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Ana Paula Cavallare Ferreira

Jamylle Hanna Mansur

A relação entre Transtorno de Personalidade e os atos delituosos dos internos

do Sistema Penal do Estado do Pará.

Belém – Pará

2002
Ana Paula Cavallare Ferreira
Jamylle Hanna Mansur

A relação entre Transtorno de Personalidade e os atos delituosos


dos internos do Sistema Penal do Estado do Pará.

Trabalho de Graduação apresentado como


parte dos requisitos para a obtenção do
Grau de Bacharel em Psicologia, na
Universidade da Amazônia.
Profa. Ms. Rosana Mendes Éleres de
Figueiredo (orientadora)

Belém – Pará

2002
Ana Paula Cavallare Ferreira

Jamylle Hanna Mansur

A relação entre Transtorno de Personalidade e os atos delituosos dos internos

do Sistema Penal do Estado do Pará.

Trabalho de Graduação orientado pela Profª Ms. Rosana Mendes Éleres de

Figueiredo, apresentado como parte dos requisitos para a obtenção do Grau de

Bacharel em Psicologia.

Banca Examinadora

1 – Maria Eline Pereira

2 – Sandra Brandão de Lima

3 – Rosana Mendes Éleres de Figueiredo

Apresentado em: 29 de Novembro de 2002

Nota:
Dedicamos este trabalho a todos
aqueles que de alguma maneira,
tentam superar as dificuldades
existentes em busca de melhores
condições para a sobrevivência do
outro.
“É necessário haver melhor acesso ao
tratamento para indivíduos com
transtornos; melhores métodos no
sistema de saúde para identificar e tratar
sintomas que possam ser associados
com violência, e poderes maiores para
intervenção. Recursos legais podem não
ser tão efetivos como uma melhora no
sistema de saúde, para prevenir a
violência.”

(Jeremy Coid, Psiquiatra Americano no


British Medical Journal)
AGRADECIMENTOS

Agradecemos a todos aqueles que de alguma forma contribuíram para a construção

desde trabalho, em especial:

A Profa. Ms. Rosana Mendes Éleres, nossa orientadora, pois sem ela com certeza

ficaríamos impossibilitadas de abordar este tema;

Ao Ércio, Chefe de Segurança do Centro de Reabilitação de Americano e aluno do 6°

ano do Curso de Psicologia, pela força que nos têm oferecido desde o ano passado

para realização deste trabalho e por ter aturado tantos telefonemas de desespero,

com muita paciência.

Ao Jair Andrade, psicólogo do Centro de Recuperação de Americano I, por nos ter

dado toda atenção necessária e se disponibilizou a nos ajudar em conseguir os

dados para nossa coleta.

Aos nossos pais, irmãos e familiares pois se não fossem eles, quem iria agüentar o

nosso mau humor na hora que este trabalho nos fez “arrancar os cabelos?”.

Aos nossos colegas de turma, que em várias ocasiões perguntavam sobre o nosso

trabalho e nos davam a apoio.

A Deus, este ser superior, de onde buscamos força, esperança e fé!


ÍNDICE

Dedicatória .......................................................................................................... 4

Epígrafe ............................................................................................................... 5

Agradecimentos ................................................................................................... 6

Índice ................................................................................................................... 7

Resumo ................................................................................................................ 8

Introdução ............................................................................................................ 9

Método ................................................................................................................. 20

Resultados e Discussão ...................................................................................... 21

Referências .......................................................................................................... 26

Anexos ................................................................................................................. 28
Ana Paula Cavallare Ferreira. Jamylle Hanna Mansur. A relação entre Transtorno
de Personalidade e os atos delituosos dos internos do Sistema Penal do Estado
do Pará. Universidade da Amazônia. Belém. Pará. 31 pp.

RESUMO

Este trabalho objetivou relacionar os transtornos mentais apresentados pelas


pessoas que cometem atos delituosos e seus crimes. O motivo de este ter sido o
direcionamento do trabalho é justamente a falta de trabalhos sistematizados para
essa área da psicologia. Grande parte da sociedade não se importa ou não toma
conhecimento da realidade dentro de uma casa penal, e muitas vezes essa realidade
tende a piorar a situação de um preso com algum transtorno mental. Para realizar
esse trabalho, foi feita uma pesquisa documental junto ao Centro de Recuperação
Psiquiátrica de Americano I (CRPA-I), buscando informações de todos os internos
que tivessem sido diagnosticados como “doentes mentais”; relacionando os
transtornos e crimes mais recorrentes. Os resultados indicam que parte dessa
população carcerária praticou homicídio e encontram-se divididos em Esquizofrênicos
(54%) e Psicóticos (18%); 8% dessa população, é também homicida e portadores de
Transtornos Maníacos Depressivos. Conclui-se, preliminarmente, que o sistema penal
no Estado do Pará ainda necessita de grandes ajustes para poder finalmente
trabalhar com presos portadores de transtornos mentais. Sugere-se o
aprofundamento e a continuidade deste estudo, o que seria de utilidade não somente
para a população carcerária, mas também para aqueles que fazem parte do quadro
de funcionários da instituição.

Palavras-chave: Psicologia Jurídica, Transtorno Mental, Casa Penais.


INTRODUÇÃO

Como pode ser observado diariamente nas reportagens, o índice de violência é

cada vez mais alarmante. Guerras, homicídios, estupros, atentados, espancamentos

são alguns exemplos do que presenciamos em nosso dia a dia quando lemos ou

assistimos o noticiário. “A violência assusta mesmo os mais experientes legistas,

policiais e membros de organismos de defesa dos direitos humanos” (CALDEIRA,

2002, p.45).

De acordo com tais relatos, são colocadas questões tais como: “qual o estado

mental das pessoas que cometem atos delituosos, principalmente os ditos

hediondos?”; “será que a punição, discriminação e encarceramento são as melhores

alternativas de reabilitação para essas pessoas?”, “quais os transtornos de

personalidade dos indivíduos internados no sistema penal?”.

Feldman (1977) afirmou que os crimes cometidos por doentes mentais têm

características próprias. Pessoas perturbadas podem cometer um delito com menos

habilidade; planejá-los com menos cuidado, ou escolher objetivos mais difíceis do que

as pessoas estáveis, falhas essas que aumentam o risco de ser descoberto.

Vemos todos os dias nos jornais algo exposto sobre a criminalidade, no entanto

quase não observamos a ênfase no transtorno mental que pode estar por trás de tal

acontecimento. Por outro lado, observa-se que a sociedade como um todo fica

desamparada. Não sabe como agir em uma situação de violência relacionada que

envolva uma pessoa com transtorno mental; fato que está cada vez mais presente em

nosso cotidiano.

De acordo com Kaplan (1997) o termo “personalidade” pode ser definido como

a totalidade dos traços emocionais e comportamentais que caracterizam o indivíduo

na vida cotidiana que, sob condições normais; é relativamente estável e previsível.


Um transtorno da personalidade representa uma variação desses traços de caráter

que vai além da faixa encontrada na maioria dos indivíduos.

De acordo com tal afirmação, pode-se dizer que existem diversos transtornos

de personalidade e cada um tem sua característica própria e uma forma específica de

intervenção. Quando existem casos de transtornos em uma penitenciária, nem

sempre é efetuado o diagnóstico da doença, e os efeitos da prisão acabam por piorar

a situação do doente.

A apresentação desta seção está dividida em 04 tópicos, a saber: 1 -

Psicopatias; 2 - Prisões e Regimes Fechados; 3 - Psicopatia vs. Lei e 4 - A Atuação

do Psicólogo dentro das Prisões.


Psicopatias

Consideramos NORMAL o indivíduo cujo comportamento não esteja incluído

na nosologia psiquiátrica, e que atua harmônica e silenciosamente em sociedade.

ANORMAL será o indivíduo que, desadaptado ao meio, se afasta da norma aceita

pela sociedade. IMPUTÁVEL é o indivíduo capaz de entender os atos que pratica e

INIMPUTÁVEL é a incapacidade de entender o caráter ilícito do fato (COSTA e

PERELLA, 2000).

De acordo com o conceito de anormalidade apresentado ver-se-á algumas

psicopatias e transtornos; descrever-se-á também, os que possuem componentes

agressivos e fazem com que o comportamento ilícito tenha uma maior possibilidade

de ser realizado. Alguns exemplos são: o Distúrbio Bipolar, a Esquizofrenia, o

Transtorno de Personalidade Anti – Social, o Transtorno de Personalidade Paranóide

e o Transtorno da Personalidade Boderline.

Como afirma Davidoff (1983) a pessoa com distúrbio afetivo bipolar tem crise

recorrentes de profunda depressão e mania (euforia e excitação). Durante o episódio

maníaco, os indivíduos parecem em êxtase e com extraordinária auto-confiança, ao

mesmo tempo que se irritam e zangam facilmente. As objeções de amigos e parentes

são vistas como vindas de inimigos ou traidores. Quando zangados, os indivíduos em

estado maníaco tendem a se tornar mais violentos.

Davidoff (1983) afirma ainda que, o psiquiatra suíço Eugen Bleuler introduziu

em 1911 o termo esquizofrenia (do grego, significando “dissociação da mente”) para

caracterizar os pensamentos e emoções fragmentados, por vezes contraditórios, dos

afetados por aquele distúrbio. Embora haja grande variedade de sintomas

esquizofrênicos, qualquer indivíduo rotulado como tal terá alguns dos seguintes

aspectos: alterações na percepção, desordem emocional e do pensamento, delírios e


alucinações, afastamento da realidade e distúrbios na fala. Perante todas essas

características percebe-se que os indivíduos esquizofrênicos possuem grandes

possibilidades de cometer um ato considerado criminoso.

Kaplan (1997) afirma que o transtorno de personalidade anti – social é

caracterizado por atos anti – sociais e criminosos contínuos, mas não é sinônimo de

criminalidade. Em vez disso trata-se de uma incapacidade em adaptar-se às normas

sociais que envolvem muitos aspectos do desenvolvimento adolescente e adulto do

paciente. Nos indivíduos anti – sociais não predomina o remorso, em geral são

pessoas muito sedutoras que tem um alto poder de persuasão.

Varnell (1993), diz que estes indivíduos não são loucos (psicóticos – os que

apresentam delírios e alucinações), no sentido jurídico do termo, muito embora o

círculo dos que convivem com eles os tachem de “loucos”. O autor afirma que estes

indivíduos também denominados psicopatas ou sociopatas, não são psicóticos e nem

deficientes intelectuais, no entanto comportam-se socialmente, de um modo anormal.

“Personalidades psicopáticas são aquelas personalidades anormais que por

causa de sua anormalidade sofrem e fazem sofrer aos demais, à sociedade”.

(SCHINEIDER, citado por VARNELL,1993, p.14).

É pertinente enfatizar que estes indivíduos não devem ser comparados, como

tendo personalidade Dissocial, na qual segundo Varnell (1993), são indivíduos que

sob influência ou pressão, eventual ou contínua, dos fatores criminógenos ou fatores

condicionadores da criminalidade, endógenos e/ou exógenos (meio físico, meio social

geral, meio pessoal) passa apresentar dificuldade e desajustes contra a ordem social

estabelecida.

Mackinnon & Michels (1992) relatam que no transtorno de personalidade

paranóide, o paranóico vê a si próprio como o centro do universo e considera os


acontecimentos em termos do peso que causam sobre si. Todas as ações, atitudes e

sentimentos alheios são por ele percebidos e a eles reage, na medida em que se

relacionam consigo mesmo. Falta ao paciente paranóico a consciência de seus

próprios impulsos agressivos. Teme pelo contrário, ser atacado ou tratado

injustamente pelos demais, a quem considera irresponsáveis e indignos de confiança,

justificando, desse modo, sua própria conduta secreta e isolada. O paranóico

consome-se em cólera e hostilidade, é incapaz de aceitar ou enfrentar a

responsabilidade por essa ira, projeta nos outros seu ressentimento e sua cólera.

De acordo com Kaplan (1997) os indivíduos com transtorno de personalidade

boderline quase sempre parecem estar em crise. As oscilações de humor são

comuns, podem mostrar-se briguentos num momento, deprimidos noutro ou, ainda,

queixarem-se de não sentirem coisa alguma.


Prisões e Regimes Fechados

Ver-se-á agora como as prisões e os regimes fechados influenciam no

comportamento desviante e quais seus agravantes.

Foucault (citado por CAMARGO , 1984), afirmou que a história da prisão é ao

mesmo tempo, a história de sua reforma. As prisões vêm se reformulando com o

passar dos anos; elas deixaram de infringir penas punitivas de tortura e adotaram o

regime fechado de encarceramento. Embora ainda existam as próprias leis dentro das

prisões onde os presos estão a mercê de uns aos outros e de seus carcereiros.

Discute-se muito o fato de que o encarceramento pode levar a uma maior

probabilidade de reincidência do crime. Quando o preso é mantido em um regime

fechado avaliam-se diversas variáveis como, por exemplo, as crueldades a que ele é

submetido tanto pelos agentes penitenciários como pelos outros prisioneiros, a

própria convivência com os mais diferenciados tipos de criminosos, o tempo que ele é

mantido afastado do convívio com a sociedade, dentre outros fatores.

Essas conseqüências nocivas do encarceramento trazem prejuízos não

somente aos delinqüentes, mas também para a sociedade de uma maneira geral.

Segundo Davidoff (1983), uma pesquisa realizada nos EUA afirmou que cerca de 30

a 80% de ex-detentos reincidem em seus delitos e são postos novamente em regime

fechado.

Hoje em dia, existem diferentes formas de punição que não necessariamente

implicam no regime fechado. Camargo (1984) ressalta que surgem formas

alternativas à prisão, dentre elas se destacam: as multas, pena de trabalho

compulsório, liberdade assistida, suspensão da sentença etc. Para Feldman (1977), o

sistema penal vigente vem discutindo propostas alternativas às prisões.


Davidoff (1983) também prevê alternativas para o encarceramento, tais como:

a prevenção de crimes e reabilitação com o apoio da comunidade. No primeiro, é

apresentada uma reforma social para erradicar a criminalidade. No segundo caso,

seria realizada intervenção junto aos presidiários, buscando a aquisição de novas

habilidades, profissões e conhecimentos, dispondo alternativas de enfrentamento da

realidade, quando houver sua liberação do sistema carcerário.


Psicopatia vs. Lei

Como afirmaram Costa e Perella (2000), a capacidade civil é a situação jurídica

em que a pessoa física tem condições próprias de administrar os atos da vida civil.

Ela adquire esta capacidade ordinariamente aos 21 anos e excepcionalmente nos

casos mencionados no art. 9o do Código Civil onde a pessoa física pode emancipar-

se se:

a) Já tendo pelo menos 18 anos, se o pais lhe concederem a

emancipação.

b) Se casar.

c) Se entrar para um emprego público efetivo.

d) Se colar grau em uma faculdade.

e) Se montar um estabelecimento comercial (ou civil), com suas próprias

economias.

De acordo com Rodrigues (1999) a capacidade de direito está no art. 2o do

Código Civil. Já os artigos 5o e 6o, descrevem a capacidade de fato – que é aquela

exige discernimento e consciência – para praticar os atos jurídicos; dividindo-a em

absolutamente incapaz (art. 5º) e relativamente incapaz (art. 6º).

Noronha (1998), faz as seguintes atribuições ao Código Penal e suas

respectivas atualizações:

O Código Penal de 1830 em seu art.2º referia: “São irresponsáveis os

loucos que não tiverem intervalos lúcidos”.

O Código Penal de 1890 em seu art.127 considerava que:

“Não são criminosos”:

2o. – Os maiores de 9 e menores de 14 que obrarem discernimento.


3° - Os que imbecilidade nativa ou enfraquecimento senil, forem absolutamente

incapazes de Imputação.

4° - Os que se acharem em estado de completo, privação de sentidos e de

Inteligência no ato de cometer o crime”.

O Código Penal Brasileiro, de 1940 em seu art. 26, caput diz:

“É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental

incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou omissão, inteiramente incapaz de

entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse

entendimento”.

§ único: “A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, em

virtude de perturbação de saúde mental ou de desenvolvimento mental incompleto ou

retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou

determinar-se de acordo com esse entendimento”.

A lei 7.209/84 submeteu o Código Penal de 1940 às seguintes alterações:

Art. 26 – É isento de pena o agente que, por doença mental ou

desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era ao tempo da ação ou da

omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-

se de acordo com esse entendimento.

§ único: “A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, em

virtude de perturbação de saúde mental ou de desenvolvimento mental incompleto ou

retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito do fato ou

determinar-se de acordo com esse entendimento”.

Art. 2º do C. Civil: “Todo homem é capaz de direitos e obrigações na ordem

civil”.

Art. 5º CC: “São absolutamente incapazes de exercer os atos da vida civil”:


I – os menores de 16 (dezesseis) anos;

II – os loucos de todo gênero;

III – os surdos-mudos, que não puderem exprimir sua vontade;

IV – os ausentes, declarados tais por ato do juiz.

Art. 6º – São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os

exercer:

I – os maiores de 16 (dezesseis) anos e os menores de 21 (vinte e um anos);

II – os pródigos;

III – os silvícolas.

Percebe-se que a lei se faz presente perante a situação do doente mental, no

entanto, o estigmatiza chamando-o de “louco de todo gênero”, o que faz aumentar o

preconceito diante dessas pessoas.

Observa-se também que a lei não estabelece um tratamento específico para

essas pessoas, o que faz com que o doente não tenha o tratamento adequado

ficando a mercê a situação carcerária para o qual foi encaminhado.

Mesmo no Plano Nacional de Segurança Pública adotado pela Medida

Provisória n.º 2.029 de 20.6.2000, mencionado por Buzaglo (2001), ver-se ênfase no

tratamento do doente mental, no entanto de uma forma inexpressiva, é dito pelo

autor:

Doentes: estende os mecanismos de progressão de pena aos criminosos

inimputáveis. Os doentes mentais, por exemplo, passam a ter direito a saídas

temporárias. Se a cura evoluir, passam para tratamento ambulatorial em substituição

ao internato em manicômio.
Atuação do Psicólogo dentro das Prisões

O psicólogo, como profissional de saúde, deve empregar seus conhecimentos

de Psicologia na promoção de condições satisfatórias de vida, na sociedade em que

vive e trabalha. Ou seja, na sociedade em que está comprometido como cidadão e

profissional (BOCK, FURTADO & TEIXEIRA, 1998).

O psicólogo especificamente dentro das prisões, de acordo com o Conselho

Federal de Psicologia (1999), exerce determinadas funções das quais descreveremos

abaixo:

- O psicólogo atua no âmbito da justiça, colaborando no

planejamento e execução de políticas de cidadania, direitos humanos e

prevenção da violência, centrando sua atuação na orientação do dado

psicológico repassado não só para os juristas como também aos

indivíduos que carecem de tal intervenção, para possibilitar a avaliação

das características de personalidade e fornecer subsídios ao processo

judicial.

- Orienta a administração e os colegiados do sistema

penitenciário sob ponto de vista psicológico, usando métodos e técnicas

adequados, para estabelecer tarefas educativas e profissionais que os

internos possam exercer nos estabelecimentos penais.

- Realizam avaliação das características das personalidades,

através de triagem psicológica, avaliação de periculosidade e outros

exames psicológicos no sistema penitenciário, para os casos de pedidos

de benefícios, tais como transferência para estabelecimento semi –

aberto, livramento condicional e/ou outros semelhantes.


Dentre as inúmeras aptidões que o psicólogo se envolve na área judicial têm,

as três descritas acima, como as principais para os que estão envolvidos diretamente

no sistema penitenciário.

Diante de tudo que se foi exposto, a problemática do trabalho vai se

concentrar em abordar a relação entre os crimes cometidos por doentes mentais, e

os transtornos de personalidade apresentados pelos mesmos. Ou seja, tentaremos

identificar/relacionar se os detentos que obtiveram os mesmos diagnósticos, tendem a

cometer os mesmos tipos de crimes.


MÉTODO

• Local: Centro de Recuperação Psiquiátrica de Americano – I (CRPA-I)

• Procedimentos:

1a. etapa:

Solicitamos autorização ao Sistema Penal com Protocolo de Pesquisa, encaminhado

com o ofício da UNAMA.

2a etapa

Mapeamos as casas penais a fim de identificar onde localizava-se a população-alvo;

3a. etapa

Houve levantamento das informações propriamente ditas, descritas em folha de

registro própria (ver relação em anexo);

4a. etapa

Estabelecemos categorias de análise;

5a. etapa

Foi realizada a análise dos dados coletados;

6a. etapa

Devolução das informações ao sistema penal.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

Conforme os dados repassados pelo Centro de Recuperação Psiquiátrica de

Americano, demonstra-se no Gráfico 1 uma amostra de 56% da população carcerária

portadores de transtornos mentais.

8% Esquizofrenia -
10% art.121
Psicose - art.121

10% Esquizofrenia -
54% art.157
Psicose - art.157

18% PMD - art.121

Gráfico 1: Percentual de internos portadores de Transtorno Mental,

pertencentes ao CRPA-I

Percebe-se que mais da metade dos detentos (54%), foram diagnosticados

como sendo esquizofrênicos e a infração cometida foi homicídio (art.121), 10%

também esquizofrênicos cometeram latrocínio (art.157 §3°), 18% considerados

psicóticos cometeram homicídio (art.121), e 10% com este mesmo diagnóstico

cometeram latrocínio (art.157 §3°), 8% foram diagnosticados com psicose maníaco

depressiva, sendo que, todos cometeram homicídio (art.121).


De acordo com os dados obtidos, constatou-se que 64% da população

analisada são portadores de esquizofrenia, havendo uma variação na incidência de

delitos, entre latrocínio e homicídio, estando este último mais presente; fato similar

ocorre também com os diagnosticados psicóticos, onde 28% da população com este

distúrbio cometeram os mesmo delitos que os esquizofrênicos, sendo maior incidente

também os casos de homicídio; este também predominou totalmente sobre os 8%

restantes diagnosticados com psicose maníaco depressiva.

Com esses dados verifica-se que a maior incidência de infração cometida é o

homicídio e em segundo lugar latrocínio. Isso leva-nos a conjecturar que quando

essas pessoas não recebem o tratamento adequado, representam grande perigo

para a sociedade.

O objetivo do trabalho foi alcançado, na medida que foi realizada a relação

entre os transtornos mentais que acometem os presidiários e seus crimes cometidos.

No entanto, vale ratificar que a obtenção dos dados foi dificultada através da grande

burocracia existente dentro do sistema penal, dados estes que como se pode

perceber não estão de acordo com a bibliografia consultada.

A literatura aponta que tanto a Esquizofrenia como a Psicose Maníaco

Depressiva ou Transtorno Bipolar, são um tipo de psicose ou Transtorno de

Personalidade, no entanto, verificou-se nos dados repassados que isso não é

diferenciado, ou seja, existem pessoas diagnosticadas como Psicóticas,

Esquizofrênicas e Bipolar, quando na verdade, a primeira não pode ser dissociada

dessas duas últimas patologias, o que nos leva a crer que o diagnóstico desses

detentos não esteja sendo formulado de maneira adequada. Não podemos afirmar

então, se eles estão ao menos recebendo o tratamento específico para a sua doença.
Se tivéssemos que recomeçar este trabalho, começaríamos fazendo contato

com o Centro de Recuperação de Americano desde o início do projeto, para que

pudéssemos enriquecer o trabalho com experiências vivenciais, e assim poder

verificar com mais afinco como os diagnósticos são formulados e como se dá a

triagem dos presos, que deve ser obrigatoriamente realizada pelo psicólogo. A

antítese existente entre o diagnóstico do preso e seu real estado, merece uma

atenção especial.

Em visita feita para solicitação de dados, tivemos a oportunidade de conhecer

a estrutura de atendimento ao detento e o que foi percebido, é que a situação é

totalmente irregular, principalmente no quesito sigilo, posto que, não existe

privacidade quanto ao atendimento; o que nos faz levantar a hipótese de que essa

seria uma variável para um diagnóstico incompatível com a real situação existente.

No Código de Ética do Psicólogo, constam nove artigos relacionados ao quesito

sigilo, e pelo que foi visto na instituição visitada, nenhum desses artigos vem sendo

devidamente respeitados.

O artigo 23 do Código de Ética do Psicólogo diz: “Se o atendimento for

realizado por Psicólogo vinculado a trabalho multiprofissional numa clínica, empresa

ou instituição ou a pedido de outrem, só poderão ser dadas informações a quem as

solicitou, a critério do profissional, dentro dos limites do estritamente necessário aos

fins a que se destinou o exame”.

Nesse artigo, ainda consta o primeiro parágrafo que expõe que nos casos de

realização de perícia, por exemplo, o Psicólogo deverá relatar apenas o que diz

respeito ao caso do indivíduo.

Existem vários outros artigos que poderiam ser citados como o artigo 1º, que

fala das condições de trabalho do Psicólogo, que devem estar condizentes com os
“princípios e técnicas reconhecidas pela ciência, pela prática e pela ética profissional”

(CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 1999).

Segundo o Conselho Federal de Psicologia (1999), uma das funções do

psicólogo dentro da casa penal é fazer uma triagem psicológica assim que o apenado

chega. Como o atendimento é feito de uma forma tão precária, ficamos a imaginar se

essa triagem é realmente feita de uma forma coerente, que não vá prejudicar o preso

de alguma forma.

Peter Marzuk, psiquiatra americano, em uma entrevista ao “Archives of General

Psychiatry” (Arquivos Gerais de Psiquiatria) disse que na última década, as

evidências mostrando um elo entre violência, crime, e transtornos mentais têm

crescido. Ele ainda acrescentou que essa evidência não deve ser dispensada, e muito

menos ignorada.

Acreditamos que este trabalho tem muito a contribuir para a comunidade

acadêmica, pois quando fizemos o levantamento bibliográfico no acervo de periódicos

da Universidade da Amazônia, não encontramos nenhum trabalho que explicitasse tal

assunto. Isso nos causou angústia no início da nossa pesquisa, pois sabíamos da

dificuldade que passaríamos para estabelecer nossa referência bibliográfica. Porém,

ao mesmo tempo, isso também nos instigou a buscar o desconhecido e começar a

explorar uma área da psicologia, que é tão pouco discutida no meio acadêmico, a

Psicologia Jurídica.

Com isso, esperamos que o nosso trabalho tenha sido apenas o primeiro

passo de uma longa caminhada; que pesquisas mais aprimoradas sejam feitas, para

que essa população que vive aprisionada possa ter um tratamento diferencial.

Gostaríamos de ver a teoria sendo colocada em prática, e para que isso ocorra é
necessário muito trabalho, dedicação e ética por parte dos profissionais que estão se

formando e pelos que tem interesse em atuar na área.

Vale enfatizar que o sistema jurídico não é só carente de psicólogos, existe

necessidade de advogados que prestem assistência a essas pessoas, de assistentes

sociais, terapeutas ocupacionais, psiquiatras, enfim, de todas os profissionais que de

alguma forma possam humanizar o tratamento direcionado a essas pessoas e suas

famílias, que muita das vezes ficam desorientadas diante da situação, sem auxílio e

sem amparo.

Concluímos que o Centro de Recuperação Psiquiátrica de Americano, precisa

de muito apoio para que possa atender de forma humanizada as necessidades da

população que assistem, e que treinamentos e cursos devem ser periodicamente

proporcionados ao corpo técnico. Somente assim, acreditamos que esses

profissionais, que já atuam na área, poderão se capacitar para diagnosticar e atender

corretamente esses doentes mentais. Os que pretendem atuar, podem desde já

pesquisar e estudar para que só venham a contribuir nesta nova área da psicologia

que vem a surgir no Pará, a Psicologia Jurídica.


REFERÊNCIAS

• BOCK, A. M. B., Furtado, O., TEIXEIRA, M. L. T. Psicologias – Uma


Introdução ao estudo de Psicologia. 11ª ed. São Paulo: Saraiva, 1998, p.
154.
• BUZAGLO, S. Violência e Criminalidade – Plano Nacional de Segurança
Pública. Carta mensal, Rio de Janeiro, v. 46, n.552, p.32-54, mar. 2001.
• CALDEIRA, T. P. R. Violência, Direitos e Cidadania: Relações Paradoxais.
Ciência e Cultura, São Paulo, ano 54, n.1, p.44-6, jul. ago. set. 2002.
• CAMARGO, M. S. de, Terapia Penal e Sociedade. Campinas: Papirus. 1984.
• CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Psicologia – Legislação. n.º 8.
1999.
• COSTA, F. E., PERELLA, M. Psicopatologia Forense. Caderno UNIABC de
Direito, Universidade do Grande ABC, 17, Julho 2000.
• DAVIDOFF, L. L. Introdução à Psicologia. trad. Simões, Auriphebo Derrance
& Lustosa, Maria da Graça. Rio de Janeiro: McGraw – Hill do Brasil, 1983.
• FELDMAN, M. P. Comportamento Criminoso – Uma Análise Psicológica.
Trad. Aurea Weissenberg. Rio de Janeiro: Zahor, 1979.
• KAPLAN, H. I., SADOCK, B. J., GREBB J. A., Compêndio de psiquiatria:
Ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Trad. Dayse Batista. 7a
ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
• MACKINNON, R. A, MICHELS, R., A entrevista psiquiátrica na prática
diária. Trad. Helena Mascarenhas de Souza. 5a ed. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1992.
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• NORONHA, E. M. Direito Penal. 33a ed. São Paulo, v.1, Saraiva, 1998.
• RODRIGUES, S. Direito Civil. 29a ed. São Paulo, v.1, Saraiva, 1999.
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José do Rio Preto, v.3, p. 13-22, 1993.