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CP5 – CONVICÇÃO E

FIRMEZA ÉTICA – DR2


Entidade Formadora: Terciforma - ECP

Curso: EFA Apoio à Gestão / Vendas

Módulo: Cidadania e Profissionalidade

Carga horária: 13h

Designação do Manual: CP – Convicção e Firmeza Ética – DR2

Destinatários: Activos e ou desempregados que pretendam adquirir competências ao


nível do 12.º ano.

Tipo de Manual: De apoio à aprendizagem

Objectivos do Manual: Permitir aos formandos adquirir competências de Cidadania e


Profissionalidade – Códigos de ética e padrões deontológicos

Formadora: Helena Baptista (Dra.)


CP5 – Convicção e Firmeza Ética
DR2 – Códigos de ética e padrões deontológicos
Helena Baptista (Dra.)

Índice Pág.

1- Os códigos de ética pessoal e a deontologia profissional 4

2- O papel das normas de conduta profissional na definição da deontologia de uma profissão 16

3- Relação entre as normas deontológicas e a responsabilidade social de um grupo profissional 19

4- Dinâmica entre a responsabilidade profissional e os diferentes contextos sociais 23

5- Actividade Final 23

6- Anexo: Código Deontológico dos Médicos 24

Bibliografia e Netgrafia:

1. Abbagnano, N. Dicionário de filosofia. São Paulo : Martins Fontes, 1998. p.380.


2. Arruda, M., “Código da Ética”, Lisboa: Negócios Editora,
Editora 2001.
3. Camargo, Marculino, Fundamentos de Ética Geral e Profissional, Editora Vozes, 1999.
4. Cañas-Quirós, R.,, Ética general y ética profesional, Revista Acta Académica, Universidad Autónoma de Centro
América, 23, 1988.
5. r.), Uma Mesma Ética Para Todos,
Changeux, Jean-Pierre (dir.), Todos, Lisboa, Instituto Piaget, 1997.
6. Jacomino, Dalen,
n, Você é um Profissional Ético?,
Ético? São Paulo, Você S.A., 2000.
7. Kung, Hans, Ética no Tempo da Globalização, Conferência na Fundação Calouste Gulbenkian, Publicações
“Terraço”, 1999, pp. 39-40.
8. Nascimento, Eunice et al, Da Ética à Utopia em Educação. Colecção Biblioteca de Filosofia n. º9. Porto, Edições
Afrontamento, 2004.
9. Reimão, Cassiano Maria (Coord.), Ética e Profissões: desafios da modernidade: actas de Colóquio. Colecção
C
Ensaios, Lisboa: Universidade Lusíada Editora, 2008.
10. Silva,, Marcos Fernandes Gonçalves, Para que Servem os Códigos de Ética? São Paulo, 2002.
11. Singer,, Peter, Ética Prática, Lisboa, Gradiva, 2002.
12. www.ordemdosmedicos.pt

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DEONTOLOGIA E PRINCÍPIOS ÉTICOS

Códigos de ética e padrões deontológicos

Competência: Articular responsabilidade pessoal e profissional, adoptando normas deontológicas e


profissionais.

Conceitos-chave:
chave: deontologia, códigos de ética; conduta profissional, dever.
 Os códigos de ética pessoal e a deontologia profissional: da “ciência dos costumes” ao conjunto de
deveres, princípios e normas específicos de um grupo profissional.
 O papel das normas de conduta profissional na definição
definição da deontologia de uma profissão.
 Relação entre as normas deontológicas e a responsabilidade social de um grupo profissional.
 Dinâmica entre a responsabilidade profissional e os diferentes contextos sociais

Objectivos:

− identificar deontologia e normas


norm profissionais;

− reconhecer valores de referência em organizações distintas;

− actuar criticamente sobre práticas/posturas sociais articulando responsabilidade pessoal e profissional.

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1. Os códigos de ética pessoal


pessoa e a deontologia profissional

Deontologia e ética

Para a civilização grega a deontologia


eontologia seria
ser o tratado do dever, ou o conjunto de deveres, princípios regras ou
normas adoptados com um fim determinado – regular ou orientar determinado grupo de indivíduos no âmbito de uma
actividade laboral, para o exercício de uma profissão.
A par desta ideia de tratado, associado à regulamentação de uma profissão está
está implícita uma certa ética,
aquilo a que posteriormente viria a ser entendido como a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade.
A Ética, igualmente com raízes na civilização grega, é uma
uma palavra proveniente de ethos, que, em grego,
significa modo de ser.
Na convicção de que a ética é a teoria, ou ciência do comportamento moral do homem em sociedade, como
tem vindo a ser entendido por alguns filósofos, não poderíamos reduzi-la
reduzi a um conjunto
nto de normas e prescrições que
de certo modo pudessem influir ou condicionar essa mesma vivência.
Ao aceitarmos que a ética é caracterizada como um conjunto de regras a orientar o relacionamento humano
no seio de uma determinada comunidade social, poderíamos
poderíamos admitir a conceptualização de uma ética deontológica,
uma ética voltada para a orientação de uma actividade profissional.
Deste modo, ter-se-ia
ia uma dimensão ética de uma profissão, ou seja, o mesmo seria dizer que teríamos uma
moral direccionada a um comportamento funcional ou profissional do homem na comunidade social em que se insere.
Para alguns estudiosos destas matérias, a ética não se resume unicamente à vertente interna do homem, ela é
muito mais complexa, até porque reduzir o homem ao ser biológico
bio é reduzi-lo
lo a quase uma insignificância. Na visão de
alguns autores a ética apresenta-se
se como uma exigência, na medida em que a sua realização depende da nossa
racionalidade, isto é, que a conheçamos e orientemos toda a nossa actividade segundo uma certa moral,”(…)o
moral ético não
é algo estranho ao homem, mas algo que faz parte da sua própria natureza(…)”.
Assim, poderíamos dizer que a ética não envolve apenas um juízo de valor sobre o comportamento humano,
mas determina em si, uma escolha, uma direcção,
direcção, a obrigatoriedade de agir num determinado sentido em sociedade.
Se por um lado, essa obrigatoriedade encerra uma escolha que não é, nem pode ser fruto de arbitrariedade,
ela é a expressão máxima de um conjunto de valores adquiridos pelo simples facto da vivência do homem na
sociedade.
Por outro lado, a deontologia
eontologia enquadrar-se-ia
enquadrar ia num quadro de valores, de regras, no sentido de orientar,
disciplinar a actividade do homem – visava, implicitamente, estabelecer um quadro normativo que pudesse regular
essa vivência
ivência do homem em sociedade, diga-se
diga se vivência profissional, na medida em que procurava estabelecer normas
direccionadas à actividade profissional sob o signo da rectidão moral, ética e honestidade.
Deste modo, a deontologia
eontologia partia do pressuposto de que a vida profissional não era alheia à ética, uma vez que
a ética encerrava em si a ideia de valor, de rectidão, do agir segundo um determinado quadro de valores, valores esses

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fundamentais quer do ponto de vista interno – da moral, da sua própria concepção enquanto homem, quer externo, na
relação social e do bem-estar da colectividade.
Assim, garantindo esse princípio, de que a vida profissional se enquadrava, também ela, nas normas éticas e
morais, a deontologia
eontologia profissional elaborou um conjunto de normas no sentido de orientar essa mesma actividade
profissional.
Em última análise, diríamos que ética
é e deontologia
eontologia são da mesma essência, na medida em que, de forma mais
abrangente a ética elabora os princípios morais, subjacentes a todo o comportamento humano
human em sociedade,
enquanto a deontologia,
eontologia, num círculo mais restrito, seria a dimensão ética de uma profissão ou de uma actividade
profissional.

Códigos de ética e deontologia profissional

Os códigos de ética são dificilmente separáveis da deontologia profissional,, pelo que é frequente os termos
ética e deontologia serem utilizados indiferentemente.
► Deontologia – Ciência do dever,
dever o tratado do dever ou o conjunto de deveres, princípios e normas
adoptadas por um determinado grupo profissional. A deontologia
deontologia é uma disciplina da ética especial adaptada ao
exercício de uma profissão.
► Conduta: a significação de procedimento
► Código: compilação metódica e articulada de disposições relativas a um assunto. Reunião de preceitos de
qualquer género.

Ética e Códigos de Conduta – Para Quê?

Os códigos de conduta têm vindo a merecer crescente atenção nos últimos anos. Na realidade actual da vida
empresarial a ética pessoal e profissional reveste-se
reveste se de particular relevância: de todos quantos colaboram numa
empresa,
a, ou num grupo empresarial, respeitando, mediante uma adequada conduta, a deontologia do sector em que
operam, e regendo a sua conduta por princípios que respeitem os valores que permitam uma correcta actuação da
empresa na sociedade em que está inserida.
As empresas em geral devem pois operar com políticas e procedimentos consistentes com os valores e os
padrões de conduta que defendem e que determinam a sua orientação estratégica e o seu comportamento no mundo
dos negócios.
Os códigos de conduta ou códigos
códigos éticos são mais que um guia para o comportamento dos empregados.
Definem a filosofia da empresa perante terceiros.

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Códigos Deontológicos

Existem inúmeros códigos de deontologia, sendo esta codificação da responsabilidade de associações ou


ordens profissionais.
rofissionais. Regra geral, os códigos deontológicos têm por base as grandes declarações universais e esforçam-
esforçam
se por traduzir o sentimento ético expresso nestas, adaptando-o,
adaptando o, no entanto, às particularidades de cada país e de cada
grupo profissional.
Para além
lém disso, estes códigos propõem sanções, segundo princípios e procedimentos explícitos, para os
infractores do mesmo. Alguns códigos não apresentam funções normativas e vinculativas, oferecendo apenas uma
função reguladora.
Ética empresarial: Compreende o conjunto das regras e princípios que definem o comportamento no mundo
dos negócios definindo o que é negócios, aceitável ou inaceitável.

Ética Organizacional

As organizações têm a obrigação de responder pela conduta dos seus colaboradores e por todas as decisões e
resultados da sua acção.
A organização é responsável perante a sociedade (no seu todo) pela qualidade e impacto da sua acção.
As decisões e conduta colectiva das organizações devem basear-se
basear se nos princípios da visibilidade e
transparência.
Há estudos que evidenciam a correlação entre comportamento ético e:
• Confiança intra-organizacional
organizacional
• Envolvimento com a “Qualidade”
• Satisfação dos clientes
• Envolvimento organizacional dos colaboradores
• Aceitação da comunidade
• Proveitos

Código de Ética

É geralmente um documento escrito que enuncia os princípios de conduta esperados dos membros de uma
organização em particular (e.g. grupo profissional, empresa, associação).
• Devem ser desenvolvidos de uma forma integrada
• Devem ter a sua importância consistentemente reforçada
• Devem ter uma vertente disciplinar e orientativa
• Ser uma referência
ncia interna e para terceiros

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As determinantes
eterminantes do Comportamento Ético:
Ético
• Características individuais
• Estado de desenvolvimento moral
• Variáveis estruturais
• Cultura organizacional
• Intensidade do problema

• Estado do desenvolvimento
esenvolvimento moral
A moral das pessoas evolui sequencialmente
Não existem garantias da continuidade do desenvolvimento moral

• Variáveis Estruturais
• Design organizacional
• Códigos e regulamentos
• Comportamento dos superiores
• Sistemas de avaliação de desempenho orientados para os meios e não só para os resultados
• Sistemas de recompensa orientados para cumprimento ético e não para os resultados

• Cultura Organizacional, Oportunidade e Outros Significantes


Significa
Cultura: culturas
ulturas fortes exercem mais influência que culturas fracas.
fracas. Padrões éticos elevados
decorrem de culturas com maior controlo.
controlo
Oportunidade: situações
ituações favorecedoras de comportamentos não éticos
(ausência de controlo, formação e punição).
punição)
Outros significantes: o comportamento e apreciação dos pares, gestores, subordinados, etc.
etc

• Intensidade do Problema
Percepção que cada um tem da relevância ou importância de um determinado tema ético (reflecte a
sensibilidade individual e do grupo).
grupo)
Questões
es mais intensas desencadeiam comportamentos éticos mais fortes.
fortes.

Promovendo o comportamento ético


A Solução:
• Padrões e procedimentos (códigos de ética)
• Nível elevado de controlo
• Cuidado na delegação de poder
• Comunicação efectiva

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• Sistema para monitorizar,
monitorizar auditar e reportar
• Reforço consistente
• Melhoria contínua

Normalização em Ética
Ética empresarial
APEE - Associação Portuguesa de Ética Empresarial
Sistema Português da Qualidade

A Norma Portuguesa
► NP 4460-1 – Ética nas organizações
Parte 1 – Linhas de orientação para a elaboração de códigos de ética nas organizações
► Código de ética:
Código formal que estabelece objectivos gerais de carácter ético que a organização pretende alcançar e
prosseguir, interna e externamente, atendendo às diversas partes interessadas.. É constituído pelo sistema de valores e
compromissos da organização, assumidos pelas pessoas enquanto membros da mesma.
► Código de ética funcional:
Código de ética específico de uma área funcional da organização. É constituído
constituído por compromissos específicos
inerentes às tarefas e responsabilidades dessa área funcional.
► Código deontológico:
Código aplicável a uma determinada área profissional
► Parte interessada:
Pessoas, grupos ou organizações que afectam ou são afectadas pelas actividades de uma organização. Para
além dos accionistas, as partes interessadas são do tipo interno (p. ex. os trabalhadores) e do tipo externo (p. ex.
clientes, fornecedores e subcontratados, comunidade local, entidades reguladoras, associações patronais
pa e sindicais)
► Sistema de valores:
Conjunto de valores fundamentais que norteiam a actuação da organização e a conduta das pessoas que a
integram, em consonância com a sua visão e a sua missão. Os valores representam os critérios de referência que
influenciam os princípios, a cultura, as decisões e as acções da organização.

► NP 4460-1 (2007)
Ética nas Organizações
Parte I - Linhas de orientação para o processo de elaboração e implementação de códigos
có de ética nas
organizações. Publicação: Março 2007
Introdução
1. Objectivo e campo de aplicação
2. Termos e definições

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3. Planeamento
3.1 Compromisso da Gestão
3.2 Definição de responsabilidades
3.3 Definição da visão e missão da organização
3.3.1 A sua visão
3.3.2 A sua missão
artes interessadas (internas e externas)
3.4 Identificação das partes
3.5 Definição do sistema de valores
3.6 Selecção de abordagens, métodos e ferramentas
4. Elaboração do código de ética da organização
5. Implementação e operacionalização do código de ética
6. Monitorização, verificação
ação de eficácia e melhoria contínua
7. Divulgação do desempenho ético da organização

► Visão:
Onde queremos estar como organização no futuro?
Como gostaríamos que os outros nos vissem Estamos decididos a caminhar nesse sentido?

► Missão:
Porque é que existimos?
Qual o nosso objectivo?
O que esperam as partes interessadas da nossa organização?

► Identificação das partes interessadas:


Quem recebe ou usa o que produzimos (produtos/serviços)?
Quem nos ajuda a concebê-los
los e/ou produzi-los?
produzi

► Definição do sistema de valores:


O que mais valorizamos na nossa organização?
A quem temos de prestar contas dos resultados da nossa actividade?
Quem mais é afectado pela nossa actividade?
Como gostaríamos que as pessoas interagissem no dia a dia?
Que características podem
odem diferenciar a nossa organização dos nossos concorrentes ou de outras organizações
similares?
Que atitudes fundamentais devemos premiar ou reconhecer na nossa organização?

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4. Elaboração do código de ética da organização
4.1 Relação com visão e missão da organização
4.2 Definição do âmbito de aplicação do código de ética
4.3 Auscultação das partes interessadas (internas e externas)
4.4 Definição de atributos quantificáveis para a elaboração do código
4.5 Definição de compromissos das pessoas e da organização
organ
4.6 Aceitação do código de ética
4.7 Identificação de situações-problema
problema

5. Implementação e operacionalização do código de ética


5.1 Definição do papel da gestão
5.1.1 Definição do papel da gestão na implementação
5.1.2 Concepção de um sistema de reconhecimento
r de boas práticas
5.2 Definição de indicadores e metas para o desempenho ético da organização
5.3 Processo de comunicação interna e formação
5.4 Processo de comunicação externa
5.5 Recolha, registo e tratamento de preocupações /situações-problema/denúncias.
/situações ema/denúncias.

6. Monitorização, verificação de eficácia e melhoria contínua


6.1 Definição de sistemas de auditoria e controlo
6.1.1 Registos
6.1.2 Auditoria interna
6.1.3 Outros mecanismos de verificação
6.2 Mecanismos de melhoria contínua
6 3 Revisão pela
la Gestão de topo

7. Divulgação do desempenho ético da organização


7.1 Divulgação a nível interno
7.2 Divulgação a nível externo

Ética nos Negócios


Para Crescer é necessária especialização, a especialização requer transacções e estas exigem confiança: nas
pessoas e nas instituições.
A ética
tica é não só boa em termos de princípios mas também para criar riqueza…

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Ainda a saber…
Um código de ética pode ser definido como um documento escrito, formal que enuncia diversos padrões
morais tendo em vista orientar e inspirar os comportamentos dos seus colaboradores.
Existem inúmeros códigos de deontologia, sendo esta codificação da responsabilidade de associações ou
ordens profissionais. Regra geral, os códigos deontológicos têm por base as grandes declarações universais
univ e esforçam-
se por traduzir o sentimento ético expresso nestas, adaptando-o,
adaptando no entanto, às particularidades de cada país e de cada
grupo profissional. Para além disso, estes códigos propõem sanções, segundo princípios e procedimentos explícitos,
para os infractores do mesmo.
Como elaborar e aplicar um código de ética?
O simples facto de se elaborar um código de ética não é suficiente. Ele precisa de ser feito sob medida para as
áreas funcionais da empresa (marketing, finanças, recursos humanos) ou para
para a sua principal linha de negócios.
1. Especificidade
Devem dar exemplos específicos aos colaboradores a fim de que estes possam determinar exactamente se as
suas acções violam as normas ou não.
2. Publicidade
Devem ser documentos públicos de todas as partes interessadas para que possam consultá-los
consultá e/ou verificar o
compromisso da empresa com práticas equitativas e éticas.
3. Clareza
Devem ser claros, objectivos e realistas a respeito das punições previstas para aqueles que as violam.
4. Revisão
Devem ser periodicamente
ente revistos.
São documentos vivos que precisam de ser actualizados a fim de reflectir problemas actuais.
5. Obrigatoriedade
É preciso que haja alguma forma de fazer cumprir os códigos.

Os colaboradores devem participar na elaboração do código. Não é necessário que todos sejam ouvidos
individualmente, mas que a todos seja concedida a oportunidade de participarem se assim o desejarem.

Ética e valores

Falar de ética e de valores é tarefa difícil. Já disse o filósofo e teólogo Hans Kung, responsável pelo projecto de
elaboração da Declaração das Religiões para uma Ética Global:
“Existem dois princípios básicos que se encontram em todas as religiões e tradições filosóficas. Em primeiro
lugar, todos os seres humanos têm de ser tratados de forma humana, verdadeiramente humana. (…) Não de maneira
desumana ou bestial. (…) O segundo princípio,
princípio, já encontra Confúcio, cinco mil anos antes de Cristo: «o que não
queremos que nos seja feito, não façamos aos outros.» Isso também é válido para as relações entre as nações, entre os

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grupos sociais, entre os grupos étnicos, e que poderia até mudar o ambiente em todos os locais de trabalho. Mudaria o
ambiente em todo o lado, se se tivesse esta regra de ouro escrita na parede e no coração.”
Hans Kung, Ética no Tempo da Globalização, 1999, Publicações “Terraço”.
“Terraço”

Reflectindo…
unciar à sua tábua de valores (ética pessoal), que é fruto de uma construção pessoal
Embora não possa renunciar
tendo em consideração uma série de variáveis, o homem enquanto profissional tem que se consciencializar que, hoje
em dia, o trabalho implica dimensões morais e relacionais.
relacionais Por outras palavras, o trabalho implica, em simultâneo, um
desempenho intelectual e um desempenho técnico, relacional e moral, exigindo, desta forma, um empenhamento
cívico do profissional e o seu compromisso com os outros. Em suma, para além de especialista
especial de uma área, todos
somos agentes de desenvolvimento humano. Por conseguinte, entre a ética pessoal e a ética profissional tem que
existir uma ponte de modo a garantir que a pessoa que trabalha regule a sua acção pelos valores sociais que assume
como bons,
ons, valores civilizacionais, antes de tudo. Assim se cumpre a função social no trabalho.
trabalho Nesta perspectiva,
existe uma relação harmoniosa entre a ética pessoal e a ética profissional.
Mas o conflito também está sempre presente. Ele ocorre em relações próximas e/ou interdependentes em que
existe um estado de insatisfação entre as partes. Contrariando a perspectiva negativa e pessimista do conflito,
presentemente este é encarado numa perspectiva positiva, porque a vivência e a ultrapassagem de conflitos
correspondem a processos de desenvolvimento pessoal e grupal/profissional. Depois de ultrapassados, favorecem o
aparecimento de respostas mais adequadas, adaptadas. Neste sentido, a mediação e a negociação são meios a que
podemos recorrer para ultrapassar os conflitos. O trabalho colaborativo será uma das possíveis estratégias que poderá
contribuir para se estreitar a relação entre a ética pessoal (sem nunca a abolir) e a ética profissional, que já não é a
minha ética (solitária), mas a ética de grupo (cooperativa).
(coop

Os valores

“Nem só de pão vive o homem”. Moisés. Os valores regem a acção humana. Faz parte integrante do ser
humano a tendência para preferir uns objectos em detrimento de outros. A existência humana insere-se
insere num campo de
possibilidades e escolhas
has a que os desejos atribuem maior ou menor preferência, ou aos quais o espírito confere mais
ou menos sentido. Escolher uma possibilidade em detrimento de outras é atribuir uma ordem de preferência às coisas.
Por exemplo, escolher participar numa angariação
angariação de fundos em favor das vítimas do maremoto asiático significa que
estamos a atribuir uma grande importância à solidariedade, isto é, que a nossa acção está a ser orientada pelo valor da
solidariedade. Os valores fornecem a justificação
just para as nossas acções.

Juízos de valor/ juízos de facto

Estes juízos de valor, que inevitavelmente formulamos na vida quotidiana, distinguem-se


distinguem dos juízos de facto.
Os juízos de facto são descritivos e são verdadeiros ou falsos em função da realidade, independentemente do que as
pessoas pensam. Os factos são comprováveis e susceptíveis de um consenso universal. Por seu turno, os juízos de valor

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nem sempre são independentes das crenças ou gostos de quem os formula. Essa formulação pode ainda revestir um
carácter parcialmentee normativo quando contém de um modo tácito uma indicação de como devemos avaliar as coisas.

Hierarquização dos Valores

Não atribuímos a todos os nossos valores a mesma importância. Na hora de tomar uma decisão, cada um de
nós, hierarquiza os valores de forma muito diversa. A hierarquização é a propriedade que tem os valores de se
subordinarem uns aos outros, isto é, de serem uns mais valiosos que outros. As razões porque o fazemos são múltiplas.
Exemplo: A maioria da população mundial continua a sofrer graves
graves carências alimentares. Todos os anos morrem
milhões de pessoas por subnutrição. Portanto, é natural que na hierarquia dos seus valores destas pessoas a satisfação
das necessidades biológicas surja em primeiro lugar.

Polaridade dos Valores

Os nossos valores
alores tendem a organizar-se
organizar se em termos de oposições ou polaridades. Preferimos e opomos a
verdade à mentira, a justiça à injustiça, o bem ao mal, a beleza à fealdade, a generosidade ao egoísmo. A palavra valor
costuma apenas ser aplicada num sentido positivo.
positivo. Embora o valor seja tudo aquilo sobre o qual recaia o acto de estima
positiva ou negativamente. Valor é tanto o bem, como o mal, o justo como o injusto.

Argumentação contra o relativismo dos valores:

Os valores permanecem de época para época e de cultura


cultura para cultura. No entanto, estão sempre sujeitos à
mudança, variam no espaço e no tempo.
A partir desta tendência para a mudança podemos concluir que os valores são estritamente relativos a cada
cultura e não existe a possibilidade de acordos universalmente válidos? Não. Se todos os valores fossem válidos não
poderíamos condenar a escravatura, a tortura ou a pena de morte. Se todos os valores fossem válidos, com que
critérios poderíamos dizer que um par de botas vulgar teria mais valor do que a Gioconda de Leonardo da Vinci? Ou
ainda, com que legitimidades poderiam a NATO ou a ONU interferir na guerra do Kosovo? De facto, há valores mais
válidos e amplos do que outros. Há valores que resistem à variedade de culturas e ao próprio tempo.
Ao analisarmos a Declaração
eclaração universal dos Direitos do Homem, podemos verificar que há critérios valorativos
intersubjectivos fundamentados na realização e integridade da pessoa humana.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem,


Homem, aprovada pela ONU, em 1948, consagrou no plano
pl mundial
um conjunto de valores essenciais que servem simultaneamente de ideal à acção humana e de critério para definir o
enquadramento legal dentro do qual os Estados podem legislar, julgar e actuar. Estes valores são assumidos como
universais, fruto de um acordo intersubjectivo. Neste sentido, apesar da diversidade das culturas e das sociedades, esta
diversidade não pode ir contra estes valores. A Declaração serve não apenas para julgar as acções humanas, mas
também para avaliar e julgar a acção dos diferentes Estados em relação aos seus cidadãos, configurando também um

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modelo de uma sociedade global, livre e democrática. Entre os valores da Declaração destacamos os seguintes: – a
Pessoa como um valor em si, a Dignidade Humana, a Liberdade, a Igualdade,
Igualdade, e a Fraternidade.

Os valores são fruto de um consenso intersubjectivo

Podemos concluir que os valores não são objectivos (no sentido de propriedades de objectos) nem subjectivos
no sentido de variáveis e aceitáveis consoante os sujeitos que os formulam,
formulam, mas intersubjectivos. Há valores que
resistem ao espaço e ao tempo e que constituem fundamentos sólidos para as nossas acções. De facto, há consenso
universal sobre valores essenciais para a humanidade integralmente considerada.

Faça corresponder os espaços


paços numerados com as alíneas de modo a formar afirmações verdadeiras:

O mal é um valor .

A beleza é um valor .

A saúde é um valor .

O sagrado é um valor .

A habilidade é um valor .

a) religioso; b) útil; c) moral; d) estético; e) vital.

Das questões que se seguem escolha a alínea que melhor responde ao problema:

1. Valorar é:

a) Retirar sentido à realidade.

b) Atribuir um sentido aos objectos que eles já contêm previamente em si.

c) Conferir
ir um horizonte de sentido à existência humana.

2. Dado o seu carácter hierárquico:

a) Os valores estão dispostos de uma forma única válida para todos os homens.

b) Cada pessoa estabelece para si própria uma dada escala de valores.

c) Os valores espirituais
ais podem estar satisfeitos independentemente dos valores vitais.

3. Valores são:

a) Os títulos da Bolsa de Valores de Lisboa.

b) Relações entre coisas.

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b) Tudo aquilo a que atribuímos importância.

Na Pirâmide de Maslow…

Valores Religiosos:

Divino / Demoníaco

Valores espirituais:

Bom / Mau; Justo / Injusto; Belo / Feio

Valores úteis:

Caro / Barato, Abundante / Escasso; Necessário / Supérfluo

Valores vitais:

São / Doente; Enérgico / Inerte; Forte / Débil

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2. O papel das normas de conduta profissional na definição da deontologia de uma profissão.

Normas profissionais

rofissionais é assegurar a boa qualidade da prestação profissional levando em conta


A finalidade das normas profissionais
os constrangimentos físicos e psíquicos inerentes ao exercício da profissão. Ass normas profissionais descritas nos
respectivos códigos deontológicos regem e controlam em absoluto toda a actividade laboral. Sem essas normas
devidamente legisladas, o consenso, o entendimento, o respeito mútuo e até o resultado produtivo de todas as
organizações, estaria aquém daquilo que todos nós desejaríamos.

Porque todo o trabalho é digno e independentemente da designação, tem uma dupla dimensão – ninguém é
profissional para si próprio, toda a profissão possui uma dimensão social, de utilidade comunitária, que suplanta a
concreta dimensão individual, ou o mero interesse particular. Não vivemos isolados, e o velho aforismo “com o mal dos
outros posso eu bem”, não só traduz um mesquinho egoísmo, como está profundamente errado. De que servirá a
riqueza numa sociedade de miséria?
Dignificar o trabalho, dignificando o homem na sua globalidade, é integrá-lo
lo na “civitas”, como ser livre,
participativo e responsável, em conformidade com os art.os 23 e 25 da Declaração Universal dos Direitos do Homem,
que nunca o esqueçamos, constitui um direito interno de harmonia com o estipulado nos art.os 8 e 16 da nossa
Constituição.
eontologia entendemos o conjunto de deveres exigidos aos profissionais, uma ética de obrigações
Se por deontologia
para consigo próprio,
o, com os outros e com a comunidade, parece evidente que todas as profissões implicam uma ética,
pois todas se relacionam directa ou indirectamente com os outros seres humanos. Claro que existem diferenças entre a
relação indirecta, actividades que lidam com
om os objectos, e a relação directa, profissões que trabalham com pessoas,
como sejam advogados, psicólogos, professores ou assistentes sociais. É que nestas actividades, a maior parte das
normas profissionais, assumem uma dupla natureza, são técnicas e são éticas.
Há em todas as profissões exigências
xigências éticas:
éticas consciência
onsciência dos valores hierárquicos,
hierárquicos sentido de disciplina,
disponibilidade, pontualidade, assiduidade
ssiduidade, etc, mas também factores deontológicos: a capacidade
c de organização,
sentido de antecipação, capacidade de realização profissional, boa cultura geral, facilidade
acilidade de expressão
ex oral e
escrita, criatividade, polivalência, facilidade
acilidade nas relações interpessoais, sigilo profissional,
profissional vivência do sentido da
solidariedade social, sentido
do da obrigação da competência.
competência Qualquer profissional tem igualmente exigências em relação
a si próprio/a e às suas funções,, como: as competências,
c aptidões, responsabilidade
esponsabilidade na tomada
tomad de decisões e acções,
uso dos conhecimentos e experiências no sentido da produtividade, objectividade (análise racional dos factos). Para
além dessas, não devemos esquecer as exigências
e em relação aos colegas de trabalho,, nomeadamente o respeito pela
dignidade da pessoa humana, a valorização
alorização pessoal e profissional dos colegas,
cole consideração
onsideração por sugestões, problemas
e necessidades dos outros e o exercício
xercício da liberdade com responsabilidade no trabalho.
trabalho Ainda as exigências em relação

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Helena Baptista (Dra.)
à organização: participação
articipação nos objectivos da organização, promoção do desenvolvimento da imagem
ima da organização,
uso correcto de materiais e equipamentos,
equipamentos discernimento
iscernimento de julgamento em eventuais situações de conflito, sigilo
profissional. Por último as exigências
igências em relação ao público externo:
externo respeito e confiança,, respeito pelo princípio
p da
livre concorrência, comunicação
omunicação bilateral.
bilateral

Ética profissional

Como é posta em prática a ética na profissão?


profissão Muitas vezes, somos nós próprios, na nossa profissão, a
furtarmo-nos a um bem tão precioso como é a ética no relacionamento com os outros. Contabilizamos
Contab as nossas
expectativas sempre no intuito de obter ou reaver, sem qualquer forma desinteressada, o bem próprio. Cultivamos um
certo padrão de importância e pretendemos um trato especial, pensamos que a ética é um papel a executar não por
nós, mas pelos outros.
É isto que acontece de forma tão disfarçada, que nem tomamos verdadeira consciência quando recorremos a
subterfúgios, para justificarmos a ética que praticamos na profissão. Esta aparece desmedidamente destituída de
códigos éticos, morais e deontológicos
ontológicos específicos porque se usam pretextos que reflectem atenção excessiva à própria
pessoa, predominando os interesses pessoais.
Todos os cidadãos, enquanto seres gregários, devem ser capazes de reconhecer princípios de conduta
essenciais à vida em comunidade. De outra forma, seria impossível a vida em sociedade. Mesmo não tendo
conhecimento da Constituição da República Portuguesa ou da Constituição Europeia, qualquer cidadão Português ou
Europeu reconhece que existe um conjunto de princípios de conduta
conduta aos quais está necessariamente obrigado, de
entre os quais podemos salientar o princípio da liberdade de pensamento, de expressão, política ou religiosa.
De igual modo, dentro da sociedade, existe um conjunto de profissões e instituições com as quais cada
c cidadão
se relaciona ou das quais faz parte e que estão igualmente gizadas por princípios básicos de conduta. Dentro das
instituições poder-se-iam
iam destacar: os escuteiros, os bombeiros e, dentro das profissões: os professores, médicos e
advogados...
berá a cada um de nós dar um novo ânimo à lei moral, fazendo das acções humanas um eco de
Caberá
responsabilidade e de respeito pelos outros e pela comunidade onde estamos inseridos.
Existem códigos deontológicos com carácter normativo e vinculativo, ou seja, que obrigam os profissionais de
determinada actividade a cumprir com rigor os princípios estabelecidos. Por outro lado há códigos deontológicos cuja
função principal será a regulação profissional sendo exclusivamente um instrumento consultivo.

Existem então inúmeros códigos de deontologia, sendo esta codificação da responsabilidade de associações ou
ordens profissionais. Regra geral, os códigos deontológicos têm por base as grandes declarações universais e esforçam-
esforçam
se por traduzir o sentimento ético expresso nestas, adaptando-o,
o, no entanto, às particularidades de cada país e de cada
grupo profissional. Para além disso, estes códigos propõem sanções, segundo princípios e procedimentos explícitos,
para os infractores do mesmo. Alguns códigos não apresentam funções
funções normativas e vinculativas, oferecendo apenas

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uma função reguladora. Embora os códigos pretendam oferecer uma reserva moral ou uma garantia de conformidade
com os Direitos Humanos, estes podem, por vezes, constituir um perigo de monopolização de uma determinada
dete área
ou grupo de questões, relativas a toda a sociedade, por um conjunto de profissionais.

Actividade:

De entre as diferentes afirmações a seguir indicadas, relativas à deontologia, assinale as opções correctas.

• Há códigos deontológicos para todas as profissões.


• Código ético e código deontológico aplicam-se
aplicam se com o mesmo significado.
• Deontologia profissional é o conjunto de normas, na sua maioria de natureza ética, que
regulam o exercício de uma profissão.
• Todos os códigos deontológicos baseiam-se
baseiam no mesmo sentimento ético.
• Os códigos deontológicos são todos normativos e vinculativos
• Os códigos deontológicos estão sempre de acordo com a lei.
• Todos os códigos deontológicos são permanentes e imutáveis.
• É exigido aos profissionais que guardem sigilo profissional
profissional sobre os factos e os documentos
de que tomem conhecimento no exercício das suas funções.
• O exercício da profissão deve pautar-se
pautar se por padrões de honestidade e boa fé.
• Os profissionais devem aceitar apenas os trabalhos para os quais se sintam aptos a
desempenhar.
• Os profissionais deverão manter-se
manter se isentos de qualquer pressão resultante dos seus próprios
interesses ou de influências exteriores.

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3. Relação entre as normas deontológicas e a responsabilidade social de um grupo profissional

Ética e deontologia: o papel das associações/ordens profissionais

O que é a ética senão uma acção


a ção reflexiva em relação à conduta humana? A partir das concepções
apresentadas por Abbagnano (1998), a ética pode ser considerada a ciência da conduta, como estudo do “ideal para o
qual o homem se dirige” de acordo com sua natureza. De outro lado, o autor situa a ética como o estudo dos “motivos”
ou “causas” da conduta humana ou das “forças” que a determinam, pretendendo ater-se
ater ao conhecimento dos
“factos”.
estas considerações, a ética profissional pode ser entendida como o estudo da conduta humana no
Partindo destas
exercício de uma profissão, seus ideais, motivos e causas. Para falar da ética profissional é necessário fazer referência à
“deontologia”. Isso porque, deontologia é um termo mais apropriado para a discussão à volta da conduta profissional,
compreendendo-aa como um esforço para se obter uma uniformização da acção
ção dos membros de uma categoria
profissional. Uniformização não no sentido de igualar as acções,
a ções, mas sim de orientar, prescrever, controlar a conduta
dos membros da profissão, visando construir uma identidade e,
e através desta, tornar-se
se respeitado e conhecido pelos
demais membros da sociedade. A realização de um trabalho e a acção
a de um grupo dar-se-áá “como se fosse a acção de
um único indivíduo”.
A princípio a reflexão à volta do comportamento dos membros de uma categoria profissional tende a
acontecer nos diferentes espaços
paços nos quais estes membros se situam. Se a ética é uma acção
a ção reflexiva à volta dos ideais
e causas da conduta humana, portanto, uma acção
a ção própria do homem enquanto ser social, ela constrói-se
constrói em qualquer
tempo e em qualquer lugar. O modo como um determinado
nado profissional se comporta, independentemente
independente de como tal
comportamento venha a ser qualificado, dá-se
dá com base em certos princípios, a partir de um modo de ver a realidade,
e principalmente, de se ver nesta realidade. Assim, enquanto um ser humano sente
sente e pensa, é possível reflectir
refle sobre
um dado comportamento, os seus motivos e complicações,
complicações individualmente ou em grupo. Porém, considerando que
“ser profissional” implica situar-se num
um determinado contexto, o comportamento, as implicações e motivos para tal,
bem como, as reflexões à volta do mesmo dizem respeito ao grupo que esse indivíduo
indiv duo integra. Esta compreensão tem
por base as considerações de Berger e Luckmann relativas à construção social da realidade. Para esses autores, a
construção da realidade social dá-se em processos de comunicação (uso da linguagem) e interacção
intera do homem em
diferentes graus de socialização, familiar, institucional e social de um modo geral.

O desafio ético…

Ser
er humano e ser um profissional, aproxima-nos
aproxima de outras questões éticas também desafiantes. Como pautar
a acção
ção profissional com base em princípios que fundamentam documentos como a “Declaração Universal dos Direitos
Humanos”? Percebe-se
se que tais questões envolvem uma complexidade de elementos, o que torna mais complexa a
busca de respostas para um comportamento que possa ser qualificado como ético. Nesta seara encontram-se
encontram muito
mais perguntas do que respostas. Mas isso é um indicativo de que a ética é uma construção, de que as respostas, se

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existirem,
m, deverão ser construídas, e ainda assim, poderão ser refutadas sob o olhar minucioso e crítico do humano
pensante.
Na busca de respostas para um agir ético, actualmente
a encontram-se difundidas correntes filosóficas que
procuram soluções para questões éticas contemporâneas. É o caso da ética da responsabilidade, quando pensar no
futuro das próximas gerações e do meio ambiente é um imperativo.
imperativo Por outro
utro lado, abordagens como a de Emmanuel
Levinas, de uma ética da alteridade (“outro”),
(“outr , traz presente o rosto do outro, o encontro com o outro. Esta proposta
prevê a construção de uma ética a partir do encontro com o outro, numa relação responsável. Nesta abordagem da
ética, são questionados conceitos em que se propõe quebrar o individualismo
individualismo a partir do respeito e do reconhecimento
do outro. A ética da alteridade vai realizar-se
realizar a partir da relação face-a-face
face destituída de preconceitos e conceitos que
tornam o outro um objecto
to e inundam as relações inter-pessoais
inter de mecanismos de exercício de poder.
Reconhecer o outro como um sujeito de direitos, é a base da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”
proclamada em 1948 em Assembleia
ia da ONU na época composta por 48 países.
Embora algumas vezes a ética seja muito mais invocada para preservar a si próprio, para proteger-se,
proteger do que
propriamente para tratar de pensar uma construção ética que respeita o outro, que promove o bem maior para todos,
é a partir da consciência da própria ética como a possibilidade de participar das soluções para
para os desafios morais, que
há a possibilidade de se construir um agir mais responsável. Então o desafio não é tornar a ética um lugar-comum,
lugar mas
sim, compreender a sua amplitude, para procurar e participar de soluções que sejam menos destrutivas, mais
conscientes,
scientes, é mudar a visão de sua própria existência enquanto ser humano. Uma
ma abordagem ética da vida altera o
nosso sentido de prioridades, o que leva a uma reflexão sobre o próprio sentido da vida. Olhar para si, para os próprios
ideais, para os motivos que
ue nos conduzem será uma constante.
constante
A deontologia e a ética profissional servem de um lado, para controlar a acção
a ção dos membros de um grupo
profissional e, de outro lado, para orientar a sua conduta, colaborando para a formação de um grupo que se identifica e
é identificado por um modo de agir. Assim,
Assim a sustentação de uma profissão depende do conjunto dos
d seus membros,
dada a conduta de cada um.
A deontologia diz respeito aos “deveres específicos do agir humano no campo profissional”.
profissional” Algumas vezes,
como já vimos, a deontologia aparece institucionalizada em códigos de conduta, códigos de princípios, mas geralmente,
nos chamados códigos de ética profissional. A conduta ética profissional envolve os interesses do grupo, com base no
interesse em garantir a sobrevivência
vivência de cada um, os interesses de realização pessoal obtida por meio do exercício
profissional adequado, no sentido tanto de preservar, como de enobrecer a si e à profissão.
A ética compreende os fundamentos dos códigos deontológicos ou éticos porque estuda e reflecte
refle a conduta.
Tais códigos reflectem
tem o contexto de constituição da própria profissão, o modo como ela se organiza,
organiza como ela se situa
em determinada sociedade, como os seus membros se relacionam entre si e com os clientes dos seus serviços. Cabe
citar aqui que alguns autores destacam a existência de códigos deontológicos e de códigos com conteúdos éticos.

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Ass associações/ordens profissionais

Qual o papel das associações profissionais numa sociedade na qual parece imperar a lógica da competitividade
e do individualismo? A partir do momento em que um grupo de pessoas que realizam um mesmo tipo de trabalho
passa a formar um grupo, este incorpora-se
incorpora num empreendimento organizado e com
om isso, é imerso num contexto
social, político e económico.
As associações/ordens profissionais integram um quadro de elementos que configuram uma ocupação
organizada. São as associações que vão, mais directamente,
dire tentar negociar com os consumidores do
d seu trabalho (o
Estado, por exemplo), organizar instituições de recrutamento, treino
trein e colocação de empregados num mercado.
Noutros termos, as associações profissionais vão buscar a mobilidade ascendente dos
d seus membros, melhores
salários, melhoria das condições de trabalho,
rabalho, significando autonomia através do esforço colectivo,
cole representado pela
acção das entidades.
Entre os objectivos
tivos centrais das associações/ordens,
associações , está a ênfase nos bens públicos. Tal ênfase é um modo de
melhorar a imagem da profissão mostrando o valor
valor e importância dos seus membros para a sociedade
soc em função da
aplicação dos seus conhecimentos e habilidades especiais. Além disso, as associações procuram promover uma
interacção entre os seus membros estabelecendo uma unidade cultural da profissão, institucionalizando
institucionalizando códigos de
contactos,
tos, padrões educacionais e de desempenho, a defesa de mudanças e inovações. As associações estimulam os
seus membros a participar em comunidades, painéis, actividades
a tividades a partir de características comuns dos
d seus membros.
Quando uma ocupação alcança a chamada autonomia, com maior capacidade de controlar a realização e o
modo de fazer um tipo de trabalho, de controlar inclusive a oferta de trabalho que entra no mercado e a procura do
mesmo, existem maiores condições para o desenvolvimento
desenvolvimento de uma ética que favoreça a manutenção e o
fortalecimento do grupo e da profissão. Quando um indivíduo procura uma profissão, na qual investirá um tempo para
a sua formação, e posteriormente terá condições de desenvolver um trabalho que lhe traga sustentação financeira,
financeira é
facilitado o processo de compromisso com a realização do trabalho, bem como a solidariedade na acção
a do grupo.
Outros autores mostram que a origem das ordens, como a dos engenheiros e advogados, pode ser vista na
Idade Média. Dizem que
ue diferentes evidências
evid ncias levam a crer que as afinidades naturais de uma profissão levaram oficiais
a estabelecer pactos de assistência mútua (na velhice, na doença, na invalidez, na pobreza e noutras condições nas
quais havia uma fragilidade de um oficial) e de defesa comum, o que tem levado possivelmente ao nascimento das
primeiras autoridades associativas.. Nesse meio, de defesa e assistência, aconteciam também, jantares de
confraternização, laços religiosos eram comuns, tanto que as diferentes ordens elegiam um santo padroeiro.
Vários autores destacam uma diferença entre espírito corporativo e interesses corporativos. Salientam que
não se trata de excluir os interesses, mas sim de promover o respeito de regras e princípios
princípios que colaborem para
organizar a vida em sociedade, dado que a função das ordens/associações incluí não só a regulação e controle do
exercício profissional, mas também, o exercício responsável da profissão e a sua função social. Reforçando as
considerações
derações dos autores, embora as associações profissionais sejam um espaço minado de interesses, nelas ocorrem

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laços de solidariedade, de ajuda mútua, de cooperação e de defesa de causas sociais, o que tende a beneficiar não
apenas os profissionais, mas a sociedade
ociedade de um modo geral.

A participação do profisional

Por que participar nas


as associações/ordens?
associações ? A visibilidade da profissão depende da acção
a das associações? Há
uma relação entre a pouca visibilidade de uma profissão e os salários pagos aos
a seus membros?
É no espaço associativo que as pessoas se vão encontrar, trocar ideias,
ias, resolver conflitos e encontrar soluções
para problemas comuns. De outro lado, o compromisso,
compro a realização de um bom trabalho, a excelência de
conhecimentos, competências e técnicas interferem na autonomia, reflexo de um grupo em que a acção
a individual
integra a acção
ção do grupo. Desse modo, as associações não devem ser compreendidas como a acção
a de um grupo de
representantes, se assim for, as acções
ções serão fragmentadas, a categoria não será reconhecida por uma identidade
forte. É, sim, a partir de acções colectivas
tivas pautadas na compreensão do conjunto de elementos que compõe o cenário
de uma sociedade profissionalista.
É muito comum perceber saídas individualistas para problemas relativos a questões profissionais. A expressão
“cada um faz a sua parte” soa como um chavão, seja para propagar o voluntariado, seja para justificar a baixa adesão
em acções colectivas. É lógico que, mesmo numa acção colectiva,
tiva, cada um fará uma parte, a questão é: a parte que um
dos membros faz está relacionada com
om o conjunto ou com o grupo do qual este indivíduo participa ou se identifica? Ela
serve para fortalecê-lo ou para fragment
ragmentá-lo? Independentemente da acção
ção ou dos esforços que cada profissional
realiza é importante que essas acções
ções ou esforços sejam acções
a que reflictam
tam o pensamento do grupo, o anseio do
grupo para que haja uma sintonia de acções.
a De outra forma, a saídaa individual é suicida quando não representa o
grupo.
E a ética? Na saída individual a ética também será de imperativo individualista prejudicando a possibilidade de
realização de uma ética que é construção, que é consciência na acção,
a que é situar-se no seu
eu contexto, que é participar,
que é objectivar
tivar o bem maior de todos.

Em resumo…

Antes de qualquer busca de uma ética institucionalizada num


m código, é preciso ter claro
clar do que representa a
profissão na sociedade, o que é fazer parte de um grupo profissional. Sem essa compreensão, de que cada membro
constrói a acção
ção do grupo, não haverá um fortalecimento do próprio grupo, dificultará a discussão de uma ética. A ética
começa
ça na maneira como eu (como membro de um grupo profissional) me relaciono com o grupo no qual participo e
me identifico. Esse posicionamento pode e deve acontecer a partir de acções
a colectivas, através de associações/ordens
profissionais, académicas, voluntariado…
tariado…

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4. Dinâmica entre a responsabilidade profissional e os diferentes contextos sociais

Para que possamos entender esta questão,


questão mais do que uma exposição teórica, é importante vermos o filme
Mar Adentro, analisarmos o código deontológico dos médicos (anexo) e abrirmos o debate…

5. Actividade final

Tendo em conta os objectivos desta UFCD (5) e respectivo domínio de referência (2):
(2)

1. Diga o que entende por deontologia


deo e normas profissionais.

2. Identifique e explique alguns valores de referência em diferentes organizações. Por que valores se rege na
sua prática profissional? Identifica-se
Identifica com esses valores?

3. A profissão médica é, talvez, aquela em que a deontologia profissional é mais exposta à população
p em
geral, na medida em que todos nós, pelo menos uma vez na vida, já necessitámos de cuidados médicos. O
desenvolvimento da ciência médica e das tecnologias de apoio à mesma tem possibilitado prolongar a vida
cada vez até mais tarde. Esta realidade
realidad levanta um novo problema – com que qualidade de vida se vivem
esses anos. A eutanásia tem surgido como uma possível solução para terminar com o sofrimento
prolongado e sem esperança. Se temos direito à vida, não teremos também direito à morte? Faça uma
análise
nálise crítica sobre a prática social da eutanásia, articulando com a responsabilidade pessoal e
profissional de um médico, não esquecendo que o código de deontologia profissional tem por objectivo
estabelecer os princípios ético-morais
ético pelos quais os profissionais se devem seguir e aplicar.

4. Faça uma reflexão crítica sobre práticas/posturas profissionais onde a falta de deontologia o
constrangeu/afectou a nível social ou psíquico.

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ANEXO

CÓDIGO DEONTOLÓGICO DOS MÉDICOS (excerto)

CAPÍTULO II
DEVERES DOS MÉDICOS
Artigo 5.º
(Princípio geral)
1. O médico deve exercer a sua profissão com o maior respeito pelo direito à protecção da saúde das pessoas e
da comunidade.
2. O médico não deve considerar o exercício
exercício da Medicina como uma actividade orientada para fins lucrativos,
sem prejuízo do seu direito a uma justa remuneração.
3. São condenáveis todas as práticas não justificadas pelo interesse do doente ou que pressuponham ou criem
falsas necessidades de consumo.
4. O médico, no exercício da sua profissão, deve igualmente, e na medida que tal não conflitue com o interesse
do seu doente, proteger a sociedade, garantindo um exercício consciente, procurando a maior eficácia e
eficiência na
gestão rigorosa doss recursos existentes.
5. São ainda deveres dos médicos todos aqueles referidos no Estatuto da Ordem dos Médicos, nomeadamente
no seu artigo 13.º.
Artigo 6.º
(Proibição de discriminação)
O médico deve prestar a sua actividade profissional sem qualquer forma
forma de discriminação.
Artigo 7.º
(Situação de urgência)
O médico deve, em qualquer lugar ou circunstância, prestar tratamento de urgência a pessoas que se
encontrem em perigo imediato, independentemente da sua função específica ou da sua formação
especializada.
Artigo 8.º
(Greve de médicos)
1. Os médicos são titulares do direito constitucional e legalmente regulamentado de fazer greve.
2. O exercício de tal direito não pode, contudo, violar os princípios de Deontologia Médica, devendo os
médicos assegurar os cuidados inadiáveis aos doentes.

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3.Devem
Devem ser sempre garantidos os serviços mínimos, que, caso não se obtenha outra definição, se entende
como os disponibilizados aos domingos e feriados.
Artigo 9.º
(Actualização e preparação científica)
O médico deve cuidarr da permanente actualização da sua cultura científica e da sua preparação técnica, sendo
dever ético fundamental o exercício profissional diligente e tecnicamente adequado às regras da arte médica
(leges artis).
Artigo 10.º
(Dignidade)
Em todas as circunstâncias deve o médico ter comportamento público e profissional adequado à dignidade da
sua profissão, sem prejuízo dos seus Direitos de cidadania e liberdade individual.
TÍTULO II
O MÉDICO AO SERVIÇO DO DOENTE
CAPÍTULO I
QUALIDADE DOS CUIDADOS MÉDICOS
Artigo 31.º
(Princípio geral)
O médico que aceite o encargo ou tenha o dever de atender um doente obrigasse à prestação dos melhores
cuidados ao seu alcance, agindo sempre com correcção e delicadeza, no exclusivo intuito de promover ou
restituir a saúde, conservar a vida e a sua qualidade, suavizar os sofrimentos, nomeadamente nos doentes sem
esperança de cura ou em fase terminal, no pleno respeito pela dignidade do ser humano.
Artigo 32.º
(Isenção e liberdade profissionais)
1. O médico só deve tomarr decisões ditadas pela ciência e pela sua consciência.
2. O médico tem liberdade de escolha de meios de diagnóstico e terapêutica, devendo, porém, abster-se
abster de
prescrever desnecessariamente exames ou tratamentos onerosos ou de realizar actos médicos supérfluos.
supér
Artigo 33.º
(Condições de exercício)
O médico deve exercer a sua profissão em condições que não prejudiquem a qualidade dos seus serviços e a
1.O
especificidade da sua acção, não aceitando situações de interferência externa que lhe cerceiem a liberdade
liberdad de
fazer juízos clínicos e éticos e de actuar em conformidade com as leges artis.
2. O médico tem o dever de comunicar à Ordem todas as tentativas de condicionar a liberdade do seu
exercício ou de imposição de condições que prejudiquem os doentes.
Artigo 34.º
(Responsabilidade)
1. O médico é responsável pelos seus actos e pelos praticados por profissionais sob a sua orientação, desde
que estes não se afastem das suas instruções, nem excedam os limites da sua competência.

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Helena Baptista (Dra.)
2. Nas equipas multidisciplinares, a responsabilidade de cada médico deve ser apreciada individualmente.
Artigo 35.º
(Tratamentos vedados ou condicionados)
1. O médico deve abster-se
se de quaisquer actos que não estejam de acordo com as leges artis.
2. Exceptuam-se
se os actos não reconhecidos pelas leges artis, mas sobre os quais se disponha de dados
promissores, em situações em que não haja alternativa, desde que com consentimento do doente ou do seu
representante legal, no caso daquele o não poder fazer, e ainda os actos que se integram em protocolos
pr de
investigação, cumpridas as regras que condicionam a experimentação em e com pessoas humanas.
Artigo 36.º
(Respeito por qualificações e competências)
1. O médico não deve ultrapassar os limites das suas qualificações e competências.
2. As especialidades, subespecialidades, competências e formações reconhecidas pela Ordem devem ser tidas
em conta.
3. Quando lhe pareça indicado, deve pedir a colaboração de outro médico ou indicar ao doente um colega que
julgue mais qualificado.
gar competências noutros profissionais de saúde, médicos ou não médicos devidamente
4. Quando delegar
habilitados, é dever do médico não ultrapassar nesta delegação as competências destes profissionais, sendo
também responsável pelos actos delegados nos termos do artigo 34.º.
34.
5. Excepto em situações de emergência em que não possa recorrer em tempo útil a colega competente, o
médico não pode, em caso algum, praticar actos médicos para os quais reconheça não ser capaz ou não
possuir a competência técnica e capacidade física e mentais exigíveis.
6. Não é permitida a delegação de actos médicos quando se transfira para não médicos as competências de
estabelecimento do diagnóstico, prescrição ou gestão clínica autónoma de doentes.
Artigo 37.º
(Objecção de consciência)
em o direito de recusar a prática de acto da sua profissão quando tal prática entre em conflito
1. O médico tem
com a sua consciência, ofendendo os seus princípios éticos, morais, religiosos, filosóficos ou humanitários.
2. O exercício da objecção de consciência deverá ser
ser comunicado à Ordem, em documento registado, sem
prejuízo de dever ser imediatamente comunicada ao doente ou a quem no seu lugar prestar o consentimento.
3. A objecção de consciência não pode ser invocada em situação urgente e que implique perigo de vida ou
grave dano para a saúde e se não houver outro médico disponível a quem o doente possa recorrer, nos termos
do número 1 do artigo 41.º.
ARTIGO 38°
(Objecção técnica)
A recusa de subordinação a ordens técnicas oriundas de hierarquias institucionais, legal ou contratualmente
estabelecidas, ou a normas de orientação adoptadas institucionalmente, só pode ser usada quando o médico

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Helena Baptista (Dra.)
se sentir constrangido a praticar ou deixar de praticar actos médicos, contra a sua opinião técnica, devendo,
nesse caso, justificar-se
se de forma clara e por escrito.
Artigo 39.º
(Dever de respeito)
1. O médico deve sempre respeitar a pessoa do doente.
2. A idade, o sexo, as convicções do doente, bem como a natureza da doença são elementos que devem ser
tidos em consideração no exame clínico e tratamento do doente.
3. A situação de vulnerabilidade que caracteriza a pessoa doente, bem como a dependência física e emocional
que se pode estabelecer entre esta e o seu médico, torna o assédio sexual uma falta particularmente grave
quando praticada
ticada pelo médico.
4. O médico tem o direito de exigir condições para a prática médica que permitam o cumprimento deste
artigo.
Artigo 40.º
(Livre escolha pelo doente)
1. O doente tem o direito de escolher livremente o seu médico, nisso residindo um princípio
princ fundamental da
relação entre o doente e o médico, que este deve respeitar e defender.
2. O médico assistente deve respeitar o direito do doente a mudar de médico, devendo mesmo antecipar-se,
antecipar
por dignidade profissional, à menor suspeita de que tal vontade
vont exista.
Artigo 41.º
(Direito de recusa de assistência)
1. O médico pode recusar-se
se a prestar assistência a um doente, excepto quando este se encontrar em perigo
iminente de vida ou não existir outro médico de qualificação equivalente a quem o doente possa recorrer.
2. O médico pode recusar-se
se a continuar a prestar assistência a um doente, quando se verifiquem
cumulativamente os seguintes requisitos:
a) Não haja prejuízo para o doente, nomeadamente por lhe ser possível assegurar assistência por médico de
qualificação equivalente;
b) Tenha fornecido os esclarecimentos necessários para a regular continuidade do tratamento;
c) Tenha advertido o doente ou a família com a antecedência necessária a assegurar a substituição.
3. A incapacidade para controlar a doença não justifica o abandono do doente.
Artigo 42.º
(Direito de recusa de acto ou exame)
O médico pode recusar qualquer acto ou exame cuja indicação clínica lhe pareça mal fundamentada.
Artigo 43.º
(Referenciação)
1. O médico, ao referenciar o doente ou ao ajudá-lo
lo na escolha de outro médico, nomeadamente especialista,
deve guiar-se
se apenas pelo seu conhecimento profissional e pelo interesse daquele.

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2. Nos termos do número anterior, , o médico pode livremente recomendar ao doente quaisquer
estabelecimentos
os ou entidades prestadoras de cuidados de Saúde, seja qual for a sua natureza e
independentemente do sector ou organização em que funcionalmente aqueles se integrem, sem prejuízo do
disposto no artigo 24.º.
3. É considerada violação ética grave a partilha de honorários (dicotomia), traduzida na percepção de
vantagens financeiras, patrimoniais ou outras, pela referenciação do doente.
Artigo 44.º
(Esclarecimento do médico ao doente)
1. O doente tem o direito a receber e o médico o dever de prestar o esclarecimento
esclarecimento sobre o diagnóstico, a
terapêutica e o prognóstico da sua doença.
2. O esclarecimento deve ser prestado previamente e incidir sobre os aspectos relevantes de actos e práticas,
dos seus objectivos e consequências funcionais, permitindo que o doente possa
possa consentir em consciência.
3. O esclarecimento deve ser prestado pelo médico com palavras adequadas, em termos compreensíveis,
adaptados a cada doente, realçando o que tem importância ou o que, sendo menos importante, preocupa o
doente.
ento deve ter em conta o estado emocional do doente, a sua capacidade de compreensão e o
4. O esclarecimento
seu nível cultural.
5. O esclarecimento deve ser feito, sempre que possível, em função dos dados probabilísticos e dando ao
doente as informações necessárias para que possa ter uma visão clara da situação clínica e optar com decisão
consciente.
Artigo 45.º
(Consentimento do doente)
1. Só é válido o consentimento do doente se este tiver capacidade de decidir livremente, se estiver na posse da
informação relevante e se forr dado na ausência de coacções físicas ou morais.
2. Sempre que possível, entre o esclarecimento e o consentimento deverá existir intervalo de tempo que
permita ao doente reflectir e aconselhar-se.
aconselhar
3. O médico deve aceitar e pode sugerir que o doente procure
procure outra opinião médica, particularmente se a
decisão envolver grandes riscos ou graves consequências.
Artigo 46.º
(Doentes incapazes de dar o consentimento)
1. No caso de menores ou de doentes com alterações cognitivas que os torne incapazes, temporária ou
definitivamente, de dar o seu consentimento, este deve ser solicitado ao seu representante legal, se possível.
2. Se houver uma directiva escrita pelo doente exprimindo a sua vontade, o médico deve tê-la
tê em conta
quando aplicável à situação em causa.
3. A opinião dos menores deve ser tomada em consideração, de acordo com a sua maturidade, mas o médico
não fica desobrigado de pedir o consentimento aos representantes legais daqueles.

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4. A actuação dos médicos deve ter sempre como finalidade a defesa dos melhores
melhores interesses dos doentes,
com especial cuidado relativamente aos doentes incapazes de comunicarem a sua opinião, entendendo-se
entendendo
como melhor
interesse do doente a decisão que este tomaria de forma livre e esclarecida caso o pudesse fazer.
5. Os representantes
tantes legais ou os familiares podem ajudar a esclarecer o que os doentes quereriam para eles
próprios se pudessem manifestar a sua vontade.
6. Quando se considerar que as decisões dos representantes legais ou dos familiares são contrárias aos
melhores interesses do doente, os médicos devem requerer o suprimento judicial de consentimento para
salvaguardar os interesses e defender o doente.
Artigo 47.º
(Consentimento implícito)
O médico deve presumir o consentimento dos doentes nos seguintes casos:
a) Em situações de urgência, quando não for possível obter o consentimento do doente e desde que não haja
qualquer indicação segura de que o doente recusaria a intervenção se tivesse a possibilidade de manifestar a
sua vontade;
b) Quando só puder ser obtido com adiamento que implique perigo para a vida ou perigo grave para a saúde;
c) Quando tiver sido dado para certa intervenção ou tratamento, tendo vindo a realizar-se
realizar outro diferente, por
se ter revelado imposto como meio para evitar perigo para a vida ou perigo
perigo grave para a saúde, na
impossibilidade de obter outro consentimento.
Artigo 48.º
(Formas de consentimento)
1. O consentimento pode assumir a forma oral ou escrita.
2. O consentimento escrito e/ou testemunhado é exigível em casos expressamente determinados
determinado pela lei ou
regulamento deontológico.
3. No caso de menores ou incapazes, o consentimento será dado pelos pais ou representantes legais, mas o
médico não fica dispensado de tentar obter a concordância do doente, nos termos do número 3 e 6 do artigo
46.º e do artigo 52.º.
Artigo 49°
(Recusa de exames e tratamentos)
1. Se o doente, a família ou o representante legal, esgotadas todas as formas de esclarecimento adequadas,
recusarem os exames ou tratamentos indicados pelo médico, pode este recusar-se
recusar se a assisti-lo
assist nos termos do
artigo 41.º, sem prejuízo do disposto na parte final do n.º 6 do artigo 46.º.
2. Em caso de perigo de vida de doente com capacidade para decidir, a recusa de tratamento imediato que a
situação imponha só pode ser feita pelo próprio doente,
doente, expressamente e sem quaisquer coacções.
Artigo 50.º
(Revelação de diagnóstico e prognóstico)

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1. O diagnóstico e o prognóstico devem, por regra, ser sempre revelados ao doente, em respeito pela sua
dignidade e autonomia.
2. A revelação exige prudência e delicadeza, devendo ser efectuada em toda a extensão e no ritmo requerido
pelo doente, ponderados os eventuais danos que esta lhe possa causar.
3. A revelação não pode ser imposta ao doente, pelo que não deve ser feita se este não a desejar.
4. O diagnóstico e prognóstico só podem ser dados a conhecer a terceiros, nomeadamente familiares, com o
consentimento expresso do doente, a menos que este seja menor ou cognitivamente incompetente, sem
prejuízo do disposto no artigo 89.º deste Código.
Artigo 51.º
(Respeito pelas crenças e interesses do doente)
1. O médico deve respeitar as opções religiosas, filosóficas ou ideológicas e os interesses legítimos do doente.
2. Todo o doente tem o direito a receber ou a recusar conforto moral e espiritual, nomeadamente
nomeadam o auxílio de
um membro qualificado da sua própria religião.
3. Se o doente ou, na incapacidade deste, os seus familiares ou representantes legais quiserem chamar um
ministro ou outro membro de qualquer culto, um notário ou outra entidade legalmente competente,
co o médico
tem o dever de o possibilitar no momento que considere mais oportuno.
Artigo 52.º
(Menores, idosos e deficientes)
O médico deve usar de particular solicitude e cuidado para com o menor, o idoso ou o deficiente,
especialmente quando verificar
icar que os seus familiares ou outros responsáveis não são suficientemente
capazes ou cuidadosos para tratar da sua saúde ou assegurar o seu bem-estar.
bem
Artigo 53.º
(Protecção de diminuídos e incapazes)
Sempre que o médico, chamado a tratar um menor, um idoso,
idoso, um deficiente ou um incapaz, verifique que
estes são vítimas de sevícias, maus-tratos
maus tratos ou assédio, deve tomar providências adequadas para os proteger,
nomeadamente alertando as autoridades competentes.
Artigo 54.º
(Acompanhante do doente e limitação de visitas)
1. O médico respeitará o desejo do doente de fazer-se
fazer se acompanhar por alguém da sua confiança, excepto
quando tal possa interferir com o normal desenvolvimento do acto médico.
2. O médico pode limitar o horário e a duração das visitas de terceiros aos doentes sob sua responsabilidade,
se entender necessário à saúde do doente ou à defesa dos direitos de terceiros, tendo em vista o normal
funcionamento dos serviços.
CAPÍTULO III
O FIM DA VIDA
Artigo 57.º
(Princípio geral)

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1. O médico deve respeitar a dignidade do doente no momento do fim da vida.
2. Ao médico é vedada a ajuda ao suicídio, a eutanásia e a distanásia.
Artigo 58.º
(Cuidados paliativos)
1. Nas situações de doenças avançadas e progressivas cujos tratamentos não permitem reverter a sua
evolução
ução natural, o médico deve dirigir a sua acção para o bem-estar
bem estar dos doentes, evitando utilizar meios
fúteis de diagnóstico e terapêutica que podem, por si próprios, induzir mais sofrimento, sem que daí advenha
qualquer benefício.
2. Os cuidados paliativos,, com o objectivo de minimizar o sofrimento e melhorar, tanto quanto possível, a
qualidade de vida dos doentes, constituem o padrão do tratamento nestas situações e a forma mais
condizente com a dignidade do ser humano.
Artigo 59.º
(Morte)
1. O uso de meios de suporte artificial de funções vitais deve ser interrompido após o diagnóstico de morte do
tronco cerebral, com excepção das situações em que se proceda à colheita de órgãos para transplante.
2. Este diagnóstico e correspondente declaração devem ser
ser verificados, processados e assumidos de acordo
com os critérios definidos pela Ordem.
3. O uso de meios extraordinários de manutenção de vida deve ser interrompido nos casos irrecuperáveis de
prognóstico seguramente fatal e próximo, quando da continuação de tais terapêuticas não resulte benefício
para o doente.
4. O uso de meios extraordinários de manutenção da vida não deve ser iniciado ou continuado contra a
vontade do doente.
5. Não se consideram meios extraordinários de manutenção da vida, mesmo que administrados
a por via
artificial, a hidratação e a alimentação; nem a administração por meios simples de pequenos débitos de
oxigénio suplementar.

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