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Sérgio Abranches * Ronaldo de Almeida « Angela Alonso ¢ Celso Rocha de Barros ¢ Monica de Bolle Petrénio Domingues ¢ Christian Dunker ¢ Boris Fausto ° Ruy Fausto « José Arthur Giannotti Angela de Castro Gomes * Ronaldo Lemos OTR ATIF | 22 ENSAIOS SOBRE 0 BRASIL HOJE TEC eee et elm ernest ian ee EL) | Louzano e Gabriela Moriconi * Renan Quinalha | Daniel Aarao Reis * Joao Moreira Salles ¢ Esther Solano * Matias Spektor ¢ Heloisa M. Starling André Singer e Gustavo Venturi Sark CoMPANHIA Das LETRAS A bolsonarizagao do Brasil Esther Solano A onda bolsonarista atropelou a politica brasileira com uma forca inesperada. Jair Bolsonaro ganhou as eleigdes com oito se- gundos de campanha televisiva, conseguiu que o até entao insig- nificante psi obtivesse 52 deputados e pds o ntimero 17 na boca da populagao, desafiando as anilises classicas da ciéncia politica, as quais assumiam, categoricamente, que sem tempo suficiente de horario eleitoral gratuito e sem um partido politico expressivo nao havia chance nenhuma de o candidato chegar ao Planalto. Como se isso nao bastasse, alguns dos novos deputados esta- duais e federais do psi tiveram vota¢des estrondosas, como Eduar- do Bolsonaro, o deputado federal mais votado da histéria, com mais de 1,8 milhao de votos, e Janaina Paschoal, eleita deputada estadual por Sao Paulo com uma votagao recorde de mais de 2 milhGes de votos. Paralelamente, candidatos absolutamente desconhecidos no cenario politico se elegeram como governadores, dizimando poli- ticos tradicionais. Em Minas Gerais, Romeu Zema, do Novo, foi eleito com 71,8% dos votos, aniquilando o tucano Antonio Anas- 307 tasia. Nos comentarios finais do debate eleitoral ao governo do estado de Minas Gerais, transmitido pela Globo Minas, ele decla- rou que “aqueles que querem mudanga, com certeza, podem votar ai nos candidatos diferentes, que é o Amoédo e 0 Bolsonaro”, Da mesma maneira, no Rio de Janeiro, o ex-juiz Wilson Witzel, do psc, se impés frente ao emedebista Eduardo Paes. Witzel, que tinha comegado a disputa pelo governo do estado do Rio de Janeiro com um digito de inten¢ao de voto, costurou uma alian¢a com Flavio Bolsonaro, pediu votos para o presidenciavel no ultimo debate de governadores da Globo e apareceu na ultima live no Facebook de Jair Bolsonaro. Ganhou 3,1 milhées de votos. Igualmente, em Sao Paulo, Joao Doria ganhou o pleito com a jogada de marketing do BolsoDoria, que fazia do ex-prefeito muito mais um cabo eleitoral de Bolsonaro do que um candidato tucano. Nao estamos diante de um fendmeno regional ou nacional. Em varios paises, como Estados Unidos com Donald Trump, Italia com Matteo Salvini ou Hungria com Viktor Orban, candidatos de extrema direita ganham eleicées capturando o sentimento de frustragao e desesperanga e se apresentando-com discursos de re- novagao, Os partidos tradicionais, ocupados da burocracia do poder e da governabilidade, sofreram 0 enorme desgaste da insti- tucionalidade e sao culpados pelo cidadao comum pelas crises econdmicas e sociais. f 0 denominado voto de castigo. Aprovei- tando o mal-estar causado sobretudo por uma nova etapa da re- volucgado tecnolégica — que gera desemprego, perda de poder aquisitivo, crises migratérias, inseguranga publica, desesperan¢a no futuro —, grupos de extrema direita se fortalecem explorando a ret6rica antissistema. No Brasil, Bolsonaro segue essa trajetoria. Consegue capturar a insatisfagao causada pelas crises econdmica e politica nacionais, aqui exacerbadas pelos escandalos de corrup¢ao, e transformar a insatisfagao em poténcia eleitoral. Segundo a légica de Bolsonaro, 308 a culpa da situa¢ao atual em quexe encontra o Brasil é do sistema politico no seu conjunto. Os partidos politicos classicos estéo no coragao dessa critica porque eles formam 0 sistema, sao 0 centro do fisiologismo politico. O pr, que no inicio de sua trajetéria par- tidaria também representava uma alternativa fora do mainstream, foi absorvido pela dinamica da governabilidade e, portanto, nao poderia mais representar uma alternativa antissistema. Estamos diante de uma tendéncia politica que nao tem em seu centro ques- tdes programaticas ou propositivas, mas é construfda a partir da negacao: o movimento é nao apenas antipetista mas antipartida- rio; nao apenas antipartidario mas antissistémico. O que efetiva- mente se pretende construir a partir dai nao fica muito claro. Ea politica dos antagonismos. A rejeicao de alteridades se tornou uma forga eleitoral irresistivel. Tais elementos discursivos j4 estavam colocados e soavam com forga desde o impeachment, momento em que se construiu e se fortaleceu a base social de Bolsonaro. Ruas e redes se realinharam contra 0 pt. As ruas, tradicionalmente espaco de grupos autode- nominados de esquerda, passaram a ser ocupadas por novos pro- tagonistas: camisetas da cer, bandeiras do Brasil, gritos nacionalis- tas. Como analisou Angela Alonso,' um repertério patridtico, que ja estava mais timidamente presente em 2013, explodiu em 2015 e 2016 nas maiores cidades brasileiras, fundamentalmente em Sao Paulo. Segundo o Datafolha, 82% dos presentes na manifestacao da avenida Paulista do dia 16 de margo de 2016 tinham votado em Aécio Neves (spa), 76% tinham curso superior e 68% renda igual ou superior a cinco salarios minimos. Nas pesquisas que realizei com Pablo Ortellado e Lucia Nader durante as manifestagdes pré-impeachment, ao longo de 2015, a pré-bolsonarizacao social ja era, em retrospecto, evidente. Nossa proposta era entender o perfil politico ¢ ideolégico dos manifes- tantes e as motivagGes que os levavam as ruas. Tinhamos a intui- 309 ao de que, por tras de um evidente antipetismo, escondia-se um sentimento de rejeico antissistema mais profundo e complexo, Para tanto, aplicamos uma série de Pesquisas quantitativas, que tentavam avaliar o perfil dos manifestantes em temas como con- fianga em partidos e liderangas, valores, moral ¢ identificagao po- litica. A aplicagao de questiondrios continuou ao longo dos anos 2016 € 2017, e conseguimos obter uma imagem bastante significa- tiva da dinamica progressiva de construcao de negagées politicas que iria sustentar, em 2018, a candidatura de Bolsonaro, A média do numero de questiondrios aplicados era de quinhentos por protesto, e a margem de erro, menor que 5%. Na manifestacao contra o pr de 16 de agosto de 2015 realiza- da na avenida Paulista, 96% dos manifestantes declararam que nao estavam satisfeitos com o sistema politico. 73% afirmavam nao confiar nos partidos e 70% nao confiar nos politicos. O antiparti- darismo ea rejeigao da figura do politico tradicional apareciam com muita for¢a. Quando perguntamos quem inspirava mais confianga, o nome de Bolsonaro ja aparecia em primeiro lugar: 19,4% dos entrevistados confiavam muito nele, Naquela mesma manifestac4o, apenas 11% dos presentes disseram confiar no psps (partido no qual tinham votado majori- tariamente) e 1% no entao Papp (partido que iria ocupar a Presi- déncia da Republica se o impeachment pedido pelos manifestan- tes tivesse sucesso), Jé estavamos entao diante do preliidio do que seria a sangria eleitoral tucana de 2018. Igualmente, formulamos uma série de possibilidades como resposta a pergunta “quem po- deria resolver a crise brasileira?”, Das op¢Ges propostas pela nossa equipe de pesquisa, 56% j4 concordavam total ou parcialmente que “entregando 0 poder a alguém de fora do jogo politico”, 64% para “um juiz honesto” e 88% para um “politico honesto”, Era a constru¢ao progressiva das figuras de Bolsonaro (outsider tido como honesto) e do juiz Sergio Moro como salvadores da nagao. A 310 solugao deveria vir de fora do sistema, Diante de um cenario de percep¢ao de aumento da corrupgao politica, valores como ho- nestidade e ética apareciam coryo imprescindiveis no protétipo do politico desejavel. Além desses discursos, os grupos que organizaram as mani- festagdes, principalmente Movimento Brasil Livre (mst), Vem para a Rua, Revoltados On-Line, mobilizaram com uma poténcia enorme o discurso antipetista, que em frequentes ocasides deriva- ya para um anticomunismo em moldes ret6ricos que remetiam aos tempos de Guerra Fria. Esse antipetismo estava marcado por um forte contetido de classe e anti-igualitarista. Nosso trabalho como pesquisadores foi capturar as frases que eram mais com par- tilhadas nas redes sociais nesse contexto e testar o grau de adesao a elas nas ruas. Em Sao Paulo, no protesto de 12 de abril de 2015, comprova- mos a adesao a certas afirmagoes de contetido anti-igualitario que circulava nas redes sociais. Escolhemos frases que eram muito compartilhadas em paginas conservadoras ou de direita no Face- book (como a do mat, do Vem para a Rua, do préprio Jair Bolsona- ro) eas incluimos nos questionarios para testar sua aceitagdo entre os manifestantes: 60,4% deles concordaram que “Bolsa Familia financia pregui¢oso” ¢ 70,9% que “as cotas raciais geram mais ra- cismo”, Era a légica da classe média tradicional, os tax payers, que se sentem abandonados pelo governo ao mesmo tempo que rejei- tam a mobilidade ascendente dos mais pobres. Uma retérica anti- petista com fortes tragos de antiesquerdismo e anticomunismo e ja.com uma presenga das fake news. No mesmo protesto de abril de 2015, também testamos algu- mas das fake news que mais estavam circulando nas mesmas pagi- nas de direita no Facebook: 71% dos entrevistados concordaram com que Fabio Luis Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula, era socio da Friboi; 56%, que o Foro de Sao Paulo queria criar uma 31 ditadura bolivariana no Brasil; 53%, que o pcc era um brago ar- mado do pt; e 42%, que o PT tinha trazido 50 mil haitianos para votar por Dilma Rousseff em 2014. Na mesma linha, para 64% dos entrevistados, o pr queria implantar um regime comunista no Brasil. Ou seja, a simbiose entre petismo, esquerdismo e comunis- mo estava sendo construida. Finalmente, como motor da retérica antipetista, estava a corrupg¢ao. Para 85% dos entrevistados, os desvios da Petrobras eram 0 maior escandalo de corrupcao da histéria brasileira. A Lava Jato ja estava se situando como elemento fundamental de criminalizagao petista e da bolsonarizagao politica. Depois desse ciclo de pesquisas com manifestantes pr6-im- peachment, eu continuei fazendo pesquisas durante os anos 2017 e 2018, dessa vez entrevistando eleitores de Bolsonaro na cidade de Sao Paulo pertencentes a diversos perfis sociodemograficos. Foi um exercicio de escuta desse segmento. A metodologia usava entrevistas em profundidade, com duragao de uma a duas horas, em que 0s entrevistados explicavam livremente seu voto em Bol- sonaro e podiam desenvolver sem limite de tempo seus argumen- tos sobre questées politicas, sociais e morais. Foram trinta pessoas entrevistadas de diversas rendas, regides da cidade, idade, sexo e cor. Meu intuito era avaliar se os fatores que ja tinhamos captado nos protestos pré-impeachment tinham evoluido no sentido de configurar o campo politico bolsonarista. Comegava a ficar claro para mim, j4 em 2017, que muitos dos presentes nos protestos anti-pt de 2015 e 2016, em sua maioria votantes do psp, estavam. mudando sua opgao eleitoral, em favor de Bolsonaro, esvaziando assim 0 campo tucano. Os elementos antissistema, antipartidaris- mo, antipetismo e antiesquerdismo seriam, de acordo com mi- nhas pesquisas, fatores essenciais para a vitoria do proximo presi- dente brasileiro, elementos esses que jd estavam germinando no contexto do impeachment. Passo agora a detalhar o resultado 312 desse segundo ciclo de pesquisas mais atual com simpatizantes de Bolsonaro, analisando as falas dos entrevistados. Uma das questdes que com mais insisténcia aparecem nas entrevistas como legitimadoras do voto em Bolsonaro é que ele representaria “alguém diferente”, um outsider e, mais ainda, um antissistema, alguém capaz dee enfrentar uma légica politica to- talmente corrompida. A palavra “esperanga” atrelada a figura de Bolsonaro se apresentou em 23 das trinta entrevistas. Essas pes- soas diziam sentir esperanga num possivel governo dele por en- tender que s6 um politico com as caracteristicas de Bolsonaro poderia mudar o cendrio politico brasileiro. Um politico dife- rente porque seria honesto e auténtico, firme o suficiente para nao se deixar levar pela roteirizagao da politica. O marketing de Bolsonaro consegue transformar o antigo deputado federal numa figura antimainstream, capaz de capturar 0 voto de pro- testo, frustragao e raiva contra o sistema politico. Os partidos tradicionais sao percebidos como indistintos, fisiolégicos e preocupados com os préprios privilégios. Assim como nas ma- nifestagdes pr6-impeachment, durante a campanha eleitoral também 0 antipetismo foi o elemento discursivo e estético mais evidente, mas o antipartidarismo alcancou de forma contun- dente legendas politicas tradicionais como PspB ou MpB, e é crucial para entender a migracao de voto desses grupos para a candidatura de Bolsonaro. E a concepgao binaria do velho fren- te ao novo como nova categoria de enorme impacto politico. 0 velho é rejeitado e a novidade politica aparece como um valor em simesmo. Eu voto no Bolsonaro como desabafo. Porque ele é diferente. Sei que ele era deputado federal, mas nunca se meteu em corrup¢ao, nunca foi como eles. Nao se vendeu. E ainda ele nao vai ter medo de mudar as coisas porque nao tem rabo preso. Eu votava no Psbp, mas 313 nao voto mais, sao iguais ao pr, s6 tem corrupto. A mesma coisa, Bolsonaro vai romper com tudo isso ai. [Entrevistada M., 40 anos, classe B] A corrupg¢ao se situa no centro dos argumentos do menos- prezo pelo sistema. Nao s6 os politicos profissionais seriam “sujos” ecorruptos, como o préprio fazer politico desperta afetos negati- vos como vergonha ¢ rejei¢ao. Atrelada a ideia de negagao da poli- tica como atividade eminentemente corrupta, esta a operacao Lava Jato. Todos os entrevistados sao seus apoiadores. Durante as entrevistas, reiteram a importancia vital da operagao para a politi- ca brasileira e argumentam como esta traz beneficios para toda a sociedade. Falam de como a Lava Jato marca um antes e um depois na hist6ria nacional — porque seria a primeira grande operagao de combate a corrup¢do que realmente procura punir os respon- saveis — e exigem que ela continue como politica permanente, mas, como revelam suas falas, esse entusiasmo é menos do ponto de vista institucional e mais relacionado ao desejo de uma justica messianica do inimigo. O juiz Sergio Moro aparece caracterizado nas entrevistas por conceitos como heréi, salvador, alguém que “tem uma tarefa’, “é um enviado’, e, ainda mais, “vai limpar o Brasil” dos politicos corruptos que, numa visao moralista e dualis- ta da justica, representam o mal, 0 inimigo a ser exterminado. Nas falas dos entrevistados, 0 conceito “limpar” aparece muito mais do que 0 conceito “fazer justica”. O processo penal do espetaculo, com 0 juiz que assume uma figura militante e as operacdes contra a corrup¢ao como forma de criminalizacao teatralizada da politica, aumenta o sentimento coletivo de que a politica é uma tarefa desprezivel e, portanto, deve ser negada e, inclusive, combatida. Eu apoio totalmente a Lava Jato. Moro é nosso her6i. Ele vai limpar o Brasil desse cancer. E nada de direitos dos corruptos. Quer direito, 314 nao roube. Roubou e ainda quer direitos? Esta de sacanagem comi- go. Coitadinhos, né? [Entrevistado C.,35 anos, classe C] Junto a desaprovacio da politica e dos politicos tradicionais surge muito marcadamente nas entrevistas a narrativa da merito- cracia e do hiperindividualismo: a politica é desprezivel, o cami- nho € 0 esforgo pessoal. E a logica da negacao do coletivismo em prol do esforgo individual. Os politicos e o Estado intervém demais em tudo. Deixem as pes- soas trabalharem em paz que elas resolvem. Com trabalho a gente consegue tudo. [Entrevistada D., 55 anos, classe B] Ao lado da negagio da politica como atividade coletiva, o antiesquerdismo foi um dos elementos mais explorados pela campanha de Bolsonaro. Um dos fatos mais interessantes no nivel simbélico da campanha foi assistir ao ressurgir do anticomunis- mo na propaganda eleitoral. O antipetismo tao presente durante as manifestacGes pré-impeachment transformou-se num anties- querdismo raivoso. Vale lembrar que as classes médias brancas brasileiras votaram preferencialmente em Bolsonaro. Como ja fa- lamos, o anti-igualitarismo e, muitas vezes, 0 ataque expresso € direto aos mais pobres formam parte da construgao da légica an- tipetista. Explora-se, inclusive durante a propaganda eleitoral te- levisiva de Bolsonaro para o segundo turno, 0 medo da volta do pt ao poder. Na primeira insergao televisiva do segundo turno, a propaganda eleitoral de Bolsonaro exibia supostas conexGes petis- tas com o Foro de Sao Paulo, mostrando na tv um audio do ex- -presidente Lula sobre a criagao do Foro que, segundo a propa- ganda eleitoral, seria “um grupo politico com ideologia comunista 315 de esquerda liderado por Lula e Fidel Castro” criado na América Latina ao mesmo tempo que a “Europa se libertava do marco do comunismo”. Paralelamente ao video, reiterava a relacao petista com a Venezuela e os paises bolivarianos. A velha ret6rica do peri- go vermelho e do fantasma do comunismo. Vale lembrar que nas manifestacdes de 2015 a telacao entre comunismo e pr jd estava sendo fortemente construida Por grupos como © MBL ou o Vem para a Rua. Embora nao fosse objeto de nossas pesquisas, j4 em 2015 havia manifestantes que, se sentindo provocados pelas nossas perguntas, reagiam aos Ppesquisadores, talvez tentando legitimar as respostas que davam com comenté- rios como “a Rede Globo é comunista” ou diziam que 0 entao mi- nistro da Fazenda, Joaquim Levy, queria implementar um regime econdmico comunista no Brasil. Em 2018, a narrativa do perigo da bolivarianizagao da politica, a demonizacao da Venezuela e a constru¢ao do nexo Venezuela-comunismo-rr é potencializada ao extremo. Pera ai, o pr s6 governa para os pobres. Bolsa Familia, bolsa esmola, bolsa nao sei o qué. A gente que é classe média e paga impostos, nada. Ainda sao a maior quadrilha deste pais e nos botaram na maior crise da histéria. Se eles ganharem de novo aqui vai virar Venezuela, vai virar um regime comunista e a gente vai ter de sair daqui. Vai ser um caos. [Entrevistado J., 20 anos, classe A] Mas 0 antagonismo nao é sé erguido sobre o pr. Durante a campanha de Bolsonaro, a figura do inimigo sofre um alargamen- to que contempla todo o campo progressista. A campanha cons- truiu o simbolismo de que as esquerdas seriam uma categoria polissémica que abrangia ativistas pelos direitos humanos, profes- sores e manifestantes. Em grupos de WhatsApp, em conversas 316 entre bolsonaristas e nas préprias redes sociais do mai ou do Bol- sonaro era muito recorrente ler ou escutar que esses grupos seriam um “bando de vagabundos”, que “mamam das tetas do Estado” e “querem direitos para bandidos’, na légica binaria do cidadao de bem, que se encaixa nos padrées conservadores e meritocraticos, e 0 bandido, todo aquele que se opée a essa figura. Professores si0 atacados pelo mat, por seguidores de Bolsonaro, por deputados do PSL porque estariam doutrinando os alunos e transformando as salas de aula em palanque poljtico. E a légica do Escola Sem Parti- do: um ensino neutro, fii desideologizado frente a perversao politica e partidaria das salas de aula, O anti-intelectualismo é um assunto que se destacou muito na campanha. Professores e intelectuais, assim como politicos, sio intermediadores cujo papel é colocado em questionamento. Por que devo aceitar uma politica conduzida por politicos profissio- nais? Por que devo aceitar verdades cientificas e académicas vali- dadas por intelectuais? Ea negacao daqueles que tradicionalmente atuaram como mediadores entre os individuos, o conhecimento e a participagao politica. A candidatura de Bolsonaro foi erguida e potencializada na negacao das diferencas politicas e na moralizagao do debate puibli- co, apresentando os adversérios como inimigos nao sé de ordem politica, mas também de ordem moral e religiosa. E a politica da inimizade. O outro é 0 negativo absoluto, o mal, aquele que amea- a minha forma de existéncia e, portanto, deve ser exterminado. Obviamente se trata de apelo continuo ao medo e de manipulagao dos afetos negativos como instrumento politico. Nesse sentido, Para atacar 0 campo progressista e académico, vale todo tipo de investida, mas preferivelmente as morais, como apresentar esses atores como aqueles que negam a possibilidade de existéncia da familia tradicional crista (questdes envolvendo sexualidade, e fre- quentemente sexualidade infantil, foram muito eficazes). A hist6- 317 ria nos ensina como é efetiva em muitos momentos a instrumen- talizagao das represses e dos medos sexuais. As esquerdas sao uma ameaga nao s6 para a ordem social e para 0 modelo que as relagdes sociais deveriam seguir, mas também para a prépria inte- gridade de nossas criangas. Quem nao teria medo desse perigo? Eles querem acabar com a familia, ensinar a crianga a ser gay na escola. £ uma crise moral e de valores que nao vou permitir. [Entrevistada A., 52 anos, classe C] Esse ataque frontal ao campo progressista inclui também o ataque as denominadas pautas identitarias. Os avancos nos cam- pos politico, social e cultural durante as décadas dos movimentos feminista, LGBT € negro sao inegaveis. O idedrio saudosista mascu- lino da familia tradicional heteronormativa e patriarcal esta sob ataque. Nesse sentido, para muitos dos votantes de Bolsonaro, rr, professores, manifestantes, feministas, todos formam parte de uma estrutura social e politica que desestabiliza as hierarquias sociais classicas e, portanto, coloca em risco as categorias sociais tradicionais que muitos utilizam para ordenar seu mundo: indivi- duos que se sentem agredidos quando duas pessoas do mesmo sexo se beijam na rua ou quando observam que a visibilidade das pautas feministas é cada vez mais cotidiana. E a revolta do homem branco heterossexual que enxerga privilégios demais nas lutas identitarias. Se vocé for mulher tem privilégios, se for gay também, se for negro. E a gente? Se voce for homem e macho ninguém nem esté ai para voce. [Entrevistado J., 39 anos, classe B] Seguindo esse raciocinio, chamam a atengéo mulheres e LGBTS que declaram seu voto em Bolsonaro. Vale a pena explicar melhor — 318 esses casos. Existe entre eles uma evidente minimizacao do discur- so misdgino e LGBrfSbico de Bolsonaro. Ele estaria, simplesmente, “brincando” ou “exagerando”. A liberdade de expressio se coloca como direito inalienvel contra uma suposta ditadura do politica- mente correto dos movimentos identitarios. Por outro lado, as falas dessas pessoas esto permeadas de uma absoluta rejeicao aos movimentos porque estes seriam exagerados, violentos, causado- res de problemas, exibicionistas,demais. Os movimentos seriam os culpados das opressdes aja ees buscam combater. Ha ainda um menosprezo pela luta coletiva que nao garante a conquista de mais direitos em prol do esforco pessoal e da meritocracia: Bolsonaro as veres exagera, como ele é tao sincero, fala um pouco demais e brinca, mas nada a ver, ele quer 0 melhor para nés mulhe- Tes, $6 que ele nao fala o que a imprensa quer ouvir. Eu sei que a mulher ndo tem os mesmos direitos que o homem, mas eu sou an- tifeminista, As feministas s6 querem privilégios, so umas loucas, agressivas. Elas criam mais problemas dos que jé temos. Elas divi- dem o mundo entre homens e mulheres. Se a gente quiser direitos iguais, tem de trabalhar e se esforcar, é isso. [Entrevistada C., 50 anos, classe B] CONCLUSOES Jair Bolsonaro nao s6 sera 0 novo presidente do Brasil. A bolsonarizagao da sociedade é um fendmeno complexo e multifa- torial que irrompeu nossa realidade com muita forca. Elementos que sao altamente corrosivos para a democracia, como a retorica antissistema e a instrumentalizagao dos anseios de renova¢do po- litica, o louvor a uma justica messinica, o antipartidarismo, a vi- sao do adversario politico como inimigo a ser aniquilado, o anti- 319 -intelectualismo, foram fundamentais na vit6ria de Bolsonaro. Uma candidatura construida na negacao das diferengas e na exal- tacdo de um pensamento unico e brutalizado. O paradoxo em que nos encontramos hoje é que ao mesmo. tempo que a extrema direita no mundo impoe um processo desci- vilizatério, ela esta se colocando como alternativa de futuro para muita gente. Ao mesmo tempo em que se constréi com base em negag¢6es politicas, esta fazendo com que muitos individuos se sintam empoderados politicamente porque nao se apresenta como elitista e sim como popular, fazendo apelos continuos a suas bases e a sua militancia e se dirigindo as massas que foram aban- donadas pelo sistema politico tradicional. A esperanga e as respos- tas, para muitos, nao vém mais da mao dos campos das esquerdas e direitas tradicionais, da social-democracia. Encontra-se diante dos nossos olhos um desafio gigantesco. S6 nao o enxerga quem nao o quiser ver. O fenémeno Bolsonaro e a extrema direita mundial, com suas candidaturas enormemente esvaziadas de propostas programaticas e arquitetadas na politica da inimizade e do grito, tém uma forga simbélica enorme, estao mobilizando valores de forma inegavelmente eficaz. A extrema direita seduz porque comunica com aspectos emocionais. Num momento mundial extraordinariamente complexo, em que a maioria das pessoas sente uma evidente inseguranga existencial, a comunicagao afetiva é um potente motor politico. No Brasil, um pais cujas feridas historicas nao foram fechadas, Bolsonaro conse- gue mobilizar essas cicatrizes, os ressentimentos, as raivas, as an- gtistias ontolégicas de muitos. Nesse sentido, a extrema direita est trazendo a politica de volta porque faz a disputa de imagina- rios e subjetividades, coloca a emogao no centro do debate. Ocampo da politica institucional, inclusive a esquerda, ficou muito atrelado a forca motriz da governabilidade que coloca a politica refém das tarefas didrias da negociacao, da administracao, 320 do cotidiano da burocracia, da logistica do poder. A extrema direi- ta, com sua proposta incivilizada, nos lembra que as forgas demo- craticas nunca deveriam ter deixado de lado a disputa pelos sim- bolismos, os valores e as subjetividades, e pelas formas de entender estar no mundo. Ela comunica com os valores da nega¢ao, com 0 medo, com 0 6dio, com a incapacidade de enxergar 0 outro como ser humano, com os fascismos do cotidiano. O campo democrati- co deve entender que todos esses afetos formam parte do ser hu- mano, de sua forma¢ao como sujeito politico, e deve também dialogar com eles, mas da perspectiva da construgao do processo civilizatério, incluindo no debate a poténcia dos afetos positivos e criativos como a esperanga, a tblerancia ou a possibilidade de uma vida em conjunto. Ele deve sair da politica da mediocridade e re- cuperar a politica como forga que pensa e move o mundo. Se nao 0 fizer, a légica antissistema e antipartidaria sempre seré eficaz,ea captura das emo¢ées por projetos politicos antidemocraticos sempre ser viavel. ESTHER SOLANO € professora de relag6es internacionais da Universidade Federal de Sao Paulo (Unifesp). NOTA 1.“A politica das ruas: Protestos em Sao Paulo de Dilma a Temer”, Novos Estudos Cebrap, Sao Paulo, ntimero especial, pp. 49-58, jun. 2017. 321

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