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PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO DE FAMÍLIA E SUCESSÕES

MÓDULO DIREITO DE FAMÍLIA I

1. Material pré-aula

a. Tema

Curatela e Tutela. Cabimento. Estatuto da Pessoa com Deficiência.

b. Noções Gerais

Conceito

Curatela e Tutela

Definição - Tutela

Para Rodrigo da Cunha Pereira: “ Tutela é o encargo conferido a


alguém para dar assistência, representar e administrar os bens de
menores que não estejam no poder familiar. Ao menor que está sob
tutela dá-se o nome de tutelado ou pupilo e a quem é atribuído esse
encargo, tutor”1.
O “espírito” da tutela é fazer cumprir as funções daqueles que
estariam exercendo o poder familiar, ou seja, alguém que
presumivelmente estaria exercendo as funções do pai e/ou da mãe.
Por isso é que todo o sistema da tutela , sua estrutura, seu
mecanismo e efeitos, em todos os ordenamentos são desenvolvidos à
imagem e semelhança do poder familiar.
Sílvio Rodrigues conceitua a tutela como “um instituto de nítido
caráter assistencial e que visa substituir o poder familiar em face das
pessoas cujos pais faleceram ou foram julgados ausentes, ou ainda
quando foram suspensos ou destituídos daquele poder” 2.
Nesse mesmo sentido, Sílvio de Salvo Venosa diz que a tutela, assim
como a curatela, é um instituto que objetiva suprir incapacidades de
fato e de direito de pessoas que não têm e que necessitam de
proteção.3

1
PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Dicionário de Família e Sucessões Ilustrado.2º ed, Ed. Saraiva 2017.
2
RODRIGUES, Sílvio. Direito civil: Direito de família: volume 6. 28. ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p.
398.
3
VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: Direito de família. Vol 5. 20º. ed. São Paulo: Atlas, 2020.

Já, para Caio Mário da Silva Pereira, “consiste no encargo ou munus
conferidos a alguém para que dirija a pessoa e administre os bens de
menores de idade que não incide no poder familiar do pai ou da
mãe”4.
Por outro lado, a tutela é um encargo atribuído por um juiz para que
um adulto capaz possa proteger, zelar e administrar o patrimônio de
crianças e adolescentes. Geralmente é dado quando os pais do menor
de idade estão ausentes ou são falecidos e se prolonga até que o
tutelado atinja a maioridade civil, ou seja, dezoito anos.
Já a curatela é um encargo atribuído por juiz para que uma pessoa
zele, cuide e gerencie o patrimônio de outra que tem mais de dezoito
anos e é judicialmente declarada incapaz.
Para Maria Berenice Dias a Curatela é o “instituto protetivo dos
maiores de idade, mas incapazes, isto é, sem condições de zelar por
seus próprios interesses, reger sua vida e administrar seu
5
patrimônio” .
Já Carlos Roberto Gonçalves conceitua curatela como:
“Curatela é encargo deferido por lei a alguém capaz, para reger a
pessoa e administrar os bens de quem, em regra maior, não pode
fazê-lo por si mesmo” 6.

Cabe ao curador e ao tutor, em igual medida, proteger os interesses


do tutelado ou curatelado, provendo sua alimentação, saúde e
educação de acordo com suas necessidades e condições. Em caso de
falecimento do curador ou tutor, caberá ao juízo que o nomeou
efetuar a substituição da forma mais rápida possível, para que seja
dada continuidade à administração dos bens. Em caso de não
cumprimento ou descumprimento das suas obrigações, poderá ser
pedida a sua substituição.
Ademais, tanto na tutela quanto na curatela são feitas prestações de
contas perante o juiz para descrever os gastos e ganhos financeiros.
Poderá ser anual, semestral ou trimestral, de acordo com o que for
determinado pelo juízo que conferir a medida. Caso haja
comprovação de irregularidade ou suspeita de que o dinheiro do
tutelado ou curatelado esteja sendo usados para fins que não sejam
os de sua necessidade, poderá ser ajuizada Ação Cível.


4
PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. Rio de Janeiro: Forense, 2006.
5
DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias, 14ª ed. Juspodivum, 2020.
6
GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro – Vol 6 – Direito de Família. 19ª ed. São Paulo:
Saraiva, 2021.

Cabimento da Tutela
A tutela tem fundamento legal no artigo 1.728 do Código Civil, sendo
os menores postos em tutela na ocorrência de falecimento dos pais
ou sendo estes julgados ausentes, bem como em caso de os pais
decaírem do poder familiar.
A tutela, nas palavras de Venosa, é “instituição supletiva do poder
familiar” 7 . Isso quer dizer que ela suplementa o poder parental
quando da ausência dos pais ou da suspensão do poder deles. O
artigo 1.729 dispõe da nomeação do tutor, que é restringido aos pais,
em conjunto.
O legislador quis que os pais fossem aqueles que decidirão o melhor
para seus filhos, buscando indicar para o desempenho do munus uma
pessoa capaz de proteger, amar, cuidar das crianças ou adolescentes
como se pais fossem dando continuidade ao carinho e à proteção que
aquele que nomeia, pai ou mãe, dedica aos seus amados.
No entanto, caso haja bens, devido a necessidade de proteção o
legislador dispendeu alguns artigos para regulá-los, como os
arts. 1.745, 1.746, 1.753, 1.754, do CC. Assim, o legislador
estabelece, por exemplo, em seu art. 1.746 do CC, que tendo bens
o menor será sustentando e educado as custas desse, sendo
arbitrado pelo juiz as quantias que lhe pareçam necessárias a esses
sustento, considerando o rendimento desses bens, e assim
garantindo o uso adequado do patrimônio do tutelado.

Outro instituto que tenta assegurar o patrimônio é o previsto pelo


art. 1.753 e 1.754, do CC que estabelece que os tutores não podem
conservar em seu poder o dinheiro dos tutelados excedente ao
necessário para as despensas com sustento, educação e
administração dos bens, bem como se estiverem em
estabelecimento bancário oficial, não poderão retirar a não ser
mediante ordem ou autorização do juiz.

Ademais, há entendimento de que em caso de patrimônio


substancial há a possibilidade de prestação de caução pelo tutor
quando o patrimônio do menor tiver valor considerável, como forma
de garantia do tutelado e de seus interesses.
Deve-se atentar, no art. 1.733, caput do CC, a recomendação de
um mesmo tutor em caso de irmãos, mormente os órfãos, como


7
VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: Direito de família. Vol 5. 20º. ed. São Paulo: Atlas, 2020.

forma de assegurar o interesse da criança e adolescente em manter
algum vinculo familiar, contudo não é vinculativo, posto que em
alguns casos não é possível por questões inerentes à assunção da
tutela e suas incumbências.

Tipos de Tutela:
Tutela Testamentária
O art. 1.729, do CC, em seu parágrafo único, estabelece que
compete aos pais, em conjunto, a nomeação de tutor, seja por meio
de testamento ou de qualquer documento autêntico (instrumento
público ou particular). Podendo assim serem tutores testamentários
ou documentais, tendo em vista o documento que lhes instituiu a
função.
Logo, a tutela testamentária, é quando o tutor é indicado pelos pais,
em conjunto, em testamento ou documento autentico (instrumento
público ou particular).
Essa tutela só ocorre caso ambos os pais sejam falecidos, ou
quando o outro cônjuge sobrevivente ou conhecido não possa
exercer o poder familiar, por suspensão ou destituição deste.
Ademais, para que tenha eficácia é necessário que quem o nomeou
estivesse no exercício do poder familiar no momento de sua morte,
com base no art. 1.730, do CC.

Tutela Legítima
A tutela legítima, por sua vez, ocorre caso não haja testamento ou
documento válido dos detentores do poder familiar nomeando tutor,
utiliza-se do disposto no art. 1731, do CC que estabelece uma
ordem de preferência na indicação do tutores: primeiramente
busca-se ascendentes com preferencia o de grau mais próximo ao
mais remoto, e os colaterais até o terceiro grau, da mesma forma,
preferindo os mais próximos aos mais remotos e no mesmo grau os
mais velhos. De modo que cabe ao juiz a escolha do mais apto a
tutela do menor, sendo os critérios passiveis de flexibilidade, desde
que em benefício tutelado. Esses tutores escolhidos judicialmente
são denominados tutores legítimos.

Tutela Dativa
A Tutela Dativa é a derivada de sentença judicial, sendo esta
supletiva, de forma que, caso não haja tutores testamentários ou
documentais, e legítimos, deve-se aplicar o art. 1.732, do CC, que

estabelece que, nesses casos, o juiz deve nomear como tutor
pessoa idônea e residente no domicílio do menor.

Tutela Interina
Apesar de não estar entre as espécies comuns de tutela, deve o juiz
suspender o tutor do exercício de suas funções, em caso de
gravidade, e nomear tutor interino. Nas mesmas hipóteses em que
na lei autoriza a suspensão ou a perda do poder familiar, pode o juiz
remover o tutor, por ter agido com desvio de conduta.

A remoção ou destituição do tutor não é automática, sendo


necessário o ajuizamento de pedido de remoção ou destituição e a
citação do tutor para contestar no prazo de cinco dias instaurando
procedimento para a apuração dos fatos.

Em determinadas hipóteses exige-se urgência no afastamento do


tutor, suspendendo-o de suas funções, para preservar os interesses
do menor como no caso de maus-tratos, abuso sexual ou
dilapidação do patrimônio, nomeando tutor interino, até a decisão
final, conforme autoriza o art. 1764, III do CPC.

Curatela
Para Rodrigo da Cunha Pereira: “ Do Direito Romano curare, cuidar,
olhar, velar. É um dos institutos de proteção aos incapazes ,
compondo uma trilogia assistencial, ao lado da tutela e do poder
familiar, guarda. É o encargo conferido judicialmente a alguém para
que zele pelos interesses de outrem, que não pode administrar seus
bens e direitos em razão de sua incapacidade ou uma insanidade
permanente ou temporária, que inviabiliza o discernimento,
entendimento e compromete o elemento volitivo do sujeito”8.
O sujeito passivo, denominado curatelado, são indivíduos maiores
de 18 (dezoito) anos, incapazes para os atos da vida civil, elencados
no rol do art. 1.767, do CC, ou seja, aqueles que, por causa
transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade, os
ébrios habituais, os viciados em tóxicos e os pródigos.
São características da Curatela: caráter publicista, ou seja, o Estado
dever zelar pelos interesses dos incapazes; é medida assistencial;
objetiva suprir a capacidade do curatelado, ou melhor, quando a

8
PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Dicionário de Família e Sucessões Ilustrado.2º ed, Ed. Saraiva 2017.


incapacidade não pode ser suprida pelos pais ou pela tutela; não é
definitiva, mas sim temporária, uma vez que só pode perdurar
enquanto houver a necessidade; certeza da incapacidade, quer dizer,
somente pode ser decretada por meio de procedimento judicial.
Podem ser curadores as pessoas que tenham relação direta com o
curatelado, tal como seus pais, irmãos, cônjuge e filhos. Na ausência
deles, o Ministério Público poderá suprir a ausência.
Os sujeitos ativos da curatela são denominados, por sua vez,
curadores. Qualquer cidadão, desde que plenamente capaz para os
atos da vida civil, pode exercê-la, contudo como na tutela, devido a
responsabilidade decorrente do exercício dessa função, pressupõe-
se que será exercida por individuo probo e idôneo, geralmente que
mantenha parentesco ou proximidade afetiva com o curatelado.

Nesse sentido, o legislador dispôs sobre a ordem preferencial de


escolha do curador em seu art. 1.775, do CC, no entanto o rol,
como na tutela, não é vinculativo, porquanto deve-se verificar o
melhor para o curatelado.

A curatela da pessoa com incapacidade para os atos da vida civil


passou a se restringir aos atos negociais e patrimoniais.

O juiz concederá a curatela e indicará os atos para os quais a mesma


será necessária. Assim, nos termos do artigo 755 do Código de
Processo Civil, o juiz nomeará curador e fixará expressamente os
limites da curatela.

Cabe ao curador, independentemente de autorização judicial,


representar o curatelado nos atos da vida civil, receber as rendas e
pensões, fazer-lhe as despesas de subsistência, bem como as de
administração, conservação e melhoramentos de seus bens.
Nos termos do art 1.774 do CC aplicam-se à curatela as disposições
concernentes à tutela.
Assim, os curadores não podem conservar em seu poder dinheiro dos
curatelados além do necessário para as despesas ordinárias com seu
sustento e administração de seus bens (artigo 1.753 do CC), devendo
eventuais valores decorrentes de objetos e móveis serem convertidos
em títulos ou obrigações e recolhidos ao estabelecimento bancário
oficial ou aplicado na aquisição de imóveis, conforme for

determinado. O mesmo destino deverá ter o dinheiro proveniente de
qualquer outra procedência (parágrafo 2º do referido artigo 1.753).
Isso significa que o curador não terá a livre movimentação de contas
bancárias e ativos financeiros do curatelado, tendo acesso somente
às rendas existentes, provenientes de benefícios previdenciários ou
salários, que deverão ser utilizados para as despesas ordinárias. Em
havendo sobras, estas deverão ser depositadas em conta bancária.
Esse é o entendimento que se faz da análise sistemática dos artigos
1.747 e 1.753 do Código Civil, c.c. artigos 1.774 e 1781 do mesmo
código.
Os valores que existirem em banco oficial, ou seja, depositados em
conta judicial, somente poderão ser levantados por ordem judicial
para as despesas com o sustento do incapaz, desde que devidamente
comprovadas, ou para administração de seus bens, dentre outros,
nos termos do artigo 1.754 do CC. As movimentações e os ativos
financeiros de titularidade do curatelado somente podem ocorrer
mediante prévia autorização do juízo da interdição, nos termos dos
artigos 1.748 e 1.754 c.c. os artigos 1.774 e 1.781, todos do Código
Civil.
Por último, o curador deverá apresentar balanços anuais e prestar
contas a cada dois. Esta obrigação tem previsão legal (artigos 1.755,
1.756 e 1.757, c.c. artigo 1.774, todos do Código Civil e artigo 84,
parágrafo 4º, da Lei 13.146/15), sendo inerente ao próprio exercício
da administração de coisas alheias, não podendo ser dispensada sob
o fundamento de idoneidade dos curadores, principalmente em razão
da existência de bens, com patrimônio cuja gestão deve ser
fiscalizada em benefício do incapaz.

Curatela Especial

O Código Civil de 2002, inovou ao trazer o que chamamos de


curatela especial, tendo como sujeito passivo: primeiramente, o
nascituro até o nascimento na hipótese do pai ser falecido e a mãe
não deter o poder familiar, se não houver poder familiar com o
nascimento passará a ser tutelado, pelo art. 1.779 do CC.

Além da curatela do nascituro, prevê o CC (arts 22 à 25) nomeação


de curador ao ausente que desapareceu de seu domicílio sem deixar
notícia ou representante para administrar os seus bens, até o

ausente retornar ou a seus herdeiros. Esta curadoria objetiva a
administração dos bens do ausente.

Autocuratela e curatela mandato

Sobre a autocuratela e curatela mandato Maria Berenice Dias ensina:


“É admissível a eleição antecipada do curador, pelo próprio
curatelado, enquanto plenamente capaz. É o que se chama de
autocuratela. Possível, inclusive, a curatela compartilhada, quando a
pessoa com deficiência pode escolher mais de uma pessoa como
curador. Também o juiz pode nomear mais de um curador. É uma
forma de suavizar o árduo trabalho com o exercício da curatela e
dividir responsabilidades. A tomada de decisão apoiada pode ser
determinada judicialmente, para a prática de determinado negócio
jurídico, o que não se pode chamar de curatela” 9.

O mandato cessa com a curatela ou do mandante ou do mandatário


(CC 682 II). No entanto, apesar do silêncio legal, vem sendo
sustentada a possibilidade da outorga de mandato permanente ou
procuração preventiva, que recebe o nome de autotutela: uma
pessoa capaz firma uma declaração de vontade para quem, diante de
uma situação de incapacidade, previsível ou não, organize sua futura
curatela. Pode eleger um curador bem como indicar órgãos de
fiscalização de gestão de seus bens. A autocuratela permite que a
pessoa designe quem gostaria que a protegesse e cuidasse. No
entanto, tal não impede a ação de curatela e nem a designação de
outro curado.

Segundo Thaís Câmara Maia Fernandes Coelho:


“A autocuratela é o instrumento que possibilita uma pessoa capaz,
mediante um documento apropriado, deixar de forma preestabelecida
questões patrimoniais e existenciais de forma personalizada, para
serem implementadas em uma eventual incapacidade como, por
exemplo, um coma. Segundo ela, a autocuratela é uma forma de
evitar conflitos, pois impediria as discussões judiciais entre familiares
10
sobre quem seria o melhor curador para aquele incapaz” .


9
DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias, 14ª ed. Juspodivum, 2020.
10
Autocuratela evita discussões entre familiares.
http://ibdfam.org.br/noticias/6078/Autocuratela+evita+discuss%C3%B5es+judiciais+entre+familiares.
Acesso em 26/04/2021.

Continua ainda a Profª Thaís Câmara Maia Fernandes Coelho:
“Considerando ser um documento jurídico de proteção futura, a
pessoa pode escolher antecipadamente o seu próprio curador para o
caso de uma incapacidade superveniente, também pode excluir
determinadas pessoas dessa função. É possível nesse documento já
deixar determinada a forma de administração do seu patrimônio, até
com a possibilidade de indicação de pessoas jurídicas para orientar o
curador nessa função administrativa. Além disso, ainda é admissível
que nesse documento constem os cuidados médicos que aceite ou
recuse, de acordo com as suas escolhas pessoais de vida”11.

Já para Nelson Rosenvald:


“Ademais, o raio da autocuratela como negócio jurídico atípico,
amplia o seu perímetro em dois pontos: primeiro, as diretivas
antecipadas são apropriadas para a manifestação de orientações
futuras quanto aos cuidados quanto à saúde do paciente, porém,
pode não ser interpretado como o espaço adequado para que alguém
exteriorize as suas preocupações quanto a questões afetivas e
existenciais, que envolvam a sua intimidade ou o espaço familiar de
privacidade; segundo, a autocuratela na versão mais ampla da CDPD
permite a pessoa não apenas a programação futura de sua esfera
existencial, como também lhe faculta a organização e administração
de sua dimensão patrimonial, mesmo que esse enfoque econômico
seja acessório, no sentido de que a escolha de um curador que
eficazmente zele pela manutenção de um certo padrão de vida será a
garantia de que o curatelado preservará o seu padrão financeiro e,
12
consequentemente, terá acesso a um tratamento condigno” .

Evidentemente, ao tempo que as condições psíquicas da pessoa


demonstrem a necessidade da curatela, o projeto pessoal será
submetido a um controle de legitimidade em dois níveis: primeiro,
abstratamente será aferido se o conteúdo do ato de
autodeterminação não ofende o ordenamento jurídico; segundo,
concretamente será avaliado se as condições de saúde da pessoa
demandam uma correção qualitativa ou quantitativa dos limites por
ela previamente apresentados à atuação do curador.13


11
Ibidem.
12
ROSENVALD, Nelson. https://www.nelsonrosenvald.info/single-post/2017/05/16/Os-confins-da-
autocuratela. Acesso em 26/04/2021.
13
Ibidem

É o que se chama de curatela-mandato, curatela de menor extensão,
até porque não se destina a um incapaz. Esta possibilidade não se
confunde com a tomada de decisão apoiada (CC 1.783-A § 2.º). Para
o seu fiel exercício, basta a atribuição de poderes para a mera
administração dos negócios e bens do curatelado, sem autorização
para a transferência ou renúncia de direitos, o que continuará
dependendo da expressa manifestação de vontade do curatelado.
Qualquer das pessoas legitimadas (CPC 747) também pode requerer
esta espécie de curatela, que somente será concedida se houver a
concordância do interditando. Caso ele não possa exprimir a sua
vontade, estará sujeito à curatela ordinária.

Esta possibilidade pode beneficiar pessoas idosas, que não


disponham de condições físicas, senão com muito sacrifício, de se
locomover, a fim de gerir os seus bens. A vantagem em relação à
procuração consiste no fato de esta perder sua eficácia caso o
outorgante incida em alguma das causas de curatela.

O Estatuto da Pessoa com Deficiência

A Lei nº 13.146/2015 seguiu as diretrizes elencadas no art. 3º da


Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, as quais se
sustentam nos seguintes princípios: o respeito pela dignidade
inerente, pela independência da pessoa, inclusive a liberdade de fazer
as próprias escolhas, e autonomia individual; a não discriminação; a
plena e efetiva participação e inclusão na sociedade; o respeito pela
diferença e pela aceitação das pessoas com deficiência como parte da
diversidade humana e da humanidade; a igualdade de oportunidades;
a acessibilidade; a igualdade entre o homem e a mulher e o respeito
pelas capacidades em desenvolvimento de crianças com deficiência e
respeito pelo seu direito de preservar sua identidade.

Neste tema Rosa e Nelson Nery ensinam:

“Embora a lei preconize a proibição de a pessoa com deficiência ser


submetida a tratamento ou institucionalização forçada, se estiver sob
curatela poderá ter seu consentimento suprido (EPD art. 11), após,
entretanto, lhe ter sido assegurada sua participação, no maior grau
possível, para a obtenção de seu consentimento. A lei instiga a todos
o cumprimento de deveres para com os deficientes, especificando

atos e atividades relacionadas com o tratamento de deficientes,
como, por exemplo, exorta a família, médicos e serviços públicos e
privados a empregar cuidado extra para a obtenção de eventual
autorização para a submissão do deficiente a pesquisa científica,
mormente se em situação de tutela ou curatela (EPD art, 12 e §
2.º), ressalvadas evidentemente as hipóteses de estado de
necessidade (risco de morte e emergência de saúde), quando então o
tratamento pode ser ministrado, sem o consentimento do paciente,
em estado emergencial, mas, então, segundo protocolos médicos. A
lei fala no “direito ao exercício da capacidade legal em igualdade de
condições com as demais pessoas” (EPD art. 84), dispondo
especificamente sobre a pessoa submetida à curatela, ressalvando
que tal situação não implica exposição pública da situação pessoal do
curatelado (EPD art.86).14

A referida lei consolidou as premissas trazidas pela Convenção das


Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência –
CDPC, representando notável avanço para a proteção da dignidade
da pessoa portadora de ausência ou disfunção de uma estrutura
psíquica, fisiológica ou anatômica. As inovações buscam e retratam
a evolução pela inclusão social e ao direito à cidadania plena e
afetiva.

Para atingir os fins a que se propõe, nos termos de seu art. 1º, a
nova Lei brasileira tem como principais missões assegurar e
promover, “em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das
liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua
15
inclusão social e cidadania” .

Rodrigo da Cunha Pereira ao comentá-la, assevera que ela


representa a “consolidação e reconhecimento do valor e princípio da
dignidade da pessoa humana” e que ao alterar e revogar diferentes
artigos do Código Civil relativos à capacidade da pessoa traduziu “em
16
seu texto toda a evolução e noção de inclusão social” .


14
NERY JUNIOR, Nelson. NERY, Rosa Maria de Andrade. Leis Civis e Processuais Civis Comentadas. 4ª
ed. São Paulo: Revistas dos Tribunais, 2015.
15
FARIAS, Cristiano Chaves de; CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Estatuto da Pessoa
com Deficiência: comentado artigo por artigo. Salvador: Juspodivm, 2016. p. 25.
16
PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Direito das Famílias, 2ª ed. Forense, 2020.

A fim de possibilitar a inclusão da pessoa com deficiência,
considerada como aquela “que tem impedimento de longo prazo de
natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação
com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e
efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais
pessoas” (art. 2º, caput, da Lei nº 13.146/2015), foi necessária, por
um lado, a revisão do conceito de deficiência, se comparado aos
Decretos ns. 3.298, de 1999, e 5.296, de 2004, e de sua gradação
para o processo de intervenção da autonomia da pessoa e, por outro,
a criação de mecanismos para avaliar (art. 2º, §§ 1º e 2º, da Lei nº
13.146/2015) e regulamentar os efeitos jurídicos dos atos praticados
por ela.

No que diz respeito à avaliação biopsicossocial, determinada pela


nova lei, Cristiano Chaves de Farias, Rogério Sanches Cunha e
Ronaldo Batista Pinto comentam:
“É aquela que considera aspectos sociais que circundam o deficiente,
além, por óbvio, de dados médicos capazes de demonstrar sua
incapacidade. Na avaliação psicossocial há, portanto, a junção desses
dois aspectos na abordagem do deficiente, superando-se nessa linha
de raciocínio, o simples modelo biológico, para se considerar, em
acréscimo, fatores sociais outros como nível de escolaridade,
17
profissão, composição familiar, etc” .

Um dos temas profundamente alterados pela Lei n. 13.146/2015 é o


referente à capacidade civil. Houve, aí, uma verdadeira revolução.
Deu-se nova redação aos arts. 3º e 4º do Código Civil, que tratam,
respectivamente, dos absolutamente e dos relativamente incapazes.

Conforme Flavio Tartuce:


“A Lei n. 13.146/2015 veio quebrar um antiquíssimo entendimento:
o que relacionava e vinculava deficiência mental com incapacidade
jurídica. A partir dessa lei, a pessoa com deficiência - seja física,
mental, intelectual ou sensorial - tem de ser considerada
plenamente capaz, não pode sofrer qualquer restrição, preconceito
ou discriminação por isso. A não ser que não possa exprimir a sua
vontade, e, então, é enquadrada não mais como absolutamente
incapaz, mas como relativamente incapaz, sendo-lhe nomeado um


17
FARIAS, Cristiano Chaves de; CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Estatuto da Pessoa
com Deficiência: comentado artigo por artigo. Salvador: Juspodivm, 2016.

curador num processo judicial, e esta medida é considerada
excepcional. Note-se: a incapacidade relativa não decorre,
inexoravelmente, da deficiência, em si e por si só, mas pela
circunstância de o portador de deficiência estar impossibilitado de
manifestar a sua vontade. Mais: o ato praticado pelo curatelado sem
a assistência do curador não é nulo, mas anulável (CC,
18
art. 171, I)” .

Destaca-se, ainda, que os dispositivos da referida lei retiraram do


rol de relativamente incapazes os portadores de deficiência mental
e os excepcionais sem desenvolvimento completo, mantidos: I – os
maiores de dezesseis e menores de dezoito anos; II – os ébrios
habituais e os viciados em tóxicos; III – aqueles que, por causa
transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade; e
IV – os pródigos.

Aqueles antes vistos como "interditos", "sujeitos irrecuperáveis", ou


ainda, "que por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o
necessário discernimento para a prática" dos atos da vida civil,
saíram do rol de absolutamente para o de relativamente incapazes,
em uma tentativa de conceber a tão afamada inclusão social.

As pessoas antes sujeitas à interdição em razão de enfermidade ou


deficiência passam, por força da nova lei, a serem consideradas
plenamente capazes. Essa garantia reconhece uma presunção geral
de plena capacidade a favor das pessoas com deficiência, o que
somente por meio de relevante inversão probatória sucederia à
incapacidade, excepcional e amplamente justificada. Inexistindo
para estes, ressaltasse a incapacidade absoluta.

Nesse passo, o Estatuto inova no Instituto da Curatela, que


reconhece o direito da pessoa com deficiência ao exercício de sua
capacidade legal em igualdade de condições com as demais
pessoas, passando a ter o caráter de medida excepcional,
extraordinária, devendo ser adotada somente quando e na medida
em que for necessária.


18
TARTUCE, Flavio. Estatuto da pessoa com deficiência. Uma nota crítica.
https://flaviotartuce.jusbrasil.com.br/artigos/338456458/estatuto-da-pessoa-com-deficiencia-uma-nota-
critica.Acesso em 26/04/2021.

Tanto é assim que restaram revogados os incisos II e IV do artigo
1.767 do Código Civil, em que se afirmava que os portadores de
transtorno mental estariam sujeitos à curatela.

O deficiente, o enfermo ou o excepcional, sendo pessoa plenamente


capaz, poderá celebrar negócios jurídicos sem qualquer restrição,
pois não mais se aplicam as invalidades previstas nos artigos 166, I
e 171, I do Código Civil.

A referida lei incluiu também o instituto jurídico da Tomada de


Decisão.

Concernente à plena capacidade civil e ao casamento, o Estatuto


revogou o inciso I do artigo 1.548 do Código Civil, que previa ser
nulo o casamento do "enfermo mental sem o necessário
discernimento para os atos da vida civil". Portanto, não podem os
deficientes ser alijados da formação de família por meio do
casamento ou mesmo da união estável.

Ainda na seara da celebração do casamento, anterior à vigência da


lei 13.146/15 não era possível realizar casamento de pessoas com
deficiência, por ser vedado expressamente em lei, limitando, assim,
o direito à igualdade e afetividade, pois eram considerados
plenamente incapazes de realizar o matrimônio, uma vez que,
dentre os requisitos desse, é essencial a mútua assistência.

Tomando-se por base tais alterações, não há mais que se falar em


impedimentos para os deficientes em constituir união estável ou
celebrar casamento, permitindo a expectativa de inclusão social,
uma vez que a incapacidade antes prevista, não mais possui
aplicabilidade.

A nova estruturação do regime jurídico das incapacidades


repercutiu diretamente na aplicação do instituto da prescrição
contra as pessoas com deficiência. Isso porque o art. 198, I do
Código Civil estabelece que não corre a prescrição "contra os
incapazes de que trata o art. 3º". Dessa forma, aqueles que não
tinham discernimento para a prática dos atos civis e os
impossibilitados de exprimir sua vontade eram beneficiados com o
impedimento ou a suspensão do curso do prazo prescricional.

A partir da edição da lei 13.146/15, somente os menores


impúberes é que estariam contemplados com a regra protetiva do
art. 198, I, do aludido Código, já que os demais deixaram de
compor o rol de seu art. 3º.

O Prof. Paulo Lôbo, sustenta que, a partir da entrada em vigor do


Estatuto," não há que se falar mais de 'interdição', que, em nosso
direito, sempre teve por finalidade vedar o exercício, pela pessoa
com deficiência mental ou intelectual, de todos os atos da vida civil,
impondo-se a mediação de seu curador. Cuidar-se-á, apenas, de
19
curatela específica, para determinados atos" .

Na medida em que o Estatuto é expresso ao afirmar que a curatela


é extraordinária e restrita a atos de conteúdo patrimonial ou
econômico, desaparece a figura da "interdição completa" e do"
curador todo-poderoso e com poderes indefinidos, gerais e
ilimitados".

Mas, por óbvio, o procedimento de interdição (ou de curatela)


continuará existindo, ainda que em uma nova perspectiva, limitada
aos atos de conteúdo econômico ou patrimonial, conforme o
20
entendimento do Prof Rodrigo da Cunha Pereira.

Tomada de Decisão Apoiada

A tomada de decisão apoiada é um procedimento judicial, de


iniciativa da própria pessoa com deficiência, que dele se valerá
quando pretender a obtenção de auxílio de terceiros para realizar
certos atos de sua vida.

É importante que se leve em consideração o significado da palavra


apoio, devendo ser compreendida como ajuda, auxílio, proteção.
Ou seja, a tomada de decisão apoiada deve respeitar as vontades e
preferências da própria pessoa apoiada, não sendo substituída pela
vontade de seus apoiadores. Tanto é assim que os apoiadores – a
lei prevê que sejam dois – serão escolhidos pela própria pessoa

19
LÔBO. Paulo. Com Avanço Legal Pessoas com Deficiência Mental não são mais Incapazes.
Fonte: http://www.conjur.com.br/2015-ago-16/processo-familiar-avancos-pessoas-deficiencia-
mental-nao-são-incapazes
20
PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Direito das Famílias, 2ª ed. Forense, 2020.

com deficiência, exigindo o Estatuto que se trate de pessoas
idôneas, com relação às quais o apoiado mantenha vínculos e
possua confiança.

Por força de modificação nos artigos 3º e 4º do Código Civil, os


deficientes, no que se incluem os portadores de transtorno mental,
deixaram de ser considerados incapazes.
Por determinação do artigo 116 do estatuto, insere-se no Código
Civil, através do recém-criado artigo 1783-A, novo modelo alternativo
ao da curatela, que é o da tomada de decisão apoiada.
Para Carvalho:
“Neste novo sistema da tomada de decisão apoiada, por iniciativa da
pessoa com deficiência são nomeadas pelo menos duas pessoas
idôneas "com as quais mantenha vínculos e que gozem de sua
confiança, para prestar-lhe apoio na tomada de decisão sobre atos da
vida civil, fornecendo-lhes os elementos e informações necessários
para que possa exercer sua capacidade." Note-se que a tomada de
decisão apoiada não se relaciona, necessariamente, com o portador
de transtorno mental, podendo ser requerida por qualquer sujeito
21
classificável como deficiente nos termos do Estatuto” .

Assim, o portador de transtorno mental pode constituir em torno de


si uma rede de sujeitos baseada na confiança que neles tem, para lhe
auxiliar nos atos da vida. Justamente o oposto do que podia antes
acontecer, em algumas situações de curatela fixadas à revelia e
contra os interesses do portador de transtornos mentais.
Trata-se de regime que, à semelhança da curatela, se constituirá
também pela via judicial. O juiz, antes de decidir, deverá ouvir não
apenas o requerente, como também os apoiadores, o Ministério
Público e equipe multidisciplinar (artigo 1783-A, §3°). Note-se que a
tomada de decisão apoiada é medida cuja legitimidade ativa cabe
somente ao sujeito que dela fará uso (artigo 1783-A, §2°), o que
reforça o papel da autonomia do portador de transtorno mental.
Possuirá apoiadores não porque lhe foram designados, mas porque
assim o quis.
Este respeito à autonomia do apoiado prossegue presente no próprio
termo em que se faz o pedido do estabelecimento de tomada de


21
CARVALHO, Newton Teixeira. O procedimento de tomada de decisão apoiada.
https://domtotal.com/artigo/7049/07/11/o-procedimento-da-tomada-de-decisao-apoiada/ Acesso em
30/04/2020.

decisão apoiada. Em tal termo, firmado pelo apoiado e pelos
apoiadores, é necessário que “constem os limites do apoio a ser
oferecido e os compromissos dos apoiadores, inclusive o prazo de
vigência do acordo e o respeito à vontade, aos direitos e aos
interesses da pessoa que devem apoiar” (artigo 1783-A, §1°).
Destaque-se, portanto, que a tomada de decisão apoiada poderá ser
diferente para cada sujeito, já que o termo que for apresentado é que
especificará os limites do apoio. Um questionamento que pode surgir
no que toca ao “prazo de vigência do acordo” é se pode ele ser
indeterminado.

Paula Távora Vítor, analisando na legislação europeia medidas que


seguem a mesma lógica da tomada de decisão apoiada, “ afirma que
a determinação mais comum nelas é pelos prazos determinados,
embora, na prática, haja tendência em perpetuá-las”22.

Dúvida que pode surgir também é se o sujeito, ao requerer a tomada


de decisão apoiada, tem a sua capacidade afetada de alguma forma.

No caso brasileiro a tomada de decisão apoiada parece não implicar


em perda da capacidade do sujeito que a requer, mas sim em
caminho que oferece reforço à validade de negócios por ele
realizados.

É que, em se tratando de negócio realizado com base e nos limites do


acordo da tomada de decisão apoiada, não haverá brecha para
invalidação do mesmo por questões relativas à capacidade do sujeito
apoiado (artigo 1783-A, §4°). Em busca de maior segurança pode,
inclusive, o terceiro com quem se negocia solicitar que os apoiadores
contra assinem o contrato ou acordo, especificando a sua função em
relação ao apoiado (artigo 1783-A, §5°).23
A lei determina que, em se tratando de negócio jurídico “que possa
trazer risco ou prejuízo relevante, havendo divergência de opiniões
entre a pessoa apoiada e um dos apoiadores, deverá o juiz, ouvido o
Ministério Público, decidir sobre a questão” (artigo 1783-A, §6°).
Note-se que a necessidade da presença do juiz para decidir a


22
VÍTOR, Paula Távora. A administração do património das pessoas com capacidade diminuída.
Coimbra: Coimbra, 2008, p.175-176.
23
REQUIÃO, Maurício. https://www.conjur.com.br/2015-set-14/direito-civil-atual-conheca-tomada-
decisao-apoiada-regime-alternativo-curatela Acesso em 26/04/2021.

controvérsia se dá somente diante de casos em que a realização do
negócio possa trazer risco ou prejuízo relevante.
Também aqui, assim como na curatela, se buscou destacar que o
papel do apoiador deve ser positivo ao sujeito que ele apoia, sendo
aquele destituído a partir de denúncia fundada feita por qualquer
pessoa ao Ministério Público ou ao juiz, caso haja o apoiador com
negligência ou exerça pressão indevida sobre o sujeito que apoia
(artigo 1783-A, §7°). Essa destituição implicará na necessidade de
ser ouvida a pessoa apoiada quanto ao seu interesse em que seja, ou
não, nomeado novo apoiador (artigo 1783-A, §8°).
Embora a lei não especifique, acredita-se que, como há determinação
legal da existência de dois apoiadores, se um deles for destituído e o
apoiado não quiser a nomeação de novo apoiador, se dará a extinção
da situação de tomada de decisão apoiada. Extinção esta que, aliás,
pode se dar também a qualquer tempo a partir de pedido do apoiado
(artigo 1783-A, §9). Trata-se de direito do apoiado, de modo que não
cabe ao juiz denegar tal pedido.
É possível também que algum dos apoiadores não queira mais
participar do processo de tomada de decisão apoiada, o que será
deferido também a partir de autorização judicial (artigo 1783-A,
§10). Esta saída do apoiador, embora também não haja
determinação legal expressa, não implicará automaticamente no fim
do processo de tomada de decisão apoiada. Deverá ser o apoiado
instado a indicar novo apoiador e, somente se não o quiser, haverá a
extinção do processo.

Internação compulsória
O regime jurídico da proteção das pessoas com transtorno mental
encontra-se delineado na Lei 10.216, de 06 de abril de 2001, a
intitulada Lei da Reforma Psiquiátrica (LRP).
Dentre os principais vetores da legislação referida, está a proibição
de toda e qualquer discriminação das pessoas com transtornos
mentais, além de privilegiar o acompanhamento e tratamento no
núcleo familiar e evitar ao máximo a institucionalização de tais
pessoas, de modo a assegurar a sua integração na vida social e
familiar.
Ademais disso, a Lei da Reforma Psiquiátrica enfatiza o respeito à
autonomia da pessoa com transtornos mentais e aposta no caráter
excepcional das internações involuntárias (aqui designadas de
obrigatórias).

Especificamente no que diz respeito a internação psiquiátrica é esta
regulada pelos artigos 4º, 6º, 7º, 8º e 9º, da LRP.

Consoante o disposto no artigo 4º, caput, a internação psiquiátrica,


em qualquer das modalidades, somente se mostra cabível quando os
recursos não hospitalares forem tidos como insuficientes e houver
risco à integridade física, à saúde ou à vida dos portadores de
transtorno mental ou a terceiros. A situação de perigo concreto deve
estar prevista em laudo médico circunstanciado, caso contrário,
torna-se incabível a obrigatoriedade de internação do paciente
(artigo 6º, caput). Em havendo necessidade do internamento, este
deverá buscar a cessação do estado de perigo, com consequente
reinserção social do paciente em seu meio (artigo 4, §§ 1º e 2º).

De acordo com a LRP são três as modalidades de internação


psiquiátrica (artigo 6, § único, incisos I a III), quais sejam:
voluntária, involuntária e compulsória.

Na internação voluntária pressupõe-se o consentimento do paciente,


que deverá assinar uma declaração atestando sua escolha por este
tipo de tratamento (artigo 7º, caput). A internação involuntária dá-se
sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiro, sendo que
seu término somente ocorrerá por solicitação escrita do familiar ou
responsável legal ou ainda quando houver manifestação do médico
responsável pelo tratamento (artigo 8, § 2º). Nesse caso, tanto a
internação como a alta do paciente devem ser comunicadas no prazo
de setenta e duas horas ao Ministério Público estadual, (artigo 8º, §
1º).

Já a internação compulsória (artigo 6º, § único, inciso III), é


decorrente de ordem judicial, necessariamente, amparada em laudo
médico que descreva de forma detalhada a situação de perigo
concreto. Será utilizada quando não for possível, ou insuficiente, o
tratamento não hospitalar e houver probabilidade de risco à
integridade física, à saúde ou à vida da pessoa com transtorno
mental ou a terceiros. Tal tipo de internação consiste em um
“procedimento judicial cautelar ou de mérito”, ao qual são aplicáveis,

segundo entendimento corrente, as mesmas normas relativas à
internação psiquiátrica involuntária.24

A internação obrigatória (compulsória ou involuntária, nos termos da


LRP) consiste em medida necessária ao tratamento da pessoa que
esteja padecendo de sofrimento psíquico grave, com risco para si
e/ou para terceiros, ou para a sociedade, exigindo, para tanto, a
emissão de laudo médico circunstanciado que a justifique. Ressalte-
se, ainda, que o uso da medida deverá ser determinado pelo juiz
competente (no nosso entender, em ambos os casos) com a
observância da legislação em vigor, a qual “levará em conta as
condições de segurança do estabelecimento, quanto à salvaguarda do
paciente, dos demais internados e funcionários” (artigo 9º, Lei
10.216/2001).25
Justamente por ser uma medida extrema e forte restrição da
liberdade pessoal, a internação obrigatória implica estrita
observância, para além da demonstração clínica criteriosa e da
autorização judicial dos requisitos da proporcionalidade, de tal sorte
que somente poderá ser utilizada enquanto imprescindível e quando
os demais recursos restarem ineficientes às necessidades
terapêuticas do paciente, a exemplo, aliás, do que se verifica em
outros países, como é o caso dos EUA, onde a jurisprudência tem
admitido a internação obrigatória como cabível se for o único meio
para garantir a submissão ao tratamento mas jamais como simples
medida de restrição de liberdade.

A internação compulsória dos dependentes químicos face a Lei


13.840/2019
A nossa Constituição Federal em seu art. 6º, elenca que a saúde é
um direito social, ou seja, a saúde é um direito fundamental do ser
humano, cabendo ao poder público, mediante prestações sociais,
efetivar o acesso dos indivíduos aos serviços hospitalares, seja direta
ou indiretamente.

Nessa linha, Nogueira, Marinho e Moreira ponderam:


“O direito social à saúde, de modo semelhante ao que ocorre com os
direitos sociais em geral, comporta duas vertentes. A primeira

24
SCARLET, Ingo Wolfgang. Internação obrigatória não pode ser utilizada de modo generalizado.
https://www.conjur.com.br/2016-dez-09/direitos-fundamentais-internacao-obrigatoria-nao-utilizada-
modo-generalizado Acesso em 26/04/2021.
25
MONTEIRO, Fabio de Holanda. A internação psiquiátrica compulsória. Prismas. 2017.

vertente é de natureza negativa, que consiste no direito a exigir do
Estado ou de qualquer pessoa que se abstenha de praticar atos que
prejudiquem a saúde. A outra vertente é de natureza positiva,
significando o direito às medidas e prestações estatais visando à
prevenção das doenças e o tratamento delas”26.

Assim, a hospitalização forçada para preservação da integridade física


é lícita, pois o Estado, que é estruturado a luz da humanística tábua
axiomática, não se absteve de preservar a saúde dos dependentes
químicos, visto que legalizou a internação involuntária daqueles para
tratamento da dependência química.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu que a saúde é um


estado completo de bem-estar físico, mental e social, e não apenas a
ausência de enfermidade.

Desta forma, os dependentes químicos, por serem alvejados de


violações a seu organismo com o uso de ópios, no mais das vezes
com sequelas irreversíveis pela exposição frequente às composições
maléficas dos tóxicos, terão que receber tratamento internatório
forçado para se desvincularem de agressões ao organismo.

Dessa forma, a internação involuntária da Lei 13.840 é legal, no


âmbito material, por proteger o viciado em substância tóxica,
munindo-o com uma série de tratamentos, feitos por profissionais
habilitados e capacitados, para manutenção da salubridade orgânica,
visto que os retira de violações nos sistemas corporais e, no mais das
vezes, afasta a enfermidade da dependência química.
Segundo o art. 196º, da Carta Magna, a saúde é um direito universal
e igualitário, cabendo ao Estado o ônus de estabelecer políticas
públicas para redução de enfermos e de riscos de doenças. Sendo a
dependência de drogas uma doença crônica que acompanha o
indivíduo até o recebimento do tratamento, a hospitalização forçada
acaba se tornando constitucional, pois visa eliminar os riscos à
integridade física e às faculdades mentais, e preservar a vida, que é o
direito personalíssimo mais importante.


26
NOGUEIRA, Marco Aurélio; MOREIRA, Rodrigo Pereira; MARINHO, Sérgio Augusto Lima. Cidadania e
direito à saúde: Dever jurisdicional de realização do direito à saúde na ausência de provas das condições
fáticas e jurídicas desfavoráveis. Cidadania, desenvolvimento social e globalização. Curitiba: Clássica,
2013.

O viciado em substância tóxica não detém controle no uso de tóxicos,
então sua manifestação de vontades é desprovida de autonomia
particular, e sendo o Estado promotor de diretrizes sanitárias para
resguardar a vida e o sistema corporal, a internação involuntária
torna-se lícita ao sopesar a manifestação de vontade defeituosa para
assegurar o regular desempenho orgânico.

Assim sendo, vemos que a Lei 13.840 tutelou o indivíduo, hipótese


que seria diferente caso os dependentes dos tóxicos ficassem à
margem da invisibilidade do Estado, que, observados seus objetivos
constitucionais, tutela pela promoção do bem-estar físico e psíquico
com a promoção de diretrizes normativas. Assim, a internação
involuntária da Lei 13.840 é legal por promover o bem-estar humano,
no sentido de preservar a integridade física do dependente químico,
mantendo-o com as faculdades sistêmicas sem lesões de substâncias
maléficas.

Lei 14.126/2021 – Lei que define a visão monocular como


deficiência
A visão monocular é caracterizada pela capacidade de uma pessoa de
conseguir enxergar com apenas um olho.
A ausência da visão dos dois olhos implica em dificuldades de noção
de profundidade e sensação tridimensional, e em visão periférica
limitada, afetando, assim, a capacidade de atenção e convívio social
do indivíduo acometido pela doença. Há também, em alguns casos, a
necessidade de utilização de próteses, medicação e acompanhamento
médico permanente.
A pessoa com visão monocular deverá passar por perícia
biopsicossocial capaz de verificar a incapacidade. A avaliação deve
ser feita por uma equipe multidisciplinar e com profissionais capazes
de avaliar além do quadro clínico, também a questão social e
integração do indivíduo à sociedade.
Com o sancionamento da lei, a pessoa com visão monocular poderá
ter direito à aposentadoria da Pessoa com Deficiência, garantida pela
Lei Complementar 142/2013.
Com isso, o segurado com visão monocular têm o direito de adiantar
a aposentadoria por idade (60 anos para homens e 55 anos para
mulheres, em vez de 65 e 60 anos, respectivamente) e por tempo de
contribuição com tempo variável, de acordo com a avaliação pericial

determinando o grau de deficiência (leve, moderada ou grave)
avaliado pelo INSS.
Além disso, as pessoas com visão monocular passam a ter direito,
ainda, a acesso a todos os serviços que envolvam políticas públicas
de acessibilidade e maior inclusão, atendimento prioritário no SUS,
fornecimento de medicamentos e próteses.
Sendo assim, conclui-se que, com o sancionamento da Lei
14.126/2021, as pessoas com visão monocular conquistam uma
vitória importante para fins de reconhecimento de seus direitos.

c. Legislação

Lei 13.146/2015.
Código Civil arts. 1.767 até 1.783-A
Lei 10.216, de 06 de abril de 2001.
Lei 13.840/2019.
Lei nº 14.126/2021

d. Julgados/Informativos

Processo
AgInt nos EDcl no REsp 1851034 / SP
AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO
ESPECIAL
2019/0356352-2
Relator(a)
Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE (1150)
Órgão Julgador
T3 - TERCEIRA TURMA
Data do Julgamento
22/06/2020
Data da Publicação/Fonte
DJe 25/06/2020
Ementa
AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO
ESPECIAL.
CURATELA. CÔNJUGE. REGIME DE COMUNHÃO UNIVERSAL DE
BENS. AUSÊNCIA DO
DEVER DE PRESTAR CONTAS. AGRAVO IMPROVIDO.
1. Esta Corte tem entendimento de que o curador do incapaz não

será obrigado à prestação de contas quando for o cônjuge e o regime
de bens for de comunhão universal, salvo se houver determinação
judicial, nos termos do art. 1.783 do CC/2002.
2.Agravo interno a que se nega provimento.

Processo
RMS 59638 / SP
RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA
2018/0333558-1
Relator(a)
Ministra NANCY ANDRIGHI (1118)
Relator(a) p/ Acórdão
Ministro HERMAN BENJAMIN (1132)
Órgão Julgador
CE - CORTE ESPECIAL
Data do Julgamento
04/03/2020
Data da Publicação/Fonte
DJe 07/04/2021
Ementa
PROCESSUAL CIVIL. TERCEIRO PREJUDICADO NÃO INTERVENIENTE
NA LIDE. IMPOSIÇÃO DE ADIANTAMENTO DE HONORÁRIOS
PERICIAIS. INSURGÊNCIA. POSSIBILIDADE. AGRAVO DE
INSTRUMENTO E, SUPLETIVAMENTE, MANDADO DE
SEGURANÇA. ÔNUS DO ADIANTAMENTO. PERÍCIA REQUERIDA PELO
MINISTÉRIO PÚBLICO. FISCAL DA LEI. DEMANDA NÃO AJUIZADA
COMO AÇÃO CIVIL PÚBLICA. ART. 81, § 1º, DO CPC/2015.
INCUMBÊNCIA DA PARTE AUTORA. IDENTIFICAÇÃO DA
CONTROVÉRSIA
1. Trata-se de Recurso Ordinário em Mandado de Segurança
interposto contra acórdão que entendeu descabido o ajuizamento de
Mandado de Segurança pelo Estado de São Paulo que atacava a
imposição de adiantamento de honorários de perícia requerida pelo
Ministério Público, agindo como fiscal da lei, em Ação de Prestação de
Contas de curatela.
CABIMENTO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO OU DE
MANDADO DE SEGURANÇA DE TERCEIRO PREJUDICADO
NA VIGÊNCIA DO CPC DE 2015 (ARTS. 996 E 1.015)
2. O terceiro prejudicado, aquele que não interveio na lide nas
modalidades admitidas pelo CPC de 2015, tem legitimidade para

recorrer, como previsto no art. 996 ("O recurso pode ser interposto
pela parte vencida, pelo terceiro prejudicado e pelo Ministério
Público, como parte ou como fiscal da ordem jurídica.").
3. No caso dos autos, o Estado de São Paulo foi intimado a pagar o
adiantamento de honorários periciais, o que o caracteriza como
terceiro prejudicado, não integrante da lide, com imposição de
gravame imediato (pagamento da despesa processual).
4. O quadro fático não se enquadra, a princípio, nas hipóteses
restritas do art. 1.015 do CPC/2015; no entanto, o STJ,
interpretando o referido dispositivo legal, fixou a tese repetitiva
(Tema 988/STJ) de que "o rol do art. 1.015 do CPC é de taxatividade
mitigada, por isso admite a interposição de agravo de instrumento
quando verificada a urgência decorrente da inutilidade do julgamento
da questão no recurso de apelação." (REsp 1.696.396/MT, Rel.
Ministra Nancy Andrighi, Corte Especial, julgado em 5.12.2018, DJe
19.12.2018).
5. A presente hipótese amolda-se perfeitamente na mitigação do rol
do art. 1.015 do CPC/2015, pois ao terceiro - o Estado de São Paulo
- foi imediatamente imposto o adiantamento dos honorários periciais,
o que caracteriza a urgência pela inutilidade do aguardo do
julgamento da questão no recurso de Apelação, tão ressaltada pela
eminente Relatora em seu voto.
6. Tendo em vista a interpretação dada pelo STJ ao art. 1.015 do
CPC/2015, cabe ao terceiro prejudicado por decisão interlocutória,
em que configurada a urgência estabelecida no julgamento do Tema
988/STJ, a interposição, como regra, de Agravo de Instrumento, e
não de Mandado de Segurança.
7. Vale dizer, a urgência é configurada pela demonstração de risco
de prejuízo ao terceiro e pela inadequação de submeter a resolução
do tema em preliminar na Apelação.
8. Salvo engano, parece implícito no raciocínio da Ministra Nancy
Andrighi a possibilidade de interposição de Agravo de Instrumento e,
se for o caso, a sugestão é explicitar essa compreensão:
inicialmente o terceiro prejudicado deve procurar interpor Agravo de
Instrumento; não sendo viável, é que poderá apresentar Mandado de
Segurança. PECULIARIDADE DO CASO CONCRETO:
MODULAÇÃO DO TEMA REPETITIVO 988
9. O presente caso, todavia, se enquadra em peculiaridade que
autoriza a impetração do Mandado de Segurança.
10. É que, no precitado julgamento do Tema Repetitivo 988, o STJ

decidiu: "modulam-se os efeitos da presente decisão, a fim de que a
tese jurídica apenas seja aplicável às decisões interlocutórias
proferidas após a publicação do presente acórdão."
11. Os acórdãos dos REsps 1.696.396/MT e 1.704.520/MT,
representativos da controvérsia repetitiva antes mencionada, foram
publicados em 19.12.2018, e a decisão interlocutória, objeto do
Mandado de Segurança que dá origem ao presente Recurso
Ordinário, foi proferida em 17.8.2018.
12. Assim, como não era possível à ora recorrente interpor Agravo de
Instrumento como permitido pelo STJ no julgamento do Tema
Repetitivo 988 (a "taxatividade mitigada" só é aplicável a partir de
19.12.2018), cabível o Mandado de Segurança na hipótese.
13. Em resumo: caberá ao terceiro prejudicado que não integra a
relação processual em uma das modalidades de intervenção de
terceiros: a) interpor Agravo de Instrumento contra decisões
interlocutórias proferidas após 19.12.2018, em que configurado o
pressuposto da urgência estabelecido no julgamento do Tema
988/STJ; e b) ajuizar Mandado de Segurança contra decisões
interlocutórias proferidas até 19.12.2018, ou, se após essa data, não
for o caso de Agravo de Instrumento.
RESPONSABILIDADE PELO ADIANTAMENTO DE HONORÁRIOS
PERICIAIS RELATIVOS À PERÍCIA REQUERIDA PELO MINISTÉRIO
PÚBLICO, COMO CUSTOS LEGIS, NA VIGÊNCIA DO CPC DE 2015
(ARTS. 82, § 2º, e 91, §§ 1º e 2º)
14. Em primeiro lugar, importante deixar muito bem delimitada a
controvérsia, de forma a assentar que aqui se trata do ônus de arcar
com prova pericial requerida pelo Ministério Público como fiscal da
ordem jurídica em litígio não veiculado por Ação Civil Pública e
quando o Parquet não é o autor.
15. Não se discute, neste processo, eventual modificação do
entendimento, adotado na Primeira Seção sob o rito dos recursos
repetitivos (Tema 510/STJ), de que, ainda que sob a vigência do CPC
de 2015, "em sede de ação civil pública promovida pelo Ministério
Público, o adiantamento dos honorários periciais ficará a cargo da
Fazenda Pública a que está vinculado o Parquet, pois não é cabível
obrigar o perito a exercer seu ofício gratuitamente, tampouco
transferir ao réu o encargo de financiar ações contra ele movidas."
16. Para ilustrar essa posição: "A Primeira Seção desta Corte, em
sede de julgamento recurso especial repetitivo, assentou o
entendimento de que, em sede de ação civil pública promovida pelo

Ministério Público, o adiantamento dos honorários periciais ficará a
cargo da Fazenda Pública a que está vinculado o Parquet, pois não é
cabível obrigar o perito a exercer seu ofício gratuitamente,
tampouco transferir ao réu o encargo de financiar ações contra ele
movidas (REsp 1253844/SC, de minha relatoria, DJe de 17/10/2013).
Aplicação analógica da orientação da Súmula 232/STJ: 'A Fazenda
Pública, quando parte no processo, fica sujeita à exigência do
depósito prévio dos honorários do perito'. Ademais, 'não se sustenta
a tese de aplicação das disposições contidas no art. 91 do Novo
CPC, as quais alteraram a responsabilidade pelo adiantamento dos
honorários periciais; isto porque a Lei 7.347/1985 dispõe de regime
especial de custas e despesas processuais, e, por conta de sua
especialidade, referida norma se aplica à Ação Civil Pública,
derrogadas, no caso concreto, as normas gerais do Código de
Processo
Civil' (RMS 55.476/SP, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma,
DJe de 19/12/2017)." (AgInt no RMS 59.276/SP, Rel. Ministro Mauro
Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 28.3.2019, DJe
5.4.2019). No mesmo sentido: AgInt no RMS 60.306/SP, Rel.
Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, julgado em
20.5.2019, DJe 22.5.2019.
17. Essa compreensão está fundada na especialidade da Lei
7.347/1985, que dispõe de regime específico de custas e despesas
processuais para a Ação Civil Pública, sendo as normas gerais do
Código de Processo Civil incidentes de forma subsidiária apenas.
18. No caso dos autos, trata-se de Ação de Prestação de Contas que
envolve curatela, em que as partes são particulares, e o Ministério
Público, que requereu a perícia ora controvertida, atua apenas como
fiscal da ordem jurídica, e não como parte.
19. Não há como, com a devida vênia, no presente processo deliberar
sobre o ônus de suportar o adiantamento de honorários periciais em
Ação Civil Pública quando o Ministério Público é parte, ou até mesmo
quando atua como fiscal da lei naqueles casos.
20. Em relação ao contexto fático dos autos, o § 1º do art. 82 do
CPC/2015 é bastante claro ao assentar que "incumbe ao autor
adiantar as despesas relativas a ato cuja realização o juiz determinar
de ofício ou a requerimento do Ministério Público, quando sua
intervenção ocorrer como fiscal da ordem jurídica."
21. A previsão do art. 91 ("As despesas dos atos processuais
praticados a requerimento da Fazenda Pública, do Ministério Público

ou da Defensoria Pública serão pagas ao final pelo vencido.") deve
ser interpretada em harmonia com o § 1º do art. 82, de forma que a
perícia requerida pelo Ministério Público como fiscal da lei deve
ser arcada pelo autor da ação.
22. Assim, atuando o Ministério Público não como parte, mas como
fiscal da ordem jurídica em litígio ajuizado não via Ação Civil
Pública, o ônus de arcar com o adiantamento de despesas
processuais é do autor da ação, conforme expressa previsão do § 1º
do art. 82 do CPC/2015, sem olvidar a aplicação do regime da
assistência judiciária gratuita, se for o caso.
CONCLUSÃO
23. Na hipótese dos autos, o recurso merece êxito para, nos termos
do § 1º do art. 82 do CPC/2015, impor aos autores da Ação de
Prestação de Contas o adiantamento dos honorários periciais, sem
olvidar a aplicação do regime da assistência judiciária gratuita, se
for o caso.
24. Recurso Ordinário provido.

Processo
REsp 1705605 / SC
RECURSO ESPECIAL
2017/0166373-4
Relator(a)
Ministra NANCY ANDRIGHI (1118)
Órgão Julgador
T3 - TERCEIRA TURMA
Data do Julgamento
20/02/2020
Data da Publicação/Fonte
DJe 26/02/2020
Ementa
CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. DIREITO DE FAMÍLIA NO CÓDIGO CIVIL
DE 1916. OMISSÃO NO JULGADO. INOCORRÊNCIA. EXAME DAS
QUESTÕES RELEVANTES SUBMETIDAS AO ÓRGÃO JULGADOR.
CURADOR JUDICIAL. OUTORGA DE PROCURAÇÃO A TERCEIRO, EM
NOME DA CURATELADA, SEM AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. NULIDADE
RELATIVA. ANULABILIDADE. CONVALIDAÇÃO OU RATIFICAÇÃO
JUDICIAL POSTERIOR. POSSIBILIDADE. CONTRATAÇÃO, PELO
MANDATÁRIO, DE ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA PARA DEFESA DA

INTERDITADA EM AÇÃO RESCISÓRIA. POSSIBILIDADE. PODERES DE
GESTÃO PATRIMONIAL, NO CÓDIGO CIVIL DE 1916,
CONCENTRADOS NA FIGURA DO CÔNJUGE VARÃO. AUSÊNCIA DE
TRANSFERÊNCIA DA PRÓPRIA CURATELA. OBSERVÂNCIA DO
MELHOR INTERESSE DA INTERDITADA.
1- Ação ajuizada em 10/12/2001. Recurso especial interposto em
17/12/2015 e atribuído à Relatora em 08/08/2017.
2- Os propósitos recursais consistem em definir: (i) se houve
omissões relevantes no acórdão recorrido; (ii) se poderia o curador
judicial constituir procurador, sem prévia autorização judicial,
para celebrar negócios jurídicos em nome da interditada, em especial
a contratação de advogados para a defesa da interditada em ação
rescisória que fora contra ela ajuizada.
3- Inexiste omissão no julgado que examine as questões relevantes
para o desate da controvérsia, ainda que em sentido diverso daquele
pretendido pela parte.
4- A inobservância da regra do art. 427, VII, do CC/1916 (atual art.
1.748, V, do CC/2002), que prevê que caberá ao tutor, e também ao
curador, apenas mediante prévia autorização judicial, propor ou
responder as ações que envolvam o tutelado ou curatelado, é causa
de nulidade relativa (ou anulabilidade) suscetível de convalidação e
ratificação judicial posterior.
5- A outorga de procuração, pelo curador judicial e cônjuge da
interditada, para que terceiro, em nome dela, celebrasse contrato de
prestação de serviços advocatícios para defendê-la em ação
rescisória, deve ser reputada como válida, na vigência do CC/1916,
tendo em vista o contexto normativo e social que previa a cessão de
uma vasta gama de poderes de gestão e de administração ao cônjuge
varão e, sobretudo, por não ter havido a transferência da curatela
propriamente dita, mas, apenas a gestão dos bens de propriedade
dos cônjuges, bem como por ter sido buscado e atingido o melhor
interesse da interditada.
6- Recurso especial conhecido e desprovido.

1000233-26.2020.8.26.0439
Classe/Assunto: Apelação Cível / Medidas de proteção
Relator(a): Issa Ahmed
Comarca: Pereira Barreto
Órgão julgador: Câmara Especial
Data do julgamento: 15/03/2021

Data de publicação: 15/03/2021
Ementa: APELAÇÃO E REMESSA NECESSÁRIA, CONSIDERADA INTERPOSTA.
Ação de obrigação de fazer. Adolescente diagnosticado com autismo,
estudante da rede estadual de ensino. Pretensão de fornecimento, pelo
Estado de São Paulo, de professor auxiliar para acompanhamento do autor
durante o período escolar. Insurgência da Fazenda Pública contra sentença
de procedência. Não acolhimento. Comprovada a necessidade da assistência
educacional pleiteada. Direito fundamental à educação das crianças e
adolescentes com necessidades especiais. Previsão pela Constituição Federal
e legislação infraconstitucional. Princípios da isonomia e da dignidade da
pessoa humana, que determinam gestão educacional direcionada à plena e
efetiva inclusão de alunos nestas condições. Ausência de violação à
autonomia administrativa e à separação dos Poderes. Possibilidade do
professor designado de assistir outros discentes que dele necessitem e
pertençam à mesma escola em que está o requerente. Remessa necessária e
recurso de apelação da Fazenda Estadual não providos, com observação

1048056-51.2017.8.26.0002
Classe/Assunto: Apelação Cível / Indenização por Dano Material
Relator(a): Maria Salete Corrêa Dias
Comarca: São Paulo
Órgão julgador: 2ª Câmara de Direito Privado
Data do julgamento: 29/03/2021
Data de publicação: 29/03/2021
Ementa: AÇÃO DE COBRANÇA. Sentença de parcial procedência. APELAÇÃO.
Apelante que alega caber a devolução dos valores recebidos somente após o
autor sair de sua residência. Réu que exerceu a tutela fática do autor, após o
falecimento de seu genitor. Documentos que indicam que os valores
beneficiários recebidos pelo réu foram revertidos em prol do autor.
Inexistência de documentos que comprovem que os valores recebidos após o
autor atingir a maioridade o tenham beneficiado. Sentença mantida.
RECURSO DESPROVIDO.

1000761-91.2020.8.26.0073
Classe/Assunto: Apelação Cível / Capacidade
Relator(a): HERTHA HELENA DE OLIVEIRA
Comarca: Avaré
Órgão julgador: 2ª Câmara de Direito Privado

Data do julgamento: 17/02/2021
Data de publicação: 17/02/2021
Ementa: APELAÇÃO – AÇÃO DE TUTELA – SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA
NOMEANDO-SE A AVÓ MATERNA COMO TUTORA DA ADOLESCENTE –
INCONFORMISMO MANIFESTADO PELO CURADOR ESPECIAL - PRELIMINAR
DE CERCEAMENTO DE DEFESA – NÃO PRODUÇÃO DE PROVAS
ESPECIFICADAS - CERCEAMENTO DE DEFESA NÃO CARACTERIZAÇÃO -
PRELIMINAR REJEITADA - MÉRITO – INADMISSIBILIDADE – AUSÊNCIA DE
INDÍCIO DE INADEQUAÇÃO DA AVÓ MATERNA PARA O EXERCÍCIO DO
ENCARGO – COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL DO FALECIMENTO DE AMBOS OS
GENITORES – INTELIGÊNCIA DO ART. 28, § 3º, DO ESTATUTO DA CRIANÇA
E DO ADOLESCENTE - SENTENÇA MANTIDA – RECURSO DESPROVIDO

e. Leitura sugerida

- DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias, 14ª ed.


Juspodivum, 2020.

- DINIZ, Maria Helena. Manual de Direito Civil. São Paulo: Saraiva,


2015

- GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro – Vol 6 – Direito


de Família. 19ª ed. São Paulo: Saraiva, 2021.

- PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Dicionário de Direito de Família e


Sucessões Ilustrado. São Paulo. Ed. Saraiva. 2017.

- PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Direito das Famílias, 2ª ed. Forense,


2020.

- ROSENVALD, Nelson; FARIAS, Cristiano Chaves de. Curso de Direito


Civil – V.6 – Famílias. 9ª ed. Salvador: Juspodvm, 2017.

- VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: Direito de família. Vol 5. 20º.


ed. São Paulo: Atlas, 2020.

f. Leitura complementar

- COSTA, Alie Maria Gomes Massoni; BRANDÃO, Eric Scapim Cunha.


As alterações promovidas pela Lei nº 13.146/2015 (Estatuto da
pessoa com deficiência) na teoria das incapacidades e seus
consectários. Disponível em
http://www.tjrj.jus.br/documents/10136/3543964/artigo-
interdicao.pdf
Acesso em 25/04/2021.

- FURST, Marcela Maria. Estatuto da pessoa com deficiência e o


direito de família.
https://dramarcelamfurst.jusbrasil.com.br/artigos/305114606/o-
estatuto-da-pessoa-com-deficiencia-e-o-direito-a-familia
Acesso em 25/04/2021.

- MENDES, Joyceane Berreza de; CORREIA NETO, Jáder de


Figueiredo. INTERDIÇÃO E CURATELA NO NOVO CPC À LUZ DA
DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E DO DIREITO CIVIL
CONSTITUCIONAL. Disponível em:
http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=029b50deea7a25c4
Acesso em 25/04/2021.

_____. Conheça o Estatuto da Pessoa com Deficiência. Disponível


em: https://www.nelsonrosenvald.info/single-
post/2015/08/24/Conhe%C3%A7a-o-Estatuto-da-Pessoa-com-
Defici%C3%AAncia
Acesso em 25/04/2021.

_____. O ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA E A “VOLTA DAS


(NORMAS) QUE NÃO FORAM”. Disponível em:
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=14611442442
03264&id=1407260712924951
Acesso em 25/04/2021.

- OLIVEIRA, Rogério Alvarez de. Exercício da Curatela e os Deveres e


Obrigações do Curador.
https://www.conjur.com.br/2019-jan-07/mp-debate-exercicio-
curatela-deveres-obrigacoes-curador
Acesso em 25/04/2021.

- NEPOMUCENO, Márcio Rafael G. Guarda, Tutela e Curatela.


https://www.jurisway.org.br/v2/dhall.asp?id_dh=19750
Acesso em 25/04/2021.

- PENA , Thiago Cardoso.Reflexões sobre a Curatela.


http://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI273376,101048-
Reflexoes+sobre+a+curatela.
Acesso em 25/04/2021.

- REQUIÃO, Maurício. Conheça a tomada de decisão apoiada, novo


regime alternativo à curatela. https://www.conjur.com.br/2015-set-
14/direito-civil-atual-conheca-tomada-decisao-apoiada-regime-
alternativo-curatela
Acesso em 25/04/2021.

- RIVA, Léia Comar. O direito de família e as novas determinações do


estatuto da pessoa com deficiência. http://www.rkladvocacia.com/o-
direito-de-familia-e-as-novas-determinacoes-do-estatuto-da-pessoa-
com-deficiencia/
Acesso em 25/04/2021.

- SCARLET, Ingo Wolfgang. Internação obrigatória não pode ser


utilizada de modo generalizado. https://www.conjur.com.br/2016-
dez-09/direitos-fundamentais-internacao-obrigatoria-nao-utilizada-
modo-generalizado
Acesso em 25/04/2021.

- TARTUCE, Flavio. Estatuto da pessoa com deficiência. Uma nota


crítica.
https://flaviotartuce.jusbrasil.com.br/artigos/338456458/estatuto-
da-pessoa-com-deficiencia-uma-nota-critica.
Acesso em 25/04/2021.

- VAGNER, Joselma. Sancionada Lei que define visão monocular como


deficiência.
https://jus.com.br/artigos/89385/sancionada-lei-que-define-visao-
monocular-como-deficiencia
Acesso em 25/04/2021.

- VASCONCELOS, Matheus. Problemática acerca da dificuldade de
nomeação de curador quando há conflito na família do curatelado.
https://jus.com.br/artigos/79465/curatela-no-brasil
Acesso em 25/04/2021.

- VORCARO, Maria Eduarda Guimarães de Carvalho Pereira e


GONCALVES, Bernardo José Drumond. Análise objetiva das principais
alterações advindas do Estatuto da Pessoa com Deficiência.(Lei
13.146/15)
http://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI275942,71043-
Analise+objetiva+das+principais+alteracoes+advindas+do+Estatuto
+da
Acesso em 25/04/2021.

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