rei
Zogu pagar. O ra .. . neste mesmo momento, os montanheses do
Tirol — uma população de língua alemã, que habita êsses belos
vales há um milhar de anos — estão sendo libertados, ou seja,

223
desenraizados da terra que amam, do solo que Andreas Hofer
defendeu com a própria vida. Não admira que os exércitos mar­
chem, quando há tanta libertação a realizar, nem admira que paire
um silêncio de expectativa sôbre os vizinhos da Alemanha e da
Itália, enquanto se perguntam qual dêles será “libertado” a seguir.
Os nazistas dizem que estão sendo cercados. Êles próprios
se cercaram de um anel de vizinhos, cujo pensamento predomi­
nante é o de tentar advinhar qual dêles será atacado primeiro.
Esta espécie de jôgpde advinhação é muito fatigante. E as nações,
especialmente as nações pequenas, há munito deixaram de apre­
ciá-lo. É natural que os vizinhos da Alemanha, grandes e pequenos,
tenham começado a pensar em acabar com o jôgo, dizendo sim­
plesmente aos nazistas, baseando-se nos princípios do Convênio
da Liga das Nações: “Aquêle que atacar um atacará atodos. O
que atacar o mais fraco verificará que atacou o mais forte.” Assim
é que estamos passando as nossas férias aqui, com mau tempo e
uma porção de nuvens. Esperamos que as vossas aí sejam melhores.
Uma coisa me tem chocado pela sua estranhelza. É o ressur­
gimento do poder de um só homem, depois de todòs êstes séculos
de experiência e progresso. É curioso como os povos de língua
inglêsa sempre tiveram horror ao poder pessoal, absoluto. Êles
estão perfeitamente dispostos a seguir um chefe por algum tempo,
enquanto o considerarem útil, mas a idéia de se entregarem de
corpo e alma a um só homem, adorando-o como se fôsse um ídolo,
isso foi sempre odioso, inadmissível em uma civilização como a
nossa. Os arquitetos da Constituição Americana tiveram tanto cui­
dado como os que formularam a Constituição Inglêsa de se defen­
der contra a possibilidade de que a vida e bens, as leis e a liber­
dade da nação, caíssem nas mãos de um tirano. Exames repetidos
do corpo político, instrumentos e processos de livre debate, recurso
freqüente aos princípios básicos, direito de oposição aos governos
e, sobretudo, uma vigilância incessante, preservaram e preservarão
as amplas características das instituições inglêsa e americana. Mas
na Alemanha, no cimo do poder, está um homem que, num só dia,
poderá libertar o mundo do terror que o oprime, ou mergulhar
tudo o que temos e somos num vulcão de fumo e chamas.
Se Herr Hitler não fizer a guerra, não haverá guerra. Nin­
guém fará guerra. A Inglaterra e a França estão decididas a não
derramar sangue senão em legítima defesa ou em defesa de seus
aliados. Ninguém pensou jamais em atacar a Alemanha. Se a Ale­

224
manha quiser certificar-se de que não será atacada por seus vizi­
nhos, terá apenas de dizer uma palavra, e dar-lhe-emos as mais
amplas garantias, de acôrdo com os princípios do Convênio da
Liga. Temos dito repetidamente que nada pedimos para nós mes­
mos, no sentido de segurança, que não estejamos dispostos a par­
tilhar livremente com o povo alemão. Por conseguinte, se a guerra
vier, não poderá haver dúvida sôbre cuja cabeça cairá o sangue
das vítimas. É nesses têrmos que se acha a grande questão neste
momento e ninguém sabe como será resolvida.
Não é — podeis acreditar, meus amigos americanos — pov
um ignóbil temor do sofrimento e da morte que os povos inglês
e francês oram pela paz. Não é porque tenhamos qualquer dúvida
sôbre como terminaria uma luta entre a Alemanha nazista e o
mundo civilizado, que esta noite e tôdas as noites oramos pela
paz. Mas, que tenhamos paz ou guerra — paz, com a sua cres­
cente e maravilhosa prosperidade, agora ao alcance de todos nós,
ou guerra, com a sua imensurável carnificina e destruição, —
devemos todos nos esforçar por formar algum sistema de relações
humanas no futuro, que ponha um fim a esta longa e horrenda
incerteza, permitindo que as fôrças laboriosas e criadoras do mun­
do voltem às suas tarefas e nunca mais a humanidade fique depen­
dente das virtudes, dos caprichos ou da perversidade de um único
homem.

225
GUERRA

D isc u r so C â m a r a d os C o m u n s .
p r o f e r id o n a
3 DE SETEMBRO DE 1939

Agôsto, 10. Falando a manifestantes antipoloneses, em


Dantzig, Herr Foerster diz que a Polônia quer
anexar tôda a Prússia Oriental e “esmagar a
Alemanha numa guerra sangrenta”.
Agôsto, 13. O Sr. Burkhardt, comissário de Dantzig à Liga
das Nações, ê convidado por Herr Hitler para
uma conferência em Berchtesgaden.
Agôsto, 13. O Sr. Churchill visita a Linha Maginot a con­
vite do estado-maior francês.
Agôsto, 22. Herr von Ribbentrop vai a Moscou assinar um
pacto de não-agressão entre a Alemanha e a
Rússia Soviética.
Agôsto, 23. O rei Leopoldo irradia um apêlo de paz.
Agôsto, 24. Em Moscou, Herr von Ribbentrop e o Sr. Mólo-
toff assinam o pacto russo-alemão.
O Parlamento aprova a lei de podêres de emer­
gência.
O Papa irradia uma “mensagem paternal ao
mundo”, apelando para a paz. O presidente
Roosevelt apela para o rei da Itália, a fim de
que ajude a manter a paz.

227
Agôsto, 25. É assinado em Londres o Tratado de Assistência
Mútua Anglo-Polonês. O presidente Roosevelt
envia dois apêlos a Herr Hitler. Herr Hitler can­
cela as comemorações de Tannenberg.
Agôsto, 27. Herr Hitler recusa-se a atender ao pedido do
Sr. Daladier para que se faça mais uma tenta­
tiva de negociação entre a Alemanha e a Polônia
e afirma que Dantzig e o Corredor devem voltar
ao Reich.
Agôsto, 28. Sir Nevile Henderson volta de avião a Berlim
com a resposta do govêrno britânico. A França
fecha a fronteira com a Alemanha.
Agôsto, 29. A rainha Guilhermina e o rei Leopoldo ofere­
cem-se como mediadores. A Alemanha acaba
de ocupar a Eslováquia.
Agôsto, 30. O govêrno britânico responde em termos irre-
conciliáveis a nova nota de Herr Hitler. j
Agôsto, 31. A Alemanha irradia um plano de 16 cláusulas
para resolver a questão com a Polônia. Ò Papa
apela para uma trégua.
Setembro, 1. A Alemanha invade a Polônia sem declaração
de guerra.
Herr Foerster anuncia a volta de Dantzig ao
Reich. O Parlamento aprova um crédito de
emergência de 500 milhões de libras. Os embai­
xadores francês e inglês em Berlim recebem
instruções para notificar o govêrno alemão de
que, se as tropas alemãs não forem retiradas
imediatamente da Polônia, a Inglaterra e a
França cumprirão as obrigações de seu tratado.
Setembro, 3. A Inglaterra apresenta um ultimato de duas
horas à Alemanha, o qual expira às 11 da manhã.
Às 11,15 a Grã-Bretanha declara guerra à Ale­
manha. A França declara guerra às 5 da tarde.
É nomeado o Gabinete de Guerra, com o Sr.
Churchill como primeiro Lord do Almirantado.
O Sr. Eden volta ao govêrno, como secretário de
Estado dos Domínios.

228
N esta hora solene, é uma consolação recordar todos os
nossos esforços a favor da paz. Todos foram malogrados, mas
todos eram leais e sinceros. Isto.é do mais elevado valor moral —
e não só valor moral, mas valor prático — no presente momento,
porque o concurso animoso e sincero de milhões de homens e mu­
lheres, cuja cooperação, boa vontade e fraternidade são indispen-
sáveis, é o único esteio a que poderemos nos apoiar para suportar
e vencer as provas e as atribulações da guerra moderna. Só dessa
fôrça moral resulta o milagre que renova continuamente a energia
do povo em longos dias duvidosos e sombrios. Fora, podem soprar
as tempestades da guerra, mas em nossos corações, nesta manhã
de domingo, há paz. As mãos poderão estar em atividade, mas
as nossas consciências estão em repouso.
Não devemos depreciar a tarefa que temos diante de nós
ou a temeridade da prova, à qual não seremos inferiores. Devemos
esperar muitas desilusões e muitas surprêsas desagradáveis, mas
podemos estar certos de que a tarefa que aceitamos espontânea-
mente não está acima da capacidade do Império Britânico e da
República Francesa. O primeiro ministro disse que êste era um
dia triste, e isso é realmente verdade. Mas, no presente momento,
outra nota acompanha a nota de tristeza: é um sentimento de
gratidão por vermos que, no momento em que estas grandes pro­
vações caem sôbre a nossa ilha, há aqui uma geração de bretões
disposta a provar que não é indigna dos dias de antanho, nem
daqueles grandes homens, dos pais da Pátria, que lançaram os
fundamentos das nossas leis e deram forma à grandeza de nosso
país.
Não se trata aqui de lutar por Dantzig ou pela Polônia. A
nossa luta é para salvar o mundo inteiro da pestilência e da tirania
nazista, para defender tudo o que é mais caro ao homem. Não
se trata de uma guerra pelo predomínio, engrandecimento impe­
rial ou ganho material. Não é uma guerra para privar qualquer
país da luz do sol e dos meios de progresso. Ê uma guerra que se
destina tão-sòmente a estabelecer, em rochedos inexpugnáveis, os
direitos do indivíduo. É uma guerra para evitar o amesquinha-
mento e restaurar a estatura do homem. Talvez pareça paradoxal
que uma guerra empreendida em nome da liberdade e do direito
deva exigir, como parte necessária para o seu prosseguimento, a
renúncia, por tempo indeterminado, tantos dos direitos e liber-

229
dades que nos são mais caros. Nestes dias mais recentes, a Câmara
dos Comuns votou a favor de dúzias de decretos que colocam nas
mãos do Executivo as nossas liberdades tradicionais mais preza­
das. Estamos certos, porém, de que estas liberdades ficarão em
poder de pessoas que não abusarão delas, que não as utilizarão
para fins de classe ou de partido, que as custodiarão com carinho.
Por isso mesmo, aguardamos o dia, sim, aguardamos, seguros e
confiantes, o dia em que essas liberdades e direitos nos serão
devolvidos e poderemos partilhá-los com os povos para os quais
essas bênçãos neste instante são desconhecidas.

230
O PRIMEIRO MÊS DE GUERRA

D is c u r s o p r o f e r id o p e l o r á d io .
I 9 DE OUTUBRO DE 1 9 3 9

Setembro, 5. O Exército Alemão corta o Corredor Polonês.


Setembro, 7. A guarnição polonesa de Westerplatte, fora de
Dantzig, rende-se, depois de heróica resistência.
Setembro, 9. O Gabinete de Guerra anuncia que os seus pre­
parativos serão baseados na previsão de uma
guerra de três anos. O Canadá declara guerra à
Alemanha.
Setembro, 11. Anuncia-se que as Fôrças Expedicionárias Bri­
tânicas chegaram à França.
Setembro, 17. A Rússia invade a Polônia. O Exército Polonês
é destroçado. Os alemães mandam um ultimato
de 12 horas a Varsóvia.
Setembro, 18. O “Courageous”, navio porta-aviões britânico, é
torpedeado e pôsto a pique. Os exércitos russo e
alemão encontram-se em Brest-Litovsk. O govêr­
no polonês entra na Romênia.
Setembro, 21. O general von Fritsch é morto na frente polo­
nesa.

231
Setembro, 22. A Alemanha e a Rússia anunciam a partilha da
Polônia.
Varsóvia ainda resiste.
Setembro, 27. Varsóvia capitula. Sir. John Simon apresenta o
primeiro orçamento de guerra.

JH az esta noite um mês que o Império Britânico e a Repú­


blica Francesa estão em guerra com a Alemanha. Estamos muito
longe de ter chegado às rudes lutas que devemos esperar. Mas, já
aconteceram três coisas importantes.
Primeiro, a Polônia foi de nôvo invadida pelas duas grande^
potências que a mantiveram em escravidão durante 150 anos, irias
não foram capazes de extinguir o espírito nacional polonês. A/he­
róica defesa de Varsóvia mostra que a alma da Polônia é indestru­
tível e que surgirá de nôvo como um rochedo que, por um momen­
to, ficou submerso sob uma onda de maré, mas continua sendo um
rochedo.
Qual é o segundo acontecimento dêste primeiro mês? É,
naturalmente, a afirmação do poder da Rússia. A Rússia prosse­
gue em sua política de interêsse próprio. Seria de desejar que os
exércitos russos ocupassem a atual linha como amigos e aliados
da Polônia e não como invasores. Mas era, evidentemente, necessá­
rio que os exércitos russos estivessem nessa linha para segurança
da Rússia contra a ameaça nazista. De qualquer maneira, a linha
aí está, formando uma Frente Oriental que a Alemanha nazista
não ousa assaltar. Quando, na semana passada, Herr von Ribben-
trop visitou Moscou a chamado do govêrno soviético, foi para saber
e aceitar que as pretensões nazistas relativamente às Nações do
Báltico e à Ucrânia deveriam cessar definitivamente.
É impossível vaticinar a ação da Rússia. Trata-se de uma
adivinhação envolta num mistério, de um enigma dentro de outro
enigma: mas talvez haja uma chave. A chave é o interêsse nacio­
nal russo. Não pode estar de acôrdo com o interêsse e a segurança
da Rússia que a Alemanha ponha os pés nas costas do Mar Ne­
gro ou invada os Estados balcânicos e subjugue os povos eslavos
da Europa Sul-Oriental. Isso seria contrário aos interêsses vitais
e históricos da Rússia.

232
Mas neste canto do mundo — o Sudeste da Europa — os
interêsses da Rússia coincidem com os da Inglaterra e da França.
Nenhuma destas três potências poderá conformar-se ao ver a Ro­
mênia, a Iugoslávia, a Bulgária e, acima de tudo, a Turquia, sob
o tacão germânico. Através dos nevoeiros da confusão e da incer­
teza, podemos discernir perfeitamente a comunidade de interêsses
existentes entre a Inglaterra, a França e a Rússia — comunidade
de interêsse sem evitar que os nazistas propaguem as chamas da
guerra até os Bálcãs e a Turquia. Assim meus amigos, com al­
gum risco de que os acontecimentos provem o contrário, procla­
marei esta noite a minha convicção de que o segundo grande acon­
tecimento do primeiro mês de guerra é que Herr Hitler — e tudo
aquilo que Herr Hitler representa — foi e está sendo advertido
de que não deverá desviar suas vistas para o Leste e Sudeste da
Europa.
Qual é o terceiro acontecimento? Falo sôbre êste ponto com
especial cautela, como primeiro Lord do Almirantado. Parece-me
que, até agora, o ataque dos submarinos à vida das Ilhas Britâ­
nicas ainda não foi bem sucedido. É verdade que, quando caíram
sôbre nós e continuamos os nossos negócios ordinários, com dois
mil navios em movimento constante nos mares, conseguiram fazer
alguns estragos graves. Mas a Marinha Real atacou imediatamente
os submarinos e agora persegue-os noite e dia — não direi sem
misericórdia, porque Deus nos livre de perder êsse sentimento,
mas, de qualquer maneira, com zêlo e não inteiramente sem encar-
niçamento. E parece que agora são os submarinos que estão sen­
tindo os efeitos da guerra e não a Marinha Real ou o comércio
mundial da Grã-Bretanha. Uma semana se passou sem que um
único navio, só ou um comboio, fôsse afundado ou sequer mo­
lestado por um submarino em alto-mar. E durante o primeiro mês
de guerra foi capturado, pelo nosso eficiente controle de contra­
bando, e para nosso benefício, um excesso de 150.000 toneladas
de mercadorias alemãs — mantimentos, petróleo, minerais e
outras utilidades — sôbre o que perdemos, com todos os afunda­
mentos juntos causados por submarinos. Com efeito, até o pre­
sente, — notai bem que não faço promessas (devemos falar de
atos e não de promessas) — até o presente obtivemos 150.000 to­
neladas de mantimentos muito convenientes para esta ilha, ou seja,
mais do que teríamos importado, se não fôsse a guerra. Esta pa­

233
rece ser uma realidade muito sólida e tangível, que emergiu do
primeiro mês de guerra contra o nazismo.
Alegam os alemães que os seus submarinos voltaram todos
às bases, a fim de darem parte ao seu amo de seus feitos e expe­
riências. Mas isso não é verdade, porque diàriamente os estamos
atacando nas costas das Ilbas Britânicas. Alguns sem dúvida pre­
feriram distanciar-se para ir afundar os navios neutros desprote­
gidos da Noruega e da Suécia. Espero que virá o dia em que o
Almirantado poderá convidar os navios de tôdas as nações a se
juntarem aos comboios britânicos e assim garantir as suas viagens,
a um preço razoável. Naturalmente, devemos esperar que o ataque
dos submarinos ao comércio marítimo do mundo seja renovada
em breve com maior vigor. Esperamos, entretanto, que, nos fiús
de outubro, teremos em ação o triplo dos navios “caças” que tí­
nhamos no comêço da guerra e esperamos que, pelas medidas
que temos tomado, os nossos meios de acabar com esta peste au­
mentarão continuamente. Posso assegurar-vos que temos dado e
estamos dando a máxima atenção a isto.
Assim, somando os resultados do primeiro mês, direi que a
Polônia foi invadida, mas ressurgirá; que a Rússia advertiu a
Hitler de que deveria esquecer os seus sonhos orientais e que os
submarinos poderão ser deixados inteiramente aos cuidados da
ação constante da Marinha Britânica.
E agora desejo falar sôbre o que está acontecendo nesta ilha.
Quando uma democracia pacífica se vê subitamente obrigada a
lutar pela sua vida, é razoável que haja uma série de perturbações
e dificuldades no processo de mudança da paz para a guerra. Sin­
to vivamente por êsses milhares e milhares de homens que desejam
atirar-se à luta imediatamente, mas para os quais não podemos
encontrar aplicação presentemente. Mas isto será resolvido. O go­
vêrno de Sua Majestade está unido na resolução de fazer o máxi­
mo de que a nação inglêsa é capaz e a continuar, aconteça o que
acontecer, até obter a vitória decisiva. Entrementes, todos os pa­
triotas, homens e mulheres, especialmente os que compreendem as
elevadas causas em jôgo atualmente, devem não só elevar-se acima
do mêdo, mas também acima da inconveniência e talvez, o que
é mais difícil que tudo, acima do tédio. O Parlamento continuará
em sessão e tôdas as injustiças, confusões ou escândalos, se os hou­
ver, nêle poderão ser ventilados ou expostos livremente. Em tem­
pos passados, a Câmara provou ser um instrumento da fôrça de

234
r

vontade nacional, capaz de fazer guerras severas. O Parlamento


é o abrigo e a expressão da democracia e os ministros da Coroa
estribam-se no sistema parlamentar. Vistes o poder do Parlamento
manifestado na semana passada, quando um gigantesco orçamen­
to — um orçamento que teria enfurecido todo o mundo um ano
atrás — foi aceito com imediata e impassível resolução.
Noutros terrenos, nosso trabalho prossegue. Já um grande
exército foi enviado para a França. Estão sendo preparados exér­
citos britânicos na escala do nosso esfôrço da Grande Guerra. O
povo britânico está decidido a colocar-se em linha ao lado do
esplêndido exército da República Francesa e enfrentar com êle,
o mais breve que pudermos, todos os perigos que surgirem contra
nós ambos. É possível que grandes males venham do ar sôbre
esta ilha. Faremos tudo o que estiver em nós para bem desempe­
nhar a nossa tarefa e devemos lembrar-nos sempre de que o do­
mínio dos mares nos permitirá pôr em ação os imensos recursos
do Canadá e do Nôvo Mundo, como último fator, um fator deci­
sivo e poderoso.
O govêmo recebeu instruções para se preparar para uma
guerra de três anos, pelo menos. Isto não significa que a vitória
não possa ser ganha num período mais curto. Dependerá do tem­
po que Herr Hitler e seus perversos sequazes, cujas mãos estão
tintas de sangue e conspurcadas pela corrupção, puderem conser­
var o seu domínio sôbre o dócil e infeliz povo alemão. Coube a
Herr Hitler dizer quando a guerra deveria começar; mas não ca­
berá a êle ou a seus sucessores dizer quando terminará. A guerra
começou quando êle quis, mas só terminará quando nós estivermos
convencidos de que êle recebeu o que merecia.
O primeiro-ministro já expôs os nossos objetivos de guerra
em têrmos que não é possível melhor apresentar. Estas são pala­
vras suas: “Devemos redimir a Europa do perpétuo e renovado
mêdo da agressão alemã e permitir que os povos europeus preser­
vem a sua independência e as suas liberdades.”
Eis a razão pela qual as nações inglêsa e francesa lutam.
Quantam vêzes nos têm dito que somos as Democracias esgotadas,
cujos dias estão contados e devemos ser substituídos por novas
formas de ditaduras viris e despotismo totalitário? Não há dúvida
de que, no comêço, sofreremos por têrmos há tanto tempo queri­
do levar uma vida pacífica. A nossa relutância em lutar foi obje­
to de zombaria e apodada de covarde. O nosso desejo de ver um

235
1

mundo desarmado foi considerado uma prova da nossa decadên­


cia. Agora, começamos. Agora, prosseguiremos. Agora, com a
ajuda de Deus e com a convicção de que somos defensores da
civilização e da liberdade, iremos até o fim.
Afinal de contas, a Grã-Bretanha e a França juntas contam
oitenta e cinco milhões de homens, sem contar os domínios e co­
lônias. Estão unidas numa causa. Estão convencidas do seu dever.
O nazismo, com todo o seu poder tirânico, não controla mais do
que isso. Também êle conta oitenta e cinco milhões de homens.
Mas dêstes, pelo menos dezesseis milhões são tchecos, eslovacos
e austríacos recém-conquistados, que se contorcem sob um jugo
cruel e devem ser retidos à fôrça. E nós temos outros recursos.
Temos os oceanos e, com os oceanos, a segurança de que podere­
mos fazer cair, sôbre os pontos decisivos, todo o vasto poder la­
tente dos Impérios Britânico e Francês. Temos o apoio ardente e
espontâneo de vinte milhões de cidadãos britânicos nos domínios
do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia e da África do Sul.
Temos, creio, a convicção cordial e moral da Índia ao nosso lado.
E creio que temos direito ao respeito e boa vontade do mundo e,
particularmente, dos Estados Unidos.
Aqui me encontro no mesmo pôsto de vinte e cinco anos
atrás. Tempos negros à frente... mas quão diferente é a cena
atual da de outubro de 1914! Então a frente francesa, com o
exército inglês lutando ao seu lado na primeira linha, parecia
prestes a ceder sob o terrível choque do imperialismo germânico*
A Rússia fôra abatida em Tannenberg. Todo o poder do Império
Austro-Húngaro, os bravos e belicosos turcos estavam prestes a
reunir-se aos nossos inimigos. Tínhamos que estar preparados dia
e noite para uma batalha naval decisiva com uma formidável es­
quadra, em muitos sentidos quase igual à nossa. Encarávamos,
então, tôdas estas condições adversas: nada pior temos pela frente
esta noite.
Também naqueles dias de 1914, a Itália era neutra. Mas
nós não sabíamos a razão da sua neutralidade. Só mais tarde vie­
mos a saber que, por uma cláusula secreta do primeiro Tratado
da Tríplice Aliança, a Itália se tinha reservado o direito de ficar
alheia a qualquer guerra que a colocasse em conflito com a Grã-
Bretanha. Muita coisa tem acontecido desde então. Tem havido
desentendimentos e disputas, mas, por isso mesmo, apreciamos
ainda mais a razão pelo qual esta grande nação amiga, com a

236
qual nunca estivemos em guerra, não achou próprio entrar na
luta. Sem depreciar a importância do que temos pela frente, devo
dizer o seguinte: não posso duvidar de que possuímos fôrça sufi­
ciente para levar avante uma boa causa, para abater as barreiras
que se elevam entre as massas laboriosas de todo o mundo e essa
vida quotidiana, livre e abundante, que a ciência está prestes a pro-
• porcionar-lhes. Eis a minha convicção. Encontro na história do
passado muitas fontes de animação. De tôdas as guerras que os
homens têm feito em sua dura peregrinação através dos séculos,
nenhuma foi mais nobre do que a Guerra Civil da América, cêrca
de oitenta anos atrás. Ambas as partes lutavam com convicção
e a guerra foi longa e penosa. Com todo o seu heroísmo, o Sul
não pôde, porém, lavar a sua causa da mancha da escravidão,
da mesma forma que tôda a coragem e destreza, que os alemães
possam mostrar nesta guerra, não os livrará da pecha de nazistas,
com a sua intolerância e a sua brutalidade. Podemos recobrar
ânimo lembrando aquêle famoso período do século dezenove. Po­
demos ter a certeza de que o mundo marchará para a frente, rumo
a destinos melhores. Vem a propósito lembrar as palavras do velho
John Bright, pronunciadas, após a Guerra Civil americana, pe­
rante um auditório de trabalhadores inglêses: “Finalmente, de­
pois que o fumo do campo de batalha se dispersou, a horrenda for­
ma que projetara sua sombra sôbre o continente inteiro havia
desaparecido para sempre”.

237
A PERDA DO “ROYAL OAK” E A
GUERRA NO MAR

D is c u r so p r o f e r id o n a C â m a r a d os C o m u n s.
8 de novem bro de 1939

Setembro, 30. Presta juramento, em Paris, um nôvo govêrno


polonês, com o Sr. Raczkiewicz como presidente
e o general Sikorski como primeiro-ministro.
Outubro, 2. Começam a chegar notícias de navio corsário
alemão navegando nas águas do Atlântico Sul,
o qual é mais tarde identificado como o “Graf
Spee”.
Outubro, 6. Em discurso pronunciado no Reichstag, Herr
Hitler faz, em têrmos vagos, um “último ofereci­
mento de paz” aos aliados.
A Rússia pergunta à Finlândia se estaria prepa­
rada para mandar um enviado especial a Mos­
cou, a fim de discutir “diferenças”.
Outubro, 9. O navio americano “City of Flint” ê capturado
pelo encouraçado de bolso “Deutschland”.
Outubro, 10. A Finlândia envia o Dr. Paasikivi a Moscou e
faz preparativos para resistir, se necessário fôr.
Outubro, 14. O “Royal Oak” é pôsto a pique em Scapa Flow,
com perda de muitas vidas.

239
Outubro, 19. É assinado em Ankara um tratado de assistên­
cia mútua entre a Inglaterra, a França e a Tur­
quia.
Outubro, 23. Os delegados finlandeses voltam a Moscou para
uma segunda conferência.
Outubro, 27. Os Estados XJnidos revogam seu embargo de ar­
mas. O rei Leopoldo reitera a sua intenção de
permanecer neutro.
Novembro, 3. Em conferência no Kremlin, a Rússia reclama
oficialmente concessões territoriais da Finlândia.
Novembro, 4. O presidente Roosevelt assina a Lei da Neutra­
lidade Americana. O “City of Flint” chega a um
pôrto norueguês e é libertado.
Novembro, 7. A rainha Guilhermina e o rei Leopoldo fazem
nôvo apêlo a favor da paz.

P v stá agora confirmado que o “Royal Oak” foi pôsto a


pique às primeiras horas de 14 de outubro por um submarino
alemão que penetrou através das defesas do ancoradouro fecha­
do de Scapa Flow. Estas defesas eram de duas espécies: obstáculos
físicos, como rêdes, postes etc., e navios-fortes, pequenos navios de
patrulha, postados às diversas entradas ou estreitos, que são em
número de sete.
Nem os obstáculos físicos nem os navios de patrulha preen­
chiam as condições de fôrça e eficiência exigidas para a seguran­
ça absoluta do ancoradouro contra o ataque de um submarino à
superfície ou meio submerso em mar fundo. Já foram e estão
sendo tomadas medidas para melhorar os obstáculos físicos. O
último navio-forte exigido por êsse sistema defensivo só chegou
a Scapa Flow um dia depois do desastre. Por isso mesmo, enquan­
to estas defesas estivessem incompletas, era necessário que os na­
vios de patrulha fôssem particularmente mais numerosos. Mas, por
várias causas relacionadas com os movimentos da esquadra, que
no momento não estava utilizando o ancoradouro, o número dês-
tes navios de patrulha foi reduzido a menos do necessário. Não
poderei entrar em detalhes, porque uma explicação completa — e
nenhuma explicação vale muito, se não fôr completa — revelaria

240
ao inimigo aspectos que lançariam luz sôbre os nossos métodos de
defesa, luz esta que lhes desvendaria não só o passado, mas tam-
bém o futuro. Não seria conveniente discutir em público, em tem­
po de guerra, êsses assuntos íntimos de defesa naval, e é com tôda
a confiança que peço à Câmara que apoie o Almirantado nesta
decisão. Devo contentar-me com dizer que a longa e afamada in­
vulnerabilidade que, com suas correntes e defesas, Scapa Flow
conquistara na última guerra, havia conduzido a uma avaliação
errada da gravidade dos perigos atuais. Ambos, o Almirantado
e a Esquadra, se expuseram a um excessivo grau de risco neste
ponto. Ao mesmo tempo, devo observar que muitos riscos estão
sendo aceitos inevitàvelmente pelas esquadras e pelo Almirantado,
como parte da rotina regular de guardar os mares, e os riscos que
corremos inadvertidamente em Scapa Flow, a pessoas de elevada
competência e responsabilidade não pareciam maiores do que mui­
tos outros.
Não poderemos encontrar prova mais notável do extraordi­
nário senso de segurança contra submarinos que dominava todos
os espíritos em Scapa Flow do que no fato de, depois de um torpe­
do da primeira descarga ter atingido o “Royal Oak”, nenhum dos
vigilantes e experimentados oficiais conceber que pudesse ser um
torpedo. O perigo do ar foi o primeiro que se temeu e muitos ho­
mens da tripulação tomaram seus lugares nos postos antiaéreos
sob o couraçamento e foram vitimados, enquanto o capitão e o
almirante examinavam as possibilidades de uma explosão interna.
Foi nestas condições que teve lugar a segunda descarga de torpe­
dos. Assim pagamos o descuido com a perda de oitocentos valentes
oficiais e marinheiros e um navio que, embora muito velho, era
de inegável valor militar.
O inquérito que se fêz trouxe à nossa atenção todos os fatos
passíveis de conhecimento. O Almirantado, em quem repousa a
grande responsabilidade, está decidido a aprender bem esta amar­
ga lição, ou seja, que nesta nova guerra, com as suas muitas com­
plicações inéditas, nada deve ser tomado por certo; e que tôdas
as juntas da nossa armadura devem ser examinadas e reforçadas
na medida dos nossos recursos e engenho. Tenho estudado o as­
sunto com o máximo cuidado, estou resolvido a tomar tôdas as
medidas consideradas próprias e necessárias dentro do Serviço,
mas não tenciono proceder a um inquérito judicial para apurar as

241
culpas individuais. Um tal procedimento seria um fardo mais para
aquêles que, no mar ou em terra, estão empenhados numa luta
intensa e terrível e, muitos pensarão, inteiramente desesperada. É
nesta luta que todo o nosso pensamento e tôda a nossa fôrça devem
ser concentrados.
Durante esta fase inicial da guerra, a Marinha Real sofreu
maior perda de vidas do que tôdas as outras fôrças de terra, mar
e ar combinadas, francesas e inglêsas. Tôdas as perdas que nos
foram infligidas pelo inimigo tiveram publicidade imediata. Além
disso, desde que a guerra estalou, um dos nossos submarinos, o
“Oxley”, foi destruído por uma explosão acidental, cujas circuns­
tâncias não julgamos aconselhável tomar públicas no momento.
Até agora, as únicas perdas, em navios, da Marinha Real foram
o “Royal Oak”, o “Courageous” e o “Oxley”, que naturalmente,
constituem prejuízos graves. Com efeito, a guerra marítima é a
única, até agora, que atingiu o seu grau máximo, mas a Câmara
não deverá supor que estas perdas foram os únicos acontecimen­
tos marítimos. O que eu disse à Câmara seis semanas atrás, com
muita reserva, posso repeti-lo agora com mais segurança, isto é,
que estamos obtendo um controle definitivo sôbre o ataque dos
submarinos. Nas segundas quatro semanas de guerra a tqnelagem
britânica perdida por ação do inimigo (72.000 toneladas) atingiu
menos da metade da que perdemos durante as primeiras quatro
semanas. Em compensação, capturamos 52.000 toneladas ao inimi­
go, compramos 27.000 toneladas de navios estrangeiros e cons­
truímos navios num total de 57.000 toneladas, obtendo assim, em
quatro semanas, uma vantagem líquida de 64.000 toneladas. Du­
rante as primeiras oito semanas de guerra, as nossas perdas líqui­
das de tonelagem atingiram apenas menos de um têrço de um por
cento da tonelagem total da Marinha Inglesa. Com isto, é claro,
não levamos em conta as importantes operações de fretamento de
navios neutros que estamos fazendo. É interessante notar que uma
das capturas mais valiosas feitas ao inimigo foi executada pelo
“Ark Royal”, que o rádio alemão tantas vêzes tem pôsto a pique.
Quando me lembro das absurdas informações que êles costumam
transmitir ao mundo, não posso resistir ao desejo de dizer que nos
sentiríamos muito felizes se pudéssemos enfrentar tôda a Mari­
nha Alemã empregando apenas os navios que, de quando em quan­
do, êles têm dado por destruídos pelas suas fôrças.

242
Um balanço não menos favorável se nos apresenta com rela­
ção à tonelagem de carga. Mais de 10.000.000 de toneladas de
carga foram trazidas para êste país, em navios britânicos e neutros,
nas primeiras oito semanas de guerra; menos de um quarto de
milhão de toneladas se perdeu. Em compensação, foram captura­
das mais de 400.000 toneladas de carga consignada à Alemanha
e, mesmo levando em conta 50.000 toneladas de exportação que se
perderam, ainda resta a nosso favor um saldo de mais de 100.000
toneladas.
Mas, a êsse respeito, devo fazer aqui uma observação. O esta­
belecimento do sistema de comboio, que está constituindo uma pro­
teção tão satisfatória, impôs à navegação uma demora, que repre­
senta, efetivamente, uma redução da sua capacidade de transporte.
Estas demoras irão diminuindo enormemente à medida que o sis­
tema fôr mais ampliado, e os primeiros dois meses, conquanto
tudo esteja sendo organizado, não nos dão uma medida exata do
grau de restrição impôsto pelos comboios. Além disso, nestes dois
meses, temos tirado da circulação várias centenas dos nossos maio­
res navios mercantes, a fim de os dotarmos de armamentos defen­
sivos. Isto continua em execução. Espero, por conseguinte, melho­
res resultados ainda no futuro e uma crescente diminuição, até um
certo ponto, das inevitáveis delongas dos comboios, causados pelos
ziguezagues e as longas travessias por rotas inesperadas. Quando
pensamos na dificuldade de manter em completa atividade o nosso
vasto comércio e a necessidade de estarmos preparados, numa cen­
tena de pontos e num milhar de ocasiões, para o perigoso ataque
a que estamos sujeitos, sinto que devemos um elogio aos muitos
milhares de pessoas que, em todos os cantos do globo, estão con­
correndo para a emprêsa e, especialmente, para o maquinismo e
direção centrais, que mantém os mares desimpedidos, como nunca
o estiveram em qualquer tempo, durante as guerras em que nos
empenhamos.
E agora volto à ofensiva contra os submarinos. Ê muito difí­
cil dar números exatos, porque muitos dos vasos salteadores, afun­
dados em águas profundas, não deixam vestígios. É natural que
haja dúvidas e disputas em todos os casos em que não tenhamos
algum sobrevivente, um cadáver ou um casco para apresentar.
Mas creio que não seria exagerar, se disséssemos que as perdas
de submarinos poderiam calcular-se entre duas e quatro unidades

243
por semana, de acôrdo com a atividade prevalecente. Naturalmen­
te, quando muitos andam ao largo, há maiores perdas para o co­
mércio e a destruição de submarinos é mais considerável. Por ou­
tro lado, há um fator a ser considerado. Até agora não falei à
Câmara sôbre as construções alemãs. Devo supor que o inimigo
aumenta a sua fôrça submarina de duas unidades por semana, o
que, em 10 meses de guerra, perfaria 200 submarinos. De qualquer
maneira, a nossa espectativa é que em janeiro, deveremos enfren­
tar uma centena de submarinos, menos os afundados daqui até lá.
O número dêstes é impossível de predizer. Verificar-se-á, entretan­
to, que, embora estejamos ganhando vantagem, ainda temos diante
de nós uma luta longa e inexorável. É por isso que os nossos prepa­
rativos estão em andamento na maior escala possível. Estão em
ação três vêzes mais embarcações de caça do que no início da guer­
ra e grandes reforços de navios, especialmente adaptados a esta ta­
refa, começarão a funcionar, em número sempre crescente, desde
a primavera de 1940. Conseqüentemente, julgando apenas pela
base material, parece que poderemos enfrentar o futuro com con­
fiança.
Mas, como já observei no princípio da sessão, não será apenas
a base material que decidirá esta luta. Adestrar equipagens e, es­
pecialmente, formar oficiais competentes, será a parte mais difícil
da tarefa do inimigo. Além disso, deve ser bastante desencoraj ado­
ra uma guerra de cujas expedições talvez não regresse uma quarta
parte dos homens e os raros sobreviventes voltem escarmentados
pela desagradável experiência. Permanecemos expostos a uma for­
ma de ataque com razão considerada abominável, mas estamos
ganhando vantagem. Devo informar à Câmara que devemos espe­
rar perdas contínuas. Nenhuma imunidade poderá ser oferecida
em qualquer tempo. Não haverá, durante esta guerra, período al­
gum durante o qual os mares estejam completamente seguros, mas
também não haverá, segundo acredito, qualquer período durante
o qual não possa ser mantido todo o tráfego necessário aos aliados.
Sofreremos, sofreremos continuamente, mas, perseverando e to­
mando medidas na mais larga escala, não tenho dúvida de que,
finalmente, abalaremos o ânimo do inimigo.
Além da ameaça dos submarinos, temos que enfrentar o ata­
que dos corsários de superfície. É certo que um e, possivelmente,
dois dos chamados couraçados de bôlso têm rondado as rotas co­

244
merciais do Atlântico durante as últimas seis semanas. Meu ilus­
tre amigo, Sr. Thome, representante de Plaistow, perguntou-me
outro dia se estávamos fazendo alguma tentativa para persegui-los.
Espero que meu honrado amigo não se espante se lhe disser que
a resposta é afirmativa. Mas é notável que, embora êstes podero­
sos vasos de guerra se tenham cruzado constantemente com a cor­
rente de comboios e navios isolados que atravessam o Atlântico,
até agora não tenham podido fazer capturas dignas de considera­
ção. Até agora, só dois navios, perfazendo 10.000 toneladas, fo­
ram postos a pique por ação de superfície, ao passo que os sub­
marinos afundaram 212.000 toneladas. Naturalmente, no vasto
oceano, só quando uma vítima é atacada se revela algum vestígio
do atacante. Lembrando-nos do temor que provocava a ação dêsses
corsários de superfície dos mares, sentimos certo conforto em saber
que, depois de tanto tempo, não hajam causado danos ou incon­
venientes apreciáveis ao nosso comércio. Contudo, permiti-me
que fira de nôvo a nota da advertência, pois o elemento “risco”
nunca está mais ausente de nós do que do inimigo assaltante. Mas,
até o presente, não só a campanha submarina tem sido intensa,
como o ataque por corsários de superfície a navios de guerra e mer­
cantes armados não atingiu vulto de gravidade.
Neste ponto devo falar da notável contribuição da Marinha
Francesa que há muitas gerações não era tão poderosa e eficiente
como agora. Sob os permanentes cuidados do almirante Darlan e
do Sr. Campinchi, ministro da Marinha, o govêrno francês formou
uma magnífica fôrça marítima de combate, que, pela sua coopera­
ção, vigorosa e sempre crescente, não só nos tem auxiliado de con­
formidade com os nossos acordos de antes da guerra, mas nos tem
aliviado ainda de outros fardos pesadíssimos. É realmente mara­
vilhoso verificar-se, que, ao mesmo tempo que faz tão grande es­
forço em terra, a França também oferece à causa dos aliados tão
poderoso reforço por mar.
A Câmara não deve depreciar os extremos esforços que são
exigidos dos nossos marinheiros e oficiais, tanto na Marinha Real
como no serviço da Marinha Mercante, a fim de que seja possí­
vel mantermos ininterrupto o comércio mundial da Grã-Bretanha
e dos aliados. Felizmente, os reforços que se estão incorporando
às esquadras e flotilhas constituirão um alívio extraordinàriamen-
te necessário para homens e máquinas. Devemos, com efeito, pres­

245
tar o nosso tributo à eficiência e energia com que os nossos grandes
navios são protegidos pelo nosso incansável serviço de flotilhas.
O Almirantado está agora em condições de pensar em mitigar
um pouco estas graves condições e, sem que me entregue a excessos
de confiança, sinto que depois de nove semanas de guerra, quanto
ao que se refere ao mar — e o mar tem sido freqüentemente deci­
sivo na hora final — podemos alimentar boas esperanças de que
tudo correrá bem.

246
DEZ SEM ANAS D E GUERRA

D is c u r s o a o p o v o in g l ê s , a t r a v é s d o r á d io .
12 d e novem bro de 1939

Novembro, 8. Noticia-se o atentado contra a vida de Herr Hi­


tler na adega de Bürgerbrau, em Munique.
Novembro, 10. A Finlândia e a Rússia chegam a um impasse.

j f X chei que seria uma boa coisa comunicar-vos quão satis­


fatório tem sido o curso da guerra para os aliados durante estas
primeiras dez semanas. É mais do que evidente que o poder e as
possibilidades do Império Britânico e da República Francesa para
restaurar a vida digna e independente dos povos polonês, tcheco e
eslovaco, bem como para fazer algumas outras coisas que mencio­
narei depois, têm aumentado dia a dia. Os pacíficos países parla­
mentares, que desejam liberdade para o indivíduo e abundância
para a coletividade, levam enorme desvantagem em luta contra
uma ditadura cujo único objetivo tem sido sempre a guerra e a
preparação para a guerra, esmagando tudo e todos para encaixá-los
dentro da sua máquina militar. Nesta nossa ilha, particularmente,
levamos uma vida muito descuidada em tempo de paz. Gostaría­
mos de dividir as bênçãos da paz com tôdas as nações e continuar
a gozá-las nós mesmos. Só depois de muitas e vãs tentativas para

247
permanecer em paz, fomos, finalmente, obrigados a fazer a guer­
ra. Tentamos repetidamente evitar a guerra e, por causa da paz,
aceitamos uma série de coisas que não deveriam ter acontecido.
Mas, agora que estamos em guerra, faremos guerra e continuare­
mos fazendo guerra até que o inimigo esteja satisfeito. Continua­
remos enquanto pudermos, empregando o máximo da nossa capa­
cidade, que não é pequena e está sempre crescendo.
Sabeis que nem sempre concordei com o Sr. Chamberlain,
embora sempre tenhamos sido amigos pessoais. Reconheço, po­
rém, que êle é um elemento de fibra muito rija e posso afirmar
que lutará tão obstinadamente pela vitória como lutou pela paz.
Podeis ter absoluta certeza de que, ou tudo o que a Inglaterra e
a França representam no mundo moderno irá por terra, ou êsse
Hitler, o regime nazista e a repetida ameaça alemã, ou prussiana,
serão vencidos e aniquilados. Assim é que as coisas estão e seria
conveniente que todo o mundo se dispusesse a encarar esta irre-
fragável e sombria realidade.
Atualmente somos assaltados por um côro de horríveis amea­
ças. O govêrno nazista passa através de todos os Estados neutros
informações secretas sôbre a terrível vingança que vai tirar de nós,
propagando-as igualmente através do mundo por meio das trom-
betas de sua máquina de propaganda. Se palavras matassem, já
estaríamos mortos. Mas nós não nos perturbamos com essas fero­
zes ameaças. Com efeito, tomamo-las como sinais de fraqueza dos
nossos inimigos. Não fazemos ameaças em tempo de guerra. Se
alguma vez tivermos algumas idéias de caráter ofensivo, não fala­
remos sôbre elas: tentaremos verificar como funcionam em ação.
Também não depreciamos, de forma alguma, o poder e a ma-
lignidade de nossos inimigos. Estamos preparados para sofrer tri-
bulações. Mas, dez semanas atrás, tomamos uma decisão e tudo
o que tem acontecido desde essa data nos faz sentir que tínhamos
razão então e temos razão agora. Ninguém nas Ilhas Britânicas
julgou que esta guerra seria fácil ou de curta duração. Nada ja­
mais me impressionou tanto como a calma, a firme e despreocupa­
da resolução com que a massa de nossa população laboriosa e dos
habitantes das nossas grandes cidades têm enfrentado o que ima­
ginavam seria uma tremenda tempestade prester a cair sôbre êles e
suas famílas logo no primeiro momento. Todos êles se prepararam
imediatamente para o pior, reforçando-se para a prova. Não sa­
biam que mais pudessem fazer.

248
Tínhamos, então, dez semanas para nos prepararmos para
combater. Hoje, estamos numa posição muito diferente daquela
em que nos encontrávamos há dez semanas. Estamos muito mais
bem preparados para suportar os piores males que nos possam
vir de Hitler e seus hunos do que no comêço de setembro. A nossa
Armada está mais forte. As nossas fôrças anti-submarinas são três
vêzes mais numerosas. O nosso Exército está aumentando em nú­
mero e melhorando em preparo dia a dia. As nossas precauções
contra reides aéreos são muito diferentes do que eram quando
estalou a guerra. O ataque dos submarinos tem sido controlado e
temos feito grandes estragos nessa arma inimiga. Quase todos os
navios alemães de cabotagem estão enferrujando, refugiados cm
portos neutros, ao passo que o nosso comércio mundial prossegue
regularmente em 4.000 navios, dos quais 2.500 estão constante­
mente no mar.
O inimigo tem experimentado a qualidade superior da nossa
Fôrça Aérea, tanto em pilotos como em máquinas. Os nossos aviões
de guerra abateram quinze corsários aéreos alemães, sem perde­
rem uma única máquina em combate. E agora os nevoeiros e as
tempestades de inverno envolvem a nossa ilha e tornam o bom­
bardeio contínuo de objetivos militares muito mais difícil. Temos
notável vantagem no que concerne ao raio de alcance da ciência
aplicada à guerra e isto está melhorando a cada semana que passa.
Por outro lado, creio que o tempo é um dos nossos colabora­
dores. Irei até o ponto de dizer que, se atravessarmos o inverno
sem que tenha lugar algum acontecimento importante, teremos,
com efeito, ganho a primeira campanha da guerra; e então, na pri­
mavera, poderemos atirar-nos à nossa tarefa, mais fortes, mais
bem organizados e mais bem armados do que nunca. Suportemos,
pois, o desconforto e muitos vexames de menor importância — e
talvez desnecessários — com compreensiva paciência, visto que
estamos avançando continuamente para maior fôrça bélica e que,
sob o pêso da nossa guerra econômica, a Alemanha vai perdendo
sem cessar, esgotando o seu petróleo e outros abastecimentos es­
senciais para continuar a guerra.
É possível, naturalmente, que, em qualquer momento, te­
nham lugar violentos e fatais acontecimentos. Se assim fôr, en­
frentá-los-emos com resolução. Se não, aproveitaremos até o má­
ximo o tempo que temos à nossa disposição. Mas o “field-marechal”
Goering — que é um dos alemães que mais se têm divertido nestes

249
últimos anos — diz que, se até agora temos sido poupados, é por­
que a Alemanha nazista é muito humanitária. A sua natureza
benigna não lhe permite fazer coisa alguma que ofenda quem quer
que seja. A única coisa que pede é o direito de viver e que a deixem
em paz para conquistar e matar os fracos. O seu humanitarismo
impede os nazistas de aplicar severidade aos fortes. Pode ser ver­
dade. Mas quando nos lembramos das atrocidades bestiais que
cometeram na Polônia, não sentimos disposição alguma de pedir
qualquer contemplação para nós. Cumpriremos o nosso dever en­
quanto tivermos vida e fôrça.
Desde o comêço da guerra tem havido uma longa sucessão
de acontecimentos a nosso favor. A Itália, que temíamos viesse a
ser obrigada a abandonar a sua histórica associação com a Ingla­
terra e a França no Mediterrâneo — uma associação que se tor­
nará cada vez mais fecunda — adotou uma sábia política de paz.
Não tem havido disputas entre nós e o Japão. A Itália e o Japão,
essas duas grandes potências, que unidas à Alemanha nazista pelo
pacto anti-Comintern, acham difícil admitir a aliança com o bol-
chevismo, perpetrada por Herr Hitler e seu mau conselheiro, Herr
von Ribbentrop — êsse prodigioso contorcionista. Ninguém pode
considerar insignificante o tratado de aliança da Grã-Bretanha e
da França com a Turquia. O govêrno da Rússia Soviética^ encar­
nado pela formidável figura de Stalin, destruiu para sempre todos
os sonhos nazistas de avanço para leste. A garra esquerda do urso
bolchevista repele a Alemanha do Mar Negro. A garra direita
disputa com ela o controle do Báltico. Seja o que fôr que a histó­
ria venha a registrar sôbre êstes acontecimentos, o fato que nós
devemos levar em conta está perfeitamente claro. A Alemanha
nazista não pode avançar para leste e terá que conquistar o Im­
pério Britânico e a República Francesa ou perecer na tentativa.
Assim é que êstes arrogantes e violentos nazistas lançam
agora olhos compridos para alguns pequenos países do ocidente
que possam pisar e saquear, como pisaram e saquearam a Áustria,
a Tchecoslováquia e a Polônia. Agora voltam o seu olhar feroz,
se bem que circunspeto, para as antigas, civilizadas e inofensivas
nações holandesa e belga. Não acharam conveniente molestar a es­
quadra inglêsa, que esperou o seu ataque no Firth of Forth du­
rante tôda a semana passada. Recuam diante da frente de aço do
Exército Francês ao longo da Linha Maginot. Mas os seus dóceis
conscritos estão sendo apinhados em grande número ao longo das

250
fronteiras da Holanda e da Bélgica. A ambas estas nações os na­
zistas deram as mais recentes e solenes garantias. Não admira que
a ansiedade seja grande. Ninguém acredita numa só palavra dita
por Herr Hitler ou pelo Partido Nazista. Por conseguinte, devemos
considerar a situação como grave.
Não tentarei vaticinar se o seu frenesi de maníaco encurrala­
do levará Herr Hitler ao pior de todos os crimes. Mas uma coisa
afirmarei com segurança: a sorte da Holanda e Bélgica, como a
da Polônia, a da Tchecoslováquia e a da Áustria, será decidida
pela vitória do Império Britânico e da República Francesa. Se
formos vencidos, todos serão escravizados e os Estados Unidos
ficarão sozinhos para defenderem os direitos do homem. Se não
formos destruídos, todos êstes países serão resgatados e restituídos
à vida e à liberdade.
É, com efeito, um momento solene êste, em que vos falo
neste décimo domingo de guerra. Mas também é um momento em
que há resolução e esperança. Encontro-me na singular posição de
ter vivido, como agora, os primeiros meses da última guerra ale­
mã contra a Europa na chefia do Almirantado Britânico. Tenho,
por conseguinte, o máximo cuidado de não dizer qualquer coisa
que denuncie uma natureza demasiado confiante ou excessivamen­
te pessimista. Tenho a certeza que tempos muito maus nos espe­
ram, mas sinto que a Alemanha que nos ataca hoje é um organis­
mo de construção muito menos forte e menos alicerçado do que
aquêle que os aliados e os Estados Unidos obrigaram a pedir ar­
mistício há vinte e um anos. Tenho a sensação e também a con­
vicção de que aquêle mau homem de lá e seu bando de asseclas
não estão tão seguros de si mesmos como nós estamos seguros de
nós; que as suas consciências culpadas são atormentadas pela idéia
e pelo mêdo do castigo, que se aproxima cada vez mais, como prê­
mio necessário aos seus crimes e à orgia de destruição em que
estão mergulhando o mundo. Olhando, esta noite, de lá da sua rui­
dosa, mecanizada e fragorosa Alemanha nazista, êles não encon­
tram um único olhar amigo em tôda a circunferência do globo.
Nenhum! A Rússia lança-lhes um olhar de desconfiança. A Itália
desvia a vista. O Japão está intrigado e julga-se traído. A Turquia
e todo o Islame arregimentaram-se instintivamente, mas com de­
cisão, ao lado do progresso. As centenas de milhões de pessoas
da índia e da China, quaisquer que possam ser os seus outros sen­
timentos, veriam com indisfarçado terror um triunfo nazista, pois

251
sabem perfeitamente qual seria a sua sorte nesse caso. A maior
República de língua inglêsa do outro lado do Atlântico não es­
conde as suas simpatias nem as suas interrogações e traduz êstes
sentimentos em ações que qualquer um poderá julgar por si mes­
mo. Todo o mundo é contra Hitler e o hitlerismo. Homens de
tôdas as raças e climas sentem que esta monstruosa aparição
ameaça colocar-se entre êles e o movimento para diante, a que
têm direito e para o qual a nossa idade já está sazonada. Até na
própria Alemanha há milhões de homens alheios à massa fervi­
lhante de criminalidade e corrupção constituída pela máquina do
Partido Nazista. Que êles tomem coragem entre as perplexidades e
perigos, pois é bem possível que a extinção final de uma domina­
ção odiosa abra o caminho para uma solidariedade mais ampla
de todos os homens, em tôdas as terras, do que a que jamais pode­
ríamos ter almejado se não tivéssemos marchado juntos através
da fogueira.
ÍNDICE DO V O L U M E I
Kjell Strõmberg,
“Pequena Historiei9 da atribuição do Prêmio
Nobel a Winston S. Churchill.................... 7
S. Siwertz,
Discurso de R e ce p çã o ................................. 19
Hugh H. Trevor-Roper,
Vida e Obra de Winston Churchill........... 29
Randolph S. Churchill,
Nota introdutória.......................................... 63
WINSTON S. CHURCHILL —
SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS
O problema do E ir e ..................................... 65
A Europa terá de esco lh er........................ 79
A defesa aérea da Inglaterra...................... 93
Civilização .................................................... 107
Manobras da Alemanha ............................. 111
O acordo de M u n iqu e................................. 115
Em defesa da liberdade e da p a z ............. 131
A criação do Ministério do Material Bélico 139
Os frutos de Munique ............................... 159
Fortalecimento do poder n a v a l.................. 165
A invasão da A lb â n ia ................................. 177
Os Domínios do R e i ................................... 187
A fala de H itle r .......................................... 191
O nôvo exército in g lê s ............................... 195
Três meses de te n sã o ................................... 205
Férias de verão ............................................ 213
A Europa em expectativa.......................... 221
Guerra ........................................................... 227
O primeiro mês de g u erra .......................... 231
A perda do “Royal Oak” e a guerra no mar 239
Dez semanas de g u e rra ............................... 247
COLEÇÃO DOS PRÊMIOS NOBEL DE LITERATURA

PATROCINADA PELA ACADEMIA SUECA

E PELA FUNDAÇÃO NOBEL

Prêmio de 1953

WINSTON S. CHURCHILL
(INGLATERRA)

EDITÔRA DELTA
Rio de Janeiro
1969
WINSTON
S. CHURCHILL

SANGUE, SUOR
E

LÁGRIMAS
II

Nota introdutiva de
RANDOLPH S. CHURCHILL

Tradução de
R. MAGALHÃES JÚNIOR E LYA CAVALCANTI

Estudo introdutivo de
HUGH H. TREVOR-ROPER

Ilustrações de
DANIEL DUPUY

EDITÔRA DELTA
Rio de Janeiro
1969
Titulo do original inglês:
In t o B attle

Título da edição norte-americana:


B lo o d , S w e a t a n d T e a r s

Todos os direitos desta edição


(introdução, prefácios, notas, tradução,
ilustrações e demais características)
pertencem à Editora Delta
O TRÁFEGO MARÍTIMO

D is c u r s o a o p o v o i n g l ê s , a t r a v é s d o r á d io .
18 de dezem bro de 1939

Novembro, 13. Aviões de bombardeio alemães lançam bombas


nas ilhas Shetland — as primeiras que caem em
solo inglês.
Novembro, 17. Nas eleições da África do Sul, uma grande maio­
ria vota a favor da luta ao lado da Inglaterra.
Novembro, 21. A Grã-Bretanha anuncia que, como represália
pelas transgressões das leis marítimas pela Ale­
manha, apoderar-se-á de tôdas as exportações
alemãs.
Novembro, 26. O “Rawalpindi”, navio mercante armado britâ­
nico, é posto a pique no Atlântico Norte pelo
couraçado de bôlso “Deutschland”.
Novembro, 28. A Rússia denuncia o pacto de não-agressão com
a Finlândia.
Novembro, 30. A Rússia invade a Finlândia.

7
o principal ataque do inimigo tem sido concentrado sôbre
a Marinha Real e o comércio marítimo, de que dependem as Ilhas
Britânicas e o Império Britânico. Como lembrei à Câmara outro
dia, temos ainda muito mais de 2.000 navios no mar e o movi­
mento diário de entradas e saídas, só nos portos do Reino Unido,
é de 100 a 150 navios. Êsse imenso tráfego tem-se mantido sob a
constante ameaça do ataque de submarinos, que não hesitam em
transgredir as convenções da guerra civilizada, que a Alemanha
ainda não há muito subscreveu. Também temos sido atacados com
freqüência pelo ar. Os mares estão cheios de minas e, recente­
mente, os nossos inimigos colocaram minas magnéticas, por meio
de aeroplanos e de submarinos, à entrada de vários de nossos
portos, com intenção de destruir o comércio britânico e, mais
ainda, ao que parece, o comércio neutro. O uso destas m inas
transgride todos os regulamentos consagrados da guerra marítima
e os próprios compromissos alemães relativamente aos mesmos.
Além disso, dois dos chamados cruzadores de bôlso e certamente
um outro cruzador do mesmo tipo, percorrem há já várias sema­
nas o Atlântico Norte e Sul e as costas de Madagascar, no Oceano
Índico.
A principal tarefa do Almirantado tem sido manter o nosso
imenso tráfego marítimo mundial, apesar desta oposição e, além
disso, varrer dos mares todo o comércio alemão, apreender todos
os navios alemães e tôda a carga que possa interessar à Alemanha.
Demonstrarei agora, de modo amplo, que, até o presente, êstes
deveres têm sido cumpridos com sucesso. A destruição dos subma­
rinos está prosseguindo normalmente, à razão de dois a quatro
por semana, segundo a estimativa exposta por mim anteriormente,
o que excede, segundo acreditamos, a capacidade alemã para subs­
tituir submarinos, capitães e guarnições de submarinos competen­
temente adestrados. Quando ouço declarações, como tenho ouvido
anteriormente, de que os alemães, durante o ano de 1940, pode­
rão vir a ter 400 submarinos em ação e estão produzindo êstes
vasos de guerra pelo chamado “sistema de corrente”, não posso
deixar de perguntar-me se também poderão produzir capitães e
guarnições de submarinos pelo mesmo processo. Se assim é, pare­
ce-me que a nossa capacidade de destruição poderia atingir uma
amplitude similar.

8
Outros comandantes de submarinos têm revelado espírito
empreendedor e ousado, tentando imitar o feito de Scapa Flow,
penetrando em nossas baías defendidas, e por isso vários túmulos
tio Nubmersíveis se encontram às suas entradas. O vulto da destrui-
eflo varia, naturalmente, com o número de submarinos em ação.
r.Nle flutua de tempos a tempos e nós já notamos três períodos de
iitividade mínima, quando, possivelmente, o grosso dos piratas
voltou às bases para repouso e reabastecimento. Na última semana
nndaram ativos e estamos inclinados a pensar que cinco dêles
encontraram seu fim sob a ação das nossas flotilhas, da ardente,
hAbil e inapreciável ação da Real Fôrça Aérea e, particularmente,
da ação do Comando Costeiro. Êstes números não compreendem,
naturalmente, quaisquer resultados obtidos pela Marinha Francesa.
Não obstante, a luta prossegue num volume que, embora
udequado, não é extravagante, e, quando consideramos, como de­
vemos considerar sempre a possibilidade de um inesperado aumento
do número do inimigo, é animador saber que, durante o ano de
1940, a nossa frota de caça, que guarda as águas do Reino Unido,
será grandemente reforçada. Devo repetir a advertência que fiz
à Câmara em setembro passado, de que devemos esperar perdas
contínuas, que ocorrerão desastres ocasionais, que qualquer falha
da nossa parte, que nos impeça de agir à altura das circunstâncias,
seria imediatamente seguida de graves perigos. Eu, entretanto,
acredito firmemente que estamos tirando o melhor desta ameaça
à nossa vida. Somos borrifados pelas ondas, mas as marés oceânicas
correm com regularidade e fôrça a nosso favor.
No decurso desta guerra, os submarinos têm tendido a tro­
car o uso do canhão pelo do torpedo e a desprezar o princípio
consagrado de avisar os navios de superfície ou providenciar
para salvar as suas tripulações, afundando-os à vista. Isto é uma
espécie de guerra mais implacável e, ao mesmo tempo, menos efi­
caz. O ataque submarino pelo torpedo só pode ser desfechado a
um quarto da velocidade que um submersível atingir à superfície
e a possibilidade de interceptar navios ou comboios é, por conse­
guinte, muito reduzida. Além dos nossos cruzadores mercantes
armados, já armamos mais de mil navios mercantes para fins de
defesa própria e êste processo continua com tôda a rapidez possí­
vel. Não tardará que tenhamos dois mil navios assim armados.
Êstes navios mercantes, de acôrdo com os mais antigos direitos

9
marítimos, respondem ao fogo quando atacados, e os seus capi­
tães e tripulantes mostram uma resoluta disposição para se defen­
derem, de tal maneira que muitos duelos tem havido em que os
submarinos, temendo avarias graves e que os impedissem de mer­
gulhar, abandonaram o ataque e fugiram. A eficácia do método
Asdic para revelar a proximidade de submarinos está sendo pro­
vada dia a dia e, à medida que a nossa frota de caça fôr aumen­
tando, como está acontecendo ràpidamente, o castigo que os sub­
marinos estão sofrendo tomar-se-á cada vez mais severo.
O sistema de comboio está agora em completa execução.
Poucos foram os navios de comboio atacados: menos de um em
750 foi pôsto a pique. Contudo, devemos nos lembrar de que o
comboio implica uma certa perda de capacidade de transporte,
uma vez que os navios devem esperar até que o comboio se reúna
e êste é obrigado a viajar à velocidade do navio mais lento. Esta
perda está sendo regularmente reduzida pela organização de
comboios lentos e comboios rápidos e por outras medidas apro­
priadas. Mas sempre persistirá uma certa demora, uma certa dimi­
nuição, digamos assim, da capacidade dos nossos comboios.
Em conseqüência da nossa defesa e da defesa dos nossos
navios mercantes, os submarinos têm achado mais fácil atacar
navios neutros do que atacar os vasos da Inglaterra e da França.
Preferem o ataque cada vez mais freqüente a navios de países com
os quais estão em paz a atacar os dois países inimigos. Os números
revelarão os resultados obtidos. As perdas de navios mercantes
inglêses em outubro atingiram apenas metade das de setembro
e em novembro apenas dois terços das de outubro. Tem havido
uma grande e regular diminuição de perdas entre todos os navios
que têm obedecido ao Almirantado ou se juntaram aos nossos
comboios. Exatamente o contrário se tem dado com os neutros. No
segundo mês de guerra, perderam os neutros metade a mais do
que haviam perdido no primeiro e, no terceiro, mais do dôbro do
segundo. Esta é, com efeito, uma estranha guerra, como disse
outro dia o primeiro-ministro — sim, é uma estranha espécie de
guerra esta que a Marinha Alemã está fazendo quando, desviada
dos navios do inimigo declarado, se consola atacando os das na­
ções neutras. Êste fato deveria animar os neutros a fretarem seus
navios à Grã-Bretanha pela duração da guerra, pois assim pode­
riam ter a certeza de maiores lucros do que jamais tiveram em

10
tampo dc paz e garantia completa contra os prejuízos. O Ministério
tlu Navegação já conseguiu fretar vários milhões de toneladas e
pnrcce provável que êste salutar processo continuará para vanta-
ticiu mútua e geral.
Nas últimas semanas, os submarinos alemães, tendo trocado
0 canhão pelo torpedo, desceram do torpedo para a mina. Esta é,
Inlvez, a forma mais baixa de guerra que se pode imaginar. É a
guerra do terrorista, deixando a bomba entre os embrulhos da
Nccçfio de encomendas da estação de estrada de ferro. A mina
magnética, depositada secretamente, sob o manto da escuridão,
entrada das nossas baías, pelos submarinos, ou largada em pára-
-quedas por aviões, talvez seja a tão falada arma secreta de que
1lerr Hitler tanto se orgulha. É indubitàvelmente uma arma carac-
lerística e que ficará, sem dúvida, ligada para sempre ao seu nome.
Mais de metade das nossas perdas, neste último mês, foram devi­
das às minas magnéticas, mas dois terços de perdas totais causadas
pelas minas couberam, não aos beligerantes, mas aos neutros. Com
eleito, no terceiro mês de guerra, as perdas dos neutros causadas
por minas foram o dôbro das sofridas pelos inglêses e as perdas
dos neutros de tôda espécie foram maiores de um terço do que
as dos beligerantes. As vítimas foram navios suecos, noruegueses,
dinamarqueses, belgas, finlandeses, iugoslavos, holandeses, gregos,
italianos e japonêses, cujos países pagaram assim um pesado tri­
buto por terem permanecido em relações amistosas com a Ale­
manha. Relativamente à guerra no mar, a amizade alemã tem sido
mais prejudicial do que a sua inimizade.
As minas magnéticas não são novas, nem misteriosas. Como
o primeiro-ministro anunciou, em seu discurso pelo rádio, os seus
segredos são conhecidos por nós. Com efeito, a preparação de
contra-medidas já estava muito adiantada quando a primeira mina
magnética foi lançada em águas inglêsas. Contudo, não desejo
depreciar, de forma alguma, a magnitude ou a intensidade do
esfôrço que será exigido e está sendo feito para contrabalançar a
mais recente manifestação de cultura nazista. São muitas as va­
riantes que estão sendo preparadas e aplicadas e, como medida
provisória, enquanto o processo científico não tiver adquirido tôda
a sua perfeição, somos obrigados a recorrer ao uso de grande
número de vapôres de arrasto para ajudar a limpar as nossas
«baías. O serviço de caça-minas é especialmente perigoso, sendo,

11
além disso, como se pode imaginar, um dos que mais atuam sôbre
os nervos do indivíduo, devido ao silêncio e à constante incerteza
de destruição que dominam os homens nêle empenhados. Êste
grave perigo bastou, entretanto, para atrair um número extra­
ordinário de pescadores, quando foram chamados em auxílio de
seu país. Quando, no sábado, se abriram postos de recrutamento
cm alguns portos de pesca, êsses postos se encheram imediata­
mente de pescadores e tiveram que ficar abertos durante tôda a
noite e através do domingo, de tal maneira que, em dois dias, tínha­
mos um apreciável refôrço de pescadores, ansiosos por servirem
uo país de maneira realmente eficaz.
A violência dêste último ataque aos neutros e a quebra dos
acôrdos internacionais que implica levou-nos a pôr um embargo
rigoroso às exportações de tôdas as mercadorias de propriedade ou
origem alemã. Esta medida foi tomada na guerra passada e, exe­
cutada com surpreendente eficiência, deu o resultado desejado.
O poder de exportação da Alemanha, por mar, foi ràpidamente
destruído e, com êle, extinguiu-se tôda a possibilidade de formar
créditos no estrangeiro. Os neutros devem preocupar-se com isto.
Bastará que evitem transportar mercadorias alemãs em seus navios
e poderão obter fàcilmente um certificado consular britânico, nos
países neutros, o qual lhes permitirá prosseguirem em suas viagens
para o exterior sem qualquer interferência da nossa parte ou de­
mora por nós causada. É satisfatório saber-se que as mercadorias
para exportação entulham já de tal forma os cais e armazéns ale­
mães, que chegam a dificultar o trânsito das mercadorias que
entram. Esta última congestão será aliviada, entretanto, quando o
nosso bloqueio fôr apertado por meio da crescente fôrça de nossos
esquadrões de patrulha e bloqueio.
A propaganda alemã fêz um estridente esfôrço para persuadir
o mundo que nós mesmos tínhamos colocado estas minas às entra­
das dos nossos portos para impedirmos a entrada de nossos recur­
sos vitais. Quando esta inanidade expirou entre a zombaria geral,
declararam os alemães que o afundamento de navios neutros por
minas era outro triunfo da ciência e da Marinha Alemã e deveria
convencer tôdas as nações de que o domínio alemão dos mares
era completo. Esta afirmação poderá ser verificada por um exame
geral dos resultados dos primeiros três meses de guerra. Começa­
mos a guerra com 21 milhões de toneladas de navegação mer­
cante. Êste número abrange, naturalmente, os navios dos Grandes

12
I Hgoi da América do Norte e um certo número de navios costeiros
mtiilo pequenos. O total perdido entre tudo isto nestes três meses,
ilut imle os quais temos estado sujeitos a um violento e concentrado
nlii(|iic por todos os métodos, leais e desleais, por submarinos,
itilnus e corsários de superfície, sem.excluir os azares do mar, foi
do cêrca de 340.000 toneladas. Contra isto, ganhamos, pela trans­
ferência de bandeiras estrangeiras independentemente das grandes
operações de fretamento a que já me referi; por prêsas feitas ao
inimigo e por novos navios&que estamos construindo em grande
PNcala, cêrca de 280.000 toneladas, havendo assim uma perda
líquida de cêrca de 60.000*toneladas.
Teríamos que remontar aos tempos da Guerra dos Cem Anos,
n fim de proporcionar tempo e escopo suficientes para que incur-
Nóes dêste calibre fizessem alguma impressão de gravidade na
oscala da nossa Marinha Mercante. Por 1.000 toneladas de navios
mercantes afundadas, têm entrado ou-deixado os portos 110.000
toneladas desta ilha ameaçada, que, segundo diz o inimigo, está
bloqueada e ameaçada, por todos os lados, há três meses. No mês
de novembro, por 1.000 toneladas perdidas entrou e saiu de nossos
portos quase um quarto de milhão de toneladas da nossa navega­
ção, o que constitue uma porção de 250 para um. Se a Câmara
acha que êstes fatos são reanimadores ou dignos de conhecimento,
devemos dizer-lhe que os mesmos são devidos aos oficiais e homens
da Marinha Real e da Marinha Mercante, bem como, em crescente
medida, de seus camaradas da Real Fôrça Aérea e nossos aliados,
os franceses, de que falei na última ocasião, e às pequenas mas
eficientíssimas flotilhas que nos têm prestado o seu auxílio.
As perdas sofridas pelos navios de guerra protetores da
Marinha Real são, é claro, proporcionalmente maiores do que
as da Marinha Mercante. Os navios de guerra da Marinha Real
correm maiores riscos, pois, ao contrário dos navios mercantes,
devem ir procurar o inimigo onde quer que êle esteja. A Marinha
nunca estêve tanto tempo ao largo como nesta guerra e meses
inteiros tem percorrido as águas mais perigosas. Devemos pagar
o preço do contrôle dos mares. Com freqüência êste preço é deve­
ras pesado. Mas nós estabelecemos como princípio publicar tôdas
as perdas de navios de guerra britânicos por ação do inimigo, desde
o momento em que seja possível estabelecer as listas dos sobre­
viventes. Não tem havido exceção a esta regra. Não publicamos
as avarias causadas em navios da Marinha Real, a não ser que as

13
mesmas se tomem geralmente conhecidas ou sejam conhecidas pelo
inimigo. Com freqüência êstes navios podem ser reparados em
poucas semanas e não há necessidade alguma de que nos demos
ao trabalho de informar o inimigo sôbre assuntos que êle não pode
descobrir por si mesmo, mas deseja imensamente saber. Nestes
três meses, perdemos dois grandes navios, o “Courageous” e o
“Royal Oak”, dois destróieres e um submarino que explodiu aciden­
talmente — ao todo 50.000 toneladas. Estamos construindo atual­
mente e já numa fase bastante adiantada cêrca de 1.000.000 de to­
neladas de navios de guerra de tôdas as classes. Perdemos também
um dos nossos cinqüenta cruzadores mercantes armados, o “Rawal-
pindi”, cuja gloriosa luta, contra fôrças extraordinariamente supe­
riores, merece o respeito e as honras da Câmara e da Nação.
Entretanto, as nossas perdas em belonaves durante os primei­
ros três meses de guerra, em 1914, elevaram-se a mais do dôbro
das que sofremos agora. Naturalmente, a guerra é cheia de surprê-
sas desagradáveis. Ninguém pode se entregar a hábitos fáceis, a
folgas de espírito, e abandonar por um momento sequer a vigilante
atenção sôbre os bens do Estado e êsse desejo intemerato de medir
os fatos reais, compreendê-los e dominá-los, que compete a todos
os cidadãos e, ainda mais, aos seus representantes parlamentares.
Se esta tarde vos forneço êstes números e fatos animadores, é
porque sei que a Câmara e a Nação se utilizarão dêles apenas
como um estímulo que as fortificará para esforços ainda maiores
que certamente lhes serão exigidos, à medida que êste feroz e obsti­
nado conflito fôr adquirindo maior intensidade. Temos os meios
e a oportunidade para dirigir tôda a vasta fôrça do Império Britâ­
nico e da Mãe Pátria, com firmeza e sem vacilar, para a conse­
cução do nosso objetivo e, para cada um e para todos, bem como
para a Marinha Real, a palavra de ordem deve ser: “Avante, e
não temais!”

14
A BATALHA DO PR ATA

D is c u r s o a o p o v o in g l ê s p e l o r á d io .
18 DE DEZEMBRO DE 1939

Dezembro, 12. A Rússia rejeita a oferta de mediação da Liga


das Nações na guerra finlandesa.
Dezembro, 13. O cruzador de bôlso alemão “Graf Spee” ata­
cado no Atlântico Sul pelos cruzadores ‘Exete”,
“Ajax” e “Achilles”, é obrigado e entrar no Rio
da Prata.
Dezembro, 15. O ‘‘Graf Spee” se reabastece e inicia os reparos.
Os finlandeses danificam e abandonam as minas
de níquel de Salmijãrvi.
Dezembro, 17. O “Graf Spee” é posto a pique pela própria tri­
pulação à altura de Montevidéu.

A s notícias que nos vieram de Montevidéu foram rece­


bidas com gratidão nesta ilha e com franca satisfação na maior
parte do mundo. O couraçado de bôlso “Graf Spee”, que havia
várias semanas vinha atacando o comércio marítimo do Atlântico
Sul, encontrou o seu fim, de maneira que, agora, através de uma
vasta extensão de águas, a navegação pacífica de tôdas as nações

15
poderá, por algum tempo pelo menos, experimentar a liberdade
dos mares.
O fim do corsário ocorreu da forma mais conveniente para
os que pegaram em armas de acôrdo com o convênio da Liga e
para todos os aderentes à causa da lei e da Liberdade em tôdas as
terras. O couraçado de bôlso alemão, apesar do seu couraça-
mento muito mais forte e do seu raio de alcance muito maior, foi
obrigado a procurar refúgio em pôrto neutro pelos três cruzadores
inglêses, cujos nomes andam em tôdas as bôcas. Na baía, teve que
escolher entre submeter-se ao internamento, na forma ordinária
— o que seria uma infelicidade para êle — ou sair e dar batalha
ao inimigo e tombar em combate, como o “Rawalpindi” — o que
seria um honroso fim. Descobriu, porém, uma terceira alternativa.
Saiu, não para combater, mas para meter-se a pique nas águas
territoriais da nação neutra, da qual recebera todo o abrigo e
socorro que a lei internacional prescreve. A êsse tempo, o comando
do couraçado de bôlso “Graf Spee” sabia que os navios pesados
britânicos “Renown” e “Ark Royal”, estavam ainda a mil milhas
de distância, abastecendo-se de óleo nò Rio de Janeiro. Fora do
pôrto esperavam-no apenas os dois cruzadores “Ajax” e “Achilles”,
com canhões de seis polegadas, que o tinham perseguido, e o cru­
zador “Cumberland”, com canhões de oito polegadas que chegara
para tomar o lugar do “Exeter”, danificado.
As nossas avarias não foram pequenas. Agora, não há mal
algum em tornar público que o “Ajax”, comandado pelo comodoro
Harwood, agora, por desejo de Sua Majestade, contra-almirante
Sir Henry Harwood, tivera duas das suas quatro tôrres abatidas;
ao passo que o “Exeter” foi atingido por quarenta ou cinqüenta
balas de canhão, muitas delas três vêzes maiores das que as que
poderia disparar em resposta; que três dos seus canhões de oito
polegadas foram inutilizados e que sofreu quase cem baixas, a
maior parte mortos. Contudo, o “Exeter” se manteve fora da baía
de Montevidéu, pronto, embora avariado, para tomar parte no
nôvo combate e só partiu para tratar de seus feridos e reparar as
suas avarias quando foi substituído pela oportuna chegada do
“Cumberland”.
Aqui, no Mar do Norte, os submarinos britânicos tiveram a
melhor semana de que posso recordar-me nesta ou na guerra
passada. Os submarinos britânicos sofrem a grave desvantagem

16
de terem poucos alvos para atacar. Não lhes é permitido, pelo
costume do mar e pelas convenções que assinamos, pôr a pique
navios mercantes, sem advertência prévia ou sem antes providen­
ciarem para o salvamento de suas tripulações. Os submarinos britâ­
nicos não fazem guerra a navios neutros; não atacam humildes
barcos de pesca; têm que agir a maior parte das vêzes em mares
juncados de minas, dentro das águas fortemente defendidas da
baía de Heligoland. Só quando avistam um navio de guerra alemão
podem mostrar-se o seu poder e habilidade. Os navios de guerra
alemães raramente se aventuram a sair do pôrto e só o fazem para
furtivas sortidas. Em vista disto, os feitos do submarino da
Marinha Real “Salmon”, na semana passada, são notáveis e dignos
do maior louvor.
Primeiro, fêz saltar pelos ares, com uma descarga de torpe­
dos, um dos maiores submarinos alemães, que se aprestava para
iima das suas excursões. Segundo, absteve-se de torpedear o
“Bremen”, quando êste enorme navio estava à sua mercê em águas
neutras. O seu terceiro encontro foi o mais importante. Na quinta-
•íeira passada, avistou, por meio do seu periscópio, a Esquadra
Naval, que se fazia ao mar, para uma das suas raras excursões.
Lançando seis torpedos contra o esquadrão de cruzadores que
acompanhava os couraçados alemães, atingiu um cruzador de
6.000 toneladas com um torpedo e um segundo cruzador de igual
tamanho com dois. É possível que êstes cruzadores tenham podido
voltar à base (se bem que quanto a um dêles, nada se possa afir­
mar), mas aí chegados ficarão fora de combate durante longos
meses. Entretanto, tôda a Esquadra Alemã abandonava a emprêsa
que tinha em vista — fôsse o que fôsse — e voltava apressada­
mente e em confusão para os portos que tão recentemente abando­
nara. Agora o nosso submarino “Ürsula” comunica que, no dia
14, pôs a pique um cruzador de 6.000 toneladas, da classe do
“Koeln”, embora estivesse êsse escoltado por seis destróieres ale­
mães. Assim é que uma notável proporção do total da fôrça alemã
de cruzadores foi afundada ou posta fora de combate numa única
semana, na mesma semana em que, quase do outro lado do globo,
o couraçado de bôlso “Graf Spee” encontrava um fim inglorioso.
A Marinha e a Fôrça Aérea nazistas estão dando largas à sua
raiva por êstes pesados golpes, redobrando seus esforços para afun­
dar barcos de pesca e afogar pescadores no Mar do Norte; e duran­

17
te todo o dia de ontem e o de hoje a sua Fôrça Aérea tem bombar­
deado navios mercantes isolados, desarmados, inclusive um ita­
liano, que navegavam ao longo da costa oriental da Grã-Bretanha.
Alegro-me de poder comunicar-vos, entretanto, que o ardor da
sua fúria excedeu de muito a precisão do seu alvo. De vinte e
quatro navios atacados ontem e hoje, só seis pequenos barcos de
pesca e um pequeno navio costeiro foram a pique, e o grosso dos
outros, inclusive o italiano, nem mesmo foi atingido.
Agora, que vários sucessos foram obtidos pela Marinha Real,
aproveito a oportunidade para comunicar ao público que esta
satisfatória posição na guerra naval é devida ao cuidado e direção
de operações do primeiro Lord do Mar, almirante da Esquadra,
Sir Dudley Pound, e também ao estado-maior naval, no Almiran­
tado, do qual é chefe-adjunto o contra-almirante Phillips. Mas,
embora de tempos a tempos se registre um sucesso, não nos deve­
mos esquecer de que, através do mundo, estão os nossos navios
correndo riscos continuamente para proteger o comércio e con­
trolar os mares, e que tem sido precisp fazer preparativos em vá­
rias partes, alguns dos quais nunca chegam a ser utilizados e, por
conseguinte, jamais chegam a ver a \yíz do dia. O comandante-em-
-chefe da Esquadra principal, almirante Sir Charles Forbes, tem
mantido, desde o início da guerrã,a forte guarda exigida no Atlân­
tico e no Mar do Norte, conservando seus navios ao largo quase
constantemente, sob contínua ameaça de submarinos, aviões e
minas. A esquadra principal tem estado mais dias ao largo, desde
que a guerra começou, do que jamais foi exigido em qualquer tem­
po, em igual período de guerra naval moderna. Estas responsabili­
dades não poderiam ser desempenhadas, se a capacidade profissio­
nal do Almirantado não fôsse apoiada por uma vigilância incan­
sável e um espírito alerta diante de muitos perigos.
Mas o fato é que nenhuma direção, por mais hábil que fôsse,
poderia ser bem sucedida, se não fôsse apoiada também por todo
o corpo de oficiais e tripulantes da armada. É sôbre os ombros
dêstes fiéis e valentes servidores, que guarnecem os grandes navios
e cruzadores, que o fardo repousa diretamente dia após dia.
Chamamos a atenção especial para as flotilhas de destróieres e de
submarinos, que vigiam a embocadura do Elba, para as embar­
cações anti-submarinas, para os caça-minas, que, multiplicando
suas atividades ao longo de tôdas as costas, suportam uma fadiga

18
c um esfôrço, que só os que estão informados detalhadamente
podem compreender. Muitas tarefas penosas esperam a Marinha
kcal e seus camaradas da Marinha Mercante, e, como contlnua-
ii icnte vos tenho exposto, serão rudes e violentos os tempos que
nos esperam, mas o que tem acontecido desde que a guerra come­
çou nos anima a confiar em que, no fim, as dificuldades terão sido
• vencidas, todos os problemas estarão resolvidos e o nosso dever
estará cumprido.

19
UM EDIFÍCIO DE MUITAS MORADAS

D is c u r s o a o p o v o in g l ê s p e l o r á d io .
20 d e j a n e ir o d e 1940

Dezembro, 19. O transatlântico alemão “Columbus”, de 23.000


toneladas, é pôsto a pique.
O Capitão Hans Langsdorff, comandante do
“Graf Spee”, suicida-se.
Dezembro, 21. Anatólia é abalada por pavoroso terremoto.
Janeiro, 5. O Sr. Oliver Stanley sucede ao Sr. Hoare-Belisha
no pôsto de secretário de Estado da Guerra. Sir
Andrew Duncan é nomeado presidente da Junta
de Comércio e Sir John Reith, ministro das Infor­
mações.
Dezembro, 6 Os finlandeses aniquilam a 44ç Divisão russa,
a 11. em Suomussalmi.

T o d o o mundo pergunta que haverá com a guerra...


I lá vários meses que os nazistas vêm proferindo ferozes ameaças
nôbre o que vão fazer contra as democracias ocidentais — aos
Impérios inglês e francês — quando puserem mãos-à-obra. Até
ugora, são os pequenos Estados neutros que estão suportando o

21
ímpeto da maldade e da crueldade alemãs. Navios neutros são
postos a pique sem lei nem misericórdia, não só pelas cegas minas
flutuantes, mas, também, pelo frio e bem apontado torpedo. Os
holandeses, os belgas, os dinamarqueses, os suecos e, sobretudo,
os noruegueses, vêem os seus navios destruídos a tôda hora em
alto-mar. Só os comboios inglêses e franceses têm tido segurança.
Aí, nesses comboios, há uma probabilidade contra quinhentas de
que um navio seja afundado. Aí há fôrças controladoras em ação,
conservando os mares desimpedidos, mantendo o tráfego marítimo
e estabelecendo nêles a ordem e a liberdade de movimentos.
Nós, as potências ofendidas e beligerantes, que estamos fa­
zendo guerra à Alemanha, não temos necessidade de pedir-lhe que
nos poupe. Semana após semana, o nosso comércio cresce: cada
mês que passa a nossa organização é melhorada e reforçada. Dia
a dia sentimos mais confiança na nossa capacidade para policiar
os mares e os oceanos e para conservar abertas e em atividade as
estradas marítimas pelas quais vivemos e através das quais trans­
portaremos os meios para conquistar a vitória. Parece que metade
dos submarinos com que a Alemanha iniciou a guerra foram pos­
tos a pique e as suas novas construções estão ficando muito atrás
do que esperávamos. O nosso fiel “detetor” Asdic fareja-os nas
profundidades do mar e, com o poderoso auxílio da Real Fôrça
Aérea, não duvido de que aniquilaremos a sua fôrça e a sua
resolução.
As minas magnéticas e tôdas as outras minas de que estão
semeados os estreitos e entradas para está ilha não constituem para
nós um problema insolúvel. Devemos nos recordar de que na
guerra passada sofremos gravíssimas perdas causadas por minas
e, no auge do conflito, mais de seiscentos navios britânicos esta-
vam empenhados sòmente na tarefa de caçar minas. Devemos
nos recordar disso. Devemos esperar sempre alguma coisa má da
Alemanha, mas aventurar-me-ei a dizer que é com crescente con­
fiança que esperamos novos acontecimentos, as variantes do seu
ataque.
Aqui estamos depois de quase cinco meses de ataques de
tôda espécie às nossas fôrças e comércio marítimo, com a cam­
panha submarina completamente inutilizada pela primeira vez,
com a ameaça das minas em bom controle, com os nossos navios
virtualmente intactos e com todos os oceanos do mundo livres
de corsário do mar. É verdade que o “Deutschland” escapou por

22
mu triz das garras dos nossos cruzadores, mas o “Spee” continua
afundado na baía de Montevidéu como um sinistro monumento e
iiin exemplo do destino reservado a todo e qualquer navio de
guerra nazista que ouse afrontar-nos em águas do Atlântico. Como
Mtbcis, sempre tenho falado depois de longas e duras experiências,
com a máxima reserva e cuidado sôbre a guerra marítima e tenho
d certeza de que muitas perdas e infortúnios nos esperam, mas,
npesar de tudo, sinto-me capaz de declarar que tanto no Almiran-
ludo, como no Ministério de Marinha francês, as coisas não estão
correndo tão mal assim. Com efeito, nunca correram tão bem em
i|imlquer guerra naval. Esperamos, em meses próximos, ter esta-
bcleeido um grau de segurança tal para a navegação, que permita
no comércio de tôdas as nações, não só viver, mas ainda prosperar.
Iíita parte — a questão do mar — pelo menos, do ataque nazista
i\ liberdade, não interromperá a ação da justiça ou do castigo.
Muito diversa é a sorte dos infelizes neutros. No mar e na
lc*rra, são as vítimas sôbre as quais recaem o despeito e o ódio de
llitlcr. Veja-se o grupo de pequenas, mas antigas e históricas na­
ções do Norte, ou o grupo das nações balcânicas, ou ainda as
nações da bacia danubiana, atrás da qual estão os resolutos turcos.
Tôdas elas se perguntam qual será a próxima vítima sôbre a qual
os criminosos aventureiros de Berlim desferirão o seu golpe esma­
gador. Um major alemão faz uma aterrissagem forçada na Bél­
gica, tendo em seu poder planos para a invasão dêsse país, cuja
neutralidade a Alemanha ainda tão recentemente prometeu res­
peitar. Na Romênia, há um profundo temor de que, por algum
entendimento entre Moscou e Berlim, êsse país possa vir a ser o
próximo objeto de agressão. Intrigas alemãs tentam minar a soli­
dariedade recentemente reforçada dos eslavos do Sul. Os intrépidos
n u íç o s armam e guarnecem as passagens das montanhas. Os holan­
deses, cuja obra em prol da liberdade da Europa continuará sendo
lembrada muito depois que a mancha de Hitler tiver sido varrida
do nosso caminho, estão postados ao longo de seus diques, como
fizeram contra os tiranos dos tempos de antanho. Tôda a Escan­
dinávia ouve carrancuda as ameaças nazistas e bolchevistas.
Só a Finlândia — soberba, ou melhor, sublime — nas garras
do perigo mostra o que os homens livres podem fazer. O serviço
prestado à humanidade pela Finlândia é magnífico. Acaba de
demonstrar, a todo o mundo, a incapacidade militar do Exército

23
Vermelho e da Fôrça Aérea Soviética. Muitas ilusões sôbre a
Rússia Soviética se desvaneceram nestas semanas de luta feroz no
Círculo Ártico. Todos podem ver como o comunismo apodrece
a alma de uma nação, como a toma abjeta e esfaimada na paz e
fraca e abominável na guerra. Não poderemos dizer qual será a
sorte da Finlândia, mas nenhum espetáculo mais triste poderia ser
apresentado à humanidade do que o dessa esplêndida raça nórdica
abatida e reduzida a uma servidão pior que a morte pela fôrça
bruta e esmagadora do maior número. Se a luz da liberdade, que
ainda arde com tanto brilho no Norte gelado se extinguir final­
mente, é bem possível que isso anuncie a volta à Idade Média, na
qual se sumiram todos os vestígios de progresso humano durante
dois mil anos.
Mas o que aconteceria se tôdas estas nações que mencionei
— e algumas outras que não mencionei — resolvessem, num
impulso espontâneo, cumprir o seu dever, de acôrdo com o con­
vênio da Liga, e se unissem aos Impérios inglês e francês contra
a agressão e o êrro? Presentemente, a sua condição é lamentável.
E tomar-se-á muito pior. Curvam-se humildes e temerosos ante
as ameaças de violência alemãs, confortando-se, entretanto, com
a idéia de que os aliados ganharão, de que a Inglaterra e a França
observarão estritamente tôdas as leis e convenções e de que trans­
gressões destas leis só poderão ser esperadas do lado alemão.
Cada um está convencido de que, se alimentar bastante o crocodilo,
o crocodilo o comerá finalmente. Todos êles esperam que a tem­
pestade passe antes de chegar a sua vez. Mas eu temo — temo
muito — que a tempestade não passe. Ao contrário, sibilará,
rugirá cada vez mais alto, alastrando-se sem cessar. Estender-se-á
até o Sul; estender-se-á até o Norte. Não haverá possibilidade de
que tenha um fim rápido, senão por meio de uma ação coletiva.
Se, por fatalidade, a Inglaterra e a França, exaustas pela luta,
fôssem obrigadas a submeter-se a uma paz vergonhosa, nada mais
restaria às nações menores da Europa, com os seus navios e os seus
haveres, do que serem divididas entre os barbarismos opostos, se
bem que semelhantes, do nazismo e do bolchevismo.
O que melhor servirá para determinar a ação dos neutros
será a sua crescente convicção do poder e resolução dos aliados
ocidentais. Estas pequenas nações estão alarmadas pelo fato de
serem os exércitos alemães mais numerosos e de ser a fôrça aérea
germânica mais numerosa ainda e também por ambos estarem

24
mais próximos delas do que as fôrças da Grã-Bretanha e da França.
R certo que temos grande desvantagem em número, mas isso não
6 nôvo na nossa história. Bem poucas guerras têm sido ganhas
11 penas pelo número. A qualidade, a fôrça de vontade, as vanta­
gens geográficas, os recursos naturais e financeiros, o domínio
dos mares e, sobretudo, uma causa que desperta os impulsos espon-
tflncos do espírito humano em milhões de corações, tudo isso tem
sido fator decisivo na história humana. Se fôsse diferente, como
poderiam os homens elevar-se acima dos macacos? Como poderia
ler vencido e exterminado dragões e monstros? Como teria mar­
chado, através dos séculos, para as amplas concepções de com­
paixão, liberdade e direito? Como poderiam ter discernido as luzes
que nos atraem e guiam através das águas turvas e procelosas e
agora nos guiarão através das linhas flamejantes da batalha em
direção aos melhores dias que nos esperam além?
O número não nos atemoriza. Mas, mesmo medido pelo
número, não temos razões para duvidar de que, apenas o poder
latente e agora em rápido desenvolvimento da nação inglêsa e
do Império inglês, se tenha unido, como se unirá, aos magníficos
esforços da República Francesa, então, mesmo em massa e em
pfiso, não estaremos em desvantagem. Quando olhamos por trás
das frontes estanhadas do nazismo — pois temos vários meios
de o fazer — vemos muitos sinais notáveis de desintegração psico­
lógica e física. Vemos as deficiências de matérias-primas, que já
começam a embaraçar a qualidade e o volume de sua indústria de
guerra. Sentimos a hesitação dos conselhos discordes e as dúvidas
teimosas que assaltam e minam aquêles que contam com a fôrça
c só com a fôrça.
Neste duro conflito que enfrentamos e que requer de nós
esforços cada vez maiores, estamos dispostos a nada deixar para
trás e a não sermos excedidos por ninguém no empenho em prol
da vitória da causa comum. Que as grandes cidades de Varsóvia,
Praga e Viena minorem a sua angústia e o seu desespêro. A liber­
tação é certa. Dia virá em que os sinos da alegria soarão de nôvo
através da Europa e as nações vitoriosas, senhoras, não só de seus
inimigos, mas também de si mesmas, projetarão construir, sôbre
a justiça, a tradição e a liberdade, um edifício de muitas moradas,
onde haverá espaço para todos.

25
ATRAVESSAMOS UMA ÉPOCA EM
QUE Ê PRECISO SABER OUSAR
E SABER SOFRER

D is c u r s o p r o f e r id o n a B ô l s a d e C o m é r c io d e M a n c h e s t e r .
27 d e j a n e ir o d e 1940

Janeiro, 20-26. Ataque russo ao norte do Lago Ládoga, even­


tualmente mal sucedido.
Janeiro, 23. O chanceler do Tesouro anuncia reformas na
legislação de pensões aos velhos, introduzindo
pensões para mulheres de 60 anos.

H á cinco meséá estamos em guerra contra a maior potên­


cia militar e aérea do mundo. Quando começou a guerra, em se­
tembro, quase todos esperavamos, dentro de muito pouco tempo,
ver as nossas cidades despedaçadas e destruídas por explosões e
incêndios. Não seriam muitos os que ousariam marcar para fim
de janeiro a magnífica reunião a que assisto hoje. A meu ver,
o que há de mais notável, em nossa longa história, é essa disposição
para caminhar ao encontro do desconhecido e enfrentar e supor­
tar o que nos possa reservar. Isso ficou provado, mais uma vez,

27
em setembro, por tôda a massa da população desta ilha, no de­
sempenho do que considerava seu dever. Nunca houve uma guerra
com tantas probabilidade de levar imediatamente os seus horrores
a todos os lares e nunca houve uma guerra na qual a totalidade do
povo entrasse com a mesma convicção unânime de que não havia
outro caminho a seguir.
Esta guerra não é uma guerra planejada e iniciada por um
govêrno, uma classe, ou um partido. Ao contrário, o govêrno lutou
até o último momento pela paz. Nos últimos dias, o único receio
da Grã-Bretanha era que, sob o pêso de suas tremendas responsa­
bilidades, o govêrno deixasse de elevar-se à altura dos aconteci­
mentos. Mas o govêrno não falhou e o primeiro-ministro nos levou
para diante, como a um só homem, numa luta contra a agressão
c a opressão, contra a injustiça, a traição e a crueldade, numa luta
cm que não é possível voltar atrás. Não podemos dizer qual será
o curso desta luta, para onde nos levará, quanto tempo há de
durar, nem quantos tombarão pelo caminho. Mas temos certeza
de que, afinal, o direito há de vencer, a liberdade não será espe­
zinhada e o mundo verá surgir uma era de progresso mais real
c justiça mais ampla. E estamos determinados a cumprir a nossa
missão honrosamente, fielmente e até o fim.
Até agora, a responsabilidade da guerra do Ocidente tem re­
caído exclusivamente sôbre a nossa Real Marinha de Guerra e
sôbre alguns setores da Real Fôrça Aérea, que prestam à Marinha
auxílio inestimável. Mas não pode haver dúvida que, até hoje, a
Marinha não falhou à nação. Temos sofrido contínuas perdas
e havemos ainda de sofrê-las. Se pensarmos que centenas de na­
vios de guerra estão correndo riscos permanentes no mar, para
proteger milhares de navios mercantes inglêses e neutros, espa­
lhados pelas vastas superfícies de oceano do globo, ou então
amontoados às portas de nossa ilha, compreenderemos que é pre­
ciso pagar um tributo inexorável pelo domínio dos mares. O luto
de perdas irreparáveis tem caído sôbre muitas centenas de lares,
em nossas cidades marítimas. Estou certo de que a simpatia e a
afeição do povo britânico vão para os nossos marinheiros — da
Real Marinha de Guerra, da Marinha Mercante, dos trawlers, dos
caça-minas, dos barcos de pesca — estendendo-se a todos aquêles
que lhes querem bem e vivem suspensos dos seus destinos, en­
quanto êles lutam noite e dia, dia e noite, em águas tempestuosas,

28
rnfrcntando um perigo a cada passo, cumprindo o dever com in­
comparável eficiência, vibrantes de coragem e confiança, para
que não nos falte nunca o pão de cada dia e para que seja vitoriosa
11 nossa causa.
Que ninguém se deixe desanimar, portanto, quando ler notí­
cias de afundamentos diários ou quando ouvir a confirmação
• dessas perdas pela B.B.C. Que todos tenham sempre em mente
que agora, ao cabo de cinco meses de uma guerra naval intensa,
a proporção de navios afundados é de quinhentos para um e que,
de cêrca de 7.500 navios sob as ordens do Almirantado e incor­
porados a comboios britânicos, só quinze se perderam; que o nosso
sistema de comboios se torna cada dia mais aperfeiçoado e cada
semana mais rápido; que o volume de nossas importações e expor-
lações, inevitàvelmente reduzido pela guerra, entrou agora num
ritmo crescente; que os navios capturados ou construídos pela
(írã-Bretanha quase compensam as perdas sofridas e que se apro­
xima o momento em que a nossa Marinha de Guerra e a nossa
Marinha Mercante receberão reforços importantes, para enfrentar
novos perigos e novos ataques, que são de esperar no futuro.
Estamos adotando um racionamento generalizado. Não
creiam que o motivo dêsse racionamento seja o perigo da fome
e não creiam que a Marinha tenha falhado na sua tarefa de conser­
var livre a rota dos oceanos e dos mares, até os nossos portos. O
racionamento se destina a evitar a importação de uma só tonelada
que não seja essencial, a fim de que possamos aumentar nossa
produção de munições e manter e ampliar nosso comércio exte­
rior, obtendo assim os créditos estrangeiros necessários à com­
pra de munições e material de guerra e orientando, sem desfale­
ci mentos, tôda a energia vital da Nação britânica, do Império
Britânico e dos nossos aliados, para a tarefa que temos a realizar.
Não atravessamos uma época de conforto e facilidades. Atra­
vessamos uma época em que é preciso saber ousar e saber sofrer.
É por isso que adotamos o racionamento, muito embora nossos
recursos aumentem. É por isso que controlamos uma por uma as
toneladas transportadas através dos mares, para têrmos a certeza
de que é transportada exclusivamente com o propósito de assegu­
rar a vitória.
Mas, falando em alimentação, quero voltar-me do mar para
terra e dos que se dedicam à navegação para os que se dedicam,
ou deviam dedicar-se, ao cultivo dos campos. Em nosso esforço

29
nacional, precisamos de todos os gêneros de atividade e há, ou
deve haver, lugar para todos — homens ou mulheres, velhos ou
moços — prestarem serviços, seja onde e como fôr. Devemos
cultivar a terra. Devemos organizar a agricultura, pelo menos na
mesma escala que em 1918. Devemos plantar mais comestíveis
e devemos habituar-nos, tanto quanto possível, a comer o que
pudermos colhêr. Ainda na medida do possível, o custo da vida
deve ser reduzido, pela abundância de comida simples e forneci­
mentos essenciais. Assim poderemos aliviar a tarefa da Marinha,
facilitar a sua mobilidade e deixar livres suas fôrças combativas
para uma ação ofensiva.
Estou certo de que, de vez em quando, deve ocorrer ao povo
a pergunta: “Por que não fomos ainda atacados pelo ar? Por que
não nos foram ainda impostas, nestes longos cinco meses, as ex­
periências dolorosas para as quais nos preparamos no comêço da
guerra?” É uma pergunta que também eu tenho muitas vêzes
feito a mim mesmo e cuja resposta é difícil, como a resposta a
tantas outras perguntas desta guerra. Estarão êles se preparando
para alguma orgia de terrorismo, que em breve deverá abater-se
sôbre nós? Ou não terão ousado ainda? Terão mêdo da qualidade
superior da nossa aviação? Terão mêdo de represálias imediatas
das nossas fôrças aéreas? Ninguém pode dizer ao certo. Mas uma
coisa é segura: não é por sentimentos de humanidade que têm evi­
tado submeter-nos a essa nova e odiosa forma de ataque.
Sabemos, a julgar pelo exemplo da Polônia, que êles nunca
hesitarão diante de qualquer brutalidade ou do mais bestial mas­
sacre de civis, por meio de bombardeios aéreos, se isso convier
aos seus interêsses. Mas êste é um capítulo da guerra que não
tentaram ainda contra nós, porque não podem saber como serão
escritas as páginas finais. Resta agora outra pergunta: Devería­
mos ter começado? Para demonstrar o poder da nossa Fôrça
Aérea deveríamos ter jogado, sôbre tôda a Alemanha, bombas em
vez de folhetos? Mas, quanto a êsse ponto, tenho a convicção
plena de que agimos como devíamos agir.
Vivendo num país pacífico e democrático, governado pela
opinião pública e pelas instituições parlamentares, não estávamos
tão poderosamente armados, quando romperam as hostilidades,
como essa Ditadura que havia muito não tinha outro objetivo
senão o de preparar-se para a guerra. Mas todos sabem que a
nossa organização está agora muito mais aperfeiçoada do que nos

30
primeiros tempos e que cada dia as nossas defesas se tornam mais
poderosas. Esforçamo-nos valentemente para aproveitar bem êsse
intervalo, que tivemos a nosso favor, e não há dúvida que demos
um enorme passo, quer para melhor proteger a população civil,
quer para melhor castigar os que nos vierem bombardear. Não
nó as defesas aéreas e os abrigos melhoraram consideràvelmente,
como os nossos exércitos, metropolitano e coloniais, que são
agora muito numerosos, dia a dia se aperfeiçoam em treinamento
e eficiência. Sob o impulso da guerra, também a indústria de mu­
nições se tem desenvolvido, com ímpeto multiplicado. Estou por­
tanto convencido de que tinha razão ao dizer, num dos meus recen­
tes discursos pelo rádio, que, se chegássemos à primavera sem
ver interrompido o nosso comércio marítimo e sem acontecimen­
tos importantes, em terra ou no ar, teríamos de fato vencido a cam­
panha inicial da guerra.
Não podemos, porém, pôr imediatamente em campo os gran­
des exércitos de que carecemos e que estamos determinados a for­
mar. Há milhões de homens aguardando, ansiosos, o primeiro
chamado. Mas precisamos desenvolver consideràvelmente as nos­
sas fábricas de munições e equipamento de tôda natureza. As
imensas fábricas de que necesitamos só gradualmente podem ser
preparadas para uma produção em grande escala. Naturalmente,
estamos hoje muito mais adiantados do que estávamos, em época
correspondente, na guerra anterior. Mas, orientados pela expe­
riência que dela decorreu, deveríamos ter progredido muito mais
ainda. Somos forçados a uma grande expansão da nossa fôrça de
trabalho, sobretudo do trabalho especializado e semi-especiali-
zado. Para isso, precisamos contar principalmente com o auxílio
c a orientação dos nossos colegas trabalhistas e com os líderes das
Trade Unions. Sinto-me autorizado a abordar êsse assunto, pois
tive a meu cargo o Ministério das Munições, na sua fase culminan­
te. Precisamos de milhões de novos operários e precisamos tam­
bém que um milhão de mulheres venham corajosamente auxiliar
a nossa indústria de guerra — nas fábricas de munições, nas de
explosivos, nas de aviões.
Se as Trade Unions, por motivos patrióticos ou internacio­
nais, abdicarem, enquanto durar a guerra, algumas das prerroga­
tivas obtidas com tanto esfôrço, podem ter a certeza de que, quan­
do chegar a vitória, essas prerrogativas lhes serão restituídas sem
restrições. Quase um milhão de mulheres prestaram serviços ao

31
Ministério das Munições, na guerra de 1918. Fizeram tôda a es­
pécie de trabalhos, trabalhos que ninguém esperava que tivessem
capacidade para realizar. Finda a guerra, voltaram tôdas para
seus lares, sem perturbar a reorganização normal da vida e do tra­
balho britânico. Se não houver essa expansão e se não permitirmos
que as mulheres da Grã-Bretanha participem da luta, como dese­
jam fazê-lo, falharemos na nossa parte do encargo que a França
e a Grã-Bretanha assumiram juntas e que, agora, temos o dever
de juntas levar até o fim, sob pena de perecermos miseràvelmente,
na escravidão e na desgraça.
Nestes tempos de guerra, o Poder Executivo tem grande am­
plitude de ação. Entretanto, o uso que fazemos dos nossos amplos
podêres está sob a constante vigilância do Parlamento, continuan­
do a prevalecer o livre debate. A nossa Câmara dos Comuns é
uma assembléia resoluta e consciente de suas responsabilidades;
e dela não é de esperar qualquer hesitação ou desfalecimento, num
conflito em que entrou por unanimidade. Não tenho a menor dú­
vida de que a nossa Câmara dos Comuns nunca hesitará, num
caso de emergência, em dar sua aprovação e seu apoio a tôdas as
medidas necessárias à salvaguarda do Estado. Nos últimos du­
zentos e cinqüenta anos, o Parlamento Britânico tem enfrentado,
com eficiência e tenacidade, várias guerras européias — guerras di­
fíceis e longas — e de tôdas saiu vitorioso. Desta vez, o Parla­
mento Britânico está lutando, não apenas por sua própria subsis­
tência, mas pela subsistência das instituições parlamentares, onde
quer que existam, no mundo inteiro.
Em nosso país, os homens públicos orgulham-se de servir
ao povo. Teriam vergonha de dominá-lo. O apoio da Câmara dos
Comuns e da Câmara dos Lords e a regularidade de suas reuniões
representam, para os ministros da Coroa, uma nova fôrça e um
constante estímulo. É verdade que o govêrno sofre críticas fre­
qüentes em ambas as Câmaras. Mas o govêrno não se melindra
com as críticas de quem tenha em vista a nossa vitória nesta guer­
ra. Não receiamos críticas honestas, embora sejam de tôdas as
mais perigosas. Ao contrário, levamos cada uma delas em consi­
deração e procuramos aproveitá-las para o futuro. No corpo po­
lítico, a crítica corresponde à dor no corpo humano. A dor não
é agradável, mas, se não existisse, que seria do corpo humano?
Sem as suas advertências contínuas não haveria saúde nem sen­
sibilidade possível.

32
O pavor da crítica é o ponto mais vulnerável das ditaduras
nazista e bolchevista. Impõe-se o silêncio a tôdas as vozes, com
a ameaça dos campos de concentração, dos espancamentos, dos
fuzilamentos em massa. E, assim, os detentores do poder muitas
vêzes só têm conhecimento dos fatos que lhes são agradáveis. Es­
cândalos, corrupção e deficiências ficam na obscuridade, porque
* não há vozes independentes que os denunciem, e continuam a
proliferar por trás da fachada pomposa do Estado. Os dirigentes,
por mais enérgicos e poderosos que sejam, têm os ouvidos fecha­
dos e as mãos atadas. Não vêem o caminho sob seus pés e mar­
cham na escuridão do desconhecido e do incompreensível. Entre
outras coisas, esta guerra vai demonstrar se, nos tempos moder­
nos, a fôrça plena das nações pode ser canalizada para a guerra,
sob sistemas totalitários baseados numa GPU ou numa Gestapo.
O que pudemos observar do esfôrço russo, em oposição ao he­
roísmo finlandês, vem certamente trazer às democracias e aos Par­
lamentos inglês e francês uma nova confiança nos resultados da
sua própria luta contra o despotismo nazista.
Herr Hitler se vangloria de ter à sua disposição noventa mi­
lhões de homens, mas, dêsses noventa milhões, quase vinte preci­
sam ser dominados à fôrça pelos demais. Nós e os franceses temos
oitenta e cinco milhões nas metrópoles e mais vinte milhões nos
Domínios Britânicos, cujos exércitos se encaminham para a fren­
te de batalha. Além disso, espalhados pelo mundo, há vastos nú­
cleos de homens de outras raças, que devem fideHdade à Coroa
ou à República Francesa e que são levados, pelo instinto, a con­
siderar o nazismo como uma ameaça fatal. Todos êsses recursos
inexauríveis serão lançados, com firmeza e segurança, através dos
mares que dominamos, contra as fôrças maléficas que projetam
sua-sombra sôbre a humanidade, procurando obstar-lhe a marcha
para o progresso.
Consideremos, por um instante, a maneira pela qual a Ale­
manha Nazista trata os povos que subjugou. Os invasores alemães,
por tôdas as formas de opressão cultural, social e econômica, pros­
seguem no seu objetivo de destruir a nação tcheca. Fuzilam-se
estudantes às centenas e torturam-se milhares nos campos de con­
centração. Foram fechadas tôdas as universades tchecas, inclusive
a tradicional Universidade de Praga, fundada em 1348 — a pri­
meira Universidade da Europa Central. Clínicas, laboratórios, bi­
bliotecas de universidades — tudo foi pilhado ou destruído. Reti-

33
raram-se das bibliotecas públicas as obras dos escritores nacio­
nais; suprimiram-se mais de dois mil jornais e revistas. Escrito­
res, artistas e professores eminentes acham-se amontoados em
campos de concentração; a administração pública e o Poder Judi­
ciário, reduzidos a um verdadeiro caos. As terras da Tchecos-
lováquia foram pilhadas e todos os objetos portáteis, até a última
migalha de pão, transportados para a Alemanha, por assaltantes
organizados ou ladrões comuns. As propriedades das igrejas são
administradas e controladas por comissários alemães. Cem mil tra­
balhadores tchecos foram levados como escravos, para serem ex­
plorados na Alemanha. Oito milhões de tchecos — uma nação
famosa e digna, há muitos séculos, de ser reconhecida, na Europa,
como uma comunidade livre — debatem-se em agonia, sob a tira­
nia alemã e nazista.
Mas a tragédia dos tchecos desaparece diante das atroci­
dades que, neste momento em que vos falo, estão sendo perpe­
tradas contra os poloneses. Na Polônia ocupada pela Alemanha,
dominam as mais tremendas formas de terrorismo. Houve duas
fases distintas. Na primeira, os alemães tentaram atemorizar a po­
pulação, fuzilando indivíduos apanhados ao acaso nas cidades.
Em certo lugar, onde haviam decidido fuzilar trinta e cinco pes­
soas e dispunham apenas de trinta e quatro, prenderam, numa
farmácia, o primeiro desgraçado que encontraram, para comple­
tar o lote. Posteriormente, resolveram agir com mais discrimina­
ção e passaram a procurar, cuidadosamente, os líderes naturais da
vida polonesa: os nobres, os proprietários, os padres, bem como
os trabalhadores e camponeses mais conhecidos. Calcula-se que
foram fuzilados mais de quinze mil intelectuais influentes. Essas
tremendas execuções em massa já se tornaram um hábito. Numa
só cidade, trezentas pessoas foram enfileiradas de encontro ao
muro; diz-se que, em outra, oficiais alemães embriagados mataram
setenta reféns numa prisão; ainda em outra, foram massacrados
cento e trinta e seis estudantes poloneses, alguns dos quais crian­
ças de doze ou treze anos apenas. A tortura também é prática fre­
qüente. Homens e mulheres agarrados a esmo nas ruas, por ban­
dos de militares, são arrastados em massa para trabalhos forçados
na Alemanha. O espectro da fome apodera-se não só das ruínas
de Varsóvia, como de todo o território da velha e tradicional Po­
lônia, que ainda há poucos meses era a pátria de um povo de

34
Irinta e cinco milhões, com uma história que se projeta muito
ulém da que faz o orgulho da Alemanha.
“Os horrores e os atentados imperdoáveis cometidos contra
um povo indefeso e desabrigado foram dados a público pelos de­
poimentos indubitáveis das testemunhas de vista”, declarou o
Papa, numa irradiação do Vaticano, em 22 do corrente. “A ini­
qüidade culminante — diz ainda a irradiação do Vaticano —
está na supressão cínica de qualquer sugestão da crença religiosa,
na vida de um dos povos mais devotos da Europa”. Por todos
ôsses exemplos vergonhosos, bem podemos julgar qual seria o
nosso próprio destino, se caíssemos nas garras dos alemães. Mas
ôsses mesmos exemplos fortalecerão a nossa coragem de prosse­
guir na jornada, sem uma pausa, até que chegue o dia da liber­
tação e da vitória da justiça.
Vamos, pois: para a tarefa, para a batalha, para o trabalho,
cada um fazendo a sua parte, cada um no seu setor. Enchei as
fileiras dos exércitos, dominai os ares, produzi munições, cons­
truí navios, vigiai as ruas, socorrei os feridos, levantai o ânimo
dos desanimados e honrai os bravos. Caminhemos para diante,
juntos, em todos os recantos do Império, em todos os recantos
da ilha. Não há uma semana, um dia, uma hora a perder.

35
A MARINHA ESTÁ PRESENTE
D is c u r s o p r o n u n c i a d o d u r a n t e o a l m ô ç o o f e r e c id o p e l a
C id a d e d e L o n d r e s a o s o f ic ia is e t r i p u l a ç ã o d o
“E x e t e r ” e d o “A j a x ” .
23 DE FEVEREIRO DE 1940

Janeiro, 29. Um avião alemão de bombardeio metralha o na-


vio-farol de East Dudgeon, matando todos os tri­
pulantes, menos um.
Janeiro, 31. O “Ajax” chega a Plymouth.
Fevereiro, 12. Chegam a Suez os primeiros contingentes das
fôrças expedicionárias da Austrália e da Nova
Zelândia.
Fevereiro, 14. O govêrno britânico baixa uma autorização ge­
ral, para que os súditos britânicos possam lutar
como voluntários a favor da Finlândia.
Fevereiro, 15. O “Exeter” chega a Plymouth, onde recebe as
boas-vindas do primeiro Lord do Almirantado.
Fevereiro, 16. A Suécia rejeita o apêlo da Finlândia para a
passagem de tropas estrangeiras pelo território
sueco.
Fevereiro, 17. O “Cossack” ataca o cruzador auxiliar “Alt-
mark”, no Fjord Josling, e liberta 299 prisionei­
ros britânicos — marinheiros dos navios afun­
dados pelo “Graf Spee”.

37
Fevereiro, 19. Anuncia-se que, ao norte do Lago Ládoga, os
finlandeses exterminaram a 189 Divisão Russa.
Fevereiro, 23. O “Achiles” volta a Auckland, na Nova Zelân­
dia.

K m nome dos meus colegas do Almirantado e do Gabi­


nete de Guerra, agradeço o convite, que nos foi dirigido, para par­
ticiparmos da recepção que a cidade de Londres oferece aos ven­
cedores do Rio da Prata. É um acontecimento feliz, memo­
rável e único. É a maior homenagem que a vossa antiga Cor­
poração poderia prestar aos oficiais e marinheiros do “Exeter”
e do “Ajax” e, através dêles, a tôda a nossa Marinha, da qual,
logo abaixo da Providência, dependem, hora por hora, as nossas
vidas e o nosso Estado. Não creio que os laços entre a Marinha
Britânica e a Nação Britânica — e foi preciso muito tempo para
consoüdá-los — ou os que unem a Marinha de Guerra à Marinha
Mercante tenham jamais sido tão fortes como são hoje. O maior
pêso da guerra, até agora, tem recaído sôbre os marinheiros e seus
camaradas da Fôrça Aérea da Costa. Já perdemos quase 3.000
vidas, numa luta feroz e impiedosa, que continua noite e dia e que
agora mesmo está prosseguindo, sem um momento de tréguas. A
brilhante guerra naval — concebida pelo Almirante Harwood e
posta em prática pelos que hoje aqui estão presentes — ocupa um
lugar destacado, nos anais da nossa história naval, e veio, num in­
verno escuro e frio, iluminar e aquecer os corações britânicos. Mas
a tarefa da Marinha não se limita a essas poucas horas de ação bri­
lhante e arriscada, que todos os olhos acompanham. É talvez mais
penosa ainda, durante as longas semanas e os longos meses de pro­
vação e vigília, por mares escuros e tormentosos, de cujas ondas a
morte e a destruição podem saltar a cada passo, num rugido teme­
roso. É essa a tarefa que os homens aqui presente vêm desempen-
nhando e que, neste momento, companheiros seus estão desem­
penhando. Para essa tarefa, de certo modo a ação violenta é
quase um alívio. Impõe-se aqui uma palavra de louvor aos mem­
bros do Conselho do Almirantado e especialmente ao primeiro
Lord da Marinha, Sir Dudley Pound, e ao Delegado-Chefe do Es-
tado-Maior da Armada (o recém-promovido Vice-Almirante Phi­
lips), pela tática admirável que vêm empregando. Lembrai-vos de

38
que cada golpe certeiro contra a nossa navegação corresponde a
muitos outros que falharam o alvo, na vastidão dos oceanos, e de
que cada êxito alcançado pelo inimigo corresponde a muitas de­
silusões. Nunca deveis esquecer que os perigos de que tendes co­
nhecimento representam uma parte mínima dos que são afastados
por contínua vigilância e previdência, passando assim desperce­
bidos. O Almirantado e a Esquadra estão aprendendo juntos a
arte especial desta guerra difícil e diferente. É provável que mui­
tos erros e acidentes venham a ocorrer e é provável que, de quan­
do em quando, atravessemos períodos sombrios, mas espero que o
espírito de decisão e perseverança, que anima os podêres centrais,
se irradiará de Whitehall para todos os nossos marujos, ajudan­
do-os suportar o pêso de suas responsabilidades e articulando uma
ação vigorosa. Não foi, por exemplo, simples coincidência que
encaminhou o “Achilles” da vastidão do Pacífico para as plagas da
longínqua Nova Zelândia, a fim de receber, nos Antípodas, a mes­
ma homenagem calorosa que seus irmãos “Ajax” e “Exeter” estão
agora recebendo na velha e querida Londres.
O moral das nossas fôrças navais nunca foi tão elevado e tão
forte como é hoje. Os heróis guerreiros do passado, volvendo os
olhos para nós, como volve Nelson, do alto do seu monumento,
verificariam que a raça desta ilha não perdeu a audácia e que os
exemplos dos séculos passados não foram esquecidos pelas ge­
rações que se sucederam. Ao atacar velozmente um inimigo que
poderia afundar qualquer dos navios atacantes, com um único dis­
paro certeiro de seus canhões muito mais poderosos, o Almirante
Harwood repetiu a imortal palavra de ordem de Nelson. E dela
não desmereceu nem o moderno feito, nem o resultado final, nem
a conduta heróica do primeiro ao último dos homens que toma­
ram parte na gloriosa ação do Prata. O epílogo dessa história
coube ao “Cossack” e sua flotilha, com o salvamento dos prisio­
neiros britânicos de bordo do navio alemão afundado nas barbas
do inimigo e entre as complicações de uma neutralidade unila­
teral. O salvamento dêsses pobres homens, na hora exata em que
iam passar ao cativeiro germânico, prova que o longo alcance
do poder naval da Grã-Bretanha não atinge só os inimigos, mas
também os amigos fiéis. E à palavra de ordem de Nelson, pronun­
ciada há 135 anos passados — “A Inglaterra espera que cada um
cumpra o seu dever” — pode hoje acrescentar-se a não menos vi­
brante resposta da semana passada: “A Marinha está presente.”

39
OS ORÇAMENTOS D A MARINHA

D is c u r s o p r o f e r id o n a C â m a r a d o s C o m u n s p o r o c a s iã o d a
a p r e s e n t a ç ã o d o o r ç a m e n t o s u p l e m e n t a r d a M a r in h a .
27 d e f e v e r e ir o d e 1940

Fevereiro, 25. O Sr. Sumner Welles, enviado especial do Presi­


dente Roosevelt, chega a Roma.
Fevereiro, 26. Os finlandeses perdem a importante ilha-forta-
leza de Koivisto, que protegia o flanco direito da
Linha Mannerheim.

K m nome da Marinha, venho hoje, perante a Câmara, so­


licitar uns poucos homens, alguns navios e algum dinheiro, para
habilitar a nossa Esquadra a levar avante uma missão que é hoje
de importância vital para todos nós.
Ao fazer êste pedido, sinto-me encorajado pela extrema aten­
ção que, no decurso desta guerra, a Câmara tem dispensado aos
assuntos navais. Parece-me que, desde a última vez em que apre­
sentei um orçamento de guerra da Marinha — há 25 anos, quase
precisamente — desenvolveu-se uma compreensão muito mais am­
pla das condições em que a Marinha e o Almirantado cumprem
seus deveres; das dificuldades que enfrentam e da impossibilida­

41
de de evitar um ou outro êrro, tanto em Whitehall, como no mar.
A verdade é que, por mais que nos esforcemos, haverá sempre
perdas dolorosas a lamentar. Sou grato à Câmara — não só aos
nobres colegas que apóiam o govêrno, como também ao nobre co­
lega que representa a oposição e ao líder do Partido Liberal —
por êste espírito de tolerância, compreensão e mesmo indulgên­
cia, que têm revelado e continuam a revelar, e posso garantir à
Câmara que isso ainda mais nos estimulará para o desempenho
da nossa tarefa. Será com a apresentação de resultados que pro­
curaremos merecer a aprovação geral. O apoio vigoroso e firme
dado pelo Parlamento à Coroa, em tôdas as emergências desta
guerra, bem como a irrestrita cooperação financeira da Câmara
dos Comuns, impõem grandes responsabilidades às fôrças arma­
das e aos ministros parlamentares incumbidos de dirigi-las e supe­
rintendê-las.
Lamento não apresentar à Câmara, como naturalmente de­
sejaria, fatos e algarismos precisos sôbre o programa de arma­
mentos e despesas da Marinha nos próximos anos. Em primeiro
lugar, é materialmente impossível fazer cálculos exatos para obje­
tivos que variam constantemente; em segundo, não há necessidade
de fornecemos ao inimigo informações, que lhe possam ser úteis,
sôbre os nossos planos. Pedimos, portanto, à Câmara que nos dê
mais uma prova de confiança, procedendo a uma votação incon­
dicional. Mas isso não significa que o Parlamento não deva con­
tinuar vigilante para evitar desperdícios e denunciar erros, caso
os encontre.
As Comissões Parlamentares sugeridas pela Câmara e insti­
tuídas pelo chanceler do Tesouro estão agora em exercício junto
às três Armas. Dei instruções especiais ao Almirantado, para que,
sempre que fôrem chamados, todos os funcionários e oficiais se
apresentem à Comissão e lhe prestem o auxílio que fôr necessário.
Muitos dêles já foram interrogados, mas estarão prontos a atender
a qualquer nôvo chamado. Há muitos outros que não foram ainda
ouvidos, mas todos têm absoluta liberdade para esclarecer qual­
quer assunto, exceto, naturalmente, os que, sendo de natureza
secreta, a própria Comissão não desejaria conhecer. No caso de
surgir alguma dificuldade, ponho-me à inteira disposição da
Comissão encarregada de examinar as despesas do Almirantado.
Iispero, aliás, que os membros dessa Comissão não se limitem a

42
colhêr informações em Londres, mas visitem também os portos e
estabelecimentos navais e verifiquem, com seus próprios olhos,
in loco, as coisas como são na realidade.
É natural que, em tempo de guerra, haja sempre uma certa
margem de excesso e desperdício.
Mas, em nosso país, que se habituou a uma severa fiscali­
zação do Parlamento, êsse desperdício raramente decorre de frau­
de ou corrupção.
Muitas vêzes é provocado por ineficiência e, nesse caso, pode
ser corrigido. Entretanto, creio que decorre, sobretudo, dum zêlo
excessivo nas precauções contra perigos que variam freqüente­
mente e às vêzes desaparecem quando são enfrentados; e, talvez
mais ainda, das boas intenções dos que desejam alcançar cem por
cento de segurança em cada setor — o que, naturalmente, é irrea-
lizável em tempo de guerra. Cada um dos nossos chefes servirá
melhor ao seu país pedindo apenas o indispensável para a sua
tarefa. Não é patriótico pedir demais — além do que, é difícil
obtê-lo. Até agora, a Marinha tem suportado e está suportando o
maior pêso desta guerra e não têm conta os perigos a que está
exposta. Mas, se algum dia ficar provado que atingimos uma supe­
rioridade positiva, decisiva, serei o primeiro a propor uma revisão
dos nossos recursos e necessidades — que, aliás, são muitos —
a fim de ser auxiliado o esforço nacional em outras direções. Mas
creiam que êsse dia não chegou ainda. Devemos evidentemente
esperar ataques muito mais intensos do que os levados a efeito,
até agora, contra o poderio naval de que vivemos e do qual tudo
depende. Desde o início da guerra, estamos cuidando de vastos
preparativos para fazer frente a êstes ataques mais violentos, par­
tam êles de submarinos, de minas de vários tipos, ou da aviação
inimiga.
Por solicitação do Gabinete, estou tentando intensificar, por
todos os meios, a construção de navios mercantes, a fim de com­
pensar perdas inevitáveis. É óbvio que teremos de equilibrar os
tipos de construção naval, e para isso, o melhor meio será confiar
todos os encargos ao Almirantado. Espero trazer para o nôvo
Departamento não só os nossos principais armadores, como as
figuras representativas das Trade Unions, a fim de que ambas as
classes participem da honra do êxito e realizem conjuntamente um
esforço sem precedentes.

43
Os submarinos estão sistemàticamente abandonando o uso
dos canhões de superfície, com tôdas as suas vantagens de rapidez,
para adotar o sistema mais selvagem, porém menos eficiente, do
torpedo; muitas vêzes, estão ainda substituindo o lançamento do
torpedo pelo de minas magnéticas ou de outro tipo, nas proximi­
dades dos nossos portos. As minas comuns tomaram-se bem co­
nhecidas na última guerra e chegamos a ter mais de 600 navios
ocupados exclusivamente na limpeza das nossas águas. A mina
magnética, porém, veio criar mais uma dificuldade. Nada tem de
nôvo, ou desconhecido, mas é uma excelente realização mecânica.
Entretanto, sinto-me autorizado a dizer que temos meios de lutar
contra a mina magnética e suas variantes. A longa história das
pesquisas para chegar a êsse resultado é quase uma história de
detetive, escrita em linguagem técnica. O magnetismo é uma ciên­
cia bastante conhecida’e não há um de seus refinamentos ou com­
plicações que não possa ser explorado e estudado. Deixando de
lado a falsa modéstia, não reconhecemos aos nazistas qualquer
superioridade científica sôbre o nosso país. Há, naturalmente, duas
fases no combate à mina magnética. A primeira é descobrir o
processo de combatê-la e a segunda é a aplicação, em grande
escala, do processo descoberto às circunstâncias práticas. Estamos
agora bastante adiantados nessa segunda fase e, embora espere­
mos, talvez num futuro próximo, ataques muito mais intensos por
êsse método, creio que estaremos à altura de enfrentá-los. Para
isso, tem sido necessário recorrer aos barcos de pesca e aos pesca­
dores. Êste ano, teremos à nossa disposição cêrca de um quarto
de milhão de marinheiros, mas ainda em fins de novembro preci­
samos dos serviços de muitos milhares de voluntários para a reti­
rada de minas. Houve grande afluência de gente, mas o alista­
mento se fêz apenas pelo prazo de três meses. Verifica-se agora
que êsse período precisa ser dilatado. Naturalmente, o trabalho
6 perigoso e, além disso, extremamente árduo. Entretanto, os
nossos voluntários dos barcos de pesca parecem ter gostado da
tarefa, provàvelmnete porque sabem quanto é necessária ao país
e também que só pode ser realizada por homens afeitos ao mar.
Em muitos dos nossos portos, 75 por cento dos que voluntària-
mente se apresentaram por três meses, em novembro, querem
agora continuar por tôda a duração da guerra, desejo êsse que o
Almirantado vai satisfazer.
Milhares de canhões de tôdas as espécies e tipos estão sendo
fornecidos às nossas frotas mercantes e de pesca. Os nazistas
replicam dizendo que isso lhes dá o direito de romper tôdas as
convenções — convenções que já romperam muitas vêzes. Está
claro que poderão aplicar, com mais violência, os seus métodos,
mas será difícil arranjarem novas formas de crueldade e barbárie.
A Câmara não pode ter dúvidas de que Herr Hitler e seus nazistas
ultrapassaram as piores vilanias que a Alemanha Imperial come­
teu na última guerra. E, por falar nisso, há uma questão que desejo
abordar perante a Câmara. Uma das coisas que mais me têm sur­
preendido em tôda a minha vida é a aceitação das ilegalidades,
atrocidades e brutalidades da Alemanha, como se fôssem parte das
condições comuns e quotidianas da guerra. Acontece que a impren­
sa neutra faz maior alarde quando eu pronuncio um discurso,
acentuando os deveres da neutralidade, do que quando os alemães
afundam centenas de navios neutros, provocando o afogamento
ou o assassinato — não há outro têrmo — de milhares de mari­
nheiros em alto-mar. Segundo parece, pela doutrina atual dos
Estados neutros, fortemente apoiada pelo govêrno nazista, a Ale­
manha tem o direito de obter uma série de vantagens, rompendo
tôdas as convenções e praticando atentados criminosos nos mares,
e em seguida outra série de vantagens insistindo sempre que lhe
convém, por uma severa interpretação do Código Internacional
que ela mesma destruiu. Não é de extranhar que o govêrno de
Sua Majestade esteja começando a cansar-se dessa situação.
Pessoalmente, o mesmo me acontece. Digo, sem hesitar, que, na
interpretação das normas e convenções referentes aos países neu­
tros, devemos nos guiar mais pelo sentimento de humanidade do
que pelo formalismo legal. Aliás, a julgar pelo episódio do
“Altmark”, que tanta satisfação causou na semana passada, parece
que êste é o ponto de vista não só da Nação Britânica, como do
mundo civilizado.
Examinemos as bases sôbre as quais repousa o nosso poderio
marítimo. Muita gente não acredita na utilidade dos grandes na­
vios encouraçados, achando que representam apenas motivos de
ansiedade no mar e sobrecargas inúteis nos portos. Todos obser­
vam que esta guerra está sendo lutada, dia a dia, pelas pequenas
unidades, e que os navios menores são sempre chamados a seguir
adiante, para proteger os maiores. E surge a pergunta: — “Então,

45
qual é a vantagem dos grandes?” Devo dizer que êsse ponto de
vista é muito superficial. Se não tivéssemos, agora, superioridade
inquestionável de encouraçados, os cruzadores pesados da Ale­
manha sairiam para o Oceano Atlântico e aí, sem receio de serem
chamados a prestar contas, obstruiriam, se não interrompessem
de todo, o tráfego da nossa volumosa navegação mercante, sem a
qual não nos seria possível viver. O inimigo poderia instalar bases
temporárias em pontos longínquos do globo, poderia fixar-se em
posições que não teríamos meios de atacar, e assim provocaria a
nossa ruína total. Mas, felizmente, dispomos de unidades pode­
rosas, muito superiores, em número e fôrça, às do inimigo, se, em
qualquer tempo, êle se resolver a pôr em ação a sua esquadra,
como pode muito bem acontecer, estaremos sempre prontos a
enfrentá-la com fôrças muito mais poderosas, provocando uma
batalha que importará na destruição das unidades inimigas. Fa­
ríamos assim, naturalmente em escala muito maior, o que fize­
mos no caso isolado do “Graf Spee”. Sem uma esquadra superior,
nunca poderemos exercer o domínio dos mares e nem mesmo
dispor da comida indispensável para subsistirmos.
Durante a guerra passada, precisávamos ter sempre apres-
tados 30 ou 40 encouraçados, com os respectivos esquadrões e
flotilhas, para travar, a qualquer momento, uma batalha vital
contra o inimigo. Agora, porém, essa preocupação está muito
reduzida. O inimigo dispõe apenas de dois navios realmente gran­
des e não tem elementos para tentar formar uma linha de batalha.
Por outro lado, nós temos a possibilidade de pelo menos três, senão
quatro, linhas de batalha, em nenhuma das quais o inimigo estaria
em condições de competir conosco. Os nossos navios podem, por­
tanto, abranger um círculo mais amplo, nos oceanos; ao mesmo
tempo dispomos de elementos para ter sempre, nas proximidades
da costa, fôrças suficientes para enfrentar o inimigo, caso se apre­
sente. E disso depende a nossa supremacia naval.
Entretanto, é preciso não esquecer que não dispomos de
encouraçados modernos. Há muitos em construção, em diversos
países, mas nenhum dêles está em serviço. Em virtude de vários
tratados que temos assinado e sôbre os quais muitas vêzes tenho
manifestado a minha opinião, todos os nossos navios mais impor­
tantes são antigos. Alguns fôram reconstruídos, mas, com exceção
de três, todos êles foram aprovados por mim, quando estive no

46
Almirantado pela última vez, há mais de um quarto de século. Na
realidade, estamos lutando esta guerra com navios da guerra pas­
sada. Isso não afeta a luta de superfície, porque os nossos navios
ficarão prontos tão depressa quanto os do inimigo e em número
muito maior. Dentro de pouco tempo, a esquadra receberá o re-
fôrço de cinco modernos encouraçados da classe do “King George
• V”, contra os quais o inimigo, em época correspondente, só poderá
lançar dois. Assim, a luta de superfície não nos encontra em situa­
ção de inferioridade.
Mas acontece que os navios velhos são sempre objeto de
ansiedade maior, porque os ataques submarinos e aéreos são hoje
muito mais temerosos do que na época em que fôram construídos
os nossos navios e porque os torpedos, as minas e as bombas de
1940 estão sendo empregados contra estruturas da geração pas­
sada. Para cada torpedo que era lançado, em 1915, com uma
carga explosiva de 500 libras, lançam-se hoje seis a um tempo,
com cargas explosivas muito maiores. As bombas lançadas verti­
calmente de cima constituem também ameaça que não pode ser
desprezada e que não existia quando a maior parte dos nossos
navios de guerra fôram construídos. Mas os navios, que estamos
construindo, cuja construção estamos apressando e que hão de
ficar prontos a tempo, são equipados para fazer frente à bomba
aérea e adaptados para suportar explosões submarinas, em con­
dições muito mais favoráveis do que qualquer dos nossos navios
de hoje. Não quero com isso despertar apreensões exageradas sô­
bre o valor dos navios atuais. Quando foi atingido por um torpedo,
o “Barham”, apesar de ser um navio antigo, resistiu perfeitamente
à violência do golpe e pôde alcançar o pôrto com as próprias má­
quinas. Dentro de pouco tempo, o “Barham” estará reparado e
novamente pronto para o mar. Também o capitânea da nossa
esquadra — o “Nelson” — navio mais moderno, mas ainda assim
construído há quinze anos, foi atingido por uma mina magnética
e conseguiu chegar ao pôrto sem auxílio. Dentro em breve, estará
outra vez incorporado à Esquadra. Êste segrêdo, que era fatal­
mente do conhecimento de milhares de pessoas, foi entretanto
muito bem guardado e só agora se espalhou na Alemanha, depois
que deixou de ter a menor importância. A não ser o “Royal Oak”
e o “Courageous”, nenhum outro navio grande foi avariado ou
afundado desde o início da guerra.

47
Qual é, pois, a nossa situação ao cabo dos seis primeiros
meses de luta? Perdemos 63.000 toneladas de navios de guerra,
ou seja cêrca de metade das perdas dos seis primeiros meses da
guerra passada.
Quanto à navegação mercante, computando-se perdas e aqui­
sições e pondo-se de um lado da balança os novos navios construí­
dos ou apresados, verifica-se que, de uma tonelagem total de
21.000.000, abrangendo os navios de todos os tipos sob o pavilhão
britânico e da qual YIV2 milhões correspondem a navios de alto
mar, perdemos menos de 200.000 toneladas. Em oposição a essas
200.000 toneladas perdidas em seis meses, temos, só no terrível
mês de abril de 1917, a perda líquida de 450.000 toneladas. Captu­
ramos maior volume de carga destinada ao inimigo do que o que
perdemos. Durante, os dois primeiros meses da guerra, houve um
desequilíbrio inevitável, mas a situação tem melhorado de mês
para mês, a despeito do mau tempo. Ainda em janeiro, a Marinha
transportou a salvo para os portos britânicos, através de subma­
rinos e minas, e tempestade e nevoeiro do inverno, volume superior
a quatro quintos da média dos tempos de paz, calculada sôbre o
verão e o inverno dos três anos precedentes.
Em dezembro e janeiro a tonelagem das nossas exportações
— e à Marinha só interessa a tonelagem — foi igual à dos meses
correspondentes de 1938, ainda em tempo de paz.
Agora, com a chegada da primavera e do verão, é de esperar
que o tráfego marítimo cresça de volume e, a não ser no caso de
ataques mais intensos do inimigo — o que nunca pode deixar de
ser objeto de nossas cogitações — não há motivo para que não
se verifique um aumento sensível. Se levarmos em conta o grande
número de navios britânicos transferidos para o serviço de guerra
ou utilizados para o transporte de tropas através do Canal, ou
através do mundo, não há motivo para desânimo ou alarme, nem
se justifica a impressão de que não nos será possível continuar,
com um vigor crescente, a nossa vida nacional e, ao mesmo tempo,
a guerra em tômo da qual gira a vida nacional. As restrições de
consumo que temos julgado ou que viermos a julgar necessárias
não se explicam pelo fato de haver a Marinha falhado em conser­
var livre o caminho dos mares, mas são devidas à necessidade de
nos prepararmos prudentemente contra o desconhecido e de ele­
varmos ao máximo o nosso esforço de guerra.

48
Em 1915, falando desta mesma tribuna, tive oportunidade
de dizer que o domínio dos mares era então mais completo do
que jamais tinha sido em nossa história. Não foi minha a honra
de continuar a dirigir a Marinha, mas o fato é que ela manteve
êsse domínio por mais de dezoito meses. Não quero fazer pro­
fecias sôbre o futuro, que se apresenta nublado pelas obscuridades
e incertezas da guerra. Mas, pessoalmente, não estarei tranqüilo,
e creio que a Câmara não estará tranqüila, enquanto não atingir­
mos e mantivermos um domínio dos mares pelo menos igual ao
das fases culminantes da última guerra e enquanto não dermos à
Marinha os meios de mais uma vez representar um papel decisivo
na vitória final dos aliados.

49
UMA GUERRA MAIS INTENSA

O r a ç ã o d ir ig id a a o p o v o d a G r ã -B r e t a n h a , a t r a v é s d o r á d io .
30 d e m arço de 1940

Março, 2. O Sr. Sumner Welles tem uma entrevista com


Hitler, em Berlim.
Março, 7. O “Queen Elizabeth”, de 85.000 toneladas, apor­
ta a Nova York, depois de uma viagem secreta
de Clyde.
Março, 11. O Sr. Sumner chega a Londres.
Março, 13. Anuncia-se a paz entre a Finlândia e a Rússia.
Março, 18. Herr Hitler e Signor Mussolini encontram-se no
Passo de Brenner.
Março, 20. Renuncia o Gabinete Daladier, na Europa; Paul
Reynaud ê convidado pelo Presidente para for­
mar um nôvo Gabinete.
Março, 27. Nas eleições gerais do Canadá, o Gabinete Libe­
ral do Sr. Mackenzie é reeleito por grande maio­
ria.

51
I j triste pensar que, enquanto a primavera acaricia a terra
e os nossos campos e matas renascem depois dos rigores do inver­
no, todos os nossos pensamentos e todos os nossos esforços devam
estar voltados para uma guerra mais intensa. Quando vos falei, há
seis meses passados, disse que, se chegássemos à primavera sem
acontecimentos de importância, teríamos alcançado uma grande
vitória. Continuo a achar que êsse período adicional de preparação
teve um valor inestimável para os aliados. Nações pacíficas e do­
tadas de instituições parlamentares encontram maiores dificulda­
des para transformar-se em organismos guerreiros do que os Esta­
dos ditatoriais, que pregam a guerra e alimentam a mocidade com
sonhos de conquista. O Império Britânico e a República Francesa
estão agora unidos indissolüvelmente, para a realização dos seus
objetivos, e é incontestável que progredimos infinitamente em tôdas
as direções — no aumento das nossas fôrças, no aperfeiçoamento
das nossas defesas, na adaptação de nossa economia e de nosso
modo de vida ao serviço da causa comum.
Até hoje, temos tido o tempo a nosso favor, mas o tempo é
um aliado volúvel. Inclina-se para um lado, volta-se para o outro
e, logo em seguida, mais dedicado do que nunca, pesa outra vez
no nosso prato da balança. Parece-me, de modo geral, que deve­
mos esperar uma intensificação da luta e estou absolutamente
certo de que não temos a intenção de evitá-la. Não nos devemos
vangloriar, nem ostentar orgulho, vaidade, ou confiança excessiva.
Nunca subestimamos o terrível encargo assumido quando, depois
de lutar tanto tempo pela paz, pusemos mãos-à-obra de conter a
ameaça do nazismo e da Alemanha, abrindo novos horizontes para
o progresso humano e dando a todos os países, grandes ou peque­
nos, antigos ou modernos, o direito de respirar livremente, por
longos tempos vindouros. Nunca achamos fácil o encargo, mas
podemos agora avaliá-lo, em tôda a sua magnitude, melhor do
que antes de entrarmos em contato com o nosso adversário, no
mar e nos ares.
Muita gente me pergunta se a guerra será longa ou curta.
A guerra poderia ter sido muito curta — ou talvez não tivesse
havido guerra — se todos os Estados neutros, que partilham de
nossas convicções sôbre pontos fundamentais e que, aberta ou
secretamente, são favoráveis à nossa causa, se tivessem unido ao

52
primeiro sinal. Não esperávamos nem contávamos com isso, de
modo que a falta dessa união não nos veio trazer desilusões ou
desânimo. Confiamos em Deus e confiamos na nossa própria fôrça,
a serviço de uma causa que sinceramente acreditamos envolver as
maiores esperanças e a harmonia da humanidade. Mas o fato de
muitos pequenos Estados da Europa se deixarem aterrorizar pela
violência e brutalidade dos nazistas, a ponto de fornecerem à
Alemanha os meios de continuar a guerra moderna, acarreta uma
situação que pode condenar o mundo inteiro a uma provação longa
e cheia de conseqüências imprevisíveis e trágicas para muitos paí­
ses. Por tudo isso, não posso garantir-vos que a guerra seja curta
e muito menos que seja fácil.
Acho que é nosso dever tentar, por todos os meios e até o
extremo limite das nossas fôrças, não só vencer a guerra como
abreviar o mais possível o seu curso devastador. Há poucas sema­
nas, falei na atitude dos Estados neutros que têm a infelicidade
de ser vizinhos da Alemanha. Temos a maior simpatia por êsses
desgraçados países e compreendemos o seu ponto de vista, diante
dos perigos que os ameaçam. Mas não é razoável, nem é do inte-
rêsse geral, que a fraqueza dêsses países alimente a fôrça do agres­
sor e concorra para fazer transbordar a taça de amargura da hu­
manidade. Não poderá haver justiça, enquanto o agressor tiver
o direito de espezinhar todos os sentimentos de humanidade e os
que lhe resistem se julgarem na obrigação de lutar de mãos atadas,
sob o pretexto de não violarem convenções legais. Não há um dia
que não traga notícia de novos e bárbaros ultrajes contra os na­
vios e os marinheiros de todos os países da Europa. Êsses navios
são afundados por torpedos, minas ou bombas e as suas tripula­
ções assassinadas ou abandonadas à morte, a não ser que tomemos
a iniciativa de salvá-las. Suecos, noruegueses, dinamarqueses e até
mesmo italianos, além de tantos outros que seria impossível enu­
merar, têm sido vítimas da fúria assassina de Hitler. Na sua aluci­
nação, êsse homem perverso e o regime criminoso que idealizou
e instituiu cada vez se voltam mais furiosamente contra os navios
fracos, solitários, e sobretudo contra os navios desarmados dos
países com os quais se presume que a Alemanha mantenha boas
relações.
Êsse estilo de guerra não fora mais pôsto em prática, desde
os tempos da pirataria em alto-mar. E é a êsse poder monstruoso
que os neutros, os próprios neutros que têm sofrido e estão so-

53
frcndo mais, são obrigados a fornecer os meios de futura agressão.
Ê perante êste poder que, transbordando de ódio, são forçados
a curvar-se, concorrendo para uma vitória que representaria sua
própria escravização. Ainda ontem, enquanto os tripulantes de
um submarino britânico carregavam para terra, em macas, oito
holandeses inânimes, que tinham sido encontrados vagando ao
sabor das ondas, abandonados havia seis dias num barco salva-vi­
das, os aviadores da Holanda, em nome de uma neutralidade
absoluta, abatiam um avião britânico desgarrado. Mas não censuro
os holandeses, nossos bravos aliados de séculos passados; meu co­
ração sangra por êles, no perigo e na desgraça que os ameaçam,
vivendo, como vivem, enjaulados com o tigre. Mas quando nos
pedem que aceitemos como razoável uma interpretação de neutra­
lidade que importa em. tôdas as vantagens para o agressor e tôdas
as desvantagens para os defensores da liberdade, recordo-me de
uma frase de Lord Balfour: “Êste mundo é muito mal feito, mas
nem por isso é tão mal feito assim”.
Todos êsses ultrajes cometidos no mar, tão evidentes aos olhos
do mundo, empalidecem diante dos atos monstruosos perpetrados
contra os tchecos e os austríacos indefesos e que se anulam em
face da tremenda agonia da Polônia. Que destino trágico o da Po­
lônia! Uma comunidade de quase trinta e cinco milhões de habi­
tantes, com tôda a organização de um govêrno moderno e tôdas
as tradições de um Estado antigo, perde sübitamente a sua qua­
lidade de nação civilizada, para transformar-se numa multidão
de homens, mulheres e crianças torturados e famintos, espezinha­
dos sob o tacão de duas formas rivais de tirania brutal e desen­
freada. Ainda outro dia, num pôrto bem conhecido da Grã-Bre­
tanha, passei em revista a tripulação de um destróier polonês.
Raras vêzes tenho visto um punhado de homens mais dignos de
admiração. Voltei impressionado pela disciplina e distinção que
observei. Entretanto, queria a fatalidade que flutuasse o navio
dêsses homens, enquanto a sua pátria submergia. Mas, olhando em
volta, para todos os navios de guerra ancorados, e observando os
preparativos que se faziam de todos os lados para levar esta luta
avante, custe o que custar, enquanto fôr necessário, consolei-me
com a idéia de que, quando êsses marujos poloneses tiverem ter­
minado a sua missão ao lado da Marinha Britânica, hão de ter
um lar para onde voltar. A tragédia da Polônia aí está, saltando

54
aos olhos, mas ainda assim há alguns inconscientes que de quan­
do em quando perguntam: “Quais são os objetivos da Grã-Breta­
nha e da França nesta guerra?” A minha resposta é simples: “Se
abandonássemos a luta, não tardaríeis muito a descobrir quais
são os nossos objetivos.”
Seguiremos esta guerra aonde quer que ela nos leve; mas não
desejamos ampliar o conflito. No início, há sete meses passados,
ignorávamos se a Itália e o Japão seriam neutros ou inimigos.
Por outro lado, muita gente esperava que a Rússia voltasse à Liga
das Nações, procurando proteger os trabalhadores de todo o mun­
do contra a agressão nazista. Mas nenhum dêsses fatos ocorreu,
para bem ou para mal. Não estamos em luta com os povos ita­
liano e japonês. Temos procurado, e continuaremos a procurar,
por todos os meios, viver em harmonia com êles.
Reina tranqüilidade na frente ocidental; e hoje, sábado, até
agora nada aconteceu no mar ou nos ares. Há, porém, mais de um
milhão de soldados alemães, com suas divisões motorizadas, pron­
tos para o ataque imediato ao longo de tôda a fronteira com o
Luxemburgo, a Bélgica e a Holanda. A qualquer momento, êsses
países neutros podem ser vítimas de uma avalancha de aço e fogo.
A decisão depende de um ente mórbido que, para vergonha eterna,
o povo alemão, no seu fanatismo, tem adorado como a um deus.
É esta a situação da Europa, hoje. Poderá alguém surpreender-se
diante da nossa resolução de pôr têrmo a um tal estado de alarme,
quanto antes e de uma vez por tôdas? Hoje, há pouca gente que,
olhando para trás, para os últimos sete meses, possa pôr em dú­
vida que os povos da Grã-Bretanha e da França agiram bem ao
desembainhar a espada da justiça e da reação. E menor ainda é
o número dos que desejariam vê-la embainhar-se antes de comple­
tar a sua nobre missão.

55
NORUEGA
D is c u r s o p r o f e r id o n a C âm ara dos C o m uns.
11 d e a b r il d e 1940

Abril, 8. Enquanto transportes alemães se encaminham


para a Escandinávia\ a Grã-Bretanha mina as
águas norueguesas.
Abril, 9. A Alemanha invade a Noruega e a Dinamarca.
Esta não oferece resistência.
Abril, 10. I 9 batalha de Narvik entre destróieres britânicos 1
e alemães.

h l stou certo de contar com a indulgência da Câmara se


porventura houver algum pequeno engano nos detalhes da exposi­
ção que vou fazer. Peço também que me relevem não ser essa ex­
posição precedida das explicações minuciosas e prolongadas, que
tenho por hábito oferecer à Câmara. Nos tempos que correm, tra­
balhamos sob uma tensão violenta, mas ainda assim tenho sempre
procurado prestar à Câmara tôdas as informações de interêsse pú­
blico, aliás de acôrdo com as instruções e desejos expressos do pri­
meiro-ministro e de meus colegas do Gabinete.
A calma estranha e inesperada das últimas semanas foi vio­
lentamente quebrada, na manhã de segunda-feira, pela invasão da

57
Noruega e da Dinamarca. É evidente que êsse crime da Alemanha
vinha sendo elaborado há muito tempo e que, na realidade, a sua
execução começou na última semana de março. Há vários meses,
vínhamos recebendo informações de que grande número de navios
mercantes alemães estavam sendo adaptados para o transporte de
tropas e que havia uma grande concentração de navios pequenos
cm alguns portos do Báltico, bem como na foz do rio Elba. Mas
ninguém podia prever quando ou contra quem seriam utilizados.
Tôdas aquelas nações pacíficas — Holanda, Dinamarca, Noruega
e Suécia — pareciam igualmente expostas a um ataque súbito,
brutal, caprichoso e, em qualquer dos casos, não provocado. Qual
delas seria escolhida como primeira vítima e quando seria o golpe
desfechado era inevitàvelmente questão de meras conjecturas.
O govêrno da Alemanha nazista tem por hábito espalhar uma
torrente de ameaças e boatos, que são lançados pelos seus agentes
nos países neutros, pelos “agregados” das suas legações e pelos sim­
patizantes da causa nazista, onde quer que se encontrem. Todos
êsses países têm sido ameaçados; e como o govêmo alemão não se
deixa deter por escrúpulos ou normas internacionais e manifesta
sempre uma preferência marcada pelos ataques dirigidos contra
povos fracos, espalhou-se um alarme tremendo entre todos os pe­
quenos países limítrofes da Alemanha.
Nem mesmo aquêles que, por todos os meios, têm procurado
obter as boas graças da Alemanha e maior auxílio lhe têm pres­
tado podem estar seguros de que não serão atacados inesperada­
mente, sem motivo ou pretexto, dominados e reduzidos ao cativei­
ro, depois de ver saqueadas as suas propriedades e pilhados os seus
víveres. O mêdo se generalizara em todos êsses desgraçados países,
mas nenhum dêles, nenhum de nós, podia prever qual seria a pró­
xima prêsa a ser devorada.
Na madrugada de segunda-feira, soubemos que couberam à
Noruega e à Dinamarca os números nefastos dessa sinistra loteria.
Naturalmente, a Dinamarca tinha motivos mais sérios para apreen­
sões, não só porque era o mais próximo e o mais fraco dos vizinhos
da Alemanha, como porque firmara com o govêmo alemão um
tratado que lhe dava garantias de não-agressão. Além disso, manti­
nha com a Alemanha e a Grã-Bretanha ativo comércio, cuja conti­
nuação em tempo de guerra foi prevista e aceita pelo govêmo
alemão, em acordos comerciais firmados com o govêrno dinamar­

58
quês. Era natural que êsses fatos acarretassem, para a Dinamarca,
um perigo todo especial.
Como todos sabem, a configuração estranha da costa ociden­
tal da Noruega forma uma espécie de corredor, ou rota protegida,
através do qual a navegação neutra e os navios alemães de todos
os tipos, mesmo os de guerra, podiam movimentar-se de um ponto
para outro, valendo-se da Noruega para atravessar livremente o blo­
queio aliado, até alcançarem a proteção efetiva da fôrça aérea ger­
mânica, ao norte da Alemanha. Podiam navegar tranqüilamente
por essa rota, sem o menor perigo. A existência de uma passagem
geográfica dessa natureza, legalmente ao abrigo de qualquer agres­
são, sempre foi a nossa maior desvantagem e a maior vantagem
da Alemanha, para burlar o bloqueio britânico e aliado. Navios do
guerra passavam por ali incólumes; submarinos cruzavam aquelas
águas quando queriam. Ao tentarem voltar para a Alemanha, de­
pois de singrarem outros mares, transatlânticos e navios mercantes
alemães seguiam a mesma rota, que tem uma largura superior a 800
milhas e é facilmente acessível, em qualquer ponto. Em resumo,
êsse corredor norueguês foi sempre o maior obstáculo a um blo­
queio eficiente contra a Alemanha. E não só nesta guerra, como na
outra. O fato é que a esquadra britânica muitas vêzes se via obri­
gada a assistir passivamente ao desfile de intermináveis procissões
de navios alemães e neutros, que levavam contrabando de tôda a
espécie para a Alemanha. Poderia impedi-los de prosseguir a qual­
quer momento, mas era obrigada a respeitá-los, em virtude dessas
mesmas convenções internacionais que a Alemanha sempre despre­
zou ostensivamente, tanto nesta guerra, como na passada. Duran­
te a última guerra, êsse corredor era utilizado principalmente pelos
submarinos, que por ali saíam para suas expedições devastadoras.
E tais prejuízos acarretou aos aliados que, juntos, os governos da
Grã-Bretanha, da França e dos Estados Unidos — que naquela
ocasião lutavamiao nosso lado — conseguiram induzir os norue­
gueses a minar as suas águas territoriais, naquele trecho, a fim de
evitar a passagem abusiva^dos submarinos. É,.pois, compreensível
que, logo no início da guerra atual, o Almirantado levasse êsse
precedente ao conhecimento do govêrno de Sua Majestade e insis­
tisse pelo direito de colocar um campo de minas nas águas territo­
riais da Noruega, a fim de trazer para mar alto o cortejo de navios
que entravam e saíam da Alemanha, sujeitando-os ao contrôle de

59
contrabando ou aos riscos de captura, como prêsa inimiga, pelos
esquadrões e flotilhas de bloqueio. Mas também é compreensível
e justo que o govêrno de Sua Majestade relutasse muito tempo
antes de incorrer em uma violação, mesmo técnica, dos princípios
do Direito Internacional. Afinal, é justamente por êsses princípios
que estamos nos batendo; e é fácil compreender o dilema em que
nos colocam problemas dessa natureza. Mas não se pode tolerar
que uma causa justa seja prejudicada pelo respeito a convenções
que os defensores de uma causa injusta violam e despedaçam a cada
passo. Gradualmente, à medida que esta guerra se foi tornando
mais intensa e mais cruel, compreendeu-se que o tráfego de na­
vios pelo corredor norueguês importava numa sobrecarga tremen­
da para os aliados e compreendeu-se também que não era possível
admitir, por mais tempo, que, semana após semana, os navios
inimigos continuassem a cruzar êsse corredor, levando ferro para
as armas que abateriam a juventude da França e da Grã-Breta­
nha, na luta de 1941. Ficou decidido afinal — e os escrúpulos
foram tão prejudiciais quanto honrosos para nós — que se inter­
rompesse o tráfego nessa zona, forçando a passagem dos navios por
alto mar. Tomaram-se tôdas as precauções para evitar qualquer
perigo aos navios neutros, ou mesmo perdas de vida entre as tripu­
lações dos navios mercantes inimigos, em conseqüência dos cam­
pos de minas que colocamos e declaramos segunda-feira de madru­
gada. As patrulhas britânicas chegaram mesmo a estacionar junto
a êsses campos de minas, a fim de afastar todos os navios da zona
perigosa. O govêrno alemão procura agora fazer crer que a inva­
são da Noruega e da Dinamarca foi uma conseqüência de haver­
mos fechado o corredor norueguês. Entretanto, há provas indu-
bitáveis não só de que os preparativos germânicos haviam come­
çado quase um mês antes, como de que os próprios movimentos
de tropas e navios tiveram início anteriormente à colocação dêsses
campos de minas pela Grã-Bretanha e pela França. Não há dú­
vida de que os alemães suspeitavam que essas minas iam ser co­
locadas e devem mesmo ter julgado incompreensível que não as
colocássemos há mais tempo. O fato é que, na última semana de
março, começaram a enviar para o corredor norueguês navios
vazios, destinados a transportar minério. Mas, nos porões dêsses
navios, ocultavam-se tropas e armamento para a invasão dos por­
tos da Noruega, que julgassem de valor militar.
Devo aqui dizer uma palavra sôbre a Noruega.

60
O povo norueguês conta com a nossa mais profunda simpa­
tia e compreendemos perfeitamente o terrível dilema em que foi
colocado. O seu coração, como o coração de todos os outros pe­
quenos países, voltava-se para os aliados. Os noruegueses vibra­
ram de ódio impotente, ao verem dezenas de seus navios impiedo­
samente postos a pique e centenas de seus marinheiros perecendo
afogados. Compreendiam também que a sua futura independên­
cia e a sua futura liberdade dependeriam da vitória dos aliados.
Mas, sentindo-se impotentes, nas garras do nazismo, alimentaram,
até o último momento, esperanças irrealizáveis de que pelo menos
o solo da sua pátria não fôsse conspurcado pela marcha das co­
lunas germânicas. Esperavam evitar que as suas liberdades e os
seus bens lhes fôssem arrebatados por tiranos estrangeiros. Mas
essa esperança foi vã. A Alemanha Nazista acaba de perpetrar
mais um ultraje contra uma pequena potência amiga e os norue­
gueses estão hoje em armas, na defesa de seus próprios lares. Ha­
vemos de ajudá-los, na medida de nossas fôrças; continuaremos
a guerra de mãos dadas com êles e só faremos a paz quando seus
direitos e liberdades forem restituídos. Nas regiões selvagens e
montanhosas da terra norueguesa — dizem que a liberdade mora
nas montanhas — nessa terra escassamente povoada, mas aciden­
tada e cheia de posições onde os homens livres acharão abrigo
para a luta, o povo da Noruega certamente encontrará meios de
manter uma resistência vigorosa e prolongada, que importe em sa­
crifícios e dificuldades sem conta para os que pretendem sub­
jugá-lo.
Êste episódio da Noruega representa um exemplo edificante
para outros países neutros, um exemplo de quanto é perigoso
supor que a circunstância de manterem relações cordiais com a
Alemanha, de receberem garantias da sua amizade, de firmarem
com ela tratados de qualquer natureza, ou de lhe prestarem ser­
viços ou assegurarem vantagens represente a menor proteção con­
tra um ataque assassino, no momento em que a Alemanha o julgue
conveniente aos seus interêsses. Se o govêrno norueguês não se ti­
vesse mostrado tão rígido e severo na sua neutralidade contra nós,
deixando as suas águas territoriais abertas às operações e aos ardis
da Alemanha, e se tivesse entrado em relações confidenciais co­
nosco, muito mais fácil nos teria sido prestar-lhe um auxílio mais
oportuno e mais eficiente do que agora. É estranho que se criti­
quem os aliados por não prestarem auxílio e proteção eficiente aos

61
países neutros, quando ao mesmo tempo, somos mantidos à dis­
tância por êsses próprios países neutros, até o dia em que são
vítimas de um ataque cientificamente planejado pela Alemanha.
Tenho a firme convicção de que a observância rígida da neutra­
lidade, por parte da Noruega, contribuiu grandemente para os so­
frimentos a que êsse país está agora exposto. Esperemos que o
exemplo seja objeto de meditação em outros países, que podem
amanhã, ou daqui a uma semana, ou daqui a um mês, ser esco­
lhidos como próximas vítimas de um plano igualmente elaborado
para a sua destruição e escravização.
Agora, responderei a uma pergunta que me parece correr em
certos meios: “Que está fazendo a Marinha?” Como tive oportu­
nidade de informar a Câmara, quando foi discutido o orçamento
da Marinha, ficamos privados, durante os longos meses do inver­
no, das grandes vantagens estratégicas de Scapa Flow; mas, nesse
mesmo período, trabalhamos incansàvelmente para transformar
aquela base num abrigo seguro para a Esquadra. Há cêrca de cinco
semanas, a Esquadra voltou para Scapa Flow e desde então per­
maneceu ah, ou dali tem partido para suas operações. Scapa Flow
estêve exposta a contínuos alarmes e bombardeios aéreos, mas
temos agora em ação poderosas baterias antiaéreas e outros sis­
temas de defesa. Entramos ainda em entendimentos com a Real
Fôrça Aérea e com as fôrças da Aviação Naval, a fim de que haja
sempre um número razoável de aparelhos prontos para entrar em
ação. Houve ao todo cinco ataques contra Scapa Flow — muitos
alarmes, mas apenas cinco ataques. O meu nobre colega líder da
oposição, na visita que fêz ao local, não teve sorte, pois por pouco
assistiria a uma dessas experiências interessantes. No primeiro
ataque, foi atingido um cruzador, cujos reparos duraram várias
semanas, mas nada houve além disso. Aliás, até o momento em
que vos falo, não houve outros navios atingidos ou danificados
em Scapa Flow; os objetivos militares de terra também não foram
atingidos e o número de vítimas é mínimo. O inimigo mostra cada
vez mais moderação nos seus ataques a Scapa Flow, o que aliás não
é muito de admirar, pois as baterias de terra, reforçadas pelas po­
derosas baterias da Esquadra, têm capacidade para o fogo anti­
aéreo mais temível do mundo inteiro. O raio de ação dessas bate­
rias é formidável e, ainda no último ataque, que se realizou ontem
ao anoitecer, dos 60 aviões que se aproximaram em ondas suces­
sivas, sem causar o menor dano, pelo menos seis foram abatidos.

62
A glória dessa vitória foi dividida — poderia quase dizer dispu­
tada — entre as baterias e as admiráveis esquadrilhas aéreas.
Estamos preparados para a luta, em Scapa Flow. E é da maior im­
portância que a Esquadra esteja em segurança ali. Aliás, os ata­
ques repetidos fornecem às baterias a ocasião de um treino incom­
parável contra aviões de alta velocidade. Nunca poderíamos ima­
ginar alvo melhor para êsse fim. É, pois, de nosso interêsse que
surjam oportunidades de novos encontros dessas baterias da Es­
quadra com a aviação inimiga, a fim de atingirem um máximo
de eficiência. É claro, porém, que devemos estar sempre prepara­
dos para correr os riscos de perdas ocasionais.
Ainda domingo à noite, a Esquadra não perdeu tempo, em
Scapa Flow, quando as patrulhas do nosso reconhecimento aéreo,
que abrange todo o Mar do Norte, trouxeram a notícia de que
cruzadores alemães e outros navios de guerra, inclusive destróieres,
estavam navegando a tôda velocidade em direção ao norte. O co­
mandante-em-chefe ordenou imediatamente a partida da Esquadra
ao encontro dos navios alemães, para forçá-los a uma batalha. Além
disso, nessa mesma ocasião, aproximava-se de Narvik uma podero­
sa fôrça naval britânica, a fim de colocar, na costa da Noruega,
o campo de minas cujas finalidades acabo de expor à Câmara. Êsse
campo de minas foi colocado, de acôrdo com os planos anteriores,
na madrugada de segunda-feira. Cumprida a sua tarefa, os navios
mineiros se retiraram para leste, a fim de evitar o risco de um
encontro com navios de guerra noruegueses empenhados em man­
ter uma neutralidade que tinham recebido instruções especiais para
preservar e proteger contra qualquer infração.
De um dos destróieres encarregados da colocação de minas
caiu um homem ao mar, no domingo à tarde, e aquela unidade se
deteve algum tempo para recolhê-lo. O destróier retardatário,
que era o “Glowworm”, seguia em direção ao norte, para reunir-se
aos outros, quando, às 8 horas da manhã de segunda-feira, avistou
primeiro um e em seguida dois destróieres inimigos, com os quais
entrou em luta. Depois, deu notícia de um navio desconhecido
navegando em direção ao norte. Êsses incidentes nos foram co­
municados um a um, com intervalos de poucos minutos, à medida
que iam ocorrendo, mas a última mensagem foi interrompida
sübitamente, e só podemos imaginar que o “Glowworm” tenha
sido afundado pelas fôrças muito superiores que teve de enfrentar.

63
A luz do “Glowworm” se extinguiu, mas não há razão para que
a maioria de seus tripulantes não tenham sido salvos, pois os sen­
timentos de humanidade dos combatentes são por vêzes bem diver­
sos dos de certos governos. Êsse encontro casual veiu demonstrar
que os elementos mais importantes da Esquadra inimiga estavam
em ação e que havia acontecimentos muito importantes em curso.
Desde então, a luta tem prosseguido incessante, noite e dia,
e está prosseguindo agora — uma ação dispersa, mas ainda assim
generalizada, entre numerosos navios e aviões alemães e as fôrças
que temos podido pôr em ação. Os jornais têm se ocupado muito
do assunto, noticiando coisas que aconteceram e coisas que não
aconteceram, porque a verdade é que não reocupamos os portos
da costa norueguesa. Êsses boatos partem de fontes neutras e são
postos em curso. Na manhã de segunda-feira, parecia que as fôrças
inimigas responsáveis pelo afundamento do “Glowworm”, com­
preendendo cruzadores e outros navios, seriam envolvidos pelas
nossas fôrças do norte e pelo grosso da Esquadra enfrentando
assim, por dois lados, uma esmagadora superioridade dos nossos.
Entretanto, os navios alemães conseguiram escapar. E, nesse pon­
to, quero, fazer uma digressão sôbre as condições da guerra naval.
Olhando para um mapa e para as bandeiras espetadas em
diferentes pontos, é fácil julgar que o resultado será certo; mas,
no mar, com suas distâncias imensas, suas tempestades e nevoei­
ros, suas incertezas e a noite envolvendo tudo em sombras não
é possível esperar que prevaleçam, para os encontros casuais e caó­
ticos dos navios de guerra, as mesmas condições que regulam o
movimento dos exércitos. Têrça-feira, a Esquadra se dirigia para o
Sul, quando, na altura de Bergen, foi insistemente atacada pela
aviação alemã. Os alemães espalharam pelo telégrafo e pelo rádio
as mesmas histórias de sempre sôbre afundamentos e avarias irre­
paráveis de vários couraçados e cruzadores. Sei que alguns dos
meus colegas deram crédito a êsses exageros berrantes. Na reali­
dade, dois cruzadores foram ligeiramente avariados por estilhaços,
mas isso não lhes prejudicou de modo algum a ação e êles conti­
nuam em seus postos, fazendo parte da Esquadra. Uma bomba
pesada atingiu o capitânia, o “Rodney”, mas a forte couraça do seu
convés resistiu perfeitamente ao choque e o “Rodney” não sofreu
avarias decorrentes das explosões, havendo apenas a lamentar os
ferimentos sofridos por três oficiais e sete marinheiros. Conside­
rando êsse incidente do ponto de vista da estrutura dos nossos

64
navios de guerra, podemos julgá-lo satisfatório. O cruzador “Au­
rora”, incorporado à nossa Esquadra, sofreu sete bombardeios
consecutivos, mas inócuos, pois a todos repeliu valentemente. En­
tretanto, um destróier, o “Gurkíia”, que acompanhava o “Auro­
ra” e até certo ponto lhe servia de escolta, foi sèriamente avaria^
do e submergiu ao cabo de quatro horas e meia, que constituíram
tempo suficiente para o salvamento de tôda ou quase tôda a tripu­
lação. Na mesma tarde, o destróier “Zulu” afundou um subma­
rino alemão, na altura das Orkneys.
Enquanto isso, nessa mesma têrça-feira pela manhã, muito ao
norte de Narvik, o “Renown”, um de nossos cruzadores de bata­
lha, avistou à distância o “Scharnhorst” e um cruzador de 10.000
toneladas, o “Hipper”, que evidentemente faziam parte das fôrças
chegadas na véspera. Entre tempestades de neve, num dia som­
brio, o mar encapeládò, as lufadas de vento zunindo furiosamente,
o nosso navio de guerra abriu fogo a 18.000 jardas de distância.
Ao cabo de três minutos, o inimigo respondeu, mas mudou de
direção quase imediatamente. Passados mais nove minutos, o “Re-
nowá” pôde observar que o navio inimigo fôra atingido na proa.
Daí por diante, cessou inteiramente o fogo. Pouco depois, o ca­
nhão da tôrre da pôpa passou a fazer fogo, isoladamente. Sendo
muito grande a velocidade do navio de guerra inimigo, o “Re­
nown” foi obrigado a aumentar para 24 nós a sua própria veloci­
dade, furando ondas encapeladas que o varriam. Ao cabo de mais
dois minutos de bombardeio, o “Scharnhorst”, lançando uma co­
luna vertical de fumaça, que parecia demonstrar haver sido atin­
gido pela segunda vez, retirou-se em grande velocidade, sem fazer
mais fogo. Nesse meio tempo, uma granada passara pelo nosso
navio, na altura da linha dágua, sem explodir. Aconteceu coisa se­
melhante no caso do “Exeter” e isso parece mostrar que a mão-de-
obra dos nazistas não é tôda da mesma marca. Uma segunda gra­
nada atingiu o mastro da proa. Não houve vítimas a lamentar a
bordo do “Renown”. Os destróieres que o escoltavam ficaram
para trás, pois não conseguiram acompanhar a velocidade do “Re­
nown” em mar agitado.
O “Hipper”, cruzador de 10.000 toneladas, aproximou-se
do “Scharnhorst” e lançou uma cortina de fumaça, para cobrir a
sua retirada. Convém acentuar que o “Scharnhorst” e o “Gneise-
nau” são navios formidáveis de 25.000 toneladas cada um. O
“Renown” abriu então fogo contra o “Hipper”, que também bateu

65
em retirada. Ambos os navios se afastaram em grande velocidade,
o “Hipper” procurando fugir ao fogo, por meio de oscilações de
rumo. O “Renown” atirava intermitentemente, com a visibilidade
prejudicada pelas tempestades de neve, que desabavam sôbre um
mar agitadíssimo. O fogo cessou afinal, a 29.000 jardas de distân­
cia e lamentamos informar que o inimigo se tornou então comple­
tamente invisível, conseguido escapar.
Talvez ocorra a alguém que, se tôdas essas notícias são de
têrça-feira pela manhã, já deviam ter sido comunicadas à Câmara.
Só posso dizer que eu mesmo estava ansioso por notícias, porque,
quando as informações começavam a tornar-se empolgantes, o
“Renown” interrompeu as suas comunicações e não recebemos mais
uma só palavra sôbre a batalha, até há poucas horas atrás. Embora
o “Renown” transmitisse vários sinais, não julgou necessário con­
tar-nos o que havia acontecido. Devo saüentar que, quando os nos­
sos marinheiros estão lutando, concentram-se a tal ponto na bata­
lha e tanto se interessam por ela que não se lembram, durante
algum tempo, de relatar as operações, causando muitas vêzes
sérios embaraços ao Almirantado e sobretudo ao Ministério das In­
formações.
Mas, estou ainda na têrça-feira. Têrça-feira à noite, demos or­
dem aos nossos destróieres para bloquearem o fiorde ocidental que
se estende por cinqüenta ou sessenta milhas, a caminho de Narvik.
Demos ordens a êsses destróieres para atacar o inimigo que pene­
trara no fiorde e sobretudo para destruir os navios nos quais se
ocultavam os soldados que haviam atravessado o corredor norue­
guês e que deviam ser essenciais às operações inimigas. Tivemos
notícia de que havia ali seis destróieres e um submarino. Além
disso, era provável que, durante as últimas vinte e quatro horas, o
inimigo tivesse desembarcado uma quantidade razoável de arma­
mentos. Aliás, os alemães são sempre muito rápidos nos seus de­
sembarques e fortificam-se com enorme facilidade. À vista do que
soubemos no Almirantado, na noite de têrça-feira, chegamos à
conclusão de que a operação era tão arriscada que a uma hora da
madrugada demos novas instruções ao comandante da flotilha de
destróieres, autorizando-o a julgar por si mesmo a conveniência ou
não do ataque, e acrescentando que, fizesse êle o que fizesse,
acontecesse o que acontecesse, poderia contar com o nosso apoio.
À vista disso, o Comandante Warburton-Lee entrou com os seus
cinco destróieres no fiorde e atacou os destróieres inimigos e as

66
fôrças que já tinham conseguido desembarcar. A princípio, só re­

[
cebemos notícia das perdas sofridas — nada mais — e ainda assim
deixei que essas notícias fôssem publicadas, porque acho que não
devemos nunca fechar os olhos à realidade. Estamos em plena luta
e temos a obrigação de saber enfrentar os golpes que nos atingirem.
Deixei, portanto, que as notícias fôssem publicadas, rudemente,
sem uma palavra que as suavizasse. Não somos crianças, a quem
seja preciso ocultar os desastres, e podemos aceitar, tão bem
quanto qualquer outro país, o que o destino nos reserve.
Logo que foi recebido outro despacho, por volta de uma hora,
dôle dei conhecimento ao primeiro-ministro, que imediatamente o
transmitiu à Câmara dos Comuns e ao país, através da imprensa.
Do momento em que nos cheguem notícias, boas ou más, serão
imediatamente transmitidas ao Parlamento, ao rádio e a imprensa,
bastando para isso que confiemos na autenticidade dos fatos anun­
ciados. Não sou contrário à propaganda &à publicidade, mas acho
que a melhor propaganda consiste em resultados objetivos. Êsses
resultados, devo dizer que estão sendo atingidos de modo bastante
satisfatório. A luta rude e feroz, que se desenvolveu no fiorde de
Narvik e na qual foi afundada metade dos navios combatentes de
ambos os lados, está à altura de qualquer dêsses feitos cuja lem­
brança se venera na longa história da nossa Marinha. Lucrou-se
a destruição de navios e o enfraquecimento de fôrças inimigas. Na
volta, dois destróieres que serviam de escolta a um companheiro
ferido e saíam do fiorde sem perseguição do inimigo que
por sua vez fôra atingido na mesma proporção, encontraram o
“Rauenfels”, abarrotado de munições, com as quais presumo que
os alemães pretendessem tranformar Narvik numa espécie de Se-
bastopol ou Gibraltar. A explosão dêsse navio, provocada pelos
nossos, deve ter vindo facilitar muito a tarefa que certamente te­
remos a nosso cargo.
Estamos agora na quarta-feira. Nesse dia, foi efetuado um
ataque resoluto, por duas esquadrilhas da Real Fôrça Aérea, for­
madas de 12 aviões cada uma, contra os dois cruzadores alemães
que se encontravam no fiorde Bergen, protegendo as tropas ali de­
sembarcadas. Um dêsses cruzadores ligeiros foi atingido e nunca
mais tivemos notícias dêle. Talvez tenha ido a pique, talvez esteja
oculto em algum fiorde, mas caso é que os reconhecimentos pos­
teriores não acusaram a sua presença. Ao anoitecer de quarta-
feira, a Aviação Naval entrou em ação, pela primeira vez nesta

67
guerra. Havia müittí que a Aviàçãò Naval se moátrava ansiosa
para tomar parte nas operaçõeá, còm os sèus “Sküas”, que aliás
não são aviões do último modelo. Entretanto, têm um longo raio
de ação e, partindo das Orkneys, atacaram o outro cruzador ale­
mão, que estava fundeado em Bergen. Dezesseis aviões, divididòs
em grupos de três, fealizaram ataques sucessivos em mergulho,
atirando bombas de 500 libras, da menor altura possível. Três
vêzes atingiram o alvo e, dos 16 àviões, 15 voltaram-. Poufco de­
pois, o avião mandado em vôo de reconhecimento não avistou
mais o cruzador no loca! onde se encontrava. Havia apenas, à flor
dágua, uma enorme mancha de óleo, numa extensão de cêrca de
uma milha. Parece que sempre obtivemos algum resultado.
Hoje, quinta-feira, ao romper dò dia, aviões navais em núme­
ro de 18 atacaram navios inimigos no pôrto de Trondheim. Tínha­
mos esperanças de ãtingir um cruzador da classe do “Hipper”, que
constava andar pelas imediações. Entretanto, êsse cruzador desa­
parecera, durante a noite, e só conseguimos alcançar um destróier,
que foi atingido por um torpedo. O lançamento de torpedos do
ar é uma forma muito antiga de ataque. Conheço-á desde o tempo
em que fui primeiro Lord do Almirantado, antes da guerra de
1914, e sempre dediquei grande intèrêsse ao assunto. Essa forma
de ataque já foi adotada uma vez nos Dardanelos. Envolve gran­
des esperanças e grandes possibilidades, mas nunca foi devida­
mente explorada. Precisamos adquirir mais prática e experiência
no manejo dessa arma pouco usada. E, à medida que a luta pros­
seguir, havemos de chegar a êsse resultado.
No meu propósito de responder aos que desejam saber o que
a Marinha está fazendo, acabei por entrar na apreciação de opera­
ções atuais e ainda pendentes de solução. Sôbre elas nada mais
posso adiantar à Câmara, mas creio que, até certo ponto, respondi
à pergunta que foi feita e demonstrei que a Marinha não pode
ser acusada de negligência ou inatividade e, ao contrário, tem cum­
prido zelosamente a missão que lhe foi confiada pelo Parlamento.
Dentro em breve, espero ter oportunidade de voltar ao assunto,
mas quero ainda fazer algumas considerações gerais e tentar um
resumo dos resultados obtidos até hoje. Quando falamos no do­
mínio dos mares, isso não significa que a Real Marinha de
Guerra e a sua aliada francesa dominem a totalidade dos mares,
ao mesmo tempo e em tôdas as ocasiões. Significa apenas que a
nossa supremacia naval prevalecerá em qualquer ponto dos mares

68
qucseja ésdoihido pâra teatro de luta; e que, assim, indiretamente,
dominamos todos os mares. É esta a verdadeira significação do
que chamamos domínio dos mares. Peço licença para lembrar à
Câmara que a Marinha está ocupada em assegurar o' transporte,
através de minas ©submarinos, dos enormes fornecimentos essen-
ciaisa êste país; Assim, não ocorreria a qualquer pessoa de bom-
scnso que a Esquadra despendesse fôrças e vidas e esgotasse as
energias de seus marujos e de suas máquinas, servindo ao mesmo
tempo de: alvo aos subrnatínos, no patrulhamentò incessante das
costas da Noruega e da Dinamarca, à espera do momento em que
Hitler se resolvesse'á desfechar o golpe que acaba de levar a efeito.
Digo, com maior respeito, que a pessoa â quem tenha ocorrido
uma sugestão dessa natureza dificilmente tèrá capacidade pára ofe1-
rccer seus conselhos à Nação, na gravidade do momento presenté.
Na minha opinião, que é também de meus consèlheiros téc­
nicos, Herr Hitler cometeu um grave êrro estratégico áo estender
à guerra para o norte e ao forçar o povo ou os povos escandinavos
a abandonarem a sua neutralidade. Até hoje, o que mais tem pre-*
judicado o .nosso bloqueio tem sido o cerceamento, da costa da
Noruega. Pois bem, agora, aquêle maldito corredor está fechado
para sempre. Hitler realizou, com fôrças variadas, a ocupação de
muitos pontos da costa norueguesa e abateu, de um só golpe, o
inofensivo Reino da Dinamarca mas deixou-nos à vontade para
impedir,-còmo estendermos, ò tráfego pela costa dá Noruega. Ê
claro que isso virá facilitar enormemente a eficiência do nosso blo­
queio. Neste momento, estamos também tratando de ocupar as Ilhas
Faroé, que pertencem à Dinamarca e constituem "um ponto estra­
tégico de primeira ordem. Ternos sido recebidos calorosamente'
pelo povo, pois a nossa ocupação das ilhas Faroé por mar e pelo
ar, representa, para os seusr habitantes,ruma proteção contra as-
desgraças da guerra, até’ que chegue o momento de restituirmos
esfcas ilhas à Casa Real e ao povo de uma Dinamarca liberada da
escravidão ignóbil a que foi submetida pela agressão alemã. O
oaso da Islândia precisa também ser considerado, porque a Islân-.
dia é, como sempre foi, um domínio do Rei Dinamarquêá. Por
ora, posso apenas1adiantar que nenhum ialemão pisará ali impu-.
nemente. ' ' • - r—• ............... •,
De um modo geral, a opinião do Almirantado é que os acon­
tecimentos da Escandinávia e dos mares do norte nos trouxeram
vantagens consideráveis,.do ponto de vista estratégico e militar,.

69
Pessoalmente, considero que Hitler, invadindo a Escandinávia,
cometeu um êrro político e estratégico tão grave como o de Napo-
leão, quando invadiu a Espanha. Hitler violou a independência e
o solo de povos viris, habitantes de grandes países liberais e
capazes de sustentar, com o auxílio da Grã-Bretanha e da França,
uma resistência prolongada às fôrças e à Gestapo da Alemanha
nazista. Considerando bem, Herr Hitler quase duplicou a eficiên­
cia do bloqueio aliado. Assumiu uma série de responsabilidades,
na costa norueguesa, pelas quais terá de lutar, talvez durante todo
o verão, contra potências que dispõem de fôrças navais muito supe­
riores às suas e que estão em condições de transportar essas
fôrças para o campo de ação, muito mais fàcilmente do que êle.
Não vejo quais as compensações que tenha obtido, a não ser uma
nova satisfação do seu desejo brutal de poder ilimitado. Mas não
creio que essa satisfação compense as desvantagens positivas e
duradouras do seu ato. Lamentando embora, profundamente, o
sofrimento e a miséria que agora se estendem a novas regiões do
mundo, devo declarar à Câmara que julgo os últimos aconteci­
mentos de grande vantagem para nós, desde que, agindo com vigor
incessante, aproveitemos ao máximo o êrro estratégico em que
caiu o nosso mortal inimigo.
Há ainda duas coisas que desejo acentuar. Uma delas é uma
cogitação muito grave. Salta aos olhos de todos que a totalidade
da Esquadra alemã foi lançada a um jôgo de azar, como uma
simples ficha arriscada em determinada operação. Nós e os fran­
ceses temos uma Esquadra muito mais forte do que a da Ale­
manha, dispomos de número suficiente de navios para conservar
o contrôle do Mediterrâneo e, ao mesmo tempo, podemos levar
avante tôdas as nossas operações no Mar do Norte. Ora, além de
ser inicialmente inferior à nossa, a Marinha Alemã tem sofrido
perdas tremendas. Viu afundados quatro dos seus cruzadores —
isto é, quase metade da fôrça total que possuía em cruzadores,
antes da guerra, e muito mais do que a sua fôrça atual — e, só a
partir de domingo, perdeu grande numero de destróiers e vários
submarinos.
Até o momento em que vos falo, a Alemanha tem feito frente
a essas perdas. Mas, afinal, uma esquadra é um todo uno, com
seus couraçados, seus cruzadores e seus destróiers e qualquer
esquadra fica profundamente mutilada, se lhe faltar êsse elemento
extraordinàriamente importante, e na realidade indispensável, que

70
é o cruzador. Posso assegurar à Câmara que os nossos submarinos
não estavam dormindo e cobraram pesado tributo dos transportes
de tropas e armamentos que cruzaram os mares em direção à
Escandinávia. Foi-lhes concedida plena liberdade de ação, ficando
sujeitos apenas às restrições impostas pelos sentimentos de huma­
nidade. Todos os navios alemães, no Skaggerak e no Kattegat,
estão expostos a ser afundados, a qualquer momento, inclusive
durante a noite, conforme a oportunidade que surgir. Não vamos
deixar que o inimigo se utilize impunemente dessas águas, para
abastecer suas tropas. Os submarinos já determinaram a todos os
navios mercantes que se retirem daquela zona. Esperamos conti­
nuar a recolher um tributo inexorável. Até hoje, foram afundados
ou capturados cêrca de doze navios, alguns de grande tonelagem,
quer no Skaggerak, quer no Kattegat, ou ainda em outros pontos
do Mar do Norte, quando tentavam levar reforços às tropas desem­
barcadas em Narvik. As baterias norueguesas também consegui­
ram resultados apreciáveis e não será demais dizer que a Esquadra
alemã sofreu mutilações terríveis, sob vários aspectos importantes.
Mas — e essa é a gravidade da cogitação que tomo a liber­
dade de submeter à Câmara — a própria inconsciência com que
Hitler e seus conselheiros lançaram os interêsses da Marinha Alemã
em águas tempestuosas, de encontro a todos os obstáculos, essa
própria inconsciência me dá a impressão de que as operações
audaciosas levadas a efeito com tantos sacrifícios podem ser apenas
o prelúdio de acontecimentos muito mais importantes que se pre­
param em terra. Provàvelmente, chegamos agora ao primeiro cho­
que importante da guerra. Mas o certo é que não encontramos no
que acaba de acontecer, e muito menos nos nossos corações, obstá­
culos que nos impeçam de caminhar ao encontro de quaisquer
sacrifícios necessários. Não temos a intenção de fazer profecias
ou cantar vitória de batalhas que ainda não foram travadas, mas
sentimo-nos prontos a enfrentar as piores armas do inimigo e a
orientar tôda a nossa fôrça vital para alcançar a vitória, numa
causa que é a causa do mundo inteiro.
Ainda uma palavra. A Marinha nunca mereceu mais consi­
deração do que agora, por parte da Nação Britânica e por parte
da Câmara, e nunca foi objeto de maior admiração, ou antes, de
maior afeto. E ela é digna da vossa confiança. Mas demonstrar
confiança à Marinha não significa apenas aplaudi-la nos dias
felizes em que se anunciam êxitos brilhantes. Significa que aquêles

71
— e constituem legiões — qjue depositam fê e confiança nos nossos
marinheiros e nos seus chefes não se deixarãò desanimar ou entris­
tecer quando, por três ou quatro dias consecutivos, só nos che­
garem do mar notícias dúbias, ou quarido o silêncio e as trevas
pairarem sôbre as ondas. A cada jum dos qüè confiam cabe á missão
de levantar o ânimo dos outros, mais accessíveis à dúvidá. E ‘será
êsse um papel relevante no grande drama do progresso humano,
que agora se desenrola diante de nossos olhos.

72
A KETIRADA DA NOÉIÍEGA
D is c u r s o p r o f e r id o n a C â m a r a d o s C o m u n s .
8 DE m a i o d e 1 9 4 0

Abril, 13. Segunda batalha naval em Narvik; o “Warspite”


e os destróieres de sua escolta afundam sete des­
tróieres alemães.
Abril, 14. A Grã-Bretanha coloca minas ao longo de tôda
a costa da Alemanha, no Báltico.
Abril, 15. Anuncia-se a presença de uma Fôrça Expedicio­
nária Britânica na Noruega.
Abril, 16. Sir John Simon apresenta o seu segundo orça-
'' mento de guerra.
Maio, 2. As Fôrças Militares Britânicas retiram-se do sul
de Trondheim e embarcam em Andalsnes.
Maio, 3. Retiram-se outras fôrças britânicasTem Namsos.
O comandante-em-chefe do Exército Norueguês
se retira com elas.
Maio, 8. Em seguida a um'vigoroso ataque do Sr. Herbert
Morrison, o primeiro-ministro declara que o de­
safio será convertido numa votação de confian­
ça. O debate é encerrado pelo Sr. Churchill, no
discurso abaixo. Mas a maioria do govêrno cai
para 81.

73
V JJ ostaria de dizer algo sôbre a campanha da Noruega e
também sôbre a guerra em geral. Muita gente indaga: “Mas por
que não tomamos nós a iniciativa? Por que havemos de esperar
sempre e ficar sempre imaginando qual será o próximo golpe do
inimigo?” É óbvio que para êle o campo de escolha é vasto. Pois
se parecemos ficar sempre na espectativa, não agindo senão depois
de agredidos! Pergunta-se: “Por que não toma a Grã-Bretanha a
iniciativa do próximo golpe?” O motivo dessa grave desvantagem
de não tomarmos nunca a iniciativa é um problema que não pode
ter solução rápida. Não podemos tomar a iniciativa agora porque,
durante os últimos cinco anos, não alcançamos ou recuperamos
paridade de fôrças aéreas com a Alemanha. É uma história muito
antiga e muito longa — aliás, peço licença para lembrar à Câmara
que é realmente uma história muito longa, porque, nos dois primei­
ros anos, quando eu e alguns amigos procuravamos convencer a
Câmara da necessidade de nos equipararmos à Alemanha, não
foi só o govêrno que levantou objeções, mas também ambos os
partidos da oposição. É verdade que êsse ponto de vista mudou
há cêrca de dois anos e chegamos a contar com um grande e valio­
so auxílio, mas o fato é que não atingimos paridade de fôrças
aéreas e que isso era vital para a nossa segurança. A nossa defi­
ciência numérica no ar, a despeito da qualidade superior da avia­
ção britânica, tanto em homens como em material — e creio que
essa superioridade está definitivamente comprovada — nos tem
condenado e há de nos condenar por algum tempo ainda a muitas
dificuldades, muitos sofrimentos e muitos perigos, que teremos de
enfrentar com firmeza, até alcançarmos condições mais favorá­
veis, como seguramente alcançaremos.
O nobre colega (Sr. A. V. Alexander) dirigiu-me uma inter­
pelação sôbre o caso do Skagerrak, indagando por que não havía­
mos interrompido as comunicações naquela zona. Observa-se que
a atual supremacia da nossa Esquadra devia possibilitar-nos, desde
o primeiro momento, o domínio do Skagerrak e a interrupção per­
manente das comunicações com Oslo. Acontece, porém, que a
imensa fôrça aérea do inimigo, que pode ser lançada a qualquer
momento contra os nossos navios-patrulha, acarretaria grandes
sacrifícios para nós, se empreendêssemos um patrulhamento efetivo
do Skagerrak. Êsse patrulhamento só poderia ser feito em caráter
permanente e por uma patrulha de superfície, não de destróieres,

74
note-se bem, porque estariam muito perto das bases aéreas do
inimigo e perto também dos seus cruzadores e dos seus couraçados,
dos quais ainda restam dois. Assim, pois, seria preciso empregar
fôrças muito importantes, para levar a efeito um patrulhamento
eficiente, e as perdas que o inimigo nos infligiria do ar seriam tais
que, dentro de muito pouco tempo, seguramente estaríamos a
braços com um tremendo desastre naval, é preciso olhar de frente
a situação, como é na realidade.
“Nesse caso — argumenta-se — em vez de manter uma pa­
trulha regular, seria possível efetuar um ataque”. Agora que as
noites já vão encurtando, mais uma vez a fôrça aérea serviria de
obstáculo à nossa aproximação. Ou os transportes seriam retirados
daquela zona e recolhidos aos portos, ou o inimigo reuniria fôrças
para enfrentar o ataque iminente. Lamento profundamente que a
situação seja esta, mas seria insensato ocultá-la, nos tempos que
correm, quando somos instados constantemente a encarar de frente
a realidade dos fatos. Nessas condições, adotamos o bloqueio sub­
marino como o único sistema ao nosso alcance. Aliás, essa atitude
foi baseada na opinião das nossas autoridades navais, a quem cabe
a responsabilidade, não só da Esquadra do Almirantado, como dos
navios mercantes que cruzam os mares.
Quero agora dizer uma palavra sôbre as opiniões que acarre­
tam responsabilidade. Vai uma grande diferença entre a responsa­
bilidade de dar uma ordem, que pode resultar na perda imediata
de navios valiosos, e a simples expressão de uma opinião, seja ela
a mais bem informada, a mais sincera, a mais corajosa, desde que
não acarrete tal responsabilidade. Preciso basear-me, quando ofe­
reço sugestões ao Gabinete, na opinião de técnicos navais compe­
tentes, exatamente como faria o nobre colega, se estivesse agora
ocupando o lugar que já uma vez ocupou, cercado da maior consi­
deração e respeito das fôrças navais. Assim, pois, limitamos a uma
campanha submarina as nossas operações no Skagerrak. E, a fim
de tornar tão eficiente quanto possível essa campanha, demos
carta branca aos nossos submarinos, suspendendo as restrições que
lhes eram habitualmente impostas. Como disse à Câmara, todos
os navios alemães seriam afundados, de dia como de noite, confor­
me a oportunidade que surgisse. Essa declaração foi ridiculamente
interpretada como uma promessa de que todos os navios alemães
seriam afundados e chegou mesmo a repercutir nos Estados Unidos.
Mas é evidente que a ninguém seria lícito assumir compromisso

75
tão absurdo. O que eu disse foi que o tributo seria pesado, como
na realidade tem sido. O êxito foi pavoroso: sete ou oito mil ho-j
mens afogados, milhares de cadáveres atirados às rochas da entra­
da de Oslo. No farol do porto, presenciaram-se cenas horripilantes.'
Mas que importância tem a perda de sete ou oito mil homens para
um Estado totalitário? Que importância tem a vida de criaturas
humanas para um govêrno como o que estamos combatendo? As
mortes não são noticiadas, não se admitem críticas, ninguém
sussurra um protesto e ninguém tem conhecimento dos fatos. Se
há um grito ou um gemido, é ràpidamente sufocado por um golpe
brutal. Essas pesadas perdas do inimigo não têm, portanto, na
época de hoje, a menor significação moral ou psicológica.
Passo agora a uma interpretação que não me foi dirigida
por qualquer dos membros desta Câmara, mas partiu de pessoa
muito influente, o meu amigo Sr. Bevin. Êsse homem, que vem
trabalhando incessantemente pela causa da Nação e tem elementos
para prestar-nos valioso auxílio, perguntou, num discurso: “Por
que não se deu ao Comandante Warburton-Lee, no primeiro ata­
que a Narvik, um navio grande, além dos destróieres?” Acho que
o Sr. Bevin tem direito a uma resposta e vou dá-la. Naquela oca­
sião, o único navio grande disponível era um cruzador de batalha
e nós só temos três cruzadores de batalha. A perda de um dêles
representaria, pois, um grande desequilíbrio para a Esquadra. E
parecia-nos muito provável que se perdesse o vaso de guerra des­
tinado àquela campanha. Mais tarde, mandamos para lá o “Wars-
pite”, mas as antecipações dessa medida não foram tão simples
como as suas conseqüências. Para as autoridades do Almirantado,
que cometeram a loucura e a inépcia de tomar a responsabilidade
dêsse risco, foi um grande alívio verificar que não havia campos
de minas naquela zona, que não havia armadilhas imprevistas no’t
fiorde e que não havia algum destróier rondando à espreita, para
lançar os seus torpedos contra o “Warspite”. Ficamos muito satis-!
feitos ao saber que o submarino que perseguiu o “Warspite” até
lá foi afundado por um avião do próprio “Warspite”. Tôdas essas.
coisas tomam um aspecto diferente, conforme sejam encaradas
antes ou depois dos acontecimentos. Qual seria a reação, se o
“Warspite” tivesse sido afundado? Quem teria sido o louco capaz
de mandar um dos nossos mais valiosos navios para uma passagem;
estreita e congestionada, onde estaria exposto aos maiores perigos?
Tudo se toma muito fácil, desde que a opinião não importe em

76
responsabilidade. Quando as iniciativas são ousadas e sôbrevém
um desastre, diz-se que houve assassinato dos nossos marinheiros;
quando se age com prudência, a acusação é de timidez, covardia c
inépcia.
Houve também quem nos perguntasse por que não entramos,
logo às primeiras horas, em Bergen, Trondheim e outros portos.
O meu nobre colega representante de Sparkbrook (Sr. Amery)
disse em outras palavras que tínhamos sido dispersados e repelidos
por dois cruzadores alemães, que não passavam de uma miragem.
Miragem ou não,, o fato é que êsses cruzadores lá estavam. Se
tivéssemos tentado efetuar o transporte de tropas, através de águas
por onde êles rondavam, em ponto indeterminado, todo o nosso
esquadrão de navios-transporte poderia ter sido destroçado, sem
deixar vestígios. Seria um incidente trágico, que felizmente nos
foi poupado. O único objetivo para entrar nesses fiordes, a não
ser o dèsembarque de tropas para a luta contra os alemães que
acabavam de chegar, era a destruição dos cruzadores e destróiers
inimigos que ali se encontravam. E êsse objetivo foi em grande
parte alcançado pelas fôrças aéreas navais. Quanto aos dois navios
que rondavam o pôrto de Trondheim, um era um destróiéí e o
outro um pequeno torpedeiro, que passaram despercebidos à avia­
ção. Mas não seria justificável empreender um ataque naval ao
pôrto de Trondheim exclusivamente com o objetivo de destruir
essas unidades sem maior importância.
Chego agora ao caso muito mais importante da ocupação de
Trondheim. Não há dúvida alguma que o nosso dever é procurar
auxiliar os noruegueses e que a captura e defesa de Trondheim
seria o melhor meio de fazê-lo. Quanto a mim, sempre tive os
olhos fitos em Narvik; pareceu-me sempre que Narvik era um
pôrto de onde poderiam ser conduzidas operações decisivas para
esta guerra. Mas, quando ocorreu o ultraje alemão, não podia
haver mais dúvida que Trondheim era o lugar indicado para o
nosso auxílio aos noruegueses. Foi preparado, pelos Estados-Maio-
res do Exército e da Marinha, um plano conjunto para dois desem­
barques simulados em Namsos e Andalsnes e um desembarque
efetivo no fiorde de Trondheim, com fôrças superiores às fôrças
de ocupação do inimigo. Não há dúvida que o plano era arriscado.
As fortalezas não representavam dificuldade de grande monta e
os canhões não ofereciam maiores obstáculos; mas um grande
número de navios valiosos teriam de ficar expostos a bombardeio

77
ccrrado, durante muitas horas, e êsse fato possivelmente acarre­
taria perdas lamentáveis. De duzentas ou trezentas bombas, talvez
só uma atinja o alvo — temos tido dezenas de navios sob bombar­
deio durante horas e horas — mas, ainda assim, de quando em
quando há um ataque certeiro e, nesse caso, o prejuízo é sempre
desproporcionado à fôrça e ao valor do avião que o causa. Entre­
tanto, a Marinha estava perfeitamente aparelhada para o trans­
porte das tropas e ninguém duvidava da sua capacidade para efe­
tuá-lo.
Por que, então, foi abandonado êsse plano, cuja execução
estava marcada para o dia 25 de abril? Foi abandonado porque,
no dia 17, os dois desembarques simulados tinham tomado tal
incremento que parecia muito mais prático invadir Trondheim por
essa forma do que arriscar os pesados sacrifícios de um ataque
direto. Faço questão cie deixar bem claro que o Almirantado nunca
retirou o seu oferecimento de transportar as tropas, nem julgou
impraticáveis as operações, do ponto de vista naval.
Os militares, entretanto, alimentavam sérias dúvidas quanto
à possibilidade de efetuar um desembarque sob o bombardeio de
fôrças aéreas superiores e sob o fogo das metralhadoras e, nessas
condições, os chefes dos estados-maiores, e não somente os chefes
dos estados-maiores, como também os seus delegados — ou sub­
chefes, na denominação moderna — julgaram, ao que eu saiba
sem a menor divergência, que seria mais seguro e acarretaria menos
sacrifícios transformar os desembarques secundários em ataque
principal. Ninguém tem o direito de insinuar que a Marinha deser­
tou dessas operações ou que os almirantes se deixaram influenciar
pelos políticos. Tomo a mais absoluta responsabilidade — e co­
migo o primeiro-ministro e os outros ministros interessados —
de haver aceito a opinião unânime dos nossos conselheiros técnicos.
Baseado nas informações que tínhamos naquela ocasião, achei
que êles estavam certos e as informações posteriores não me deram
motivos para alterar meu ponto de vista.
Entretanto, a situação piorou ràpidamente. Fm primeiro
lugar, o avanço alemão ao norte de Oslo tomou proporções extra­
ordinárias. Os noruegueses não conseguiram defender as passa­
gens das montanhas, nem destruíram as estradas de ferro e de
rodagem. Por volta do dia 25 ou 26, era preciso prever a possi­
bilidade de chegarem ao sul de Trondheim numerosas fôrças ale­
mães, poderosamente armadas. Ao mesmo tempo, o intenso e

78
contínuo bombardeio das bases de Namsos e Andalsnes impedia
o desembarque de grandes reforços nesses pequenos portos de
pescadores, inclusive o da artilharia e do abastecimento necessário
à infantaria que já tinha desembarcado. Impunha-se, pois, um
dilema: ou se retiravam as tropas ou se deixava que elas fôssem
destroçadas por fôrças esmagadoras. Evidentemente, a retirada era
a decisão mais sensata e o reembarque dêsses 12.000 homens —
eram apenas 12.000 homens, menos de uma divisão — efetuou-se
com grande perícia e, devo acrescentar, com muita sorte.
Aí está a história do que aconteceu e aí estão os motivos
do que aconteceu. Como já disse, houve perfeito acôrdo, em tôdas
as fases da campanha, entre as autoridades navais, militares e
aéreas, bem como entre os ministros a quem o caso competia e o
Gabinete de Guerra. E tenho certeza de que se doze membros
desta Câmara, escolhidos ao acaso, tivessem sido chamados a
acompanhar o assunto dia a dia, teriam também agido no mesmo
sentido. Mas naturalmente a questão não se limita ao que foi
exposto. Digamos que no dia 25 de abril pudéssemos dominar
Trondheim, ou as ruínas em que ràpidamente se teria transfor­
mado, e pergunta-se então: Teríamos meios de transportar para
o sul de Trondheim um exército suficiente para conter o invasor
ou expulsá-lo? É verdade que, se tivéssemos um bom aeródromo,
além de docas apropriadas para o desembarque de fôrças mais
numerosas e peças de artilharia, talvez a esta hora tivéssemos for­
mado uma frente de batalha ao sul de Trondheim, entre o mar e
a fronteira sueca. Mas, mesmo que os aliados pudessem ter agora
25 ou 30.000 homens lutando nessa frente, o que é muito discutí­
vel, à vista da superioridade aérea do inimigo, ainda assim essas
tropas não teriam chegado a tempo, não teriam sido equipadas a
tempo com a necessária artilharia e não teriam recebido a tempo
o menor apoio da aviação. Não creio que fôsse possível a essas
tropas fazer frente ao pêso tremendo do ataque desfechado pelos
alemães, que contavam com uma excelente base em Oslo e duas
linhas de estradas de ferro e de rodagem, de Oslo para o norte.
Não pode haver a menor dúvida de que a base de Oslo e as comu­
nicações alemãs para o norte eram incomparavelmente superiores
às que porventura conseguíssemos estabelecer em Trondheim e
nos vários pequenos portos auxiliares de que nos valemos. Teria
sido uma luta desigual, com grandes desvantagens e sacrifícios sem
compensação para os aliados. Já se eleva a cêrca de 120.000 o

79
número de soldados alemães em ação na Noruega meridional e
central e, embora nos fôsse possível mandar reforços contínuos,
não creio que houvesse a menor probabilidade de êxito final, numa
luta entre um exército com base em Trondheim -e>um exército
alemão com base em Oslo. Cabia aos técnicos militares considerar
/êsse aspecto da questão, para ficar apurado se os alemães podiam
ou não receber reforços mais ràpidamente do que nós. E verificou-
se que não havia meio algum pelo qual a superioridade aérea dos
alemães pudesse ser sobrepujada. Ficaríamos, portanto, conde­
nados a uma luta sem esperanças, em escala cada vez maior.
Assim, pois, seja qual fôr o ponto de vista sôbre as probabi­
lidades do ataque a Trondheim, é forçoso reconhecer que a deci­
são de abandoná-lo, embora tomada em virtude de razões dife­
rentes das que acabo de apontar, não só foi razoável naquela
ocasião, como, de um modo geral, estou convencido de que veio
salvar-nos de conseqüências desastrosas. Acontece muitas vêzes,
em tempo de guerra, que operações coroadas de êxito, quando le­
vadas a efeito em pequena escala, tornam-se nefastas, quando mul­
tiplicadas por três, quatro ou cinco vêzes. Precisamos do máximo
cuidado para não esgotar a nossa Fôrça Aérea, tendo em vista os
perigos muito mais graves que podem abater-se sôbre nós, a qual­
quer momento, e também para não submeter as nossas flotilhas e
navios porta-aviões a um esforço que possa vir a prejudicar a mobi­
lidade geral da Esquadra. Há outras águas a atender além das
norueguesas, e novos adversários surgiriam fatalmente em outros
mares, quando nos vissem absortos numa luta prolongada e desfa­
vorável, em tôrno de Trondheim. Está claro que a situação mu­
daria muito, se a Suécia tivesse vindo em auxílio da Noruega, inter­
vindo no conflito com as suas tropas e pondo à disposição da Real
Fôrça Aérea as suas bases. Infelizmente, nada disso aconteceu. O
govêrno sueco, como tantos outros, limitou-se a fazer críticas des­
favoráveis aorgovêrno de Sua Majestade. Estamos agora lutando
duramente pelo norte da Noruega, e principalmente por Narvik.
Não tentarei previsões, nem entrarei em maiores detalhes sôbre o
curso da luta. Direi apenas que, nessa região, as possibilidades de
enviar reforços são muito mais equilibradas e as condições muito
mais favoráveis do que seriam as da Noruega central.
Quero ainda dizer uma palavra sôbre o meu nobre e distinto
colega Almirante Sir Roger Keyes, cuja palavra ouvimos ontem
com tanta satisfação, no decorrer do melhor discurso que jamais

80
o ouvi pronunciar. Acho muito justo o desejo, por êle manifes­
tado, de tomar a iniciativa de um ataque resoluto, a fim de repetir,
em águas escandinavas, as glórias imortais de Zeebrugge Mole,
mas lamento que a sua impulsividade o levasse a fazer referên
cias desairosas aos seus velhos irmãos de armas e seus antigos
colegas Sir Dudley Pound e o Vice-Almirante Phillips. Eu não^ os
conhecia antes de ingressar no Almirantado. Assumi o meu pôsto,
como todos sabem, no dia em que irrompeu a*guerra. Mas oito
meses de luta bastaram para despertar em mim uma confiança
sólida e inabalável nesses dois homens e no comandante-em-chefe
da Esquadra, Sir Charles Forbes. Tenho confiança na capacidade,
no bom senso perfeito e nos conhecimentos técnicos que têm reve­
lado e que constantemente renovam,«ao contato direto das con­
dições modernas da guerra. E creio'que também a Esquadra depo­
sita confiança nêles. Assim, pois, quando o meu nobre colega me
apresentou o seu plano de forçar a entrada de Trondheim, só lhe
pude responder que já havia sido elaborado um plano muito seme­
lhante, parecendo-me, porém, que, sob certos pontos de vista, o
dêle era preferível; A única dúvida era que já tínhamos abando­
nado a idéia de agir naquele sentido.
Procurei estudar,, dentro das possibilidades do tempo que
tive para isso, todos os detalhes dêsse caso de Trondheim, mas
devo dizer que não-modifiquei a minha tão criticada opinião de
que essa invasão da Noruega foi, da parte de Hitler, um tremendo
êrro político e estratégico.
Nas horas sombrias, quando chegam notícias desanimadoras
e notícias desconcertantes, sempre procuro animar-me, ouvindo
ou lendo o noticiário alemão. Divirto-me lendo as invencionices
sôbre os navios britânicos afundados várias vêzes cada um e divir­
to-me observando o paraíso de ilusões, que os nazistas julgam
indispensável aos seus servos e autômatos. Os alemães alegam que
afundaram ou avariaram 11 couraçados, quando avariaram ligei­
ramente dois — e nenhum dêles estêve um dia sequer afastado do
serviço ativo. Alegam que causaram sérias avarias a três porta-
-aviões. O fato é que há um porta-aviões ligeiramente avariado,
mas continua em serviço. Declaram ainda que puseram a pique ou
avariaram 28 cruzadores; na realidade foi avariado um cruzador
antiaéreo. Poderia prosseguir, citando os destróieres e o resto, mas
não vale a pena. O único ponto em que não houve exagêro foi
o referente aos trawlers. Infelizmente, perdemos na realidade 11

81
trawlers, que foram postos a pique em ocasiões diversas, e isso
explica todos os “couraçados” das contas alemãs.
Meu nobre colega, representante de Camavon (o Sr. Lloyd
George), declarou que não deveríamos fazer cálculos de lucros
c perdas, mas peço licença para discordar. Êsses cálculos só nos
podem ser úteis e, mais do que isso, são essenciais. Calculando os
navios que afundamos, estamos calculando os passos para a vitória.
Parece-me que, embora tenha a repentina invasão nazista das vas­
tas regiões da Noruega acarretado efeitos surpreendentes e peno­
sos, o fato é que são nossas as vantagens reais. Citarei alguns dos
pontos que julgo importantes: As perdas de vidas, entre os ale­
mães, foram seguramente na proporção de dez para uma. É ver­
dade que isso não-tem a menor importância para Hitler, mas o
fato aí está. Invadindoa Noruega, Hitler condenou grande parte
da península-escandinava e mais a Dinamarca a se alistarem no
Império Nazista da Fome. Praticou um ato de autobloqueio e
não vejo razão para que o nosso controle sôbre o tráfego marítimo
não se tome mais eficaz sem as desvantagens do corredor norue­
guês. Por outro lado, quando estiverem devoradas as reservas da
desgraçada Dinamarca, ela não mais poderá fornecer presunto e
manteiga ao inimigo, nem servir-lhe de veículo de comunicações e
comércio com o mundo exterior.
Hitler apoderou-se traiçoeiramente de uma grande parte da
Noruega, mas talvez tenha esquecido que os noruegueses, como
o nosso próprio povo, vivem em grande parte do mar. As marinhas
mercantes da França e da,Grã-Bretanha podem agora contar com
o apoio e a colaboração inestimável da frota mercante norueguesa
— a quarta do mundo — e com os serviços de marujos cuja perícia
e coragem são'notórias. Entraram também para o nosso serviço
muitos navios dinamarqueses, que nos prestarão enorme auxílio.
Êsses fatos são importantíssimos, principalmente considerando que
as perdas causadas à^Grã-Bretanha e à França, por ação inimiga,
desde o início da guerra, mal perfazem 800.000 toneladas e que o
apresamento e a construção de novos navios quase compensam
três quartos dêsse total.
PRIMEIRO-MINISTRO
D is c u r s o p r o f e r id o n a C â m a r a d o s C o m u n s .
13 d e m a io d e 1940

Maio, 10. A Alemanha invade a Holanda e a Bélgica. O


Exército Britânico atende ao apêlo do Rei Leo­
poldo e encaminha-se para o norte da Bélgica.
O Sr. Neville Chamberlain demite-se do pôsto
de primeiro-ministro e o Rei convida o Sr. Chur-
chill para formar um nôvo Gabinete.
Maio, 13. A Família Real da Holanda chega a Londres.

S exta-feira à noite, recebi de Sua Majestade a incumbên­


cia de formar um nôvo govêmo. Era desejo e vontade manifesta
do Parlamento e da nação que êsse nôvo govêmo fôsse organizado
nas bases mais amplas, abrangendo todos os partidos, desde os
que apoiavam o govêmo passado, até os da oposição. Já com­
pletei a parte mais importante dêsse encargo, formando o Gabi­
nete de Guerra. Composto de cinco membros, entre os quais um
representante da oposição liberal; congrega a vontade da nação.
Os líderes dos três partidos estão prontos a servir tanto no Gabi­
nete de Guerra, como em altos cargos administrativos. As três
pastas das Armas combatentes foram também preenchidas. Tor­

83
nava-se necessário, à vista da extrema urgência e importância dos
acontecimentos, que tudo isso fôsse feito num só dia. Ontem mes­
mo, foram preenchidos outros cargos essenciais, e hoje à noite
devo submeter uma nova lista à aprovação de Sua Majestade.
Espero completar, no correr do dia de amanhã, a nomeação dos
principais ministros. A dos restantes geralmente demanda prazo
um pouco mais dilatado, mas espero que, quando o Parlamento
voltar a reunir-se, essa parte da minha missão estará cumprida e
o govêrno do país organizado em todos os setores.
Julguei do interêsse público sugerir para hoje uma sessão da
Câmara. Quando terminarem os debates, será proposto um adian­
tamento dos trabalhos até quinta-feira, 21 de maio, ressalvada
naturalmente a hipótese de se tomar necessária uma reunião antes
dessa data. Logo que seja possível, os membros terão conheci­
mento das questões a serem debatidas na próxima semana. Con­
vido agora a Câmara, por meio do requerimento que apresentei
em meu nome, a consignar a sua aprovação às medidas tomadas
e a manifestar a sua confiança no nôvo govêrno.
Formar um Gabinete de tanta importância e complexidade
é uma missão grave por sua própria natureza, mas há uma série
de fatos que a tomam mais grave ainda. É preciso não esquecer
que estamos na fase preliminar de uma das maiores batalhas da
história; que estamos sustentando operações em muitos pontos da
Noruega e da Holanda; que precisamos estar preparados no Me­
diterrâneo; que a batalha aérea é permanente e que há necessidade
de grandes preparativos em nosso país. Nesta crise, espero que
me seja relevado não dirigir hoje um discurso mais longo à Câ­
mara. Espero que todos os meus amigos e colegas, ou antigos
colegas, que tomam parte nesta reconstrução política, saberão
perdoar as quebras de protocolo que se tomam necessárias. Direi
à Câmara apenas o que já disse aos que participam do nôvo govêr­
no: “Não tenho nada a oferecer, senão trabalho, sangue, suor e
lágrimas.”
Temos diante de nós uma provação das mais graves. Temos
diante de nós muitos e longos meses de lutas e sofrimentos. Per­
guntais qual será a nossa orientação? Responderei: Levar avante a
guerra, no mar, em terra, no ar, com a nossa própria fôrça e com
a fôrça que nos vier de Deus. Levar avante a guerra contra uma
tirania monstruosa, sem exemplo nos anais sombrios e lamentáveis
dos crimes humanos. Será essa a nossa orientação. Perguntais:

84
V

Q ual é o nosso objetivo? Posso responder numa só palavra: Vitó­


ria — vitória a todo custo, vitória a despeito dos maiores horrores;
vitória, por mais longo e árduo que seja o caminho. Sem vitória,
não será possível sobreviver. Que isso fique bem compreendido:
Sem vitória, o Império Britânico não sobreviverá; nada sobrevi­
verá daquilo porque o Império Britânico se tem batido; não sobre­
viverá o anseio e o impulso de progresso da humanidade, acumu­
lado nos longos séculos que passaram. Quanto a mim, aceito a
minha parte da luta, com vigor e confiança. Estou certo de que
a humanidade não permitirá a derrota da nossa causa e sinto-me
no direito de convocar o auxílio de todos: “Vamos, pois, vamos
juntos para a frente, com a fôrça da união.”

85
SÊDE HOMENS VALOROSOS

O r a ç ã o d ir ig id a a o p o v o b r i t â n ic o , a t r a v é s d o r á d io .
19 d e m a io d e 1940

Maio, 14. O comandante-em-chefe das Fôrças Holandesas


ordena que o Exército cesse as hostilidades. Co­
meça a Batalha do Meuse, na Bélgica. O secre­
tário de Estado da Guerra, Sr. Anthony Eden,
anuncia a formação da Guarda de Defesa In­
terna.
Maio, 15. A Rainha Guilhermina declara, numa mensa­
gem pelo rádio, que, embora o exército holan­
dês tenha sido derrotado no campo de batalha,
a Holanda continuará a luta.
Os alemães atravessaram o Meuse, entre Mé-
zières e Namur. O ataque se orienta para Oeste,
visando a retaguarda das defesas da França.
Maio, 17. Os alemães penetram em Bruxelas.
Maio, 19. O General Weygand substitui o General Game-
lin como comandante-em-chefe das Fôrças Fran­
cesas. Os alemães tomam St. Quentin.

87
D irijo-me a vós, pela primeira vez na qualidade de pri­
meiro-ministro, numa hora solene para a vida do nosso país, do
nosso Império, dos nossos Aliados e, sobretudo, para a causa da
Liberdade. Desencadeou-se uma batalha formidável na França e
cm Flandres. Os alemães, numa tremenda conjugação de bom­
bardeios aéreos e investida de tanques pesados, romperam as de­
fesas francesas, ao norte da Linha Maginot, e as suas fortíssimas
colunas motorizadas estão devastando os campos desprotegidos
da França, cujas defesas se desarticularam transitoriamente.
O inimigo penetrou profundamente em território francês,
espalhando o terror e a confusão na sua passagem. Atrás das
colunas motorizadas, vem chegando a infantaria, em caminhões.
Seguem-se outras massas humanas, em movimento contínuo. A
rearticulação das fôrmas francesas para resistir e também para
tomar a ofensiva contra essa massa invasora vem, em grande parte,
se processando há vários dias, auxiliada pelos estupendos esforços
da Real Fôrça Aérea.
Não nos devemos deixar intimidar pela presença dêsses veí­
culos motorizados em pontos inesperados da retarguarda de nossas
linhas. Se, por um lado, o inimigo está na nossa retaguarda, o fato
é que, em muitos pontos, os franceses estão também lutando ativa­
mente na retaguarda alemã. Ambos os lados estão, pois, numa
situação extremamente perigosa. E se o exército francês e o nosso
próprio exército forem bem comandados, como creio que serão;
se os franceses conservam aquêle gênio de contra-ataque e reergui-
mento, que os têm tornado famosos através dos tempos; e se o
exército britânico demonstrar a resistência encarniçada e a sólida
capacidade de luta de que tem dado tantos exemplos no passado
— não há razão para não esperarmos uma súbita transformação
do panorama da guerra. Seria insensato, porém, dissimular a gra­
vidade do momento. E seria ainda mais insensato perder o ânimo
e a coragem ou supor que exércitos bem treinados e bem equipa­
dos, compostos de três ou quatro milhões de homens, podem ser
derrotados no espaço de algumas semanas, ou mesmo alguns
meses, por uma investida de veículos motorizados, por mais teme­
rosos que sejam. Podemos confiar na estabilização da frente da
França e num encontro geral das massas humanas, que permita
aos soldados franceses e britânicos medir, em igualdade de con­
dições, suas qualidades com as do adversário. Pessoalmente tenho

88
confiança inabalável no exército francês e nos seus dirigentes. Até
agora, só entrou em ação uma pequena parcela daquele glorioso
exército e até agora só uma pequena parte da França foi invadida.
No entanto, há indícios seguros de que foi lançada na batalha pràti-
camente a totalidade das fôrças especializadas e mecanizadas do
inimigo; e sabemos que já foram enormes as baixas entre essas
lôrças. Cada divisão, cada destacamento, cada oficial, cada sol­
dado, que se encontre nas proximidades do inimigo, onde quer
que êle esteja, tem ao seu alcance uma contribuição valiosa para
o resultado geral.
Os exércitos precisam abandonar a idéia de resistir por trás
de fortificações de cimento, ou obstáculos naturais, e compreender
que só por meio de um assalto furioso e incessante poderão recon­
quistar o domínio da situação. Essa atitude não deve prevalecer
apenas no Alto Comando, mas deve ser a de cada homem comba­
tente.
No ar, muitas vêzes com grandes desvantagens — desvanta­
gens que até agora eram julgadas insuperáveis — temos abatido
aviões inimigos na proporção surpreendente de três a quatro para
um. Atualmente, o balanço das fôrças aéreas da Grã-Bretanha e
da Alemanha melhorou sensivelmente para nós, em relação ao
comêço da guerra. Abatendo os aviões de bombardeio alemães,
estamos lutando não só a nossa própria batalha, mas também a
da França. Minha confiança na nossa capacidade de levar a bom
têrmo a luta com a fôrça aérea da Alemanha tem sido fortalecida
pelos ferozes encontros que se têm realizado e que se estão reali­
zando. Ao mesmo tempo, os nossos bombardeiros pesados estão
investindo, noite após noite, contra a própria fonte do poder meca­
nizado da Alemanha e já infligiram enormes prejuízos às refinarias
de petróleo, das quais depende diretamente a investida nazista
para dominar o mundo.
Devemos esperar que, logo que se estabilize a frente ociden­
tal, seja voltado contra nós todo o pêso dessa hedionda máquina
de agressão, que em poucos dias mergulhou a Holanda na desgraça
e no cativeiro. Tenho certeza de falar em nome de todos, ao dizer
que estamos prontos para enfrentá-la; para suportar os seus horro­
res e para tomar contra ela as represálias que permitam as leis
não escritas da guerra. Deve haver, nesta ilha, muitos homens e
mulheres que, quando chegar o seu dia de provação, como fatal­
mente chegará, sentirão um certo consolo e mesmo um certo orgu­

89
lho em saber que estarão partilhando dos perigos que correm os
nossos rapazes no front — soldados, marinheiros e aviadores, que
Deus os proteja — e ao mesmo tempo afastando dêles pelo menos
uma parte dos assaltos assassinos a que se acham expostos. Não é
esta a hora em que de todos se exige o esfôrço máximo? Se quere­
mos vencer a batalha, devemos fornecer aos nossos homens, em
quantidade cada vez maior, as armas e munições de que carecem.
Precisamos, e precisamos depressa, de mais aeroplanos, mais
tanques, mais granadas, mais metralhadoras. Temos necessidade
imperiosa dessas munições vitais, que serão o único meio de au­
mentar nossa fôrça contra um inimigo poderosamente armado e
que irão substituir o que foi gasto na luta obstinada. E a certeza
de que o que foi gasto será ràpidamente substituído nos animará
a recorrer mais prontamente às nossas reservas e lançá-las também
na luta, agora que á menor coisa tem tanta importância.
A nossa missão não é apenas vencer uma batalha — é vencer
a guerra. Quando decrescer o ímpeto dessa batalha da França,
chegará a vez da batalha pela nossa ilha — por tudo que a Grã-
-Bretanha é e por tudo que a Grã-Bretanha representa. Será essa
a luta. Nessa suprema contingência, não hesitaremos em tomar
tôdas as medidas, mesmo as mais drásticas, para obter do nosso
povo o máximo esfôrço de que seja capaz. Os interêsses dos pro­
prietários, as horas de trabalho, nada disso tem importância diante
da luta pela vida e pela honra, da luta pelo direito e pela liberdade,
à qual nos dedicamos de corpo e alma.
Recebi do presidente da República Francesa, e principal­
mente de seu indomável primeiro-ministro, Sr. Reynaud, as garan­
tias mais sagradas de que, aconteça o que acontecer, os franceses
lutarão até o fim, seja êsse fim amargurado ou glorioso. Mas não,
se lutarmos até o fim, o fim só pode ser glorioso.
Cumprindo as ordens de Sua Majestade, formei um govêrno
de homens e mulheres de todos os partidos e representando quase
todos os pontos de vista nacionais. Divergimos e tivemos brigas
no passado; mas agora um só objetivo nos une a todos — levar
avante a guerra, até que chegue a vitória, e reagir contra a servi­
dão e a vergonha, custe o que custar, seja qual fôr a agonia. O
período que atravessamos é o mais terrível de tôda a longa história
da França e da Grã-Bretanha. É também, sem dúvida, o mais
sublime. Lado a lado, sem outro auxílio que não o dos seus irmãos
dos Domínios e do vasto Império que repousa sob sua proteção,

90
lado a lado, os povos da Grã-Bretanha e da França tomaram a
iniciativa de salvar não só a Europa, mas a própria humanidade,
da mais vil e destruidora das tiranias que já obscureceram e man­
charam as páginas da história. Atrás dêles, atrás de nós, atrás dos
exércitos e das esquadras da Grã-Bretanha e da França, reúne-se
um grupo de Estados oprimidos e raças vilipendiadas — os tche-
coslovacos, os poloneses, os noruegueses, os dinamarqueses, os
holandeses, os belgas — sôbre os quais descerão as trevas da
harbárie, sem uma única estrêla de esperança, a menos que seja­
mos vitoriosos — como deveremos ser; como seremos.
Há muitos séculos, escreveram-se palavras que seriam para
sempre um apêlo e um estímulo aos leais servidores da Verdade
e da Justiça. “Amai-vos e sêde homens valorosos, prontos para o
conflito; pois é melhor perecer na batalha do que assistir ao ultraje
da nossa nação e do nosso altar.”

91
A CAPITULAÇÃO DO REI LEOPOLDO
D is c u r s o p r o f e r id o n a C â m a r a d o s C o m u n s .
28 de m a io d e 1940

Maio, 21. Os alemães chegam a Abbeville.


Maio, 22. O exército belga resiste em Scheldt. Os alemães
avançam de Abbeville para o norte, ao longo
da costa do Canal. O govêrno britânico decreta
novos podêres de emergência, que lhe assegu­
ram direitos absolutos sôbre pessoas e bens, para
continuação da guerra.
Maio, 23. Os alemães chegam a Boulogne. Sir Samuel
Hoare é nomeado embaixador na Espanha.
Maio, 24. Os alemães chegam a Calais e iniciam o cêrco da
antiga cidadela.
Maio, 27. Sofre grandes reveses o exército belga, em ação
no flanco esquerdo do exército britânico.
Maio, 28. O rei Leopoldo capitula. O govêrno belga repele
a capitulação e continua com os aliados.

A Câmara deve ter conhecimento de que o rei da Bélgica


mandou ontem um enviado ao comando germânico, pedindo a
suspensão das hostilidades na frente belga. Os governos da Grã-

93
-Bretanha e da França deram imediatamente instruções aos seus
generais para se manterem alheios à atitude dos belgas e prosse­
guirem nas operações em que estão empenhados. Entretanto, o co­
mando alemão aceitou as propostas belgas e, às 4 horas da madru­
gada de hoje, o exército da Bélgica cessou sua resistência à inva­
são inimiga.
Neste momento, não tenho a menor intenção de sugerir à
Câmara uma condenação do ato do rei da Bélgica, na sua capa­
cidade de comandante-em-chefe do exército belga. Êsse exército
lutou com grande bravura e tanto sofreu como infligiu pesadas
perdas. O govêrno belga recusou-se a aceitar a atitude do rei e,
declarando ser o único govêrno legal do país, anunciou a sua reso­
lução formal de continuar a guerra ao lado dos aliados, que vieram
em auxílio da Bélgica, atendendo a um apêlo angustioso que lhes
foi dirigido. Sejam quais forem as nossas impressões sôbre os fatos,
tais como chegaram ao nosso conhecimento, devemos lembrar-nos
de que a fraternidade existente entre os muitos povos que caíram
sob o jugo do agressor e os que ainda lhe resistem terá o seu valor
em dias melhores do que os do presente.
A situação dos exércitos britânico e francês, empenhados
numa batalha violenta e cercados por três lados e pelo ar, é evi­
dentemente de extrema gravidade. A capitulação do exército belga
toma ainda mais grave o perigo que os ameaça. Mas as tropas con­
tinuam lutando com bravura, disciplina e tenacidade. Natural­
mente, não me é possível entrar agora em detalhes sôbre as ope­
rações que estão sendo ou serão levadas a efeito por essas tropas,
com o poderoso auxílio da Real Marinha de Guerra e da Real
Fôrça Aérea. Espero fazer à Câmara declarações mais precisas
sôbre a situação das nossas fôrças, logo que seja possível saber ou
avaliar os resultados da luta intensa que agora se está travando.
Entretanto, a Câmara precisa estar preparada para notícias
dolorosas. Tenho apenas a acrescentar que, aconteça o que acon­
tecer nesta batalha, nada nos poderá eximir do dever de continuar
a defesa, a que nos consagramos, de uma causa mundial. Nem há
nada que possa destruir a confiança na nossa capacidade de abrir
caminho, através do desastre e do sofrimento, como temos feito
em outras épocas da nossa história, até a derrota final do inimigo.

94
DUNKERQUE
D is c u r s o p r o f e r id o n a C â m a r a d o s C o m u n s .
4 DE JUNHO DE 1940

Maio, 29. Começa a defesa de Dunkerque e a retirada das


fôrças expedicionárias britânicas.
Maio, 30. Isolada em Flandres, a vanguarda do exército
francês, sob o comando do general Prioux, luta
para chegar a Dunkerque.
Junho, l 9. Por ordem do govêrno, Lord Gort volta à Ingla­
terra. O Sr. Eden anuncia que já foram evacua­
dos de Dunkerque quatro quintos do exército.
Junho, 3. Os aviões alemães atiram mil bombas sôbre
Paris.
Junho, 3-4. As últimas tropas aliadas se retiram de Dun­
kerque.

D esde que foram rompidas as defesas francesas em Sedan


e no Mouse, durante a segunda semana de maio, uma rápida reti­
rada para Amiens e para o sul seria o único meio de salvar os
exércitos britânico e francês, que haviam penetrado na Bélgica,
para atender ao apêlo do rei dos belgas. Mas essa necessidade estra­
tégica não foi compreendida imediatamente. O Alto Comando

95
francês, sob cujas ordens estavam os exércitos do norte, tinha
esperanças de fechar a brecha aberta pelo inimigo e, além disso,
uma retirada dêsse gênero importaria, quase inevitàvelmente, na
destruição do magnífico exército belga, composto de mais de 20
divisões, e no abandono de tôda a Bélgica. Assim, pois, quando
foi compreendido o alcance da penetração germânica e assumiu
o comando, em substituição ao general Gamelin, um nôvo gene-
ralíssimo francês — o general Weygand — os exércitos francês e
britânico, que lutavam na Bélgica, tentaram ainda continuar de
mãos dadas com os belgas e, ao mesmo tempo, estender a mão a
um nôvo exército francês, que devia avançar através do Somme,
trazendo importantes reforços.
Nesse meio tempo, as hordas alemãs iam ceifando, qual foice
afiada, tôda a ala direita e a retaguarda dos exércitos do norte.
Oito ou nove divisões motorizadas cada uma delas composta de
cêrca de quatrocentos veículos blindados de vários tipos, mas cui­
dadosamente selecionados para um fácil desdobramento em uni­
dades independentes, iam cortando tôdas as comunicações entre
nossas fôrças e o grosso do exército francês. Cortaram também
as comunicações com as bases de provisões e munições, estabele­
cidas primeiro em Amiens e depois em Abbeville, e abriram cami­
nho pela costa até Boulogne e Calais e quase até Dunkerque.
Seguindo de perto o ataque mecanizado, vinham divisões germâ­
nicas em caminhões e, atrás destas, a massa bruta do exército e
do povo alemão, sempre prontos a se deixarem guiar para o assal­
to às terras onde reinam liberdade e bem-estar que êles próprios
nunca conheceram.
Acabo de dizer que essa invasão mecanizada quase alcançou
Dunkerque. Quase, mas faltou o quase. Boulogne e Calais foram
o cenário de lutas desesperadas. A nossa Guarda defendeu Bou­
logne por algum tempo e depois retirou-se, seguindo instruções
nossas. A Brigada de Fuzileiros, os Fuzileiros do 609 Regimento
e os Fuzileiros da Rainha Vitória, com um esquadrão de tanques
britânicos e cêrca de 1.000 soldados franceses, ao todo cêrca de
4.000 bravos,, defenderam Calais até o fim. O inimigo concedeu
ao brigadeiro britânico uma hora para render-se. A oferta foi des­
prezada e seguiram-se quatro dias de luta nas ruas, antes de cair
o silêncio sôbre Calais, marcando o fim de uma memorável resis­
tência. Só 30 homens saíram ilesos de Calais e foram transportados
pela nossa Marinha, ignorando-se qual o destino dos seus cama­

96
radas. Mas o sacrifício não foi em vão. Pelo menos duas divisões
mecanizadas, que de outro modo teriam sido lançadas contra a
fôrça expedicionária britânica, foram desviadas pelos bravos de
Calais. Êles acrescentaram mais uma página de glória às muitas
que já foram escritas pelas brigadas ligeiras, e o tempo ganho per­
mitiu às fôrças francesas abrir e defender os diques de Graveline.
Foi assim que se manteve aberto o pôrto de Dunkerque.
Quando se verificou que os exércitos do norte não conseguiram
reatar as comunicações com Amiens e o grosso do exército francês,
só restava uma alternativa, e assim mesmo uma alternativa que
parecia sem esperanças. Os exércitos belga, britânico e francês
estavam quase cercados. Havia um único pôrto, por onde seria
possível uma retirada, utilizando-se as praias próximas. De todos
os lados partiam ataques cerrados, com o apoio de fôrças aéreas
muito superiores às nossas.
Há uma semana, quando pedi à Câmara que marcasse o dia
de hoje para ouvir minhas declarações, receiava ter diante de mim
o encargo penoso de anunciar o maior desastre militar da nossa
história. Imaginava — e muita gente entendida imaginava comigo
— que talvez fôsse possível efetuar o reembarque de uns 20 ou
30 mil homens. Mas parecia que todo o exército francês e a tota­
lidade das fôrças expedicionárias britânicas, que se achavam ao
norte da brecha Amiens-Abbeville, seriam destroçados em campo
aberto, ou então obrigados a capitular, por falta de abastecimento
e munições. Eram essas as notícias dolorosas para as quais eu
julgava do meu dever preparar a Câmara e a nação. O núcleo e
a flor do exército britânico, a base sôbre a qual devíamos e deve­
mos levantar os grandes exércitos britânicos dos próximos anos
de guerra, parecia no ponto de perecer no campo de batalha ou de
ser arrastado para morrer de fome num cativeiro ignominioso.
Eram essas as perspectivas, há uma semana atrás. Mas ainda
nos esperava um golpe, que poderia ter sido fatal. O rei dos belgas
solicitara o nosso auxílio. Aliás, se êsse Rei e o seu Gabinete não
se tivessem isolado dos aliados, que na última guerra salvaram a
Bélgica da devastação, e se não tivessem buscado refúgio numa
neutralidade que teve resultados funestos, talvez os exércitos fran­
cês e britânico tivessem encontrado meios de salvar, há mais tem­
po, não só a Bélgica, como possivelmente até a Polônia. Entre­
tanto, no último momento, quando a Bélgica já. tinha, sido inva­
dida, o rei Leopoldo apelou para o nosso auxílio, e mesmo no

97
último momento nós acorremos. Êle e o seu bravo e eficiente
exército, quase meio milhão de homens, protegiam o nosso flanco
esquerdo e assim mantinham aberta a nossa única linha de reti­
rada para o mar. Súbitamente, sem consulta prévia, sem o menor
aviso, sem ouvir os seus ministros sôbre uma resolução que tomou
individualmente, o rei da Bélgica mandou ao Comando Germânico
um plenipotenciário com a capitulação do seu exército, deixando
assim exposto o nosso flanco esquerdo e cortada qualquer possi­
bilidade de retirada.
Pedi à Câmara, há uma semana, que suspendesse qualquer
juízo sôbre o rei dos belgas, porque os fatos ainda não estavam
bem esclarecidos, mas já agora acho que cada um pode formar
a opinião que entender sôbre êsse lamentável episódio. A capitu­
lação do exército compeliu as fôrças britânicas a cobrir, de um
momento para outro, um flanco de mais de 30 milhas de extensão
em direção ao mar. Do contrário, tôdas as fôrças teriam ficado
isoladas e tôdas teriam partilhado da sorte a que o rei Leopoldo
condenou o melhor exército jamais formado em seu país. Nessas
condições, qualquer pessoa que seguisse as operações no mapa
verificaria que foram cortadas as comunicações das tropas inglêsas
e de dois dos três corpos que compunham o primeiro exército
francês e que ainda estavam mais longe da costa do que nós. Pare­
cia impossível que um número apreciável de tropas aliadas pudesse
alcançar a costa. O inimigo atacava por todos os lados, com a
maior violência e intensidade. A sua grande fôrça, a fôrça da sua
aviação muito mais numerosa do que a nossa, foi também lançada
na batalha, ou concentrada no bombardeio de Dunkerque e das
praias adjacentes. Investindo contra a saída estreita, do lado orien­
tal e do lado ocidental, os alemães varriam com os seus canhões
as únicas praias accessíveis aos navios. Lançaram minas magné­
ticas nos canais e no mar, mandaram ondas de aviões, muitas vêzes
mais de cem numa só formação, para bombardear o único cais
que ainda nos restava e as dunas, que eram o único abrigo possível
para as tropas. Também os submarinos inimigos, — um dos quais
foi afundado — e as lanchas-torpedeiras cobraram o seu tributo
do imenso tráfego que se iniciava. Durante quatro ou cinco dias,
a luta foi intensa. Tôdas as divisões blindadas — ou o que restava
delas — articuladas com grandes massas de infantaria e artilharia,
investiam em vão contra o campo de luta cada vez mais estreito,
cada vez mais comprimido, dos exércitos britânicos e francês.

V98
Enquanto isso, a Real Marinha de Guerra, com o auxílio
voluntário de inúmeros navios mercantes, envidava todos os esfor­
ços, tôdas as energias, para transportar as tropas britânicas e
aliadas. 22 unidades ligeiras de guerra e 650 navios de outros tipos
se empenharam na luta. As operações se realizaram ao longo de
uma costa acidentada, muitas vêzes sob tempo desfavorável, sob
uma chuva quase incessante de bombas e uma concentração de
fogo de artilharia cada vez mais intenso. E, como acabei de dizer,
os mares também não estavam livres de minas e torpedos. Foi
nessas condições que os nossos marujos agiram, dias e noites a
fio, sem repouso, fazendo viagem após viagem através de águas
perigosas, trazendo sempre homens e mais homens que acabavam
de salvar. O número de homens que trouxeram de volta é a medida
da coragem e dedicação de que deram prova. Os navios-hospital,
destacando-se pela sua marcação característica e trazendo muitos
milhares de feridos franceses e britânicos, constituíram ótimo alvo
para as bombas nazistas, mas os homens e mulheres que nêles
viajavam nunca esmoreceram no cumprimento do dever.
Enquanto isso, a Real Fôrça Aérea, que já vinha intervindo
na batalha, na medida do raio de ação das suas bases, passou a
empregar o grosso de seus aviões de caça, abatendo os bombardei­
ros germânicos e os aviões de combate que os protegiam em
grande número. A luta foi prolongada e impiedosa.
De repente, a situação se tomou menos sombria, o estrondo
e o trovão cessaram por um momento — uma pausa apenas. Rea­
lizou-se, diante de nossos olhos, um salvamento milagroso, conse­
guido a golpes invencíveis de valor, perseverança, disciplina, perí­
cia, iniciativa e dedicação. O inimigo foi rechaçado, em terra, pelas
tropas britânicas e francesas que se retiravam, com tal eficiência
que as operações terrestres quase não prejudicaram a evacuação.
Por outro lado, a Real Fôrça Aérea bateu-se contra as fôrças mais
importantes da aviação germânica e infligiu-lhes perdas que orça­
ram, pelo menos, na proporção de quatro para um. A Marinha,
utilizando quase mil navios de todos os tipos, arrancou assim das
garras da morte e da vergonha mais de 335.000 homens, entre
franceses e inglêses, restituindo-os à pátria e às tarefas que aí estão
para ser desempenhadas.
Precisamos evitar a tendência de considerar êsse salvamento
como uma vitória. As guerras não se vencem com retiradas. Mas
houve de fato uma vitória digna de nota: a que foi conquistada

099
pela Real Fôrça Aérea. Muitos dos nossos soldados não viram,
durante o seu reembarque, a Real Fôrça Aérea em açãò; viram
apenas os bombardeiros alemães que escapavam ao ataque prote­
tor dos nossos aviões. E por isso não deram o devido valor à inter­
venção da Real Fôrça Aérea. Já tenho ouvido comentários a res­
peito, e julgo do meu dever deixar bem esclarecido êsse ponto.
A retirada de Dunkerque foi um grande páreo de fôrça entre
a aviação britânica e a aviação alemã. Seria possível imaginar
objetivo mais importante para as fôrças aéreas inimigas do que
evitar a evacuação daquelas praias e pôr a pique as centenas de
navios que aü se concentravam? Poderia haver objetivo de maior
importância e significação militar para tôda esta guerra? Os ale­
mães tentaram o impossível, mas fôram repelidos; viram frustrada
a sua missão. Retiramos o exército e o inimigo pagou em quádru­
plo as baixas que infligiu. Várias vêzes foram repelidas e disper­
sadas enormes formações de aviões germânicos — e sabemos que
os alemães são bravos — pelo ataque de aviões da Real Fôrça
Aérea, em número quatro vêzes inferior. Houve casos em que doze
aviões fôram perseguidos por dois. Todos os nossos tipos de aviões
— o Hurricane, o Spitfire e o nôvo Defiant — e todos os nossos
pilotos comprovaram definitivamente a sua superioridade sôbre os
adversários que têm a combater.
Quando penso nas enormes vantagens que seriam nossas, no
caso de ser o combate aéreo travado sôbre esta ilha, para defen­
dê-la contra um ataque do exterior, devo acentuar que vejo nesses
fatos uma base segura e prática para nos sentirmos confiantes.
Quero prestar homenagem a êsses jovens aviadores. O poderoso
exército francês foi em grande parte dispersado e, pelo menos, tem-
poràriamente, desorganizado pelo avanço de alguns milhares de
veículos blindados. É possível, portanto, que a causa da própria
civilização venha a ser defendida pela perícia e heroísmo de alguns
milhares de aviadores. Creio que nunca houve, no mundo, nem na
história das guerras, uma tal oportunidade para a juventude. Os
Cavaleiros da Tavola Redonda, os Cruzados, todos desaparecem
no passado: não se tornam apenas distantes, tornam-se também
prosaicos. Êstes jovens, partindo cada manhã para a missão de
velar pela pátria e por tudo aquilo que nos é caro, êstes jovens que
têm nas mãos os instrumentos de um poder colossal e temeroso,
êstes jovens, a propósito' de quem se pode repetir:

100
“Cada manhã trazia uma nobre oportunidade
E cada oportunidade um nobre cavaleiro”,

increcem a nossa gratidão, como dela são merecedores todos os


bravos que, por tantas formas e em tantas ocasiões, têm oferecido
c continuam oferecendo a vida e o que mais tiverem pela terra
onde nasceram.
Mas, voltando ao exército: Na longa série de batalhas encar­
niçadas, ora numa frente, ora noutra, ora em três frentes a um
tempo, batalhas em que duas ou três divisões enfrentaram número
igual e muitas vêzes superior de inimigos, batalhas travadas impie­
dosamente em campos já bem conhecidos de muitos dos nossos,
nessas batalhas, as nossas baixas excederam 30.000, entre mortos,
feridos e desaparecidos. Aproveito a oportunidade para exprimir
u simpatia da Câmara a todos os que perderam entes queridos ou
por êles ainda esperam, na ansiedade e na angústia. O Presidente
do Conselho de Comércio não compareceu hoje. Seu filho foi
morto em combate. E há muitos outros nesta Câmara que têm
sentido as cutiladas da dor, sob sua forma mais aguda. Mas não
devemos desanimar quanto aos desaparecidos. Grande número de
feridos têm voltado e pode ser que muitos daqueles que conside­
ramos desaparecidos voltem também aos seus lares, algum dia,
de uma forma ou de outra. Na confusão desta luta, é inevitável
que muitos se tenham encontrado em situações nas quais a própria
honra não justificaria prolongar a resistência.
Êsses 30.000 homens que perdemos correspondem segura­
mente a perdas mais pesadas do inimigo, mas as nossas perdas em
material foram enormes. O número de baixas foi talvez um têrço
das sofridas nos primeiros dias da batalha de 21 de março de
1918, mas desta vez deixamos em campo número equivalente de
canhões — quase mil — e todos os transportes, todos os veículos
blindados do exército que lutava no norte. Essas perdas importa­
rão num nôvo retardamento da expansão de nossa fôrça militar.
Essa expansão não está se operando com a rapidez que esperá­
vamos. Demos tudo que tínhamos de melhor à fôrça expedicioná­
ria britânica e, embora não dispusesse ela do número de tanques
e de todo o armamento que seriam de desejar, ainda assim estava
muito bem equipada. Levou os primeiros frutos do esfôrço da
nossa indústria de guerra. E tudo isso se perdeu. Temos agora
novas delongas, cuja duração dependerá da atividade que desen-

101
volvermos nesta ilha. A nossa história nunca registrou um período
de esfôrço mais intenso do que o atual. O trabalho prossegue em
tôda parte, noite e dia, durante todos os dias da semana, sem
exceção dos domingos. Capital e trabalho abandonaram interêsses,
direitos e hábitos individuais para dedicá-los todos ao bem comum.
A produção de munições cresceu de um salto e não há razão para
que, dentro de poucos meses, não nos seja possível compensar a
grave perda que nos atingiu subitamente, sem por isso retardarmos
a realização do nosso programa geral.
Entretanto, a satisfação pela retirada do nosso exército e
pela volta de todos êsses homens, cujos entes caros atravessaram
uma semana de agonia, não nos deve ocultar o imenso desastre
militar que representam os acontecimentos da França e da Bél­
gica. Enfraqueceu-se o exército francês; perdeu-se o exército belga;
desapareceu grande parte das linhas fortificadas em que deposi­
távamos tanta confiança; passaram para as mãos do inimigo
riquíssimas regiões, onde há minas e fábricas importantes; todos os
portos do Canal estão em poder dos nazistas, importando isso em
conseqüências trágicas. Devemos esperar um nôvo golpe imediato
contra nós ou contra a França. Consta-nos que Herr Hitler tem um
plano para a invasão das Ilhas Britânicas. Já muitas vêzes se tem
pensado nisso. Quando Napoleão se deteve em Boulogne, com a
sua esquadra e o seu grande exército, alguém lhe disse: “Há espi­
nhos perigosos na Inglaterra”. Há, realmente, e muito mais agora,
depois que voltou a fôrça expedicionária britânica.
A defesa da nossa ilha está agora, naturalmente, em condi­
ções excepcionais, pois temos em armas fôrças militares infini­
tamente mais poderosas do que jamais tivemos, nesta guerra ou
na última. Mas essa situação não se prolongará por muito tempo.
Não nos podemos contentar com uma guerra defensiva e temos
obrigações para com a nossa aliada. Precisamos, mais uma vez,
reconstituir a fôrça expedicionária, sob a direção do seu nobre
comandante-em-chefe, Lord Gort. Tudo isso está se processando;
mas, no intervalo, precisamos organizar as defesas da nossa ilha,
de modo a empregarmos para êsse fim um número mínimo de
homens, apenas os que fôrem essenciais a uma segurança real, dei­
xando livre o maior potencial ofensivo que nos seja possível alcan­
çar. É disso que estamos tratando agora. Será conveniente, se a
Câmara concordar, que abordemos o assunto numa sessão secreta:1
Não quero dizer com isso que o govêmo poderá revelar detalhes

102
de segredos militares, mas sempre será melhor discutirmos livre­
mente, sem as restrições impostas pela certeza de que cada palavra
dos debates será lida no dia seguinte pelo inimigo. Aliás, seria de
grande vantagem para o govêrno saber a opinião franca de todos
os membros da Câmara, cujo conhecimento de diversas regiões
do país poderá ser da maior utilidade. Parece-me que será apresen­
tado um requerimento para êsse fim e posso garantir que tal reque­
rimento será prontamente deferido pelo govêrno de Sua Majestade.
Julgamos necessário adotar restrições cada vez mais severas,
não só contra inimigos estrangeiros e pessoas suspeitas de outras
nacionalidades, como também contra os próprios súditos britâni­
cos que se possam tomar perigosos ou perturbadores da ordem,
no caso do Reino Unido vir a transformar-se em teatro de guerra.
Bem sei que grande número das pessoas atingidas pelas ordens
que baixamos são inimigos encarniçados da Alemanha Nazista.
Lamento profundamente a situação em que se encontram, mas,
na época atual, sob a pressão dos acontecimentos, não nos é possí­
vel estabelecer tôdas as distinções que desejaríamos. Aliás, se
fôsse tentada a invasão por paraquedistas e houvesse lutas encar­
niçadas contra o inimigo, a liberdade dêsses infelizes seria talvez
tão prejudicial a êles próprios como a nós. Há, entretanto, outro
tipo de indivíduos que não me despertam a menor consideração.
O Parlamento conferiu plenos podêres ao govêrno para agir seve­
ramente contra as atividades da Quinta Coluna. Não hesitaremos
em usar dêsses podêres, sob a fiscalização e o controle da Câmara,
até estarmos convencidos, e mais que convencidos, de que essas
atividades nefastas foram definitivamente extirpadas do nosso país.
Voltando ainda uma vez à possibilidade de invasão, agora
de um modo mais geral, devo dizer que nunca houve um período,
nos longos séculos da história de que nos orgulhamos, em que
qualquer govêrno pudesse dar ao povo garantias absolutas de que
a nossa ilha não seria invadida e muito menos de que não seriá
exposta a tentativas perigosas nesse sentido. Nos tempos de Napo-
leão, o mesmo vento que poderia impelir os seus transportes atra­
vés do Canal poderia também arrastar para longe a esquadra do
bloqueio. Havia sempre o fator sorte, e é êsse fator que tem exci­
tado a imaginação de muitos tiranos do Continente.
Contam-se inúmeras histórias a respeito e garante-se que serão
empregados novos métodos. Aliás, quando observamos os requin­
tes de crueldade e o talento agressivo revelados pelo inimigo, deve­

103
mos certamente nos preparar para qualquer estratagema nôvo ou
qualquer manobra traiçoeira e brutal. Acho que tôdas as idéias,
por mais absurdas, devem ser levadas em conta e consideradas,
não só com atenção, mas espero que ao mesmo tempo com segu­
rança. Não devemos esquecer nunca as sólidas garantias do nosso
poderio marítimo, nem as do nosso poderio aéreo, se êste puder
ser utilizado sôbre o nosso próprio território.
Pessoalmente, tenho confiança absoluta que, se todos cum­
prirem seu dever, se não houver vacilações e se tudo fôr organi­
zado, como está sendo, da melhor maneira, mais uma vez nos reve­
laremos capazes de defender a ilha que é nossa pátria, de afastar
a tempestade da guerra e de resistir às ameaças de tirania, se
necessário durante anos, se necéssário sozinhos. Seja como fôr, é
isso que vamos tentar. É essa a resolução do govêrno de Sua Majes­
tade — por todos os seus membros, sem exceção de um único.
É essa a vontade do Parlamento e é essa a vontade da nação.
O Império Britânico e a República Francesa, unidos na mesma
causa e nas mesmas necessidades, defenderão até a morte o solo
pátrio, ajudando-se mutuamente, como bons camaradas, até o
limite de suas fôrças. Ainda que grandes regiões da Europa e
muitos Estados tradicionais e famosos tenham caído ou venham
a cair nas garras da Gestapo e da odiosa máquina nazista, não hesi­
taremos nem voltaremos atrás. Continuaremos até o fim: luta­
remos na França; lutaremos nos mares e nos oceanos; lutaremos,
cada vez mais confiantes e mais fortes, nos ares. Defenderemos a
nossa ilha, custe o que custar; lutaremos nas praias, lutaremos nos
morros, nos campos e nas ruas. Nunca nos renderemos e, mesmo
se acontecesse — o que nem por um instante acredito — que a
nossa ilha ou uma parte dela fôsse subjugada e reduzida à fome,
ainda assim, armado e protegido pela Esquadra britânica, o nosso
Império de além-mar prosseguiria na luta, até que, quando Deus
assim o quisesse, o Nôvo Mundo, com tôda a sua fôrça e todo o
seu vigor, avançaria em socorro e libertação do Velho.

104
UM A M ENSAGEM AO PO VO

I r r a d ia d a e m 17 d e ju n h o de 1940

Junho, 5. Os alemães atacam o Somme e o Aisne.


Junho, 6. O Sr. Daladier deixa o Gabinete francês.
Junho, 10. A Itália declara guerra à França e à Grã-
-Bretanha.
Junho, 11. Primeiros reides da Real Fôrça Aérea na Líbia.
Lutas na Somália.
Junho, 12. Caem Rouen e Rheims.
Junho, 13. O govêrno britânico promete à França o maior
auxílio que esteja ao seu alcance e renova o com­
promisso de continuar a luta.
Junho, 14. Os alemães ocupam Paris e progridem rápida-
mente através da Champanha.
Junho, 16. O Sr. Reynaud demite-se e o marechal Pétain
forma um nôvo govêrno. Tropas alemãs nas pro­
ximidades de Dijon.
Junho, 17. O marechal Pétain pede a paz.

S ÃO muito tristes as notícias que nos chegam da França


e lamento a sorte do nobre povo francês, que mergulhou numa
terrível desgraça. Entretanto, nada poderá alterar a amizade que

105
dedicamos aos franceses, nem a confiança que depositamos no
reerguimento da sua pátria. O que aconteceu na França não altera
o curso da nossa ação, nem altera os nossos propósitos. Somos
agora os únicos paladinos ainda em armas para defesa da causa
do mundo. Faremos o que estiver ao nosso alcance para nos tor­
narmos dignos dessa imensa honra. Defenderemos a nossa ilha e
lutaremos, com o Império Britânico, invencíveis, até que a huma­
nidade seja libertada do flagelo nazista. Afinal, tudo acabará bem.

106
A HORA M AIS BELA

D is c u r s o p r o n u n c i a d o n a C â m a r a d o s C o m u n s
e d e p o i s a t r a v é s d o r á d io
18 DE JUNHO DE 1940

Junho, 18 As fôrças alemãs chegam à fronteira da Suiça.


Herr Hitler e Signor Mussolini encontram-se em
Munique, afim de estabelecer condições para a
França. As fôrças alemãs chegam a Cherbourg e
atravessam o Loire em diversos pontos.

l^ eferi-m e, há poucos dias, ao imenso desastre militar


que representou o fato de não ter o Alto Comando francês
retirado da Bélgica os exércitos do norte, no momento em que
as linhas francesas foram definitivamente rompidas, em Sedan
e no Meuse. Essa demora importou na perda de quinze ou de­
zesseis divisões francesas e pôs fora de ação, durante o período
crítico, tôda a fôrça expedicionária britânica. Nosso exército e
120.000 soldados franceses fôram de fato salvos pela Esquadra
britânica em Dunkerque, mas perderam-se os seus canhões, os
seus veículos blindados e o seu moderno equipamento. A com­
pensação dessas perdas exigia naturalmente um intervalo de al­

107
gumas semanas e, antes de finda a segunda dessas semanas, a
batalha da França já estava perdida. Considerando a heróica resis­
tência do exército francês contra elementos adversos, considerando
as enormes perdas infligidas ao inimigo e o evidente esgotamento
dêste, é de presumir-se que aquelas 25 divisões de tropas selecio­
nadas e bem equipadas tivessem influído para um resultado dife­
rente. O fato, porém, é que o general Weygand foi obrigado a
lutar sem elas, pois somente cêrca de três divisões britânicas pu­
deram formar ao lado dos seus camaradas franceses. Fôram ex­
tremamente sacrificadas, mas lutaram bem. Mandamos para a
França todos os homens que pudemos, tão ràpidamente quanto
nos foi possível reequipá-los e transportá-los.
Não estou enumerando êsses fatos com o objetivo de fazer
recriminações. E’ uma atitude que julgo absolutamente inútil e
mesmo prejudicial. Toco nesse ponto apenas para explicar por
que não tínhamos, como podíamos ter, de doze a quatorze di­
visões britânicas, em vez de três apenas, lutando lado a lado com
os franceses na grande batalha da França. Mas nada disso inte­
ressa agora. Deixo todos êsses fatos à disposição dos historiado­
res, para que êles, quando houver oportunidade, escolham os do­
cumentos com que hão de escrever a história. Devemos pensar
no futuro e não no passado. Isso também se aplica às nossas
questões internas. Há muita gente que pensa em promover um
inquérito, na Câmara dos Comuns, para apurar responsabilidades
dos governos e aliás dos Parlamentos também, porque estão igual-
imente envolvidos nessas responsabilidades — durante os anos que
nos conduziram a esta catástrofe. Essa gente procura culpar os
que dirigiram os nossos destinos. Também isso seria insensato e
pernicioso. São muitos os que tomaram parte nós acontecimentos.
Que cada um faça um exame de consciência e ao mesmo tempo
uma revisão dos seus discursos. Posso garantir que freqüentemen­
te examino os meus.
De uma coisa tenho a certeza. Se abrirmos luta entre o
presente e o passado, em pouco descobriremos que perdemos o
futuro. Por isso, não posso aceitar quaisquer divergências entre
os membros do atual govêrno. Foi formado num momento de
crise, a fim de unir todos os partidos e todos os setores da opinião
pública, e recebeu o apoio quase unânime de ambas as Casas do
Parlamento. Os seus membros vão pois agir unidos e, de acôrdo
com a Câmara dos Comuns, vamos governar o país e fazer face

108
à guerra. Nesta época que atravessamos, é absolutamente indis­
pensável que se dedique o máximo respeito a cada um dos minis­
tros, que dia a dia procuram cumprir o seu dever. Os subordi­
nados precisam ter a convicção de que os seus chefes não são
homens ameaçados, homens que estão hoje no poder e amanhã
no ostracismo, mas homens cujas ordens devem ser rigorosa e
fielmente cumpridas. Sem essa concentração de poder, não pode­
mos enfrentar o que temos diante de nós.
Na atual situação de calamidade pública, não creio que seja
de conveniência para a Câmara prolongar hoje êste debate.
Há muitos fatos obscuros, que se esclarecerão dentro de
pouco tempo. Está marcada uma sessão secreta para a pró­
xima quinta-feira, e creio que a oportunidade será então mais
favorável para a expressão das muitas opiniões que os membros
desejem manifestar e para a discussão de assuntos vitais, sem que
tudo seja lido, no dia seguinte, por nossos perigosos inimigos.
Os desastrosos acontecimentos militares da última quinzena
não constituíram surprêsa para mim. Na realidade, há quinze dias
anunciei à Câmara, o mais claramente possível, que estávamos
sujeitos às piores probabilidades. E deixei então perfeitamente es­
clarecido que, acontecesse o que acontecesse na França, os acon­
tecimentos não alterariam a resolução da Grã-Bretanha e do Im­
pério Britânico de continuar a luta, “se necessário durante anos,
se necessário sozinhos”. Nestes últimos dias, conseguimos salvar
a grande maioria das tropas que tinhamos nas linhas francesas
de comunicação da França e sete oitavos das tropas que tínhamos
enviado para a França, desde o princípio da guerra — isto é,
cêrca de 350.000 homens, de um total de 400.000, estão a salvo,
de volta à pátria. Outros estão ainda lutando ao lado dos fran­
ceses, e lutando com vitórias parciais, nos seus encontros com o
inimigo. Recuperamos também uma grande quantidade de pro­
visões, fuzis e munições de todos os tipos, que tínhamos acumu­
lado na França, durante os últimos nove meses.
Temos hoje, portanto, nesta ilha, uma enorme e poderosa
fôrça militar, compreendendo as nossas tropas de elite, inclusive
os milhares e milhares de homens que já mediram sua eficiência
com a dos alemães e não perderam no confronto. Temos atual­
mente em armas, nesta ilha, mais de um milhão e duzentos e
cinqüenta mil homens. Além dêsses, temos os voluntários da De­
fesa Interna — cêrca de meio milhão de homens resolutos. Dês-

109
(cs, entretanto, até agora, só uma parte dispõe de fuzis ou outras
armas de fogo. Incorporamos à nossa Defesa Interna todo homem
para quem haja uma arma. Os que não fôram ainda chamados,
ou os que trabalhem nas imensas fábricas de munições e tôdas
as suas dependências — que são inúmeras — servirão melhor
ao país continuando entregues ao trabalho habitual, até serem
chamados. Há também aqui tropas dos Domínios. Os canadenses
chegaram a desembarcar na França, mas fôram evacuados a sal­
vo, com grande desapontamento, mas em perfeita ordem, trazen­
do tôda a sua artilharia e equipamento. Essas tropas dos Domí­
nios, que são tropas de primeira ordem, participarão agora da
defesa da Mãe Pátria.
É provável que essa enumeração das fôrças de que dispomos
provoque uma pergunta: “Por que não participaramjelas da gran­
de batalha da França?” Quero deixar bem claro que, com exceção
das divisões que estamos treinando e organizando para defesa da
Grã-Bretanha, só 12 divisões estavam equipadas para lutar em
condições que justificassem a sua idade para o continente. E man­
damos para a França o número exato de soldados que os franceses
esperavam que tivessemos capacidade para mandar, no nono mês
de guerra. O restante das nossas fôrças metropolitanas destina-se
à defesa da nossa ilha, com um vigor combativo que naturalmente
aumentará cada semana. Assim, pois, a invasão da Grã-Bretanha
exigiria agora o transporte, através dos mares, de imensos exércitos
hostis, os quais, mesmo depois de transportados, teriam de ser
supridos e abastecidos com o enorme volume de munições e ví­
veres necessários a uma batalha prolongada, pois não resta a
menor dúvida que a batalha seria prolongada.
E aqui o momento é oportuno para falar na Marinha —
pois, afinal ainda temos uma Marinha. Muita gente parece es­
quecer que dispomos de uma Esquadra. Mas é preciso relembrar
êsse fato. Há cerca de trinta anos venho me ocupando das possi­
bilidades de invasão desta ilha e, no comêço da última guerra,
tomei a responsabilidade de permitir, em nome do Almirantado,;
que tôdas as nossas tropas regulares fôssem enviadas para fora
do país. Era uma decisão muito grave, porque as tropas coloniais
tinham apenas acabado de ser convocadas e não tinham a menor
preparação. Aconteceu, assim, que, durante vários meses, a nossa
ilha estêve praticamente desguarnecida de tropas combatentes.
Naquela ocasião, o Almirantado tinha confiança no seu poder

110
de impedir uma invasão em massa, mesmo levando em conta que
a Alemanha daquela época dispunha de uma magnífica frota de
guerra, cuja proporção com a nossa era de 10 para 16, e estava
em condições de fazer face, a qualquer momento, a uma batalha
naval de grande envergadura, enquanto que agora dispões apenas
de dois vasos de guerra dignos de menção — o “Scharnhors” e
, o “Gneisenau”. Consta-nos que a Esquadra italiana pretende tam-
bemientrar em ação e conquistar a supremacia dos mares. Se isso
fôr verdade, devo dizer que teremos imensa satisfação em oferecer
ao Signor Mussolini passagem livre e protegida através do estreito
de Gibraltar, a fim de que êle possa representar o papel a que as­
pira. Reina uma curiosidade geral, na Esquadra britânica, de
saber se os italianos ainda mantêm o mesmo nível da última
guerra, ou se sofreram alguma decadência.
Parece-me, portanto, que estamos agora em condições muito
mais favoráveis, para enfrentar uma invasão marítima em grande
escala, do que estivemos em muitas fases da última guerra e mes­
mo durante os primeiros meses da atual, quando nossas tropas
ainda não se achavam preparadas e a fôrça expedicionária britâ­
nica se encontrava fora do país. É preciso acentuar que a Esqua­
dra nunca se julgou apta a impedir ataques de destacamentos de
5.000 ou 10.000 homens transportados de surprêsa e atirados
em vários pontos da costa, numa noite escura, ou numa manhã
de nevoeiro. A eficácia do poder naval depende em grande parte,
sobretudo na guerra moderna, do vulto das tropas invasoras. E,
à vista do nosso poderio militar, essas tropas terão de ser nume­
rosas, se quiserem chegar a algum resultado. Mas, se fôrem nu­
merosas, a Marinha terá meios de localizá-las e saberá o que fazer.
Não devemos esquecer que o transporte mesmo de cinco divisões,
por mais> sumàriamente equipadas que fôssem, exigiria de 200 a
250 navios. Ora, com os modernos reconhecimentos aéreos, não
seria muito fácil reunir uma frota de tanta importância, equipá-la
e conduzi-la através dos mares, sem poderosos vasos de guerra
para escoltá-la. E haveria grandes possibilidades — para não dizer
outra coisa — de que essa frota fôsse interceptada, perecendo
afogadas as tropas invasoras, muito antes de alcançarem a costa.
Na pior das hipóteses, se chegassem a tentar um desembarque,
seriam estraçalhadas por explosões, antes de pisarem em terra.
Há ainda, defendendo as nossas costas, grandes campos de minas,
que estão sendo constantemente reforçados e cuja localização só

an
nós conhecemos. Se o inimigo tentasse abrir passagem por êsses
campos de minas, a tarefa da nossa Marinha seria então destruir
os navios caça-minas e quaisquer outras unidades que lhes ser­
vissem de proteção. Isso não seria difícil, graças à nossa superio­
ridade naval.
Êsses são os argumentos habituais, que têm sido postos à
prova e nos quais temos sempre confiado, durante anos e anos,
em tempo de paz como em tempo de guerra. Mas resta saber se
há novos métodos que possam contrabalançar essas sólidas garan­
tias. Por mais estranho que pareça, a hipótese tem sido objeto de
cogitações do Almirantado, cujo principal dever e responsabili­
dade é a destruição de qualquer expedição marítima, antes ou no
momento de alcançar as nossas costas. Não tenho o direito de
entrar nos detalhes dessas cogitações. Poderiam sugerir ao inimigo
idéias que talvez ainda lhe tivessem ocorrido, e seria pouco pro­
vável que nos fôsse comunicada qualquer idéia em troca. Só direi
que temos dedicado ao assunto tôda a nossa argúcia, e que con­
tinuamos incansàvelmente vigilantes, porque o inimigo é forte,
astucioso e fértil em novas traições e estratagemas. A Câmara
pode ficar certa de que estamos recorrendo a todo o nosso en­
genho e apelando para a imaginação de grande número de ofi­
ciais competentes, especialistas em tática e perfeitamente aptos a
avaliar e contrabalançar novas possibilidades. Repito, o assunto
está merecendo, e precisa merecer, a nossa incansável vigilância
e constante especulação, porque não podemos esquecer que o ini­
migo é astucioso e não há golpe, por mais ignóbil, que não seja
capaz de tentar.
Nesse caso, perguntarão alguns, porque não conseguiu a
Esquadra britânica impedir o transporte de um vasto exército da
Alemanha para a Noruega, através do Skaggerak? Acontece que
as condições do Canal e do Mar do Norte são inteiramente
diferentes das do Skaggerak. No Skaggerak, devido à distância,
não tínhamos elementos para proteger com a aviação os nossos
navios de superfície e, por conseguinte, estando, como estávamos,
perto das principais bases aéreas do inimigo, eramos obrigados a
nos valer exclusivamente dos submarinos, ficando assim privados
das vantagens de um bloqueio total, que só é possível por meio das
unidades de superfície. Nossos submarinos cobraram um pesado
tributo aos navios inimigos, mas não podiam, por si sós, evitar a
invasão da Noruega. Por outro lado, no Canal e no Mar do Norte,

112
a superioridade das nossas fôrças navais será reforçada não só
pelos submarinos, como pela cooperação eficaz das fôrças aéreas.
Chegou agora, naturalmente, à grande questão da invasão
pelo ar e da luta titânica entre as fôrças aéreas da Grã-Bretanha
e da Alemanha. Parece bem claro que, enquanto a nossa fôrça
aérea não fôr definitivamente dominada, não haverá possibilidade
de uma invasão pelo ar, que não esteja ao alcance das nossas
fôrças de terra enfrentar e esmagar ràpidamente. Entretanto, é
muito possível que haja ataques de pára-quedistas e tentativas de
desembarque de tropas transportadas em aviões. Creio que esta­
remos em condições de oferecer a êsses cavalheiros uma recepção
calorosa, tanto no ar como em terra, se êles chegarem em condi­
ções de continuar a luta. Mas a grande dúvida consiste em saber
se conseguiremos destruir a arma aérea de Hitler. É, na realidade,
lamentável que não tenhamos uma fôrça aérea pelo menos igual
à do mais poderoso inimigo a quem a distância não seja obstáculo
para atacar-nos. Mas, ainda assim, temos uma fôrça aérea muito
poderosa e que já demonstrou a sua superioridade, tanto em ho­
mens como em aparelhos, sôbre fôrças adversárias que tem en-
fretado até hoje, nas numerosas e encarniçadas batalhas já tra­
vadas. Na França, onde levamos tôdas as desvantagens e onde
perdemos inúmeros aparelhos em terra, parados nos aeródromos,
nós nos acostumamos a infligir, no ar, perdas na proporção de
dois a dois e meio para um. Na luta sôbre Dunkerque, que era
uma espécie de “terra de ninguém”, é indiscutível que vencemos
a aviação germânica e obtivemos o domínio dos ares, infligindo
ali, dia após dia, perdas na porporção de três a quatro para um.
Qualquer pessoa que observe as fotografias do reembarque,
publicadas há cerca de uma semana, verá que as tropas reunidas
em massa na praia, durante horas a fio, constituíam um alvo ideal
para os aviões e que, assim, a retirada não teria sido possível se
o inimigo não houvesse perdido a esperança de recuperar a su­
premacia aérea naquela ocasião e naquele lugar.
Na defesa desta ilha, as vantagens dos defensores serão muito
maiores do que na luta em tôrno de Dunkerque e esperamos tor­
nar ainda mais favorável a nós a porporção das perdas ali sofri­
das, de três a quatro para um. Além disso, todos os nossos apa­
relhos que fôrem atingidos e todos os aviadores que chegarem
salvos a terra — aliás, é surpreendente o número de aparelhos e
de homens que, nas modernas lutas aéreas, chegam salvos a terra

113
— todos êles, no caso de um ataque às nosssas ilhas, cairão em
solo amigo e sobreviverão para novas lutas, ao passo que os apa­
relhos inimigos e seus tripulantes representarão perdas absolutas,
no que diz respeito aos objetivos de guerra.
Durante a grande batalha da França, fornecemos auxílio
constante e poderoso ao exército francês, tanto em aviões de com­
bate como de bombardeio, mas a despeito de tôdas as injunções,
nunca deixamos que se consumisse tôda a fôrça da nossa aviação
metropolitana. Essa decisão foi dolorosa, mas foi também acerta­
da, porque os destinos da batalha da França não poderiam ter
sido decisivamente alterados, mesmo que tivessemos lançado na
voragem tôda a nossa fôrça aérea. Perdeu-se a batalha da França
devido ao êrro estratégico inicial, ao poder extraordinário e im­
previsto das colunas blindadas e à grande superioridade numérica
do exército alemão. Os nossos aviões de caça poderiam ter sido fà-
cilmente destruídos, sem que isso representasse mais do que um
simples incidente daquela tremenda batalha, nessa hipótese esta-
ríamos agora numa situação desesperadora.
Mas o fato é que tenho a satisfação de informar a Câmara
que, em matéria de aviões de caça, estamos agora numa situação
melhor, proporcionalmente aos alemães, que sofreram perdas tre­
mendas, do que em qualquer outra ocasião. Por conseguinte, te­
mos agora elementos para continuar a luta nos ares em condições
mais favoráveis do que nunca. Antecipo, confiante, os feitos dos
nossos pilotos de combate — êsses homens surpreendentes, essa
juventude cintilante — que terá a glória de salvar a sua pátria,
a sua ilha, tudo que lhe é caro, do mais mortífero de todos os
ataques.
Prevalece, é claro, o perigo dos bombardeios, que certamente
não tardarão a ser levados a efeito contra a nossa ilha. É verdade
que a Alemanha possui maior número de bombardeiros do que nós.
Mas isso não quer dizer que também não disponhamos de nume­
rosas fôrças de bombardeio, que serão empregadas incessantemen­
te contra os alvos militares inimigos. Longe de mim a idéia de
subestimar a gravidade da provação que nos espera; mas estou
certo de que os nossos compatriotas se mostrarão à altura do que
venha a acontecer, tal como os bravos de Barcelona, e terão
fôrças para enfrentar o que fôr preciso enfrentar e prosseguir a
despeito de tudo, com um ânimo pelo menos tão forte como o de
qualquer outro povo do mundo. Disso dependerá muita coisa.

114
Cada homem, cada mulher terá oportunidade de revelar as me­
lhores qualidades de sua raça e prestar os mais relevantes ser­
viços à sua causa. Para todos nós, nesta época, seja qual fôr a
nossa esfera de ação, sejam quais fôrem as nossas atividades e
os nossos deveres, será um consolo recordar os famosos versos:

“Êle nada pôs de mesquinho


Naquela cena memoráveY’.

Julguei acertado fornecer à Câmara e à nação informações


sôbre os fundamentos sólidos e práticos em que baseamos o nosso
propósito inflexível de continuar a guerra. É raciocínio corrente
por aí: “Não importa. Ganhando ou perdendo, submergindo ou
flutuando, mais vale a morte do que a submissão à tirania — e
que tirania!” Não deixo de pensar da mesma forma, mas posso
assegurar que nossos conselheiros técnicos das três Armas são
unânimes em aconselhar que continuemos a luta, acrescentando
que há boas e sólidas esperanças de vitória final. Prestamos am­
plas informações e dirigimos consultas a todos os Domínios do­
tados de govêrno autônomo — essas grandes comunidades das
quais o oceano nos separa, mas que se formaram à luz das nossas
leis e da nossa civilização e que, tendo absoluta liberdade de es­
colher o seu próprio rumo, hipotecam dedicação absoluta à antiga
pátria e deixam-se guiar pelas mesmas emoções que nos levam a
pôr tudo que é nosso a serviço do dever e da honra. Fôram todos
consultados e todos responderam, por intermédio de seus primei­
ros-ministros — Sr. Mackenzie King, do Canadá, Sr. Menzies,
da Austrália, Sr. Fraser, da Nova Zelândia, o General Smuts, da
África do Sul — êsse homem extraordinário, que, com a profun­
deza do seu espírito e a agudeza do seu olhar, penetra à distância
todo o panorama da Europa. Recebi de todos êsses homens emi­
nentes, representando governos eleitos liberalmente, que, por sua
vez, representam a vontade do povo, mensagens redigidas nos têr-
mos mais tocantes endossando a nossa resolução de prosseguir
na luta e declarando-se prontos a partilhar dos nossos destinos,
perseverando até o final. E é isso que vamos fazer.
Podemos agora formular uma pergunta: De que modo piorou
a nossa situação, desde o início da guerra? Piorou, porque os
alemães se apoderaram de grande parte da costa da Europa oci­

115
dental e impuseram o jugo nazista a muitos pequenos países. Isso
naturalmente agrava as possibilidades de ataque aéreo e aumenta
as nossas preocupações navais. Mas não enfraquece, e antes re­
força decisivamente, o nosso bloqueio de longo alcance. Também
a entrada da Itália na guerra aumenta a fôrça dêsse mesmo blo­
queio. Fecha-se, assim, a maior brecha que o invalidava. Não sa­
bemos se a França cessará a resistência militar, mas, se issa acon­
tecer, os alemães terão a possibilidade de concentrar sôbre nós a
sua fôrça militar e industrial. Entretanto, pelas razões que já
expus à Câmara, encontrarão algumas dificuldades em fazê-lo. Se,
por um lado, a invasão se tomou mais provável, como indubita­
velmente se tomou, o fato de não termos mais o encargo de man­
ter um grande exércio na França nos permite dispôr de fôrças
muito maiores e mais eficientes para enfretá-la.
Se Hitler conseguir impor o seu despotismo às indústrias dos
países que conquistou, certamente terá à sua disposição, além dos
enormes recursos de que já dispõe, um grande acréscimo de ar­
mamentos. Mas, por outro lado, essa vantagem não será imediata
e nós agora temos a garantia de um enorme, constante e crescente
auxílio dos Estados Unidos. Através dos oceanos, de regiões ina­
cessíveis aos bombardeios do inimigo, chegarão munições de todos
os tipos assim como chegarão também aviões e pilotos dos Do­
mínios.
Acho, pois, que nenhum daqueles fatores adversos nos po­
derá afetar, antes do princípio do inverno. E o invemo trará novos,
problemas para o regime nazista, a braços com a Europa inteira
tiritando de frio e morrendo de fome, sob o tacão de Hitler. Por
mais cruéis e insensíveis que sejam os nazistas, o problema se
impõe. Precisamos não esquecer que, desde a declaração da guer­
ra, no dia 3 de Setembro, a Alemanha poderia a qualquer mo­
mento voltar contra nós tôda a sua fôrça aérea, ou ainda, tentar
qualquer outro método de invasão que lhe ocorresse. A França
pouco ou nada poderia fazer para detê-la. Temos, pois, atravessa­
do todos êstes meses sob essa ameaça constante, por uma forma
ou por outra. O fato é que, no intervalo, melhoramos considerà-
velmente o nosso sistema de defesas e descobrimos uma coisa que
não tínhamos o direito de esperar no princípio, isto é, que, indi­
vidualmente, o pilôto britânico e o avião britânico têm a seu favor
uma superioridade segura e marcada. Assim, pois, computando as
nossas probabilidades e apreciando os nossos perigos com olhar

116
imparcial, vejo relevantes motivos para vigilância e esfôrço inten­
so, mas francamente não vejo a menor razão para desespêro ou
pânico.
Durante os quatro anos da última guerra, os aliados não so­
freram senão desastres e desilusões. Era um golpe depois do outro,
baixas tremendas, perigos temerosos. Tudo corria mal. E, no en­
tanto, ao cabo daqueles quatro anos, o moral dos aliados era mais
elevado do que os dos alemães, que tinham marchado de triunfo
em triunfo e eram os invasores vitoriosos de tôdas as terras que
haviam atacado. Durante aquela guerra, ocorria a cada momento
a pergunta: Mas como poderemos vencer? E ninguém sabia res­
ponder ao certo, até que um dia, repentinamente, inesperadamen­
te, o nosso terrível inimigo se abateu diante de nós e nós nos into-
xicamos a tal ponto com a vitória que insensatamente a deixamos
escapar.
Ainda não sabemos qual será o destino da França, nem se
a resistência francesa se prolongará, quer na própria França, quer
no Império Francês de além-mar. Mas o certo é que o govêrno
francês desprezará grandes oportunidades e arriscará gravemente
o futuro da nação, se não prosseguir na guerra, de acôrdo com as
cláusulas dos tratados que firmou e de cujo cumprimento não nos
foi possível eximi-lo. A Câmara já deve ter lido a declaração his­
tórica pela qual, na hora mais sombria da França, atendendo ao
desejo de muitos franceses — e ao desejo dos nossos próprios
corações — proclamamos a disposição de firmar com a França
uma união de cidadania comum nesta luta. Aconteça o que acon­
tecer na França, seja qual fôr a atitude do govêmo francês e de
outros governos franceses, nós, os desta ilha e do Império Britânico,
manteremos sempre o velho espírito de camaradagem que nos liga
ao povo francês. Se chegar agora a nossa vez de suportar o que
êsse povo tem sofrido, procuraremos fazê-lo com a mesma cora­
gem e, se a vitória final recompensar o nosso esfôrço, à França
caberá parte das glórias e, mais ainda, a liberdade será restituída
a todos. Não faremos a menor concessão; não retrocederemos um
passo nas nossas exigências de justiça. Tchecos, poloneses, norue­
gueses, holandeses, belgas uniram as suas causas à nossa causa.
A todos a liberdade será restituída.
A batalha a que o General Weygand chamou a Batalha da
França está terminada. Creio que a batalha da Grã-Bretanha vai
começar. E é dessa batalha que depende a sobrevivência da civi­
lização cristã, como depende a própria vida da Grã-Bretanha e a
continuação das nossas instituições e do nosso Império. Dentro
de muito pouco tempo, a fúria agressiva e o poderio do inimigp
deverão voltar-se contra nós. Hitler sabe que a alternativa é fatal:
ou penetra nesta ilha ou perde a guerra. Se pudermos fazer-lhe
frente, tôda a Europa será libertada e a vida do mundo poderá
encaminhar-se para horizontes mais amplos e luminosos. Mas, se
falharmos, o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos, inclu­
indo tudo que conhecemos e cultuamos, afundará no abismo de
uma nova barbárie, mais sinistra e talvez mais prolongada, graças
aos recursos da ciência a serviço de uma causa perversa. Prepa-
remo-nos, pois para os nossos deveres, certos de que, se o império
Britânico subsistir por mil anos, os homens do futuro dirão ainda:
“Foi a nossa hora mais bela.”

118
A QUEDA DA FRANÇA

D is c u r s o C âm ara dos C o m u n s
p r o f e r id o n a
25 DE JUNHO DE 1940

Junho, 21. Hitler recebe os plenipotenciários da França, no


vagão do Marechal Foch, na floresta de Com-
piègne, e aí impõe os têrmos do armistício.
O Gabinete da Polônia chega à Inglaterra.
Junho, 22. Os têrmos do armistício de Herr Hitler são acei­
tos pelos plenipotenciários do Marechal Pétain.
Em Londres, o General De Gaulle levanta a ban­
deira da França Livre.
Junho, 24. É assinado o armistício entre a França e a Itália.
Herr Hitler proclama que a guerra na frente oci­
dental está terminada.
Junho, 25. As hostilidades na França cessam às 12,35.

O ausa profunda tristeza o destino da grande nação e


do grande povo francês, ao qual estivemos ligados por tanto
tempo, na guerra como na paz, e que sempre consideramos o
paladino, como nós mesmos, de uma cultura mais liberal e uma
civilização mais tolerante na Europa. Não há a menor vantagem
no desperdício dè tempo e energia èm queixas e lamentàções. Es-

110 !
peramos ter vida e fôrças para salvar a França da desgraça e do
cativeiro a que foi atirada pelo poderio e pela fúria do inimigo —
e ainda por outros motivos. Mas esperamos também que o Império
Francês, que se estende pelo mundo inteiro e continua protegido
pela Esquadra, continuará a luta ao lado de seus aliados. Temos
a esperança de que êsse Império se tornará a sede do govêrno e
organizará os exércitos da libertação.
Mas êsses são pontos que só aos próprios franceses cabe
resolver. Achamos difícil acreditar que os interêsses da França
c o espírito da França não se manifestem senão através das melan­
cólicas decisões do govêrno de Bordeaux. Auxiliaremos, na medida
das nossas fôrças e recursos, qualquer movimento e qualquer ati­
tude de reação dos franceses livres, em prol da liberdade e restau­
ração da França e para a derrota da barbárie nazista. Não é pos­
sível antecipar quais serão as nossas relações com o govêrno de
Bordeaux. Êsse govêrno entregou-se inteiramente ao inimigo e
poderá tornar difíceis as relações com a Grã-Bretanha, pela es­
colha de ministros favoráveis à Alemanha, pela propaganda e pela
adoção de medidas complacentes ou hostis. Não sabemos se nos
será possível manter representantes diplomáticos na área restrita
a que deram o nome de “França não ocupada”, porque essa área
está cercada pelo inimigo e sob o seu controle. Mas, confiando no
tradicional espírito dos franceses e na sua condenação do que
aconteceu, quando souberem da realidade dos fatos, procuraremos
manter-nos em contato com êles, através das grades da prisão.
Enquanto isso, precisamos voltar-nos para nossa própria defesa e
proteção, pois dela depende não só o destino da Grã-Bretanha,
como o destino da Europa e do próprio mundo.
A salvaguarda da Grã-Bretanha e do Império Britânico será
afetada em grande parte, mas não decisivamente, pelo destino que
fôr dado à Esquadra francesa. Quando se tomou claro que a der­
rota da França estava iminente e que o seu magnífico exército,
sôbre o qual repousavam tantas esperanças, estava prestes a ser
subjugado pelos alemães, o Sr. Reynaud, o bravo primeiro-minis-
tro francês, pediu-me que fizesse uma visita a Tours. Fui até lá
no dia 13 de junho, acompanhado pelo secretário do Exterior e
pelo ministro da Produção Aérea, Lord Beaverbrook. Tenho agora
conhecimento de que o govêrno de Bordeaux fêz dos nossos enten­
dimentos naquela ocasião alguns relatórios que não correspondem
absolutamente à realidade. Tudo que foi dito consta dos nossos

120
arquivos, registrado por um dos secretários do nosso Gabinete,
mas não pretendo entrar agora em detalhes sôbre êsse assunto.
O fato é que o Sr. Reynaud, depois de se deter na exposição do
que ocorria na frente francesa e na situação do exército francês,
fatos de que aliás eu estava bem a par, indagou se a Grã-Bretanha
estaria disposta a libertar a França dos seus compromissos de não
negociar armistício ou paz sem o consentimento de sua aliada
britânica. Embora eu compreendesse bem a extensão dos padeci-
mentos dos franceses e soubesse também que, até então, não tí­
nhamos ainda atravessado provações da mesma natureza ou pres­
tado a mesma contribuição nos campos de batalha, senti-me obri­
gado a recusar o consentimento da Grã-Bretanha. Disse que seria
inútil acrescentar queixas e censuras às muitas outras misérias que
teríamos de suportar, mas que não podia consentir. Ficou combi­
nado que a França faria um nôvo apêlo aos Estados Unidos e que,
se a resposta não fôsse de molde a permitir ao Sr. Reynaud a con­
tinuação da luta — e, afinal de contas, êle representava o espírito
de luta, na França — então nos encontraríamos outra vez para
tomar uma nova decisão, à luz dos novos acontecimentos.
No dia 16, recebi uma mensagem do Sr. Reynaud, que se
transferira para Bordeaux, anunciando que a resposta da América
não fôra satisfatória e solicitando formalmente que a Grã-Bretanha
desligasse a França dos compromissos decorrentes do Pacto Anglo-
-Francês. O Gabinete foi imediatamente reunido e enviamos uma
mensagem, que não cito na íntegra, mas cujo resumo é o seguinte:
“Negociações em separado, quer para armistício, quer para paz,
dependeriam de um acôrdo da Grã-Bretanha com a República
Francesa, e não com um determinado govêrno ou um determinado
estadista. São negociações que envolvem a honra da França. Entre­
tanto, levando em consideração o que o povo francês tem sofrido
e o poderio das fôrças contra êle lançadas, o govêrno de Sua Ma­
jestade concordará em que o govêrno francês peça armistício,
nos têrmos em que puder fazê-lo, desde que a Esquadra francesa
seja enviada para portos britânicos e nêles permaneça durante
tpdo o curso das negociações”. Ficou também perfeitamente
esclarecido que o govêrno de Sua Majestade estava resolvido a
continuar a guerra, independentemente do auxílio francês, e que
se desligava totalmente das negociações para qualquer espécie de
armistício.

121
No mesmo dia 16, quando eu me preparava, a convite dó
Sr. Reynaud, para fazer-lhe uma visita — ahás já estava no trem
— recebi notícia de que êle fôra deposto e de que o marechal
Pétain formara um nôvo govêrno, cujo principal objetivo era obter
um armistício com a Alemanha. Nessa emergência, fizemos natu­
ralmente tudo que estava ao nosso alcance para chegar a entendi­
mentos que assegurassem o destino da Esquadra francesa. Lembra­
mos ao nôvo govêrno que não fôra cumprida a condição essencial
à anulação do Pacto Anglo-Francês, isto é, a permanência da Es­
quadra francesa em portos britânicos. Houve bastante tempo para
essa providência, cuja adoção não teria afetado de modo algum
as negociações, cujos têrmos dificilmente seriam mais drásticos do
que foram. A fim de acentuar a importância que dávamos a êsse
ponto, o Primeiro Lord da Marinha e o Primeiro Lord do Almiran-
tado, bem como o secretário das Colônias, foram incumbidos de
entrar nos entendimentos que lhes fôssem possíveis com os novos
ministros. Por êsse tempo, o desastre final estava iminente, mas
recebemos garantias solenes de que a Esquadra não cairia nunca
nas mãos dos alemães. Foi, portanto, “com dolorosa surprêsa”, para
usar as palavras da declaração do govêrno publicada domingo,
que li a cláusula 8.a do armistício.
Esta cláusula, aceita pelo govêrno francês, reza que a Es­
quadra francesa, com exceção da parte que continuará livre, para
salvaguarda dos interêsses da França no império colonial, será
internada em portos a serem especificados e ali desarmada e des­
mobilizada, sob o controle do govêrno alemão ou italiano. De-
duz-se claramente que, pelo armistício, os navios de guerra fran­
ceses passam para o controle alemão ou italiano ainda com todos
os seus armamentos. Não resta dúvida que da mesma cláusula
consta a solene declaração do govêrno alemão de que não pretende
valer-se da Esquadra francesa para seus objetivos de guerra. Mas,
que valor pode ser atribuído a essa declaração? Perguntai a meia
dúzia de países qual é o valor das garantias solenes da Alemanha.
Além do mais, a própria cláusula 8.a do armistício isenta dessas
solenes declarações e garantias as unidades necessárias à vigilân­
cia da costa e à retirada das minas. Sob essa reserva, seria possível
ao govêrno alemão valer-se, ostensivamente para vigilância da
costa, de quaisquer unidades da Esquadra francesa. E, além do
mais, o armistício, que pode ser anulado a qualquer tempo, Sob
pretexto de não cumprimento, prevê explicitamente a hipótese dèK

122
novas exigências da Alemanha, por ocasião da assinatura da paz
definitiva com a França. Em poucas palavras, aí está o resumo
dos pontos principais dêsse lamentável e memorável episódio,
do qual, sem dúvida, a História se ocupará com mais pormenores.
A Câmara evidentemente não espera ouvir previsões sôbre o
futuro. No momento atual, a situação é tão incerta e tão obscura
que quaisquer antecipações seriam até prejudiciais ao interêsse
público. Mas talvez eu tenha ainda alguma coisa a acrescentar,
se a Câmara me conceder licença para novas declarações na pró­
xima semana. Enquanto isso, espero que a Câmara continue a
depositar plena confiança no govêmo de Sua Majestade e creia
que não faltará paciência, nem faltará espírito combativo nas
futuras medidas para salvaguarda do Estado.

123
A TRAGÉDIA DA ESQUADRA
FRANCESA

D isc u r so na C âmara
p r o f e r id o dos C omuns
4 DE JU LH O DE 1940

Junho, 26. Demite-se o Sr. Corbin, embaixador da França


na Grã-Bretanha.
Junho, 27. Num ultimato à Romênia, a Rússia exige a res­
tituição da Bessarábia e da Bucovina.
Junho, 29. A Romênia cede às exigências da Rússia e as
fôrças russas começam a ocupar o território ce­
dido.
Junho, 29. O marechal Balbo morre num desastre de aviação
na Líbia.
Julho, V. A Romênia, sob pressão do Eixo, renuncia às
garantias anglo-francesas de manter a sua inte­
gridade. A Rússia completa a ocupação dos ter­
ritórios cedidos da Romênia, dois dias e meio
antes do prazo fixado.
Julho, 3. A Grã-Bretanha toma posse das unidades da Es­
quadra francesa, que se encontram em águas
britânicas, e inutiliza as que se encontram em
Oran, depois de ver rejeitado um ultimato pelo
seu comandante.

125
TT' com profundo pesar que venho trazer ao conhecimento
P v da Câmara as medidas que nos vimos obrigados a tomar,
para impedir que a Esquadra francesa caísse nas mãos dos alemães.
Quando duas nações lutam, lado a lado, unidas por uma aliança
solene e duradoura contra o inimigo comum, uma delas pode re­
ceber um golpe de morte e ver-se forçada a pedir à sua aliada que
a desligue dos compromissos assumidos. Mas o mínimo que se
podia esperar era que o govêmo francês, ao abandonar o conflito,
deixando recair todo o seu pêso sôbre a Grã-Bretanha e o Império
Britânico, tivesse o cuidado de não fazer um mal desnecessário à
sua fiel companheira, de cuja vitória final dependia, como depende,
a única possibilidade de libertação da França.
Como a Câmara deve lembrar-se, oferecemos aos franceses
desligá-los plenamente dos seus compromissos, embora êstes se
referissem justamente à hipótese que surgiu, sob uma única con­
dição, que era a de ser a Esquadra francesa enviada para portos
britânicos, antes de se completarem as negociações para um armis­
tício em separado com o inimigo. Essa condição não foi preenchida
e, ao contrário, apesar de tôdas as promessas particulares e pes­
soais e de tôdas as garantias oferecidas pelo almirante Darlan ao
Primeiro Lord da Marinha e ao seu colega, o Primeiro Lord do
Almirantado Britânico, assinou-se um armistício que colocava a
Esquadra francesa em poder da Alemanha e de seu satélite italiano,
tão efetivamente como passaram ao nosso poder muitas das
unidades que, impossibilitadas de alcançar os portos africanos,
entraram, há cêrca de dez dias, nos portos de Portsmouth e Ply-
mouth. É preciso, pois, registrar que êsse golpe, que poderia ter
sido mortal para nós, foi desferido pelo govêmo de Bordeaux, com
pleno conhecimento das suas possíveis conseqüências e dos perigos
a que nos expunha, depois de rejeitar os nossos apelos e no momen­
to em que abandonava a Aliança e rompia os compromissos que
a fortaleciam.
Houve outro exemplo dessa atitude de desinterêsse, e talvez
mesmo de malevolência, em relação a nós, não por parte da nação
francesa, que não foi e ao que parece nunca será consultada sôbre
essas negociações, mas por parte do govêmo de Bordeaux. O exem­
plo é o seguinte: havia cêrca de 400 pilotos alemães presos na
França, muitos dos quais, ou talvez a maioria dos quais, abatidos
pela Real Fôrça Aérea. Obtive do Sr. Reynaud, pessoalmente, a

126
promessa formal de que êsses pilotos seriam mandados para a In­
glaterra e sei que êle deu ordens nesse sentido. Entretanto, quando
o Sr. Reynaud caiu, os pilotos foram restituídos à Alemanha, sem
dúvida a fim de angariarem para o govêrno de Bordeaux as boas
graças dos seus senhores alemães, não importando quais os prejuí­
zos que êsse ato nos pudesse causar. A aviação germânica está
atravessando uma grande crise de pilotos competentes e isso torna
ainda mais odiosa a entrega dêsses 400 homens experimentados,
cuja função será bombardear o nosso país, forçando os nossos
aviadores a abatê-los pela segunda vez. Tenho certeza de que êsses
atos serão repudiados pela História e creio firmemente que uma
nova geração de franceses virá reabilitar a honra nacional da pe­
cha de os haver cometido.
Disse, há uma semana, que precisávamos agora dedicar tôda
a atenção à nossa própria defesa. Pois, em tôda a minha vida,
nunca assisti à discussão, por um Gabinete, de assunto tão grave
e sombrio como o da nossa atitude em relação à Esquadra fran­
cesa. A melhor prova da razão que nos assiste, no rumo que jul­
gamos do nosso dever seguir, está na unanimidade da resolução
adotada pelos membros do Gabinete, sem hesitar um instante e
sem a menor divergência. Não só ós três ministros das pastas mili­
tares, como o ministro das Informações e o secretário de Estado
das Colônias, os dois últimos conhecidos por suas profundas liga­
ções com a França, manifestaram, ao serem consultados, a mesma
convicção de que não era possível decidir de modo diferente. To­
mamos, pois, uma decisão a que chegamos com o coração san­
grando, mas que foi unânime e clarividente, e em cuja conformida­
de, na manhã de ontem, 3 de julho, depois de feitos os necessários
preparativos, tomamos a nosso cargo o contrôle de tôda a Esqua­
dra francesa, obrigando-a, em certos casos, a cumprir nossas exi­
gências. Dois couraçados, dois cruzadores ligeiros, alguns subma-,
rinos, incluindo um muito grande, o “S u rc o u fo ito destróieres e
cêrca de 200 caça-minas e contratorpedeiros, de tamanho menor,
mas de grande utilidade, que se encontravam na sua maior parte
em Portsmouth e Plymouth e alguns em Sheemess, foram aborda-,
dos por fôrças superiores, sempre que possível depois de aviso su­
mário aos seus comandantes.
Essas operações foram bem sucedidas e levadas a efeito
sem resistência ou derramamento de sangue, exceto num caso. Sur­
giu, a bordo do submarino “Surcouf”, um conflito, no qual morre­

127
ram três oficiais britânicos e ficou ferido um marinheiro, morren­
do um oficial francês e ficando ferido outro. — Mas, de um modo
geral, os marinheiros franceses aceitaram com satisfação o fim de
um período de incertezas. Muitos dêles, 800 ou 900, manifesta­
ram o desejo ardente de continuar a guerra e alguns chegaram a
pedir sua naturalização como súditos da Grã-Bretanha. Estamos
prontos a conceder essa naturalização, mas sem prejuízo dos ou­
tros franceses, que, aos milhares, embora lutando conosco, pre­
ferem conservar a nacionalidade francesa. Os demais tripulantes
serão imediatamente repatriados para portos franceses, se o go­
vêrno francês tiver elementos para providenciar a sua entrada no
país, mediante permissão dos autocratas germânicos. Estamos tam­
bém providenciando para que sejam repatriadas tôdas as tropas
francesas que se encontravam na Grã-Bretanha, com exceção das
que, por livre e espontânea vontade, preferiram alistar-se, sob o
comando do General De Gaulle, nas Fôrças Francesas Livres. Tam­
bém vários submarinos franceses se uniram a nós espontâneamen-
te, tendo sido aceitos os seus serviços.
Passo agora a falar no Mediterrâneo. Em Alexandria, onde se
encontra uma poderosa frota de guerra britânica, acham-se tam­
bém, além de um couraçado, quatro cruzadores franceses, três dos
quais modernamente aparelhados com canhões de 8 polegadas, e
muitos outros navios menores. A todos êles foi notificado que não
poderão sair do pôrto, a fim de não caírem em poder dos conquista­
dores da França. Houve uma série de negociações e discussões com
os detalhes das quais não tomarei o tempo da Câmara, e afinal
foram adotadas medidas para que êsses navios, sob o comando de
um ilustre almirante, sejam afundados, caso se recusem a cumprir
as nossas instruções. A Câmara poderá avaliar quanto tudo isso é
doloroso tanto para os oficiais britânicos como para os oficiais
franceses, principalmente quando souber que, ainda hoje, durante
um ataque da aviação italiana a Alexandria, alguns dos navios fran-
cese disparam com êxito contra o inimigo comum. Oferecemos,
naturalmente, tôdas as facilidades aos oficiais e marinheiros fran­
ceses ora em Alexandria que desejem continuar a guerra, encarre-
gando-se o govêrno britânico de prover à sua manutenção e subsis­
tência. Quanto aos outros, prometemos repatriá-los todos e não
pouparemos esforços para garantir-lhes segurança e bem-estar.
E assim fica liquidado o caso de Alexandria.

128
Mas falta ainda a parte mais grave da história. Dois dos me­
lhores navios da Esquadra francesa, o “Dunkerque” e o “Stras-
bourg”, cruzadores de batalha muito superiores ao “Sharnhorst”
e ao “Gneisenau” e cuja construção teve justamente em vista su­
perar êstes últimos, encontravam-se juntamente com dois coura­
çados, vários-cruzadores ligeiros, destróieres, submarinos e outros
navios, em Oram e no pôrto militar que lhe fica próximo, Mers-El-
-Kebir, na parte setentrional do Marrocos. Ontem, pela manhã,
um oficial britânico escolhido- especialmente para a missão, o
Comandante Holland, antigo adido naval em Paris, seguiu num
destróier para se avistar com o almirante francês Gensoul. Sendo-
lhe recusada a entrevista que solicitou, fêz entrega do documento
a cuja leitura vou proceder perante a Câmara. Os dois primeiros
parágrafos referem-se, de modo geral, ao armistício, em têrmos
mais ou menos idênticos aos que eu mesmo acabo de empregar sô­
bre o assunto. As declarações realmente objetivas estão contidas
no quarto parágrafo, assim redigido:
“Torna:se impossível para nós, ,que até agora fomos vossos
leais companheiros, permitir que vossos excelentes navios caiam
em poder do inimigo alemão ou italiano. Estamos determinados a
prosseguir na luta até o fim e, se vencermos, como temos a con­
vicção de que acontecerá, nunca esqueceremos que a França foi
nossa aliada, que os nossos interêsses são os mesmos e que o nosso
inimigo comum é a Alemanha. Declaramos solenemente que, se
vencermos, restauraremos a grandeza e o território da França. Para
atingir êsse objetivo, precisamos garantias de que os melhores na­
vios da Esquadra francesa não serão utilizados contra nós pelo
nosso inimigo comum. Nessas condições, o govêrno de Sua Ma­
jestade me deu instruções para exigir que os navios franceses, fun­
deados em Mers-El-Kebir e Oran, adotem uma das seguintes alter­
nativas:
a) Incorporem-se à nossa Esquadra, para continuar a luta
pela vitória contra os alemães e os italianos;
b) Dirijam-se, com tripulações reduzidas e sob nosso con-
trôle, para um pôrto britânico. Os tripulantes serão repatriados no
menor prazo: possível.
Se uma dessas alternativas fôr adotada, restituiremos vossos
navios à França, assim que termine a guerra, ou pagaremos uma
indenização correspondente ao seu valor, caso sejam danificados
no curso das hostilidades.

129
c) Ainda noutra hipótese, se vos sentirdes obrigados a de­
terminar que os vossos navios não sejam usados contra os alemães
ou os italianos, enquanto não houver violação do armistício, por
parte do inimigo, podereis transportá-los, com tripulações reduzi­
das, para um pôrto francês nas Índias Ocidentais — Martinica,
por exemplo — onde possam ser desarmados como julgarmos con­
veniente ou ainda confiados à guarda dos Estados Unidos, onde
ficarão a salvo até o fim da guerra, sendo as tripulações repatriadas.
No caso de serem recusadas essas propostas leais, tenho o
profundo pesar de solicitar-vos que afundeis vossos navios dentro
do prazo de seis horas.
Finalmente, se nenhuma dessas alternativas fôr aceita, tenho
ordens expressas do govêrno de Sua Majestade para fazer uso da
fôrça que se tomar necessária, a fim de impedir que os vossos
navios caiam em poder da Alemanha ou Itália.”
Esperávamos que fôsse aceita uma das alternativas acima, sem
precisarmos recorrer à tremenda fôrça de um esquadrão de bata­
lha da Grã-Bretanha. Êsse esquadrão, sob o comando do Vice-
-Almirante Somerville — um oficial que recentemente se distin-
guiu na retirada de mais de 100.000 franceses de Dunkerque —
chegou a Oran duas horas depois do destróier que levava o Ca­
pitão Holland. Além dos seus couraçados, o Almirante Somerville
recebeu o reforço de vários cruzadores e poderosas flotilhas. As
negociações se prolongaram pelo dia inteiro, alimentando nós a
esperança de que, à tarde, as nossas condições seriam afinal acei­
tas, sem derramamento de sangue. Entretanto, sem dúvida em
obediência às ordens ditadas pelos alemães de Wiesbaden, onde
está reunida a comissão de armistício franco-alemã, o almirante
Gensoul recusou-se a aceitar as propostas britânicas e anunciou a
sua intenção de entrar em luta. O Almirante Somerville recebera
ordens de completar a sua missão antes do anoitecer e às 5,53 da
tarde abriu fogo contra a poderosa frota francesa, que estava tam­
bém protegida pelas baterias terrestres. Às 6 horas da tarde, rece­
bemos notícia de que uma batalha violenta estava em andamento.
As operações duraram cêrca de dez minutos e foram seguidas de
pesados ataques dos nossos aviões navais, transportados a bordo
do “Ark Royal”. Às 7,20, o Almirante Somerville informou que
um cruzador de batalha do tipo do ‘“Strasbourg” fôra avariado;
que um couraçado do tipo do “Bretagne” fôra ao fundo; que outro

130
do mesmo tipo ficara sèriamente avariado e que dois destróieres
franceses e um porta-aviões, “Comandant Teste”, haviam sido
também postos a pique ou incendiados.
Enquanto essa triste batalha se realizava, o cruzador “Stras-
bourg” ou o “Dunkerque”, um dos dois, conseguiu escapar do
do pôrto num nobre esforço para alcançar Toulon ou qualquer
pôrto do norte da África e colocar-se às ordens dos alemães, de
acôrdo com as condições do armistício do govêmo de Bordeaux.
Quero crer que a realidade dos fatos não tenha ocorrido claramente
ao comandante, nem à tripulação. Êsse cruzador foi perseguido por
aviões navais e atingido pelo menos por um torpedo. É provável
que se tenha reunido a outros navios franceses da Argélia, aos
quais, pela sua localização, deve ter sido fácil alcançar Toulon,
sem que os pudéssemos atingir. Mas não é provável que aquêle
cruzador possa entrar em ação, antes de decorridos muitos meses.
Creio que nem é preciso dizer que os navios franceses luta­
ram, mesmo por essa causa inglória, com a bravura caraterística
da Marinha francesa. Aliás, é preciso compreender que a atitude
do almirante Gensoul e dos seus oficiais tem tôdas as atenuantes,
principalmente se considerarmos que êles se sentiram no dever de
cumprir as ordens de seu govêrno e não compreenderam que, por
trás dessas ordens, estavam as imposições da Alemanha. Receio
que tenha havido grandes perdas de vidas entre os franceses, pois
fomos forçados a usar de meios violentos e houve grande número
de explosões. Nenhuma das unidades britânicas sofreu avarias
que afetassem o seu poder combativo ou a sua mobilidade. Ainda
não recebi informações sôbre o número de vítimas, mas a frota
do almirante Somerville, sob o ponto de vista militar, está intacta
e pronta para entrar novamente em ação a qualquer momento. A
Esquadra italiana — para a qual tínhamos preparado uma recep­
ção condigna e que é, naturalmente, muito mais forte em número
do que a frota que lutou em Oran — conservou-se a uma distância
prudente. Entretanto, temos esperanças de que chegará a sua vez,
no curso das operações que levaremos a cabo, para atingir o domí­
nio efetivo do Mediterrâneo.
Pelos acontecimentos de ontem, grande parte da Esquadra
francesa passou assim para nossas mãos, ou foi posta fora de ação,
mas, de uma forma ou de outra, foi subtraída ao controle germâ­
nico. A Câmara certamente não espera declarações sôbre os outros
navios franceses que estão ao largo, mas posso garantir que é in­

131
flexível a nossa resolução de fazer o que esteja ao nosso alcance
para impedir que caiam em poder dos alemães. Entrego, confiante,
o julgamento dos nossos atos ao Parlamento. Entrego-o à Nação,
entrego-o aos Estados Unidos. Entrego-o ao mundo e à história.
Volto-me agora para o futuro imediato. Devemos forçosamen­
te esperar, dentro de pouco tempo, um ataque, ou mesmo uma
invasão — se tal fôr possível — à nossa ilha. Estamo-nos prepa­
rando, por todos os meios ao nosso alcance, para repelir os ata­
ques do inimigo, sejam dirigidos contra a Grã-Bretanha, sejam
dirigidos contra a Irlanda, cujo perigo iminente deveria ser com­
preendido por todos os irlandeses, esquecidos de divergências reli­
giosas ou partidárias. Também nesse ponto, os nossos propósitos
são definidos. O nosso esforço está orientado para êsses preparati­
vos, da manhã à noite e pela noite adentro. Mas, embora sejam
definidos os nossos propósitos, acho que não seria aconselhável
abordá-los em público e nem mesmo discuti-los numa sessão secre­
ta, a menos que fôsse cercada de reservas excepcionais. Apelo para
todos os súditos de Sua Majestade, para os nossos aliados, para os
que nos acompanham com os seus desejos de vitória — e não são
poucos, pelo mundo inteiro, dos dois lados do Atlântico — a fim
de que nos prestem o máximo de seu auxílio. Em plena harmonia,
com os Domínios, atravessamos um período de extremo perigo e
grandiosa esperança, um período em que tôdas as virtudes da
nossa raça serão postas à prova, em que tudo que somos e tudo
que possuímos será voluntariamente empenhado na luta. A ocasião
não é para dúvidas ou fraquezas. É a hora suprema para a qual
fomos convocados.
Tomarei a liberdade de ler à Câmara uma mensagem cuja
remessa determinei a todos os que ora estão servindo em posições
de responsabilidade, sob o govêrno de Sua Majestade. Se por­
ventura a Câmara olhar com interêsse a minha iniciativa, terei
grande prazer em mandar uma cópia dessa mensagem a cada um
de seus membros, não querendo com isso dizer que haja a menor
necessidade de exortações dessa natureza. Eis a mensagem:
“No dia que pode marcar a véspera de uma tentativa de
invasão ou de luta pela posse da nossa terra natal, o primeiro-
-ministro deseja acentuar a todos que exercem cargos de respon­
sabilidade, no govêrno, nas Armas Combatentes, nos departa­
mentos civis, o dever que cabe a cada um de conservar-se alerta
e cheio de energia confiante. Embora sejam poucas tôdas as pre­

132
cauções possíveis dentro do tempo e dos meios de que dispomos,
não há motivos para julgarmos exeqüível o desembarque neste
país, quer por mar, quer pelos ares, de fôrças alemãs em número
superior às fôrças que temos atualmente em armas. A Real Fôrça
Aérea, dotada de uma organização magnífica, nunca atravessou
um período em que estivesse tão forte. Por outro lado, nunca a
Marinha alemã estêve mais fraca do que hoje, nem a Marinha
britânica mais forte. O primeiro-ministro espera que, entre os sú­
ditos de Sua Majestade, os detentores de cargos de relêvo sejam
os primeiros a dar um exemplo de firmeza e decisão. Devem evi­
tar, severamente, a expressão de opiniões mal informadas, ou dis­
plicentes, entre companheiros ou subordinados. Não devem hesi­
tar em denunciar, ou se necessário demitir, oficiais ou funcioná­
rios que, conscientemente, procurem exercer influência perturba­
dora ou depressiva e cujas palavras se destinem a espalhar alarma
e desânimo. Só por esta forma se tornarão dignos dos combatentes
que vêm enfrentando o inimigo, nos ares, no mar e em terra, com
qualidades marciais insuperáveis.”
Em conclusão, acho que temos direito à confiança da
Câmara, pois não falharemos no nosso dever, por mais árduo
que seja. Os atos já praticados devem constituir, por si sós, des­
mentido suficiente a tôdas as mentiras e boatos espalhados dili­
gentemente pela propaganda alemã e por elementos da Quinta
Coluna para fazer crer que estamos inclinados a entrar em nego­
ciações, sob qualquer forma ou por qualquer meio, com os gover­
nos da Alemanha e da Itália. Muito ao contrário, prosseguiremos
na guerra, com o máximo vigor por todos os meios ao nosso
alcance, até vermos realizados os objetivos que nos levaram à luta.

133
A GUERRA DOS COMBATENTES
DESCONHECIDOS

D is c u r s o p r o n u n c i a d o a t r a v é s d o r á d io .
14 DE JULHO DE 1940

Julho, 5. O govêrno de Pétain rompe as relações diplomá­


ticas com a Grã-Bretanha.
Julho, 8. A Marinha põe fora de combate o nôvo coura­
çado “Richelieu”, em Dakar.
Julho, 11. A Alemanha se apodera de todo o ouro e de
todos os títulos franceses.
Julho, 12. A Grã-Bretanha concorda em fechar, por três
meses, a rota de Burma ao tráfego de arma­
mentos.

N os últimos quinze dias, a Esquadra britânica, além de


bloquear os restos da Esquadra alemã e de perseguir a italiana,
viu-se ainda na dolorosa contingência de pôr definitivamente fora
de ação os principais navios da francesa. Pelas cláusulas do armis­
tício assinado no vagão de Compiègne, êsses navios estavam fa­
dados a passar às mãos da Alemanha. Mas a sua transferência
para o poder de Hitler constituiria grave perigo não só para a

135
segurança da Grã-Bretanha, como para a dos Estados Unidos.
Não tínhamos, pois, outra alternativa senão agir como agimos, e
agir ràpidamente. A nossa penosa tarefa está agora completa.
Embora o couraçado em construção, “Jean Bart”, continue num
pôrto marroquino e embora haja ainda muitos navios de guerra
franceses fundeados em Toulon e nos vários portos que a França
tem espalhados pelo mundo, êsses restos da Esquadra francesa
não constituem obstáculo sério à nossa supremacia naval. Assim,
pois, enquanto essas unidades não tentarem voltar a portos contro­
lados pela Alemanha ou pela Itália, não procuraremos hostilizá-las
de forma alguma. Pelo menos no que nos diz respeito, chegou a
um têrmo essa triste fase das nossas relações com a França.
Agora, é preferível pensar no futuro. Hoje é dia 14 de julho,
a festa nacional do povo francês. Ainda o ano passado, assisti
em Paris ao desfile imponente, pelos Campos Elíseos, dos Exér­
citos da França e do Império Francês. Quem pode prever os acon­
tecimentos dos anos futuros? Não temos senão a fé, como auxílio
e consolo, diante do desenrolar misterioso do destino humano. E
eu proclamo a minha fé e a minha confiança no futuro da França.
Creio firmemente que muitos de nós viveremos para assistir a um
14 de julho em que uma França liberta se entregará a comemo­
rações de sua grandeza e de sua glória e mais uma vez se levantará
como paladina da liberdade e dos direitos do homem. Quando êsse
dia raiar, como seguramente raiará, o espírito da França há de
voltar-se, compreensivo e generoso, para os homens e as mulheres
que não tiverem desesperado da República, estejam onde estive­
rem nesta hora sombria.
Não devemos perder tempo com recriminações. Imaginemos
que um de nós enfrentasse lutas temerosas, lado a lado com um
amigo ou companheiro, e que de repente êsse amigo fôsse abatido
por um golpe esmagador. Evidentemente, tomaríamos precau­
ções para não ser a arma que lhe caisse das mãos acrescentada
aos recursos do inimigo comum. Mas não seria justo guardarmos
rancor ao amigo pelos seus gritos de delírio e seus gestos de ago­
nia. Ao contrário, procuraríamos por todos os meios suavizar-lhe
a dor. A mesma comunhão de interêsses continua a ligar a Grã-
-Bretanha e a França. A causa continua, e continua o dever impe­
rioso de defendê-la. Desde que não coloque obstáculos no nosso
caminho para a vitória, estamos prontos a demonstrar a maior
boa vontade ao govêmo francês e dispostos a favorecer o comér­

136
cio e auxiliar a administração das unidades do grande Império
Francês, agora isoladas da França cativa, mas que preservam a
sua liberdade. Dentro das exigências tremendas da guerra que
sustentamos contra Hitler e sua obra, procuraremos conduzir-nos
de modo a que os verdadeiros franceses vibrem de emoção diante
da nossa atitude em face da luta, e não só a França, como todos
os povos oprimidos da Europa, sintam que cada vitória da Grã-
-Bretanha é mais um passo para libertar o Continente da mais
vil das servidões a que jamais foi submetido.
Tudo indica que a guerra será longa e penosa. Ninguém
pode dizer até aonde se estenderá. Mas uma coisa é certa: os
povos da Europa não permanecerão por muito tempo sujeitos ao
jugo da Gestapo nazista e o mundo não se submeterá à sêde de
ódio, cobiça e domínio que anima Hitler.
Chegou agora a nossa vez de enfrentar, sozinhos, o que o
poderio e o ódio do inimigo nos reservem de pior. Curvando-nos
humildemente diante de Deus, mas conscientes de servir à mais
nobre das causas, estamos prontos para defender a nossa terra
natal contra a invasão que a ameaça. Lutamos sozinhos, mas não
lutamos só por nós. Nesta Cidade Refúgio, que serve de templo
aos principais feitos do progresso humano e adquiriu importância
capital para a civilização cristã, — aqui, cercados por mares e
oceanos onde reina soberana a nossa Esquadra, os céus protegidos
pela perícia e dedicação dos nossos pilotos — esperamos, impá­
vidos, o assalto iminente. Talvez venha esta noite, talvez na pró­
xima semana. Talvez não venha nunca. Precisamos estar igual­
mente preparados para um choque violento e súbito e para a pro­
vação, talvez mais rude, de uma vigília prolongada. Mas, seja longa
ou seja breve a provação que nos espera, não procuraremos acôr­
do, não entraremos em negociações. Poderemos conceder, mas
nunca implorar misericórdia.
Bem compreendo o receio que devem ter sentido os simpa­
tizantes da nossa causa, do outro lado do Atlântico, e os amigos
que, ansiosos, acompanham os nossos passos, nos países ainda
não violados da Europa. Êles, alheios aos nossos recursos e à
nossa determinação, devem ter de fato pôsto em dúvida as nossas
possibilidades de sobreviver, quando tantos Estados e tantos reinos
foram despedaçados, em poucas semanas, ou mesmo em poucos
dias, pela fôrça monstruosa da máquina de guerra nazista. Mas
Hitler ainda não foi enfrentado por uma grande nação dotada de

137
vontade pelo menos igual à sua. Em muitos dos países dominados,
infiltrou-se o veneno da intriga, antes do golpe da violência. Êsses
países eram devorados internamente, antes de serem abatidos do
exterior. De que outra forma se poderia explicar o que aconteceu
à França, ao exército francês, ao povo francês, aos líderes do povo
francês?
Mas aqui, na nossa ilha, o organismo é sadio e a disposição
combativa. Vimos como Hitler preparou, com detalhes científicos,
os planos para a destruição dos países vizinhos da Alemanha.
Tinha planos diferentes para cada um dêles — para a Polônia,
para a Noruega, para a Dinamarca. Os holandeses confiantes e
pacíficos, os belgas, todos tinham o seu destino traçado. Vimos
como a França foi minada e derrubada. Podemos, portanto, ter
a certeza de que há um plano, elaborado talvez há muitos anos,
para a destruição da Grã-Bretanha, porque, afinal de contas, êste
país tem a grande honra de ser o inimigo principal e mais odiado
de Hitler. Mas uma coisa posso garantir: qualquer que tenha sido
o plano preparado por Hitler, há dois meses atrás, precisará ser
alterado, de princípio a fim, para fazer frente à nossa situação de
hoje. Há dois meses — que digo eu? há um mês — nossa primeira
preocupação era manter, na França, o melhor do nosso exército.
Nossas tropas regulares, nossa produção de munições e grande
parte da nossa Fôrça Aérea iam para a França, onde precisávamos
mantê-las em ação. Agora, porém, tôdas essas fôrças estão à nossa
disposição. Nunca — nem na última guerra, nem nesta — tivemos
em nossa ilha um exército comparável, em qualidade, equipamen­
to e número de homens, ao que está de guarda na noite de hoje.
Temos hoje um milhão e meio de homens em armas. À medida
que passavam as semanas dos meses de junho e julho, o poder
defensivo e agressivo dêsse exército aumentava aos saltos. Não
há palavras de louvor que descrevam o esforço dos oficiais, dos
soldados, e também dos civis, que em tão pouco tempo realizaram
essa imensa transformação. Por trás dêsses soldados do exército
regular, alertas para o extermínio dos paraquedistas e de quaisquer
fôrças invasoras transportadas pelo ar, bem como dos possíveis
traidores que haja em nosso meio (embora eu não acredite que
sejam muitos, pois os desgraçados não iriam muito longe), está
mais um milhão de voluntários da Defesa Interna, ou a Guarda
da Nação, como também são chamados. Êsses oficiais e êsses
homens, grande parte dos quais fizeram a última guerra, nutrem

138
um desejo violento de atacar e entrar em contato com o inimigo,
onde quer que êle esteja. Se o invasor chegar até a Grã-Bretanha,
não encontrará a atitude submissa dos povos subjugados, que infe­
lizmente temos visto em outros países. Havemos de defender ci­
dade por cidade, aldeia por aldeia, casa por casa. A própria massa
da cidade de Londres, defendida rua a rua, poderia fàcilmente
devorar todo um exército hostil. E preferiríamos ver Londres redu­
zida a ruínas e a cinzas do que vê-la plácida e abjetamente escra­
vizada. Sinto-me na obrigação de citar todos êsses fatos, porque
é necessário informar o povo das nossas intenções, para melhor
tranqüilizá-lo.
Esta semana foi uma semana de grandes feitos para a Real
Fôrça Aérea. Os nossos pilotos abateram, na proporção de cinco
para um, os aviões alemães que tentaram ataques aos nossos com­
boios no Canal, ou os que se aventuraram pelas costas da Grã-
Bretanha. Êsses encontros são naturalmente os primeiros das gran­
des batalhas aéreas que temos diante de nós, mas não há razão
para que não nos regozijemos com os resultados obtidos até agora.
É evidente, entretanto, que esperamos resultados ainda mais com­
pensadores, à medida que a luta se estender pela nossa ilha a
dentro. Cercando-a, está o poder da Real Marinha de Guerra.
Mais de mil navios armados patrulham os nossos mares. E essa
mesma Marinha, que está em condições de movimentar suas fôrças
com grande rapidez, para proteger qualquer parte do Império
Britânico que venha a ser ameaçada, está também em situação
de manter comunicações com o Nôvo Mundo, de onde, à medida
que a luta se intensificar, receberemos auxílio cada vez maior.
É realmente notável que, ao cabo de dez meses de constantes ata­
ques submarinos e aéreos ao nosso comércio, disponhamos de
reservas de provisões superiores às de qualquer outra época e te­
nhamos sob nossa bandeira, além do grande número de navios
estrangeiros que controlamos, uma tonelagem superior à que
tínhamos no início da guerra.
Por que me detenho nesses pontos? Não é, certamente, para
induzir o povo a qualquer diminuição de esforço ou vigilância.
Ao contrário. A vigilância e os esforços precisam ser redobrados
e cumpre-nos uma preparação intensa, não só para o verão, como
para o inverno; não só para 1941, como para 1942. Então, assim
o espero, a guerra tomará uma feição diferente da defensiva a
que nos temos limitado até agora. Detenho-me nesses elementos de

139
fôrça, nesses recursos que mobilizamos e controlamos, apenas com
o propósito de demonstrar que uma boa causa encontra sempre
meios de sobreviver e que, enquanto labutamos no vale sombrio,
estão à vista os espaços iluminados das altitudes.
Sou o chefe de um govêrno que representa todos os partidos
da Nação — tôdas as religiões, tôdas as classes, todos os setores
de opinião digna de ser considerada.
Estamos subordinados à Coroa da nossa antiga monarquia
e apoiados por um Parlamento livre e uma imprensa livre, mas
há um laço que ainda mais nos une todos e nos assegura o respeito
público: é o nosso firme propósito de prosseguir a qualquer custo
(e disso a convicção é cada vez mais generalizada), de chegar
a todos os extremos, de sofrer o que fôr preciso sofrer e agir como
fôr preciso agir. É êsse o laço de união do govêrno de Sua Majes­
tade, na noite de hoje. Em tempos como os atuais, só assim podem
as nações preservar a sua liberdade; e só assim podem levar a
bom têrmo a causa que lhes foi confiada.
Mas tudo depende agora de ser aproveitada ao máximo a
fôrça vital da raça britânica, em tôdas as partes do mundo, a
fôrça dos povos associados à nossa causa e a dos que nos desejam
bem, em tôdas as terras. E, para isso, é preciso, noite e dia, dar
tudo, ousar tudo, suportar tudo — ao máximo e até o fim. Esta
guerra não é uma guerra de chefes ou príncipes, de dinastias ou
ambições nacionais. É uma guerra de povos e de causas. Há mui­
tos, não só nesta ilha, mas em tôdas as terras, que prestarão ser­
viços leais, mas cujos nomes nunca serão conhecidos, cujos feitos
nunca serão registrados: é a guerra dos Combatentes Desconhe­
cidos. Mas lutai todos, sem vacilações, sem que esmoreça a con­
fiança ou o cumprimento do dever, até que a sombra maldita de
Hitler não mais escureça a nossa era.

140
I

A SITUAÇÃO D A GUERRA

D is c u r s o p r o n u n c ia d o n a C â m a r a d o s C o m u n s .
20 DE AGÔSTO DE 1940

Agôsto, 2. Lord Beaverbrook, ministro da Produção Aérea,


entra para o Gabinete de Guerra.
Agôsto, 4. O primeiro-ministro adverte o povo de que con­
tinua iminente o perigo de invasão.
Agôsto, 12, São repelidos pela Real Fôrça Aérea violentos
14 e 16. ataques aéreos contra a Grã-Bretanha, perdendo
o inimigo 217 aparelhos nesses três dias.

l i stamos quase completando um ano de guerra e acho


natural determo-nos neste marco, para observar o longo e sombrio
caminho percorrido. É também útil uma comparação entre o pri­
meiro ano desta segunda guerra contra a agressão germânica e
outro ano, decorrido há um quarto de século. A guerra atual não
é, afinal, senão uma continuação da outra, mas há grandes dife­
renças entre ambas. Na guerra passada, milhões de homens luta­
vam atirando enormes massas de aço e fogo uns contra os outros.
“Homens e granadas” — era o grito de guerra — e a conseqüên­
cia foi um massacre em massa. Na guerra atual, ainda não se deu

141
coisa semelhante. É um conflito de estratégia, de organização, de
aparelhamento técnico, de ciência, de mecânica e de fatôres mo­
rais. As baixas britânicas, nos doze primeiros meses da Grande
Guerra, ascenderam a 365.000. Na guerra de hoje, entre mortos,
feridos, prisioneiros e desaparecidos, inclusive civis, o número não
excede a 92.000, dos quais vive ainda uma grande proporção.
Calculando de um modo mais geral, pode-se dizer que, em tôda
a Europa, para cada homem morto ou ferido no primeiro ano
de guerra, foram talvez mortos ou feridos cinco, no período de
1914 a 1915.
Os massacres diminuíram, mas, por outro lado, os belige­
rantes passaram a sofrer golpes mais decisivos. Vimos grandes
países, com exércitos poderosos, deixarem de existir em poucas
semanas. Vimos a República Francesa e o famoso exército da
França completa e totalmente subjugados, antes de sofrerem um
número de baixas sequer equivalentes às de uma só batalha, esco­
lhida ao acaso, entre meia dúzia que travaram, de 1914 a 1918.
Todo o corpo — às vêzes quase parece que todo o espírito — da
França sucumbiu a provações físicas incomparàvelmente menos
dolorosas do que as sofridas, com ânimo forte e vontade indo­
mável, há 25 anos atrás. Embora tenha sido até hoje felizmente
diminuta a perda de vidas, as conseqüências do curso da luta se
têm feito sentir mais profundamente no destino das nações do
que em qualquer outra fase da história do mundo, desde os tempos
bárbaros.
Dezenas de milhões de homens tornam-se ou julgam-se inca­
pazes de resistir a um certo número de vantagens obtidas por
meios mecânicos e movimentos preparados em tabuleiros estraté­
gicos e científicos. E assim prossegue, de xeque-mate em xeque-
-mate, um sinistro jôgo de xadrez, ao qual os desgraçados joga­
dores parecem inexoràvelmente acorrentados.
Há uma diferença ainda mais nítida entre esta guerra e a
de 1914. As nações combatentes estão hoje empenhadas por inteiro
na luta. Não são apenas os seus soldados, são os seus homens, as
suas mulheres, as suas crianças. As linhas de frente estão em tôda
parte. As trincheiras são cavadas nas cidades e nas ruas. Tôdas
as aldeias, todos os caminhos estão fortificados. A linha de frente
corre através das fábricas. Os operários são soldados com armas
diferentes, mas com a mesma coragem. São grandes e decisivas
distinções estas, entre o que vemos hoje e o que muitos de nós

142
vimos há um quarto de século. Há motivos relevantes para acre­
ditar que essa nova espécie de guerra se adapte melhor ao espírito
e aos recursos da Nação Britânica e do Império Britânico e que,
logo que estivermos eficientemente equipados e lançados na luta,
uma guerra dêste tipo nos será mais favorável do que os sombrios
massacres em massa do Somme e de Passchendaele. Devemos nos
sentir bem numa guerra em que a nação inteira tenha de lutar e
sofrer unida, porque somos a mais unida de tôdas as nações, porque
entramos nesta guerra baseados na vontade nacional e com os
olhos bem abertos, e ainda porque sempre cultivamos a liberdade
e a responsabilidade individual e somos produtos, não da unifor­
midade totalitária, mas da variedade e da tolerância. Se tôdas
essas qualidades forem voltadas, como estão sendo voltadas, para
a arte da guerra, poderemos muito bem causar grandes surprêsas
ao inimigo. Desde que os alemães expulsaram os judeus e rebaixa­
ram o nível de sua cultura técnica, a nossa ciência está positiva­
mente acima da dêles. Nossa posição geográfica, o domínio dos
mares e a amizade dos Estados Unidos nos permitem buscar recur­
sos no mundo inteiro e fabricar armas de guerra de todos os tipos,
especialmente as super-aperfeiçoadas, numa escala até agora só
atingida'pela Alemanha Nazista.
Hitler tem agora ramificações por tôda a Europa. As molas
da nossa iofensiva estão sendo lentamente comprimidas, para de­
pois saltarem, e precisamos preparar, resoluta e metodicamente,
as campanhas de 1941 e 1942. Dois ou três anos pouco represen­
tam, mesmo nas nossas precárias e curtas vidas. Que poderiam
então representar na história das nações? Quando se trata de rea­
lizarmos o feito mais belo da história do mundo e quando temos
a honra de ser os únicos campeões das liberdades da Europa, não
nos podemos queixar dos anos empregados na missão nem esmo­
recer diante do labor e da luta que êles nos reservam. Não se segue
daí que, nos próximos anos, as energias nacionais se limitarão
exclusivamente à defesa da nossa ilha e das nossas possessões. Deve
haver muitas oportunidades abertas a quem dispõe de um poder
anfíbio e devemos nos preparar para fazer uso dessas oportuni­
dades. Um dos meios de terminar ràpidamente esta guerra é con­
vencer o inimigo, não por palavras, mas por atos, de que a nossa
vontade e a nossa fôrça, além de nos habilitarem a resistir inde­
finidamente, nos dão também os meios de desferir golpes rudes e
inesperados Mas não temos o direito de contar com isso. Seja

143
longa ou curta, espinhosa ou suave, temos a firme intenção de
chegar ao fim da jornada.
O nosso propósito é manter e reforçar um bloqueio severo,
não só da Alemanha, como também da Itália, da França e de
todos os outros países que caíram sob o jugo germânico. Soube
pelos jornais que Herr Hitler, por sua vez, decretou um bloqueio
rigoroso das Ilhas Britânicas. Ninguém pode reclamar contra isso.
Lembro-me de que o Kaiser fêz a mesma coisa na guerra passada.
Mas haveria, na realidade, motivo de queixa se deixássemos entrar
comida para alimentar os nazistas e auxiliar o seu esforço de
guerra, ou se deixássemos entrar para os povos subjugados víveres
que certamente seriam pilhados pelos conquistadores nazistas.
Tem havido muitas solicitações, baseadas nos motivos mais
elevados para relaxarmos o bloqueio que deixa à míngua essas
populações. Lamento sermos obrigados a rejeitar êsses pedidos.
Os nazistas declaram que criaram uma nova economia unificada
na Europa. Têm afirmado repetidamente que possuem amplas
reservas de víveres e que estão em condições de alimentar os povos
cativos. Numa irradiação do dia 27 de junho, foi declarado que,
embora o plano do Sr. Hoover para auxiliar a França, a Bélgica
e a Holanda merecesse os maiores encômios, as fôrças alemãs já
tinham tomado as medidas necessárias para êsse fim. Sabemos
que, quando as fôrças germânicas penetraram na Noruega, havia
ah reservas de provisões para um ano inteiro. Sabemos que a Polô­
nia, não sendo um país rico, entretanto sempre produziu comida
suficiente para o seu povo. Além disso, os outros países invadidos
por Herr Hitler dispunham todos de reservas consideráveis,
quando os alemães chegaram, e são, em muitos casos, países pro­
dutores de gêneros alimentícios. Se tôda essa comida desapareceu
agora, é claro que foi utilizada para alimentar o povo da Ale­
manha e aumentar as suas rações — nem que fôsse para variar
— durante os últimos meses. Nesta estação do ano e nos meses
vindouros, há poucas probabilidades de fome, se considerarmos
que a colheita terminou há pouco. As únicas causas que podem
originar fome, em qualquer parte da Europa, agora e durante o
inverno, são as exigências da Alemanha ou a má distribuição das
provisões por ela controladas.
Há ainda outro aspecto. Muitas provisões valiosas são essen­
ciais à fabricação de material de guerra. As gorduras, por exem­
plo, servem ao fabrico de explosivos; das batatas se extrai álcool-

144
-motor; na composição das matérias plásticas, atualmente em uso
na construção de aeroplanos, entra o leite. Se os alemães se utili­
zam dêsses alimentos para facilitar o bombardeio de nossas mulhe­
res e nossos filhos, ao invés de alimentar as populações que os
produzem, podemos ter certeza de que também os víveres impor­
tados teriam, direta ou indiretamente, o mesmo destino ou seriam
utilizados para aliviar o inimigo das tremendas responsabilidades
que assumiu pela violência. Deixemos Hitler agüentar as suas
responsabilidades até o fim e deixemos que os povos da Europa,
gemendo sob o seu jugo, auxiliem por todos os meios a tornar
mais próximo o dia em que êsse jugo será levantado. Por outro
lado, podemos e havemos de providenciar para um rápido forne­
cimento de provisões a qualquer das regiões escravizadas, desde
que não haja mais ali vestígio de fôrças alemães e desde que a
liberdade tenha sido recuperada. Faremos o possível para incen­
tivar o acúmulo de reservas de víveres em todo o mundo, a fim de
que os povos da Europa, inclusive — digo-o deliberadamente —
inclusive os povos austríaco e alemão, tenham sempre a certeza de
que o desmoronamento do poderio nazista lhes trará imediata­
mente comida, liberdade e paz.
Ainda não se passou um trimestre desde o acesso ao poder
do nôvo govêrno da Grã-Bretanha. Nesse mesmo período, desa­
bou sôbre nós uma avalanche de desastres. Os holandeses confiam
tes foram esmagados; sua amada e respeitada Soberana acha-se
no exílio; a pacífica cidade de Rotterdam foi cenário dos massa­
cres mais hediondos e brutais que já se verificaram desde a Guerra
dos Trinta Anos; a Bélgica, invadida e vencida; nossa magnífica
fôrça expedicionária, que o Rei Leopoldo chamara em seu auxílio,
viu-se isolada e quase capturada, escapando por milagre, com a
perda de todo o seu equipamento; nossa aliada, a França, fora de
combate; a Itália, no combate, contra nós; tôda a França em poder
do inimigo, todos os seus arsenais e enormes massas de material
militar convertidos ou conversíveis em armas para o inimigo; um
govêrno de fantoches, instalado em Vichy, pode a cada momento
ser obrigado a tornar-se nosso inimigo; tôda a costa ocidental da
Europa, do Cabo Norte até a fronteira espanhola, nas mãos da Ale­
manha; todos os portos, todos os aeródromos dessa imensa frente
de batalha utilizados contra nós, como trampolins potenciais para
a invasão. Além de tudo isso, a fôrça aérea da Alemanha, numèri-
camente muito superior à nossa, foi transportada para tão perto

145
da nossa ilha que se tornou realidade o que tanto temíamos. Os
bombardeiros hostis não só chegam até nossas praias, em poucos
minutos e de muitas direções, como podem ser escoltados pelos
aviões de combate. Pois bem. Se, em princípios de maio nos tives­
sem apresentado essas perspectivas, teríamos achado incrível que,
ao cabo de tal período de horrores e desastres, ou no ponto em
que estamos de tal período de horrores e desastres, continuásse­
mos de pé, erectos, seguros de nós mesmos, senhores de nossos
destinos e inabalàvelmente convencidos da vitória final. Poucos
acreditariam que sobrevivêssemos e ninguém acreditaria que hoje
não só nos sentíssemos, como na realidade estivéssemos mais fortes
do que nunca.
Vejamos o que aconteceu do outro lado da balança. A Nação
Britânica e o Império Britânico, sentindo-se sós, ergueram-se im­
pávidos diante do desastre. Ninguém vacilou, ninguém se deixou
abater. Ao contrário. Muitos que, em outros tempos eram paci­
fistas fervorosos, hoje só pensam em guerra. O nosso povo está
unido e resoluto, como nunca estêve antes. A morte e a destruição
perderam a importância diante da vergonha da derrota ou da falta
de cumprimento do dever. Não podemos saber o que nos espera
adiante. Pode ser que sejam provações ainda maiores. Mas sabe­
remos fazer frente ao que nos espera, seja o que fôr. Estamos se­
guros de nós mesmos, seguros da nossa causa, e é essa a realidade
suprema, que emergiu dêsses meses de sofrimento.
Nesse intervalo, fortificamos não só os nossos corações, mas
também a nossa ilha. Rearmamos e reorganizamos os nossos exér­
citos com resultados que nos pareceriam inatingíveis há alguns
meses atrás. Transportamos através do Atlântico, no mês de julho,
graças aos nossos amigos do outro lado, um enorme volume de
munições de todos os tipos — canhões, carabinas, metralhadoras,
cartuchos e granadas, tudo isso desembarcado a salvo, sem a perda
de uma só bala. A produção das nossas próprias fábricas, ativas
como nunca, tem sido canalizada para as tropas. Todo o exército
britânico está em nossa ilha. Na noite de hòje, mais de 2.000.000
de homens resolutos têm nas mãos carabinas e baionetas e três
quartos dêsse número estão incorporados a corpos regulares do
exército. Nunca tivemos na nossa ilha, em tempo de guerra, fôrças
iguais às que temos hoje. De um extremo ao outro, a ilha está
tensa contra quaisquer invasores, venham do mar ou venham dos
ares. Como expliquei à Câmara em meados de junho, quanto mais

146
forte fôr o nosso exército nas Ilhas Britânicas, maior terá de ser
a expedição invasora e mais fácil será a tarefa da Marinha em
localizar a sua concentração, para interceptar-lhe a passagem e
destruí-la; e maior será ainda a dificuldade de abastecer e equipar
os invasores mesmo que consigam desembarcar sob o fogo de
contínuos ataques navais e aéreos às suas comunicações. Essa
teoria é clássica e respeitada. Como no tempo de Nelson, continua
a prevalecer a regra: “Nossa primeira linha de defesa são os portos
inimigos.” O reconhecimento aéreo e a fotografia trouxeram agora
auxílio poderoso e eficaz a êsse velho princípio.
Nossa Marinha está muito mais forte do que no princípio
da guerra. A grande campanha de construções navais iniciada no
comêço das hostilidades está começando a produzir resultados.
Esperamos que nossos amigos do outro lado do oceano possam
nos mandar a tempo reforços para preencher o abismo que vai
da frota de paz de 1939 à frota de guerra de 1941. Não será difícil
mandar êsse auxílio. Os mares e os oceanos estão abertos. Os
submarinos têm a sua ação cerceada. Até a presente data, a mina
magnética tem sido eficientemente combatida. A tonelagem mer­
cante sob a bandeira britânica, ao cabo de um ano de campanha
submarina ilimitada, ao cabo de oito meses de ataques intensivos
por meio de minas, aumentou em relação ao princípio da guerra.
Além disso, temos o controle de pelo menos 4.000.000 de tone­
ladas de navios dos países cativos, que se refugiaram aqui ou nos
portos do Império. Nossas reservas de provisões de tôdas as es­
pécies são agora mais abundantes do que em tempo de paz e temos
em andamento um vasto e cada vez mais vasto programa de pro­
dução alimentícia.
Por que digo tudo isso? Podeis estar certos de que não é com
intuitos de vangloria, nem porque ache satisfatória a nossa situa­
ção. Os perigos que enfrentamos são enormes, mas também o são
as nossas vantagens e recursos. Acentuo os elementos de que dis­
pomos, porque acho que o povo tem o direito de saber que temos
sólidos fundamentos para confiar na vitória e boas razões para
nos julgarmos capazes, como eu disse há dois meses atrás, numa
hora das mais sombrias, de “continuar a guerra, se necessário sò-
zinhos, se necessário durante anos”. Falo também porque o fato
de o Império Britânico continuar invencível como baluarte da resis­
tência ao domínio nazista, irá levar uma centelha de esperança
aos corações de milhões de homens e mulheres desesperados e

147
espezinhados, por tôda a Europa e muito além das suas fronteiras.
Dessa centelha, surgirá uma chama purificadora e devoradora.
A grande batalha aérea, travada sôbre esta ilha durante as
últimas semanas, atingiu há pouco uma grande intensidade. Ainda
é muito cedo para fixar limites à sua magnitude ou à sua duração.
Devemos naturalmente esperar que o inimigo faça esforços ainda
maiores do que os que tem feito. Continua, na França e nos Países
Baixos, o aparelhamento de aeródromos hostis e prosseguem os
movimentos de esquadrilhas aéreas equipadas para o ataque contra
nós. É evidente que Herr Hitler nunca admitiria uma derrota, na
batalha aérea contra a Grã-Bretanha, sem resistir até o limite má­
ximo das perdas que pudesse suportar. Se, depois de tanto se van­
gloriar de sua fôrça; depois das ameaças aterrorizadoras que fêz;
depois de espalhar pelo mundo os resultados que obteve, infli­
gindo danos tremendos, abatendo incontáveis aparelhos da Real
Fôrça Aérea, com perdas mínimas para a aviação alemã (diz êle);
depois das histórias, que contou, dos inglêses em pânico, vivendo
em buracos, amaldiçoando o Parlamento plutocrático que os le­
vara àquela situação desesperadora; se, depois de tudo isso, o seu
tremendo poderio aéreo fôsse forçado a retroceder humilde, talvez
ficasse sèriamente abalada a reputação do Führer, quanto à vera­
cidade de suas declarações. Podemos, portanto, ter certeza de que
êle prosseguirá, enquanto tiver fôrças para fazê-lo e enquanto não
lhe ocorrerem preocupações ligadas à Fôrça Aérea da Rússia.
Por outro lado, até agora, as condições e o curso da luta nos
têm sido favoráveis. Eu disse à Câmara, há dois meses passados,
que, na França, calculava-se uma proporção a nosso favor de dois
ou três para um, nas perdas infligidas aos aviões germânicos; que,
na luta de Dunkerque, que era uma espécie de “terra de ninguém”,
essa proporção subira a três ou quatro para um, e também que
esperávamos, num ataque a esta ilha, atingir uma proporção ainda
mais favorável. E na realidade isso aconteceu. É preciso também
não esquecer que todos os aparelhos abatidos sôbre a nossa ilha,
ou sôbre os mares que a rodeiam, são destruídos ou capturados,
aos passo que um número considerável de nossos aviões e de nossos
pilotos são salvos e, em muitos casos, dentro de pouco tempo en­
tram novamente em ação.
Um amplo e admirável sistema de aproveitamento, orientado
pelo Ministério da Produção Aérea, assegura, no prazo mais rá­

148
pido, a volta dos aparelhos danificados ao serviço ativo e o apro­
veitamento imediato e eficaz de todo o material dos destroços.
Ao mesmo tempo, o esplêndido e surpreendente surto da produção
de aviões e motores britânicos, que Lord Beaverbrook conseguiu,
com seu gênio, de organização e iniciativa, deu-nos, num verda­
deiro passe de mágica, amplas reservas de todos os tipos de aviões
e um fluxo crescente de aparelhos cada vez mais aperfeiçoados.
O inimigo, evidentemente, dispõe de aviões em número superior
aos nossos. Mas tenho conhecimento de que quanto à produção
atual, já ultrapassamos a Alemanha nazista. Além disso, a produ­
ção americana está apenas começando a entrar. É absolutamente
seguro, como eu mesmo observo nas m inhas inspeções diárias, que
a nossa fôrça de aviões de bombardeio e de combate, depois de
tôdas as lutas que temos enfrentado, é agora mais numerosa do
que nunca. Creio que seremos capazes de prosseguir na luta aérea
indefinidamente, enquanto o inimigo quiser continuá-la. E, quanto
mais tempo êle prosseguir na luta, mais nos aproximaremos pri­
meiro da igualdade e depois da superioridade aérea de que depen­
dem, em grande escala, os resultados desta guerra.
De todos os lares da nossa ilha, do nosso Império, e em ver­
dade do mundo, com exceção daqueles onde vivem os culpados,
irradia-se uma gratidão infinita para os aviadores britânicos, que,
indiferentes aos fatores adversos, infatigáveis no seu desafio cons­
tante, impávidos através de perigos mortais, vão orientando o
curso de uma guerra mundial, a golpes de dedicação e proezas
heróicas. Não há memória de um conflito humano em que tantos
devessem tanto a tão poucos. Todos os corações se voltam para
os nossos pilotos de caça, a cujos feitos brilhantes assistimos dia
a dia, com nossos próprios olhos; mas não devemos nunca esque­
cer que, ao mesmo tempo, noite após noite, mês após mês, também
as nossas esquadrilhas de bombardeio levantam vôo para longe,
penetram na Alemanha, encontram seus objetivos na escuridão,
graças a uma perícia inexcedível; concentram seus ataques em
alvos deliberadamente escolhidos e discriminados, muitas vêzes sob
fogo intenso, muitas vêzes com grandes perdas, mas infligem gol­
pes esmagadores contra a estrutura e a máquina de guerra do po­
derio nazista. Sôbre nenhum setor da Real Fôrça Aérea tem re­
caído tanto o pêso da guerra como sôbre os bombardeiros diurnos,
que representarão um papel inestimável num caso de invasão e
cujo zêlo excessivo é por vêzes necessário controlar.

149
Podemos verificar os resultados dos bombardeios a objetivos
militares da Alemanha, não só pelas informações que nos chegam
de várias fontes, como também, naturalmente, pelas fotografias
aéreas. Não hesito em dizer que o bombardeio sistemático das
indústrias militares, das comunicações da Alemanha, dos depósitos
de munições e das bases aéreas de onde somos atacados — o qual
continuará, numa escala crescente, até o fim da guerra, e talvez
atinja, dentro de um ano, proporções ainda não sonhadas — nos
garante pelo menos um dos mais seguros, senão o mais curto dos
caminhos para a vitória. Mesmo se as legiões nazistas estivessem
no Mar Cáspio, mesmo se Hitler estivesse às portas da Índia, nada
disso lhe aproveitaria, se ao mesmo tempo a estrutura econômica
e o aparelhamento científico da máquina de guerra alemã estives­
sem abalados ou pulverizados dentro do país.
As dificuldades crescentes para uma invasão em grande es­
cala a esta ilha, provêm, sobretudo, das semanas decorridas desde
que salvamos o nosso exército em Dunkerque. A nossa grande
superioridade naval nos permite cada vez mais voltar os olhos para
o Mediterrâneo e para aquêle outro inimigo que, sem a menor
provocação, fria e deliberadamente, apenas por ganância, apu­
nhalou a França agonizante pelas costas e agora investe contra nós
na África. A queda da França foi, naturalmente, prejudicial à
nossa posição no que estranhamente se costuma chamar o Oriente
Médio. Na. defesa da Somália, por exemplo, contávamos com for­
tes contingentes franceses atacando a Itália por Djibuti. Contáva­
mos também com o uso das bases navais e aéreas da França no
Mediterâneo, e principalmente na costa da África do Norte. Con­
távamos com a Esquadra francesa. Embora a França metropoli­
tana estivesse temporàriamente dominada, não havia razão para
que a Marinha francesa, uma boa parte do Exército francês, a
Força Aérea e o Império Francês de além-mar não prosseguissem
na luta ao nosso lado.
Protegida por esmagadora superioridade naval, possuidora
de bases estratégicas de valor inestimável e de amplos recursos
financeiros, a França poderia ter continuado como um dos grandes
combatentes desta luta. Assim fazendo, teria preservado a conti­
nuidade da sua vida histórica, enquanto o Império Francês, lado
a lado com a Grã-Bretanha, avançaria para salvar a independên­
cia e a integridade da Mãe Pátria. Quanto a nós, se nos tivéssemos
visto na terrível situação da França — uma contingência que feliz­

150
mente se tornou agora impossível — os nossos chefes de guerra
teriam naturalmente o dever de lutar aqui até o fim, mas seria tam­
bém seu dever, como acentuei no meu discurso de 4 de junho,
tomar tôdas as medidas possíveis para a segurança naval do Canadá
e de todos os Domínios, a fim de lhes dar meios de continuarem a
luta do outro lado dos mares. A maioria dos outros países ven­
cidos até agora pela Alemanha resistiram brava e lealmente. Os
tchecos, os poloneses, os noruegueses, os holandeses, os belgas
ainda estão no campo de batalha, armas na mão, reconhecidos
pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos como as únicas autori­
dades representativas e os únicos governos legais de seus respecti­
vos países.
O grande crime, não da França, não de uma grande e no­
bre Nação, mas dos chamados “homens de Vichy”, foi permitir
que só a França se deixasse prostar sem resistir até o fim. Temos
enorme simpatia pelo povo francês. A nossa antiga camaradagem
com a França não morreu e continua concretizada na solidarie­
dade do General De Gaulle e de seus bravos partidários. Êsses
franceses livres foram condenados à morte pelo govêrno de Vichy,
mas há de chegar o dia, tão seguramente como o sol há de surgir1
amanhã, em que os seus nomes serão glorificados e gravados em
pedra, nas ruas e nas aldeias de uma França restaurada, numa
Europa que tenha reconquistado a sua liberdade e o seu antigo
prestígio. Mas essa confiança que tenho no futuro não resolve os
problemas imediatos que se apresentam no Mediterrâneo e na
África. Ficara decidido, algum tempo antes do início da guerra,
que não se defenderia o Protetorado da Somália. Essa política foi
alterada nos primeiros meses de luta. Quando os franceses cede­
ram e as fôrças reduzidas que tínhamos aü — uns poucos desta­
camentos e umas poucas metralhadoras — sofreram o ataque pe­
sado das tropas italianas, compostas de quase duas divisões, que
antes faziam frente aos franceses em Djibuti, nada podia haver
de mais justo do que retirarmos as nossas fôrças, pràticamente
intactas, para a luta em outros setores. Evidentemente, haverá ne­
cessidade de operações de muito maior envergadura no Oriente
Médio, mas não tenho a intenção de fazer comentários ou anteci­
pações sôbre o seu curso. Dispomos de grandes exércitos e de
inúmeros meios de reforçá-los. Temos o domínio completo do Me­
diterrâneo Oriental. Pretendemos fazer o possível e o impossível
para agir à altura do que se espera de nós e para cumprir fiel e

151
resolutamente tôdas as obrigações e deveres que nos competem
naquela zona. A Câmara certamente não espera outras declara­
ções, no presente momento.
Muita gente me tem escrito, pedindo-me para falar mais
explicitamente nos objetivos que temos em vista, quando termi­
nar a guerra, e nas condições da paz que pretendemos impor.
Essas pessoas não julgam bastante explícitas as declarações que
fiz no princípio do outono e pedem maiores esclarecimentos. De­
pois daquela ocasião, fizemos causa comum com a Noruega, a
Holanda e a Bélgica. Reconhecemos o govêrno tcheco dirigido pelo
Dr. Benes e afirmamos ao General De Gaulle que a nossa vitória
importaria na restauração da França. Acho que não seria sensato,
num momento em que rugem as batalhas, em que a guerra está
talvez ainda na sua primeira fase, estarmos em antecipações mi­
nuciosas sôbre a Europa do futuro e as novas garantias que de­
verão ser adotadas para poupar à humanidade os horrores de uma
terceira guerra mundial. O assunto não é nôvo, tem sido inúmeras
vêzes abordado e explorado e não faltam idéias, adotadas em
comum por muitos homens honestos e livres. Mas, antes de em­
preendermos uma tarefa de reconstrução, precisamos ter a certe­
za e transmitir a todos os outros países a certeza de que a tirania
nazista será destruída. O direito de orientar o curso da história da
humanidade é o prêmio mais nobre da vitória. Estamos lutando
morro acima; não atingimos ainda os cumes; não estamos em
condições de lançar um olhar penetrante à paisagem, nem mesmo
de imaginar como será ela, quando raiar o dia tão ansiosamente
esperado. A tarefa imediata, que temos diante de nós é a um tempo
mais prática, mais simples e mais penosa. Espero — na realidade
rogo a Deus — que não nos mostremos indignos da nossa vitória,
se, depois de labores e tribulações sem conta, ela nos fôr assegu­
rada. E é êsse o nosso primeiro objetivo — vitória.
Há, entretanto, uma direção em que o futuro se apresenta
mais claro. Somos obrigados a pensar não só em nós mesmos, mas
na segurança duradoura das causas e dos princípios pelos quais
nos batemos. Há poucos meses, chegamos à conclusão de que os
interêsses dos Estados Unidos e do Império Britânico exigiam
que os Estados Unidos dispusèssem de facilidades para a defesa
naval e aérea do hemisfério ocidental, no caso de um ataque dos
nazistas, depois que êstes tivessem adquirido um controle tempo­
rário, mas extenso, de grande parte da Europa ocidental e seus

152
formidáveis recursos. Havíamos, pois, decidido espontâneamente,
sem pedir, e sem que nos oferecessem qualquer vantagem, infor­
mar ao governo dos Estados Unidos que teríamos satisfação em
facilitar-lhe essa defesa, por meio do arrendamento de certos pon­
tos das nossas possessões transatlânticas, que lhe garantissem maior
segurança contra os incomensuráveis perigos do futuro. O princí­
pio da associação de interêsses e propósitos comuns entre a Grã-
Bretanha e os Estados Unidos já se vinha firmando mesmo antes
do início da guerra. Tinham sido assinados vários acordos com
referência a certas pequenas ilhas do Oceano Pacífico, que adqui­
riam importância como bases de reabastecimento aéreo. E, nesse
ponto, sempre mantivemos a maior harmonia de vistas com o go-
vêrno do Canadá.
Soubemos depois que reinava também ansiedade, nos Esta­
dos Unidos, em tômo da defesa aérea e naval dos interêsses ame­
ricanos no Atlântico. O Presidente Roosevelt deixou mesmo bem
claro, num discurso recente, que apreciaria um entendimento co­
nosco, com o Domínio do Canadá e com a Terra Nova, a fim de
obter, na Terra Nova e nas Índias Ocidentais, maiores facilidades
para a Marinha e a Aviação dos Estados Unidos. Não se cogita,
evidentemente, de qualquer transferência de soberania, nem de
qualquer atitude a ser tomada sem o consentimento prévio e con­
cordância plena das várias Colônias interessadas. Entretanto, o
govêrno de Sua Majestade está pronto a conceder facilidades de­
fensivas aos Estados Unidos, na base de um arrendamento de 99
anos, e temos a firme convicção de que isso virá servir tanto aos
nossos interêsses como aos Estados Unidos e igualmente às pró­
prias Colônias, bem como ao Canadá e à Terra Nova. Trata-se
de uma medida de grande alcance. O curso dos acontecimentos
está demonstrando que êsse dois grandes organismos das democra­
cias em que se fala a língua inglêsa — o Império Britânico e os
Estados Unidos — terão muitos dos seus interêsses estreitamente
ligados no futuro, com vantagens recíprocas e gerais. Da minha
parte, olhando para a frente, não sinto a menor apreensão diante
dêsse curso que tomam os acontecimentos. É um curso natural,
que eu mesmo não poderia desviar, que ninguém poderia desviar.
Como o do Mississípi, está traçado de antemão e prossegue inal­
terável. Deixemo-lo prosseguir. Deixemos que as águas se avo­
lumem, inexoráveis, irresistíveis, benéficas, na direção de terras
mais amplas e dias melhores.

153
A SITUAÇÃO DA GUERRA

D is c u r s o p r o n u n c i a d o n a C â m a r a d o s C o m u n s ,
5 de setem br o de 1940

Agôsto, 29. A África Equatorial Francesa e os Camarões


Franceses declaram-se solidários com o General
De Gaulle.
Agôsto, 31. Sob a pressão da Alemanha e da Itália, a Ro­
mênia cede à Hungria quase dois terços da Tran-
silvânia.
Setembro, 2. É repelido um ataque levado a efeito por 650
aviões inimigos.
Setembro, 3. Os Estados Unidos transferem cinqüenta dos
seus destróieres mais antigos para a Real Mari­
nha de Guerra. A Grã-Bretanha concorda em
arrendar aos Estados Unidos, pelo prazo de 99
anos e sem quaisquer ônus, bases navais e aéreas
no Atlântico Norte e no Atlântico Sul.

_^L s memoráveis transações entre a Grã-Bretanha e os Es­


tados Unidos, que se achavam esboçadas quando pela última vez
me dirigi à Câmara, foram agora concluídas. E, ao que eu saiba,
foram concluídas com satisfação geral dos povos britânico e ame­

155
ricano e vieram trazer nova coragem aos nossos amigos espalha­
dos pelo mundo. Seria um êrro procurar ver, nas entrelinhas dos
documentos trocados oficialmente, mais do que nêles está escrito.
As trocas realizadas são apenas medidas de auxílio recíproco,
tomadas por duas nações amigas, num espírito de confiança, cor­
dialidade e boa vontade. Essas providências estão reunidas num
acôrdo formal. Devem ser aceitas exatamente nos têrmos em que
estão expressas. Só os ignorantes podem julgar que a transferên­
cia de destróieres americanos para a bandeira da Grã-Bretanha
constitui a menor violação da lei internacional ou afeta, de qual­
quer forma, a não-beligerância dos Estados Unidos.
Tenho a certeza de que Herr Hitler não terá gostado dessa
transferência e que, se algum dia tiver oportunidade, procurará
vingar-se dos Estados Unidos. Justamente por êsse motivo agrada-
me ver que as fronteiras militares, aéreas e navais dos Estados
Unidos se ampliaram pelo Oceano Atlântico, habilitando os ame­
ricanos a sufocar qualquer perigo, enquanto esteja ainda a cente­
nas de milhas da sua pátria.
O Almirantado também exprimiu a satisfação que lhe causou
a transferência dêsses 50 destróieres, pois chegam num momento
extremamente oportuno, para suprir as deficiências que, confor­
me já expliquei à Câmara, são inevitáveis, enquanto não se com­
pleta o nosso programa de guerra de construção naval intensiva.
A Câmara deve compreender que, no ano vindouro, estare­
mos muito mais forte no mar, conquanto isso não signifique que
não estejamos em condições de atender, desde já, aos problemas
navais imediatos. Não haverá delongas na incorporação dos des­
tróieres americanos ao serviço ativo. Na realidade, já foram ao
encontro dêles tripulações britânicas que os receberão nos vários
portos onde estão sendo entregues. Podereis atribuir tudo ao longo
alcance da coincidência. E não creio que haja, por enquanto,
outros comentários a fazer sôbre essas negociações. O momento
não é oportuno para retórica. Entretanto, talvez eu possa, muito
respeitosamente, oferecer um conselho à Câmara: quando as
coisas chegam ao ponto que desejamos é sempre conveniente dei­
xá-las como estão.
Mudando de assunto, imagino que a Câmara deve ter obser­
vado que a Romênia sofreu tremendas mutilações territoriais. Pes­
soalmente, sempre achei que a parte meridional de Dobrudja de­
veria ser restituída à Bulgária e nunca me satisfizeram as condições

156
impostas à Hungria, depois da guerra de 1914. Na guerra atual,
não nos fechamos no ponto de vista de que não poderia haver al­
terações territoriais na estrutura dos vários países. Mas, por outro
lado, não temos a menor intenção de reconhecer alterações terri­
toriais ocorridas durante a guerra, a menos que se realizem com o
livre consentimento e por vontade das partes interessadas. Ninguém
pode dizer até onde se estenderá o império de Herr Hitler, antes do
fim da guerra, mas não tenho a menor dúvida de que o seu domí­
nio ruirá, mais ràpidamente ainda do que o de Napoleão, sem
nunca haver atingido o seu brilho e a sua glória.
Prossegue a grande batalha aérea a que me referi na nossa
última sessão. Em julho, houve grandes atividades aéreas, mas
agôsto foi realmente um mês de luta. Nenhum dos combatentes
empregou tôda a sua fôrça, mas os alemães realizaram enorme
esforço para atingir a supremacia e não pode haver dúvida que
empregaram uma proporção muito maior da totalidade de sua
fôrça aérea do que a que tivemos necessidade de empregar para
enfrentá-los. A tentativa de subjugar a Real Fôrça Aérea e as nos­
sas defesas antiaéreas, por meio de ataques diurnos, custou-lhes
muito caro. A proporção geral de três para um em aparelhos e de
seis para um em pilotos e tripulantes, da qual estamos seguros,
não representa absolutamente as perdas totais infligidas ao ini­
migo. Mas devemos preparar-nos para lutas ainda mais renhidas
neste mês de setembro. O inimigo tem grande urgência em chegar
ao resultado final e, se dispõe de aviões na quantidade que ima­
ginamos, deve estar em condições de multiplicar seus ataques em
setembro.
Continua inflexível a confiança de todos os oficiais respon­
sáveis pela Real Fôrça Aérea, que, sem exceção, acreditam na
nossa capacidade de resistir a êsses ataques em escala crescente.
Estamos certos de que a nação inteira, seguindo o exemplo dos
nossos aviadores, sentirá orgulho em partilhar dos perigos que êles
correm e suportará o que fôr preciso suportar, com ânimo forte
e decidido. Chegou a vez dos homens e das mulheres que tra­
balham nas fábricas mostrarem a sua fibra e chegou a vez de
todos nós nos mostrarmos dignos dêsses meninos que defendem os
ares, a fim de evitarmos que a menor vacilação possa tornar mais
penosa e mais prolongada a sua tarefa. Bem sei que é esta a têm­
pera da nação e que, mesmo dobrados ou triplicados os ataques
— hipótese aliás muito improvável — durem o tempo que dura­

157
rem, julgamo-nos capazes de suportá-los e dêles emergir relativa­
mente mais fortes ainda.
A nossa Fôrça Aérea é hoje mais numerosa e dispõe de me­
lhor equipamento do que no início da guerra, ou mesmo do que
em julho, e julgamos estar muito mais próximos do total numé­
rico da aviação alemã, como o calculamos, do que esperávamos
estar no período de tempo decorrido. Mandei somar as perdas que
Hitler nos tem atribuído. Sentia curiosidade de saber a quanto mon­
tavam. Verifiquei que atingem o total surpreendente de 1.921 apa­
relhos britânicos destruídos. Êsse total se assemelha às estatísticas
sôbre as perdas da nossa Esquadra, muitos de cujos navios foram
afundados várias vêzes. O número verdadeiro das perdas aéreas
britânicas, que temos publicado diàriamente nestes últimos dois
meses, é de 558. Felizmente o número de pilotos sacrificados é
muito inferior. Não sei se Herr Hitler acredita na verdade das es­
tatísticas que êle mesmo publica. Espero que sim. É sempre motivo
de satisfação ver um inimigo afundado em erros e ilusões. Como
têm sido diferentes do que imaginávamos antes da guerra os re­
sultados dêsses ataques aéreos, que agora começam. Durante um
ano inteiro, mantivemos 150.000 leitos preparados e felizmente
vazios, em nossos hospitais de guerra. Quando o povo britânico
se resolve a entrar numa guerra, espera sempre conseqüências ter­
ríveis. E foi por isso que durante tanto tempo procuramos pre­
servar a paz. No que diz respeito aos ataques aéreos, até a presente
data êles nos têm parecido muito menos temerosos do que esperá­
vamos que fôssem e estávamos, como estamos, preparados a sofrer.
Durante o mês de agôsto, foram mortos por bombardeios, na Grã-
-Bretanha, 1.075 civis e houve feridos graves em número ligeira­
mente maior. Hipotecamos tôda a nossa simpatia aos feridos e
aos que perderam entes caros, mas ninguém pode pretender que,
numa população de 45.000.000 de habitantes, essas perdas, mes­
mo multiplicadas, como podem ser, por dois ou três, tenham al­
guma importância diante dos grandiosos destinos da humanidade,
que estão em jôgo. Não computando danos de pouca monta e fà-
cilmente reparáveis, as casas realmente destruídas, ou avariadas
irreparàvelmente, foram em número de oitocentas. Não me refiro
às construções que podem ser restauradas com facilidades. Digo
que oitocentas casas foram de fato destruídas — oitocentas, de
um total de 13.000.000 de casas que existem em nossa ilha.

158
Foram bem diferentes os cálculos de prejuízos fornecidos à
Comissão de Guerra, que estudou o assunto e decidiu contra a
possibilidade de um plano de seguros cobrindo os danos causados
pelos bombardeios à propriedade particular. N a minha opinião,
valeria a pena reconsiderar a possibilidade de um plano dessa na­
tureza, principalmente nos casos em que o prejudicado fôsse o pe­
queno proprietário, procedendo-se ao estudo do assunto à luz de
fatos já conhecidos e de possibilidades que estamos agora em
condições de avaliar muito melhor do que antes da guerra. Pedi,
portanto, ao nobre chanceler do Tesouro que indicasse a melhor
maneira de proceder a êsse nôvo estudo, em face dos aconteci­
mentos atuais. Nas min