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VIRTUDES

I do
EDUCADOR
PAULO FREIRE

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VIRTUDES
do
EDUCADOR

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A P R E S E N T A Ç Ã O

Esta publicação apresenta dois textos de Paulo Freire em

que o autor exp õ e sua visão sobre as qualidades e virtudes neces


s árias ao educador.
0 primeiro , é fruto de um pronunci simen to verbal de Freire ,

em 21 de junho de 1985 , na Reuni ão Preparat ó ria da III Assemblei a


Mundial de Educaçã o de Adultos promovida pelo CEAAL ( Conselho de
Educação de Adultos da Am é rica Latina ). Por isso , o leitor atento ,
notará nele a presenç a de marcas de oralidade que n ão aparecem
em textos escritos diretament e.
0 segundo texto foi escrito por Paulo Freire para uso na
Campanha da Fraternida de promovida pela CNB3 ( Confer ê ncia Naci ó
nal dos Bispos do Brasil ) no ano de 1982.
Unimos estes dois textos em razão de sua tem ática. Tem ática
essa que , a nosso ver , interessa a todos os envolvidos com a pr á
tica cotidiana da educação.

VEREDA - Centro de Estudos em Educação

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VIRTUDES DO EDUCADOR
Gostaria de falar sobre um assunto , que como educador me preocupa
muito. É sobre o que costumo chamar de "Reflex ão cr í tica sobre as
.'
virtudes da educadora ou do educador'

Estas virtudes n ão podem ser vistas como algo com o qual algumas
pessoas nascem ou um presente que uns recebem , mas como uma forma

. .
de ser , de encarar de comportar-se de compreender, tudo o que se
cria atrav é s da pr ática , na busca da transformação da sociedade .
N ão são qualidade abstratas, que existem independentes de n ó s, ao
contrário , que se criam conosco ( e n ão individualmente ).

As virtudes das quais vou falar n ão são virtudes de qualquer edu ¬

cador mas daqueles que est ão comprometidos com a transformação da


sociedade injusta e na criação de uma sociedade menos injusta.

Discurso e pr ática
1.SER COERENTE ENTRE 0 QUE SE DIZ E 0 QUE SE FAZ

A primeira virtude ou qualidade que gostaria de destacar é a vir ¬

tude da coerê ncia.Coerê ncia entre o discurso que se fala e que


anuncia a op ção e a prática que deveria estar confirmando este
discurso.
Esta virtude enfatiza a necessidade de diminuir a dist ância entre
o discurso e a pr ática.E isto , n ão é fácil de se conseguir.
.
Quando me refiro a esta virtude no n í vel da luta politica, digo
que é preciso diminuir a dist ância entre o discurso do candidato

.
e a prática do eleito de tal maneira que em algum momento a pr á -
tica seja discurso e o discurso seja prática.
.
Obviamente que nesta busca de cor ê ncia é necessário assinalar em
primeiro lugar , que n ão é poss í vel alcan ç ar a coer ê ncia total , ab -
soluta e em segundo lugar que se tal coer ê ncia absoluta existisse

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seria enfadonha.
Imaginem voc ê s , algu é m que vivesse de tal maneira a coer ê ncia que
n ão teria a possibilidade de compreender o que é ser coerente , por ¬

que somente é coerente I

Se necessita ser incoerente para transformar-se em coerente.


Ha , sem d úvida ,um m í nimo tolerado para a incoer ê ncia.
Mas , eu n ão posso proclamar minha op ção por uma sociedade mais jus ¬

ta , participativa e , ao mesmo tempo , desprezar um aluno que faz cr í -


ticas de mim enquanto professor.

N ão é poss í vel fazer um discurso sobre libertação e revelar um com


portamento carregado de uma profunda desconfian ç a dos grupos popu ¬

lares.

Por esta razao , a virtude da coerencia e uma virtude libertadora.

Palavra e sil ê ncio


2.SABER TRABALHAR A TENS Ã O ENTRE A PALAVRA E 0 SILENCIO

Outra virtude que emerge da experi ê ncia é a virtude de aprender a


lidar com a tensão entre a palavra e o sil ê ncio.Esta é uma grande
virtude que n ó s , educadores, devemos criar.

0 que eu estou querendo dizer, com isto?

Se trata de trabalhar a tensão permanente que se cria entre a pa ¬

lavra do educador e o sil ê ncio do educando , entre a palavra dos


educandos e o sil ê ncio do educador.

Se algu é m , como educador , n ão resolve bem esta tens ão , pode ser que
sua palavra termine por sugerir o sil ê ncio permanente dos educan ¬

dos.
Se n ão sei escutar os educandos e n ão me exponho a palavra deles ,
termino discursando " para" eles. Falar e discursar"para" termina
sempre em falar "sobre" , que necessariamente significa "contra".

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1

Viver esta experi ê ncia da tensão da palavra e o sil ê ncio n ão é


fácil.Exige muito de n ó s.
m x
Temos que aprender algumas quest ões b ásicas, como estas , por exemplo:
n ã o existe pergunta boba nem resposta definitiva.

A necessidade de perguntar é parte da natureza do homem.A ordem


animal foi dominando o mundo e fazendo-se homem e mulher sobre o
alicerce de perguntar e perguntar-se.

É preciso que o educador testemunhe aos educados o gosto pela per ¬

gunta e o respeito à pergunta.


Nos semin á rios de educação popular , um dos temas introdulwí os funda ¬

mentais deve ser uma reflex ão sobre a pergunta.

A pergunta é fundamental , engajada na pr ática. Às vezes, por exem ¬

plo , o educador percebe em uma classe que os educandos não querem


correr o risco de perguntar , justamente porque temem os seus pró -
prios companheiros. N ão tenho d ú vida em dizer que , às vezes, quando
os companheiros riem de uma pergunta , o fazem como uma forma de fu ¬

.
gir da situação dram ática de n ão poder perguntar de n ão poder ex ¬

ternar uma pergunta.

À s vezes , o pró prio professor, frente à uma pergunta que n ão vem


bem organizada , esbo ç a um sorriso , desses sorrisos que todo mundo
sabe o que significam por sua maneira especial de ser.Este com -
portamento é indesejável poque conduz ao sil ê ncio.É uma forma de
castrar a curiosidade ,sem a qual n ão h á criatividade.

É necessário desenvolver uma pedagogia da pergunta, porque o que


sempre estamos escutando é uma pedagogia da contestação , da respos ¬

ta.De maneira geral , n ós professores, respondemos a perguntas que


os alunos n ã o fizeram.

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Subje ti vidade objet i vidade ¡
3.TRABALHAR CRITICAMENTE A TENS Ã O ENTRE A SUBJETIVIDADE E A OBJE ¬

TIVIDADE.

Outra virtude é a de trabalhar de forma crp ítica a tens ão entre


subjetividade e objetividade , entre consciencia e mundo , entre ser
social e consciencia.

k dif í cil definir esta tens ão porque nenhum de n ó s escapa à tenta ¬

çã o de minimizar a objetividade e reduz í -la frente ao poder da


subjetividade toda poderosa.Ent ão se diz que a subjetividade arbi ¬

trariamente cria o concreto , cria a objetividade.

N ão se pode transformar o mundo , a realidade , sem transformar as con


ciencias das pessoas: este é um dos mitos em que milhares de pes ¬

soas ca í ram.Primeiro se transforma o coração das pessoas e quando


se tiver uma humanidade bela, cheia de seres angelicais , ent ão esta
humanidde faz uma revolu ção que é divina tamb é m. Isto simplesmen ¬

te n ão existe , jamais existir á.

A subjetividade muda no processo de mudan ç a da objetividade.


Eu me transformo ao transformar.Eu sou feito pela hist ó ria, ao fa-
z ê-la.

Outro equ í voco que est á presente nesta tens ão é o de reduzir a


subjetividade a um puro reflexo da objetividade.Ent ão , esta in -
genuidade assume que s ó deve transformar-se a objetividade para
que , no dia seguinte mude a subjetividade.N ão é assim , porque os pro
cessos s ão dial é ticos , contradit ó rios , processuais.

Quando eu digo a voc ê s que é dif í cil que algu é m ande pelas ruas
da hist ó ria sem sofrer algumas destas tentaçõ es , quero dizer que
eu tamb é m tive estas tentaçõ es e andei caindo um pouco para o la-

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r
do da subjetividade.
Lembro-me , por exemplo , que na "Educação como Pr ática da Liberdade"
tive alguns momentos que anunciavam que havia sido picado pelo

subjetivismo.
Quando leio a palavra "conscientização" - palavra que nunca mais
usei desde 1972 - a impress ão que tenho é que o processo de apro
fundamento da forma de consci ê ncia aparecia em certos momentos de
pr á tica como algo subjetivo. Auto-critiquei-me quando vi que pare ¬

cia que eu pensava que a percep ção cr í tica da realidade já signi ¬

ficava sua transformação.Isto é idealismo. Superei estas fases ,


estes momentos, estas travessias pelas ruas da hist ó ria em que fui
picado pelo psicologismo ou pelo subjetivismo.

Aqui e a li
4.DIFERENCIAR 0 AQUI E AGORA DO EDUCADOR DO AQUI E AGORA DO EDU -
CANDO.

Outra virtude do educador e da educadora é como n ão só aprender

mas viver a tensão entre o aqui e agora dos educador e o aqui e


agora dos educandos.

Porque na medida em que n ã o compreendo a relação entre o " meu aqui"


e "o aqui " dos educando é que come ç o a descubrir o que o meu"aqui"
é o l á dos educandos.

N ão existe "l á" sem " aqui", o que é obvio.


S Ó reconhe ç o que existe um "aqui" porque existe algo diferente que
é o " l á".Somente é poss í vel conhecer um " aqui " porque existe um
contrário.

Se eu estou em uma rua, existem só trê s posi çõ es poss í veis:no meio ,


em um lado ou em outro lado. As demais são aproximaçõ es destas
trê s posi çõ es b ásicas. Se eu estou no lado de c á, e quero ir para
o outro lado , devo atravessar a rua.

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É por esta razão que ningué m chega l á partindo de l á.
Isto é algo que os pol í ticos-educadores e os educadores-pol í ticos
esqueceram-se : respeitar a compreensão do mundo , da sociedade , a sa ¬

bedoria popular, o senso comum que os educandos t ê m.

Em nome da exatid ão de julgamento que os educadores , às vezes, jul ¬

gam possuir , declaram que os grupos populares necessitam desta sa -


berdoria , esquecendo que desconhecemos a percep ção que estes gru -
pos t ê m de sua cotidianeidade , a visão que t ê m da sociedade.
Ent ão , pretendemos partir do nosso "aqui".

N ão estou dizendo que os educadores devem ficar permanentemente no


n í vel do saber popular. Existe uma diferenç a muito grande entre
ficar e partir.
Eu falo de partir do ní vel em que o povo se encontra, porque alcan ¬

ç ar o "l á" passa pelo "aqui " aqui".

Espontaneismo / manipulação
5.EVITAR 0 ESPONTANEISMO SEM CAIR NA MANIPULA ÇÃ O

Existe outra virtude que é evitar cair em pr áticas espontaneistas


sem cair em posturas manipuladoras.

0 contr ário destas duas posi çõ es é o que chamo de uma posi ção ra ¬

dicalmente democrática.

A esta altura quero dizer que n ão h á que temer pronunciar a pala ¬

vra democracia poque h á muita gente que , ao escutar esta palavra


a associa com social-democracia e , imediatamente , com reformismo.

Teoria e pr ática
6 .Vincular teoria e pr ática

Outra virtude é a de viver intensamente a relação profunda entre

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a pr ática e a teoria , n ão como superposi ção , mas como unidade con -
tradit ó ria. Viver esta relação de tal maneira que a pr ática n ão pos ¬

sa prescindir da teoria.

Temos que pensar a pr ática para , teoricamente , poder melhorar a pr á


tica.

Fazer isto , demanda urna enorme seriedade , urna grande rigorosidade ( e


n ã o superficialidade ).Exige estudo , criação de urna disciplina s é -
ria.

Pensar que tudo que é te ó rico é mal , é algo absurdo , é absolutamen T

te falso.Temos que lutar contra esta afirmação.N ão h á porque negar


o papel fundamental da teoria.

Entretanto , a teoria deixa de ter qualquer repercuss ão se nao exis ¬

tir uma prá tica que a motive.

Paciencia / Impaciencia
7.PRATICAR UMA PACIENCIA IMPACIENTE

Outra virtude é a de aprender a experimentar a relação tensa entre


paciencia e impaciencia , de tal maneira que jamais se rompa a rela ¬

ção entre as duas posturas.

Se algu é m anfatiza a paciencia , cai no discurso tradicional que diz:


"Tem paciencia , meu filho , porque ser á seu o reino dos c é us."

0 ativismo esquece que a historia existe , n ão tem nada que ver com
a realidade , pois est á fora d é la.

Eu aprendi todas estas coisas de um homem de pr ática , prática que


nunca foi individual porque vivia na pr ática social. Este homem
foiAm í lcar Cabral , o grande lider revolucion á rio da Guin é-Bissau ,
na Á frica.
Ele tinha exatamente esta virtude de ser pacientemente impaciente
e impacientemente paciente.Nunca só paciente e nunca s ó impaciente.

.
Texto e contexto
8.LER 0 TEXTO À PARTIR DA LEITURA DO CONTEXTO.

Finalmente , eu diria que tudo isto , que estou dizendo , tem a ver com
a relação entre a leitura do texto e a leitura do contexto.

Esta é uma das virtudes que dever í amos viver para testemunh á-las
aos educandos , qualquer que seja seu grau de instrução ¡universit á ¬

rio , b ásico ou de educaçã o popular ), a experi ê ncia indispensável de


ler a realidade sem ler as palavras.Para que inclusive, se possa
entender as palavras.

Toda leitura de texto pressup õ e uma rigorosa leitura do contexto.

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CARTA ABERTA A EDUCADORAS E EDUCADORES

Esta é uma carta pequena , amiga que lhes faç o despretensiosamente.


0 espaç o de que disponho não me permite ir al é m de algumas rápidas
consideraçõ es em torno de um ou dois pontos que me parecem funda ¬

.
mentais em nossa prática. Pontos de resto , ligados entre si , um im -
plicando no outro.

0 primeiro deles é o da necessidade que temos, educadoras e educa -


.
dores de viver, na prática, o reconhecimento ó bvio de que nem um de
n ó s est á só no mundo. Cada um de n ó s é .
um ser no mundo com o mun ¬

do e com os outros.
Viver ou encarnar esta constatação evidente , enquanto educadora ou
educador, significa reconhecer nos outros - os educandos no nosso
caso - o direito de dizer a sua palavra. Direito deles de falar
que corresponde ao nosso dever de escut á-los.
Mas , como escutar implica em falar tamb é m , o dever que temos de es -
cut á-los significa o direito que igualmente temos de falar-lhes.
Escut á-los , no fundo , é falar com eles , enquanto simplesmente falar
a eles seria uma forma de n ão ouvi-los.
Dizer-lhes sempre a nossa palavra, sem jamais nos oferecermos à pa ¬

lavra deles, arrogantemente convencidos de que estamos aqui para


salv á-los , é uma boa maneira que temos de afirmar o nosso elitismo ,
sempre autorit ário.
Esta não pode ser , poré m a maneira de atuar de uma educadora oqá e
um educador cuja op ção é libertadora. Quem assim trabalha, conscieo
te ou inconscientemente , ajuda a preservação das estruturas domina ¬

doras.

0 outro ponto , ligado a este , e a que eu gostaria de me referir é


o da necessidade que temos os educadores e educadoras de " assumir"
a ingenuidade dos educandos para poder, com eles , super á-la.
.
Estando num lado da rua ningu é m estará , em seguida no outro, a n ão
ser atravessando a rua.

/ /
.
Se estou no lado de c á n ão posso chegar ao lado de l á, partindo de
/ w
la, mas de ca.Assim tamb é m ocorre com a compreensão menos rigorosa ,
menos certa , da realidade , por parte dos grupos populares.
Temos de respeitar os n íveis de compreensão que est ão tendo de sua
realidade. Impor a eles a nossa compreensão em nome de sua liberta ¬

ção é aceitar as soluçõ es autorit árias como caminhos de libertação.

Nem sempre , infelizmente , muitos de n ós, educadoras e educadores, que


proclamamos uma op ção democr ática, temos uma prática em coerê ncia
com nosso discurso " avan ç ado".
Da í que o nosso discurso , incoerente com a nossa pr ática , vire puro
palavreado.Daí que muitas vezes as nossas palavras " inflamadas" ,
contraditadas por nossa pr ática autorit ária, entrem por um ouvido
e saiam pelo outro - os ouvidos das massas populares.

Sejamos coerentes.J á é tempo.

Fraternalmente ,

I
AIERED/I
CENTRO DE ESTUDOS EM EDUCA ÇÃ O

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