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DOSSE, François. História do Estruturalismo. v. 1: o campo do signo, 1945-1966.

Tradução de
Álvaro Cabral. São Paulo: Editora Ensaio; Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1993.
P. 11- 217.
Resenhado por Geiza da Silva Gimenes

Percorrer as primeiras 217 páginas do v. 1: O Campo do Signo, 1945-1966, da obra


História do Estruturalismo, de François Dosse, já é pressentir a grande empreitada do professor
da Universidade de Nanterre, o qual, através de expressiva documentação fotográfica, entrevista
antropólogos, economistas, psicanalistas, sociólogos, lingüistas, filósofos, historiadores,
geógrafos e escritores para contar com riquezas de detalhes os diversos campos que o
estruturalismo atingiu e mobilizou.
O volume1, O campo do signo, 1945/1966, divide-se em três blocos: “A época
clássica”(anos 50), “A bela época”(1936-1966) e “Uma febre hexagonal”. Aqui, trataremos
apenas da “A época clássica” que corresponde às 217 páginas investigadas por nós.
Em A época clássica, Dosse trabalha com os anos 50 e com as fundações do
estruturalismo, na França. Nesse contexto histórico e cultural, a lingüistica é tomada como
modelo de cientificidade para analisar os fenômenos culturais em sentido amplo e o paradigma
estruturalista destitui a suposta hegemonia do existencialismo sartreano, no qual o homem é o
centro e agente de sua própria história. A filosofia sartreana será colocada em dúvida e, aos
poucos, eclipsada, ou seja, “o sujeito, a consciência vão apagar-se em proveito da regra, do
código, da estrutura”, segundo Greimas (p. 24).
O homem sartreano sofrerá, assim, o primeiro grande revés com advento do
estruturalismo que ingressará nas ciências humanas através da antropologia de Claude Lévi-
Strauss, o qual introduzirá no conhecimento das ciências humanas a noção de “inconsciente”,
mobilizada, de certa forma, da psicanálise. Assim, é a partir de Estruturas Elementares do
Parentesco, em 1949, que se passa a entender a totalidade dos fenômenos sociais como
linguagens, isto é, resultado de uma teoria da comunicação, inconsciente, que proporciona a
comunicação das mulheres, de bens e serviços e de mensagens. É ainda, nesse estudo, que Lévi-
Strauss tomará a lingüística como ciência piloto.
Segundo Greimas, o estruturalismo é o encontro da lingüística com a antropologia,
para aproximar a antropologia da cultura, do simbólico, afastando-a de modelos naturalistas.

Mestranda do Programa de Pó s-Graduaçã o da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus


Universitá rio de Três Lagoas.
Logo, nesse mesmo contexto, a psicanálise de Jacques Lacan, a teoria literária de
Roland Barthes e Michel Foucault de As palavras e as coisas vêem no novo paradigma um olhar
renovado para o saber moderno, em que as arrogâncias da razão são destronadas, através de um
processo de deslocamento do homem jamais testemunhado na história do pensamento ocidental.
Se o inconsciente era mesmo trans-histórico e transpessoal, a distinção entre –
primitivos/civilizados, nós/outros, que tanto sentido deu ao funcionalismo e à posição relativista,
não apresentava mais nenhum sentido epistêmico, pois o pensamento selvagem passava a possuir
o mesmo estatuto do pensamento domesticado, apresentando inclusive um caráter mais
totalizador, porque inscrito na lógica do sensível. Com isso, passou-se a postular um humanismo
universalista, que reintegrava o outro no mesmo e não será por acaso que o período abundará em
referências a Montaigne e Rousseau, este último o “verdadeiro fundador das ciências do homem”,
para Lévi- Strauss pelo menos.
Ainda, neste universo, as idéias do Curso de Lingüística Geral serão amplamente
debatidas e receberão enormes contribuições de diferentes estudiosos como André Martinet,
Roman Jakobson, Françoise Gadet, o próprio Lévi-Strauss, entre outros destacados por Dosse em
sua empreitada.
Como destacamos, acima, a obra de Dosse não se trata de uma história ao estilo
convencional, visto que muitos de seus protagonistas falam em um livro sob a forma de
entrevistas, revelando dados sobre sua formação acadêmica, seus interesses intelectuais ou,
simplesmente, sobre sua vida; esta particularidade que, considero um acerto de Dosse, aparece no
livro sob a forma de um conjunto de dados sempre representativos, os quais seriam difíceis de
encontrar numa história de desenvolvimento convencional. Assim, o que o autor propõe é um
história-arquivo. Entretanto, o que o leitor não encontrará é um balanço sobre os prós e contra do
paradigma estruturalista, nem tão pouco menções às duras críticas recebidas pelo Cours nos
últimos anos, críticas que o caracterizam, quando se aplica a questões sociológicas,
antropológicas ou culturais.

Mestranda do Programa de Pó s-Graduaçã o da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus


Universitá rio de Três Lagoas.

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