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O Fabuloso Livro Verde, Andrew Lang

© Editora Concreta, 2018

Título original: The Green Fairy Book

Os direitos desta edição pertencem à


EDITORA CONCRETA
Rua Dr. Vale, 24, conj. 402 – Bairro Floresta – CEP: 90560-010
Porto Alegre – RS – e-mail: contato@editoraconcreta.com.br

EDITOR:
Renan Martins dos Santos

TRADUTORES:
Marcela Saint Martin
Raul Martins Lima
Veríssimo Anagnostopoulos

REVISÃO:
Gabriel Ceroni Lied

ILUSTRAÇÕES:
Carolina Pontes

CAPA & EDITORAÇÃO:


Hugo de Santa Cruz

DESENVOLVIMENTO DE EBOOK:
Loope – design e publicações digitais
www.loope.com.br

FICHA CATALOGRÁFICA

Lang, Andrew, 1844-1912

L2691o O Fabuloso Livro Verde [edição eletrônica] / edição de Renan Santos. – Porto
Alegre, RS: Concreta, 2018.

ISBN 978-85-68962-32-9

1. Literatura infantil. 2. Contos de fadas. 3. Folclore. 4. Coletânea. I. Título.

CDD-808.899282

Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer


reprodução desta edição por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica
ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer meio.
www.editoraconcreta.com.br
Q
uem acompanha os dados referentes ao sistema
educacional brasileiro tem visto, ano após ano, uma nítida
e acentuada decadência. Pesquisas recentes indicam que
estamos na penúltima posição entre os 36 países investigados pela
OCDE para o ranking internacional de educação. Agravando ainda
mais o quadro nacional, metade dos nossos universitários são
analfabetos funcionais. As trágicas repercussões disso fazem-se
sentir de muitas formas em toda a sociedade.
Enquanto os governantes repetem infinitamente as soluções de
sempre à situação, seja propondo aumento da carga horária de
aulas, aumento do número de anos de frequência obrigatória,
melhor remuneração aos professores, (a clássica) “mais
investimentos em educação”, ou ainda uma combinação de todas as
opções anteriores, pouco ou nada revelando, contudo, sobre o que
de fato têm em mente ao falar em educação, acredito que grande
parte da solução do problema passa por uma distinção entre
educação e escolarização.
Em termos gerais, pode-se dizer que a primeira envolve a
totalidade do sujeito, conduzindo-o de maneira autoconsciente para
além de si mesmo em direção aos outros, ao mundo e à realidade;
já a segunda diz respeito basicamente a um conjunto de habilidades
que têm por objetivo a preparação da pessoa para o mundo do
trabalho. Assim, compreender que educação e escolarização são
coisas diferentes, sendo a primeira muito mais ampla, profunda e
podendo ou não abarcar a segunda, gera então a pergunta sobre
quem seriam os responsáveis por este processo que extrapola em
muito o âmbito da escola.
A resposta contempla duas possibilidades: em se tratando de
indivíduos adultos, eles próprios são os responsáveis pela
promoção de seu crescimento; por outro lado, no entanto, em se
tratando de crianças, os pais são os responsáveis por conduzi-las
neste caminho para além de si mesmas, ampliando seus horizontes
e possibilitando sua inserção no mundo de modo muito mais pleno.
E é pensando nelas, nas crianças, que o selo Homebooks vem a
público.
Ao contrário do que afirmam os especialistas, acredito que os pais
têm condições de educar seus filhos, adotando ou não,
paralelamente, o apoio da escola. Baseada nessa convicção,
confirmada pela realidade de um incontável número de famílias
brasileiras que praticam o homeschooling, o selo Homebooks
pretende oferecer aos leitores conteúdos de qualidade que
contribuam para a restauração do protagonismo familiar na
educação dos filhos. Para isso, estão entre os alvos contos de fadas
em suas versões originais, manuais de homeschooling, apostilas de
diferentes disciplinas e muito mais.
Espero que esta iniciativa, empreendida por uma simples dona de
casa e mãe homeschooler, e acolhida tão calorosamente por um
jovem e entusiasmado editor, encoraje você, leitor, a não esperar
pelas velhas “soluções” governamentais, mas a assumir o seu
quinhão de responsabilidade pela conquista de uma formação
melhor para suas crianças e, consequentemente, de um futuro
melhor para o nosso país. Quiçá a longo prazo consigamos auxiliar
na reversão do triste cenário atual.
Com um abraço,
CAMILA ABADIE
Fundadora do selo Homebooks
AGRADECIMENTOS AOS COLABORADORES

Através de campanha de pré-venda no website da Concreta, 450


pessoas fizeram sua parte para que este livro se tornasse realidade.
A seguir, a lista com seus nomes:
Adalcindo Elias Martins Leal
Adaylson Wagner S. de Vasconcelos
Adriana Alves da Silva
Adriana Lima da C. Vargens Nunes
Adriano Dal Molin de Oliveira
Adrielle Tomaz Tonin
Adrievelly Catana Freitas da Silva
Alan Alfim Malanchini Ribeiro
Alex Quintas de Souza
Alexandre Luis Soares Pereira Jr. Alexandre Luiz Rampin
Alexandre Marques
Alexandre Queiroz de Almeida
Alexandre Ventieri
Alice Cavalli Viscardi
Alice Fockink Mendes
Alice Henriques
Aline Schneider
Aline Zamboni
Alita Medeiros de Lima
Amantino de Moura
Ana Beatriz de Oliveira Sousa
Ana Beatriz Valente
Ana Borba Ferrari Carrati
Ana Clara Purcina Guimarães
Ana Júlia de Alcântara Góes
Ana Luiza Marcelino Oliveira
Ana Nely Castello Branco Sanches
Anderson Cleiton Sales Rocha
Andre Betzler de Oliveira Machado
André Carezia
André Longo
Andre Melo Rios
André Miguel Cavalcante Vieira Maia
Andre Moreira
André Ortlieb Quinto
André Vinícius V. de Sant Anna Alves
Andressa Francisca Ribeiro de Souza
Andrey Gómez Kopper
Angélica Jado chagas
Ângelo Augusto Fernandes Barboza
Ângelo Daniel Medeiros de Lima
Anny Kássio
Antônia Trevisoli
Antônio Carlos Soares
Antônio Gomes da Silva Jr.
Antonio Jefferson Cavalcante Araújo
Antonio Jorge De Paula Vicente
Antonio Moura
Antonio Santos de Oliveira
Argemiro Ferreira
Aristela Barcellos de Andrades
Armando Pugliesi do Nascimento
Arthur Alves Marcelino
Arthur Belmonte
Arthur Costa Adriano
Artur Andrade
Augusto César da Silva Campos Filho
Aurora Rocha Aydar
Bárbara Galvão
Beatriz Fontenele Oliveira
Beatriz Martins Ribeiro Ferdinandes
Beatriz Monteiro Tin
Benício Santiago Neiva Viana
Benjamin Carson V. de Albuquerque
Bento Pedrini Menegotto
Bernardo Minoru Lay Silva
Breno Braz Zanchetta Pinhal
Bianca Thomazine Brocchi
Brunno Pinto
Bruno Diniz Teixeira
Bruno Leal
Bruno Vendramini
Caio Bastos Perozzo
Camila Zuany Siqueira
Carla Manzzini De Carli
Carlos Alexander de Souza Castro
Carlos Alexandre de Moraes Leme
Carlos Calmon
Carlos Felipe dos Santos e Silva
Carlos Roberto Bach
Cassia Regina Silva
Cassius Garcia
Cecília Caprara dos Santos
Cecília Resende Gouveia
Cecília Souki Leal D’Carlos Barbosa
Celio Antonio Pereira Jr.
César Gianni
César Pacheco
Christian Rocha
Cintia Adriane de Aquino Daflon
Cintia Magalhaes
Clarice Amaral Silva
Clarisier Morais
Claudia Marcia Pompein L. Gomes
Claudia Viana
Claudio Costa
Cleto Marinho de Carvalho Filho
Clovis Amaral
Cristiano Bordoni Silva
Cristiano Eulino
Cristiano Galhardo Cinti
Cristiano Nunes Laureano
Cristina Alcântara
Daiane C. D. Nezzi
Dallima Um Tseng
Daniel Andrighetti Gewehr
Daniel Cirne Torres
Daniel Felipe Bonfim da Silveira
Daniel Mello
Daniel Pereira Volpato
Daniel Ribeiro da Silva
Daniela Azevedo
Danielle Mendes Rodrigues
Daphne Resende Gouveia
Davi Bertolino Café dos Santos F. C.
Davi Heckert Bastos
Davi Luigi Zuchi Marchesini
Davi Moura
Davi Oliveira Calderaro Cunha
Davy Ferreira Leite Sales
Dayane Cazassa
Deborah Almeida Lucena
Deisiane Cechinel Demessiano
Delania Gomes Vieira
Denys Alves dos reis
Denyse Tavares Lopez
Diego Onetta
Douglas Pelegati
Douglas Zanardi
Drayfine Moura
Ederson Oliveira
Edgar Martins Lírio
Ednei Consolmagno Jr.
Edson Flávio de Almeida Pessôa
Eduardo Chaves Bueno
Eduardo dos Santos Piva
Eduardo Fernandes
Eduardo Furtado da Silva
Eduardo Mecenas Nina
Elaine Carvalho Lima de Freitas
Elba Valéria da Silva Vieira
Eliane Lopes
Elisa Basso
Elisandra Canabarro
Elisângela Nojoza Aires
Elivelton Ribeiro de Brito
Elizabeth de Mello Santos Oliveira
Else Mandelli
Emília Lourenço
Emílio Vagnon Figueiredo Silva
Enzo Nicollas Pereira dos Santos
Érica Hanke
Erick Robles Lima
Estela Lourenço Thé Vanin
Ester Andrade Saint Martin
Esther Pedrini Menegotto
Ettore Nicolau Jose da Rocha
Eugenia Beatriz V. Werneck Nunes
Eugênio Silva Gomes
Fabia F. de Albuquerque da Cunha
Fábio Aurélio Bonk
Fabio Dias
Fábio Salgado de Carvalho
Fabio Seiji Koguti
Fabio Silva Ribeiro
Fabricio dos Santos Vieira
Fabricio Esmeraldino de Jesus
Felipe Araujo
Felipe Bello Dias
Felipe Gonçalves Assis
Felipe Pina
Fernanda Mendes Higuti
Fernanda Xavier dos Santos Ferreira
Fernando Gonçalves
Fernando José Ribeiro
Fernando Pasquini Santos
Fernando Passos
Flaurinete do Nascimento O. Torres
Flaviany Marques Martins Mourão
Flávio Sebastião Rocha Macedo
Francine Hehn de Oliveira
Francisco Assis Corrêa Jr.
Francisco Conrado Ferreira Penço
Francisco Yukio Hayashi
Frank Costa Cavalcante
Frederico Mendonça
Gabriel Antonio Macêdo Ferreira
Gabriel de Paula
Gabriel Valdino Burkhardt
Gabriel Warken Charczuk
Gabriela Rigo Rotta
Gabriela Soares Arrigoni
Getúlio César Arrais
Giovane Goulart Fiorentino
Gisela Lamarca
Gisele Santos
Giselle Marques de Godoi Velasco
Giuliano Sasso Teixeira
Glaucia Elisa de Paula Mizuki
Glaudiney Mendonça
Gleice Marins
Glicia Siqueira
Gracian Li Pereira
Guiguelhe Arraes Silva
Guilherme Acurcio Barbosa
Guilherme Cerqueira K. de Campos
Guilherme Cerutti Muller
Guilherme Oliveira
Gustavo Araujo
Gustavo Gianesini
Hapuque Marinho
Helena Arrias Haswell
Helena Petersen Schiffner
Henrique Bolfe Passig
Henrique Franklin da Silva
Humberto Laudari
Iago da Silva Rios
Igor Borges de Castro
Igor de Paula Cardoso
Igor Silveira Santos
Irena Klumb
Iris Ferreira Leite Chagas da Silva
Isabel Cristina Barbosa Trevisoli
Isabel Souza Mendes Moura
Isabella Lessa
Isadora Bonfante Rosalem
Ismael Cittadin
Jacqueline Silva dos Santos
Janaína Lopes Oliveira Brito
Janaína Rodrigues Martins
Jaqueline Santos Lima Almeida
Jean Carlos Diniz Lopes
Jeferson Kuhnen
Jefferson Zorzi Costa
Jéssica Orth da Silva
João Carlos Crestani Jr.
João Coelho Tavares
Joao Diego de Sousa Torres
João Furlan Monteiro
João Gustavo Costa Siscato
João Lucas Lins Ferreira Leite
João Luís Ferreira Batista
João Marcelo Farias
João Miguel dos Santos Adriano
João Pedro Liberio Alves
João Victor Santos de Moraes
Joaquim José da Silva Moura
Joelson Severo dos Santos Azevêdo
Johann Alves
Jorge Donizetti Pereira
Jorge Gabriel Carvalho Pessoa
Jorge Guilherme Torres de O. Matos
Jose da Costa Neto
Jose Eduardo de Mello Barboza
José Menezes
José Ribamar Dias Jr.
José Ricardo da Silva Cavalcanti
Jose Roberto Milevuski
José Ruy Corrêa Jr.
Josué Tavares do Rego Campina
Joubert Carraro
Joana Bertolino Café dos Santos F. C.
João Pedro Costa Medeiros Bento
Judá Montiel Alves Ferreira
Juliana Carvalho Ribeiro
João Filipe V. Werneck Nunes
João Gabriel Mensch de B. Almeida
Julio Rodrigues
Kamila Thabita Alves da Silva
Karina Bastos
Laércio Vitorino
Lais Diniz Pranzetti
Larissa da Silva Santos
Larissa de Souza Rabelo
Larissa Silva
Laura Amélia Linden Gomes
Leandro Henrique Dessart
Leandro Marchezan
Leandro Marcio Teixeira
Leonardo Alves Paulo
Leonardo de Carvalho Rocha
Leonardo Gabriel da Costa Filho
Leonardo José Ribeiro da Silva
Leonardo Monteiro Carvallo
Leonardo Souza
Letícia Bastos de Andrade
Leylane Maia
Lidiane Foureaux
Liliane Miilher
Lincoln Almeida
Lívia Formaggio Lara Ratola Azevedo
Livia Holanda
Lívia Portela Monteiro
Lorenzo Fogliarini Wendt
Loriane Comeli
Luana dos Santos Oliveira Nunes
Luana Kim Jardim Picanço
Lucas Andrighetti Gewehr
Luciana Guimarães Borges Rebello
Luciane Torres Freitas
Luigi Scalco Ulrich
Luís Castro
Luís Fernando Rezende Ferreira
Luís Guilherme Bonafé Gaspar Ruas
Luis Pereira
Luiz Afonso Dias Matos
Luiz Antônio Alves Marcelino
Luiz Carlos Santos Vieira
Luiz Felipe Montecinos
Luiz Raphael M. de Menezes Henn
Luiz Octavio Cim Pereira
Lysandro Sandoval
Manuela Lócio Mallmann Sampaio
Marcelo Correia Pereira
Marcelo Santos Pinto
Marcia B. Daldon
Marcio Pohlmann
Marco Antônio Oliveira e Silva
Marcos Alcântara
Marcos Aparecido Silva
Marcos Gomes
Marcos Ribeiro
Maria Alvarenga
Maria Calderaro Cunha
Maria Cecilia Martins Manckel
Maria de Lourdes Barbosa Guimarães
Maria Eugênia Arrais
Maria Isabel Belmonte
Maria Julia Belmonte
Maria Pedrini Menegotto
Maria Regina Benedita dos Santos
Mariana Fernandes Baptista
Mariana Moraes
Mariana Scarsi Grohs
Marina Fonseca Martins
Marina Guimarães
Marina Pessini
Marinaldo Cavalari
Marlan Alves Santana Batista
Mateus Ceretta Sfredo
Mateus Cruz
Matheus Knychala Biasi
Matheus Paiva Moscardini
Maurício Paraboni
Mayara Pereira
Miciara Pinto Serafim Baia
Miguel Almeida Leme
Miguel Antonio Oliveira de Souza
Miguel Francisco Franzen de Souza
Miguel Freire de Resende
Miguel Lourenço Thé Vanin
Miguel Marcelino de Lima
Mikael Ribeiro Negreiros
Miria Rodrigues
Mislaine Aparecida Santos
Morena Maggi de Moraes
Naira da Silva Faria Landim
Nayara Yone Bueno Yamashita
Nicholas Augusto Gauto
Nicolas Barbieri Beoni
Nilceia Bianchini
Nilza Russo Ferreira
Nina Joy Meira
Olavo Barreto de Souza
Othavio Backes
Pablo Barboza Cardoso
Pâmela Arumaa
Patrícia A. F. Franco de Lima
Patrícia De Sousa Cirera
Patricia Felix de Almeida
Patricia Peterson Santos Vanini
Patrik Vitório Pinto
Paulo Afonso de Mello Correa
Paula Anjos
Paulo Chiaroni
Paulo De Tarso Irizaga Pereira
Paulo Henrique Brasil Ribeiro
Paulo José Péret de Sant’ Ana
Paulo Marcelo Moraes Santana
Paulo Oliveira Calderaro Cunha
Paulo Roberto Magalhães Cristino
Pedro Miguel da Silva Costa
Pedro Paulo Mendonça Bulcão
Pedro Pinheiro Antonelli
Pedro Santos de Moraes
Phellipe Ribeiro
Priscila Maranhão
Priscila Tenório
Quésia Talita Ribeiro Lírio
Rafael Alves Cursino
Rafael Caetano dos Santos Conceição
Rafael Plácido
Rafael Rocha Ferreira
Rafaela Freire Machado
Raimundo Felipe de Aguiar
Raphael Barbosa Justino Feitosa
Raphael Feitosa
Raul Gonzaga
Reginaldo Amorim
Reginaldo Passero Jr.
Renan Massoto Mendes
Renata Fangueiro
Renata Gomes Bessa Luz
Renata Jardim Meneses
Renata Passos Martins
Renato Cadecaro
Renato Emydio da Silva Jr.
Renato Guimarães
Ricardo Felipe Ferreira Rodrigues
Ricardo Gasparini
Ricardo Ribeiro da Costa
Rodrigo Domenico
Rodrigo Domingos dos Reis
Rodrigo Donizete Santana de Pádua
Rodrigo Eidelvein do Canto
Rodrigo Erichsen
Rodrigo Lamar
Rodrigo Sevilha
Roger Mendes
Rogério Siqueira Peters
Ronald Rafael Lorenzi
Ronaldo Vicente
Ronan Okano Gimenes
Ronney Lira
Roscio Chaves
Rubem Seixas
Rubens Jardin Nochi Jr.
Sabrina Gardner
Safira Yuko Ohta
Samia Marsili
Samuel da Silva Marcondes
Samuel L. Santos
Samuel Tavares do Rego Campina
Sandro Boschetti
Sara Calderaro Cunha
Sara Rigo Rotta
Saulo Daniel Silva
Selma Leite de Souza
Sharlie Macente Sirqueira
Sheila Graaff
Sideval Ramos de Paula
Sidicleia dos Santos Jesus
Silvio José de Oliveira
Sim Oliveira Alves
Sofia Calderaro Cunha
Sofia Helena Lacombe Cardoso
Sofia Psiquê da Silva Costa
Sofia Silva Cardoso
Sofis Albrecht
Solange da Silva
Tammy Alcala Chaves
Tarcisio Moura
Tarsila Meschiari Scotti
Tatiana Cristina D’Artibale
Tatiany Fernandes Silva Baptista
Télia Oliveira Alves
Teresa Souki Leal D’Carlos Barbosa
Thalles Gabriel Raineri
Thays Costa Dutra Abreu
Theodoro Mota Colombo
Thiago Barbosa de Sousa
Thiago Henrique Avelino Cruz
Thiago Junglhaus
Thiara Laranjeira Passos
Tiago Assad
Tiago Aurich
Tomás Sakumoto Patote
Valdirene Bento Alves
Valfrêdo Felinto Cardoso Filho
Vanessa Ribeiro S. Berini Piccolo
Vicente Rigo Niquetti
Victor Fonseca
Victor Roner Freire Gomes
Victoria Bertolino Café dos Santos O.
Vinícius Emanuel Salvador
Vinicius Vicente Martins
Virlaine Regina Silva Brito
Vitor Hugo Pontes Butrago
Vitor Mendonça Ferreira
Vitor Montenegro
Vivian de Araujo Calliga
Waleska Montenegro de Melo Dantas
Wendy Fumis Consolmagno
Werbson Laurentino
Werner Spolidoro Freund
William José Werter
Yanni Porfírio de Arruda L. de Souza
Yuri Bandin Sátiro
Yuri Gagarin da Ponte Ribeiro
Yuri Magadan
SUMÁRIO

Capa
Folha de Rosto
Créditos
Homebooks
Agradecimentos aos colaboradores
Sumário
Prefácio à edição brasileira
Dedicatória
Prefácio à edição original
O Pássaro Azul
O Meio Pintinho
A história do Califa Cegonha
I
II
III
IV
V
O Relógio Encantado
Rosanela
Silvano e Jocosa
O pássaro amarelo
Dons de Fada
O Príncipe Narciso e a Princesa Potentila
O Príncipe Cabeça-de-Vento e a Princesa Celidônia
Os Três Porquinhos
Coração Gelado
O Anel Encantado
A Tabaqueira Mágica
A Mérula Dourada
O Soldadinho
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
IX
O Cisne Mágico
A Pastora Suja
A Serpente Encantada
Os Trambiqueiros Trambicados
O Rei Kojata
O Príncipe De Lua e a Bela Helena
Batraquinha
A história de Hok Lee e os Anões
A história dos Três Ursos
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida
A Pequena Um-Olho, a Pequena Dois-Olhos e a Pequena Três-
Olhos
Jorinde e Joringel
Allerleirauh, ou a Besta de Mil Peles
Os Doze Caçadores
Fuso, Lançadeira e Agulha
O Caixão de Cristal
As Três Folhas de Serpente
O Enigma
João d ’Ouriço
Os Rapazes de Ouro
A Serpente Branca
A história do Alfaiate Astuto
A Sereia de Ouro
A Guerra do Lobo e da Raposa
A história do Pescador e sua Esposa
Os Três Músicos
Os Três Cães
Prefácio à edição brasileira

Era uma manhã qualquer de trabalho, ainda bastante tranquila e


silente, há aproximadamente quatro anos. Sentei-me à mesa, liguei
o computador, abri os e-mails entre um gole e outro de café, sem
pressa, e, naquela pequena lista à espera de resposta, encontrei um
comentário a um post escrito recentemente em meu blog
Encontrando Alegria, aguardando moderação. Tratava-se de um
texto a respeito de nossa decisão de não mais utilizarmos televisão
em nossa casa. Cliquei para ler o comentário e deparei-me, então,
com um pequeno parágrafo bastante gentil repleto de
agradecimentos. O que eu não esperava, contudo, era a frase de
encerramento, expressa mais ou menos nos seguintes termos: “eu
não sabia que era possível viver sem televisão”. Fui tomada de
perplexidade.
Reli o comentário em busca de algo que me houvesse escapado.
Não havia ironia naquelas poucas linhas. A surpresa do meu
interlocutor era sincera, assim como a minha própria também o era.
Sua reação ao meu texto evidenciava, por um lado, a onipresença
da “telinha” nas casas por ele frequentadas, mas, por outro,
demonstrava algo muito mais dramático: sua reduzida capacidade
imaginativa, decorrência direta de um escopo de vivências bastante
limitado. Afinal, qual a amplitude de um horizonte que ignora o fato
de que somente muito recentemente, há pouquíssimas décadas, a
televisão passou a fazer parte da história humana? Por
surpreendente que possa parecer às novas gerações, os eletrônicos
em geral, não só a TV, são exceções em termos de entretenimento
e comunicação, não a regra em que a maior parte dos nossos
antepassados viveu.
Mais recentemente, passados alguns anos, lia eu a História de
uma família, sobre os Martin, a família de Santa Teresinha do
Menino Jesus. Em um capítulo bastante avançado da narrativa, já
em época posterior ao falecimento de Santa Zélia e à mudança para
Lisieux, surge a descrição do modo como a família divertia-se: nada
de festas e bailes, nada de grandes ajuntamentos com pessoas
desconhecidas, nada de passeios dispendiosos, nada de
exibicionismo e consumismo, mas somente a discrição dos passeios
a pé pelo campo e o deleite junto aos chamados “serões”, aqueles
agradáveis momentos antes de irem deitar-se, quando liam alguma
história em voz alta, cantavam, brincavam. É reveladora a
expressão utilizada pelo padre Piat ao resumir as práticas dos
Martin a este respeito: “eles eram auto-suficientes em seus
recreios”. Descobri-me perplexa mais uma vez.
Interrompi a leitura e procurei refletir sobre as razões de minha
perplexidade. Descobri, então, com grande pasmo, que, apesar de
já vivermos em família algo muito parecido ao relatado pelo padre,
meu olhar e minha compreensão estavam ainda muito
condicionados pelo nosso tempo, escapando-me, portanto, as
categorias corretas com que pensar e entender aquilo que vivíamos.
Em outras palavras, até aquele momento, era-me muito custoso ver
que o fato de não estarmos em busca de elementos externos que
animassem nossa vida familiar, sobretudo nossos singelos
divertimentos, não era, absolutamente, um problema, uma
incompletude, uma falha ou omissão. Pelo contrário.
Especificamente sobre esse aspecto, a família Martin mostrou-me
que, quando os pais são generosos no acolhimento dos filhos e,
além disso, conduzem-nos por um caminho de riqueza interior,
então não há nada de errado em que eles “se bastem” na hora da
diversão, pois cada um, com seu temperamento e talentos
particulares, consistirá num grande acréscimo de alegria aos
demais.
Mas, afinal de contas, o que tudo isso pode ter a ver com esta
pequena esmeralda que Andrew Lang colocou em nossas mãos?
Não é difícil perceber que tudo o que foi dito até aqui faz parte de
um mesmo âmbito de nossas vidas, isto é, aquele espaço destinado
aos recreios, à diversão, ao entretenimento, âmbito este em que a
literatura, bem como os Fabulosos Livros Coloridos, também podem
ser situados. Mas talvez o que não seja tão fácil perceber, e que as
diferentes situações acima referidas nos mostraram, é o quanto o
fato de termos uma imaginação demasiadamente limitada – pois
alguma limitação é constitutiva – acaba por restringir nosso próprio
modo de vida. Como poderemos refletir e avaliar o modo como
vivemos se não conseguimos sequer imaginar um modo distinto? E,
se não conseguimos nem ao menos imaginar uma outra maneira de
viver e conduzir determinados aspectos de nossas vidas, como
poderemos chegar a viver diferentemente?
Ao investir nosso tempo de lazer na leitura dos contos de fadas,
relembramos uma série de verdades primitivas sobre as quais
repousa a saúde dos povos, verdades tais como o fato de que há
uma ordem no mundo, de que as coisas não acontecem ao acaso,
de que tudo tem um propósito e de que a esperança, quando
comprometida com o bem, é sempre recompensada; verdades,
enfim, que nunca caem em desuso – embora sempre haja quem se
esforce por isso –, verdades que, em épocas como a nossa, tornam-
se imprescindíveis. Além disso, essas leituras e o tempo a elas
dedicado acabam por nos conectar, de algum modo, àqueles que
delas usufruíram antes de nós, às gerações que foram entretidas e
educadas por meio delas, às famílias “auto-suficientes em seus
recreios” que gostavam de ler, conversar e entender aquilo que liam,
famílias, enfim, que viviam seus momentos de diversão
verdadeiramente em família, voltados uns para os outros em busca
de um convívio harmônico e frutuoso.
Que este Fabuloso Livro Verde sirva a você e aos seus como uma
chave mágica, a abrir portas secretas. Contudo, em lugar de
conduzi-los a um lugar qualquer de fantasia, que ela dê acesso de
fato ao caminho percorrido pelas gerações que vieram antes de nós,
uma trilha que já não divisamos mais, pelo excesso de luzes que
ofuscam nosso olhar, mas que está lá, sempre esteve e sempre
estará. Precisamos acertar com ela caso queiramos nos apropriar
das heranças que eles nos legaram e, principalmente, caso
queiramos enxergar mais longe, expandindo nossos horizontes e,
com isso, podendo rever nosso modo de vida, sem permanecermos
mais como reféns inconscientes do agora.
Camila Abadie
Canela, abril de 2018
Este Fabuloso Livro Verde é dedicado a
STELLA MARGARET ALLEYNE
por Andrew Lang
Prefácio à edição original

Ao amigo leitor,
Este é o terceiro e provavelmente o último[ 1 ] dos Fabulosos
Livros de muitas cores. Primeiro foi o Fabuloso Livro Azul; então,
crianças, vocês pediram mais, e preparamos o Fabuloso Livro
Vermelho. E, como vocês quiseram ainda mais, organizamos o
Fabuloso Livro Verde. Tomamos emprestado de vários países os
contos que compõem esses livros – há histórias francesas, alemãs,
russas, italianas, escocesas, inglesas, e até uma chinesa. Malgrado
as insignificantes diferenças entre esses países, todos têm em
comum o gosto por contos de fadas.
A razão, sem dúvida, é que há muito, muito tempo, a mente dos
homens era como a das crianças – e, antes que começassem a
produzir jornais, sermões, romances e longos poemas, eles
contavam histórias uns para os outros. Eles acreditavam que bruxas
podiam transformar pessoas em animais, que animais podiam falar,
que anéis mágicos podiam tornar invisível quem os possuísse –
acreditavam, enfim, em todas essas maravilhas que se leem nas
histórias. À medida que o mundo foi ficando adulto, os contos de
fadas não escritos teriam caído no esquecimento, não fosse pelas
vovós que ainda se lembravam deles e os contavam a seus
netinhos – e quando estes, por sua vez, tornavam-se vovôs,
recordavam-se dessas histórias e as contavam para seus próprios
netos. Esses contos são, assim, mais antigos que a leitura e a
escrita – e muito mais antigos que a imprensa.
Os mais antigos contos de fadas registrados por escrito de que se
tem notícia foram redigidos no Egito, por volta do período em que
viveu José – aproximadamente 3.500 anos atrás. Na Grécia, há
quase três mil anos, Homero conhecia outras histórias de fadas, e
com elas compôs um poema, a Odisseia – o qual espero que vocês
leiam um dia. Nele vocês encontrarão a bruxa que transforma
homens em porcos, o homem que espetou o olho de um gigante
tolo, o capacete da escuridão e as sandálias da agilidade, que mais
tarde foram utilizados por Jack, o Matador de Gigantes.[ 2 ]
Esses contos de fadas são as mais antigas histórias do mundo.
Inventados por homens que jamais abandonaram os divertimentos
da infância, eles agradam às crianças e também aos adultos que
não se esqueceram de que um dia foram pequenos.
Sem dúvida, algumas dessas histórias foram criadas não apenas
para nos divertir, mas para ensinar a virtude. Reparem como,
nesses contos, o menino que trata bem os animais, e que é cortês,
generoso e corajoso, sempre triunfa sobre as adversidades.
Certamente pretendia-se que essas histórias inspirassem bondade,
generosidade, cortesia e coragem em quem as ouvisse. Essa é a
moral encerrada por essas narrativas. Mas a verdade é que as
lemos mais pela diversão do que pela instrução.
Há quem diga que essas histórias não são boas para as crianças –
porque não são verdadeiras, porque afinal bruxas não existem, nem
animais que falam, e porque nessas histórias pessoas morrem –
especialmente gigantes malvados. Mas o mais certo é que vocês,
leitores, sabem diferenciar muito bem entre a verdade e o faz-de-
conta – e jamais ouvi falar de uma criança que tenha matado um
homem prodigiosamente alto só porque João matou um gigante, ou
que tenha destratado sua madrasta (se for o caso de ter uma
madrasta) só porque as madrastas dos contos de fadas são
geralmente más. Se nessas histórias existem monstros
assustadores, isso não é motivo para temer, pois, seja lá o que eles
tenham feito há muitos e muitos anos, a verdade é que já não
andam pelo mundo como antes. Foram transformados em pedra, e
vocês podem ver nos museus o que restou deles. Por isso, não
receio que vocês fiquem com medo dos magos e dragões – aliás,
eles sempre acabaram se submetendo, ainda que no auge de sua
fúria, a um garoto ou garota de verdadeira coragem.
Alguns dos contos aqui reunidos, como “O Meio Pintinho”, são
para crianças bem pequenas; outros, para crianças maiores. Os
contos mais extensos, como “Coração Gelado”, não foram criados
ao mesmo tempo que os demais; foram escritos em francês, por
homens e mulheres de gênio, como Madame d’Aulnoy e o Conde de
Caylus, cerca de 200 anos atrás. Hoje já não há muitos escritores –
se é que ainda existe algum – capazes de escrever bons contos de
fadas, porque eles não acreditam verdadeiramente em suas
próprias histórias, e porque pretendem ser mais espertos do que
aos Céus agradaria que fossem.
Deixamos com vocês, por ora, as últimas dessas histórias antigas,
na esperança de que as apreciem e sintam-se agradecidos aos
Irmãos Grimm, que as resgataram dos nossos ancestrais; a M.
Sebillot e M. Charles Perrault, que nos emprestaram alguns contos
de seu povo francês; ao Sr. Ford, que fez as ilustrações;[ 3 ] às
Srtas. Blackley, Alma Alleyne, Eleanor Sellar, May Sellar, Wright e à
Sra. Lang, que traduziram muitas das histórias a partir do francês,
do alemão, e de outras línguas.
Se no ano que vem lançarmos um novo livro, não será de contos
de fadas. Qual será a obra é segredo por enquanto, mas esperamos
que, quando o revelarmos, não seja algo sem graça. Por ora, adeus
– e, quando tiverem lido um livro de fadas, emprestem-no a outras
crianças que não possuírem nenhum, ou contem para elas as
histórias com suas próprias palavras, já que esta é uma maneira
muito agradável de passar o tempo.
Andrew Lang, 1892
[ 1 ] A previsão pessimista de Lang não se confirmou, e o sucesso dos livros levou-o a
publicar ainda mais nove volumes da série – a serem todos traduzidos pela Concreta. [Nota
do Editor]
[ 2 ] Conto presente no Fabuloso Livro Azul, o primeiro da série.
[ 3 ] As belas ilustrações das edições originais foram feitas pelo artista britânico Henry
Justice Ford (1860–1941), e seu estilo serviu de inspiração para os desenhos da presente
edição, elaborados por Carolina Pontes. [N. E.]
O Pássaro Azul

RA UMA VEZ UM REI imensamente rico, que possuía


grandes extensões de terra e muitos sacos
transbordantes de ouro e prata. Nada disso, porém,
tinha para ele a menor importância, pois a rainha, sua
esposa, havia morrido. Tamanho era o seu pesar, que se trancava
em um pequeno aposento no alto do castelo e passava os dias
martelando a cabeça contra a parede. Os cortesãos, temendo que
ele se ferisse, forraram as paredes com almofadas de penas por
baixo da tapeçaria, de modo que ele pudesse bater a cabeça à
vontade – se isso lhe trazia algum consolo – sem o risco de se
machucar. Todos os súditos visitavam-no e diziam-lhe tudo que
pudesse confortá-lo: alguns tinham o ar grave, até sombrio; outros
tentavam ser agradáveis, até alegres. Mas nenhum conseguia
causar a mínima impressão no rei. Na verdade ele parecia sequer
ouvir o que lhe diziam.
Por fim, veio visitá-lo uma senhora envolta em um manto negro,
com uma expressão de profundo pesar, e chorava e soluçava tanto
que o rei não pôde deixar de notá-la. Então a mulher disse que,
longe de tentar confortá-lo, ela, que acabara de perder seu querido
esposo, tinha vindo então se unir às suas lágrimas, uma vez que
padecia da mesma dor – e o rei lamentou-se em dobro. Ele
começou a relatar à infeliz senhora as qualidades de sua falecida
rainha, ao que ela passou a enumerar todas as virtudes de seu
falecido esposo. O tempo transcorreu de modo tão agradável, que o
rei já não tinha vontade de bater a cabeça contra a parede e a
senhora já não enxugava como antes as lágrimas de seus grandes
olhos azuis. Pouco a pouco, começaram a falar sobre outros
assuntos que os interessavam, e não demorou muito para que a
notícia do casamento do rei com a infeliz senhora deixasse todo o
reino perplexo.
Ora, o rei tinha uma filha de apenas quinze anos. Chamava-se
Florina, e era a mais bela e amável princesa que se possa imaginar,
de espírito sempre alegre e exultante. A nova rainha, que também
tinha uma filha, logo mandou buscá-la para viver no palácio.
Troutina – pois esse era seu nome – vivia com sua madrinha, a
Fada Mazila, mas nem todos os cuidados com a criação da menina
foram capazes de fazê-la bonita ou graciosa. Na verdade, a rainha
ficou muito apreensiva quando viu que, ao lado de Florina,
ressaltava-se a feiura e o terrível temperamento de sua filha. Por
isso, passou a fazer de tudo para que o rei se voltasse contra a sua
própria filha e desenvolvesse uma predileção por Troutina.
Certo dia, o rei resolveu que era tempo de Florina e Troutina se
casarem, e decidiu que ofereceria a mão de uma delas ao primeiro
príncipe que visitasse a corte, desde que fosse um homem digno. A
rainha respondeu:
— É evidente que minha filha deve ser a primeira a se casar; ela é
mais velha que a vossa, e mil vezes mais formosa!
O rei, que detestava contendas, respondeu:
— Bem, isso não é problema meu, fazei como quiserdes.
Pouco tempo depois, circulou a notícia de que o Rei Formoso – o
mais belo e magnífico príncipe daquela parte do mundo – estava a
caminho para visitar o rei. A rainha, ao saber da novidade,
encomendou aos seus ourives, costureiras, tecelões e bordadeiras
os mais fabulosos vestidos e ornamentos para Troutina. Disse ao rei
que Florina afinal não precisava de nenhum acessório novo e, na
véspera da chegada do Rei, subornou sua dama de companhia para
que escondesse todos os vestidos e joias da princesa. Assim,
quando chegou o dia e Florina quis se enfeitar, não encontrou
sequer um laço de fita.
Porém, adivinhando o autor da trapaça, não reclamou: mandou
encomendar finos vestidos e acessórios aos mercadores, mas eles
lhe disseram que a rainha expressamente os proibira de fornecer
qualquer artefato à princesa, e que não ousariam lhe desobedecer.
Assim, nada lhe restava para vestir, senão o singelo vestido branco
que usara no dia anterior. E foi com esses trajes que ela se
apresentou à chegada do Rei, sentando-se a um canto, na
esperança de passar despercebida.
A rainha recebeu o visitante com todas as honrarias e apresentou-
o à sua filha, cujo esplendor dos trajes apenas ressaltava sua feiura.
Ao olhá-la de relance, o Rei voltou o rosto para o outro lado; a
rainha, contudo, pensou que era apenas timidez do Rei e fez
questão de manter Troutina bem à vista dele. O Rei então perguntou
se havia no palácio outra princesa, de nome Florina.
— Sim – respondeu Troutina, apontando na direção de Florina. –
Ali está ela, tentando esconder-se, pois não está vestida à altura.
A essas palavras, Florina enrubesceu, e sua aparência tornou-se
tão tímida e amável, que o coração do Rei foi definitivamente
arrebatado. Levantou-se e, inclinando-se diante dela, disse-lhe:
— Senhora, vossa incomparável beleza dispensa ornamentos.
— Senhor – respondeu a princesa –, garanto que não costumo
vestir-me assim, tão desalinhada e amarrotada. Preferia que o
senhor jamais tivesse me visto.
— Ora, que dizeis? – bradou o Rei Formoso. – Onde quer que se
apresente uma princesa de tão fabulosa beleza, não posso ter olhos
para nada mais.
Neste ponto da conversa, foram abruptamente interrompidos pela
rainha, que disse em tom áspero:
— Garanto-vos, senhor, que Florina já é vaidosa o bastante.
Poupai-vos de encorajá-la com vossos elogios.
O Rei entendeu que a rainha não estava nada satisfeita, mas não
se importou, e continuou contemplando Florina conforme mandava o
seu coração – e assim os dois conversaram por três horas seguidas.
Ao ver que o Rei nitidamente preferia a companhia de Florina, a
rainha e sua filha desesperaram-se. Foram queixar-se com o rei e
imploraram sua permissão para que a princesa fosse trancada em
algum aposento do palácio enquanto durasse a visita do Rei
Formoso. O rei por fim consentiu, e, naquela noite, quando se dirigia
aos seus aposentos, a princesa foi capturada por quatro capatazes
mascarados, que a atiraram no último aposento de uma alta torre,
onde foi abandonada à própria sorte.
Não lhe custou entender que tentavam afastá-la da vista do Rei, a
fim de evitar que ele se enamorasse dela. O problema, entretanto, é
que ela já o estimava, e lhe agradaria muito ser escolhida para sua
esposa!
Como o Rei Formoso nada sabia do que sucedera à princesa,
contava os minutos para revê-la e perguntava sobre ela aos
cortesãos que o serviam. Porém, seguindo ordens da rainha,
estavam todos proibidos de fazer qualquer elogio à princesa. Os
criados, assim, afirmavam que Florina era vaidosa, volúvel e de mau
temperamento; que atormentava suas criadas e que, apesar de todo
o dinheiro que o rei lhe dava, era tão sovina que, em vez de gastá-
lo, preferia andar vestida como se fosse uma camponesa pobre.
Esses relatos deixaram bastante aborrecido o Rei, que se manteve
em silêncio.
— É bem verdade – pensou – que ela estava malvestida, mas
parecia tão envergonhada! Só pode ser porque não estava
acostumada a apresentar-se daquela maneira. Não posso acreditar
que Florina, com aquele semblante tão amável, tenha o mau gênio
que lhe atribuem. Não, não. A rainha deve estar com ciúmes por
causa de sua filha feia, daí ter espalhado tanta mentira.
Os cortesãos perceberam que o Rei não gostou do que ouvira e
um deles começou sorrateiramente a aproveitar as ocasiões em que
estava a sós com ele para elogiar Florina. O Rei Formoso ficou tão
feliz e interessado por tudo quanto dizia respeito à princesa, que era
evidente o quanto a admirava. Quando a rainha mandou chamar os
cortesãos e exigiu um relato sobre tudo o que haviam descoberto,
suas piores suspeitas se confirmaram. Quanto à pobre Florina, só
lhe restou passar a noite aos prantos.
— Ficar trancada nesta pavorosa torre já seria ruim se eu jamais
tivesse visto o Rei Formoso – pensava consigo. – Mas, agora que
sei que ele está por perto, é demasiado cruel suportar esta prisão,
enquanto todos lá embaixo desfrutam de sua companhia.
No dia seguinte, a rainha enviou ao Rei Formoso magníficas joias
e outros presentes valiosos, incluindo um ornamento
encomendando especialmente para a ocasião do casamento que se
aproximava: um coração lavrado de uma pedra inteiriça de rubi,
contornado por arcos de diamantes e cravejado com um brilhante
solitário. Na parte superior do coração, um ornamento de ouro, em
forma de nó dos amantes, ostentava os dizeres: “Apenas um pode
ferir-me”, e a peça inteira estava presa por um colar de enormes
pérolas. O mundo jamais vira coisa igual, e o Rei ficou
verdadeiramente impressionado. O pajem que trouxera o presente
pediu que o Rei o aceitasse da parte da princesa, que o escolhera
para seu cavaleiro.
— Como?! – bradou o Rei, indignado. – Acaso a estimada princesa
Florina ousaria cortejar-me?
— Vossa Alteza confunde os nomes – precipitou-se a dizer o
pajem. – Venho em nome da princesa Troutina.
— Ah, é Troutina quem deseja ter a mim por cavaleiro –
respondeu, friamente. – Lamento não poder aceitar essa honra.
O Rei mandou devolver os belos presentes à rainha e sua filha,
que ficaram furiosas com esse tratamento desdenhoso. Na primeira
oportunidade, o Rei Formoso foi visitar o rei e a rainha, e, uma vez
no salão do palácio, começou a olhar em volta, à procura de Florina.
Seus olhos voltavam-se ansiosos cada vez que alguém se insinuava
no salão, e a rainha percebeu nitidamente sua inquietude e seu ar
contrariado. Fingiu, porém, que nada via, e não fazia outra coisa
senão falar sobre todos os divertimentos que estava planejando. O
príncipe respondia ao acaso, e logo perguntou se não teria o prazer
de ver a princesa Florina.
— Senhor – respondeu a rainha, altivamente –, o rei ordenou que
ela não saia de seus aposentos até que se realize o casamento de
minha filha.
— Por que razão alguém manteria prisioneira tão adorável
princesa? – disse o Rei, profundamente indignado.
— Não sei – respondeu a rainha –; e, mesmo que eu soubesse,
não estaria inclinada a revelar-vos o porquê.
O Rei ficou louco de raiva ao se ver frustrado desta maneira. Tinha
certeza de que havia nisso o dedo de Troutina, e, lançando-lhe um
olhar fulminante, despediu-se da rainha e retornou aos seus
aposentos. Disse, então, a um pajem que o acompanhava:
— Trocaria toda a minha riqueza pelo favor de uma das aias da
princesa, a fim de conseguir falar-lhe por um momento.
— Ora, nada mais fácil – disse o jovem pajem, que em pouco
tempo fez amizade com uma das aias. Ela então lhe disse que, à
noitinha, Florina estaria a uma pequena janela que dava para o
jardim, onde o Rei conseguiria falar-lhe. Contudo – advertiu –, que
ele tomasse muito cuidado para não ser visto, pois ela estava
arriscando seu emprego ajudando o Rei a se encontrar com Florina.
O pajem ficou muito satisfeito e prometeu fazer tudo o que ela
pedira.
No entanto, enquanto ele apressava o passo para contar ao Rei
sobre o arranjo, a falsa aia foi até à rainha e revelou-lhe tudo que se
passara. A rainha imediatamente ordenou que sua filha estivesse à
referida janela, e a instruiu tão bem sobre tudo o que deveria dizer e
fazer, que até mesmo uma criatura tão estúpida quanto Troutina não
poderia errar.
A noite estava tão escura que seria impossível ao Rei descobrir a
trapaça. Ele aproximou-se da janela com inexprimível alegria e disse
tudo o que entretinha há muito tempo em seu coração, a fim de
persuadir Florina do seu amor. Troutina respondeu conforme fora
instruída – disse que estava profundamente infeliz e que a rainha
não cessaria de maltratá-la até que sua filha se casasse. O Rei
então pediu sua mão em casamento, retirando de seu próprio dedo
um anel e colocando-o no de Troutina, que respondeu o melhor que
pôde. De fato, o Rei esperava uma resposta melhor vinda de sua
querida Florina, mas se convenceu de que seus modos estranhos e
pouco naturais deviam-se ao medo de ser flagrada pela rainha. O
Rei não partiria até que ela prometesse encontrá-lo novamente na
noite seguinte, e Troutina consentiu sem pestanejar.
A rainha ficou exultante ao saber do sucesso de seu plano e
prometeu a si mesma que, desta vez, tudo sairia conforme sua
vontade. Com efeito, no dia seguinte, ao cair da noite, o Rei
apareceu trazendo consigo uma carruagem que fora presente de um
feiticeiro seu amigo. O carro era puxado por sapos voadores, e o
Rei sem dificuldade convenceu Troutina a subir nele. Depois,
sentando-se ao seu lado, disse, triunfante:
— Agora, princesa minha, sois livre. Onde desejais que se celebre
o casamento?
Troutina, o rosto encoberto pelo manto, respondeu que a Fada
Mazila era sua madrinha e que gostaria que o casamento se
realizasse em seu castelo. O Rei deu a ordem aos sapos, que
traziam de cabeça o mapa do mundo inteiro, e em pouco tempo
pousaram no castelo. O Rei teria descoberto a fraude assim que
eles puseram os pés naquele palácio intensamente iluminado, mas
Troutina embrulhou-se ainda mais no manto e pediu para estar um
momento à sós com a fada. Então relatou à sua madrinha tudo que
havia se passado e como conseguira ludibriar o Rei Formoso.
— Ó, minha filha! – fez a fada. – Antevejo grandes problemas. O
Rei ama tão devotamente a Florina, que apaziguá-lo não será tarefa
fácil. Estou certa de que ele não se deixará convencer.
Enquanto isso, o Rei esperava por sua noiva em um esplêndido
salão com paredes de diamante, as quais eram tão transparentes,
que através delas pôde ver a fada e Troutina conversando às
escondidas. Ele ficou muito confuso.
— Quem nos teria enganado? – perguntou a si mesmo. – Como é
possível que nosso inimigo esteja aqui? Na certa, ela está tramando
contra o nosso casamento. Por que demora Florina e não vem logo
ao meu encontro?
Mas a realidade revelou-se pior do que ele imaginava, quando a
Fada Mazila entrou no salão seguida por Troutina e lhe disse:
— Ó Rei Formoso, trago-vos a princesa Troutina, a quem
prometestes vossa fidelidade. Realizemos, pois, o casamento.
— Eu?! – exclamou o Rei. – Casar-me com… isto? Quem pensais
que sou? Jamais lhe prometi coisa alguma!
— Nem mais uma palavra! Acaso não tendes respeito por uma
fada? – disse, enfurecida.
— Sim, senhora – respondeu o Rei. – Estou disposto a tributar-vos
o respeito devido a uma fada, contanto que eu tenha minha princesa
de volta.
— Ora, pois não estou aqui? – interrompeu-o Troutina. – Eis o anel
que me destes. Com quem conversastes à janela, senão comigo?
— O quê?! – esbravejou o Rei, furioso. – Fui então ludibriado todo
esse tempo? Onde está minha carruagem? Não fico neste castelo
nem mais um minuto.
— Oh-ho – fez a fada. – Quietinho aí! – e tocou-lhe nos pés, que
imediatamente estancaram presos ao chão, como se estivessem
colados.
— Fazei de mim o que quiserdes – disse o Rei. – Podeis até
transformar-me em pedra, mas jamais me casarei com outra, senão
com Florina.
E o Rei recusou-se a dizer qualquer outra palavra, ainda que a
fada despejasse sobre ele mil censuras e ameaças, e Troutina
chorasse e se enfurecesse por vinte dias e vinte noites. Por fim,
falou a Fada Mazila, furibunda (pois estava exausta com a
obstinação do Rei):
— Escolhei entre casar-vos com minha afilhada ou cumprir
penitência por sete anos, visto que desonrastes vossa palavra.
O Rei respondeu vivamente:
— Fazei o que bem entenderdes, contanto que afasteis de mim
essa pavorosa megera!
— Megera! – vociferou Troutina, delirando de ódio. – Quem
pensais que sois, para chamar-me megera? Um maldito Rei que
não honra a palavra e passeia pelos ares em uma carruagem
puxada por sapos do pântano!
— Basta de insultos – bradou a fada. – Ide, Rei ingrato: voai por
aquela janela, e por sete anos sede um Pássaro Azul.
Pronunciadas estas palavras, o rosto do Rei transfigurou-se: seus
braços mudaram-se em asas; seus pés, em pequenas e retorcidas
garras negras. No momento seguinte, seu corpo assumiu uma forma
delgada como a de um pássaro, coberto de penas azuis cintilantes;
seu bico era como marfim; seus olhos, reluzentes como estrelas, e
uma coroa de penas brancas adornava sua cabeça.
Feita a transformação, o Rei soltou um grito doloroso e voou pela
janela, deixando para trás as gargalhadas zombeteiras de Troutina e
da Fada Mazila. Voou e voou, até alcançar o ponto mais alto da
floresta, onde, empoleirado em um cipreste, chorou seu triste
destino.
— Pobre de mim! Em sete anos, quem sabe o que será de minha
querida Florina? – disse. – O mais certo é que sua madrasta cruel
terá arranjado seu casamento com outra pessoa antes que eu volte
a ser eu mesmo. Se isto acontecer, de que me valerá viver?
Enquanto isso, a Fada Mazila enviara Troutina de volta para a
rainha, que se consumia de ansiedade por saber como transcorrera
o casamento. Mas, quando sua filha chegou e contou tudo que se
passara, ela ficou transida de ódio e, naturalmente, toda a sua ira
voltou-se contra Florina.
— Essa mocinha terá muito que lamentar ter caído nas graças do
Rei – disse a rainha, fazendo com a cabeça um expressivo aceno.
Então, acompanhada por Troutina, dirigiu-se ao pequeno aposento
no alto da torre, onde a princesa era mantida prisioneira.
Florina não coube em si de espanto quando viu Troutina vestida
em um manto real e ostentando uma coroa de brilhantes, e seu
coração ficou compungido quando a rainha lhe disse:
— Minha filha veio mostrar-vos alguns dos presentes de
casamento, pois é agora esposa do Rei Formoso, e os dois formam
o casal mais feliz deste mundo. Ele simplesmente a venera!
Enquanto isso, Troutina exibia aos olhos relutantes de Florina
rendas e joias, finíssimos brocados e laços de fita. Fazia questão
especialmente de mostrar o anel do Rei Formoso em seu polegar.
Ao vê-lo, a princesa reconheceu-o imediatamente e já não podia
duvidar de que ele realmente se casara com Troutina. Desolada, ela
lhes disse:
— Levai embora essas malditas quinquilharias! Como poderia
apreciá-las uma pobre prisioneira? – e, perdendo os sentidos,
desabou no chão. A cruel rainha apenas riu-se maldosamente e
deixou o aposento seguida por Troutina, abandonando Florina ao
seu próprio desespero.
Naquela noite, a rainha disse ao rei que Florina estava tão
apaixonada pelo Rei Formoso – muito embora este jamais lhe
demonstrasse sinal algum de afeição –, que melhor seria mantê-la
na torre, até que recobrasse o juízo. O rei respondeu que nada tinha
a ver com isso e que ela podia ordenar o que bem entendesse com
relação à princesa.
Quando a pobre Florina voltou a si e lembrou-se de tudo o que
ouvira, verteu sentidas lágrimas, acreditando que o amor do Rei
estava perdido para sempre. Durante toda a noite, ficou à janela aos
suspiros e lamentos e, ao despontar do dia, arrastou-se até o canto
mais escuro do pequeno quarto e lá permaneceu, sentada,
indiferente a tudo, afundada em tristeza. Quando anoiteceu
novamente, ela mais uma vez postou-se à janela, lamentando seu
triste destino.
Ora, havia algum tempo que o Rei Formoso, ou melhor, o Pássaro
Azul, voava em torno do castelo, na esperança de ver sua querida
princesa, embora não ousasse aproximar-se das janelas, por medo
de ser visto e reconhecido por Troutina. Ao cair da noite, estava
cansado e triste, sem ter descoberto onde Florina era mantida
prisioneira. Então empoleirou-se no galho de um alto pinheiro que
havia próximo à torre e começou a cantar até adormecer. Logo,
porém, o som de uma voz suave e plangente chamou-lhe a atenção,
e, escutando atentamente, ouviu-a dizer:
— Ah, rainha cruel! Que vos fiz eu para merecer esta prisão? E já
não vos bastava minha infelicidade de antes, para que viésseis
atormentar-me com a felicidade de vossa filha, que agora é esposa
do Rei Formoso?
O Pássaro Azul, enormemente surpreso, esperou ansiosamente
pela aurora; assim que o dia começou a clarear, voou para ver quem
teria dito aquelas palavras. Entretanto, encontrou a janela fechada e
não viu ninguém. Na noite seguinte ficou à espreita e, sob a clara
luz da lua, percebeu que a moça lamentosa à janela era a própria
Florina.
— Minha princesa! Finalmente vos encontrei! – disse, pousando
junto a ela.
— Quem está falando comigo? – indagou a princesa, cheia de
espanto.
— Acabastes de pronunciar meu nome e já não me reconheceis,
Florina? – disse, entristecido. – Não é de admirar, já que sou apenas
um Pássaro Azul, e devo permanecer assim por sete anos.
— Será possível? Ó pequeno Pássaro Azul, seríeis realmente o
grande Rei Formoso? – perguntou a princesa, acariciando-lhe as
penas.
— É a mais pura verdade – respondeu. – Foi minha punição por ter
me mantido fiel a vós. Mas, crede-me: ainda que minha punição
fosse em dobro, suportá-la-ia feliz para não trair vosso amor.
— Ó! Que me dizeis? – exclamou a princesa. – Pois se vossa
esposa, Troutina, há pouco visitou-me, ostentando o manto real e a
coroa de diamantes que lhe destes! Não estou enganada, pois vi
que trazia vosso anel no polegar.
O Pássaro Azul, enfurecido, contou à princesa todo o ocorrido –
como o enganaram para que fugisse com Troutina e como, por
recusar-se a casar com ela, a Fada Mazila o condenara a ser um
Pássaro Azul por sete anos.
A princesa ficou exultante ao saber da fidelidade de seu bem-
amado e não se cansava de ouvir suas palavras de amor e suas
explicações, mas logo o sol subiu, e tiveram de se despedir, para
que o Pássaro Azul não fosse visto por alguém do palácio. Depois
de prometer que pousaria novamente à janela da princesa tão logo
anoitecesse, voou para longe, escondendo-se na pequena abertura
de um pinheiro – e Florina ficou a padecer de agonia, receosa de
que o Pássaro caísse em uma armadilha ou fosse devorado por
uma águia.
Mas o Pássaro Azul não ficou por muito tempo em seu
esconderijo. Cruzou os céus até chegar ao seu próprio palácio, onde
penetrou por uma janela quebrada e dirigiu-se ao aposento em que
guardava suas joias. Escolheu um magnífico anel de brilhantes para
sua princesa e voou de volta. Florina esperava por ele sentada à
janela e, ao receber o presente, repreendeu-o docemente por ter se
exposto a tamanho risco.
— Prometei usá-lo sempre! – pediu o Pássaro Azul, e a princesa
prometeu, com a condição de que ele deveria visitá-la durante o dia
e durante a noite.
Conversaram a noite toda, e na manhã seguinte o Pássaro Azul
voou até seu reino, penetrou furtivamente no palácio através da
janela quebrada e escolheu dentre seus tesouros duas pulseiras
confeccionadas a partir de uma pedra inteiriça de esmeralda. Ao
oferecê-las à princesa, ela meneou a cabeça em desaprovação e
disse:
— Julgais que vos amo tão pouco, que preciso desses presentes
para me lembrar de vós?
Ele respondeu:
— Não, princesa minha. Mas meu amor é tão grande que não
consigo expressá-lo, por mais que tente. Se vos trago esses objetos
sem importância, é apenas para mostrar que não cesso de pensar
em vós, mesmo que deva deixar-vos a sós por alguns instantes.
Na noite seguinte, ele presenteou Florina com um relógio
entalhado em uma pérola inteiriça. Ao vê-lo, a princesa sorriu e
disse:
— Fazeis bem em me dar um relógio, pois, desde que vos conheci,
não pude mais mensurar o tempo. As horas que passamos juntos
transcorrem como minutos, e as horas longe de vós parecem anos
para mim.
— Ah, princesa! Não podem ser mais longas do que são para mim
– respondeu.
O Rei trazia cada vez mais tesouros para a princesa – diamantes,
rubis e opalas. À noite, ela se enfeitava para agradá-lo; durante o
dia, escondia os tesouros sob seu colchão de palha. Quando o sol
raiava, o Pássaro Azul, escondido no alto pinheiro, cantava para a
sua amada com tanta doçura, que as pessoas que por ali passavam
diziam que a floresta era habitada por um espírito. Assim
transcorreram dois anos – e a princesa continuava cativa, e Troutina
continuava solteira. A rainha oferecera sua mão a todos os príncipes
das redondezas, que sempre respondiam que, com Florina, de boa
vontade se casariam, mas, com Troutina, sob hipótese alguma. Isso
desagradava a rainha sobremaneira.
— Na certa, é uma armação de Florina, só para me contrariar! –
disse. – Vamos acusá-la de conspiração.
Então, a rainha e Troutina subiram a torre. Ora, acontece que era
quase meia-noite, e Florina, toda enfeitada de joias, estava sentada
à janela na companhia do Pássaro Azul. Quando a rainha parou
frente à porta, ouviu a princesa e seu admirador cantando juntos
uma singela canção que ele há pouco a ensinara, e que dizia assim:
Ó! Desdita maior do mundo inteiro,
Um na prisão e o outro no pinheiro.
Causa de nossa aflição e castigo
Termos sido fiéis, contra o inimigo –
Que age cruelmente, mas em vão:
Cá não há dois, mas um só coração.
Apesar do tom melancólico, as duas vozes cantavam
jubilosamente. A rainha escancarou a porta e esbravejou:
— Arrá! Minha Troutina, vejo que aqui se arma uma conspiração
contra nós!
Tão logo a viu, Florina, com notável presença de espírito,
rapidamente fechou a janela, a fim de que o Pássaro Azul tivesse
tempo de fugir, e então foi ao encontro da rainha, que despejou
sobre ela um mundo de censuras.
— Vossas maquinações foram reveladas, senhorita – esbravejou,
soltando fogo pelas ventas. – E não ouseis pensar que vossa alta
posição vos poupará do castigo que mereceis.
— Com quem me acusais de estar conspirando, senhora? –
indagou a princesa. – Acaso não tenho sido vossa prisioneira por
dois anos? E quem tenho visto, senão os carcereiros que me
enviais?
A rainha e Troutina a observavam enquanto falava, tomadas de
indizível espanto, completamente deslumbradas por sua beleza e
pelo esplendor de suas joias. A rainha então disse:
— Posso saber, senhorita, de onde vêm todos esses diamantes?
Teríeis acaso encontrado uma mina na torre?
— De fato, encontrei-os aqui – respondeu a princesa.
— Tende a bondade de dizer-me – falou a rainha, cuja fúria crescia
a cada minuto – para os olhos de quem vos enfeitastes desta
maneira, se nem nas ocasiões mais importantes da corte vos
apresentáveis com metade desta elegância?
— Para meus próprios olhos – replicou Florina. – Deveis admitir
que disponho de bastante tempo livre; não é de admirar que eu
gaste parte dele embelezando-me.
— Está certo – disse a rainha, desconfiada. – Darei uma olhada
por aqui, a ver se descubro algo.
A rainha e Troutina começaram a vasculhar cada canto do
pequeno quarto, e, quando reviraram o colchão de palha,
encontraram tamanha quantidade de pérolas, diamantes, rubis,
opalas, esmeraldas e safiras, que ficaram boquiabertas, sem saber
o que pensar. A rainha decidiu esconder em algum canto um pacote
de correspondências falsas, a fim de provar que a princesa estava
conspirando com os inimigos do rei, e escolheu como local a
chaminé. Para a sorte de Florina, era exatamente ali que o Pássaro
Azul decidira empoleirar-se, para não perder de vista o que se
passava e poder evitar qualquer perigo que ameaçasse sua amada
princesa. Ele então gritou:
— Cuidado, Florina! O inimigo está tramando contra vós!
Essa estranha voz assustou a rainha de tal modo, que ela guardou
a correspondência e apressou-se em abandonar o aposento com
Troutina. Realizaram uma reunião para tentar descobrir quem seria
a fada ou o feiticeiro que estava ajudando a princesa. Por fim,
enviaram uma das aias da rainha para servir Florina. A criada tinha
ordens para que parecesse bastante estúpida, incapaz de ver ou
ouvir o que se passava, enquanto na verdade deveria observar a
princesa dia e noite, mantendo a rainha informada de tudo quanto
ela fazia.
A pobre Florina, que adivinhou terem enviado uma espiã, ficou
desolada e chorou amargamente, porque não mais ousaria
encontrar-se com seu querido Pássaro Azul, receosa de que algum
mal lhe ocorresse caso fosse descoberto.
Os dias eram demasiado longos, e as noites demasiado
monótonas, mas por um mês inteiro ela não se aproximou de sua
janelinha, para evitar que ele voasse ao seu encontro, como
costumava fazer.
Contudo, a espiã, que jamais tirara os olhos da princesa, fosse
durante o dia ou durante a noite, ficou por fim tão cansada, que
acabou caindo num sono profundo. Assim que a princesa se deu
conta disso, correu até a janela, abriu-a e chamou, suavemente:
Pássaro Azul, tal qual o firmamento,
Vinde a mim, não há ninguém no momento.
E o Pássaro Azul, que durante todo esse tempo não se afastara
muito do castelo, voou até ela num instante. Tinham tanto que
conversar e estavam tão felizes por se verem mais uma vez, que
pareceu durar cinco minutos o tempo que passaram juntos até o
nascer do sol, quando o Pássaro Azul teve de se despedir.
Na noite seguinte, a espiã dormiu tão profundamente quanto antes,
e o Pássaro Azul veio mais uma vez até a janela. Ele e a princesa,
acreditando estarem perfeitamente seguros, começaram a fazer
planos para sua futura felicidade, tal como antes da fatídica visita da
rainha. Mas, que infelicidade! Na terceira noite, a espiã não estava
completamente adormecida e, quando a princesa abriu a janela e
chamou, como de costume:
Pássaro Azul, tal qual o firmamento,
Vinde a mim, não há ninguém no momento,
a espiã despertou de todo – mas, dissimulada como era, a
princípio manteve os olhos fechados. Dentro em pouco ouviu vozes,
e, espiando cuidadosamente, viu sob o luar o mais belo pássaro
azul conversando com a princesa, enquanto ela acariciava-lhe as
penas e dava-lhe leves pancadinhas de afeto.
A espiã não deixou escapar uma única palavra da conversa. Assim
que o dia amanheceu e o Pássaro Azul teve de dizer adeus muito a
contragosto, ela correu até a rainha e contou-lhe tudo que vira e
ouvira.
A rainha então mandou chamar Troutina, e as duas conversaram
sobre o assunto, logo concluindo que aquele Pássaro Azul não
podia ser outro senão o próprio Rei Formoso.
— Ah! Aquela princesa insolente! – exclamou a rainha. – E pensar
que, enquanto a julgávamos profundamente infeliz, ela gozava da
maior das alegrias, junto daquele falso Rei. Mas sei como podemos
nos vingar!
Ordenaram à espiã que voltasse à torre e fingisse dormir mais
profundamente que das outras vezes – e, de fato, ela foi se deitar
mais cedo que de costume, e roncou da maneira mais natural
possível. A pobre princesa correu à janela e chamou:
Pássaro Azul, tal qual o firmamento,
Vinde a mim, não há ninguém no momento.
Mas nenhum pássaro veio. Chamou a noite toda, e esperou, e
escutou – sem obter nenhuma resposta, pois a cruel rainha
ordenara que se espalhassem facas, espadas, navalhas, tesouras,
podadeiras e foices por toda a copa do pinheiro. Assim, quando o
Pássaro Azul ouviu o chamado da princesa e voou em sua direção,
teve suas asas cortadas e seus pequenos pezinhos arrancados,
ficando todo perfurado e apunhalado em vinte lugares. Recuou,
sangrando, para seu esconderijo na árvore, e lá permaneceu,
gemendo acabrunhado, pois acreditava que a princesa, cedendo às
pressões, o havia delatado em troca da liberdade.
— Ah, Florina! Seríeis afinal tão bela e tão desleal? – suspirou. –
Se assim for, melhor que eu morra de uma vez!
Virou-se para o lado e começou a desfalecer, entregando-se à
morte. Mas acontece que seu amigo, o feiticeiro, ficara bastante
alarmado ao ver a carruagem de sapos retornar vazia e então saiu
pelo mundo por oito vezes à sua procura, mas em vão. Naquele
mesmo instante em que o Rei abandonava toda a esperança, o
feiticeiro passava pela floresta pela oitava vez e chamava, como
havia chamado por todo o mundo:
— Formoso! Rei Formoso! Onde estais?
O Rei reconheceu imediatamente a voz de seu amigo e respondeu
baixinho, pois estava muito fraco:
— Estou aqui…
O feiticeiro olhou à sua volta, mas não viu nada. O Rei então disse:
— Sou um pássaro azul.
Então o feiticeiro encontrou-o num instante e, vendo sua
lamentável condição, correu de um lado para o outro sem dizer
nada, até que colheu um punhado de ervas mágicas. Com elas, e
uma porção de encantamentos, o Rei rapidamente se recuperou.
— Agora – disse o feiticeiro – contai-me tudo. Estou certo de que
há uma princesa por trás dessa história toda.
— Pois há duas! – respondeu o Rei Formoso com um sorriso
forçado.
Contou-lhe então toda a história, acusando Florina de ter revelado
à rainha suas visitas secretas, em troca de obter a liberdade,
acrescentando ainda muitas censuras à volubilidade da princesa e
acusando sua beleza traiçoeira, e assim por diante. O feiticeiro
concordou com tudo que o Rei dissera, e foi ainda mais longe,
afirmando que todas as princesas são iguais – salvo, talvez, no
tocante à beleza – e aconselhou-o a dar o caso por encerrado e a
esquecer Florina de uma vez. Mas, de algum modo, aquele
conselho não agradou ao Rei.
— O que faremos? – indagou o feiticeiro. – Tendes ainda cinco
anos para permanecer como um pássaro azul.
— Levai-me ao vosso castelo – respondeu o Rei. – Lá ao menos
podeis manter-me em uma gaiola, a salvo de gatos e espadas.
— Bem, é o melhor que se pode fazer por enquanto – respondeu o
amigo. – Mas não sou um feiticeiro em vão. Estou certo de que em
breve pensarei em uma solução para o caso.
Enquanto isso, Florina, em tremenda aflição, sentava-se à janela
noite e dia e chamava por seu querido Pássaro Azul, sem obter
resposta – e imaginava o tempo todo as coisas terríveis que
poderiam ter-lhe acontecido, até que começou a empalidecer e
enfraquecer. A rainha e Troutina, por sua vez, estavam triunfantes –
mas por pouco tempo, pois o rei, pai de Florina, caiu doente e
morreu, e todo o povo rebelou-se contra a rainha e sua filha, vindo
em massa ao palácio exigir a presença de Florina.
A rainha saiu à sacada do palácio disparando ameaças e
maldições sobre o povo, que por fim perdeu a paciência e pôs
abaixo todas as portas do palácio, uma das quais desabou sobre
ela, matando-a. Troutina fugiu apressadamente para o castelo da
Fada Mazila, e todos os nobres do reino resgataram Florina da torre
e fizeram-na rainha. Em pouquíssimo tempo, graças à atenção e ao
cuidado que lhe devotavam, Florina recuperou-se dos efeitos do
longo cativeiro, apresentando-se agora em todo o esplendor de sua
formosura. Aconselhou-se com os cortesãos e organizou a
administração do reino para todo o tempo em que estivesse
ausente. E então, tomando um saco cheio de tesouros, partiu
sozinha em busca do Pássaro Azul, sem revelar a ninguém aonde
ia.
Enquanto isso, o feiticeiro tinha o Rei Formoso sob seus cuidados.
Porém, como seu poder não era bastante para neutralizar o feitiço
da Fada Mazila, decidiu procurá-la a fim de tentar um acordo
favorável ao seu amigo – pois, como se sabe, fadas e feiticeiros são
como primos, afinal de contas; e, depois de conviverem por cinco ou
seis séculos, frequentemente se desentendendo e fazendo as
pazes, eles conhecem um ao outro muito bem. A Fada Mazila
recepcionou-o com muita cordialidade.
— O que quereis, compadre? – perguntou.
— Podeis praticar uma boa ação, se quiserdes – respondeu. – Um
certo rei amigo meu teve a infelicidade de ofender-vos…
— Ah, sei de quem estais falando – interrompeu-o a fada. – Sinto
não poder atender-vos, compadre, mas ele não deve contar com a
minha misericórdia a menos que se case com minha afilhada, a
quem podeis ver ali, tão bela e graciosa. Espero que ele pondere
minha proposta.
O feiticeiro não sabia o que dizer, pois achou Troutina a coisa mais
feia deste mundo, contudo não podia ir embora sem fazer mais uma
tentativa por seu amigo, que corria grave perigo vivendo em uma
gaiola. Com efeito, vários incidentes alarmantes já haviam ocorrido.
Certa vez, o prego que prendia a gaiola cedeu, e Sua emplumada
Majestade machucou-se muito com a queda – e a Senhora Gato,
que calhava de estar ali, deu-lhe um arranhão no olho que quase o
cegou. Em outra ocasião, esqueceram-se de repor a água, e ele
quase morreu de sede. Mas o pior de tudo é que ele estava prestes
a perder seu reino, pois estivera ausente por tanto tempo, que todos
os súditos pensavam que havia morrido. Ponderando todas essas
coisas, o feiticeiro entrou em um acordo com a Fada Mazila: ela
devolveria ao Rei a forma humana e levaria Troutina para passar
alguns meses junto dele, em seu palácio; se, depois desse tempo, o
Rei ainda resistisse em se casar com ela, tornar-se-ia novamente
um Pássaro Azul.
A fada então envolveu Troutina em um magnífico manto de ouro e
prata, e ambas montaram em um dragão alado, chegando, pouco
tempo depois, ao palácio do Rei Formoso. Ele também acabara de
chegar ao palácio, trazido por seu fiel amigo, o feiticeiro.
Com três movimentos de sua varinha mágica, a fada devolveu ao
Rei sua antiga forma, que então assumiu uma aparência mais bela e
encantadora do que nunca. Quando avistou Troutina, porém, julgou
demasiado alto o preço de sua restauração, e a simples ideia de se
casar com ela causava-lhe arrepios.
Enquanto isso, a Rainha Florina, disfarçada de camponesa pobre,
com um grande chapéu de palha cobrindo-lhe o rosto e um velho
saco sobre os ombros, iniciara sua penosa viagem. Tinha percorrido
longa distância – às vezes por terra, às vezes por mar, às vezes a
pé e às vezes a cavalo – sem saber direito aonde ia, temendo que,
a cada passo, estivesse na verdade afastando-se mais de seu bem-
amado. Certo dia, estava sentada à beira de um riacho, exausta e
triste, refrescando seus pezinhos na cristalina água corrente e
penteando seus longos cabelos, que reluziam como ouro sob o sol,
quando aproximou-se uma velha senhora corcunda que caminhava
apoiando-se em um pedaço de pau. A velha parou e lhe disse:
— Ora, minha pequena, estais sozinha?
— Sim, minha senhora. Estou infeliz demais para desejar alguma
companhia – respondeu, as lágrimas molhando-lhe as faces.
— Não choreis – disse a velha. – Contai-me a verdade sobre o que
vos aflige. Talvez eu possa ajudar-vos.
De boa vontade a rainha contou-lhe tudo que se passara, e que
estava à procura do Pássaro Azul. Ao ouvir toda a história, a
velhinha de repente empertigou-se e foi tornando-se mais alta,
rejuvenescendo e ficando cada vez mais bela, e então disse, com
um sorriso, à admirada Florina:
— Amável rainha, o rei que procurais já não é um pássaro. Minha
irmã Mazila restaurou-lhe a antiga forma, e ele voltou ao seu reino.
Não temais: ireis encontrá-lo e sereis felizes. Tomai estes quatro
ovos: quebrai um deles quando estiverdes em apuros, e
encontrareis auxílio.
Após dizer estas palavras, a fada desapareceu, e Florina, com
renovada confiança, guardou os ovos em uma bolsa e dirigiu-se ao
palácio do Rei Formoso. Depois de caminhar por oito dias e oito
noites, chegou a um alto morro de marfim polido, tão íngreme, que
era impossível firmar o pé sobre sua superfície. Florina tentou mil
vezes, escalando e escorregando, mas acabava voltando sempre ao
ponto de partida. Por fim, sentou-se desolada ao pé do morro, e de
repente lembrou-se dos ovos. Sem demora, quebrou um deles e
encontrou uns pequenos ganchos de ouro. Prendendo-os nos pés e
nas mãos, escalou-o sem mais problemas, uma vez que os ganchos
a impediam de escorregar.
Assim que atingiu o topo, deparou-se com nova dificuldade, pois
do outro lado do morro – e, na verdade, por todo o vale – estendia-
se um imenso espelho polido, no qual milhares e milhares de
pessoas admiravam seu reflexo. Esse era um espelho mágico, no
qual as pessoas viam refletida a aparência que gostariam de ter, e
por isso atraía peregrinos dos quatro cantos do mundo. Porém,
ninguém jamais conseguira chegar ao topo do morro, e, quando as
pessoas viram Florina lá em cima, protestaram em coro, afirmando
que, se ela pisasse sobre o espelho, ele se partiria em mil pedaços.
A rainha, sem saber como agir e percebendo que seria perigoso
descer, quebrou o segundo ovo, e então apareceu uma carruagem
puxada por duas pombinhas brancas. Florina entrou e deslizou
pelos ares suavemente.
Depois de um dia e uma noite, as pombinhas pousaram do lado de
fora dos portões do reino do Rei Formoso. A rainha desceu da
carruagem, beijou as pombas e agradeceu-lhes; e assim, com o
coração palpitante, penetrou na cidade e começou a perguntar às
pessoas onde era possível encontrar o Rei. Todos riam-se dela,
dizendo:
— Encontrar o Rei? E que assunto teria uma pobre criada, uma
ajudante de cozinha, para tratar com o Rei? Vai, lava primeiro teu
rosto, teus olhos não estão limpos o bastante para vê-lo!
Diziam isso, pois a rainha se disfarçara, e seus cabelos cobriam-
lhe os olhos, para que ninguém a reconhecesse. Como se
recusavam a responder-lhe, seguiu adiante e voltou a indagar aos
que passavam. Desta vez, responderam que no dia seguinte ela
poderia ver o rei desfilando pelas ruas acompanhado da Princesa
Troutina, pois corria o boato de que ele finalmente consentira em se
casar com ela. Realmente eram notícias terríveis para Florina. Teria
enfrentado tão fatigante viagem, apenas para descobrir que Troutina
conseguira fazer com que o Rei Formoso a esquecesse?
O cansaço e a tristeza impediam-na de dar mais um passo, então
sentou-se a uma calçada e verteu um sentido pranto a noite toda.
Assim que amanheceu, apressou o passo rumo ao palácio. Depois
de ser expulsa cinquenta vezes pelos guardas, conseguiu entrar e
então viu no magnífico salão os tronos destinados ao Rei e a
Troutina, que já era tratada como se fosse rainha.
Florina escondeu-se atrás de um pilar de mármore e, dentro em
pouco, viu Troutina apresentar-se ricamente vestida, porém mais
feia do que nunca; o Rei apareceu em seguida, mais belo e
deslumbrante do que Florina se lembrava. Quando Troutina sentou-
se no trono, a rainha aproximou-se.
— Quem és tu, e como ousas aproximar-te de meu trono real? –
perguntou Troutina, fulminando-a com o olhar.
— Sou conhecida como ajudante de cozinha – respondeu –, e
venho vender-vos algumas coisas valiosas – disse, revirando seu
velho saco, do qual retirou as pulseiras de esmeralda que o Rei
Formoso lhe dera.
— Ho, ho! – disse Troutina. – Tens aí uns belos pedaços de vidro.
Suponho que aceites cinco moedas de prata por eles.
— Mostrai-os a alguém que entenda destas coisas, senhora –
respondeu a rainha –, e então poderemos negociar o valor.
Troutina, que de fato amava o Rei Formoso tanto quanto lhe era
possível amar alguém, e ficava sempre contente quando tinha a
oportunidade de lhe falar, mostrou-lhe então as pulseiras e
perguntou quanto deviam valer. Ao vê-las, ele lembrou-se
imediatamente das pulseiras com que presenteara Florina;
empalideceu, deu um longo suspiro e mergulhou em pensamentos
tão tristes, que se esqueceu completamente de que lhe devia uma
resposta. Ela indagou-o novamente, e então ele disse com muito
esforço:
— Creio que essas pulseiras valem tanto quanto meu reino.
Pensava haver apenas um par delas no mundo, mas, pelo que vejo,
existem outras.
Troutina voltou ao salão onde estava a rainha e perguntou-lhe qual
era o menor preço que ela aceitaria pelas pulseiras.
— Mais do que poderíeis pagar, senhora – respondeu. – Porém, se
permitirdes que eu passe uma noite no Aposento dos Ecos, dar-vos-
ei as esmeraldas.
— Como quiseres, minha pequena ajudante de cozinha – disse
Troutina, muito satisfeita.
O Rei não tentou descobrir como aquelas pulseiras tinham ido
parar ali – não porque não quisesse saber, mas porque a única
maneira de descobrir seria perguntando a Troutina, e tamanha era
sua aversão a ela, que jamais lhe dirigia a palavra, a menos que
fosse estritamente necessário. Fora ele quem contara a Florina
sobre o Aposento dos Ecos quando ainda era um Pássaro Azul. Era
um pequeno quarto de dormir abaixo do aposento real, e fora
construído com tanto engenho, que o mais suave sussurro emitido
ali poderia ser ouvido perfeitamente no aposento real. Florina
tencionava repreendê-lo por sua infidelidade, e aquela lhe parecia a
melhor maneira de fazê-lo. Então, quando foi deixada no aposento
por ordens de Troutina, começou a chorar e a lamentar, sem uma
pausa sequer, até o raiar do dia.
Questionados por Troutina, os pajens do Rei contaram que
ouviram soluços e suspiros durante a noite. Ela então perguntou a
Florina o que aquilo significava, e a rainha respondeu que
frequentemente sonhava e falava em voz alta.
Mas, por um infeliz acaso, o Rei nada ouvira daquilo tudo, pois
tomava um gole de sonífero toda noite antes de dormir e não
despertava até que o sol já estivesse alto.
A rainha passou o dia em grande inquietação.
— Se ele me ouviu – disse –, seria possível que permanecesse
cruelmente indiferente? Mas, se não me ouviu, que poderei fazer
para ter outra chance? Tenho muitas joias, é verdade, mas nada tão
notável para chamar a atenção de Troutina.
Foi nesse instante que se lembrou dos ovos. Quebrou mais um e
de dentro dele saiu uma pequena carruagem de aço polido, com
detalhes em ouro, puxada por seis ratinhos verdes. O cocheiro era
um ratinho rosado; o mensageiro, um ratinho cinza, e os ocupantes
da carruagem eram pequeninas pessoas, verdadeiramente
adoráveis, que sabiam dançar e fazer incríveis proezas. Florina
bateu palmas e saltitou de alegria quando viu esse prodígio da arte
mágica, e, assim que anoiteceu, dirigiu-se a uma passagem
ensombrecida que havia no jardim, pela qual Troutina havia de
passar, e fez os ratinhos galoparem e as pessoas miúdas exibirem
suas habilidades. Quando Troutina aproximou-se e viu o espetáculo,
perguntou:
— Ó criadinha, criadinha, o que queres em troca da tua carruagem
de ratinhos?
A rainha respondeu:
— Deixai-me passar mais uma noite no Aposento dos Ecos.
— Não negarei teu pedido, minha criança – disse Troutina,
condescendente.
Então voltou-se para suas criadas e sussurrou:
— Essa tola criatura não sabe tirar vantagem quando tem a
chance. Bem, tanto melhor para mim.
Ao cair da noite, Florina proferiu as palavras mais cheias de amor
que lhe ocorriam, mas, pobrezinha! não obteve mais sucesso do
que antes, pois o Rei dormia profundamente depois de tomar o
sonífero. Um dos pajens disse:
— Essa camponesa deve ser louca.
Ao que um outro respondeu:
— Louca ou não, o que ela diz soa doloroso e comovente.
Florina, por sua vez, julgou que o Rei devia ter um coração
duríssimo, se pôde ouvir o seu lamento e, ainda assim, ignorá-la.
Havia somente mais uma chance, e, ao quebrar o último ovo,
descobriu, com enorme contentamento, que ele continha a coisa
mais maravilhosa de todas: uma torta feita de seis pássaros,
preparada com perfeição – contudo, os pássaros estavam vivos,
cantando e falando, e divertidamente respondiam a perguntas e liam
a sorte. De posse desse tesouro, Florina mais uma vez posicionou-
se no caminho por onde Troutina deveria passar. Enquanto
esperava, um dos pajens do Rei aproximou-se e disse:
— Bem, dona ajudante de cozinha, é sorte que o Rei sempre tome
um sonífero antes de dormir; do contrário, não conseguiria pregar o
olho com toda a tua lamentação.
Então Florina descobriu por que o Rei não lhe respondera. Tirou
do saco um punhado de pérolas e diamantes e disse:
— Se me prometeres que, nesta noite, o Rei não tomará seu
sonífero, dar-te-ei todas estas joias.
— Ó! Claro que prometo – respondeu o pajem.
Neste momento, Troutina apareceu e, ao bater os olhos na
apetitosa torta, com todos aqueles passarinhos cantando e
conversando, disse:
— Que torta admirável, minha ajudante de cozinha! O que queres
em troca dela?
— O de sempre – respondeu. – Passar mais uma noite no
Aposento dos Ecos.
— Como quiseres, mas dá-me a torta – disse a gananciosa
Troutina.
Quando anoiteceu, a Rainha Florina esperou até que todos no
palácio tivessem adormecido e começou a desfiar seus lamentos,
como fizera antes.
— Ah, Formoso! – disse. – Que vos fiz eu, para que me
esquecêsseis e vos casásseis com Troutina? Se ao menos
soubésseis tudo por que passei, e o quanto me custou encontrar-
vos!
Ora, o pajem honrara sua palavra e dera ao Rei Formoso um copo
d’água em vez do sonífero usual. O Rei jazia na cama bem
acordado e assim pôde ouvir tudo que Florina dizia, e até
reconheceu sua voz, embora não soubesse distinguir de onde ela
vinha.
— Ah, princesa! – disse. – Como pudestes delatar-me a vossos
cruéis inimigos, quando vos amava tanto?
Florina ouviu e respondeu prontamente:
— Procurai pela ajudante de cozinha; ela vos explicará tudo.
No mesmo instante, o Rei mandou chamar seus pajens e disse-
lhes:
— Sabeis onde está a ajudante de cozinha? Trazei-a até aqui
imediatamente.
— Nada mais fácil, senhor – responderam –, pois ela está no
Aposento dos Ecos.
O Rei ficou perplexo. Como poderia a amável princesa Florina
passar-se por ajudante de cozinha? Ou como poderia uma ajudante
de cozinha ter a voz idêntica à de Florina? Vestiu-se num átimo e
desceu a escadaria secreta que dava acesso ao Aposento dos
Ecos. Ali, sentada sobre uma pilha de almofadas macias, estava sua
querida princesa. Havia-se despojado de todo o seu feio disfarce e
usava um vestido branco de seda, seus cabelos dourados reluzindo
à luz amena da candeia. O Rei não cabia em si de felicidade ao vê-
la: atirou-se aos seus pés e fez-lhe mil perguntas, sem que lhe
desse tempo de responder. Florina estava igualmente feliz por
encontrá-lo uma vez mais, e nada os perturbava, senão a lembrança
da Fada Mazila.
Mas, neste momento, o feiticeiro entrou no aposento,
acompanhado por uma famosa fada – a mesma que dera os ovos a
Florina. Depois de cumprimentarem o Rei e a rainha, disseram que,
como haviam se unido para ajudar o Rei Formoso, a Fada Mazila já
não tinha nenhum poder sobre ele, e o casamento com Florina
poderia realizar-se quando quisessem. Imaginai a alegria do Rei!
Assim que o dia amanheceu, a notícia espalhou-se por todo o
palácio, e todos que pousavam os olhos em Florina ficavam
imediatamente encantados. Quando Troutina soube da notícia,
correu até o Rei e, ficou furiosa ao vê-lo junto de Florina. Antes,
porém, que emitisse qualquer palavra, o feiticeiro e a fada
transformaram-na em uma grande coruja marrom, que saiu voando
por uma das janelas do palácio, arrulhando tristemente. Celebrou-se
o casamento com grande esplendor, e o Rei Formoso e a Rainha
Florina viveram felizes para sempre.[ 4 ]

[ 4 ] Madame d’Aulnoy
O Meio Pintinho

RA UMA VEZ UMA GALINHA ESPANHOLA, preta e linda que só,


mãe duma ninhada enorme de pintinhos. Eram todos
uns pintinhos saudáveis e roliços, a não ser o mais
novo, que era um tanto diferente dos irmãos e irmãs. O
tal pintinho, a bem dizer, era uma criatura tão estranha, tão esquisita
dos pés à cabeça, que quando saiu do ovo pela primeira vez, sua
mãe mal podia acreditar no que via, tamanha era a diferença entre
ele e os outros doze pintinhos fofos, aveludados e macios que lhe
ficavam sob as asas. Este parecia como se tivesse sido cortado ao
meio. Tinha só uma perna, e uma asa, e um olho; e tinha metade de
uma cabeça e metade de um bico. Enquanto o olhava, sua mãe
balançou a cabeça de tristeza, e disse:
— Minha cria mais nova é apenas um meio pintinho. Jamais irá
crescer e se transformar num galo alto e garboso como seus irmãos.
Os outros haverão de sair mundo afora e chefiar os seus próprios
galinheiros; mas ele, pobrezinho, terá de ficar sempre em casa, com
a sua mãe. – E lhe deu o nome de Medio Pollito, que é como a
gente diz “meio pintinho” em espanhol.
Ora, embora Medio Pollito fosse uma criaturinha tão esdrúxula, tão
franzina e tão frágil, logo sua mãe descobriu que o pintinho não
estava nem um pouco a fim de ficar apenas sob a segurança de
suas asas. Para dizer a verdade, ele era, no caráter, tão diferente de
seus irmãos e irmãs quanto o era na aparência. Os demais eram
uns pintinhos bonzinhos e obedientes, e bastava a velha galinha
cacarejar, que saíam todos a piar esganiçados e correr para ela.
Mas Medio Pollito tinha um espírito desbravador a despeito de ter
uma só perna, e quando a sua mãe lhe cacarejava para voltar ao
galinheiro, fingia não conseguir ouvi-la, já que só tinha uma orelha.
Quando a mãe saía com toda a família para uma passeio nos
campos, Medio Pollito saltitava para longe e se escondia em meio
ao milho indiano. E para os seus irmãos era um procurar angustiado
por minutos a fio, enquanto a mãe corria para lá e para cá, a
cacarejar de medo e desespero.
À medida que envelhecia, tanto mais teimoso e desobediente
ficava, e era muitas vezes terrivelmente malcriado com a sua mãe,
além de ser um brigão e maltratar os outros pintinhos.
Um dia, ele saíra para uma viagem mais demorada do que de
costume. Ao retornar, saltitou até sua mãe, muito pomposo, com os
pulinhos e chutes para o ar que eram o seu modo característico de
andar, e, cravando nela o seu único olho, disse, muito petulante:
— Mãe, estou cansado desta vida neste terreiro enfadonho, com
nada para se olhar senão um milharal sem graça. Vou para Madri, a
fim de ver o rei.
— Para Madri, Medio Pollito?! – exclamou sua mãe. – És mesmo
um pintinho tonto! Uma jornada assim seria longa até para um galo
já crescido, e uma coisinha de nada como tu já estaria esgotada
antes de trilhar metade do caminho. Não, não, fica em casa com tua
mãe, e algum dia, quando estiveres maior, faremos uma
viagenzinha juntos.
Medio Pollito, porém, já se decidira, e não haveria de dar ouvidos
aos conselhos de sua mãe, nem aos rogos e às súplicas de seus
irmãos e irmãs.
— Para quê ficarmos todos nós apinhados neste lugarzinho
minúsculo? – disse ele. – Quando eu tiver um pátio só meu, muito
fino, no palácio do rei, talvez vos chame para uma visita rápida – e
mal esperando para dizer adeus à família, lá se foi ele, a saltitar
todo estabanado na estrada para Madri.
— Sê gentil e atencioso com todos os que encontrares – gritou-lhe
sua mãe, enquanto corria atrás dele, mas o pintinho estava tão
apressado que não esperou para respondê-la, e sequer olhou para
trás.
Um pouco mais tarde naquele dia, enquanto saltitava num atalho
que cortava o campo, passou por um rio. Ora, a corrente do rio
estava sufocada, toda soterrada sob ervas daninhas e algas, de
modo que as águas não corriam livres.
— Ó! Medio Politto! – clamou o rio, enquanto o meio pintinho lhe
saltitava nas margens. – Vem cá me ajudar e arranca de mim estas
ervas daninhas.
— Ajudar-te?! – exclamou Medio Politto, a abanar a cabeça e
sacudir as poucas penas que tinha no rabo. – Pensas que não tenho
coisa melhor a fazer do que perder meu tempo com ninharias?
Ajuda-te a ti mesma, e não importunes viajantes ocupados. Vou
para Madri ver o rei – e pulinho-e-chute para lá, pulinho-e-chute
para cá, lá se foi Medio Pollito.
Um pouco depois, chegou a uma chama que fora deixada acesa
por alguns ciganos na floresta. Ela queimava fraquinha, e dali a
pouco haveria de morrer.
— Ó! Medio Pollito! – clamou o fogo, numa voz sumida, trêmula. –
Daqui a poucos minutos hei de me apagar, a não ser que tu ponhas
em mim alguns gravetos e umas quantas folhas secas. Ajuda-me,
ou morrerei!
— Ajudar-te?! – respondeu Medio Pollito. – Tenho mais o que
fazer. Ajunta galhos para ti mesma, e não me importunes. Vou para
Madri ver o rei – e pulinho-e-chute para lá, pulinho-e-chute para cá,
lá se foi Medio Pollito.
Na manhã seguinte, quando estava já perto de Madri, ele passou
em frente a um enorme castanheiro, em cujos galhos o vento se
emaranhara e acabara preso.
— Ó! Medio Pollito! – clamou o vento. – Dá um pulinho até aqui e
liberta-me destes galhos. Não consigo sair, e é tão desconfortável!
— Acabaste aí por tua própria culpa – respondeu-lhe Medio Pollito.
– Não posso perder a manhã todinha parando aqui para ajudar-te.
Chacoalha a ti mesmo, sai daí e não me importunes, pois vou para
Madri ver o rei – e pulinho-e-chute para lá, pulinho-e-chute para cá,
lá se foi Medio Pollito, alegre que só, pois já se podiam divisar agora
as torres e os telhados de Madri. Ao entrar na cidade, viu diante de
si um casarão esplêndido, com soldados em pé em frente aos
portões. Soube imediatamente ser ali o palácio do rei, e resolveu
saltitar até o portão frontal e aguardar até que o rei saísse.
Enquanto passava saltitando em frente a uma das janelas traseiras,
foi visto pelo cozinheiro do rei:
— Mas aí está exatamente o que eu queria – exclamou ele –, pois
o rei acabou de enviar uma mensagem dizendo que quer frango
para o jantar – e, abrindo a janela, esticou o braço e agarrou Medio
Pollito, e o jogou dentro do panelão que estava ao lado do fogo. Ó!
Quão molhada, fria e pegajosa lhe parecia estar a água, enquanto
caía-lhe sobre a cabeça e fazia com que as poucas penas que tinha
se grudassem todas a um só lado do seu corpinho mirrado.
— Água, água! – gritou ele, desesperado. – Tem misericórdia de
mim e não me molhes assim.
— Ah! Medio Pollito! – respondeu a água. – Não me ajudaste
quando era eu um fiozinho d’água nos campos, agora tens de ser
punido.
Então o fogo começou a queimar e escaldar Medio Pollito, que
dançava e pulava de um lado para o outro da panela, a tentar fugir
da quentura, gritando de dor:
— Fogo, fogo! não me queimes assim; não sabes como dói!
— Ah, Medio Pollito! – respondeu o fogo. – Não me ajudaste
quando eu estava a morrer na floresta. Estás a ser punido.
Finalmente, quando a dor era já tão grande que Medio Pollito
achava que iria morrer, o cozinheiro levantou a tampa da panela, a
ver se o caldo estava pronto para o jantar do rei.
— Veja só! – exclamou, horrorizado. – Este frango é inútil. Só
ficaram cinzas. Não posso enviar isto aqui para a mesa real – e,
abrindo de novo a janela, jogou Medio Pollito na rua. Mas o vento o
pegou ainda no ar, e fê-lo rodopiar com tamanha violência que mal
podia respirar, e o seu coração lhe batia tanto contra o peito que
parecia prestes a arrebentá-lo.
— Ó, vento! – enfim, a muito custo, arfante, ele disse. – Se me
fizeres rodopiar assim, hás de me matar. Deixa-me descansar um
momento, ou… – mas estava tão sem ar que não foi capaz de
terminar a frase.
— Ah! Medio Pollito – replicou o vento –, quando eu estava preso
nos galhos do castanheiro, tu não me ajudaste; agora estás a ser
punido. – E o remoinhou no ar, por sobre os telhados das casas, até
alcançarem finalmente a igreja mais alta da cidade, onde o largou,
preso à torre do campanário.
E lá está até hoje Medio Pollito. Se tu calhares de ir a Madri e
andar pelas ruas da cidade até chegar à igreja mais alta que ali há,
verás então Medio Pollito, empoleirado com a sua única perna no
campanário, a sua única asa caída à ilharga, e o seu único olho a
fitar a cidade pasmado e tristonho.[ 5 ]

[ 5 ] Tradição espanhola.
A história do
Califa Cegonha

ASSID, O CALIFA DE BAGDÁ, descansava comodamente em


seu divã durante um belo entardecer. Fumava um longo
cachimbo, e de tempos em tempos sorvia o café que um
escravo lhe alcançava numa delicada xícara, a cada
gole acariciando suas longas barbas com ar prazenteiro. Qualquer
um que estivesse presente à cena perceberia a excelente
disposição de espírito do califa. Com efeito, a esta hora, quem o
quisesse abordar estaria seguro de encontrá-lo afável e de bom
humor. É por este motivo que Mansur, o grão-vizir, sempre escolhia
este momento para lhe fazer sua visita diária.
Nesta tarde ele chegou à hora habitual, mas, no lugar de sua
habitual bonança, uma angústia lhe estampava o rosto. O califa tirou
o cachimbo dos lábios por um instante e lhe perguntou:
— Por que trazes o rosto tão aflito, Grão-Vizir?
O grão-vizir cruzou os braços sobre o peito e, curvando-se diante
do seu soberano, respondeu-lhe:
— Ó, meu senhor! Se o meu semblante é de aflição, não o havia
percebido, mas agora há pouco no pátio do palácio vi um mercador
que portava mercadorias tão belas que me entristeci, lembrado de
minha penúria.
O califa, que há tempos queria dar um presente ao grão-vizir,
mandou um preto buscar o mercador imediatamente. O escravo não
tardou a voltar; atrás dele vinha o mercador, homenzinho robusto,
de cara morena, vestido de trapos. Carregava num baú toda a sorte
de artigos: colares de pérolas, anéis, garruchas ricamente
adornadas, cálices e pentes. Depois de examinarem o conteúdo do
baú, o califa selecionou algumas garruchas para si e para Mansur, e
para a mulher do vizir escolheu um pente cravejado de joias. O baú
já estava a ponto de ser fechado, quando o califa, reparando no
interior dele uma pequena gaveta, perguntou ao mercador que
artigos ela comportava, e se estavam à venda. Este a abriu e tirou
de dentro dela uma caixinha que continha um pó negro e um
pergaminho com caracteres misteriosos, que nem o califa nem o
vizir eram capazes de ler.
— Comprei estes dois artigos de um vendedor que os encontrara
nas ruas de Meca – disse o mercador. – Não sei qual é o poder
deles, mas como não me servem de nada, vendo-os de bom grado
por uma mixaria.
Como tivesse o costume de colecionar manuscritos antigos em sua
biblioteca, muito embora os não pudesse ler, o califa adquiriu o
pergaminho e a caixa, deixando ir o mercador. Então, ávido por
descobrir os segredos do pergaminho, perguntou ao vizir se não
conhecia ninguém capaz de decifrá-lo.
— Ó Príncipe dos crentes – respondeu o vizir –, próximo à
Mesquita mora um homem a quem todos chamam Selim, o Douto,
que conhece todas as línguas da face da Terra. Mande buscá-lo,
talvez seja capaz de interpretar esses misteriosos caracteres.
Selim, o Douto, foi convocado sem demora.
— Selim – disse o califa –, ouvi dizer que és um erudito. Examina
este pergaminho e vê se és capaz de ler o que está escrito nele. Se
fores bem-sucedido, cobrir-te-ei com um manto de honra; se, pelo
contrário, fracassares, darei ordens para desferirem doze golpes
nas tuas faces e outros vinte e cinco nas solas dos pés, por
ostentares sem razão a alcunha de Selim, o Douto.
Selim prostrou-se e disse:
— Faça-se conforme sua vontade, meu soberano!
Em seguida cravou os olhos no pergaminho e pôs-se a mirá-lo por
um bom tempo, até que, subitamente, exclamou:
— Que eu pereça e morra, meu senhor, se isto não for latim.
— Pois bem – disse o califa –, se é latim, ouçamos o que tem a
dizer.
Selim começou a traduzir:
— Tu, a cujas mãos chegou este pergaminho, louva a Alá por sua
misericórdia. Quem quer que aspire o rapé contido nesta caixa
enquanto pronunciar a palavra “Mutabor”[ 6 ] há de se transformar
na criatura que lhe aprouver, e entenderá a língua de todos os
animais. Quando quiser voltar à forma humana, basta que se curve
três vezes em direção ao Oriente repetindo a mesma palavra. Tome
cuidado, no entanto, para não rir enquanto estiver sob a forma de
besta; se o fizer, seguramente esquecerá a palavra mágica e
permanecerá para sempre um animal.
As palavras do pergaminho, traduzidas por Selim, o Douto,
fascinaram o califa. Cumpridor de sua palavra, vestiu o sábio com
um manto esplêndido, cuidando antes que ele jurasse jamais tratar
daquele assunto com ninguém, e o deixou ir. Então disse ao vizir:
— Que bela compra, Mansur! Mal posso esperar pelo momento de
me transformar em animal. Quero que chegues cedo amanhã de
manhã; iremos ao campo, cheiraremos um pouco do rapé desta
caixinha, e ouviremos o que dizem as vozes no ar, na terra, e na
água.
II

Na manhã seguinte, mal o Califa Cassid acabara de se vestir e


fazer o desjejum, o grão-vizir apresentou-se ao palácio, conforme as
ordens que recebera, para acompanhá-lo em sua expedição. O
califa meteu a caixa de rapé no cinturão e, havendo pedido a seus
servos que ficassem em casa, levou apenas o grão-vizir na sua
comitiva. Começaram a expedição nos jardins do palácio; ali,
contudo, não encontraram nenhuma criatura que os inspirasse a
estrear seu novo poder mágico. Por fim, sugeriu o vizir que
seguissem até um lago situado fora dos muros da cidade, onde
muitas vezes avistara um sem-número de criaturas de toda espécie,
e em especial de cegonhas, cujo porte austero e falatório incessante
já muitas vezes lhe cativaram a atenção.
O califa assentiu, e dali se dirigiram ao lago.
Assim que chegaram, notaram uma cegonha desfilando de um
lado a outro com ar majestoso, caçando rãs e, de vez em quando,
resmungando consigo mesma. Ao mesmo tempo, apareceu-lhes
outra no alto do céu, voando para o mesmo local. Disse o vizir:
— Aposto as minhas barbas, Vossa Alteza, que estas duas
pernudas estão para travar uma conversa interessante. Que tal nos
transformarmos em cegonhas?
— Boa ideia – respondeu o califa –, mas antes nos lembremos dos
procedimentos para voltar à forma humana: curvar-se três vezes em
direção ao Oriente e pronunciar “Mutabor”. Quando assim fizermos,
eu voltarei a ser o califa, e tu, o grão-vizir. Mas, por Alá, não rias, ou
será nosso fim!
Assim que terminou de falar, o califa olhou para cima e viu que a
outra cegonha se aproximava cada vez mais do solo. Sem
delongas, tirou a caixinha de seu cinturão, tomou uma pitada de
rapé e ofereceu outra para Mansur; os dois homens cheiraram o
rapé e gritaram juntos “Mutabor!”.
No mesmo instante suas pernas se enrugaram e afinaram, ficando
vermelhas; as sandálias amarelas abriram-se em quatro dedos de
cegonha, e os braços, em asas; o pescoço lhes brotou do meio dos
ombros, espichando-se um metro; as barbas desapareceram, e o
corpo inteiro se cobriu de penas.
— Que belo bico ostentas, Grão-Vizir! – exclamou o califa, tão logo
sacudiu o estupor dos primeiros instantes. – Pelas barbas do
Profeta, nunca vi coisa parecida em toda minha vida!
— Bondade sua – respondeu o vizir, retorcendo o longo pescoço –,
porém, ouso dizer que Vossa Majestade é ainda mais belo na forma
de cegonha do que na de califa. Mas venha, aproximemo-nos de
nossas amigas para ver se entendemos, de fato, a língua das
cegonhas.
Nesse entremeio, a cegonha que voava no céu já havia pousado.
Roçou o bico com a garra, acariciou suas penas, e seguiu em frente
até a primeira cegonha. Os dois homens, agora transformados em
cegonhas, não tardaram a se aproximar e, para seu grande espanto,
ouviram a seguinte conversa:
— Bom dia, Dona Pernocas. Saiu de casa cedo esta manhã!
— É verdade, minha cara Faladeira. Vim para tomar o café da
manhã. A senhorita aceita um joelho de lagarto, ou uma perna de
rã?
— Fico muito agradecida, mas não tenho fome esta manhã. Estou
aqui por outros motivos. Hoje à noite meu pai receberá visitas, e
terei de dançar na frente delas. Vim ao prado para treinar
sossegada.
A jovem cegonha começou então a remexer-se dando passos
estupendos. O califa e Mansur observaram-na atônitos por um bom
tempo; mas, no momento em que ela concluiu o espetáculo
balançando-se numa perna só enquanto batia as asas
graciosamente para cima e para baixo, não conseguiram mais se
refrear: uma longa risada irrompeu de seus bicos, e os dois levaram
um tempo até recuperar a compostura. O califa foi o primeiro a se
recompor.
— Que piada! – disse ele. – É uma pena que nossas risadas
tenham espantado essas palermas, pois estou certo de que no
próximo ato cantariam!
De repente, porém, o vizir lembrou-se que o manuscrito lhes
avisara enfaticamente para não rirem enquanto estivessem
transformados. Sem delongas comunicou sua apreensão ao califa,
que exclamou:
— Por Meca e por Medina! Que brincadeira de mau gosto seria
esta, de permanecer uma cegonha até o fim dos meus dias! Tenta
lembrar, por obséquio, a maldita palavra, pois agora me escapa à
memória.
— Temos que nos curvar três vezes em direção ao Oriente e dizer
– como era mesmo? mu… mu… mu…
Voltaram-se para o Oriente e dobraram os corpos até espetar os
bicos no chão; contudo – horror dos horrores –, haviam esquecido
de fato a palavra mágica, e por mais que o califa se curvasse ou o
vizir em prantos repetisse “mu… mu… mu…”, por nada no mundo a
palavra lhes acudia à memória, de modo que os míseros Cassid e
Mansur continuavam nos seus corpos de cegonha.
III

Os dois pássaros enfeitiçados arrastaram-se tristes pelas


pradarias. No alto de sua miséria, não sabiam ao que recorrer.
Viam-se incapazes de despir-se de suas novas formas; e de nada
adiantaria voltar à cidade e dizer quem eram, pois quem levaria a
sério uma cegonha que declarasse ser o califa? E mesmo que
acreditassem nele, por acaso o povo de Bagdá aceitaria prestar
obediência a uma cegonha?
Deixaram-se então vadiar por vários dias, tirando seu sustento de
frutas, as quais, no entanto, tinham dificuldade de consumir por
causa de seus longos bicos. Sapos e lagartos não eram do seu
feitio. O único consolo para sua tribulação era o poder de voar, e por
isso voavam com frequência sobre os tetos de Bagdá para ver o que
andava acontecendo na cidade.
Nos primeiros dias perceberam desordem e perturbação nas ruas,
mas no quarto dia, pousados no teto do palácio, viram passar na rua
abaixo uma procissão cheia de pompa e esplendor. Tambores e
trompetes ressoavam; um homem de manta escarlate, com
bordados de ouro, montava um cavalo ornado com um esplêndido
xairel e rodeado de escravos ricamente vestidos; metade de Bagdá
se amontoava atrás dele, e todos na multidão gritavam “Ave Mirza,
senhor de Bagdá!”.
As duas cegonhas postadas no telhado do palácio se
entreolharam, e o Califa Cassid falou:
— Adivinhaste agora, Grão-Vizir, o motivo por que fui enfeitiçado?
Este Mirza é filho de meu inimigo mortal, o grande feiticeiro
Caxenur, que num momento de pura maldade jurou vingar-se de
mim. Mesmo assim não entrarei em desespero! Vem, meu fiel
amigo; dirijamo-nos à tumba do Profeta, que talvez naquele lugar
sagrado a maldição se dissipe.
Desprenderam-se do telhado do palácio e alçaram voo em direção
a Medina.
Porém, voar não foi uma tarefa tão simples, já que as duas
cegonhas ainda não tinham muita prática.
— Por Alá! – exclamou o vizir, ofegante depois de algumas horas.
– Já não posso mais; você voa demasiado rápido para mim.
Ademais, o sol já está para se pôr, e temos que achar algum lugar
onde passar a noite.
A Cassid pareceu boa a sugestão de seu súdito; divisando no vale
abaixo umas ruínas que pareciam oferecer abrigo, rumaram para lá.
O edifício em que tencionavam passar a noite parecia ser um antigo
castelo. Belas colunas continuavam de pé em meio a escombros;
vários aposentos, ainda bem preservados, davam indícios de seu
antigo esplendor. Cassid e seu companheiro perambulavam os
corredores do castelo em busca de algum lugar enxuto, quando,
subitamente, Mansur se deteve.
— Meu senhor – sussurrou –, se não fosse absurdo que um grão-
vizir, e mais ainda uma cegonha, tivesse medo de fantasmas, eu
teria medo agora mesmo, pois alguém ou alguma coisa perto de
mim suspirou e gemeu de maneira bastante audível.
O califa parou também e conseguiu distinguir um débil pranto que
mais parecia vir de um ser humano do que de um animal. Com a
curiosidade à flor da pele, estava prestes a ir até o lugar de onde
vinha o som plangente, quando o vizir o prendeu pela asa com o
bico, implorando que não se expusesse a um perigo novo e
desconhecido. Porém o califa, em cujo peito de cegonha batia um
coração valente, arrancou-se ao bico do vizir com prejuízo de
algumas penas e seguiu em frente, ao longo de um corredor escuro.
No fim dele, topou com uma porta entreaberta, através da qual
chegavam a seus ouvidos uns suspiros entrecortados de soluços.
Empurrou a porta com o bico, mas não conseguiu tirar a pata da
soleira, espantado que ficou do que se apresentava diante dos seus
olhos. No chão daquela câmara em ruínas, que era frouxamente
entreluzida por uma janelinha gradeada, estava sentada uma
grande coruja. Grossas lágrimas rolavam de seus olhos largos e
redondos; através do bico deformado, resmungava roucas lamúrias.
Assim que viu o califa e o vizir – pois no entremeio este insinuara-se
atrás de seu soberano – soltou um brado de alegria. Enxugou as
lágrimas com suas asas castanhas e, para espanto das duas
cegonhas, saudou-as em árabe impecável.
— Bem-vindas, ó cegonhas! Sois um sinal propício do meu
livramento, pois me foi vaticinado que a boa fortuna recairia sobre
mim por meio de uma cegonha.
Assim que se recobrou da surpresa, o califa ajeitou a postura,
inclinou seu longo pescoço, e disse:
— Ó Coruja! Tuas palavras me levam a crer que somos vítimas do
mesmo infortúnio. Mas – ai de mim! – a tua esperança, de com
nossa ajuda te livrares da tua maldição, é de todo vã. Saberás como
estamos perdidos quando ouvires o que aconteceu conosco.
A coruja suplicou que lho contasse, e o califa contou tudo o que
lemos até aqui.
IV

Quando o califa terminou a história, a coruja lhe agradeceu e


disse:
— Ouvi agora minha história, e persuadi-vos de que minha fortuna
não é menos infeliz que a vossa. Meu pai é o Rei da Índia, e eu, sua
filha única, me chamo Lusa. Caxenur, o mago que vos enfeitiçou, é
autor também de meu infortúnio. Certo dia ele chegou a meu pai e
exigiu que desse minha mão em casamento a Mirza, seu filho. Meu
pai, que é um tanto impulsivo, mandou lançá-lo escada abaixo. O
desgraçado não tardou a se aproximar de mim sob outra figura, e
certo dia, quando eu estava no jardim, o mago, disfarçado de
escravo, me deu de beber uma poção que me transformou
instantaneamente nesta criatura horrenda. Enquanto eu desfalecia,
incapaz de encarar aquele horror, ele me transportou a este lugar, e
exclamou, na sua voz sinistra: “Aqui permanecerás, sozinha e
medonha, desprezada mesmo pelas bestas, até o fim de teus dias,
ou até que alguém, de livre e espontânea vontade, te peça em
casamento. Assim me vingo de ti e da soberba de teu pai”. Desde
então muitos meses se passaram, e eu vivo aqui, triste e sozinha,
como um ermitão, no interior desta cela; o mundo inteiro me evita, e
até os animais fogem de mim; vedado está a meus olhos tudo o que
há de belo na natureza, pois sou cega durante o dia, e é apenas em
certas noites, quando a lua derrama sua baça claridade neste canto,
que o véu cai de meus olhos, e recobro a visão.
A coruja parou de falar e mais uma vez levou a asa aos olhos para
enxugá-los, pois a narração de seus males lhe havia arrancado
novas lágrimas.
Ruminando no pensamento a história que acabara de ouvir, disse
o califa:
— Ao que tudo indica, há algum vínculo misterioso entre os nossos
infortúnios; a questão é como desvendar este mistério.
A coruja replicou:
— Ó, meu bom senhor! Eu também tenho certeza disso, pois na
minha tenra infância uma sábia augurou que uma cegonha me traria
grande felicidade; e acho que sei como nos salvaremos.
O califa, muito surpreso, perguntou o que ela tinha em mente.
— O mago que é autor da nossa miséria – respondeu – vem uma
vez por mês a estas ruínas. A pouca distância deste aposento há
um amplo salão em que ele costuma repastar com seus amigos.
Observei-os várias vezes e os ouvi gabar-se de seus malefícios. É
possível que no próximo banquete a palavra mágica de que Vossa
Alteza se esqueceu seja mencionada.
— Ó, caríssima Princesa! – exclamou o califa. – Dize lá, quando
vem o mago, e onde fica o salão?
A coruja refletiu por alguns instantes e então disse:
— Não quero que penses mal de mim, mas só o revelarei sob uma
condição.
— Fala, fala! – exclamou Cassid. – Dá as tuas ordens, que eu
cumprirei de bom grado o que desejares.
— Pois bem – replicou a coruja –, como vês, eu também quero
livrar-me desta condição; mas isso só pode ocorrer se um de vós
me der a sua mão em casamento…
Sentindo-se as cegonhas um tanto acuadas pela sugestão, acenou
o califa ao vizir que se retirassem brevemente para deliberar. Já do
lado de fora da câmara, disse o califa:
— Meu Grão-Vizir, sei como é enfadante esta situação, mas podes
ficar com a princesa.
— Por certo! – respondeu o vizir. – Para que a patroa me arranque
os olhos com as unhas quando eu chegar em casa! Ademais, já sou
um velho, e Vossa Alteza, que é jovem e solteiro, seria um partido
muito melhor para uma donzelinha graciosa.
— Aí que está – murmurou o califa, as tristes asas abatendo –;
como sabes que a princesa é uma donzela graciosa? Para mim isto
é comprar gato por lebre.
A discussão se estendeu por um tempinho, até que, percebendo
enfim o califa que o vizir preferiria se manter cegonha para sempre a
se casar com a coruja, decidiu satisfazer as condições ele mesmo,
para regozijo da princesa. Ela reconheceu que os dois não poderiam
ter vindo em melhor hora, visto que os magos muito provavelmente
se reuniriam naquela mesma noite.
Tomou então a dianteira para conduzi-los ao tal salão. Percorreram
um corredor longo e escuro até que, a poucos metros de distância,
viram surgir à sua frente um raio de luz que penetrava no corredor
através de uma fenda na parede. Ao se aproximarem, a coruja os
aconselhou a manterem silêncio. Através daquela brecha era fácil
inspecionar o salão inteiro. Adornavam-no colunas elegantes e
ricamente talhadas; um sem-número de luminárias coloridas
substituía a luz do dia. No centro do salão ficava uma mesa redonda
coberta de várias iguarias, e ao redor dela um longo divã, onde
estavam sentados oito homens. No meio deles as duas cegonhas
reconheceram o vendilhão que lhes vendera o rapé mágico. O
homem ao seu lado o instava a relatar seus feitos mais recentes,
dentre os quais contou também a história do califa e do vizir.
— E que tipo de palavra deste a eles? – perguntou outro velho
feiticeiro.
— Uma palavra latina bastante difícil: mutabor.
V

As cegonhas, assim que ouviram esta palavra, extasiaram-se.


Correram com tal presteza à entrada do castelo, que a coruja mal os
pôde acompanhar. Quando lá chegaram, o califa se voltou para a
princesa e lhe disse, com especial afeto:
— Redentora minha e de meu amigo, como prova de minha eterna
gratidão, aceita-me por marido.
Voltou-se então para o Oriente. Três vezes curvaram seus longos
pescoços em direção ao sol, que recém vinha surgindo por trás das
montanhas. “Mutabor!”, gritaram ambos, e no mesmo instante
estavam transformados. Extasiados por terem recebido vida nova,
caíram nos braços um do outro em meio a riso e choro. E quem
poderá descrever o estupor que os acometeu quando finalmente se
viraram e enxergaram atrás de si uma belíssima donzela, vestida de
trajes os mais garbosos?
Com um sorriso nos lábios, a donzela estendeu sua mão para o
califa e perguntou:
— Vossa Alteza não reconhece sua coruja?
Era ela! Enfeitiçado pela beleza e graça de sua nova esposa, o
califa declarou que transformar-se em cegonha fora o azar mais feliz
de sua vida. Os três puseram-se em marcha para Bagdá.
Felizmente, dentro do seu cinturão, o califa encontrou não apenas a
caixinha do rapé mágico, como também seu moedeiro, de modo que
conseguiram adquirir no vilarejo mais próximo tudo o que era
necessário para a viagem, e em pouco tempo alcançaram Bagdá. A
chegada do califa causou grande sensação na cidade. Fora tido por
morto, de modo que agora todo o povo rejubilava-se por ver retornar
seu amado monarca.
Proporcional ao júbilo popular, contudo, era a raiva que o povo
tinha a Mirza, o usurpador. Marcharam todos até o palácio,
derrubaram seus portões, e prenderam o mago e seu filho. O califa
mandou levarem o mago ao quarto onde a princesa vivera seus dias
de coruja e ordenou que ali fosse enforcado. Ao filho, no entanto,
que nada sabia dos crimes de seu pai, deu a opção de escolher
entre a morte e uma pitada do rapé. Ao optar pelo rapé, recebeu a
caixinha das mãos do grão-vizir, e bastou uma pitada para ser
transformado em cegonha. O califa então mandou prendê-lo numa
gaiola e confiná-lo aos jardins do palácio.
O Califa Cassid viveu feliz por muitos anos ao lado da princesa,
sua esposa. As horas mais alegres de seus dias eram quando
Mansur os visitava à tardezinha; e quando estava de bom humor, o
califa abdicava brevemente da própria dignidade para imitar os
trejeitos do vizir quando cegonha. Enrijecia as pernas e, grasnando,
desfilava com certa gravidade de um lado a outro do aposento,
baixando o tronco em direção ao Oriente, e repetindo aquele pranto
inútil: “Mu… mu… mu…”. A sultana e seus filhos se divertiam à beça
com a palhaçada; mas quando o califa prolongava demais o
espetáculo, o vizir, sem deixar as gargalhadas de lado, ameaçava
contar à sultana o objeto da discussão que tiveram do lado de fora
da cela da Princesa Coruja.

[ 6 ] Pronuncia-se mutábor.
O Relógio Encantado

RA UMA VEZ UM HOMEM rico que tinha três filhos. Quando


eles cresceram, o pai enviou o mais velho para viajar e
correr o mundo, e três anos se passaram até que a
família tornasse a vê-lo. Então um dia ele voltou, em
trajes esplêndidos, e seu pai ficou tão satisfeito com seu sucesso,
que preparou um grande banquete em sua homenagem, fazendo
questão de convidar todos os parentes e amigos. Encerradas as
comemorações, o segundo filho pediu a permissão do pai para
viajar e correr o mundo. O pai ficou muito satisfeito com o pedido e,
entregando-lhe generosa soma de dinheiro para cobrir as despesas,
disse-lhe:
— Se te comportares tão bem quanto teu irmão, serás, como ele,
recebido com honrarias.
O jovem prometeu que se esforçaria, e sua conduta nos três anos
seguintes foi exatamente como deveria ser, sem tirar nem pôr. Então
voltou para casa, e seu pai ficou tão contente ao vê-lo que ofereceu
um banquete de boas-vindas ainda mais suntuoso que o anterior.
O terceiro irmão, que se chamava Jenik, ou Joãozinho, era
considerado o mais tolo dos três. Em casa, nada fazia além de
sentar-se ao pé da lareira e emporcalhar-se de cinzas. Todavia,
também ele pediu permissão ao pai para viajar por três anos.
— Vai-te, se quiseres, idiota. Que proveito tirarás disso?
O rapaz não se ofendeu com os comentários do pai, na medida em
que obteve permissão para a viagem. O pai comemorou a partida do
filho, feliz por se livrar dele, e entregou-lhe uma boa quantidade de
dinheiro para custear as necessidades.
Certo dia, durante uma de suas incursões, aconteceu de
Joãozinho cruzar uma campina onde alguns pastores de ovelhas
estavam prestes a sacrificar um cachorro. Rogou que não o
matassem e que, em vez disso, lhe dessem o animal para criar, no
que foi prontamente atendido. Então Joãozinho tomou novamente a
estrada, seguido agora pelo cachorro. Pouco mais à frente,
deparou-se com um gato que alguém estava a ponto de sacrificar.
Implorou por sua vida, e o gato passou a segui-lo. Por fim, em um
outro local, salvou a vida de uma serpente, que também lhe foi
entregue, e agora formavam todos um quarteto – o cachorro atrás
de Joãozinho, o gato atrás do cachorro, e a serpente atrás do gato.
Então a serpente disse a Joãozinho:
— Segue-me aonde eu for.
O caso era que, no outono, quando todas as serpentes se
escondem em suas tocas, aconteceu que justamente esta ia ao
encontro de seu rei, cujo império estendia-se sobre todas as
serpentes.
Ela então acrescentou:
— Meu rei há de repreender-me por minha longa ausência; todos
já se recolheram para o inverno, e estou muito atrasada. Serei
obrigada a relatar-lhe todos os apuros por que passei, e como, sem
a tua ajuda, eu certamente teria morrido. O rei perguntará o que
desejas como recompensa. Dize-lhe sem falta que queres o relógio
que fica dependurado na parede. Ele tem toda sorte de
propriedades maravilhosas; basta friccioná-lo para obter qualquer
coisa que desejares.
Dito e feito. Joãozinho assenhoreou-se do relógio e, tão logo
partiu, quis colocar suas virtudes à prova. Estava faminto, e pensou
que seria maravilhoso banquetear-se na campina com um pão
fresquinho e um bom pedaço de bife regado a uma garrafa de vinho.
Friccionou o relógio e, num piscar de olhos, estava tudo ali, diante
dele. Imagina só sua alegria!

A noite caiu logo, e Joãozinho friccionou seu relógio, pensando


que seria muito agradável ter um quarto de dormir com uma cama
confortável e uma boa ceia. Num instante, tudo aquilo apareceu
diante dele. Depois da ceia, deitou-se na cama e dormiu até a
manhã seguinte, como todo homem digno. Então pôs-se a caminho
da casa do pai, imaginando o banquete que o esperaria.
Regressando, porém, com as mesmas roupas com que partira, seu
pai irrompeu em fúria e recusou-se a fazer qualquer coisa por ele.
Joãozinho recolheu-se ao seu velho canto, junto à lareira, e
encardiu-se com as cinzas, sem que ninguém lhe desse a mínima.
No terceiro dia, sentindo-se bastante entediado, pensou que bom
seria ver uma casa de três andares repleta de bela mobília, ornada
com vasos de ouro e prata. Friccionou o relógio e… pronto! lá
estava. Joãozinho saiu à procura de seu pai e lhe disse:
— Não me ofereceste um banquete de boas-vindas, mas permite-
me que te ofereça um; vem, que te mostro minha prataria.
O pai ficou muito admirado e quis saber de onde o filho obtivera
tamanha riqueza. Joãozinho não lhe respondeu, mas pediu que
convidasse todos os conhecidos e amigos para um grandioso
banquete.
Então o pai convidou toda a gente, e todos ficaram maravilhados
de ver tantas coisas suntuosas, toda aquela prataria e tantos pratos
finos dispostos sobre a mesa. Servida a entrada do jantar,
Joãozinho pediu ao pai que convidasse o rei e sua filha, a princesa.
Friccionou o relógio e desejou uma carruagem adornada de ouro e
prata, puxada por seis cavalos, com arreios reluzentes crivados de
pedras preciosas. O pai não se atreveu a sentar-se em tão
esplêndido coche, mas foi a pé até o castelo. O rei e sua filha
ficaram muito impressionados com a beleza da carruagem e nela
subiram sem demora, rumo ao banquete de Joãozinho. Ele então
friccionou o relógio outra vez e desejou que, por seis milhas, o
caminho até a casa fosse pavimentado de mármore. O
deslumbramento do rei era sem precedentes, pois jamais percorrera
uma estrada tão bela.
Quando Joãozinho ouviu o ruído das rodas da carruagem,
esfregou as mãos contra o relógio e desejou uma casa ainda mais
maravilhosa, com quatro pavimentos, revestida de ouro, prata e
damasco e repleta de belíssimas mesas sobre as quais dispunham-
se finos pratos, jamais experimentados por rei algum no mundo. O
rei, a rainha e a princesa nem sabiam o que dizer, tamanha foi sua
surpresa. Jamais tinham visto palácio tão esplêndido, nem um
banquete tão luxuoso. Quando a sobremesa foi servida, o rei
manifestou ao pai de Joãozinho o desejo de ter o rapaz por genro.
Dito e feito. O casamento se fez ali mesmo, e o rei voltou para o seu
palácio, deixando Joãozinho e sua nova esposa na casa encantada.
Ora, Joãozinho não era lá muito inteligente e, depois de pouco
tempo, começou a aborrecer a esposa. Ela indagou-lhe como
conseguira construir palácios e obter tantos bens preciosos. Ele
então revelou tudo sobre o relógio, e a esposa não descansou
enquanto não conseguiu subtrair-lhe o precioso talismã. Certa noite,
ela tomou o relógio, friccionou-o e desejou uma carruagem puxada
por quatro cavalos, e, uma vez instalada no coche, tomou
imediatamente o rumo do palácio de seu pai. Lá chegando, chamou
por seus criados, ordenou que a acompanhassem na carruagem e
seguiu direto para o lado da costa. Então friccionou o relógio e
desejou que uma ponte cruzasse o mar, e que no meio dele
surgisse um magnífico palácio. Dito e feito. A princesa entrou no
castelo e esfregou as mãos contra o relógio, e num instante a ponte
desapareceu.
Abandonado, Joãozinho sentiu-se extremamente infeliz. Seu pai,
sua mãe e seus irmãos – e, na verdade, toda a gente – ria-se dele.
Nada lhe restava senão o gato e o cachorro cujas vidas ele salvara.
Tomou-os consigo e foi-se embora para longe, pois já não podia
viver com a família. Chegou afinal a um deserto e viu alguns corvos
que voavam em direção a uma montanha. Um deles havia ficado
para trás, e, quando enfim alcançou o bando, seus irmãos
perguntaram por que se atrasara tanto.
— O inverno se aproxima – disseram eles –, é hora de voar para
outras paragens.
O corvo contou-lhes que vira, no meio do oceano, o mais
maravilhoso palácio jamais construído.
Ao ouvir isso, Joãozinho imediatamente concluiu que se tratava do
esconderijo de sua esposa. Sem mais tardar, pôs-se a caminho da
costa, acompanhado de seu cachorro e seu gato. Ao chegar à praia,
disse ao cachorro:
— És um exímio nadador; e tu, pequeno, és bastante leve. Monta
nas costas do cachorro, e ele te levará ao palácio. Quando
chegardes, ele se esconderá próximo à porta, e tu hás de entrar
furtivamente no castelo e resgatar meu relógio.
Dito e feito. Os dois animais cruzaram o oceano; o cachorro
escondeu-se próximo ao palácio, e o gato penetrou sorrateiramente
em um aposento. A princesa reconheceu-o e adivinhou por que ele
viera. Levou o relógio para o porão e trancou-o em uma caixa. Mas
o gato se espremeu tanto que conseguiu penetrar no porão, e, mal a
princesa virou as costas, o bicho arranhou a caixa até fazer-lhe um
furo. Apanhou o relógio com os dentes e aguardou pacientemente
que a princesa voltasse. Mal ela abriu a porta, o gato furtou-se para
fora levando o relógio.
Assim que cruzou os portões, disse ao cachorro:
— Agora cruzaremos o oceano; cuida para não me dirigires a
palavra.
O cachorro manteve isso em mente e permaneceu calado. Porém,
ao se aproximar da praia, não resistiu e perguntou:
— Trazes o relógio?
O gato não respondeu, pois temia deixar cair o talismã. Ao
alcançar a praia, o cachorro reiterou a pergunta.
— Sim – respondeu o gato.
E o relógio caiu no mar. Então nossos dois amigos começaram a
trocar acusações, e ambos olhavam pesarosamente para o local
onde seu tesouro havia caído. De repente, um peixe apareceu à
beira-mar. O gato o apanhou e pensou que daria um belo jantar.
— Tenho nove filhinhos – disse o peixe. – Poupa a vida de um pai
de família!
— Certamente – respondeu o gato –, desde que encontres nosso
relógio.
O peixe assim o fez, e o relógio retornou ao seu dono. Joãozinho
friccionou-o e desejou que o palácio, a princesa e todos os seus
habitantes fossem engolidos pelo oceano. Dito e feito. Joãozinho
voltou para o convívio de seus pais, e viveram todos – ele com seu
relógio, seu gato e seu cachorro – juntos e felizes até o fim de seus
dias.[ 7 ]

[ 7 ] Charles Deulin.
— Ó encantadora rainha, que isto vos possa servir de consolação
em vossa tristeza!
Afobada que só, a rainha pôs-se a abri-las, e em cada uma das
cestas deparou com uma bebezinha encantadora, lá pela mesma
idade da princesa pela qual chorava tão amargamente. A princípio,
as bebezinhas só o que fizeram foi renovar-lhe a tristeza; a pouco
em pouco, porém, tamanho foi o seu encanto pelas nenês, que ela
se esqueceu da melancolia em meio à correria para conseguir-lhes
babás, criadas que balançassem seus berços e damas de
companhia, e em meio ao vaivém de gente a carregar balanços para
bebê, e bonecas, e piões, e uma fartura das melhores guloseimas.
O curioso é que cada bebezinha tinha também na gargantinha uma
rosa minúscula. De tão difícil que estava sendo escolher nomes
apropriados a todas, a rainha decidiu escolher em vez de um nome
uma cor até a coisa ser resolvida, o que resultou em nenês que,
quando juntas, mais pareciam um buquê de flores radiantes. À
medida que foram envelhecendo, apesar de igualmente inteligentes
e bem instruídas, foi-se tornando claro que tinham disposições muito
diferentes entre si. Assim, pois, aos poucos se foi deixando de
chamar-lhes “Lilás”, ou “Âmbar”, ou seja lá qual era a cor que lhes
cabia, e a rainha em vez disso dizia: “Onde está a minha Doce?” –
ou “minha Beleza”, ou “minha Alegria”.
É claro que com tantos e tão variados encantos choviam-lhe
pretendentes. E não apenas gente ali da corte, como também
príncipes vindos de muito, muito longe, lá chegavam sem parar,
atraídos pelos rumores já famosos; mas estas garotas
encantadoras, as primeiras Damas de Honra, eram tão discretas
quanto lindas, e não favoreciam a ninguém.
Mas voltemos à Surcantina. Esta havia tomado para si o filho de
um rei, primo de Barbandão, a fim de criá-lo como o seu príncipe
inconstante. Antes, no batismo do rapaz, ela lhe dera quantas
graças e dotes de mente e corpo poderiam ser necessários a um
príncipe; agora, porém, redobrara os esforços e não poupara suor e
trabalho para acrescentar-lhe todo e qualquer charme e fascínio
imaginável. Logo, calhasse ele de estar emburrado ou afável,
vestido esplendidamente ou com a primeira roupa que vira pela
frente, sério ou frívolo, era sempre e invariavelmente irresistível! A
bem dizer, era um rapaz encantador, pois a fada lhe dera não só o
melhor coração como a melhor cabeça no mundo, e não deixara
espaço para se desejar nada ali – nada, a não ser a constância.
Pois não se pode negar que o Príncipe Mirliflor era um namoradeiro
incorrigível, tão volátil quanto o vento; e tanto era assim que, ao
completar dezoito anos, já não restava um só coração no reino de
seu pai que não fora por ele conquistado – eram todos seus, e para
ele todos igualmente uma maçada! Eis aí como andavam as coisas
quando lhe fizeram um convite para visitar a corte do primo de seu
pai, o Rei Barbandão.
Imagine como se sentiu o príncipe ao lá chegar e ser apresentado
de uma só vez a doze das criaturas mais encantadoras que já houve
no mundo, embaraço que lhe foi ainda pior pelo fato de o apreço ser
recíproco, de maneira que, a partir daí, ele não podia mais ser feliz
se ficasse um só minuto sem a companhia delas. Pois não podia ele
cochichar maviosidades à Doce e rir com a Alegria enquanto fitava a
Beleza? E, nos momentos mais sérios, o que poderia ser mais
prazenteiro do que conversar com a Solene à sombra de alguma
árvore, enquanto trazia pousada sobre a sua a mão da Amável,
enquanto as demais lhes ficavam perto, num silêncio feliz e
obsequioso? Amava pela primeira vez em sua vida um amor
verdadeiro, muito embora o objeto de sua devoção fossem doze
pessoas – às quais estava igualmente afeiçoado – e não uma só.
Até mesmo Surcantina foi ludibriada e jurava de pés juntos que se
tinha ali, enfim, o auge da inconsistência. Paridâmia, por sua vez,
não dizia uma palavra.
Foi em vão que o pai do Príncipe Mirliflor lhe escreveu ordens para
retornar, propondo-lhe um bom partido atrás do outro. Nada no
mundo poderia separá-lo de suas doze musas.
Um dia, a Rainha deu uma grande festa no jardim, e quando os
convidados todos estavam já reunidos, e o Princípe Mirliflor como de
praxe estava a repartir sua atenção entre as doze adoráveis
garotas, ouviu-se de súbito um zunido de abelhas. As damas
róseas, espavoridas pelos ferrões, soltaram gritinhos esganiçados e
fugiram correndo, todas juntas, para longe do resto do grupo.
Imediatamente, e para o horror de todos, as abelhas se puseram a
persegui-las, crescendo repentinamente até se tornarem
gigantescas; com as pernas cada uma delas agarrou uma das
damas e a carregou voando até o céu, e daí a pouco sumiram de
toda a vista. Tal incidente fantástico lançou toda a corte na mais
profunda tribulação, e o Príncipe Mirliflor, após de início dar vazão à
mais violenta agonia, foi depois aos poucos sucumbindo e se
deixando levar por um abatimento tamanho que se temia o pior,
caso não se encontrasse algo para alentá-lo. Surcantina veio às
pressas tentar fazer algo por seu querido, mas ele desdenhava e
fazia pouco caso de todos os retratos das princesas encantadoras
que ela lhe mostrava. Em suma, estava claro que o príncipe ia mal e
que à fada já não restavam muitos truques na varinha. Certo dia,
enquanto andava por aí mergulhado em cogitações melancólicas,
ouviu de repente gritos e exclamações de assombro, e lhe teria
bastado um olhar para cima a fim de se espantar como todo mundo,
pois vinha vagarosa, a se aproximar pelo céu como se soprada pela
brisa, uma carruagem de cristal que rebrilhava à luz do sol. Seis
donzelas encantadoras, com asas cintilantes, puxavam-na por meio
de fitas róseas, enquanto outras tantas mais, igualmente lindas,
estavam a carregar longas guirlandas de rosas que se lhe cruzavam
acima, formando uma capota florida. Nela, estava sentada a Fada
Paridâmia, e, ao seu lado, uma princesa, cuja beleza haveria de
deslumbrar a quem quer que a visse. Desceram aos pés da grande
escadaria e subiram até os aposentos da rainha, ainda que todos
houvessem corrido juntos e ali se apinhado a fim de ver a maravilha,
até que se tornou um tanto difícil atravessar a multidão, e
exclamações de espanto surgiam de todo o canto a respeito da
finura da estranha princesa.
— Grande rainha – disse Paridâmia –, permiti-me restaurar-vos
vossa filha Rosanela, a qual roubei de vosso berço.
Após os primeiros arroubos de alegria, perguntou a rainha à
Paridâmia:
— Mas e quanto às minhas doze queridas, perdi-as para sempre?
Nunca poderei vê-las de novo?
Paridâmia, porém, respondeu-lhe apenas
— Logo logo não mais sentireis a falta delas! — num tom que
evidentemente queria dizer “Não me façais mais perguntas”. E
então, entrando uma vez mais em sua carruagem, desapareceu.
A notícia da chegada de sua prima logo chegou ao príncipe, que,
porém, quase não teve forças para ir vê-la. No entanto, fazia-se
absolutamente necessário prestar-lhe as honras. Mal ficou ele cinco
minutos na sua presença, e já lhe pareceu que a senhora reunia em
sua própria pessoa encantadora quantos dotes e graças havia nas
doze damas róseas cuja perda tão sinceramente lamentara; e, afinal
de contas, é realmente muito mais satisfatório dedicar o amor a uma
pessoa por vez. Assim, pois, sucedeu que, antes mesmo de saber
onde estava, já o príncipe pedira a mão de sua prima; e, no
momento mesmo em que as palavras lhe estavam a sair dos lábios,
eis que surgiu Paridâmia, risonha e triunfante, na carruagem da
Rainhas das Fadas, pois, àquelas tantas, todos já sabiam de seu
triunfo, e o trono já lhe fora dado. Ela teve de explicar, tintim por
tintim, como roubara Rosanela de seu berço e a dividira em doze
partes, a fim de que cada uma delas pudesse conquistar o Príncipe
Mirliflor e, novamente reunidas, curar-lhe a inconstância de uma vez
para sempre.
E, a fim de fornecer ainda mais uma prova de como era fascinante
Rosanela em sua inteireza, digo-vos que até mesmo a derrotada
Surcantina enviou-lhe um presente de casamento, e participou aliás
da cerimônia, que aconteceu logo que todos os convidados
conseguiram ali chegar. O Príncipe Mirliflor foi perfeitamente
constante pelo resto de sua vida. E, de fato, quem no seu lugar não
o teria sido? Quanto a Rosanela, esta o amou tanto quanto as doze
donzelas juntas, e reinaram os dois em paz e alegria pelo resto de
suas longas vidas.[ 8 ]

[ 8 ] Conde de Caylus
Silvano e Jocosa

RA UMA VEZ UM VILAREJO em que viviam duas crianças.


Uma se chamava Silvano, a outra se chamava Jocosa, e
eram ambas de singular beleza e inteligência. Os pais
delas, contudo, eram desafetos de longa data, e muito
embora os motivos da contenda já estivessem há tempos
esquecidos, a rixa se mantinha pela força do hábito. Silvano e
Jocosa, no entanto, longe de tomar parte nessa inimizade, só se
sentiam felizes ao lado um do outro. Dia após dia apascentavam
juntos seus rebanhos e passavam as horas ensolaradas brincando
ou descansando à sombra de um barranco. Certa vez, a Fada das
Pradarias os viu a brincar, e tanto se encantou com seus belos
rostos e trejeitos delicados que os colocou sob sua proteção; à
medida que os dois cresciam, crescia também a afeição que a fada
tinha por eles. No começo, ela manifestava seu afeto deixando nos
lugares favoritos das crianças muitos presentinhos, que as duas se
deleitavam de dar uma à outra; com efeito, amavam-se tanto que
suas primeiras considerações eram sempre “Do que gostará
Jocosa?” ou “O que agradará Silvano?”; e deleitava-se a própria
fada com o prazer inocente que seus bolos e guloseimas cotidianas
lhes proporcionavam. Quando os dois cresceram, querendo a fada
se tornar deles conhecida, apresentou-se enquanto descansavam,
protegidos do sol do meio-dia, à sombra de uma sebe floreada. No
primeiro momento, a aparição daquela senhora alta e esbelta,
vestida toda de verde e coroada de flores, os sobressaltou. Mas
quando a fada lhes dirigiu uma voz doce e lhes confessou seu
antigo amor, revelando-se autora de todos aqueles lindos
presentinhos que tanto os surpreendera ao longo dos anos, eles lhe
agradeceram de coração, e se compraziam de responder às
perguntas que a fada lhes fazia. Pouco depois, ao se despedir, ela
lhes disse para não contarem a ninguém que a tinham visto.
— Ver-me-eis muitas outras vezes ‒ acrescentou –, e muitas
outras vezes estarei convosco, mesmo quando não me puderdes
ver.
Ditas estas palavras, desapareceu, deixando maravilhados a
Silvano e Jocosa. Depois desse dia, a fada passou a visitá-los com
frequência, ensinou-lhes muitas coisas e lhes mostrou as várias
maravilhas de seu belo reino, até que um dia lhes disse:
— Sabeis que sempre fui generosa convosco; agora é tempo que
façais algo por mim. Lembrais-vos daquela fonte que eu disse ser a
minha favorita? Prometei a mim que todas as manhãs, antes do
nascer do sol, ireis até ela e removereis de lá todas as pedras que
impeçam seu curso, e todas as folhas e gravetos que turvem suas
águas cristalinas. Tomarei como prova de vossa gratidão se jamais
negligenciardes ou adiardes esse compromisso, e vos prometo que,
enquanto os primeiros raios do sol encontrarem em minha fonte
favorita as águas mais límpidas e puras de todos os meus prados,
nunca vos separareis.
Silvano e Jocosa assumiram de boa vontade o compromisso e
reconheceram que era um preço pequeno a pagar por tudo o que a
fada lhes dera e ainda prometera dar. Por muito tempo, cuidaram da
nascente com grande escrúpulo, conservando-a a mais límpida e
formosa de toda a redondeza. Porém, certa manhã de primavera,
muito antes que o sol nascesse, enquanto corriam em direção à
fonte desde partes contrárias do campo, Silvano e Jocosa se
deixaram atrair pela beleza e variedade das flores que ornavam
seus arredores; então pararam e resolveram colhê-las para dar de
presente um ao outro.
“Farei para Silvano uma guirlanda”, disse Jocosa; “Esta coroa de
flores cairá tão bem em Jocosa!”, pensou Silvano.
Enquanto os dois, desgarrados de seu caminho, se afastavam
cada vez mais da fonte, vendo sempre flores mais bonitas alguns
passos à sua frente, foram surpreendidos pelos primeiros raios da
manhã. Saíram correndo em direção à nascente e a alcançaram ao
mesmo tempo, embora chegando desde lados opostos. Mas qual
não foi o susto deles quando viram suas águas, de regra tão
tranquilas, revoltarem-se férvidas e borbulhantes? E logo, ao
dirigirem o olhar para baixo, viram jorrar imensa correnteza, que não
tardou a engolir a nascente inteira; em questão de segundos,
Silvano e Jocosa acharam-se apartados por um rio largo e
impetuoso. E tudo aconteceu com tal velocidade que os dois só
tiveram tempo de proferir um grito de angústia, e erguer, cada um a
seu lado do rio, as flores que tinham colhido um para o outro; mas
esse pouco bastou para entenderem tudo. Vinte vezes Silvano
lançou-se às águas turbulentas na esperança de atravessá-las a
nado, mas todas as vezes um repuxo invencível o levava de volta à
margem da qual se atirara; Jocosa, do seu lado, experimentou
atravessar a enchente agarrando-se a um tronco que a correnteza
arrancara junto com a raiz e escoara até a margem em que ela
estava, porém seus esforços foram igualmente vãos. Com os
corações pesarosos, puseram-se a seguir o curso do rio, a essa
altura tão alargado que os dois mal conseguiam enxergar-se um ao
outro. Noite e dia, sobre montanhas e através de vales, no frio e no
calor, não poupavam esforços, resistindo à fadiga, à fome e a
dificuldades de toda ordem, consolados apenas pela esperança de
um dia se reencontrarem – até que finalmente, passados três anos,
pararam no penhasco onde o rio desembocava no poderoso mar.
Sentiram-se então mais distantes do que nunca e, do alto de seu
desespero, tentaram mais uma vez atirar-se às ondas borbulhantes.
Porém, a Fada das Pradarias, que jamais cessara de velar por eles,
não queria que se acabassem afogados; prontamente, pois, agitou a
varinha de condão, e, no mesmo instante, os dois se viram lado a
lado sobre as areias douradas da praia. Podeis imaginar que
alegria, que júbilo tomou posse deles quando perceberam que seus
esforços tinham chegado ao fim, e que satisfação sentiram ao ver-
se finalmente nos braços um do outro. Tinham tanto a dizer que não
sabiam por onde começar, mas estavam de acordo em culpar-se
amargamente por sua negligência, que lhes causara tantos
sofrimentos. Assim que ouviu isso, a fada apareceu. Jogaram-se
aos pés dela e imploraram-lhe perdão, que ela concedeu sem
hesitar, jurando-lhes que sua punição chegara ao fim, e lhes
prometendo sua eterna amizade.
Convocou então sua carruagem entrelaçada de junco verde e
ornada com gotas do orvalho de maio, as quais apreciava
particularmente e colhia sempre com especial cuidado; atrelou a ela
suas seis toupeiras e mandou que levassem Silvano e Jocosa de
volta às pastagens que conheciam tão bem, aonde chegaram em
pouquíssimo tempo. Silvano e Jocosa regozijaram-se de rever seu
amado lar depois de tanta desventura. A fada, que se comprometera
a assegurar-lhes em tudo a felicidade, na ausência deles dera um
jeito de reconciliar seus pais, alcançando até mesmo que
aprovassem o casamento dos namorados fiéis. Levou os dois ao
chalé mais encantador que se possa imaginar, situado próximo à
nascente, que, por sua vez, voltara ao estado pacífico de outrora e
agora escorria docemente no córrego que marcava os limites do
jardim, do pomar e das pastagens pertencentes ao chalé. Com
efeito, não se podia pensar em nada que faltasse nem a Silvano e
Jocosa, nem a seus rebanhos; e comprazia-se a fada – que tudo
preparara para agradá-los – com o deleite que via em seus olhos.
Quando já tinham explorado e se admirado de tudo até não poder
mais, sentaram-se debaixo de seu alpendre coberto de rosas, e a
fada lhes disse que contaria uma história para se distraírem até a
chegada dos convidados do casamento. A história era a seguinte:
O PÁSSARO AMARELO

Era uma vez uma fada que, por ter-se metido em travessuras, foi
condenada pelo Supremo Tribunal da Terra das Fadas a viver por
longos anos transformada em algum bicho e, quando estivesse
pronta para voltar a sua aparência original, a propiciar fortuna a dois
homens. Ficou a seu arbítrio escolher a forma que assumiria, e,
como gostasse da cor amarela, transformou-se num belo passarinho
de penas douradas e reluzentes, como jamais fora visto. Quando o
período da condenação estava para chegar ao fim, o lindo
passarinho amarelo voou a Bagdá e deixou-se capturar por um
passarinheiro. Ora, naquele momento Badi-al-Zaman caminhava de
um lado a outro na frente do seu palácio de verão. Este Badi-al-
Zaman – cujo nome quer dizer “Maravilha do Mundo” – era
considerado em Bagdá a criatura mais afortunada da face da Terra
graças a sua imensa riqueza. A verdade, porém, é que por causa do
medo de perder as riquezas, do fastio que sentia por todas as suas
posses e da cobiça incessante pelo que não possuía, Badi-al-
Zaman jamais conhecera um instante sequer de felicidade. Mesmo
agora, ao sair do palácio, que era amplo e esplêndido o bastante
para satisfazer a cinquenta reis, estava aborrecido e irritadiço por
não encontrar nada que o entretivesse. O passarinheiro viu nisto
uma oportunidade de lhe oferecer o maravilhoso passarinho, certo
de que ele o compraria assim que o visse. E não estava enganado,
pois, quando Badi-al-Zaman tomou às mãos o adorável prisioneiro,
viu escrito, embaixo da asa direita, “Há de tornar-se rei quem comer
minha cabeça”, e, embaixo da asa esquerda, “Há de encontrar cem
moedas de ouro debaixo do travesseiro todas as manhãs quem
comer meu coração”; embora já nadasse em dinheiro, Badi-al-
Zaman cobiçou imediatamente o ouro prometido, e em pouco tempo
as negociações chegaram a termo. Surgiu-lhe então a seguinte
dúvida: a quem confiaria o cozimento do passarinho? Na horda de
serviçais que tinha em casa, não conhecia um só digno de
confiança. Finalmente, perguntou ao passarinheiro se era casado, e,
ao ouvir que sim, pediu-lhe que levasse o passarinho para casa e
mandasse a mulher cozinhá-lo.
— É bem possível – falou Badi-al-Zaman – que esse passarinho
me desperte novamente o apetite, que há tempos já não sinto; se
isso acontecer, tu e tua mulher receberão cem moedas de prata.
O passarinheiro correu com grande alegria para casa e chamou a
mulher, que, em pouco tempo, preparou um delicioso ensopado de
passarinho amarelo. Porém, quando Badi-al-Zaman entrou no chalé
e começou a procurar avidamente em seu prato a cabeça e o
coração do passarinho, não conseguiu encontrar nem um nem o
outro e voltou-se enfurecido contra a esposa do passarinheiro. A
mulher sentiu tanto medo que caiu de joelhos na frente dele e lhe
confessou que, pouco antes de ele chegar, seus dois filhos haviam
entrado em casa e pediram com tanta insistência um pouco da
comida que estava na panela, que ela não hesitara em dar a um a
cabeça e a outro o coração do passarinho, tendo em vista que
esses cortes não são lá muito apreciados. Badi-al-Zaman tocou-se
para fora do chalé jurando vingança contra a família inteira. Não se
deve zombar das ameaças de um homem rico, por isso o
passarinheiro e sua mulher, preocupados com a segurança de seus
filhos, decidiram que o melhor modo de mantê-los a salvo era
mandá-los fugirem de casa. Mas a esposa, para consolar o marido,
confiou-lhe que havia dado aos filhos a cabeça e o coração do
passarinho de propósito, porque lera o que estava escrito debaixo
das asas do bicho e sabia o que estava prometido a quem comesse
tais pedaços. Assim, crendo que a fortuna de seus filhos estava
assegurada, abraçaram-nos mais uma vez e despediram-se deles,
rogando que se afastassem de casa o mais que pudessem,
seguissem caminhos diferentes e mandassem notícias sobre sua
condição sempre que possível. Já os pais, astutos que eram,
disfarçaram-se e foram morar escondidos na cidade. Não demorou,
porém, para que, aborrecido e desgostoso com a perda de seu
cobiçadíssimo tesouro, Badi-al-Zaman finalmente morresse; o
passarinheiro e sua mulher, assim que ficaram sabendo disso,
voltaram para casa, onde ficaram à espera de notícias dos filhos. O
mais novo, que comera o coração do passarinho amarelo, logo
descobriu os efeitos daquela refeição, pois todas as manhãs
encontrava, debaixo do travesseiro, um alforje com cem moedas de
ouro. Porém (e sirva isto de consolo aos pobres), nada no mundo
ocasiona tantos aborrecimentos ou requer tantos cuidados quanto a
riqueza. O filho do passarinheiro, que se tornara um notório
esbanjador e levava a fama de possuir entesourados muitos
montões de ouro, não tardou a ser atacado por um bando de
salteadores; e, tentando se defender, foi ferido tão gravemente que
morreu.
O irmão mais velho, que comera a cabeça do passarinho amarelo,
percorreu uma longa jornada sem topar com nenhuma aventura
digna de memória, até que, por fim, chegou a uma grande cidade da
Ásia, que estava em alvoroço por causa da eleição do novo emir.
Todos os cidadãos eminentes se haviam dividido em duas facções,
e foi só depois de muita querela que consentiram em eleger para
emir aquele a quem acontecesse o caso mais extraordinário. Pois
foi nessas circunstâncias que nosso jovem peregrino, com
expressão cortês no rosto e ar jovial, entrou na cidade e, no mesmo
instante, sentiu pousar algo na cabeça, que logo viu ser uma pomba
branca como a neve. Neste momento todos o fitaram e sem demora
puseram-se a marchar atrás do jovem; em breve ele se viu às portas
do palácio, com a pomba em sua cabeça e a cidade toda a seus
pés; e, sem ao menos saber onde estava, foi declarado emir, para
seu grande espanto.
Como não há nada mais prazeroso que dar ordens, nem nada que
passe a costume mais facilmente, o jovem emir não tardou a sentir-
se em casa em sua nova posição; nem por isso, contudo, deixou de
cometer toda espécie de erros e de desgovernar o reino a ponto de
insurgir-se a cidade inteira contra ele, privando-o de uma só vez da
autoridade e da vida – punição, aliás, amplamente merecida, porque
nos dias de maior prosperidade havia renegado o passarinheiro e à
sua esposa, deixando que morressem na pobreza.
— Meus caros Silvano e Jocosa – concluía a fada – contei-vos
essa história para provar que este humilde chalé, junto com todos os
seus pertences, é um presente muito mais apto a vos trazer
felicidade e satisfação do que tantas outras coisas que, à primeira
vista, poderiam parecer melhores e mais desejáveis. Se me
prometerdes que cultivareis vosso campo e apascentareis vossos
rebanhos, e que, desta vez, guardareis vossa palavra mais
fielmente, prometo que jamais vos faltará nada daquilo que é para
vosso bem.
Silvano e Jocosa deram sua palavra de honra e, como jamais a
descumprissem, gozaram de paz e prosperidade a vida inteira. A
fada havia convidado a todos seus amigos e vizinhos para o
casamento, que foi celebrado logo em seguida com grande alegria e
festividade, e os dois viveram por muitos e muitos anos, sem jamais
arrefecer o amor que tinham um pelo outro.[ 9 ]

[ 9 ] Conde de Caylus.
Dons de Fada

CONTECE MUITAS VEZES de o ambiente refletir com maior ou


menor precisão o espírito e as disposições daqueles que
o habitam, e talvez seja por isso que a Fada-Flor vivia
em um palácio lindíssimo, com o mais agradável jardim
que se possa imaginar, repleto de flores, árvores, fontes, lagos de
peixes e tudo que era maravilha. Pois a fada era ela mesma tão
doce e tinha tão bom coração, que não havia quem não a amasse, e
todos os príncipes e princesas de sua corte sentiam-se tão felizes
quanto era possível sê-lo, simplesmente por estar ao seu lado. Eles
haviam-lhe sido confiados ainda pequenos, jamais dela se
afastando até que estivessem crescidos o bastante para enfrentar o
vasto mundo; e, chegada a hora de dizer adeus, ela agraciava cada
um com o dom que lhe pedissem.
Porém, a história que estais prestes a ouvir trata principalmente da
Princesa Sílvia. A fada a estimava de todo o coração, pois era ao
mesmo tempo um espírito imaginativo e nobre, e estava a ponto de
atingir a idade na qual os dons eram normalmente conferidos.
Entretanto, a fada desejava muito saber sobre o sucesso das
princesas que haviam crescido e partido e, antes que chegasse a
hora de Sílvia também partir, decidiu enviá-la para visitar algumas
delas. Então, certo dia a fada mandou aprontar sua carruagem
puxada por borboletas e disse:
— Sílvia, irás para a corte da princesa Íris, que com muito prazer
há de receber-te, tanto por consideração a mim, quanto por
consideração a ti mesma. Retornarás dentro de dois meses para
relatar-me tua opinião sobre ela.
Sílvia não queria partir, mas, sendo aquele o desejo da fada, não o
contestou. Transcorridos dois meses, galgou alegremente os
degraus da carruagem de borboletas, contando os minutos para
rever a Fada-Flor, a quem o reencontro causava igual satisfação.
— Agora, filha – disse ela –, conta-me sobre as impressões que
tiveste.
— Enviaste-me, senhora, para a corte da Princesa Íris, agraciada
com o dom da beleza. Todavia, ela em nenhum momento
mencionou que foste tu quem lhe concedeste a formosura, muito
embora mencione sempre tua generosidade em geral. Pareceu-me
que sua beleza, a qual a princípio muito me impressionou, terminou
por incapacitá-la para o uso de quaisquer outros dotes ou encantos.
Permitir que os outros a contemplem parece ser, em sua opinião,
tudo quanto se poderia lhe exigir. Contudo, por infortúnio, durante
minha visita a princesa caiu gravemente doente e, apesar de ter-se
recuperado, sua beleza desapareceu por completo; ela agora
detesta a própria aparência e vive inconsolável. Pediu-me que te
relatasse tudo quanto se passara e te implorasse que, por piedade,
devolvesse-lhe a beleza. E, de fato, eis aí algo de que ela necessita
profundamente, pois tudo que era suportável em sua pessoa, e até
agradável, quando ainda era bela, parece inteiramente mudado
agora que já não é formosa, e tanto tempo faz desde que utilizou
sua inteligência ou sua criatividade natural, que não creio ter-lhe
restado nem sombra dessas coisas. Ela sabe disso muito bem,
então podes imaginar o quanto está infeliz, implorando do fundo do
coração por teu auxílio.
— Contaste-me o que eu desejava saber – respondeu a fada –,
mas, ai de mim! Não posso ajudá-la: meus dons são concedidos
somente uma vez.
Algum tempo se passou, em meio aos usuais divertimentos do
palácio da Fada-Flor, até que ela mandou chamar por Sílvia
novamente e disse-lhe que, desta vez, deveria passar um período
em companhia da Princesa Dafne. As borboletas, sem demora,
conduziram-na até um estranho reino. Contudo, passado bem pouco
tempo, uma borboleta errante trouxe para a fada uma mensagem de
Sílvia, implorando que fosse chamada de volta o mais rápido
possível. Dentro em pouco, ela obteve permissão para regressar.
— Ah, senhora! – exclamou. – Para onde me mandaste desta vez!
— Por quê? Que houve de errado? – perguntou a fada. – A
Princesa Dafne pediu o dom da eloquência, se me lembro bem.
— E muito mal assenta a uma mulher o dom da eloquência –
respondeu Sílvia, convicta do que dizia. – É inegável que ela sabe
falar bem e suas frases são escolhidas com acerto, mas, então, ela
jamais desiste de falar e, embora isso possa nos divertir no começo,
por fim quase nos mata de fastio. Ela ama, acima de tudo, uma
reunião para tratar dos assuntos do reino, pois nessas ocasiões
pode falar e falar sem medo de ser interrompida. Mas, ainda aí, mal
se encerra a reunião, ela está pronta para recomeçá-la por qualquer
motivo, ou por nenhum, conforme o caso. Ah! Mal posso descrever
o alívio por ter saído de lá.
A fada acolheu com um sorriso o indisfarçado desapontamento de
Sílvia com sua última experiência, mas, depois de conceder-lhe
algum tempo para que se recuperasse, enviou-a à corte da Princesa
Cíntia, onde deveria passar três meses. Ao final desse período,
Sílvia voltou com toda a alegria e contentamento que se pode sentir
ao rever um amigo querido. A fada, como de costume, estava
ansiosa por ouvir o que Sílvia teria a dizer sobre Cíntia, que tinha
sido sempre amável e a quem fora dado o dom de a todos agradar.
— Pensei, a princípio, que ela era a mais feliz das princesas; tinha
mil admiradores que disputavam o privilégio de agradá-la e cercá-la
de atenções. Em verdade, cheguei a ponto de quase decidir que
pediria um dom igual.
— Mudaste de ideia, então? – interrompeu a fada.
— Sim, de fato, senhora – respondeu Sílvia –, e direi o porquê.
Quanto mais o tempo passava, mais eu via que Cíntia não era
verdadeiramente feliz. Sua ânsia de agradar tornou-a insincera, e
ela degenerou-se em mera coquete. Mesmo seus admiradores
perceberam que seus encantos e atrativos não tinham real valor e,
por fim, já não se importavam com ela, indo embora sem olhar para
trás.
— Estou satisfeita contigo, filha – afirmou a fada. – Aproveita teu
tempo por aqui; em breve visitarás a princesa Filídia.
Sílvia gostou de ter um tempo para pensar, já que não conseguia
decidir-se quanto ao que pediria para si mesma, e a hora da decisão
avizinhava-se. Entretanto, a fada não demorou a enviá-la para a
corte de Filídia, e aguardou por seu relato com inquebrantável
interesse.
— Cheguei a salvo àquela corte – disse Sílvia –, e a princesa
recepcionou-me com muita cordialidade, colocando imediatamente
em ação a impressionante perspicácia com que tu a agraciaste.
Confesso que fiquei fascinada com aquela presença de espírito, e
por uma semana cheguei a pensar que nada poderia ser mais
desejável. O tempo passou como por encanto, tão agradável era a
sua companhia. Porém, terminei por desejar aquele dom ainda
menos que todos os outros, pois, tal como o dom de agradar, ele é
igualmente incapaz de proporcionar verdadeira satisfação. Aos
poucos, o que antes tanto me agradara passou a causar-me
verdadeiro fastio, especialmente conforme fui percebendo, cada vez
com mais clareza, que é impossível ser sempre perspicaz e
espirituoso sem ser frequentemente desagradável e
demasiadamente predisposto a tomar todas as coisas, mesmo as
mais sérias, como ocasião para um gracejo inteligente.
Em seu coração, a fada concordou com as conclusões de Sílvia, e
ficou satisfeita por tê-la educado tão bem.
Mas era chegada a hora de Sílvia receber o seu dom, e todos
estavam reunidos para a ocasião. A fada posicionou-se no centro e,
conforme era o hábito, perguntou que dom a princesa gostaria de
levar consigo para o vasto mundo. Sílvia deteve-se por um
momento, e então disse:
— Um espírito sereno.
E a fada atendeu ao seu pedido.
Esse maravilhoso dom torna a vida uma felicidade constante para
o seu possuidor e para todos que com ele convivem. O doce
semblante da princesa traz em si toda a beleza conferida por um
espírito gentil e feliz; e se, por vezes, ele parece menos amável
devido a um eventual pesar ou inquietação, o que de mais severo se
ouve dizer é:
— O doce semblante de Sílvia parece tão pálido hoje! Causa pena
vê-la assim.
Quando, ao contrário, ela está alegre e cheia de júbilo, o brilho de
sua presença é motivo de prazer para todos que têm a felicidade de
desfrutar de sua companhia.[ 10 ]

[ 10 ] Conde de Caylus.
O Príncipe
Narciso e a Princesa Potentila

RA UMA VEZ UM REI e uma rainha que, se bem que estejam


mortos já faz muito tempo, tinham em vida praticamente
os mesmos gostos e propósitos que as pessoas de hoje
em dia. O rei, que se chamava Folhado, gostava de
caçar mais do que qualquer outra coisa, mas nem por isso deixava
de devotar ao reino quanto cuidado e atenção sentia lhe serem
possíveis – o que resultava num dobrar e desdobrar de documentos
do Estado que não acabava mais. Quanto à rainha, fora ela
lindíssima quando jovem, e muito lhe aprazia pensar que ainda o
era, coisa que, obviamente, é bastante fácil para rainhas. O seu
nome era Frívola, e a única ocupação que tinha na vida era buscar
divertimentos. Bailes, mascaradas e piqueniques seguiam-se uns
aos outros numa velocidade vertiginosa, tão rapidamente quanto
Sua Alteza era capaz de organizá-los, e não é muito difícil de se
imaginar que, nestas circunstâncias, o reino acabava um tanto
negligenciado. A dizer a verdade, se alguém quisesse uma cidade
ou uma província, ia até lá e simplesmente a tomava para si – tendo
o rei os seus cavalos e cachorros, e a rainha, seus músicos e
atores, pouco mais lhes importava.
O Rei Folhado e a Rainha Frívola tinham uma única filha, e esta
princesa fora desde bebezinha tão deslumbrante que lá pelos quatro
anos de idade já suscitava em sua mãe uma inveja terrível, pois a
rainha temia que a garota, quando crescida, seria mais admirada
que ela própria. Assim, pois, decidiu mantê-la escondida de toda a
vista. Ordenou que se construísse para tanto uma casinha na
margem dum rio, não muito longe dos jardins do palácio, num
pedaço de terra cercado por um paredão enorme; e foi ali que se
aprisionou a charmosa Potentila. Sua babá, que era muda, tomava
conta dela, e tudo quanto era necessário à subsistência da criança
ia pegar através de uma pequena janela na parede, enquanto lá fora
guardas marchavam sem parar, para lá e para cá, com ordens para
cortar a cabeça de qualquer um que tentasse se aproximar, coisa
que certamente fariam sem pensar duas vezes. A rainha então fez
saber a todos, com uma tristeza para lá de fingida, que a princesa
era tão feiosa, uma criaturinha tão problemática e no final tão
indigna de todo e qualquer amor, que mantê-la às ocultas era a
única coisa que se lhe poderia fazer. E de tanto contar e recontar a
história, toda a corte, no final, acabou por nela acreditar.
Tal era a situação, até que a princesa atingiu cerca de quinze anos
de idade, e o Príncipe Narciso, atraído pela fama que tinham as
alegres festanças e folias da Rainha Frívola, apresentou-se na
corte. Era um rapaz não muito mais velho do que a princesa e um
príncipe muito garboso, figura que não se vê por aí em qualquer
esquina. Além de quê, para sua idade tinha uns miolos não tão
moles. Seus pais haviam sido um rei e uma rainha cuja história vós
talvez chegueis a ler um dia. Morreram os dois quase ao mesmo
tempo, deixando para o filho mais velho o reino, e o filho mais novo
aos cuidados da Fada Melinete. Nisto lhe haviam feito muito bem,
pois a fada era tão benevolente quanto poderosa, e não poupava
esforços para ensinar ao príncipe o quanto havia de bom no mundo
para saber, chegando mesmo a transmitir-lhe um pouco dos seus
saberes de fada. Mas assim que o menino cresceu e se fez rapaz,
ela o mandou viajar, a fim de conhecer o mundo. Ficou porém a
vigiá-lo em segredo, pronta a ajudá-lo caso fosse preciso. Antes de
o rapaz ir-se embora, a fada lhe deu um anel que o tornaria invisível
tão logo fosse posto no dedo. Ao que parece, anéis assim são
bastante comuns – vós já deveis ter ouvido falar de algum, ainda
que nunca tenhais visto um. Foi nas tais andanças do príncipe, que
vagava pelo mundo em busca de aprender o quanto pudesse sobre
os homens e as coisas, que ele enfim foi parar na corte da Rainha
Frívola, onde o receberam extremamente bem. O jovem encantara a
rainha tanto quanto encantara as demais senhoras; o rei, por sua
feita, tratava o rapaz com bastante polidez, sem porém entender o
porquê de tamanho rebuliço.

O Príncipe Narciso gozava de tudo quanto havia, e o tempo


decorria muito agradável. Não demorou muito, é claro, para chegar-
lhe aos ouvidos a história sobre a Princesa Potentila. Como quem
conta um conto aumenta um ponto, e como àquela altura o conto já
fora contado inúmeras vezes, pintaram-lhe a senhorita como um
monstro tão horrendo, que o príncipe no fim ficou curioso e resolveu
valer-se do anel mágico para conseguir vê-la com os próprios olhos.
Assim, pois, fez-se invisível e passou pelos guardas sem que estes
sequer imaginassem haver alguém por perto. Escalar a parede não
foi nada fácil, mas tão logo o príncipe viu-se dentro delas, ficou
encantado com a serena beleza que ali reinava, e tanto mais
encantado após ver uma moça esguia e adorável a passear em
meio às flores. Foi só após ter procurado em vão pelo monstro
imaginário, que entendeu tudo, e se deu conta de que a princesa
era na verdade a moça que vira mais cedo. E ali já caíra de amores
por ela, pois a verdade é que teria sido difícil encontrar alguém tão
bela quanto Potentila – sentada como estava à margem do córrego,
a tecer uma grinalda de não-me-esqueças para coroar os anéis
dourados de seu cabelo ondulado – ou a imaginar algo tão amável
quanto o carinho que ela dispensava a todos os pássaros e animais
que viviam em seu pequeno reino, e que por sua vez a amavam e a
obedeciam.
O Príncipe Narciso seguia-lhe cada movimento e gesto com o
olhar, e ficava perto dela num encantamento só, sem ousar ainda
revelar-se, de tão humilde que subitamente se tornara em sua
presença. E quando caiu a tarde e lá veio a babá buscar a princesa
a fim de levá-la para sua casinha, o príncipe se sentiu obrigado a
voltar ao palácio da Frívola, com medo de que alguém desse por
sua ausência e acabasse descobrindo o seu novo tesouro. Só não
lhe ocorreu que voltar com a cabeça nas nuvens, alheio e
indiferente, quando há pouco estivera alegre e festeiro, era o modo
mais seguro de levantar suspeitas. E como não fez mais do que
corar e soltar respostas evasivas às perguntas zombeteiras sobre o
assunto, logo as senhoras souberam que seu coração fora tomado,
e tentaram de tudo para descobrir quem era a felizarda. Quanto ao
príncipe, este ficava dia a dia mais apaixonado por Potentila, e não
pensava noutra coisa senão em admirá-la, sempre invisível, e em
ajudá-la e dar-lhe absolutamente qualquer coisa que pudesse
diverti-la ou agradá-la. E a princesa, que aprendera a se divertir com
as menores coisas em sua vida pacata, estava por sua vez o tempo
inteiro encantada pelos tesouros que o príncipe continuamente ia
colocando em seu caminho. Narciso, então, implorou à sua fiel
amiga Melinete para que enviasse à princesa sonhos tais que a
fariam reconhecê-lo como um amigo quando ele surgisse perante
ela.
E tão certo deu o artifício que a princesa ficou um tanto desgostosa
quando não lhe vieram mais aqueles sonhos divertidos, em que um
tal Príncipe Narciso era um amante e uma companhia tão
encantadora. Depois deu ele um passo adiante e começou a ter
longas conversas com a princesa – ainda, porém, invisível, até que
a moça tanto lhe rogou para que se mostrasse, que ele por fim não
pôde mais resistir. Após fazê-la prometer que haveria de amá-lo,
fosse qual fosse sua aparência, tirou o anel do dedo, e a princesa
ficou encantada ao ver que havia ali um príncipe tão bonito quanto
agradável.
Ora, a dizer a verdade, ficaram extremamente felizes, e passaram
o dia de verão inteiro no cantinho preferido de Potentila, ao pé do
córrego, e quando enfim deu a hora de o Príncipe Narciso deixá-la,
pareceu a ambos que o tempo passara num piscar de olhos. A
princesa ficou onde estava, a sonhar com seu maravilhoso príncipe,
e nada lhe poderia estar mais longe da imaginação do que qualquer
pensamento sobre problemas ou infortúnios.
Subitamente, numa nuvem de poeira e escombros, eis que surgiu
o feiticeiro Grumedano, o qual infelizmente calhou de vê-la. Desceu
até a senhora e lhe pousou aos pés, e uma só mirada nos seus
magníficos olhos azuis e sorridentes lábios foi o quanto bastou para
convencê-lo a mostrar-se já, muito embora o irritasse
profundamente o fato de estar usando apenas a sua segunda
melhor capa. A princesa pôs-se de pé com um grito de terror ante a
súbita aparição, pois, de fato, o feiticeiro não era lá muito bonito.
Para começo de conversa, era enorme e estabanado, e tinha um
só olho, e dentes longos, além de gaguejar muito. Contudo, tinha-se
na conta de sujeito muito garboso, e assim tomou o grito de terror
por uma exclamação de alegre surpresa. Após dar à senhora um
tempinho para admirá-lo, o feiticeiro fez-lhe o discurso mais elogioso
que sua cabeça foi capaz de inventar, e o qual só encantou a ele
próprio. Mas a coisa não agradara nadinha à pobre Potentila, que
apenas estremeceu e gritou:
— Ó! Onde está meu Narciso?
Ao que ele respondeu, com uma risadinha satisfeita:
— Queres um narciso, minha senhora? Bem, não é uma coisa
assim tão rara; terás quantos quiseres.
Então balançou sua mão, e a princesa num segundo viu-se
rodeada e quase soterrada sob as flores cheirosas. Certamente teria
revelado ao feiticeiro que não era esse tipo de narciso que queria,
se não fosse a Fada Melinete, que muito agitada estivera assistindo
à conversa, julgando que já era hora de intervir. Assumindo a voz do
príncipe, sussurrou no ouvido de Potentila:
— Estamos ameaçados por um grande perigo, mas é só por ti que
temo, minha princesa. Portanto, rogo-te para que escondas o que
realmente sentes, e ficaremos na esperança de que surja algum
modo de escaparmos a esta dificuldade.
A princesa ficou alvoroçadíssima, e não menos por recear que o
feiticeiro houvesse escutado algo; mas ele estivera a chamar-lhe a
atenção para as flores, barulhento que só, enquanto soltava risinhos
por sua esperteza em havê-las trazido. Foi-lhe um golpe bastante
duro, portanto, quando a senhorita disse, muito fria, que as flores
não faziam o seu tipo e que lhe seria muito grata se as tirasse dali.
Fê-lo instantaneamente, mas em seguida quis beijar a mão da
princesa em recompensa por lhe ter sido tão prestativo. Isto, porém,
a Fada Melinete não haveria de permitir. Surgiu de súbito, em todo o
seu esplendor, e bradou:
— Para aí mesmo, Grumedano; esta princesa está sob minha
proteção, e a menor impertinência custar-te-á mil anos de prisão. Se
conseguires ganhar o coração de Potentila por meio das vias
ordinárias, não poderei me opor a ti. Mas acautela-te! Truque
nenhum teu será tolerado.
O feiticeiro não gostou nadinha da advertência. Sabia, porém, que
não havia escapatória e que portanto teria de se comportar e
devotar à princesa quantas delicadezas e cavalheirismos
conseguisse imaginar, muito embora tudo isso não lhe fosse nem
um pouco costumeiro. Entretanto, decidiu que para ganhar uma
princesa tão linda todo esforço valeria a pena. Melinete, sentindo
que poderia deixar já a princesa em segurança, correu para contar
tudo ao Príncipe Narciso. É claro, à simples menção do feiticeiro
como seu rival, o moço ficou furioso, e sabe-se lá que bobagens não
teria feito se Melinete não estivesse lá para acalmá-lo. Fê-lo saber
quão poderoso feiticeiro era Grumedano, e como o vilão poderia
fazer recair uma vingança sua contra a princesa se provocado, pois
era o mais injusto e intratável entre os feiticeiros, já tendo sido
muitas vezes punido pela Rainha das Fadas por algumas de suas
malvadezas. Uma vez fora preso numa árvore, e de lá só foi liberto
quando um vento forte calhou de soprá-lo; outra vez fora condenado
a ficar debaixo de uma pedra enorme no fundo dum rio, até que a
sorte a virasse; mas nada era capaz de torná-lo alguém melhor. A
fada fez por fim Narciso prometer-lhe que ficaria invisível enquanto
estivesse com a princesa, pois estava certa de que assim tudo seria
mais fácil para todos.
Então começou uma disputa entre Grumedano e o príncipe (este
último usando o nome de Melinete) para se determinar quem
poderia agradar e divertir mais a princesa e, assim, ganhar-lhe a
aprovação. Primeiro, o Príncipe Narciso ficou amigo de quantos
pássaros havia no reinozinho de Potentila e lhes ensinou o nome da
senhorita e outros tantos elogios, fazendo-os gorjear o dia inteiro o
quanto ele a amava, com as melodias mais doces e tocantes que se
poderiam imaginar. Grumedano, por sua vez, declarou que não
havia aí nada de novo, já que os pássaros vinham cantando desde
que o mundo é mundo, e todos os amantes já se haviam imaginado
a única razão no mundo para todos os cantos e gorjeios. Assim,
pois, anunciou que haveria de escrever ele mesmo uma ópera e que
esta seria uma novidade absoluta e definitivamente algo que valeria
a pena se ouvir. Quando chegou a hora da performance (que se
arrastou por cinco horas inteiras) a princesa descobriu, consternada,
que a “ópera” consistia inteira destes versos perfeitamente sem
graça, cantados por dez mil sapos a plenos pulmões:
Potentilla, boa de admirar,
Acaso pensas ser sábio e gentil
Matar de modo súbito e sutil
Um pobre encantador c’o olhar?
A verdade é que se Narciso não houvesse estado lá para
sussurrar-lhe no ouvido e distraí-la, não sei o que teria sido da pobre
Potentila, pois, embora a primeira repetição dessa maluquice a
houvesse divertido um tiquinho, estava já quase morta de tédio
perto do final. Felizmente, Grumedano não percebeu nada, pois que
estava a chicotear os sapos, entre os quais muitos morreram
miseravelmente de tanta fadiga, já que ele não os deixava
descansar nem por um segundo.
A próxima ideia que ocorreu ao príncipe para divertir Potentila foi
fazer surgir uma frota de barcos, tal qual os de Cleópatra – sobre os
quais certamente os senhores já leram em suas aulas de história –,
a subir o pequeno rio, e na embarcação mais ricamente decorada
de todas fazer sentar-se a própria rainha, que, tão logo chegou ao
lugar em que Potentila se sentara olhando tudo arrebatada, pisou
majestosamente na margem e presenteou a princesa com aquela
célebre pérola, da qual vós tanto já ouvistes, dizendo:
— És mais bela do que jamais fui. Que meu exemplo sirva-te de
aviso para fazeres melhor uso de tua beleza!
E então a pequena frota seguiu em frente e velejou até sumir de
vista nas curvas do rio. Grumedano também assistia ao espetáculo,
e fez notar, desdenhoso que só ele:
— Não vejo qualquer graça nessas marionetes. Quanto alarde
para te dar uma só perolazinha! Mas se gostas de pérolas, minha
senhora, aqui está algo que te agradará.
E com tais palavras sacou um apito do bolso, e mal o soprara já a
princesa viu a água do rio borbulhar e tornar-se lamacenta, e daí a
um instante centenas de milhares de ostras enormes vieram à tona
e com muito esforço foram subindo até a margem para depositar
aos seus pés quantas pérolas traziam nas línguas.
— É isto que eu chamo de pérolas! – bradou Grumedano, mais
satisfeito impossível. E, a dizer a verdade, havia mesmo tantas que
se poderia pavimentar com elas cada caminho no jardim de
Potentila, e ainda sobrariam algumas! No dia seguinte, o Príncipe
Narciso aprontou, para o deleite da princesa, um charmoso
caramanchão feito de galhos folhosos, com sofás macios de musgo
e um piso todo coberto de grama, além de grinaldas por todos os
lados e o nome da senhorita escrito em várias flores coloridas. Ali
ofereceu-lhe um pequeno banquete de petiscos e iguarias finas,
enquanto ao fundo músicos escondidos dedilhavam no ar uma
música calma, e as fontes d’água prateada se deixavam cair
suavemente nas bacias de mármore; e, assim que se calou a
música, um único rouxinol rompeu o silêncio com seu canto
delicioso.
— Ah! – exclamou a princesa, reconhecendo pela voz um dos seus
pássaros prediletos. – Filomeu, doce meu, quem te ensinou essa
nova canção?
E ele respondeu:
— O amor, minha princesa.
Enquanto isso, o feiticeiro estava bastante insatisfeito com o
entretenimento. Na verdade, disse que acabara de presenciar o
tédio encarnado.
— Não te parece ocorrer nenhuma ideia cá por estas bandas que
não sejam pássaros gritando esganiçados! – disse ele. – E imagine
só, dar um banquete em que mal há um prato de comida!
Então, no dia seguinte, quando a princesa saiu para o jardim, viu
que ali se erguera uma casa de veraneio feita todinha de ouro
maciço, ornada dentro e fora com as suas iniciais entremeadas com
o as do feiticeiro. Dentro havia um mundaréu de comida e uma
mesa que tanto cintilava com as taças e os pratos dourados, e com
as jarras e as louças e os candelabros, e centenas de outras coisas
mais, que era impossível fixar nela o olhar. O feiticeiro comeu por
seis ogros, mas a princesa nem sequer conseguiu tocar em nada.
Grumedano então fez notar, com um sorriso arreganhado:
— Não te providenciei nem músicos, nem cantores; mas, como
pareces gostar de música, eu mesmo hei de cantar algo para ti.
Dito isso, entrou a cantar a letra de sua “ópera” com uma voz que
mais parecia o guincho duma coruja, só que desta vez felizmente
sem se prolongar por cinco horas e sem o coral de sapos para
acompanhá-lo.
Depois, o príncipe mais uma vez recorreu aos seus amigos
pássaros, e quando estes já se haviam reunido, vindos de toda
parte, Narciso amarrou-lhes ao redor do pescoço uma lampadazinha
de alguma cor brilhante e, ao cair da noite, fê-los realizarem toda a
sorte de belos truques perante a encantada Potentila, que bateu
palmas de alegria ao ver o seu próprio nome traçado em pontos de
luz recortados contra o escuro das árvores, ou todo o bando de
centelhas ajuntar-se em buquês coloridos, quais flores vivas.
Grumedano, reclinando-se em sua poltrona, com um joelho a cruzar
o outro e o nariz empinado, assistia a tudo com desdém.
— Ó! Então gostas de fogos de artifício, princesa – disse ele; e, na
noite seguinte, todos os fogos-fátuos do país se puseram a dançar
nas planícies. A princesa, que os via pela janela, estava a apreciar o
espetáculo até que de súbito subiu aos céus um vulcão terrível, a
cuspir fumaça e chamas que a aterrorizaram. O feiticeiro, cuja
gargalhada soava como um arranca-rabo duma matilha de lobos,
achou a coisa o máximo. Depois, tantos fogos-fátuos quanto cabiam
no jardim da senhora lá se apinharam, e à sua luz os altos teixos
dançaram minuetos, até que a princesa se cansou de tudo e
implorou para que voltasse a olhar só para a noite e mais nada.
Mas, a despeito do esforço enorme que Potentila empreendia para
tratar com toda a cortesia o velho feiticeiro enfadonho, a quem
detestava, este já percebera que não conseguia agradá-la, e daí
passou a suspeitar que a senhora devia amar algum outro e que
alguém que não Melinete era o responsável por todas as festanças
e banquetes que vira. Portanto, após muito matutar, bolou um plano
para descobrir a verdade. De súbito foi até a princesa e lhe
anunciou que, a muito contragosto, teria de deixá-la, e viera dar-lhe
adeus. Potentila mal pôde esconder a alegria e, tão logo o feiticeiro
virou-lhe as costas, já estava a suplicar para o Príncipe Narciso
tornar-se visível mais uma vez. O pobre príncipe estava já um tanto
abatido à força de tanta ansiedade e impaciência, e fez o que ela
pedira, de muitíssimo bom grado. Cumprimentaram-se arrebatados,
e estavam para sentar-se e bater papo e desfrutar juntos a derrota
do feiticeiro, quando este saltou de trás dum arbusto, ardendo em
fúria. Com a sua enorme clava, mirou um golpe terrível em Narciso,
que certamente teria sido morto se não fosse pela sagacidade e
agilidade da Fada Melinete, que chegou a tempo de pegá-lo e levá-
lo na velocidade da luz para o seu castelo no ar. Mas a pobre
Potentila não teve o conforto de saber isso. À vista do feiticeiro
ameaçando seu príncipe amado, soltara um grito e caíra sem
sentidos no chão; ao recobrá-los, persuadiu-se como nunca de que
ele estava morto, pois nem sequer Melinete estava mais por perto, e
não restara ninguém para defendê-la do velho e odioso feiticeiro.
Pior ainda, o vilão parecia estar num mau humor horrendo e entrou
a esbravejar e ralhar com a pobre princesa.
— É o seguinte, dona – disse ele –; se amas ou não este
principezinho que mal saiu das fraldas não faz diferença alguma.
Casar-te-ás comigo, então é bom já ires te acostumando com a
ideia. Vou sair agorinha mesmo para arranjar tudo. Mas, para que
não inventes de aprontares uma das tuas enquanto eu estiver fora,
é melhor que eu te ponha para dormir.
E balançou a mão sobre a garota, que daí a alguns instantes
estava já dormindo um sono profundo e sem sonhos, por mais que
houvesse tentado ficar acordada.
Como quisesse fazer o que julgava ser uma entrada apropriada no
palácio do rei, o feiticeiro saiu do reinozinho da princesa e subiu
numa carruagem imensa com rodas gigantescas e maciças, além de
uma lança tão enorme quanto o tronco dum carvalho – e tudo, tudo
de ouro. Carregavam-na a muito custo quarenta e oito bois muito
robustos; e o feiticeiro reclinou-se, sossegado, a apoiar-se em sua
enorme clava enquanto segurava, distraído, um leão africano em
cima dos joelhos como a um cãozinho de colo. Era mais ou menos
sete da manhã quando a carruagem extraordinária chegou aos
portões do palácio; o rei, já animado, estava prestes a viajar numa
expedição de caça; a rainha, por sua vez, acabara de deitar-se para
ter seu primeiro sono – e quem inventasse de acordá-la haveria
mesmo de ser valente!
O rei ficou muito aborrecido por ter de ficar e receber um visitante
àquela hora da manhã, e tirou suas botas de caça, cheio de caretas.
Enquanto isso, o feiticeiro andava arrastado pelo salão de entrada, a
bradar:
— Onde está esse tal rei? Dizei-lhe que desejo vê-lo e também à
sua esposa.
Ao rei, que ouvira tudo no topo da escada, isto não lhe pareceu
muito cortês; contudo, foi-se aconselhar com o seu caçador favorito,
e, seguindo-lhe o conselho, desceu a fim de saber o que é que
queriam dele. Ficou embasbacado ao ver a carruagem, e a olhava,
boquiaberto, quando o feiticeiro foi até ele exclamando:
— Aperta-me cá a mão, Folhado, meu velho! Não sabes quem
sou?
— Não, a bem dizer não sei – respondeu o rei, algo embaraçado.
— Ora, sou Grumedano, o Feiticeiro – disse ele –, e vim fazer a
tua fortuna. Vamos, entremos, pois temos muito a conversar.
Em seguida, despachou os bois, que saíram a pular como cervos e
logo sumiram de toda vista. Então, com um golpe de sua clava,
transformou a maciça carruagem numa montanha perfeita de
moedas de ouro.
— Isto aqui é para teus lacaios – disse ao rei –, para que possam
beber à minha saúde.
Naturalmente, foi uma algazarra só, e enfim as gargalhadas e os
berros acordaram a rainha, que tocou o sino para chamar as criadas
e lhes perguntou qual era a razão de tamanha e tão extraordinária
balbúrdia. Quando a resposta foi que alguém a queria ver, e a um só
tempo cada criada desatou a contar-lhe uma história fabulosa
diferente, das quais pôde distinguir apenas as palavras “boi”, “ouro”,
“clava”, “gigante” e “leão”, pensou que estavam todas malucas.
Nesse meio-tempo, o rei, que perguntara ao feiticeiro a que devia a
honra de uma visita tão ilustre, e recebera a resposta de que nada
seria dito até a rainha também estar presente, saiu a enviar
mensageiro atrás de mensageiro rogando à esposa para que
descesse imediatamente. Mas Frívola não ficara lá muito de bom-
humor por ter sido acordada assim tão no susto. Declarou que
sentia uma dor no seu dedo mindinho e que nada no mundo poderia
fazê-la descer.
Quando o feiticeiro o soube, insistiu que ela deveria vir.
— Leva a minha clava à Sua Majestade – disse ele – e dize-lhe
que uma cheirada na sua ponta é o quanto lhe bastará para sentir-
se maravilhosamente revigorada.
E lá se foram quatro dos soldados mais fortes do rei carregar a
coisa, cambaleando, até a rainha, que após alguma persuasão
consentiu em testar o novo remédio. Mal lhe dera um cheiro, já se
declarou perfeitamente restabelecida (se, porém, o restabelecimento
foi graças à fragrância da madeira ou ao fato de que, tão logo a
rainha tocou na clava, choveu uma catarata de joias magníficas,
deixo para os bons leitores decidirem). De qualquer forma, ela
estava agora ansiosíssima para conhecer o misterioso estranho, e
às pressas jogou de lado o seu cobertor real, pôs a sua segunda
melhor coroa de diamantes em cima da touca de dormir, aplicou
uma quantidade generosa de blush numa e noutra bochecha, e,
segurando em frente ao nariz o maior leque que tinha – pois não
estava acostumada a se mostrar à luz do dia –, lá se foi a passos
curtos e afetados em direção ao salão de entrada. O feiticeiro
aguardou até que o rei e a rainha estivessem sentados em seus
respectivos tronos. Então, ficando entre ambos, começou muito
solene:
— Meu nome é Grumedano. Sou um feiticeiro muitíssimo bem
relacionado; meu poder é imenso. A despeito de tudo isso, porém,
vossa filha Potentila tanto me encantou que já não posso mais viver
sem ela. A princesa imagina estar apaixonada por um certo fedelho
desprezível chamado Narciso; mas com este eu já lidei. A bem
dizer, não me importo se tenho ou não o vosso consentimento, mas
sou obrigado a vos perguntar, graças a uma certa fada intrujona
chamada Melinete, com a qual tenho minhas razões para querer
manter boas relações.
O rei e a rainha ficaram algo embaraçados e não sabiam o que
dizer a tão terrível pretendente; afinal, pediram-lhe algum tempo
para pensar no assunto, já que os súditos – diziam eles – poderiam
pensar que a herdeira do trono não deveria se casar assim com tão
pouco cuidado, como se fora uma leiteira.
— Ó! Tendes um ou dois dias, se o quiserdes – respondeu o
feiticeiro –, mas enquanto isso hei de mandar buscar vossa filha.
Quem sabe não consigais botar-lhe algum juízo na cabeça.
E logo sacou de seu apito favorito e nele soprou uma nota
estridente. Daí a um instante o leão, que estivera a cochilar no pátio
ensolarado, veio saltando leve com suas pesadas patas.
— Órion – disse o feiticeiro –, vai e traze-me a princesa
imediatamente. Sê gentil!
A estas palavras lá se foi Órion, numa carreira só, e logo estava já
na outra ponta dos jardins do rei. Jogando os guardas à direita e à
esquerda, de um salto pulou o paredão, pegou a princesa ainda a
dormir e a jogou nas suas costas, onde a manteve segurando-lhe a
roupa com os dentes. Então retornou, trotando gentilmente, e em
menos de cinco minutos eis que estava de volta ao salão, perante o
rei e a rainha pasmados.
O feiticeiro segurou sua clava próxima ao lindo narizinho da
princesa, ao que esta acordou e gritou de terror quando se achou
num lugar estranho, junto com o odioso Grumedano. Frívola, que
não se movera, imóvel de tamanho desgosto à vista da amável
princesa, deu um passo à frente e, com uma preocupação
muitíssimo fingida, propôs-se a levar Potentila até seus aposentos, a
fim de que a moça pudesse gozar da quietude de que precisava. Na
verdade, porém, o que queria era escondê-la de quanta gente fosse
possível; assim, pois, jogou-lhe um véu sobre a cabeça, levou-a
embora e a trancou num quarto.
Todo este tempo o Príncipe Narciso, tristonho e angustiado,
estivera preso no castelo que Melinete tinha no ar, e a despeito de
todo o esplendor que o rodeava, e de todos os prazeres dos quais
poderia gozar, a única coisa que lhe estava na cabeça era recuperar
Potentila. A fada, porém, deixara-o lá, prometendo-lhe que faria o
quanto pudesse por ele, dando ordem a todas as suas andorinhas e
borboletas para que o servissem e fizessem tudo quanto quisesse.
Um dia, enquanto o príncipe andava tristonho para lá e para cá,
julgou ouvir uma voz conhecida a chamá-lo, e lá surgiu o fiel
Filomeu, o favorito de Potentila, que lhe contou tudo o que se
passara: como a princesa, em seu sono encantado, fora levada
embora pelo leão, para a grande tristeza de todos os seus súditos
peludos e de quatro patas; e como ele, Filomeu, não sabendo o que
fazer, voou sem rumo até ouvir a fofoca das andorinhas sobre o
príncipe que estava no castelo no ar e viera conferir se o tal poderia
ser Narciso. O príncipe então ficou mais agoniado do que nunca e
tentou em vão escapar do castelo ao pular do telhado para as
nuvens; mas todas as vezes o capturavam, e, rolando-o
suavemente nuvens acima, punham-no de novo no lugar de onde
começara. Enfim, o moço desistiu e se pôs a esperar, com uma
paciência desolada, o retorno de Melinete.
Enquanto isso, tudo se ia desenrolando rapidamente na corte do
Rei Folhado, pois a rainha resolvera que uma lindeza como
Potentila era coisa da qual tinha de se livrar o mais rápido possível.
Mandou chamar, portanto, em segredo, o feiticeiro, e após fazê-lo
prometer que jamais expulsaria ela ou o Rei Folhado do reino que
lhes pertencia, e que haveria de levar Potentila para longe, muito
longe, de modo que ela nunca mais precisasse botar os olhos na
garota, arranjou tudo para o casamento se dar no dia seguinte.
O bom leitor pode imaginar como Potentila se pôs a lamentar seu
triste destino, e muito suplicou para ser poupada. O único consolo
que conseguiu foi Frívola dizer-lhe que, se ela preferisse uma taça
de veneno a um marido rico, aquela com certeza seria
providenciada.
Quando, então, veio enfim o dia fatal, levou-se a infeliz Potentila
até o grande salão, e se pôs a moça entre o rei e a rainha. Esta
última corroía-se de inveja face aos murmúrios de admiração que
em todos os cantos surgiam pela beleza da princesa. Daí a um
instante entrou Grumedano pela porta defronte. Com o cabelo
arrepiado, trazia ele uma bolsa enorme e usava uma gravata
borboleta; seu manto, feito todo de moedas de prata, tinha um forro
rosa; ele não poderia estar mais embevecido com a própria
aparência. Que alguma princesa no mundo pudesse preferir uma
taça de veneno à sua pessoa não lhe passou um só instante pela
cabeça. Não obstante, foi exatamente o que aconteceu, pois quando
a Rainha Frívola segurou, em deboche, a taça fatal frente à garota,
a princesa a tomou na mão, clamando:
— Narciso, meu amor, estou indo te encontrar! – e já estava com a
taça perto dos lábios quando se espatifou a janela do grande salão
e surgiu a Fada Melinete, flutuando numa nuvem brilhante de pôr do
sol, acompanhada pelo príncipe em pessoa.
Toda a corte ficou a olhar estupefata a cena, enquanto Potentila,
assim que avistou o seu amado, deixou cair a taça e correu ao seu
encontro.
Ao ver Melinete, a primeira coisa em que o feiticeiro pensou foi
defender-se, mas a fada deslizou até o seu ponto cego e,
agarrando-o pelos cílios, arrastou-o até o teto do salão, onde o
segurou enquanto ele chutava o ar por algum tempo, só para lhe dar
uma boa lição. Depois, tocou-o com a varinha e o prendeu por mil
anos numa bola de cristal pendurada no teto.
— Aprende com isto a dar-me ouvidos da próxima vez – fez notar,
severa.
Então, voltando-se ao rei e à rainha, rogou-lhes para continuarem
com o casamento, já que trouxera um noivo mais apropriado.
Também lhes tirou o reino, pois eram ambos péssimos soberanos, e
o deu à princesa e ao príncipe, que, muito embora não o quisessem
aceitar, não tiveram outra opção senão obedecer à fada. Arranjaram
para que o rei e a rainha, apesar de destronados, sempre tivessem
tudo o que pudessem desejar.
O Príncipe Narciso e a Princesa Potentila viveram uma vida longa
e feliz, amados por todos os súditos. E, quanto ao feiticeiro, não
creio que já tenha sido libertado.[ 11 ]

[ 11 ] Conde de Caylus.
O Príncipe
Cabeça-de-Vento e a Princesa
Celidônia

RA UMA VEZ UM REI e uma rainha. Eles eram as criaturas


mais bondosas do mundo e tinham o coração tão
generoso que não aguentavam ver seus súditos
necessitados de coisa alguma. O resultado é que pouco
a pouco se desfizeram de seu tesouro, até que não lhes sobrou
nada nem para viver. Quando esta notícia chegou aos ouvidos de
seu vizinho, o Rei Bruno, este prontamente recrutou tropas e
marchou para o país deles. O pobre rei, sem meios de defender seu
país, foi obrigado a se disfarçar com uma barba falsa, e, levando
nos braços seu filho, o Príncipe Cabeça-de-Vento, refugiou-se com
sua amada rainha em regiões afastadas. Por sorte conseguiu
escapar dos soldados do Rei Bruno, e finalmente, depois de
extraordinárias labutas e aventuras, viram-se num vale encantador e
verdejante, pelo qual corria um regato límpido como cristal e
sombreado por belas árvores. Enquanto olhavam à sua volta
admirados, uma voz lhes disse de repente:
— Pescai, e vede o que pegareis.
O rei, deveis saber, adorava pescar e nunca saía de casa sem um
par de anzóis no bolso; pegou então com pressa um dos anzóis,
prendeu nele o cinto que a rainha lhe emprestou, e, mal tocando a
água, pegou um grande peixe que lhes serviu de excelente refeição
– justo quando precisavam, porque até então não haviam achado
senão uns frutos e raízes silvestres. Decidiram que o melhor a fazer
por ora era ficar naquele agradável lugar. Pôs-se o rei a trabalhar, e
em breve construiu para a família um abrigo de galhos; quando o viu
acabado, a rainha ficou tão encantada que declarou nada faltar a
sua felicidade senão um rebanho de ovelhas, que ela e o
principezinho pudessem apascentar enquanto o rei pescasse. Logo
descobriram que os peixes do regato eram não apenas abundantes
e fáceis de pegar, como também muito bonitos, com escamas
brilhantes de todos os matizes imagináveis; não tardou o rei a
perceber que os podia ensinar a falar e assobiar melhor do que a
qualquer papagaio. Decidiu então levar alguns à cidadezinha mais
próxima para vendê-los; lá o povo todo, como nunca tivesse visto
nada parecido, juntou-se à sua volta e sem demora comprou todos
os peixes que ele pegara. Em breve não havia uma só casa na
cidade inteira que não quisesse um aquário cheio de peixinhos; os
clientes do rei faziam questão de comprar peixes que combinassem
com o resto da decoração da casa e lhe deram muito trabalho para
escolhê-los. Mas valeu a pena, porque o dinheiro que conseguia
com o negócio lhe permitiu comprar à rainha um rebanho de
ovelhas, além de muitas outras coisas que lhes tornaram a vida
mais agradável, e assim nunca se ressentiram de ter perdido seu
reino.
Pois bem: naquele adorável vale, aonde o acaso trouxera os
pobres fugitivos, vivia a Fada das Faias. Era ela quem, apiedada da
condição miserável deles, tanta sorte dera ao rei em sua pescaria, e
também em todo o resto colocara a família sob sua proteção. Tanto
maior era sua inclinação para fazer isto quanto mais amava as
crianças, e o Principezinho Cabeça-de-Vento, que nunca fazia birra
e ficava mais bonito dia após dia, conquistou seu coração. Ela ficou
amiga do rei e da rainha sem lhes revelar ser uma fada, e em breve
os dois se lhe afeiçoaram muito, chegando a confiar a seus
cuidados o precioso príncipe, que ela levava a seu palácio e
regalava com bolos e tortas e tudo o que há de bom. Foi assim que
a fada conquistou seu afeto; mas tampouco negligenciou sua
formação, e, à medida que o menino crescia, não poupou nenhum
esforço para educá-lo e treiná-lo da maneira devida a um príncipe.
Infelizmente, apesar de todos os desvelos da fada, o príncipe
tornou-se tão frívolo e vaidoso que, aborrecido com os campos, foi-
se embora de sua terra tranquila atrás das tolas diversões da cidade
vizinha. Ali seu belo rosto e modos encantadores rapidamente o
tornaram popular. O rei e a rainha sentiram profundo pesar por essa
mudança em seu filho, mas não sabiam como emendá-lo, uma vez
que a fada o tornara tão voluntarioso.
Foi justamente então que a Fada das Faias foi visitada por uma
amiga de longa data, que se chamava Sarandina. Sarandina
precipitou-se para dentro da casa de sua amiga tão ofegante e com
tanta raiva que mal podia falar.
— Querida, querida… o que houve? – fez a Fada das Faias, num
tom confortante.
— O que houve?! – gritou Sarandina. – Dentro de pouco saberás
de tudo. Sabes que, não contente com dotar Celidônia, a Princesa
das Ilhas de Verão, com tudo o que ela pudesse desejar a fim de
torná-la encantadora, ainda me dei ao trabalho de criá-la por conta
própria; e o que ela faz então, senão vir até mim, com mais
branduras e afagos do que o normal, para pedir um novo favor! E
consegues adivinhar o que era esse favor? Eu mesma só fiquei
sabendo depois que fui induzida, por meio de agrados, a lhe
prometer que o concederia. Pois bem: ela pediu nada mais, nada
menos que eu tomasse de volta todos os dons que lhe concedera.
“Afinal”, disse a fina madamezinha, “se um dia alguém gostar de
mim, como vou saber que é realmente de mim que gosta? E assim
será minha vida inteira, sempre que eu conhecer alguém novo.
Percebes como será enfadante a vida sob tais circunstâncias?
Porém, te asseguro que não sou nada mal-agradecida a ti por toda
tua generosidade”. Fiz o que pude – prosseguiu Sarandina – para
que ela o repensasse, mas foi tudo em vão; assim, depois de
cumprir as cerimônias usuais para reaver os dons que lhe havia
concedido, vim até ti atrás de alguma paz e tranquilidade. Mas,
sabes, no fim das contas não tirei de Celidônia nada de muito
importante. A natureza já a fizera tão bela e lhe dera tamanho
engenho, que tenho certeza que ela ficará bem sem mim. Mesmo
assim, achei que ela precisava aprender uma lição – por isso a
carreguei até o deserto e lá a deixei.
— Como é?! Inteiramente sozinha e sem meios de sobrevivência?
– exclamou a velha fada de bom coração. – Era melhor que a
tivesses entregado a mim. No fim das contas, não faço dela tão mau
juízo. Curarei sua vaidade fazendo-a amar alguém melhor do que
ela própria. Para falar verdade, e pensando bem, essa coquete ao
tratar a questão mostrou mais gênio e originalidade do que
geralmente se espera de princesas.
Sarandina consentiu de bom grado, e o primeiro cuidado da velha
fada foi remover dos arredores da princesa todas as dificuldades e
conduzi-la através de uma trilha coberta de musgo e sombreada de
árvores até o abrigo do rei e da rainha, que seguiam vivendo
tranquilamente no vale.
Os dois ficaram atônitos com a chegada dela, mas sua face
encantadora, somada à condição maltrapilha a que os espinheiros e
sarças do caminho haviam reduzido seus belos trajes, rapidamente
lhes moveu a compaixão. Reconheceram nela uma companheira de
desventura, e a rainha a recebeu com entusiasmo e pediu que
compartilhassem a mesma refeição, por mais simples que fosse.
Celidônia, com muita gratidão, aceitou a hospitalidade, e logo
contou o que lhe tinha acontecido. Ao rei encantou o gênio da moça,
ao passo que à rainha pareceu que ela fora, de fato, atrevida
demais em se opor aos desejos da fada.
— Como isso resultou em nosso encontro – disse a princesa –,
não consigo me arrepender do passo que dei, e, se me deixardes
ficar convosco, será completa minha felicidade.
O rei e a rainha ficaram deveras contentes que uma princesa tão
encantadora tomasse o lugar do Príncipe Cabeça-de-Vento, a quem
viam muito pouco, já que a fada lhe havia providenciado um palácio
na cidade, onde vivia no maior luxo e nada fazia senão se divertir da
manhã à noite. Celidônia, pois, ficou e ajudou a rainha a tomar conta
da casa; e assim muito em breve passaram a amá-la com grande
afeto. Quando a Fada das Faias os visitou, eles lhe apresentaram a
princesa e contaram sua história, nem desconfiando que a fada
sabia muito mais a respeito de Celidônia do que eles mesmos. A
velha fada deleitou-se igualmente com ela, e muitas vezes a
convidou a visitá-la em seu Palácio Frondoso, que era encantador
até não mais poder e estava cheio de tesouros. Muitas vezes dizia à
princesa, ao lhe mostrar alguma maravilha:
— Isto um dia dará um belo presente de casamento.
E Celidônia, ao ouvir tais palavras, não conseguia deixar de pensar
que era a si que a fada pretendia dar as duas tochas azuis que
ardiam sem se consumir, ou o diamante do qual brotavam
continuamente novos diamantes, ou o barco que navegava debaixo
d’água, ou qualquer outra maravilha em que por acaso tivessem
colocado os olhos. É verdade que a fada nunca havia afirmado tal
coisa, mas tampouco o havia desmentido, porque pensava que
algum desapontamento faria bem à princesa. Mas a pessoa com
quem a fada realmente contava para curar a vaidade de Celidônia
era o Príncipe Cabeça-de-Vento. A velha fada não estava nem um
pouco contente com o modo como ele vinha se comportando, porém
tinha o coração tão mole que não queria lhe tirar os prazeres que
ele tanto amava, senão por meio de algo ainda melhor, o que,
convenhamos, não é a maneira mais eficaz de corrigir alguém, mas
é certamente a mais agradável.
De todo modo, a fada em nenhum momento sugeriu que o príncipe
fosse outra coisa senão a absoluta perfeição, e tanto falava dele
que, quando finalmente anunciou que ele viria visitá-la, Celidônia já
estava convencida de que esse charmoso príncipe se apaixonaria
por ela, e muito lhe agradou a ideia. A velha fada também estava
convencida de que tal coisa aconteceria, mas, como não era o que
desejava, tomou o cuidado de lançar à menina um feitiço que a
tornaria muito feia e esquisita aos olhos do Príncipe Cabeça-de-
Vento, ao passo que a todos os outros sua aparência se manteria a
mesma de sempre. Assim, quando ele chegou ao Palácio Frondoso,
era mais belo e encantador que a princesa jamais imaginara, mas o
rapaz olhou apenas de relance para ela e dedicou toda sua atenção
à fada, a quem tinha um montão de coisas para contar. A princesa
ficou pasmada com a indiferença dele, então assumiu um ar frio e
ressentido, que o príncipe, contudo, não parecia notar. Então, como
último recurso, a moça empregou todo seu espírito e jovialidade
para diverti-lo, mas sem sucesso, porque o rapaz estava em idade
de se deixar atrair mais pela beleza do que por qualquer outra coisa,
e, embora respondesse com bastante polidez, estava claro que
tinha os pensamentos em outro lugar. Celidônia sentiu-se
profundamente humilhada, já que o príncipe, de sua parte, muito a
agradara, e pela primeira vez ela se arrependeu de ter se livrado tão
afoitamente dos dons da fada. O Príncipe Cabeça-de-Vento ficou
igualmente perplexo, pois, da parte do rei e da rainha, não ouvira
senão elogios aos encantos da princesa, e o fato de terem falado
tanto de sua beleza apenas confirmou ao príncipe que a gente do
interior não tinha bom gosto nenhum. A seguir contou a sua anfitriã
e à princesa a respeito de suas belas conhecidas da cidade, cujos
encantos muita admiração lhe causaram, causavam, ou ainda
haviam de causar, até que Celidônia, que a tudo ouvia, ficou a ponto
de chorar de tão aflita. Também a fada ficou bastante ofendida com
a presunção do príncipe, e bolou um plano para curá-lo. Mandou-lhe
anonimamente e por meio de um mensageiro desconhecido um
retrato do verdadeiro rosto da Princesa Celidônia, com a seguinte
inscrição: “Toda esta beleza e doçura, com um coração afetuoso e
um grande reino, poderia ser tua, se não fosse por teus notórios
caprichos”.
Essa mensagem afetou muito o príncipe, mas não tanto quanto o
retrato. Com efeito, não conseguia tirar os olhos dele, e a plenos
pulmões exclamou que nunca, jamais vira nada tão lindo, tão
gracioso. Ocorreu-lhe então como era absurdo que ele, o
encantador Cabeça-de-Vento, se apaixonasse por um retrato;
assim, para espantar as lembranças daqueles cativantes olhos,
voltou correndo para a cidade; porém, de algum modo, tudo parecia
mudado. As beldades já não o agradavam; suas conversas
espirituosas não mais o entretinham; as moças, por sua vez, já não
achavam o príncipe tão afável como outrora, e nem ficaram sentidas
quando ele declarou que, no fim das contas, a vida no campo lhe
caía melhor, e voltou para o Palácio Frondoso. Enquanto isso, a
Princesa Celidônia sentia o tempo passar demasiado lentamente na
companhia do rei e da rainha e teve imenso deleite ao ver retornar o
Príncipe Cabeça-de-Vento. Agora, longe de evitá-la, o príncipe ia
atrás de sua companhia e se comprazia de falar com ela, mas a
princesa jamais se deixava iludir pela esperança de que ele a
amasse, embora não tenha tardado a concluir que por alguém ele
estava apaixonado. No entanto, certo dia, enquanto vagueava
tristemente à beira do rio, a princesa avistou o príncipe adormecido
num sono profundo à sombra de uma árvore, e aproximou-se
furtivamente para deliciar-se com a visão daquele amado rosto sem
ser vista. Imaginai a surpresa dela quando viu que o príncipe
segurava numa das mãos o seu retrato! Em vão tentou decifrar o
comportamento do príncipe, que lhe parecia tão contraditório. Por
que guardava com tanto carinho um retrato dela ao mesmo tempo
que a tratava com tanta indiferença?
Certa vez achou uma oportunidade para lhe perguntar o nome da
princesa cujo retrato levava sempre consigo.
— Ah, como vou te contar? ‒ ele respondeu.
— E por que não me contarias? ‒ disse a princesa, timidamente ‒
por certo nada te impede.
— Nada me impede?! ‒ repetiu o príncipe. ‒ Ora, se fracassaram
até meus maiores esforços para encontrar a dona deste rosto! Me
verias tão triste, se a tivesse encontrado? Pois não sei nem mesmo
seu nome.
Então a princesa, mais espantada que nunca, perguntou se podia
ver o retrato, e, depois de examiná-lo por alguns minutos, devolveu-
o, observando acanhadamente que ao menos a modelo tinha todos
os motivos para ficar satisfeita com sua representação.
— Então achas que a beleza da moça neste retrato foi exagerada
tão-somente para lisonjeá-la? ‒ disse o príncipe com severidade. ‒
Realmente, Celidônia, eu tinha-te em mais alta conta e esperava
que estivesses acima de uma inveja tão mesquinha. Mas as
mulheres são todas iguais!
— Na verdade eu só quis dizer que ficou muito parecida com a
verdadeira ‒ disse a princesa humildemente.
— Então a conheces! ‒ exclamou o príncipe, caindo de joelhos ao
seu lado. ‒ Imploro-te, conta-me já quem é ela, não me deixes no
escuro!
— Ó! Não vês que é um retrato meu? ‒ exclamou Celidônia.
O príncipe levantou-se repentinamente, e a muito custo conteve-se
de dizer que a vaidade só a podia ter cegado, para ela pensar que
se parecesse, mesmo que de longe, com aquele belo retrato; e,
depois de observá-la por um instante com gélida surpresa, virou-se
e a deixou, sem dizer palavra, e depois de umas poucas horas foi
embora do Palácio Frondoso.
Agora sim a princesa ficou triste, e já não suportava permanecer
num lugar onde fora desdenhada tão cruelmente. Assim, sem ao
menos despedir-se do rei e da rainha, deixou o vale para trás e foi-
se embora, vagueando tristemente e sem destino. Depois de
caminhar até ficar cansada, viu ao longe um casebre e a ele dirigiu-
se a passos lentos. Quanto mais se aproximava, mais pobre o
casebre se revelava, até que finalmente enxergou uma velhinha
sentada na soleira, que disse carrancudamente:
— Lá vem um desses mendigos que nada fazem senão
perambular sem rumo pelos campos!
— Ó, senhora! ‒ disse Celidônia, com lágrimas em seus belos
olhos. ‒ Um cruel destino me força a te pedir abrigo.
— Não falei?! ‒ rosnou a velhaca. ‒ Do abrigo passarás a pedir
comida, da comida, dinheiro para a jornada. Juro por Deus: se eu
tivesse certeza de sempre encontrar alguém cuja cabeça fosse tão
mole quanto o coração, também eu não escolheria outra vida senão
a da mendicância! Mas dei duro para construir a minha casa e
garantir que teria o que comer todos os dias, e agora, suponho,
pensas que vou dar tudo o que tenho ao primeiro que me peça!
Nem pensar! Aposto que uma bela moça como tu tem mais dinheiro
do que eu ‒ e acrescentou, falando consigo mesma ‒: vou tentar
descobrir se não estou certa ‒ e assim, apoiada em seu cajado, foi
mancando até Celidônia.
— Ó, senhora! ‒ respondeu a princesa. ‒ Quem me dera eu
tivesse; daria tudo para ti com o maior dos prazeres.
— Mas estás vestida muito elegantemente para o tipo de vida que
levas ‒ continuou a velha.
— Como! ‒ exclamou a princesa. ‒ Achas que vim aqui para
mendigar?
— Não faço ideia ‒ respondeu ‒, mas, de todo modo, não vieste
para me trazer alguma coisa. O que queres então? Abrigo? Bem,
isso em si não custaria muito; mas em seguida viria a janta, e disso
não quero nem ouvir falar. Não mesmo! Ora, as pessoas de tua
idade estão sempre prontas a comer, e tu, que vens caminhando de
muito longe, suponho que estejas esfomeada, não?
— Na verdade não, senhora ‒ respondeu a pobrezinha ‒, estou
triste demais para ter fome.
— Ah, ufa! Se me prometeres que continuarás triste, te deixo
passar a noite aqui ‒ debochou a velha.
Em seguida fez a princesa sentar a seu lado e passou os dedos
em sua túnica de seda, enquanto murmurava:
— Renda em cima e renda embaixo! Deves ter pagado um bom
dinheiro por essa peça! Teria sido melhor se economizasses para te
alimentar, em vez de vir mendigar à porta de quem não quer se
desfazer de nada seu. Dize, por favor, quanto pagaste por essa
roupa?
— Ó, senhora! ‒ respondeu a princesa. ‒ Não a comprei, e, para
falar a verdade, nada sei sobre dinheiro.
— Se me permites perguntar: o que sabes? ‒ disse a velha
senhora.
— Pouca coisa; mas estou realmente muito infeliz ‒ exclamou
Celidônia, desfazendo-se em lágrimas ‒ e se meu serviço te for de
alguma utilidade…
— Serviço?! ‒ interrompeu a velhaca com mau humor. ‒ É
necessário pagar por serviços, e não considero minhas tarefas
domésticas indignas de mim.
— Senhora, prestarei serviços para ti em troca de nada ‒ disse a
pobre princesinha, cujo espírito se abatia cada vez mais ‒, farei o
que desejares; tudo o que quero é viver sossegadamente neste
cantinho solitário.
— Ah! Sei que estás tentando me enganar ‒ respondeu a velha ‒,
ademais, se eu permitir que me sirvas, será apropriado que uses
roupas tão mais elegantes do que as minhas? Se eu te mantiver
aqui, me darás tuas roupas e aceitarás usar as que eu providenciar
para ti? Afinal de contas, estou ficando velha e talvez até queira que
alguém tome conta de mim um dia…
— Ah, pelo amor de Deus, faze o que quiseres com as minhas
roupas! ‒ exclamou, angustiada, a pobre Celidônia.
A velha saiu mancando toda faceira e pegou de dentro da casa
uma trouxa que continha um vestidinho grosseiro como a princesa
nunca vira, e ficou dando pulinhos ao redor da menina, ajudando-a a
trocar sua bela túnica pelo vestidinho, enquanto bradava:
— Por todos os santos! Que forro maravilhoso! E como é largo! Me
dará uns quatro vestidos, no mínimo. Ora, mocinha, não sei como
conseguias caminhar sob tanto peso, e estou certa de que em
minha casa não terias espaço nem para te virares.
Assim dizendo, dobrou a túnica e a guardou com muito cuidado,
enquanto comentava com Celidônia:
— Esse meu vestido assentou em ti que é uma maravilha! Garante
que-me cuidarás bem dele.
Quando chegou a hora de jantar, a velha entrou em casa e
recusou toda ajuda da moça; pouco depois chegou trazendo uma
bandeja bem pequena e disse:
— Agora jantemos.
E assim dizendo entregou a Celidônia uma porçãozinha de pão
preto e destampou a bandeja, revelando duas ameixas secas.
— Compartilharemos uma entre nós duas ‒ prosseguiu a velha
senhora ‒, e tu, como és visita, ganharás a metade com o caroço;
mas toma cuidado para não engoli-lo, pois costumo guardá-los para
o inverno. Não imaginas como são bons para acender o lume!
Escuta, pois, este meu conselho, pelo qual não te cobrarei nada, e
lembra que, por causa dessa serventia, é sempre mais econômico
comprar frutas com caroço.
Celidônia, absorta em seus tristes pensamentos, nem ao menos
ouviu o prudente conselho, e até se esqueceu de comer sua porção
de ameixa; isto muito agradou à velha, que a guardou para o café
da manhã, dizendo:
— Estou muito satisfeita contigo, e, se continuares como
começaste, te darei muitos conselhos úteis, que o mais da gente
não conhece. Por exemplo, dá uma olhada em minha casa. Foi
inteiramente construída com as sementes de todas as peras que
comi na vida. A maioria das pessoas as joga fora, o que mostra o
quanto se gasta à toa por falta de um pouquinho só de paciência e
engenho.
Mas Celidônia não conseguia de jeito nenhum se interessar por
tais conselhos. A velha dentro em breve a mandou para a cama,
temendo que o ar fresco da noite lhe desse apetite.
A moça passou a noite em branco, e na manhã seguinte a velha
senhora comentou:
— Ouvi como dormiste bem. Depois de uma noite dessas, não é
possível que queiras café da manhã; ficarás então na cama
enquanto faço as tarefas domésticas, pois, quanto mais se dorme,
menos se precisa comer; e, como é dia de feira, vou até a cidade
comprar um vintém de pão para a semana.
E assim tagarelava a velha, mas a pobre Celidônia não a ouviu
nem lhe prestou atenção; saiu andando por aquela região desolada
para pensar sobre seu triste fado. Porém, a boa Fada das Faias,
não querendo que ela se esfomeasse, mandou-lhe um alívio
inesperado na forma de uma linda vaquinha branca, que a seguiu de
volta até o casebre. Quando a velha viu o animal, transbordou de
alegria.
— De agora em diante teremos sempre leite, queijo e manteiga! ‒
exclamou. ‒ Ah! Como é bom o leite! Que pena ser caro a ponto de
levar à falência!
Então, juntando galhos e gravetos, fizeram um pequeno estábulo
para abrigar a vaca, que era uma gracinha, e seguia Celidônia para
todos os cantos feito um cachorro quando esta a levava a pastar.
Certa manhã, enquanto remoía sua tristeza sentada à beira de um
córrego, a moça viu aproximar-se um rapaz desconhecido, e
prontamente se levantou para evitá-lo. Mas o Príncipe Cabeça-de-
Vento (pois era ele o tal rapaz), vendo-a também, correu em sua
direção manifestando grande alegria, porque reconhecera nela não
Celidônia, a quem havia menosprezado, mas a adorável princesa do
retrato, a quem buscara em vão por tanto tempo. É que a Fada das
Faias, pensando que a princesa já fora castigada o bastante, lhe
removera o encantamento e o transferira ao Príncipe Cabeça-de-
Vento, que assim, de uma hora para a outra, foi privado da bela
aparência que tanto contribuíra para o tornar vaidoso. Lançando-se
aos pés da princesa, implorou-lhe que permanecesse e ao menos
trocasse com ele uma palavra; ela por fim consentiu, apenas porque
o rapaz parecia desejá-lo muito. A partir de então, o príncipe passou
a ir ao mesmo local todos os dias na esperança de encontrá-la mais
vezes, e com frequência expressava o prazer que sentia por estar a
seu lado. Mas certo dia, enquanto o príncipe implorava que a
princesa lhe desse seu amor, Celidônia confessou-lhe que não havia
jeito, pois seu coração já pertencia a outro.
— Coube-me ‒ disse a princesa ‒ a infelicidade de amar um
príncipe caprichoso, frívolo, orgulhoso, incapaz de se preocupar
com outra pessoa que não ele mesmo, mimado por adulações, e,
para culminar, que não me ama.
O Príncipe Cabeça-de-Vento exclamou:
— Mas como é possível que queiras a um tipo tão mesquinho e
imprestável?!
— Ai, mas quero! ‒ disse a princesa, chorosa.
— Mas onde esse homem tem os olhos ‒ disse o príncipe ‒, que
tua beleza não lhe causa efeito? Quanto a mim, desde que ganhei
teu retrato, corri o mundo inteiro atrás de ti, e, agora que finalmente
nos encontramos, percebo que és dez vezes mais bela que eu
imaginava, e daria tudo o que tenho para conquistar teu amor.
— Meu retrato? ‒ exclamou Celidônia, subitamente interessada. ‒
Será possível que o Príncipe Cabeça-de-Vento se tenha desfeito
dele?
— Antes se desfaria desta vida, bela princesa ‒ respondeu o
príncipe ‒, e disto te asseguro, porque sou eu o Príncipe Cabeça-
de-Vento.
Naquele mesmo instante a Fada das Faias tirou-lhe o
encantamento, e a feliz princesa reconheceu seu amado, agora
verdadeiramente seu, pois as provações por que passaram os havia
mudado e aperfeiçoado tanto que finalmente eram capazes de
amar-se um ao outro. Não é difícil imaginar como estavam felizes e
quanto tinham para ouvir e por falar. Depois de um tempo, já era
hora de voltar ao casebre, e foi só quando começaram a caminhar
que a princesa se deu conta dos trapos que trajava, percebendo a
esquisita figura que fazia. Mas o príncipe declarou que o vestido lhe
assentava muito bem, e o achava bastante pitoresco. Quando
alcançaram a casinha, a velha os recebeu irritada:
— É o que sempre digo ‒ falou ‒: onde há uma garota, podes ter
certeza que um garoto não tardará a aparecer! Não penses que vou
te acolher aqui na minha casa! Não mesmo: vai-te embora,
camarada!
O Príncipe Cabeça-de-Vento tinha tudo para irritar-se com tão
grosseiro acolhimento, mas estava feliz demais para se importar,
então apenas pediu, da parte de Celidônia, que a velha senhora lhe
devolvesse sua roupa para que partisse bem vestida.
Este pedido acendeu a fúria da velha, já que contava com a roupa
da princesa para ter o que vestir pelo resto da vida; assim, levou um
bom tempo até que o príncipe, fazendo-se ouvir, conseguisse
explicar a ela que estava disposto a dar dinheiro pela roupa. A visão
de um punhado de moedas de ouro de alguma forma a apaziguou; e
então, depois de cuidar que os dois prometessem jamais pedir o
ouro de volta, a velha levou a princesa para dentro do casebre e, do
traje, deu-lhe apenas o bastante para ela ficar apresentável –
quanto ao resto, fingiu tê-lo perdido. A seguir, o príncipe e a
princesa perceberam que estavam com muita fome, pois não se
pode viver de amor, assim como não se pode viver de ar; nesse
momento as reclamações da velha ficaram ainda mais sonorosas:
— Ora! ‒ gritou. ‒ Vou lá eu dar de comer a gente tão feliz? Que
diabos, assim vou à falência!
Mas como o príncipe parecia ficar cada vez mais irritado, a
velhaca, cheia de suspiros e resmungos, trouxe-lhes uma porção de
pão, uma tigela de leite, e seis ameixas; com isto os dois namorados
ficaram bem contentes, pois não se importavam com o que tinham
no prato desde que pudessem olhar um para o outro. Podiam ficar
ali eternamente com suas lembranças – o príncipe, contando como
correra o mundo inteiro de beldade em beldade, para se desapontar
inevitavelmente ao descobrir que nenhuma se assemelhava à moça
do retrato; a princesa, indagando como podia o príncipe ter passado
tanto tempo com ela sem jamais a reconhecer, e o perdoando
repetidas vezes por tê-la tratado com tanta frieza e desdém.
— Pois como vês, Cabeça-de-Vento ‒ disse a princesa ‒, eu te
amo, e o amor resolve tudo! Mas não podemos permanecer aqui ‒
acrescentou ‒; o que havemos de fazer?
O príncipe sugeriu que procurassem a Fada das Faias e se
colocassem novamente sob sua proteção. Haviam recém
concordado nisto quando apareceram duas pequenas bigas
cobertas de jasmim e madressilva, e, tão logo os dois subiram
nelas, os ventos, rodopiando, os carregaram de volta ao Palácio
Frondoso. Pouco antes de perderem de vista o casebre, ouviram
altos gritos e lamúrias da velha senhora; virando-se, perceberam
que a linda vaquinha estava desaparecendo a olhos vistos apesar
dos frenéticos esforços da velhaca para segurá-la. Tempos depois
ficaram sabendo que ela passou o resto da vida tentando colocar
dentro de sua moedeira o punhado de ouro que o príncipe lhe
atirara. É que a fada, como punição por sua avareza, fez com que o
ouro sempre deslizasse para fora no mesmo instante em que
entrava.
A Fada das Faias saiu correndo para dar, de braços abertos, as
boas-vindas ao príncipe e à princesa, e deleitou-se tanto de vê-los
mudados para melhor que sentiu que podia, sem peso nenhum na
consciência, voltar a mimá-los. Dentro de pouco chegou a Fada
Sarandina, trazendo junto o rei e a rainha. Celidônia implorou por
seu perdão, e a fada misericordiosamente o concedeu, pois a
princesa era tão encantadora que ela não conseguia recusar-lhe
nada. Restituiu-lhe também as Ilhas de Verão, e prometeu em tudo
protegê-la. A Fada das Faias a seguir informou ao rei e à rainha que
seus súditos haviam expulsado do trono o Rei Bruno e agora
esperavam recebê-los calorosamente; porém, assim que o ouviram,
os dois abdicaram e transferiram o trono ao Príncipe Cabeça-de-
Vento, declarando que nada os convenceria a abandonar sua vida
tranquila. As fadas então incumbiram-se de instalar o príncipe e a
princesa em seus lindos reinos. O casamento deles realizou-se no
dia seguinte, e a partir de então viveram felizes para sempre, pois
Celidônia nunca mais foi fútil, e Cabeça-de-Vento nunca mais foi
caprichoso.[ 12 ]

[ 12 ] Clément-Pierre Marillier.
Os Três Porquinhos

RA UMA VEZ UMA PORCA que vivia com seus três filhos em
um quintal de chácara muito antigo, espaçoso e
confortável. O mais velho dos porquinhos se chamava
Marronzinho, a do meio, Branquinha, e o mais jovem e
mais bonito, Pretinho. Ora, Marronzinho era um porquinho muito
sujo e – é duro dizer – passava a maior parte do tempo rolando e se
chafurdando na lama. Nada o deixava mais feliz que os dias úmidos,
quando a lama no quintal amolecia e engrossava. Nestas ocasiões,
ele escapulia de sua mãe e, encontrando o lugar mais lamacento do
quintal, ali rolava e se divertia muito. Sua mãe frequentemente o
ralhava por isso, balançando a cabeça e dizendo: “Ah, Marronzinho!
Um dia tu te arrependerás de não teres obedecido a tua velha mãe.”
Mas nenhum conselho ou advertência podia fazer com que
Marronzinho se endireitasse.
Branquinha era uma porquinha muito esperta, mas comilona.
Estava sempre pensando em comida e esperando a hora do
almoço; e quando via a menina da chácara carregando os baldes
pelo quintal, erguia-se sobre as patas traseiras, dançando e dando
piruetas de entusiasmo. Assim que a comida era despejada no
cocho, ela passava por cima de Pretinho e Marronzinho em sua
ânsia de conseguir os melhores pedaços. Sua mãe sempre a
repreendia por seu egoísmo, e lhe dizia que um dia ela sofreria por
ser tão comilona.
Pretinho, por sua vez, era um porquinho bom e amável; não era
nem sujo nem comilão. Tinha maneiras muito delicadas (para um
porco), e sua pele estava sempre macia e brilhante como um cetim
negro. Era muito mais esperto do que Marronzinho e Branquinha, e
o coração de sua mãe costumava inchar-se de orgulho quando
ouvia os amigos do fazendeiro comentarem entre si que um dia o
bichinho preto seria um porco premiado.
Eis que o tempo passou; a mamãe porca já se sentia velha e frágil,
chegando ao fim da vida. Certo dia ela convocou os três porquinhos
e, com eles reunidos à sua volta, disse-lhes:
— Meus filhos, sinto que estou ficando velha e fraca, e que não
vou durar muito mais. Antes de morrer, eu gostaria de construir uma
casa para cada um de vós, já que este chiqueiro, no qual vivemos
tempos tão felizes, será dado a uma nova família de porcos, e vós
tereis de sair. Marronzinho, que tipo de casa gostarias de ter?
— Uma casa de barro – respondeu Marronzinho, olhando ansioso
para uma poça de lama que havia no canto do quintal.
— E tu, Branquinha? – disse a mamãe porca com uma voz bem
triste, desapontada que estava com Marronzinho por sua escolha
tão tola.
— Uma casa de repolho – respondeu Branquinha de boca cheia,
mal erguendo o focinho do cocho onde cavocava, buscando sobras
de cascas de batata.
— Mas que crianças mais tolas! – disse a mamãe porca,
parecendo muito aflita. – E tu, Pretinho? – virando-se para seu filho
caçula. – Que tipo de casa devo pedir para ti?
— Por favor, mãe, uma casa de tijolos; pois ela será quente no
inverno, fria no verão, e segura durante o ano todo.
— Isso é que é um porquinho sensato – respondeu a mãe,
contemplando-o com ternura. – Darei um jeito para que as três
casas fiquem prontas logo. E agora um último conselho. Vós já me
ouvistes falar da nossa velha inimiga, a raposa. Quando ela souber
que morri, certamente tentará capturar-vos e levar-vos para sua
toca. Ela é muito astuta, e sem dúvida fingirá ser vossa amiga, mas
deveis me prometer que não a deixareis entrar em vossas casas
sob nenhum pretexto que seja.
E, sem demora, os porquinhos fizeram a promessa, pois sempre
tiveram o maior medo da raposa, sobre a qual já haviam ouvido
muitas histórias terríveis. Logo em seguida, a idosa porca faleceu, e
os porquinhos foram viver em suas próprias casas.
Marronzinho estava muito encantado com suas paredes macias de
barro e com o chão de argila, que logo ficou parecendo apenas uma
grande torta de lama. Mas era disso que Marronzinho gostava, e ele
não podia estar mais feliz, rolando o dia inteiro e se emporcalhando
todinho. Certo dia, quando estava deitado na lama, meio acordado,
meio dormindo, ouviu uma leve batida na porta, de onde veio uma
voz muito gentil:
— Posso entrar, Senhor Marronzinho? Gostaria de conhecer a
vossa linda casa nova.
— Quem é? – disse Marronzinho, saltando com grande temor,
pois, embora a voz soasse gentil, ele tinha certeza de que era
fingida, e temia que se tratasse da raposa.
— Sou um amigo que veio ver-vos – respondeu a voz.
— Não, não – respondeu Marronzinho. – Duvido que sejas um
amigo. És a malvada raposa, contra quem nossa mãe nos alertou.
Não te deixarei entrar.
— Ah, é?! É assim que me respondes?! – disse a raposa, falando
muito grosseiramente, já em sua voz natural. – Logo veremos quem
é o senhor aqui – e com suas garras começou a trabalhar, raspando
um grande buraco na parede macia de barro. Em seguida pulou
através dele e agarrou Marronzinho pelo pescoço, jogando-o sobre
os ombros e levando-o embora para sua toca.
No dia seguinte, quando Branquinha estava mascando umas
folhas de repolho tiradas do canto de sua casa, a raposa esgueirou-
se até a porta, determinada a levar a porquinha para se juntar ao
seu irmão na toca. Começou a lhe falar fingindo a mesma voz gentil
com a qual havia falado a Marronzinho; porém, apavorou-a muito
quando disse:
— Sou um amigo que veio vos fazer uma visita, e pegar um pouco
do vosso bom repolho para jantar.
— Por favor, não toques neles! – gritou Branquinha muito aflita. –
Os repolhos são as paredes de minha casa, assim se os comeres
criarás um buraco por onde entrarão o vento e a chuva, fazendo
com que eu passe frio. Vai-te embora; estou certa de que não és um
amigo, mas nossa malvada inimiga, a raposa – e a pobre
Branquinha começou a gemer e choramingar, desejando não ter
sido uma porquinha tão comilona, e ter escolhido para sua casa um
material mais sólido do que repolhos. Mas agora já era tarde, e no
minuto seguinte a raposa abriu caminho a dentadas na parede de
repolho e agarrou Branquinha, que tremia como vara verde,
levando-a embora para sua toca.
No dia seguinte a raposa partiu para a casa de Pretinho, porque
havia se convencido de que teria os três porquinhos juntos em sua
toca, onde os abateria, e convidaria todos os amigos para um belo
banquete. Mas, ao chegar à casa de tijolos, descobriu que a porta
era cerrada por ferrolhos e uma tranca. Então, na sua maneira
astuta de sempre, começou:
— Deixai-me entrar, querido Pretinho. Trouxe-vos de presente uns
ovos que colhi num quintal no caminho para cá.
— Não, não, Senhora Raposa – respondeu Pretinho –, não abrirei
a porta para ti. Sei das tuas artimanhas. Levaste os pobres
Marronzinho e Branquinha, mas a mim não pegarás.
A raposa ficou tão furiosa que se arremessou com toda a força
contra a parede, tentando derrubá-la. Mas ela era forte demais e
muito bem construída; e mesmo raspando-a e tentando dilacerar os
tijolos com suas garras, a raposa só se machucava. No fim, teve
que desistir, indo embora cambaleante, com as patas dianteiras
feridas e cobertas de sangue.
— Grande coisa! – ela gritou ao deixar o local. – Outro dia te
pegarei; ah, se não te levarei para minha toca e triturarei todos os
teus ossinhos até virarem pó! – e rosnava feroz, mostrando os
dentes.
No dia seguinte, Pretinho teve que ir a uma cidade vizinha fazer
compras, e lá adquiriu uma grande caldeira. Enquanto voltava para
casa com ela pendurada sobre o ombro, ouviu um som de passos
furtivos logo às suas costas. Por um momento, seu coração
congelou, tamanho era o medo – e foi então que uma feliz idéia lhe
veio à mente. Ele recém havia chegado ao topo de um morro e
podia ver sua própria casa aninhada lá embaixo, no sopé, entre as
árvores. Imediatamente arrancou a tampa da caldeira e pulou dentro
dela. Enrolando-se todo, deitou-se no fundo da caldeira, enquanto
com sua pata dianteira colocou a tampa de volta, para que pudesse
ficar totalmente escondido. Com um leve chute, impulsionou a
caldeira, a qual rolou à toda morro abaixo; e quando a raposa
apareceu, tudo o que viu foi uma enorme caldeira preta girando no
solo a grande velocidade. Muitíssimo desapontada, a raposa já
estava se virando para ir embora, quando viu o objeto parar perto da
casa de tijolos: em seguida Pretinho pulou da caldeira e escapou
com ela para dentro da casa, colocando a tranca e os ferrolhos na
porta e estendendo a persiana sobre a janela.
— Ah, é?! – exclamou a raposa para si mesma. – Achas mesmo
que escaparás de mim dessa maneira, achas? Logo veremos,
amiguinho – e muito sorrateiramente fez a volta na casa, buscando
alguma forma de subir no telhado.
Neste ínterim, Pretinho havia enchido a caldeira d’água,
colocando-a no fogo e sentando-se calmamente enquanto a
esperava ferver. Assim que a caldeira começou a apitar e o vapor a
sair pelo bico, ele ouviu um som no telhado, como de passos macios
e abafados, bãm, bãm, bãm, e no instante seguinte a cabeça e as
garras dianteiras da raposa apareceram na chaminé. Mas Pretinho,
muito sabiamente, não havia colocado a tampa na caldeira; urrando
de dor, a raposa caiu na água escaldante, e, antes que pudesse
escapar, Pretinho colocou a tampa de volta; então, a raposa ferveu
até a morte.
Assim que se certificou de que sua terrível inimiga estava
realmente morta e não lhe podia mais fazer mal algum, Pretinho
partiu para resgatar Marronzinho e Branquinha. Assim que chegou à
toca, ouviu grunhidos e guinchos comoventes de seus dois
irmãozinhos – que haviam vivido em terror constante, imaginando
que a raposa os mataria e comeria. Mas quando viram Pretinho
aparecer na entrada da toca, não se contiveram de alegria. Ele
rapidamente encontrou uma pedra lascada e cortou as cordas que
prendiam ambos a uma estaca no chão. Os três partiram juntos para
a casa de Pretinho, onde viveram felizes para sempre – e
Marronzinho parou de rolar na lama de uma vez por todas, enquanto
Branquinha deixou de ser comilona, pois eles jamais esqueceram
como esses erros quase os levaram ao fim precoce de suas vidas.
Coração Gelado

RA UMA VEZ UM REI e uma rainha cuja estultice não tinha


limites, mas que, todavia, amavam-se ternamente. É
verdade que, para algumas pessoas de língua ferina,
essa era apenas mais uma prova de sua imensurável
estupidez, porém, como o leitor pode imaginar, tal não era a opinião
dos seus próprios cortesãos, uma vez que aqueles eram afinal de
contas seu rei e sua rainha, e até então seu reinado havia sido
próspero. Pois, naquele tempo, a coisa mais importante na
condução dos negócios de um reino era manter as pazes com todas
as fadas e feiticeiros, e em hipótese alguma privá-los dos bolos,
rolos de fita e bugigangas dessa natureza a que tinham direito; e,
acima de tudo, quando havia um batizado, lembrar-se de convidar
cada um deles – fosse bom, mau ou indiferente – para a cerimônia.
Ora, a tola rainha tinha um filhinho que estava prestes a ser
batizado, e por vários meses trabalhou com afinco na preparação de
uma interminável lista com os nomes de todos os convidados para a
ocasião. Porém não lhe ocorrera que, para ler a lista, seria
necessário quase o mesmo tempo empregado para redigi-la, e
assim, chegado o dia do batismo, o rei – encarregado da leitura –
mal havia alcançado o fim da segunda página e já embolava as
palavras, tamanha fadiga e afobação, enquanto repetia a fórmula
usual: “O Rei vos convida, Fada fulana de tal – ou Feiticeiro tal e tal
–, para honrá-lo com vossa presença e, por vossa benevolência,
conferir vossos dons ao seu filho”.
Como se não bastasse, vieram avisá-lo de que as fadas listadas
na primeira página já haviam chegado e esperavam
impacientemente no Salão Nobre, resmungando que não havia
ninguém para recebê-las – após o que ele abandonou a lista às
pressas e, espavorido, correu para cumprimentar aquelas que afinal
tinham sido convidadas, rogando-lhes tão sinceramente que o
desculpassem, que a maioria ficou sensibilizada e prometeu não
fazer nenhum mal ao seu filho.
O fato, entretanto, é que havia entre elas uma fada de um país
distante, sobre a qual ninguém sabia coisa alguma, embora seu
nome constasse na primeira página da lista. Sentia-se ultrajada por
ter-se dado ao trabalho de atender prontamente ao convite e não
haver afinal ninguém para recepcioná-la, ou ajudá-la a descer do
enorme avestruz sobre o qual fizera tão longa viagem, e passou a
resmungar de modo verdadeiramente alarmante.
— Ó, disparates! – disse ela. – Vosso filho jamais será grande
coisa. Falai à vontade, mas ele não passará de um mero tangará…
Sem dúvida, ela teria prosseguido e malfadado o infeliz
principezinho com meia dúzia de maldições, não fosse pela
intervenção da boa Fada Genesta, que tinha o reino sob sua
especial proteção e que felizmente entrou às pressas no exato
momento de evitar um estrago ainda maior. Quando logrou acalmar
a desconhecida fada, desfazendo-se em atenções para com ela e
convencendo-a a não dizer nem mais uma palavra, sinalizou ao rei
que aquele era um bom momento para distribuir os presentes, após
o que todos se despediram e se foram, com exceção da Fada
Genesta, que então dirigiu-se à rainha, dizendo-lhe:
— Armastes uma bela confusão, senhora. Por que não tivestes a
bondade de me consultar? Ora, tolos como vós sempre creem não
precisar da ajuda ou do conselho de ninguém, e devo observar que,
não obstante tudo que tenho feito por vós, não tivestes sequer a
delicadeza de me convidar!
— Ó, querida senhora! – exclamou o rei, atirando-se aos seus pés.
– Pois se não tive tempo de percorrer a lista até alcançar vosso
nome! Vede a marcação onde interrompi a tarefa inglória que eu mal
havia começado!
— Calma, calma – respondeu a fada –, não estou ofendida. Não
me permito ofender com ninharias dessa natureza, vindas de
pessoas a quem sinceramente estimo. No entanto, quanto ao vosso
filho, salvei-o de muitos infortúnios, mas deveis permitir que eu o
leve e cuide dele – não voltareis a vê-lo até que esteja
completamente coberto de pelos!
Ao ouvir essas misteriosas palavras, o rei e a rainha irromperam
em lágrimas, pois viviam em um clima tão quente, que não podiam
imaginar nem como nem por quê o príncipe deveria cobrir-se de
pelos, e pensaram que isso só podia significar mau presságio.
Entretanto, Genesta tranquilizou-os:
— Se eu deixar o príncipe sob vossos cuidados – disse ela –, por
fim ele será tão estúpido quanto vós. Não tenciono sequer permitir
que ele descubra que é vosso filho. Quanto a vós, melhor seria que
empregásseis todas as energias para o melhor governo do reino.
Dito isso, abriu a janela, apanhou o príncipe com berço e tudo e
deslizou pelos ares como se patinasse no gelo, deixando o rei e a
rainha na mais profunda aflição. Eles inquiriam a todos que
encontravam sobre o real significado das palavras da fada ao
afirmar que o filho estaria coberto de pelos quando finalmente o
reencontrassem. Todavia, ninguém era capaz de desvendar aquele
mistério, embora todos concordassem que devia ser algo temível. O
rei e a rainha mergulharam em uma tristeza sem precedentes, e
perambulavam de um lado para o outro no palácio, causando pena
a quem os visse.
Enquanto isso, a fada levara o príncipe para o seu próprio castelo,
confiando-o aos cuidados de uma jovem camponesa a quem a fada
enfeitiçara para fazer pensar que aquele bebê era um de seus
próprios filhos. Então o príncipe cresceu forte e sadio, levando a
vida simples de um jovem camponês, pois a fada acreditava não
haver treinamento melhor do que esse; somente depois de crescido
ela passou a mantê-lo mais tempo consigo, a fim de que sua mente
fosse cultivada e exercitada, bem como seu corpo.
Os cuidados que lhe dispensou, entretanto, não paravam por aí:
tinha decidido que ele devia ser posto à prova pelas dificuldades e
decepções, bem como pelo conhecimento de seus semelhantes.
Isso porque a fada sabia que o príncipe precisaria de cada auxílio
que ela pudesse lhe dar, uma vez que, apesar de avançar na idade,
ele não avançava na estatura, permanecendo o mais miúdo dos
príncipes. Apesar disso, porém, ele era extremamente ativo e de
boa constituição, e no todo tão belo e amável, que a pequenez de
seu tamanho não tinha real importância. O príncipe sabia muito bem
que era chamado pela ridícula alcunha de “Tangará”, mas se
consolava prometendo a si mesmo que a todo custo faria deste um
nome ilustre.
Buscando executar seus planos para o bem do Príncipe Tangará, a
fada começou a enviá-lo nas mais idílicas aventuras por mar e por
terra – e, nestas aventuras, ele era sempre o herói. Por vezes,
salvava uma adorável princesa de um terrível perigo; noutra
ocasião, seus bravos feitos rendiam-lhe um reino; até que, por fim,
sentiu-se compelido a sair em busca de sua fortuna em um país
distante, onde seu humilde nascimento não fosse empecilho à
conquista de honra e riquezas pelo exercício de sua coragem, e foi
com o coração transbordante de projetos ambiciosos que ele um dia
entrou, cavalgando, em uma grande cidade não muito distante do
castelo da fada.
Tendo partido com o intento de caçar em uma floresta nas
redondezas, trajava vestes simples e trazia consigo apenas um
arco, flechas e uma lança, e mesmo esses aparatos conferiam-lhe
graça e distinção. Assim que entrou na cidade, viu que todos os
seus habitantes dirigiam-se apressadamente para o mercado, e
para lá rumou com seu cavalo, curioso por saber o que se passava.
Chegando ao local, viu que alguns forasteiros de aparência
extravagante estavam prestes a fazer um anúncio aos cidadãos
reunidos em assembleia, e sem demora foi abrindo caminho em
meio à multidão, até que estivesse próximo o bastante para ouvir as
palavras do venerável ancião que fazia as vezes de porta-voz:
— Saiba o mundo inteiro que aquele que atingir o topo da
Montanha Gelada terá como recompensa não apenas a
incomparável Zabela, a mais bela das belas, mas todos os reinos
dos quais ela é rainha!
E prosseguiu, depois de fazer o anúncio:
— Eis a lista de todos os príncipes que, arrebatados pela beleza
da princesa, pereceram na tentativa de conquistá-la; e aqui está a
lista dos que acabaram de aceitar esse temível desafio.
O Príncipe Tangará foi tomado por um violento desejo de inscrever
seu nome entre os demais, mas a lembrança de sua posição de
dependência e ausência de riqueza o deteve. Porém, enquanto ele
hesitava, o ancião, após muita cerimônia, revelou um retrato da
adorável Zabela, que veio carregado por alguns serviçais. Depois de
vê-lo, o príncipe não mais se conteve e, apressando o passo, pediu
que inscrevessem seu nome na lista. Ao bater os olhos em sua
miúda figura e em seus trajes simplórios, os forasteiros
entreolharam-se com ar interrogativo, sem saber se o aceitavam ou
recusavam. Porém o príncipe disse, com altivez:
— Dai-me o papel para que eu o assine – e eles lhe obedeceram.
Perturbado pela impressão que a princesa lhe causara e
contrariado pela hesitação demonstrada por seus embaixadores, o
príncipe não pensou em outro nome senão naquele pelo qual fora
sempre conhecido. Mas quando, abaixo de todos os títulos de
nobreza dos demais príncipes, ele anotou simplesmente “Tangará”,
os embaixadores irromperam em gargalhadas.
— Miseráveis! – exclamou o príncipe. – Não fosse por
consideração àquele digno retrato, cortaria vossas cabeças.
Ocorreu-lhe subitamente, entretanto, que aquele era de fato um
nome ridículo, e que ainda não tivera tempo de fazê-lo notório;
então acalmou-se e indagou sobre o caminho que deveria tomar até
o país da Princesa Zabela.
Embora seu coração não lhe traísse no mínimo que fosse, ele
ainda assim pressentia as muitas dificuldades que se interporiam
em seu caminho e resolveu partir imediatamente, sem ao menos
despedir-se da fada, receoso de que ela tentasse impedi-lo. Na
cidade, todos que conheciam Tangará troçaram de sua empresa, e a
notícia chegou até mesmo aos ouvidos do tolo rei e da rainha, que
se riram ainda mais que todos os outros, sem fazer ideia de que o
presunçoso Tangará era seu próprio filho!
Enquanto isso, o príncipe seguia viagem, embora as direções que
tivesse recebido não fossem nem um pouco claras.
— Quatrocentas léguas depois do Monte Cáucaso, receberás tuas
ordens e instruções para a conquista da Montanha Gelada.
Belas ordens de marcha, aquelas, para alguém que iniciava sua
viagem em um país próximo ao que hoje é o Japão!
Entretanto, ele tomou a direção oriental, evitando passar por
qualquer cidade, a fim de que as pessoas não rissem de seu nome
– pois, como podeis ver, ele não era um viajante muito experiente, e
ainda não havia aprendido a tirar proveito de uma piada, mesmo
que fosse contra ele. À noite, dormia nos bosques, e a princípio
alimentou-se apenas de frutos silvestres; mas a fada, que mantinha
sobre ele seus olhos benevolentes, achou que não estava certo
deixá-lo desnutrido daquela maneira, e encarregou-se de alimentá-
lo com toda sorte de alimentos substanciosos enquanto ele dormia,
e o príncipe admirava-se de que jamais sentisse fome durante o dia!
Fiel ao seu plano, a fada enviava-lhe diversos perigos para testar
sua coragem, e ele superava-os todos, não obstante o azar de ter
perdido seu cavalo em seu último embate com um monstro furioso,
a um tigre assemelhado. Contudo, com coragem inabalada,
prosseguiu a pé, chegando por fim a um porto marítimo.
Ali encontrou um pequeno navio se dirigindo à costa que ele
desejava alcançar, e, com dinheiro suficiente apenas para pagar sua
passagem, embarcou, e então zarparam. Porém, passados alguns
dias, uma pavorosa tempestade surpreendeu-os, destruindo
completamente o navio, e o príncipe somente se salvou depois de
muito nadar, até alcançar a única faixa de terra à vista, que se
revelou ser uma ilha deserta. Ali ficou vivendo, pescando e caçando,
confiante de que a boa fada o resgataria.
Um dia, enquanto olhava com tristeza para o mar, distinguiu uma
curiosa embarcação à deriva, que se aproximava lentamente da
costa, e que então enveredou por uma enseada, encalhando por fim
na areia. O Príncipe Tangará precipitou-se como um raio em sua
direção a fim de examiná-la e notou, espantado, que ramos de
árvores cresciam nos mastros e nas vergas, cobertos de espessa
folhagem, à semelhança de uma pequena floresta. Deduzindo,
daquela quietude, que não havia ninguém a bordo, o príncipe
afastou os galhos com as mãos e saltou para dentro, vendo-se
então cercado pela tripulação, que jazia imóvel como se estivesse
morta, em circunstâncias deploráveis. Também eles haviam se
tornado quase como árvores, crescendo pelo deque, mastros e
flancos do navio, ou por sobre qualquer coisa em que estivessem
encostados quando o encantamento os atingira.
Tangará compadeceu-se da triste condição daqueles homens e
trabalhou com afinco para libertá-los. Com a ponta afiada de uma de
suas lanças, desenleou seus pés e suas mãos dos galhos que os
prendiam e carregou-os para a praia, um após o outro, friccionando
seus corpos enrijecidos, aplicando-lhes infusões de diversas ervas –
e com tal êxito, que dentro de poucos dias eles se recuperaram
completamente, sentindo-se mais aptos do que nunca para velejar
um navio.
É bem certo que a boa Fada Genesta teve algo a ver com aquela
cura maravilhosa, sendo também responsável por sugerir ao
príncipe a ideia de esfregar no próprio casco do navio as ervas
mágicas, limpando-o completamente – e não era sem tempo, pois,
na velocidade em que cresciam os ramos, o navio ter-se-ia
convertido logo em uma floresta!
Foi imensa a gratidão dos marinheiros, e de boa vontade
prometeram levar o príncipe aonde ele quisesse. Porém, quando os
questionou acerca do evento extraordinário que lhes havia sucedido,
e ao seu navio, os homens não puderam de forma alguma explicar –
tudo o que sabiam dizer era que, ao passar por uma costa, da
densa mata veio uma repentina rajada que, proveniente da encosta,
os atingiu envolvendo-os em uma espessa nuvem de poeira; e,
depois disso, tudo no navio que não era feito de metal começou a
ramificar e a germinar, como o príncipe tinha visto, e os próprios
marinheiros foram aos poucos ficando dormentes e sentindo-se
cada vez mais pesados, perdendo, por fim, a consciência. O
Príncipe Tangará ficou extremamente interessado por essa curiosa
história, e coletou e armazenou cuidadosamente um bocado do pó
que encontrara no fundo do navio, acreditando que sua estranha
propriedade poderia ser-lhe bastante útil no futuro.
Partiram alegremente da ilha deserta e, depois de uma longa e
feliz viagem por mares tranquilos, avistaram afinal terra firme e
decidiram atracar – não apenas para renovar os estoques de água e
mantimentos, mas também para descobrir, se possível, em que
parte do mundo estavam, e qual direção tomar em seguida.
Conforme aproximavam-se da costa, questionaram-se se aquela
seria mais uma terra desabitada, pois não se divisava ali nenhum
ser humano; no entanto, tornou-se evidente que algo se movia, pois,
em meio às nuvens de poeira que deslizavam ao rés do chão, era
possível ver, ainda que indistintamente, diminutas formas negras.
Pareciam reunir-se no ponto exato onde pretendiam desembarcar, e
qual não foi sua surpresa ao descobrir que não eram nada mais,
nada menos que grandes e belos cães spaniel – alguns na posição
de sentinelas, outros organizados em companhias e regimentos –,
todos assistindo com vivo interesse ao desembarque.
Quando viram que o Príncipe Tangará, em vez de dizer:
“Disparar!”, como temiam, disse: “Olá, amigões!”, de modo
inteiramente simpático e cativante, cercaram-no com a cauda a
agitar-se vigorosamente, oferecendo-lhe as patas, e Tangará logo
compreendeu que os cães desejavam que ele deixasse seus
companheiros no barco e os seguisse. O príncipe estava tão curioso
por saber mais sobre eles, que concordou em acompanhá-los;
então, depois de combinar com os marinheiros que o esperassem
por quinze dias, seguindo viagem caso ele não voltasse nesse
período, partiu com seus novos amigos.
O caminho que tomaram era pelo interior, e Tangará observou,
surpreso, que os campos eram bem cultivados, e as carroças e os
arados eram puxados por cavalos ou bois, como em qualquer outro
país; todo vilarejo que cruzavam exibia casinhas elegantes e
graciosas, e por todo o canto pairava um ar de prosperidade. Em um
dos vilarejos, ofereceram ao príncipe um pequeno banquete, e,
enquanto ele ceava, veio uma carruagem puxada por dois
magníficos cavalos, conduzida com maestria por um enorme
spaniel. Confortavelmente instalado nesta carruagem, continuou a
viagem, e pelo caminho passou por vários outros coches
semelhantes, sendo em todas as ocasiões cumprimentado com
muita cordialidade pelos spaniels que os ocupavam.
Por fim, entraram à disparada em uma grande cidade, e o Príncipe
Tangará não teve dúvida de que se tratava da capital do reino. Era
evidente que a notícia de sua chegada havia-se espalhado, pois
todos os cidadãos estavam às portas e janelas, e todos os
pequenos spaniels haviam escalado os muros e portões para vê-lo
passar. O príncipe ficou encantado com essa recepção tão calorosa
e olhava em volta com profundo interesse. Depois de passar por
algumas ruas largas bem pavimentadas, enfeitadas com fileiras de
bonitas árvores, chegaram ao pátio de um grandioso palácio, repleto
de spaniels que eram evidentemente soldados.
— A guarda do rei – pensou o príncipe consigo, enquanto retribuía
os cumprimentos.
Então a carruagem parou, e ele foi levado à presença do rei, que
estava deitado sobre um fino tapete persa, rodeado por vários
spaniels pequenos, que se ocupavam de afugentar as moscas, para
que não incomodassem Sua Majestade. Era o mais belo de todos os
spaniels, com uma sombra de tristeza a turvar-lhe os grandes olhos
– tristeza que, todavia, desapareceu quando ele se levantou de um
salto para cumprimentar o Príncipe Tangará, desfazendo-se em
atenções. Depois, fez um sinal para os cortesãos, que vieram, um
por um, fazer as honras da casa ao visitante.
O príncipe pensou que se atrapalharia todo para travar uma
conversa, mas, tão logo viu-se mais uma vez a sós com o rei,
mandaram chamar um Secretário de Estado, que redigira, tomando
ditado de Sua Majestade, o mais polido discurso, no qual o rei
lamentava não ser possível conversarem senão por escrito, já que a
língua dos cães era difícil de compreender. A escrita, porém,
mantivera-se tal qual a do príncipe.
Na sequência, Tangará redigiu uma resposta à altura e pediu que o
rei satisfizesse sua curiosidade sobre todos os estranhos
acontecimentos que ele presenciara desde seu desembarque. Isso
pareceu despertar no rei tristes lembranças, mas ele revelou ao
príncipe ser o Rei Baiardo, e que uma fada, cujo reino era vizinho ao
seu, apaixonara-se perdidamente por ele, fazendo tudo que estava
ao seu alcance para convencê-lo a se casar com ela. Entretanto,
isso não era possível, já que ele devotava todo o seu amor à Rainha
das Ilhas Molucas. Por fim a fada, furiosa com a indiferença do rei,
reduziu-o ao estado em que agora se encontrava, deixando sua
consciência intacta, mas privando-o da capacidade de falar; e, não
satisfeita por vingar-se somente do rei, condenou todos os seus
súditos ao mesmo destino, dizendo:
— Lati e correi sobre quatro patas, até o dia em que a virtude for
recompensada pelo amor e pela fortuna – o que, como o pobre rei
observou, seria o mesmo que dizer: permanece um spaniel por todo
o sempre.
O príncipe Tangará era da mesma opinião, todavia, disse o que
qualquer um deveria dizer em tais circunstâncias:
— Vossa Majestade deve ter paciência.
Ele verdadeiramente sentia pelo pobre Rei Baiardo, e disse tudo
de consolador em que podia pensar, prometendo não poupar
esforços para ajudá-lo, se algo pudesse ser feito. Em pouco tempo
tornaram-se amigos leais, e o rei orgulhosamente revelou a Tangará
um retrato da Rainha das Ilhas Molucas; ele concordou sem
pestanejar que qualquer perigo valia a pena por uma criatura tão
amável.
O Príncipe Tangará, por sua vez, contou-lhe sua própria história, e
sobre a grande empresa a que havia se lançado; o Rei Baiardo deu-
lhe valiosas instruções sobre a melhor maneira de proceder, e então
foram juntos ao local onde estava o navio. Os marinheiros ficaram
muito satisfeitos por rever o príncipe e constatar que ele estava
bem, e, após carregar a bordo todos os mantimentos que o rei lhes
providenciara, partiram mais uma vez. Ambos lamentaram muito a
separação, e o rei insistiu que Tangará levasse consigo um de seus
escudeiros, chamado Mousta, que foi incumbido de acompanhá-lo
por toda a parte e servi-lo fielmente – e Mousta assim prometeu
fazê-lo.
Com ventos favoráveis, logo tomaram distância do uivo
generalizado de lamento em todo o exército, dado por ordem do rei
como importante homenagem, e não demorou muito para que
perdessem de vista a terra firme. Não se depararam com nenhuma
outra aventura que valha a pena ser contada, e logo se acharam a
duas léguas do porto que procuravam. O príncipe, contudo, pensou
ser melhor desembarcar onde estava, a fim de evitar a cidade, uma
vez que não lhe restava nenhum dinheiro – e estava muito hesitante
sobre o próximo passo a tomar. Então desembarcou junto com
Mousta, e os marinheiros voltaram tristonhos para o navio enquanto
o príncipe e seu ajudante caminhavam na direção que lhes parecia
mais promissora.
Logo chegaram a uma linda campina verdejante que ficava nas
adjacências de um bosque, e tão agradável foi essa visão, que se
sentaram para descansar a uma sombra, onde ficaram a se divertir
assistindo às artes e cabriolas de um mimoso macaquinho que
brincava em umas árvores próximas. O príncipe ficou tão fascinado
com o animal, que dali a pouco levantou-se de um salto e tentou
apanhá-lo, mas o macaquinho teimava em escapar-lhe, mantendo-
se longe do alcance da mão, até que convenceu o príncipe a
prometer-lhe que o seguiria aonde quer que fosse; então saltou
sobre seu ombro e sussurrou-lhe ao ouvido:
— Não temos vintém, meu pobre Tangará; nossas circunstâncias
são totalmente precárias, e não sabemos o que fazer a seguir.
— Sim, de fato – respondeu o príncipe, com pesar –, e não tenho
nada para te dar, nem torrão de açúcar, nem biscoitos, nem nada do
que gostes, meu pequeno.
— Por vossa consideração para comigo, e paciência para com
vossa fortuna – disse o macaquinho –, mostrar-vos-ei o caminho
para a Pedra de Ouro; tendes apenas de deixar Mousta onde ele
está, esperando por vós.
O Príncipe Tangará concordou de bom grado, e o macaquinho
saltou de seu ombro para a árvore mais próxima e começou a correr
pela floresta, agarrando-se de galho em galho e dizendo: “Segui-
me!”
Não foi tão fácil para o príncipe, mas o macaquinho esperava por
ele e apontava-lhe os caminhos mais fáceis de passar, até que,
depois de não muito tempo, a floresta rareou, e eles chegaram a um
campo aberto e relvado ao pé de uma montanha, no meio do qual
erguia-se uma pedra de aproximadamente três metros.
Aproximaram-se, e o macaquinho disse:
— Esta pedra parece bastante dura, mas golpeai-a com vossa
lança e vejamos o que acontece.
Então o príncipe tomou de sua lança e espetou-a vigorosamente
contra a pedra, que se rompeu em vários pedaços, revelando seu
interior, que, sob o fino revestimento de pedra da superfície, era
uma sólida massa de ouro puro.
A seguir disse o macaquinho, rindo-se do espanto do príncipe:
— Dar-vos-ei de presente aquilo que rompestes; tomai quanto ouro
vos parecer adequado.
O príncipe agradeceu e apanhou a menor das pepitas de ouro,
após o que o macaquinho transformou-se subitamente em uma
senhora alta e bela, que lhe disse:
— Se vos conservardes bom, perseverante e simples de coração,
como sois agora, havereis de superar os mais duros desafios. Segui
vosso caminho e não receeis falta de ouro, pois a pequena parte
que modestamente escolhestes jamais se reduzirá, não importa o
quanto a utilizais. Mas, para que vejais o perigo do qual escapastes
graças à vossa moderação, segui-me.
Dizendo isso, guiou-o de volta pela floresta por um caminho
diferente do anterior, e ele então viu que estava repleta de homens e
mulheres; suas faces eram pálidas e abatidas e corriam como
loucos de um lado para outro buscando algo pelo chão ou no ar,
sobressaltando-se a cada ruído, empurrando-se e atropelando-se na
ânsia desvairada de encontrar o caminho até a Pedra de Ouro.
— Vede como pelejam – a fada disse –, mas em vão. Terminarão
por morrer de desespero, como centenas antes deles.
Tão logo voltaram ao local onde haviam deixado Mousta, a fada
desapareceu, e o príncipe e seu fiel escudeiro, que se desfez em
demonstrações de alegria ao revê-lo, tomaram o caminho mais curto
para a cidade. Ali passaram vários dias, enquanto o príncipe
equipava-se de cavalos e escudeiros, muito indagando acerca da
Princesa Zabela e do caminho até seu reino, o qual estava ainda tão
distante, que só conseguiu obter poucas informações, e estas ainda
assim muito vagas. Porém, quando chegou ao Monte Cáucaso, tudo
foi diferente. Ali, parecia não se falar noutra coisa senão na Princesa
Zabela, e forasteiros de todas as partes do mundo viajavam rumo à
corte de seu pai.
O príncipe ouviu muitas confirmações acerca da beleza e da
riqueza da princesa, mas também teve conhecimento da imensa
quantidade dos seus rivais e do seu poderio. Um deles trazia um
exército à sua cola; outro possuía vasta fortuna; um outro ainda era
belo e habilidoso como ninguém – já Tangará nada possuía além de
sua determinação de vencer, seu fiel spaniel e seu nome ridículo. E,
não podendo este último valer-lhe de nada, nem havendo meios de
alterá-lo, decidiu, sabiamente, não mais pensar sobre o assunto.
Depois de viajar por dois meses inteiros, chegaram finalmente a
Trelintim, capital do reino da Princesa Zabela, e ali ouviu histórias
desanimadoras sobre a Montanha Gelada e sobre como nenhum
daqueles que haviam tentado escalá-la jamais retornara. Ouviu
também a história do Rei Farda-Quimbras, o pai de Zabela.
Reza a lenda que ele, um rico e poderoso monarca, havia-se
casado com uma linda princesa chamada Birbantina, e os dois não
poderiam ser mais felizes – tão felizes que, um dia, enquanto
passeavam de trenó, cometeram a imprudência de desafiar o poder
que o destino possui de macular sua felicidade. Ao ouvir isso, uma
velha bruxa, sentada à beira da estrada e assoprando os dedos
para mantê-los aquecidos, teria resmungado: “Veremos”.
Logo a seguir, o rei começou a sentir-se extremamente irado e quis
punir a esposa, mas a rainha deteve-o, dizendo:
— Alto lá, senhor! Não agravemos a situação; sem dúvida isso é
obra de fada!
A velha então teria dito:
— Tendes razão – e pôs-se imediatamente de pé.
Enquanto ambos a olhavam, horrorizados, ela foi-se tornando
gigantesca e terrível; seu cajado transformou-se em um dragão
flamejante abrindo as asas; sua capa carcomida mudou-se em um
manto de ouro, e seus sapatos de madeira, em feixes de rojões.
— Tendes razão, e, quando virdes as consequências de tuas
andanças, lembrai-vos da Fada Gorgonzola!
E, dizendo isso, montou em seu dragão e saiu voando, os rojões
disparando em todas as direções, deixando atrás de si um longo
rastro de fagulhas.
Em vão Farda-Quimbras e Birbantina imploraram que ela voltasse
e tentaram apaziguá-la por meio de sinceros pedidos de desculpa;
ela sequer dignou-se de olhar para eles, e em pouco tempo
desapareceu de vista, deixando-os sujeitos a todo tipo de infortúnio.
Pouco tempo depois desses acontecimentos, a rainha teve uma
filhinha, que era a mais bela criatura já vista; todas as fadas do
Norte foram convidadas para o batizado e alertadas sobre a
malévola Gorgonzola – que também foi convidada, mas nem
compareceu, nem recebeu o presente que lhe fora enviado. No
entanto, assim que todas as fadas sentaram-se à mesa, depois de
conferir seus dons sobre a princesinha, Gorgonzola entrou
furtivamente no palácio, assumindo a forma de um gato preto, e
manteve-se escondida debaixo do berço até que todas as babás e
criadas virassem as costas; então deu um salto e, num instante,
roubou o coraçãozinho da princesa e escapou com ele, perseguida
apenas por alguns cães e ajudantes de cozinha em sua fuga pelo
pátio. Uma vez do lado de fora, subiu em sua carruagem e voou
direto para o Polo Norte, onde encerrou o tesouro roubado no topo
da Montanha Gelada, cercando-o de tantos perigos, que teve
certeza de que lá permaneceria por toda a vida da princesa; e então
voltou para casa, comemorando o sucesso de sua empreitada.
Quanto às outras fadas, voltaram para casa depois do banquete,
sem dar pela falta de coisa alguma, e o rei e a rainha ficaram bem
felizes.
Zabela tornava-se cada dia mais formosa. Aprendeu, sem a menor
dificuldade, tudo o que uma princesa deveria saber; mas, ainda
assim, ficava sempre a impressão de que lhe faltava algo para que
fosse perfeitamente encantadora. Tinha uma voz maravilhosa, mas,
fossem suas canções alegres ou tristes, era-lhe de todo indiferente,
pois ela não lhes compreendia o sentido, e todos que a ouviam
cantar diziam:
— Canta perfeitamente, não resta dúvida, mas sem ternura; não
coloca o coração no que canta.
Pobre Zabela! Como poderia ser diferente, se seu coração estava
longe, nas Montanhas Geladas? E era assim também com tudo o
mais que ela fazia. Conforme o tempo passava, apesar da
admiração de toda a corte e do carinho irrestrito do rei e da rainha,
foi-se tornando cada vez mais evidente que algo estava fatalmente
errado: pois aquele que não ama ninguém não pode ser amado por
muito tempo. Por fim o rei convocou uma assembleia geral,
convidando as fadas para que ajudassem, se possível, a descobrir
qual era o problema. Depois de expor sua aflição da melhor forma
que conseguiu, terminou implorando que vissem com seus próprios
olhos a princesa.
— Tenho certeza – disse ele – de que há algo errado; o que é
exatamente não sei dizer, mas, de alguma forma, vosso trabalho
ficou imperfeito.
Elas garantiram que, até onde sabiam, todo o necessário fora feito
pela princesa, e que não haviam negligenciado nada que pudessem
conferir a um vizinho tão bom quanto o rei. Depois disso foram ver
Zabela – e, mal haviam-se colocado na presença da princesa,
exclamaram todas em uníssono:
— Ó! Que horror! Ela não tem coração!
Diante de tão pavoroso anúncio, o rei e a rainha soltaram um grito
de terror, e rogaram às fadas que encontrassem uma maneira de
remediar esse infortúnio jamais antes visto. Então a fada anciã
consultou seu livro de magia, que sempre levava aonde fosse, preso
na cintura por uma grossa corrente de prata, e lá prontamente
descobriu que fora Gorgonzola quem roubara o coração da
princesa, bem como o que a malvada fada ancestral fizera com ele.
— Que vamos fazer? Que vamos fazer? – diziam a um só tempo o
rei e a rainha.
— Deve certamente causar-vos grave aflição ver e amar a
princesa, que não passa de uma bela imagem – respondeu a fada –,
e este estado de coisas deve prolongar-se ainda por muito tempo;
mas creio que, por fim, ela recobrará seu coração. O conselho que
vos dou é que façais circular por todo o mundo o seu retrato, e
prometais sua mão em casamento, e toda a sua riqueza, ao príncipe
que com sucesso resgatar-lhe o coração. Sua beleza, sem qualquer
outro incentivo, é bastante para convencer todos os príncipes do
mundo a aceitar o desafio.
Assim foi feito, e o Príncipe Tangará ouviu dizer que quinhentos
príncipes haviam perecido na neve e no gelo, para não mencionar
seus escudeiros e pajens, e que mais príncipes continuavam a
chegar todos os dias, ansiosos por tentar a sorte. Depois de
ponderar um bocado, decidiu apresentar-se à corte, mas sua
chegada não causou nenhuma impressão, uma vez que seu séquito
era tão minguado quanto sua estatura, e tamanho era o esplendor
de seus rivais, que mesmo Farda-Quimbras ficava em segundo
plano. Entretanto, cumprimentou o rei muito educadamente e pediu
permissão para beijar a mão da princesa, como era o costume. Ao
dizer, porém, que se chamava Tangará, o rei mal conseguiu reprimir
um sorriso, e os príncipes que por ali estavam explodiram numa
gargalhada.
Dirigindo-se ao rei, o Príncipe Tangará respondeu, com grave
dignidade:
— Vossa Alteza pode rir à vontade, se vos apraz; folgo em saber
que vos proporciono algum divertimento. Mas não admito ser
joguete nas mãos desses cavalheiros, e peço-lhes que afastem
imediatamente qualquer ideia do gênero – e, dizendo isso, dirigiu-se
ao príncipe que rira mais alto e orgulhosamente desafiou-o para um
duelo.
O tal príncipe, que se chamava Fadasse, aceitou o desafio
desdenhosamente, rindo-se de Tangará, que, em sua opinião, não
teria a menor chance contra ele. O confronto foi acertado para o dia
seguinte. Ao retirar-se da presença do rei, o Príncipe Tangará foi
conduzido ao salão de audiências da princesa Zabela. A visão de
tamanha beleza e esplendor quase roubou-lhe o fôlego por um
momento, mas, recompondo-se com algum esforço, disse-lhe:
— Adorável princesa, irremediavelmente atraído pela beleza de
vosso retrato, venho do outro lado do mundo colocar-me à vossa
disposição. Minha devoção desconhece obstáculos, mas meu
ridículo nome deu causa a que me envolvesse em uma disputa com
um de vossos pretendentes. Amanhã hei de bater-me contra esse
incauto e desagradável príncipe, e rogo que honreis o combate com
vossa presença, e assim proveis ao mundo que o nome não é nada,
e que aceitais tomar a Tangará por vosso cavaleiro.
Àquela altura, a princesa já não podia evitar divertir-se com a
situação, pois, embora não tivesse coração, tinha senso de humor.
Entretanto, respondeu polidamente que aceitava o convite, o que
encorajou o príncipe a pedir-lhe, ademais, que não favorecesse seu
adversário.
— Ora, essa! – ela respondeu. – Pois se não favoreço nenhum
desses idiotas que vêm agastar-me com seu sentimentalismo e
insensatez! Sinto-me perfeitamente bem, e, ainda assim, ano após
ano, eles vêm falar-me de me salvar de um suposto sofrimento. Não
compreendo uma só palavra das frioleiras que dizem sobre o amor e
sabe-se lá sobre o que mais, porque, confesso-vos, sequer me
recordo do que dizem.
Tangará foi arguto o bastante para depreender das palavras da
princesa que diverti-la e avivar-lhe o interesse seriam formas mais
certeiras de obter seus favores do que engrossar a lista daqueles
que a importunavam com sua tagarelice sobre esse tal “amor”, coisa
misteriosa que tanto ultrapassava seu entendimento. Então
desandou a falar sobre seus rivais, encontrando em cada um deles
um motivo de mofa – divertimento a que a princesa aderiu
inteiramente, e tamanho foi o seu êxito em diverti-la que, passado
não muito tempo, ela declarou que, de todas as pessoas da corte,
era com Tangará que ela preferia conversar.
No dia seguinte, à hora marcada para o enfrentamento, quando o
rei, a rainha e a princesa tomaram seus lugares, estando toda a
corte e toda a cidade reunida para assistir ao evento, o Príncipe
Fadasse fez sua entrada na arena, esplendidamente armado e
aparelhado, seguido por vinte e quatro escudeiros e uma centena de
homens de armas, cada um montado em um belíssimo cavalo; o
Príncipe Tangará, por sua vez, entrou na arena pelo lado oposto,
armado apenas com sua lança e seguido de seu fiel Mousta. O
contraste entre os dois guerreiros era tão gritante, que o povo
irrompeu em estrepitosa gargalhada. Mas quando, ao som da
trombeta, os combatentes avançaram um sobre o outro, e Tangará,
desviando-se de um golpe, conseguiu arrancar o príncipe Fadasse
de cima de seu cavalo e espetá-lo contra o chão com sua lança, o
som da risada converteu-se em um murmúrio de admiração.
Entretanto, tendo a vida do príncipe Fadasse em suas mãos,
Tangará, dirigindo-se à princesa, declarou que não pretendia matar
ninguém que se apresentasse como seu cortesão, e pediu ao
enraivecido e humilhado Fadasse que se levantasse e agradecesse
à princesa por sua vida. E assim, em meio ao som das trombetas e
dos gritos do povo, retirou-se da arena solenemente, acompanhado
por Mousta.
O rei logo mandou chamá-lo para cumprimentá-lo pela vitória e
oferecer-lhe acomodação no palácio, o que foi prontamente aceito.
Já a princesa manifestou o desejo de ver Mousta. O príncipe
mandou buscá-lo, e ela ficou tão encantada com seus modos
corteses e com sua prodigiosa inteligência, que suplicou a Tangará
que lhe desse o animal. O príncipe consentiu animadamente, não
apenas por educação, mas por imaginar que ter um fiel amigo
sempre próximo da princesa poderia ser-lhe útil algum dia. Esses
acontecimentos fizeram de Tangará uma figura muito mais
importante na corte.
Pouco tempo depois, cruzou a fronteira do reino o embaixador de
um rei muito poderoso, que enviava a Farda-Quimbras a
correspondência a seguir e pedia, na mesma ocasião, permissão
para entrar na capital a fim de receber a resposta:
“Eu, Brandatimor, envio a Farda-Quimbras meus cumprimentos.
Houvera eu antes visto o retrato de vossa bela filha Zabela, não
teria permitido que todos esses príncipes, aventureiros e sem
importância, viessem bajulá-la e se condenassem a perecer de frio
no leviano intento de merecer sua mão. De minha parte, não temo a
nenhum rival, e, agora que estou resolvido a desposar vossa filha,
sem dúvida todos eles recuarão. Meu embaixador tem ordens,
portanto, para providenciar a vinda da princesa a fim de se casar
comigo imediatamente – pois que não tributo a menor importância a
essa história que tornastes conhecida no mundo inteiro acerca da
Montanha Gelada. Caso a princesa de fato não tenha coração,
estejais certo de que isso é para mim de todo indiferente, pois, se
existe alguém que pode ajudá-la a descobrir um coração, este sou
eu. Ao meu estimado sogro, adeus!”
A leitura da carta foi causa de constrangimento e desgosto para
Farda-Quimbras e Birbantina; a princesa, por sua vez, ficou furiosa
com a insolência do pedido. Resolveram os três manter seu
conteúdo em sigilo até que decidissem que resposta enviar, mas
Mousta arranjou uma maneira de informar ao Príncipe Tangará
sobre o que se passara. Naturalmente alarmado e indignado, depois
de ponderar a questão por alguns momentos, solicitou uma
audiência com a princesa, e com tanta habilidade dirigiu a conversa
para o assunto que monopolizava os pensamentos dela (bem como
os seus), que não demorou muito para que lhe arrancasse uma
confissão. Ela então pediu-lhe um conselho sobre a melhor decisão
a tomar. Era precisamente sobre isso que ele não conseguia se
decidir; entretanto, aconselhou-a que ganhasse um pouco mais de
tempo prometendo dar uma resposta após a entrada solene do
embaixador, o que foi acatado e feito.
O embaixador não gostou nada da protelação, mas foi obrigado a
se conformar, limitando-se a dizer, muito arrogantemente, que, tão
logo sua carruagem chegasse – muito em breve, segundo ele
esperava –, daria ao povo da cidade, e aos príncipes que a
infestavam, uma ideia do poder e magnificência de seu senhor.
Tangará, aflito, decidiu que, desta vez, recorreria ao auxílio da boa
Fada Genesta. Ele frequentemente pensava nela, sempre com
gratidão, mas, desde o momento de sua partida, decidira solicitar
sua ajuda somente nas ocasiões mais graves. Naquela mesma
noite, após adormecer, exausto de tanto pensar nas dificuldades da
situação, sonhou que a fada punha-se ao seu lado e dizia:
— Tangará, te comportaste muito bem até agora. Continua a
agradar-me, e encontrarás sempre bons amigos quando mais
precisar. No tocante ao embaixador, tranquiliza Zabela quanto à sua
entrada solene; tudo há de acabar bem para ela.
O príncipe bem que tentou atirar-se aos seus pés para agradecê-
la, mas despertou e viu que fora tudo um sonho; todavia, muniu-se
de renovada coragem e no dia seguinte foi ver a princesa, dando-lhe
misteriosas e abundantes certezas de vitória. Chegou mesmo ao
ponto de lhe perguntar se não ficaria grata por aquele que a livrasse
do insolente Brandatimor. A isso, ela respondeu que sua gratidão
seria infinita. Ele então indagou o que de melhor ela desejaria
àquele que fosse feliz o bastante para consegui-lo, ao que ela
respondeu: que ele se tornasse tão insensível quanto ela a essa
asneira chamada “amor”! Estas foram, de fato, palavras
esmagadoras para um amante tão devoto quanto o Príncipe
Tangará, porém ele soube com admirável coragem disfarçar a dor
que lhe causaram.
O embaixador enviara um recado avisando que, no dia seguinte,
compareceria em pessoa para receber uma resposta. Já muito cedo
pela manhã os habitantes corriam em polvorosa, a fim de garantir os
lugares privilegiados para assistir ao grande acontecimento. Mas a
gentil Fada Genesta preparava-lhes uma boa dose de diversão com
a qual eles nem sonhavam: enfeitiçou os olhos de todos os
presentes, e, quando a portentosa procissão do embaixador
apareceu, seus magníficos uniformes pareceram-lhes trapos
miseráveis que fariam vergonha a um mendigo; os cavalos de trote
elegante pareceram-lhes pobres criaturas esquálidas, mal capazes
de arrastar uma pata após a outra; e seus arreios, que em verdade
reluziam de tanto ouro e pedras preciosas, pareceram-lhes de um
couro bem carcomido, impróprios até mesmo a um cavalo de tração.
Os escudeiros pareciam os mais esfarrapados daqueles garotos que
limpam chaminés. As trombetas não produziam um som melhor do
que o apito de um canudo de bambu, ou o berro esganiçado
daquele instrumento que se improvisa com um pente e um pedaço
de papel. Já o cortejo de cinquenta carruagens não parecia mais do
que cinquenta carroças puxadas por jumentinhos. No último carro
vinha o embaixador, com o ar altivo e desdenhoso que julgava cair
bem ao representante de tão poderoso monarca – pois este era o
ponto alto do ridículo de toda aquela procissão: que todos os que
dela faziam parte tanto se envaidecessem e orgulhassem de sua
aparência e de tudo que os cercava, o que, em seu entender, estava
plenamente justificado pela importância que atribuíam a si próprios.
O riso zombeteiro e o estrepitoso escárnio da multidão se
intensificavam conforme o insólito cortejo avançava, até atingirem os
ouvidos do rei, que aguardava no salão de audiências. Antes que a
procissão chegasse ao palácio, informaram-no sobre o caráter do
que ali vinha, e, supondo ser aquilo um insulto, o rei ordenou que se
fechassem os portões. Podeis imaginar a fúria do embaixador
quando, depois de tanta ostentação, descobriu que o rei se
recusava terminantemente a recebê-lo. Desandou, em doida sanha,
a praguejar contra o rei e o povo, e o cortejo retirou-se em grande
confusão, achincalhado debaixo de pedras e lama que a multidão
enfurecida lhe atirava. Escusado dizer que ele deixou o país tão
rapidamente quanto os cavalos podiam levá-lo, mas não sem antes
declarar guerra, fazendo as mais terríveis ameaças e prometendo
devastar o país pelo fogo e pela espada.
Alguns dias depois desse desastre diplomático, o Rei Baiardo
enviou alguns cortesãos ao Príncipe Tangará, munidos de uma carta
extremamente cordial, colocando-se à sua disposição para o caso
de qualquer dificuldade e indagando, com sincero interesse, como
vinha passando.
Tangará respondeu prontamente, relatando todos os
acontecimentos desde sua partida, sem se esquecer de mencionar
o evento entre Farda-Quimbras e Brandatimor, e que haviam se
lançado numa contenda fatal; finalizou solicitando a seu leal amigo
que despachasse algumas centenas de seus spaniels veteranos
para prestar-lhe auxílio.
Nem o rei, nem a rainha, nem a princesa podiam entender de
modo algum o inexplicável comportamento do embaixador de
Brandatimor. Todavia, os preparativos para a guerra prosseguiram a
toda prova, e todos os príncipes que ainda não haviam partido para
a Montanha Gelada ofereceram seus préstimos, ao mesmo tempo
exigindo as melhores posições no exército do rei. Tangará foi um
dos primeiros a se voluntariar, mas pediu simplesmente o posto de
ajudante de campo do comandante em chefe, um heroico soldado
celebrado por suas vitórias.
Assim que o exército pôde se reunir, marchou para a fronteira,
onde deparou-se com o inimigo chefiado pessoalmente por
Brandatimor, que espumava de ódio, decidido a vingar o insulto ao
seu embaixador e tomar a Princesa Zabela para si. Tudo o que o
exército de Farda-Quimbras podia fazer, sendo amplamente
superado em número, era investir na defensiva. Tangará em breve
conquistou a estima dos oficiais, graças à sua habilidade, e a estima
dos soldados, graças à sua coragem e preocupação com o seu
bem-estar; e em todos os confrontos em que tomou parte teve a
felicidade de derrotar o inimigo.
Por fim, Brandatimor lançou todo o exército em um terrível
combate, e, muito embora as tropas de Farda-Quimbras lutassem
com desmedida coragem, seu general foi abatido, e o exército
vencido e obrigado a recuar, com imensos danos. Tangará operava
maravilhas, e meia dúzia de vezes reverteu a situação de suas
tropas, obrigando o inimigo a bater em retirada. Depois, reuniu
homens em número suficiente para mantê-los em prontidão, até que
o inverno rigoroso, abatendo-se sobre eles, pôs uma trégua ao
conflito.
Então voltou à corte, onde imperava consternação geral. O rei
estava desolado com a morte de seu general de confiança; por fim
implorou a Tangará que assumisse o comando do exército, e seus
conselhos foram acatados em todos os assuntos da corte. Manteve-
se fiel ao seu plano de entreter a princesa, jamais trazendo à tona
aquela maçada chamada “amor”, de modo que para ela era sempre
um prazer vê-lo, e o inverno passou alegremente para ambos.
Durante todo esse tempo, o príncipe planejava secretamente a
próxima campanha; recebera informações confidenciais de que um
significativo reforço de spaniels havia chegado, e enviou-lhes ordens
de que se posicionassem na fronteira sem fazer alarde, e, tão logo
lhe foi possível, reuniu-se com o comandante dos spaniels, que era
um soldado maduro e experiente. Seguindo seu conselho, ordenou
uma batalha campal assim que o exército inimigo avançasse, e
neste ponto Brandatimor não perdeu tempo, inteiramente
convencido de que desta vez poria um fim à guerra e finalmente
derrotaria Farda-Quimbras.
Porém, tão logo deu a ordem de atacar, os spaniels, que se
haviam misturado às tropas sem ser notados, saltaram cada um
sobre o cavalo mais próximo, e não apenas lançaram todo o
esquadrão no mais completo caos, pelo terror que provocaram,
mas, voando sobre o pescoço dos cavaleiros, derrubaram muitos
deles graças ao elemento surpresa do ataque. Então, atacando os
cavalos pela retaguarda, espalharam devastação por toda a parte,
abrindo caminho para que o Príncipe Tangará atingisse facilmente a
vitória definitiva. Ele bateu-se contra Brandatimor em um duelo e
conseguiu fazê-lo prisioneiro; porém o rei não sobreviveu à viagem
até a corte, para onde Tangará o enviara: seu orgulho o matou ao
imaginar-se diante de Zabela sob circunstâncias tão adversas.
Enquanto isso, o Príncipe Fadasse e todos os outros que haviam
ficado para trás preparavam-se para a conquista da Montanha
Gelada, receosos de que o Príncipe Tangará obtivesse neste, como
nos demais desafios, um resultado favorável. Ao voltar da
campanha, Tangará ficou profundamente contrariado com esse
estado de coisas. É fato que ele vinha servindo à princesa, mas ela
apenas o admirava e elogiava por seus feitos heroicos, e não
parecia nem um pouco inclinada a conceder-lhe o amor que ele tão
ardentemente desejava. O único conforto que Mousta podia dar a
Tangará nesta questão era que, ao menos, ela não amava ninguém,
e com isso ele teve de se conformar.
Tangará decidiu, porém, que não se demoraria nem mais um
minuto, prosseguindo no intento que o trouxera de tão longe até ali.
Ao despedir-se do rei e da rainha, estes instaram-lhe que desistisse
da empreitada, pois tinham acabado de saber que o Príncipe
Fadasse e todo o seu séquito haviam perecido na neve. Ele, porém,
manteve sua decisão. Zabela, por sua vez, estendeu-lhe a mão para
que a beijasse, com a mesma polida indiferença com que o fizera da
primeira vez que se encontraram. Ocorre que essa despedida se
deu à vista de toda a corte, e tamanha era a estima com que agora
Tangará era tido por todos, que a frieza do tratamento da princesa
provocou geral indignação.
Por fim, o rei lhe disse:
— Príncipe, tendes sempre rejeitado os presentes que vos ofereço,
em gratidão por vossos inestimáveis serviços, mas desejo que a
princesa vos agracie com o seu manto de pele de marta, e espero
que não o rejeiteis.
Ora, tratava-se de um magnífico manto do qual a princesa gostava
muito, não tanto porque sentisse frio, mas porque suas cores
combinavam perfeitamente com o matiz delicado de sua pele e com
o dourado brilhante de seus cabelos. Não obstante, ela o retirou e,
com refinada polidez, pediu que o Príncipe Tangará o aceitasse, ao
que ele obviamente correspondeu, encantado; e levando somente
isso e um feixe de lenha, acompanhado por apenas dois spaniels –
dos cinquenta que ficaram com ele após a guerra – partiu, e em
cada cidade por que passava recebia muitas provas de amizade e
afeição do povo. No último vilarejo, abandonou seu cavalo para
iniciar sua penosa caminhada pela neve, que se estendia, branca e
terrível, em todas as direções que a vista alcançava. Este era o local
do encontro marcado com os quarenta e oito spaniels, que o
receberam efusivamente, reafirmando que, em qualquer
circunstância, estariam ao seu lado e o serviriam fielmente. E assim
partiram, cheios de esperança.
Primeiro, passaram por uma trilha estreita e difícil, porém não
impossível de percorrer, mas logo se perderam, e a Estrela Polar foi
o único guia que tiveram. Quando pararam para descansar, o
príncipe, que, após muito refletir, decidiu sobre o seu plano de ação,
plantou na neve alguns gravetos do feixe que trouxera consigo e
polvilhou sobre eles uma pitada do pó mágico que encontrara no
pequeno navio encantado. Para sua imensa alegria, eles
imediatamente começaram a brotar e crescer, e, em questão de
alguns instantes, o acampamento ficou cercado por um perfeito
pomar com árvores de todo tipo, que floriam e se curvavam ao peso
dos frutos maduros. E assim todos puderam saciar a fome à
vontade, fazendo depois imensas fogueiras para se aquecer.
Então o príncipe enviou alguns spaniels para fazer o
reconhecimento do terreno, e tiveram a sorte de encontrar um
cavalo carregado de provisões, preso na neve. Foram
imediatamente buscar seus companheiros e triunfantemente
levaram os espólios de guerra para o acampamento – e, como estes
consistiam principalmente de biscoitos, nenhum spaniel foi dormir
sem antes cear. Desta maneira viajavam durante o dia e
acampavam em segurança durante a noite, sempre se lembrando
de apanhar um bocado de gravetos para fornecer-lhes alimento e
abrigo.
Iam encontrando pelo caminho os exércitos daqueles que se
aventuraram na perigosa empreitada, rijamente congelados, sem
sentidos e imóveis, mas o Príncipe Tangará proibiu expressamente
qualquer tentativa de degelá-los. Então seguiram em frente por mais
de três longos meses, e a Montanha Gelada, que já avistavam há
algum tempo, aparecia-lhes cada vez mais nitidamente, até que
finalmente a alcançaram – e, de tão imensa e íngreme, fez a todos
estremecer.
Porém, com paciência e perseverança, foram escalando pé ante
pé, auxiliados pelo fogo de sua lenha mágica, sem o qual teriam
perecido no frio intenso, até que, por fim, viram-se diante dos
portões do majestoso Palácio Gelado, que coroava a montanha,
onde, num silêncio mortal e sono pétreo, jazia o coração de Zabela.
A dificuldade agora era temível, pois, caso se mantivessem
aquecidos o bastante para sobreviverem, correriam o risco de que
os blocos de gelo dos quais se compunha o palácio derretessem, o
que faria toda a estrutura ruir sobre suas cabeças. Porém,
cuidadosamente e com muita agilidade, cruzaram pátios e salões
até alcançar o pé de um enorme trono, onde, sobre uma almofada
de neve, estava um imenso e reluzente diamante, que continha o
coração da adorável Princesa Zabela. Sobre o primeiro degrau do
trono lia-se, em letras de gelo: “Quem quer que sejais, que, graças à
vossa coragem e virtude, conquistastes o coração de Zabela,
desfrutai em paz da boa fortuna a que valorosamente fazeis jus.”
O Príncipe Tangará escalou os degraus e teve força suficiente
apenas para agarrar o precioso diamante que continha aquilo que
ele mais desejava no mundo, antes de cair, sem sentidos, sobre a
almofada de neve. Seus leais spaniels não perderam um segundo e
o resgataram, carregando-o rapidamente para fora do salão – e bem
a tempo, pois ouviram ao seu redor o baque dos blocos de gelo que
despencavam no chão enquanto o Palácio Encantado ruía
lentamente sob o efeito daquele calor inesperado. Somente pararam
para trazer o príncipe de volta à consciência quando atingiram o pé
da montanha, e então sua alegria por achar-se o possuidor do
coração de Zabela foi infinita.
Começaram a voltar pelo mesmo caminho, a toda velocidade, mas
desta vez o feliz príncipe não pôde suportar a visão de seus
derrotados e desiludidos rivais, cujos corpos congelados
pontilhavam seu caminho de vitória. Ordenou aos spaniels que não
poupassem esforços para trazê-los de volta à vida, e tamanho êxito
obtiveram, que dia após dia sua comitiva crescia, de modo que, ao
retornar ao vilarejo onde deixara seu cavalo, vinha seguido por
quinhentos príncipes soberanos e um sem-número de cavaleiros e
escudeiros; e era tão cortês e modesto, que todos o seguiam de boa
vontade, ansiosos por agradá-lo. Mas a verdade é que ele se sentia
tão afortunado, que não lhe era difícil estar em paz com todo o
mundo.
Dentro em pouco encontrou o fiel Mousta, que vinha correndo a
toda velocidade contar-lhe sobre a repentina e extraordinária
transformação da princesa, que se tornara afável e solícita e não
fazia outra coisa senão falar sobre o Príncipe Tangará, sobre as
penas que ele devia estar sofrendo, e de sua apreensão por seu
bem-estar – e tudo isso com centenas de outras demonstrações de
afeto, para coroar a felicidade do príncipe. Então veio um cortesão
trazendo as congratulações do rei e da rainha, que haviam acabado
de receber a notícia de seu retorno, e até mesmo uma elegante
felicitação de Zabela. O príncipe ordenou que Mousta corresse de
volta à princesa, a qual o recebeu com genuína alegria – pois, afinal,
não era um presente de seu amado?
Os viajantes por fim chegaram à capital, onde foram recebidos
com pompas reais. Farda-Quimbras e Birbantina abraçaram o
Príncipe Tangará, declarando estimá-lo como a seu próprio filho e
futuro esposo da princesa, ao que ele respondeu que estava muito
honrado. Foi então admitido à presença da princesa, que pela
primeira vez corou quando ele beijou-lhe a mão, e não soube o que
dizer. Mas o príncipe, pondo-se de joelhos junto dela, estendeu-lhe
o esplêndido diamante, dizendo:
— Senhora, este tesouro vos pertence, pois nenhum dos perigos e
dificuldades que enfrentei seriam suficientes para tornar-me digno
dele.
— Ah, príncipe! – disse ela. – Se o recebo, é apenas para
oferecer-vos de volta a vós, pois na verdade ele já vos pertence.
Neste momento foram interrompidos pelo rei e pela rainha, que
entraram fazendo toda sorte imaginável de perguntas, e não raro as
mesmas perguntas de novo e de novo. Parece que há sempre uma
pergunta que todos infalivelmente fazem sobre um dado
acontecimento, e o Príncipe Tangará descobriu que a pergunta a
que teria de responder para mais de uma centena de pessoas sobre
esta ocasião em particular era a seguinte: “Pois não achastes muito
frio?”
O rei viera para pedir ao Príncipe Tangará e à princesa que o
acompanhassem ao Salão do Conselho, pedido a que atenderam,
ignorando que o rei pretendia apresentar o príncipe, como seu genro
e sucessor, a todos os nobres lá reunidos. Quando Tangará
percebeu essa intenção, pediu permissão para falar primeiro e
contou toda a sua história, inclusive o fato de que acreditava ser o
filho de um camponês. Mal acabara de falar, o céu enegreceu, um
trovão rugiu e um relâmpago brilhou, e na luz apareceu de repente a
boa Fada Genesta. Dirigindo-se ao Príncipe Tangará, ela disse:
— Estou satisfeita convosco, pois demonstrastes não apenas
coragem, mas um bom coração.
E, voltando-se para o Rei Farda-Quimbras, informou-o sobre a
verdadeira história do príncipe, e de como ela decidira formá-lo no
tipo de educação mais adequado a um homem que se dedicaria ao
governo de outros homens.
— Agora que conheceis o valor de um amigo fiel – acrescentou,
dirigindo-se ao príncipe –, tereis o prazer de ver o Rei Baiardo e
todos os seus súditos recobrarem sua forma natural, como
recompensa pela benevolência que demonstraram para convosco.
Neste momento surgiu uma carruagem puxada por águias, a qual
por acaso trazia o tolo rei e a rainha, que abraçaram efusivamente a
seu filho há tanto tempo desaparecido – e ficaram de fato admirados
de vê-lo coberto de pelos! Enquanto acariciavam Zabela e
apertavam-lhe as mãos (a demonstração de afeto preferida entre os
tolos), viram-se carruagens aproximando-se de todos os cantos,
trazendo inúmeras fadas.
— Senhor – disse Genesta a Farda-Quimbras –, tomei a liberdade
de designar vossa corte como o local de encontro para todas as
fadas que poderiam comparecer; e confio que tomareis providências
para que aqui se realize, nesta ocasião, o grande baile que
acontece uma vez a cada cem anos.
Compreendendo perfeitamente a grande honra que a fada assim
lhe fazia, o rei a seguir reconciliou-se com Gorgonzola, e, passado
pouco tempo, os dois juntos declararam aberto o baile.
A Fada Marzontina restaurou ao Rei Baiardo e a todos os seus
súditos sua forma natural, e mais uma vez ele transformou-se em
um rei tão belo quanto se poderia sonhar. Uma das fadas enviou
imediatamente uma de suas carruagens à Rainha das Ilhas
Molucas, e seu casamento aconteceu ao mesmo tempo em que o
Príncipe Tangará desposava sua amável e graciosa Zabela. Eles
viveram felizes para sempre, e, passado pouco tempo, seus vastos
reinos foram divididos entre seus filhos.
O príncipe, para prestar homenagem ao primeiro presente que lhe
fora concedido pela Princesa Zabela, concedeu à mais graciosa das
martas o direito de ostentar seu nome, e é por isso que, até os dias
de hoje, esses adoráveis animaizinhos são chamados zibelinas.[ 13
]
[ 13 ] Conde de Caylus.
O Anel Encantado

RA UMA VEZ UM JOVEM rapaz chamado Rosimundo, que era


tão benévolo e belo quanto era feioso e maléfico seu
irmão mais velho, Braminto. A mãe de ambos só tinha
olhos para o filho mais novo, e abominava o mais velho.
Braminto, portanto, tinha do irmão uma inveja terrível, e pôs-se a
maquinar uma história igualmente terrível a fim de arruiná-lo. Disse
ao pai que Rosimundo tinha o hábito de muito frequentar um vizinho
inimigo da família, e segredar-lhe ali tudo o que se passava em
casa, além de conspirar com ele para envenená-lo.
O pai, furiosíssimo, pegou Rosimundo e entrou a açoitá-lo até
arrancar-lhe sangue. Então jogou-o na prisão e o deixou três dias a
fio sem qualquer comida, e depois ainda o jogou para fora de casa e
ameaçou matá-lo, se um dia ali voltasse. A mãe, desolada, nada fez
senão chorar e chorar, já que não tinha coragem para dizer alguma
coisa.
O jovem, com lágrimas nos olhos, deixou o lar sem ter a mínima
ideia de para onde ia, e vagueou por sabe-se lá quantas horas até
enfim chegar a uma mata muito fechada. A noite lhe sobreveio
quando estava aos pés de uma grande rocha, e ele adormeceu
numa margem coberta de musgo, embalado pela melodia duma
ribeira.
Já era manhã quando acordou e viu diante de si uma mulher
deslumbrante, a montar um cavalo cinza todo ornado de ouro, e que
parecia estar se aprontando para uma caça.
— Viste porventura passar um veado e alguns veadeiros por aqui?
– ela perguntou.
— Não, minha senhora – respondeu ele.
Então, ela acrescentou:
— Pareces um tanto infeliz; qual é o problema? Toma este anel,
que haverá de fazer de ti o mais feliz e poderoso dos homens,
contanto que nunca faças dele mau uso. Se virares o diamante que
nele há para dentro, tornar-te-á invisível. Se o virares para fora, eis
que voltarás a ficar visível. Se o colocares no teu dedinho, haverás
de assumir a aparência do filho do rei, e uma corte esplêndida
seguir-te-á. Se o colocares no teu quarto dedo, voltarás à tua
própria forma.
O jovem rapaz compreendeu, então, que era uma fada quem lhe
estava a falar. E esta mal terminara de falar e já se embrenhou na
mata cerrada, sumindo de toda a vista. O moço estava muito
ansioso para provar o anel, e voltou imediatamente para casa.
Descobriu que a fada lhe dissera a verdade, e que podia ver e ouvir
a tudo e a todos enquanto ninguém, em contrapartida, o podia ver.
Se quisesse vingar-se de seu irmão, não correria nisto o menor
risco, e não contou a ninguém senão à sua mãe todas aquelas
coisas estranhas que lhe haviam acontecido. Mais tarde, colocou o
anel encantado no dedo mindinho e surgiu como o filho do rei,
seguido por uma centena de alazões os mais finos e uma guarda de
oficiais ricamente vestidos.
Seu pai ficou muito surpreso ao ver o filho do rei ali em sua
humilde casinha, e tanto mais embaraçado por não saber como é
que se deveria agir numa ocasião assim tão grandiosa. Rosimundo
então perguntou-lhe quantos filhos tinha.
— Dois – respondeu ele.
— Desejo vê-los – disse-lhe Rosimundo. – Manda buscá-los agora.
Hei de levá-los ambos para a corte, a fim de dar-lhes fortunas.
O pai hesitou e então respondeu:
— Aqui está o mais velho, o qual eu tenho a honra de apresentar a
Vossa Alteza.
— E onde está o mais novo? Desejo vê-lo também – insistiu
Rosimundo.
— Ele não está aqui – disse o pai. – Tive de puni-lo por uma coisa
má que fizera, e ele fugiu.
Rosimundo então respondeu:

— Deverias ter-lhe mostrado o que era o certo a se fazer, em vez


de o castigares. Entretanto, o mais velho há de vir comigo. E quanto
a ti, segue estes dois guardas, que te escoltarão a um lugar que eu
lhes hei de dizer.
E lá se foram os guardas, levando seu pai, e a fada de que
falamos o encontrou na floresta e o castigou com um açoite
dourado, lançando-o numa caverna muito funda e escura, onde o
largou, enfeitiçado.
— Fica aí – ela disse – até que teu filho retorne e te salve.
Neste meio-tempo, o filho foi para o palácio do rei, e lá chegou
justamente quando o príncipe de verdade estava ausente. Este
velejara a fim de fazer guerra numa ilha longínqua, mas os ventos
lhe haviam sido contrários, e naufragara num litoral desconhecido,
sendo capturado por um povo selvagem. Rosimundo surgiu na corte
com a aparência do príncipe pelo qual todos choravam – pois que o
tinham já como morto – e lhes disse que fora resgatado à beira da
morte por alguns mercadores. O seu retorno foi motivo para
festanças públicas, e o rei foi tomado de tal alegria que não sabia o
que dizer, e só o que fez foi abraçar o filho. A rainha ficou ainda
mais radiante, e decretou que se fizessem festas e banquetes pelo
reino afora.
Um dia, o falso príncipe disse a seu irmão verdadeiro:
–— Braminto, bem sabes que te trouxe de tua terra natal para
fazer-te fortuna; mas descobri que és um mentiroso, e que à força
de tuas mentiras foi que teu irmão Rosimundo tanto sofreu. Ele está
escondido aqui, e tu irás falar com ele, e haverás de ouvir-lhe as
repreensões e o quanto mais houver para se dizer.
Braminto ficou aterrorizado com essas palavras e, jogando-se aos
pés do príncipe, confessou seu crime.
— Apenas isto não basta – disse Rosimundo. – É ao teu irmão que
deves confessar o que fizeste; é a ele que deves pedir perdão. E ele
será muitíssimo generoso se te concederes tal, e isto será muito
mais do que mereces. Vai agora até minha antessala, onde o
encontrarás. Eu de minha parte hei de me retirar para outro
aposento, a fim de deixar-vos a sós.
Braminto fez o que lhe fora ordenado e foi para a antessala. Então
Rosimundo trocou o anel de dedo e lá também entrou, por outra
porta.
Tão logo viu o rosto do irmão, Braminto sentiu-se terrivelmente
envergonhado e imediatamente se pôs a implorar por seu perdão,
enquanto fazia mil promessas de reparação pelas maldades que
cometera. Sem pestanejar, Rosimundo o perdoou e com lágrimas
nos olhos deu-lhe um forte abraço, acrescentando:
— Tenho grande mercê para com o rei. Cabe a mim fazer com que
te cortem fora a cabeça ou te lancem pelo resto da vida na prisão;
mas eu quero ser tão bom para ti quanto tu foste mau para comigo.
Braminto, atarantado e envergonhado, ouviu tudo sem ousar
levantar os olhos ou lembrar a Rosimundo que era o seu irmão mais
velho. Depois disso, Rosimundo fez notar que iria empreender uma
viagem secreta, a fim de se casar com uma princesa que vivia num
reino vizinho; a verdade, porém, é que fora apenas ver a sua mãe, e
lá contara tudo quanto se passara na corte, além de dar-lhe um
dinheiro de que ela muito precisava, pois tinha liberdade com o rei
para pegar exatamente o que quisesse, muito embora tomasse
sempre muito cuidado para não abusar da prerrogativa. Justo então,
irrompeu uma guerra feroz entre o rei, seu senhor, e o monarca do
país contíguo, um homem mau, que nunca cumpria a sua palavra.
Rosimundo dirigiu-se para o palácio do rei perverso, e graças ao
anel foi capaz de comparecer a quantos concílios ali houve e ficar a
par de quantos planos ali se fizeram, de modo que os antecipou a
todos e os malogrou. Pôs-se à frente do exército que se reunira
contra o rei maléfico e o derrotou numa batalha gloriosa. Assim,
pois, fez surgir uma paz perfeita e justa.
Dali em diante, só havia na cabeça do rei um pensamento: o de
casar o jovem rapaz com uma certa princesa que, além de herdeira
dum reino vizinho, era tão formosa quanto o céu. Uma manhã,
porém, enquanto Rosimundo estava a caçar na floresta onde vira
pela primeira vez a fada, eis que a sua benfeitora de supetão surgiu
diante dele.
— Acautela-te – falou ela, num tom severo – para que não te
cases com alguém que creia ser tu um príncipe. Não deves jamais
enganar ninguém. O príncipe de verdade, que toda a nação pensa
ser tu, terá de suceder o seu pai, pois é isto que é reto e justo. Vai e
procura-o numa ilha distante, e enviar-te-ei ventos que hão de
soprar tuas velas e levar-te até onde deves ir. Corre para fazeres
este serviço ao teu mestre, ainda que seja algo contrário a tudo
quanto ambicionas, e te preparas, qual um homem honesto, para
voltares ao teu estado natural. Não o faças, e tornar-te-ás vil e
infeliz, e eu hei de abandonar-te aos teus problemas de outrora.
Rosimundo ouviu com muito tento esses conselhos. Fez saber a
toda a corte que tomara a seu cargo uma missão secreta numa
pátria próxima, e saiu a velejar, ao sabor do vento que lhe bafejou
as velas e o levou até onde a fada dissera que estaria o príncipe de
verdade. Este jovem desventurado fora preso por uma gente
selvagem, que o pusera para guardar suas ovelhas. Rosimundo fez-
se invisível e entrou a procurá-lo nas pastagens onde ele mantinha
o rebanho, e, cobrindo-o com seu manto, livrou-o das mãos de seus
mestres cruéis e o trouxe de volta para o navio. Mais ventos ainda,
enviados pela fada, sopraram-lhes as velas, e juntos os dois
rapazes ficaram na presença do rei.
Rosimundo falou primeiro e disse:
— Até agora pensavas que sou teu filho. Não o sou; mas o trouxe
de volta para ti.
O rei, espantadíssimo, virou-se para o seu filho verdadeiro e lhe
perguntou:
— Não foste tu, filho meu, que subjugaste meus inimigos e criaste
uma paz tão gloriosa? Ou é verdade que naufragaste e foste preso,
e que Rosimundo te libertou?
— Sim, meu pai – respondeu o príncipe. – Foi Rosimundo quem
saiu à minha procura enquanto eu estava cativo, e foi ele quem me
libertou. Devo a Rosimundo a felicidade de poder ver-te mais uma
vez. Foi ele, e não eu, quem te deu a vitória.
O rei mal podia crer no que ouvia; mas Rosimundo, virando o anel,
de repente se fez príncipe à vista de todos; e o rei ficou a olhar
espantado os dois jovens que pareciam ser o seu filho. Então,
ofereceu a Rosimundo muitíssimas recompensas pelos serviços
prestados; mas ele as recusou todas. A única mercê que o jovem
haveria de aceitar era que se desse ao seu irmão Braminto um dos
postos na corte. Pois Rosimundo muito temia as reviravoltas na
fortuna, a inveja da humanidade e as suas próprias fraquezas.
Queria apenas voltar para a mãe e, no lugar onde nascera, passar o
tempo a cultivar a terra.
Um dia, a andejar pela mata, deparou-se com a fada, que lhe
mostrou a caverna onde seu pai estava aprisionado e lhe contou
quais palavras deveria usar a fim de libertá-lo. Ele as repetiu com
muito gosto, pois desde há muito quisera trazer o velho de volta e
tornar felizes os dias que lhe restavam. Assim, pois, Rosimundo
tornou-se o benfeitor de toda sua família e teve o prazer de fazer o
bem a quem lhe quisera fazer mal. E para a corte, à qual prestara
tamanhos serviços, não pedira senão a liberdade de viver longe de
sua corrupção; enfim, para coroar tudo, Rosimundo resolveu
restaurar o anel à fada, temendo que, se o mantivesse consigo,
poderia ser tentado a usá-lo para recuperar a posição que perdera
no mundo. Por dias a fio a procurou, e virou a mata do avesso à sua
cata até que finalmente a encontrou.
— Por favor, pega de volta o anel – disse ele, segurando-o na mão
aberta que lhe estendia. – É um presente tão perigoso quanto
poderoso, e coisa que temo acabar usando de modo ilícito. Não me
sentirei seguro até ter fechado todas as portas que me permitam
escapar de minha solidão e satisfazer minhas paixões.
Enquanto Rosimundo fazia o que podia para devolver o anel à
fada, Braminto, que não aprendera nada com o que lhe acontecera,
sucumbiu a todos seus desejos maus e tentou persuadir o príncipe,
há pouco feito rei, a maltratar Rosimundo. Mas a fada, que sabia
tudo que havia para se saber, disse a Rosimundo, quando este lhe
implorava para aceitar o anel:
— Teu irmão perverso está a fazer o quanto pode para envenenar
o rei contra ti e para levar-te à ruína. Braminto há de ser punido,
desta vez com a morte. A fim de que ele se destrua a si mesmo, eu
hei de lhe dar o anel.
Rosimundo pôs-se a chorar ao ouvir tais palavras, e então
perguntou:
— Que queres dizer com dar-lhe o anel como punição? Só o que
ele fará é usá-lo para perseguir a todos e transformar-se em senhor.
— Muitas vezes, a mesma coisa – respondeu-lhe a fada – é
remédio para uns e veneno mortal para outros. Para um homem
naturalmente perverso, a prosperidade é a fonte de todos os males.
Se quiseres punir um patife, a primeira coisa que deves fazer é dar-
lhe poder. Verás que com essa corda ele logo se haverá de enforcar.
Tendo dito isso, desapareceu e foi direto para o palácio, onde
surgiu a Braminto sob o disfarce de uma velha coberta de trapos.
Sem demora, falou-lhe nos seguintes termos:
— Tomei este anel das mãos de teu irmão, a quem o havia
emprestado, e com cuja ajuda ele se cobriu de glórias. O mesmo
anel dou agora para ti. Acautela-te com o que hás de fazer com ele.
Com uma gargalhada, Braminto respondeu-lhe:
— Com certeza não hei de imitar meu irmão, aquele palerma, que
inventou de trazer o príncipe de volta em vez de reinar em seu lugar
– e foi dito e feito.
Só usou o anel para escarafunchar segredos de família e os expor;
para matar e roubar e fazer o quanto mais de ruindades lhe
passassem pela cabeça; e para enriquecer às custas dos outros. E
tais e tantos crimes, dos quais não se viam traços ou pistas,
encheram o povo de terror. O rei, ao ver aquela quantidade de
casos expostos, públicos e privados, a princípio ficou tão atônito
quanto os demais, até que a prosperidade fabulosa e a espantosa
insolência de Braminto o fizeram suspeitar de que talvez o anel
encantado houvesse caído em suas mãos. A fim de descobrir a
verdade, subornou um estranho recém-chegado na corte, vindo de
uma nação com a qual o rei estava sempre a guerrear, para que ele
à noitinha fosse falar com Braminto e lhe oferecesse honrarias e
recompensas sem fim em troca de segredos de Estado.
Braminto prometeu contar tudo, e aceitou sem pestanejar o
primeiro pagamento pelo seu crime, enchendo o peito para alardear
que tinha um anel que o tornava invisível, e que com ele não havia
lugar que não pudesse penetrar. Mas seu triunfo não durou muito.
No dia seguinte, Braminto foi preso por ordem do rei, e tomaram-lhe
o anel. Depois, fizeram nele uma busca, e encontraram documentos
que provavam ser ele o autor dos crimes; e, muito embora o próprio
Rosimundo tenha voltado à corte para fazer ao rei uma súplica de
perdão, este a recusou. Assim, pois, Braminto foi executado; o anel,
portanto, fora para ele ainda mais fatal do que fora útil para seu
irmão.
A fim de consolar Rosimundo pelo destino de Braminto, o rei
devolveu-lhe o anel encantado, qual uma pérola preciosíssima. O
infeliz Rosimundo, porém, o enxergava de outro modo; e a primeira
coisa que fez ao voltar para casa foi sair, mais uma vez, em busca
da fada nas matas.
— Aqui está – disse ele – teu anel. O que aconteceu ao meu irmão
me fez saber muitas coisas que antes ignorava. Fica com ele; só o
que fez foi causar destruição. Ah! Se não fosse o anel, Braminto
estaria vivo agora, e a minha mãe e o meu pai não andariam tão
cabisbaixos em sua velhice, graças a tamanha vergonha e tristeza!
Talvez meu irmão pudesse ter sido sábio e feliz, se nunca houvesse
tido a chance de satisfazer seus desejos! Ó, que perigo é ter mais
poder que o resto do mundo! Toma de volta teu anel. E, como a má
fortuna parece seguir a todos quantos tu o dás, eu te imploro, como
um favor que me fazes: nunca o dês a qualquer um que me seja
caro.[ 14 ]

[ 14 ] François Fénelon.
A Tabaqueira Mágica

OMO ACONTECE MUITO neste mundo, houve uma vez um


rapaz que passava a vida a andar de terra em terra.
Certo dia, enquanto caminhava, apanhou do chão uma
tabaqueira. Ao abri-la, a caixinha lhe disse em espanhol:
— O que desejas?
O rapaz ficou muito assustado, mas felizmente, em vez de jogá-la
fora, apenas a fechou bem e meteu no bolso. Depois se foi, foi, foi, e
a certa altura falou consigo mesmo:
— Se a tabaqueira me perguntar de novo “O que desejas?”, desta
vez saberei o que responder.
Tirou então do bolso a tabaqueira, abriu-a, e ela de novo
perguntou:
— O que desejas?
— Que meu chapéu se encha de ouro ‒ respondeu o moço, e no
mesmo instante o chapéu se encheu.
Nosso jovem amigo se maravilhou. Dali para frente jamais passaria
necessidade de coisa nenhuma. Continuou então sua viagem e se
foi, foi, foi, através de densas florestas, até chegar a um lindo
castelo, onde morava um rei. O rapaz deu várias voltas no castelo,
sem se importar se alguém o via, até que o rei o notou, e perguntou
o que fazia ali.
— Só estava dando uma olhada no castelo de Vossa Majestade.
— Querias um igual, não é mesmo?
O moço não respondeu. Porém, depois que a noite caiu, pegou
sua tabaqueira e a destampou.
— O que desejas?
— Um castelo com sarrafos de ouro e ladrilhos de diamante, e
mobiliado todo com ouro e prata.
Apenas terminou de falar, ergueu-se diante dele um castelo igual
ao que descrevera, fazendo face ao castelo do rei. Na manhã
seguinte, ao acordar, o rei se embasbacou de ver aquele magnífico
palácio, que reluzia sob a luz do sol. Os serviçais, fascinados com a
beleza do castelo, não conseguiam voltar ao trabalho. Vestiu-se
então o rei e foi ter com o rapaz. Este lhe disse sem rodeios que era
um poderosíssimo príncipe; que tinha esperanças de todos irem
morar juntos num dos dois castelos, e de o rei lhe dar sua filha por
esposa. Era justamente o que o rei queria. O rapaz casou-se com a
princesa e foram todos viver muito felizes no palácio de ouro.
Contudo, a esposa do rei, a quem a princesa contara a respeito de
sua maravilhosa tabaqueira que lhes dava tudo o que pediam, ardia
de inveja do rapaz e da própria filha. Subornou então uma criada
para que furtasse a caixinha. As duas observaram com muita
atenção onde o jovem guardava o artefato antes de ir para a cama,
e certa noite, quando todos já dormiam, a criada o surrupiou e levou
a sua senhora. A rainha deu pulos de alegria quando recebeu a
tabaqueira. Abriu a tampa, e a caixinha perguntou:
— O que desejas?
E a rainha, sem hesitar, respondeu:
— Desejo que leves a mim, meu marido, todos meus serviçais e
este belíssimo palácio para o outro lado do Mar Vermelho;
permaneçam aqui, porém, minha filha e seu marido.
Quando o jovem casal despertou, viram-se de volta no antigo
castelo e sem sua tabaqueira. Buscaram-na em todos os cantos,
mas em vão. O rapaz, não querendo perder tempo, montou seu
cavalo, encheu seus bolsos de quanto ouro neles coubesse, e lá se
foi, foi, foi; em vão correu as terras vizinhas em busca da
tabaqueira, e em pouco tempo gastou seu último centavo. Não
desistiu, porém, e foi avante a todo galope, mendigando ao longo da
jornada.

A certa altura ouviu dizer de alguém que deveria consultar a Lua,


pois ela viajava o mundo inteiro e talvez lhe pudesse contar alguma
coisa. Então lá se foi, foi, foi, e sabe-se lá de que maneira acabou
chegando à terra da Lua. Ali topou com uma velhinha, que lhe disse:
— O que fazes aqui? Minha filha devora a todos os seres vivos
que enxerga; tu, se fores esperto, irás embora sem dar um passo a
mais.
O rapaz, porém, desatou a lhe contar sua desventura; contou-lhe
como era estupenda a sua tabaqueira e como fora roubada; como,
havendo deixado a esposa para trás, não lhe sobrava nada e
andava necessitado de tudo. Indagou se a filha da velha, nos seus
giros pelo mundo, não tinha visto algum castelo com sarrafos de
ouro e ladrilhos de diamante, mobiliado todo com ouro e prata.
Acabava de pronunciar estas palavras, quando a Lua pairou sobre
eles e disse que sentia cheiro de sangue e carne humana.
A mãe então explicou à Lua que o pobre rapaz ali presente havia
perdido tudo, e percorrera longuíssima jornada apenas a fim de
consultá-la. Dirigindo-se então ao rapaz, deu-lhe ânimo e mandou
que se apresentasse a sua filha. O jovem tomou coragem, caminhou
até ela, e perguntou se por acaso não tinha visto um palácio com
sarrafos de ouro e ladrilhos de diamante, mobiliado todo com ouro e
prata; contou que o palácio lhe pertencia, mas fora roubado. A Lua
respondeu que não, mas disse que o Sol viajava distâncias muito
maiores do que ela, e que o rapaz faria bem em ir consultá-lo. O
rapaz então se despediu e lá se foi, foi, foi, a todo galope,
mendigando para sobreviver, até que, sabe-se lá de que maneira,
acabou chegando à terra do Sol. Ali topou com uma velhinha, que
lhe disse:
— O que fazes aqui? Vai-te embora; não sabes que meu filho se
alimenta da carne de cristãos?
Mas o rapaz disse que não, que se recusava a ir embora, que sua
infelicidade era tamanha, que já não via diferença entre morrer ou
viver, que se lastimava da perda de tudo quanto tinha, sobretudo do
seu esplêndido palácio, o qual era sem igual no mundo inteiro, pois
tinha sarrafos de ouro e ladrilhos de diamante, e era todo mobiliado
com ouro e prata. Disse ainda que percorrera muitas milhas atrás
dele, e que era o homem mais infeliz do mundo. Com suas palavras
tocou o coração da velhinha, que aceitou escondê-lo.
Quando o Sol chegou, disse que sentia o cheiro da carne de um
cristão, e que pretendia jantá-la mais tarde. Ouviu, porém, da boca
de sua mãe a triste história daquele rapaz que perdera tudo e agora
vinha do outro lado do mundo a lhe pedir ajuda. Ao fim do relato,
comoveu-se tanto o Sol que prometeu lhe dar ouvidos.
O moço então saiu do esconderijo e, suplicante, perguntou ao Sol
se nas viagens que fazia pela Terra não vira seu palácio, que era
sem igual no mundo inteiro, e tinha sarrafos de ouro, ladrilhos de
diamante, e a mobília toda de ouro e prata.
O Sol respondeu que não, mas disse que talvez o Vento o tivesse
visto, pois todos os cantos penetrava, e coisas via que ninguém
mais via; com efeito, era muito provável que ninguém, senão o
Vento, soubesse onde estava o palácio.
Partiu mais uma vez o pobre moço a todo galope, mendigando ao
longo do caminho, e sabe-se lá de que maneira chegou à casa do
Vento. Topou ali com uma velhinha que estava empenhada em
encher de água uns barris. Ela perguntou ao rapaz quem lhe metera
na cabeça a ideia de peregrinar àquela terra, pois seu filho comia
tudo o que via, e estava para chegar em casa bufando de raiva, e
por isso era bom tomar cuidado. Respondeu-lhe o rapaz que andava
tão aflito que já não dava importância a mais nada, nem mesmo se
seria comido ou não. Contou que lhe roubaram um palácio sem
igual no mundo inteiro, e quanto ele continha; contou que
abandonara até mesmo a esposa amada e agora corria mundo atrás
de seu castelo. Concluiu dizendo que fora o próprio Sol quem lhe
sugerira consultar o Vento. A velha o escondeu no vão da escadaria,
e em pouco tempo os dois ouviram se aproximar o Vento Sul, que
chegou sacudindo os alicerces da casa. Queria logo matar a sede,
mas antes falou à mãe que sentia o cheiro do sangue de um cristão,
e que ela faria bem em tirá-lo do esconderijo para levá-lo
imediatamente à panela. A boa mãe, contudo, suplicou ao filho que
comesse e bebesse o que estava posto diante dele; disse que o
rapaz ali presente era digno de comiseração, e que o próprio Sol lhe
poupara a vida para que fosse consultá-lo. Tirou então o rapaz do
esconderijo, e este declarou que estava procurando seu palácio, e,
como ninguém mais soubesse onde estava, não hesitara ir consultar
o Vento. Acrescentou que estava ultrajado pelo roubo, e que os
sarrafos eram de ouro, os ladrilhos de diamante, e a mobília toda de
ouro e prata; perguntou, por fim, se nas suas andanças não tinha
visto semelhante palácio.
O Vento respondeu que sim, e que, para falar a verdade, passara o
dia inteiro soprando-lhe rajadas desde todos os pontos cardeais,
sem conseguir, no entanto, mover-lhe um só ladrilho.
— Ah! Conta-me onde está! ‒ gritou o moço.
— Está bem longe ‒ replicou o Vento ‒; foi parar do outro lado do
Mar Vermelho.
Nosso andarilho, porém, já vinha de muito longe e não se deixou
desanimar.
Partiu sem mais tardar, e depois que, sabe-se lá de que maneira,
conseguiu chegar àquela terra distante, saiu perguntando se alguém
precisava de um jardineiro. Responderam-lhe que o jardineiro-mor
do palácio recém largara o emprego, deixando uma boa
oportunidade a quem quisesse tomar o posto. O jovem não perdeu
tempo: dirigiu-se ao palácio, perguntou se não precisavam de um
jardineiro e, para sua alegria, foi logo contratado. Passou a maior
parte do seu primeiro dia fofocando com os serviçais sobre a
opulência de seus senhores e sobre as muitas maravilhas que o
palácio continha. Chegou a ficar amigo de uma das criadas, e
quando esta lhe falou a respeito da tabaqueira mágica, ele, por meio
de branduras, a instigou a lhe mostrar a caixinha. Certa noite, a
mulher conseguiu pegar a tabaqueira sem que ninguém a
enxergasse a não ser o rapaz, que depois a viu guardá-la num
compartimento secreto no quarto da rainha.
Na noite seguinte, enquanto todos dormiam, o moço entrou no
quarto da rainha sorrateiramente e tomou a tabaqueira. Qual não foi
a sua alegria quando abriu a tampa! Quando a caixinha lhe
perguntou, como outrora, “O que desejas?”, o rapaz respondeu:
— O que desejo?! O que desejo?! Ora, o que desejo é voltar junto
com meu palácio ao seu antigo sítio, e que o rei, a rainha e todos
seus criados se afoguem no Mar Vermelho.
Mal terminara de pronunciar estas palavras, viu-se novamente ao
lado da esposa; quanto ao resto dos moradores do palácio, jaziam
todos no fundo do Mar Vermelho.[ 15 ]

[ 15 ] Paul Sébillot.
A Mérula Dourada

RA UMA VEZ UM GRANDE FIDALGO, que tinha três filhos. Certo


dia, o senhor fidalgo caiu muito doente, e o enviaram
para médicos de todo o tipo, até mesmo para um
endireita-ossos. Mas os doutores todos de jeito nenhum
conseguiam descobrir o que havia de ruim nele, e nem mesmo
puderam aliviar seu sofrimento. Enfim veio um médico forasteiro,
que declarou: só a Mérula Dourada é que poderia curar o doente.
Assim, pois, o velho fidalgo enviou seu filho mais velho em busca
da ave maravilhosa e prometeu-lhe um mundaréu de riquezas se a
encontrasse e a trouxesse.
E lá se foi o moço, e daí a pouco viu-se numa encruzilhada, onde
quatro estradas se encontravam. Como não soubesse qual escolher,
resolveu jogar o chapéu para o alto e seguir em frente na direção na
qual ele caísse. Após viajar por dois ou três dias, cansou-se de ficar
a andar sem saber aonde ia, ou quanto tempo até lá levaria, e fez
uma parada numa pousada, cheia de gente a fazer uma bela duma
folia, e pediu algo para comer e beber.
— Palavra – disse ele –: é pura besteira gastar mais um minuto
que seja a caçar essa tal ave. Meu pai já é velho, e se ele morrer,
hei de herdar tudo quanto tem.
O velho, depois de pacientemente esperá-lo por algum tempo,
enviou seu segundo filho à procura da Mérula Dourada. O jovem
enfiou-se pelo mesmo caminho do irmão, e, ao chegar à
encruzilhada, também jogou o chapéu para o alto, a ver qual estrada
deveria tomar. O chapéu caiu onde já caíra da outra vez, e ele
andou até chegar à estalagem onde o irmão fizera sua parada. Este,
debruçado sobre a janela da pousada, deu-lhe um grito e o chamou
para ficar e participar da festança.
— Tens razão – respondeu-lhe o jovem. – Sabe-se lá se eu jamais
haveria de encontrar a Mérula Dourada, ainda que viajasse o mundo
a procurá-la. Na pior das hipóteses, se o velho morrer, herdaremos
tudo quanto ele tem.
Os irmãos entraram na pousada e se puseram a comer, beber e
festejar até não poder mais, e logo gastaram todo o dinheiro que
tinham e que não tinham. Ficaram até devendo para o dono da
pousada, que os manteve como reféns até que pudessem pagar-lhe
suas dívidas.
E lá saiu o filho mais novo em seguida, e também ele chegou ao
lugar onde seus irmãos estavam ainda presos. Pediram-lhe para se
deter em seu caminho, e fizeram tudo quanto podiam para impedi-lo
de seguir em frente.
— Não – respondeu ele –, meu pai confiou em mim, e eu hei de
correr mundo afora até encontrar a Mérula Dourada.
— Essa agora! – escarneceram os irmãos. – Encontrarás a Mérula
tanto quanto nós. Que o velho morra, se quiser; repartiremos tudo o
que ele tem.
Depois de retomar seu caminho, topou uma pequena lebre, que
estacou para olhá-lo e lhe perguntou:
— Aonde vais, amigo?
— A dizer a verdade, não sei – respondeu ele. – Meu pai está
doente e não poderá ficar bom a menos que eu lhe traga a Mérula
Dourada. Já faz muito tempo que saí de casa à sua procura, mas
ninguém sabe me dizer onde posso encontrá-la.
— Ah! – disse a lebre. – Tens ainda um longo caminho pela frente.
Terás de andar ao menos setecentas milhas antes de chegar até
ela.
— E como hei de viajar tamanha distância?
— Sobe em minhas costas – disse a lebrezinha –, e hei de te levar
até lá.
O rapaz obedeceu; e, a cada salto, a lebrezinha avançava sete
milhas, e foi sem demora que chegaram a um castelo tão enorme e
esplêndido quanto um castelo poderia ser.
— A Mérula Dourada está numa pequena choupana, aqui perto –
disse a lebrezinha –, e hás de facilmente encontrá-la. O pássaro
vive numa pequena gaiola, que fica ao lado de uma outra, feita
todinha de ouro. Mas faças o que fizeres, não vás pô-la na gaiola
bonita, ou todos no castelo saberão que você a roubou.
O moço encontrou a Mérula Dourada num poleiro de madeira, mas
ela estava tão imóvel e rija que mais parecia morta. E ao lado da
gaiola bonita estava a gaiola de ouro.
— Quem sabe ela não volte à vida se eu a puser cá nesta gaiola
bonita – pensou consigo o rapaz.
Foi a Mérula Dourada tocar nas grades da magnífica gaiola e já
despertou, e começou a piar e piar, de modo que todos os criados
do castelo correram a ver o que se passava, dizendo que ele era um
ladrão e tinha de ser preso.
— Não – respondeu ele –, não sou um ladrão. Se apanhei a
Mérula Dourada, foi apenas para com ela curar meu pai, que está
muito doente. Viajei mais de setecentas milhas para encontrá-la!
— Muito bem, então – responderam eles –, deixar-te-emos ir, e até
mesmo a Mérula Dourada havemos de te dar, se fores capaz de nos
trazer a Dama de Porcelana.
O jovem foi-se embora, choroso que só, e encontrou a lebrezinha,
que estava a mastigar um bocado de tomilho-selvagem.
— Por que choras, meu bom amigo? – perguntou a lebre.
— Porque – respondeu ele – a gente do castelo não me dará a
Mérula Dourada sem que eu lhes dê em troca a Dama de
Porcelana.
— Bem vejo que não seguiste meu conselho – disse a lebrezinha –
e colocaste a Ave Dourada na bela gaiola.
— Ai de mim! sim!
— Não te desesperes! a Dama de Porcelana é uma jovem tão
linda quanto Vênus, que mora a umas duzentas milhas daqui. Sobe
em minhas costas e eu te levarei até lá.
A lebrezinha, que a cada salto galgava sete milhas de uma só vez,
num piscar de olhos já estava lá, e deixou o moço na beira de um
lago.
— A Dama de Porcelana – disse a lebre ao moço – virá aqui para
banhar-se com suas amigas, enquanto eu como um bocado de
tomilho para revigorar-me. Quando ela estiver no lago, esconde-lhe
as roupas, que são de uma brancura de cegar a gente, e não as
devolvas até que ela concorde em seguir-te.
A lebrezinha foi-se embora, e quase imediatamente lá estava a
Dama de Porcelana, com suas amigas. A senhora despiu-se e
entrou na água. Então o moço deslizou sem fazer um só barulho e
pegou-lhe as roupas, que haviam sido escondidas sob uma pedra
um pouco para lá do lago.
Quando a Dama de Porcelana já não queria mais brincar n’água,
saiu para vestir-se. Foi um procurar que não acabava mais por suas
roupas, mas ela não as encontrou em lugar algum. Até suas amigas
ajudaram-na a procurá-las, mas, vendo enfim que a busca de nada
estava adiantando, deixaram-na sozinha na margem, a chorar
amargamente.
— Por que choras? – disse o jovem, achegando-se dela.
— Ai de mim! – respondeu ela. – Enquanto estava a banhar-me,
alguém veio e roubou as minhas roupas, e minhas amigas me
abandonaram.
— Hei de encontrar as tuas roupas; basta que venhas comigo.
E a Dama de Porcelana aceitou segui-lo; e, após lhe ter dado de
volta suas roupas, o moço comprou-lhe um pequeno cavalo, veloz
como o vento. A lebrezinha os conduziu de volta, para ele buscar a
Mérula Dourada, e quando se avizinharam do castelo onde o
pássaro vivia, a lebre lhe disse:
— Agora, sê um tiquinho mais perspicaz que da última vez, e serás
capaz de levar contigo tanto o Mérula Dourada quanto a Dama de
Porcelana. Apanha com uma mão a gaiola dourada, e deixa o
pássaro na gaiola velha em que está, e traze também esta contigo.
A lebrezinha então sumiu; o moço fez o que lhe fora ordenado, e
os criados do castelo nem sequer suspeitaram que ele estava a
levar embora a Ave Dourada. Ao chegar na estalagem onde seus
irmãos estavam aprisionados, pagou o que deviam e os libertou. E
lá se foram embora, todos juntos. Mas os dois irmãos mais velhos
se roíam de inveja das façanhas do mais novo e, aproveitando a
oportunidade que lhes surgiu enquanto andavam na margem dum
lago, atacaram-no, arrancaram-lhe da mão a Mérula Dourada e o
jogaram na água. Depois, seguiram em frente, levando consigo a
Dama de Porcelana, crentes de que o irmão se afogara. Mas,
felizmente, ele ao cair havia se agarrado a um tufo preso à margem,
e gritou por ajuda. A lebrezinha veio correndo e disse:
— Segura a minha perna e sai d’água.
Quando já estava seguro na margem, a lebrezinha lhe disse:
— Agora, eis o que tens de fazer: vai e te veste como se fosse um
bretão a procurar um emprego de guardador de estábulo, e oferece
os teus serviços a teu pai. Uma vez lá, facilmente poderás fazê-lo
saber a verdade.
O jovem fez o que a lebre lhe ordenara, e lá se foi para o castelo
de seu pai, a perguntar se não precisavam ali dum guardador de
estábulo.
— Sim – respondeu seu pai –, precisamos, e muito. Saibas,
porém, que não é um trabalho fácil. Há no estábulo um cavalo
pequeno, arisco como nenhum outro, que não deixa ninguém se
aproximar, e que já coiceou até a morte muita gente que tentou
escovar-lhe os pelos.
— Hei de escovar-lhe os pelos – disse o moço. – Jamais vi na vida
um cavalo de que eu tivesse medo. – E o pequeno cavalo deixou-se
escovar sem mover um só músculo ou dar um só coice.
— Valha-me Deus! – exclamou o mestre. – Como pode ser que ele
te deixe tocá-lo, quando mais ninguém o pode?
— Talvez ele me conheça – respondeu o guardador de estábulos.
Dois ou três dias depois, o mestre disse-lhe:
— A Dama de Porcelana está aqui: mas, se bem que seja tão bela
quanto o raiar do sol, é tão maléfica que enche de arranhões quem
dela se aproxima. Vai e oferece a ela teus serviços, e vejas se ela
os aceita.
Tão logo o moço entrou na sala onde ela estava, a Mérula
Dourada irrompeu a piar uma canção alegre, e a mesma coisa fez a
Dama de Porcelana, cantando também, enquanto dava pinotes de
alegria.
— Valha-me Deus! – gritou o mestre. – Será possível que a Dama
de Porcelana e a Mérula Dourada também saibam quem és?
— Sim – respondeu o jovem –, e a Dama de Porcelana poderá
contar-te toda a verdade, se assim o quiser.
Assim, pois, ela contou ao velho fidalgo tudo quanto acontecera, e
como consentira em seguir o moço que havia capturado a Mérula
Dourada.
— Sim – acrescentou o moço –, eu libertei meus irmãos, que
haviam sido presos numa estalagem, e como recompensa jogaram-
me num lago. Disfarcei-me, portanto, e vim até aqui para te contar a
verdade e prová-la.
Então o velho fidalgo abraçou muito forte o seu filho e prometeu-
lhe a herança de tudo o que tinha. Quanto aos dois filhos mais
velhos, que o haviam enganado e tentado matar o próprio irmão,
sentenciou-os à morte.
O moço casou-se com a Dama de Porcelana, e fizeram uma
esplendorosa festa de casamento.[ 16 ]
[ 16 ] Paul Sébillot.
O Soldadinho

RA UMA VEZ UM SOLDADINHO que voltara há pouco da


guerra. Era um sujeito muito valente, e não perdera em
batalha nem braços, nem pernas, e estava portanto
intacto. Como, porém, o conflito já havia acabado e o
exército se desfizera, ele teve de voltar à vila onde nascera.
Ora, o seu nome de verdade era João, mas por alguma razão
todos seus amigos só o chamavam de Reizinho. O porquê, ninguém
o sabia – as coisas eram assim e pronto.
Como não tinha pai ou mãe para dar-lhe as boas-vindas quando
chegasse em casa, não estava nada apressado. Andava muito
vagaroso, com a bolsa nas costas e a espada na cinta, quando, de
repente, numa certa tarde, ficou com uma vontade danada de
acender seu cachimbo.
Tateou-se à procura de sua caixa de fósforos, mas ficou num
desgosto só ao descobrir que a perdera.
Após feita a amarga descoberta, mal percorrera uma curta
distância quando notou uma luz a brilhar por entre as árvores. Foi
até ela, e se viu diante dum velho castelo com a porta aberta.
O soldadinho entrou no pátio e, espiando por uma janela, viu uma
fogueira enorme a arder no canto dum salão de pé direito baixo.
Enfiou o cachimbo no bolso e bateu gentilmente na porta, a dizer,
muito cortês:
— Poderias acender-me o cachimbo?
Mas não obteve resposta.
Após aguardar alguns instantes, João bateu na porta novamente,
desta vez com mais força. E nada de haver resposta.
Desaferrolhou a porta e entrou: o salão estava vazio.
O soldadinho foi direito até a lareira, pegou uma tenaz e encurvou-
se todo a procurar por uma bela duma brasa vermelha com a qual
pudesse acender o cachimbo, quando ouviu-se um clic!, como de
uma mola soltando, e do coração mesmo das chamas surgiu,
serpenteando no ar até ficar-lhe pertinho do rosto, uma serpente
enorme.

E, o que era ainda mais de se estranhar, a serpente tinha a cabeça


de uma mulher.
Muitos homens teriam disparado a fugir diante duma vista assim
tão inesperada, mas o soldadinho, embora fosse miúdo, tinha um
verdadeiro coração de soldado. Só deu um passo para trás e
agarrou o punho de sua espada.
— Não a desembainhes – disse a serpente. – Tenho esperado por
ti, pois que és tu quem me deves libertar.
— Quem és tu?
— Meu nome é Ludovina, sou a filha do Rei dos Países Baixos.
Liberta-me, e eu hei de me casar contigo e te farei feliz para todo o
sempre.
Ora, é bem provável que algumas pessoas por aí não haveriam de
gostar nadinha da ideia de uma serpente com cabeça de mulher
prometendo fazê-las felizes, mas o Reizinho desconhecia tais
medos. E, além disso, fora como que enfeitiçado pelos olhos de
Ludovina, que o haviam fitado qual uma cobra fita um passarinho.
Eram uns olhos verdes lindíssimos, não redondos como os de um
gato, antes longos e ovais, e neles brilhava uma estranha luz, e o
cabelo dourado que lhes flutuava ao redor parecia tanto mais
brilhoso graças àquela sua cintilação. A face tinha a beleza de um
anjo, ainda que o corpo fosse o de uma serpente.
— Que devo fazer? – quis saber o Reizinho.
— Abre aquela porta. Ver-te-ás numa galeria com uma sala no
final, tal como esta. Atravessa-a, e hás de ver um armário, do qual
tens de tirar uma túnica e a trazer de volta para mim.
Intrépido, o soldadinho se aprontou para fazer o que lhe fora dito.
Atravessou a galeria são e salvo, mas ao chegar à sala viu, sob a
luz das estrelas, oito mãos na altura do seu rosto, ameaçando socá-
lo. E, por mais que houvesse corrido o olhar pela sala, não pôde ver
nenhum corpo ao qual pudessem pertencer.
Abaixou a cabeça e disparou em frente, a correr sob uma chuva de
socos e sopapos, ao que por sua vez devolvia com seus punhos. Ao
alcançar o armário, abriu-o, tirou de lá a túnica e a trouxe de volta
até a primeira sala.
— Aqui está – disse ele arfante, respirando a muito custo.
— Clic! – uma vez mais abriram-se as chamas, e Ludovina fez-se
mulher até a cintura. Pegou a túnica e a vestiu.
Era uma túnica laranja magnífica, de um veludo todo adornado
com pérolas. As pérolas, porém, não eram tão alvas quanto o
pescoço da mulher.
— Isso não é tudo – disse ela. – Vai até a galeria, sobe a escada
que estará à tua esquerda, e, na segunda sala do primeiro andar,
haverás de encontrar outro armário, em que está a minha saia.
Traze-me também ela.
O Reizinho fez o que lhe fora dito. Mas tão logo entrou na sala, viu,
em vez de apenas mãos, agora oito braços, cada qual a segurar um
enorme pedaço de pau. Sem demora desembainhou a espada e
entrou a cortá-los com tamanho vigor, que mal se arranhou.
Trouxe de volta a saia, feita duma seda tão azul quanto os céus da
Espanha.
— Aqui está – disse João, ao surgir mais uma vez a serpente. Esta
já era uma mulher até os joelhos.
— Tudo o que quero agora são meus sapatos e minhas meias –
ela disse. – Vai e pega-as no armário que está no segundo andar.
E lá se foi o soldadinho, e se viu diante de oito gnomos armados
com martelos e de cujos olhos saíam chamas. Desta vez foi só até a
soleira da porta.
— Minha espada será inútil – pensou consigo. – Estes miseráveis
hão de despedaçá-la como se fora vidro, e se eu não conseguir
pensar em alguma outra coisa, sou um homem morto.
Foi aí que deu com o olhar na porta, que era um pedaço enorme
de carvalho, maciço e pesado. Arrancou-lhe as dobradiças, pô-la em
cima da cabeça e arremeteu direto contra os gnomos, que foram
esmagados. Tirou depois os sapatos e as meias do armário e os
levou até Ludovina, que mal os colocou e já se fez de novo mulher
da cabeça aos pés.
Quando já pusera suas meias brancas e calçara suas pequeninas
sapatilhas azuis, engastadas de pedras preciosas, disse ela ao seu
libertador:
— Agora tens de ir embora e nunca mais voltar para cá, não
importa o que aconteça. Aqui está uma bolsa com duzentas moedas
de ouro. Dorme hoje à noite numa estalagem que fica na orla da
floresta e acorda à primeira luz da manhã: pois às nove horas em
ponto hei de passar em frente à porta, e te levarei em minha
carruagem.
— Por que não nos vamos agora? – quis saber o soldadinho.
— Porque ainda não é chegada a hora – respondeu a princesa. –
Mas antes poderás beber à minha saúde nesta taça de vinho – e,
enquanto falava, encheu uma taça de cristal com um líquido que
mais parecia ouro derretido.
João bebeu-o, acendeu o cachimbo e foi-se embora.
II

Quando chegou à estalagem, João pediu o jantar, mas, tão logo


sentou-se para comer, sentiu um sono tremendo a pesar-lhe as
pálpebras.
— Devo estar mais cansado do que imaginava – disse aos seus
botões e, depois de fazer saber à gente da estalagem que tinha de
acordar no dia seguinte às oito da manhã, retirou-se para a cama.
A noite inteira dormiu como se estivesse morto. Às oito da manhã
vieram acordá-lo; e meia hora depois, e vinte minutos depois – e
nada de João despertar! Afinal, acharam por bem deixá-lo em paz.
O relógio batia meio-dia quando João acordou. Pulou da cama,
vestiu-se de qualquer jeito e correu a indagar se alguém perguntara
por ele.
— Veio uma princesa encantadora – respondeu a estalajadeira –
numa carruagem de ouro. Deixou-te este buquê e uma mensagem
dizendo que amanhã irá passar aqui em frente, às oito da manhã.
O soldadinho ficou a praguejar contra o seu sono, mas buscou
consolar-se ao olhar para o buquê, que era feito de immortelles.
— É a flor da recordação – pensou consigo, esquecendo-se de
que é também a flor dos mortos.
Ao cair da noite, dormiu com um olho aberto e pulou da cama
umas boas vinte vezes numa só hora. Quando os pássaros
começaram a cantar, já não aguentava mais ficar deitado quieto e,
saindo pela janela, trepou os galhos de uma das enormes tílias que
ficavam em frente à porta. Sentou-se ali a contemplar, sonhador, o
buquê que ganhara, até que acabou dormindo.
Uma vez adormecido, nada foi capaz de acordá-lo; nem a
claridade do sol, nem as canções das aves, nem o barulho da
carruagem dourada de Ludovina, nem os gritos da estalajadeira que
o procurou em todos os cantos possíveis e imagináveis.
Quando o relógio bateu meio-dia, ele despertou e o seu coração
ficou pesado de angústia ao descer da árvore e ver a mesa ser
posta para o almoço.
— A princesa veio? – perguntou ele.
— Sim, veio. Deixou-te esta echarpe, colorida qual uma flor, e
disse que há de passar amanhã às sete horas, mas que será esta a
última vez.
— Devo ter sido enfeitiçado – pensou o soldadinho. Então pegou a
echarpe, que tinha um aroma curioso, e amarrou-a em redor do
braço esquerdo, a pensar e repensar que o melhor para se manter
acordado era nem sequer ir dormir. Assim, pois, pagou o que devia,
comprou um cavalo com o dinheiro que lhe restara e, quando caiu a
noite, nele montou e se pôs à frente da porta da estalagem,
resolvido a não pregar o olho a madrugada inteira.
De vez em quando se curvava para sentir o doce aroma da
echarpe que lhe estava no braço; e a cheirou, e a cheirou mais um
tanto, e de tanto a cheirar enfim acabou afundando a cabeça no
pescoço do cavalo, e um e outro se puseram a roncar.
Quando a princesa chegou, começaram a balançá-lo e esbofeteá-
lo e gritar nas suas orelhas, mas de nada adiantou. Nem homem
nem bicho acordaram até que a carruagem estivesse já sumindo ao
longe.
João então esporou o cavalo e berrou com quantas forças tinha
um “Pare! Pare!”, mas a carruagem continuou como antes. E muito
embora o soldadinho tenha galopado no seu encalço por um dia e
uma noite inteiros, não foi capaz de lhe chegar um só passo mais
perto.
E deixaram para trás muitas vilas e cidades, até que enfim
chegaram ao mar. Aqui, João pensou consigo que finalmente a
carruagem teria de parar. Mas, maravilha das maravilhas! a coisa
seguiu em frente, e deslizou sobre as águas tão facilmente quanto
rodara sobre a terra. O cavalo de João, que o carregara tão bem,
tombou de fadiga, e o soldadinho sentou-se na praia, fitando a
carruagem que ia desaparecendo rapidamente no horizonte.
III

Contudo, João sem demora pôs-se de pé, sacudiu a poeira e


andou pela praia a ver se encontrava um barco no qual pudesse
velejar e sair em busca da princesa. Mas ali não havia barco algum.
Finalmente, cansado e com fome, deixou-se cair nos degraus da
choupana dum pescador para descansar.
Dentro da choupana havia uma moça remendando uma rede. Ela
convidou João para entrar e lhe deu um tanto de vinho e um bocado
de peixe frito, e João comeu, bebeu e relaxou, e contou as suas
aventuras à pequena pescadora. Muito embora a garota fosse linda,
com uma pele tão branca quanto o peito de uma ave, e graças à
qual os vizinhos lhe haviam dado o nome de Gaivota, ele não estava
a pensar nela em absoluto, pois que sonhava com os olhos verdes
da princesa.
Quando acabou de contar-lhe sua história, a garota compadeceu-
se muito dele e disse:
— Semana passada, enquanto eu pescava, a minha rede fez-se
pesada de repente e, ao puxá-la de volta para dentro do barco,
encontrei um grande vaso de cobre, selado de chumbo. Trouxe-o
para casa e o coloquei sobre o fogo. Quando já o chumbo havia
derretido um pouco, abri o vaso com a minha faca e de lá tirei um
manto, feito dum tecido vermelho e uma bolsa na qual havia
cinquenta moedas de ouro. Cá está o manto, a cobrir a minha cama.
E quanto ao dinheiro, este o guardei para o meu dote de casamento.
Mas toma-o para ti e vai até o porto mais próximo, onde hás de
encontrar um navio que viajará para os Países Baixos. Quando te
tornares rei, traze-me de volta as minhas cinquenta moedas.
E o Reizinho respondeu:
— Quando eu me tornar Rei dos Países Baixos, hei de fazer de ti a
dama de companhia da rainha, pois és tão benévola quanto bela.
Até mais ver! – disse, e mal a Gaivota voltou à sua rede, ele
enrolou-se no manto e se deitou numa pilha de grama seca,
matutando nas coisas estranhas que lhe haviam acontecido, até que
de súbito exclamou:
— Ó, como eu gostaria de estar agora na capital dos Países
Baixos!
IV

Dali a um instante, o soldadinho viu-se diante de um palácio


esplêndido. Pôs-se a esfregar os olhos, deu-se um beliscão, e foi só
quando tinha já certeza de que não estava sonhando que foi falar
com um homem que estava fumando um cachimbo à porta:
— Onde estou?
— Onde estás? És por acaso cego? Estás diante do palácio do rei,
é claro!
— Qual rei?
— Oras, o Rei dos Países Baixos! – replicou o outro em meio a
gargalhadas, crente de que falava com um maluco.
Já houve no mundo coisa mais estranha? Como, porém, João era
um sujeito honesto, ficou um tanto agoniado, pois que a Gaivota
poderia pensar que ele lhe roubara o manto e a bolsa. E começou a
pensar em como poderia devolver-lhes as duas coisas o mais rápido
possível. Lembrou-se então de que o manto possuía alguma mágica
escondida, que conferia ao seu portador o poder de se transportar à
vontade de um lugar para outro. Para confirmá-lo, desejou que
estivesse na melhor estalagem da cidade. Num instante, lá ele
estava.
Encantado com a descoberta, pediu um jantar, e como já era muito
tarde para visitar o rei naquela noite, foi dormir.
No dia seguinte, ao levantar-se da cama, viu logo que tudo quanto
é casa estava adornada com flores e coberta com bandeiras e que
todos os sinos das igrejas repicavam sem parar. O soldadinho quis
saber qual era a razão de todo aquele barulho, e em resposta lhe
disseram que a Princesa Ludovina, a lindíssima filha do rei, fora
encontrada e estava prestes a fazer sua entrada triunfal.
— Isso há de me calhar às mil maravilhas – pensou o Reizinho. –
Hei de ficar à porta, a ver se ela me reconhecerá.
Mal teve tempo de se vestir quando surgiu a carruagem dourada
de Ludovina. A princesa trazia uma coroa de ouro sobre a cabeça, e
a rainha e o rei vinham sentados ao seu lado. Por acaso, seu olhar
foi dar logo no soldadinho, e ela fez-se pálida e virou a cabeça para
o outro lado.
— Será que não me reconheceu? – perguntou-se o soldadinho. –
Ou será que está irritada por eu ter perdido nossos encontros? – e
seguiu a multidão até chegar ao palácio.
Quando a família real lá entrou, João foi dizer aos guardas postos
ao portão que fora ele quem libertara a princesa e que desejava ter
com o rei. Mas quanto mais falava, tanto mais os guardas achavam
que ele era maluco e lhe negavam a entrada.
O soldadinho ficou furioso. Sentiu que precisava dar uma
cachimbada para se acalmar, e foi até uma taberna e lá pediu uma
caneca de cerveja.
— Tudo por causa deste miserável capacete de soldado –
esbravejou sozinho. – Um tanto de dinheiro era o quanto me
bastaria para me tornar tão esplêndido quanto os lordes da corte,
mas de que adianta ficar pensando nisso quando só o que tenho é o
que sobrou das cinquenta moedas da Gaivota?
Abriu a sua bolsa para conferir quanto ainda lhe restava, e
descobriu haver ali ainda cinquenta moedas de ouro.
— A Gaivota as deve ter contado errado – refletiu, e pagou pela
cerveja. Então contou o dinheiro de novo, e ainda havia ali
cinquenta moedas de ouro. Tirou outras cinco e contou uma terceira
vez, e ainda havia cinquenta. Depois esvaziou a bolsa todinha e a
fechou; quando a abriu, lá estavam ainda as cinquenta moedas!
Então um plano lhe surgiu na cabeça, e lá foi ele, imediatamente,
para o alfaiate e o construtor de carruagens da corte.
Ordenou ao alfaiate que lhe fizesse um manto e uma veste de
seda azul engastada com pérolas, e ao construtor de carruagens
que lhe construísse uma carruagem dourada, como a da Princesa
Ludovina. Se o alfaiate e o construtor de carruagens fossem
rápidos, prometia-lhes pagar em dobro.
Daí a alguns dias o soldadinho saiu a desfilar pela cidade, numa
carruagem levada por seis cavalos brancos, com quatro lacaios
ricamente vestidos andando-lhe atrás. Dentro estava João, a trajar
uma seda azul, enquanto carregava na mão um buquê de
immortelles e trazia cingida ao braço uma echarpe. Deu duas voltas
pela cidade, jogando dinheiro a torto e a direito, e na terceira,
enquanto passava debaixo das janelas do palácio, viu Ludovina
erguer um cantinho da cortina para espiá-lo.
V

No dia seguinte, não havia outro assunto senão o lorde ricaço que
distribuíra dinheiro a todas as gentes. O falatório chegou até mesmo
à corte, e a rainha, que era muito curiosa, encheu-se dum desejo de
ver o maravilhoso príncipe.
— Pois bem – disse o rei –; convocai-o ao palácio: que o sujeito
venha e jogue cartas comigo.
Desta vez o Reizinho não chegou atrasado.
O rei ordenou que se buscassem as cartas, e sentaram-se ambos
para jogar. Jogaram seis vezes, e João as perdeu todas. O valor
apostado era cinquenta moedas de ouro e, a cada derrota, ele
esvaziava sua bolsa, que aparecia cheia de novo no instante
seguinte.
À sexta vez, o rei exclamou:
— Mas é fantástico!
A rainha clamou:
—É espantoso!
A princesa disse:
— É inacreditável!
— Não tão inacreditável – respondeu o soldadinho – quanto te
transformares numa serpente.
— Silêncio! – interrompeu o rei, que não gostava nada do assunto.
— Só toquei no assunto – disse João – pois sou eu o homem que
libertou a princesa dos gnomos e com o qual ela prometeu casar-se.
— É verdade isto? – quis saber o rei da princesa.
— É verdade – respondeu Ludovina. – Mas aconteceu de eu dizer
ao meu libertador que estivesse pronto para sair quando eu
passasse com a minha carruagem. Passei três vezes, mas, de tão
profundamente que dormia, ninguém foi capaz de acordá-lo.
— Como te chamas? – disse o rei. – E quem és?
— Meu nome é João. Sou um soldado, e meu pai é um barqueiro.
— Não és um marido adequado à minha filha. Contudo, se nos
deres tua bolsa, haverás de tê-la por esposa.
— Esta bolsa não é minha para que eu possa dá-la.
— Mas a podes emprestar para mim, até o dia de nosso
casamento – disse a princesa, dando-lhe um daqueles olhares aos
quais o soldadinho nunca conseguia resistir.
— E quando será isto?
— Na Páscoa – disse o monarca.
— Ou numa lua azul! – murmurou a princesa, mas o Reizinho não
a escutou e deixou-a pegar sua bolsa.
Na noite seguinte, apresentou-se no palácio para jogar cartas com
o rei e fazer corte à princesa. Mas lhe disseram que o rei fora para o
campo, a fim de coletar seus aluguéis. Voltou no dia seguinte, e lhe
deram a mesma resposta. Depois, solicitou ter com a rainha, mas
ela estava com dor de cabeça. À quinta ou sexta vez que o mesmo
aconteceu, começou a entender que estavam a zombar dele.
— Isso não é jeito de um rei se portar – pensou João. – Velho
patife! – e, então, subitamente lembrou-se de seu manto vermelho.
— Ah, mas sou mesmo um pateta! – disse ele. – É claro que posso
entrar onde quiser com a ajuda disto aqui.
Naquela mesma noite pôs-se em frente ao palácio, enrolado no
manto vermelho. Acendeu-se uma luz no primeiro andar, e João viu
nas cortinas a sombra da princesa.
— Desejo estar no quarto da Princesa Ludovina – bastou dizê-lo, e
num segundo já estava lá.
A filha do rei estava sentada a uma mesa, contando o dinheiro que
tirara da bolsa inesgotável.
— Oitocentos e cinquenta, novecentos, novecentos e cinquenta…
— Mil – João completou. – Boa noite, pessoal!
A princesa pulou da cadeira e soltou um gritinho esganiçado.
— Tu aqui! Que queres com isto? Vai-te embora imediatamente, ou
hei de chamar…
— Cá estou – disse o Reizinho – para lembrar a senhora da
promessa que fizeste. Depois de amanhã é a Páscoa, e já passou
da hora de pensarmos em nosso casamento.
Ludovina irrompeu em gargalhadas.
— Nosso casamento! Foste mesmo estúpido a ponto de acreditar
que a filha do Rei dos Países Baixos um dia tomaria por marido o
filho de um barqueiro?
— Dá-me de volta a minha bolsa, então – disse João.
— Nunca – respondeu a princesa, e com toda a calma do mundo
colocou-a no bolso.
— Como quiseres – disse o soldadinho. – Quem ri por último ri
melhor – e tomou a princesa nos braços. – Desejo – bradou ele –
que estejamos nos confins da Terra – e num segundo lá estava, com
a princesa ainda bem segura nos braços.
— Ufa – disse João, pondo a princesa gentilmente ao pé duma
árvore. – Jamais tinha feito uma viagem tão longa antes. Que dizes,
minha senhora?
A princesa logo viu que não era hora para troças, e não
respondeu. Além disso, sentia-se ainda algo zonza pela vertiginosa
viagem e não se recompusera por completo.
VI

O Rei dos Países Baixos não era lá uma pessoa muito


escrupulosa, e sua filha lhe puxara o caráter. Por isso é que havia
sido transformada numa serpente. Fora profetizado que um
soldadinho haveria de libertá-la, e que ela, por sua vez, teria de
tomá-lo por esposo, a menos que este não aparecesse no ponto de
encontro três vezes seguidas. A princesa, pois, velhaca que só,
planejou tudo de acordo com a profecia.
O vinho que dera a João no castelo dos gnomos, e o buquê de
immortelles e a echarpe, todos tinham o poder de produzir um sono
pesado como a morte. E nós já sabemos o que é que fizeram com
João.
Mesmo aqui, porém, neste momento crítico, Ludovina não perdeu
a cabeça.
— Pensei que eras um simples vagabundo de rua – disse ela,
pondo na voz quanta docilidade e adulação conseguia –, e cá estou,
sabendo agora que és mais poderoso do que qualquer rei. Eis a tua
bolsa. Tens aí contigo minha echarpe e meu buquê?
— Aqui estão – disse o Reizinho, encantado com essa mudança
de tom, e tirou-os de seu peito. Ludovina prendeu o buquê à sua
botoeira e cingiu-se a echarpe ao braço.
— Agora – disse ela – és meu senhor e mestre, e casar-me-ei
contigo quando bem quiseres.
— És mais amável do que eu imaginava – disse João – e nunca
haverás de ser infeliz, pois tens todo o meu amor.
— Pois bem, meu maridinho, conta-me: como conseguiste levar-
me tão rapidamente para os confins da Terra?
O soldadinho coçou a cabeça.
— Será que ela realmente pretende casar-se comigo – pensou
com seus botões – ou está apenas tentando me enganar mais uma
vez?
Mas Ludovina repetiu-lhe a pergunta:
— Não me irás dizê-lo? – com tamanha meiguice na voz, que ele
não soube como resistir.
— Afinal de contas – disse consigo –, que pode haver de mau em
contar-lhe o segredo, contanto que eu não lhe dê a capa?
E contou à princesa tudo sobre o poder que havia no manto
vermelho.
— Ó, meu querido, como estou cansada! – suspirou Ludovina. –
Não te pareces que faríamos bem em tirar um cochilo? Depois,
conversamos sobre quantos planos tivermos.
E esticou-se na grama, coisa que o Reizinho fez também logo em
seguida, e nisto pousou a cabeça em seu braço esquerdo, ao qual
ela havia amarrado a echarpe. Daí a pouco já dormia
profundamente.
Ludovina estava a espiá-lo com um olho aberto, e, tão logo ouviu-o
roncar, desenrolou o manto, tirou-o com cuidado de sob o corpo e o
envolveu em si, pegou-lhe a bolsa da algibeira e a pôs na sua, e
disse:
— Desejo estar de volta em meu próprio quarto.
E num instante lá estava ela.
VII

E quem se sentiu estúpido, senão João, quando vinte e quatro


horas depois acordou sem bolsa, sem manto e sem princesa?
Arrancou os cabelos, esmurrou o peito, pisoteou o buquê e
esfrangalhou a echarpe da traidora até não sobrar nada.
Além do mais, estava esfomeado e não tinha nada para comer.
Pôs-se a pensar em todas as coisas maravilhosas que sua avó lhe
dissera quando criança, mas nenhuma lhe serviu de coisa alguma.
Desesperado, calhou de olhar para cima e ver que a árvore sob a
qual estivera era uma soberba ameixeira, pejada de frutos amarelos
como o ouro.
— Hora de comer umas ameixas – disse consigo –; na guerra tudo
é válido.
Trepou a árvore e começou a comer. Porém, mal engolira duas
ameixas, quando, horrorizado, sentiu que alguma coisa estava a
crescer-lhe na testa. Pôs a mão e descobriu que tinha agora dois
chifres!
Saltou da árvore e apressou-se até um riacho que corria ali perto.
Pobre João! Não havia escapatória: dois chifrezinhos charmosos,
que não fariam má imagem na cabeça de um bode.
E ali se foi o que lhe restara de coragem.
— Como se não bastasse – disse – ter sido tapeado por uma
mulher, o Diabo também quer entrar na dança e emprestar-me seus
chifres. Mas que bela figura faria eu se voltasse para o mundo!
Mas como ainda estivesse com fome e já o mau feitiço houvesse
feito nele seu estrago, intrepidamente subiu noutra árvore, e de lá
arrancou duas ameixas de um verde muito bonito e convidativo. Foi
engolir duas delas, e lá se foram os chifres. O soldadinho ficou
encantado, ainda que bastante surpreso, e chegou à conclusão de
que era mau propósito arrancar os cabelos assim por pouca coisa.
Quando acabou de comer, subitamente lhe ocorreu uma ideia.
— Talvez – pensou consigo – estas lindas ameixazinhas aqui
possam ajudar-me a recuperar a minha bolsa, o meu manto e o meu
coração das mãos daquela princesa perversa. Como já tem os olhos
de um cervo, não lhe fará mal ter também os chifres. Se eu
conseguir botar-lhe na cabeça um par destes, aposto quanto
dinheiro há no mundo que não mais desejarei tê-la por esposa. Uma
senhora chifruda não é lá uma imagem muito agradável.
Assim, pois, emaranhou uns quantos galhos de salgueiros, fez
deles uma cesta e nela colocou, cuidadosamente, ameixas de
ambos os tipos. Depois saiu a marchar, muito valente, dias sem
conta, com nada para comer senão as bagas ao pé da estrada, à
mercê de feras e homens selvagens. Mas não temia coisa alguma –
a não ser que as ameixas estragassem, o que não aconteceu.
Enfim, chegou ele a um país civilizado e, com a venda de algumas
joias que trouxera consigo na noite de sua viagem, conseguiu subir
a bordo de uma embarcação que seguia para os Países Baixos. E
assim, ao cabo de um ano e um dia, chegou à capital do reino.
VIII

No dia seguinte pôs uma barba falsa, vestiu-se como um feirante


e, pegando para si uma mesinha, postou-se à porta da igreja.
Espalhou, então, com muito cuidado, numa fina toalha de mesa
branquíssima, as suas ameixas mirabelas, que aliás pareciam ter
sido colhidas naquele mesmo instante. Ao ver a princesa sair da
igreja, começou a berrar, numa voz fingida:
— Olha as ameixas! Ameixas excelentes! Ameixas maravilhosas!
— Quanto custam? – disse a princesa.
— Cinquenta moedas cada.
— Cinquentas moedas! Mas o que têm de tão preciosas?
Porventura acrescentam algum juízo a quem as come, ou
aumentam-lhe a beleza?
— Não poderiam aumentar o que já é perfeito, ó bela princesa,
mas quem sabe não vos acrescentem algo ainda?
Pedra que rola não cria limo, mas às vezes fica mais polida; e os
meses sem conta que João gastara a andar pelo mundo não haviam
sido em vão. Um elogio tão perfeitamente encaixado lisonjeou
Ludovina.
— E o que hão de me acrescentar? – quis saber ela, sorrindo.
— Havereis de saber, bela princesa, quando as provar. Será uma
surpresa para vós.
A curiosidade de Ludovina fora atiçada. Tirou a bolsa para fora e
de lá fez caírem tantos montinhos de cinquenta moedas de ouro
quanto havia de ameixas na cesta. O soldadinho sentiu um ímpeto
selvagem de arrancar a bolsa de sua mão e gritar aos quatro ventos
que se tinha ali uma ladra, mas conseguiu controlar-se.
Com as ameixas todas vendidas, desfez a loja improvisada,
arrancou o disfarce, mudou de estalagem e ficou quieto, à espera do
que iria acontecer em seguida.
Tão logo chegou ao quarto, a princesa exclamou:
— Vejamos agora o que estas suculentas ameixas podem
acrescentar à minha beleza – e, jogando para lá o seu manto, pegou
duas delas e as comeu.
Imagine-se qual não foi a surpresa e o horror que a acometeram
quando sentiu que algo lhe estava a crescer na testa. Correu até o
espelho e soltou um grito lancinante.
— Chifres! então aí está o que me prometera! Encontrai,
imediatamente, o vendedor de ameixas, e trazei-o até mim! Cortai-
lhe fora o nariz e as orelhas! Que ele seja esfolado vivo ou tostado
num fogo lento, e as suas cinzas jogadas ao vento! Ó, morrerei!
Morrerei de vergonha e desespero!
As suas criadas correram ao som de seus berros para acudi-la e
tentaram torcer e puxar os chifres para arrancá-los, conseguindo
apenas dar-lhe uma tremenda duma dor de cabeça.
O rei então enviou um arauto para proclamar que a mão da
princesa haveria de ser dada a quem conseguisse livrá-la de seus
estranhos ornamentos. E lá saíram de suas respectivas casas
quantos médicos e mágicos e cirurgiões havia nos Países Baixos e
nos reinos vizinhos, e se apinharam todos no palácio, cada qual
com um remédio próprio. Mas foram todos inúteis, e a princesa tanto
sofreu à força dos tais remédios que o rei foi obrigado a despachar
uma segunda proclamação, afirmando que qualquer um que
tentasse curar a princesa e nisto falhasse seria enforcado na árvore
mais próxima.
Mas o prêmio era por demais valioso para que qualquer
proclamação pudesse pôr fim aos esforços da turba de
pretendentes. Naquele ano, o que mais se colheu nos pomares dos
Países Baixos foram homens mortos.
IX

O rei ordenara que se caçasse o vendedor de ameixas em todos


os cantos e recantos, mas a despeito de todo o suor e trabalho, não
se pôde encontrá-lo em lugar algum.
Quando o soldadinho descobriu que já não lhes restava paciência,
espremeu o suco das ameixas verdes Reine Claude num pequeno
frasco, comprou um roupão de médico, colocou uma peruca e um
par de óculos, e foi apresentar-se ao Rei dos Países Baixos.
Afirmou ser um médico famoso que viera de terras longínquas, e
prometeu curar a princesa, se apenas pudesse ficar a sós com ela.
— Mais um maluco em busca da forca – disse o rei. – Muito bem,
fazei como ele pedir; não se pode recusar nada a um homem que
está com uma corda no pescoço.
Assim que o soldadinho ficou na presença da princesa, derramou
umas poucas gotas do líquido num copo. Bastou a princesa bebê-
las, e a ponta dos chifres desapareceu.
— Teriam desaparecido por completo – disse o falso médico – se
não houvesse algo cortando seu efeito. Só é possível curar pessoas
que tenham a alma tão limpa quanto a palma de minha mão. Tens
certeza de que não cometeste nenhum pecado, por pequeno que
seja? Examina-te bem.
Ludovina não precisava pensar muito no assunto, mas ficou entre
a cruz e a espada: de um lado, a vergonha de uma confissão
humilhante, do outro, o desejo de se ver livre daqueles chifres.
Finalmente respondeu a sua pergunta, olhando para o chão:
— Roubei uma bolsa de couro de um soldadinho.
— Dá a bolsa para mim. O remédio não irá agir a menos que a
bolsa esteja nas minhas mãos.
A muito custo, com um profundo suspiro, Ludovina colocou-lhe a
bolsa nas mãos, pois se lembrou de que nenhuma riqueza no
mundo lhe faria bem algum com aqueles chifres na cabeça.
O doutor então derramou um pouco mais de líquido no copo, e,
quando a princesa o bebeu, descobriu que os chifres haviam
diminuído pela metade.
— Deves ter algum outro pequeno pecado em tua consciência.
Roubaste algo mais do soldado?
— Roubei-lhe também o manto.
— Dá-me o manto.
— Aqui está.
Desta vez Ludovina pensou consigo que, havendo os chifres
sumido de uma vez, chamaria seus criados para que arrancassem
tudo de volta do doutor, à força.
Estava já muito satisfeita com a ideia, quando repentinamente o
doutor de mentira enrolou-se no manto, jogou para longe a peruca e
os óculos, e mostrou à traidora o rosto do Soldadinho.
Ela estacou, muda de medo.
— Eu bem poderia – disse João – ter deixado que continuasses
chifruda até o fim de teus dias, mas sou um bom sujeito e um dia te
amei; além do quê… és já muito parecida com o Diabo para que
precises de seus chifres.
IX

João desejara estar na casa da Gaivota. Ora, a Gaivota estava


sentada à janela, a remendar sua rede. De vez em quando seu olhar
ia se perder lá no mar, como se estivesse esperando alguém. Ao
som feito pelo soldadinho, olhou para cima e corou.
— Aí estás! – disse ela. – Como chegaste aqui? – e então
acrescentou, numa voz baixinha: – E conseguiste casar com tua
princesa?
João contou à garota todas as suas aventuras. Quando terminou,
entregou-lhe de volta sua bolsa e seu manto.
— Que posso fazer com isto? – perguntou ela. – Provaste para
mim que a felicidade não está em se possuir muitos tesouros.
— Não, está no trabalho e no amor de uma mulher honesta –
emendou o soldadinho, que pela primeira vez notou como eram
bonitos os olhos da garota. – Querida Gaivota, aceitas-me como teu
esposo? – e pegou-lhe a mão.
— Sim, aceito – respondeu a pescadora, corando muito –, mas só
com uma condição: que enfiemos de volta a bolsa e o manto no
vaso de cobre e os lancemos todos ao mar.
E assim o fizeram.[ 17 ]

[ 17 ] Charles Deulin.
O Cisne Mágico

RA UMA VEZ TRÊS IRMÃOS: o mais velho se chamava Jacó, o


do meio, Frederico, e o caçula, Pedro. O caçula era feito
de gato e sapato o tempo todo pelos outros dois, que
faziam sempre questão de humilhá-lo. Se algo ia mal em
seus afazeres, era sempre Pedro quem levava a culpa e se
encarregava de remediar a situação, e não tinha alternativa senão
aguentar os maus tratos, porque era fraquinho e delicado e incapaz
de defender-se dos irmãos, muito mais fortes do que ele. O
pobrezinho tinha a vida mais atribulada que se possa imaginar, e
noite e dia tentava descobrir algum modo de melhorar sua condição.
Certo dia, enquanto estava no bosque coletando gravetos e
chorando amargamente, uma velhinha aproximou-se dele e
perguntou o que havia; o menino então lhe contou todos os seus
males.
— Ora, meu bom jovem ‒ disse a senhora, ao terminar de ouvir as
desgraças do rapaz ‒, o mundo é muito grande: por que não tentas
a sorte em outro lugar?
Pedro levou a sério aquelas palavras e certa manhã resolveu
abandonar a casa do pai para tentar a sorte mundo afora, como
aconselhara a boa velhinha. Mesmo assim, sentiu pesar o coração
quando partiu da casa onde nascera e passara uma infância breve,
porém feliz. Sentado numa colina, lançou mais um olhar de afeto em
direção ao lar.
De repente, a velhinha surgiu atrás dele, cutucou seu ombro e
disse:
— Até aqui muito bem, meu rapaz, mas o que pretendes fazer
agora?
Pedro, um tanto confuso, não soube o que responder, pois havia
achado até então que a sorte lhe cairia do céu. A velhinha, que logo
adivinhou seus pensamentos, deu uma risada piedosa e disse:
— Vou dizer o que deves fazer, pois me afeiçoei a ti e sei que não
te esquecerás de mim quando tiveres alcançado o sucesso.
Pedro lhe deu sua palavra, e a velhinha continuou:
— Neste fim de tarde, quando o sol estiver se pondo, vai àquela
pereira acolá, que vês na encruzilhada; à sombra dela acharás um
homem dormindo pesadamente, e ao lado dele verás um cisne
amarrado na árvore. Desamarra o cisne, tomando cuidado para não
acordar o homem, e leva o animal embora. Verás que todo mundo
por quem passares se encantará com a plumagem dele, e deverás
permitir, a quem o desejar, que lhe arranque uma pluma. Contudo,
bastará que o toquem muito de leve para que o cisne comece a
berrar; neste momento deverás dizer “Quieto, cisne!”. A mão da
pessoa que tiver encostado nele ficará retida como se a prendesse
um torno, e só se libertará quando a tocares com esta varinha, que
te darei em breve. Quando tiveres capturado desta maneira um bom
número de pessoas, seguirás em frente, acompanhado por tua
comitiva, e chegarás a uma grande capital; lá mora uma princesa
que leva a fama de nunca na vida ter dado uma risada. Se a fizeres
rir, tua sorte estará assegurada; só peço que nesse momento não te
esqueças de tua velha amiga.
Pedro deu sua palavra novamente, e ao pôr do sol andou até a
pereira de que falara a velhinha. O homem dormia profundamente, e
o cisne, que era grande e belo, estava atado ao tronco com uma
corda vermelha; Pedro o desamarrou e o levou embora sem acordar
o dono.
Caminhou por um tempo com o cisne até chegar a uma obra onde
trabalhavam muitos homens; todos, assim que fitaram a ave,
ficaram atordoados com a beleza de suas plumas, e um jovem mais
atrevido, coberto de barro da cabeça aos pés, exclamou:
— Quem me dera eu possuísse uma dessas penas!
— Pega uma para ti, então ‒ disse Pedro cortesmente, deixando
que o jovem agarrasse uma pena da cauda. No mesmo instante
começou o cisne a berrar, e Pedro, lembrado das palavras da
velhinha, exclamou “Quieto, cisne!”; já o infeliz obreiro, por mais que
se esforçasse, não conseguia tirar as mãos do bicho. Quanto mais
urrava, mais seus colegas gargalhavam, até que uma moça, que
estava lavando roupa num córrego próximo, correu para ver de onde
vinha a gritaria. Quando viu o pobre rapaz preso ao cisne, sentiu
tanta pena dele que esticou o braço para soltá-lo. O cisne berrou.
— Quieto, cisne! ‒ gritou Pedro; e agora a moça também estava
presa.
Depois de andar um pouco mais com seus prisioneiros, Pedro
encontrou um limpador de chaminés, que riu às gargalhadas
daquela tropa inusitada e perguntou à moça o que fazia.
— Ó, meu querido João! ‒ respondeu a moça. ‒ Estende o braço e
me solta deste maldito obreiro!
— Mas é claro ‒ respondeu o limpador, dando a mão à garota. O
cisne berrou.
— Quieto, cisne! ‒ disse Pedro, e aquele homem preto de fuligem
se acrescentou à fileira.
Em breve chegaram a um vilarejo onde se celebrava um festival.
Durante a apresentação de uma trupe circense, o palhaço estava
fazendo seus gracejos, e quando viu aquele trio exótico enfileirado
atrás do cisne, esbugalhou os olhos de admiração.
— Ficaste doido, pretinho? ‒ perguntou nas pausas entre uma
risada e outra.
— Isto não é brincadeira! ‒ respondeu o limpador de chaminés. ‒
Esta moça apertou a minha mão com tanta força que me sinto
grudado a ela. Sê um bom palhacinho e me desprende dela, que um
dia te compensarei.
Sem nenhuma hesitação, o palhaço agarrou a mão empretecida
que o limpador estendera. O cisne berrou.
— Quieto, cisne! ‒ gritou Pedro; e o palhaço tornou-se o quarto
membro da turma.
Sabei que na primeira fila da arquibancada estava sentado o
prefeito do vilarejo, homem muito respeitado por toda a população.
Achou ele que tudo não passava de um truque muito bobo, e
aborreceu-se tanto com a brincadeira que agarrou a mão do palhaço
para levá-lo à delegacia.
Então o cisne berrou, Pedro gritou “Quieto, cisne!”, e o digníssimo
prefeito teve o mesmo destino que seus predecessores.
A primeira-dama, um palito de mulher, enfurecida com a
humilhação a que submetiam seu marido, agarrou-lhe o braço que
ficara livre e o puxou com toda sua força, mas tudo o que fez foi
engrossar a procissão. Depois disto ninguém mais quis se unir a
eles.
Após mais uma breve caminhada, Pedro avistou as torres da
capital, logo à sua frente. Estava a ponto de entrar, quando saiu de
encontro a ele uma carruagem reluzente, em cujo interior estava
sentada uma jovem senhorita, linda como a luz do dia, mas de
aspecto muito sério e solene. Bastou, no entanto, colocar os olhos
naquela caravana de tipos tão diversos para estourar num
espalhafatoso ataque de risos, ao qual logo se juntaram seus
criados e damas de companhia.
— A princesa finalmente riu! ‒ bradaram todos alegremente.
A bela moça desceu da carruagem para ver mais de perto aquela
cena espantosa e riu-se outra vez do ridículo a que se prestavam os
pobres prisioneiros. Mandou dar meia-volta ao cocheiro e foi-se indo
de volta à cidade sem tirar os olhos nem de Pedro nem da procissão
que o jovem conduzia.
O rei, quando ouviu a notícia da primeira risada de sua filha,
encheu-se de alegria e mandou vir ter consigo a Pedro e sua
comitiva. Assim que os viu, riu-se tanto que lágrimas rolaram de
seus olhos.
— Meu bom amigo ‒ disse a Pedro ‒, sabes o que prometi à
pessoa que fosse capaz de arrancar risadas à princesa?
— Não sei ‒ respondeu Pedro.
— Então direi: mil coroas de ouro ou a posse de uma terra. Qual
escolhes?
Pedro escolheu a terra. Em seguida, encostou a varinha no jovem
obreiro, na moça, no limpador de chaminés, no palhaço, no prefeito
e na mulher do prefeito. Assim que se viram livres, dispararam todos
para suas casas como se uma chama os atiçasse pela traseira; e,
como podeis imaginar, a debandada deles renovou as gargalhadas.
Nesse momento a princesa sentiu-se compelida a acariciar o
cisne, admirada de suas plumas.
— Quieto, cisne! ‒ gritou Pedro, e ganhou a princesa como
esposa.
O cisne, por sua vez, saiu voando e desapareceu no horizonte
azul. Pedro então recebeu de presente um ducado e chegou a se
distinguir entre os homens, mas não se esqueceu da boa velhinha
que fora a causa de sua fortuna: nomeou-a governanta e a levou
para morar consigo e sua esposa real no magnífico castelo em que
viveram pelo resto de suas vidas.[ 18 ]

[ 18 ] Herman Kletke.
A Pastora Suja

RA UMA VEZ UM REI que tinha duas filhas, a quem amava


de todo o coração. Depois que elas cresceram,
apoderou-se dele um desejo repentino de saber se elas
o amavam de verdade, e então resolveu que legaria o
reino àquela que oferecesse a melhor prova de sua devoção.
O rei chamou a princesa mais velha e perguntou-lhe:
— O quanto vós me amais?
— Amo-vos como à menina dos meus olhos! – ela respondeu.
— Ah! – o rei exclamou, beijando-a ternamente enquanto falava. –
Sois verdadeiramente uma boa filha.
Mandou então chamar a filha mais nova e perguntou-lhe o quanto
ela o amava.
— Sois para mim, meu pai – respondeu ela –, como o sal em meu
alimento.
O rei, porém, não se agradou dessas palavras e ordenou que a
filha deixasse a corte e jamais comparecesse à sua presença
novamente. A pobre princesa subiu aos seus aposentos, com um
peso no coração, e começou a chorar, mas então lembrou-se da
ordem de seu pai, enxugou as lágrimas, preparou uma trouxa com
suas joias e seus melhores vestidos e rapidamente abandonou o
castelo onde havia nascido.
Percorreu a estrada que se estendia à sua frente, sem saber ao
certo aonde ia, ou o que lhe aconteceria, pois jamais fora ensinada
a trabalhar – tudo o que sabia resumia-se a algumas regras
domésticas e receitas de pratos que sua mãe lhe ensinara muito
tempo atrás. E, receosa de que nenhuma dona de casa desejaria
empregar uma moça tão bonita, decidiu fazer-se tão feia quanto
possível.

Por isso, trocou o vestido que vinha usando por uns trapos
horrorosos que pertenciam a um mendigo, rasgados e enlameados.
Em seguida espalhou lama nas mãos e nas faces e sacudiu os
cabelos até que se emaranhassem. De aparência assim
transformada, saiu oferecendo seus serviços como cuidadora de
gansos ou pastora de ovelhas. Mas as esposas dos fazendeiros
nem sabiam o que dizer diante de uma moça tão imunda, e a
despediam com um bocado de pão que por caridade lhe davam.
Depois de andar por muitos dias sem arranjar trabalho, chegou a
uma grande fazenda onde estavam contratando uma pastora de
ovelhas, e de boa vontade a empregaram.
Certo dia estava a princesa pastoreando as ovelhas no campo
quando sentiu um súbito desejo de embelezar-se com seus ricos
vestidos. Lavou-se cuidadosamente em um regato e, como trazia
sua trouxa sempre a tiracolo, facilmente livrou-se de seus trapos.
Em alguns instantes estava transformada em uma respeitável
senhora.
O filho do rei, que se perdera enquanto caçava, apercebeu-se da
donzela à distância e quis observá-la mais de perto. Entretanto, tão
logo notou que era observada, a moça precipitou-se para o meio do
bosque, lépida como um pássaro. O príncipe tentou segui-la, mas,
enquanto corria, seu pé se prendeu na raiz de uma árvore, e ele foi
ao chão. Quando se levantou, já não havia sinal da moça.
Ao ver-se em segurança, ela tornou a vestir seus trapos e
novamente sujou as faces e as mãos. Porém o jovem príncipe, que
estava com muito calor e com muita sede, seguiu rumo à fazenda
para pedir um bocado de sidra, e por lá perguntou como se
chamava a bela jovem que cuidava do rebanho. Todos explodiram
em uma gargalhada, dizendo que a pastora era uma das criaturas
mais feias e imundas que poderiam existir.
O príncipe pensou que aquilo devia ser obra de bruxaria, e foi-se
embora antes que a pastorinha voltasse. Naquela noite, ela tornou-
se motivo de galhofa de toda a gente.
Mas o filho do rei pensava frequentemente na adorável donzela
que vira apenas por um breve instante e que o fascinara mais que
todas as moças da corte. Por fim, já não fazia senão sonhar com
ela, e foi definhando dia após dia, até que seus pais quiseram saber
o que o amofinava, prometendo fazer tudo o que estivesse ao seu
alcance para restituir-lhe a alegria. O príncipe não teve coragem de
dizer a verdade, para que não rissem dele; então disse apenas que
desejava comer os pãezinhos preparados pela criada daquela
quinta distante.
Apesar da esquisitice do pedido, apressaram-se por atendê-lo, e o
fazendeiro foi então comunicado sobre o desejo do filho do rei. A
criada não demonstrou nenhum espanto ao receber a ordem de
fazer os pãezinhos, e apenas solicitou um pouco de farinha, sal e
água, e também que fosse deixada a sós no pequeno aposento
junto ao forno, onde ficavam os tabuleiros. Antes de iniciar o
preparo, lavou-se cuidadosamente e até colocou seus anéis, mas,
enquanto sovava a massa, um de seus anéis escapou-lhe do dedo
para dentro da mistura. Ao terminar o preparo dos pães, sujou-se
novamente e deixou que restos da massa ficassem grudados nos
dedos, para que parecesse tão feia quanto antes.
O pão, que era bem pequenino, foi levado ao filho do rei, que o
provou com prazer. Ao cortá-lo, porém, deparou-se com o anel da
princesa, e declarou aos pais que se casaria com a moça em quem
o anel servisse.
Então o rei fez um anúncio oficial em todo o reino, e moças vieram
de longe reivindicar a honra. Porém, tão estreito era o anel que,
mesmo nas menores mãos, servia apenas no dedo mínimo. Em
pouco tempo, todas as moças do reino, inclusive as camponesas,
haviam experimentado o anel, e o rei estava prestes a anunciar o
fracasso de seus esforços, quando o príncipe observou que não
tinha visto ainda a pastora de ovelhas.
Mandaram buscá-la, e então ela compareceu coberta de trapos,
porém com as mãos mais limpas que o habitual, a fim de que o anel
deslizasse com facilidade. O filho do rei declarou que cumpriria sua
promessa, mas, quando seus pais comentaram que a moça não
passava de uma guardadora de rebanhos, e aliás bastante feia, a
moça respondeu corajosamente que nascera em berço real e que,
se lhe dessem apenas um bocado de água e a deixassem a sós por
alguns instantes, ela assumiria uma aparência tão digna quanto a de
qualquer pessoa elegantemente vestida.
Seu pedido foi atendido e, quando ela reapareceu trajando um
magnífico vestido, sua aparência era tão bela, que todos viram que
só podia se tratar de uma princesa disfarçada. O filho do rei
reconheceu a donzela que ele avistara de relance e, atirando-se aos
seus pés, pediu sua mão em casamento. A princesa então contou
sua história e disse que seria necessário enviar um embaixador ao
seu pai para pedir-lhe o consentimento e convidá-lo para o
casamento.
O pai da princesa, que não passava um dia sem que se
arrependesse da dureza com que tratara a filha, já havia percorrido
meio mundo à sua procura, mas, como ninguém tinha notícia dela,
supôs que tivesse morrido. Por isso, foi com imensa alegria que
recebeu a notícia de que ela estava viva, e de que o filho de um rei
desejava desposá-la. Acompanhado da filha mais velha, deixou o
reino e dirigiu-se à cerimônia.
Seguindo as ordens da noiva, foram-lhe servidos apenas pão sem
sal e carnes sem tempero. Vendo que ele fazia caretas e comia
muito pouco, a filha, sentada ao seu lado, perguntou-lhe se o jantar
não o agradava.
— Não – respondeu. – Os pratos foram preparados com cuidado e
dispostos graciosamente, mas a comida está insuportavelmente
sem sabor.
— Não vos disse eu, meu pai, que nada havia no mundo melhor do
que o sal? E, ainda assim, bastou que eu a ele vos comparasse, em
demonstração do meu amor, para que me desprezásseis e
repelísseis.
O rei abraçou a filha e admitiu ter cometido um erro ao distorcer o
sentido de suas palavras. E então, pelo restante do banquete de
casamento, serviram-lhe pães e pratos com tempero, e ele declarou
serem os mais saborosos que já havia experimentado.[ 19 ]

[ 19 ] Paul Sébillot.
A Serpente
Encantada

RA UMA VEZ UMA MULHER muito pobre, que teria dado tudo
quanto possuía por uma criança, mas nenhuma tinha.
Ora, aconteceu de um dia seu marido ir à mata
apanhar lenha. Ao trazê-la, descobriu que havia uma
bonita cobrinha entre os galhos.
Quando Sabatela (pois este era o nome da mulher do camponês)
viu o bichinho, suspirou profundamente e disse:
— Até mesmo as cobras têm suas crias; só eu sou infeliz o
bastante para não ter filhos.
Mal acabara de dizer estas palavras, e a cobrinha, para seu
grande espanto, dirigiu-lhe seus olhinhos e disse:
— Como não tens filho algum, sê pois minha mãe, e eu te prometo
que jamais irás te arrepender, pois hei de te amar como se fora teu
próprio filho.
A princípio, Sabatela ficou apavorada por ouvir uma cobra falar.
Mas, reunindo à força toda sua coragem, respondeu-lhe:
— Se não houvesse nenhuma outra razão exceto este teu
pensamento gentil, ainda assim haveria de concordar contigo, pois
hei de te amar e cuidar de ti como se fosse tua mãe.
Assim, pois, deu à cobrinha um pequeno buraco na casa para
servir-lhe de cama, alimentou-a com as melhores comidas e parecia
mesmo nunca dar-lhe tanto carinho quanto gostaria. Dia a dia, a
cobrinha ia ficando maior e mais gorda, até que enfim, numa certa
manhã, disse a Cola-Mattheo, o camponês, o qual ela sempre tivera
como um pai:
— Querido papai, já tenho agora idade suficiente e desejo casar-
me.
— Pois estou de muito acordo – respondeu-lhe Mattheo – e farei o
que puder para encontrar outra cobra que combine contigo, e
arranjar um casamento entre os dois.
— Mas, oras, se fizeres isso – replicou a cobra – não seríamos
melhores do que as víboras e os répteis, e não quero isto de modo
algum. Não; prefiro antes desposar a filha do rei. Vá, pois, eu te
rogo, e sem demora exige uma audiência com o rei, e dize-lhe que
uma cobra deseja casar-se com sua filha.
Cola-Mattheo, que era um sujeito bastante simplório, lá se foi até o
rei. Havendo conseguido uma audiência, disse:
— Vossa Majestade, como já muitas vezes ouvi falar que quem
não arrisca não petisca, vim informar-vos que uma cobra deseja
desposar vossa filha, e eu ficaria muito feliz de saber se estaríeis
disposto a casar uma pomba com uma serpente.
O rei, que de cara soube como Mattheo era tolo, respondeu, a fim
de se livrar dele:
— Volta para casa e diz ao teu amigo, a cobra, que, se ele puder
transformar todo este palácio em marfim, ornado com ouro e prata,
amanhã, antes do meio-dia, dar-lhe-ei a mão de minha filha.
E com uma gostosa gargalhada dispensou o camponês.
Quando Cola-Mattheo voltou para casa com a resposta, a cobrinha
não pareceu nada desencorajada. Disse apenas:
— Amanhã de manhã, antes do raiar do sol, deves ir até a mata e
lá apanhar um monte de ervas verdes. Depois, esfrega com elas a
soleira do palácio, e verás o que há de acontecer.
Cola-Mattheo, que era, como já vos disse, um sujeito muito
simplório, não fez objeção; na manhã seguinte, antes do raiar do
sol, lá se foi ele apanhar um punhado de erva-de-são-joão e alecrim
e outras tantas ervas, para depois esfregá-las, como lhe fora dito, no
chão do palácio. Mal o fizera, e já as paredes transformaram-se num
marfim tão ricamente ornado com ouro e prata que deslumbrava a
quantos o viam. O rei, ao levantar da cama e contemplar o milagre
que fora realizado, ficou sem saber o que falar ou pensar, e não
tinha a mínima idéia do que cargas d’água tinha de fazer.
Mas quando Cola-Mattheo foi até a corte no dia seguinte e, em
nome da cobra, exigiu a mão da princesa, o rei por sua feita
respondeu:
— Não tenhas tanta pressa; se a cobra realmente quiser desposar
minha filha, terá de fazer algumas outras coisas a mais antes, e uma
delas é transformar todos os caminhos e paredes do meu jardim em
ouro puro, e isto antes do meio-dia de amanhã.
Quando a cobra ficou sabendo da nova condição, respondeu:
— Amanhã de manhã, bem cedinho, vai e coleta quantas sobras
de lixo encontrares na rua, e então leva-as até o palácio; joga-as
nos caminhos e nas paredes do jardim, e haverás de ver se não
serão mais do que suficientes para o velho rei.
Cola-Mattheo saiu da cama ao cantar do galo, levou para a rua
uma cesta enorme debaixo do braço e se pôs a coletar
cuidadosamente todos os pedaços e cacos de panelas, e frigideiras,
e jarros, e lâmpadas e outros lixos tais. Bastou espalhá-los pelos
caminhos e pelas paredes do jardim do rei, e tudo se fez um brilho
só de ouro resplandecente, de modo que o fulgor cegou a todos, e a
todas as almas encheu de admiração. Também o rei ficou
maravilhado, mas ainda não estava decidido a separar-se de sua
filha. Assim, pois, quando Cola-Mattheo veio lembrar-lhe de sua
promessa, ele replicou:
— Tenho uma terceira exigência a fazer. Se a cobra puder
transformar todas as árvores e frutas do meu jardim em pedras
preciosas, hei de lhe a dar a mão de minha filha.
Quando o camponês deixou a cobra a par do que o rei dissera,
esta lhe respondeu:
— Amanhã de manhã, bem cedinho, vai até o mercado e compra
todas as frutas que vires, então planta todos os caroços e sementes
no jardim do palácio. A menos que eu esteja enganado, o rei haverá
de ficar muito satisfeito com o resultado.
Cola-Mattheo acordou cedinho, e com uma cesta debaixo do
braço, lá se foi ao mercado, onde comprou todos as romãs e
damascos e cerejas e tantas outras frutas quantas pôde encontrar, e
plantou seus caroços e sementes no jardim do palácio. Num
instante, as árvores se pejaram de rubis e de esmeraldas e de
diamantes, e de toda e qualquer pedra preciosa imaginável.
Desta vez o rei sentiu-se obrigado a cumprir sua promessa.
Chamando a filha, disse-lhe:
— Minha querida Granônia – pois este era o nome da princesa –,
mais como uma piada que qualquer outra coisa, exigi de teu noivo o
que me pareciam impossibilidades, mas agora que ele fez tudo o
que lhe foi exigido, estou obrigado a cumprir a parte que me cabe na
barganha. Sê pois uma boa filha e, como sei que me amas, não me
forces a quebrar minha palavra, mas te entrega com quanta boa
vontade puderes a um destino muito infeliz.
— Faz de mim o que quiseres, meu senhor e pai, pois és minha lei
– respondeu-lhe Granônia.
Ao ouvir isso, o rei ordenou a Cola-Mattheo que trouxesse a cobra
para o palácio, e lhe disse que estava pronto a receber a criatura
como genro.
A cobra chegou na corte numa carruagem feita de ouro, levada por
seis elefantes brancos; mas por todo o caminho as gentes lhe
fugiam, aterrorizadas pela vista do temível réptil.
Quando a cobra enfim chegou ao palácio, toda a corte, até o
ajudante de cozinha mais obscuro, teve calafrios e tremia de medo.
O rei e a rainha estavam num estado de nervos tal que foram se
refugiar num torreão longínquo. Apenas Granônia se manteve
senhora de si. E, se bem que seu pai e sua mãe muito lhe rogassem
para que fugisse e salvasse sua vida, ela não deu um só passo,
dizendo-lhes:
— Certamente não hei de fugir do homem que escolhestes para
ser meu marido.
Assim que a cobra viu Granônia, enrolou-a com sua cauda e a
beijou. Depois, levando-a para um quarto, fechou a porta, e, jogando
fora sua pele, fez-se um belo moço de cachos dourados e uns olhos
cintilantes que abraçou Granônia carinhosamente e lhe disse
muitíssimas coisas bonitas e românticas.
Quando o rei viu a cobra trancar-se num quarto com sua filha,
disse à esposa:
— Que os céus tenham piedade de nossa criança, pois receio que
agora está tudo acabado. É muito provável que esta maldita cobra a
tenha engolido inteira. – E puseram-se a espiar pelo buraco da
fechadura.
Não há palavras que descrevam seu espanto quando viram, em pé
diante da filha, um lindo rapaz e a pele da cobra jogada no chão ao
seu lado. Excitados que estavam, escancaram a porta, pegaram a
pele e a lançaram ao fogo. Mal o haviam feito, porém, o jovem
gritou:
—– Ó, gente perversa! O que fizestes? – e, antes que pudessem
se virar para olhá-lo, transformou-se numa pomba, jogou-se contra
uma janela e, quebrando-lhe o vidro, voou e voou, até sumir de
vista.
Granônia, que se vira feliz e triste, alegre e desesperada,
riquíssima e miserável, tudo ao mesmo tempo, entrou a protestar
amargamente contra este roubo de sua felicidade, este
envenenamento do cálice de seu júbilo, este infeliz golpe da fortuna;
e por tudo culpou seus pais, muito embora eles repetissem, de novo
e de novo, que não lhe queriam ter feito mal. Mas a princesa não se
deixava consolar, e à noite, quando os habitantes do palácio já
estavam dormindo, ela se escapuliu por uma porta dos fundos,
disfarçada de camponesa, resolvida a procurar a felicidade que
perdera, até reencontrá-la. Ao chegar à orla da cidade, guiada pelo
luar, deparou com uma raposa que se ofereceu para acompanhá-la.
Granônia de muito bom grado aceitou sua oferta, dizendo:
— És muitíssimo bem-vinda, pois não tenho a mínima ideia de
como andar cá por estas bandas.
E lá se foram as duas juntas, e enfim alcançaram uma mata, onde,
cansadas que estavam pela caminhada, fizeram uma pausa para
descansar sob a sombra duma árvore, onde uma fonte d’água
brincava com a grama macia, refrescando-a com suas borrifadas de
cristal.
Deitaram-se ambas no carpete verde e logo estavam a dormir
profundamente; e não despertaram até que o sol já estivesse a pino
no céu. Levantaram-se e por algum tempo ficaram a ouvir o canto
dos pássaros, pois Granônia amava-lhes o piar
Quando a raposa o notou, disse:
— Se apenas soubesses, como eu, o que estes passarinhos estão
a dizer, ficarias ainda mais encantada.
Atiçada por suas palavras – pois todos nós sabemos como a
curiosidade é coisa inerente a todas as mulheres, tanto quanto o
amor à conversa – Granônia implorou à raposa para que lhe
contasse o que os pássaros haviam dito.
A princípio, a raposa recusou-se a contar-lhe o que ouvira aos
pássaros, mas por fim cedeu às suas súplicas, e fê-la saber que
haviam falado sobre as desventuras de um jovem príncipe, muito
belo, o qual uma feiticeira malvada havia transformado numa cobra
por um período de sete anos. Findo o período, o príncipe apaixonou-
se por uma princesa encantadora. Bastou-lhe entrar com ela num
quarto, porém, e lançar fora sua pele de serpente, e os pais da
moça invadiram o recinto à força e queimaram a sua pele, ao que o
príncipe, agora transformado à semelhança de uma pomba,
quebrara uma vidraça ao tentar fugir voando pela janela, e se ferira
tão gravemente que os médicos já o davam quase por morto.
Granônia, ao descobrir que era de seu amado que estavam a falar,
perguntou sem demora quem era o pai do príncipe, e se havia ainda
alguma chance de recuperação; a raposa, por sua vez, respondeu
que os pássaros haviam dito ser ele filho do Rei de Vallone Grosso,
e que a única coisa capaz de curá-lo seria esfregar nas tantas
feridas que tinha na cabeça o sangue dos pássaros mesmos que lhe
haviam contado a história.
Então Granônia pôs-se de joelhos perante a raposa e lhe implorou,
com quanta docilidade tinha na voz e nos gestos, que capturasse os
pássaros e lhe arranjasse o sangue deles, fazendo ao mesmo
tempo mil promessas de que haveria de recompensá-la ricamente.
— Tudo bem – disse a raposa –, só não fiques tão afobada;
aguardemos o cair da noite, quando os passarinhos já estiverem no
ninho. Então hei de trepar a árvore e os capturar a todos para ti.
E assim passaram o dia, ora a falar sobre a beleza do príncipe, ora
sobre o pai da princesa, ora ainda sobre a infelicidade que sucedera
a ambos. Finalmente, caiu a noite, e todos os passarinhos estavam
dormindo lá no alto, nos galhos duma árvore enorme. A raposa
subiu-a silenciosamente e foi pegando as criaturinhas pelas patas,
uma por uma; depois de matá-las, colocou-lhes o sangue numa
garrafinha que levara consigo, e a levou até Granônia, que não se
aguentava de tanta felicidade pelo resultado que tivera a incursão
da raposa. Mas esta lhe disse:
— Filhinha minha, tua alegria é vã, pois escuta-me bem: este
sangue não fará nada por ti, a menos que acrescentes um tanto do
meu próprio à mistura – e com tais palavras chispou dali.
Granônia, que viu suas esperanças caírem por terra de modo tão
cruel, recorreu à lisonja e à astúcia, armas que já muitas vezes
foram úteis ao seu sexo em situações críticas, e gritou à raposa:
— Pai Raposa, farias muito bem em salvar tua pele se, em
primeiro lugar, eu não sentisse que devo tanto a ti, e, em segundo,
não houvesse outras raposas no mundo; como bem sabes, porém, o
quanto te sou grata, e como há por aí raposas aos montes, podes
confiar em mim. Não faças como a vaca que chuta o balde depois
de tê-lo enchido de leite, mas continua tua jornada comigo, e
quando chegarmos à capital poderás vender-me ao rei, como uma
criada.
Ora, a raposa jamais haveria de suspeitar que é possível passar a
perna até mesmo em raposas. Assim, após relutar um pouco,
consentiu levá-la junto consigo, mas não foi muito longe. A garota,
esperta que só, pegou um pau e lhe deu tamanha pancada na
cabeça, que a raposa caiu mortinha da silva ali mesmo. Então
Granônia pegou-lhe um pouco do sangue e o despejou na sua
garrafinha, e lá se foi, tão rápido quanto podia, para Vallone Grosso.
Chegando lá, foi direto ao palácio real, e fez com que informassem
ao rei que viera curar o jovem príncipe.
O rei ordenou que a trouxessem à sua presença imediatamente, e
ficou embasbacado ao descobrir que era uma garota quem se
propunha a fazer o que os médicos mais brilhantes de seu reino não
haviam conseguido. Como tentar não faz mal a ninguém,
prontamente consentiu que ela fizesse o quanto pudesse.
— Só o que peço – disse Granônia – é que, se eu conseguir fazer
o que desejas, tu me dês teu filho em casamento.
O rei, que àquela altura já não tinha mais esperanças de ver o filho
curado, respondeu:
— Restaura-lhe a vida e a saúde, e ele será teu. É simplesmente
justo dar um marido a quem me der um filho.
E lá se foram para o quarto do príncipe. No instante em que
Granônia esfregou-lhe o sangue nas feridas, a enfermidade o
deixou, e ele se fez tão sadio e vigoroso como nunca. Quando o rei
viu o filho assim milagrosamente recuperado, de volta à vida e à
saúde, voltou-se para ele e lhe disse:
— Meu querido filho, já te considerava morto, e agora, para o meu
grande espanto e alegria, cá estás vivo mais uma vez. Prometi a
esta jovem que, sendo ela capaz de curar-te, dar-lhe-ia a tua mão e
o teu coração. Como bem vejo que ao Céu aprouve abençoar-nos,
deves pois cumprir a promessa que lhe fiz, já que não é outra coisa
senão a gratidão o que me força a pagar esta dívida.
Mas o príncipe respondeu:
— Meu senhor e meu pai, fá-lo-ia sem pestanejar, se apenas
minha liberdade fosse tão grande quanto o amor que tenho por ti.
Mas como já dei a minha palavra de honra a outra senhora, o
senhor mesmo bem o sabes – assim como esta jovem que aqui está
– que não posso voltar atrás e ser infiel para com a mulher que amo.
Quando Granônia ouviu estas palavras, e viu quão enraizado e
forte era o amor que o príncipe lhe devotava, sentiu-se muito feliz, e,
corando muito, até ficar toda rosada, disse:
— Mas e se eu conseguisse fazer com que esta outra senhora
abrisse mão de seus direitos, casar-te-ias então comigo?
— Longe de mim – respondeu o príncipe – banir a bela imagem do
amor de meu coração. Seja lá o que ela diga, meu coração e meu
desejo hão de se manter os mesmos, e, ainda que com isto
perdesse a vida, não poderia consentir com uma tal troca.
Granônia não pôde mais manter o silêncio. Jogando para longe
seu disfarce de camponesa, revelou sua identidade ao príncipe, que
mal sabia o que fazer, tamanha era sua alegria quando reconheceu
sua tão cara donzela. Então sem demora contou ao pai quem era a
senhorita e o que ela havia feito e sofrido em seu prol.
Mais tarde convidaram o rei e a rainha de Starza-Longa para a sua
corte, e ali fizeram um grandioso banquete de casamento, e
provaram mais uma vez que não há nada tão bom para temperar as
alegrias do verdadeiro amor quanto umas poucas pontadas de
angústia.
Os Trambiqueiros
Trambicados

RA UMA VEZ UM HOMEM chamado Simão, que era muito


rico, mas também avarento e mesquinho até não poder
mais. Ele tinha uma governanta chamada Nina, mulher
engenhosa e capaz, e, como ela fizesse o seu trabalho
com esmero e escrúpulo, o seu senhor a tinha em grande
consideração.
Na juventude, Simão fora um dos rapazes mais alegres e
vigorosos das redondezas, porém, à medida que ficava velho e
enrijecido, teve cada vez mais dificuldade de caminhar, e sua fiel
criada instou que ele comprasse um cavalo para poupar seus velhos
e enfraquecidos ossos. Ao fim de muita insistência, Simão cedeu ao
pedido e à eloquência da governanta e então, certo dia, foi ao
mercado, onde tinha visto uma mula e, pensando que lhe assentaria
bem, comprou-a por sete moedas de ouro.
Bem, acontece que andavam pelo mercado três malandros
galhofeiros, que preferiam viver às custas dos outros a trabalhar por
sua subsistência. Assim que viram Simão comprar a mula, um deles
disse a seus comparsas:
— Amigos, juro que essa mula ainda hoje será nossa.
— E como vamos fazer isso? ‒ perguntou um deles.
— Nos posicionaremos em três diferentes lugares no caminho do
velho até sua casa, e cada um à sua vez afirmará que a mula que
ele comprou é, na verdade, um burro. Se nos ativermos a este
plano, a mula em breve será nossa.
Esta proposta deixou os outros dois satisfeitos, e cada um foi para
um ponto diferente, conforme o combinado.
Pois bem: quando Simão passou pelo primeiro trapaceiro, este lhe
disse:
— Deus o abençoe, meu bom cavalheiro!
— Agradeço a cortesia ‒ respondeu Simão.
— De onde vem? ‒ perguntou o larápio.
— Do mercado ‒ respondeu.
— E o que lá comprou? ‒ prosseguiu o patife.
— Esta mula.
— Que mula?
— A mula em que estou montado, ora qual?! ‒ replicou Simão.
— Fala a sério ou está brincando?
— O que queres dizer com isso?
— É que parece que o senhor comprou um burro, e não uma mula.
— Um burro? Que asneira! ‒ gritou Simão, e sem outra palavra
seguiu seu caminho. Depois de uns cem metros, encontrou o
segundo cúmplice, que assim o saudou:
— Bom dia, meu caro senhor, de que lados vem?
— Do mercado ‒ respondeu Simão.
— Estavam bons os preços? ‒ perguntou o outro.
— Creio que sim ‒ respondeu Simão.
— Achou alguma bagatela?
— Comprei esta mula em que me vês montado.
— É sério que o senhor comprou esse animal por mula?
— Ora, mas é claro.
— Mas, valha-me Deus, esse bicho não passa de um burro!
— Um burro?! ‒ repetiu Simão. ‒ Não sabes o que estás a dizer;
porém, se outra pessoa me disser a mesma coisa, darei a ela de
presente o maldito animal.
Com estas palavras seguiu seu caminho, e não demorou a
encontrar o terceiro tratante, que assim lhe disse:
— Deus o abençoe, meu senhor; por acaso vem do mercado?
— Venho ‒ respondeu Simão.
— E que barganha lá conseguiu? ‒ perguntou o ladino.
— Comprei esta mula que agora me carrega.
— Mula?! Está falando sério, ou quer me fazer de bobo?
— Falo sem brincadeira ‒ disse Simão ‒. Não me passaria pela
cabeça fazer tal piada.
— Ah, meu pobre amigo! ‒ exclamou o malandro. ‒ O senhor não
vê que isso é um burro, e não uma mula? Alguém deve ter lhe
passado a perna!
— És a terceira pessoa nas últimas duas horas a me dizer a
mesma coisa ‒ falou Simão ‒, mas até agora não havia acreditado.
Apeando da mula, o velho disse:
— Fica com o bicho, te dou de presente.
O malandro pegou a besta, agradeceu-lhe calorosamente, montou
nela e foi ter com seus parceiros, enquanto Simão seguia o resto da
jornada a pé.
Assim que o velho chegou em casa, disse à governanta que havia
comprado um animal na crença de que fosse uma mula, mas que,
no fim das contas, não passava de um burro (ou ao menos é disto
que lhe haviam certificado várias pessoas que encontrara no
caminho), e, por desgosto, desfez-se do bicho.
— Seu palerma! ‒ exclamou Nina. ‒ Não vê que lhe pregaram uma
peça? Realmente, eu pensava que tinha mais juízo! Nunca me
enganariam como enganaram o senhor.
— Não faz mal ‒ replicou Simão ‒, vou lhes pregar uma peça duas
vezes pior. Creio que não se satisfarão com terem me tomado o
burro, e tentarão, por meio de novas artimanhas, conseguir mais
alguma coisa de mim, se eu não estiver enganado.
Pois bem, num vilarejo não muito distante da casa de Simão vivia
um camponês que tinha duas cabras, e eram em tudo tão parecidas
que não dava para distingui-las. Simão comprou ambas, pagou o
menor preço que conseguiu e, depois que as levou para casa, pediu
que Nina preparasse uma boa refeição: ia convidar uns amigos para
a janta. Ordenou que assasse uma vitela, cozinhasse uns dois
frangos, e lhe deu umas hortaliças para fazer um antepasto; por fim
pediu que preparasse a sua melhor torta. A seguir, pegou uma das
cabras e a amarrou a uma estaca, e lhe deu de comer um pouco de
grama; à outra cabra, porém, ele amarrou uma corda em volta do
pescoço e a levou para o mercado.
Mal havia chegado lá, os três cavalheiros que tomaram sua mula o
avistaram e, aproximando-se dele, disseram:
— Bem-vindo, senhor Simão, o que o traz aqui hoje? Está à
procura de uma bagatela?
— Vim comprar uns mantimentos ‒ respondeu ‒ porque hoje uns
amigos vêm jantar lá em casa; e aliás a vossa presença também
muito me honraria.
Os três cúmplices de bom grado aceitaram o convite; e Simão,
depois de ter feito todas suas compras, prendeu-as no dorso da
cabra, a quem disse, na frente dos trapaceiros:
— Vai para casa, e pede para Nina assar a vitela, cozinhar os
frangos, preparar o antepasto e fazer sua melhor torta. Escutaste-
me com atenção? Então vai, e que Deus te acompanhe.
Assim que se viu livre, a cabra, muito carregada, saiu trotando o
mais rápido que pôde, e até hoje ninguém sabe onde foi parar.
Simão, por sua vez, depois de perambular pelo mercado por um
tempo com seus três amigos e também alguns outros que se
juntaram a eles durante o passeio, voltou para casa. Quando ele e
seus convidados entraram no pátio, notaram a cabra amarrada à
estaca, remoendo calmamente o pasto. Não foi pequeno o espanto
que isso lhes causou, pois seguramente pensaram que fosse a
mesma cabra que Simão mandara para casa carregada de
compras. Assim que entraram na casa, Simão disse à governanta:
— Então, Nina, já fizeste o que a cabra te pediu para fazer?
A mulher, astuta como era, entendeu imediatamente as intenções
do patrão e disse:
— Mas é claro. A vitela está assada, e os frangos cozidos.
— Perfeito ‒ disse Simão.
Quando os três trapaceiros viram as carnes prontas e a torta no
forno, e ouviram as palavras de Nina, ficaram pasmos, e sem
demora puseram-se a deliberar como se apossariam da cabra. Por
fim, terminada a janta, depois de haver matutado em vão atrás de
algum ardil para sumir com a cabra de Simão, um dos malandros
assim lhe falou:
— Meu digno anfitrião, venda a sua cabra para nós.
Simão respondeu que não estava nem um pouco disposto a se
desfazer do bicho, já que nenhuma quantia de dinheiro compensaria
a sua perda; contudo, se estavam tão decididos a comprá-la, ele
lhes venderia a cabra por cinquenta moedas de ouro.
Os tratantes, pensando fazer um tremendo negócio, pagaram logo
as cinquenta moedas de ouro e foram embora satisfeitos da vida,
levando consigo a cabra. De volta a casa, cada um disse à sua
esposa:
— Amanhã não prepares a janta até que mandemos os
mantimentos para casa.
No dia seguinte foram ao mercado e compraram frangos e outros
alimentos. Depois de carregarem tudo no dorso da cabra (que
haviam trazido junto), contaram-lhe todos os pratos que queriam
que suas mulheres preparassem. A cabra, assim que se viu livre,
correu o mais rápido que pôde e dentro de muito pouco lhes
escapou às vistas. Até onde sei, nunca mais se ouviu falar dela
novamente.
Quando se aproximou a hora da janta, todos os três foram para
casa e perguntaram às mulheres se a cabra tinha voltado com as os
mantimentos necessários, e se lhes havia dito o que preparar.
— Seus tapados! Seus cabeças ocas! ‒ gritaram as esposas. ‒
Como é possível que tenhais acreditado por um segundo sequer
que essa cabra nos serviria de empregada?! Finalmente alguém vos
enganou. É claro, porque, uma vez que sempre ludibriais os outros,
era questão de tempo até que alguém ludibriasse a vós, e desta vez
caístes como patinhos.
Quando os três companheiros se deram conta de que Simão tirara
vantagem deles e lhes lograra cinquenta moedas de ouro, ficaram
tão alterados que decidiram matá-lo e, pegando em armas, foram
para a casa dele.
Mas a velha raposa, temendo que os três patifes lhe fizessem
algum mal, ou mesmo lhe tirassem a vida, ficou alerta e disse à sua
criada:
— Nina, toma esta bexiga, que está cheia de sangue, e esconde-a
sob o teu manto; assim, quando os larápios chegarem, te culparei
por tudo, e fingirei estar tão bravo contigo que correrei atrás de ti
com minha faca e perfurarei a bexiga; então cairás no chão como se
estivesses morta, e deixarás o resto para mim.
Terminava Simão de falar estas palavras quando os três patifes
apareceram e partiram para cima dele com a intenção de matá-lo.
— Amigos ‒ gritou Simão ‒, do que me acusais? Não acho em
mim culpa nenhuma; talvez a minha criada vos tenha feito algum
mal do qual não estou sabendo.
Ditas estas palavras, virou-se contra Nina e lhe cravou a faca na
bexiga cheia de sangue. No mesmo instante a criada caiu como se
houvesse morrido, e o sangue escorreu pelo chão. Em seguida,
Simão fingiu sentir remorso diante daquela pavorosa tragédia, e
exclamou a plenos pulmões:
— Ai de mim desgraçado! O que fiz?! Feito um louco, matei a
mulher que era o amparo de minha velhice. Como continuarei a
viver sem ela?
Pegou então uma flauta e, depois de lhe soprar por um tempinho,
Nina se levantou viva e forte.
Com isto, os malandros ficaram mais admirados ainda;
esquecendo-se completamente de sua raiva, compraram a flauta
por duzentas moedas de ouro e foram alegres para casa.
Pouco mais tarde, um dos malandros brigou com a mulher e,
tomado de raiva, enterrou-lhe no peito uma faca, e a coitada caiu
morta no chão. Ele então pegou a flauta de Simão e soprou nela
com toda a força, na esperança de trazer a mulher de volta à vida;
mas foi tudo em vão, porque a pobre mulher continuava mortinha da
silva.
Quando um dos seus comparsas ficou sabendo do que tinha
acontecido, disse:
— Seu cabeça de bagre! Por certo fizeste algo errado; passa para
cá a flauta e me deixa tentar.
Assim dizendo, agarrou sua mulher pela raiz dos cabelos, passou-
lhe uma navalha na garganta e em seguida pegou a flauta e soprou
nela com toda a sua força, mas a mulher não voltou à vida. O
mesmo se passou com o terceiro patife, de modo que agora os três
haviam ficado sem esposa. Transbordando de raiva, correram até a
casa de Simão e, recusando-se a ouvir suas explicações e
desculpas, prenderam-no e o meterem num saco para afogá-lo no
rio mais próximo. No meio do caminho, porém, um barulho súbito
tanto os apavorou que eles largaram o saco em que estava Simão e
saíram correndo.
Pouco depois um pastor passou por ali com seu rebanho e,
enquanto seguia lentamente suas ovelhas, que paravam aqui e
acolá à beira do rio para saborear a grama macia, ouviu uma voz
lamuriosa que se queixava assim:
— Insistem que eu a tome, mas não a quero, pois sou muito velho
e de fato não a posso desposar.
O pastor ficou perplexo, pois não conseguia entender de onde
vinham aquelas palavras, que se repetiam mais vezes, e olhou à
sua volta e para todos os lados. Por fim, avistou o saco em que
estava Simão e, ao abri-lo, lá encontrou o velho a repetir sua
lamuriosa queixa. O pastor lhe perguntou por que o haviam prendido
dentro de um saco. Simão respondeu que o rei insistira em lhe dar
por esposa uma de suas filhas, mas que ele mesmo havia recusado
a honra por ser muito velho e enfraquecido. O pastor, simplório
como era, acreditou na história sem duvidar por um segundo e lhe
perguntou:
— O senhor acha que o rei me daria a mão de sua filha?
— Sim, com certeza; estou certo de que daria ‒ respondeu Simão.
‒ Isto é, se te encontrasse neste mesmo saco no meu lugar.
Saindo então do saco, meteu-lhe dentro o crédulo pastor, e a
pedido dele, o amarrou com bastante firmeza, e lá se foi levando
embora as ovelhas.
Não havia passado uma hora quando os patifes voltaram ao lugar
onde tinham deixado Simão dentro do saco e, sem mesmo abri-lo,
um deles o apanhou e arremessou dentro do rio. Deste modo
afogou-se o pobre pastor no lugar de Simão!
Os três patifes, sentindo-se vingados, marcharam para casa. No
meio do caminho, notaram um rebanho que pastava a pouca
distância da estrada. Cismaram de roubar alguns cordeiros e então
se aproximaram do rebanho, mas ficaram aturdidos quando
reconheceram que Simão, a quem haviam arremessado no rio para
se afogar, era quem tomava conta das ovelhas. Perguntaram-lhe
como conseguira sair do rio, ao que ele respondeu:
— Ora, seus imbecis, em nada vos distinguis de burros sem
discernimento! Se ao menos me tivésseis jogado em águas mais
profundas, eu teria retornado com um rebanho três vezes maior.
Ao ouvirem isso, os três patifes lhe disseram:
— Ó, querido Simão, faça-nos o favor de nos amarrar dentro de
sacos e nos jogar no rio, para que abandonemos a ladroagem e nos
tornemos donos de rebanhos.
— Estou disposto ‒ respondeu Simão ‒ a fazer o que desejais; não
há nada no mundo que não faria por vós.
Então ele pegou três sacos muito resistentes e meteu um homem
dentro de cada um; amarrou-os bem para que não pudessem sair, e
os jogou a todos no rio; e este foi o fim dos três patifes. Simão, por
sua vez, agora que era possuidor de grandes rebanhos e de ouro,
voltou para casa, onde estava Nina, sua fiel criada, e viveu por
muitos anos com saúde e felicidade.[ 20 ]

[ 20 ] Hermann Kletke.
O Rei Kojata

RA UMA VEZ UM REI chamado Kojata, cuja barba era tão


longa que lhe passava dos joelhos. Casado já fazia três
anos, vivia muito feliz com sua esposa; os Céus, porém,
não lhe haviam dado um herdeiro, o que o entristecia
profundamente. Um dia partiu da capital, a fim de empreender uma
viagem por seu reino. Após percorrer por quase um ano as diversas
partes de seu território, e ver tudo quanto havia para ser visto, deu
meia-volta e se pôs na estrada de volta para casa. Como o dia
estivesse muito quente e abafado, ordenou aos seus servos que
armassem tendas no campo aberto e sob sua sombra aguardassem
o frescor da noite. Subitamente, uma sede terrível acometeu o rei,
que, por não ver água perto, montou em seu cavalo e saiu a
cavalgar pelas vizinhanças a ver se encontrava uma nascente. Dali
a pouco viu-se diante dum poço que estava cheio até a borda com
uma água cristalina, e em cujo leito podia-se ver um vaso dourado a
flutuar. O Rei Kojata imediatamente tentou pegar o receptáculo, mas
por mais que tentasse agarrá-lo com a mão direita, e depois com a
esquerda, a bendita da coisa se esquivava sempre de seus esforços
e se recusava a deixar-se capturar. Primeiro com uma mão, depois
com as duas, o rei tentou apanhá-la, mas qual um peixe a taça
invariavelmente escorregava-lhe por entre os dedos e quicava no
chão apenas para daí a um instante reaparecer nalgum outro lugar e
zombar do rei.
— Maldita sejas! – praguejou o Rei Kojata. – Posso muito bem
matar minha sede sem tua ajuda – e, debruçando-se sobre o poço,
entrou a tomar água tão sôfrego que acabou por mergulhar o rosto
inteiro, barba e tudo o mais, na água cristalina. Quando já satisfizera
a sede, porém, e quis levantar-se, não conseguiu erguer a cabeça,
pois que alguém lhe segurava as barbas com força dentro d’água.
— Quem está aí? Deixa-me sair! – clamou o Rei Kojata, mas não
houve resposta. O que houve foi uma cara horrenda que desde o
fundo do poço o encarava com dois olhos verdes enormes,
brilhantes como esmeraldas, e lhe sorria com um sorriso que ia de
orelha a orelha e expunha duas fileiras de dentes brancos
reluzentes. E o que segurava as barbas do rei não eram mãos
mortais – eram duas garras. Enfim, uma voz cava soou das
profundezas.
— Esforças-te em vão, Rei Kojata. Só sairás daqui sob uma
condição: a de me dar algo sobre o qual nada sabes, e que haverás
de encontrar quando voltares para casa.
O rei não parou para pensar muito.
— Pois o que – pensou ele – poderia estar em meu palácio sem
que eu o saiba? A coisa é absurda – então respondeu rapidamente:
– Sim, prometo que o terás.
A voz respondeu:
— Pois bem; mas acautela-te! Se não cumprires tua promessa,
coisas más te sucederão.
Então as garras afrouxaram o aperto, e a face sumiu no fundo das
águas. O rei retirou o queixo do poço e se sacudiu todo como um
cachorro; depois, montou seu cavalo e cavalgou de volta para casa
com sua comitiva, muito pensativo. Ao se aproximarem da capital,
todo o povo veio recebê-los alegríssimo, com grandes aclamações;
e, quando o rei chegou ao palácio, a rainha veio encontrá-lo já na
soleira da porta. Ao seu lado, estava o Primeiro-Ministro a segurar
um berço pequenino nos braços, dentro do qual havia um bebezinho
tão lindo quanto o dia. Então o rei compreendeu tudo e, a gemer
profundamente, murmurou consigo:
— Então era sobre isso que eu nada sabia – e as lágrimas rolaram
por seu rosto. As gentes da corte ficaram muito admiradas da
angústia do rei, mas ninguém ousou perguntar-lhe qual era a causa.
Ele tomou a criança em seus braços e a beijou ternamente; depois,
colocando-a no berço, resolveu controlar suas emoções e voltou a
reinar como antes.
O segredo do rei permaneceu um segredo, muito embora o
semblante sério e aflito que por aí carregava não houvesse
escapado à atenção alheia. Dia e noite angustiado, com medo de
que lhe roubassem o filho, o pobre Kojata não sabia o que era
descanso. Contudo, o tempo passou, e nada aconteceu.
Decorreram dias e meses e anos, e o príncipe cresceu e se fez um
lindo moço, e o rei acabou por se esquecer do incidente que
acontecera há tanto tempo atrás.
Um dia o príncipe saiu a caçar. Ao seguir a trilha dum javali, logo
perdeu-se dos demais caçadores e viu-se sozinho no meio de uma
mata escura. As árvores cresciam tantas e tão emaranhadas que
era quase impossível enxergar alguma coisa entre elas; só o que o
príncipe conseguia entrever era um trechinho de grama à sua frente,
coberto de cardos e ervas daninhas que não acabavam mais, e no
meio do qual se erguia uma frondosa tília. Subitamente, um ruído
fez-se ouvir dentro do tronco da árvore, e um velho extraordinário,
com uns olhos verdes e um queixo tão verde quanto, rastejou-se
para fora.
— Um belo dia, Príncipe Milano – disse ele – fizeste-me esperar
uns bons anos; já era tempo de vires cá visitar-me.
— Quem és tu, por todos os deuses? – exigiu saber o príncipe,
atônito.
— Hás de descobri-lo logo, logo. Mas por enquanto faz o que te
ordeno. Vai e cumprimenta por mim teu pai, o Rei Kojata, e dize-lhe
para não se esquecer de sua dívida; já faz muito que se passou o
tempo devido, mas agora ele a terá de pagar. Por ora, até mais ver;
havemos de nos encontrar novamente.
E com tais palavras o velho sumiu dentro da árvore, e o príncipe
voltou para casa um tanto perplexo e contou ao seu pai o que havia
visto e ouvido.
O rei fez-se branco como cal ao ouvir a história do príncipe, e
disse:
— Ai de mim, filho meu! É chegado o tempo em que devemos nos
separar – e com o coração pesado contou ao príncipe tudo quanto
se dera no tempo em que ele nasceu.
— Não te preocupes nem te aflijas, meu querido pai – respondeu-
lhe o Príncipe Milano. – As coisas nunca são tão ruins quanto
parecem. Dá-me apenas um cavalo para minha jornada, e eu te
garanto que em breve hás de me ver de volta.
O rei deu-lhe um belíssimo alazão de guerra, com estribos
dourados, e uma espada. A rainha lhe pendurou uma pequena cruz
ao redor do pescoço, e, após muito choro e ainda mais lamentos, o
príncipe se despediu de todos e deu início a sua jornada.
Cavalgou sempre em frente por dois dias a fio, e no terceiro
chegou a um lago tão imperturbado e liso quanto uma vidraça, e tão
límpido quanto um cristal. Não havia no ar um só sopro de vento, as
folhas estavam todas imóveis como estátuas – pairava um silêncio
como o de um túmulo. Apenas no meio do lago trinta patos, com
uma plumagem muito brilhante, deslizavam na água. Não muito
longe da margem, o Príncipe Milano notou trinta roupinhas brancas
caídas na grama. Apeou do cavalo, pôs-se a rastejar à sombra dos
juncos enormes e pegou uma das roupinhas, para logo em seguida
esconder-se atrás das moitas que cresciam ao redor do lago. Os
patos nadaram e nadaram, para lá e para cá, e mergulharam até as
profundezas, e de lá emergiram, e deslizaram pelas ondas.
Finalmente, cansados de brincar, nadaram de volta até a praia, e
vinte e nove deles puseram suas roupinhas brancas e no mesmo
instante transformaram-se em belíssimas damas. Então terminaram
de se vestir e desapareceram. Apenas o trigésimo pato não pôde vir
à terra; ficou a nadar perto da margem e, soltando um gritinho muito
agudo, espichou o pescoço timidamente, correu o olhar
esbugalhado em volta, e então mergulhou mais uma vez. O Príncipe
Milano sentiu tanta dó da pobre criaturinha, que saiu de trás dos
juncos, a ver se poderia ser-lhe de alguma ajuda. Foi só o pato vê-lo
e começou a gritar, numa voz humana:
— Ó, querido Príncipe Milano, pelo amor de Deus, dá-me de volta
a minha roupinha e terás a minha gratidão eterna.
O príncipe pousou a roupinha na margem, perto da pata, e voltou
para trás das moitas. Daí a poucos segundos uma garota
deslumbrante, vestindo um robe branco, estava diante dele, tão
bela, doce e jovem que não há pena no mundo capaz de descrevê-
la. Deu sua mão ao príncipe e falou:
— Agradeço-te a cortesia, Príncipe Milano. Sou a filha de um
mágico malvado, e meu nome é Jacinta. Meu pai tem trinta filhas
moças e é um senhor muito poderoso no submundo, com castelos e
riquezas à farta. Há muito tempo já te espera, mas não terás o que
temer se apenas fizeres o que te digo. Assim que ficares na
presença de meu pai, lança-te ao chão imediatamente e dele te
achegues de joelhos. Não te preocupes se ele enfurecidamente
bater os pés e praguejar e amaldiçoar a todos. Do resto cuidarei eu,
e nesse meio-tempo o que melhor temos a fazer é irmo-nos embora.
Com tais palavras a bela Jacinta bateu o pezinho no chão, a terra
se abriu e ambos despencaram no submundo.
O palácio do Mágico fora todinho talhado num único rubi, um
carbúnculo que lançava luz em toda a região circunvizinha, e o
Príncipe Milano foi entrando alegremente.
O Mágico estava sentado num trono, e tinha sobre a cabeça uma
coroa reluzente, seus olhos chispavam chamas verdes, e em vez de
mãos tinha garras. Assim que o Príncipe Milano entrou, pôs-se logo
de joelhos. O Mágico bateu estrondosamente no chão com os pés,
cravou-lhe um olhar terrível com os olhos verdes e praguejou tão
alto que fez tremer todo o submundo. Mas o príncipe, tendo em
mente o conselho que lhe havia sido dado, não teve um só pingo de
medo, e achegou-se ao trono ainda de joelhos. Finalmente, o
Mágico soltou uma gargalhada sonora e lhe disse:
— És mesmo um velhaco! Bem vejo que recebeste bons
conselhos quanto a como fazer-me rir; não mais serei teu inimigo.
Sê bem-vindo ao submundo! Seja como for, graças ao teu atraso
terás de fazer três serviços. Por hoje estás dispensado; mas
amanhã hei de ter algo a mais para dizer-te.
Então dois servos levaram o Príncipe Milano até um belíssimo
aposento, onde deitou-se perfeitamente tranquilo na cama macia
que lhe fora preparada, e sem demora caiu no sono.
Na manhã seguinte, já cedo, o Mágico ordenou que o buscassem,
e disse:
— Vejamos agora o que aprendeste. Em primeiro lugar, tens de me
construir, hoje à noite, um palácio. E o teto do palácio terá de ser do
ouro mais puro que há, e as paredes, de mármore, e as janelas, de
cristal; ao seu redor deves plantar um jardim maravilhoso, com
laguinhos para peixes e cachoeiras ornamentais. Se o fizeres, hei
de recompensar-te ricamente; mas se não o fizeres, perderás tua
cabeça.
— Ó, monstro perverso! – pensou o príncipe consigo. – Poderias
muito bem já ter me matado agora.
Tristonho, voltou para o seu quarto e, com a cabeça caída, ficou a
pensar no destino cruel que o aguardava, até cair a noite. Ao
escurecer, uma abelhinha voou até ali e, batendo na janela, disse:
— Abre, e deixa-me entrar.
Milano abriu a janela sem pestanejar e, tão logo a abelha entrou,
transformou-se na bela Jacinta.
— Boa noite, Príncipe Milano. Por que estás assim tão tristonho?
— Como poderia não estar triste? Teu pai ameaça-me com a
morte, e eu já me vejo sem a cabeça.
— E o que resolveste fazer?
— Não há nada a se fazer. E, afinal de contas, suponho que a
gente só possa morrer uma vez.
— Ora, não sejas tão tolo, meu querido príncipe; alegra-te, pois
não há razão para se desesperar. Vai para a cama, e amanhã,
quando acordares, o palácio já estará de pé. Deves então rodeá-lo
inteiro, a dar-lhe um tapa aqui e outro acolá nas paredes, para que
pareça que acabaste de concluí-lo.
E tudo se deu exatamente como ela dissera. Assim que
amanheceu, o Príncipe Milano saiu do quarto e topou com um
palácio que era uma verdadeira obra de arte, até os mínimos
detalhes. O próprio Mágico ficou embasbacado, tamanha era sua
beleza, e mal podia crer no que via.
— Bem, és certamente um trabalhador esplêndido – disse ele ao
príncipe. – Vejo que és muito bom com as mãos; agora tenho de
saber se és igualmente bom com a cabeça. Tenho cá na minha casa
trinta filhas, todas princesas lindas. Amanhã hei de as enfileirar
todas, e terás de andar na frente delas três vezes, e na terceira
terás de mostrar-me qual é Jacinta, a minha filha mais nova. Se não
acertares, perderás tua cabeça.
— Desta vez, cometeste um erro – pensou o Príncipe Milano, e ao
voltar para o quarto sentou-se à janela. – Imagina, eu não
reconhecer a linda Jacinta! Ora, tem-se aí a coisa mais fácil do
mundo.
— Não tão fácil quanto pensas – gritou a abelhinha, que passava
voando. – Se eu não estivesse aqui para ajudar-te, jamais haverias
de adivinhar. Somos trinta irmãs tão idênticas que o nosso próprio
pai muitas vezes não sabe quem é quem.
— Então o que tenho de fazer? – perguntou-lhe o Príncipe Milano.
— Escuta bem – respondeu Jacinta. – Saberás qual sou eu por
meio de uma mosca minúscula que estará pousada em minha
bochecha. Mas acautela-te, pois será fácil cometeres um erro.
No dia seguinte, mais uma vez o Mágico ordenou que o Príncipe
Milano fosse trazido à sua presença. Já suas filhas estavam
enfileiradas numa linha reta defronte do príncipe, todas vestidas de
modo idêntico, e todas olhando para o chão.
— Agora, ó gênio – disse o Mágico –, olha para estas beldades
três vezes, e então dize-nos qual delas é a Princesa Jacinta.
O Príncipe Milano então passou por elas e as examinou muito de
perto. Mas eram todas tão precisamente idênticas que mais
pareciam o mesmo rosto refletido em trinta espelhos, e da tal mosca
não se via sinal algum; na segunda vez que passou por elas, não
viu nada; mas na terceira notou uma mosquinha minúscula a zanzar
numa bochecha, fazendo surgir nesta um leve rosado. Então o
príncipe pegou na mão da garota e gritou:
— Aqui está a Princesa Jacinta!
— Estás certo de novo – respondeu o Mágico, ainda mais
embasbacado que antes. – Mas tenho ainda outra tarefa para ti.
Antes que esta vela, a qual hei de acender agora, queime inteira,
terás de me fazer um par de botas que cheguem até meus joelhos.
Se não estiverem prontas até lá, perderás tua cabeça.
O príncipe voltou desolado para seu quarto; então a princesa veio
até ele uma vez mais, sob a forma duma abelha, e lhe perguntou:
— Por que estás tão tristonho, Príncipe Milano?
— Como poderia eu não estar triste? Teu pai deu-me uma tarefa
impossível desta vez. Antes que uma vela, por ele acesa agorinha,
queime inteira, tenho de fazer-lhe um par de botas. Mas o que sabe
um príncipe sobre fazer sapatos? Se eu não conseguir, perco minha
cabeça.
— E o que pretendes fazer? – perguntou Jacinta.
— Oras, o que há para se fazer? O que ele exige eu nem posso,
nem irei fazer. Então é o meu fim.
— Não, meu querido. Tenho um profundo amor por ti, e tu serás
meu esposo. Ou salvarei a tua vida ou hei de morrer contigo. Temos
de correr agora, o mais rápido que pudermos, pois não há outra
escapatória.
Com tais palavras bafejou na janela, e o seu hálito congelou-se no
vidro. Então levou Milano para fora do quarto, fechou a porta e jogou
a chave fora. De mãos dadas partiram afobados para o lugar pelo
qual haviam despencado no submundo, e finalmente alcançaram as
margens do lago. O alazão de guerra do príncipe estava ainda a
pastar na grama que crescia perto da água. Tão logo reconheceu o
mestre, o cavalo relinchou de alegria, e a todo o galope foi até ele
príncipe e estacou à sua frente, como se enraizado no solo,
enquanto o Príncipe Milano e Jacinta montavam-lhe nas costas.
Depois, saiu a correr desabalado em frente, como uma flecha
disparada dum arco.
Enquanto isso, o Mágico aguardava impacientemente pelo
príncipe. Enfurecido pela demora, mandou seus servos irem buscá-
lo, pois o prazo já expirara.
Os servos foram até a porta e, encontrando-a trancada, bateram;
mas o hálito congelado na parede lhes respondeu, com a voz do
Príncipe Milano:
— Já estou indo – e com esta resposta voltaram ao Mágico.
Porém, quando o príncipe mais uma vez não apareceu, após um
tempo lá foram os servos pela segunda vez a fim de trazê-lo. E o
hálito congelado dava-lhes sempre a mesma resposta – mas o
príncipe que era bom, nada. Enfim o Mágico perdeu toda a
paciência e ordenou que se arrombasse a porta. Mas quando os
servos a deitaram abaixo, viram que o quarto estava vazio, e o hálito
congelado soltou uma gargalhada. Fora de si de tão furioso, o
Mágico ordenou que o príncipe fosse perseguido.
Então seguiu-se uma perseguição feroz.
— Ouço cascos de cavalo atrás de nós – disse Jacinta para o
príncipe. Milano saltou do selim, pôs a orelha no chão e escutou.
— Sim – respondeu ele –, estão a nos perseguir, e aliás já quase
nos alcançam.
— Então não há tempo a se perder – disse Jacinta, transformando-
se imediatamente num rio, e ao Príncipe Milano numa ponte de
ferro, e ao cavalo numa mérula. Para lá da ponte a estrada se
dividia em três.
Os servos do Mágico vieram correndo no encalço das pegadas
ainda frescas, mas quando chegaram à ponte detiveram-se, pois
detinham-se também ali, de repente, as pegadas, e eles não sabiam
qual das três estradas tomar. Apavorados, tremendo como varas
verdes, voltaram para dizer ao Mágico o que acontecera. Este
explodiu numa cólera terrível quando os viu e berrou:
— Seus palermas! O rio e a ponte eram eles! Voltai até lá e trazei-
me ambos imediatamente, ou sofrereis as consequências.
Então a perseguição recomeçou.
— Ouço cascos de cavalos – suspirou Jacinta. E lá se foi o
príncipe apear e colar a orelha no chão. – Estão cavalgando
depressa e já estão perto.
Num instante a Princesa Jacinta já se transformara a si mesma, ao
príncipe e ao cavalo numa floresta muito fechada, onde mil
caminhos e estradas cruzavam-se umas às outras. Seus
perseguidores entraram na floresta, mas buscaram em vão pelo
Príncipe Milano e por sua noiva. Ao fim e ao cabo, viram-se de volta
no mesmo lugar onde haviam começado e, desesperados,
retornaram uma vez mais de mãos vazias para o Mágico.
— Então eu mesmo hei de dar cabo dos canalhas! – gritou ele. –
Trazei meu cavalo imediatamente; de mim eles não escapam.
Mais uma vez a bela Jacinta murmurou:
— Ouço cascos de cavalo muito próximos.
E o príncipe respondeu:
— Estão a nos perseguir, com sebo nas canelas, e já se
encontram bastante perto.
— Agora estamos perdidos, pois desta vez quem aí vem é meu
pai. Mas seu poder há de cessar na primeira igreja que entrarmos, e
ele não mais poderá nos perseguir. Dá-me tua cruz.
O Príncipe Milano afrouxou de seu pescoço a pequena cruz
dourada que sua mãe lhe dera, e mal Jacinta nela tocou, já se
transformara a si mesma numa igreja, e virara Milano num padre, e
o cavalo, num campanário. Um instante depois lá estavam o Mágico
e seus servos.
— Viste porventura passar alguém por aqui a cavalo, padre? –
perguntou ao sacerdote.
— Não faz um minuto que o Príncipe Milano e a Princesa Jacinta
se foram embora; pararam aqui por alguns minutinhos para rezar e
me disseram para te dar cá esta vela e seus cumprimentos.
— Eu bem gostaria de lhes torcer os pescoços – disse o Mágico, e
à toda voltou para casa, onde fez com que cada um dos seus servos
fosse surrado quase até a morte.
O Príncipe Milano cavalgava vagaroso com sua noiva sem já temer
perseguição alguma. O sol estava a se pôr, e os seus últimos raios
iluminavam uma cidade enorme, da qual estavam se aproximando.
O Príncipe Milano de súbito foi acometido por um desejo ardente de
entrar na cidade.
— Ó, amado meu – implorou Jacinta –, por favor, não vás, pois
estou amedrontada, e temo algum mal.
— De que tens medo? – perguntou o príncipe. – Só o que faremos
é ir até a cidade, e por mais ou menos uma hora lá ver o que há
para se ver; depois, continuaremos nossa jornada para o reino de
meu pai.
— Conquanto seja fácil entrar na cidade, sair de lá não é tão fácil
quanto entrar – suspirou Jacinta. – Mas façamos o que desejas. Vai,
e eu hei de te esperar aqui, mas antes transformar-me-ei num
obelisco branco; rogo-te apenas para que tenhas muito cuidado. O
rei e a rainha da cidade hão de sair ao teu encontro, trazendo
consigo uma pequena criança. Não importa o que fizeres, não beijes
a criança, ou haverás de te esquecer para sempre de mim e de tudo
quanto nos aconteceu. Esperar-te-ei aqui por três dias.
E o príncipe se apressou para a cidade, ficando Jacinta para trás,
disfarçada dum obelisco branco na estrada. Passou-se o primeiro
dia, e então o segundo, e ainda o terceiro, mas nada de o Príncipe
Milano retornar. Pois o príncipe não fizera o que Jacinta lhe pedira.
O rei e a rainha saíram ao seu encontro, como ela dissera, trazendo
consigo uma garotinha loira encantadora, cujos olhos brilhavam
como estrelas. A criança logo entrou a afagar o príncipe que,
arrebatado por sua beleza, encurvou-se e depositou-lhe um beijo na
bochecha. Foi o quanto bastou para a sua memória apagar-se
todinha e ele esquecer-se por completo da bela Jacinta.
Ao ver que o príncipe não haveria de retornar, Jacinta pôs-se a
chorar amargamente. Transformando-se de um obelisco para uma
florzinha azul do campo, ela disse:
— Hei de crescer cá na beira da estrada até que algum transeunte
pise em mim. – E uma de suas lágrimas lá permaneceu como uma
gota de orvalho, rebrilhando na florzinha azul.
Ora, aconteceu que dali a pouco passou pela estrada um homem,
que, vendo a flor, ficou encantado com sua beleza. Arrancou-a
cuidadosamente pelas raízes e a levou para casa. Lá plantou-a num
vaso, e dava água e todo cuidado à plantinha. E então aconteceu a
coisa mais extraordinária do mundo, pois a partir daí tudo na casa
do velho se transformou. Sempre ao acordar pela manhã
encontrava o seu quarto já perfeita e lindamente arrumado, e não se
via em lugar algum um só grãozinho de poeira. Quando voltava para
casa ao meio-dia, topava numa mesa já posta com as iguarias mais
finas, e só o que tinha de fazer era sentar-se e esbaldar-se à
vontade. A princípio, ficou tão surpreso que não soube o que
pensar, mas depois de um tempo sentiu-se um tanto desconfortável
e foi até uma velha bruxa para lhe pedir um conselho.
A bruxa disse:
—Acorda antes de o galo cantar, e observa com cuidado até veres
algo se mover, e então rapidamente joga-lhe em cima este manto
aqui, e verás o que há de acontecer.
A noite toda o velho não pregou o olho. Mal o primeiro raio de luz
entrou no quarto, notou ele que a florzinha azul começou a tremer, e
por fim levantou-se do vaso e saiu a voar pela sala, a colocar tudo
em ordem – aqui limpando a poeira, acolá acendendo a lareira. Com
grande afobamento o velho saltou da cama e cobriu a flor com o
manto que a bruxa lhe dera, e num instante estava diante de si a
bela Princesa Jacinta.
— O que fizeste? – clamou ela. – Por que me trouxeste de volta à
vida? Pois não tenho razão para viver desde que meu noivo, o belo
Príncipe Milano, abandonou-me.
— O Príncipe Milano está prestes a se casar – respondeu o velho.
– Neste instante estão a fazer os preparativos para o banquete, e
todos os convidados estão afluindo para o palácio, vindos de todos
os lados.
A bela Jacinta chorou amargamente ao ouvir isso; depois, enxugou
as lágrimas e foi até a cidade, disfarçada de camponesa. Seguiu
direto à cozinha do rei, onde havia um vaivém e uma confusão de
cozinheiros com aventais brancos que não acabava mais. A
princesa foi até o chefe dos cozinheiros e disse:
— Querido cozinheiro, faze-me a grande mercê de ouvir meu
pedido, e deixa-me fazer um bolo de casamento para o Príncipe
Milano.
O atarefado cozinheiro estava para recusar-lhe o pedido e expulsá-
la da cozinha, mas as palavras morreram em sua garganta quando
se virou e viu diante de si a deslumbrante Jacinta. Então respondeu,
muito polido:
— Vieste no último segundo, bela donzela. Faz teu bolo, e eu
mesmo hei de colocá-lo diante do Príncipe Milano.
Fez o bolo rapidamente. Os convidados já estavam se apinhando
ao redor da mesa, quando o chefe dos cozinheiros entrou na sala, a
carregar um belíssimo bolo de casamento numa bandeja prateada,
e o colocou em frente ao Príncipe Milano. Ficaram todos
boquiabertos, pois que o bolo era uma obra de arte. O Príncipe
Milano não perdeu tempo e cortou-lhe um pedaço, e qual não foi a
sua surpresa quando de lá saíram duas pombas brancas, e uma
disse à outra:
— Meu querido, não voes para longe e me deixes para trás,
esquecendo-se de mim como o Príncipe Milano esqueceu-se de sua
amada Jacinta.
Milano suspirou profundamente ao ouvir a pombinha. Então, pôs-
se de pé subitamente e saiu a correr até a porta, onde encontrou a
bela Jacinta a esperá-lo. Lá fora estava o seu alazão de guerra,
dando patadas no chão. Sem parar um só instante, Milano e Jacinta
montaram-no e a todo galope foram para o reino do Rei Kojata. O
rei e a rainha os receberam com uma alegria e uma festa como se
nunca havia visto até então no mundo, e todos viveram felizes pelo
resto de suas vidas.
O Príncipe De Lua
e a Bela Helena

RA UMA VEZ UMA LINDA MOÇA chamada Helena. Quando era


ainda só uma criança, perdera a mãe, e sua madrasta
era com ela tão cruel e rude quanto uma madrasta
poderia ser. Helena fazia o quanto podia para ganhar o
seu amor, e as tarefas pesadas que lhe eram dadas cumpria com
bom humor e muito esmero; mas o coração da madrasta continuava
duro como pedra, e quanto mais a pobrezinha fazia, tanto mais a
malvada obrigava-a a fazer.
Um dia, deu a Helena cinco quilos de penas misturadas e lhe
ordenou que as separasse todas antes do cair da noite, ameaçando-
a com uma punição dura se não o fizesse.
A pobrezinha da moça sentou-se a fim de cumprir a tarefa, com os
olhos tão cheios de lágrimas que mal conseguia ver alguma coisa. E
quando fizera já uma pilhazinha de penas, suspirou tão
profundamente que lá se foram todas, sopradas e misturadas de
novo. E assim foi-se arrastando a tarefa, enquanto a pobrezinha se
sentia cada vez mais miserável. Afundou o rosto nas mãos e
chorou:
— Não haverá alguém sob o céu que se apiede de mim?
De repente, uma voz suave respondeu:
— Anima-te, filha minha, pois vim ajudar-te.
Branca de pavor, Helena olhou para cima e viu uma fada em pé à
sua frente, que lhe perguntou da maneira mais meiga possível:
— Por que estás a chorar, criança?
Helena, que há muito não sabia o que era ouvir uma voz amigável,
confiou à fada o seu triste relato de aflições e infortúnios e lhe
contou qual era sua nova tarefa e como estava angustiada, crente
de que nunca conseguiria cumpri-la.
— Não te preocupes mais com isso – disse a doce fada. – Deita e
dorme; eu hei de me certificar de que teu trabalho seja feito.
Helena, pois, foi dormir e, ao acordar, viu todas as penas
separadas em pequenos feixes; mas quando virou-se para
agradecer, já a boa fada sumira.
À noite sua madrasta voltou e ficou boquiaberta ao encontrar
Helena sentada e muito tranquila, com todo o trabalho feitinho à sua
frente.
Elogiou a sua diligência, ao mesmo tempo que quebrava a cabeça
para imaginar uma tarefa que lhe fosse ainda mais penosa e difícil.
No dia seguinte, ordenou a Helena que esvaziasse uma lagoa
perto de casa com uma colher toda esburacada. Helena pôs-se a
trabalhar imediatamente, mas logo descobriu que sua madrasta lhe
mandara fazer algo impossível. Já quase arrancando os cabelos,
amargurada, estava prestes a jogar a colher longe, quando de
repente a boa fada surgiu mais uma vez e lhe perguntou por que
estava tão triste.
Quando Helena contou-lhe a nova ordem da madrasta, ela disse:
— Confia em mim, e eu hei de fazer a tua tarefa por ti. Neste meio-
tempo, deita e tira um cochilo.
Helena acalmou-se e foi se deitar e, antes de qualquer um julgá-lo
possível, a fada acordou-a gentilmente e lhe disse que a lagoa
estava vazia. Cheia de alegria e gratidão, Helena foi correndo até a
madrasta, esperançosa de que agora ao menos conseguiria
amolecer-lhe um pouco o coração. Mas a mulher perversa ficou
antes furiosa por ver frustrados seus planos malignos, e só o que
fez foi quebrar ainda mais a cabeça, imaginando uma tarefa ainda
pior para a garota.
Na manhã seguinte ordenou-lhe que construísse, antes do cair da
noite, um maravilhoso castelo, e que o mobiliasse todinho, desde o
sótão até o porão. Helena sentou-se nas pedras que lhe haviam
sido apontadas como o local onde se devia construir o castelo,
muito tristonha, mas ao mesmo tempo com uma esperançazinha de
que a boa fada mais uma vez a socorresse.
E assim o foi. A fada apareceu, prometeu-lhe construir o castelo, e
disse a Helena que por enquanto fosse se deitar e dormisse. À
palavra da fada, lá saíram a voar as pedras e rochas, que foram
construindo por si mesmas o maravilhoso castelo, e antes do pôr do
sol o mobiliaram inteirinho – não deixando nada a se desejar. O
leitor pode imaginar a gratidão de Helena ao acordar e ver que sua
tarefa fora cumprida.
Mas sua madrasta ficou qualquer coisa menos satisfeita, e andou a
inspecionar o castelo inteiro, de cabo a rabo, a ver se não
encontrava uma falha qualquer pela qual pudesse punir Helena. Por
fim, desceu até um dos porões, mas lá estava tão escuro que
acabou por cair nas escadas íngremes e morreu na hora.
E assim Helena tornou-se a senhora do castelo, e lá vivia em paz e
alegria. Logo os rumores de sua beleza espalharam-se, e muitos
pretendentes vieram tentar ganhar a sua mão.
Entre os tais havia um certo Príncipe De Lua, que sem demora
ganhou o amor da bela Helena. Um dia, sentados muito felizes à
sombra de uma tília em frente ao castelo, o Príncipe De Lua contou
a Helena a triste notícia de que tinha de voltar aos seus pais, a fim
de lhes pedir o consentimento para o casamento. Prometeu voltar
tão rápido quanto pudesse, e lhe rogou para que aguardasse seu
retorno sob a tília onde haviam passado juntos tantas horas felizes.
Na sua partida, Helena deu-lhe um beijo carinhoso na bochecha
esquerda e implorou ao príncipe que não deixasse ninguém mais
beijá-lo enquanto estivessem separados, e lhe prometeu que ficaria
sentada, aguardando-o debaixo da tília, pois não tinha a menor
dúvida de que o príncipe haveria de ser-lhe fiel e retornaria tão logo
pudesse.

Sentou-se, então, por três dias e três noites, sem mover um só


músculo, sob a tília. Mas como seu amado não voltasse, tornou-se
muito infeliz e resolveu sair mundo afora à sua procura. Tomou
quantas de suas joias era capaz de carregar, além de três dos
vestidos mais lindos que tinha – um cravejado de estrelas, o outro,
de luas, e ainda o terceiro, de sóis, todos feitos de ouro puro. Correu
mundo de ponta a ponta, mas em lugar algum pôde encontrar
qualquer sinal de seu noivo. Finalmente, já sem esperanças, abriu
mão da busca. Não suportaria retornar ao castelo onde fora outrora
tão feliz com seu amado, e resolveu antes tolerar a solidão e a
desolação numa terra estranha. Foi apascentar o gado para uma
camponesa, e enterrou suas joias e belos vestidos num local seguro
e bem escondido.
Todos os dias levava o gado para pastar, e a todo o tempo não lhe
havia na cabeça nada senão o noivo infiel. Devotara-se sobretudo a
um certo bezerrinho do rebanho, e fez dele um bichinho de
estimação, dando-lhe de comer com as próprias mãos. Ensinou-lhe
também a ajoelhar-se perante ela, e então sussurrou em seu
ouvido:
De joelhos, bezerrinho, de joelhos;
Sê bem fiel e escuta meus conselhos,
Não como fez o Príncipe De Lua,
Que aos pés de uma tília, certa vez,
Abandonou a bela e nobre Helena
Por pura e sua grande estupidez.
Decorridos alguns anos, ouviu que a filha do rei do país em que
vivia estava para se casar com um príncipe chamado “De Lua”.
Todos se alegraram com a notícia – todos, menos Helena, para
quem a nova foi um golpe terrível, pois lá no fundo do coração
sempre acreditara que o amado lhe fora fiel.
Ora, calhou de a estrada até a capital atravessar bem a vila onde
Helena morava, e muitas vezes, enquanto ela apascentava o gado
até os prados, o Príncipe De Lua passava de cavalo ao seu lado e
nem sequer notava a pobre moça, tão absorvido que estava a
pensar em sua outra noiva. Então ocorreu a Helena a ideia de pôr
seu coração à prova, a ver se não seria possível fazê-lo lembrar-se
dela. Então um dia, enquanto o Príncipe De Lua passava, disse ela
ao seu bezerrinho:
De joelhos, bezerrinho, de joelhos;
Sê bem fiel e escuta meus conselhos,
Não como fez o Príncipe De Lua,
Que aos pés de uma tília, certa vez,
Abandonou a bela e nobre Helena
Por pura e sua grande estupidez.
Ao ouvir sua voz, o Príncipe De Lua pareceu lembrar-se de algo,
mas exatamente de quê não sabia, pois não ouvira as palavras com
clareza, já que Helena as dissera bem baixinho, numa voz trêmula.
A própria Helena estava por demais comovida para averiguar que
efeito suas palavras tiveram no príncipe, e quando olhou em volta,
ele já ia longe. Mas ela notou como ele estava a cavalgar vagaroso,
e quão imerso estava nos próprios pensamentos, e assim não se
dera completamente por vencida.
Em honra ao casório que se aproximava, haveria de se dar um
banquete na capital que se estenderia por várias noites. Helena
depositou quantas esperanças tinha nisto, e resolveu ir até o
banquete e lá sair à procura de seu noivo.
Quando a noite estava para cair, ela saiu sorrateiramente da
choupana da camponesa e, indo até seu esconderijo, pôs o vestido
engastado de sóis dourados, além de todas as joias, e soltou o seu
lindíssimo cabelo dourado, o qual até ali tinha usado sempre
debaixo de um lenço. Assim adornada, lá se foi para a cidade.
Ao entrar no salão do baile, todos os olhos voltaram-se para ela, e
queixos caíam a torto e a direito pela sua beleza, mas ninguém a
conhecia. Também o Príncipe De Lua ficou deslumbrado com os
encantos da linda donzela, e nem sequer imaginou que ela outrora
fora a sua amada. Não saiu do seu lado a noite inteira, e foi só com
muita dificuldade que Helena conseguiu escapar dele em meio à
multidão, quando chegou a hora de voltar para casa. O Príncipe De
Lua procurou-a por toda parte, e ficou a aguardar, sôfrego, a noite
seguinte, quando a linda senhorita prometera voltar.
Na noite seguinte, a bela Helena veio cedo ao banquete.
Desta vez viera com o vestido engastado de luas prateadas, e no
cabelo pusera um crescente de prata. O Príncipe De Lua ficou
encantado por vê-la mais uma vez, e a senhora parecia-lhe estar
ainda mais bela que na noite anterior. Não saiu um só segundo do
seu lado, e não queria dançar com mais ninguém. Rogou-lhe para
que lhe contasse quem era, mas ela se recusou. Depois rogou-lhe
muito para que voltasse na próxima noite, e isto ela lhe prometeu
que faria.
Na terceira noite o Príncipe De Lua estava já tão impaciente para
ver a sua ninfa mais uma vez, que chegou ao banquete horas antes
de a coisa começar, não despregando um só segundo o olhar da
porta. Enfim, Helena lá chegou, com um vestido de estrelas
douradas e prateadas e uma guirlanda de estrelas na cintura, além
duma tiara de estrelas no cabelo. O Príncipe De Lua estava agora
mais apaixonado do que nunca, e implorou, de novo, para que ela
lhe contasse qual era o seu nome.
Então Helena beijou-lhe silenciosamente a bochecha esquerda, e
num instante o Príncipe De Lua reconheceu seu antigo amor. Cheio
de remorso e tristeza, implorou por seu perdão. Helena, felicíssima
por tê-lo conseguido de volta, não o deixou – podeis ter certeza – a
esperar muito pelo perdão, e assim se casaram e voltaram ao
castelo de Helena, onde ainda certamente estão sentados, felizes, à
sombra da tília.
Batraquinha

RA UMA VEZ UMA MULHER pobre que tinha uma filhinha


chamada Salsinha. Assim se chamava a menina porque
preferia salsinha a qualquer outro alimento, e muito a
contragosto comia outra coisa. Sua pobre mãe não tinha
dinheiro para satisfazer-lhe o capricho o tempo todo; porém, a
menina era tão linda que a mulher não conseguia recusar-lhe coisa
alguma, e por isto, em vistas de agradar à filha, todas as noites
entrava no jardim de uma velha bruxa que morava ali perto e
roubava-lhe vários talos da cobiçada planta.
Este gosto tão peculiar da delicada Salsinha tornou-se em breve
conhecido de todos, e assim não havia mais jeito de esconder a
autoria dos furtos. A velha bruxa foi ter com a mãe da menina e
propôs-lhe que a deixasse ir morar consigo, onde poderia comer
salsinha até não mais querer. A sugestão lhe pareceu boa, então lá
se foi a bela Salsinha a morar com a bruxa.
Certo dia, três príncipes, os quais o pai tinha mandado correr
mundo, vieram parar no vilarejo onde morava Salsinha; tão logo
perceberam aquela bela moça à janela a pentear suas longas
cabeleiras negras, ficaram perdidamente apaixonados e desejaram
tomá-la por esposa; contudo, assim que manifestaram seu desejo
em uníssono, ferveu-lhes tanto o ciúme que desembainharam suas
espadas e lançaram-se uns contra os outros. Tão violenta foi a luta,
e tão barulhento o rebuliço, que chegou aos ouvidos da bruxa, que
logo disse:
— É certo que Salsinha está por trás disso.
Assim que se persuadiu desta verdade, deu um passo à frente e,
enfurecida com a disputa que a beleza da moça provocava, rogou-
lhe a seguinte praga:
— Transforma-te num sapo asqueroso e vai viver sob a ponte mais
remota do mundo!
Mal tinham saído essas palavras da boca da bruxa, converteu-se a
pobre Salsinha num sapo, e logo sumiu da frente deles. Os
príncipes, agora que lhes fora retirado o objeto de sua contenda,
embainharam as espadas, beijaram-se fraternalmente, e voltaram
ao palácio de seu pai.
O rei, como já estivesse muito velho e a cada dia se
enfraquecesse mais, queria passar o cetro adiante a algum de seus
filhos, mas não conseguia decidir qual deles tomaria seu posto;
determinou então que os fados o decidissem no seu lugar. Chamou
os três filhos e falou:
— Meus queridos filhos, estou ficando velho, e a cada dia me
aborrece mais a governança; porém não consigo decidir a qual de
vós passarei adiante a coroa, porque vos amo a todos igualmente.
Ao mesmo tempo, contudo, gostaria que o mais hábil dentre vós
governasse meu povo, e por isto resolvi encarregar-vos de três
tarefas; quem as melhor desempenhar há de herdar este trono. A
primeira coisa que vos peço é que tragais até mim uma peça de
linho de cem jardas de comprimento, que seja fina o bastante para
atravessar um anel de ouro.
Os três fizeram reverência ao pai, prometeram que dariam o
melhor de si e, sem mais tardar, puseram-se a caminho.
Os dois mais velhos foram acompanhados de muitos servos e
carruagens; o mais novo, porém, seguiu sozinho. Em pouco tempo
chegaram a um ponto da estrada onde se encontravam três
caminhos: dois deles eram alegres e cheios de gente, e o terceiro
escuro e solitário.
Os irmãos mais velhos escolheram os caminhos mais
frequentados; o mais novo, porém, despedindo-se dos outros dois,
seguiu pelo caminho lúgubre. Aonde quer que ouvissem dizer que
se vendia linho, para lá disparavam os dois irmãos mais velhos, e
em pouco tempo carregaram suas carruagens de muitos fardos do
linho mais fino que encontraram e se foram de volta para casa.
O irmão mais novo, por sua vez, por vários dias trilhou seu
caminho árido sem topar com peça alguma de linho que cumprisse
os requisitos do pai. Seguiu, pois, em frente, a cada passo se
abatendo um pouco mais. Ao fim de muito caminhar, alcançou um
rio profundo que escorria por um pântano e sobre o qual cruzava
uma ponte. Antes de atravessá-la, sentou-se à margem do rio e
entre suspiros lamentou sua desfortuna. De repente, uma sapa
disforme rastejou para fora do brejo, sentou-se à sua frente e lhe
perguntou:
— O que há, meu caro príncipe?
O príncipe respondeu com impaciência:
— De que me adianta contá-lo a ti, Batraquinha? Não poderias me
ajudar em nada.
— Como sabes? ‒ respondeu a sapa. ‒ Conta-me o que te aflige e
veremos o que posso fazer.
O príncipe então abriu o coração com a criaturinha e lhe contou
com que missão saíra do reino de seu pai.
— Príncipe, fica certo de que te ajudarei.
Ditas estas palavras, o bicho entrou novamente em seu brejo e, ao
emergir, trouxe de dentro uma peça de linho do tamanho de um
dedo; depositou-a na frente do príncipe e disse:
— Leva isto para casa; prometo que te ajudará.
Ao príncipe não interessava em nada levar consigo um volume de
linho tão insignificante, mas, como não quisesse ofender
Batraquinha, não o recusou; pegou o presente, colocou-o no bolso e
despediu-se da sapa. Batraquinha o observou até sumir de vista e
depois se arrastou novamente brejo adentro.
À medida que se afastava o príncipe, o rolo de linho se tornava
cada vez mais pesado no bolso, e o coração, cada vez mais leve no
peito. Assim consolado, pôs-se a caminho do palácio, e o alcançou
no exato momento em que seus dois irmãos chegavam com suas
caravanas. Deleitou-se o pai de rever seus meninos, e sem mais
tardar tirou o anel do dedo para dar início à prova. De todos os
carregamentos de linho que os irmãos mais velhos compraram, não
havia uma só peça que atravessasse o anel por mais de dez jardas;
e os dois que haviam desconsiderado o irmão mais novo por voltar
sem bagagem nenhuma sentiram-se um tanto humilhados. Mas
quem descreverá o que sentiram quando o irmão mais novo tirou do
bolso um rolo de linho de fineza, brancura e maciez insuperáveis!
Os fios mal se podiam ver; sem a menor dificuldade o linho
atravessava o anel de cabo a rabo, e media cem jardas sem tirar
nem pôr.
O pai abraçou o filho afortunado e mandou atirar na água as
demais peças de linho; virando-se novamente aos filhos, disse:
— Preparai-vos agora, queridos príncipes, para a segunda tarefa.
Deveis trazer-me um cão pequeno o bastante para caber com folga
numa casca de noz.
Os filhos todos se desanimaram com essa nova demanda, mas,
como quisessem obter a coroa, determinaram-se a dar o melhor de
si, e após poucos dias partiram novamente.
Apartaram-se mais uma vez na mesma encruzilhada. O mais novo
seguiu desacompanhado pela estrada solitária, só que desta vez
muito mais confiante. Apenas se sentou sob a ponte e soltou um
suspiro, Batraquinha saiu da água e, sentando-se à sua frente,
perguntou:
— O que há desta vez, meu caro príncipe?
O príncipe, que já não duvidava do quanto podia a sapinha,
contou-lhe de imediato seu problema.
— Príncipe, vou ajudar-te! ‒ disse a sapa, e rastejou para dentro
de seu brejo o mais rápido que suas perninhas permitiam. Voltou
trazendo consigo uma avelã e a depositou aos pés do príncipe,
dizendo: – Leva esta avelã para casa e pede a teu pai que a abra
com muito cuidado; verás em seguida o que acontecerá.
O príncipe agradeceu-lhe de coração e seguiu seu caminho no
melhor dos humores, enquanto Batraquinha rastejava de volta para
seu brejo.
Ao alcançar o palácio, viu que os irmãos haviam recém chegado
com suas carruagens, portando nelas vários carregamentos de
cãezinhos de toda sorte. Com a casca de noz em mãos, o rei deu
início às provas, contudo, nenhum dos cãezinhos que os filhos mais
velhos haviam trazido chegou sequer perto de caber na casca.
Depois que todos os cãezinhos foram testados, o filho mais novo
entregou ao pai sua avelã, fez-lhe reverência e pediu que a
quebrasse com muito cuidado. Apenas a quebrou o velho rei, pulou
de dentro dela um cãozinho muito simpático, que ficou dando voltas
na mão aberta do monarca, balançando o rabinho e latindo
energicamente para os outros cães. Foi grande no palácio o
regozijo. O pai abraçou novamente o filho afortunado, mandou
submergir os demais cãezinhos para se afogarem e dirigiu-se outra
vez aos filhos:
— Já cumpristes as tarefas mais difíceis. Ouvi agora a terceira e
última: quem voltar para casa com a esposa mais bela, há de ser
meu herdeiro.
Pareceu-lhes tão fácil e agradável este pedido, e tão magnífica a
recompensa, que não perderam tempo e puseram-se logo a
caminho. Ao chegarem à encruzilhada, os dois mais velhos ficaram
em dúvida se não era melhor seguir o mesmo caminho que o mais
novo, mas o caminho era tão sombrio e desolado que se
desmotivaram, pensando ser impossível encontrar o que buscavam
naquela região inóspita; então seguiram pelos seus caminhos de
sempre.
O mais novo, porém, estava muito desanimado desta vez e falou
consigo:
— Em qualquer outra coisa Batraquinha poderia me ajudar, mas
esta tarefa vai além das capacidades dela. De onde ela vai tirar uma
bela esposa para mim? Os pântanos que habita são vastos e
desertos, e nenhum homem vive ali, apenas sapos, rãs e outros
bichos afins.
Não obstante, sentou como de costume embaixo da ponte,
suspirando do fundo do coração.
Não demorou para que a sapa se colocasse à sua frente e
perguntasse:
— O que há desta vez, meu caro príncipe?
— Ah, Batraquinha, desta vez não poderás me ajudar, pois a tarefa
está além do teu poder ‒ replicou o príncipe.
— Ainda assim ‒ falou a sapa ‒ conta-me tua adversidade, pois
quem sabe se desta vez não consigo ajudar-te novamente?
O príncipe então lhe contou a tarefa de que fora encarregado.
Disse Batraquinha:
— Podes ter certeza que te ajudarei, meu caro príncipe. Vai para
casa, que logo te seguirei.
Ditas estas palavras, Batraquinha, com uma lepidez muito
diferente do que até então se vira nela, saltou para dentro da água e
desapareceu.
O príncipe se levantou e seguiu tristemente seu caminho, pois não
acreditava que a sapinha pudesse realmente ajudá-lo desta vez.
Havia dado apenas uns poucos passos quando escutou vir algo
atrás de si. Ao voltar os olhos, viu uma carruagem feita de papelão
puxada por seis enormes ratos. Dois ouriços-batedores cavalgavam
à sua frente, escoltando-a; sentado na boleia, um camundongo
roliço a conduzia; na parte posterior do veículo, sobre uma
plataforma, dois sapos-lacaios iam de pé. No interior da carruagem
estava sentada Batraquinha, que ao passar pelo príncipe soprou-lhe
um beijo.
Remoendo no pensamento os caprichos de sua fortuna, que lhe
concedera dois de seus desejos e agora lhe negava o terceiro e
melhor deles, o príncipe mal notou a absurda equipagem do carro, e
muito menos lhe passou pela cabeça rir-se da aparência cômica de
tudo aquilo.
A carruagem seguiu à sua frente por um tempo, até que dobrou
numa curva. Qual não foi a surpresa do príncipe quando, ao virar a
mesma curva, viu um lindo coche vindo em sua direção, puxado por
seis magníficos cavalos, com batedores, cocheiros, e vários criados
vestidos de belíssimas librés; sentada em seu interior estava a
mulher mais bela que o príncipe jamais vira; e, assim que a olhou,
reconheceu ser ela a graciosa Salsinha, por quem ardera de paixão
antigamente. Quando o coche parou a seu lado, dois criados
saltaram e abriram para ele a porta. O príncipe entrou e sentou-se
ao lado da linda Salsinha, agradecendo-lhe encarecidamente pela
ajuda e confessando-lhe seu grande amor.
Chegou na cidade do pai junto com os irmãos, que portavam nas
suas carruagens vários carregamentos de lindas mulheres. Porém,
depois que todas foram levadas à presença do rei, a corte inteira em
uníssono agraciou os louros da beleza à formosa Salsinha.
O velho rei estava encantado. Abraçou carinhosamente o filho três
vezes afortunado e sua nova esposa, nomeou-os herdeiros do trono
e mandou atirar na água e afogar as demais mulheres, no mesmo
lugar que os cãezinhos e as peças de linho. O príncipe casou-se
com Batraquinha e com ela reinou feliz por longos anos; e, se já não
morreram, é bem provável que ainda estejam vivos.
A história de
Hok Lee e os Anões

M UMA CIDADEZINHA DA CHINA, viveu certa vez um homem


chamado Hok Lee. Era muito trabalhador e diligente, e
não apenas se entregava com afinco ao seu ofício,
como também fazia todo o serviço doméstico, já que não
tinha esposa para fazê-lo por ele. “Que homem excelente e
aplicado, esse Hok Lee!”, comentavam seus vizinhos. “Trabalha
muito! Nunca sai de casa para se divertir ou aproveitar um feriado,
como toda a gente.”
Mas Hok Lee estava longe de possuir as virtudes que os vizinhos
lhe atribuíam. É verdade que trabalhava muito durante o dia, mas, à
noite, quando todos os homens de bem dormiam o sono dos justos,
ele costumava sair furtivamente e juntar-se a um perigoso bando de
salteadores, que invadia casas de gente rica e roubava tudo que
estivesse ao seu alcance.
Esse estado de coisas prolongou-se por algum tempo, e, embora
se apanhasse um ladrão de vez em quando, nenhuma suspeita
jamais recaía sobre Hok Lee, que era um homem tão respeitável e
trabalhador!
Hok Lee já conseguira acumular considerável fortuna com a
parcela que lhe tocava desses roubos quando, certa manhã, ao
dirigir-se ao mercado, um vizinho lhe disse:
— Ora, Hok Lee, que há com teu rosto? Um dos lados está todo
inchado.
Realmente, a face direita de Hok Lee tinha o dobro do tamanho de
sua face esquerda, e isso logo tornou-se bastante incômodo.
— Vou ajeitar meu rosto – disse Hok Lee. – Sem dúvida, uma
compressa morna há de curar o inchaço.
Mas tal não ocorreu. No dia seguinte a situação estava pior, e sua
bochecha continuou inchando dia após dia, até que se tornou tão
grande quanto sua cabeça, e passou a doer muito.
Hok Lee estava à beira do desespero. Como se não bastasse sua
face disforme e dolorida, os vizinhos começaram a escarnecê-lo e a
ridicularizá-lo, o que muito feria seus sentimentos.
Certo dia, por um feliz acaso, um médico viajante aportou à cidade.
Ele não só vendia todo tipo de remédio, como também negociava
estranhos encantamentos contra a ação de bruxas e espíritos
malignos.
Hok Lee decidiu consultar-se com ele e convocou-o até sua casa.
Depois de examiná-lo com cuidado, o médico afirmou:
— Isto, meu caro Hok Lee, não é um inchaço comum. Tenho fortes
suspeitas de que andaste cometendo algum delito que atraiu sobre
ti a ira dos espíritos. Nenhum desses medicamentos poderá curar-
te, mas, se estiveres disposto a remunerar-me generosamente,
posso dizer como te podes curar.
Então teve início uma dura negociação entre Hok Lee e o médico,
e demorou muito até que chegassem a um acordo. O médico, no
entanto, levou a melhor no final, pois estava determinado a não
compartilhar seu segredo por menos que um determinado preço, e
Hok Lee não estava disposto a carregar sua enorme bochecha a
vida inteira. Viu-se, assim, obrigado a abrir mão da maior parte de
sua riqueza ilicitamente obtida.
Assim que o médico embolsou o dinheiro, instruiu Hok Lee que
fosse a uma certa floresta na primeira noite de lua cheia e lá ficasse
à espreita junto a uma determinada árvore. Depois de um tempo, ele
veria emergir dos subterrâneos os anões e uns pequenos espíritos,
que sairiam para dançar. Quando essas criaturas o vissem, é certo
que o convidariam para dançar também.
— Deves dançar o melhor que puderes – acrescentou o médico. –
Se dançares bem e eles se agradarem, conceder-te-ão um pedido,
e poderás pleitear tua cura; mas se dançares mal, o mais certo é
que se darão por ultrajados e se vingarão de ti.
E com essas palavras despediu-se e foi-se embora.
Felizmente aproximava-se a primeira noite de lua cheia e, no
tempo certo, Hok Lee tomou a direção da floresta. Teve algum
trabalho para encontrar a árvore que o médico descrevera e,
sentindo-se um tanto nervoso, nela subiu.
Mal havia se assentado sobre um galho quando viu os pequenos
anõezinhos reunindo-se à luz da lua. Vinham de todas as direções,
até que, por fim, parecia haver centenas deles. Tudo indicava que
estavam alegres: dançavam, saltitavam e davam cabriolas no ar.
Ansioso por vê-los melhor, Hok Lee foi-se arrastando sobre o tronco
da árvore até provocar um estalido alto e seco. Todos os anões
estancaram imediatamente, e Hok Lee sentiu como se seu coração
estancasse também.
Então, um dos anões disse:
— Há alguém no alto daquela árvore. Desce imediatamente, quem
quer que sejas, ou iremos atrás de ti.
Tomado de pavor, Hok Lee começou a descer, mas, de tão
nervoso, pisou em falso já próximo ao chão, e foi rolando da
maneira mais ridícula possível. Quando se recompôs, apresentou-se
com uma reverência, e o anão que havia falado primeiro,
aparentemente o líder, perguntou-lhe:
— Quem és tu, e o que queres aqui?
Então Hok Lee narrou-lhe a triste história do inchaço em sua face,
e falou sobre o conselho que recebera para ir à floresta e pedir aos
anões que o curassem.
— Está bem – respondeu o anão. – Veremos o que podemos fazer.
Todavia, deves primeiro dançar para nós. Se tua dança nos agradar,
pode ser que te ajudemos; mas se dançares mal, com toda a
certeza te puniremos. Estás avisado; agora põe-te a dançar.
Após dizer isso, o anão e todos os demais sentaram-se formando
um enorme círculo, deixando Hok Lee a dançar sozinho no centro.
Ele, por sua vez, estava transido de medo e, muito abalado pela
queda da árvore, não tinha a menor vontade de dançar. Mas os
anões não estavam para brincadeira.
— Começa! – ordenou o líder, e os demais anões gritaram em
coro: – Começa!
Então, aflito, Hok Lee começou a se mover. Saltou sobre um dos
pés, depois sobre o outro, mas seu corpo estava tão rijo, e ele
mesmo tão nervoso que suas tentativas todas falharam. Depois de
um tempo desabou no chão e declarou que não podia continuar.
Os anões ficaram enfurecidos. Ajuntaram-se em torno de Hok Lee
e o maltrataram.
— Vieste aqui para ser curado, pois sim! – disseram. – Chegaste
com uma das bochechas inchada, mas partirás com duas.
Disseram isso e desapareceram, deixando Hok Lee sozinho e
desamparado para encontrar o rumo de casa.
Foi-se embora coxeando, exausto e abatido, e um bocado receoso
quanto à ameaça que o anão lhe fizera.
E não era sem razão o seu receio, pois, na manhã do dia seguinte,
sua face esquerda estava tão inchada quanto a direita, e ele mal
podia distinguir seus próprios olhos. Hok Lee ficou desesperado, e
seus vizinhos zombaram dele mais do que nunca. O médico, por
sua vez, desaparecera. Nada lhe restava senão tentar uma vez mais
com os anões.
Esperou por um mês, até a primeira noite de lua cheia, e então
meteu-se de novo na floresta, trilhando o caminho com dificuldade,
e por fim assentou-se sob a mesma árvore de outrora. Não precisou
esperar muito. Dentro em pouco vieram os anões, em bando, até
que estivessem todos reunidos.
— Estou incomodado – disse um deles. – Sinto como se um
horrendo ser humano nos espreitasse.
Hok Lee ouviu estas palavras e deu um passo adiante, curvando-
se até o chão diante dos anões, que então se ajuntaram ao seu
redor, rindo-se às gargalhadas daquelas bochechas enormes.

— Que queres aqui? – perguntaram, e Hok Lee narrou-lhes seus


últimos infortúnios, e implorou tanto que tivesse mais uma chance
na dança, que por fim os anões consentiram, pois nada amavam
mais no mundo que uma boa diversão.
Ora, Hok Lee sabia o que estava em jogo; armou-se de coragem e
começou, primeiro bem devagar, acelerando aos poucos, e dançou
tão bem e com tanta graça, inventando tantos passos fabulosos,
que os anões ficaram muito satisfeitos. Aplaudiam batendo as
diminutas mãozinhas e gritavam:
— Muito bem, Hok Lee, muito bem! Continua, estamos gostando!
E Hok Lee dançou à exaustão, até que não pôde mais dançar e
teve de parar. Então o líder dos anões disse:
— Estamos satisfeitos, Hok Lee, e, como recompensa por tua
dança, tua face será curada. Adeus.
Depois de pronunciar essas palavras, o anão e todos os demais
desapareceram, e Hok Lee, pousando a mão sobre as faces,
constatou, para sua grande alegria, que haviam voltado ao tamanho
normal. O caminho de volta para casa pareceu-lhe curto e fácil de
percorrer, e ele foi dormir feliz, decidido a nunca mais roubar.
No dia seguinte, a cidade inteira estava sabendo da súbita cura de
Hok Lee. Seus vizinhos o questionavam, mas ele nada dizia, exceto
que havia descoberto uma cura fabulosa para quaisquer males.
Passado um tempo, um vizinho rico, que vivia doente fazia alguns
anos, procurou Hok Lee e ofereceu-lhe uma fortuna para que ele
contasse como havia-se curado. Hok Lee concordou em dizer a
verdade, contanto que ele jurasse manter a revelação em segredo.
O homem jurou, e Hok Lee contou-lhe sobre os anões e a dança.
O vizinho se foi e seguiu ponto por ponto o que Hok Lee lhe
dissera, e foi curado pelos anões. A ele seguiu-se outro, e mais
outro, todos implorando a Hok Lee que revelasse o segredo, e de
cada um Hok Lee exigia um juramento de segredo e uma boa
quantia em dinheiro. Assim transcorreram os anos, até que por fim
Hok Lee tornou-se muito rico, e terminou seus dias gozando de paz
e prosperidade.[ 21 ]

[ 21 ] Conto chinês.
A história dos
Três Ursos

RA UMA VEZ TRÊS URSOS que moravam juntos numa casa


na floresta. Um deles era um Ursinho-de-Nada-Miúdo-
que-Só; e o outro era um Urso-Mediano, e o último, por
fim, era um Urso-Enorme-e-Gigantesco. Cada um tinha
o seu próprio pote para o mingau; um potezinho para o Ursinho-
deNada-Miúdo-que-Só; e um pote mediano para o Urso-Mediano; e
um pote enorme para o Urso-Enorme-e-Gigantesco. E cada um
tinha a sua cadeira para nela se sentar: uma cadeirinha para o
Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só; uma cadeira mediana para o Urso-
Mediano, e uma cadeira enorme para o Urso-Enorme-e-Gigantesco.
E cada um tinha a sua cama, para nela dormir: uma caminha para o
Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só, uma cama mediana para o Urso-
Mediano; e uma cama enorme para o Urso-Enorme-e-Gigantesco.
Um dia fizeram o mingau para o café da manhã e o despejaram
nos seus três potes, e então foram passear na mata. É que a
refeição tinha de esfriar, caso contrário lhes queimaria as línguas
todinhas. Enquanto passeavam, uma velhinha foi até a casa deles.
Ela não podia ser uma daquelas velhinhas boas e honestas, pois
logo se pôs a espiar o interior da casa, primeiro pela janela e depois
pelo buraco da fechadura. Assim, já certa de que não havia
ninguém, abriu a porta. Ora, a porta não estava trancada porque os
ursos eram ursos bons, que não faziam mal a ninguém, e jamais
suspeitariam que alguém lhes fosse fazer mal. Então a velhinha
abriu a porta e lá entrou; e ficou feliz da vida ao ver os potes de
mingau na mesa. Se fosse uma boa velhinha, teria aguardado até
os ursos voltarem para casa, e aí, talvez, eles lhe teriam oferecido
um café da manhã, pois eram bons ursos – um tantinho rudes, é
verdade, como é o jeito dos ursos, mas ainda assim bondosos e
muito hospitaleiros. Porém, a velha não era boazinha: era
descarada e malvada, e já foi se servindo.
Primeiro, provou o mingau do Urso-Enorme-e-Gigantesco; e o
mingau estava quente demais para a velha, que soltou um palavrão.
Depois, provou o mingau do Urso-Mediano; e este estava frio
demais para ela, que soltou outro palavrão. Por último, provou o
mingau do Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só; e este não estava nem
muito quente, nem muito frio, mas no ponto certo; e ela tanto gostou
do mingau que o comeu todinho. Mas de novo a velha malcriada
soltou um palavrão, pois que não havia ali o suficiente para encher-
lhe o estômago.
Então a velhinha sentou-se na cadeira do Urso-Enorme-e-
Gigantesco, e esta lhe era dura demais. Depois, sentou-se na
cadeira do Urso-Mediano, e esta era macia demais. E depois ainda
sentou-se na cadeira do Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só, e esta não
era nem dura demais, nem macia demais, mas perfeita. Assim, pois,
acomodou-se ali muito confortável e ficou sentada, até que o fundo
da cadeira plaft!, se soltou, e lá se foi ela com o fundo, a bater com
o traseiro no chão. E a velha malvada soltou um palavrão por causa
disto também.
Então a velhinha subiu as escadas e foi até o quarto onde os três
ursos dormiam. Primeiro deitou-se na cama do Urso-Enorme-e-
Gigantesco; mas a cama era-lhe muito alta para a cabeça. Em
seguida, deitou-se na cama do Urso-Mediano, e esta era-lhe muito
alta para os pés. Enfim, deitou-se na cama do Ursinho-de-Nada-
Miúdo-que-Só; e esta não era muito alta nem na cabeça, nem nos
pés, mas perfeita. E lá se cobriu ela, toda confortável, até que
adormeceu.
uma fonte de água límpida; porém, recém havia deitado sobre o
musgo da ribeira quando ouviu um ruidoso farfalhar vindo de uns
arbustos próximos. Do meio deles pulou uma linda gazelinha, que,
exausta e ofegante, caiu a seus pés, arfando:
— Ó, Viviano! Salva-me!
O príncipe, estupefato, ergueu-se num sobressalto e mal teve
tempo de puxar a espada, quando se viu frente a frente com um
grande leão verde, que corria ao encalço da pobre gazelinha numa
perseguição frenética. Príncipe Viviano o atacou intrepidamente, e
seguiu-se um feroz embate; não demorou, contudo, a terminar, pois
logo em seguida o príncipe finalmente derrubou o leão com um
terrível golpe. Ao cair, o leão assobiou três vezes, e com tanta força
que a floresta ecoou os assobios, e o som foi ouvido por mais de
duas léguas de distância; depois, nada mais tendo a fazer, o leão
rolou de lado e morreu. O príncipe, sem prestar mais atenção à fera
e seus assobios, voltou-se para a graciosa gazela e disse:
— Pois bem! Estás satisfeita agora? Já que sabes falar, dize-me
agora mesmo, por favor, o que está acontecendo e como sabes meu
nome.
— Ah, mas preciso descansar um bom tempo antes de voltar a
falar ‒ replicou a gazela. ‒ Além do quê, duvido muito que queiras
me ouvir, pois a coisa está longe de ter chegado ao fim. Para falar a
verdade ‒ continuou ela, em sua voz lânguida ‒, dá uma olhadinha
atrás de ti.
O príncipe virou-se bruscamente e, para seu horror, viu um enorme
gigante aproximando-se a passos largos e gritando ferozmente:
— Quem fez meu leão assobiar, quero saber!
— Fui eu ‒ respondeu corajosamente o Príncipe Viviano ‒, mas te
garanto que ele não fará isso de novo.
Ao ouvir estas palavras, o gigante começou a gemer e chorar.
— Ai de mim, meu pobre Pequerrucho, meu querido bichinho! ‒
exclamou. ‒ Mas ao menos poderei me vingar de tua morte!
Ditas estas palavras, avançou sobre o príncipe, brandindo uma
imensa serpente enrolada no pulso. O príncipe calmamente virou
contra ela a espada para desferir um tremendo golpe; bastou,
contudo, tocar a serpente para que esta se transformasse em
gigante e o gigante se transformasse em serpente, com tal rapidez
que deixou o príncipe tonto. Isto se repetiu uma meia dúzia de
vezes, até que enfim, com um golpe certeiro, Viviano cortou a
serpente pela metade; depois pegou uma das metades da serpente
e a arremessou com toda a força no nariz do gigante, que caiu duro
em cima do leão. No mesmo instante uma nuvem negra e espessa
surgiu sobre os monstros, tapando-os completamente; assim que se
dissipou, os dois haviam desaparecido. O príncipe, sem ao menos
embainhar a espada, correu de volta à gazela, gritando:
— Já tiveste bastante tempo para descansar e não tens nada mais
a temer, então me conta quem és e o que esse gigante horrendo,
com seu leão e sua serpente, tem a ver contigo; e sê rápida, pelo
amor de Deus!
— Contarei com prazer ‒ respondeu ela ‒, mas por que a pressa?
Quero que venhas comigo ao Castelo Verde, mas não quero ir
caminhando, porque o lugar é tão distante, e caminhar, tão
cansativo…
— Partamos de uma vez então ‒ respondeu o príncipe com
severidade ‒, que do contrário terei de deixar-te aqui. Não se
envergonha uma gazela jovem e vigorosa como tu de recusar-se a
caminhar um pouco? Quanto mais distante for esse castelo, mais
rápido teremos de caminhar, mas, como isso não te agrada,
prometo que iremos lentamente; podemos conversar ao longo do
caminho.
— Eu prefiriria que me carregasses ‒ disse ela, docemente ‒, mas
como não quero dar trabalho a ninguém, podes me carregar, e
aquele caracol pode carregar a ti.
Assim dizendo, apontou languidamente com um dos cascos em
direção a algo que o príncipe pensara ser uma pedra, mas que,
olhando novamente, viu ser um enorme caracol.
— Como é? Eu, montar num caracol?! ‒ exclamou o príncipe. ‒
Estás rindo da minha cara. Além disso, nos levará pelo menos um
ano até chegarmos.
— Ah, então esquece ‒ replicou a gazela ‒, não me importo de
ficar aqui. A grama é verde, a água é límpida… Mas se eu fosse tu,
aceitaria meu conselho e montaria o caracol.
Então, embora muito o desagradasse, o príncipe tomou a gazela
nos braços e montou no caracol; este se foi, deslizando muito
calmamente, e não se apressava com as batidas que o príncipe lhe
dava com o calcanhar. Em vão tentou a gazela mostrar ao príncipe
que a viagem muito a agradava, e que este era o melhor meio de
transporte que conhecia. O Príncipe Viviano, louco de impaciência,
achava que jamais alcançariam o Castelo Verde. Porém, enfim o
alcançaram, e todos os que estavam nele acorreram para ver o
príncipe apear de sua peculiar montaria. Mas qual não foi a surpresa
do príncipe quando, a pedido da gazela, ele a colocou
delicadamente nos degraus que levavam ao castelo, e viu-a de
repente transformar-se numa princesa encantadora, a quem
reconheceu ser Plácida, sua graciosa priminha, que o saudou com
sua doce tranquilidade costumeira. O príncipe não se conteve de
tanta alegria e a seguiu sequiosamente para dentro do castelo,
ansioso por saber que acasos a levaram a tal lugar. Mas, no fim das
contas, teve que esperar para ouvir a história da princesa, pois os
habitantes da Terra Verde, ao ouvir que o gigante estava morto,
prontamente ofereceram o reino para o matador do monstro, e o
príncipe teve que escutar várias arengas elogiosas, que lhe
tomaram bastante tempo, por mais que as tentasse encurtar dentro
dos limites da polidez – ou até mesmo fora deles. Mas afinal
conseguiu se desvencilhar de todos para ir ter com Plácida, que
imediatamente desatou a contar suas aventuras.
— Depois que foste embora, tentaram me ensinar a governar o
reino, o que me entediou mortalmente, de modo que implorei e
supliquei a Lolota que me levasse embora com ela, o que fez
imediatamente, embora muito a contragosto. Assim, depois que,
deitada em meu sofá favorito, fui levada à sua gruta, passei lá
muitos dias deliciosos, repousando sob uma luz verde que era como
a das faias na primavera, ouvindo o murmúrio das abelhas e o
burburinho das cascatas. Mas ai! Lolota foi obrigada a participar da
Assembleia Geral das Fadas, e voltou muito cabisbaixa, dizendo
que sua complacência para comigo lhe havia custado caro, pois fora
repreendida severamente e recebera ordens para me entregar à
Fada Mirlifiche, que já estava havia tempos encarregada de ti, e fora
muito elogiada pela forma como te conduziu.
— E que bela condução ‒ interrompeu o príncipe ‒, se é a ela que
devo todas as aventuras pelas quais passei! Mas continua a contar
tua história, prima. Te contarei dos meus feitos depois, e então
poderás julgar por ti mesma.
“Primeiramente, muito me entristeci por ver chorar Lolota ‒
continuou a princesa ‒, mas logo me dei conta de que ficar triste dá
muito trabalho, então achei melhor acalmar-me; em pouco tempo vi
chegar a Fada Mirlifiche, montada em seu magnífico unicórnio. Ela
parou na entrada da gruta e pediu a Lolota que me trouxesse a sua
presença, o que fez minha fada chorar mais do que nunca e beijar-
me não sei quantas vezes; no entanto não ousou desobedecer. Fui
alçada ao dorso do unicórnio, atrás de Mirlifiche, que assim me
disse:
“— Agarra-te bem a mim, garotinha, se não queres quebrar o
pescoço.
“E tive mesmo que me segurar com toda a força, pois seu terrível
corcel galopava tão violentamente que até perdi o fôlego. Por fim
paramos em uma grande fazenda, e o fazendeiro e sua mulher
correram até nós tão logo viram a fada, e nos ajudaram a apear.
“Fiquei sabendo que eles eram na verdade um rei e uma rainha a
quem as fadas puniram por sua ignorância e preguiça. Como podes
imaginar, a essa altura eu estava morta de cansaço, mas Mirlifiche
insistiu que, antes de mais nada, eu desse de comer a seu
unicórnio. Para tanto, tive que subir uma longa escada até o celeiro,
e descer vinte e quatro vezes com as mãos cheias de feno. Nunca,
jamais, haviam me dado tarefa tão ingrata! Só de pensar nela tenho
calafrios, mas não foi tudo. Da mesma forma tive que levar feno ao
estábulo vinte e quatro vezes; e então já era a hora de jantar, e tive
que servir a janta aos outros. Depois de tanto trabalho, achei que já
merecia ir descansar placidamente na minha caminha, mas quê,
nem pensar! Antes de tudo tive que fazer minha própria cama, pois
estava toda desarrumada, e depois tive que fazer a cama da fada,
aconchegá-la e fechar o dossel a sua volta, além de lhe prestar
vários servicinhos com os quais não estava nem um pouco
acostumada. Por fim, já exausta de tanto trabalhar, era a minha vez
de ir para a cama, mas, como eu nunca houvesse me despido por
conta própria, não sabia por onde começar, e, assim, acabei me
deitando como estava. Infelizmente, a fada se deu conta disso e, no
exato momento em que o sono começava a me embalar, tirou-me
da cama novamente. Consegui despistá-la outra vez e, para dormir,
só tirei a sobreveste. Cá entre nós, sempre chego à conclusão que a
desobediência vale a pena. Por mais que eu seja repreendida,
consigo assim poupar muitos esforços.
“Ao raiar do dia seguinte, Mirlifiche me despertou e me obrigou a ir
várias vezes até o estábulo para lhe informar como dormira seu
unicórnio, quanto feno comera, que horas eram, se o dia estava
bonito… Eu era tão lerda e cumpria minhas tarefas tão mal, que a
fada, antes de partir, chamou o rei e a rainha e lhes disse:
“— Estou bem mais satisfeita convosco este ano. Continuai a
dedicar-vos a vossa fazenda com diligência, se quereis voltar a
vosso reino, e cuidai desta princesinha para mim; ensinai-a a ser
útil, para que, quando eu voltar, encontre-a livre de seus defeitos.
Do contrário…
“Neste ponto ela interrompeu seu discurso com um olhar muito
significativo, montou em meu inimigo, o unicórnio, e rapidamente
desapareceu.
“Então o rei e a rainha, dirigindo-se a mim, perguntaram quais
eram as minhas habilidades.
“— Nenhuma, eu vos garanto ‒ respondi, em um tom que eu
estava certa de que os convenceria, mas eles seguiram
descrevendo vários serviços, e buscavam saber qual deles seria
mais do meu feitio. No fim, contudo, convenci-os de que não fazer
absolutamente nada era só o que me interessava, e que, se
realmente me queriam bem, me deixariam ir para cama dormir, sem
insistir que eu fizesse nada. Para minha grande alegria, não apenas
o permitiram, como também, na hora das refeições, a rainha passou
a trazer o prato a minha cama. Mas na manhã seguinte, bem cedo,
ela veio e disse, como quem pede desculpas:
“— Filhinha, receio que devas tomar a resolução de te levantares
hoje. Sei muito bem como é gostoso o ócio absoluto, pois, quando
eu e meu marido éramos soberanos, nada fazíamos da manhã até a
noite, e espero sinceramente que não tardem a voltar aqueles dias
felizes. Mas por enquanto eles não voltaram a nós nem a ti, e sabes,
pelo que disse a fada, que talvez coisas ainda piores nos aconteçam
se não lhe obedecermos. Apressa-te, suplico, e desce para tomar o
café da manhã, que separei uma nata deliciosa para ti.
“Tudo aquilo me aborreceu muito, mas não houve jeito, tive que
descer.
“Porém, assim que terminei de tomar o café da manhã, meus
anfitriões voltaram àquela cantilena de sempre: ‘O que farás?’
“Em vão respondi:
“— Absolutamente nada, senhora, se for de seu agrado.
“A rainha por fim deu-me um fuso e cerca de dois quilos de
cânhamo numa roca, e enviou-me aos pastos para vigiar as
ovelhas, confiando-me que não havia ocupação mais agradável e
que nela eu poderia ficar à vontade. Fui obrigada a sair de casa
bastante contrariada, como podes imaginar; porém, nem bem havia
caminhado um pequeno trecho, eis que avisto a sombra de um
barranco que me pareceu um lugar encantador. Estirei-me
comodamente sobre a grama macia e, com o fardo de cânhamo sob
a cabeça, dormi tranquilamente, como se não houvesse ovelha
nenhuma no mundo.As ovelhas, por sua vez, como se não
houvesse pastora, vagueavam de um lado a outro livremente e
invadiram todos os campos, pastando ao longo do caminho toda
sorte de iguarias proibidas, até que os camponeses, alarmados pelo
estrago que elas faziam, ergueram suas vozes, que em pouco
tempo chegaram aos ouvidos do rei e da rainha. Estes vieram
correndo ver o que havia e, quando perceberam a causa do
rebuliço, apressaram-se a recolher seu rebanho. E foi bom que o
tenham feito o quanto antes, pois tiveram que ressarcir todos os
danos. Quanto a mim, observei-os deitada enquanto corriam de um
lado a outro, pois eu estava muito a conforto e lá teria continuado se
os dois não tivessem vindo até mim ofegantes e me obrigado a
levantar e seguir atrás deles; além disso, me repreenderam com
amargor, e é desnecessário dizer que nunca mais me confiaram seu
rebanho.
“Mas, não importa o que me dessem para fazer, sempre acontecia
a mesma coisa: eu dava um jeito de arruinar tudo, e obtive tanto
sucesso em irritar até mesmo as pessoas mais pacienciosas, que
certo dia fugi da fazenda, por temer realmente que a rainha fosse
obrigada a me dar uma surra. Quando cheguei ao riacho onde o rei
costumava pescar, achei um bote amarrado a uma árvore e, após
subir a bordo, o soltei, e deixei a correnteza me levar. O bote
deslizava tão suavemente pela água que não me importei nem um
pouco quando a rainha me avistou e, correndo ao longo das
margens, gritou:
“— Meu barco, meu barco! Homem, vai atrás da princesinha, que
está fugindo com o meu barco!
“Não tardou para que a correnteza deixasse seus gritos para trás.
A melodia das ondas e o sussurro das árvores embalaram meus
sonhos, até que o bote parou, e vi que estava estancado às
margens de uma pradaria verdejante, e que àquela hora o sol já
raiava. Vi à distância umas casinhas construídas de forma muito
peculiar, e, como a essa altura estivesse faminta, fui em sua
direção; porém, após uns poucos passos, enxerguei pelo ar um
sem-número de objetos brilhantes, que pareciam pendurados, sabe-
se lá pelo quê.
“Aproximei-me e vi um cordão de seda que descia até o solo;
então o puxei, apenas porque já estava à mão. No mesmo instante
ressoou pelo prado o badalar melodioso de sinos prateados; e o
som era tão harmonioso que me sentei para escutar e para
contemplá-los balançando e cintilando sob os raios do sol. Antes
que o som cessasse, surgiu uma revoada de pássaros, os quais,
empoleirando-se cada um sobre um sino diferente, juntaram ao
concerto seu próprio canto gracioso. Quando terminaram, levantei
os olhos e vi aproximar-se de mim uma senhora majestosa e alta,
cercada e seguida por um bando de pássaros de todas as espécies.
“— Quem és tu, mocinha ‒ disse ela ‒, que te atreves a vir aonde
não deixo viver nenhum mortal, para que não se perturbem meus
pássaros? No entanto, se tiveres alguma utilidade ‒ acrescentou ‒,
talvez eu ature tua presença.
“— Senhora ‒ respondi, levantando-me ‒, podes ter certeza de
que nada que eu fizer assustará teus pássaros. Apenas imploro,
pelo amor de Deus, que me dês algo de comer.
“— Assim farei ‒ respondeu ‒ e depois te mandarei para onde
mereces ir.
“Assim dizendo, despachou seis gaios, que eram seus pajens,
para buscar todo tipo de biscoito, enquanto outros pássaros traziam
frutas maduras. Tomei, é verdade, um delicioso café da manhã,
embora não me agrade ser servida com tanta rapidez. Não gosto
nem um pouco que me apressem. Ocorreu-me que seria muito
gostoso ficar em um país tão aprazível, e assim falei à majestosa
senhora, mas ela, com o maior desdém, respondeu:
“— Achas mesmo que te quero manter aqui? A ti?! Ora, em que
serias útil a este país, onde são todos tão prestativos e ocupados?
Não, não: já mostrei toda a hospitalidade que te posso conceder.
“Ditas estas palavras, ela se virou e puxou vigorosamente o cordão
de seda de que antes falei; porém, em vez de um badalar
melodioso, ressoou um clangor horrível que muito me assustou, e
instantaneamente surgiu um enorme Pássaro Negro que, pousado
aos pés da fada, disse, em sua voz sinistra:
“— O que queres de mim, irmã?
“— Quero que leves imediatamente esta princesinha a meu primo,
o Gigante do Castelo Verde ‒ respondeu ela ‒ e que peças a ele,
em meu nome, que a faça trabalhar noite e dia em sua linda
tapeçaria.
“Ao terminar de ouvi-la, o grande pássaro me apanhou do chão,
apesar dos meus protestos, e saiu voando a uma velocidade
alucinante…”
— Ah, priminha, só podes estar brincando! ‒ interrompeu o
Príncipe Viviano. ‒ Queres dizer “numa maçante vagareza”.
Conheço esse terrível Pássaro Negro, e sei o quanto é lento em
tudo o que faz.
“— Como queiras ‒ respondeu Plácida, tranquilamente. ‒ Não
suporto discussões. Talvez nem fosse o mesmo pássaro. De todo
modo, ele me levou embora a uma velocidade prodigiosa e me
depositou delicadamente neste castelo, o mesmo que agora te
pertence. Entramos por uma das janelas, e o pássaro, depois que
me entregou ao gigante (do qual, felizmente, me livraste) e lhe
repassou o recado da fada, foi-se embora.
“Então o gigante, dirigindo-se a mim, falou:
“— És então uma desocupada? Ah, pois bem, te ensinaremos o
que é trabalhar. Não serás a primeira a quem teremos curado da
preguiça. Vê como andam ocupados todos os meus hóspedes.
“Assim que o gigante terminou de falar, levantei os olhos e vi que
todas as paredes do salão estavam revestidas de teares de
tapeçaria, e, colocadas à frente delas, havia rocas, meadas de lã,
estampas, e os demais instrumentos do ofício. Diante de cada tear,
estavam sentadas cerca de doze pessoas trabalhando com afinco.
Ante esta visão terrível, desmaiei, e, assim que me recobrei,
puseram-se a perguntar o que eu sabia fazer.
“Em vão respondi como antes, desejosa de que me levassem a
sério:
“— Absolutamente nada.
“O gigante apenas respondeu:
“— Então deves aprender algum ofício: neste mundo há trabalho
para todos.
“Vi que bordavam na tapeçaria as histórias favoritas das fadas, e
tentaram ensinar-me a ajudá-los, porém, desde a primeira aula –
quando começaram a ensinar-me o ofício – fui cada vez mais para
baixo e nem mesmo os pontos mais simples eu conseguia aprender.
Em vão me castigaram com todos os métodos de costume. Em vão
mostrou-me o gigante o seu viveiro de animais, composto
inteiramente de crianças que se recusavam a trabalhar. Nada
adiantava, e por fim fui rebaixada a carregar a água para o
tingimento da lã. Mesmo neste trabalho, porém, eu era tão lerda que
hoje de manhã mesmo o gigante, enfurecido, transformou -me em
gazela. Estava para me colocar no viveiro quando, por acaso, avistei
um cão, e fiquei tão apavorada que saí correndo à máxima
velocidade, conseguindo escapar pelo pátio externo do castelo. O
gigante, temendo me perder de uma vez por todas, mandou seu
leão verde atrás de mim, para que me trouxesse de volta, custasse
o que custasse; e sem dúvida eu me deixaria capturar, devorar, ou
qualquer outra coisa, em vez de continuar correndo, se não
houvesse tido a sorte de te encontrar perto da fonte. E, ufa! ‒
concluía a princesa. ‒ Como estou feliz de mais uma vez sentar
quieta e descansar em paz. Eu estava tão cansada de ser obrigada
a aprender coisas novas!”
Príncipe Viviano disse a ela que, de sua parte, havia estado por
demais inativo, e não achara isso em nada divertido. Então lhe
relatou todas suas aventuras num só fôlego. Falou tudo: como
encontrara abrigo na casa da Senhora Paciência, como consultara o
oráculo, como navegara no barco de papel. Depois os dois foram,
de mãos dadas, libertar todos os prisioneiros do castelo e todos os
príncipes e princesas enjaulados no viveiro, os quais, assim que o
Gigante Verde morrera, haviam recuperado sua forma original.
Como é de supor, estavam todos muito gratos, e a Princesa Plácida
lhes rogou que nunca, nunca mais nas suas vidas mexessem
sequer um dedo para trabalhar. Todos prontamente acenderam uma
fogueira no pátio e queimaram solenemente todos os teares e rocas
de fiar. A princesa deu-lhes então uns esplêndidos presentes, ou
melhor, ficou sentada, enquanto era o Príncipe Viviano que os
distribuía, e houve grande regozijo no castelo, onde todos
esforçaram-se ao máximo para agradar o príncipe e a princesa.
Mas, apesar das boas intenções, acabaram cometendo muitos
enganos, pois Viviano e Plácida estavam sempre em desacordo
quanto ao que queriam; por isso, ninguém sabia o que fazer, e com
frequência cumpriam as ordens do príncipe muito vagarosamente,
ou se apressavam como um raio para fazer o que a princesa sequer
havia pedido; e assim foi, até que, com o tempo, os primos
começaram a consultar um ao outro e consolar-se por seus
desapontamentos; por fim, passaram a gostar-se tanto que, pelo
bem de Plácida, Viviano tornou-se paciente, e, pelo bem de Viviano,
Plácida fez esforços como nunca antes. Agora, porém, as fadas,
que vinham observando todo esse desenvolvimento com interesse,
pensaram ser hora de intervir e certificar-se, por meio de novas
provações, de que esse progresso teria continuidade, e de que os
dois realmente se amavam. Então fizeram com que Plácida
parecesse atacada de uma febre violenta, e que Viviano parecesse
debilitado e cada dia mais abatido, de modo que ficassem muito
preocupados um com o outro. Assim, numa ocasião em que os dois
não estavam juntos, a Fada Mirlifiche apareceu subitamente diante
de Plácida e disse:
— Acabo de ver o Príncipe Viviano, que me parece muito doente.
— Ai! É verdade, senhora ‒ respondeu a princesa ‒, e se o
curares, deixo que me leves de volta à fazenda ou que ressuscites o
Gigante Verde, e verás como serei obediente.
— Se queres de verdade que o príncipe se recupere ‒ fez a fada ‒,
deves capturar o Rato-que-Trota e o Tentilhão-em-Voo e trazê-los
até mim; mas lembra-te que não há tempo a perder!
Mal terminava a fada de falar essas palavras, a princesa disparou
para fora do castelo; e a fada, que a observou até perdê-la de vista,
deu uma risadinha e foi atrás do príncipe. Este suplicou-lhe do fundo
do coração que o mandasse de volta ao Castelo Negro, ou mesmo
ao barco de papel, desde que salvasse a vida de Plácida. A fada
balançou a cabeça com ar sério. Concordou com o príncipe: o
estado da princesa era, de fato, grave.
— Contudo ‒ disse ‒, se encontrares a Toupeira-Cor-de-Rosa e a
deres à princesa, ela se recobrará.
Era agora a vez de o príncipe sair em disparada, só que, mal saiu
do castelo, foi em direção oposta à de Plácida. Pois bem, podeis
imaginar como os dois devotos namorados perseguiram sua caça
noite e dia. A princesa, no mato, sempre correndo, sempre atenta,
perseguia avidamente aquelas duas criaturas, sem nunca desistir,
por mais que se esquivassem à captura. O príncipe, por seu turno,
perambulava sem cessar pelas pradarias, os olhos fixos ao chão,
atento a cada movimento de toupeira. Foi obrigado a andar muito
vagarosamente, na ponta dos pés, mal se atrevendo a respirar. Às
vezes ficava horas parado, imóvel como uma estátua, e, no que
dependesse de sua vontade, em breve estaria de posse da
Toupeira-Cor-de-Rosa. Mas, infelizmente, só conseguiu capturar
toupeiras pretas e bem comuns; mesmo assim, por estranho que
pareça, jamais ficou impaciente, e estava sempre disposto a retomar
sua tediosa caçada. Não estranheis, contudo, pois essa mudança
de caráter é um dos milagres mais corriqueiros do amor. Nem o
príncipe nem a princesa pensaram em outra coisa senão chegar ao
fim de suas empreitadas. Sequer lhes passou pela cabeça indagar
em que país tinham ido parar. Podeis então adivinhar como ficaram
espantados quando um dia, depois de alcançarem os objetos de
suas tão longas e cansativas caçadas, exclamaram ao mesmo
tempo:
— Enfim, salvei meu amor!
E, reconhecendo um a voz do outro, levantaram os olhos e
correram para se abraçar com uma alegria desenfreada. O espanto
os manteve silenciosos enquanto, por um delicioso momento,
ficaram a fitar nos olhos um do outro; logo em seguida não é que
aparece o Rei Gredelém – pois tinham ido parar em seu reino! Ele
também os reconheceu, e com grande alegria lhes deu boas-vindas;
mas, quando se viraram para ver a Toupeira-Cor-de-Rosa, o
Tentilhão-em-Voo, e o Rato-que-Trota, estes haviam desaparecido,
e no lugar deles havia uma bela senhora (que os dois apaixonados
desconheciam), o Pássaro Negro e o Gigante Verde. O Rei
Gredelém, assim que olhou para a senhora, pegou-a nos braços
com gritos de alegria, pois era ninguém menos que Santorina, sua
esposa, que havia muito desaparecera, e sobre cuja prisão na Terra
das Fadas talvez um dia possais ler.
Então o Pássaro Negro e o Gigante Verde voltaram às suas formas
originais (pois eram feiticeiros), e Lolota e Mirlifiche lá se foram
pelos ares em suas carruagens encantadas. Seguiram-se muitos
beijos e felicitações, pois todos haviam recuperado alguém que
amavam – até mesmo os feiticeiros, pois amavam de coração suas
formas originais.
O Rei Gredelém e a Rainha Santorina depois de todas aquelas
experiências, não tinham a menor vontade de continuar governando.
Então se aposentaram e foram morar num lugar tranquilo, deixando
o reino ao príncipe e à princesa, que eram amados por todos seus
súditos e encontraram a maior felicidade de suas vidas em fazer
felizes as vidas dos outros.[ 23 ]

[ 23 ] Conde de Caylus.
A Pequena Um-Olho,
a Pequena Dois-Olhos e a
Pequena Três-Olhos

RA UMA VEZ UMA MULHER que tinha três filhas. A filha mais
velha chamava-se Pequena Um-Olho, porque possuía
apenas um olho, localizado no meio da fronte; a
segunda filha, Pequena Dois-Olhos, pois possuía dois
olhos, como toda a gente; e a terceira e mais nova, Pequena Três-
Olhos, pois possuía três olhos, sendo o terceiro também localizado
no meio da fronte. Mas a Pequena Dois-Olhos, por assemelhar-se
às outras crianças, era um estorvo para sua mãe e suas irmãs, que
não a podiam tolerar, e diziam-lhe:
— Tu, com esses dois olhos, não és melhor do que a gente
comum, não és como nós.
Davam-lhe empurrões, atiravam-lhe as roupas esfarrapadas pelo
chão, e, para comer, a Pequena Dois-Olhos contava apenas com as
sobras que a mãe e as irmãs rejeitavam – dispensavam-lhe, enfim,
o pior tratamento possível.
Certo dia a Pequena Dois-Olhos teve de sair a pastorear a cabra,
mas estava faminta, pois suas irmãs haviam-lhe dado muito pouco
que comer. Então, sentou-se no meio da campina e desatou a
chorar, e tanto chorou, que suas lágrimas formaram dois regatos.
Quando olhou para cima, com os olhos embaciados de lamento, viu
uma senhora ao seu lado, que então lhe perguntou:
— Pequena Dois-Olhos, por que choras?
A menina respondeu:
— E não tenho motivos para chorar? Choro porque possuo dois
olhos, como toda a gente, minhas irmãs e minha mãe não me
toleram – dão-me empurrões de um lado para o outro – e, para
comer, nada me resta senão as sobras que enjeitaram. Hoje deram-
me tão pouca comida, que estou faminta.
Então a sábia senhora lhe disse:
— Pequena Dois-Olhos, enxuga tuas lágrimas e te mostrarei como
jamais sentir fome outra vez. Dize simplesmente à tua cabra:
Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, sai do escondido,
e uma mesa lindamente disposta aparecerá diante de ti, com
deliciosos manjares, para que possas comer à vontade. E, quando
ficares saciada, basta que digas:
Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, vai p’ro escondido,
e então ela desaparecerá.
Tendo dito isso, a sábia senhora foi-se embora. Mas a Pequena
Dois-Olhos pensou:
— Testarei imediatamente se isto é verdade, pois jamais senti
tanta fome quanto agora.
E então disse:
— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, sai do escondido.
Mal acabara de pronunciar as palavras, surgiu diante dela uma
pequena mesa coberta com um forro branco, sobre o qual estavam
dispostos um prato, um garfo, uma faca e uma colher de prata, além
dos mais belos manjares, fumegantes como se tivessem acabado
de sair do forno. Então a Pequena Dois-Olhos fez a oração mais
curta que sabia de cor e pôs-se a comer, refestelando-se com
aquele jantar tão agradável. Sentindo-se satisfeita, pronunciou a
fórmula que a sábia senhora lhe ensinara:
— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, vai p’ro escondido.
E imediatamente a mesa e tudo quanto estava sobre ela
desapareceu.
— Mas isto é a maravilha da vida doméstica! – pensou a Pequena
Dois-Olhos, sentindo-se muito feliz e satisfeita.
À noitinha, quando tomou o rumo de casa com sua cabra,
deparou-se com um pratinho de barro contendo a comida que suas
irmãs haviam lhe atirado, mas sequer tocou nele. No dia seguinte,
saiu novamente com sua cabra, deixando intocados os restos que
lhe cabiam. A princípio suas irmãs nada notaram, mas, como o
comportamento se reiterasse, por fim perceberam algo estranho e
disseram:
— Qual o problema com a Pequena Dois-Olhos? Ela agora nem
toca em sua comida, logo ela, que antes devorava tudo o que lhe
dávamos. Certamente encontrou outra maneira de obter alimento.
Então, a fim de descobrir a verdade, ficou decidido que a Pequena
Um-Olho acompanharia a Pequena Dois-Olhos no pastoreio da
cabra, prestando especial atenção ao que sucederia ali, e se alguém
lhe daria comida ou bebida.
Ora, estava a Pequena Dois-Olhos prestes a partir, quando a
Pequena Um-Olho aproximou-se e disse:
— Irei contigo para ver se cuidas bem da cabra e se a conduzes
ao pasto como se deve fazer.
Porém, a Pequena Dois-Olhos percebeu o que a Pequena Um-
Olho tinha em mente, e então conduziu a cabra até onde a relva ia
alta e disse:
— Vem, Pequena Um-Olho. Sentemo-nos aqui, e cantar-te-ei uma
cantiga.
A Pequena Um-Olho assentou-se e, exausta devido à longa
caminhada – à qual não estava habituada – e ao calor intenso, e
porque a Pequena Dois-Olhos entoou uma cantiga – “Pequena Um-
Olho, estás acordada? Pequena Um-Olho, estás a dormir?” –,
cerrou seu único olho e adormeceu. Quando a Pequena Dois-Olhos
viu que a Pequena Um-Olho caíra no sono e já não podia ver nada,
disse:
— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, sai do escondido.
E sentou-se à mesa, comeu e bebeu até ficar satisfeita. Terminada
a refeição, disse:
— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, vai p’ro escondido.
E, num piscar de olhos, tudo havia desaparecido.
A Pequena Dois-Olhos então despertou a Pequena Um-Olho e
disse-lhe:
— Pequena Um-Olho, vieste para observar, mas, em vez disso,
pegaste no sono. Enquanto isso a cabra deve ter percorrido meio
mundo. Vem, vamos para casa.
Voltaram para casa, e a Pequena Dois-Olhos mais uma vez não
tocou no prato, e a Pequena Um-Olho não sabia dizer à sua mãe o
porquê, e justificou-se dizendo:
— É que fiquei tão sonolenta lá na campina…
No dia seguinte, a mãe disse à Pequena Três-Olhos:
— Desta vez, tu acompanharás a Pequena Dois-Olhos a fim de
descobrir se ela faz alguma refeição na campina e se alguém lhe
oferece comida e bebida, pois ela deve comer e beber às
escondidas.
Então a Pequena Três-Olhos aproximou-se da Pequena Dois-
Olhos e disse:
— Irei contigo para ver se cuidas bem da cabra e se a conduzes
ao pasto como se deve fazer.
Porém, a Pequena Dois-Olhos percebeu o que a Pequena Três-
Olhos tinha em mente, e então conduziu a cabra até onde havia um
campo de relva alta e disse:
— Sentemo-nos aqui, Pequena Três-Olhos, e cantar-te-ei uma
cantiga.
A Pequena Três-Olhos sentou-se; estava cansada devido à longa
caminhada e ao calor escaldante. A Pequena Dois-Olhos entoou a
mesma cantiga novamente:
— “Pequena Três-Olhos, estás acordada?” – só que, em vez de
cantar o que deveria: – “Pequena Três-Olhos, estás a dormir?” – ela
cantou, sem se dar conta: – “Pequena Dois-Olhos, estás a dormir?”
– e deste modo continuou cantando:
— “Pequena Três-Olhos, estás acordada? Pequena Dois-Olhos,
estás a dormir?”, de modo que os dois olhos da Pequena Três-
Olhos adormeceram, mas não o terceiro, pois não fora mencionado
na cantiga, e assim permaneceu desperto. Evidentemente, a
Pequena Três-Olhos fechou-o também, por malícia, a fim de parecer
que dormia; mas, na realidade, pestanejava e conseguia ver tudo
nitidamente.
Quando a Pequena Dois-Olhos julgou que a Pequena Três-Olhos
dormia profundamente, entoou os versinhos:
— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, sai do escondido.
E comeu e bebeu até se fartar, fazendo depois a mesa
desaparecer, dizendo:
— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, vai p’ro escondido.
Mas a Pequena Três-Olhos a tudo assistira. Então a Pequena
Dois-Olhos aproximou-se dela, despertou-a e disse-lhe:
— Bem, Pequena Três-Olhos, estavas dormindo? És boa
observadora! Vem, vamos para casa.
Ao chegar em casa, a Pequena Dois-Olhos mais uma vez não
comeu nada, e a Pequena Três-Olhos contou à mãe:
— Descobri por que essa criaturinha orgulhosa já não come nada.
Quando diz à cabra no pasto: “Ó cabrinha, solta um balido; ó
mesinha, sai do escondido”, surge uma mesa repleta dos mais finos
pratos, muito melhores do que o que temos para comer. E, quando
está satisfeita, diz: “Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, vai p’ro
escondido”, e tudo desaparece. Vi tudo isso perfeitamente. Ela fez
adormecer dois de meus olhos com uma cantiga, mas o olho em
minha fronte continuou desperto, por sorte!
Cheia de inveja, a mãe então disse:
— Come então melhor do que nós? Pois será pela última vez! – e,
tomando de uma adaga, matou a cabra.
Ao ver isso, a Pequena Dois-Olhos retirou-se, o coração
transbordante de pesar; foi à campina, sentou-se na relva e
começou a derramar doloridas lágrimas. Uma vez mais, a sábia
senhora fez-se presente diante dela e disse-lhe:
— Pequena Dois-Olhos, por que choras?
— E não tenho motivo? – respondeu. – Pois a cabra que, quando
ouvia a cantiga, dispunha a mesa tão lindamente, minha mãe a
matou, e agora estou fadada a passar fome e padecer novamente.
A sábia senhora disse:
— Pequena Dois-Olhos, dar-te-ei um conselho. Pede a tuas irmãs
que te deem o coração da cabra morta, e enterra-o em frente à
porta de casa. Deste modo terás sorte.
Tendo dito isso, desapareceu, e a Pequena Dois-Olhos foi para
casa e disse às suas irmãs:
— Queridas irmãs, por favor, dai-me uma recordação de minha
cabra; peço-vos apenas seu coração.
As irmãs riram e disseram:
— Podes ficar com o coração, se não queres nada melhor.
A Pequena Dois-Olhos tomou o coração e enterrou-o à noitinha,
quando tudo estava quieto, exatamente como a sábia senhora lhe
dissera, diante da porta de casa. Na manhã seguinte, quando todos
acordaram e abriram a porta, depararam-se com uma magnífica
árvore cujas folhas eram feitas de prata e na qual cresciam frutos de
ouro. Jamais se vira coisa mais encantadora e bela! Ninguém sabia
dizer como a árvore aparecera durante a noite; apenas a Pequena
Dois-Olhos sabia que ela brotara do coração da cabra, pois aquele
era o local exato onde ela o havia enterrado. A mãe então disse à
Pequena Um-Olho:
— Sobe nesta árvore, minha pequena, e apanha-nos um de seus
frutos.
A Pequena Um-Olho subiu, mas, ao tentar arrancar uma das
maçãs de ouro, o galho esquivou-se de suas mãos; e como isso se
repetisse sempre, não conseguiu apanhar uma só maçã, por mais
que tentasse. Então, a mãe interveio:
— Pequena Três-Olhos, vamos, sobe tu; com três olhos, podes ver
melhor à tua volta do que a Pequena Um-Olho.
A Pequena Um-Olho desceu e a Pequena Três-Olhos subiu, mas
sem maior sucesso; por mais que olhasse à sua volta, as maçãs de
ouro recuavam e fugiam-lhe das mãos. Por fim a mãe, perdendo a
paciência, subiu ela mesma, porém teve um resultado ainda mais
pífio que a Pequena Um-Olho e a Pequena Três-Olhos, e ficou
apalpando o ar. Então, a Pequena Dois-Olhos disse:
— Tentarei apenas uma vez; talvez eu tenha mais sucesso.
As irmãs gritaram:
— Com teus dois olhos, por certo que hás de conseguir!
A Pequena Dois-Olhos subiu na árvore e as maçãs não se
esquivaram dela – exatamente como seria de se esperar de uma
maçã –, de modo que foi apanhando uma após a outra e desceu
com o avental carregado de frutos. A mãe tomou-os todos, e, em
vez de tratarem melhor à pobre Pequena Dois-Olhos como
deveriam, encheram-se de inveja porque apenas ela conseguia
apanhá-los, e trataram-na com ainda mais rispidez.
Certo dia, enquanto estavam todas junto à árvore, avistaram um
jovem cavaleiro que vinha cavalgando.
— Rápido, Pequena Dois-Olhos! – disseram as duas irmãs. –
Esconde-te, para que não atraias desgraça sobre nós – e
rapidamente colocaram-lhe sobre cabeça um barril vazio que estava
próximo à árvore, e empurraram para debaixo dele as maçãs de
ouro.
Quando o cavaleiro, que era um rapaz muito bonito, passou
cavalgando, ficou maravilhado com a árvore de ouro e prata e
perguntou às irmãs:
— A quem pertence essa bela árvore? Terá tudo o que desejar
aquela que me der um de seus ramos.
Então a Pequena Um-Olho e a Pequena Três-Olhos responderam
que a árvore lhes pertencia, e que elas certamente lhe dariam um
de seus ramos. Tiveram muito trabalho para consegui-lo, mas em
vão: os ramos e os frutos sempre se esquivavam de suas mãos. O
cavaleiro então disse:
— É muito estranho que a árvore vos pertença e que, apesar
disso, não consigais arrancar sequer um de seus ramos!
Elas, porém, continuaram afirmando que a árvore lhes pertencia; e
nisto insistiam quando a Pequena Dois-Olhos, exasperada por
terem faltado com a verdade, empurrou duas maçãs de ouro por
debaixo do barril, as quais foram rolando até parar junto aos pés do
cavaleiro. Ao vê-las, o rapaz ficou muito admirado e perguntou de
onde provinham. A Pequena Um-Olho e a Pequena Três-Olhos
responderam que tinham uma outra irmã, a quem não se podia ver,
pois tinha apenas dois olhos, como a gente ordinária. O cavaleiro,
entretanto, exigiu vê-la, e chamou:
— Pequena Dois-Olhos, apresenta-te.
Então a Pequena Dois-Olhos deixou o barril, faceira, e o cavaleiro,
maravilhado com sua deslumbrante beleza, disse-lhe:
— Pequena Dois-Olhos, estou certo de que podes apanhar-me um
dos ramos dessa árvore.
— Sim, posso – respondeu a Pequena Dois-Olhos –, pois a árvore
me pertence.
Subiu na árvore e arrancou-lhe, sem nenhuma dificuldade, um
pequeno ramo, com suas folhas de prata e fruto de ouro, e
entregou-o ao cavaleiro, que então lhe disse:
— Pequena Dois-Olhos, que posso te dar em troca?
— Ah – respondeu a Pequena Dois-Olhos –, padeço de fome,
sede e pesar, de manhã cedo até tarde da noite. Se me levásseis
convosco, libertando-me deste suplício, eu seria feliz!
Então o cavaleiro ergueu a Pequena Dois-Olhos, montou-a em seu
cavalo e levou-a para o castelo de seus pais, onde morava. Lá,
presenteou-a com belas roupas, deu-lhe comida e bebida; e, porque
muito a amava, casou-se com ela, e a cerimônia realizou-se com
muito júbilo.
Quando o belo cavaleiro levou embora a Pequena Dois-Olhos,
suas irmãs a princípio invejaram sua boa sorte. “Mas a árvore
maravilhosa ainda está conosco, afinal”, pensaram, “e, ainda que
não possamos colher nenhum de seus frutos, todos irão parar para
vê-la e procurar-nos para elogiá-la, e quem sabe isso não nos
renderá frutos?” Todavia, na manhã seguinte, a árvore havia alçado
voo, e com ela todas as esperanças; e quando a Pequena Dois-
Olhos acordou e olhou pela janela, viu que ali estava a árvore, para
sua imensa satisfação. A Pequena Dois-Olhos viveu muitos anos
felizes. Certa feita, duas senhoras pobres foram até o castelo pedir
esmola. A Pequena Dois-Olhos reconheceu nelas suas irmãs, a
Pequena Um-Olho e a Pequena Três-Olhos, que haviam-se tornado
tão pobres, que ali estavam a implorar por um pedaço de pão. Mas
a Pequena Dois-Olhos deu-lhes as boas-vindas e tratou-as com
tamanha bondade, que ambas se arrependeram de um dia terem
sido tão cruéis para com a irmã.[ 24 ]

[ 24 ] Irmãos Grimm.
Jorinde e Joringel

RA UMA VEZ UM CASTELO no meio duma floresta fechada,


onde vivia uma velha muito solitária, pois que era bruxa.
À luz do dia transformava-se ela num gato ou numa
coruja, mas à noite voltava a ser uma mulher comum.
Era capaz de atrair a si animais e pássaros, os quais matava e
depois cozinhava. Se qualquer moço chegasse a um raio de cem
passos do castelo, era forçado a ficar imóvel, e não conseguia
mover um só dedo até que ela o libertasse; mas se alguma moça
bonita entrava neste perímetro, a bruxa fazia dela um pássaro e o
trancafiava numa gaiola feita de vime, a qual punha num dos
aposentos do castelo. Tinha cerca de sete mil das tais gaiolas no
castelo, com pássaros raríssimos ali trancafiados.
Ora, havia uma donzela chamada Jorinde, donzela mais bela que
outras donzelas, e que há pouco ficara noiva de um moço chamado
Joringel, rapaz tão bonito quanto ela. A coisa de que mais gostavam
no mundo era de ficarem juntos. Assim, pois, para que pudessem
ter uma boa conversa sem hora para acabar, saíram uma tarde para
um passeio na floresta.
— Toma cuidado – disse Joringel – para não chegares perto
demais do castelo.
Era uma tarde encantadora; o sol brilhava radiante entre os
troncos das árvores e sobre o verde escuro das folhas da mata, e a
rola cantava alegre e viçosa, empoleirada nos velhos espinheiros.
Jorindel chorava de quando em quando, e sentou-se à luz do sol e
se pôs a lamentar, e também Joringel lamentava-se. Sentiam-se tão
tristes como se tivessem sido condenados à morte; olharam à sua
volta e ficaram confusos como nunca, e não conseguiam se lembrar
do caminho de volta para casa. Metade do sol ainda pairava acima
da montanha, e a outra metade já lhe estava atrás, quando Joringel
viu entre as árvores, muito perto, o velho paredão de um castelo.
Ficou aterrorizado, morto de medo. Jorinde cantou:
De rubra garganta o pássaro meu
Canta a tristeza triste, triste, triste;
Triste canta à pomba que já morreu,
Canta a tristeza, tris… piu-piu-piu
Joringel levantou o olhar para Jorinde. Esta fora transformada num
rouxinol, que estava a cantar “piu-piu”. Uma coruja com olhos
brilhantes voou três vezes ao seu redor e chilreou três vezes “Uuu-
uuh! Uuu-uuh! Uuu-uuh!”. Joringel não conseguia se mover; ficara
ali só, hirto qual uma estátua; não conseguia chorar, ou falar, ou
mover mão ou pé. O sol já se pusera. A coruja voou para dentro de
uma moita e imediatamente de lá saiu uma velha encurvada;
magricela e de pele amarelenta, além de olhos vermelhos enormes
e um nariz tão adunco que quase lhe tocava o queixo. Murmurou
qualquer coisa para si mesma, pegou o rouxinol e o levou embora
na mão. Joringel não pôde dizer nada; não pôde nem mesmo mover
um músculo, e lá se foi o rouxinol. Enfim, a mulher voltou. Disse-lhe
então, rude e brusca:
— Boa noite, Zaquiel; quando a lua brilhar sobre o cesto, estarás
logo livre, Zaquiel.
Então Joringel foi liberto. Caiu de joelhos perante a mulher e lhe
rogou muito que a sua Jorinde fosse trazida de volta. Mas a bruxa
lhe respondeu que ele jamais a veria de novo, virou as costas e
sumiu entre as árvores. Joringel gritou pela amada, e chorou e se
lamentou; tudo em vão.
— O que será de mim?! – pensou consigo.
Então foi-se embora e chegou enfim a uma vila estranha, onde
pastoreou ovelhas por um longo tempo. Enquanto estava lá,
frequentemente andava à roda do castelo, mas nunca perto demais.
Finalmente, sonhou uma noite que encontrara uma flor cor-de-
sangue, em cujo centro havia uma pérola enorme e linda. Então
arrancava a flor e com esta se dirigia para o castelo; ali, tudo quanto
com ela tocava via-se livre do encantamento. Com isto, conseguia
ele a sua Jorinde de volta.

Quando acordou de manhã, ficou a correr o mundo em busca de


uma tal flor, em todos os cantos e recantos de montanhas e vales.
Procurou-a por oito dias; no nono, bem cedinho, encontrou a flor
cor-de-sangue. No seu centro lá estava uma gota de orvalho, tão
enorme quanto a mais encantadora pérola. Viajou, então, dia e noite
com a flor, até alcançar o castelo. Quando já estava a menos de
cem passos deste, não estacou imóvel como antes, mas continuou
até chegar ao portão. Ficou numa alegria sem igual por seu êxito,
tocou o grande portão com a flor, e este se lhe escancarou. Entrou,
passou pelo pátio de entrada, e então parou, a fim de escutar o
canto dos pássaros; e finalmente os ouviu. Seguiu em frente,
entrando no castelo, e no salão de entrada deparou-se com a bruxa,
e com ela sete mil aves em suas gaiolas de vime. A velha ficou
furiosíssima ao ver Joringel, e lhe exalou veneno e fel, mas não foi
capaz de dar um só passo em sua direção. Ele a ignorou
completamente e foi examinar as gaiolas dos pássaros. Havia,
porém, centenas e centenas de rouxinóis! Como ele poderia saber
qual era Jorinde? Enquanto matutava no que fazer, viu a velha
bruxa surrupiar uma gaiola e com ela dirigir-se para a porta.
Imediatamente foi-lhe ao encalço, e tocou com a flor tanto a gaiola
quanto a mulher, que agora já não mais podia fazer feitiçarias. E lá
estava Jorinde, com os braços a enlaçar-lhe o pescoço, mais
deslumbrante do que nunca. Joringel transformou todas as outras
aves novamente em donzelas e se foi para casa com Jorinde. E os
dois viveram uma vida longa e feliz.[ 25 ]

[ 25 ] Irmãos Grimm.
Allerleirauh, ou a
Besta de Mil Peles

RA UMA VEZ UM REI cuja esposa tinha cabelos dourados e


era tão bela que não havia outra igual no mundo inteiro.
Um dia ela se adoentou e, sentindo que estava à beira
da morte, mandou vir ter consigo o rei, e disse:
— Se quiseres casar depois da minha morte, não coroes nenhuma
mulher que seja menos bela do que eu, ou que não tenha cabelos
dourados como os meus. Promete isto para mim.
Depois que o rei lhe deu sua palavra, a rainha fechou os olhos e
morreu.
Por muito tempo o monarca ficou desconsolado, e não pensava
em casar de novo, até que um dia seus conselheiros disseram:
— É dever do rei casar novamente, para que tenhamos uma
rainha.
Emissários em nome do rei saíram mundo afora a buscar-lhe uma
nova esposa, mas não havia mulher em parte alguma que fosse
igual em beleza à falecida rainha, e, ainda que houvesse,
certamente não teria os mesmos cabelos dourados. Os emissários
voltaram para casa com as mãos abanando.
Sabei, no entanto, que o rei tinha uma filha tão bela quanto a mãe,
e com os mesmos cabelos dourados que a falecida. Certo dia,
quando a menina já estava crescida, o pai olhou para ela e viu que
era igual à sua mãe; disse então aos conselheiros:
— Casarei minha filha com um de vós, e há de ser ela a rainha,
pois é igual à falecida mãe; e, quando eu morrer, o marido dela há
de ser o rei.
A princesa, contudo, não ficou nada contente com a decisão do pai
e lhe disse:
— Antes de cumprir o seu desejo, peço três vestidos: um dourado
como o sol, outro prateado como a lua, e o terceiro cintilante como
as estrelas. Quero também um manto feito de mil peles diferentes:
cada espécie de animal do reino deverá dar um pedaço de sua pele
para compô-lo.
Enquanto o dizia, pensava consigo mesma:
— É certo que ninguém poderá cumprir este pedido, de modo que
o rei nunca me obrigará a casar com quem não me interesse.
Ao rei, contudo, nada o poderia abalar de seu propósito: mandou
que as moças mais hábeis de todo o reino costurassem os três
vestidos: um dourado como o sol, outro prateado como a lua, e o
terceiro cintilante como as estrelas; deu ordens a todos os seus
caçadores para que fossem atrás de um animal de cada espécie
das que havia no reino, e da pele de cada cortassem um pedaço
para compor o manto de mil peles.
Por fim, quando estava tudo pronto, o rei mandou trazer o manto,
estendeu-o na frente da princesa e disse:
— Amanhã será teu casamento.
Quando a menina viu que era impossível dissuadir o pai, decidiu
fugir de casa. Na calada da noite, a moça levantou da cama e pegou
três artefatos de seus baús: um anel de ouro, uma roca de ouro e
um fuso de ouro, meteu numa casca de noz o vestido do sol, o da
lua e o das estrelas, cobriu-se do manto de mil peles e enegreceu a
cara e as mãos com fuligem. Depois de encomendar-se a Deus,
saiu de casa e viajou a noite inteira até chegar a uma grande
floresta. Como estivesse muitíssimo cansada, agachou-se dentro de
uma árvore oca e pegou no sono.
Ao nascer do sol a menina ainda estava dormindo, e seguiu
dormindo quando se aproximava o meio-dia. Acontece que naquela
mesma hora o rei a quem pertencia aquela floresta estava ali
caçando. Quando seus cães de caça se aproximaram da árvore,
cheiraram-na e começaram a correr a sua volta, latindo. Disse o rei
a seus caçadores:
— Ide ver que besta-fera ali dentro se esconde.
Os caçadores foram e, quando voltaram, trouxeram a seguinte
notícia:
— Na cavidade da árvore, está deitado um animal que
desconhecemos, cuja aparência não lembra nenhum outro, e sua
pelagem é feita de mil peles; porém, está dormindo.
— Capturai-o com vida e o amarrai à carroça ‒ disse o rei ‒, que o
levaremos junto conosco.
Assim que foi capturada, a moça acordou e, muito assustada,
urrou:
— Sou apenas uma pobre criança, abandonada por pai e mãe,
tende piedade de mim e deixai-me acompanhar-vos.
— Besta de Mil Peles ‒ responderam ‒, poderás trabalhar na
cozinha; vem conosco, que varrerás as cinzas do chão.
Colocaram a moça na carroça e se dirigiram ao palácio do rei. Lá
chegando, mostraram-lhe um pequeno quarto no vão da escadaria,
aonde não chegava a luz do sol, e lhe disseram:
— Besta de Mil Peles, viverás e dormirás aqui.
Mandaram-na então para a cozinha, onde passou a carregar lenha
e água, atiçar a brasa, lavar as verduras, depenar as aves, varrer as
cinzas do chão e fazer, enfim, todo o trabalho pesado.
Assim, nesta pobreza, viveu por muito tempo a Besta de Mil Peles.
Ó, formosa filha do rei, o que será de ti agora?
Certa vez, quando celebravam uma grande festa no palácio, disse
ela ao cozinheiro:
— Permites-me subir para dar uma olhada? Ficarei atrás da porta,
não entrarei.
O cozinheiro respondeu:
— Permito. Sobe, mas em meia hora te quero de volta aqui para
que varras as cinzas.
A menina tomou então sua lamparina, entrou em seu quartinho,
despiu-se das mil peles que a cobriam, e limpou a cara e as mãos
da fuligem para que resplandecesse a sua beleza. À medida que as
lavava, era como se por entre nuvens pretas despontassem os raios
do sol. Abriu em seguida a casca de noz, tirou de dentro dela o
vestido dourado como o sol, e o vestiu. Depois disso, saiu para a
festa; lá chegando, todos recuaram para deixá-la passar, pois
ninguém a reconhecia, e pensavam ser ela a filha de algum rei.
Dentro do salão, o rei a tirou para dançar e, enquanto dançava com
ela, pensava:
— Meus olhos nunca contemplaram mulher mais bela!
Ao fim da dança, a princesa fez-lhe reverência e desapareceu,
sem que o rei ou nenhum dos convidados a pudesse rastrear. Os
guardas que vigiavam a entrada do salão foram interrogados, mas
tampouco a tinham visto.
A moça disparou para dentro do seu quartinho e em pouco tempo
se despiu, enegreceu as mãos e as faces, vestiu o manto de mil
peles, e estava transformada novamente na Besta de Mil Peles.
Havia acabado de entrar na cozinha e recém começara a varrer as
cinzas quando o cozinheiro lhe disse:
— Deixa isso para amanhã, e cozinha a sopa do rei no meu lugar,
pois quero espiar os convidados da festa lá em cima. Mas toma
cuidado para que nenhum fio de cabelo caia na panela, caso
contrário nunca mais receberás comida!
Foi-se o cozinheiro, e a Besta de Mil Peles pôs-se a preparar a
sopa do rei. Fez a melhor sopa de pão caseiro que sabia cozinhar e,
ao terminar, pegou no quartinho o seu anel de ouro e o colocou
dentro da terrina em que seria servida a sopa. Quando o baile
terminou, a sopa foi levada ao rei, que começou a tomá-la; e era tão
gostosa, que ele tinha certeza de nunca ter tomado sopa igual em
toda sua vida. Quando chegou ao fundo da terrina, viu um anel de
ouro, e não fazia ideia de como fora parar ali. Mandou então trazer o
cozinheiro, que sentiu um frio na barriga quando ouviu esta ordem, e
disse para a Besta de Mil Peles:
— Deves ter deixado cair na sopa um fio de cabelo; mereces uma
boa surra!
Ao se apresentar ao rei, este lhe perguntou quem havia feito a
sopa.
— Fui eu ‒ disse o cozinheiro.
Mas o rei disse:
— Não é verdade, pois esta sopa estava muito diferente e muito
melhor do que qualquer uma que já tenhas cozinhado
Então o cozinheiro disse:
— Confesso: não fiz a sopa; é a Besta de Mil Peles que a
preparou.
— Traze-a até mim ‒ ordenou o rei.
Quando a Besta de Mil Peles chegou, o rei lhe perguntou quem
era.
— Sou uma pobre criança sem pai nem mãe.
Perguntou-lhe então o rei:
— Que serviço prestas no meu palácio?
— Nenhum, a não ser levar bordoadas de todo mundo.
— Como caiu nas tuas mãos o anel que estava na sopa? ‒
perguntou o rei.
— Nada sei sobre esse anel ‒ respondeu a menina.
O rei, não conseguindo colher dela informação nenhuma, teve que
deixá-la ir.
Pouco tempo depois houve outra festa, e a Besta de Mil Peles
implorou ao cozinheiro, como da última vez, que a deixasse ir para
dar uma olhada. Ele respondeu:
— Deixo, mas volta em meia hora para cozinhar ao rei a sopa de
pão caseiro que ele tanto aprecia.
Disparou então para seu quartinho, lavou-se rapidamente, tirou de
dentro da casca de noz o vestido prateado como a lua, e o vestiu.
Quando subiu, parecia a filha de um rei. Encantado por vê-la
novamente, o rei veio em sua direção, e como o baile houvesse
recém começado, os dois dançaram juntos. Porém, ao terminar a
dança, a menina desapareceu mais uma vez, e saiu tão depressa
que o rei não viu para que lado foi. A menina correu para o
quartinho, transformou-se de novo na Besta de Mil Peles e voltou
em seguida para a cozinha, onde preparou a sopa de pão caseiro.
Enquanto o cozinheiro espiava o baile no andar de cima, a menina
pegou a roca de ouro, colocou-a na terrina e a cobriu com a sopa. O
prato foi levado ao rei, que ao degustá-lo achou-o tão delicioso
como da última vez. Mandou trazer o cozinheiro, e este mais uma
vez foi obrigado a confessar que o responsável pela sopa era a
Besta de Mil Peles. Apresentou-se a besta ao rei, mais uma vez lhe
dizendo que só servia para levar bordoadas e que nada sabia da
roca de ouro.
No terceiro baile do rei, as coisas não se passaram do mesmo
modo que nos dois primeiros. O cozinheiro disse:
— Deves ser uma bruxa, Besta de Mil Peles, pois sempre colocas
na sopa algo que a torna muito mais agradável ao paladar do rei do
que as minhas.
Porém, como a menina implorasse muito, ele a deixou subir,
contanto que voltasse no tempo estipulado. Desta vez ela trajou o
vestido cintilante como as estrelas e, assim vestida, entrou no salão.
De novo o rei dançou com a bela moça, e jamais a vira tão bela
como naquela noite. Enquanto dançava, colocou em seu dedo um
anel de ouro sem que ela o sentisse, e mandou que a dança
durasse mais tempo que o normal. Depois que terminou, quis o rei
segurar a mão da menina, mas esta se soltou dele e disparou com
tanta rapidez por entre a multidão, que o rei a perdeu de vista. A
moça correu o mais rápido que pôde para o quartinho no vão da
escadaria, mas, como tivesse ultrapassado, e muito, a meia hora
estipulada, não deu tempo de tirar o vestido, então apenas o tapou
com o manto de mil peles; além disso, na pressa, não conseguiu
cobrir-se toda de fuligem, deixando branco um dedo. Correu a Besta
de Mil Peles cozinha adentro, cozinhou para o rei a sopa de pão
caseiro e, quando o cozinheiro se ausentou, depositou na sopa o
fuso de ouro. Quando o rei achou o fuso no fundo do prato, mandou
vir ter consigo a Besta de Mil Peles; e, ao vê-la se aproximar,
percebeu nela o dedo sem fuligem e o anel do baile. Pegou então
sua mão e a segurou bem; ela, tentando se desvencilhar, deixou
reluzir por debaixo do manto uma parte do vestido cintilante como
as estrelas. O rei então agarrou o manto e lho arrancou. Os
dourados cabelos lhe desceram: lá estava ela em todo seu
esplendor, já incapaz de se esconder. Depois que limparam, por fim,
a fuligem e as cinzas de seu rosto, viu-se que não havia mulher
mais bela no mundo inteiro. E disse o rei:
— És minha querida noiva, jamais nos separaremos um do outro.
Celebrou-se então o casamento deles, e os dois viveram felizes
para sempre.[ 26 ]

[ 26 ] Irmãos Grimm.
Os Doze Caçadores

RA UMA VEZ O FILHO DE UM REI que estava noivo de uma


princesa a quem amava ternamente. Um dia, enquanto
sentava ao seu lado, sentindo-se profundamente feliz,
recebeu a notícia de que seu pai se encontrava no leito
de morte e que desejava vê-lo antes de morrer. O príncipe então
disse à sua bem-amada:
— Sinto muito, mas tenho de partir agora e deixar-te aqui. Fica
com este anel e usa-o como recordação de mim, e quando eu for rei
voltarei para te levar para casa.
O príncipe então partiu. Ao reencontrar o pai, viu que ele estava
muito doente e que a morte se aproximava.
O rei então disse:
— Querido filho, era minha intenção te rever antes de morrer.
Promete-me, imploro-te, que te casarás conforme o meu desejo – e
então mencionou a filha de um rei das vizinhanças, que ele
desejava ver casada com seu filho.
Tomado pela tristeza, o príncipe não conseguia pensar em
ninguém além de seu pai, e afirmou:
— Sim, sim, meu querido pai, vosso desejo há de se cumprir.
O rei então fechou os olhos e morreu.
Após sua proclamação como rei, e passado o período usual de
luto, o príncipe julgou que deveria manter a promessa feita ao pai, e
então enviou um pedido de casamento à filha do tal rei, pedido este
que foi prontamente aceito.
Ora, essa notícia chegou aos ouvidos daquela que era sua
primeira noiva, e a traição de seu bem-amado lançou-a em tão
sentido pesar, que ela foi definhando de desgosto quase até à
morte. Seu pai então lhe disse:
— Minha querida filha, qual o motivo de tanta tristeza? Se houver
qualquer coisa que desejes, dize-me, e o terás.
A filha ponderou por um momento e então disse:
— Querido pai, desejo que encontreis onze moças de altura, idade
e aparência semelhantes à minha.
O rei respondeu:
— Se tal coisa se pode fazer, teu desejo será atendido.
E o rei movimentou todo o reino para encontrar onze donzelas de
altura, porte e aparência semelhantes à de sua filha.

A princesa então encomendou doze trajes completos de caçador,


todos exatamente iguais, e as onze moças tiveram de vesti-los,
cabendo o décimo segundo à princesa. Depois disso, despediu-se
do pai e partiu com as outras moças rumo à corte de seu antigo
noivo.
Ao chegar lá, inquiriu se o rei acaso não precisava de alguns
caçadores, e se não desejava empregá-los todos. O rei não a
reconheceu e, achando muito bonitos todos aqueles jovens,
respondeu que sim, de bom grado os empregaria. E eles então se
tornaram os doze caçadores da Coroa.
Ora, o rei tinha um prodigioso leão, que sabia de todas as coisas
ocultas e secretas.
Certa noite, o leão disse ao rei:
— Então julgais que tendes doze caçadores, não é?
— Por certo, eles são doze caçadores.
— Pois é aí que vos enganais – disse o leão –; são doze donzelas.
— Impossível – replicou o rei. – Como pretendes provar o que
dizes?
— Basta espalhar um punhado de ervilhas pelo chão de vossa
antecâmara – respondeu o leão – e então vereis. Os homens têm
um passo forte e resoluto; se lhes acontece pisar em ervilhas,
nenhuma delas sequer sairá do lugar. Moças, por outro lado,
tropeçam, escorregam, deslizam, e as ervilhas se espalham por
toda a parte.
O rei ficou satisfeito com o conselho do leão e ordenou que se
espalhassem ervilhas pelo chão de sua antecâmara.
Por sorte, um dos criados do rei desenvolvera especial afeição
pelos jovens caçadores e, ao ouvir sobre o teste ao qual seriam
submetidos, procurou-os e disse-lhes:
— O leão quer convencer o rei de que sois apenas meninas – e
revelou-lhes todo o plano.
A filha do rei agradeceu-lhe a revelação e, tendo ele se retirado,
chamou as moças e advertiu-as:
— Fazei o possível para pisar com toda a firmeza sobre as
ervilhas.
Na manhã seguinte, quando o rei mandou chamar os doze
caçadores e eles cruzaram a antecâmara cujo chão estava repleto
de ervilhas, todos pisaram com tanta força, caminhando com um
passo tão seguro e firme, que nenhuma ervilha se espalhou, nem
sequer saiu do lugar. Depois que se retiraram, o rei disse ao leão:
— E então? Andas contando mentiras. Viste com teus próprios
olhos que eles caminham como homens.
— É que elas sabiam de antemão que estavam postas à prova –
respondeu o leão –, por isso se esforçaram por andar daquela
maneira. Mas colocai doze rodas de fiar na antecâmara. Quando
elas passarem pelo aposento, vereis como ficarão animadas,
diferentemente do que faria um homem.
O rei ficou satisfeito com o conselho e ordenou que doze rodas de
fiar fossem colocados em sua antecâmara.
Mas o bondoso criado do rei procurou os caçadores e revelou-lhes
tudo sobre o novo plano. Assim, tão logo se viu sozinha com suas
companheiras, a filha do rei advertiu-as:
— Meninas, esforçai-vos por nem sequer olhar para as rodas de
fiar.
Quando o rei mandou chamar seus doze caçadores na manhã
seguinte, eles atravessaram a antecâmara sem sequer virar o rosto
para onde estavam as rodas de fiar.
Então o rei disse mais uma vez ao leão:
— Enganaste-me uma vez mais; eles são homens, pois nenhum
deles sequer fez menção de olhar para as rodas de fiar.
O leão respondeu:
— Elas sabiam que estavam sendo testadas e contiveram seus
instintos.
Mas o rei recusou-se a acreditar no leão.
Então os doze caçadores continuaram a acompanhar o rei, e a
cada dia sua afeição por eles aumentava. Certo dia, enquanto
estavam a caçar, receberam a notícia de que a pretensa noiva do rei
estava a caminho, podendo chegar a qualquer momento. Quando a
verdadeira noiva do rei ouviu isso, sentiu como se uma espada lhe
atravessasse o coração, e desabou no chão, sem sentidos. O rei,
temendo que algo houvesse acontecido ao seu caçador, correu até
ele para ajudá-lo, e arrancou-lhe as luvas. Foi então que viu o anel
com o qual presenteara sua primeira noiva, e, ao fitar-lhe o
semblante, reconheceu-a, e seu coração enterneceu-se de tal modo
que ele a beijou. Quando ela abriu os olhos, ele disse:
— Sou teu, e és minha: eis aí algo que nenhum poder sobre a terra
será capaz de alterar.
Enviou um mensageiro à outra princesa, pedindo que voltasse
imediatamente ao seu próprio reino.
— Pois – disse ele – tenho uma esposa, e aquele que encontra
uma chave antiga não tem necessidade de uma nova.
O casamento foi celebrado com grande pompa, e o leão
reconquistou os favores do rei, pois dissera a verdade, afinal de
contas.[ 27 ]
[ 27 ] Irmãos Grimm.
Fuso, Lançadeira
e Agulha

RA UMA VEZ UMA GAROTA que ainda criancinha perdera o


pai e a mãe. Sua madrinha vivia sozinha numa pequena
cabana no canto mais afastado duma vila, e lá ganhava
o pão de cada dia a rodar e a fiar e a costurar. A velha
senhora pegou a orfãzinha para criá-la e inculcou-lhe hábitos bons,
piedosos e muito industriosos.
Quando a garota tinha quinze anos de idade, a boa madrinha ficou
muito doente. Chamando-a ao pé de seu leito, disse-lhe:
— Filha minha, sinto que meu fim está perto. Deixo-te a minha
cabana, que ao menos haverá de abrigar-te, e também o meu fuso,
a minha lançadeira de costura e a minha agulha, com os quais
ganharás o teu pão.
Então pôs as mãos na cabeça da garota, abençoou-a e
acrescentou:
— Tem cuidado e sê boa para com todos, e tudo irá bem contigo. –
Com o que fechou os olhos pela última vez. Ao ser carregada para a
cova, a garota foi atrás do caixão o trajeto inteiro, e lhe prestou
todas as últimas honrarias.
Depois da morte da madrinha, a garota passou a viver sozinha na
pequena cabana. Ela trabalhava duro, a rodar e a fiar e a costurar, e
a bênção que lhe dera sua velha madrinha parecia tornar próspero
tudo quanto fazia. O linho parecia espalhar-se e aumentar; e tão
logo costurasse um carpete ou um lençol, ou fizesse uma camisa,
era certo encontrar algum cliente disposto a pagar-lhe bem. Assim,
não só ela já não passava necessidades, como era mesmo capaz
de ajudar os outros.
Ora, aconteceu que lá pelas tantas o filho do rei estava fazendo
uma viagem através do reino a fim de procurar por uma noiva. Não
podia tomar por esposa uma moça pobre, e tampouco queria casar-
se com alguma que fosse rica.
— A minha noiva – disse ele – será aquela que for a um só tempo
a mais pobre e a mais rica de todas.
Ao chegar à vila onde morava a garota, entrou a perguntar quem
ali era a garota mais rica, e quem a garota mais pobre. Primeiro
nomeou-se a mais rica; quanto à mais pobre, esta lhe disseram ser
uma garota que vivia sozinha, numa cabana no campo mais
afastado da vila. A garota rica sentou-se à sua porta, a vestir as
melhores roupas que tinha e, quando o filho do rei chegou perto,
pôs-se de pé, foi até ele e lhe fez uma mesura. Este a observou
bem, não disse uma só palavra e continuou a cavalgar.
Ao chegar à casa da garota mais pobre, não a encontrou à porta,
pois ela estava a trabalhar no seu quarto. O príncipe segurou as
rédeas do cavalo, olhou pela janela, através da qual o sol estava a
rebrilhar refulgente, e viu a garota sentada, atarefadíssima a rodar e
a fiar.
Ela olhou para cima e, assim que viu que o filho do rei a
contemplava, fez-se vermelha qual um pimentão, baixou os olhos e
continuou a rodar a roca. Se a tecedura estava tão lisa e regular
quanto de costume realmente não sei dizer, mas ela continuou a fiar
até o filho do rei ir-se embora. Então foi até a janela e abriu a treliça,
dizendo:
— Como está abafado este quarto! – mas não tirou os olhos do
príncipe até onde pôde ver as plumas brancas em seu chapéu.
Então sentou-se para trabalhar novamente e continuou rodando a
roca, e ao fiar veio-lhe à cabeça uma cantiga que muitas vezes
ouvira de sua madrinha, enquanto esta trabalhava, e começou a
cantá-la:
Fuso meu, fuso meu, ó fuso meu,
Vá ver onde meu amor se meteu.
E eis que, surpresa! o fuso lhe pulou da mão e saiu desabalado
para fora do quarto, e quando ela já se recuperara suficientemente
de sua surpresa para procurá-lo, viu-o a dançar alegremente pelos
campos, deixando atrás de si um longo fio dourado, e logo sumiu de
toda a vista.
A garota, havendo perdido seu fuso, pegou a lançadeira, e,
sentando-se ao tear, começou a fiar. Neste meio-tempo, o fuso
dançou e bailou e girou e, justamente quando já acabara com o fio
dourado, chegou aos pés do filho do rei.
— Mas que é isto? – exclamou ele. – Este fuso parece estar
querendo me apontar uma direção. – Então virou a cabeça de seu
cavalo e cavalgou de volta, seguindo o fio dourado.
E a garota fiava ainda, sentada, a cantar:
Lançadeira, fia e tece com afeto,
Traz meu amor p’ra debaixo deste teto.
A lançadeira na hora escapuliu de sua mão, e num salto estava já
fora da porta. Ali, na soleira, começou a tecer o carpete mais lindo
que já se viu no mundo. Rosas e lírios floresciam num e noutro lado,
e no centro parecia crescer-lhe uma floresta, com coelhos e lebres a
correr para lá e para cá, cervos e veados espiando por entre os
ramos, e pássaros de uma plumagem tão brilhante, e cores tão
vivazes, que a gente ficava a esperá-los cantar lá dos galhos mais
altos onde estavam. A lançadeira corria de um lado para o outro, e o
carpete como que surgia de dentro si mesmo.
Como também a lançadeira lhe havia escapulido, a garota sentou-
se para costurar. Pegou sua agulha e cantou:
Costura e costura, ó agulha, em cruz
Que assim meu quarto se alegra e reluz,
e a agulha prontamente escorregou-lhe dos dedos e saiu a voar
pela sala, como um raio. Era de se crer que espíritos invisíveis
estavam a operar ali, pois num piscar de olhos a mesa e os bancos
estavam já cobertos com um manto verde, e as cadeiras com
veludo, e das janelas pendia uma seda elegantíssima. Mal a agulha
dera o último ponto, quando a garota, espiando pela janela, com o
canto do olho viu o chapéu emplumado do filho do rei, que fora
guiado de volta pelo fuso com o fio dourado.
Este desmontou e andou sobre o carpete até dentro da casa. Ao
entrar no quarto, lá estava a garota corando como uma rosa.
— És a mais pobre e, ainda assim, a mais rica – disse ele. – Vem
comigo, hás de ser minha noiva.
Ela não disse nada, mas segurou sua mão. Então ele a beijou,
levou-a para fora, ergueu-a até a sela do cavalo e com ela cavalgou
até o palácio real, onde se celebrou o casamento com muito júbilo e
festas.
O fuso, a lançadeira e a agulha foram postos no tesouro com todo
o cuidado, e tidos na mais alta conta para todo o sempre.[ 28 ]

[ 28 ] Irmãos Grimm.
O Caixão de Cristal

INGUÉM DUVIDE QUE um pobre alfaiate possa dar-se bem


neste mundo, ou até mesmo alcançar altas honrarias.
Tudo o que precisa é trabalhar com afinco, mas o mais
importante mesmo é obter sucesso.
Certa vez, um jovem alfaiate, muito inteligente e empenhado, pôs o
pé na estrada e acabou chegando a uma floresta. Lá, como não
soubesse por onde ir, logo se perdeu. Veio a noite, e não havia jeito
senão achar um abrigo onde repousar. O rapaz poderia muito bem
se acomodar num canto coberto de musgo, mas, como o medo de
animais selvagens lhe perturbasse a mente, resolveu passar a noite
em cima de uma árvore.
Encontrou um alto carvalho, subiu ao topo e deu graças a Deus
por ter no bolso seu ferro de passar roupa, pois o vento soprava
forte no alto das árvores e era capaz até de derrubá-lo se não fosse
pelo peso a mais. Depois de passar algumas horas da noite com
grande medo e tremedeira, notou uma luz brilhando a pouca
distância e, na esperança de que viesse de uma casa, onde se
abrigaria melhor do que no topo da árvore, desceu cuidadosamente
e foi em direção a ela. Acabou encontrando uma cabaninha de
juncos entrelaçados. Bravamente bateu à porta, a qual abriu, e à luz
que de dentro reluzia viu um velho de cabelo grisalho, vestindo um
casaco feito com retalhos de cores vivas.
— Quem és e o que queres? – perguntou o velho grosseiramente.
— Sou um pobre alfaiate – respondeu o jovem. – Fui surpreendido
pela noite na floresta e lhe rogo que me acolha em sua cabana até o
raiar do sol.
— Vai embora – respondeu o velho num tom rabugento. – Não
quero nada com andarilhos. Procura outro lugar.
Com estas palavras tentou esgueirar-se para dentro da casa, mas
o alfaiate segurou-lhe as abas do casaco, e tanto lhe implorou para
o deixar passar a noite ali, que o velhote, que não era tão rabugento
quanto parecia, ficou tocado por suas súplicas e o deixou entrar.
Depois de dar-lhe um pouco de comida, conduziu-o até uma boa
cama num canto do aposento. O alfaiate, cansado como estava, não
precisou de nenhum embalo para cair no sono, e dormiu
profundamente até os primeiros raios da manhã, pois a essa hora
um barulho tremendo o despertou. Altos gritos e chiados
penetravam pelas finas paredes da cabaninha. O rapaz, com a
coragem renovada, saltou da cama, vestiu-se com pressa e saiu. Do
lado de fora, viu um embate entre um enorme touro negro e um
cervo grande e elegante. Investiam um contra o outro com tanta
fúria, que debaixo de seus pés o chão parecia tremer, e todo o ar
encher-se com seus brados. Por um tempo o resultado da luta
esteve incerto, mas, finalmente, o cervo cravou os chifres com tanta
força no corpo do oponente, que o touro, com um berro terrível, caiu
ao chão, e mais alguns golpes bastaram para acabá-lo. O alfaiate,
que vinha observando a luta estupefato, ainda não conseguira se
mover quando o cervo saltou em sua direção e, antes que ele
pudesse escapar, o aforquilhou com seus chifres; saiu então
correndo a todo galope por sebes e fossos, montes e vales, rios e
florestas. O alfaiate nada pôde fazer senão segurar-se com as duas
mãos nos cornos do cervo e resignar-se a seu destino. Sentiu que
voava pelos ares. Por fim, o cervo parou diante de um rochedo
íngreme e com muita delicadeza pousou no chão o alfaiate.
Mais morto do que vivo, o alfaiate parou por um momento para
recobrar os sentidos e já estava um pouco melhor, quando o cervo
bateu com tanta força em uma porta na parede do rochedo que ela
se escancarou. Chamas e brasas arrojaram-se desde dentro;
seguiram-nas tantas nuvens de fumaça que o cervo teve que
desviar os olhos. O alfaiate não sabia o que pensar nem o que fazer
para escapar de tão horrenda selvageria e voltar para o meio dos
homens.
Enquanto hesitava, uma voz desde o rochedo bradou:
— Entra sem medo, nenhum mal cairá sobre ti.
Ainda ficou parado, incerto, mas uma força misteriosa o impelia, e
ao passar pela porta viu-se num amplo saguão, cujo teto, paredes e
chão eram cobertos de finos azulejos, talhados inteiramente com
figuras desconhecidas. Passeou os olhos por todos os cantos,
repleto de admiração, e estava a ponto de sair pela porta quando a
voz comandou:
— Pisa na pedra no meio do saguão, e a boa fortuna te
acompanhará.
A esta altura, o rapaz já havia ganhado tanta coragem que não
hesitou em obedecer à ordem; mal havia pisado na pedra quando
ela começou afundar delicadamente até as profundezas. Quando
alcançou o chão firme, viu-se dentro de um saguão mais ou menos
do mesmo tamanho que o superior, porém muito mais cheio de
coisas para se maravilhar. Ao longo das paredes havia vários nichos
e, dentro de cada, vasos cheios de fumos azulados ou de algum tipo
de vapor de cores muito vivas. Colocadas no chão havia duas
enormes caixas de cristal de frente uma para a outra; estas, por
algum motivo, lhe atiçaram a curiosidade.
Ao se aproximar de uma delas, viu em seu interior o que lhe
pareceu um modelo em miniatura de um belo castelinho rodeado de
fazendas, galpões, estábulos e uns quantos outros edifícios. Era
tudo bem pequenininho, mas tão lindo e feito com tanto esmero que
podia muito bem ser a obra de um hábil artista. O rapaz teria
observado por muito mais tempo aquela raridade se a voz não
tivesse pedido que ele se virasse para olhar o caixão de cristal do
outro lado.
Qual não foi seu espanto quando viu que nele jazia uma garota de
incomparável beleza! Estava deitada como se dormisse, e seus
longos cabelos dourados a envolviam como um manto precioso. Os
olhos estavam cerrados, mas a viva cor de sua face, somada ao
movimento de um lacinho, que subia e descia conforme a respiração
da moça, não lhe deixou dúvidas de que ela estava viva.
Enquanto a contemplava com o coração a mil, a donzela
subitamente abriu os olhos e sobressaltou-se com grande alegria:
— Santo Deus! – exclamou. – Meu livramento se aproxima!
Rápido, rápido, me ajuda a sair desta prisão: basta levantar a
lingueta deste caixão, que estarei livre.
O alfaiate prontamente obedeceu, e quando ela empurrou a tampa
de cristal, saltou para fora do caixão e foi correndo até um canto do
saguão, onde se envolveu em uma grande capa. Em seguida
sentou-se sobre uma pedra, pediu ao rapaz que se aproximasse,
deu-lhe um beijo afetuoso e disse:

“Meu aguardado salvador, os céus te conduziram até mim e


puseram fim a meu sofrimento. Tu és o esposo que o destino me
prometeu; tu, amado por mim e dotado de toda sorte de riquezas e
de poder, passarás o resto de tua vida com paz e felicidade. Agora
senta e escuta minha história. Sou a filha de um rico nobre. Meus
pais morreram quando eu ainda era pequena, e assim me deixaram
aos cuidados de meu irmão mais velho, que me educou com grande
esmero. Nós nos amávamos tão afetuosamente, e nossos gostos e
interesses eram tão parecidos, que decidimos jamais nos casar, e
passar o resto de nossas vidas juntos. Nunca sentimos falta de
companhia em nossa casa, que estava sempre cheia: amigos e
vizinhos nos visitavam com frequência e deixávamos a casa aberta
para todos. Pois aconteceu numa tardezinha que um estranho
cavalgou até nosso castelo e rogou-nos por nossa hospitalidade, já
que não alcançaria a cidade mais próxima antes do anoitecer.
Demos-lhe o que pediu, corteses e prestativos, e durante a janta ele
nos entreteve com conversas agradáveis entremeadas com
divertidas anedotas. Meu irmão afeiçoou-se tanto a ele que o instou
a ficar uns dias a mais conosco; e o estranho, depois de hesitar um
pouco, aceitou. Já era tarde quando nos levantamos da mesa, e,
enquanto meu irmão levava o hóspede a seu quarto, segui depressa
ao meu, pois estava muito cansada e desejava deitar. Havia apenas
adormecido quando fui acordada por uma melodia amena e
graciosa. Querendo saber de onde vinha, ia chamar a criada que
dormia no quarto vizinho ao meu, quando, para meu espanto, senti
sobre o peito um enorme peso que me paralisou, de modo que lá
fiquei deitada, incapaz de proferir o menor som. Entrementes, à luz
de meu abajur aceso, vi entrar em meu aposento o estranho,
embora a entrada do quarto estivesse defendida por duas portas
muito bem trancadas. Ele se aproximou de mim e disse que, por
meio do poder de sua magia, havia feito soar uma música para me
acordar, e atravessara as linguetas e ferrolhos das portas para me
oferecer sua mão e seu coração. Minha aversão a sua magia era
tamanha que não me dignei a lhe dar resposta alguma. Por um
tempo ele aguardou sem se mover, na esperança, por certo, de uma
resposta positiva; vendo, no entanto, que eu me mantinha calada,
declarou raivosamente que acharia um jeito de punir meu orgulho e
a seguir saiu do quarto espumando de raiva.
“Passei o resto da noite com grande perturbação e só consegui
cochilar quando se aproximava a manhã. Assim que despertei, pulei
da cama e corri para contar a meu irmão o que tinha acontecido,
mas seu quarto já estava vazio, e um serviçal me disse que ele
saíra ao romper do dia a caçar com o estranho.
“Fiquei apreensiva. Vesti-me com pressa, mandei encilhar meu
palafrém e cavalguei a todo galope até a floresta, acompanhada de
um só servo. Avancei sem parar, e não tardou para que eu visse o
estranho vindo em minha direção, guiando um belo cervo.
Perguntei-lhe onde deixara meu irmão, e onde encontrara o cervo,
de cujos olhos enormes transbordavam lágrimas. Em vez de
responder, começou a rir, e fiquei tão irada que puxei a garrucha e
atirei nele. A bala, porém, ricocheteou de seu peito e atingiu a testa
de meu cavalo. Caí ao chão, e o estranho murmurou umas palavras
que me fizeram perder os sentidos.
“Quando os recobrei, vi-me deitada dentro do caixão de cristal
nesta câmara subterrânea. O mago novamente apareceu, e disse-
me que transformara meu irmão num cervo, reduzira nosso castelo
e todas suas defesas ao tamanho de uma miniatura e os prendera
numa caixa de vidro; depois de transformar todos os habitantes do
castelo em vários tipos de fumos, confinou-os a frascos. Bastava
que eu cedesse a seus desejos para que ele abrisse todos os
recipientes e a todo mundo devolvesse sua forma original.
“Como eu me mantivesse calada como antes, ele desapareceu,
deixando-me nesta prisão, onde um sono profundo logo tomou
conta de mim. Dentre os vários sonhos que flutuavam em meu
cérebro, havia um, bastante alegre, de um jovem rapaz que viria me
libertar, e hoje, assim que abri meus olhos, te reconheci e soube que
meu sonho se realizara. Agora me ajuda a cumprir o resto de meu
presságio. A primeira coisa que deves fazer é colocar nesta grande
pedra a caixa de vidro que contém o castelo.”
Assim que o alfaiate o fez, a pedra começou a elevar-se
delicadamente e os levou ao saguão superior, de onde foi fácil
carregar a caixa para o lado de fora. Em seguida a dama tirou-lhe a
tampa, e causou grande maravilhamento ver o castelo, as casas e
as fazendas crescerem e se expandirem até que retomassem seu
tamanho normal. Depois o jovem casal voltou para dentro usando a
pedra móvel e de lá trouxe todos os recipientes cheios de fumo. Tão
logo desafrouxaram as rolhas, o fumo azul começou a se despejar e
transformar-se em homens vivos, os quais a senhorita, com grande
alegria, reconheceu serem seus muitos serviçais e acompanhantes.
Seu deleite tornou-se completo quando viu seu irmão (que havia
matado o mago transformado em touro) vindo da floresta em sua
forma original. E naquele mesmo dia, conforme fora prometido, ela
deu sua mão em casamento ao jovem e feliz alfaiate.[ 29 ]

[ 29 ] Irmãos Grimm.
As Três Folhas
de Serpente

RA UMA VEZ UM HOMEM que, de tão pobre, não tinha mais


condições de manter em casa o seu único filho. Então,
um dia, o filho lhe disse:
— Meu querido pai, és tão pobre que não passo de um
fardo para ti. Prefiro errar pelo mundo em busca do meu próprio
sustento.
O pai abençoou-o e despediu-se dele com muito pesar. Nessa
época, estava em guerra um poderoso rei de um vasto reino. O
jovem alistou-se em seu exército e saiu em campanha. Quando se
depararam com o inimigo, uma batalha começou; houve intenso
combate e os projéteis formavam sobre eles uma nuvem tão densa,
que seus companheiros tombavam por terra por toda a parte.
Quando o comandante também caiu, todos quiseram bater em
retirada, mas o rapaz tomou a liderança e os animou, exortando os
soldados:
— Não permitiremos que destruam nosso país!
Outros combatentes começaram a segui-lo, e eles tanto insistiram,
que por fim derrotaram o inimigo. Quando chegou à corte a notícia
de que a vitória se devia àquele rapaz, o rei conferiu-lhe o posto
mais alto no exército, agraciou-o com fabulosos tesouros e fez dele
o homem mais importante do reino.
O rei tinha uma filha muito bonita, mas também muito cheia de
caprichos. Ela fizera um voto de não se casar com ninguém que não
prometesse que, em morrendo ela primeiro, consentiria em ser
enterrado vivo junto com ela. “Se ele verdadeiramente me ama”, ela
costumava dizer, “de que lhe valeria continuar vivendo?” Ao mesmo
tempo, ela se dispunha a sacrifício igual, prometendo que, morrendo
o esposo antes dela, consentiria em ser enterrada junto com ele.
Este curioso voto havia afastado todo e qualquer pretendente até
aquele momento, mas o jovem foi de tal modo cativado por sua
beleza, que nada o podia deter, e ele pediu a mão da princesa a seu
pai.
— Sabeis – respondeu o rei – o que tereis de prometer?
— Terei de ser enterrado junto com ela – respondeu –, caso eu lhe
sobreviva; mas meu amor é tão grande que não considero os
perigos.
O rei consentiu com o casamento, que foi celebrado com grande
esplendor.
Ora, por muito tempo viveram ambos felizes na companhia um do
outro, mas então a jovem rainha caiu gravemente doente, e nenhum
médico podia salvá-la. Quando por fim a rainha morreu, o jovem rei
lembrou-se do que prometera e estremeceu ao pensar que teria de
jazer ao seu lado, em vida, porém não havia escapatória. O rei
dispusera guardas ao longo de todos os portões, não sendo
possível fugir ao destino.
Chegado o dia em que o corpo deveria ser depositado no sepulcro
real, para lá o jovem rei foi levado, e a entrada devidamente
aferrolhada e lacrada.
Próximo à urna havia uma mesa com quatro velas, quatro pães e
quatro garrafas de vinho. Quando essas provisões se esgotassem,
ele necessariamente teria de morrer. Permaneceu ali sentado,
tomado de pesar e amargura, comendo a cada dia apenas um
pedacinho de pão e bebericando uns parcos goles de vinho,
sentindo a morte cada vez mais perto. Certo dia, estando ali sentado
e perdido em pensamentos sombrios, viu uma serpente sair
furtivamente do canto da parede e dirigir-se ao cadáver. Crendo que
a serpente tencionava tocar no corpo, empunhou a espada e disse:
— Enquanto eu viver, não permitirei que lhe causes nenhum mal! –
e cortou a serpente em três.
Alguns instantes depois, uma segunda serpente veio rastejando do
canto da parede. Ao deparar-se com a primeira, morta e aos
pedaços, deu meia-volta e logo retornou trazendo na boca três
folhinhas verdes. Tomou os três pedaços da serpente e os dispôs
em ordem, e então deitou uma folhinha sobre cada junção. As
partes da serpente emendaram-se num instante, a cobra começou a
se mexer, viva novamente, e ambas as serpentes precipitaram-se
para fora. As folhinhas permaneceram sobre o chão e subitamente
ocorreu ao rapaz, que a tudo assistira, que o fabuloso poder
daquelas folhas poderia surtir efeitos também sobre um ser humano.
Apanhou então as folhas e deitou uma delas sobre a boca, e as
outras duas, sobre os olhos da mulher que jazia morta. Mal acabara
de fazê-lo, o sangue voltou a circular em suas veias e suas faces
pálidas recobraram a cor. Ela tomou fôlego, abriu os olhos e disse:
— Ah! Onde estou?
— Estás comigo, senhora minha – respondeu, contando-lhe tudo
que se passara, e como lhe restituíra a vida.
Em seguida deu-lhe um bocado de pão e vinho. Tão logo sentiu
renovadas suas forças, ela se levantou. Dirigiram-se até a porta e
bateram e gritaram com tamanho alarido, que os guardas os
ouviram e reportaram o acontecido ao rei. Sua majestade veio
pessoalmente abrir a porta, encontrando lá dentro a ambos, felizes e
bem dispostos, e juntou à alegria deles a sua, agora que tudo
estava bem. Mas o jovem rei entregou as três folhas da serpente ao
seu criado, dizendo-lhe:
— Guarda-as para mim com muito cuidado e leva-as sempre
contigo. Quem sabe se elas nos servirão em alguma necessidade!
Parecia, contudo, que algo se alterara na jovem rainha desde que
ela recobrara a vida, e que todo o seu amor pelo esposo
desaparecera de seu coração. Algum tempo depois, enquanto
cruzavam de navio o oceano para visitar o velho pai do rapaz, ela se
esqueceu de todo o amor e fidelidade que ele lhe demonstrara e de
como a salvara da morte, e apaixonou-se pelo capitão. Um dia,
enquanto o jovem rei dormia, ela chamou o capitão e agarrou a
cabeça do rei adormecido, fazendo com que o capitão lhe agarrasse
os pés, e juntos o atiraram ao mar. Depois de perpetrar tamanha
barbaridade, ela lhe disse:
— Ora, voltemos para casa e contemos a todos que ele morreu
durante a viagem. Cobrir-te-ei de tantos elogios, que meu pai
providenciará nosso casamento e fará de ti o sucessor do trono.
Mas o criado fiel, que a tudo assistira, lançou um bote ao mar, sem
que ninguém o visse, e remou até seu senhor enquanto os traidores
seguiam viagem. Resgatou o afogado das águas e, com a ajuda das
três folhas da serpente que trazia consigo, restaurou-o à vida,
deitando-as sobre sua boca e seus olhos.
Os dois remaram tão vigorosamente quanto podiam, dia e noite, e
seu pequeno bote navegou tão rápido, que alcançaram o velho rei
antes dos outros dois. O rei ficou muito espantado ao vê-los retornar
sozinhos e perguntou-lhes o que havia acontecido. Quando ficou
sabendo da perversidade de sua filha, disse:
— Não posso acreditar que ela tenha agido tão mal, mas a
verdade logo virá à tona.
Providenciou que os dois se escondessem em uma câmara
secreta, tomando cuidado para que ninguém os visse.
Pouco tempo depois, aproximou-se o grande navio, e a malévola
donzela apresentou-se diante de seu pai com profunda tristeza
estampada no rosto. Ele lhe disse:
— Por que vieste sozinha? Onde está teu esposo?
— Ah, meu querido pai – ela respondeu –, é com grande pesar que
volto para casa. Meu esposo adoeceu repentinamente durante a
viagem e morreu. Não fosse a ajuda do bom capitão, eu também
teria morrido. Ele estava junto ao leito de morte e poderá relatar-vos
como tudo se passou.
O rei respondeu:
— Pois hei de trazer o morto de volta à vida – e abriu a porta do
aposento, chamando a ambos para fora.
Ao avistar o esposo, a moça ficou paralisada de espanto, caiu de
joelhos e implorou por misericórdia. Mas o rei disse:
— Não mereces compaixão. Teu esposo estava disposto a morrer
contigo e te restaurou a vida, mas tu o mataste enquanto ele dormia,
e por isso terás o castigo que mereces.
Então ela e seu cúmplice foram colocados em um navio
previamente perfurado e lançados ao mar, onde logo pereceram em
meio às ondas.[ 30 ]

[ 30 ] Irmãos Grimm.
O Enigma

RA UMA VEZ O FILHO de um rei, que muito queria viajar pelo


mundo; e lá se foi ele, levando consigo apenas um servo
de sua confiança. Um dia chegou a uma grande floresta.
A noite caía já, e ele não conseguia encontrar abrigo, e
não tinha a mínima ideia de onde poderia passar a madrugada.
Subitamente viu uma mulher indo em direção a uma casinha e, ao
chegar-lhe perto, reparou que era moça, e muito bonita. Falou com
ela, dizendo:
— Querida jovem, será que poderíamos passar a noite em tua
casa, eu e meu servo?
— Ó, sim – respondeu a moça, com uma voz tristonha. – Podeis,
se o quiserdes; mas eu vos aconselharia a não o fazerdes. O melhor
é que não entreis.
— Mas por quê? – quis saber o filho do rei.
A garota suspirou e respondeu:
— Minha madrasta é uma praticante de magia negra, e não é
muito amigável com estrangeiros.
O príncipe logo adivinhou que viera parar na casa de uma bruxa.
Como, porém, já estivesse bastante escuro naquela hora e não lhe
fosse possível continuar num tamanho breu – e como, além do
mais, não tinha um só pingo de medo –, entrou na casa.
Uma velha estava sentada numa poltrona ao pé do fogo e, tão logo
os estranhos entraram, cravou neles os seus olhos vermelhos.
— Boa noite – murmurou.
E, fingindo ser muito amigável:
— Não quereis vos sentar?
Alimentou o fogo no qual estava a cozinhar algo numa panelinha, e
sua filha os avisou, em segredo, para que prestassem muita
atenção e não bebessem nem comessem nada, já que os cozidos
da velha seriam provavelmente perigosos.
Foram deitar-se e dormiram bem tranquilamente até a manhã.
Quando já estavam prontos para partir, tendo o filho do rei já
montado o seu cavalo, a velha disse:
— Esperai um minutinho, tenho de vos dar uma bebidinha para a
viagem.
No meio-tempo em que a fora pegar, o filho do rei foi-se embora a
galope, e o servo, que lá ficara para apertar as correias de sua sela,
estava sozinho quando a bruxa voltou.
— Leva isto para o teu mestre – disse ela; mal falou, porém, e o
copo se rachou, e o veneno espirrou no cavalo, e era tão forte que a
pobre criatura caiu morta ali mesmo. O servo, então, correu até o
mestre e lhe contou tudo quanto acontecera; depois, como não
queria perder a sela além do cavalo, voltou para pegá-la. Quando
chegou ao local, viu que um corvo se havia empoleirado na carcaça
do bicho e estava a bicá-la.
— Quem sabe encontremos algo melhor para comer hoje! – disse
o servo. Deu um tiro no corvo e o levou embora consigo.
Então puseram-se a cavalgar o dia inteiro pela floresta, e nunca
lhe chegavam ao fim. À noitinha alcançaram uma estalagem.
Entraram, e o servo deu o corvo ao estalajadeiro, a fim de que o
cozinhassem para o jantar. Ora, calhava de a tal estalagem ser o
refúgio frequente dum bando de assassinos, e também a bruxa
velha tinha o hábito de frequentá-la.
Mal caiu a noite, e doze assassinos chegaram, perfeitamente
resolvidos a matar e saquear os estrangeiros. Antes de realizarem
seu intento, porém, sentaram-se à mesa, e o estalajadeiro e a bruxa
se juntaram à turba, pondo-se todos a comer algum ensopado no
qual fora cozida a carne do corvo. Uma ou duas colheradas foi o
suficiente para que caíssem mortos, pois o veneno havia passado
do cavalo para o corvo, e deste para o ensopado. Assim, não
sobrou ninguém na casa a não ser a filha do estalajadeiro, que era
uma moça muito boa e direita, e que nunca tomara parte nas
malvadezas.
Ela abriu todas as portas e mostrou aos estranhos o mundaréu de
tesouros ajuntado pelos ladrões, mas o príncipe ordenou-lhe que
ficasse com quanto ali havia para si, pois nada queria, e seguiu em
frente com o seu servo.

Após viajarem por algum tempo, chegaram a uma cidade onde


vivia uma princesa encantadora, mas arrogante que só. Esta fizera
saber a todos que o sujeito que lhe propusesse um enigma que ela
não conseguisse resolver haveria de ganhar sua mão; se, por outro
lado, ela o resolvesse, o sujeito tanto não ganharia a mão como
perderia a cabeça. Pedia três dias para pensar sobre os enigmas,
mas era tão perspicaz que invariavelmente os adivinhava muito
mais rápido. Nove pretendentes já haviam perdido a vida quando o
filho do rei lá chegou e, deslumbrado por sua beleza, resolveu
arriscar a própria vida para ganhar sua mão.
Apresentou-se a ela e lhe propôs o seguinte enigma:
— O que é, o que é? – perguntou. – A ninguém atacou, e doze
matou.
Ela não sabia dizer o que era! E pensou, e pensou, e folheou
quantos livros de enigmas e charadas tinha, mas nada encontrou
que a pudesse ajudar; e simplesmente não conseguia resolvê-lo. A
dizer a verdade, já esgotara toda sua perspicácia. Como não lhe
ocorria modo algum de adivinhar o enigma, ordenou à sua criada
que entrasse escondida no quarto do príncipe à noitinha e lá se
pusesse a escutá-lo, a ver se ele não falaria durante o sono e trairia
o segredo. Mas o servo sagaz havia tomado o lugar do mestre. Tão
logo chegou a criada, ele arrancou-lhe o manto no qual ela se
envolvera e saiu a persegui-la com um chicote.
Na segunda noite, a princesa enviou sua dama de companhia,
esperançosa de que esta se saísse melhor. Mas o servo também lhe
arrancou o manto e foi persegui-la.
Na terceira noite, o filho do rei pensou estar já são e salvo, e foi
deitar-se. Eis, porém, que na calada da noite veio a própria
princesa, toda enrolada num manto acinzentado, e sentou-se perto
dele. Quando pareceu à senhora que ele estava no quinto sono,
começou a fazer-lhe perguntas, crente de que o moço as
responderia em meio aos sonhos, como muita gente faz. Mas o filho
do rei não pregara o olho e a tudo ouviu e entendeu perfeitamente.
Então ela perguntou:
— “A ninguém atacou”; o que significa isto? – e ele respondeu:
— Um corvo que havia se alimentado da carcaça dum cavalo
envenenado.
Ela continuou:
— “Doze matou”; o que significa isto?
— Doze assassinos que comeram o corvo e morreram
envenenados.
Assim que descobriu o enigma, tentou escapar silenciosamente,
mas ele agarrou seu manto com tanta força que ela foi obrigada a
deixá-lo para trás.
Na manhã seguinte, a princesa anunciou a todos que adivinhara o
enigma, e o declarou perante os doze juízes. Mas o jovem implorou
para falar e disse:
— À noite ela veio fazer-me perguntas. De outro modo jamais o
teria adivinhado.
Os juízes disseram:
— Tens alguma prova?
Então o servo trouxe os três mantos. Mal os juízes bateram os
olhos no manto acinzentado, que a princesa muito usava, disseram:
— Encraveis este manto de ouro e prata; aí está teu vestido de
casamento.[ 31 ]

[ 31 ] Irmãos Grimm.
João d ’Ouriço

RA UMA VEZ UM FAZENDEIRO que levava uma vida de


conforto. Tinha terras e dinheiro, mas, embora vivesse
na abundância, sua felicidade era incompleta, porque
não tinha filhos. Sempre que se encontrava com outros
fazendeiros no burgo mais próximo, caçoavam dele, perguntando
como era possível que não tivesse filhos. Um dia o fazendeiro ficou
tão irritado que exclamou:
— Preciso de um filho, e algum filho, de alguma espécie, hei de ter,
mesmo que seja um ouriço!
Não demorou para sua mulher dar à luz um filho; mas, se da
cintura para baixo a criança era um belo menino, da cintura para
cima era um ouriço. Assim, quando a mãe o viu pela primeira vez,
ficou assombrada e disse ao marido:
— Viste só? Amaldiçoaste a criança!
O fazendeiro respondeu:
— Para que fazer tanto escarcéu? Imagino que temos que batizar
a criatura, mas não sei a quem convidar para padrinho; ademais,
que nome lhe daremos?
— Que outro nome podemos lhe dar, senão João d’Ouriço? ‒
respondeu a mulher.
Levaram-no então para ser batizado, e o vigário disse:
— Jamais conseguireis deitar esta criança numa boa cama, por
causa de seus espinhos.
Era verdade, mas deram um jeito de forrar com palha um canto
atrás do fogão, que lhe serviu de cama por oito anos. Com o tempo,
o pai se cansou do filho e várias vezes desejou que morresse, mas
a criança não morria, e continuava a se deitar ali ano após ano.
Pois bem: um belo dia houve uma feira no burgo, à qual o
fazendeiro pretendia ir; perguntou então à esposa o que deveria
trazer de lá.
— Um tanto de carne e pães para a casa ‒ disse a mulher.
Depois perguntou à empregada o que desejava, ao que ela
respondeu que queria meias e um par de chinelos.
Por último, falou:
— Então, João d’Ouriço: o que queres que eu te traga?
— Papai – respondeu ‒, traze-me uma gaita de foles!
Quando o fazendeiro voltou para casa, deu à mulher e à
empregada o que haviam pedido; depois foi para trás do fogão e
deu a João d’Ouriço sua gaita. Em posse da gaita, João d’Ouriço
falou ao pai:
— Papai, por favor vai ao ferreiro da aldeia e pede-lhe que coloque
ferraduras no nosso galo: prometo que montarei o bicho, partirei e
não te aborrecerei nunca mais.
O pai, alentado pela esperança de ver-se livre do filho, mandou
ferrar o galo; quando estava tudo pronto, João d’Ouriço montou nele
e partiu para a floresta, seguido por todos os porcos e asnos dos
quais ficara de cuidar.
Ao chegar à floresta, voou com o galo para o topo de uma árvore
muito alta e lá se sentou para vigiar seus porcos e burros, e seguiu
sentado por vários anos até que o rebanho se tornou bastante
numeroso; e, durante todo esse tempo, o pai não teve nenhuma
notícia dele.
Sentado no topo de sua árvore, João d’Ouriço tocava sua gaita à
vontade e nela executava as mais lindas melodias. Certo dia,
enquanto tocava, um rei, que se perdera na floresta, passou ali
perto e, ao ouvir aquela música, muito se admirou, e mandou um de
seus lacaios descobrir de onde ela vinha. O criado espiou por todos
os cantos, mas nada encontrou a não ser uma pequena criatura que
mais parecia um galo, empoleirado numa árvore, com um ouriço
montado nas costas. O rei pediu ao lacaio que perguntasse à
estranha criatura por que estava sentada ali, e se conhecia o
caminho mais curto até seu reino.
Diante disto, João d’Ouriço desceu da árvore e disse que se
comprometeria a indicar ao rei o caminho se este, de sua parte,
prometesse por escrito que lhe daria de presente a primeira coisa
que topasse em sua volta para casa. O rei pensou com seus botões:
— Ora, é muito fácil prometer-lhe qualquer coisa. Por certo a
criatura não sabe ler, e assim poderei escrever o que quiser.
Pegou então pena e tinteiro e escreveu qualquer coisa; quando
terminou, João d’Ouriço lhe apontou o caminho, e o rei chegou em
casa são e salvo.
Pois bem: quando a filha do rei avistou seu pai voltando ao longe,
ficou tão feliz que correu a seu encontro e atirou-se a seus braços.
Lembrou-se então o rei de João d’Ouriço, e contou à filha que uma
criatura extraordinária se oferecera a lhe mostrar o caminho de
casa, e que ele, obrigado pelas circunstâncias, lhe prometera dar de
presente a primeira coisa que visse ao retornar. A criatura, disse,
montava num galo como se fosse um cavalo e tocava músicas
encantadoras, mas ele, como estava certo de que o bicho não sabia
ler, simplesmente escrevera que não lhe daria coisa alguma. A
princesa ficou contente com o que ouviu e elogiou o pai pela astúcia
com que lidara com a situação, pois, obviamente, por nada no
mundo iria viver com João d’Ouriço.
Enquanto isso, sentado no alto de sua árvore, João d’Ouriço
cuidava de seus asnos e porcos e tocava sua gaita de foles, sempre
lépido e fagueiro. Depois de um tempo, outro rei que se perdera na
floresta passou por ali com seus servos e sua escolta, tentando
descobrir o caminho de volta, pois a floresta era muito vasta.
Também ele ouviu a música e mandou um de seus homens
descobrir de onde ela vinha. O homem parou embaixo da árvore e,
olhando para cima, viu João d’Ouriço montado em seu galo. O servo
perguntou a João d’Ouriço o que fazia lá em cima.
— Cuido de meus porcos e burros; mas o que desejas tu? ‒
respondeu.
Disse-lhe então o servo que ele, seu rei e seus colegas estavam
perdidos e queriam que alguém lhes mostrasse o caminho para
casa. João d’Ouriço desceu montado em seu galo e falou ao velho
rei que mostraria o caminho certo se este prometesse solenemente
que lhe daria a primeira coisa que topasse à frente do castelo.
O rei concordou e deu a promessa por escrito a João d’Ouriço.
Então João d’Ouriço, montado em seu galo, tomou a dianteira do
grupo e lhes apontou o caminho; e o rei chegou a seu país são e
salvo.
Pois bem: tinha o rei uma filha única que era belíssima; e ela ficou
tão feliz com a volta do pai, que correu a seu encontro, atirou-lhe os
braços à volta do pescoço e deu-lhe um afetuoso beijo. Perguntou
em seguida por onde andara vagueando esse tempo todo; o pai
contou que se perdera e talvez jamais chegasse em casa se não
fosse por uma estranha criatura, metade homem, metade ouriço,
que montava num galo e tocava belas músicas sentado no topo de
uma árvore, e fora esta criatura que lhe mostrara o caminho certo.
Contou-lhe também como fora obrigado a prometer que daria à
criatura a primeira coisa que topasse às portas do castelo, e quão
triste ficava ao pensar que fora ela, a filha, a primeira a encontrá-lo.
Mas a princesa o consolou, dizendo que, por causa do amor que
tinha ao velho pai, dispunha-se a ir embora com João d’Ouriço
quando quer que ele viesse buscá-la.
João d’Ouriço permaneceu cuidando de seus porcos, que se
multiplicaram tanto ao ponto de a floresta ficar lotada deles. Decidiu
então que não moraria mais ali, e mandou recado a seu pai dizendo
que esvaziasse todos os estábulos e dependências do vilarejo, pois
traria uma vara tão numerosa que todos poderiam matar quantos
porcos quisessem. O pai ficou muito aborrecido com essa notícia,
pois esperava que João já estivesse morto há muito tempo. João
d’Ouriço montou seu galo e, tocando seus porcos vilarejo adentro,
permitiu a todos os moradores abater quantos quisessem. E foi um
tal de matar e retalhar porcos, que seus grunhidos foram ouvidos a
muitas milhas de distância. João então disse:
— Papai, manda o ferreiro pôr ferraduras no meu galo novamente,
que eu prometo ir embora e não voltar jamais enquanto viver.
Então o pai mandou ferrar o galo, dando graças aos céus de saber
que se livraria do filho.
João d’Ouriço então seguiu para o reino do primeiro rei; este havia
ordenado expressamente que seus soldados perseguissem a tiros
quem quer que fosse visto montado num galo carregando uma gaita
de foles, e que sob hipótese alguma o deixassem penetrar no
castelo. Assim, quando João d’Ouriço chegou às portas do palácio,
os guardas investiram sobre ele com suas baionetas, mas João
d’Ouriço meteu suas esporas no galo, voou por sobre o portão e
parou justamente na janela do rei; ali desmontou no parapeito e
anunciou que, se não recebesse o que lhe fora prometido, o rei e
sua filha pagariam com a vida. O rei então conseguiu convencer a
filha a ir embora com João para salvar suas vidas. A princesa vestiu-
se toda de branco, e seu pai lhe deu uma grande quantia de
dinheiro e uma carruagem com seis cavalos e criados vestidos com
lindíssimas librés. Ela subiu na carruagem, e João d’Ouriço, com
seu galo e sua gaita, sentou-se a seu lado. Juntos partiram, e o rei
teve a certeza de que nunca mais os veria. Mas as coisas
aconteceram de modo muito diverso do que ele esperava, pois, a
certa altura do caminho, João arrancou a roupa da princesa,
espetou-a toda com seus espinhos, e disse:
— É o que mereces por ser traiçoeira. Agora volta para casa. Não
quero mais saber de ti!
Dito isto, tocou-a de volta para casa, perseguindo-a até os portões
do palácio, e ela sentiu que estava desonrada e humilhada pelo
resto da vida.
Em seguida, João d’Ouriço cavalgou com seu galo e sua gaita até
o país do segundo rei a quem mostrara o caminho. Este, de sua
parte, para caso João aparecesse, à guarda ordenou que
apresentasse armas, ao povo, que o aclamasse, e a todos, que o
conduzissem em triunfo ao palácio.
Ao ver João d’Ouriço, a filha do rei ficou um tanto espantada com
sua aparência por assim dizer única, mas, no fim das contas,
reconheceu que havia dado sua palavra e não podia voltar atrás.
Deu boas-vindas a João, e os dois noivaram ali mesmo. Durante a
janta ele sentou ao lado de sua noiva à mesa real, e comeram e
beberam juntos.
Na hora de se retirarem a seus aposentos, a princesa receou que
João a quisesse beijar e acabasse espetando-a com seus espinhos,
mas ele a acalmou, dizendo que nenhum mal lhe aconteceria. Então
ele pediu ao velho rei que colocasse quatro sentinelas à porta de
seu aposento e as mandasse atear uma fogueira. Quando estivesse
para se deitar, ele rastejaria para fora de sua pele de ouriço e a
deixaria ao lado da cama; nesta hora, os homens deveriam entrar
correndo, lançar a pele ao fogo e ficar a postos até ela consumir-se
em chamas.
E assim foi, pois quando bateu onze horas, João d’Ouriço entrou
em seu aposento, despiu-se da pele e a deixou ao pé da cama. Os
homens entraram correndo, tomaram a pele imediatamente e a
lançaram ao fogo, e tão logo se consumiu nas chamas, João ficou
livre de seu encantamento; deitado na cama, o que se achava era,
da cabeça aos pés, um homem – embora todo preto, como se
estivesse gravemente chamuscado.
O rei mandou buscar o médico do palácio, e este lavou João de
cima a baixo com vários bálsamos e essências, com o que ficou
todo branco e se revelou um jovem de singular beleza. Quando a
filha do rei o viu, ficou muito contente; no dia seguinte, celebraram a
cerimônia de casamento, e o velho rei passou o trono a João
d’Ouriço.
Depois de alguns anos, João foi com sua esposa visitar o pai, mas
o fazendeiro não o reconheceu, e declarou já não ter filho nenhum;
tivera, sim, um filho, mas este nascera com espinhos de ouriço e
saíra mundo afora. Quando João contou sua história, o velho pai
regozijou-se e foi com ele viver em seu reino.[ 32 ]
[ 32 ] Irmãos Grimm.
Os Rapazes de Ouro

M HOMEM POBRE E SUA ESPOSA viviam em um casebre e


sobreviviam da pesca de peixes no rio que ficava ali
próximo. Viravam-se como podiam, dispondo apenas do
necessário à subsistência. Aconteceu que, certo dia, ao
recolher as redes, o pescador deparou-se com um magnífico peixe,
inteiramente de ouro. Enquanto o examinava, muito surpreso, o
peixe abriu a boca e disse:
— Pescador, ouve bem: se me atirares de novo ao rio,
transformarei teu casebre em um maravilhoso castelo.
O pescador respondeu:
— De que me valerá um castelo, se nele nada terei que comer?
— Ó – disse o peixe dourado –, tratarei disso também. Haverá um
armário no castelo dentro do qual encontrarás todo tipo de comida
que desejares.
— Se é assim – disse o homem –, nada tenho a objetar.
— Sim – observou o peixe –, mas há uma condição em minha
proposta: é preciso que não reveles a uma só vivalma de onde veio
tua fortuna. Se disseres uma só palavra, tudo desaparecerá.
O homem atirou o peixe de volta ao rio e voltou para casa. No local
onde antes ficava seu casebre, havia agora um vasto castelo. O
homem arregalou os olhos, entrou e deparou-se com a esposa em
trajes de gala, sentada em uma sala de estar ricamente decorada.
Estava de bom humor e disse:
— Ó meu esposo, como isso é possível? Estou tão feliz!
— Sim – respondeu o marido –, também estou feliz. Mas sinto uma
fome descomunal e preciso comer alguma coisa imediatamente.
A esposa respondeu:
— Não há nada que comer, e não sei orientar-me nesta nova casa.
— Não te preocupes – respondeu o homem –; vejo um armário
grande ali. E se o abríssemos?
Ao abrir o armário, encontraram carnes, bolos, frutas e vinho, tudo
disposto da maneira mais convidativa. A mulher deu pulos de alegria
e disse:
— Minha nossa! Que mais se há de desejar? – e então sentaram-
se, comeram e beberam.
Quando terminaram, a esposa perguntou:
— Mas, querido, de onde vêm todas essas coisas?
— Ah! – disse ele. – Não me perguntes. Não posso contar. Se eu
revelar a alguém o segredo, tudo estará acabado.
— Muito bem – ela respondeu. – Se não podes dizer, é claro que
não faço questão de saber.
Mas a mulher não falava com sinceridade, pois sua curiosidade
jamais lhe dava um segundo de trégua, de dia ou de noite, e ela
tanto aborreceu e atarantou o marido, que ele por fim perdeu a
paciência e revelou de uma vez que tudo aquilo provinha de um
maravilhoso peixe dourado que ele pescara e devolvera ao rio. Mal
acabara de pronunciar estas palavras, o castelo, o armário e tudo o
mais desapareceu, e o casal viu-se sentado novamente em seu
humilde casebre de pescador.
O homem teve de retomar seu antigo ofício e voltou a pescar. Por
sorte, pescou o peixe dourado uma segunda vez.
— Escuta-me – disse o peixe –; se me devolveres ao rio, terás
novamente o castelo e o armário com todas as suas maravilhas.
Mas toma cuidado e a ninguém reveles a origem de tua riqueza, ou
mais uma vez ela desaparecerá.
— Tomarei cuidado – respondeu o pescador, e atirou o peixe de
volta ao rio.
tinha ele acesso a todas as partes do palácio. O rei mandou chamá-
lo e muito furioso o ameaçou, dizendo que, se não encontrasse o
ladrão até o dia seguinte, ele mesmo seria preso e julgado.
De nada adiantou afirmar e reafirmar sua inocência; e o criado foi
dispensado sem cerimônias. Alvoroçado e angustiado, foi até o
jardim para matutar no que poderia fazer neste seu apuro. Ali
estavam uns quantos patos a descansar perto de uma ribeira,
alisando com o bico suas plumagens, enquanto conversavam
alegremente. O criado ficou quieto, a escutá-los. Estavam a falar
donde haviam zanzado a manhã inteira, e das boas comidas que
haviam encontrado, mas um deles então fez notar, muito tristonho:
— Há uma coisa me pesando muito cá no estômago, pois na
minha afobação acabei engolindo um anel, que estava caído logo
embaixo da janela da rainha.
Mal ouviu o pato dizer isso, agarrou-lhe o pescoço e o levou até a
cozinha, e disse ao cozinheiro:

— Parece-me que, se passares a faca neste pato, hás de ver que


é um bicho gordo e muito suculento.
— Sim, é verdade – disse o cozinheiro, a pesar o pato na mão. –
Este aqui não poupou esforços para se estofar bem, e já devia estar
aguardando o espeto há algum tempo. – Então cortou-lhe a cabeça
fora, e quando o abriu, lá estava no seu estômago o anel da rainha.
Com isso o criado conseguiu facilmente provar sua inocência, e o
rei, sentindo que lhe fizera uma injustiça, e ansioso por fazer alguma
reparação, fê-lo saber que poderia pedir o que quisesse, e que todo
e qualquer cargo na corte estava-lhe à disposição.
O criado, porém, a tudo recusou, e só o que fez foi rogar por um
cavalo e um tanto de dinheiro para viajar, pois estava ansioso para
ver o mundo.
Concederam-lhe o pedido, e lá saiu ele a galope, e no decorrer de
um dia chegou a uma grande lagoa, à beira da qual viu três peixes
que se haviam enredado nos juncos e estavam arquejando por falta
de água. Muito embora se suponha que os peixes sejam no geral
bastantes quietos, ele os ouviu lamuriando-se pela perspectiva de
uma morte tão miserável. Como tinha um bom coração, apeou do
cavalo e logo os libertou, jogando-os de volta no lago. Os peixinhos
saltaram e se sacudiram de alegria, e esticando a cabeça para fora
d’água, disseram:
— Não nos iremos esquecer, e havemos de recompensar-te por
nos salvar.
E lá saiu ele a cavalgar de novo, e após um tempinho julgou ouvir
uma voz na areia, sob seus pés. Parou para escutá-la, e ouviu o Rei
das Formigas, muitíssimo zangado:
— Quem me dera se os homens e aquelas suas bestas
estabanadas ficassem longe de nós! Este cavalo estúpido está a
esmagar o meu povo sem dó com aqueles cascos enormes.
O criado imediatamente foi para uma estrada ao lado, e o Rei-
Formiga gritou-lhe:
— Não nos iremos esquecer, e havemos de recompensar-te.
A estrada a seguir enfiava por uma floresta. Lá, viu ele um pai e
uma mãe corvos que, de pé ao lado do ninho, estavam a jogar para
fora seus filhotinhos:
—Vamos, malandros! – gritavam. – Já não temos como alimentar-
vos. Já estais bem grandinhos, podeis cuidar de vossos narizes.
Os pobrezinhos dos pássaros estavam caídos no chão, a bater e
agitar as asinhas, e soltavam berros esganiçados:
— Nós, crianças indefesas, alimentar-nos! Ora, mas não sabemos
nem voar ainda; que poderemos fazer senão morrer de fome?
Então o bondoso moço desmontou, desembainhou a espada e
matou seu cavalo, deixando-o lá como comida para os corvozinhos.
Estes saíram pulando, mataram a fome e piaram:
— Não nos iremos esquecer, e havemos de recompensar-te!
O rapaz estava agora obrigado a fiar-se nas próprias pernas, e
após palmilhar um bom caminho chegou a uma grande cidade. Lá
deparou com uma enorme multidão, e uma comoção que só nas
ruas, enquanto o arauto cavalgava para lá e para cá, anunciando:
— A filha do rei está em busca de um marido, mas qualquer um
que a quiser cortejar terá de executar antes uma façanha e, se nisto
falhar, perderá sua vida.
Muitos a haviam arriscado – e perdido. Quando o jovem viu a filha
do rei, ficou tão deslumbrado com sua beleza, que perigo algum lhe
passou pela cabeça, e ele foi até o rei anunciar-se como
pretendente.
Feito isto, foi levado até um lago enorme, aonde, diante dos seus
olhos, foi jogado um anel. Segundo o rei, ele teria de mergulhar e
trazê-lo de volta. Depois, acrescentou:
— Se retornares sem o anel, serás jogado no lago de novo e de
novo, até que te afogues nas suas profundezas.
Todos sentiram pena do belo rapaz e o deixaram sozinho na
margem. Ali ficou a pensar e a imaginar o que poderia fazer, quando
de súbito viu três peixes nadando no lago, e os reconheceu como os
três peixes cujas vidas salvara. O peixe do meio trazia um mexilhão
na boca, o qual pôs aos pés do moço. Quando este o abriu, lá
estava o anel dourado!
Radiante, ele o trouxe de volta até a filha do rei, esperando ganhar
o que lhe fora prometido. Mas a arrogante princesa, ao saber que
não se tinha ali alguém bem nascido como ela, desprezou-o e exigiu
o cumprimento de uma segunda tarefa.
Foi até o jardim, e com as próprias mãos esparramou dez sacos
cheios de milhete ao longo da grama.
— Ele terá de os coletar todos até amanhã, antes do raiar do sol –
disse ela –; nenhum grão poderá faltar.
O jovem sentou-se no jardim e se pôs a refletir em como lhe seria
possível cumprir tamanha tarefa, mas não pôde pensar em nada; e
ficou lá, sentado e cabisbaixo, à espera de sua morte no raiar do
dia.
Mas quando os primeiros raios do sol caíram sobre o jardim, viu
que os dez sacos haviam sido cheios até a boca, e estavam já
enfileirados, sem que lhes faltasse um só grãozinho sequer. O Rei-
Formiga, com os seus milhares e milhares de súditos-formigas,
haviam vindo durante a noite e essas criaturinhas, muito
agradecidas, industriosamente coletaram todos os milhetes e os
puseram nos sacos.
A filha do rei desceu até o jardim e, para o seu espanto, viu que o
pretendente cumprira a tarefa que lhe cabia. Mas a altiva princesa
não deu o braço a torcer e disse:
— Muito embora tenhas cumprido as duas tarefas, não serás meu
marido até que me tragas uma maçã da árvore da vida.
O moço nem mesmo sabia onde crescia a tal da árvore da vida,
mas lá se foi ele, resolvido a andar até onde suas pernas o
pudessem levar, muito embora não acalentasse esperança alguma
de encontrá-la.
Após viajar por três reinos diferentes, certa noite chegou a uma
floresta e se deitou sob uma árvore, pronto a dormir. De repente,
ouviu um barulho nos galhos, e uma maçã dourada caiu-lhe na mão.
No mesmo instante, três corvos voaram até ele, pousaram em seu
joelho e disseram:
— Somos os três corvozinhos que salvaste da fome. Quando, já
crescidos, ficamos sabendo que estavas à procura da maçã
dourada, saímos a voar, para muito longe, para além dos mares e
até o fim do mundo, onde a árvore da vida cresce, e de lá pegamos
uma maçã dourada para ti.
Cheio de alegria, o moço pôs-se no caminho de volta e trouxe a
maçã dourada à bela princesa, cujas objeções agora haviam sido
inteiramente silenciadas. Dividiram a maçã da vida e a comeram
juntos, e o coração dela encheu-se de amor por ele, e viveram uma
era de felicidade imperturbável.[ 34 ]

[ 34 ] Irmãos Grimm.
A história do
Alfaiate Astuto

RA UMA VEZ UMA PRINCESA muito soberba. A qualquer


pretendente ousado o bastante para pedir-lhe a mão, a
princesa prontamente o desafiava a resolver uma
charada; e, caso o pretendente fracassasse, era tocado
para fora da cidade com escárnio e zombaria. A princesa mandou
anunciar ao povo inteiro que quem quisesse estava convidado a pôr
à prova suas habilidades, e quem fosse capaz de matar a charada
se tornaria seu marido.
Acontece que certo dia, estando reunidos três alfaiates, os dois
mais velhos julgaram que, se haviam costurado tantos pontos bem-
feitos sem jamais errar um só, haviam também de acertar nessa
ocasião. O terceiro alfaiate, por sua vez, era um malandro
preguiçoso que não conhecia direito nem mesmo o próprio ofício,
mas tinha certeza de que a sorte estaria a seu lado desta vez, pois,
do contrário, o que seria dele?
Os outros dois lhe disseram:
— Podes ficar em casa, não chegarias muito longe com essa
meia-ração de cérebro que recebeste.
Mas o jovem alfaiate não se deixou intimidar: disse que já estava
decidido a encarar o desafio e que daria o melhor de si. Então
levantou e partiu com eles, como se o mundo inteiro estivesse a
seus pés.
Assim que chegaram ao palácio, os três alfaiates se apresentaram
à princesa como manda o figurino e instaram que lhes propusesse
suas charadas.
— Eis diante de Vossa Alteza ‒ disseram ‒ mentes tão agudas que
facilmente passariam pela cabeça de uma agulha.
Disse-lhes então a princesa:
— Tenho em minha cabeça dois tipos de cabelo. De que cores
são?
— Se é este vosso desafio ‒ disse o primeiro alfaiate ‒, é muito
provável que sejam pretos e brancos, como certas malhas
acinzentadas.
— Está errado ‒ disse a princesa.
— Neste caso ‒ disse o segundo alfaiate ‒, se não são pretos e
brancos, são vermelhos e castanhos, como o casaco que meu pai
usa em dias de festa.
— Está errado novamente ‒ disse a princesa. ‒ Vejamos o que o
terceiro tem a dizer. Parece ter-se em conta de quem sabe tudo.
O jovem alfaiate passou com muita audácia à frente dos outros e
falou:
— A princesa tem um fio de cabelo prateado e outro fio de cabelo
dourado, são estas as duas cores.
Ao ouvir estas palavras, a princesa empalideceu e quase teve um
desmaio pelo assombro que sentiu, pois acreditava que nenhum
mortal seria capaz de adivinhar a resposta à sua pergunta, mais eis
que o jovem alfaiate havia acertado em cheio.
Depois de se recompor, disse:
— Não penses que já me ganhaste; ainda tens que cumprir mais
uma tarefa. No estábulo do palácio mora um urso; deves passar a
noite com ele e, se na manhã seguinte eu te encontrar vivo, aí sim
te casarás comigo.
Esperava, é claro, ver-se livre do alfaiate com tal desafio, pois o
urso jamais poupara a vida de ninguém que se pusesse ao alcance
de suas garras. Mas o alfaiate, que não sentia medo de nada,
respondeu alegremente:
— A coragem é meia batalha ganha.
No fim da tarde foi levado ao estábulo. No instante em que chegou,
o urso tentou agarrá-lo e dar-lhe umas calorosas boas vindas com
suas patas.
— Calma, calma ‒ disse-lhe o alfaiate ‒; dentro de pouco te
ensinarei a ser mais manso ‒ e sem sobressalto tirou do bolso um
punhado de nozes, quebrou-as e comeu-as com ar despreocupado.
Vendo isto, o urso também apeteceu algumas nozes. O alfaiate
enfiou as mãos no bolso, mas, em vez de dar-lhe nozes, entregou-
lhe um punhado de pedrinhas, que a besta meteu na boca sem
pensar duas vezes; contudo, por mais que se esforçasse, não
achava jeito de quebrá-las.
— Puxa vida ‒ pensou consigo mesmo ‒, devo ser mesmo algum
idiota para não conseguir quebrar estas nozes!
E então, virando-se para o alfaiate, falou:
— Escuta, amigo, me farias o favor de quebrar estas nozes para
mim?
— És um sujeito um tanto delicado, não? ‒ disse o alfaiate. ‒
Estranho pensar que essas mandíbulas enormes não consigam
quebrar nem mesmo umas nozes!
Então pegou de volta as pedrinhas, trocou-as furtivamente por
outras nozes, e crac!, partiu-as ao meio num abrir e fechar de olhos.
— Dá-me as nozes que vou tentar de novo ‒ disse o urso. ‒ Não é
possível que seja tão fácil para ti e tão difícil para mim.
Deu-lhe então mais umas pedrinhas, e o urso, como era de se
esperar, por mais que lhes cravasse os dentes e as roesse, não
conseguiu quebrar uma só.
Em seguida o alfaiate descerrou uma rabeca e começou a tocá-la.
O urso, ao ouvir a música, não conseguiu refrear sua vontade de
dançar e, quando acabou a dança, estava tão contente que
perguntou ao alfaiate:
— Amigo, dize-me: é difícil tocar rabeca?
— É brincadeira de criança! ‒ replicou o alfaiate. ‒ Olha só: basta
apertar as cordas com os dedos da mão esquerda, e com a mão
direita arrastar sobre elas o arco, assim; aí não tem engano: para
cima e para baixo e tralalalalá!
— Ah! ‒ exclamou o urso ‒ como eu gostaria de tocar assim, para
poder dançar sempre que me desse na telha. O que achas?
Poderias me dar umas lições de rabeca?
— Com prazer! ‒ respondeu o alfaiate. ‒ Desde que sejas um bom
aluno. Mas deixa-me ver tuas patas… Ó céus, tuas unhas estão
demasiado longas. Preciso antes apará-las.
Pegou então uma prensa, deitou nela as patas do urso e as
prendeu firmemente.
— Espera aí enquanto busco minhas tesouras ‒ disse, e deixou o
urso rugindo à vontade enquanto ia dormir num canto.
Aquela noite, ao ouvir rugidos tão estrondosos, a princesa teve
certeza de que o urso rugia pelo prazer de estraçalhar o alfaiate.
Na manhã seguinte, ela se levantou alegre e despreocupada, mas,
quando lançou o olhar em direção ao estábulo, viu o alfaiate de pé
em frente à porta, lépido e faceiro como um peixe na água.
Depois dessa ocasião, não foi mais possível faltar à promessa,
então o rei mandou preparar o coche real para levar os dois à igreja
onde se casariam.
Assim que o cocheiro iniciou a viagem, os outros dois alfaiates,
invejosos da felicidade de seu colega mais novo, foram ao estábulo
e soltaram o urso, que disparou atrás do coche, espumando de
raiva. A princesa, ouvindo os seus arquejos e rugidos cada vez mais
próximos, gritou apavorada:
— Ó céus! O urso está atrás de nós e certamente nos alcançará!
O alfaiate, impassível, plantou uma bananeira, colocou as pernas
para fora do veículo e, batendo uma contra a outra, dirigiu ao urso
as seguintes palavras:
— Estás vendo esta prensa? Se não deres meia-volta agora
mesmo, amarrarei tuas patas nela.
Assim que viu aquilo, o urso virou as costas e bateu em retirada o
mais rápido que pôde. O alfaiate seguiu sossegadamente até a
igreja, onde se casou com a princesa, e com ela viveu por muitos
anos feliz da vida.
E quem não acreditar nesta história me deve cinco pratas.[ 35 ]

[ 35 ] Irmãos Grimm.
A Sereia de Ouro

M PODEROSO REI POSSUÍA, dentre muitos outros tesouros,


uma fabulosa árvore em seu jardim, que a cada ano
produzia lindas maçãs de ouro. Mas ele jamais
conseguia desfrutar de seu tesouro, pois, por mais que
as vigiasse e protegesse, as maçãs eram sempre furtadas tão logo
começavam a amadurecer. Por fim, já em desespero, mandou
chamar seus três filhos e disse aos dois mais velhos:
— Preparai-vos para uma viagem. Levai convosco ouro e prata,
bem como um séquito de criados – como convém a dois nobres
príncipes – e cruzai o mundo até descobrir quem é o responsável
por furtar minhas maçãs de ouro, e, se possível, trazei o ladrão até a
minha presença, para que eu lhe aplique o merecido castigo.
Os filhos ficaram muito satisfeitos com a proposta, pois há muito
desejavam correr o mundo. Prepararam-se para a viagem sem
perda de tempo, despediram-se do pai e deixaram a cidade.
O príncipe mais novo ficou muito desapontado por não ter sido
convocado para a viagem, mas seu pai não podia admitir que ele
partisse, pois fora sempre visto como o mais idiota da família, e o rei
temia que algum mal lhe sucedesse. Mas o príncipe tanto pediu, e
com tamanha insistência, que por fim o pai permitiu que ele partisse,
entregando-lhe ouro e prata, como fizera com os irmãos. Destinou-
lhe, entretanto, o pior cavalo do estábulo, pois o tolo rapaz não
pedira um cavalo melhor. Assim, também ele partiu em busca do
ladrão, em meio à zombaria e às risadas de todos os membros da
corte e de todos os habitantes da cidade.
O caminho que tomou conduziu-o a uma floresta, e não havia
percorrido grande distância, quando se deparou com um lobo
magro, que permaneceu impassível enquanto ele se aproximava. O
príncipe perguntou-lhe se estava com fome e, quando o lobo
respondeu que sim, apeou do cavalo e disse:
— Se estás de fato com tanta fome, como o dizes e aparenta,
toma o meu cavalo e devora-o.
O lobo não esperou uma segunda oferta, mas pôs-se em ação
imediatamente, e num instante devorou o pobre animal. Quando o
príncipe viu transformada a aparência do lobo após a refeição,
disse-lhe:
— Bem, meu amigo, agora que comeste meu cavalo, e tendo eu
tão longa jornada pela frente que, nem com toda disposição do
mundo, conseguiria percorrê-la a pé, o mínimo que podes fazer por
mim é suprir a falta de meu cavalo, carregando-me nas costas.
— É para já – respondeu o lobo, que, permitindo ao príncipe
montar em seu lombo, saiu trotando alegremente pelo bosque.
Depois de percorrer alguma distância, o lobo indagou ao seu
condutor aonde ele gostaria de ir. O príncipe então contou-lhe toda a
história das maçãs de ouro que haviam sido furtadas do jardim do
rei, e como seus outros dois irmãos haviam partido com numeroso
séquito a fim de encontrar o ladrão. Ao terminar a história, o lobo,
que na realidade não era lobo algum, e sim um poderoso mago,
respondeu que talvez pudesse dizer quem era o ladrão e ajudár a
capturá-lo.
— Em um país vizinho – disse ele – vive um poderoso imperador
que possui um belo pássaro de ouro preso em uma gaiola; esta é a
criatura responsável por furtar as maçãs de ouro. Porém, ele voa tão
rápido, que é impossível apanhá-lo no ato. Terás de penetrar no
palácio do imperador durante a noite e roubar o pássaro com a
gaiola junto; mas cuida para não tocares nas paredes quando fores
sair.
Na noite seguinte, o príncipe penetrou sorrateiramente no palácio
do imperador e deparou-se com o pássaro na gaiola, tal qual o lobo
lhe dissera. Apanhou-o cuidadosamente, mas, apesar de toda
precaução, tocou em uma das paredes ao tentar passar
despercebido por alguns guardas que dormiam. Eles despertaram
no mesmo instante e, apanhando-o, bateram nele e o acorrentaram.
No dia seguinte foi levado à presença do imperador, que
imediatamente o condenou à morte, determinando que fosse atirado
a um calabouço até o dia de sua execução.
O lobo, que, por meio de suas artes mágicas, naturalmente sabia
de todo o ocorrido com o príncipe, transformou-se sem demora em
um imponente monarca com um grande séquito e dirigiu-se à corte
do imperador, onde foi recebido com todo tipo de honraria.
Conversou com o imperador sobre muitos assuntos, e, dentre outras
coisas, o visitante perguntou a seu anfitrião se ele possuía muitos
escravos. O imperador respondeu que possuía mais do que
conseguia administrar, e que um novo escravo acabara de ser
capturado na noite anterior, ao tentar furtar seu pássaro mágico,
mas que, possuindo escravos já em número bastante para alimentar
e cuidar, mandaria executar este último cativo na manhã seguinte.
— Deve ser um ladrão muito audacioso – disse o rei – para tentar
furtar o pássaro mágico, pois é certo que deve haver muitos guardas
para vigiá-lo. Eu gostaria muito de ver esse ousado patife.
— Pois não – disse o imperador, e conduziu pessoalmente o
visitante até o calabouço onde o príncipe era mantido prisioneiro.
Quando o imperador retirou-se da cela acompanhado do rei, este
último lhe disse:
— Ó magnânimo imperador, devo confessar que fiquei muito
decepcionado. Pensei que encontraria um ladrão vigoroso, mas em
vez disso o que avistei foi a mais pobre criatura que se possa
imaginar. O enforcamento é uma punição nobre demais para ele. Se
estivesse em minhas mãos sentenciá-lo, eu o desafiaria a realizar
uma tarefa muito difícil e com perigo de morte. Logrando êxito, tanto
melhor para vós; fracassando, tudo voltaria à estaca zero, e ele
poderia ser enforcado.
— Vosso conselho – disse o imperador – é excelente, e na
verdade tenho o desafio perfeito para ele. Meu vizinho mais
próximo, um imperador também muito poderoso, possui um cavalo
de ouro, que vive sob ostensiva proteção. Ordenarei ao prisioneiro
que o furte e o traga para mim.
Libertaram o príncipe e lhe disseram que sua vida seria poupada
caso ele sucedesse em trazer o cavalo de ouro ao imperador. O
príncipe não ficou exatamente exultante, já que não tinha a menor
ideia de como faria aquilo, e tomou a estrada derramando amargas
lágrimas, perguntando-se por que, afinal, havia abandonado a casa
de seu pai. Porém, antes que tivesse percorrido grande distância,
seu amigo lobo parou diante dele e disse:
— Caro príncipe, por que estás abatido? É verdade que não
conseguiste apanhar o pássaro, mas não permitas que isso te
desanime, pois desta vez serás ainda mais cuidadoso e sem dúvida
tomarás o cavalo.
O lobo tranquilizou o príncipe com essas palavras, dizendo-lhe
outras coisas mais, alertando-o especialmente para que, na hora de
sair, não tocasse nas paredes, nem permitisse que o cavalo as
tocasse, ou repetiria o fracasso que tivera com o pássaro.
Depois de uma viagem um tanto fatigante, o príncipe e o lobo
chegaram ao reino governado pelo imperador que possuía o cavalo
de ouro. Tarde da noite, alcançaram a capital, e o lobo aconselhou o
príncipe a iniciar os trabalhos imediatamente, antes que sua
presença na cidade despertasse a atenção dos vigias. Penetraram
furtivamente no estábulo do imperador, bem no local onde havia
mais guardas, pois ali, como acertadamente supôs o lobo, deveriam
encontrar o cavalo. Ao atingirem uma determinada porta interna, o
lobo disse ao príncipe que permanecesse do lado de fora, enquanto
ele entraria. Em pouco tempo, ele voltou e disse:
— Meu caro príncipe, o cavalo é ostensivamente vigiado, mas
enfeiticei todos os guardas, e, contanto que tenhas o cuidado de
não tocar em nenhuma das paredes ao sair, nem deixar que o
cavalo encoste nelas, não haverá nenhum perigo, e sairás vitorioso.
O príncipe, que estava decidido a ser mais do que cuidadoso desta
vez, pôs mãos à obra cheio de entusiasmo. Deparou-se com os
guardas mergulhados em sono profundo; penetrando na baia onde
estava o cavalo, agarrou-o pelas rédeas e conduziu-o para fora.
Mas, infelizmente, antes que tivessem deixado o estábulo, uma
mosca pousou no cavalo, que então agitou a cauda, a qual encostou
na parede. Em um instante, todos os guardas despertaram,
apanharam o príncipe e surraram-no sem piedade com os açoites,
após o que o acorrentaram e atiraram em um calabouço. Na manhã
seguinte, ele foi levado à presença do imperador, que então lhe
dispensou exatamente o mesmo tratamento que o rei do pássaro de
ouro, ordenando que fosse decapitado no dia seguinte.
Quando o lobo-mago percebeu que o príncipe havia falhado mais
uma vez, transformou-se novamente em um imponente rei e dirigiu-
se à corte do imperador acompanhado de um séquito ainda mais
deslumbrante do que da primeira vez. Foi acolhido com toda a
cordialidade, e novamente, após o jantar, conduziu a conversa ao
assunto dos escravos, solicitando ver o audacioso ladrão que
ousara invadir o estábulo do imperador para roubar seu mais valioso
tesouro. O imperador consentiu, e tudo se passou exatamente como
sucedera ao imperador do pássaro de ouro – a vida do prisioneiro
seria poupada sob a condição de que, dentro de três dias,
capturasse a sereia de ouro, da qual até então nenhum mortal
jamais tinha conseguido se aproximar.
Profundamente abatido por essa árdua e perigosa tarefa, o
príncipe deixou a prisão, mas, para sua felicidade, encontrou seu
amigo lobo antes que tivesse viajado muitas milhas. O astucioso
animal fingiu que não sabia nada do que sucedera ao príncipe, e
perguntou-lhe sobre o seu sucesso com o cavalo. O príncipe
relatou-lhe toda sua desventura e a condição imposta pelo
imperador para poupar-lhe a vida. O lobo então lembrou-o que por
duas vezes o tirara da prisão e que, bastando que ele tivesse
confiança em suas palavras e as observasse fielmente, sem dúvida
lograria êxito nesta derradeira empreitada. Dito isso, tomaram a
direção do mar, que se se estendia diante deles até onde os olhos
podiam alcançar, as ondas dançando e brilhando à luz do sol.
— Agora – prosseguiu o lobo – transformar-me-ei em um barco
carregado das mais belas sedas, e nele tu deves embarcar armado
de toda coragem e navegar com minha cauda em tua mão direita
rumo ao mar aberto. Logo encontrarás a sereia de ouro. Haja o que
houver, não vás atrás dela caso ela te chame, mas, ao contrário,
dize-lhe: “O comprador vem até o vendedor, e não o vendedor até o
comprador”. Depois, deves conduzir o barco rumo à terra. A sereia
há de seguir-te, pois não será capaz de resistir às belíssimas
mercadorias a bordo do navio.
O príncipe prometeu observar fielmente as instruções, e então o
mago transformou-se em um navio repleto das mais extraordinárias
sedas, de todas as cores e tons que se possa imaginar. O príncipe,
boquiaberto, entrou no barco e, segurando a cauda do lobo nas
mãos, navegou corajosamente rumo ao mar aberto, onde o sol
coroava com seus raios dourados as ondas azuis. Em pouco tempo,
avistou a sereia de ouro nadando rente ao navio, acenando para ele
e convidando-o a acompanhá-la. Entretanto, atendo-se ao alerta do
lobo, respondeu em alta voz que, se ela desejava comprar o que
fosse, deveria vir até ele. Tendo dito isso, mudou a direção do navio
e rumou de volta para a terra firme. A sereia pediu que parasse,
mas ele se recusou a escutá-la e não parou um momento sequer
até atingir a areia da praia.
Ali ele atracou e esperou pela sereia, que vinha nadando logo
atrás. Quando ela se aproximou do navio, ele constatou que era
muito mais bela do que qualquer mortal que ele jamais tivesse visto.
Ela nadou em volta do navio por algum tempo, depois atirou-se
graciosamente a bordo, a fim de examinar mais de perto as belas
sedas. O príncipe então tomou-a em seus braços e, cobrindo-a de
beijos, jurou-lhe eterno amor. Num piscar de olhos, o navio
transformou-se novamente em lobo, assustando de tal modo a
sereia que ela se agarrou ao príncipe em busca de proteção.
Estava assim capturada a sereia de ouro, que ficou muito feliz ao
ver que não precisava temer ao príncipe ou ao lobo. Ela montou nas
costas do animal, e o príncipe logo fez o mesmo, e assim
cavalgaram juntos. Quando chegaram ao país governado pelo
imperador do cavalo de ouro, o príncipe desmontou do lobo e,
auxiliando a sereia a descer, conduziu-a até o imperador. Ao avistar
a bela sereia e o temível lobo, que desta vez acompanhava o
príncipe, os guardas fizeram respeitosas mesuras, e logo os três se
apresentaram diante de Sua Majestade Imperial. Após ouvir a
narrativa do príncipe sobre a maneira como obtivera seu merecido
prêmio, o imperador reconheceu no mesmo instante que o rapaz
fora auxiliado por alguma arte mágica, e sem demora renunciou a
toda reivindicação à bela sereia.
— Meu bom jovem – disse ele –, perdoai-me minha lamentável
conduta para convosco, e, como prova de que me perdoais, aceitai
o cavalo de ouro como presente. Reconheço que a grandeza de
vosso poder está além da minha compreensão, pois conseguiste
capturar a sereia de ouro, da qual nenhum ser humano jamais
conseguira aproximar-se até então.
Preparou-se então um grandioso banquete, e o príncipe teve de
relatar suas aventuras mais uma vez, para o assombro e admiração
de todos os presentes.
Mas o príncipe mal via a hora de voltar ao seu reino. Assim, tão
logo encerrado o banquete, despediu-se do imperador e tomou o
rumo de casa. Montou a sereia no cavalo de ouro, e juntos
cavalgaram alegremente, com o lobo a segui-los, até que chegaram
ao país do imperador do pássaro de ouro. A fama do príncipe e de
suas aventuras antecipara-se à sua chegada, e o imperador,
sentado ao trono, aguardava a chegada do príncipe e seu séquito.
Quando os três cruzaram o pátio do palácio, surpreenderam-se e
alegraram-se por encontrar tudo festivamente iluminado e decorado
especialmente para recebê-los. Quando o príncipe e a sereia de
ouro, seguidos pelo lobo, galgaram os degraus do palácio, o
imperador aproximou-se deles para recepcioná-los, conduzindo-os
então até o salão do trono. No mesmo instante, um criado
aproximou-se trazendo a gaiola com o pássaro de ouro, e o
imperador pediu que o príncipe aceitasse o presente e perdoasse os
insultos que ali sofrera. O imperador fez então uma profunda
reverência à bela sereia e, oferecendo-lhe seu braço, conduziu-a à
sala de jantar, seguido de perto pelo príncipe e por seu amigo lobo –
este último sentou-se à mesa, nem um pouco constrangido por não
ter sido convidado para tal.
Terminada a suntuosa refeição, o príncipe e a sereia despediram-
se do imperador e, montando em seu cavalo dourado, prosseguiram
viagem. Durante o caminho, o lobo disse ao príncipe:
— Meus caros amigos, é chegada a hora de despedir-me de vós;
contudo, em circunstâncias tão favoráveis, não posso entristecer-me
por partir.
O príncipe ficou muito triste ao ouvir essas palavras e insistiu que o
lobo permanecesse com eles para sempre. Mas o bom animal
recusou, não sem antes agradecer ao príncipe pelo convite, e disse-
lhe ao desaparecer na mata:
— Se algum mal se abater sobre vós, caro príncipe, a qualquer
tempo, confiai em minha amizade e gratidão.
Estas foram as últimas palavras do lobo, e o príncipe não
conseguiu conter as lágrimas ao ver seu amigo desaparecer na
distância. Um olhar, entretanto, para sua amada sereia alegrou-o
novamente e continuaram felizes a viagem.
Notícias das aventuras do filho já haviam alcançado a corte de seu
pai, e todos estavam mais do que atônitos diante do sucesso
daquele príncipe até então menosprezado. Seus irmãos mais
velhos, que em vão partiram em busca do ladrão das maçãs de
ouro, ficaram furiosos diante do êxito do irmão mais novo e
tramaram uma maneira de matá-lo. Esconderam-se na floresta que
o príncipe teria de atravessar para chegar ao palácio, e ali o
atacaram, espancando-o até a morte, tomando o cavalo e o pássaro
de ouro. Todavia, nada no mundo convenceria a sereia de ouro a
acompanhá-los ou a sair de onde estava, pois, desde que deixara o
mar, desenvolvera tal afeição pelo príncipe, que nada mais desejava
do que viver ou morrer com ele.
Por muitas semanas, a pobre sereia velou o corpo de seu querido
amado, vertendo lágrimas salgadas por sua perda, até que um dia
seu velho amigo lobo apareceu e disse:
— Cobre o corpo do príncipe com todas as folhas e flores que
puderes encontrar na floresta.
A jovem fez tudo conforme lhe fora dito, e então o lobo soprou
sobre a sepultura revestida de flores, e – surpresa! – ali estava o
príncipe, dormindo calmamente como uma criança.
— Agora podes acordá-lo, se quiseres – disse o lobo, e a sereia
curvou-se sobre ele e beijou delicadamente as feridas infligidas
pelos irmãos em sua fronte.
O príncipe despertou, e podeis imaginar sua felicidade ao ver sua
querida sereia ao seu lado, apesar de sentir uma pontada de tristeza
pela perda do pássaro e do cavalo de ouro. Depois de algum tempo
o lobo, que também se jogara ao pescoço do príncipe, aconselhou-o
a prosseguir viagem – e, mais uma vez, o príncipe e sua amada
noiva montaram nas costas do fiel animal.
A alegria do rei ao abraçar seu filho mais novo foi imensa, pois há
muito que perdera as esperanças de revê-lo. Recebeu com toda
cordialidade também ao lobo e à bela sereia, e o príncipe teve de
contar todas as suas aventuras desde o princípio. O bom e velho pai
ficou muito triste ao saber do comportamento vergonhoso dos
irmãos mais velhos, e mandou chamá-los. Eles ficaram pálidos de
morte ao ver o irmão, que acreditavam ter matado, ali de pé, cheio
de vida. Tão espantados estavam, que, quando o rei lhes perguntou
por que haviam perpetrado tamanha crueldade contra o irmão, nem
conseguiram mentir, mas confessaram de uma vez que haviam
matado o jovem príncipe a fim de obter o cavalo e o pássaro de
ouro. A ira de seu pai era infinita, e ele ordenou que os dois filhos
fossem banidos. Por outro lado, nada que fizesse parecia suficiente
para honrar o filho mais novo, e seu casamento com a bela sereia
foi celebrado com muita pompa e magnificência. Encerradas as
festividades, o lobo despediu-se de todos e partiu mais uma vez
para sua vida na floresta, o que o velho rei, o jovem príncipe e sua
esposa muito lamentaram.
E assim terminaram as aventuras do príncipe com seu amigo lobo.[
36 ]

[ 36 ] Irmãos Grimm.
A Guerra do Lobo
e da Raposa

RA UMA VEZ UM HOMEM e sua esposa, que tinham um


cachorro velho e uma gata velha. Um dia, o homem,
cujo nome era Simão, disse à esposa, cujo nome era
Susana:
— Por que estamos ainda com essa gata velha? Já não pega
nenhum rato hoje em dia, e é tão inútil que resolvi afogá-la.
Mas sua mulher respondeu:
— Não o faças, pois tenho certeza de que ela é ainda capaz de
pegar ratos.
— Bobagem – disse Simão. – Os ratos poderiam dançar em cima
de sua cabeça, e ela nunca seria capaz de pegar um só que fosse.
Já estou resolvido: a próxima vez em que a vir, hei de botá-la na
água.
Susana ficou infeliz demais ao ouvir isso, e não menos a gata, que
estivera ouvindo a conversa atrás do fogão. Quando Simão foi-se
embora trabalhar, a pobrezinha da gata miou tão tristonha, e deitou
um olhar tão patético ao rosto de Susana, que a mulher rapidamente
abriu a porta e disse:
— Foge e salva tua vida, meu pobre bichano, e vai para bem longe
antes que teu dono retorne.
A gata seguiu-lhe o conselho e disparou em direção à mata, com
quanta força ainda restava em suas pernas já velhinhas. Quando
Simão chegou em casa, sua mulher lhe disse que a gata havia
sumido.
— Tanto melhor para ela – disse Simão. – E agora que já nos
livramos dela, temos de pensar no que fazer com o cachorro velho.
Ele está perfeitamente surdo, e tão cego quanto surdo. Fica a latir
sem nenhuma razão e, quando há razão para latir, não solta um pio.
Acho que a melhor coisa que tenho a fazer com ele é enforcá-lo.
Mas Susana, coração mole que era, implorou:
— Por favor, não o faças; ele certamente não é assim tão inútil.
— Não sejas tola – disse-lhe o marido. – O jardim poderia estar
apinhado de ladrões, que ele não desconfiaria de nada. Não, assim
que o vir, será o fim daquele cão, pode apostar.
Susana ficou infeliz que só ao ouvir-lhe as palavras, e não menos
o cachorro, que estava deitado num canto da sala e ouvira tudo. Mal
Simão saíra para trabalhar, o cachorro pôs-se de pé e começou a
uivar tão tristonho, com uma melancolia tão comovente, que Susana
logo abriu-lhe a porta, dizendo:
— Foge por tua vida, pobre cãozinho, antes que teu dono volte. –
E lá se foi o cão, com sebo nas quatro canelas e o rabo entre as
pernas, para a floresta.
Quando o marido retornou, sua mulher lhe disse que o cão havia
sumido.
— Sorte dele – replicou Simão, mas Susana suspirou, pois se
apegara muito ao bicho.
Ora, aconteceu de o gato e o cachorro haverem se encontrado nas
suas andanças, e muito embora não tivessem sido lá melhores
amigos quando viviam em casa, ficaram muito felizes pelo encontro.
Agora não estavam completamente entre estranhos. Sentaram-se
ambos debaixo dum azevinheiro e se puseram a lamentar seus
infortúnios.
Uma raposa passava por ali naquele instante, e, ao ver aquele par
desconsolado, perguntou-lhes por que estavam ali, e do que
estavam a resmungar.
A gata respondeu:

— Peguei ratos sem conta quando era jovem, mas agora que
estou velha e incapaz de trabalhar, meu dono quer me afogar.
E o cachorro disse:
— Noites sem conta fiquei a vigiar e guardar a casa de meu dono,
e agora que estou velho e surdo, ele quer me enforcar.
A raposa lhes respondeu:
— É assim que o mundo funciona. Mas eu vos ajudarei a cair de
volta nas graças de vosso dono; contudo, primeiro, tereis de ajudar-
me com meus próprios problemas.
Prometeram fazer o melhor que pudessem, e a raposa continuou:
— O lobo declarou guerra contra mim e está agorinha junto com
um urso e um javali marchando para encontrar-me. Amanhã haverá
uma batalha feroz entre nós.
— Muito bem – disseram o cão e a gata –; ficaremos a teu lado, e
se morrermos, antes morrer num campo de batalha a morrer de
forma ignóbil em casa – e apertaram as patas e fecharam a
barganha. A raposa fez saber ao lobo que o encontraria em tal e
qual lugar, e lá se foram os três para encontrar a ele e a seus
amigos.
O lobo, o urso e o javali chegaram primeiro, e quando estavam a
esperar já fazia algum tempo pela raposa, o cachorro e a gata, o
urso disse:
— Hei de subir cá neste carvalho, a ver se estão vindo.
A primeira vez correu o olhar pela paisagem e disse:
— Não vejo nada.
E na segunda vez correu o olhar e disse:
— Ainda não vejo nada.
Mas na terceira vez disse:
— Vejo um exército poderoso ao longe, e um dos guerreiros está a
carregar a maior lança que vós já vistes na vida!
Este era a gata, que vinha marchando com o rabo ereto.
E gargalharam e zombaram à beça, e estava tão quente que o
urso disse:
— Neste ritmo, o inimigo levará ainda horas e horas para chegar
aqui. Sendo assim, vou me deitar cá nesta forquilha no galho
d’árvore e tirar uma soneca.
E o lobo se deitou sob o carvalho, e o javali foi enterrar-se num
monte de palha, de modo que só o que se podia ver dele era uma
orelha.
E enquanto estavam assim deitados, a raposa, a gata e o cão
chegaram. Quando a gata viu a orelha do javali, pulou-lhe em cima
e a agarrou, crente de que era um rato na palha.
O javali levou um susto medonho, levantou-se com um grunhido
barulhento e sumiu dentro da mata. Mas a gata ficou ainda mais
apavorada que o javali, e, silvando de terror, subiu toda afobada até
o forquilho da árvore – e, portanto, até a cara do urso. Agora foi a
vez do urso ficar alarmado, e com um rugido retumbante saltou da
árvore e caiu bem em cima do lobo, que ficou mortinho da silva.
Na volta para casa, a raposa pegou um punhado de ratos, e
quando chegaram à choupana de Simão, pôs todos eles no fogão e
disse à gata:
— Agora vai e pega um rato atrás do outro, e os vai pondo diante
de teu dono.
— Pois bem – respondeu a gata, e fez exatamente o que lhe fora
ordenado.
Quando Susana viu isso, falou ao seu marido:
— Vê só, cá está nossa velha gata de volta, e olha quantos ratos
trouxe!
— E não é que milagre acontece mesmo?! – bradou Simão. – Eu
certamente nunca imaginaria que esta gata velha haveria de pegar
outro rato na vida.
Mas Susana respondeu:
— Pois aí está, eu sempre te disse que nossa gata era uma
criatura das mais excelentes… mas vós, homens, sempre achais
que sabem tudo.
Nesse meio tempo a raposa disse ao cão:
— Nosso amigo Simão acabou de matar um porco; quando ficar
um pouco mais escuro, deves ir até o quintal e latir com quantas
forças tens no pulmão.
— Pois bem – disse o cachorro, e tão logo começou a escurecer,
começou a latir e latir, alto que só.
Susana, que o ouvira primeiro, disse ao seu marido:
— Nosso cachorro deve ter voltado, pois eu o ouvi latindo, muito
alarmado. Sai lá fora e vê qual é o problema; talvez ladrões estejam
a nos roubar as salsichas.
Mas Simão respondeu:
— Aquele bicho estúpido é tão surdo quanto um poste, e está
sempre a latir para coisa nenhuma – e se recusou a se levantar.
Na manhã seguinte Susana saiu da cama cedinho, para ir até a
igreja na cidade vizinha, e achou por bem levar algumas salsichas à
sua tia, que lá morava. Mas quando foi até sua despensa, descobriu
que todas as salsichas haviam sumido e que havia um buraco
enorme no chão. Gritou ao seu marido:
— Eu estava totalmente certa. Ladrões estiveram aqui ontem à
noite, e não nos deixaram uma só salsicha. Ó! Se tivesses te
levantado quando eu te pedi!
Então Simão coçou a cabeça e disse:
— Não estou entendendo é mais nada. Eu certamente não
acreditava que o velho cão tivesse uma audição tão aguçada.
Mas Susana respondeu:
— Eu sempre te disse que o nosso velho cão é o melhor cachorro
do mundo – mas, para variar, pensaste que sabias muito mais do
que eu. Os homens são mesmo iguaizinhos, no mundo inteiro.
E a raposa também se deu bem no final, pois fora ela quem levara
as salsichas![ 37 ]

[ 37 ] Irmãos Grimm.
A história do Pescador
e sua Esposa

RA UMA VEZ UM PESCADOR que vivia com sua esposa numa


cabana perto do mar, aonde todos os dias ia pescar, e lá
passava o dia inteiro pescando. Ali sentado, com a vara
de pesca estendida, contemplava as águas reluzentes e
lá passava o dia inteiro as contemplando.
Pois bem, certa vez a linha desceu até o fundo do mar, e, quando
o pescador a puxou de volta, puxou junto um enorme linguado. E o
linguado assim lhe falou:
— Ouve-me, pescador. Imploro que me soltes: não sou um
linguado de verdade, e sim um príncipe encantado. De que te
adiantaria me matar? Minha carne não deve ter um bom sabor.
Devolve-me às águas e deixa-me ir embora.
— Está bem ‒ disse o homem ‒, não faças tanto escarcéu. Tenho
certeza de que é bem melhor soltar um linguado falante do que
comê-lo.
Dito isto, devolveu-o ao mar, e o linguado nadou para o fundo,
deixando em seu caminho um rastro de sangue.
O pescador então se levantou e seguiu para casa.
— Meu homem ‒ disse a esposa ‒, não pescaste nada hoje?
— Não ‒ disse o homem ‒, apanhei apenas um linguado que dizia
ser um príncipe encantado, e o devolvi à água.
— Não pediste nada a ele? ‒ perguntou a esposa.
— Não pedi ‒ disse o marido. ‒ O que deveria ter pedido?
— Ah ‒ disse a esposa ‒, é horrível ter que morar a vida inteira
nesta cabana apertada e suja. Devias ter pedido a ele um
confortável chalé. Vai até lá e o chama; dize-lhe que queremos um
chalé, e com toda certeza o peixe o dará.
— Ai! ‒ disse o homem ‒ de que adiantará que eu volte agora?
— Ora ‒ respondeu a esposa ‒, tu o apanhaste e depois o
devolveste ao mar; estou certa, pois, de que ele te dará o que
pedires. Vai logo!
O homem não estava nada contente em ter que ir, mas como era
impossível convencer sua mulher do contrário, lá se foi ele de volta
à beira do mar.
Quando chegou, o mar estava verde-musgo, e já não reluzia como
antes. O pescador postou-se na praia e disse:
Ó príncipe-linguado,
que nadas encantado
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.
O linguado nadou até a praia e falou:
— Pois bem, o que ela quer?
— Ai de mim! Minha mulher fala que eu devia ter te segurado e
feito um pedido. Ela não quer mais morar numa cabana; gostaria de
ganhar um chalé.
— Vai para casa, então ‒ disse o linguado ‒; ela já o tem.
Então o homem voltou para casa, onde encontrou sua mulher
sentada na varanda de um lindo chalé. Ela o pegou pela mão e lhe
disse:
— Entremos, e dize-me se não está bem melhor.
Entraram, e dentro do chalé havia um pequeno saguão, uma linda
sala de estar, um quarto de dormir com cama, uma cozinha e uma
sala de jantar toda mobiliada com o que havia de melhor, provida de
todo tipo de utensílios de estanho e cobre. Do lado de fora havia um
quintal com patos e galinhas, e também um jardim com verduras e
fruteiras.

— Vê só ‒ disse a esposa ‒; não é bonito?


— É, sim ‒ respondeu o marido. ‒ Aqui permaneceremos e
viveremos felizes.
— Isto veremos… ‒ falou a mulher.
Ditas estas palavras, jantaram e foram deitar. Tudo correu bem por
um par de semanas, até que a esposa disse:
— Escuta, homem: o chalé é muito pequeno, e também o quintal e
o jardim. O linguado bem que poderia ter-nos dado uma casa maior.
Eu gostaria de morar num grande castelo de pedra.
— Ah, mulher ‒ disse o pescador ‒, o chalé está de bom tamanho;
por que havemos de morar num castelo?
— E por que não? ‒ disse a mulher. ‒ Desce até a praia; o
linguado pode muito bem nos dar tudo isso.
— Não, mulher ‒ disse o homem. ‒ O linguado nos deu o chalé.
Não quero ir lá de novo; pode ser que ele leve a mal.
— Vai ‒ disse a mulher. ‒ Com certeza ele pode nos dar um
castelo, e o fará de bom grado. Vai já.
O pescador foi muito a contragosto, com o coração pesaroso. Dizia
consigo mesmo:
— Isto não é certo.
Mas foi ainda assim.
Quando chegou ao mar, a água estava toda violeta e azul-escura,
toda espessa e baça, e já não tinha o azul-esverdeado de antes,
embora ainda estivesse tranquila. O pescador ali postou-se e disse:
Ó príncipe-linguado,
que nadas encantado
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.
— O que ela quer agora? ‒ disse o linguado.
— Ah ‒ disse o pescador, meio sem jeito ‒, quer agora viver num
grande castelo de pedra.
— Vai para casa, que a encontrarás diante do portão ‒ disse o
linguado.
O pescador voltou ao lar pensando que não encontraria casa
alguma. Ao se aproximar, no lugar de seu chalé havia um grande
castelo de pedra, e na soleira do portão estava a esposa, prestes a
entrar. Ela o pegou pela mão e disse:
— Entremos.
Entraram juntos no castelo, e dentro ele viu um grande saguão
com piso de mármore, e muitos criados a postos para abrir as
enormes portas; nos aposentos havia mesas e cadeiras de ouro,
dos tetos pendiam lustres de cristal; e todos os quartos eram
cobertos de lindos tapetes. As melhores comidas e bebidas estavam
à disposição para quando quisessem jantar. Do lado de fora da
casa, havia um grande pátio, com uma estrebaria para os cavalos,
um estábulo para o gado, e uma cocheira – todos construídos com
muito capricho. Havia também um esplêndido pomar com as mais
belas flores e fruteiras, e num parque de mais ou menos uma légua
havia cervos, corças e lebres, e tudo mais que se possa desejar.
— E então ‒ disse a esposa ‒: não é lindo?
— Certamente ‒ disse o pescador. ‒ Agora permaneceremos aqui,
viveremos neste lindo castelo e seremos muito felizes.
— Vamos pensar a respeito… ‒ disse a esposa, e foram deitar.
Na manhã seguinte a esposa acordou ao romper do dia, e da
cama olhou para os lindos campos que à sua frente se estendiam
além do castelo. O marido ainda dormia, então ela cravou os
cotovelos em seus flancos e falou:
— Homem, acorda e olha pela janela. Não poderíamos ser os
soberanos de toda esta terra? Vai até o linguado e dize-lhe que
desejamos ser rei e rainha.
— Ah, mulher! ‒ replicou o marido. ‒ Por que eu haveria de ser
rei? Não quero ser rei.
— Bom ‒ disse a mulher ‒, se não queres ser rei, serei eu o rei.
Vai até o linguado; eu serei rei.
— Ai de mim, mulher! ‒ disse o pescador. ‒ Por que queres ser
rei? Não posso pedir tal coisa.
— E por que não? ‒ disse a mulher. ‒ Desce agora mesmo à praia.
Tenho que ser rei!
Então lá se foi o pescador, muito vexado de sua mulher querer ser
rei.
— Não é certo! Não é certo! ‒ pensava. Não queria ir, mas foi.
Quando chegou à beira do mar, a água estava cinza-escura e
avançava sobre a praia. Lá o pescador postou-se e disse:
Ó príncipe-linguado,
que nadas encantado
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.
— O que ela quer agora? ‒ perguntou o linguado.
— Ai de mim! ‒ disse o pescador. ‒ Quer ser rei!
— Vai para casa, que ela já o é ‒ disse o linguado.
O pescador foi para casa e, quando se aproximou do palácio, viu
que estava muito maior, que tinha enormes torres, e estava
entalhado com belíssimas gravuras. Uma sentinela guardava o
portão, e marchava um grande número de soldados com tímbales e
trompetes. Quando entrou no palácio, viu que era todo feito de
mármore e ouro puro, com cortinas de damasco e borlas de ouro.
Então as portas do saguão se escancararam, e lá se encontrava a
corte inteira ao redor de sua esposa, que estava sentada num trono
muito elevado, feito de ouro e diamante; usava na cabeça uma
coroa de ouro e nas mãos segurava um cetro feito de ouro e pedras
preciosas; de cada lado dela havia seis pajens enfileirados, cada um
mais alto que o outro por uma cabeça. Ele então foi até a mulher e
disse:
— Ah, mulher, agora és rei?
— Sou ‒ disse a mulher. ‒ Agora sou rei.
Ficou a olhar para ela, e depois que a olhou por um tempo, disse:
— Já basta, mulher, agora que és rei. Não há nada mais que
possamos desejar.
— Não, homem ‒ disse a mulher, irrequieta ‒, meus desejos não
têm fim, e já não os posso conter. Desce à beira do mar para ver o
linguado: rei já sou, hei de ser imperador.
— Ai de mim, mulher! ‒ disse o pescador. ‒ Por que queres ser
imperador?
— Homem ‒ disse ela ‒, vai ao linguado; eu serei imperador.
— Ah, mulher! ‒ disse o marido. ‒ Ele não pode tornar-te
imperador; não quero lhe pedir tal coisa. Só há um imperador no
reino. Não mesmo, de jeito nenhum: não há como ele fazer-te
imperador.
— Como é? ‒ disse a esposa. ‒ Eu sou rei, e tu és meu marido.
Vai de uma vez! Vai! Se o peixe pode fazer um rei, pode fazer um
imperador, e imperador hei de ser. Vai!
O homem teve que ir. Porém, no caminho, sentiu muito medo, e
pensou consigo mesmo:
— Isto não pode estar certo; aspirar a imperador é muita ambição.
O linguado afinal se enfadará.
Assim pensando chegou à praia. O mar estava negro e espesso,
as ondas rebentavam e engoliam a praia inteira; a espuma voava
pelos ares, e o vento soprava rajadas: tudo era desolação. O
pescador tremia de medo. Ali postou-se e disse:
Ó príncipe-linguado
que nadas encantado,
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.
— O que ela quer agora? ‒ perguntou o linguado.
— Ai de mim! ‒ disse o homem. ‒ Minha mulher quer ser
imperador.
— Vai para casa ‒ disse o linguado. ‒ Já o é.
O pescador foi então para casa e, quando chegou, viu que o
castelo inteiro era feito de mármore polido, ornado de ouro e
estátuas de alabastro. Diante dos portões, soldados marchavam,
sopravam trompetes e batiam tambores. Dentro do palácio
caminhavam barões, condes e duques, todos às ordens do
imperador; estes lhe abriram o portão, que era de ouro batido. E o
homem, quando entrou, viu sua mulher sentada num trono feito de
um bloco maciço de ouro, de uns seis côvados de altura. Na cabeça
a mulher usava uma esplêndida coroa de ouro, com três metros de
altura e cravejada de brilhantes e gemas cintilantes. Numa das
mãos segurava um cetro, e na outra, o globo imperial. De cada lado
havia duas fileiras de alabardeiros, cada um menor que o outro,
desde um gigante de três metros até o mais pequerrucho dos
anões, que não passava do tamanho de um minguinho. Vários
príncipes e duques estavam virados para ela. O pescador
aproximou-se discretamente e disse:
— Mulher, és agora imperador?
— Sim ‒ disse ela. ‒ Sou imperador.
O homem ficou observando a sua magnificência e, depois que a
observou por um tempo, disse:
— Ah, mulher, agora que és imperador, já basta.
— Homem ‒ disse ela ‒, por que estás aí parado? Já sou
imperador, e quero também ser papa; vai até o linguado.
— Ai de mim, mulher! ‒ disse o pescador. ‒ O que mais vais
querer? Não podes ser papa; há apenas um papa para toda a
cristandade, e o linguado não te pode dar tal coisa.
— Homem ‒ disse ela ‒, serei papa. Desce já; hei de ser papa
hoje mesmo.
— Não, mulher ‒ disse o pescador. ‒ Não posso pedir tal coisa.
Não é certo, isso já é demais. O linguado não te pode fazer papa.
— Homem, que asneira! ‒ disse a mulher. ‒ Se pode fazer
imperador, pode fazer papa também. Desce agora mesmo; sou
imperador, e tu és meu marido.Vais agora, ou terei que mandar
outra vez?!
Então ele teve medo e saiu, mas sentia-se fraco, tremia e
chacoalhava, e suas pernas e joelhos vergavam sob seu peso. O
vento soprava feroz por toda a terra, e as nuvens que cruzavam
pelo céu eram escuras a ponto de o dia parecer noite; as folhas
voavam, arrancadas das árvores; a água espumava, fervia e
rebentava na praia. Ao longe, o pescador via quanto perigo
enfrentavam os navios, que dançavam e sacudiam sobre as ondas.
Apesar disso, o alto do céu estava ainda muito azul, embora o
horizonte se inflamasse de vermelho, como se estivesse para cair
uma grande tempestade. Então ali se postou, estremecido e aflito, e
disse:
Ó príncipe-linguado
que nadas encantado,
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.
— Pois bem, o que ela quer agora? ‒ perguntou o linguado.
— Ai de mim! ‒ disse o pescador. ‒ Quer ser papa.
— Vai para casa, então, que já o é ‒ disse o linguado.
Foi então para casa e, quando chegou, viu uma enorme igreja
cercada de palácios. Abriu caminho pela multidão e viu o interior,
todo iluminado com milhares e milhares de velas, e sua mulher
vestida de ouro e sentada num trono ainda mais elevado que antes,
e na cabeça dela havia três coroas de ouro. Cercavam-na multidões
de dignitários da Igreja, e de cada lado havia duas fileiras de círios,
dos quais o maior era alto como um campanário, e o menor,
pequeno como uma vela de Natal. Todos os imperadores e reis
estavam ajoelhados diante dela e lhe beijavam os pés.
— Mulher ‒ disse o pescador, olhando para ela ‒, és agora papa?
— Sim ‒ disse ela. ‒ Sou papa.
Ficou então a olhar para ela, e era como se olhasse para o brilho
do próprio sol. Depois de olhar por um bom tempo, disse:
— Ah, mulher, agora que és papa, já basta.
Mas ela se manteve imóvel e reta como uma árvore, e não se
mexeu nem se dobrou minimamente. O homem repetiu:
— Mulher, fica satisfeita agora que és papa. Não podes ser nada
maior.
— Isto veremos… ‒ disse a esposa.
Com estas palavras, foram deitar. Mas a mulher não estava
satisfeita; sua cobiça não a deixava dormir, e ela passou a noite
pensando e repensando o que mais poderia vir a ser. Então o sol
começou a raiar, e a mulher, quando viu a alvorada vermelha, foi até
a ponta da cama para olhá-la melhor, e, enquanto a observava,
pensou consigo mesma:
— Ah! E se eu pudesse mover o sol e a lua?
Disse então a seu marido, fincando-lhe nas costelas os cotovelos:
— Homem, acorda. Desce e vai até o linguado; serei um deus.
O pescador ainda não estava bem acordado, mas se assustou
tanto que caiu da cama. Pensou não ter escutado bem, então
arregalou os olhos e disse:
— O que disseste, mulher?
— Homem ‒ disse ela ‒, enquanto eu não puder, com a minha
simples presença, mover o sol e a lua, não conheço repouso. Não
descansarei até que possa mover o sol e a lua.
O homem olhou-a com pavor, e um tremor lhe correu o corpo
inteiro.
— Desce agora mesmo; serei um deus.
— Ai de mim, mulher! ‒ disse o pescador, caindo de joelhos diante
dela. ‒ O linguado não te pode dar isto. Que sejas imperador e
papa, isto ele pode te dar. Imploro-te, fica satisfeita e permanece
papa.
A mulher então perdeu as estribeiras, e seus cabelos enfurecidos
se esparramaram sobre a cara; ela empurrou o marido com o pé e
gritou:
— Não estou satisfeita e nunca estarei satisfeita! Vai já!
Ele então se vestiu o mais depressa que pôde e saiu correndo feito
louco. Porém, a tempestade se agitava com tanta violência que ele
mal conseguia ficar de pé. Casas e árvores voavam pelos ares,
montanhas inteiras chacoalhavam, e estilhaços de pedras rolavam
mar adentro. O céu, preto como carvão, trovejava e relampejava, e
no mar revolto as ondas, crescidas, se igualavam às torres das
igrejas e às montanhas, e tinham todas uma crista branca de
espuma.
Então o homem gritou, incapaz de ouvir a própria voz:
Ó príncipe-linguado
que nadas encantado,
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.
— O que ela quer agora?
— Ai de mim! ‒ disse o homem. ‒ Quer ser um deus.
— Vai para casa, então, que ela está sentada em sua velha
cabana.
E ali estão sentados até hoje.[ 38 ]

[ 38 ] Irmãos Grimm.
Os Três Músicos

RA UMA VEZ TRÊS MÚSICOS que saíram de casa para


excursionar pelo mundo. Todos haviam aprendido
música com o mesmo mestre, e então decidiram manter-
se unidos e tentar a sorte em terras estrangeiras.
Peregrinavam alegremente de cidade em cidade e assim
conseguiram granjear uma boa vida, sendo muito admirados por
todos que os viam tocar.
Certa noite, chegaram a um povoado onde a todos encantaram
com sua música maravilhosa. Por fim, pararam de tocar e
começaram a comer, beber e ouvir a conversa que circulava à sua
volta. Ficaram sabendo de todos os mexericos do lugar, e muita
coisa espantosa foi dita e discutida. A conversa enfim enveredou
sobre um castelo que havia nas redondezas, a respeito do qual se
disseram muitas coisas estranhas e prodigiosas. Alguém disse que
ali se encontrava um tesouro escondido; outro, que ali se serviam os
manjares mais esplêndidos, apesar de ser um castelo desabitado;
um terceiro, ainda, disse que ali vivia um espírito maligno tão
terrível, que quem forçasse sua entrada no castelo sairia de lá mais
morto do que vivo.
Tão logo os três músicos viram-se sozinhos em seu quarto de
dormir, concordaram em explorar o misterioso castelo e, se possível,
encontrar e tomar o tesouro escondido. Decidiram, ainda, agir cada
um por si, um após o outro, por ordem de idade, ficando acordado
que cada explorador teria um dia inteiro para tentar a sorte.
O rabequista foi o primeiro a lançar-se na aventura, e o fez com o
melhor dos ânimos, armado de toda a coragem. Ao chegar ao
castelo, encontrou o portão aberto, como se já o esperassem.
Porém, mal cruzara o portal da entrada, uma pesada porta fechou-
se atrás dele com um estrondo, sendo trancada por uma enorme
barra de ferro, como se uma sentinela estivesse a postos mantendo
a guarda, mas não se via ninguém em lugar algum.
Um pavoroso terror apossou-se do rabequista, mas era em vão
pensar em voltar ou permanecer onde estava, e a esperança de
encontrar ouro e outras riquezas o reanimou, dando-lhe força e
coragem para seguir em frente e prosseguir na exploração do
castelo. Subiu e desceu as escadas, vagou por corredores
suntuosos e majestosos aposentos, passando por requintados
budoares – tudo disposto com muita beleza e mantido na mais
perfeita ordem. Mas sobre todas as coisas pairava um silêncio
mortal, e nenhuma criatura viva, sequer uma mosca, se via ali.
Todavia, o rapaz sentiu remoçar o espírito quando penetrou na
parte inferior do castelo, pois encontrou na cozinha os mais
apetitosos e tentadores manjares; a adega estava repleta dos mais
caros vinhos, e a despensa, abarrotada de potes de geleia de todas
as qualidades que se possa imaginar. Nas labaredas do forno, um
assado era preparado por alguém que não se podia ver, como
também o eram toda sorte de legumes e outros pratos tentadores.
Antes que o rabequista tivesse tempo de colocar as ideias em
ordem, foi levado a um pequeno aposento por mãos invisíveis, onde
uma mesa estava posta para ele, com todos os apetitosos pratos
que vira sendo preparados na cozinha.
O rapaz tomou de sua rabeca e tocou uma bonita ária, que ecoou
pelos corredores silenciosos, e depois pôs-se a comer vorazmente o
que havia sobre a mesa. Não demorou muito, entretanto, a porta se
abriu e por ela entrou um pequeno homenzinho, que não chegava a
medir um metro de altura. Vinha metido num roupão, tinha o rosto
pequeno e enrugado e uma barba cinza que se estendia até as
fivelas de seus sapatos. O homenzinho sentou-se ao lado do
rabequista e pôs-se a cear também. Quando chegaram à travessa
de carne, o rabequista ofereceu ao anão um garfo e uma faca,
pedindo-lhe que se servisse primeiro e então passasse a travessa.
O anão assentiu com um movimento de cabeça, mas se serviu tão
desajeitadamente, que derrubou no chão o pedaço de carne que
havia cortado.
O rabequista, que tinha bom coração, abaixou-se para pegá-lo,
mas, num segundo, o homenzinho avançou sobre suas costas e
começou a golpeá-lo, dando-lhe uma verdadeira sova. Estando o
rabequista quase à beira da morte, o malvado anão parou de
espancá-lo e o enxotou do castelo, empurrando-o portão afora – o
mesmo portão que poucas horas antes cruzara tão cheio de
esperanças.
O ar fresco fê-lo reviver um pouco e, passado não muito tempo, já
conseguia mover os membros doloridos para voltar cambaleando à
hospedaria onde estavam seus amigos. Era noite quando a
alcançou, e os dois outros músicos dormiam um sono profundo.
Na manhã seguinte, todos ficaram admirados por vê-lo dormindo
na cama ao lado e bombardearam-lhe com perguntas, mas o
rabequista apenas escondia o rosto e as costas e respondia-lhes
com poucas palavras, dizendo:
— Ide vós mesmos e vede o que há para ver! É medonho, posso
vos garantir.
Foi a vez do segundo músico, um trompetista, e tudo lhe sucedeu
exatamente como ao rabequista. A princípio foi tratado com
hospitalidade e, logo em seguida, cruelmente atacado e espancado,
de modo que no dia seguinte também amanheceu sobre a cama
como uma lebre ferida, garantindo a seus amigos que entrar no
castelo não era um passeio no parque. Contrariando a advertência
de seus amigos, o terceiro músico, que tocava flauta, seguiu
decidido a tentar a sorte e, cheio de coragem e ousadia, partiu
determinado a encontrar e assenhorear-se do tesouro escondido.
Percorreu, destemido, todo o castelo; e, enquanto vagueava por
seus fabulosos aposentos, pensou consigo como seria bom viver
sempre ali, principalmente com a despensa cheia e uma adega à
sua disposição. Também para ele uma mesa fora posta e, depois de
andar por algum tempo, cantando e tocando flauta, sentou-se à
mesa, como seus amigos antes de si o fizeram, pronto para
saborear o convidativo jantar disposto à sua frente. Então o
homenzinho barbado entrou, como antes, e sentou-se ao lado do
flautista, que não se surpreendeu nem um pouco com sua
aparência, travando com ele uma conversa, como se fossem velhos
conhecidos. Seu companheiro, entretanto, não parecia muito
comunicativo. Chegaram, finalmente, à travessa de carne, e, como
de costume, o homenzinho deixou cair seu pedaço no chão. O
flautista gentilmente fez menção de apanhá-lo, mas então percebeu
que o anãozinho estava prestes a avançar-lhe sobre as costas.
Virou-se rapidamente e, agarrando a criaturinha pela barba, deu-lhe
um safanão tão forte, que a barba se soltou e o anão caiu no chão,
gemendo.
Mas, tão logo apoderou-se da barba, o jovem sentiu-se tão
poderoso que parecia invencível, e se deu conta de muitas coisas
no castelo que não notara antes; ao mesmo tempo, toda a força
parecia ter-se esvaído do anãozinho. Ele choramingava e soluçava:
— Ó, dai-me minha barba novamente, e revelar-vos-ei toda a
mágica que envolve este castelo, e ajudar-vos-ei a obter o tesouro
escondido, que vos fará rico e ditoso para todo o sempre!
Mas o esperto flautista respondeu:
— Terás tua barba, mas ajuda-me primeiro, como prometeste. Até
que o tenhas feito, não te devolverei coisa alguma.
Então o velhote viu-se obrigado a cumprir o que prometera,
embora não tivesse tido a menor intenção de fazê-lo, e, se disse o
que disse, foi apenas para obter a barba de volta. Conduziu o rapaz
por escuras passagens secretas, grutas subterrâneas e rochedos
cinzentos, até chegar a uma área aberta, que parecia pertencer a
um mundo mais belo do que este nosso. Caminharam até um rio de
correnteza; o homenzinho sacou de um cajado e com ele tocou nas
ondas, ao que as águas se dividiram e ficaram imóveis, e os dois
cruzaram o leito do rio a pé.
Como tudo era belo, do outro lado! Encantadoras trilhas
verdejantes cortavam bosques e campos cobertos de flores;
pássaros com penas de ouro e prata cantavam sobre os galhos das
árvores; adoráveis borboletas e besouros cintilantes batiam as asas
e rastejavam aqui e ali, e pequenos animaizinhos escondiam-se nos
arbustos e nas sebes. Sobre eles, o céu não era azul, mas
iluminado por raios do mais puro ouro, e as estrelas pareciam ter o
dobro do tamanho normal e brilhar mais do que as do nosso mundo.
O espanto do flautista crescia à medida que o homenzinho grisalho
o conduzia por um castelo ainda maior e mais suntuoso que o
primeiro. Neste também reinava o mais profundo silêncio.
Percorreram todo o castelo e, por fim, chegaram a um aposento em
cujo centro estava uma cama cercada de pesadas cortinas. Sobre a
cama dependurava-se uma gaiola, e o som das bonitas melodias
que o pássaro entoava cindia o espaço silencioso. O homenzinho
grisalho ergueu as cortinas que circundavam a cama e acenou para
que o jovem se aproximasse. Sobre almofadas de seda bordadas
com fios de ouro e prata, jazia uma moça encantadora, que dormia.
Era bela como um anjo, com cabelos dourados que lhe caíam em
cachos sobre os ombros de mármore, e, sobre sua cabeça, uma
coroa de brilhantes reluzia. Estava, entretanto, encantada por um
sono de morte, e nenhum ruído era capaz de despertá-la.
Então o homenzinho encarou o semblante maravilhado do rapaz e
disse-lhe:
— Vede! Aqui está a pequena adormecida. É uma poderosa
princesa. Este magnífico castelo e esta terra encantada lhe
pertencem, mas há centenas de anos ela dorme esse sono
encantado. Durante todo esse tempo, nenhum vivente jamais
conseguiu chegar até aqui. Eu, sozinho, tenho mantido sua guarda,
incumbindo-me de ir diariamente ao meu castelo buscar alimento e
dar uma lição nesses miseráveis sequiosos de lucros que invadem
minha morada. Tenho zelado pela princesa todos esses anos e
posso garantir que nenhum desconhecido jamais se aproximou dela,
porém todo meu poder mágico reside em minha barba e, agora que
a tomastes de mim, nada posso fazer. Não posso mais manter a
bela princesa em seu sono encantado, sendo obrigado a revelar-vos
meu valioso segredo. Então, mãos à obra, faz o que vos ordeno.
Tomai o pássaro acima da cabeça da princesa, cujo canto fê-la
dormir esse sono encantado – um canto que jamais cessou desde
então. Tomai-o e matai-o; devereis arrancar seu coração e reduzi-lo
a cinzas, as quais derramareis sobre os lábios da princesa. Então,
ela despertará na mesma hora e conceder-vos-á seu coração e sua
mão em casamento, seu reino e seu castelo, e todas as suas
riquezas.
O anãozinho parou, esgotado, e o rapaz não demorou a cumprir
suas ordens. Executou imediatamente tudo o que o homenzinho lhe
dissera, nos mínimos detalhes; e, tendo arrancado o coração do
pássaro, tratou de reduzi-lo a cinzas. Assim que as derramou sobre
os lábios da princesa, ela abriu seus belos olhos e, observando o
semblante feliz do rapaz, beijou-o com ternura e agradeceu-lhe por
tê-la libertado do sono encantado, prometendo ser sua esposa. No
mesmo instante, um estrondo como o de um trovão ecoou pelo
castelo, e ruídos inundaram as escadarias e cada um dos
aposentos. Então uma multidão de criados e criadas entrou no
quarto de dormir onde estava o ditoso casal e, depois de desejar
felicidades à princesa e ao noivo, espalharam-se por todo o castelo,
ocupados com os mais diversos afazeres.
Mas o homenzinho grisalho começou a exigir que o rapaz
devolvesse-lhe a barba, pois, em seu perverso coração, estava
decidido a dar um basta a toda aquela felicidade. Ele sabia que
bastava reaver sua barba para que pudesse fazer o que bem
entendesse com todas aquelas pessoas. A astúcia do flautista,
porém, nada deixava a desejar quando comparada à do
homenzinho grisalho, e ele então disse:
— Está bem, não temas, terás tua barba antes de voltarmos.
Entretanto, permite que minha noiva e eu te acompanhemos por um
trecho do caminho.
O homenzinho não pôde recusar o pedido, e então caminharam
todos juntos pelas trilhas verdejantes e campos floridos, chegando
afinal ao rio que se estendia por muitos quilômetros em torno das
terras da princesa, formando a barreira de seu reino. Não havia
ponte nem barco em lugar algum, sendo impossível chegar ao outro
lado, pois o mais destemido nadador não ousaria enfrentar a
correnteza feroz e as águas revoltas. Então o jovem disse ao anão:
— Dá-me vosso cajado para que eu divida as águas.
O anão foi obrigado a obedecer, porque o jovem ainda detinha a
barba; mas aquela criaturinha perversa estremeceu de júbilo e
pensou consigo: “Esse rapaz tolo devolverá minha barba assim que
tivermos cruzado o rio, e então restaurarei meu poder. Tomarei meu
cajado de volta e impedirei que os dois retornem ao seu belo reino.”
Mas as intenções malignas do anão estavam destinadas a
fracassar. O afortunado rapaz tocou na água com o cajado, e as
ondas imediatamente se dividiram e ficaram imóveis. O anão seguiu
na frente e cruzou o leito do rio. Assim que o fez, as águas
fecharam-se atrás dele, permanecendo o rapaz e sua bela noiva em
segurança do outro lado. Então atiraram a barba para o velho por
cima do rio, mas se mantiveram em posse de seu cajado, de modo
que o malvado anão jamais pudesse penetrar naquele reino. O feliz
casal voltou ao castelo e desfrutou de uma vida pacífica e próspera
para sempre. Os outros dois músicos esperaram em vão pelo
retorno de seu amigo e, como ele não voltasse, disseram:
— Ah, esse agora leva a vida na flauta – até que a frase virasse
um dito popular para se referir a alguém que vive sem se dedicar ao
trabalho.[ 39 ]

[ 39 ] Irmãos Grimm.
Os Três Cães

RA UMA VEZ UM PASTOR que tinha dois filhos; um menino e


uma menina. No seu leito de morte, voltou-se para eles
e lhes disse:
— Não tenho nada para vos deixar senão três ovelhas
e uma casinha; dividi-o como quiserdes, mas em hipótese alguma
brigueis sobre a partilha.
O pastor morreu, e o irmão perguntou à sua irmã o que ela
preferia: se as ovelhas, se a casinha. Quando ela escolheu a casa,
ele disse:
— Então hei de pegar as ovelhas e correr mundo à procura de
minha fortuna. Não vejo por que não possa ser tão sortudo quanto
tantos outros que saíram em busca do mesmo, e não foi por nada
que eu nasci num domingo.
E lá saiu ele a viajar, conduzindo as suas três ovelhas sempre
diante de si, e por muito tempo não pareceu estar nos planos da
fortuna favorecê-lo em nada. Um dia o moço estava sentado numa
encruzilhada, desconsolado, quando de repente um homem surgiu à
sua frente com três cães, cada qual maior que o outro.
— Olá, meu velho – disse o homem –, vejo que tens aí contigo três
ovelhas gordas. Digo-te o seguinte: se me deres uma delas, dou-te
em troca meus três cães.
Por mais desgostoso que estivesse, o moço sorriu e respondeu:
— E o que eu faria com teus cães? As minhas ovelhas ao menos
se alimentam a si mesmas, mas eu teria de encontrar comida para
os cachorros.
— Meus cães não são como os outros cães – disse o estranho. –;
Alimentarão a ti ao invés de tu a eles, e hão de fazer-te rico. O
menor chama-se “Sal” e te dará comida sempre que quiseres; o
segundo chama-se “Pimenta” e rasgará em pedaços qualquer um
que te queira fazer mal; e o grande, e maior de todos, chama-se
“Mostarda” e é tão poderoso que pode rasgar ferro e aço com os
dentes.
O pastor enfim deixou-se convencer, e deu sua ovelha ao
estranho. Para testar o que este lhe dissera acerca dos cães, não
perdeu tempo e disse:
— Sal, estou faminto – e mal as palavras lhe haviam saído da
boca, já o cachorro sumira, apenas para daí a alguns minutos
ressurgir com uma cesta repleta da comida mais deliciosa que se
poderia imaginar. Então o moço ficou satisfeitíssimo consigo mesmo
pela barganha que fizera e seguiu em frente num bom humor que
só.
Um dia, deparou-se com uma carruagem, drapeada toda com um
tecido preto; e até os cavalos vinham cobertos da mesma cor, e
também o cocheiro estava vestido dos pés à cabeça com uma roupa
de funeral. Dentro da carruagem estava sentada uma linda moça,
com um vestido tão negro quanto todo o resto, chorando
amargamente. Os cavalos se iam arrastando, num passo
melancólico, cabisbaixos.
— Cocheiro, por que tanta tristeza? – perguntou o pastor.
A princípio o cocheiro não disse palavra, mas de tanto o rapaz
pressioná-lo acabou por contar-lhe que um dragão gigantesco vivia
por aquelas redondezas e todos os anos exigia que lhe
sacrificassem uma bela donzela. Neste ano escolhera-se a filha do
rei, e o país inteiro fora portanto acometido de uma angústia
enorme.
O pastor muito se apiedou da encantadora donzela e resolveu
seguir a carruagem. Daí a pouco esta fez uma parada no pé de uma
montanha muito alta. A garota saiu e se pôs a se arrastar, com uma
tristeza de morte, em direção ao seu terrível destino. O cocheiro
notou que o pastor desejava segui-la e o alertou que melhor lhe
seria ficar longe, se dava algum valor à vida, mas o pastor não lhe
deu ouvidos. Quando estavam na metade da colina, eis que
avançou sobre eles um monstro horrendo que, com corpo de cobra
e asas e garras gigantescas, cuspia fogo e estava pronto a agarrar
sua vítima. Então o pastor gritou:
— Pimenta, estou em apuros! – e o segundo cachorro atacou o
dragão, e depois de uma batalha feroz cravou-lhe os dentes tão
fundo no pescoço que o monstro parou de lutar, e logo caiu morto
no chão. Depois, o cachorro comeu-lhe o corpo inteiro, a não ser as
duas presas da frente, que o pastor pegou do chão e meteu no
bolso.
A princesa ficou tão aterrorizada quanto alegre e desmaiou aos
pés de seu salvador. Ao recobrar os sentidos, rogou ao pastor para
que retornasse com ela até seu pai, que o recompensaria ricamente.
Mas o rapaz respondeu-lhe que desejava conhecer o mundo e que
ao cabo de três anos haveria de voltar, e coisa nenhuma o faria
mudar de ideia. A princesa sentou-se mais uma vez em sua
carruagem e, dando-se ambos adeus um ao outro, separaram-se –
ela, para voltar a casa, ele, para conhecer o mundo.
Mas enquanto a princesa atravessava uma ponte, a carruagem de
súbito estacou, e o cocheiro virou-se para ela, dizendo:
— Teu salvador já não está aqui, e faz pouco caso de tua gratidão.
Serias muito gentil se fizesses um pobre diabo feliz; portanto,
poderias dizer ao teu pai que fui eu quem matou o dragão. Se te
recusares, jogo-te no rio e ninguém nunca desconfiará de nada, pois
todos creem que estás já na barriga do dragão.
A donzela ficou num estado de dar dó quando ouviu tais palavras,
mas não havia nada a se fazer senão jurar que diria a todo o reino
que o cocheiro a salvara, e que jamais contaria o segredo a
ninguém. Assim, pois, voltaram à capital, e todo o povo ficou
encantado ao ver a princesa ilesa; tiraram-se as bandeiras negras
que havia pelas torres do palácio e em seu lugar puseram-se outras,
coloridas e alegres, e o rei abraçou a filha e o seu suposto salvador
com lágrimas de alegria. Depois, voltando-se para o cocheiro, lhe
disse:
— Não apenas salvaste a vida de minha criança como libertaste o
país de um flagelo terrível, portanto, não há nada mais justo do que
te recompensar ricamente. Toma, pois, minha filha por esposa. Mas
como ela é ainda muito moça, o casamento há de ser celebrado
apenas daqui a um ano.
O cocheiro agradeceu ao rei sua benevolência e então foi levado
para ser vestido com o que havia de mais excelente e ser instruído
em quantas artes e finezas cabiam à sua nova posição. Mas a pobre
princesa chorava amargamente, muito embora não ousasse confiar
sua angústia a ninguém. Quando acabou-se o ano, tanto implorou
por mais um ano de espera que lho deram. Mas também este ano
passou, e ela se jogou aos pés do pai, e rogou-lhe por mais um ano,
tão comovida, que o coração do rei se derreteu, e este lhe concedeu
o pedido. A princesa só faltou pular de alegria, pois sabia que o seu
salvador de verdade haveria de surgir ao cabo do terceiro ano. E lá
se acabou também este ano como os outros dois, e marcou-se o dia
do casamento, e todas as pessoas estavam preparadas para uma
festança das mais alegres.
Mas no dia do casamento aconteceu de um estranho chegar à
cidade com três cães pretos. Perguntou qual era o motivo de toda
aquela festa e rebuliço, e lhe responderam que a filha do rei estava
para se casar com o homem que matara o terrível dragão. O
estranho imediatamente pôs-se a denunciar o cocheiro chamando-o
de mentiroso, mas ninguém lhe dava ouvidos, e ele foi preso e
jogado numa cela com barras de ferro.
Enquanto estava deitado em sua cama de palha, a matutar
pesaroso no seu destino, julgou ouvir o choro baixinho de seus
cachorros lá fora, então lhe ocorreu uma ideia e começou a gritar
com quantas forças tinha no pulmão:
— Mostarda, vem e me ajuda! – e num segundo viu as patas do
maior de seus cães na janela de sua cela e, antes que pudesse
contar até três, já o bicho rasgara com os dentes as barras de ferro
e se pusera ao seu lado. Então saíram ambos da prisão pela janela,
e o pobre rapaz viu-se livre mais uma vez, embora estivesse ainda
angustiado por um outro gozar da recompensa que era sua por
direito. Estava também com fome. Chamou então seu cachorro
— Sal! – e lhe pediu alguma comida.
A criatura fiel saiu a trotar, e daí a pouco voltou com um
guardanapo de mesa repleto de uma comida deliciosa, e no próprio
guardanapo via-se bordado o brasão real.
O rei, junto com toda sua corte, acabara de se sentar para o
banquete, quando o cão surgiu e se pôs a lamber a mão da
princesa, como se a fazer com isto uma súplica. Com um gesto tão
assustado quanto alegre, ela reconheceu o bicho e amarrou-lhe o
seu próprio guardanapo ao redor do pescoço. Depois, reuniu toda a
sua coragem e contou ao pai a história inteira. O rei imediatamente
enviou um servo no encalço do cão, e em seguida o estranho estava
à sua frente. O antigo cocheiro fez-se branco como um fantasma ao
ver o pastor e, caindo de joelhos, implorou por misericórdia e pelo
perdão do rei. A princesa reconheceu seu salvador à primeira vista e
nem mesmo precisou da prova, que eram os dois dentes do dragão
que ele tirou do bolso. Jogaram o cocheiro numa masmorra escura,
e o pastor tomou o seu lugar ao lado da princesa. E desta vez,
podeis ter certeza de que ela não implorou para que se cancelasse
o casório.
O jovem casal viveu por algum tempo em grande paz e felicidade
quando, um dia, subitamente, o antigo pastor lembrou-se de sua
pobre irmã e quis revê-la, a fim de com ela compartilhar a sua boa
fortuna. Uma carruagem foi enviada para buscá-la e, tão logo a
moça chegou à corte, viu-se uma vez mais nos braços de seu irmão.
Então um dos cães falou, dizendo:
— Nosso dever já está cumprido; não precisas mais de nós. Só
nos demoramos para ver se com a prosperidade não te esquecerias
de tua irmã.
E com essas palavras os três cães tornaram-se três pássaros e se
foram embora, voando em direção ao céu.[ 40 ]

[ 40 ] Irmãos Grimm.