Você está na página 1de 2

A ARTE LITERÁRIA

Carlos Bernardo Loureiro

Duas eras estabeleceram os fundamentos da Arte Literária, conforme o Prof.


Soares Amora (“Teoria da literatura”), citado por Hênio Tavares em sua obra “Teoria
Literária”, Editora Bernardo Alvares S/A: a clássica e a moderna. A primeira vai dos
sofistas ao século XVIII, e a Segunda do romantismo à atualidade.
Os componentes conceituais da era clássica têm um caráter amplo e são
identificados nas obras de Empédocles, Platão, Aristóteles, Plotino, Cícero, Horácio,
Sêneca, Quintiliano, Tácito, Longino, Scaligero, Castel-Vetro, Patrizzi, Boileau.
Modernamente, destacam-se os teóricos e críticos literários – Vico, Baum-Garten,
Kant, Hegel, De Sanctis, Taine, Bergson e B. Croce.
Eis os conceitos propostos na era clássica:
a) amplo: “A arte literária consiste na realização dos preceitos estéticos da
invenção, da disposição e da elocução”.
Essas três operações clássicas da arte de escrever – informa Hênio Tavares –
foram criadas pelos sofistas: a invenção trata da escolha do assunto; a disposição
encarrega-se de coordená-la numa ordem lógica e atraente, dando ao trabalho
movimento de unidade; a elocução prendendo-se à correção, clareza e harmonia de
língua, estiliza a obra, proporcionando-lhe forma externa. Destarte, qualquer obra que
perfi-lhe tais processos será considerada Literatura seja um livro de poesia ou de
filosofia. Depreende-se que esse conceito peca por unilateralidade, omitindo o conteúdo
da obra.
b) restrito: “A arte literária é a arte que cria, pela palavra, uma imitação da
realidade”. Neste caso, não é a forma, mas a natureza do conteúdo da obra
que identifica a arte literária. “A imitação em arte – elucida Hênio Tavares –
deriva de atitudes como o Realismo e o Idealismo. O Realismo procura imitar
diretamente a natureza, não raro caindo no Naturalismo. Já o Idealismo serve-
se da natureza indiretamente, na qual a realidade da natureza contingencial da
vida é deformada para melhor ou pior”.

Concluindo
“A arte é portanto imitação, porém recriação da natureza em qualquer sentido”.
Aristóteles já lançava luz sobre o assunto:
“... Aqueles que expõem, através do verso, assuntos de medicina, ou de física,
são comumente denominados poetas; entretanto, nada há de comum entre Homero e
Empédocles, senão o terem ambos escrito em verso. Desse modo, converia denominar a
um, poeta, e a outro, naturalista”.
Na era moderna são propostos os seguintes conceitos:
a) em sentido lato: “A literatura é o conjunto da produção escrita”. O conceito é
vago. É, na concepção de alguns críticos, “um vaguíssimo conceito cultural,
através do qual todo o conhecimento fosse qual fosse a sua natureza –
científica, filosófica ou espiritual -, seria literária”.
Destarte, literatura seria, no sentido amplo (lato sensu), toda e qualquer
manifestação do sentimento ou do pensamento por meio da palavra, dando ensejo a que
De Bonald a chamasse de “expressão da sociedade “. Depreende-se, desse modo, diz
Hênio Tavares, que “qualquer obra em prosa e verso, de conteúdo artístico ou científico,
que envolva conhecimento da vida e dos homens, será literatura. Isto explica – conclui –
a extensão de certas obras como a histórias da literatura portuguesa e da literatura
brasileira, de Teófilo Braga e Silvo Romero, respectivamente”.
A propósito, Wellek e Warren, dão-nos um exemplo na “Introduction to the Literary
History of the Fifiteenth, Sixteenth and Seventeenth Centuries”, de Henry Hallam, que
consubstancia livros de teologia, de lógica, de jurisprudência, de matemática.
No sentido restrito: “A arte literária é, verdadeiramente, a ficção, a criação de uma
supra-realidade com os dados profundos, singulares da intuição do artista”.
A arte é ficção, que pode ser verossímil e inverossímil. A ficção se encontra nos
cernes das mais importantes obras literárias. E se constata que a realidade sensível e
racional.
“A intuição artística – afirma Soares Amora -, no campo da imaginação, da
idealização, dos símbolos, do “supra-realismo”, tem criado obras inteiramente falsas se
as quisermos identificar com a realidade sensível e racional, mas verdadeiras como
obras de emoção e beleza”.
Cita, à guisa de exemplo, o romance “IRACEMA”, de José de Alencar, “obra falsa
do ponto de vista científico (etnográfico), filosófico, histórico; no entanto, profundamente
verdadeira do ponto de vista estético, porque comovente e bela”.
O que realmente distingui uma obra de arte é a sua realidade estética, sempre
atrelada à concepção de escola: clássica, romântica, realista, simbolista etc.
Dizia, então, Alceu Amororo Lima (“A Estética Literária e o Crítico, 1954). “A
palavra, em literatura, não tem o nosso valor da palavra na vida corrente. A palavra, na
vida cotidiana ou nas atividades não-literárias (mesmo quando artísticas, de outro
gênero) tem valor utilitário. Na literatura tem valor ontológico, se pudermos assim dizer.
Sendo arte-de-palavra, faz a literatura de seu meio de expansão seu próprio fim. Quando
se abusa desse processo, caímos na má literatura, no verbalismo, simples objeto de uso,
simples meio de comunicação”.
Conclui-se, então, que a literatura se baseará tanto no estudo do conteúdo
(Gehalt) como nos problemas gerados pela forma (Gestalt).
“Arte literária, finaliza Hênio Tvares, é a ficção ou a criação de uma supra-
realidade pela intuição do artista, mediante a palavra expressivamente estilizada”.
A Arte Literária Espírita pode perfeitamente adequar-se a esse processo,
conquanto deva preservar as suas intrínsecas e peculiares implicações. O autor
espiritual, permiti-nos deduzir, já vivencia, ele próprio, uma supra-realidade, entes jamais
cogitada. Os conceitos e valores sofreram, pois, francas e profundas reavaliações. A sua
visão de vida e dos problemas da vida é diferenciada, é mais ampla do que ele, por um
determinado lapso de tempo vivenciou, e, aí, absorveu uma gama considerável de
condicionamentos. A literatura como “ânsia de imortalidade” de Raul Castagnino-in –
“qué es Literatura?” É aquele desejo insopitável que reside na ânsia da Espírito humano
(ecos palingenésicos), de sobrevivência à morte. Em Arte, esse meio se consubstancia
nas idéias de glória, de consagração, de imortalidade, de que dariam imorredouros
exemplos um Horácio, um Camões e de tantos outros célebres cultores da Arte, como
essência da vida...