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A PESQUISA EM SEMIÓTICA*

Lucia Teixeira (UFF)

As anedotas que animam a vida acadêmica são ilustrativas tanto da mitologia


cotidiana que alimenta a fama de seus personagens quanto da inspiração fortuita que
pode estar na origem e no desenvolvimento de teorias. Sirvo-me de uma história
contada por François Dosse em sua História do estruturalismo para introduzir aqui uma
breve apresentação da teoria semiótica:

É preciso chegar às portas do Oriente, a Alexandria, para encontrar um dos


polos essenciais na definição do paradigma estruturalista. É aí que se
encontra um importante linguista, Algirdas Julien Greimas [...]. Em 1949,
Greimas torna-se leitor em Alexandria. […] Foi em Alexandria que teve
lugar um encontro decisivo, prenunciador também de uma grande
cumplicidade e amizade entre Greimas e aquele que vai se tornar vedete do
estruturalismo: Roland Barthes. Foi aí que Greimas aconselhou Barthes, que
chegara ao mesmo tempo ao Egito, a ler Saussure e Hjelmslev... Por seu
lado, Barthes faz Greimas ler o começo do que virá a ser o Michelet par lui-
même.
– Está muito bem – comentou Greimas –, mas você poderia utilizar
Saussure.
– Quem é Saussure? – perguntou Barthes.
– Mas é impossível não conhecer Saussure! – respondeu o outro
peremptório. (Dosse 1994, pp. 91-92)

Se a anedota promove o acerto histórico de unir dois herdeiros da semiologia


saussureana em relação de amizade e confiança, serve também para prenunciar as
divergências que teriam a partir do retorno à França. Barthes, indo do objeto à teoria, e
Greimas, introduzindo a teoria como ponto de partida da reflexão sobre o objeto,
indicam dois caminhos possíveis da pesquisa, além de ilustrar a diferença entre dois
temperamentos. Barthes será a “vedete” e talvez por isso mesmo sua herança esteja hoje
mais dispersa e pouco institucionalizada. Já Greimas, com a disciplina de sua reflexão,
cuida de constituir, nos seminários que coordenará na École de Hautes Études em
Sciences Sociales, um grupo de pesquisadores que dará continuidade e consistência à
definição teórica da semiótica. Pela intervenção desses seguidores, a teoria encaminha-

* Texto publicado no livro Ciências da linguagem: o fazer científico. Vol. 2. 1ª ed. Organizado por Adair
Vieira Gonçalves e Marcos Lúcio de Sousa Góis. Campinas: Mercado de Letras, 2014 (p. 223-248).

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se hoje para uma proposta que agrega as instabilidades dos discursos às sistematizações
da descrição. Por isso mesmo, embora considerando o papel fundador de Greimas, mas
percebendo a necessidade de avançar que o mestre lituano sempre indicara, os
semioticistas hoje preferem o rótulo semiótica discursiva, que assinala a preocupação
com os discursos de modo geral, ao marcado “semiótica greimasiana”, que cultua o
fundador, correndo o risco de submeter a teoria ao peso da marca estruturalista de sua
origem.
Nos anos 60, o estruturalismo se afirma como teoria-fonte para várias ciências e
Barthes vai procurar Lévi-Strauss, pedindo-lhe que o oriente na tese sobre moda que
pretendia desenvolver. O antropólogo recusa a orientação, mas aconselha Barthes a ler
Propp, o que ele fará, junto com Greimas. Os dois liam juntos e separavam seus
caminhos exatamente no modo de ler e compreender os mesmos textos. Se Saussure
propunha a criação de uma disciplina chamada Semiologia que estudaria “a vida dos
signos no seio da vida social”, Barthes, com seu apreço quase mitológico pela palavra,
compreenderá que a semiologia fará parte da linguística, todas as linguagens estando
submetidas à linguagem verbal e sua primazia na comunicação e formação do
pensamento humano. Já Greimas adere à tese saussureana por meio da elaboração de
uma teoria que, ao mesmo tempo, considera a particularidade de cada linguagem e
institui uma metodologia geral de análise de qualquer manifestação significante tomada
como texto.
Em 1966 Greimas publica a Semântica estrutural, livro denso e inovador, que
pretendia lançar as bases de uma semântica de rigor estruturalista, já considerando a
precedência do texto na definição do sentido da palavra. Em 1967 Barthes publica O
sistema da moda, em que trata do discurso sobre a moda e não da moda propriamente,
em clara tendência que o autor só acentuará ao longo de sua fértil e bela produção.
Creio que aqui podemos marcar a separação dos dois teóricos: Barthes vai em busca da
escritura e Greimas, em busca da formalização. Um procura a si mesmo na palavra e
subverte a linguagem científica, o outro procura Hjelmslev e dá corpo a uma teoria.
Anne Hénault, ao fazer a história da semiótica, observa que a concepção da
língua como “interpretante universal” pode ser considerada como

o ponto de origem, a bifurcação que devia abrir uma clivagem no campo da


semiótica europeia entre, de um lado, a semiologia que, na sequência de
Jakobson e de R. Barthes, adotava essa interpretação “linguística” do

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semiótico, e, de outro, a semiótica, que optou por examinar, uma por uma, as
diversas semióticas não-verbais, sem a intenção de tratá-las metaforicamente
como espécies de linguísticas.” (Hénault 2006, p. 77)

Tomando a concepção de Hjelmslev de que uma linguagem se constitui pela


existência de dois planos, um do conteúdo e um da expressão, distintos e não-conformes
um ao outro, a semiótica define como objetivo epistemológico a tarefa de “deslocar o
esforço de pesquisa das estruturas superficiais, frásticas e interfrásticas que constituem o
objeto da linguística propriamente dita para as estruturas transfrásticas, que
assegurariam, em um nível mais profundo, a coerência do discurso” (Hénault, 2006, p.
77). Percebendo já a impossibilidade de tratar da língua ou das linguagens como
sistemas previsíveis, a semiótica reconhece que o discurso é regido por todas as espécies
de regras lógico-semânticas que escapam ao quadro formal da frase. Assim, de 1966 a
1979, segundo a proposta de divisão histórica de Hénault, passam a ser estudados todos
os tipos de discurso (jurídico, da culinária, da pintura etc) e se define o primeiro modelo
metodológico de análise.
A publicação do Dicionário de Semiótica, em 1979, concretiza o enorme esforço
de formalização da teoria. Não há, no entanto, linearidade ou progressão no avanço da
ciência e do conhecimento. Os resultados e conclusões são sempre provisórios,
mutáveis, submetidos que estão à insatisfação dos pesquisadores e aos apelos de novos
objetos e desafios. Ao mesmo tempo em que eram fixados termos e conceitos,
estabilizando-se um modelo metodológico canônico, o avanço real da pesquisa indicava
lacunas e propunha novas formulações. Greimas começava a trabalhar sobre as paixões,
mais adiante tema do livro que escreverá com Fontanille, e já apareciam os estudos de
Zilberberg sobre a tensividade e a foria, base das mais inquietantes transformações do
modelo. O ponto de crise ou de virada teórica é o reconhecimento de que o movimento
dos sentidos não podia mais ser explicado por meio de uma concepção discretizante,
que operava com descontinuidades sobre uma extensão contínua. Seria preciso proceder
à “assimilação perceptiva do sentido vivido que, no próprio seio da língua, gerava
fenômenos fluidos e contínuos” (Hénault 2006, p. 147). Oposições categóricas e
binarismos cedem lugar a gradações e à ideia de fluxo e trabalha-se sobre uma nova
questão: “O que seria um contínuo analisável?” (Hénault 2006, p. 149)
Dura aproximadamente 20 anos esse atrito entre uma concepção mais clássica
que acabara de se formalizar e as inquietações geradas nas análises e transformadas em

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questões e conceitos que incorporavam definitivamente para a teoria noções como
instabilidade, contínuo e devir. Alarga-se o campo de ação da semiótica, que acolhe para
investigação objetos como os textos sincréticos, constituídos da articulação de mais de
uma linguagem sob um único efeito de enunciação, a vida cotidiana, as interações
propostas pela cibercultura, os espaços urbanos, as redes sociais etc.
Neste artigo, os dois momentos de definição paradigmática da teoria são
apresentados em linhas gerais, discute-se a noção de corpus como fundamento da
seleção de objetos de análise e sugerem-se, na conclusão, alguns caminhos para a
pesquisa contemporânea.

O percurso gerativo de sentido

Seria conveniente começar a falar do primeiro modelo levando em conta as


restrições que a ele são feitas. Aliás, não se pode hoje fazer semiótica sem considerar as
lacunas e insuficiências que impulsionaram a teoria na direção de suas preocupações
atuais. É verdade que muitas dessas restrições devem-se a uma incompreensão das
propostas fundadoras. Assim, ao interpretar como um reducionismo a formulação de
Greimas – “Fora do texto não há salvação” – a crítica apressada não deu atenção à
concepção de texto que está em sua origem. É Jean-Marie Floch quem vai explicar com
sabedoria o sentido dessa postulação:

“Fora do texto não há salvação” é a fórmula greimasiana que deve ser


tomada como a divisa dos semioticistas e que significa:
1. a semiótica é, antes de tudo, uma relação concreta com o sentido, uma atenção dada a
tudo o que tenha sentido;
2. os objetos de sentido são as únicas realidades de que se ocupa e de que quer ocupar-se a
semiótica;
3. o contexto no qual se inscrevem os objetos de sentido (o famoso “contexto de
comunicação”) será considerado a partir do momento em que ele mesmo for abordado
como um objeto de sentido, um texto.
(...)
A semiótica se define pelo domínio de investigação que é o seu: as
linguagens – todas as linguagens – e as práticas significantes, que são
essencialmente práticas sociais. (Floch 1990, pp.3-4).

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A concepção de texto como unidade de sentido constituída de um plano do
conteúdo e um plano de expressão está na base da semiótica e o primeiro modelo
proposto pela teoria vai tratar da geração do sentido num texto como um percurso
constituído de três patamares. Ao estudar o percurso de geração do sentido dos textos, a
semiótica quer refletir, afinal, sobre o modo humano de existir na linguagem. Como se
procurasse dar conta da origem de um homem que fala ou que se expressa por meio de
diferentes linguagens, a semiótica pensa na percepção de diferenças como forma
primeira de atribuir sentido. Diante do caos inaugural, o homem separa seu próprio
corpo da terra em que se firma, opondo a horizontalidade (da terra) à verticalidade (do
corpo) e diz eu, diferenciando-se do outro e afirmando-se como sujeito que se
movimenta em busca de sentidos. A pretensão da semiótica – que me parece ser a sua
grande beleza teórica – é construir um modelo capaz de prever uma gramática das
relações entre sujeitos e entre sujeitos e objetos, manifestando-se nos textos como
representação do fazer do homem no mundo. Ainda que a tarefa seja inalcançável, é sua
formulação que mobiliza as pesquisas e os pesquisadores, tocados pelas ideias de
completude e seu oposto necessário, a insuficiência, parâmetros de ação de toda ciência.
Diante da necessidade de um modelo universal e ao mesmo tempo adequado às
qualidades materiais de toda linguagem, a semiótica propõe um simulacro metodológico
das etapas de produção de sentido de um texto como modelo de análise, de modo a que
se reconstituam, na análise, as etapas de produção. O percurso gerativo do sentido
abrange três níveis: o primeiro é o fundamental, em que se identifica a oposição
mínima, geral e abrangente a partir da qual o texto se desenvolve; a entrada em cena de
um sujeito que passará por uma transformação de estado caracteriza o nível narrativo;
no terceiro nível, o discursivo, projetam-se as categorias de pessoa, tempo e espaço e
preenchem-se semanticamente os conteúdos narrativos abstratos com temas e figuras.
Cada nível complexifica o anterior, de modo a que as sobreposições de elementos,
categorias e relações seja capaz de dar conta da riqueza estrutural e significativa do
texto.
As oposições fundamentais, do tipo natureza versus (vs.) cultura, vida vs. morte,
interioridade vs. exterioridade, estão na base de construção do sentido de um texto. A
identificação das oposições fundamentais é um exercício de organização da leitura: a
busca de repetições, reiterações e regularidades aponta para os campos semânticos
desenvolvidos no texto, cujos sentidos serão depreendidos pelas oposições que

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estabelecerem. Não se trata aqui, como afirmam os críticos, de reduzir o texto a um
modelo binário de oposições. O quadrado semiótico, que concretiza as relações entre
contrários e subcontrários, definidos a partir da oposição de base, sempre teve uma
espécie de “alma” dinâmica pouco explorada. Floch o definia como “uma pequena
dramaturgia” (Floch 1990, p.27). O teórico Frederic Jameson alertava para seu caráter
de previsibilidade. Mapeiam-se ali, segundo o teórico americano, “os limites de uma
consciência ideológica específica (...), além dos quais essa consciência não pode ir, e
entre os quais está condenada a oscilar” (Jameson 1992, p.43). A limitação, portanto,
não está no modelo, mas no alcance dos sentidos possíveis num determinado momento
histórico, muitas vezes tornados fixos e imutáveis em descrições mecanicistas e
interpretações sem brilho. Toda análise que estiver preocupada apenas em aplicar um
modelo ou exemplificar um esquema estará fadada ao reducionismo e ao didatismo. As
boas análises são aquelas que ultrapassam, pela reflexão crítica e as articulações teóricas
bem construídas, a mera submissão de um texto a um modelo, com seus termos, tabelas,
nomenclaturas e esquemas, para chegar aos limites próprios à interpretação.
Exemplifiquemos a partir de um texto tão simples quanto econômico. No
provérbio “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, tomado como um texto
(uma unidade de sentido), identificam-se oposições superficiais figurativas entre água e
pedra, mole e dura, que podem ser subsumidas por uma oposição temática entre
porosidade e rigidez, concretização discursiva de uma oposição fundamental entre
dinamicidade e estaticidade. Essa categoria fundamental organiza a construção do
sentido, fornece as bases de determinação dos limites da leitura e interpretação, bem
como de suas possíveis expansões. Na análise semiótica, as oposições mais superficiais
e explícitas referem-se a uma oposição de base, que organiza o sentido do texto e de
muitos outros textos que operem sobre esse mínimo de sentido.
No nível narrativo, consideram-se as mudanças de estado. Um personagem está
feliz com seu amor, portanto, em estado inicial de conjunção com a felicidade e termina
sendo abandonado, passando a um estado final de disjunção com a felicidade. Uma
paisagem está despoluída, logo, em estado inicial de disjunção com a poluição, mas a
ação de uma fábrica faz com que se torne suja e enfumaçada e então a paisagem atinge
um estado final de conjunção com a poluição. A noção de transformação se expande
para a ideia de mudança no tempo e, às vezes, no espaço. Na narrativa, há sempre um
sujeito (uma pessoa, uma paisagem, um grupo, um animal etc) em busca de

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determinados valores: a felicidade, a vida saudável, o conforto etc. A narrativa
desenrola-se no percurso de busca desses valores.
No provérbio, tomado como ensinamento, proposta de ação, sugere-se a
transformação da passividade em determinação: um sujeito (água) age sobre outro
(pedra) e o transforma de coisa dura, impenetrável, em algo que se pode atravessar,
perfurar. Os sujeitos pressupostos em uma narrativa mais concreta e geral serão aqueles
capazes de intervir na realidade, modalizados por um querer iterativo, insistente, que
resultará num poder transformador. Trata-se da paixão da perseverança, contínua e
átona, alterando a relação do sujeito com os objetos do mundo. O conceito de paixão,
formulado como sobreposição ou combinação de modalidades (poder+não dever; não
querer+dever; saber+não poder etc), é o primeiro indicador de que a instabilidade se
incorpora à análise. Os esquemas narrativos fixos, constituídos de etapas previsíveis
(manipulação, competência, performance e sanção) se submetem à força da paixão, que
pode ser tônica e pontual, como a vingança ou a cólera, ou átona e continuada, como a
perseverança ou o ressentimento. Os sujeitos, então, não são mais descritos apenas pelos
fazeres transformadores que realizam, mas também pelo modo de agir, pelas inflexões
do seu ser diante do mundo. Esse movimento narrativo se assenta na interação dos
sujeitos a partir de determinados valores em circulação, considerados como as
referências abstratas em que se crê, os conceitos que dão sentido às ações do homem no
mundo. Os valores da insistência, da paciência, da determinação regem as ações da água
que bate continuamente sobre a pedra, do professor que não desiste do aluno desatento,
da mãe que repete o sermão para o filho desobediente. Cada texto concretiza de modo
diferente os esquemas de previsibilidade do nível semionarrativo, que abrange os dois
primeiros patamares de produção do sentido.
Já no nível discursivo, mais superficial e concreto, as possibilidades são menos
gerais e abrangentes. Trabalha-se aqui com categorias determinadas, mas com a
possibilidade de que sejam preenchidas por manifestações de um repertório mais aberto
e incontrolável. A sintaxe discursiva tratará das relações entre enunciador e
enunciatário, concretizadas nas projeções de pessoa, tempo e espaço, e a semântica
discursiva analisará os temas, elementos abstratos e conceituais do discurso, e as
figuras, elementos concretos, definidos por uma relação sensorial com o mundo.
Na instância da enunciação, enunciador e enunciatário, constituintes do sujeito
da enunciação, operam a interação que se concretiza, no discurso, em actantes

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particulares, como narrador e narratário, correspondentes ao destinador e destinatário
explicitamente instalados no enunciado, e interlocutor e interlocutário, que são os
actantes do enunciado com voz delegada pelo narrador. O jogo de vozes é elemento
importante para compreender não só os diferentes pontos de vista confrontados no
discurso mas também a presença da subjetividade no enunciado, que ultrapassa a
projeção em 1ª pessoa, do mesmo modo que a projeção da 3ª pessoa não assegura a
objetividade do discurso. É também por meio desse jogo de vozes que se opera a
argumentação, tratada pela semiótica como um programa de manipulação, em que um
destinador age sobre um destinatário, para convencê-lo e persuadi-lo a fazer algo ou a
crer em alguma coisa.
Um programa de manipulação não se reduz ao sentido corrente da palavra, muito
gasta em tempos de juízos simplificados, concretizados, por exemplo, em pesquisas de
opinião ligeiras, do tipo “a televisão manipula o comportamento das pessoas?”, “a
propaganda eleitoral é capaz de manipular a vontade do eleitor?” etc. Não é esta a
manipulação de que fala a semiótica, não um mero ato mecânico comunicacional de
imposição de vontade de um locutor sobre um ouvinte apático e amorfo.
Compreendendo a existência humana na linguagem – não mediada pela
linguagem, não possível através da linguagem, mas na linguagem –, a semiótica
recupera, na metodologia de análise, as coerções, impossibilidades e obrigatoriedades,
bem como a possibilidade da rebeldia e da recusa que caracterizam a vida social.
Impulsionados por tentações e provocações, seduções e intimidações, vamos aceitando
ou recusando os contratos que definem nosso caminho e nossas ações, moldam nossas
vontades e dirigem nossos gostos, ainda que precisemos da ilusão de que mantemos a
vida sob controle. Quase nunca somos capazes de perceber a inclusão de nossa rebeldia
em um sistema de valores aceitos, em que o rebelde perde a causa, porque ali a rebeldia
é a regra e por isso mesmo já não é mais contestação, nem coragem, nem desafio, é a
normalidade de um outro sistema de valores. Oscilamos entre manipulações de
diferentes ordens, e nossa luta não é entre o bem e o mal, o certo e o errado como
escolhas possíveis e objetivas, mas é a luta de estar imerso em linguagem e viver no
entrechoque de redes discursivas.
É esta mesma aventura humana que se realiza nos textos e que a semiótica
formula como um programa de manipulação. Originalmente a primeira etapa da
sequência canônica da narrativa, a manipulação argumentativa realiza-se no discurso,

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mediante a ação de um enunciador que pretende conquistar a adesão de um
enunciatário. Para analisar esse programa, marcado não só pela relação entre dois
sujeitos em torno de valores, mas também pelas modalizações das ações persuasiva e
interpretativa, será necessário observar os dois sujeitos envolvidos e seu modo de
constituição narrativo-discursiva. Para isso, a metodologia de análise não poderá fixar-
se em distinções canônicas nem entre níveis nem entre componentes. Só se pode dar
conta dos mecanismos argumentativos considerando-se, ao lado das projeções de
pessoa, tempo e espaço, relativas ao componente sintático, as coberturas figurativas que
as transformam em atores, locais e marcos temporais, relativas ao componente
semântico. E para tratar a argumentação como programa de manipulação, será
necessário narrativizar o percurso do sujeito que enuncia.
Criando ora os efeitos de enunciação enunciada, ora os de enunciado enunciado,
a estratégia argumentativa pode tanto aproximar os dois actantes do discurso quanto
simular o distanciamento deles em relação ao que é dito. Teoricamente, temos, no
primeiro caso, o efeito de aproximação entre enunciador e enunciatário, obtido pela
projeção da 1ª pessoa, do tempo do agora e do espaço do aqui, e no segundo, o efeito de
distanciamento do enunciado enunciado, por meio da projeção da 3ª pessoa, do tempo
do então, do espaço do lá. A aproximação cria efeito de subjetividade, o afastamento
produz efeito de objetividade. No entanto, entre um polo e outro, há uma gradação que
não é mensurável, mas que pode ser identificada nas escolhas figurativas e temáticas, e
uma dispersão de vozes.
A projeção de pessoa não se refere apenas à escolha básica entre projetar no
discurso um eu ou um ele. Trata-se de examinar o jogo de vozes presente na cena
discursiva, observando as marcas da heterogeneidade que criam efeitos de verdade, de
autoridade, de consenso etc. Constituem também recursos que esgarçam as fronteiras
entre objetividade e subjetividade alguns procedimentos que inscrevem, em textos
escritos em 3ª pessoa, excessos e arrebatamentos do enunciador, tais como a inserção de
lexemas que condensam juízos de valor, as retomadas anafóricas por meio de sintagmas
que recuperam tais juízos, as referências que cortejam o potencial leitor etc. Tais
recursos atraem o leitor/espectador, já então pronto a crer na verdade daquele que
enuncia.
Mas por que ele aceita ou por que pode recusar essa verdade? De que modo se
produz a crença que leva à adesão? Parece-me que só se pode responder a essas

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questões observando os procedimentos semânticos que transformam as posições
actanciais de enunciador e enunciatário nos atores /autor/ e /leitor/. Pois se a relação
entre ambos se estabelece sintaticamente, por conexões e relações sintagmáticas
propostas no discurso, por um jogo de vozes que põe em contato um e outro, a
transformação desse contato, dessa interação, em troca, intercâmbio, confronto ou
acordo se dá nas escolhas temáticas e figurativas que preenchem os papéis de um e de
outro e que produzem sua ancoragem num determinado espaço e num determinado
tempo.
No caso do provérbio tomado como exemplo, discursivizado por meio de uma
frase que sintetiza a moral da recompensa pela ação continuada e perseverante, os
verbos no presente, o uso da 3ª pessoa, a frase afirmativa, tudo leva a criar um efeito de
verdade conceitual incontestável, enunciada por uma voz de autoridade desidentificada,
mas representada figurativamente nas interpretações por lexemas como “sabedoria
popular”, “lições dos mais velhos” etc. Por meio de figuras como água e pedra, e mais
ainda, por meio das redundâncias “água mole” e “pedra dura”, reforça-se a ideia da
oposição entre fluxo contínuo e obstáculo descontínuo. As figuras se prendem a um
tema, personificam na água e na pedra a oposição entre a maleabilidade e a
inflexibilidade, os dois temas que se confrontam. Os verbos associados às expressões
conjuntivas indicam as ações de insistir (tanto bate) e vencer (até que fura) e remetem à
luta que tem como resultado a vitória da persistência. Ora, a persistência tem a marca da
iteratividade, da continuidade, reforçando a sugestão da paciência, da ação átona e
insistente. Percebe-se assim a ideologia do conformismo, da manutenção da ordem, tão
presente nos provérbios populares, muito mais voltados para a acomodação que para a
subversão.
Sínteses de uma forma de vida, os provérbios manifestam-se por meio de marcas
expressivas fáceis de memorizar, seja o ritmo regular, seja o vocabulário simples,
geralmente apresentado sob a forma de oposições (“Quem espera sempre alcança”;
“Mais vale um pássaro na mão que dois voando” etc), seja ainda a exploração do valor
significante das palavras, por meio de rimas (“A ocasião faz o ladrão”), repetição de
fonemas (“Comer e coçar é só começar”) etc. No provérbio que serve aqui de exemplo,
os fonemas predominantemente contínuos do primeiro sintagma (água mole) se opõem
aos descontínuos do segundo (pedra dura) e a frase se divide em dois “versos”
heptassílabos, medida que costuma caracterizar a poesia popular, por exemplo, das

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quadrinhas. Temos, então, no plano da expressão, por meio desses recursos de
facilitação e memorização, a reafirmação da generalização, expansão e universalidade
dos provérbios.
As análises do plano da expressão dos textos devem muito a Jean-Marie Floch,
pioneiro do estudo de textos visuais. A consolidação, nos anos 80, de uma semiótica
plástica, apontava para particularidades matéricas dos textos visuais que chamam a
atenção dos pesquisadores para a relevância do plano da expressão de qualquer texto e
estimulam a configuração de semióticas particulares, desenvolvidas em torno de objetos
específicos, como a semiótica literária, a semiótica da canção, a semiótica sincrética. Ao
lado desse desenvolvimento, impõem-se definitivamente os estudos voltados para as
instabilidades dos discursos, como a semiótica das paixões, a semiótica tensiva, a
sociossemiótica, novos campos teóricos que compõem o quadro dos desenvolvimentos
mais recentes da disciplina.

Desenvolvimentos recentes

As novas formulações teóricas, que, a partir sobretudo dos anos 90, fazem
avançar o modelo, instalam a dinâmica do corpo e a sensibilização dos afetos no centro
mesmo dos mecanismos de produção de sentido.
Pensa-se então num sujeito cuja presença no mundo é afetada por um certo grau
caótico de sensações e movimentos, a partir dos quais se definem mecanismos de
interações entre sujeitos e de percepção dos objetos. Para Landowski (2004, pp.111-
112), as modalidades da presença oscilam inicialmente entre uma não-presença, estágio
em que o mundo significa mas “o sujeito separa-se dele para etiquetá-lo, classificá-lo;
renuncia a senti-lo e compreendê-lo na sua alteridade fundamental” e a presença viva,
que é o regime de fazer sentido. No primeiro caso, há ausência de toda modulação, o
que corresponde à morte do sentido e do próprio sujeito enquanto ser-no-mundo; no
segundo, uma dinâmica e uma modulação instalam-se para fazer com que o sujeito seja
capaz de deslocar o sentido já dado e criar outra vez o mundo, o sentido, a vida.
Esse sujeito exposto ao mundo é então um “eu semiótico” que, segundo
Fontanille e Zilberberg (2001, p.128) “não se reduz ao ‘eu’ linguístico: o ‘eu’ semiótico

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é um ‘eu’ sensível, afetado, muitas vezes atônito, quer dizer, comovido pelos êxtases
que o assaltam, um ‘eu’ mais oscilatório do que identitário.”
O ato perceptivo desse sujeito constitui o campo da presença e seu alcance é
expresso em termos de extensão dos objetos percebidos e de intensidade das
percepções. O ajuste das tensões próprias a esse estar no mundo tem relação com os
afetos do sujeito.
Ao incorporar a afetividade ao percurso de produção do sentido dos textos, a
semiótica a integra sob a denominação de intensidade, grandeza oposta à extensidade,
para formar o par designado pelo termo tensividade, lugar imaginário em que a
intensidade (os estados de alma) e a extensidade (os estados de coisas) se juntam. Essa
junção define um espaço tensivo de acolhimento das grandezas do campo da presença:
por causa de sua imersão nesse espaço, toda grandeza discursiva se acha qualificada
como intensidade e extensidade e todo texto é considerado como “unidade rítmica”
(Zilberberg 2006) que se constrói segundo uma práxis enunciativa, por meio da qual o
discurso incorpora o novo ao mesmo tempo que assegura a inteligibilidade e sustenta
sua força coesiva ao incorporar “organizações culturais, mais ou menos congeladas, da
significação” (Fontanille; Zilberberg 2001).
Se as forças coesivas manifestam-se por meio de tipos e gêneros textuais,
formações discursivas e ideológicas e coerções diversas de textualização, a novidade
aparece não só no plano do conteúdo, sob a forma de estruturas concessivas que
instalam a surpresa e o inesperado, mas também no plano da expressão, por meio da
exacerbação das qualidades significantes da linguagem utilizada.
Num texto há sempre um jogo de forças discursivas, que pode ser compreendido
como um embate entre intensidades (o descontínuo, o novo, o inesperado) e
extensidades (o contínuo, o já conhecido). Cabe à enunciação regular os aumentos e
diminuições de impacto do novo ou de manutenção do já conhecido. Os anúncios
publicitários regulam sua ação num equilíbrio bem pensado entre o novo e o esperado.
As cenas clássicas de anúncios de margarinas repetem sempre ambientes e figurinos
claros, famílias felizes, mesas bem postas. A novidade estará na substância de última
geração incluída no preparo da margarina, na cor, textura, sabor, naquilo que pode
diferenciar um produto recém-lançado de outros já em circulação no mercado.
Nas produções estéticas, o impacto do novo pode ser mais forte e aí estará,
certamente, o sentido na plenitude de sua emergência. Tal plenitude poderá estar não no

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achado poético espetacular de uma pintura, como nas distorções de Picasso, mas nos
pequenos movimentos do sujeito em seu contato cotidiano com o mundo. As relações
que o corpo descobre nos impactos sensíveis do acaso ou da surpresa podem levar o
sujeito a escapar do caminho retilíneo da obrigação pragmática, que acaba por
neutralizar a existência na previsibilidade da mecanização e consequente ausência de
sentidos. Fora da vida funcional ou do rumo previsível, existe o retorno, a sinuosidade,
a descoberta.

Figurações do mundo representados nos textos, os movimentos rítmicos do


sujeito instauram a sensibilização e os afetos no centro da investigação semiótica. Para
observar esse movimento, Zilberberg (2006) propõe um quadro de categorias tensivas,
desdobradas, como subdimensões e foremas, a partir das dimensões da intensidade e da
extensidade. Andamento e tonicidade são as subdimensões da intensidade e
temporalidade e espacialidade, da extensidade. As primeiras regem as segundas,
incidem sobre elas para produzir as ondulações do discurso e consagram os afetos como
“as razões de nossas razões no discurso” (Zilberberg 2010). Os efeitos da intensidade
podem ser medidos em suas qualidades de subitaneidade, precipitação e energia
(Zilberberg, 2006), aspectos que serão formalizados como os foremas de direção,
posição e elã, unidades do campo da foria que estabelecem estilos diferentes e oferecem
medidas para a presença dos afetos no discurso.
A semiótica tensiva, ao tratar de tais problemas, não é um modelo que destitui o
primeiro nem de sua precedência teórica nem de seu papel organizador da reflexão
interpretativa do sentido dos textos. É uma concepção teórica em formulação, que
tensiona a metodologia original e permite a compreensão do sentido não apenas como
descontinuidade mas também como instabilidade, continuidade e fluxo. Junta o mundo
sensível ao inteligível, na eterna busca pela completude da análise e do modelo.
Nesse corpo teórico em transformação, põe-se em questão também a escolha dos
objetos. De que modo tratar o apelo das novas tecnologias e formas de comunicação
com os instrumentos teóricos disponíveis? Se um texto não é mais apenas uma página
escrita, mas todo artefato humano constituído de linguagem ou como linguagem, de que
maneira se controlará a intervenção do analista até mesmo na definição do que vai
considerar como texto? Que conceitos mobilizar e que objetos escolher?

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Tais problemas configuram as condições necessárias à constituição de um
corpus de análise, que é assim tanto a amostra necessária à demonstração da teoria
quanto a arena de descobertas de novas demandas teóricas.

A escolha de um corpus

Claude Hagège, em livro lançado com grande impacto em 1985 e depois


sucessivamente reeditado, afirmava que a Linguística perdera, a partir dos anos 70, sua
liderança entre as ciências humanas e que tanto isso se devia aos avanços importantes da
Antropologia, da Sociologia, da Psicologia, quanto à produção da própria Linguística,
que passou a ser fortemente técnica. A obsessão de cientificidade a teria conduzido a um
falso rigor, de que não se teria modelo nem mesmo nas ciências mais rigorosas.
Segundo o autor, a fascinação pelos formalismos terminou por circunscrever a
Linguística a um discurso essencialmente técnico, que parece temer seu próprio objeto,
um homem que fala. Não somente a Linguística rejeita, então, o histórico e o social,
mas o humano passa a ser para ela uma abstração definitiva, como se as palavras não
dissessem nada. Perdem-se de vista as promessas que a Linguística dos anos 50-60
deixava entrever, de revelar os mistérios ligados aos fenômenos humanos.
A esse tecnicismo da linguística vêm se opor os estudos do discurso, que
penetram com vigor no universo das letras após a década de 70. O modelo ortodoxo
estruturalista, esvaziado dos princípios e da interessante discussão teórica neles contida,
acaba por perder-se no esgotamento dos modelos mecanicistas. Da mesma maneira, o
paradigma da gramática gerativa oferecia as dificuldades dos sucessivos padrões de
análises propostos e da sofisticação teórica e metodológica que o afastava dos falantes
reais e da língua em uso.
É nesse momento que se instala uma dissensão fortemente marcada na
Linguística, com os próprios linguistas demarcando seus campos de atuação por meio
de rótulos classificatórios que circulam em torno dos lexemas mole e duro (não terá sido
à toa que escolhemos o provérbio analisado acima!).
A oposição no campo dos estudos linguísticos contrapõe teorias mais
preocupadas com o formalismo a concepções teóricas predominantemente afeitas ao
contato com outros campos do saber e à definição de métodos menos controlados por

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tabelas e percentuais, provas e contraprovas empíricas. Não se trata, entretanto, de opor
rigor e método a descontrole e acaso.
A semiótica, com seu gosto pela terminologia e os conceitos e seu apego à
formulação de modelos de análise, acaba por tratar com rigor e minúcia o texto que se
apresenta diante do analista e poderia mesmo ser considerada uma espécie de núcleo
duro da chamada linguística mole. Tendo como metodologia da análise a consistência de
esquemas, modelos e categorias solidamente formulados e mesmo consubstanciados nos
dois dicionários de semiótica adotados como orientação conceitual, a semiótica rejeita,
entretanto, as exigências de exaustividade e adequação que pretensamente garantiriam,
num corpus escolhido, a “cientificidade da descrição”. Tais pressupostos positivistas
acabam por considerar o corpus como “uma coisa em si, a qual comporta suas próprias
leis, ao passo que a epistemologia atual concede pelo menos igual importância ao
sujeito na construção do seu objeto” (Greimas; Courtés 2008, p.104).
O problema do corpus para uma teoria que lida com textos e discursos não pode
estar atrelado à mesma necessidade de adequação e exaustividade das pesquisas
linguísticas que operam com coleções de frases ou de palavras. O corpus, para a
semiótica, deve ser “limitado, aberto e representativo” e os modelos que os analisam são
considerados “hipotéticos, projetivos e preditivos” (Greimas; Courtés 2008, p.105).
Greimas e Courtés propõem que se considere a possibilidade de “corpus
sintagmáticos (conjunto de textos de um autor) ou de corpus paradigmáticos
(conjunto de variantes de um conto), sempre levando em conta o fato de que eles nunca
são fechados nem exaustivos, mas representativos apenas” (Greimas; Courtés 2008,
p.105).
Observam-se nas últimas décadas, no campo da semiótica, os mais
diversificados objetos de estudo. Floch (1985), ao analisar um quadro de Kandinski,
recorreu a uma série de obras do pintor, para encontrar recorrências capazes de atribuir
sentidos a traços, cores e procedimentos. Teixeira (1996) analisou a crítica de arte
brasileira por meio da seleção aleatória de 45 críticas, publicadas em 4 diferentes meios
de circulação, durante 2 anos. Tatit elege a canção popular brasileira como objeto e suas
análises de uma canção (2001) costumam ser rica fonte de aprofundamento e proposição
de conceitos teóricos. Discini (2003), ao propor a formulação semiótica do conceito de
estilo, recorreu a vasto e diversificado corpus, que ofereceu exemplares para
comparação e observação de contrastes entre estilos, da mesma maneira que testou

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numa coleção de textos de um mesmo autor ou órgão de imprensa a recorrência dos
traços identificados por oposição nos discursos contrastantes. Dissertações e teses
recentemente produzidas nas universidades em que há núcleos de pesquisa em semiótica
elegem objetos tão variados quanto estimulantes, que vão do discurso de panfletos
religiosos a programas de auditório, de canções a sites da internet, de romances e
poemas a mensagens publicitárias1.
Pode-se escolher um período, um autor, um texto apenas, um gênero textual ou um tipo
discursivo. Pinturas, esculturas, poemas, canções ou praças e estações de metrôs, todos
são objetos de sentido e, portanto, considerados como textos, podem ser analisados
semioticamente. A representatividade do corpus subordina-se à necessidade da análise e
aos propósitos do analista. Da mesma maneira, o olhar do analista treinado numa
metodologia e formado por determinada concepção teórica sabe o que procura num
corpus e conhece o modo de procurar.
Se não é então sob uma concepção positivista que o semioticista concebe o
corpus, também não é sem método ou sem critério que o faz. A dificuldade de constituir
um corpus é a mesma de decidir o que pesquisar, a origem da vida ou a notação musical
nas peças de Chopin, a vida urbana numa metrópole superpovoada ou a luminosidade
amarelada dos quadros de Rembrandt, a comunicação entre os tucuna ou a logomarca de
uma empresa. Mais recentemente, a semiótica vem incorporando objetos sincréticos,
como uma ópera ou uma página de internet a seus objetos de interesse, o que exige da
teoria novas formulações que deem conta das transformações dos meios de
comunicação e das formas sociais de interação.
Não se deve desprezar a ideia de que uma análise fala sempre também do
analista e que a escolha de um objeto e do modo de descrevê-lo e interpretá-lo filia-se
ideologicamente a discursos. Em estudos de linguagem, trabalha-se com uma concepção
escolhida de língua e de linguagem. A língua pode ser, por exemplo, meio de
comunicação entre um emissor e um receptor, ou pode ser uma forma de estar no
mundo e produzir as relações sociais de conflito e de acordo nas situações de troca que
1 Grupos de pesquisa em semiótica estão formados, no Brasil e na França, sobretudo em faculdades de
Letras e de Comunicação, havendo lugar para a disciplina também em Escolas de Arte, de Arquitetura, de
Design, de Moda etc. Dentre os grupos sediados nas faculdades de Letras, devem-se citar o GES-USP, por
seu papel pioneiro e exemplar de formação de pesquisadores e divulgação da disciplina, particularmente
por meio da revista digital Estudos semióticos, o SEDI-UFF, outro importante núcleo de formação, que se
destaca com os estudos sobre relações entre linguagens, e o CASA-UNESP, que mantém importante
publicação digital na área. Além destes, há grupos de semiótica nas Faculdades de Letras da UFMG,
UFT, UFGD, UFRJ, UFC e UEL, todos com importante contribuição à formação de pesquisadores e ao
desenvolvimento da pesquisa.

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possibilita. Pode ser um conjunto ou uma lista de palavras ou um sistema organizado de
signos, pode manifestar-se em textos compreendidos como unidades de sentido,
constituídas por relações inter e intradiscursivas, ou como sequências de enunciados
relacionados por mecanismos de coesão e coerência gramaticais.
A adesão a um desses conceitos marca um modo de estar no mundo, aqui,
especificamente, no mundo acadêmico. Estar num desses lugares teóricos é não só
definir-se como um pesquisador da linguística dura ou da linguística mole, mas é
também, no limite, correr o risco de não ser considerado linguista. É ainda decidir de
que modo sua produção poderá interferir na vida social. Serve, por exemplo, a descrição
sofisticada das línguas indígenas, de acordo com o último modelo gerativista, à causa da
preservação da cultura dos povos indígenas? Serve ao avanço da ciência, quando
permite a comprovação da universalidade do modelo? A resposta que se der a cada uma
dessas duas questões define ideologicamente a opção teórica do pesquisador.

Perspectivas da pesquisa

A adoção de uma teoria não é uma questão de crença, mas de adesão, de escolha,
de filiação a determinada matriz teórica. Entre crença e adesão existe a diferença
conceitual que faz intervir na segunda a racionalidade. Na crença, tem-se a “atitude de
quem se persuadiu de algo pelos caracteres de verdade que ali encontrou” (HOUAISS,
2001). Na adesão, não há aceitação, mas acordo, não há verdade, mas possibilidades que
se oferecem, dentre as quais se escolhe uma, a partir de determinada análise. Essa
diferença é fundamental e serve aqui para afirmar que o trabalho de pesquisa e suas
aplicações origina-se na filiação, na adesão a alguma teoria e que sem a densidade de
uma teoria bem assimilada e bem compreendida não há análise de texto ou de discurso
que se sustente. Serve também para afastar a passionalidade tantas vezes revelada nas
escolhas acadêmicas. Apaixonar-se pela semiótica não é tão boa garantia de fazê-la bem
quanto estudar com profundidade suas formulações conceituais.
Compreendida como matriz de produção de conhecimento, a teoria não é,
necessariamente, terreno seco e pedregoso, árido, difícil de penetrar. Pode ser que se
torne o ponto de partida de uma nova atitude, de um outro modo de olhar o mundo.

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Barthes e Greimas cultivaram os mesmos autores num certo momento e depois
se separaram, porque leram diferentemente as teorias e isso os fez olhar de modo
diferente para os mesmos objetos. O poder da palavra exercia tal fascínio em Barthes –
para encerrar com mais anedotas –, que ele comprava as tintas com que fazia seus
exercícios de pintura e aquarela pelos nomes, não pelas cores. Esse encantamento pela
palavra atravessou a brilhante obra do semiólogo francês, transformando disciplina em
gozo e rigor em inspiração. Greimas e a semiótica discursiva são talvez menos afeitos à
beleza da palavra, mas recuperam a possibilidade poética da interpretação em análises
densas e minuciosas, que arrebatam não, como em Barthes, pela centelha, mas pela
diligência.
Talvez seja preciso embelezar as análises semióticas, dar-lhes sopros mais fortes
e vibrantes de vida e de inquietação, sem perder a direção teórica. A terminologia deve
servir à análise, a metodologia não é um modelo a ser seguido, os conceitos são
orientações e não amarras. A compreensão dessas possibilidades de conferir mais
intensidade às leituras dos objetos requer, entretanto, o domínio das bases da teoria, o
conhecimento dos conceitos, a familiaridade com a terminologia. Exige também a
capacidade de articular à teoria semiótica o conhecimento seguro do objeto a investigar.
Não se produz boa análise semiótica da pintura sem conhecer História da Arte, não se
compreende inteiramente a canção sem o domínio da teoria musical, não se interpreta
poesia sem ler também a teoria da literatura.
Estamos sempre num dilema: mais que viver ou morrer, trata-se de escrever ou
escrever, falar ou falar. Não se faz aqui um jogo de palavras. Brinca-se de
pressuposição: que sentidos há em escrever e falar? Todos eles estão profundamente
implicados em fazer semiótica.

Bibliografia

BARROS, Diana Luz Pessoa de (1988). Teoria do discurso: fundamentos semióticos.


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DISCINI, Norma (2003). O estilo nos textos. São Paulo: Contexto.
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plastique. Amsterdam: Hadès-Benjamins.
__________ (1990). Sémiotique, marketing et communication. Paris: PUF.
FONTANILLE, J.; ZILBERBERG, C. Tensão e significação. São Paulo: Humanitas,
2001.
GREIMAS, A.J., COURTES, J (2008). Dicionário de semiótica. São Paulo: Contexto.
__________; __________ (orgs.) (1986). Sémiotique: dictionnaire raisonné de la théorie
du langage. Paris: Hachette.
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humaines. Paris: Fayard.
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Rio de Janeiro: Objetiva. Edição em CD-Rom, versão 1.0.
JAMESON, F. (1992). O inconsciente político: a narrativa como ato socialmente
simbólico. São Paulo: Ática.
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Cláudia de (org.). Semiótica plástica. São Paulo: Hacker. pp.97-112.
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TEIXEIRA, Lucia (1996). As cores do discurso: análise do discurso da crítica de arte.
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Brasileira de Semiótica, n.25. São Paulo: Annablume. pp. 163-204.
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semióticos, vol.6,n.2. São Paulo: Universidade de São Paulo, Programa de Pós-
graduação em Semiótica e Linguística Geral.

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