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576 dossier: saúde mental infantil

As perturbações emocionais –
ansiedade e depressão na
criança e no adolescente
Margarida Crujo,* Cristina Marques**

RESUMO
A Perturbação da Ansiedade e a Perturbação Depressiva constituem entidades clínicas de elevada prevalência na infância e na
adolescência, e podem ser precursoras de psicopatologia na idade adulta. Por ambos os motivos, o seu diagnóstico precoce e
intervenção atempada tornam-se essenciais, assim como a detecção de eventuais factores de risco que as possam promover.
Os Cuidados de Saúde Primários assumem, neste contexto, uma função primordial na triagem de casos, assim como na inter-
venção e eventual referenciação para os serviços de Pedopsiquiatria.
Neste artigo, abordamos, abreviadamente, aspectos referentes aos factores de risco, prevalência, diagnóstico, intervenção
clínica e prognóstico para as Perturbações da Ansiedade e Depressiva.

Palavras-chave: Ansiedade, depressão, criança, adolescente.

Perturbação da Ansiedade (PA) e a Perturba- mo papel protector, ainda que esta surja na ausência de

A ção Depressiva (PD) são entidades comuns


na criança e no adolescente. A primeira apre-
senta uma prevalência estimada entre os 4 e
os 20%,1 enquanto que a outra entre 1 e 2% em idade
pré-pubertária, e 3 a 8% se nos referirmos à adolescên-
um estímulo ameaçador e se coloque no campo da an-
tecipação. No entanto, quando ambas deixam de ser
adaptativas, podemos ter que passar a falar em sinto-
mas e/ ou perturbações da ansiedade.
Se brevemente atravessarmos as faixas etárias que
cia.1 este artigo abrange, podemos assumir que é normal os
Vamos, então, deter-nos em cada uma das perturba- bebés reagirem com medo perante o escuro ou sons
ções individualmente – primeiro a da ansiedade, pos- que desconhecem e, também, a partir de determinada
teriormente a depressiva – e tentar realçar os aspectos altura – aproximadamente aos 6 meses, sem que seja
que nos parecem mais importantes no contexto dos possível sermos exactos –, a rostos não familiares ou ao
Cuidados de Saúde Primários. afastamento da(s) figura(s) de referência. É normal que
crianças em idade pré-escolar apresentem receios re-
PERTURBAÇÕES DA ANSIEDADE lativos a animais, a criaturas imaginárias, como mons-
Aspectos Gerais tros e fantasmas, à rejeição, a trovoadas e ruídos, tam-
Em psicopatologia, tal como em Medicina, no geral, é bém ao escuro.2,3 Assim como é normal que crianças, já
determinante a distinção entre o normal e o patológi- em idade escolar, refiram grandes preocupações com
co. Quer o medo, quer a ansiedade, podem constituir, as amizades e com a saúde física, também os adoles-
antes de mais, reacções normais a situações adversas centes se podem centralizar em temas mais abstractos,
ou de perigo: se o medo permite ao indivíduo afastar- como a morte, a religião, questões sociais e também
-se de um risco objectivo, a ansiedade assume o mes- sexuais.3
*Interna de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital de Dona Apesar disto, a distinção entre o ser normal e o ser
Estefânia – Centro Hospitalar de Lisboa Central. patológico tem que ocorrer na prática clínica.
**Psiquiatra da Infância e da Adolescência do Hospital de Dona Estefânia –
Centro Hospitalar de Lisboa Central. Assessora da Coordenação Nacional para a
Os comportamentos da criança/adolescente devem
Saúde Mental. ser avaliados a fim de detectarmos se os sintomas in-

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vadem a sua rotina, o que se pode manifestar por pa- períodos de transição na escola, como na passagem da
drões mais desajustados, como o evitamento perante pré-primária para o Primeiro Ciclo, e entre ciclos, a pre-
actividades adequadas ao sexo e à idade. Há também valência da ansiedade também aumenta.4
que efectuar uma pesquisa de sintomatologia somáti-
ca; são exemplos as palpitações, as cefaleias, os vómi- Classificação e Comorbilidades
tos, a hipersudorese. A duração dos sintomas deve ser As PA podem ser classificadas em: Perturbação de An-
determinada, bem como o enquadramento dos mes- siedade de Separação, Perturbação de Ansiedade So-
mos no desenvolvimento psicossocial da criança e do cial/Fobia Social, Fobias Específicas, Perturbação de
adolescente. Ansiedade Generalizada e Perturbação de Pânico, com
Os medos/receios ditos normais das diversas faixas ou sem Agorafobia. Passaremos a resumir cada uma
etárias são transitórios e pouco intensos, e não têm re- delas.
percussões, nem no desenvolvimento, nem na rotina da A ansiedade perante a separação do cuidador ocor-
criança ou do adolescente. re normalmente em crianças entre os seis meses e os
três anos, diminuindo a partir desta idade. No entanto,
FACTORES DE RISCO E PREVALÊNCIA assume contornos patológicos quando surge numa ida-
As PA são o segundo grupo mais comum de perturba- de não usual – especialmente a partir dos seis anos –1
ções psiquiátricas em idade pediátrica, imediatamente ou quando as manifestações de ansiedade são demasi-
a seguir às perturbações do comportamento, e com ado intensas perante ou na antecipação da separação.
uma prevalência superior às perturbações depressivas São manifestações uma preocupação excessiva acerca
ou às perturbações de hiperactividade e défice de aten- da eventualidade de perda da figura de referência, quei-
ção.2 xas somáticas repetidas, recusa em estar sozinho ou em
Do ponto de vista da etiologia, parecem estar impli- ir dormir, ocorrência de pesadelos. Pode constituir um
cados factores constitucionais (genéticos, do tempera- factor de risco para perturbação de pânico ou agorafo-
mento) e sócio-familiares, nomeadamente padrões de- bia na idade adulta.1
sadequados de funcionamento familiar. São de desta- A Fobia Social consiste na sensação de medo persis-
car alguns dados referidos na literatura: tente perante a exposição a situações sociais ou de ava-
• existe uma maior probabilidade de surgirem PA em liação, tais como o falar em público ou comunicar com
filhos de pais que apresentem PA;2 estranhos. Quem apresenta a perturbação tende a evi-
• crianças de temperamento inibido e tímido parecem tar as situações que o angustiam, ou vive-as com uma
estar em maior risco de posteriormente virem a de- ansiedade imensa, que se pode manifestar por um au-
senvolver PA;2,3 mento da frequência cardíaca, tonturas, rubor, altera-
• acontecimentos de vida adversos podem condicio- ções do trânsito gastrointestinal. O temperamento ini-
nar o aparecimento de psicopatologia e possuem um bido em crianças pode ser preditor desta patologia.1
carácter cumulativo; Existem outras fobias, que se traduzem por um medo
• em termos de funcionamento familiar, a transmissão intenso de objectos ou situações específicas: de andar
da patologia pode processar-se por aprendizagem e de avião, de animais, das alturas, de ver sangue.
modelagem,2 ou por incapacidade dos cuidadores A Perturbação de Ansiedade Generalizada ocorre
em reduzirem reacções de medo.3 mais frequentemente na adolescência, e manifesta-se
Neste último ponto, especificamente, os Cuidados por preocupações excessivas, incontroláveis e múlti-
Primários podem ter uma função primordial no trata- plas. Estas preocupações habitualmente centram-se
mento e/ou referenciação dos pais. em temas relacionados com competência, aconteci-
A maior prevalência de PA ocorre no género femini- mentos futuros e desconhecidos, aprovação,1 catástro-
no1,3 e, habitualmente, em idade pré-pubertária.1 Não fes, pontualidade. São comuns sintomas como irritabi-
são consensuais os valores desta preponderância, tal- lidade, fadiga, dificuldades de concentração e queixas
vez porque o estudo das PA ainda é recente, se compa- somáticas. Pais muito exigentes ou, pelo contrário, de-
rado com o de outras perturbações psiquiátricas.1 Em masiado flexíveis ou permissivos constituem um factor

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de risco para este tipo de perturbação. risco de habituação e aos seus eventuais efeitos para-
A Perturbação de Pânico, por sua vez, caracteriza- doxais –, estas podem ser ponderadas, de forma tran-
-se por crises inesperadas de ansiedade, acompanha- sitória, em situações agudas pontuais. Os antidepres-
das por sintomas somáticos e outros cognitivos, tais sivos podem constituir uma alternativa, assim como
como medo de morrer, de enlouquecer, de perder o antipsicóticos em doses baixas. São utilizados, na prá-
controlo. O pico da prevalência ocorre entre os 15 e os tica clínica, em situações de alguma gravidade e quan-
19 anos de idade. A Agorafobia é diagnosticada se o in- do existem situações de comorbilidade, embora a sua
divíduo evita locais dos quais sinta que não possa sair ponderação deva ser feita pelo especialista.
facilmente.
Podemos ainda falar um pouco sobre outro diagnós- Prognóstico
tico que está relacionado com questões de ansiedade, Em relação à evolução a longo termo, as PA apresentam,
nomeadamente a ansiedade de separação ou ansieda- geralmente, um prognóstico relativamente bom.3,7 Ain-
de de desempenho: a Recusa Escolar. Surge mais fre- da assim, estudos prospectivos apontam para uma con-
quentemente nos períodos de transição escolar, e tra- tinuidade entre uma percentagem minoritária de PA
duz-se por uma angústia intensa, receio de ficar só, na idade pediátrica – especialmente a Perturbação de
comportamentos de dependência, alterações do sono, Ansiedade Generalizada –1 e PA ou PD na vida adulta.2,7
medos e queixas somáticas. As crianças que recusam ir
à escola manifestam um desejo imperioso de perma- PERTURBAÇÕES DEPRESSIVAS
necer em casa, mantêm o interesse pelos estudos5 e Aspectos Gerais
têm habitualmente boa capacidade de aprendizagem A depressão infantil foi reconhecida tardiamente, e ape-
e de desempenho escolar.4 nas a partir dos Anos 60 do século passado a perturba-
As PA estão frequentemente associadas a situações ção foi incluída num sistema de classificação, criado
comórbidas – 50% dos casos, sendo o mais comum a co- pelo Group for the Advancement of Psychiatry (1966).
ocorrência de outra perturbação da ansiedade e, ime- Esta classificação enfatizou o facto de a depressão nes-
diatamente a seguir, de perturbações depressivas.1 A ta faixa etária apresentar diferenças relativamente aos
questão das comorbilidades torna-se muito relevante, quadros depressivos dos adultos. Até então, acreditava-
principalmente se atendermos ao facto de provocarem -se que os pré-adolescentes eram incapazes de expe-
um impacto ainda maior na vida da criança ou do ado- rienciar depressões, e os quadros depressivos que sur-
lescente. giam nos adolescentes eram desvalorizados e justifica-
dos como uma crise própria da idade.8 Talvez para tal
Intervenção Terapêutica tenha contribuído o facto de as crianças terem mais di-
Os pais devem ser aconselhados a tranquilizar a crian- ficuldade em expressar plenamente os seus afectos.
ça, mantendo uma atitude firme e segura; a crian- Hoje em dia sabemos, pois, que tal não sucede desta
ça/adolescente deve ser incentivada a enfrentar o pro- maneira e que, existindo queixas verbalizadas ou ape-
blema e a procurar uma solução para o mesmo; não se nas comportamentos observados, a depressão pode
deve favorecer o evitamento excessivo das situações existir em todas as faixas etárias.
que causam ansiedade, sem que, no entanto, a crian-
ça/adolescente seja forçada para além da sua capaci- Factores de Risco
dade de adaptação.6 O tratamento de PA ou PD nos pais Existem factores de risco individuais, familiares e so-
é algo também a ter em consideração. ciais ou do meio.
Para além das medidas de intervenção mencionadas, Nos factores individuais, destacamos os aspectos
a criança/adolescente tem indicação para um segui- genéticos, o temperamento, a capacidade de regulação
mento psicoterapêutico. O tratamento farmacológico, emocional, o estilo cognitivo, a personalidade. Por
por seu turno, pode ser um coadjuvante da abordagem exemplo, crianças/adolescentes com dificuldades de
anterior. Ainda que a literatura seja pouco consensual adaptação a mudanças têm maior tendência para a
relativamente ao uso de benzodiazepinas – devido ao depressão; crianças/adolescentes deprimidos tendem

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a atribuir a ocorrência de acontecimentos negativos a nico (como os maus-tratos ou a exposição a conflitos


características do próprio.9 familiares permanentes), ou agudo, como luto e outras
Pela sua relevância, gostaríamos de salientar os fac- situações de perda. Há, no entanto, uma grande varia-
tores familiares. bilidade nas respostas de cada criança face a estes úl-
Nas famílias de crianças e adolescentes com depres- timos e, de entre todos estes factores, as experiências
são são frequentemente encontrados padrões interac- de adversidade crónica parecem ser as de maior relevo
tivos nos quais predominam atitudes de rejeição e hos- no desenvolvimento futuro de psicopatologia.
tilidade, ou de intrusividade e sobre-envolvimento. As
falhas no suporte afectivo e na coesão familiar estão ha- Apresentação Clínica e Prevalência
bitualmente presentes, impregnando um modelo de A noção de depressão é clínica e, neste âmbito, o ter-
funcionamento frequentemente conflitual entre os vá- mo depressão refere-se a uma doença caracterizada
rios elementos do sistema familiar. pela presença de uma alteração do humor persistente
Os padrões de sobre-envolvimento são os mais difí- e suficientemente grave para ser considerada «pertur-
ceis de detectar, já que se encontram, não raras vezes, bação».
«camuflados» por atitudes de aparente preocupa- Frequentemente, o humor depressivo está inserido
ção/hiperprotecção. Nestes casos as relações costu- numa constelação de outros sintomas. Constituem
mam girar em torno de atitudes desnarcisantes (de re- exemplos a anedonia (incapacidade de sentir prazer),
jeição e hostilidade) e de uma exigência extrema da a culpa inapropriada, a baixa da auto-estima e a deses-
mãe ou do pai, nem sempre evidentes aos olhos dos ou- perança, o cansaço ou a perda de energia, a diminui-
tros e do próprio filho. ção da concentração ou da capacidade de pensar, a agi-
A meta imposta é inatingível, o filho, apesar de todos tação ou a lentificação psicomotora, as alterações do
os seus esforços, acaba por soçobrar. Nestas famílias é sono e do apetite, os pensamentos mórbidos ou suici-
difícil para a criança definir a sua identidade; mais fácil dários.10
será submeter-se, anular-se, adaptar-se e, face ao esgo- Esta constelação de sintomas enunciada, ainda as-
tamento dos mecanismos de adaptação, deprimir-se. sim, pode não constituir, nem um episódio depressivo,
A patologia depressiva dos pais é outro factor de ris- nem uma perturbação depressiva, sendo determinan-
co importante. De facto, diversos mecanismos têm vin- te uma vigilância estreita da criança ou do adolescen-
do a ser propostos como modelos explicativos para o te que a apresente. O que determinará a gravidade da
desenvolvimento de perturbações afectivas nos filhos situação clínica e, consequentemente a decisão de es-
de pais deprimidos. tarmos perante um sintoma depressivo, um conjunto
Embora os factores genéticos aumentem o risco de de sintomas depressivos – ou síndrome –, ou uma per-
depressão, é a interacção entre factores genéticos e do turbação depressiva, serão factores como a persistên-
meio envolvente que se revela crítica para o apareci- cia da sintomatologia, o mal-estar clinicamente signi-
mento de formas mais graves de depressão na criança ficativo, o impacto na rotina da criança ou do adoles-
e no adolescente.9 São, em particular, os padrões rela- cente, qualquer que seja a área de funcionamento. Esta
cionais que se estabelecem nestas famílias que me- apreciação terá, pois, implicações na definição da es-
deiam o impacto que a doença depressiva dos pais tem tratégia clínica.
na criança. O quadro clínico da depressão pode assumir carac-
Nos pais com patologia depressiva podem predomi- terísticas mais específicas de acordo com a faixa etária.
nar os estilos interactivos atrás referidos, quer no sen- Embora os quadros depressivos de adolescentes e
tido da falha no suporte relacional, quer no sentido da adultos apresentem muitas semelhanças, o mesmo não
intrusividade, da exigência narcísica. acontece com crianças mais novas, tornando-se as di-
Finalmente, nos factores sociais, destacamos as mu- ferenças ainda mais marcadas na idade pré-escolar. Es-
danças escolares, a percepção dos outros como críticos tas diferenças reflectem, provavelmente, as dificulda-
ou rejeitantes,9 as dificuldades na socialização. des que as crianças mais novas apresentam, devido às
Os factores de risco podem assumir um carácter cró- suas competências cognitivas e de linguagem, em dis-

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tinguir e verbalizar emoções e cognições negativas, não for evidente, tem obrigatoriamente que se realizar;
como a desesperança, a desvalorização ou a culpabili- as tentativas de suicídio, neste grupo etário, podem as-
dade.11 sumir contornos de grande letalidade.
Os bebés podem apresentar apatia, grande irritabi- Se até à adolescência, a prevalência de PD é idênti-
lidade, insónia, choro intenso e aparentemente não ca nos dois géneros, a partir desta faixa etária o género
motivado, recusa em comer. feminino apresenta uma prevalência duas a três vezes
Na idade pré-escolar, sintomas de distimia estão, superior ao masculino. Factores hormonais podem
com frequência, clara e indiscutivelmente presentes, contribuir para esta diferença.3,12
como humor irritável, alterações do sono e do apetite.
Para além destes, surgem também comportamentos de Classificação e Comorbilidades
franca oposição, com baixa tolerância a situações de As Perturbações Depressivas podem ser encaradas
frustração, bem como dificuldades ao nível da autono- como pertencendo a um continuum, que vai desde as
mia e da separação do adulto do qual dependem. Perturbações de Adaptação, às Perturbações Depressi-
Já na idade escolar e na pré-adolescência, pode sur- vas Major, passando pelas Distimias.
gir a verbalização de sentimentos depressivos (culpa, Sucintamente e de uma forma simples, nas Pertur-
desesperança, negativismo), embora a irritabilidade bações de Adaptação existe um factor de stress identi-
seja mais frequente que o humor depressivo. Podem ficado, e os sintomas depressivos surgem até três mes-
também ocorrer o isolamento social, dificuldades esco- es após o contacto com esse factor, deixando de existir,
lares com diminuição da concentração e sintomas so- posteriormente, em seis meses ou menos.
máticos, como as cefaleias e as epigastralgias. Nas Distimias, por sua vez, a sintomatologia é mais
Não raramente, o quadro clínico pode assumir carac- ligeira, se comparada com a das perturbações major,
terísticas de uma perturbação do comportamento – in- embora crónica; portanto, o humor depressivo ou irri-
capacidade de lidar com a frustração, agressividade, tável (principalmente nas crianças) ocorre durante a
impulsividade. No entanto, nestes casos, a presença de maior parte do dia, e durante quase todos os dias por
uma alteração do humor (depressivo ou irritável) per- um período de pelo menos um ano. Outros dois sinto-
mite fazer o diagnóstico diferencial com as perturba- mas, no mínimo, devem estar presentes, de entre: alte-
ções do comportamento propriamente ditas. É de sa- rações do apetite e do sono, cansaço ou perda de ener-
lientar que o humor depressivo não é frequentemente gia, dificuldade na concentração ou no poder de deci-
percepcionado pelos pais, sendo até negado quando os são, baixa auto-estima, e sentimentos de desesperança.
questionamos sobre este aspecto; em muitas situações, O Episódio Depressivo Major contempla, obrigato-
é a entrevista com a criança (e o que esta nos faz sen- riamente, o humor depressivo ou irritável – também
tir) que nos leva a colocar este diagnóstico. Este facto presente durante a maior parte do dia e quase todos os
vem reforçar a absoluta necessidade de não só obser- dias durante pelo menos duas semanas –, ou a perda
varmos individualmente a criança, como de estarmos de interesse ou prazer (anedonia) em actividades pre-
atentos ao nosso estado emocional, para uma correcta viamente investidas com satisfação. Para além destes,
avaliação clínica. pelo menos cinco dos seguintes devem existir: altera-
Durante a adolescência, por seu turno, podem sur- ções do peso e do sono, agitação ou lentificação psico-
gir preocupações com o próprio corpo, nomeadamen- motora, cansaço ou perda de energia, diminuição na
te com os caracteres sexuais secundários, o acne, o capacidade de pensar ou de se concentrar, sentimen-
peso. Por comparação com a sintomatologia da idade tos de desvalorização ou de culpa inapropriada, e idea-
escolar, as alterações do sono e do apetite podem tor- ções de morte ou suicida. Chamamos Perturbação De-
nar-se mais preponderantes, assim como os sentimen- pressiva Major quando, ao longo da evolução clínica de
tos de desesperança, a anedonia e a ideação suicida. A um indivíduo, ocorre pelo menos um episódio depres-
prevalência das queixas somáticas e de ansiedade, por sivo major.13
seu turno, diminui.3 Principalmente na adolescência, a As Perturbações Bipolares, ainda que, tal como as
avaliação do risco de suicídio, mesmo se a priori este Perturbações Depressivas e as Perturbações da Ansie-

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dade, sejam consideradas Perturbações Emocionais, clínicos também não o é – e menos ainda em crianças
não são aqui mencionadas por nos parecer que não se e pré-adolescentes. No entanto, na prática clínica estes
enquadram no âmbito do artigo; o seu diagnóstico di- fármacos são habitualmente utilizados na adolescên-
ferencial é difícil, pelo que a avaliação deve ser feita cia, com respostas terapêuticas positivas.
pelo Pedopsiquiatra.
Nas Perturbações Depressivas, mais de 50% dos ca- Prognóstico
sos apresentam comorbilidades. As mais frequentes Aproximadamente 2/3 das crianças ou adolescentes
são as Perturbações do Comportamento – cerca de 40% com Perturbações Depressivas melhora significativa-
das crianças/adolescentes com depressão –, seguidas mente,3 mesmo que a recuperação completa se prolon-
das Perturbações da Ansiedade, que ocorrem em apro- gue por meses ou até anos. No entanto, factores como
ximadamente 34% dos casos.8 a gravidade da sintomatologia e a presença de comor-
Há, de facto, uma forte associação entre ansiedade bilidades influenciam negativamente o prognóstico. As
de separação e depressão em crianças e adolescentes, crianças com Distimia têm maior probabilidade de
independentemente da idade e do género.11 Numero- apresentar episódios depressivos major no futuro, ain-
sos estudos demonstraram que elevados níveis de an- da que os episódios depressivos nesta faixa etária te-
siedade são frequentemente preditores do aparecimen- nham menor probabilidade de recorrer posteriormen-
to subsequente de depressão,11 colocando a hipótese de te. Na adolescência, perturbações de gravidade mode-
a ansiedade representar um precursor da depressão e rada a severa têm maior risco de suicídio ou de dificul-
que o aparecimento de sintomas de depressão causa- dades relacionais persistentes na idade adulta; a
ria uma diminuição dos sintomas de ansiedade, como recorrência de episódios depressivos Major é comum.
se houvesse uma “transformação” da ansiedade em de- Terminamos com um extracto de um livro de Sara-
pressão. mago: «(...) Aquele rosto nu, sem óculos, com o bigode
ligeiramente crescido, pêlo e cabelo têm vida mais lon-
Intervenção Terapêutica ga, exprimia uma grande tristeza, daquelas sem emen-
A intervenção terapêutica deve corresponder à gravida- da, como as da infância, que, por da infância serem, jul-
de do quadro clínico, sendo imprescindível a exclusão gamos terem remédio fácil, esse é o nosso engano (...)».15
do risco de suicídio, como já referimos.
Para além de mostrar disponibilidade para ouvir as Os autores declararam não possuir conflitos de interesses.
preocupações da criança ou do adolescente, o clínico
deve intervir na família – sensibilização dos pais para ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA
Margarida Crujo
o sofrimento da criança/adolescente e discussão de es-
E-mail: mmcrujo@hotmail.com
tratégias para lidar com o problema –, escola – integra- Cristina Marques
ção no grupo de pares, por exemplo – e rede social de E-mail: cristina.marq@hotmail.com
apoio – integração em projectos locais de intervenção
sócio-cultural, tal como Escuteiros, ATL e outras acti- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ABSTRACT

EMOTIONAL DISORDERS – ANXIETY AND DEPRESSION IN CHILDHOOD AND ADOLESCENCE


Anxiety Disorder and Depressive Disorder are clinical entities of high prevalence in childhood and adolescence, and may be pre-
cursors of psychopathology in adulthood. For both reasons, early diagnosis and intervention become essential, as well as the
identification of possible risk factors that enhance these disorders. Primary Health Care assumes, in this context, an important
role in screening cases, as well as in intervention and possible referral to Child and Adolescent Psychiatry Services.
In this article the authors briefly discuss aspects related to risk factors, prevalence, diagnosis, clinical intervention and progno-
sis for Anxiety Disorder and Depressive Disorder.

Keywords: Anxiety; Depression; Child; Adolescent.

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