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07/08/2017 Como a Alemanha se tornou a maior economia da Europa?

Saiba os fatores (e se surpreenda)

Como a Alemanha se tornou a maior economia da Europa?


Saiba os fatores (e se surpreenda)
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05/02/2017

É cada vez mais comum nos debates políticos que vemos por aí a comparação de países e economias nacionais
para disputar, no vale-tudo, qual ideologia fechada e dogmática explica a posição deles num ranking comparativo
de um parâmetro geral. Algo estranho, quando há poucos anos a moda era falar da “globalização” e
interdependência de países.

O ponto fundamental para o que vamos chamar a atenção de que muitas vezes a discussão de quem está mais
certo ou errado na melhor explicação, seja da direita à esquerda, é em si um foco errado. Não apenas porque
geralmente todos os lados fazem vistas-grossas ou sobrestimam determinado fator quando convêm. Essa forma de
pensar, baseando-se numa “análise” superficial e apaixonada sobre o que trouxe desenvolvimento ou não para
determinado país nos leva inevitavelmente ao erro e nos faz cair no campo ideológico.

Na verdade os Estados e as Economias Nacionais são elementos funcionais de um sistema maior, estão
inseridos num processo maior, para o qual regiões, circunstâncias e processos variáveis são mais ou menos
aproveitáveis para a dinâmica do “todo”.

Para ajudar a ficar mais claro, das possíveis formas de elucidar como o procedimento que criticamos é desfocado,
vamos lidar aqui com um caso concreto e muito especialmente ilustrativo: a Alemanha.

De vez em quando vemos um grupo obscuro dizer que o motivo da recuperação econômica e retomada do
desenvolvimento da Alemanha no pós-guerra foi por este país ter seguido uma ideologia de centro-direita chamada
“ordoliberalismo”, que combina livre-mercado com distributivismo social. Essa afirmação é embasada
em declarações de quadros do Partido Democrata Cristão, o mesmo da Angela Merkel. Mas uma figura histórica
chave para a ideia dos ordoliberais é o notável economista liberal-social Ludwig Erhardt, sobre o qual falaremos
mais adiante.

Esse discurso ideológico de cara ignora que a Alemanha, em termos comparativos, chegou entre os primeiros do
ranking do núcleo mundial a partir da década de 70, quando o SPD, o partido social-democrata alemão, ascendeu
ao governo. E quanto mais estudamos os reais fatores que reergueram a Alemanha dos escombros da Segunda
Guerra Mundial, mais fica claro que os argumentos desse discurso são falsos, cuja única sustentação é um
raciocínio circular, que conclui um argumento já partindo do princípio de que estava certo antes de tentar
demonstrá-lo, ou seja, a velha falácia da petição de princípio.

“Calote” da dívida foi o primeiro passo dado pela a Alemanha para se reerguer

Mencionamos um fato encaixando-o em uma pergunta: como o perdão da dívida alemã [1] no começo dos anos 50,
equivalente a 400% do seu PIB de então, se encaixa na apologia liberal-econômica (o liberalismo político não
necessariamente é econômico e vice-versa)? Os (neo)liberais sequer consideram válido o argumento da dívida
odiosa e nem cogitam a possibilidade de uma auditoria da dívida pública brasileira, que dirá um “calote” equivalente
400% do PIB…

Definitivamente o primeiro passo dado pela a Alemanha para reestruturar sua economia não se encaixa na agenda
(neo)liberal. Pelo contrário, é repudiado, de acordo com o princípio do “risco moral”, o qual diz que tal perdão faria o
país ficar indisciplinado e irresponsável. Boa parte dessa dívida ainda era resquício da Primeira Guerra. Isso seria
um “detalhe”? Algo não relevante? Numa situação bem menos grave, imagine o que os nossos (neo)liberais diriam
se hoje a dívida brasileira fosse igualmente abonada em dois terços?

Até 1947 havia racionamento de alimentos e carvão na Alemanha. Sua população sofria com a pobreza, chegando
a ser comum mortes causadas pela fome e pelo frio. (A Alemanha conseguiu reduzir sua pobreza apenas anos
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A Alemanha assina o acordo em que sua dívida é perdoada. Londres, 27 de fevereiro de 1953. Foto: Arquivo Federal da Alemanha

mais tarde, com a consolidação do Estado Social, principalmente por meio de suas políticas de transferência de
renda [2]). Ainda no mesmo ano, diante da situação de calamidade generalizada no país, as autoridades
implementaram a política chamada “Revised Level for Industrial Plan”[3], visando alavancar a metalurgia, a
indústria de química e de maquinário para níveis de 1936.

Crianças sendo alimentadas na escola em Berlim, 22 de fevereiro de 1946. Durante os primeiros anos do pós-guerra houve racionamento de alimentos na
Alemanha.

Em 1948 a Alemanha recebeu 540 milhões de dólares em ajuda (mais de 5 bilhões de dólares em valores
corrigidos [4]), um ano depois, 440 milhões, e em 1950, mais 500 milhões de dólares. Não apenas para financiar a
indústria, mas também para estabilizar sua moeda. Somou-se a isto a ajuda para o fundo de compensação do
Programa de Reconstrução, que era gerido em separado do orçamento alemão, e usado em empréstimos de
longo prazo com juros subsidiados para médias e pequenas empresas. Em 1949 a Constituição instituiu o “Estado
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Social” como “princípio inalterável da ordem democrática”. Foi assim que finalmente, em 1952, o país passa a ter
superávit comercial, ao mesmo tempo que começara com um dos mais altos níveis de gastos sociais do mundo.

Com esse perdão de dois terços da dívida, o PIB do país pôde dobrar em dez anos. Mesmo com o país já tendo
iniciado a recuperação econômica como relatamos (mas ao contrário do que os (neo)liberais dizem, as condições
de vida ainda eram miseráveis [5]), a dívida vinha se acumulando e lhe estrangulara já neste ponto.

O terço restante da dívida foi renegociado em condições plenamente favoráveis; não era mais em moedas
estrangeiras, mas nacional – aliviando o peso das correções monetárias e o risco de insolvência-, juros abaixo do
mercado e adaptáveis ao crescimento do PIB e as amortizações eram limitadas anualmente a 5% do valor das
exportações.

Imaginem isso hoje a qualquer país “em desenvolvimento”?

A política econômica dos liberais foi um desastre e o Estado teve que retomar as rédeas da
economia

O economista liberal alemão Ludwig Erhardt.

Na Alemanha o governo controlava os preços do aço e carvão, transportes e moradia, até que houve uma reforma
monetária aberta formulada pelo liberal Ludwig Erhardt, que preconizava a liberalização econômica e a formação
dos preços conforme o jogo de oferta e demanda do mercado. Como resultado, os comerciantes começaram a
especular a partir do anúncio da reforma, estocando bens e itens para serem vendidos apenas quando a moeda
estivesse mais valorizada.

A abolição do controle de preços pelo liberal Erhardt – exceto o de salários, cujo arrocho foi derrotado devido à
pressão dos sindicatos – teve mais consequências: disparou a inflação devido à escassez de matérias-primas,
assim como fez explodir o desemprego devido às demissões em massa por parte das empresas que quebravam
com a abertura econômica. Ironicamente o governo alemão teve que adotar um procedimento antiliberal para
salvar o plano econômico liberal da inflação e mercados paralelos: regular novamente a economia, a partir do início
de 1948, proibindo estocagem de bens não registrados, sob peso de fortíssimas multas e cadeia.

A Alemanha volta a adotar políticas intervencionistas e usa o seu “BNDES” para investir nas
empresas alemãs

Outra questão silenciada pelos defensores do livre mercado no desenvolvimento alemão, é quando o seu “herói”
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A sede do banco de desenvolvimento estatal KfW em Frankfurt, o “BNDES” alemão.

Konrad Adenauer (primeiro chanceler da Alemanha Ocidental, um conservador esclarecido), no começo da


década de 50, desautoriza Ludwig Erhardt e retoma diversas restrições à importação – em todos os itens
considerados “não essenciais” – para conter o déficit comercial. Ou seja, mais uma vez a Alemanha volta a
proteger sua indústria com um forte protecionismo.

Essas medidas nos levam a alguns questionamentos. Sabendo que a circulação de capitais à época não tem
resquício de sombra com a realidade dos anos 90 adiante, não havendo o acúmulo de liquidez circulando mundo
afora (que começou a bombar a partir da segunda metade dos anos 70, com o dinheiro dos petrodólares), e
considerando que a base produtiva alemã era nacional, dado que a base das indústrias mais importantes eram
nacionais, não sendo uma ilha de indústrias estrangeiras nem paraíso fiscal, pergunta-se: de onde saiu o
financiamento para os investimentos das empresas alemãs? E quanto os recursos para infraestrutura, para formar
estoques, capital de giro, pesquisa, geração e transferência de tecnologia, etc.? De onde saiu o capital, sabendo
então que não se deve ao “mercado de capitais” para dizer que é graças ao “livre mercado”? Como fica o discurso
do capitalismo sem capital, baseado apenas no “empreendedorismo”? Querem mesmo acreditar que tudo isso foi
sustentado com microcrédito?

Alguém já viu algum desses (neo)liberais exaltando a importância do BNDES? Pelo contrário, é ponto pacífico
entre eles que uma instituição como essa não cabe na sua teoria, já que isso seria defender o “corporativismo”, o
que, na mente deles, não é capitalismo. Pois bem, desde 1948 a Alemanha possui o seu “BNDES”, o KfW Bank
[6], fundado com financiamento dos EUA via Plano Marshall [7][8], o que foi crucial para financiar as atividades
produtivas alemãs (curiosidade: o BNDES fundado no Brasil também é um derivado de um programa que foi
promovido pelos EUA). Assim, mais uma vez, a Alemanha optou por uma política que vai contra os princípios dos
defensores do livre mercado, a qual foi fundamental e indispensável para este país se tornar uma potência
econômica.

Considerações finais

Bem antes do perdão e reestruturação da dívida alemã, a economia então se recuperava graças políticas de
financiamento levando em conta também critérios geopolíticos – orientados pelo plano arquitetado pelo Secretário
de Estado dos EUA George Marshall. Às lideranças do Departamento de Estado dos EUA interessava que o
marco alemão fosse a moeda que daria suporte ao dólar na Europa. Criaram um mercado comum para o carvão e
aço alemães, a Comunidade Europeia do Carvão e Aço [9], unindo Alemanha Ocidental, França, Itália,
Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Desde então a Alemanha passa a ser um país superavitário no comércio
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O ICE, trem de alta velocidade da estatal Deutsche Bahn (DB), na estação central de Colônia. Ao fundo a igreja que se tornou um dos pontos turísticos da
Alemanha, a Kölner Dom, ou Catedral de Colônia.

europeu.

Ou seja, sim, pode-se dizer que o capitalismo funcionou na Alemanha, mas jamais por via do liberalismo
econômico, as reivindicações dos (neo)liberais sobre as conquistas da maior economia da Europa não cabem – e
isso é algo que eles precisam aceitar e refletir a respeito. Ponto.

Mas e a moral da história? A moral


da história é que Economias
Nacionais não são girinos nadando
autonomamente num lago não vivo
onde os que se esforçam mais
viram sapos. Não são átomos,
como na antiga concepção do que
seriam átomos (e cuja atual seria
menos “atomista)”. Estados
Nacionais Modernos, com sua
economia nacional, são elementos
funcionais do Sistema Mundial
Moderno. É intelectualmente
impróprio, caprichoso e infantil uma
ideologia que lhes isola para
analisar.

O correto, o maduro e o apropriado


é começar por analisar como está a
configuração do Sistema Mundial, a
Confira a evolução dos gastos sociais na Alemanha até o fim do século XX
geopolítica e geoeconomia, como
está sua dinâmica, quais são as
atividades-chave por onde e como passam os circuitos e cadeias dela, como está a dinâmica do valor adicionado
por zonas geográficas e qual o papel que podem representar neste todo. Daí examinar um Estado Nacional e a
economia nacional.
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Como se vê, o discurso que explica o desenvolvimento alemão de acordo com a lógica do “laissez faire” não tem
embasamento algum e serve apenas àqueles que insistem em ver Estados e Economias de uma forma simplista.

Referências

1. ⇑ Jubilee Debt Campaign – How Europe cancelled Germany’s debt in 1953


2. ⇑ Revista Espaço Acadêmico – As experiências internacionais de renda mínima na redução da pobreza
3. ⇑ German History, Documents and Images – Revised Plan for Level of Industry in the Anglo-American Zones
4. ⇑ US Inflation Calculator
5. ⇑ DW – A dura vida dos alemães logo depois da guerra
6. ⇑ KfW – Site oficial
7. ⇑ Marshall Foundation – Marshall Plan 1947-1997: A German View
8. ⇑ Reconstruction and West-Integration: The Impact of the Marshall Plan on Germany
9. ⇑ DW – 1951: Criada a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço

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