Você está na página 1de 14

1

APRESENTAÇÃO

Você já deve ter se perguntado, em algum momento,


onde foi parar a beleza na realidade da nossa vida atual.
Eu, aqui, observo especialmente a arte. Mas o culto à
feiura acontece em toda a atmosfera do nosso tempo. Não
só a estética das obras de arte e dos processos criativos,
mas o ensino de arte nas escolas e universidades, a
aparência das casas [que deixaram de ser lar], os
relacionamentos, as crises de identidade, os fast-food, as
roupas, tudo é feito para ser descartável, frio, e sem
beleza. E isso nos acostuma a um cenário de caos, porque
anestesia nossos sentidos, e nem nos damos conta que
estamos envolvidos em tanta feiura.
Até que, ainda nos sentimos mexidos ao ver um pôr do
sol, o sorriso de uma criança, uma pessoa que se aproxima
de nós com ternura. Por que nos sentimos tocados diante
de experiências como essas? Porque nelas há beleza. Se
pensarmos bem, podemos afirmar que existem até mortes
bonitas. A beleza tem várias formas, mas as mesmas
condições. Minha definição preferida é a do filósofo e
doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino: “a Beleza é a
unidade entre a harmonia, a integridade e a clareza”.

3
Alguém pode chegar até aqui e ainda acreditar que a
beleza é relativa, e que ela varia de acordo com a
compreensão de pessoa. Por ter ouvido isso de muitos
alunos em meus quatorze anos como professora de Artes,
faço questão de distinguir, agora no começo da nossa
jornada e desse material de estudos, a compreensão
técnica de Beleza, e a questão de juízo de gosto. São duas
coisas totalmente diferentes! Você já parou pra pensar?
Primeiro vamos retomar a definição técnica da Beleza:
A Beleza é a unidade entre a harmonia, a integridade e a
clareza. Isso é universal. Se alguém duvidar que a Beleza
existe, pergunte então por que é que as pessoas buscam
procedimentos de harmonização facial. Ou converse você
mesmo com um esteticista. Qualquer médico que faça
procedimentos estéticos vai explicar que o processo de
harmonização facial é um exemplo de dar simetria para o
rosto (harmonia).
Agora, vamos falar sobre o juízo de gosto: É pessoal, e
sim, varia de pessoa para pessoa, de acordo com a
formação, a cultura familiar, os hábitos, aquilo que nos
ensinaram, desde criança, a gostarmos ou a achar bonito.
Mas o juízo de gosto não muda em nada a compreensão
da beleza, tecnicamente falando. O juízo de gosto, em
uma hierarquia, é menor e subserviente a compreensão
técnica, que é universal. Ou seja, se eu me apaixonar,
posso considerar alguém tão lindo a ponto de ser o cara
mais lindo do universo, e na verdade é só meu juízo de
gosto sendo levado pela paixão.

4
Há formas técnicas de analisarmos se algo é belo ou
não. Mas isso vamos ver detalhadamente no decorrer da
jornada.
Por enquanto, precisamos atentar para a realidade
desordenada de nosso tempo: Há um culto à feiura e
precisamos acordar para a beleza da vida acontecendo! E
os estudos artísticos são a ferramenta ideal para nos
inserir melhor na realidade da nossa vocação.
Vem comigo!

Profª Viviane Princival.

PS: se inscreva, também, em meu canal do YouTube, onde


posto, quase diariamente, vídeo-aulas com curiosidades
sobre Arte.

5
2

ONDE ESTÁ A BELEZA


NAS OBRAS DE ARTE?

Para pensarmos a Beleza nas obras de Arte, precisamos


entender algumas mudanças na História da Arte desde a
Modernidade, onde, conscientemente, os artistas
rompem com muitos alicerces da Arte de até então. A
Modernidade é a era das revoluções, e a Arte não ficará
fora disso.
Vale lembrar que os períodos da História da Arte, de
desde a Pré-história, tiveram mais durabilidade até o
Barroco. Levava séculos para mudarmos de um período
para o outro. Com isso, entendemos que havia tempo
hábil para as técnicas, materialidades, estilos e os
próprios artistas tinham condições de amadurecer, criar
uma envergadura em seus processos criativos, estudos, e
produções.
Com a Modernidade, isso muda. Tudo muda. Os
períodos/movimentos artísticos mudam muito
rapidamente também, como se os artistas se cansassem
muito rapidamente daquilo que estava produzindo e
sempre se superassem, numa velocidade perspicaz.

6
Vejamos o primeiro dos movimentos da modernidade,
que tinha como objetivo reviver a Antiguidade Clássica,
assim como no Renascimento, mas com uma “pegada”
mais atual e sóbria: o Neo-clássico. O Neoclassicismo
surge amando as Escolas de Belas Artes e em poucos
meses rompe com as próprias Escolas, admitindo uma
autonomia que independia de aprovação, norma ou
benção das Escolas.

Jacques-Louis David. O Juramento dos Horácios.


1784, óleo sobre tela, 330 x 425 cm. Museu do
Louvre, Paris, França.

7
E assim vemos também técnicas modernas para a arte
que só foram possíveis graças às próprias revoluções de
seu tempo. O Impressionismo e a técnica da tinta bisnaga
são uma boa pedida: Só foi possível registrar as
impressões da forma como seus idealizadores decidiram,
graças a invenção e produção industrial da tinta bisnaga
em larga escala.

Pierre-Auguste Renoir. O Almoço dos Barqueiros.


1880-81, óleo sobre tela, 129,9 x 172,7 cm.

Tudo bem. Mas e a questão da Beleza nas obras de Arte


hoje?
Comentei essas transformações na História da Arte para
chegarmos no depois da modernidade, que é nosso
período atual: Contemporaneidade ou pós modernidade.
Aqui, os estudiosos da cultura relatam piamente que a pós
modernidade é reconhecida como um período de caos e
confusão.

8
E já sabemos que a arte reflete o pensamento da
sociedade que a produz, portanto a Arte na Pós-
Modernidade reflete essa confusão. Há uma escolha
consciente pela feiura. A ideia é rejeitar as proporções de
harmonia, integridade e de clareza.
Há, no entanto, exceções de artistas da
contemporaneidade, que criam a partir de uma
perspectiva das Belas Artes, mas isso é cada vez mais raro,
uma vez que as próprias instituições de ensino voltadas
para as Artes em geral, e nominalmente as Escolas de
Belas Artes, partem todas, de uma concepção pós-moderna
de currículo. Ou seja, o que será ensinado e reproduzido
nesses lugares são as falácias do marxismo de cultura,
refletido em uma arte ideológica. Em outras palavras,
termos de “lacração” são muito bem-vindos “para
desconstruir” uma sociedade patriarcal e opressora
(que?).
Ouvindo isso, não se surpreenda se você perguntar
“desconstruir o que?” e a pessoa não souber responder.
A visão contemporânea dos estudos artísticos é contra
a linearidade da História da Arte, substituindo-a por um
relativismo: O mictório do Duchamp tem o mesmo valor
técnico e material que as catedrais góticas, “já que tudo é
arte”. Esse relativismo que cultua o feio, joga fora toda a
riqueza desenvolvida durante os períodos da História da
Arte, mas isso é conversa de uma aula toda.

9
Juliana Notari. Diva. 2020, 33 metros de altura, 16
de largura e 6 de profundidade.

Marcel Duchamp. Fonte. 1917, 61 x 36 x 48 cm.

10
3

A BELEZA IMPORTA?

“Why Beauty Matters” é mais que o título do


documentário do saudoso Lord, Roger Scruton. Sim, a
Beleza importa, e vou lhes contar porquê.
A Beleza é algo ordenado em proporções de integridade.
Contemplar coisas belas constantemente, nos dá um bem
estar tão grande, porque nos devolve a ordem de que o
caos de nosso tempo nos privou.
Hoje, precisamos a todo tempo “provar que a grama é
verde”, porque tudo está invertido. Viver a Beleza nos
ajuda a viver a ordem natural de nossa vida comum:
Nascemos, crescemos, morremos, esperamos a
eternidade. Temos um chamado, um corpo, uma alma.
Conhecemos o Direito Natural. Mas, ao falarmos que
todas as vidas importam, ao assumirmos o valor da
família, o exercício de forjar as virtudes em meio às
contrariedades de nosso tempo, somos taxados de loucos.
A Beleza importa porque nos devolve a ordem, e nos ajuda
a desenvolver melhor nossa vocação, a nos instalar na
realidade de nossa vida comum, e servir melhor os outros.

11
Quantas pessoas são infelizes, sofrem porque vivem na
mentira?
A Beleza, na cosmovisão cristã, é associada ao Bem e a
Verdade. E é por isso que a Beleza importa, para nos
ajudar a viver melhor a ordem natural de nossa vida
comum.

Caravaggio. Flagelação de Cristo. 1607, óleo sobre


tela, 134,5 x 175,4 cm.

12
4

COMO SELECIONAR
REFERÊNCIAS PARA FORMAR UM
BOM REPERTÓRIO CRIATIVO?

Tá, e agora você vai me perguntar:

“Vivi, o que adiantou entender tudo isso, se ligo a


TV, e vejo as novelas com as mesmas narrativas de
traições, mortes, prejuízos morais? Se abro o
instagram e vejo no feed uma série de coisas que me
estimulam num apelo quase pornográfico? Se vou
aos museus de arte e só tem coisas malucas e
assustadoras? Onde posso viver a Beleza? Como
posso cuidar de minha família em meio a tanta
desordem?”

Precisamos nos voltar rapidamente para um processo de


auto-educação. Dificilmente uma instituição te alcançará
a compreensão das linguagens artísticas, que não seja a
marxista. Trace um plano de estudos pessoal, e viva-o por
alguns anos, sem medo. Viva referências artísticas e
processos criativos: Na Arte não adianta só ter uma
imersão de leituras, mas é necessário viver algum
processo sensorial e criativo. Fazer aulas de música, de
fotografia, de desenho, pode ser uma boa pedida.

13
Ter domínio de referências de estilo de cada período da
História da Arte, só é possível graças a um bom percurso
de leitura comparativa, entre diferentes livros do tema.
Conhecer períodos, artistas e obras, é essencial para
quem quer aprender sobre Arte, Beleza, e fugir do culto à
feiura.

De uma forma bem prática, pense em 4 ações pra já:

1) Viva algum processo criativo: Matricule-se em alguma


aula de qualquer linguagem artística, música, dança,
pintura, desenho, teatro, fotografia, ou leia a respeito
disso e tente criar algo. Ouça, Desenhe, rascunhe...

2) Estude História da Arte, vivendo sensorialmente as


referências que leu. Mas como isso? Acessando o Google,
e buscando em alta resolução, imagens das obras, lendo a
biografia dos artistas, buscando referencias do que
acontecia no mundo, no ano em que tal obra foi criada.
Acessando o YouTube e assistindo algum espetáculo de
ballet, ou de Música Antiga. Busque por músicas de cada
período que leu, escute-as atentamente, com um “ouvido
pensante”.

3) Consuma Belas Artes! Escolha uma imagem, imprima-a


e deixe em sua casa em um porta-retratos. Acostume-se a
assistir mais filmes. A ouvir algumas Músicas barrocas...
A assistir peças...

4) Acompanhe todos os dias dessa jornada de estudos.

14

Você também pode gostar