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Raiz numa terra seca

Na 2ª carta a Timóteo, capítulo 3, o Apóstolo Paulo o advertiu dizendo que “nos últimos
dias, sobrevirão tempos difíceis”. Em seguida ele descreve as características dessas pessoas como
egoístas, avarentos, orgulhosos, arrogantes, implacáveis, cruéis, etc., um retrato perfeito do que
vemos e ouvimos todos os dias nos noticiários, nas ruas. Vivemos numa sociedade onde os vícios
estão sufocando as virtudes. Tempo também descrito pelo grande escritor Rui Barbosa.

“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer
a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a
desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

Enfim, um cenário de desolação moral que pode ser comparado com os mais tenebrosos
tempos vividos pelo povo de Israel no período do Antigo testamento, quando se afastavam de Deus
e de suas palavras, para se achegaram a toda prática infame, abominável e injusta que se pode
imaginar.

Como se isso não bastasse vemos a mentira e a ganância entrarem na esfera religiosa
como forma de manipular pessoas tornando-as escravas e acorrentando-as nas trevas na ignorância,
no vício da religião. Cheias de tradições, ritos, mitos e vazias de amor, misericórdia, Deus. Bem
equipadas na aparência, mas desprovidas e nuas na essência. Pessoas que se afastam de Deus à
medida que se aproximam apenas de si mesmas, tendo a auto-satisfação religiosa como fator
excludente daquele que deveria ser o ‘próximo’.

Não consigo ver a vida de Jesus e pensar num Deus que usa as pessoas para a
consecução de seus desejos pessoais. Não consigo imaginar um Deus manipulador, egoísta e
insaciável, que quanto mais tem, mais deseja para si – e só para si, ainda que para isso seja preciso
usar pessoas como coisas descartáveis. Se somos a “imagem e semelhança” de Deus, quem é de fato
o nosso Deus? Ou será que temos criado o nosso deus à nossa imagem e semelhança? O Deus de
Jesus Cristo é aquele que o inspirou a beber o cálice amargo para si afim de que outros pudessem
provar o bom vinho da nova aliança.

Jesus deve ser para nós o padrão. Como o apóstolo Pedro disse, Ele nos deixou o
“exemplo, para que sigais as suas pisadas”, I Pe 2:21. Esse Jesus, que é Deus revelado, é aquele
que, mesmo sendo aclamado Rei, não quis assemelhar-se com os reis que o povo conhecia, ou
mesmo com o estereótipo incutido na mente e na cultura deles. E o fez entrando em Jerusalém
montado em um jumento!

Mas em tempos de abusos doutrinários, já ouvi pessoas deturpando a verdade dessa


passagem bíblica ou por pura ignorância (o que é menos mal), ou por pura hipocrisia. Esses dizem
que o jumento era a Ferrari da época! Uma grande falta de conhecimento histórico-social. Basta
procurar em qualquer enciclopédia ou manual bíblico que tenha o mínimo de critério para ver que o
jumento era um animal símbolo de humildade e serviço. Vejamos o texto que fala da entrada
‘triunfal’ de Jesus em Jerusalém:

“Dizei à filha de Sião: Eis aí te vem o teu Rei, humilde,montado em jumento, num
jumentinho, cria de animal de carga.” Mateus 21:5

Esse texto é o cumprimento da profecia de Zacarias 9:9 e tem um significado simbólico


muito importante. Primeiro, essa forma de falar “eis aí o teu Rei”, é uma forma de confrontar a
visão e o próprio desejo do povo que esperava um rei libertador e guerreiro que venceria os
romanos e devolveria o reino à Israel. Segundo, a palavra ‘humildade’ também era sinônimo de
‘tolerância’ e não fazia parte da realeza, o que contrasta com a imagem de um rei guerreiro,
principalmente de um rei judeu frente a um inimigo gentio. Terceiro, a figura do jumento, um
animal de carga e serviço que no Antigo Testamento era tido como de pouco valor ao contrário do
camelo e do cavalo. Também a expressão “cria de animal de carga”, que no texto grego é a palavra
hupozugion significa literalmente “debaixo de jugo”, demonstra qual a condição do jumento e o que
ele realmente representava naquela sociedade/tempo.

Os reis e os nobres da época e de épocas anteriores sempre usavam cavalos e/ou


carruagens puxadas por cavalos. Era um animal símbolo de poder, força, honra, um animal de
guerra, animal dos nobres.

Esse Jesus que se fez servo também se fez exemplo, e a mensagem profetizada a seu
respeito por Isaías dizia que ele foi “subindo como um renovo perante ele e como raiz de uma terra
seca”. Acredito que isso serve para nós neste tempo. É tempo de ser raiz numa terra seca! Vejo isso
como um símbolo de esperança, um sinal de vida onde só se vê a morte. Onde faltam espectativas
boas, essa raiz mostra que nem tudo está perdido, há esperança! Há pessoas que ainda creêm num
evangelho que pode nos salvar de fato, mas que para isso precisa primeiro nos salvar de nós
mesmos. Um evangelho eficaz que não se utiliza das pessoas por interesse; que não se cala diante
das mentiras; que não se vende por promessas de homens; que não vende aquilo que não tem preço!
Um evangelho puro, simples e verdadeiro como Jesus, onde não há ‘judeu nem grego’, ‘servo nem
livre’, onde não há ricos e pobres em lados opostos separados por benção e maldição; onde não há
santos que se separam dos pecadores tornando os perdidos ainda mais perdidos e perdendo-se a si
próprios enquanto pensam que encontraram a vida eterna. Um evangelho onde todas as coisas JÁ se
fizeram novas e não são apenas uma promessa para o futuro, pois JÁ há um ‘novo céu e uma nova
terra’ onde JÁ vivem aqueles que de fato estão em Cristo e receberam um novo coração!

Nelício Júnior
23/03/2011