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PONTIFICIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Rogério Fernandes da Silva

Graças a Deus sou ateu:


Humor e conflito entre ciência e religião nas comunidades
neoateístas do Facebook

MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

SÃO PAULO
2015
Rogério Fernandes da Silva

Graças a Deus sou ateu:


Humor e conflito entre ciência e religião nas comunidades
neoateístas do Facebook

MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO

Dissertação apresentada à Banca Examinadora


da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, como exigência parcial para obtenção
do título de Mestre em Ciências da Religião
sob a orientação do Prof. Dr. Eduardo
Rodrigues da Cruz.

São Paulo
2015
Banca Examinadora

____________________________________

____________________________________

____________________________________
AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer a todos que me apoiaram nos projetos, amigos e


familiares, que me acompanharam na minha trajetória acadêmica. Foram momentos
difíceis e de muitos sacrifícios além de diversos questionamentos. Entretanto, tudo
correu bem para a finalização desse trabalho que começou num artigo de 2012 para a
Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR). Geralmente dissertações
transformam-se em artigos e não ao contrário, mas esse trabalho seguiu um caminho
singular. Agradeço ao corpo docente da PUC/SP, em especial ao meu orientador, o
professor Doutor Eduardo Rodrigues da Cruz, ao professor Doutor Frank Usarski, a
professora Maria José Fontelas Rosado-Nunes. Ao professor Doutor João Décio Passos
pelas aulas maravilhosas de Ética. Não se esquecendo do professor Doutor Ênio José da
Costa Brito e nem do professor Doutor Fernando Torres-Londoño. Também Gostaria de
agradecer a professora Doutora Brenda Maribel Carranza Dávila e ao professor Doutor
João Edênio Reis Valle pelas opiniões e contribuições na qualificação.
Também agradeço a secretária da Pós-graduação, Andréia Bisuli de Souza, pela
paciência e imensa ajuda sem a qual não seria possível terminar essa pesquisa. Aos
colegas e amigos do curso, Alexandre Ceistutis, Andres Arango Estrada, Tamara Pereira
de Souza e Alexandre Mantovani de Lima que em muito contribuíram para meu
amadurecimento. Agradeço, em especial, aos sociólogos Célia Maria Ribeiro e
Leonardo Vasconcelos de Castro Moreira pelo apoio moral e orientações quando eu
estava perdido com os prazos da pós. Agradeço também a Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES, pela bolsa que permitiu que
eu continuasse no Mestrado dando apoio financeiro e a Universidade Católica de São
Paulo por ser um local de excelência acadêmica.
Enfim, agradeço a Deus por ter conhecido um campo tão instigante como o a
Ciências da Religião, com profissionais altamente qualificados e alunos interessados,
que fazem valer cada momento gasto na pesquisa.
"O tempo é a minha matéria, o tempo
presente, os homens presentes, a vida
presente."
(Carlos Drummond de Andrade)
RESUMO

O presente trabalho acadêmico visa discutir a influência das comunidades neoateístas


brasileiras no Facebook. A partir do final de 2011, houve um sensível crescimento de
comunidades neoateístas na rede social criada por Mark Zuckerberg, quando dezenas,
talvez centenas de jovens, criaram páginas motivadas por uma militância ateísta oriunda
da leitura de best-sellers neoateus. Esses jovens acabaram fazendo parte das moderações
de páginas, que num engajamento virtual, divulgam suas ideias e usam do humor como
estratégia de identidade e diferença em relação aos religiosos. A história atual do
ateísmo foi descrita no trabalho, em que abordamos como o conflito entre Ciência e
Religião é importante para a construção da identidade virtual dos novos ateus e como
essa construção está baseada no conceito de alteridade. Foram estudadas diversas
páginas, com ênfase na Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA),
instituição que influencia positiva ou negativamente as demais, o modo como elas se
comportam no cenário virtual e seus múltiplos aspectos religiosos, culturais e sociais.

Palavras-chaves: religião, secularismo, ciência, neoateísmo, redes sociais, ATEA.


ABSTRACT

This academic paper discusses the influence of Brazilian new atheists communities on
Facebook. Since the end of 2011, there was a significant growth of new atheist
communities in the social network created by Mark Zuckerberg, dozens, perhaps
hundreds of young people have created pages motivated by an atheist militancy
originated by the reading of new atheist bestsellers. These young people ended up being
part of the pages moderation, that in a virtual engagement, disclose their ideas and use
humor as a strategy of identity and difference in relation to the religious. The current
history of atheism was described in the paper and how the conflict between science and
religion is important to build the virtual identity of the new atheists and how this
construction is based on the concept of otherness. Several pages were studied, with
emphasis on the Brazilian Association of Atheists and Agnostics, institution that
influences positive or negatively the other ones, and how they behave in the virtual
scene and its many religious, cultural and social aspects.

Keywords: religion, secularism, science, new atheist, social networks.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1- PrintScreen quando o termo neoateísmo surge .............................................. 25


Figura 2 - Site da instituição ATEA ............................................................................... 31
Figura 3 – Faixa etária mais popular da ATEA .............................................................. 47
Figura 4- Imagem de criança sobrevivente de um acidente de carro ............................. 48
Figura 5 - O ateísmo é uma libertação ............................................................................ 62
Figura 6 - A inovação é sempre perseguida ................................................................... 62
Figura 7 - Reforço do mito ............................................................................................. 63
Figura 8 – Novas gerações não serão atingidas .............................................................. 64
Figura 9 – Os benefícios da Ciência ............................................................................... 65
Figura 10 - Os males de um caminho errado .................................................................. 66
Figura 11 - A Religião é um empecilho para o progresso .............................................. 67
Figura 12 – Ciência, uma marcha inevitável .................................................................. 67
Figura 13– Tensão permanente entre Ciência e Religião ............................................... 68
Figura 14 – Visões de mundo alimentadas por ateus ..................................................... 69
Figura 15 - Mito antirreligioso ....................................................................................... 70
Figura 16 - Mito de Galileu ............................................................................................ 72
Figura 17 - Figuras retiradas da página Inca venusiano ................................................. 73
Figura 18 – Figuras retiradas da página Em nome do troll ............................................ 74
Figura 19- Da página Um sábado qualquer .................................................................... 74
Figura 20 - PrintScreen a ciência salvou minha alma .................................................... 80
Figura 21 – Cartaz do Segundo Encontro Nacional de Ateus ........................................ 82
Figura 22 – Humor sem fim ......................................................................................... 116
Figura 23 – Cartaz do 1º Enc. Nac. entre Ateus e Agnósticos Universitários .............. 117
Figura 24 - Programação do encontro .......................................................................... 118
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1– Percentual dos que trabalham ....................................................................... 86


Gráfico 2 – Percentual da divisão por sexo .................................................................... 86
Gráfico 3 – Percentual do número de moderação em páginas ....................................... 87
Gráfico 4 - Percentual das idades dos moderadores ....................................................... 88
Gráfico 5 – Percentual do nível educacional .................................................................. 88
Gráfico 6–Percentual dos grupos étnicos ....................................................................... 89
Gráfico 7 – Percentual dos grupos religiosos anteriores ................................................ 89
Gráfico 8– Percentual do tempo da militância ............................................................... 90
Gráfico 9– Percentual do tempo gasto na militância virtual .......................................... 91
Gráfico 10 – Percentual do tempo gasto em horas ......................................................... 91
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

AAUSA Ateus e Agnósticos da Universidade Rural – Sociedade Ateísta


ABHR Associação Brasileira de História das Religiões
ARCAAssociação Racionalista de Céticos e Ateus
ATEA Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos
CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IHEU International Humanist and Ethical Union(União Internacional
Humanista e Ética)
ILP Internacional dos Livres Pensadores
JMJ Jornada Mundial da Juventude
LiHS Liga Humanista Secular
ONG Organização Não-Governamental
PUC Pontifícia Universidade Católica
URSS União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
USDM União dos Sem-Deus Militantes
11

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 14

CAPITULO I .................................................................................................................. 20

1.1. Breves elementos da história do ateísmo ............................................................. 20

1.2. O neoateísmo ....................................................................................................... 23

1.3. Positivismo no século XIX e a lei dos três estágios ............................................ 26

1.4. O século XX, chamado por Minois de “Incrédulo” ............................................. 27

1.5. Associação ATEA e a luta pela laicidade ............................................................ 31

1.5.1. Secularização e dessecularização ...................................................................... 33

1.5.2. Teorias de Secularização .................................................................................. 34

1.5.3. Laicidade no neoateísmo brasileiro .................................................................. 37

1.5.4. Laicidade à brasileira e secularização ............................................................... 39

1.6. O efeito Facebook ................................................................................................ 42

1.7. Ciberativismo ....................................................................................................... 46

CAPÍTULO II ................................................................................................................. 50

2.1. Ciência e Religião ................................................................................................ 50

2.2. Conhecimento científico e o senso comum ........................................................ 50

2.3. Conflitos entre Ciência e Religião? ..................................................................... 51

2.4. O que é mito? ....................................................................................................... 52

2.5. Dawkins e a tese de conflito ................................................................................ 56

2.6. Imagens do conflito ............................................................................................. 56

2.6.1. As páginas ateístas e uma possibilidade de divisão em grupos distintos .......... 57

2.6.2. As paginas sérias ............................................................................................... 57

2.6.3. As páginas de humor......................................................................................... 58

2.6.4. A força das imagens .......................................................................................... 59

2.7.1. Imagens que trabalham Religião versus Ciência .............................................. 61


12

2.7.2. Imagens sobre mitos antirreligiosos ................................................................. 69

2.8. Testemunhos ateus ............................................................................................... 76

2.9. Expressões Neoateístas no YouTube ................................................................... 76

2.9.1. Os vlogs ............................................................................................................ 77

2.9.2. Algumas falas dos hangouts ateus: termo neoateísta tem um sentido negativo
no Brasil ...................................................................................................................... 78

2.9.3. Vlogs e hangouts como instrumentos da divulgação do conflito entre Ciência e


Religião ....................................................................................................................... 80

2.10. Segundo Encontro Nacional de Ateus de 2013 ................................................. 82

2.11. Páginas de combate ao neoateísmo .................................................................... 84

2.11.1. Questionário via Google Docs com a moderação ........................................... 85

2.11.3.Sexo ................................................................................................................. 86

2.11.4. Participa da moderação de outras páginas ateístas?Quantas? ......................... 87

2.11.5. Faixa etária ...................................................................................................... 87

2.11.6. Nível de formação ........................................................................................... 88

2.11.7. Como se definem os entrevistados quanto à crença........................................ 89

2.11.8. Qual era a sua religião antes do ateísmo? ....................................................... 89

2.11.9. Há quanto tempo você participa da página do Facebook? .............................. 90

2.11.10. Qual a frequência que acessa a página? ........................................................ 91

2.11.11. Quantas horas você gasta com o acesso? ...................................................... 91

CAPÍTULO III ............................................................................................................... 93

3.1. A virtualidade das instituições e geração ............................................................. 94

3.2. WEB e Ciberespaço .............................................................................................. 98

3.3. Agentes do ateísmo e os conflitos entre a Ciência e a Religião......................... 100

3.3.1. Os moderadores mais novos (de quinze até trinta anos) ................................. 100

3.3.2. Moderadores com mais de trinta anos ............................................................ 102

3.4. Análises das imagens, dos gráficos e das entrevistas ........................................ 107

3.5. Humor como estratégia ...................................................................................... 109


13

3.6. Trolls e fakes como forma de interação social e crítica religiosa ...................... 114

3.7. Ateísmo brasileiro, um processo de secularização ............................................ 116

CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... 124

REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 128

ANEXOS ...................................................................................................................... 139

QUESTIONARIOS DA PESQUISA COM A MODERAÇÃO ............................... 140


14

INTRODUÇÃO

Percebemos que, nos últimos tempos, houve um aumento do tema ateísmo nas
redes sociais, dentre as quais se destaca fortemente o Facebook, que se tornou a rede
social preferida pelos brasileiros. Muitos usuários, motivados pelo sucesso das páginas
ateístas nesta rede social, acabaram criando outras que reproduzem um discurso
recorrentemente identificado como neoateísta. Em 2011, atentamos para essas
comunidades por conta da postagem de uma aluna que apareceu para mim em minha
timeline do Facebook. Este episódio nos chamou a atenção para a relevância do
fenômeno neoateísta como tema de pesquisa. A partir de então, passamos a
acompanhar debates on-line, o que nos levou à constatação de que vídeos do Youtube
eram usados como argumentos nas páginas ateístas do Facebook.
O neoateísmo é uma vertente recente do ateísmo Ocidental, caracterizado pelo
combate às religiões estabelecidas, principalmente as de matriz abraâmica. Após o
atentado de 11 de setembro de 2001, foram lançadas diversas obras nesse segmento, que
se tornaram best-sellers dando visibilidade ao movimento. Nos fins do ano de 2011,
houve uma forte disseminação no Facebook de sites ateus promovidos pelo crescimento
rápido da página da ONG Associação de Ateus e Agnósticos do Brasil (ATEA).Alfredo
Spinola, Mauricio Palazzuoli e Daniel Sottomaior criaram essa associação.
Aproveitando a onda neoateia, a instituição ATEA conseguiu um aumento no número
de adeptos. Com a influência dela, aumentaram o número de comunidades de ateus
militantes, alguns entusiasmados com a militância da instituição, outros em desacordo
com o papel dela. Essas comunidades têm arrebanhado um número considerável de
jovens militantes. A pesquisa termina no ano de 2015, no mês abril, com o encontro de
universitário na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Apesar da relevância do tema, observamos que há poucos trabalhos acadêmicos
sobre o neoateísmo no Brasil. O Volume 8 da revista Horizonte, da PUC Minas, n. 18 -
jul./set. 2010– Dossiê: Neoateísmo: Questões e desafios é um exemplo da produção
brasileira sobre o neoateísmo, porém é possível perceber que não foi abordado nesta
publicação o neoateísmo nos meios virtuais. Já o antropólogo Flávio Gordon, em sua
tese de doutorado “A Cidade dos Brights: Religião, Política e Ciência no Movimento
Neo-ateísta,” analisa o movimento e sua difusão entre intelectuais e populares nos
15

Estados Unidos usando as publicações do grupo (GORDON, 2011). Contudo, faltam


estudos sobre o fenômeno no Brasil e como ele se difunde.
O sociólogo Phil Zuckerman (2010, p. 7) escreve que, durante muito tempo, os
cientistas sociais tenderam a ignorar a irreligião, mas, nos últimos quinze anos, isso
cresceu muito, graças à grande produção anglo-saxônica recente. Há muito sendo
produzido nos Estados Unidos e na Inglaterra sobre o neoateísmo, sendo vários os
artigos e livros sobre o assunto. Porém, não foi encontrada a mesma quantidade na
academia brasileira. Estudos sobre as aspirações dos militantes, seus desejos, defesas,
ideologias e formações são poucos. Entretanto, essa pequena produção vem crescendo e
mudando o quadro em que se encontra com bastante rapidez. A irreligião, o ateísmo, a
militância antirreligiosa têm se tornado uma fonte de pesquisa importante, como refere
esse estado da arte.
A pedagoga Andréia Christina do Nascimento Dias trabalhou em sua dissertação
de mestrado intitulada Religião e Ciência: Sustentação e entraves acerca do debate
questões acerca do conflito entre ciência e religião, mas não aprofundou a análise sobre
o caso brasileiro. Em Aproximações entre o crer e o não-crer: Avaliação de Qualidade
de Vida em Jovens Evangélicos, ateus e Sem-Religião, a psicóloga Camila Mendonça
Torres fez um levantamento sobre a qualidade de vida dos evangélicos, ateus e sem-
religião sobre a questão. Rafael Lopez Villaseñor, na tese Os “sem-religião” no
Ciberespaço: Interfaces da religiosidade nas comunidades virtuais, estudou ateus e
sem-religião no Ciberespaço. Seu trabalho foi um marco para o estudo de redes sociais
especialmente sobre o Orkut e os debates nas comunidades dos sem religião no mundo
virtual. O sociólogo Sérgio Luís de Martin, em Comunicação e ateísmo: novas
contexturas no Brasil, cuja análise versou sobre a comunicação do grupo ATEA,
principalmente a forma de comunicar da instituição. A teseO ateísmo de Richard
Dawkins nas fronteiras da ciência evolucionista e do senso comum de Clarissa De
Franco é outra obra de vulto que deve ser mencionada aqui. A autora, que é psicóloga,
fez um estudo sobre a obra de Richard Dawkins, um dos principais divulgadores do
neoateísmo, cujas ideias foram bem recebidas pelos brasileiros. A figura de cientista e
militante ateu é indissociável para o público que o acompanha e isso fez com que a
visão conflituosa de ciência contra religião fosse o foco das discussões (FRANCO,
2014, p.15). Ela analisa a concepção de Dawkins sobre sua teoria do gene egoísta,
lançada na década de setenta. Porém, sua concepção deste de gene egoísta não é
nenhum consenso científico e é muito criticada porque, para outros cientistas, é a
16

cooperação a fórmula do sucesso de várias espécies. Chama à atenção o fato de que


Dias, Martin e Franco terminaram seus trabalhos em 2014, Torres e Gordon são de
2011. Isso demonstra a novidade e o interesse recente sobre o assunto.
A hipótese principal deste trabalho é a de que o neoateísmo tornou-se um
fenômeno virtual no mundo e no Brasil, e esse movimento perceptível desde o início do
século XXI, e seu crescimento estão vinculados à construção de uma identidade baseada
no conflito entre ciência e religião. A laicidade é um projeto político almejado pelo
neoateísta, mas é a tese do conflito que dá ao ateísmo brasileiro bases para o combate. A
alimentação do conflito permanente faz com que os ateus virtuais se engajem
fortemente e as imagens nos capítulos a seguir são representações e propagandas desse
conflito.
A construção das identidades dentro do âmbito desterritorializado da Internet,
especificamente nas redes sociais, é mediada pelo ambiente virtual. Apesar da
visibilidade fora dos meios virtuais, são esses meios cibernéticos que congregam, unem
e definem os jovens ateus. Muitas das entidades surgidas nos últimos dez anos são
associações que dependem do meio virtual. A ATEA e A Liga Humanista Secular
(LiHS) são instituições que militam nos meios virtuais. As antigas concepções
identitárias ligadas às religiões tradicionais com laços comunitários fortes ficaram
esvaziadas na realidade urbana e com o avanço de novos meios de comunicação, neste
caso a Internet. As identidades que, antes, eram estáveis e duradouras, hoje, se tornaram
mutáveis (HALL, 2001, p. 13). A oferta de bens e serviços, concepções religiosas, ou
não, é muito diversificada atualmente. As identidades modernas, hoje, são descentradas,
fragmentadas, um sujeito pode optar por diversas formas de se representar durante a
vida (Ibid., p. 8). Portanto, não é de espantar que indivíduos criados em concepções
religiosas tradicionais mudem de credo diversas vezes na vida ou que simplesmente
neguem suas religiões e depois retornem para elas. Sendo assim, é possível que muitos
dos jovens que aderem ao ateísmo, com o passar dos anos, deixem de ser ateus.
A defesa da laicidade nesses grupos é baseada na recusa sistemática da presença
da religião no espaço público, como acontece nos EUA também acontece no Brasil.
Mas, tal defesa na prática recusa a religião em todas as partes da sociedade.
Neste caso, as justificativas são: contribuir para o conhecimento do campo
religioso brasileiro recente por meio de uma pesquisa empírica, tendo em vista a
necessidade de conhecer melhor como a mensagem neoateísta é difundida entre
osbrasileiros. Através da análise de discursos, estatísticas, entrevistas, etc., buscamos
17

apreender o perfil sociológico dos neo-ateístas brasileiros. Foi analisado o papel da


Internet na difusão do movimento ATEA e de outras instituições ateístas virtuais dentro
do Brasil. Pôde-se perceber que as páginas ateístas trabalham o humor como forma de
popularizar o ateísmo nas redes sociais. Nesse sentido, é apresentada uma abordagem
inovadora, já que ainda não foi estudada a moderação, esses divulgadores ocultos, das
páginas de Facebook, e nem o motivo pelo qual o humor é tão importante.
Dois pensadores, Manuel Castells e Pierre Levy, são importantes para refletir
sobre a relação entre comunidades e identidades dos novos ateus brasileiros no
Ciberespaço. Para Castells, a comunicação entre os seres humanos está ancorada nos
meios de produção de seu tempo, no relacionamento entre o homem e a natureza e entre
ele e seu semelhante. Isso se faz em territórios determinados (físicos ou virtuais) e,
assim, geram-se culturas e coletividades específicas (CASTELLS, 2005, 52). Deste
modo, a tecnologia tem como base várias relações com os meios de produção,
conhecimentos e informação do seu tempo. As novas tecnologias de informação, neste
caso o surgimento das redes sociais, criaram várias comunidades virtuais, com
identidades próprias. Analisamos, portanto, algumas dessas comunidades e o perfil de
seus criadores e frequentadores. As comunidades que nascem no Facebook são
comunidades de resistência, que lutam contra a lógica da dominação, em nosso escopo,a
religiosa, já que o ateísmo é tido como minoritário (Ibid., 1999, p. 24). Essas
comunidades reúnem sujeitos afastados territorialmente e os une através do ciberespaço,
dando vazão à cultura do hiperindividualismo comunal, para que ele se torne identidade.
Os sujeitos buscam sentido e necessitam de um ambiente de valorização e apoio mútuo
(Ibid., p. 83). Não é bom confundi-las com as comunidades defensivas que são
construídas pelas instituições das ideologias dominantes que se veem ameaçadas pelos
questionamentos dos grupos minoritários. Podemos também dizer que as páginas de
apologéticas cristãs que surgem contra o neoateísmo são exemplos defensivos (Ibid., p.
25).
Segundo Pierre Lévy, pode haver um engano quando se considera que há
oposição entre o virtual e o real (LEVY, 1996, p. 15). A virtualização não é o inverso da
realidade, mas uma mutação da identidade, um deslocamento ontológico. No
ciberespaço as memórias são compartilhadas, com hipertextos comunitários para
construção de identidades coletivas (Ibid., p. 129). A partir das ideias de Levy,outros
autores foram essencialmente escolhidos para contribuírem para o desenvolvimento da
dissertação. A partir das entrevistas realizadas, que trouxeram a lume novas questões,
18

houve também a necessidade de que buscássemos novos autores, cujas ideias auxiliaram
na resolução dos novos desafios.
Foram realizadas entrevistas com vários ateus brasileiros situados em diversas
partes do país ou mesmo fora dele. Boa parte das entrevistas foi on-line. Diante da
quantidade e da diversidade das fontes, as entrevistas foram utilizadas como
complemento. Além disso, houve participação do pesquisador em alguns eventos
ateístas, como o Dia do Orgulho Ateu, data em que eles se reúnem para discutir suas
ideias e o Encontro Universitário Nacional entre Ateus e Agnósticos.
Para tratar do conflito entre ciência e religião, foi utilizado como referência
teórica o trabalho de Ian Barbour (BARBOUR, 2004, p. 21-57). Sua fórmula que
caracterizou as relações entre ciência e religião tem sido usada muito frequentemente.
São de Ian Barbour os quatro modelos de relacionamento entre ciência e religião: os
modelos de conflito, independência, diálogo e integração. Esses modelos são um
referencial com boa aceitação na academia. Outro autor importante para esta dissertação
foi o historiador francês George Minois, cujas obras História do Ateísmo e História do
Riso e do Escárnio foram essenciais para os questionamentos e compreensão das vias
que se originaram desse trabalho. Sendo assim, acabaram Minois e Barbour sendo os
principais pensadores para meu recorte teórico.
A hipótese central da dissertação considera que o movimento neoateu do Brasil
divulgado em redes sociais tem uma visão baseada no senso comum sobre conflito entre
ciência e religião, entendidas como antagônicas, o que o leva a uma intolerância às
manifestações religiosas. As hipóteses secundárias defendem, primeiramente, que há
secularismo radical militante, motivado pelo movimento neoateu, um secularismo que
não aceita o religioso na esfera política e nem na esfera privada. A religiosidade deve
ser combatida até sua eliminação. Em segundo lugar, também sugerimos que o
neoateísmo, no Brasil, utilizou e utiliza as redes sociais para criar uma construção
identitária que vincula o ateísmo à Ciência e a uma visão conflituosa com a Religião.
Por fim, em terceiro lugar, sem o humor, essas páginas não teriam tanta popularidade, e
que ele foi uma estratégia de marketing dominante e crítica antirreligiosa.
Uma segunda hipótese que apresentamos é a de que o movimento neoateu tem
uma visão baseada no senso comum sobre laicidade, entendida como antagônica à
religião, levando a uma intolerância às manifestações religiosas. Percebemos, também,
que, sem o humor, essas páginas não teriam tanta popularidade, mesmo contando com o
sentimento antirreligioso reprimido há muito tempo no Brasil.
19

Assim sendo, buscamos analisar a divulgação do neoateísmo brasileiro na rede


social Facebook e como a rede serviu e serve de espaço ao proselitismo ateu e ao ato de
congregar mediado pela virtualidade, bem como discutir a construção simbólica dos
neoateus na rede, como eles veem a laicidade, a ciência e a religião.
Na pesquisa, apareceram os banners e discursos antirreligiosos baseados nos
mitos de conflito, e também se pesquisarão os moderadores e frequentadores das
páginas. O objeto principal da pesquisa é a produção simbólica desses sujeitos. E como
essa produção é direcionada? Quais são suas fontes?
As imagens mais recorrentes, e que observamos com facilidade, abordam a tese
de conflito entre ciência e religião. Foi realizada uma coleta de discursos e imagens
sobre a questão da laicidade e os discursos antirreligiosos, bem como recollhidos textos
e figuras das mesmas páginas e classificá-las. E, além disso, pretende-se usar e analisar
a bibliografia atualizada sobre o ciberespaço e a noção de identidade no mundo
globalizado, mas cada vez mais individualizado e virtual.
A dissertação está dividida em introdução, três capítulos e considerações finais.
O primeiro capítulo trata da história do ateísmo no mundo, do neoateísmo no
ciberativismo brasileiro dos últimos anos e das inovações tecnológicas de informação
que revolucionaram ou pelo menos motivaram o ateísmo brasileiro.
No segundo capítulo, analisamos as fontes, tais como imagens produzidas pelas
páginas, discursos, testemunhos, o papel do YouTube, além da pesquisa feita com a
moderação das página. O valor do humor também aparece no segundo capítulo. Frisa-se
que a maior preocupação desta pesquisa foi descobrir os interesses e ideias da
moderação. Então, também foram introduzidos os resultados das entrevistas
apresentados em gráficos.
No terceiro capítulo, apresentamos uma reflexão sobre as fontes, ressaltando o
papel da moderação e o seu perfil sociológico. Informações sobre idade, formação
escolar, sexo, etnia entre outros aspectos sociais e formativos foram considerados a fim
de entender seu grau de importância na determinação de neoateístas, além de discutir
qual é o papel do secularismo brasileiro na motivação de tais páginas. Aqui, foi
elaborada uma reflexão sobre gerações recentes e como elas influenciam a dinâmica da
rede.
20

CAPITULO I

ATEÍSMO E NEOATEÍSMO, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE SUAS


HISTÓRIAS

1.1.Breves elementos da história do ateísmo

Para entender a proposta desse trabalho, é necessário esclarecer algumas noções


históricas do ateísmo, visto que o senso comum acredita que o conceito de ateu sempre
foi o mesmo por toda a história da humanidade, o que certamente não éo caso. O modo
como ele é entendido atualmente difere de sua concepção na Antiguidade. Segundo o
historiador Sergio da Mata, a definição de ateu na Antiguidade não era muito clara,
soando como uma acusação vaga de impiedade e persistiu durante a Idade Média e parte
da Idade Moderna. O ateísmo atual pode-se definido como uma negação da existência
de Deus ou deuses surge com o Iluminismo dos séculos XVII e XVIII. O Ateísmo na
Antiguidade não era definido como a total negação de um Deus, mas como uma forma
de impiedade, não porque o acusado era um descrente em Deus, apenas não acreditava
nos deuses do acusador (MATA, 2010, p. 96). Essa fundamentação histórica do ateísmo
é pouco conhecida, existem poucos livros que tratem do assunto e mesmo as obras mais
populares não fazem. Nos contatos on-line, entretanto, pode-se perceber um
desconhecimento da história do ateísmo por parte dos frequentadores de páginas ateístas
nas redes sociais. O termo começa a mudar a partir da Idade Moderna passando a
significar ausência de crença em Deus ou religião.
Perante a história, o ateísmo como negação é recente. A definição moderna de
ateu como aquele que não crê em um Deus (ou deuses) vem do Iluminismo. É a partir
dos filósofos iluministas que a não crença em Deus se estabelece. O esforço de Richard
Dawkins, um dos maiores representante no novo ateísmo atual, para ampliar o ateísmo
pelo mundo tem seus problemas, pois esta crença ou falta de crença sempre foi restrita a
poucos (Ibid., p. 97).
Edward Grant define que o pensamento natural sempre existiu, mas foram os
gregos que “parecem ter inventado maneiras instrutivas de falar acerca da natureza.
Eles, conscientemente, desenvolveram maneiras de estudar e explicar a natureza que os
21

cercava e na qual estavam imersos” (GRANT, 2009, p. 14). Segundo James Thrower, a
concepção naturalista de pensadores foi minoritária na nossa história, mas sempre
existiu, e começa com os gregos (THROWER, 1971, p 15). Contudo, Grant continua:
“Mas muito antes dos gregos as antigas civilizações do Egito e da Mesopotâmia
aprenderam muito sobre a natureza e suas ações” (Ibid., p.14). Para Thrower podemos
encontrar as origens desse pensamento na Grécia clássica, já Grant declara que começa
antes, mas menos sistematizado. De acordo com Pessoa Jr, o naturalismo é uma visão
do mundo que “parte da existência da natureza, ou de nossa experiência perceptiva desta
natureza, e que concebem que a natureza possui certa unidade e segue leis próprias 1,
para um teísta cristão isso é a base para o conhecimento sobre a criação, já o ateísta vê o
naturalismo como negação das explicações mágicas ou mitológicas.”
O historiador francês George Minois também coloca a concepção naturalista
como anterior às origens gregas, como Grant no parágrafo acima. Para Minois, o
naturalismo, o qual chama de naturalismo materialista, dá as bases para o ateísmo
teórico (MINOIS, 2008, p. 42-43). E ainda segundo ele, o termo ateu tem uma
conotação negativa, resultado de vários séculos de perseguição (Ibid., p. 10). Entretanto,
James Thrower declara que o ateísmo moderno como rejeição da concepção de um
Deus criador só se define após o Iluminismo (THROWER, Op. Cit, p. 103). Essa ideia
de ateísmo moderno é a mais aceita, com algumas variantes, pela maioria dos
estudiosos.
Contudo, a tese de George Minois é interessante por relativizar o ateísmo. Ele
escreve sobre a história procurando desde tempos remotos elementos que possam
assegurar que houve um ateísmo relativo na história da humanidade. Minois relaciona
dois tipos de ateísmo: um relativo e outro prático2.
De acordo com Minois, o ateísmo prático foi negligenciado, e não está apenas no
estoicismo, epicurismo, iluminismo, marxismo ou niilismo, mas nas tarefas cotidianas

1
JUNIOR, Osvaldo Pessoa. Teoria do Conhecimento e Filosofia da Ciência I. Disponível em: <
http://www.fflch.usp.br/df/opessoa/TCFC1-10-Cap11.pdf>. Acesso 26/05/2015.
2
Todavia, deve-se tomar cuidado com Minois, pois sua argumentação de ateísmo passivo e ateísmo ativo
é problemática. Lucien Febvre, também historiador Francês, escreve que o termo ateu ainda no século
XVI era mais uma acusação de impiedade do que descrença. Além do mais Minois mostra certa
passionalidade em relação à obra em uma entrevista: ‘[...] as religiões ainda são tão disseminadas, isto se
deve à distinção enganosa entre crentes “moderados” e “extremistas”, sendo que os últimos se
multiplicam graças à boa reputação dos primeiros.’ Sua posição também não é moderada e é
preconceituosa, colocando no mesmo balaio todos os tipos de crentes. Continua ele “Não será possível
erradicar as crenças radicais enquanto as crenças moderadas forem consideradas dignas de respeito.” O
quanto da obra de Minois tem de paixão? Disponível em: <http://www2.unesp.br/revista/?p=7625>.
Acesso em 30/05/2015.
22

das pessoas ao longo da História. Para ele, cada civilização traz em si referências à
descrença e à crença no materialismo. Vale pensar que o ateísmo que é apresentado nas
redes sociais, Orkut e Facebook, é uma consequência das transformações do ateísmo no
tempo, e apresenta-se como uma forma popularizada de autores contemporâneos. Tal
popularização é uma consequência da leitura de autores neoateístas que deixaram os
discursos mais simples e acessíveis aos leitores, por meio dos best-sellers, ainda que
mais vulneráveis a críticas. O ateísmo no ambiente virtual trabalha com conceitos do
senso comum, isso será percebido adiante conforme forem mostrados nos dados da
pesquisa.
Segundo Paulo Piva3, ao estudar o padre Jean Meslier (1664-1729), o ideal do
padre herege era para que a fosse sociedade perfeita deveria ser baseada no ateísmo.
Para o autor, Meslier representa um ideal de revolta contra a sociedade dominada pela
mistificação e manipulação religiosa (PIVA, 2006, p.15). Piva ainda cita ainda Mikhail
Bakunin, cuja obra Deus e o Estado, de 1882, trata da luta pela desmistificação
religiosa, que implodiria a ordem vigente da sociedade (Ibid., p.19). Ainda baseando-se
nos textos de Meslier, Piva diz que o ateísmo surge na Antiguidade como forma de
difamar, lembrando que Sócrates foi acusado de ateísmo para sua condenação. O
ateísmo tinha um sentido muito mais de iniquidade do que a simples negação de Deus
ou deuses.

Como se vê, os termos “ateu” e “ateísmo” foram muito utilizados


inicialmente de maneira muito ampla, imprecisa, muitas vezes
contraditória e quase sempre pejorativa. É importante perceber – [...] –
que o ateísmo é definido nominalmente pelo que nega, afinal, a
palavra “ateu” em sua origem etimológica tem o sentido de negação
da existência de divindade, logo,de oposição antagônica à religião.
Dito de outro modo, a designação “ateu” foi cunhada, em última
instância, por um não-ateu, portanto, por um adversário do ateísmo
(Ibid., 2006, p.38).

De acordo com Piva, no século XVII, muitos eram denominados ateus, devido a
uma classificação imprecisa que a palavra ateísmo tinha até então. O desenvolvimento
deste pensamento vai ao encontro da racionalização e da desmistificação, como o
desenvolvimento do Iluminismo nos século XVII e XVIII, além da implantação do

3
Paulo de Lima Piva, doutor em Filosofia pela USP, é um militante ateu que desenvolve trabalhos de
pesquisas sobre o assunto, professor universitário e autor de vários artigos e livros sobre o ateísmo. PIVA,
Paulo Jonas de Lima. Ateísmo e revolta: os manuscritos do padre Jean Meslier. São Paulo: Alameda,
2006.
23

projeto Iluminista de educação laica na Europa, levando a sociedade a uma


secularização de seu pensamento. Para vencer a influência cultural das igrejas, era
necessário vencê-la no cultivo das mentes. O ateísmo cresce e desenvolve-se, e a partir
do século XVIII, com o surgimento dos libertinos, ele é visto da seguinte maneira:

[...] impõe-se de maneira mais restrita no debate filosófico,


essencialmente como a perspectiva teórica que nega em termos
ontológicos e absolutos a existência de qualquer divindade,
providência ou transcendência criadora e ordenadora das coisas, ou,
como bem define Jean Vernette, como uma “recusa consciente e
motivada de Deus”. Nesse sentido, a mais modelar das definições de
ateísmo stricto sensu encontramos em Thierry Ottaviani: ”o
fundamento do ateísmo é afirmar como verdade que Deus não existe”
(Ibid., p.40).

Essa definição satisfaz a abordagem, vai ao encontro de um tipo de ateísmo


popular com o qual, segundo as fontes e pesquisas, identificamos participantes de
páginas neoateístas da rede social Facebook. Muitos usuários analisados definiram
ateísmo como um simples não acreditar em Deus ou deuses.

1.2. O neoateísmo

O livro de Sam Harris, The Endof Faith: Religion, Terror, andthe future of
Reason, (HARRIS, 2004), é o precursor do movimento neoateísta. O autor culpa os
fundamentos da religião, neste o caso o Islã, por serem responsáveis pelos ataques às
torres gêmeas, mas também faz um ataque às demais religiões. Harris realiza um ataque
literal e pouco aprofundado, dizendo que a ignorância e a falta de conhecimento levam
ao obscurantismo científico. Se bem que Dawkins já escrevia contra a religião antes do
sucesso editorial dos neoateístas, Harris dá um incentivo com suas publicações.
O neoateísmo é um movimento recente, caracterizado pelo combate às religiões
estabelecidas, principalmente as de matriz abraâmica. Após o atentado de 11 de
setembro de 2001, foram lançadas diversas obras nesse segmento, que se tornaram best-
sellers dando visibilidade ao movimento. Segundo Clarissa De Franco, o neoateísmo
tem como características cinco fatores:

1) características de movimento social; 2) estado secular que dá


proteção e força aos ateus, relegando os religiosos para lugar da
obsolescência; 3) passagem do paradigma filosófico para o cientifico
24

na defesa do ateísmo, com penetração pelo senso comum; 4) cenário


de terrorismo religioso, que assustou o mundo com mais intensidade
desde 11/09/2001, e 5) Internet, que possibilita a formação de redes eo
espraiamento das ideias ateístas, focando no público jovem
(FRANCO, 2014, 13).

O atentado ao World Trade Center foi o catalisador para o surgimento e sucesso


editorial das obras neoateístas, pois a revolta contra o atentado foi direcionado as
religiões, principalmente islâmica. Ao nome de Sam Harris juntam-se outros escritores
como Christopher Hitchens, Richard Dawkins e Daniel Dennett4.
Apesar de ser do termo neoateísmo já ser muito usado, como será mostrado na
pesquisa, tornou-se uma palavra negativa no Brasil. É importante salientar que o
referido termo não tem sua origem no seio da religião, mas sim emcríticas literárias e
jornalísticas:

Os novos ateus são autores de início do XXI livros do século


promovendo o ateísmo. Estes autores incluem Sam Harris, Richard
Dawkins, Daniel Dennett e Christopher Hitchens.O rótulo de "neo-
ateu" para esses críticos da religião e da crença religiosa surgiu a partir
de comentário jornalístico sobre o conteúdo e os impactos dos seus
livros. A observação padrão é que os autores de Novos Ateístas
apresentam um nível anormalmente elevado de confiança em suas
opiniões. Os revisores notaram que esses autores tendem a serem
motivados por um sentimento de preocupação moral e até mesmo
indignação sobre os efeitos das crenças religiosas no cenário global. É
difícil identificar qualquer coisa filosoficamente sem precedentes em
suas posições e argumentos, mas os novos ateístas provocaram
considerável controvérsia com o seu corpo de trabalho5.

O termo em si é realmente um neologismo, entretanto, se justifica mais por


causa das polêmicas e militância provocadas. Também podemos concluir que o
neoateísmo teve uma divulgação maior graças às mídias eletrônicas, sendo a mais

4
Podemos classificar Richard de Dawkins (Obra: Deus um delírio), Sam Harris (A morte da fé: religião,
terror e futuro da razão), Christopher Hitchens (Deus não é grande) e Daniel Dennett (Quebrando o
encanto: a religião como fenômeno natural) como os principais nomes do movimento neoateu, suas obras
literárias e vídeos têm muita repercussão sobre setores seculares da sociedade.
5
The New Atheists are authors of early twenty-first century books promoting atheism. These authors
include Sam Harris, Richard Dawkins, Daniel Dennett, and Christopher Hitchens. The “New Atheist”
label for these critics of religion and religious belief emerged out of journalistic commentary on the
contents and impacts of their books. A standard observation is that New Atheist authors exhibit an
unusually high level of confidence in their views. Reviewers have noted that these authors tend to be
motivated by a sense of moral concern and even outrage about the effects of religious beliefs on the
global scene. It is difficult to identify anything philosophically unprecedented in their positions and
arguments, but the New Atheists have provoked considerable controversy with their body of work.
Disponível em: <http://www.iep.utm.edu/n-atheis/>. Acesso em 24/08/2014.
25

importante para o movimento a Internet. Na figura abaixo, está um resultado referente a


uma pesquisa com o instrumento do Google.

Figura 1- PrintScreen quando o termo neoateísmo surge6

Segundo consulta à ferramenta do GoogleTrends, na figura acima, a palavra


neoateísmo (the new atheism; new atheist; new atheists; whatisatheism) começa a ser
comentada a partir de 2006, isso está de acordo com o surgimento dos primeiros Best-
Sellers publicados. Vemos que o neologismo neoateu é realmente algo muito novo,com
auge em 2007, e foi adotado rapidamente para designar o movimento. Entretanto,
também podemos ver nas páginas de apologética cristã que o nome é adotado, de fato,
de maneira pejorativa, mas, como dito anteriormente, está longe de ter nascido dentro
dos meios cristãos. Tal nome é derivado da crítica literária especializada norte-
americana. E, como vemos no gráfico, através das flutuações de picos, é ainda muito
utilizada pelos mesmos. O interesse parece está diminuindo, mas ainda é muito cedo
para um prognóstico. Continuando com a história do ateísmo, é preciso lembrar-se da
influência do Positivismo no século XIX e dentro da república brasileira nascente.

6
Disponível em: < http://www.google.com/trends/explore#q=new%20atheism>. Acesso em 24/08/2014.
26

1.3. Positivismo no século XIX e a lei dos três estágios

O Positivismo é uma corrente científica do século XIX que influenciou muito os


pensadores da época. Segundo esse tipo de pensamento, existem leis sociais, baseadas
nas Ciências Naturais, que explicam o funcionamento da sociedade humana:

Vemos, pelo que precede, que o caráter fundamental da filosofia


positiva é tomar todos os fenômenos como sujeitos às leis naturais
invariáveis, cuja descoberta precisa e cuja redução menor número
possível constitui o objetivo de todos os nossos esforços, considerando
como absolutamente inacessíveis e vazia de sentido para nós a
investigação das chamadas causas, sejam primeiras, sejam finais. É
inútil insistir muito sobre um princípio, hoje tão familiar a todos
aqueles que fizeram um estudo um pouco aprofundado das ciências de
observação. (COMTE, 1978, p. 7).

Para Comte, há leis naturais invariáveis na sociedade humana e cabe ao cientista


observá-las e transmiti-las o mais próximo possível da neutralidade. Seu padrão para a
ciência era utilizado como medida e eram os paradigmas das Ciências Naturais a serem
seguidos. Já a influência de Comte na disciplina da história deixou sua marca que, até os
dias de hoje, guarda cicatrizes que não foram superadas. Para ele, o documento histórico
já trazia a informação a ser dada como acabada. Claro que não se podem classificar os
ateus como positivistas, e nem os neoateístas. Entretanto, o positivismo tem um papel
importante na divulgação da tese de conflito entre ciência e religião. LeDrew fala de um
ateísmo científico darwinista e vitoriano, mas isso será propriamente abordado no
capítulo III.
O século XIX é o século do triunfo do liberalismo, quando a burguesia se
consolida na Europa depois das diversas revoluções que varreram o Antigo Regime do
continente. O conhecimento passa ser válido através dos dados da experiência sensível,
do empirismo. O positivismo passa a dominar o pensamento no século XIX, como
método científico e como uma doutrina com vários adeptos (RIBEIRO, 1994, p.13).

Como método, embasado na certeza rigorosa dos fatos de experiência


como fundamento da construção teórica: como doutrina,
apresentando-se como revelação da própria ciência, ou seja, não
apenas como regra por meio da qual a ciência chega a descobrir e
prever [...], mas conteúdo natural de ordem geral que ela mostra junto
com fatos particulares, como caráter universal da realidade, como
mecânica e da dinâmica do universo (Ibid., p. 13).
27

O positivismo professa o empirismo e rejeita tudo que advogue causas finais, já


que , para esta doutrina, o ser humano é capaz de ascender a verdades positivas, vindas
da experimentação e, ao mesmo tempo, rejeita a metafísica (Ibid., p. 15). No Brasil, o
positivismo criou suas bases nas classes médias urbanas e Academias de Direito (Ibid.,
p. 55-56). Em 1857, já se encontravam positivistas no Brasil. Aproclamação da
república brasileira contou com apoio e atuação de vários positivistas, conforme José
Murilo de Carvalho no seu A formação das almas (CARVALHO, 1990). Esse foi um
breve relato da formação da republica brasileira, mas continuemos com a história do
ateísmo.
Ainda acerca da história do ateísmo, adentramos no século XIX que,para o
francês Minois, foi o século da morte de Deus, quando a luta revolucionária se
empenhou pela descristianização de seu país. Os ateístas tiveram um papel importante
nos movimentos do século XIX de superação da crença religiosa, neste caso, a cristã. O
século XIX foi predominantemente anticlerical e descristianizador na Europa. No século
XIX, surge o Marxismo que terá um papel importante no ataque à crença em Deus.
Além dos avanços promovidos por Sigmund Freud e Friedrich Nietzsche, este último
muito atual por causa popularidade de suas obras em diversos segmentos sociais.
Marx, Freud e Nietzsche podem ser citados como a tríade ateísta do fim do
século XIX e inicio do XX.

1.4.O século XX, chamado por Minois de “Incrédulo”

Segundo Minois, o século XX foi aquele do naufrágio das certezas (MINOIS,


1998, p. 637). A chegada do comunismo leninista ao poder na URSS fez com que o
ateísmo, pela primeira vez se tornasse uma doutrina de Estado. Para Marx e Lênin, o
fim da religião estava ancorado no fim da ordem burguesa (Ibid., p.638). A Constituição
de 1918 separa a Igreja Ortodoxa do Estado. Desta forma, a partir de 1923, a Igreja e,
todas as religiões, passam a pagar altos tributos. Os comunistas passam a uma luta
militante contra a religião:

Em 1923, o XII Congresso do Partido Comunista decide entabular


uma luta sistemática contra os preconceitos religiosos. Dois jornais
são então encarregados de difundir o ateísmo: o Bezbojnik (‹‹Os sem
Deus››) e Bezbojnik ou Stanka (‹‹Os Sem-Deus no estaleiro››).
Em1925 é criada a União dos sem-Deus, sob a direçãode Yaroslavski,
28

que reivindicava em 1926 ter 2421 células e 87 033 membros em 3980


células e 123 007 membros em 1928. Yaroslavski anuncia claramente
o objectivo: ‹‹ Colocar em acção não apenas a crítica das limitações
sociais da religião, mas também a crítica científica; demonstrar esse
abismo, eisa tarefa que nos é imposta para os anos futuros. A luta
contra a religião é realmente a luta pelo socialismo›› (Ibid., p. 638).

Essa luta contra religião encabeçada pelo socialismo proliferou na antiga URSS,
como vemos nos dados da citação. Manuais foram feitos para disseminar tal
pensamento, a antirreligião era ensinada nas escolas soviéticas, grupos ateístas se
espalharam pela URSS. Em 1929, é criada a União dos Sem-Deus Militantes (USDM),
sob o impulso stalinista. Surge também A Internacional dos Livres Pensadores (ILP).De
caráter marxista, este grupo torna-se um movimento de massa e internacionaliza-se em
1930 (Ibid., p.641). Segundo os dados da organização UDSM, esta chega a ter sete
milhões de membros em Maio de 1932. A partir deste momento, o ânimo inicial de luta
contra as religiões começa a declinar, e, em 1935, deixa de ser prioridade na URSS em
decorrência da luta antifascista. A partir de então, foi necessário formar alianças com os
jovens cristãos. Na década de 1950, volta à cena o esforço antirreligioso na URSS com
métodos mais aperfeiçoados.
O ateísmo militante que estamos descrevendo aqui, ressalte-se, não é
exclusivamente marxista. Entretanto, julgamos pertinente valorizar a história de um
período do século XX em que o ateísmo se tornou, pela primeira vez, doutrina de
Estado. Esse pensamento passa a ser considerado uma ciência pelos soviéticos, com
estudos e cátedras nas universidades do Leste europeu. Seu objetivo, como ciência, era a
eliminação da religião (Ibid., p.646).
Voltando agora para a escala global, vários grupos foram importantes, para a
difusão do pensamento cético ateu, como a World Union of Free Thinkers, que era
frequentada por filósofos, investigadores, escritores e artista, sendo Bertrand Russell um
dos grandes animadores do grupo. O grupo influenciou movimentos em outros países no
combate antirreligioso e animou suas atividades nacionais. Em 1952, outro grupo muito
mais ambicioso foi criado, a International Humanist and Ethical Union (IHEU), que
atraiu muitos positivistas e humanistas cristãos vindos do pensamento liberal de
extrema-esquerda (Ibid., p.649). Desde ano de 1966, o movimento foi agrupado com
trinta associações em vinte e sete países. Vale ressaltar, no texto de Minois, que, fora
dos países comunistas e sem o pensamento marxista, tais associações não encontraram
muita resposta da sociedade (Ibid., p.651). Afinal, quem se dedicaria a viver para uma
29

associação baseada, essencialmente, em uma negação? Como Minois percebe, somente


a crítica às religiões e a negação não trazem repostas, isso frustra os militantes, fazendo
que percam o interesse associativo. Minois ainda fala dos combatentes racionalistas do
período 1950 a 1980, dando destaque à União Racionalista, nascida em 1931, tendo
diversas personalidades como Albert Einstein7, Bertrand Russell, Albert Bayer, e
Édouard Herriot. Minois descreve que os dois últimos decênios do século XX são
marcados pelo declínio do combate contra a religião. Sua obra é anterior aos ataques de
11 de Setembro de 2001, e não contempla o movimento neoateísta. Para o autor, as duas
últimas décadas do século XX foram marcadas pelo sentimento de impotência e de
inutilidade que deixaram os espíritos apáticos. Todavia, no início do século XXI, vemos
um recrudescimento do sentimento antirreligioso. Para Minois, o ateísmo atual se
configura como indiferença absoluta e ele fornece dados para corroborar sua ideia.
Primeiramente, ele estabelece que o problema da existência ou não de Deus deixou de
ser importante para a Ciência. E, por mais estranho que pareça, também deixou de ser
importante para jovens religiosos. Segundo dados de Minois das religiões cristãs, até a
data da publicação do livro, 32% dos jovens católicos franceses não acreditam em Deus
(Ibid., p.684), apesar de o número de ateus permanecer relativamente pequeno. A fé,
nessas décadas e no meio universitário europeu, havia se tornado um paliativo moral,
sem muita adesão pessoal.
Segundo o autor:

Estamos, então, na época da grande voga das ideologias marxistas,


trotskistas e maoístas na juventude intelectual europeia. A escalada do
ateísmo nos anos 1960-1970 é explicável por dois factores sócio-
culturais contraditórios; por um lado, esses jovens estão situados numa
sociedade de consumo materialista secularizada em que valores
religiosos foram eliminados; por outro lado, rejeitam esse tipo de
sociedade ao aderirem às ideologias ateístas. Tanto num lado como do
outro, Deus está ausente (Ibid., p. 712).

Através dessa citação, percebe-se que a juventude europeia foi influenciada por
ideias marxistas ateias, e, com isso, cada vez mais se afastando da crença. Por outro
lado, existe uma parte da juventude, que é consumista, e também tornou-se muito

7
Einstein não era ateu militante. Porém, anos após sua morte há uma disputa entre ateístas e teístas sobre
uma carta escrita por ele em que diz não acreditar no Deus bíblico. SOARES, Luis. Carta de Einstein
sobre descrença em Deus é leiloada por U$ 3 milhões. Disponível em:
<http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/10/carta-einstein-deus-ateu-leiloada-3-milhoes.html>.
Acesso em 23/04/2015.-leiloada-3-milhoes.html>. Acesso em 23/04/2015.
30

secularizada. A herança dessa década formou jovens europeus que influenciarão as


gerações futuras.

A juventude é a fase da inserção da personalidade na sociedade e esta


última, porque está secularizada, não oferece ainda oportunidade de
expressão a um sentido do sagrado, que incidirá sobre múltiplos
‹‹ídolos›› fabricados pela própria sociedade de consumo: vedetas do
desporto em particular. O nivelamento dos valores e dos não-valores,
provoca aliás um contexto cultural desfavorável ao sagrado, com uma
dispersão de energias, de interesses e actividades, geradora se um não-
sentido de existência: ‹‹Desse nivelamento das atitudes religiosas ao
abandono da prática religiosa, mesmo à ruptura de qualquer
dependência, parece ser o caminho de uma ‹‹mobilidade negativa››
progressiva da atitude religiosa, mas este caminho é, em certo ponto
de vista psico-sociológico, o equivalente do processo de
desenvolvimento do ateísmo juvenil››(Ibid., p. 714).

Os eurobarômetros8 fornecem dados de que a adesão religiosa decresceu na


Europa. O recuo para a descrença ficou mais acentuado entre os jovens. Minois, como
francês, está preocupado com que acontece principalmente em seu continente. Entre
essas posições antirreligiosas no início do século XXI, podemos apresentar vários
grupos seculares, destacando o neoateu. Esse grupo cresceu no mundo graças ao sucesso
de vendas de best-sellers neoateístas. No caso do Brasil, o ateísmo começa a se
organizar tarde. Não é porque não tivéssemos ateus antes, vinculados às doutrinas
anarquistas e marxistas, mas a organização do ateísmo em associações acontece com o
advento da Internet, uma vez que esta permitiu a um grupo minoritário e espalhado
territorialmente o poder para se contatar e se organizar. A ATEA é um exemplo disso.

8
São pesquisas que fazem sobre a União Europeia, podendo ser feitas por diversos institutos contratados.
31

1.5. Associação ATEA e a luta pela laicidade

Figura 2 - Site da instituição ATEA9

A página do Facebook do ATEA (Fig, 2), segundo os moderadores, não é a


organização em si. Essa separação é fruto da reclamação de vários frequentadores
contra postagens ofensivas à Religião na página do Facebook, principalmente. Parece
ser uma estratégia separar as postagens feitas no Facebook, já que algumas acabam
sendo muito ofensivas. Isso poderia prejudicar a imagem de seriedade que a instituição
pretende passar. Apesar dessas reclamações, a instituição mantém, no Facebook, uma
postura humorística.
No site principal da instituição, que não está no Facebook, são definidos os
seguintes objetivos:

Congregar ateus e agnósticos, defendendo seus interesses e direitos,


em todo o território nacional, bem como nos países ou estados
independentes onde o Estado Brasileiro possui representação
diplomática; Combater o preconceito e a desinformação a respeito do
ateísmo e do agnosticismo, dos ateus e dos agnósticos; Auxiliar a
autoafirmação dos ateus e agnósticos frente ao preconceito e a rejeição
sociais; Apontar o ateísmo e o agnosticismo como caminhos
filosóficos viáveis, consistentes e morais; [...] Promover a laicidade
efetiva do Estado, combatendo em todas as esferas legais qualquer
tipo de associação que seja contrária ao descrito na Constituição da

9
Disponível em: <www.atea.org.br/>. Acesso em 12/03/2014.
32

República Federativa do Brasil; Promover o pensamento crítico e o


método científico; [...]10.

A página do ATEA no Facebook é um exemplo de uma demanda antirreligiosa


na sociedade brasileira que pode ser observada nas redes sociais. A página cresceu de
27 mil participantes, em início de janeiro de 2012, para 70 mil até meados de fevereiro
do mesmo ano. Além de ateus e agnósticos, existe uma pequena porcentagem de teístas
que acompanham as publicações. Esses teístas ou são simpatizantes, ou a observam
num sentido apologético. No momento, 11 de novembro de 2014, a ATEA possui
357.562 membros na página, diferentemente do número de associados na instituição,
que conta com um total de 13.369 filiados. Na metade de 2015, já atinge a faixa de mais
de 380 mil curtidores.
A instituição ATEA ficou conhecida depois da campanha de outdoors que
pretendia espalhar pela cidade de Porto Alegre. Inicialmente, foram pensados para uma
campanha de ônibus, mas foi rejeitada pelas respectivas empresas brasileiras. A
11
campanha da ATEA era baseada numa feita por Richard Dawkins em Londres . No
Brasil, visava combater o preconceito contra ateus e gerou reações positivas e negativas
ao tom usado. A opção de colocar, também, as imagens no “meu virtual” obteve
sucesso, atraindo a atenção de diversos usuários, motivados pela polêmica dos
outdoors12.
A instituição ATEA teve suas origens nas ONGs Sociedade da Terra Redonda e
da Ateus do Brasil, de 1999 e 2006 respectivamente, organizações não-governamentais
brasileiras de caráter ateísta. Uma das principais lutas da ATEA é a favor da laicidade,
diversas vezes, a organização fez campanhas para combater, segundo ela, os abusos
contra a laicidade e a intolerância contra ateus. A ATEA tem um protagonismo forte na
defesa do Estado laico, com vitórias e derrotas. A vitória mais conhecida foi o processo

10
Disponível
em:<http://www.atea.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=46&Itemid=1>. Acesso
em 02/02/2012.
11
O slogan completo nos ônibus ingleses dizia: "There'sprobably no God. Now stop worrying and enjoy
your life" ("Provavelmente, Deus nãoexiste. Agora, pare de se preocupar e curta a vida", em tradução
livre).Disponível em: <http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL831590-5602,00-
CAMPANHA+ATEISTA+QUER+COLOCAR+POSTERES+EM+ONIBUS+DE+LONDRES.html>.
Acesso em 23/04/2015.
12
Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/949850-ateus-espalham-outdoors-polemicos-
em-ruas-de-porto-alegre-rs.shtml>. Acesso em 23/04/2015.
33

contra o apresentador Datena, do programa Brasil Urgente no canal da rede


Bandeirantes13.
Para os membros da ATEA, laicidade e secularismo são sinônimos, tanto que
promoveram um ato na Jornada da Mundial Juventude, em 2013, chamado de
desbatismo. Nele, membros da instituição “pretendiam secar com os ventos do
secularismo” o batismo católico. O ato de São Paulo foi à frente da Catedral da Sé.
Entretanto, para que possamos tratar coerentemente esse ponto, é importante que
atentemos para o seguinte questionamento: estão suficientemente claros, nesse ínterim,
os conceitos de secularismo e de laicidade?
Comecemos pensando acerca do que seria secularismo. Todos acreditam num
mesmo tipo de secularismo? Podemos dizer que o secularismo tem sua história e o
conceito mudou com o tempo. Alguns estudiosos acreditavam que ele seria dominante e
que as religiões estavam fadadas a desaparecer. Na próxima seção, será preciso entrar
nessa questão.

1.5.1. Secularização e dessecularização

A secularização é um processo dialético, feito de avanços e recuos. Os processos


de secularização dentro da sociedade são incompletos e antagônicos (EMMERICK,
2010, p. 4). Diferentes em várias partes do mundo, o contexto da Europa ocidental, onde
a religião institucionalizada perdeu peso, é diferente dos contextos dos EUA, como
também é diferente na América Latina, locais onde a religião tem grande influência
cultural Peter Berger, no livro O Dossel Sagrado, assim explica:

Por secularização, entendemos o processo pelo qual setores da


sociedade e da cultura são subtraídos à dominação das instituições e
símbolos religiosos. Quando falamos sobre a história ocidental
moderna, a secularização manifesta-se na retirada das Igrejas cristãs
de áreas que antes estavam sob seu controle e influência: separação da
Igreja e do Estado, expropriação das terras da Igreja, ou emancipação
da educação do poder eclesiástico [...]. Ela afeta a totalidade da vida
cultural e da ideação e pode ser observada no declínio dos conteúdos
religiosos nas artes, na filosofia, na literatura e, sobretudo, na ascensão

13
José Luís Datena, apresentador do programa Brasil Urgente, num programaexibido no dia 27 de julho
de 2010, fez uma enquete em que perguntava se os problemas de criminalidade eram devido à falta de
crença em Deus. A justiça condenou a Band, em 2013, a uma retratação de 50 minutos promovendo a
diversidade religiosa. Disponível em: <http://www.paulopes.com.br/2015/05/denuncia-da-atea-contra-
datena-obriga-band-a-exibir-video-do-mpf.html>. Acesso em 24/05/2015.
34

da ciência, como uma perspectiva autônoma e inteiramente secular, do


mundo (BERGER, 1985, p. 118-119).

Entretanto, mesmo no continente europeu, há um crescimento no número de


religiosos, novos movimentos religiosos têm surgido, e as religiões herdadas, perdido
espaço. Apesar de alguns terem previsto o fim da religião, isso não foi visto. A religião
passou por processos de acomodação. Entretanto, existe uma relação entre secularização
e dessecularização. Mesmo no continente europeu, há um crescimento no número de
religiosos, novos movimentos religiosos tem surgido, e as religiões herdadas perdido
espaço. O antropólogo Marcelo Camurça, baseado em Daniele Hervieu-Léger, define
bem o processo de “dessecularização”, que seria o inverso da secularização. Apesar
de alguns terem previsto o fim da religião, não foi o que foi visto, ela passou por
processos de acomodação (CAMURÇA,2003, p. 263). As instituições tradicionais
perderam força. As instituições tradicionais perderam força, e novos movimentos
religiosos subjetivos ganharam mais espaço. Thomas Luckmann acrescenta:

Temas religiosos brotam de experiências na “esfera privada” apoiam-


se principalmente em emoções e sentimentos e são tão instáveis que
torna difícil sua enunciação. Eles são altamente “subjetivos”, isto é,
não estão definidos de forma obrigatória pelas instituições primárias
(LUCKMANN, 2014, p.123).

A cosmovisão sagrada do homem moderno é, agora, privada, individualizada e


subjetiva e não são mais ligadas as instituições religiosas oficiais (Ibid., p. 122). De
qualquer maneira, a religião continua sendo influente no mundo moderno.

1.5.2. Teorias de Secularização

Os autores Josetxo Beriain e Ignacio Sánchez de LaYncera apresentam e


criticam as principais teorias sobre a secularização. Eles sistematizam didaticamente os
elementos acerca dessas principais teorias, sempre procurando mostrá-las usando, para
tal, a regra de dividi-las em três pontos. Os autores utilizam essa regra em toda a
extensão do texto. Primeiro, é um processo do Sagrado para o Secular; segundo, a teoria
da secularização é pensada como uma teoria geral universal; terceiro, vivemos um
mundo pós-dualista, onde não se pode fazer a velha distinção entre transcendência e
imanência (BERIAIN; LAYNCERA, 2012, p. 114.). Tais autores também observaram o
35

fato de que diversas teorias existentes sobre a secularização passaram ou passam por
contestações diante de uma realidade que surpreende qualquer teoria.
Os autores situam o momento como pós-secular para descrever os problemas de
demanda de abordagem sociológica dos âmbitos de convivência dos sociólogos ao
definirem uma abordagem plural e idônea das teorias de secularização. Para tanto,
recorrem a uma genealogia dessas teorias. Suas críticas se referem a um momento da
sociologia que definiu a teoria da secularização como universal e, diante da realidade
social, não podemos dizer que ela é um paradigma globalizado, pelo menos não nos
moldes europeus. Cada cultura no Ocidente desenvolveu processos de
desencantamentos e encantamentos próprios. A secularização como foi levada pela
maioria dos Estados da Europa Ocidental não pode servir como um modelo único para
uma teoria (Ibid., p. 132).
Os mesmos autores discutem certos mitos sociológicos e históricos que criaram
três confusões. A primeira delas foi identificar o progresso com a modernização que
surgiu das grandes revoluções dos séculos XVII-XVIII. Acreditava-se que, quanto mais
moderna a sociedade, mais dessacralizada ela seria. E que esse fenômeno seria
universal; a segunda confusão seria a identificação com o niilismo, que funda uma
ausência de princípio, uma realidade pós-metafísica. Porém, o que percebemos é que a
Religião verticalizada do passado converteu-se em uma gama de possibilidades
religiosas levando a um politeísmo cultural; a terceira seria a identificação com o
desencantamento, com o declínio da fé judaico-cristã, mas também um declínio da fé
tradicional, institucionalizada, para uma fé cada vez mais privativa.
Para José Casanova, citado por Beriain e LaYncera, os três sentidos mais
relevantes sobre a semântica dos processos de secularização são: primeiro, um processo
entendido como declínio das crenças e das práticas religiosas em sociedades modernas;
segundo, a secularização como privatização da Religião; e terceiro, a secularização
como uma diferenciação entre as esferas seculares entendidas como emancipação das
instituições e normas religiosas. Essa diferenciação tem suas origens históricas na época
medieval europeia cristã (Ibid., p. 122).A expressão “secularização” nasce na
cristandade medieval europeia, como termo dualista de classificação entre o que é
sagrado e o que é profano. Emile Durkheim foi o primeiro a postular que a distinção
entre o sagrado e profano seriam universais. Entretanto, a secularização começou com a
Reforma Protestante, a expropriação dos mosteiros de forma geral, de quaisquer
transferências do religioso para o uso laico ou civil.
36

Casanova no artigo “O problema da religião e as ansiedades da democracia


Secular Europeia” escreve que os estados seculares nasceram dos conflitos oriundos da
Reforma protestante e do nascimento dos Estados Modernos (CASANOVA, 2010, p.2).
Esses deixaram uma impressão que perdura até hoje nas sociedades do velho continente,
através da qual a religião é vista como um fenômeno intolerante e conflituoso (Ibid.,
p.5). Todavia, ele reflete que os grandes massacres do século XX foram de ideologias
políticas modernas e seculares. Os europeus possuem uma memória seletiva que os
impede de refletir sobre as memórias recentes (Ibid., p. 6). Para Casanova, é precipitado
falar em uma Europa pós-secular, mesmo porque o religioso é um fato observável
dentro dessa sociedade, sendo cada vez vivido de forma mais privatizada. O autor não
vê a religião como empecilho para a democracia.
Nos anos 80 do século XX, os movimentos religiosos cresceram muito e de
forma inesperada. A permanência das religiões e sua persistente relevância mostraram
que as religiões ainda são fortes no cenário do mundo moderno secular, gerando um
assombro ao constatar-se que elas ainda teriam expressões na esfera pública.
Enfim, pode-se dizer que a teoria, ou as teorias universalistas da secularização
sofreram muitas críticas, inclusive de Peter L. Berger no artigo “A dessecularização do
mundo: uma visão global” (BERGER, 2001, p. 10), que foi, no princípio, um dos
principais divulgadores da ideia de que a secularização levaria cada vez mais a religião
para fora da esfera pública. Entretanto, Berger mudou de ideia ao perceber que o
mundo passa pela efervescência de novos movimentos religiosos, e pela
reconsolidações dos antigos. O desencantamento provocado pela secularização, no qual
a sociedade da técnica, da máquina e da ciência tomou o espaço explicativo das
religiões na sociedade ocidental, não foi totalmente vitorioso.
Há uma dessecularização do mundo com o recrudescimento religioso? O
pensamento de um “reencantamento” do mundo tem sido muito discutido, entretanto,
não se pode dizer que isto, de fato, ocorra, uma vez que o mundo nunca foi totalmente
desencantado e nem totalmente secularizado. Secularização, dessecularização,
encantamento e desencantamento são processos múltiplos e acontecem de formas
diferentes pela sociedade. A religião, como já foi dito, está sofrendo transformações. Ela
não está mais tão presa às instituições centralizadas e tradicionais, não há mais essa
hegemonia. Atualmente, a religiosidade parece seguir pelo caminho da extrema
individualização e subjetividade privada. Cada ser cria seu próprio sistema religioso,
sem muitos intermediários como antigamente.
37

1.5.3.Laicidade no neoateísmo brasileiro

Antes de falar da laicidade no caso específico da militância na Internet, é


necessário fazer entre elas uma correlação. É possível perceber confrontos
antirreligiosos nas redes sociais, o que acontece por causa de uma militância ateísta
consciente ou inconsciente. Devido aos best-sellers neoateístas, surgiram muitos jovens
entusiasmados que colocaram suas opiniões em vídeos no YouTube, tornando os
autores famosos dentro da rede. Uma antirreligiosidade advinda dos autores neoateus se
espalhou pela e com ajuda da Internet através de blogs, entrando, posteriormente, em
redes sociais por meio de comunidades no Facebook (o Facebook foi escolhido como
campo de análise delimitado).
Um caso curioso de grupos seculares que procuram patrulhar as manifestações
religiosas ocorreu durante as Olimpíadas de Londres, em 2012. No dia 11 de agosto, as
jogadoras do time brasileiro de vôlei ganharam a medalha de ouro. As atletas,
comandadas pelo técnico José Roberto Guimarães, venceram os Estados Unidos, por 3
sets a 1. Depois de uma campanha irregular nas olimpíadas e de início de partida final
complicada, a seleção de vôlei venceu a decisão. Logo após a vitória, as jogadoras e a
comissão técnica se reuniram e rezaram um pai-nosso. A imagem da manifestação
religiosa correu o mundo. Logo, sugiram manifestações contrárias dentro das redes
sociais expressas inclusive em um texto publicado na Folha de São Paulo, de Daniel
Sottomaior.
Isso é um exemplo do avanço da secularização no Brasil. É possível ver dilemas
nas redes sociais, no espaço público político, manifestações de protestos e de demandas
sociais. A religião deve ser de foro privado, não deve ser manifestada no espaço público
político. Há uma confusão no senso comum entre expressar publicamente a fé com usar
o espaço público político. Tudo parece ferir a laicidade, segundo alguns usuários.
Parece que,apesar de conhecer o conceito básico , a dificuldade está em quando e
comoser aplicada. Essa falta de um conhecimento mais exato origina críticas que
apontam todas as manifestações religiosas como ataques à laicidade, e tal argumento
usado a todo tempo, é, com certeza um exagero. A laicidade não preconiza que as
religiões e suas manifestações sejam proibidas, mas requer a proibição de que uma
religião ou igreja esteja unida à política com um projeto de Estado. Então, o constante
uso do conceito de laicidade, para todos os casos, acaba por mascarar atitudes
antirreligiosas. A laicidade, por definição clássica, visa à separação do Estado das
38

igrejas, mas sua aplicação é complexa. O termo laicidade surge, segundo alguns
militantes, para impedir essas manifestações. Um exemplo a seguir é de um artigo de
jornal que serve para ilustrar como o discurso antirreligioso se apresenta nos meios de
comunicação e como o termo laicidade se popularizou e se tornou senso comum,
refletindo sobre ela e sobre como é vista através dos grupos que a defendem, pensando
que, mesmo para estes, tal noção não é muito clara. Cito este artigo por exemplificar
bem os discursos que aparecem nas redes sociais.
No texto de opinião de Daniel Sottomaior, fundador e presidente da ATEA,
publicado na Folha de São Paulo, a noção de laicidade não está apenas definida como a
separação entre Estado e igrejas, mas também definida como proibição de expressão
religiosa publicamente14. É perceptível, ainda, a ideia de que a oração do pai-nosso da
seleção brasileira foi um exemplo de intolerância na reflexão de Daniel Sottomaior. O
próprio ainda reflete dizendo que há um limite e que a atividade em si foi uma atitude
sectária. Sottomaior vai mais longe, declara que “os problemas começam quando a
prática religiosa se torna coercitiva, como é o caso das tradições das religiões
abraâmicas.” Para Sottomaior,

Sagrado é o direito de se crer em qualquer mitologia e dá-la como


verdadeira. Professar uma religião em público também não é crime
nenhum, embora costume ser desagradável para quem está em volta.
[...]. Na prática, a oração se torna uma obrigação que fere a liberdade
constitucional de consciência e crença dos jogadores. Além disso, o
Comitê Olímpico Brasileiro é financiado por recursos públicos, 2% da
arrecadação bruta das loterias federais15.

Sottomaior escreve que a manifestação religiosa do grupo de atletas foi um ato


de intolerância religiosa, pois, para ele, a tradição das religiões abraâmicas é de
intolerância. Tal manifestação religiosa não poderia ter acontecido, pois a seleção é
patrocinada pelo dinheiro público.

O que os atletas fizeram foi sequestrar aquele privilegiado espaço


publicitário, pago com dinheiro de cidadãos brasileiros de todas as
crenças e descrenças, para promover atividades sectárias que só
beneficiam seus fins particulares, em detrimento de todos os demais
cidadãos brasileiros16.
14
SOTTOMAIOR, Daniel. Oração da vitória. Folha de São Paulo, São Paulo, 24 ag. 2012. Opinião.
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/62445-oracao-da-vitoria.shtml>. Acesso em
08/10/2012.
15
Ibid.
16
Ibid.
39

Mas o que é, de fato, laicidade? Não podemos relacionar tal revolta com a
secularização da sociedade brasileira atual? Para tentar definir esse termo, veremos, a
seguir, alguns textos de pensadores brasileiros sobre ela.

1.5.4. Laicidade à brasileira e secularização

Secularização e laicidade não são conceitos iguais, e acontecem de formas


diferentes em diversas sociedades. Como teorizamos sobre secularização,
conceituaremos Laicidade, ou laicismo. A definição clássica de laicidade é uma
referência ao comportamento do Estado com a Religião. Laicidade é a separação
política da Religião com o Estado. Segundo Cesar Ranquetat:

A laicidade é uma noção que possui caráter negativo, restritivo.


Sucintamente pode ser compreendida como exclusão ou ausência de
religião na esfera pública. A laicidade implica neutralidade do estado
em matéria religiosa. Esta neutralidade apresenta dois sentidos
diferentes, o primeiro já destacado acima: exclusão da religião do
estado e da esfera pública. Pode-se falar, então, de neutralidade-
exclusão. O segundo sentido refere-se à imparcialidade do Estado com
respeito às religiões, que resulta da necessidade do estado em tratar
com igualdade as religiões. Trata-se neste caso da neutralidade-
imparcialidade [...] (RANQUETAT, 2008, p. 5).

Podemos perceber que o discurso de laicidade não se aplica ao que aconteceu


após a manifestação religiosa das jogadoras de vôlei em Londres, pois, apesar do
patrocínio público estatal, elas não eram burocratas ligadas ao Estado, mas patrocinadas
pelo mesmo. Ricardo Mariano expõe de outra maneira:

A noção de laicidade, de modo sucinto, recobre especificamente à


regulação política, jurídica e institucional das relações entre Religião e
política, igreja e Estado em contextos pluralistas. Refere-se, histórica e
normativamente, à emancipação do Estado e do ensino público dos
poderes eclesiásticos e de toda referência e legitimação religiosa, à
neutralidade confessional das instituições políticas e estatais, à
autonomia dos poderes político e religioso, à neutralidade do Estado
em matéria religiosa (ou a concessão de tratamento estatal isonômico
às diferentes agremiações religiosas), à tolerância religiosa e às
liberdades de consciência, de Religião (incluindo a de escolher não ter
Religião) e de culto (MARIANO, 2011, p. 244).
40

Neste caso da oração realizada pelas jogadoras, não podemos declarar que foi
um conflito aberto entre laicidade e Religião, mas um conflito entre os adeptos
secularizantes diante da manifestação da religiosidade brasileira. Podemos perceber uma
forte dose de fundamentalismo secular dos agentes que criticaram a manifestação.
Entretanto, é preciso pensar como a laicidade se apresenta no Brasil e como ela é
vivenciada em outros países. Os brasileiros veem com muita naturalidade as
manifestações públicas religiosas, realmente gostam dessa expressividade religiosa, mas
ela não é expressa da mesma forma em países da Europa ou no Canadá, na Austrália e
na Nova Zelândia, nos quais o secularismo tem maior força. No mundo pós-iluminista
europeu, a Religião tornou-se algo de foro íntimo, para ser vivida no particular.
Expressá-la publicamente é quase ofensivo para os adeptos secularizantes, não
importando se são ligados ou não ao ateísmo. O conceito de laicidade atual no Brasil
está ligado ao avanço do secularismo, com o desencantamento da nossa sociedade nos
últimos anos.
Já a sociedade que surgiu após a Revolução Francesa tinha uma visão idealista
de que o homem poderia romper os grilhões fatalistas e transformar o mundo. E essa
visão se estabelece no século XIX com a consolidação da sociedade burguesa. O papel
de Deus foi superado, pois o homem livre não precisa Dele (SCHELEGEL, 2009, p.
43). Quanto à secularização, esta significa a ruptura entre o Religioso e o Político, e de
outros aspectos da vida cotidiana com economia, cultura, saúde, vida social, etc. Na
verdade, a secularização não deveria ser uma opção antirreligiosa, no entanto, a
Religião (principalmente a cristã) perdeu espaço graças às ideias vitoriosas do
Iluminismo (Ibid., p. 46), mas os novos adeptos, principalmente influenciados pela
também nova onda ateísta, argumentam que as manifestações religiosas deveriam ser
extirpadas da vida pública. Para alguns, isso não seria secularização, mas sim
“secularismo”, como forma radical de laicização. O secularismo visa suprimir a
Religião da sociedade (Ibid., p. 47). Seja qual for o nome, o secularismo pode ser
considerado uma vertente de fundamentalismo.
Segundo Schelegel “o mundo moderno, é dominado por uma vontade
generalizada de racionalização (SCHELEGEL, 2009, p. 90).” A lógica dessa
racionalização está, por exemplo, na afirmação de que não há nada mais irracional e
inútil do que perder seu tempo rezando/orando para um Ser misterioso e
incompreensível. Quando a lógica da racionalização é rompida, esse rompimento
precisa ser combatido.
41

O texto do Sottomaior é uma argumentação combativa, mas também muito


confusa em relação ao conceito de laicidade. É possível até classificá-lo como
fundamentalista. No artigo de Scott Randall Paine sobre “Fundamentalismo ateu contra
fundamentalismo religioso” da revista Horizonte, o autor faz um ensaio sobre os
fundamentalismos e como eles podem ser tanto religiosos quanto seculares e, ainda,
sobre como o neoateísmo procura vincular todo o conhecimento através do método
científico e ignora outros tipos de saberes. O neoateu tende a desprezar qualquer outra
metodologia, ignorando convicções morais e estéticas (PAINE, 2010, p.17). Outra
tendência fundamentalista do neoateísmo é que a maioria dos neoateus acredita que as
religiões são um mal e que desaparecerão com o avanço da ciência, extirpando o “Deus
das lacunas” (Ibid., p.23). Todavia, o que se percebe é uma transformação na
religiosidade atual, e não o seu desaparecimento. Apesar das crises, as religiões estão
cada vez mais vivas, ocupando outros lugares na sociedade. Baseando-se na ideia de
Paine, é possível dizer que o que foi feito no artigo de opinião da Folha de São Paulo foi
a criação de uma falácia do espantalho, em que os autores de tais textos interpretaram a
realidade ao seu favor, buscando um exemplo de intolerância onde não havia.
Justificaram que a atitude das jogadoras não respeitou a fé de todas da equipe, mesmo
sem evidências para isso. Segundo Paine: “Talvez a maior e mais manifesta das
aberrações que o fundamentalismo produz [...] é o habito de criar caricaturas do inimigo
(Ibid., p. 24).” São essas caricaturas que impedem a aceitação do diferente e de sua
expressão.
Em 2013, havia várias controvérsias sobre a Comissão de Direitos Humanos e
Minoria, pois estava sob a presidência de um deputado evangélico e pastor pentecostal.
Esse deputado, de nome Marcos Feliciano, supostamente fez comentários racistas e
homofóbicos no Twitter e no YouTube17. Nada está muito claro, pois a reação a ele se
tornou muito acalorada. Porém, se percebe que as manifestações, nas devidas
proporções, começaram a apresentar elementos antirreligiosos. Isso se deve a uma forte
oposição de setores da classe média e seculares da sociedade brasileira perante o avanço
evangélico nos últimos anos.
Na sociedade brasileira, há diversas forças sociais surgindo no campo da crença
ou da não crença, mas muito pouco se fala dos elementos antirreligiosos e de suas lutas.
Não são invisíveis, mas, aparentemente, poucos percebem sua presença. Esses grupos

17
Esse mesmo deputado é responsável por um projeto de lei visando à implantação do estudo do
Criacionismo no Ensino Básico.
42

acabam usando um conceito de laicidade pouco científico, muito baseado no senso


comum, que, no calor da paixão, acaba se tornando argumento antirreligioso. Na
verdade, não vemos uma defesa da laicidade e sim um secularismo radical, ou laicismo.
Orar, ou não, em público não fere a laicidade, ainda mais se ela é feita fora das
instituições geridas pelo Estado.
Neste caso, um ambiente bastante útil para entender o campo religioso brasileiro
é a rede social Facebook, cuja história será apresentada a seguir.

1.6.O efeito Facebook

As redes sociais se tornaram muito populares entre os brasileiros. O Orkut era a


rede social que tinha maior número de adeptos no Brasil, chegando a ser, aquela em que
a porcentagem de brasileiros superava a de outros países18. Com o advento do
Facebook, houve uma migração de usuários para essa rede, deixando, em 2013, o Orkut
de ser a principal rede social mais acessada no Brasil. Os números de acessos ao Orkut
ficaram muito baixos, o que levou ao recente “falecimento” da rede.
O Facebook, em contrapartida, acabou atraindo muito mais pessoas e hoje é a
maior rede social virtual do mundo19, com mais de um bilhão de usuários20. O Brasil é o
segundo país em números de acessos por dia, mas o terceiro em filiados, perdendo
apenas para os Estados Unidos e a Índia. Trata-se de um website de propriedade
privada, no qual as pessoas se cadastram e trocam mensagens, estabelecendo amizades e
influenciando outras pessoas. No entanto, o que impressiona é o fato de a rede ameaçar
a liberdade de opções, visto que a administração do Facebook age como uma grande
empresa monopolista21. O Google fechou o Orkut em 30 de Setembro de 2014 por ter se
tornado uma rede irrelevante em termos de acesso.

18
“Em 2011, mais precisamente em abril daquele ano, a rede social mais famosa do Brasil na época, o
Orkut, detinha 50,51% de acesso, o que hoje, no mesmo mês, mas dois anos depois, o Orkut tem apenas
2,20% de acesso, figurando como a terceira rede social mais visitada pelos brasileiros, perdendo até
mesmo para o YouTube”. Disponível:<http://www.oficinadanet.com.br/post/10713-orkut-de-maior-rede-
social-do-brasil-a-decadencia-em-2013>. Acesso em 12/04/2014.
19
Disponível:< http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2012/01/Facebook-passa-orkut-e-vira-maior-rede-
social-do-brasil-diz-pesquisa.html>. Acesso em 13/04/2014.
20
RIBEIRO, Milton. Facebook, 10 anos e mais de 1 bilhão de usuários. Disponível:
<http://www.sul21.com.br/jornal/facebook-10-anos-e-mais-de-1-bilhao-de-usuarios/>. Acesso em
10/04/2014.
21
Disponível: <http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2014/04/receita-do-facebook-cresce-72-
no-1-trimestre-de-2014.html>. Acesso em 14/04/2014.
43

O filme A Rede Social (The Social Network), lançado em 2010, descreve um


pouco do crescimento e sucesso da rede Facebook e das intrigas que se seguiram. O
filme é uma espécie de biografia, não autorizada, dos inventores da rede, e baseia-se no
roteiro de Aaron Sorkin, adaptado do livro de The Accidental Billionaires, escrito por
Ben Mezrich. Os inventores da rede social foram Mark Zuckerberg, Eduardo Saverin,
Chris Hughes e Dustin Moskovitz. Eles criaram a rede baseados, inicialmente, em uma
ideia oriunda de um site da época da faculdade, Harvard, o Facemash, que dava notas às
alunas bonitas. Já o livro “O efeito Facebook”, praticamente esgotado em língua
portuguesa, parece ser uma obra aprovada por Mark Zuckerberg que, temendo as
repercussões negativas do filme, preocupou-se em melhorar sua imagem.
O Facebook tornou-se um agente de diversas manifestações pelo mundo, através
dele, eventos políticos foram marcados e tomaram dimensões enormes. A rede social
tornou-se um fenômeno perceptível do mundo moderno conectado. E isso é percebido
desde o início. No começo do livro o Efeito Facebook, vemos um exemplo de como esta
rede foi importante nas manifestações na Colômbia. Em 2007, Oscar Morales, por
intermédio da rede social, conseguiu reunir milhares de pessoas contra a guerrilha das
FARC. O Facebook havia sido lançado em 2004, mas se, no começo, era
majoritariamente frequentado por universitários anglo-saxões, com o passar dos anos,
ganhou o mundo e passou ser uma peça importante no desenrolar político mundial. Por
exemplo, temos o caso da chamada Primavera Árabe, que começou na Tunísia e na
Islândia e se espalhou pelo mundo, especialmente Oriente Médio e Norte da África,
chegando ao Brasil, nas Jornadas de Junho de 2013, quando parte população brasileira
saiu às ruas22. Castells, ao analisar as manifestações pelo mundo, dá bases teóricas para
entender as brasileiras, extremamente influenciadas pelos meios de comunicação
virtuais:

Começou nas redes sociais da Internet, já que estas são espaços de


autonomia, muito além do controle de governos e empresas, que, ao
longo da história, haviam monopolizado os canais de comunicação
como alicerces de seu poder. Compartilhando dores e esperanças no
livre espaço público da Internet, conectando-se entre si e concebendo
projetos a partir de múltiplas fontes do ser, indivíduos formaram
redes, a despeito de suas opiniões pessoais ou filiações

22
Em junho de 2013, o país teve grandes manifestações por todo lugar, muitas dela organizadas em redes
sociais, com destaque o Facebook. Todos foram pegos de surpresa, pois não esperavam tal fato. As
Jornadas de Junho tinham diversas reivindicações, mas em sua maioria era por melhores serviços
públicos. Disponível em: <http://interessenacional.uol.com.br/index.php/edicoes-revista/jornadas-de-
junho-e-revolucao-brasileira/>. Acesso em: 10/04/2014.
44

organizacionais. [...] Os movimentos espalharam-se por contágio num


mundo ligado pela Internet sem fio e caracterizado pela difusão
rápida, viral, de imagens e ideias (CASTELLS, 2013, p.10).

Para Manuel Castells, assim como para muitos outros pesquisadores, o espaço
virtual foi extremamente importante nas revoluções do inicio da segunda década do
século XXI. Os meios de comunicação formais, rádio, canais de televisão, jornais
impressos, não entendiam o novo fenômeno dinâmico que derrubava governos e
mobilizava milhares de pessoas. Governos autoritários foram derrubados, e respostas
tiveram que ser dadas por quem ainda queria ficar no poder. A Internet e as redes
sociais foram os meios de comunicação que desenvolveram todo o processo de
contestação. Tunísia, Egito, Líbia (nesses dois últimos casos, a concretização das
reivindicações democráticas não aconteceram) e outros tentaram, em vão, restringir o
acesso à Internet, em seus países, como forma de aplacar a revolta social23.
O Facebook tornou-se uma das redes sociais mais importantes, e a hegemônica
entre todas. Seu poder é enorme, e Pierre Levy argumenta e faz críticas ao
funcionamento da página, por ela determinar o que será apresentado como notícia de
interesse dos usuários ou oferecido nos patrocínios24. Levy critica o monopólio da
administração das informações. Todavia, o controle de informações e filtragens dela é
muito comum e a Internet é o meio de comunicação muito vigiado. O Facebook é
colossal, a administração procura dominar o espaço das redes sociais caminhando para
um possível monopólio.
Há pouco tempo, a administração da página estava preocupada com a migração
dos mais jovens para o WhatsApp, um aplicativo de celular que permite conversas
instantâneas, que é, atualmente muito popular entre os mais jovens. Por esse motivo, o
aplicativo foi comprado por uma quantia milionária. O trecho a seguir, retirado de uma
reportagem do site G1, pertencente à Globo, mostra esse abandono do Facebook, pelos
adolescentes, em números:

Os adolescentes estão deixando o Facebook em troca de outras redes


sociais e meios de se comunicar com amigos. De acordo com pesquisa
da consultoria iStrategy, entre janeiro 2011 e janeiro de 2014, o

23
Sites como o Facebook, Twitter, Flickr e YouTube foram essenciais durante a mobilização. Receita do
Facebook cresce 72% no 1º trimestre de 2014. Disponível:
<http://info.abril.com.br/noticias/Internet/egito-corta-Internet-da-populacao-28012011-3.shl>. Acesso
em: 14/04/2014.
24
PIERRE LÉVY: "Ou você domina o algoritmo do Facebook ou ele te domina". Disponível
em:<http://fronteiras.com/canalfronteiras/noticias/?16%2C207>. Acesso em: 12/04/2014.
45

serviço perdeu nos Estados Unidos mais de 6,7 milhões de jovens com
idades entre 13 e 24 anos. [...] Os adolescentes entre 13 e 17 anos
eram 13,1 milhões (8,9% do total de usuários nos EUA) em 2011 e
caíram para 9,8 milhões em janeiro de 2014 (5,4%) do total de
usuários25.

Parte dos mais jovens abandonou o Facebook à procura de outros meios digitais.
Segundo a reportagem:

Entre jovens com idade entre 18 e 24 anos, a queda foi menor, de


7,5% no período do estudo, mas obteve a mesma quantidade de
adolescentes que deixaram o Facebook, pouco mais de 3,4 milhões.
Em 2011, eles eram 45,4 milhões (30,9% do total de usuários no país)
e em janeiro deste ano caíram para 42 milhões, 23,3% do total de
usuários da rede social nos Estados Unidos26.

Esses números sugerem um envelhecimento do Facebook, que pode determinar


seu fim ou ser um indicativo de que sua fórmula se esgotou, uma vez que as redes
sociais parecem ter vida curta27. No entanto, o futuro do Facebook ainda é incerto. O
aumento da faixa etária dos usuários que permanecem utilizando a rede indica
caminhos, um deles é o de que, no futuro, o Facebook deixe de ser uma rede social para
se tornar uma plataforma mais integrada ao dia-a-dia do usuário28.
Segundo os pesquisadores Camila Pinheiro, Marta Santos, Francisco Santos e
Jorge Pacheco do Instituto para a Investigação Interdisciplinar, da Universidade do
Minho e do Instituto Superior Aveiro, a influência das redes sociais é complexa, pois
determina comportamentos, influenciando pessoas que jamais conheceremos. O estudo
baseou-se numa teoria recente – Três graus de influência –, segundo a qual, numa rede
social, usuários influenciam não só os seus amigos, mas também os amigos dos seus
amigos e os amigos destes últimos. Tal estudo foi feito simulando dados matemáticos
por computador29.

25
Disponível em: <http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2014/01/67-milhoes-de-jovens-abandonam-
Facebook-em-3-anos-diz-pesquisa.html>. Acesso em: 14/04/2014.
26
Ibid.
27
POZZEBON, Rafaela. Qual a vida útil das Redes Sociais? Período de crescimento, estabilidade e
decadência. Disponível em: <http://www.oficinadanet.com.br/post/8482-qual-a-vida-util-das-redes-
sociais-periodo-de-crescimento-estabilidade-e-decadencia>. Aceso em 14/04/2014.
28
_______. Facebook dejará de ser lared social que conocemos. Disponível em:
<http://www.elpais.com.uy/vida-actual/Facebook-dejara-red-que-conocemos.html>. Acesso em:
24/04/2014.
29
PINHEIRO, Flávio L; SANTOS, Marta D.; SANTOS, Francisco C.; PACHECO, Jorge M. The
Origin of Peer Influence in Social Networks. In: American Physical Society. Vol. 112, Mar, 2014.
Disponível em: <http://link.aps.org/doi/10.1103/PhysRevLett.112.098702>. Acesso: 20/04/2014
46

Feita essa introdução ao Facebook, faz-se necessário que avancemos para o


entendimento do conceito de Ciberativismo. Nesta rede social, o Ciberativismo é muito
claro, se expressa de forma visível e regular. Nos comentários, na criação de páginas e
comunidades de debate é construída a identidade social dos ateus, ou neoateístas. A
construção dessas identidades e dá através da ideia de conflito entre ciência e religião, e
todas as páginas pesquisadas têm em menor ou maior grau essa tensão. A seguir,
definiremos o Ciberativismo, focalizando a questão do referido conflito.

1.7.Ciberativismo

Por esse ciberativismo,entendemos, junto a Sérgio A. Silveira, que:

[...] podemos denominar um conjunto de práticas em defesa de causas


políticas, socioambientais, sociotecnológicas e culturais, realizadas
nas redes cibernéticas, principalmente na Internet. O ciberativismo se
confunde com a própria expansão da rede mundial de computadores.
Ele influenciou decisivamente grande parte da dinâmica e das
definições sobre os principais protocolos de comunicação utilizados
na conformação da Internet. É possível posicionar os diversos grupos
e atividades do ciberativismo situados mais à esquerda ou mais à
direita. Todavia, esse enquadramento tradicional, que orientou a
divisão política das ações e ideologias no mundo industrial, encontra
crescente dificuldade operacional diante de muitas ações na sociedade
informacional (SILVEIRA, 2012, p. 31).

Apesar de o ciberativismo ser um fenômeno mundial, a preocupação dessa


pesquisa é a ação dos ativistas brasileiros. Por causa de limitação de tempo e de espaço
para um trabalho de dissertação, faz-se necessário atermo-nos ao Brasil. Por essas
definições, podemos dizer que o grupo da ATEA está inserido no ciberativismo ateísta.
Os frequentadores da página são jovens, em sua maioria com a idade de 18 a 24 anos. A
idade explica como e para quem as postagens são dirigidas. Elas precisam atrair o grupo
que se forma a partir dessa faixa etária. Na figura abaixo, há a informação de que a
moderação da página ATEA colocou pra seus frequentadores, a idade principal de
curtidores da página.
47

Figura 3 – Faixa etária mais popular da ATEA30

Entretanto, nessa faixa etária, a procura predominante no Facebook é por humor


liberal e escrachado, segundo a pesquisa do grupo GAUGE, no trabalho “As Faces do
Facebook”, de 2013.31 Para a pesquisa, o humor liberal escrachado deve se configurar
como um tipo de humor que envolva as “coisas” do cotidiano, que envolva marcas ou
produtos, que transforme qualquer assunto em piada32. Segundo a referida pesquisa,
essa faixa etária corresponde a 32% dos usuários, que acessam diariamente a Internet de
casa ou do trabalho, geralmente à noite33. A pesquisa evidencia também haver nessa
faixa de idade uma forte formação identitária. No caso dos jovens entre 18 a 24 anos
(25 é a idade limite na pesquisa da GAUGE), a preferência pelo humor escrachado 34 é
bastante reveladora, e explica a quantidade de associações das páginas ateístas. Apesar
de a análise da GAUGE ser uma pesquisa de mercado consumidor, revela alguns
detalhes interessantes. Observando a figura 20, podemos relacionar os números de
usuários à faixa etária dos frequentadores. Todavia, há uma queda na associação por
curtidas em relação à página. Há notícias de que os usuários nessa faixa etária de 18 a
24 anos estão migrando para outros meios digitais.
No Facebook, o compartilhamento de imagens e vídeos tem grande repercussão,
sendo as imagens muito mais compartilhadas do que textos e vídeos. O estudo dos
pesquisadores portugueses sobre compartilhamento nessa rede social de informações e
de ideias e as influências delas foi o que mais se aproximou de nossa preocupação em
relação aos compartilhamentos e curtidas do Facebook. Carolina M. Barreto e Isabele R.
Câmara escrevem:

30
Disponível: <http://www.facebook.com/ATEA.ORG.BR?ref=ts>.Acesso em 20/04/2012
31
As faces do Facebook. Disponível: < http://www.gauge.com.br/alemdasfacesdofacebook/>. Acesso em
24/04/2014.
32
Ibid. p. 89.
33
Ibid. p. 47.
34
Esse termo popular e coloquial está sendo utilizado nessa dissertação em consonância com terminologia
adotada pela GAUGE.
48

Uma das ferramentas que mais caracterizam o Facebook é a de


‘compartilhar’. Por meio dela, o usuário pode se apropriar de
determinado conteúdo visto por ele em algum lugar do ciberespaço e
colocá-lo no seu perfil. Com esse gesto, os indivíduos mostram se
concordam ou não com algo, se compactuam ou se abominam a
postagem (BARRETO; CÂMARA, 2012, p. 3).

As autoras, em seu artigo sobre compartilhamentos no Facebook, classificam


tipos de imagens compartilhadas de cultura do grotesco e citam um exemplo de uma
imagem, onde uma criança sobrevive a um acidente de carro. A imagem (Fig. 4),
segundo apontam as autoras, foi compartilhada com o título de “Deus existe” (Ibid., p.
9). Porém, em nossas pesquisas em páginas e comunidades ateístas, vimos que essa
imagem, para os ateus, prova extremamente o contrário, pois onde estaria Deus ao
deixar uma criança sozinha no mundo diante de tal tragédia? O problema do Mal no
mundo é um dos questionamentos dos descrentes. Se Deus é bom, por que permite que
o mal aconteça?

Figura 4- Imagem de criança sobrevivente de um acidente de carro35

Percebe-se que muitas dessas pessoas apoiam causas sociais ligadas à laicidade e
direitos sexuais, e veem a Religião como seu principal adversário. Então, nos discursos
das páginas que buscam compartilhamentos, ocorrem abundâncias de mitos

35
Disponível em: <https://www.facebook.com/ateusbr?fref=ts>. Acesso em 20/08/2014.
49

antirreligiosos, tais como: a terra plana na Idade Média, a Religião que trava o
conhecimento científico, o medo de Estado Teocrático36, citações constantes dos casos
de Galileu e Giordano Bruno37, entre outros. Esses temas são recorrentes e quase nunca
deixam de estar presentes nos debates virtuais, juntamente com outros mitos científicos
antirreligiosos como terra plana na Idade Média, proibição de dissecação de cadáveres
pela Igreja, Inquisição, Cruzadas, mortes por causa de guerras religiosas, etc. No
próximo capítulo, será abordada a questão dos mitos, entre as páginas 51 a 54.
Pouca coisa é contextualizada historicamente e, na maioria dos casos, devido à
baixa frequência/qualidade de leitura dos brasileiros, o máximo de informação dos
frequentadores é baseado em pequenos artigos de sites ateus e da Wikipédia. Contudo, é
possível perceber que a moderação de muitas páginas é formada por pessoas com maior
nível de leitura e instrução. Mas, no caso dos frequentadores, os vídeos do YouTube são
fontes de informação e divulgação das ideias ateístas.
No próximo capítulo, serão expostos argumentos, imagens, testemunhos e
gráficos. Há uma prévia das entrevistas em forma de gráficos, onde serão expostos os
resultados. Essas fontes foram extraídas das páginas das comunidades ateístas. As
entrevistas foram feitas através de mensagens para os moderadores em suas páginas de
comunidade, os questionários foram feitos com auxílio do GoogleDocs. Também será
exposta a percepção de que o humor é um tema transversal dentro dessas comunidades,
pois é perceptível como uma estratégia de atração de curtidores.

36
O medo pelo estado teocrático é uma constante nas páginas neoateístas.
37
A nova série Cosmos, que fez sucesso em sua versão original com Carl Sagan, fez no primeiro episódio
uma animação sobre Giordano Bruno reforçando mitos antigos antirreligiosos e anticatólico.
50

CAPÍTULO II

O NEOATEÍSMO BRASILEIRO NA INTERNET, EM ESPECIAL NO


FACEBOOK

2.1. Ciência e Religião

Para entender a tese de conflito entre a ciência e a religião, é preciso fazer


algumas definições, no intuito de solidificar esses conceitos. . Para o antropólogo
Clifford Geertz, a religião é uma força reguladora da vida social. Geertz conclui que a
religião e seus símbolos sagrados servem para sintetizar o ethos de um povo e sua visão
de mundo. As ações humanas são ajustadas a uma ordem cósmica imaginada e projetam
essas imagens no plano da experiência humana. A religião modela o homem.
(GEERTZ, 1989, p. 66-67).
Mas as simplificações são o principal fruto das discussões virtuais. A Ciência é
vista de forma dogmática e uma fonte para explicação de tudo. Sem ela, segundo os
neoateus, não é possível chegar à verdade. Segundo os debates, a conclusão ateísta é a
de que a Ciência não explica tudo, mas a Religião não explica nada. Então, nos
próximos tópicos, será introduzido um debate sobre a Ciência livre do sentido
dogmático do cientificismo.

2.2. Conhecimento científico e o senso comum

O conhecimento científico se popularizou com o tempo e,no século XX, ocupou


o imaginário do cidadão comum, que hoje é incapaz de acreditar em qualquer coisa sem
que haja evidências científicas. Afinal, de que tipo de conhecimento científico falamos?
Acima de tudo, é importante lembrar que conhecimento científico de alto nível não é tão
popular, e nem se torna senso comum com facilidade.
Geralmente há uma compreensão simplificada do que seria o conhecimento
científico, como percebe Alan Chalmers. A tendência é definir a ciência como
51

conhecimento provado, obtido através da experimentação e não através da tradição,


como obras de Aristóteles ou da Bíblia (CHALMERS, 1983, p. 22). Nas discussões que
vemos nas redes sociais, há uma diferença do conhecimento das universidades e o
conhecimento disponível na Internet. O problema do senso comum não é que ele não
seja problematizado, mas sua aceitação da ciência de maneira simplista (DEMO, 2012,
p. 22).
Ainda temos a crença da potencialidade ilimitada da ciência que, alimentada
pelos cientistas e políticos, cresceu no século XIX, tendo perpassado o século XX. O
compromisso ideológico com a ciência guiou regimes políticos durante o século
passado. No entanto, apesar de várias decepções, principalmente por causa do uso
político da Ciência, essa crença é ainda muito viva tanto no meio acadêmico e político
quanto no senso comum.

2.3. Conflitos entre Ciência e Religião?

Nas páginas dirigidas por ateus no Facebook, há uma valorização dos conflitos
entre Ciência e Religião. Aparentemente, as mensagens demonstram que o consenso é
impossível e que o conflito é insuperável. Muitos desses conflitos são baseados em
mitos científicos antirreligiosos que se estabeleceram fortemente no século XIX na
literatura científica anglo-saxônica.
Os dois livros que marcaram e criaram a ideia de conflito entre religião e ciência
são do século XIX. A metáfora bélica vem dos livros do químico John William Draper,
que publicou, em 1874, a História do conflito entre Religião e ciência (basicamente um
livro anticatólico). E de Andrew Dickson White, que publicou História da batalha entre
ciência teologia na Cristandade, em dois volumes, de 1895. Os dois livros continuam a
ser impressos e em várias línguas (CRUZ, 2014, p. 21; HARRISON, 2007, p. 2), e
acabaram por exercer uma enorme influência nos meios acadêmicos e populares no
Ocidente.
O conceito moderno de Ciência é do século XIX e a definição de Religião é um
produto do Iluminismo europeu (HARRISON, 2007, p. 2). Isso demonstra que tais
conceitos são bem recentes. Na época iluminista, houve a necessidade de classificar os
diferentes credos. Diferente da Idade Média, onde o conceito de Cristandade era
hegemônico, a Reforma Protestante rompe com a unidade medieval do Cristianismo. A
52

reação da Igreja Católica à quebra da unidade foi o Concílio de Trento (1545 a 1563).
Não que a Igreja não tivesse passado por várias cisões antes, contudo, é a Reforma que
rompe com o predomínio da Igreja no Ocidente europeu. Com a Reforma Protestante,
aumenta o processo de secularização, que avança, e se estabelece um processo de
desmagificação da cultura cristã de até então.
Outro conceito que é trabalhado nesta pesquisa, cuja depreensão se faz
necessária para que se entenda o antagonismo envolvendo a ciência e a religião é o de
mito, que constantemente aparece nas redes sociais. O termo mito é muito presente na
nossa sociedade. É usado, muitas vezes, sem muito critério, e quase sempre de maneira
pejorativa. Nas comunidades ateístas, o termo sempre é associado à mentira, ilusão ou
contos de fatos. Para eles, numa sociedade moderna científica e industrializada, o mito
perdeu totalmente sua utilidade. A seguir, uma breve explicação sobre mito,
simplificada para atender aos propósitos dessa dissertação.

2.4.O que é mito?

De acordo com Rocha (2012), mito é uma narrativa. É um discurso, uma fala. É
uma forma de as sociedades espelharem suas contradições, exprimirem seus paradoxos,
dúvidas e inquietações. Pode ser visto como uma possibilidade de ser refletir sobre a
existência, o cosmo, as situações de “estar no mundo” ou relações sociais (ROCHA,
2012, p. 7). Definir mito é difícil, visto que é um fenômeno múltiplo e difuso, mas essa
conceituação do Rocha nos dá uma indicação do que ele pode ser. Os mitos são
expressões dos seres humanos que mudam conforme o tempo e a cultura. Eliade escreve
que no século XIX muitos dos estudiosos tratavam mito como “fábula”, “invenção” e
“ficção” e essas definições ficaram consolidadas no senso comum. Entretanto, as
sociedades arcaicas o tratavam como uma “história verdadeira”, de maneira exemplar e
significativa (ELIADE, 2010, p. 7). O usual na designação moderna é tratar mito como
ficção (Ibid., p.8).
Os mitos ainda dão direções à humanidade, podendo ser: cristológicos;
pretensamente científicos; em busca dos primórdios por uma sociedade perfeita perdida;
mitos marxistas de transformação ontológica da realidade baseada num paraíso
proletário a ser cumprir no presente (Ibid., p. 158). Ou seja, os mitos não pertencem
somente a sociedades arcaicas, são reinterpretados, transformados, inventados. Como os
53

mitos que estão no próximo parágrafo, ainda persistentes no imaginário social e que são
reproduzidos nos meios virtuais. A Idade Média é considerada uma Idade das Trevas.
Podemos dizer que esse é um mito moderno de difícil combate, pois historiadores,
documentários e filmes reforçam-no. Inclusive ao colocar o termo no Google, teremos
aproximadamente 1.300.000 resultados1. Muitos desses, justificando o uso do termo.
Entretanto, hoje já se sabe que essa visão da Idade Média é uma construção mítica:

Sabe-se hoje que a visão retrospectiva da Europa medieval como uma


“idade das trevas” foi elaborada por eruditos renascentistas e,
sobretudo, iluministas. Sabe-se que essa visão esteve condicionada por
uma perspectiva racionalista, liberal e anticlerical, [...]. Ocorre que,
desde pelo menos o princípio do século XX, as pesquisas acadêmicas
[...] têm demonstrado inúmeros traços originais da Europa para
reabilitar aquele período aos olhos dos estudiosos. Hoje nenhum
erudito defenderia com seriedade aqueles velhos chavões (MACEDO,
2010, p. 110).

Muitos formandos de Ciências Humanas acabam terminando a graduação e não


se atualizam, ficando à mercê de preconceitos enraizados no senso comum da sociedade
Ocidental. Esse fragmento mostra como a pesquisa acadêmica está longe do senso
comum, é difícil derrubar antigos e arraigados preconceitos. Os mitos modernos
antirreligiosos que alimentam os ódios anticristãos, anticlericais e antirreligiosos foram
muito bem explorados no livro Galileu na prisão e outros mitos sobre a ciência e a
religião, organizado por Ronald Numbers. O maior mito entre Ciência e Religião,
segundo Numbers, é que estão em conflito permanente (NUMBERS, 2012, p. 15).A
partir da década de 1820, começaram a surgir livros e artigos que acreditavam na tese de
conflito permanente (Ibid., p. 17).
Ronald Numbers acaba organizando um livro que se torna uma preciosidade
dentro da historiografia. Isso porque uma parcela significativa de historiadores,
geralmente, não está muito preocupada com detalhes do suposto conflito Religião e
Ciência. Para esse grupo,a questão está encerrada, houve o conflito e a Ciência venceu.
Isso pode ser derivado também da grande influência do marxismo dentro da disciplina.
Em seu livro Numbers descreve temas como influência da filosofia natural da
antiguidade no cristianismo; Igreja medieval e ciência; dissecação de cadáveres; escreve
sobre Copérnico, Galileu, Giordano Bruno; etc. São 25 temas tentando eliminar os
preconceitos e ajudar especialistas e leigos a se atualizarem. Não podemos dizer que o

1
Pesquisa feita em 16/11/2014.
54

livro seja uma obra de apologética, como acusam algum neoateus na Internet, mas sim
de alta historiografia atualizada.
Explica Denis Alexander, diretor do Faraday Institute for Science andReligion e
Fellow do St. Edmund’sCollege de Cambridge, que há quatro modelos de
relacionamento entre ciência e religião, baseados em Babour: o modelo de conflito, o
modelo de magistérios Não-Interferentes (MNI), o modelo de Fusão e o modelo de
Complementaridade. O que para essa dissertação é o mais importante é queo modelo de
Conflito diz que a ciência e a religião estão em conflito intermináveis, pois é está crença
que direciona a militância na internet. Esse modelo se aproveita de exemplos históricos,
como os relacionamos acima.

Gerações de escritores que promoveram o modelo do conflito tendem


a se apoiar em exemplos históricos para sustentar sua tese. Episódios
como o choque de Galileu com a Igreja em torno da teoria
heliocêntrica, e a suposta oposição da Igreja à evolução Darwiniana
são os exemplos costumeiros. Entretanto, apenas a extrema pobreza de
conhecimento em literatura de história da ciência permite o emprego
de tal material para sustentar o modelo do conflito. (ALEXANDER,
2014, p. 2).

Segundo Alexander, entretanto o modelo de conflito não é só exclusividade


dos cientistas mais exacerbados, como também é promovido por religiosos. Os outros
modelos são o modelo MNI, segundo o qual a Ciência e a Religião operam em
compartimentos separados, não devendo haver conflitos entre eles. Ciência e Religião
levantam questionamentos de tipos diferentes de mundos, caminham paralelamente. Em
terceiro, temos o modelo de Fusão, na qual Ciência e Religião estão fundidas. Esse
modelo é oposto do modelo MNI, apaga a distinção entre o científico e o religioso,
como também utiliza da ciência “para construir sistemas religiosos de pensamento, ou
vice-versa (Ibid., p.3).” No modelo Complementaridade, as explicações sobre a
realidade são dadas através dos olhares diferentes da Ciência e da Religião, e que de
forma alguma podem ser rivais. Sobre o modelo, esclarece o autor:

O exemplo clássico é a multiplicidade de descrições necessárias à


compreensão do indivíduo humano, que correspondem à variedade de
níveis de análise proporcionados por disciplinas como a bioquímica, a
biologia celular, a fisiologia, a psicologia, a antropologia e a ecologia.
Nenhuma dessas descrições científicas é uma rival das outras – todas
são necessárias à nossa compreensão da complexidade dos seres
humanos no contexto de seu ambiente. Um relacionamento
complementar semelhante é o que une cérebro e mente. (Ibid., p. 4).
55

No parágrafo seguinte, o autor explica que a religião tem explicações fora do


escopo científico experimental.

Falando a linguagem da complementaridade, diríamos que a religião


provê um conjunto adicional de explanações, fora dos poderes de
avaliação da ciência, ligado a questões factuais sobre o propósito
supremo, o valor e o sentido das coisas (Ibid., p. 4).

A dissertação de Andréia Christina do Nascimento Dias esclarece que a


separação e classificação dos modelos nos quais a Ciência a Religião se relacionam.
Essa separação baseia-se na classificação de Ian Barbour (DIAS, 2014, p23). Os
modelos citados por Dias são parecidos com os de Alexander, que também foi
influenciado pelas ideias de Barbour.
Na mesma dissertação, a autora percebe que são várias as formas de interação
entre ciência e religião:

Alguns críticos sugeriram que as relações entre ciência e religião são


demasiado complexas e dependentes do contexto para que se possa
agrupá-las num esquema de classificação qualquer. Alegam que as
interações variam nos diversos períodos históricos e disciplinas
científicas, para que possam manifestar algum padrão. Outros autores
alegam que as ideias científicas e religiosas são apenas construções
sociais que refletem os valores culturais do lugar, e não descrições
objetivas da realidade, de modo que não é possível relacioná-las sob
nenhuma forma geral ou abstrata (DIAS, 2014, p. 24).

Para Dias, não é esse o caso de Richard Dawkins, o qual advoga o modelo de
conflito:

Dawkins [...] atenta que um ateu, no sentido filosófico naturalista, é


alguém que acredita que não há nada além do mundo natural e físico,
nenhuma inteligência sobrenatural vagando por trás do universo
observável, que não existe uma alma que sobrevive ao corpo e que
não existem milagres. A essa visão descrente se aliam grandes
cientistas contemporâneos, caso de Einstein e Hawking, na opinião de
Dawkins (Ibid, p. 27).

Para Richard Dawkins não há sentido em crer em nada metafísico. Não existe
alma, ou outras coisas no sentido. A religião e ciência não podem compartilhar de um
mesmo esquema de classificação.
56

2.5. Dawkins e a tese de conflito

Richard Dawkins é um dos valorizam a tese de conflito em relação à religião,


sua hostilidade pode ser resumida como em quatro razões, segundo seu comentador
mais famoso, Alister McGrath

[...] Uma visão de mundo darwinista torna a crença em Deus


desnecessária ou impossível [...]. A religião afirmações
fundamentadas na fé, o representa o abandono da busca da verdade em
termos rigorosos e baseados na evidência [...]. A religião oferece uma
visão de mundo empobrecida. [...] A religião leva ao mal ela é como
um vírus maligno infectando as mentes humanas (MCGRATH, 2008,
p.19).

Dawkins esclarece sua opinião sobre a religião, ratificando que a esta não possui
nada a oferecer a não ser atraso e obscurantismo científico. Tais ideias radicais
acabaram atraindo muitos seguidores. Todavia, o autor é reconhecidamente um escritor
competente e muito apreciado, e seus escritos desde a década de setenta muito
contribuíram para a divulgação da ciência.

2. 6.Imagens do conflito

O aumento da intensidade do ativismo antirreligioso na Internet deve-se ao


crescimento do secularismo no Brasil e da luta pela laicidade. O país passou por
mudanças no cenário religioso nos últimos anos e os Censos do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) demonstram isso. Houve um aumento no número dos
sem-religião, e os ateus foram contados no Censo de 2010. A sociedade brasileira se
tornou bastante secularizada e exibe grupos extremamente seculares que vêem a
Religião institucionalizada como inimiga.
Há crescimento de aspecto antirreligioso em nossa sociedade, e esse se faz
presente nas páginas ateístas e as imagens que são postadas mostram isso. É impossível
darmos conta de todas as imagens produzidas pela ATEA e demais páginas ateístas.
Portanto, houve algumas opções metodológicas nas escolhas das imagens, como separa
em grupos, sérios e de humor. As imagens de conflito entre a Religião e a ciência são
uma parte da grande produção neoateísta do Facebook.
57

2.6.1. As páginas ateístas e uma possibilidade de divisão em grupos distintos

Para começar nosso levantamento, é preciso, antes, classificar os tipos de


páginas do Facebook. Cada comunidade tem suas características. Cada página tem
muitos moderadores. Algumas têm poucos, que estão num ciberativismo em prol da
militância ateísta, outras têm muitos, igualmente motivados. Podemos classificar em
dois grandes grupos as páginas ateístas brasileiras: militância (ciberativismo) política
em favor da laicidade, bem como de humor antirreligioso.
Essas páginas são o exemplo de como os adeptos do neoateísmo se organizaram
no Facebook.. As demais podem ser classificadas em grupos mais sérios e outras de
humor, todas elas trabalham a tese de conflito. Todas servem como um espaço de
sociabilidade virtual, e podemos dizer que os grupos virtuais estão intrinsecamente
unidos com o crescimento de grupos ateístas no Brasil. Ressalte-se que a página da
ATEA tem características bastante peculiares.

2.6.2. As paginas sérias

As páginas que defendem a laicidade, e, por assim dizer, mais sérias, são:
ATEA; Ateus do Brasil; Ateus.net; Liga humanista Secular do Brasil; N.A.S.P - Núcleo
Ateísta de São Paulo;Ateus e agnósticos do Brasil; Bule voador; Universo Ateísta; SOU
ATEU, BRASIL; Sociedade racionalista, etc. Essas páginas visam, segundo seus
responsáveis, propagar o pensamento científico.
Entretanto, a tese de conflito é a base para as publicações. Essas páginas têm
uma moderação atuante e militante que dedica boa parte de seu acesso na Internet às
suas páginas no Facebook. Outra característica dessas páginas é a visão de que o
ateísmo está alicerçado no pensamento científico. Essa visão sobre o ateu é positiva,
este é uma pessoa interessada nas novidades cientificas, já que a ciência explica tudo e
ser ateu é estar vinculado a ela. Todavia, é possível observar uma rejeição à filosofia, na
qual pressupõe-seque esta deveria ser subordinada à ciência e, caso não seja, é
considerada uma pseudofilosofia.
Páginas como as que comentamos acima multiplicaram-se a partir de 2011,
motivadas pelo crescimento da ATEA, às vezes por discordarem da instituição de
Sottomaior (muitas das reclamações são contra a posição satírica da ATEA), ou mesmo
58

por quererem propiciar uma visão particular do ateísmo. No Facebook, fazer uma
página pessoal é muito fácil, não é preciso convite como no Orkut, e criar uma página
de comunidade segue o mesmo princípio de facilidade.

2.6.3. As páginas de humor

As páginas de humor (escrachado) são: Jesus bêbado; Humor ateu; Sem Deus no
coração; Humor ateu sem censura; Em nome do troll; Os Crente Pira; Cansei de
Religião; Eu, ateu; Evangelize-me Se For Capaz (criada por militantes oriundo de uma
página de mesmo nome, no antigo ORKUT); Igreja Apocalíptica do Oitavo Dia; Bar do
Ateu; Pastor Adélio; Canal AntiFé do YouTube (página pequena, mas relacionada a
vlogs); Ateus do Planalto Central; ARCA - Associação Racionalista de Céticos e Ateus
(página pequena também, mas de vlogueiros2 atuantes); etc.
Nessa divisão em dois grupos principais, foram eliminadas as páginas menores
por considerar-se seu pouco alcance. Optei pelas que têm maiores números de membros
e que ainda permanecem ativas.
Em uma observação feita no dia 4 maio de 2015, foi possível notar um
estacionamento na demanda. As comunidades não crescem da mesma maneira que
cresciam no final de 2011 e todo o ano de 2012. O número de curtidores está
estacionado e os de debates diminuíram bastante. Contudo, o humor antirreligioso é
uma característica que faz parte das páginas mais sérias, os moderadores postam
imagens e mensagens humorísticas.
Esse estacionamento pode ser por causa de que o período de novidade acabou.
As pessoas acabam perdendo o interesse rapidamente. Numa sociedade midiática como
a nossa, as novidades precisam acontecer sempre. Nessas páginas, o número de
participantes estacionou. Elas crescem ainda, mas mais devagar. Esse ápice é o número
máximo de curtidores (participantes que desejam receber notícias das páginas), a ATEA
ainda cresce, mas seu auge de curtidores foi em 2012, e, depois disso o crescimento
ficou bem mais lento. Outro aspecto importante notado é o fato de que, nas páginas de
humor,há um índice grande não apenas de ateus, mas de religiosos curtindo-as. Os
religiosos que curtem as páginas têm dois perfis, aqueles que criticam suas próprias

2
Vlogueiros são pessoas que acabam fazendo um vídeo de curta duração para o YouTube, acabam
discutindo e dando opinião para diversos assuntos.
59

religiões querendo se afastar da imagem do fanatismo e aqueles que curtem tais páginas
num intuito combativo, apologético.

2.6.4. A força das imagens

Esse capítulo mostrará com clareza o significado das imagens recolhidas nos
sites ateístas. Na pesquisa, percebemos que as imagens compartilhadas têm um papel
preponderante no Facebook. Afinal, quando vemos os compartilhamentos feitos das
páginas ateístas, percebe-seque são elas que estão no topo, não são os vídeos,
depoimentos ou palavras dos moderadores que possuem um amplo alcance. São as
imagens. E cada uma é uma ideia que é reproduzida e alcança novas pessoas.
É impossível dar conta de toda a produção, mas podemos definir quais os temas
recorrentes. Entre eles, consideramos três tipos de construções principais de imagens
para o Facebook nas páginas ateístas: as que trabalham o conflito entre Ciência e
Religião; as que valorizam mitos históricos, importantes para o combate; e as que usam
do humor.
Nas reflexões de Peter Burke sobre as fontes visuais, ele argumenta que poucos
autores trabalham com arquivos fotográficos em comparação com os que trabalham
com documentos escritos e datilografados (BURKE, 2004, p. 12). O que dizer das
ilustrações da Internet, que possuem uma vida curta, por assim dizer e de difícil
armazenamento? O uso de imagens feito por historiadores aparece de forma apenas
ilustrativa e gera pouca discussão. A imagem serve como mera informação e
confirmação das conclusões do autor, que a elas havia chegado através de outras fontes.
Segundo Burke:

O ponto de vista que eu utilizei para escrever o livro é que as imagens


não são nem um reflexo da realidade social nem um sistema de signos
sem relação com a realidade social, mas ocupam uma variedade de
posições entre estes extremos. Elas são testemunhas dos estereótipos,
mas também das mudanças graduais, pelas quais os indivíduos ou
grupos vêm o mundo social, incluindo sua imaginação (Ibid., p. 232).

As imagens das páginas ateístas representam as mudanças históricas do cenário


religioso brasileiro. Há uma emergência de novos grupos sociais, entre eles os sem
religião, ateus e agnósticos. Tais grupos encontram na Internet um espaço gratuito para
se expressarem e congregarem, o que antes estava disperso.
60

Segundo Jacques Aumont, “A imagem só existe para ser vista, por um


espectador historicamente definido [...] (AUMONT, 1993, p. 197)”.Pode ser de diversos
tipos, vídeos, até as mais automáticas como câmeras de segurança. Toda imagem possui
um discurso ideológico para ser apresentada ao sujeito no tempo em que vive. Tais
representações são fontes de um momento histórico. E, com essa percepção de Aumont,
foram descrita as ideias envolvidas nas imagens aqui apresentadas. Essas imagens são
algumas entre uma gama enorme de outras, foram pré-selecionadas para dar um uma
visão geral da produção neoateísta.
Para analisamos as imagens produzidas, precisamos também entender o que são
memes, uma vez que a palavra já está inserida no cotidiano da Internet. Tal expressão
surge da obra de Richard Dawkins, em 1976, no livro O gene egoísta, não sendo bem
aceita pelos demais cientistas. O termo é uma referência ao conceito, que se refere a
uma teoria ampla de informações culturais criadas por Dawkins. Meme, na Internet, é
usado para descrever um conceito que se espalha no ambiente virtual, e encontrou
melhor aceitação ali do quenas Ciências Biológicas. Dawkins quis criar uma nova
ciência, a ciência dos memes ancorada aos genes:

Dawkins coloca, no início de todo o processo de evolução, o chamado


“replicador”, sem especificar qual é esse replicador. Para haver um
processo de evolução por seleção natural, é necessário um replicador
com hereditariedade. [...]: o importante do gene não é que ele é uma
cadeia de DNA, porém, que ele é um replicador, ou seja, algo que faz
cópias de si mesmo. (LEAL-TOLEDO, 2013a, p 188).

Entretanto, a nossa preocupação não é com os memes inseridos nas discussões


de gene, mas sua apropriação no tocante a reprodutividade cultural:

Nunca é demais ressaltar que há aqui uma mudança de ponto de vista


extremamente necessária para compreender o que a memética traz de
novo ao estudo da cultura e à compreensão do que é ser um ser
humano. O sucesso de um meme não se dá a despeito dos seres
humanos, e sim por causa deles. Do ponto de vista dos memes, os
seres humanos são o ambiente ao qual eles devem se adaptar (LEAL-
TOLEDO, 2013b, p. 2014).

Essa ideia de meme é muito usada no meio da Internet. Memes acabam sendo
uma representação cultural na Internet, são usados para descrever um conceito ou
imagem que se espalha via Internet. Dias também percebe que a ideia de Dawkins não
analisou as religiões em todas as suas dimensões e acreditou que a ideia de Deus fosse
61

igual a sua concepção de meme (DIAS, 2014, p. 47). A concepção de que Deus seria um
memeé importante para entendermos Dawkins.
Ter definida a noção de meme é importante,“embora a noção de replicador
cultural estivesse longe de ser novidade. Dawkins fez o máximo para popularizar o
conceito e torná-lo acessível a um público mais amplo por meio de sua terminologia e
exemplos simples (MCGRATH, 2008, p.152).” O Antropólogo F.T. Cloak propôs que
a cultura evoluía de forma igual aos mecanismos darwinistas e usou isso como
método etológicos para as cultura (Ibid., p. 153). O problema é que, segundo Alister
McGrath, “não há possibilidade de uma causa fenotípica de propriedades genéticas. Em
poucas palavras: os genes são selecionados, não herdados (Ibid., p. 155).”Então, acaba
construindo um argumento circular subjetivo baseado em seus próprios valores. Por fim,
Dawkins define os memes como vírus, sendo que ele define o conceito de deus como
sendo um “vírus da mente”. Para o zoólogo aposentado de Oxford, deus é uma infecção
maligna que contamina mentes puras (Ibid., p.169).

2.7.1. Imagens que trabalham Religião versus Ciência

A maior parte das imagens relacionadas ao embate religião versus ciência é


humorística, e, sem isso, a comunidade não sobrevive. Boa parte do que é produzido
nesse sentido objetiva atacar a Religião em algum aspecto em que ela se mostre frágil.
As imagens podem ser divididas em grupos: defesa da laicidade, humor debochado, ou
simplesmente humor, defesa de direitos sexuais, blasfêmias, antirreligiosas e de conflito
Ciência e Religião. Este último tipo de classificação é o que nos interessa mais, como se
tornará claro nas imagens a seguir
62

Figura 5 - O ateísmo é uma libertação3

Na figura 5, percebe-se que o autor quis dizer que as religiões prendem o


pensamento livre e que o ateísmo liberta, pois ele tem a chave. Notemos que a
representação do que vincula o cérebro ao solo são as três principais religiões
monoteístas. Essa imagem é muito recorrente nas páginas ateístas do Facebook, tudo
indica que ela não foi feita por brasileiros, aliás, grande parte do que é produzido no
exterior (em geral de origem norte-americana) é traduzido e reutilizado no Brasil.

Figura 6 - A inovação é sempre perseguida4

3
Disponível em: <https://www.facebook.com/ATEA.ORG.BR?fref=ts>. Acesso em 12/08/2012.
63

Na figura 6, temos um tema recorrente nas páginas ora analisadas, a ideia de que
qualquer inovação será combatida, de que as ideias devem ser suprimidas pela maioria
da população. Nesta ilustração, vemos que o sentido é o de que a maioria é religiosa, e
essa, por sua vez, acabará com a inovação. O ateísmo aparece como inovação,
liberdade, mas perseguido por seu caráter libertário. As figuras 5 e 6 são memes que
trabalham a ideia de que o livre-pensamento está preso, acorrentado ou será cerceado
assim que ser manifestar. A figura 5 está relacionada intrinsecamente à crítica das
principais religiões monoteístas, sua mensagem é clara. A figura 4 não é uma imagem
que expressa uma visão ligada à antirreligião, poderia ser usada para diversos fins, mas
como foi usada numa página militante, a mensagem deixa de ser ampla e passa a ser
restrita a ideologia dos moderadores.

Figura 7 - Reforço do mito5

A figura 7, um meme muito comum é um exemplo da dicotomia entre Ciência


versus Religião, na qual os personagens são estereótipos. O homem de jaleco branco
representa o cientista, que segura o microscópio, o de paletó seria o religioso
fundamentalista, com a roupa típica de tantos pastores evangélicos (segundo o

4
Disponível em: <https://www.facebook.com/ateusbr?fref=ts>.Acesso em 12/08/2012.
5
Disponível em: <https://www.facebook.com/ATEA.ORG.BR?fref=ts>. Acesso em 16/08/2014.
64

imaginário popular consagrado). Essa imagem é recorrente, possui várias adaptações e


releituras.

Figura 8 – Novas gerações não serão atingidas6

A imagem da figura 8 mostra as sucessivas gerações, quanto mais antigas, mais


religiosas, vomitando superstição e obscurantismo no pensamento de seus descendentes.
A geração mais nova abre o guarda-chuva da Ciência para se proteger. Como podemos
notar, tal imagem é de origem estrangeira, pois a palavra Ciência está em inglês. As
gerações antigas carregam, provavelmente, uma representação da Bíblia com um terço
católico. O ateísmo e o neoateísmo são fenômenos ocidentais, e como fenômenos
antirreligiosos, sua preocupação principal é com o cristianismo, mesmo porque é a
corrente religiosa majoritária no Ocidente.

6
Ibid.
65

Figura 9 – Os benefícios da Ciência7

A imagem da figura 9 mostra a relação de conflito fazendo um quadro


comparativo e mostrando os defeitos da Religião e as qualidades da ciência. Mas o
jovem militante de Internet compreende a Ciência como única fonte de conhecimento, o
método científico explica tudo ou quase tudo.
Vejamos alguns comentários sobre esta imagem: a usuária Soane Pereira de
Souza escreve: “Eu sou 100% Ciência!”; outro usuário, Jhones Remos:
“CiênciaWins!!!”; já o usuário frequentador, provavelmente fake, CekeldenDeckard:
“uaua.....cienciawins....perfecct”. O termo WINS (vitória) da linguagem de vídeos-
game, é muito recorrente nos debates entre ateus e cristãos no Facebook. As figuras 8 e
9 são sobre o conflito entre Religião e Ciência onde os autores tenta demonstrar que a
primeira comparada a segunda não consegue dar respostas concretas para o
desenvolvimento. Quem se atrela à Religião não obtêm avanços, os comentários donde
foi retirada a imagem da figura 9 são de um triunfalismo científico, e os argumentos
estão cheios de referências aos videogames. Parece lógico relacionar tais comentários à

7
Disponível em: <https://www.facebook.com/ATEA.ORG.BR/photos/pb.172083906155533.-
2207520000.1408231274./842502902446960/?type=3&src=https%3A%2F%2Ffbcdn-sphotos-f-
a.akamaihd.net%2Fhphotos-ak-xpa1%2Ft1.0-
9%2F10509746_842502902446960_8884701092552566672_n.jpg&size=492%2C720&fbid=842502902
446960>. Acesso em 16/08/2014.
66

influencia da geração Z (os conceitos de geração serão apresentados nas páginas 94 e


95), dentro das páginas.
Ao trazer recortes do corpus, optou-se por usar o padrão linguístico coloquial
nas mensagens do Facebook aqui transcritas, com os erros de digitação e o português
gramaticalmente incorreto, pois, assim, estaremos mais próximos da informalidade do
processo de debates que acontecem no site. Então, os comentários são postos aqui
conforme acontecem no site.

Figura 10 - Os males de um caminho errado8

Os comentários acerca da imagem acima falam sobre a inutilidade da Religião.


O usuário Fernando Smith declara:

Ou seja, esperar que a fé em deus resolva alguma coisa, nunca irá


funcionar. Parece que algumas pessoas têm um momento de muita
sorte na vida, e já dizem que é um milagre e que deus existe.Estou
aprendendo que esperar por um "deus" nunca irá resolver meus
problemas, estamos "sozinhos", o que nos move é nossa
vontade,determinação e nossa própria justiça.Conhecimento é uma das
coisas mais importantes, realmente9.

Já Renan Cavalieri, um comentarista da imagem, escreve que o religioso resolve


tudo pelo caminho da fé: “Um religioso e um cientista que creio eu está representando o
papel do ateu. Enquanto o religioso tenta resolver tudo pelo caminho da fé, o ateu
resolve e explica as coisas pelo método racional”. Portanto, o religioso seguirá o
caminho estéril da imagem, pois não tem criatividade e estará sujeito a toda dificuldade

8
Disponível em:
<https://www.facebook.com/ateusbr/photos/a.299326770110664.69952.299320020111339/48730676797
9329/?type=1&relevant_count=1>.Acesso em 16/08/2014.
9
Idem.
67

possível. O caminho da Ciência, entretanto é frutífera, Ao longe, há montanhas


tranquilas que nos elevarão.

Figura 11 - A Religião é um empecilho para o progresso10

Essas imagens da figura 11 trabalham a influência das Religiões sobre a pessoa e


a sociedade. Novamente, temos o antagonismo sendo valorizado. A Religião é um
empecilho para qualquer progresso. No capítulo terceiro, analisaremos essa noção de
progresso tão fortemente enraizada nas ideias ateístas no Facebook.

Figura 12 – Ciência, uma marcha inevitável11

10
Disponível em: <https://www.facebook.com/ATEA.ORG.BR/photos/pb.172083906155533.-
2207520000.1408233858./828851573812093/?type=3&src=https%3A%2F%2Ffbcdn-sphotos-a-
a.akamaihd.net%2Fhphotos-ak-xpa1%2Ft1.0-
9%2F10438955_828851573812093_2520039390765767472_n.jpg&size=768%2C884&fbid=828851573
812093>. Acesso em 16/ 08/2014.
11
Disponível em: <https://www.facebook.com/emnomedotroll/photos/pb.142457575896448.-
68

Os comentários da figura 12 também têm o mesmo valor de conflito. Nesta, a


imagem mostra a Ciência como algo irresistível que marcha sempre em direção ao
progresso. E que pessoas religiosas tentam impedir. Vejamos: o usuário frequentador da
página Edmar Júnior assim fala, “fato dos fatos!religião [sic] sempre foi um atraso na
história da humanidade”; já o usuário Luis Paulo Lagares diz: “Cadê a ‘mão de deus’
pra ajudar? Ashausha”. Como já foi dito, as opiniões na maioria das vezes, são jocosas,
e triunfalistas no sentido de evidenciar que a Ciência já ganhou da Religião.

Figura 13– Tensão permanente entre Ciência e Religião12

Finalizando essa parte da análise, as figuras 12 e 13 são mais humoradas, e


tentam mostrar a ilógica dos religiosos em tentar deter a ciência. Nos comentários
postados nas páginas figurassem que elas se encontram, os depoentes criticam a religião
como atraso, e ausência de Deus é uma prova de que ela não é válida. São depoimentos
triunfalistas que demonstram a vitória do ateísmo, porque ele está vinculado à ciência.
Passemos, agora, aos mitos antirreligiosos que estão sempre nos argumentos. De
onde vêm os mitos? Vêm do cinema, dos canais de TVs abertas, dos canais pagos, e de
sites com informações religiosas imprecisas, da educação escolar motivada por
professor pouco atualizado, ou vítimas de seus próprios preconceitos. Inúmeras vezes,
por exemplo, ouvimos o apresentador de algum documentário usar a expressão Idade
das Trevas, como já visto acima, ao relatar o período medieval. O termo está

2207520000.1408230269./437076119767924/?type=3&src=https%3A%2F%2Ffbcdn-sphotos-a-
a.akamaihd.net%2Fhphotos-ak-xpa1%2Ft1.0-
9%2F10393821_437076119767924_305992624324766617_n.jpg&size=720%2C556&fbid=4370761197
67924>. Acesso em 16/ 08/2014.
12
Disponível em: <https://www.facebook.com/BarDoAteu?fref=ts>. Acesso em 16/08/2014.
69

praticamente abandonado pelos professores de história, pelo menos os mais atualizados.


Também vemos páginas, não somente ateístas, usando termos e fontes incorretas sobre
diversos períodos históricos, somente porque estes dão suporte para o sentimento
antirreligioso. Vemos, ainda, páginas ateístas da WEB, como ceticismo.net, sociedade
da Terra Redonda e Rebeldia Metafísica, que dão informações erradas para os curiosos
do ateísmo. Quando há algum debate sobre Ciência Versus Religião, é praticamente
inevitável que não se toque nos nomes de Galileu Galilei e Giordano Bruno como
exemplos máximos de mártires da Ciência.

2.7.2. Imagens sobre mitos antirreligiosos

Figura 14 – Visão de mundo na tradição do Antigo Testamento13

Os mitos antirreligiosos são importantes para a sustentação do combate via


Internet, e isso se faz através de informações reproduzidas de outras páginas que não
necessariamente estão no Facebook. Esses mitos estão ligados à construção da
identidade ateísta, acreditar neles dá sustentabilidade às crenças. O mito da Terra plana

13
Essa visão da bíblia, por incrível que pareça, também é alimentada pelas criticas ateístas, pois no intuito
de mostrar que a fé não tem sentido optam pela literalidade dos textos sagrados. Muito parecido com a
interpretação de grupos cristãos fundamentalistas
70

(fig. 14) é muito comum nas páginas em questão, os usuários ateus defendem que o
cristianismo acreditava numa cosmovisão restrita às do Antigo Testamento. Para a
maioria dos usuários ateus todo cristão acredita em Terra Jovem e que todos os
segmentos cristãos são fundamentalistas.

Figura 15 - Mito antirreligioso14

Alguns comentários são carregados de mitos antirreligiosos. A figura 15 tem


diversos comentários a favor e contra a perpetuação desses mitos. O usuário Ervin
Antonio Baron escreve o seguinte:

Outra coisa... quantos cientistas foram mortos por discordarem da


idade bíblica da terra? e ao redor de q ela gira? na boa, se esses caras
vivessem até comprovarem o trabalho de suas vidas talvez hjja
teríamos até a cura pro câncer ... pq na idade das trevas se vc fizesse
um simples chá de cidreira vc seria uma bruxa e seria queimado e
exorcizado meu querido... seu credo é cego e vc tem q ler mais se
pretende argumentar15.

Já o usuário Claudio Rosso ataca diretamente a Igreja Católica e os católicos,


pois, para ele, a Idade Média foi um momento de poder e obscurantismo da Igreja, que
continua a exercer influência negativa com os escândalos de padres pedófilos:
14
Disponível em:
<https://www.facebook.com/ATEA.ORG.BR/photos/a.191647587532498.43552.172083906155533/2967
71087020147/?type=1&relevant_count=1>. Acesso em 16/08/2014.
15
Ibidem.
71

Legal o Gráfico apesar de apenas ser simbólico! Caros Crentes em


Cristo, aqui Vós deixo uma questão!? Já tentaram pensar que se tive-
sem [sic] nascido em outra parte do mundo não dominada pela cultura
Cristã, provavelmente estariam defendendo outro Divindade? Esse é
fácil, vamos lá por esses neurônios [sic] para funcionar! Igor Santana
Ainda tem fanáticos [sic] católicos, quem bem soubesse a história
dela,procuraria outra religião, só pelo fato da Pedófilia virar moda
para os padres e os demais membros da Igreja Católica já era para se
revoltar. Mas msm assim respeito areligião [sic]de cada um, afinal ñ
sou eu que pago as contas dos demais16.

O usuário Willyam Brito introduz um tema muito comum de ataque, a


Inquisição católica:

Fato é que o cristianismo foi empregado com equívoco aí, catolicismo


seria melhor. O gráfico nao[sic] precisa de números reais, qualquer
imbecil com o mínimo de cultura sabe que durante a idade das trevas
qualquer forma de conhecimento que fosse contra a igreja era
considerada errada, e quem as defendia queimava na fogueira. Só uma
coisa pra quem discorda: na idade das trevas, a Terra era quadrada e
todo o universo girava ao redor da Terra. O cara que disse que eram os
planetas que giravam ao redor do Sol... Teve que desmentir sua
descoberta17.

O usuário Willyam Brito se baseia num mito sobre a Idade Média, pois, para ele
e muitos outros, a Igreja Católica era contra qualquer inovação e conhecimento. Esse
mito é recorrente, podemos encontrá-lo pela rede, não apenas em páginas ateístas, mas
também em resenhas de professores de história, em páginas de curiosidades,
protestantes, etc. Já Davi Vieira faz uma reflexão escrevendo que a Idade Média foi um
momento em que a Ciência não evoluiu:

Talvez fosse mais interessante construir um gráfico com números


reais. Mas é fato que a Idade Média foi o período no qual tivemos
menos descobertas científicas. Tivemos, mas num número bem
reduzido em comparação com outras épocas, devido às restrições
impostas pela Igreja Católica18.

Davi continua com uma opinião parecida com a do Willyam, provavelmente


motivado pelos comentários iguais. Essa alteridade na qual se pensa que ciência e

16
Ibid.
17
Ibid.
18
Ibid.
72

religião são antagônicas, inimigas inconciliáveis, também aparece na figura 15. Os


usuários se identificam com as figuras e reproduzem os mitos nela contidos.

Figura 16 - Mito de Galileu19

Na figura 16, o usuário Clóvis Intrudernet20 Pinto escreve: “Mesmo a ciência


indo contra a religião, provando estar certa, fazendo a religião reconhecer (mesmo
forçada) seus erros, eles SEMPRE continuam negando as verdades que estão
estampadas em suas caras...;”. A usária Ingridê Hue também reforça o valor do mito:

Foi numa dessas que Galileu Galilei se ferrou. Ele constatou que o
Heliocentrismo seria o real, e não o geocentrismo ( Heliocentrismo :
Os planetas giram em torno do sol ). A igreja católica custara a
acreditar e chamou Galileu para desmentir sua tese. A relatos que
dizem que quando saia da igreja, dissera: '' Contudo, ela se move. ''

2.7.3.Imagens das paginas de humor ateu

19
Disponível em: <https://www.facebook.com/ATEA.ORG.BR/photos/pb.172083906155533.-
2207520000.1408233862./827560513941199/?type=3&src=https%3A%2F%2Ffbcdn-sphotos-h-
a.akamaihd.net%2Fhphotos-ak-xpa1%2Fv%2Ft1.0-
9%2F10500285_827560513941199_3730096114819672708_n.jpg%3Foh%3D6bf33f128077bf86f2a908
d8aa10d679%26oe%3D547D23AF%26__gda__%3D1417383959_8263f6b1ef3574b3978a3d224e4de1a8
&size=514%2C467&fbid=827560513941199>. Acesso em 22/08/2014.
20
Note que alguns nomes são logicamente falsos, indicando que muitos usuários se escondem atrás de
fakes para comentar.
73

Claramente, não podemos dar conta da infinidade de imagens produzidas pelas


páginas ateístas, entretanto, destaco três páginas, poisnão apenas traduzem imagens e
caricaturas estrangeiras, mas fazem as suas próprias. Essas páginas dominam e fazem
sua produção cultural, dando a esta características específicas, e antenada com a
realidade política e religiosa brasileira atual.

Figura 17 - Figuras retiradas da página Inca venusiano21

A primeira delas é a Inca venusiano, que faz imagens de humor criticando as


religiões. O alvo principal são os evangélicos. Geralmente, as caricaturas do moderador
da página são ilustrações de como o evangélico é um iletrado, preocupado com a
salvação e intolerante para com as minorias religiosas, feministas e grupo GLBTS. O
religioso é quase sempre mostrado como inimigo da Ciência e um perigo para o Estado
laico. Na imagem da esquerda, a Bíblia desenhada possui um erro de português, nela um
radical islâmico segura a “Bíbra” e se espanta com a violência do texto sagrado. Na
outra imagem, essa critica está relacionado com a falta de domínio gramatical. Vale
ressaltar que a imagens produzidas são bem elaboradas e percebe-se que há uma boa
qualidade gráfica.

21
Disponível em: <https://www.facebook.com/oincavenusiano>. Acesso em 03/03/2015.
74

Figura 18– Figuras retiradas da página Em nome do troll22

Outra página de humor relativamente grande é a “Em nome do troll”, com


69.164 curtidas. Os moderadores da “Em nome do troll” não responderam o
questionário sobre moderação ateísta. Nela, encontramos todos os elementos do
discurso militante, questionamentos a dogmas religiosos, da eficácia de seus ritos,
intolerância antirreligiosa, defesa do Estado laico, etc.

Figura 19- Da página Um sábado qualquer23

22
Disponível em: <https://www.facebook.com/emnomedotroll?fref=ts>. Acesso em 03/03/2015.
23
Disponível em: <https://www.facebook.com/umsabadoqualqueroficial?fref=photo>. Acesso em
03/03/2015.
75

Por fim, mas não esgotando o assunto, temos a página “Um sábado qualquer”. O
cartunista Carlos Ruas se especializou em temas referentes à Religião. Suas tirinhas
trazem, quase sempre,personagens das religiões, sendo o Deus judaico-cristão seu
principal protagonista, junto com ocasionais aparições de personagens da mitologia
bíblica. São webcomics, seu trabalho é muito divulgado pelo meio virtual. Sendo seu
blog o grande impulso à sua carreira.24 Vemos que a cultura nerd também faz parte das
referências de seu trabalho. Podemos observar que algumas piadas tiradas das páginas
ateístas do Facebook acabam indo parar nos cartuns de Ruas. Quando alguma
contestação política ou religiosa acaba tornando-se muito popular nas páginas, ele a
reproduz. Ressalte-se que isso não é uma crítica a Ruas, pois é difícil manter a
qualidade e a criatividade cotidianamente. É perceptível que os cartunistas atuais
retiram ideias ou plagiam piadas de anônimos das redes sociais. As figuras 17, 18 e
19tratamdiretamente de humor. São imagens de um humor crítico, às vezes blasfemo. O
humor de certas páginas parece ter um limite e, não raro, os moderadores postam
imagens mais pesadas, com conteúdo sexual explícito ou quase. Em páginas menos
frequentadas, as imagens mais radicais são bem aceitas. Já nas páginas que almejam
alguma seriedade, essas imagens problemáticas acabam sendo criticadas pelos
frequentadores. Imagens bem-humoradas e críticas são mais compartilhadas do que as
blasfematórias, o que não significa que os radicais não tenham seu espaço. Entretanto,
muitas vezes, são fakes que postam imagens mais controversas nessas páginas. Um caso
especial foi o compartilhamento da ATEA, relacionado ao incêndio da boate Kiss, na
cidade Santa Maria. A ATEA, no dia 28 de janeiro de 2013, acabou postando uma
imagem da página “Ateu porquê o inferno é uma piada”25 em que havia corpos
queimados de uma boate da África no intuito de criticar a inoperância de Deus nas
tragédias. Tal postagem acabou sendo veiculada no mesmo dia em que a ATEA havia
iniciado participação no Twitter. Diante das inúmeras críticas, o nome da instituição
acabou como um dos mais comentados do TrendingTopics26 do Twitter na ocasião. A
postagem, diante das críticas, foi apagada.

24
Disponível em: <http://www.umsabadoqualquer.com/>. Acesso em 03/03/2015.
25
Disponível em: <https://www.facebook.com/AteuPorque>. Acesso em 14/02/2014.
26
O “TredingTopics ou TT's são uma lista em tempo real das palavras mais postadas no Twitter em todo
o mundo.” Disponível em: < http://www.twitter-brasil.net/o-que-sao-trending-topics.htm>. Acesso em
14/02/2014.
76

2.8. Testemunhos ateus

Uma característica única da ATEA é a preocupação com os testemunhos. Tanto no site


oficialquanto na página do Facebook, os depoimentos estão presentes. Contudo, não foi
visto nas outras páginas espaços para testemunhos.Estes são estimulados pelos
moderadores da instituição no Facebook. São reclamações sobre perseguição familiar,
na escola ou testemunhos sobre seus processos de desconversão (ou de saída do
teísmo).Geralmente, os moderadores da ATEA utilizam o PrintScreen para colocar os
testemunhos em evidência. A tecla PrintScreen (também grafada como PrtScr) do
teclado, ao ser pressionada, captura uma imagem da tela do computador, formando uma
espécie de fotografia dos aplicativos em execução.Todavia, não há motivo para
trabalhar essa característica em nossa dissertação, pois a preocupação é o conjunto das
páginas e formação dos diversos moderadores. Também foi percebida a influência
do YouTube na formação e crença dos usuários. Nos textos a seguir, comentaremos a
influência do canal na formação do pensamento neoateu. Diante do fato de sempre
depararmos-nos com vídeos sendo postados nas páginas,vimos a necessidade de atenção
a esse frequente procedimento, e a suas implicações, como mostra a subseção a seguir.

2.9. Expressões Neoateístas no YouTube

O YouTube tem um peso enorme na formação do internauta neoateu


brasileiro.Muitas discussões da Internet são recheadas de links para vídeos. O curioso é
que, na maioria das vezes, são para vídeos de “vlogueiros” ateus. A administração do
YouTube diz que o Brasil é o segundo país em questão de acesso a seus vídeos. Esse
dado é importante, pois demonstra que os vídeos de Internet acabam tendo um peso
cultural muito forte no Brasil. Diz a reportagem:

A gerente de parcerias estratégicas do YouTube, Amy Singer, afirmou


nesta sexta-feira em São Paulo que o Brasil é o segundo maior
consumidor de vídeos do site na Internet, o que mostra um
fortalecimento do mercado online no país. Durante o 9º Congresso
Internacional de Jornalismo Investigativo, Singer não detalhou a
quantidade de acesso da população brasileira, mas revelou que o
YouTube faz uploads de 100 horas de vídeo por minuto, o que tem
77

ganhado mais força por causa de parcerias com canais informativos


que hospedam seus conteúdos nele. [...]27.

Nesse caso, os vídeos compartilhados no Facebook, acabam tendo várias


informações que são compartilhadas nas timelines. E os interesses seguem sendo
postados conforme o agrado dos usuários.

Para Proffer, vive-se um período de “Face News”, em que


especialmente o público jovem se informa através da timeline do
Facebook, a rede social preferida dos brasileiros, e não dos jornais
impressos e portais de empresas jornalísticas. Com uma metáfora
gastronômica, Proffer ressaltou que os internautas vivem em uma
realidade de banquete farto, onde não precisam de garçons para servi-
los, pois preferem montar seu próprio prato. “As pessoas escolhem um
buffet self-service de notícias, em que servem-se de uma coletânea de
notícias de fontes diferentes”, opinou28.

A timeline do Facebook torna-se principal fonte de informação para milhões de


pessoas, uma vez que, nela, os vídeos são depositados. Mas é interessante notar que os
compartilhamentos dos vídeos ateus, nas páginas ateístas do Facebook, não é grandes e
comparado ao compartilhamento de imagens. O valor dos vídeos está em possuir um
peso na formação no grupo de usuários militantes. Os vídeos servem, para eles, como
apoio nas discussões e são fontes primárias para o estudo do discurso neoateísta
brasileiro.

2.9.1. Os vlogs

Nesta seção, focalizaremos a área do YouTube, com seus vlogs e hangouts, e a


influência dele no Facebook na formação neoteísta. É possível perceber que o ativista
militante tratará com mais frequência de ideias retiradas de vlogs do que de livros
neoateus, que são muito pouco citados. Primeiramente, é preciso que conceituemos
claramente o que são os vlogs:

O vlog (abreviação para ‘videolog’) é uma forma predominante do


vídeo “amador” no YouTube, tipicamente estruturada sobre o conceito
27
YouTube afirma que Brasil é 2º maior consumidor de vídeos. Estadão, São Paulo, 27 jul. 2014.
Disponível em: <http://blogs.estadao.com.br/link/YouTube-afirma-que-brasil-e-maior-consumidor-de-
videos/>. Acesso em 28/07/ 2014.
28
Ibidem.
78

do monólogo feito diretamente para a câmera, cujos vídeos são


caracteristicamente produzidos com pouco mais que uma webcam e
pouca habilidade em edição. Os assuntos abordados vão de debates
políticos racionais a arroubos exacerbados sobre o próprio YouTube e
detalhes triviais da vida cotidiana. (BURGUESS; GREEN, 2009, p.
192).

Os vlogs são importantes, pois, através deles, vários jovens expõem suas
opiniões, não apenas aqueles mais conhecidos, como muitos anônimos à procura de
fama, ou mesmo aqueles que apenas buscam se expressar. Felipe Neto, PC Siqueira,
Daniel Fraga, Yuri Grecco, Pirulla, Clarion, estão entre os mais conhecidos, além de
uma centena de outros que não alcançaram a mesma visibilidade. Temos ainda sites
como a tropa dos Lanternas Verdes e a ARCA (Associação Racionalista de Céticos e
Ateus), que promovem hangouts semanais. O hangout é uma ferramenta do Google+:

O Google + possui ainda outra poderosa ferramenta que viabiliza a


interação entre os formandos: o Google Hangout. Esta componente
para além de permitir a comunicação entre os formandos através de
conversações em tempo real de forma simultânea, possibilita a partilha
de ecrã e facilita o trabalho colaborativo no âmbito da formação.
Tendo em conta as dinâmicas propostas no plano de cada módulo,
estes aspetos permitiriam a realização de atividades praticamente
como se estivessem em regime presencial. No entanto, esta ferramenta
apresentou a primeira limitação da formação, o Google Hangout não
permite a conversação com mais de 10 pessoas simultaneamente
(MIRANDA, 2012, p. 2817).

No YouTube, como nos vlogs e hangouts,são importantes as discussões que se


formam nos comentários dos vídeos que, conforme a popularidade da gravação, acabam
sendo frequentemente citados no Facebook. É muito comum que tais vídeos sejam
compartilhados pelos militantes na rede social, e muitas vezes, usados como argumentos
de um debate, contribuindo para a divulgação de diversas ideias neoateístas.

2.9.2. Algumas falas dos hangouts ateus: termo neoateísta tem um sentido negativo
no Brasil

O termo neoateísmo, nos depoimentos do YouTube, acabou tendo um sentido


negativo para ateístas brasileiros. Isto se deve às disputas ideológicas ocorrentes nas
discussões com apologistas cristãos, e também militantes virtuais, em que muitos
79

delessão acusados de serem neoateus. A insatisfação que isto provoca é percebida nas
discussões de vlogs e hangouts no YouTube.
Na página do YouTube, há a gravação de um hangout promovido pela ARCA,
que é uma entrevista com o presidente da ATEA, Daniel Sottomaior29. Nesta, chama à
atenção a declaração dele de que o termo “neoateísmo”é negativo,inventado pelos
religiosos para denegrir os ateus.Essa declaração acontece a partir de 1 hora e 17
minutos de vídeo. Para ele, o termo virou um xingamento, à semelhança do que
aconteceu com o termo “fundamentalista”. A maioria das críticas ao termo neoateu
apontam que, para os ateus não brasileiros, não existe uma nova forma de não crer.
No vídeo do YouTube de Pirulla, de 2012, o vogleiro, cujo nome verdadeiro é
Paulo Miranda Nascimento, doutor em Zoologia pela USP, procura dar um ar mais
comedido ao termo30. No mesmo ano, o hangout do vlogueiro de pseudônimo Maestro
Bogs, com o título “Neo-Ateísmo e neologismos babacas!”31, de 2012, é um exemplo de
recusa ao termo neoateísmo.
No canal do YouTube PRONTO, FALEI, o vlogueiro Rodrigo Leal também
discute o neoateísmo como um termo negativo, declarando que foi um termo ensinado
pelos religiosos para subjugar os ateus32.O vídeo do Rodrigo é de 2013 e está, de acordo
com o hangout, com a participação de Sottomaior, que é de 2014. Isso sugere que houve
uma mudança na aceitação do termo no Brasil para um sentido mais negativo, já que
esses dois não são os únicos casos de não aceitação do termo. Todavia, o termo já está
consagrado na academia, vemos vários dossiês de revistas universitárias que o utilizam
(Fig.18).

29
Disponível em: <https://www.YouTube.com/watch?v=2rJ05ed6CnA>. Acesso em 26/06/2014.
30
Disponível em: <https://www.YouTube.com/watch?v=xcmNSgHuPRc>. Acesso em 26/06/2014.
31
Disponível em: <https://www.YouTube.com/watch?v=1RE50Nko5lY>. Acesso em 26/06/2014.
32
Disponível em: <https://www.YouTube.com/watch?v=s_cvs10DnXw>. Acesso em 25/06/2014.
80

2.9.3. Vlogs e hangouts como instrumentos da divulgação do conflito entre Ciência


e Religião

Figura 20 - PrintScreen a ciência salvou minha alma33

O YouTube pertence ao Google e não ao Facebook, mas não deixa de


influenciar a rede social. É comum, nos debates, o usuário do Facebook usar um link de
um vídeo para responder a alguma indagação. E o quanto aos vlogs? Eles acabam sendo
produtores de opinião:

Neste contexto, os vlogueiros, tornaram-se formadores de opinião


deste número em constante crescimento de internautas que trocam o
controle remoto da TV pelo mouse do computador. PC Siqueira é um
dos mais notórios da atualidade. Assim como muitos do mesmo
segmento, ele usa seu canal na Internet para dar opiniões pessoais
sobre assuntos do momento (JESUS, 2011, p. 11).

Cito dois vlogueiros que são conhecidos e compartilhados e, apesar de não se


especializarem no combate à religião, fazem, ocasionalmente, alguns comentários
antirreligiosos. PC Siqueira é o primeiro, e o mais popular deles, tanto que conseguiu
tornar-se VJ da MTV brasileira e o mais visto de todos. Apesar de antirreligioso, trata
de diversos assuntos no seu canal do YouTube.

33
Disponível em: <https://www.YouTube.com/watch?v=37BsnCQEXwI>. Acesso em 26/06/2014.
81

Paulo César Siqueira, 25 anos, é o criador do canal do YouTube “Mas


Poxa Vida”, que até a finalização deste artigo já tinha sido visto mais
de 93 milhões de vezes. PC Siqueira, como ficou conhecido na rede,
foi um dos primeiros nomes brasileiros a se destacar na nova mídia, e
precedeu uma leva significativa de pessoas que, cansadas de escrever
em blogs, decidiram gravar suas ideias (Ibid., p. 11).

E o outro vlogueiro de destaque é Felipe Neto, também muito popular. Tornou-


se contratado da TV Globo, onde faz alguns esquetes engraçados, mas sem o mesmo
impacto. A seguir, uma apresentação mais detalhada do vlogueiro:

Em 2007, o ator carioca Felipe Neto, de 22 anos, mantém um blog na


Internet chamado Controle Remoto, onde escrevia usando humor,
sátiras e reflexões [...]. Até que usou uma conta no canal de vídeos
YouTube. Postou uma gravação que foi quase um teste: poucos
segundos de uma risada sua. Gostou e aos poucos foi fazendo cada
vez mais publicações. [...]. O “programa”, intitulado de “Não Faz
Sentido”, seguia a mesma linha do diário virtual: críticas sobre
qualquer assunto. Mas principalmente ídolos e manias do universo
teen e das subcelebridades como os ex-BBB’s. Foi assim que Felipe
Neto cresceu (ARRUDA, p. 2-3).

Com o advento e sucesso desses dois vlogueiros, surgiram diversos outros que se
especializam em vários assuntos. Como também jovens que se comprometeram em
combater a Religião e divulgar a Ciência a estilo de Carl Sagan. Aliás, a série de TV
Cosmos de Carl Sagan é uma inspiração para muitos dos jovens ateus, havendo relatos
de como, na infância, a produção os impressionou. Cosmos foi regravada por Neil
deGrasse Tyson e foi lançada em 2014. E, depois de poucos dias de um episódio seu
lançado nos Estados Unidos, já estava sendo disponibilizada no YouTube, com legendas
em português, por esses militantes ateus do YouTube. Neil deGrasse Tyson não acredita
na conciliação entre fé e religião34, e o produtor executivo do programa, o animador
Seth MacFarlane é um ateu americano militante, criador da Family Guy e American
Dad.
Basta uma pesquisa no Google e no YouTube para ver diversos vídeos que
relacionam a ideia de conflito. Mesmo nos que não são de militantes, podemos ver
comentários contrários a qualquer conciliação entre Ciência e religião35.Percebemos
que, geralmente, são críticas à leitura fundamentalista feita pelos cristãos aos primeiros
34
Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/tubo-de-ensaio/astronomia/>. Acesso em
24/01/14.
35
Disponível em: <https://www.YouTube.com/watch?v=5DhltlIiGY8>. Acesso em 24/08/14.
82

onze capítulos do Gênesis, entretanto, também percebemos que há uma contradição,


uma vezque os ateus e neoateus fazem também essa leitura fundamentalista. Ao final, os
críticos tornam-se aquilo que mais odeiam36.Como exemplo, o décimo quinto hangout
d'ARCA cujo título é “Ciência x Religião - Deus é um vírus.” São quase duas horas
desse tipo de leitura37. A ARCA é um grupo que criou uma paródia de um costume
comum no meio cristão, a Escola Dominical para ateus.

2.10. Segundo Encontro Nacional de Ateus de 2013

No Segundo Encontro Nacional de Ateus, estive presente como observador


participante. Foram feitas algumas fotos e gravações. Contudo, o evento estava sendo
gravado pelas instituições patrocinadoras e, depois, foi posto no YouTube. Gostaria de
ressaltar que não serão analisadas todas as palestras, mas somente três delas. São elas a
de Pirulla, de Daniel Sottomaior e do professor Paulo de Lima Piva, por serem as mais
significativas para essa dissertação.

Figura 21 – Cartaz do Segundo Encontro Nacional de Ateus38

O Segundo Encontro Nacional de Ateus aconteceu em diversos estados da


União, no dia 17 de fevereiro de 2013, e reuniu ateus e agnósticos simultaneamente em

36
Disponível em: <https://www.YouTube.com/watch?v=WcWsS8PF2Xs>.Acesso em 16/08/2014.
37
Disponível em: <https://www.YouTube.com/watch?v=-c92lVZtJxw>. Acesso em 10/08/2014.
38
BARROS, Chico. 2º Encontro Nacional de Ateus já tem a adesão de 9 Estados. Disponível em:
<http://maranauta.blogspot.com.br/2012/11/2-encontro-nacional-de-ateus-ja-tem.html>. Acesso em
10/02/2013.
83

28 cidades de 25 Estados brasileiros, incluindo o Distrito Federal, com transmissões ao


vivo. O encontro de São Paulo, organizado pela Sociedade racionalista 39,e no qual
estive presente, foi mais bem estruturado e teve parceria com as principais associações
do país, ao todo 750 pessoas estiveram no encontro da capital paulista 40. O evento
ocorreu no auditório Bunkyo, da Sociedade Brasileira Cultural Japonesa. No cartaz
(figura 19), vemos as entidades que apoiaram o encontro, a página Jesus Bêbado, a
instituição ATEA, o universo racionalista, o jornalista Paulo Lopes (Paulopes), a página
ateus.net, o blog de vlogueiros Tropa dos lanternas Verdes, a página do Facebook Sou
Ateu Brasil, o blog de ciência 100nexos, não está no cartaz a LiHS (Liga Humanista
Secular)41. Todos esses são grupos são virtuais, baseados em blogs, vlogs e páginas do
Facebook (sobre essa virtualidade das instituições, discutiremos no capítulo 3).
A fala de Daniel Sottomaior,42 que é engenheiro e presidente da ATEA, foi sobre
a estrutura da instituição e o valor dela na sociedade brasileira. Ponho aqui alguns
trechos de sua palestra: “[...] o ateísmo no Brasil começou organizadamente com o
grupo STR (Sociedade da Terra Redonda) [...] em 1999[...].” Sottomaior considera que
1999 foi a época do começo do ativismo ateu no Brasil, e a STR, como o próprio nome
diz, baseada num mito antirreligioso43, foi a instituição que deu origem a tudo. Ele ainda
esclarece a criação da ONG Brasil para todos que, basicamente, lutava pela retirada dos
símbolos religiosos das repartições públicas44.
O discurso de Pirulla45, mais ponderado, trabalhou com a disputa entre ciência e
religião. Este expositor fazia, à época, doutorado em Zoologia na USP. A palestra de
Pirulla seguiu a linha científica. Já Paulo Jonas de Lima Piva,46 fez uma preleção47muito

39
Disponível em:<http://sociedaderacionalista.org/encontro-nacional-de-ateus///>. Acesso em 22/08/2014.
40
COSTA, Camilla. Com ajuda da web, ateus ganham força no Brasil. BBC Brasil, São Paulo 25 fev.
2013. Disponível em:
<http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/02/130222_ateus_mobilizacao_cc.shtml/>. Acesso
08/07/2014.
41
Disponível em:<http://www.ligahumanista.org.br//>. Acesso em 22/08/2014.
42
Disponível em:
<https://www.YouTube.com/watch?v=2Ld5bGJy9oo&index=25&list=UU1NSyKM_5QbfVWHSc7D1-
jA//>. Acesso em 22/08/2014.
43
De que se ensinava na Idade Média que a Terra era plana.
44
Na época, Sottomaiorrecebeu diversos apoios, até sondou o então Bispo católico do Araguaia, dom
Pedro Casaldáliga, que não apoiou por achar a proposta de Daniel antirreligiosa e não de laicidade.
Disponível em: <http://possivelextraordinario.wordpress.com/category/laicismo/page/2/>. Acesso
08/07/2014.
45
Disponível em: <https://www.YouTube.com/watch?v=h1e-
uDmnuvc&list=UU1NSyKM_5QbfVWHSc7D1-jA/>. Acesso 08/07/2014.
46
Disponível em: <http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4131019H6>. Acesso
08/07/2014.
47
Disponível em:
<https://www.YouTube.com/watch?v=NCc37S0058A&list=UU1NSyKM_5QbfVWHSc7D1-
84

exaltada, conseguindo aplausos calorosos da plateia. Seu trabalho é baseado no


pensamento do padre francês Jean Meslier, que ele classifica como o primeiro ateu
autêntico. Primeiramente, ele fala do filósofo francês ateu Michel Onfray e de seu
Tratado de Ateologia, declarando que os filósofos iluministas não avançaram no
ateísmo, eram pensadores carolas. Seu dialogo é muito enfático e com gesticulação
forte para mostrar a natureza das certezas dele. No vídeo, ele acaba declarando que, pelo
ateísmo ser a favor da liberdade, os ateus, naturalmente, se aproximam de temas à
esquerda da sociedade. Segundo ele: “os ateus [...] também são favoráveis ao aborto,
são favoráveis à eutanásia [...], são favoráveis aos direitos dos homossexuais [...].”
O Segundo Encontro Ateu de São Paulo teve proposta e organização mais
profissionais. Bem elaborado, acabou atraindo militantes de diversas regiões da capital
(em alguns lugares do país não teve muita organização). Em algumas conversas que
presenciei, houve a queixa de descriminação dentro do Facebook com o surgimento de
páginas antiateístas. Entretanto, as palestras focaram extremamente pouco na questão da
discriminação. A percepção é a de que elas se voltaram muito mais para a identidade
ateísta baseada numa alteridade perante os teístas.

2.11. Páginas de combate ao neoateísmo

É muito importante não deixarmos de lado as páginas no Facebook que foram


criadas para combater o neoateísmo no Brasil. Um dos vlogueiros mais atuantes no
meio é Emerson de Oliveira48, designer gráfico e morador de Marília, São Paulo. Ele
possui um blog de nome Logos Apologética, de referência cristã católica, mas com
diversas traduções de textos apologéticos de cristãos conservadores americanos. O autor
é muito conhecido no meio “anti-neotaeita”. Outro blogueiro/vlogueiro conhecido no
meio é o Conde Loppeux de laVillanueva49, pseudômino do advogado Leonardo Bruno,
de Belém do Pará, apologista católico. Notemos que muitos desses jovens são ligados
ao pensamento conservador e muitos deles se dizem de direita. Percebemos também
uma influência da direita cristã americana no conteúdo dos blogs, vlogs e páginas do
Facebook.

jA&index=26/>. Acesso 08/07/2014.


48
Disponível em: <http://logosapologetica.com/>. Acesso em 08/07/2014.
49
Disponível em: <http://cavaleiroconde.blogspot.com.br/>. Acesso em 08/007/2014.
85

Há inúmeras páginas combatendo o neoateísmo, como: Antiateísmo; Anti-


neoateísmo; Quebrando o Encanto do Neo-Ateísmo; Caos & Regresso; C. S. Lewis;
Clive Staples Lewis; Submundo Intelectual; Ateu que Deus Te Abençoe;
Descontradizendo Contradições bíblicas; Neo-Ateísmo da Depressão; Respostas ao
Ateísmo, etc. Podemos perceber um crescimento de diversas páginas e comunidades no
Facebook, ultimamente têm surgido algumas com um caráter mais conservador,
incluindo aquelas que se definem como páginas de direita ou liberais. Essas, nos
fenômenos do Facebook, não são muito simpáticas ao neoateísmo brasileiro, isto por
causa da aproximação e defesa destes de temas como aborto, casamento gay, laicidade,
etc. Contudo, as páginas de combate, em comparação às páginas ateias, tem menos
seguidores e compartilhamentos. Não pretendo me alongar na descrição dos blogs,
vlogs e grupos antiateus, pois exigiria um distanciamento do assunto principal da
dissertação. Entretanto, esses elementos do mundo virtual podem elucidar um pouco do
caráter antirreligioso do neoateísmo. Blogs, vlogs e comunidades ateístas estão
relacionados, pois a base comum de argumentos do militante ocasional e sobre a
qualpouco lê, são retirados desses sites. A moderação das páginas do Facebook tem um
perfil diferente do um frequentador assíduo ou ocasional e, sendo assim, a partir daqui,
observam-se os gráficos que foram construídos através dos resultados das entrevistas
online com a moderação das páginas.

2.11.1. Questionário via Google Docs com a moderação

A razão de se recorrer a entrevistas foi uma tentativa de validar as hipóteses.


Entretanto, algumas hipóteses se mostraram nulas, pois se acreditava que o perfil seria
mais jovem e menos qualificado. Foi feita uma pesquisa visando conhecer o perfil da
moderação ateísta, no mês de janeiro de 2015, através do uso da ferramenta Google
Docs (as perguntas estão em anexo). Houve 54 respostas de 120 páginas consultadas. A
maioria não respondeu, houve três moderadores que foram agressivos, mas a outra parte
gostou da ideia e até pediu que a pesquisa fosse divulgada depois de pronta. No total,
79,4% dos moderadores pesquisados declararam que há conflito sim entre a Ciência e a
Religião. Por outro lado, 20,6% dos pesquisados disseram que não há conflito. Os
resultados vêm a seguir.
86

2.11.2 Ocupação dos moderadores

Gráfico 1– Percentual dos que trabalham


Fonte e autoria: Rogério Fernandes da Silva

Sim; 44 (79%); Não: 11(21%)

2.11.3.Sexo

Gráfico 2 – Percentual da divisão por sexo


Fonte e autoria: Rogério Fernandes da Silva

Masculino 51 91%
Feminino 2 4%
Outra 1 2%
87

2.11.4.Participa da moderação de outras páginas ateístas?Quantas?

Gráfico 3 – Percentual do número de moderação em páginas


Fonte e autoria: Rogério Fernandes da Silva

1 24 43%
2 3 5%
3 13 23%
4 3 5%
5 4 7%
6 1 2%
7 0 0%
8 0 0%
9 1 2%
10 4 7%

2.11.5.Faixa etária
88

Gráfico 4 - Percentual das idades dos moderadores


Fonte e autoria: Rogério Fernandes da Silva

entre 9 e 14 anos 2 4%

entre 15 e 21 anos 5 9%

entre 22 e 30 anos 18 32%

entre 31 e 40 anos 22 39%

entre 41 e 50 anos 4 7%

entre 51 e 60 anos 1 2%

acima de 60 anos 1 2%

2.11.6.Nível de formação

Gráfico 5 – Percentual do nível educacional


Fonte e autoria: Rogério Fernandes da Silva
89

Ensino Fundamental incompleto 0 0%


Ensino Fundamental completo 2 4%
Ensino Médio incompleto 4 7%
Ensino Médio completo 11 20%
Superior incompleto 13 23%
Superior completo 18 32%
Pós-graduação 6 11%

2.11.7.Como se definem os entrevistados quanto à crença

Gráfico 6–Percentual dos grupos étnicos


Fonte e autoria: Rogério Fernandes da Silva

branco 29 52%
negro 4 7%
pardo 16 29%
Outros 2 4%

2.11.8.Qual era a sua religião antes do ateísmo?

Gráfico 7 – Percentual dos grupos religiosos anteriores


90

Fonte e autoria: Rogério Fernandes da Silva

Católica 19 34%
Candomblé 0 0%
Muçulmana 1 2%
Taoísta 0 0%
Evangélica 14 25%
Budista 0 0%
Umbanda 1 2%
Kardecista 0 0%
Judaica 2 4%
Nenhuma 11 20%
Outros 6 11%

2.11.9.Há quanto tempo você participa da página do Facebook?

Gráfico 8– Percentual do tempo da militância


Fonte e autoria: Rogério Fernandes da Silva

menos de seis meses 4 7%


menos de um ano 5 9%
mais de um ano 11 20%
mais de dois anos 20 36%
mais de quatro anos 12 21%

2.11.10.Qual a frequência que acessa a página?


91

Gráfico 9– Percentual do tempo gasto na militância virtual


Fonte e autoria: Rogério Fernandes da Silva

várias vezes ao dia 26 46%


uma vez ao dia 15 27%
uma vez por semana 7 13%
duas vezes por semana 3 5%
a cada quinze dias 3 5%

2.11.11. Quantas horas você gasta com o acesso?

Gráfico 10 – Percentual do tempo gasto em horas


Fonte e autoria: Rogério Fernandes da Silva

1 hora 20 36%
2 horas 12 21%
3 horas 6 11%
4 horas 3 5%
5 horas 5 9%
Outros 8 14%
92

Os dados foram conseguidos em pouco tempo e nos dão uma visão da


moderação ateísta do Facebook. Eles são resultados amais de um longo processo que
começou em 2011 e está terminando agora em 2015. Em 2011, foi feita uma pesquisa
que resultou num artigo para ABHR, neste artigo foi pesquisado as imagens recorrentes
e o tipo de frequentador das páginas com dados ainda superficiais. Agora os dados são
mais completos. Pode-se agora ter um perfil mais específico da moderação, quem é ela e
o que a motiva. No próximo capítulo, analisaremos melhor esses dados, juntoaos
resultados das entrevistas.
93

CAPÍTULO III

REFLEXÕES SOBRE O CIBERATIVISMO NEOATEU


BRASILEIRO

No início do século XXI, são os neoateístas os principais responsáveis pelo


recrudescimento do conflito entre a ciência e a Religião. Seus livros incentivam as
pessoas a se engajarem na luta contra a “opressão” religiosa. Richard Dawkins, em suas
obras, junto com os demais escritores neoateístas, tem fornecido forte arcabouço
teórico, aguçando o debate. Podemos encontrar quatro características básicas na
vanguarda ateísta em discussões em rede sociais. No caso do Brasil, são elas:

a) A Religião atrasa a Ciência, fato relacionado ao mito do conflito entre


ciência e Religião;

b) O termo neoateísmo, no Brasil, tem uma conotação pejorativa para o


ateísta, sendo por este rejeitado;

c) O humor é responsável pela popularidade das páginas ateístas no


Facebook esse humor é fator que determina o tipo de imagens usadas e
os valores que elas agregam;

d) Na página da ATEA, temos testemunhos de “desconversão”, elementos


que não encontramos em outras páginas, exemplificando seu caráter
proselitista. Também há preocupação da ATEA em produzir ritos
seculares se baseando em experiências estrangeiras.

Então, algumas observações ser fazem necessárias, entre elas, alguns resultados
das entrevistas, que foram feitas em dezembro de 2014 e janeiro de 2015, esclarecendo
o que pensam os responsáveis pela moderação das páginas ateístas. As perguntas
visavam estabelecer a idade, as ideias e o que leem esses moderadores. Algumas
94

hipóteses não foram confirmadas, como a questão da idade da moderação. Previamente,


acreditava-se que a idade seria menor do que a descoberta. Então, entra em cena, para
solucionara surpresa, o conceito de geração, que nos deu indicativos para entendermos
que a hipótese sobre idade não foi inteiramente verificada. Esses agentes são
apresentados a seguir.

3.1.A virtualidade das instituições e geração

Nesta pesquisa, foi percebido que a virtualidade é essencial para a divulgação da


mensagem e a sobrevivência das páginas. A ATEA não possui escritório físico,um
endereço físico, depende da comunicação no mundo virtual.A maioria das denúncias
contra intolerância os ateus são feitas pela Internet. A ATEA possui uma organização
pouco profissional, provavelmente por carecer de fontes financeiras sólidas. Na página
do Facebook, por diversas vezes, os moderadores pediram ajuda de designers gráficos e
advogados, sempre na base do voluntariado. As outras comunidades também não
possuem endereços e são ainda mais virtuais que a ATEA. Entretanto, a LiHS é uma
exceção, pois possui escritório físico, com endereço fora do mundo virtual. Essas
instituições surgiram graças aos meios modernos de comunicação e a virtualidade das
instituições é parte disso. O impacto das tecnologias de informação, em nosso tempo, é
enorme.
Os moderadores, os criadores da ATEA e da LiHS e aqueles que curtem suas
páginas são afetados pela maneira como suas gerações se colocaram historicamente. O
conceito de geração ajuda a compreender a questão da virtualidade em relação às
inovações tecnológicas. Os sociólogos falam de várias gerações a partir da Segunda
Guerra Mundial, como a dos Baby Boomers, formada pelos nascidos logo após o
conflito. Este grupo geracional foi afetado pela invenção da televisão, por
transformações culturais e pelo aperfeiçoamento dos meios de comunicação. São
indivíduos que beiram os setenta anos. Sucedendo-os, temos as gerações X, Y e Z. Essa
classificação de gerações é importante para sabermos quem estamos pesquisando e
como se colocam no mundo.
Na entrevista intitulada A “juventude” é apenas uma palavra, o sociólogo
francês Pierre Bourdieu, define o conceito de juventude como um signo. A noção de
juventude é uma construção social e cultural e bastante diversificada. Para entender isso,
95

deve-se compreender que a noção de juventude não pode ser definida isoladamente, mas
em múltiplos contextos. É preciso pensar a ideia de juventude em condições de gênero,
etnia, classe social, moradia, pertencimento religioso ou não-pertencimento. Neste caso,
é preciso contextualizá-la na história, como o integrante de uma geração específica que
se relaciona com outras gerações. Portanto, existem diferentes modos de vivenciar a
juventude na contemporaneidade (BOURDIEU, 1983).
Existem três tipos principais de faixas etárias participando das páginas e da
moderação das mesmas. São as gerações X,Y e Z, que estão presentes nos conflitos das
redes sociais.O conceito de geração é parcial,pois quando se tenta usar um modelo
muito abrangente para estudar a realidade, não se consegue explicar as diferenças que
existem, já que todos os modelos generalizantes tratam apenas de parte da realidade. Por
exemplo, onde enquadrar nesses modelos de gerações os jovens conservadores, jovens
cristãos, os jovens militantes, etc.? Neste caso, voltemos aos conceitos de gerações e
explicá-los.
Segundo Elydio dos Santos Neto e Edgar Silveira Franco, entende-se por
geração X o seguinte:

A geração X nasceu entre 1965 e 1978 e foi marcada, de um lado,


pelos movimentos hippies e pela revolução sexual, e de outro lado,
pela experiência do desenvolvimentismo, das ditaduras, da crise
econômico-energética e seu consequente desemprego. Crescendo em
culturas já completamente afetadas pelos meios de massa, não
conseguiu libertar-se completamente da noção de trabalho/emprego
que herdou dos pais, mas foi profundamente influenciada pelas lutas
por liberdade, reconhecimento das minorias, paz e independência do
dinheiro, o que, sem dúvidas, gerou tensões e angústias permanentes.
Os indivíduos dessa geração têm hoje entre 32 e 45 anos (NETO&
FRANCO, 2010, p.13).

Uma das temáticas recorrentes dessas páginas,imagens e discussões propostas


pelos moderadores é a questão dos direitos de minorias. Principalmente, direitos gays
e,neste caso, a ênfase é no direito ao casamento igualitário. Por considerarem a religião
cristã misógina, observam-se, ainda,temas do feminismo, mas em menor quantidade,
afinal, a preocupação precípua é defender a minoria ateia. As reivindicações do
movimento negro quase não aparecem nas páginas ateístas. Nesses anos de pesquisa,
não foi contemplado nenhum post ou banner sobre o assunto1. Quando aparece alguma

1
Diante da infinidade de páginas é impossível dar conta de toda produção no Facebook. Então, fica a
duvida se o tema do negro é relevante para a moderação ateísta
96

mensagem que pode ser relacionada aos negros, é sempre ligada à escravidão e sobre
como a religião apoiou esse sistema de exploração de trabalho. Talvez essa falta de
interesse pelas pautas raciais ocorra por conta de apenas 7% dos moderadores se
considerarem negros e 29% pardos. E quanto à geração Y? Segundo o mesmo texto:

A geração Y nasceu entre 1979 e 1992 e foi profundamente marcada


pela revolução tecnológica, pela globalização, em todos os seus
aspectos, e também pelas questões ecológicas. Nascida num tempo em
que o consumo se expandiu e foi facilitado pela tecnologia, é
composta de indivíduos movidos pela preocupação com o sucesso
profissional, nem sempre no mesmo emprego ou empresa, de tal
forma que este lhes garanta a possibilidade de consumir o que o
mundo da indústria tem a oferecer. São pessoas que têm hoje entre 18
e 31 anos (Ibid., p. 13).

A geração Y, acima descrita, acaba tendo um protagonismo virtual muito forte,


tanto que é perceptível, no tempo atual, jovens articulando movimentos políticos ao
redor do mundo utilizando os meios modernos de comunicação. A familiarização com
as novas tecnologias tem tido resultados em diversos países: movimentos são criados,
manifestações convocadas pelas redes sociais. E, dessas redes sociais, a mais importante
na atualidade é o Facebook.
Partamos, agora, para a segunda geração, conhecida como Z. No trecho a seguir,
constam informações importantes sobre ela:

A geração Z é composta por indivíduos que nasceram a partir de 1993


e que estão, portanto, na faixa de 0 (zero) a17 anos2. Os indivíduos a
ela pertencentes, mais do que a anterior, são aqueles do mundo virtual:
Internet, videogames, baixar filmes e músicas da Internet, redes
sociais, etc. A tendência é que estejam com o fone nos ouvidos a todo
instante, ao mesmo tempo em que estão realizando outras atividades e
assistindo TV. Por isso, alguns chamam esta geração de “geração
silenciosa”. Rápidos e ágeis com os computadores, têm dificuldades
com as estruturas escolares tradicionais e, muitas vezes, com os
relacionamentos interpessoais, uma vez que a comunicação verbal é
dificultada pelas tecnologias presentes a todo o momento. Ainda não é
muito claro como vão lidar com o emprego e com as especializações
que até agora vêm se mantendo na sociedade (Ibid., p.14).

Esta geração é fortemente vinculada à Internet, videogames, filmes e músicas. É


possível ver, nos debates virtuais, que a linguagem é influenciada pelas dos
videogames: Fatality, Wins, Perfect, por exemplo, são termos geralmente usados. E

2
Como estamos em 2015 essa geração está na faixa dos22 anos.
97

acabam influenciando a linguagem de outras gerações que compartilham o mesmo


espaço virtual e desterritorializado que é o mundo do ciberespaço. Nessa faixa etária, há
um momento de rebeldia e desconstrução da lógica familiar.
Quando o jovem navega na Internet, ele procura (e acaba criando) laços com
outras pessoas. Algumas, ele jamais conhecerá pessoalmente, outras até conhecerá.
Esses laços têm criado o perigo de julgar as pessoas apenas de acordo coma afinidade
que sentem por elas. O ser humano é complexo e não apenas cabe dentro da virtualidade
do ciberespaço (Ibid., p.16).
O conceito geracional visa compreender a historicidade e o vínculo do ser
humano com a experiência (FEIXA; LECCARDI, 2010, p. 192). É um quadro histórico
sobre as gerações que se foram e sobre as que virão. As mudanças tecnológicas
imprimiram consciências geracionais diferentes3. Nota-se, nas páginas pesquisadas, a
influência de gerações determinadas e como seu comportamento influi nos debates e
aspirações.

Em 1923, Ortega y Gasset publicou La idea de lãs generaciones, no


qual defendeu que as pessoas nascidas em um mesmo tempo partilham
da mesma "sensibilidade vital" que se opõe às gerações anteriores e
mais recentes e que define sua "missão histórica". (Ibid., p. 196).

Por isto, é pertinente a inserção do conceito geracional neste trabalho. Alguns


podem não concordar com ele, outros podem dizer que o princípio é mais político. No
Segundo Encontro Ateu de 2013, Paulo de Lima Piva (já mencionado)4, parte do
pressuposto de que o ateísmo, no Brasil, seria de esquerda. Portanto, na visão desse
pensador, o ateísmo brasileiro tem um componente mais político que geracional. O que
não deixa de ser, em parte, verdade, mas não engloba todas as nuances do ateísmo.
Podem-se ver ateus que participam de páginas e comunidades ateístas no Facebook, mas
também participando de outras de perfil conservador político (ateu conservador existe,
apesar de ser minoria no Brasil).
Apesar de o espaço virtual ser desterritorializado, ele permite uma sociabilidade
que os ateus brasileiros antes não possuíam. Surge, então, nessas comunidades, o desejo
de congregar para além do mundo virtual da web, e, com isso, surgiram os encontros

3
Os artigos pesquisados até aqui sobre conflitos de gerações são, em maioria, voltados para mundo do
trabalho e educacional.
4
Paulo de Lima Piva já foi inclusive representante da ATEA num programa de Luciana Gimenez, o
Superpop.
98

nacionais dos ateus. Esses encontros acontecem, geralmente, em fevereiro, no final de


semana próximo ao Dia do Orgulho Ateu – 11 de fevereiro – dia do nascimento de
Darwin. Participei como pesquisador do Segundo Encontro Ateu, promovido pela
ATEA e pela Sociedade Racionalista, em São Paulo. Nesse encontro, não fiz entrevistas
diretas, apenas observei e analisei os posicionamentos. O evento foi importante para
entender como os ateus que se conhecem do espaço virtual criam sua sociabilidade fora
da web. Tratamos na seção seguinte as noções de espaço virtual e dos aspectos
concernentes à web.
Neste caso, o que podemos falar do ciberativismo ateu? Como ele se formou? É
possível descobrir suas características? O ciberativismo está vinculado às
transformações da WEB 2.0, ao acesso a computadores no Brasil, e a proliferação de
smartphones. Isso vai dar um impulso ao ciberativismo ateu no Brasil. Passemos, agora,
a conceituar o Ciberespaço, relacionando-o com o conceito de web.

3.2. WEB e Ciberespaço

O termo ciberespaço surgiu no livro de William Gibson, o Romance


Neuromante5, onde o autor mostra um futuro dominado por microprocessadores em que
a informação é um produto de primeira necessidade (APARICI, 2012, p.11). O
ciberespaço é um “não lugar” de entretenimento individual e coletivo. É um lugar
anárquico que, aos poucos, está se tornando um lugar parecido com o mundo real (Ibid.,
p. 33). Como foi notado por vários pesquisadores, o ciberespaço permite um
relacionamento desterritorializado e uma identidade fluída.
A Web 2.06 permitiu aos usuários maior agilidade, a comunicação ficou contínua
e interacional. A Web 2.0 é a segunda geração de serviços online. Por ser bem mais
interativa, faz com que os cibernautas ajam igualmente no processo. É um espaço em
que as pessoas trabalham em redes sociais.
É preciso levar em conta também que, no Brasil, em 10 anos, triplicamos
números de computadores, como vemos a seguir:

5
Neuromante é uma tradução de Aparici, mas também pode vir grafado Neuromancer em outras.
6
A primeira geração, a web 1.0, diferentemente eram menos interacional, com sites mais estáticos. Essa
geração deu lugar aos novos meios diante da maior capacidade de transmissão e comunicação.
Interatividade, multimeios e atualizações constantes são expressões da segunda geração.
99

De acordo com os dados do Censo 2010, a penetração dos


computadores nos domicílios é maior no Sudeste, onde chega a 48%
das casas, das quais 39,6%, têm acesso à rede. Já nas regiões Norte e
Nordeste, 22,7% e 21,2% das residências têm o aparelho, em que
15,4% e 16,8% do total têm acesso à Internet, respectivamente7.

O crescimento dos debates e da militância está vinculado ao surgimento da WEB


2.0 e da popularização dos computadores pessoais. Então, segundo o Censo de 2010, os
computadores estão muito presentes no cenário brasileiro, sendo que o Sudeste
concentra a maior parte deles. Esses dados indicam que o aumento do ciberativismo está
relacionado ao poder de compra das classes brasileiras. Os computadores tornaram-se
bens mais acessíveis, devido ao aumento do crédito. Também aponta-se que mais da
metade dos brasileiros estão acessando a Internet, segundo a Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (Pnad)8. Na mesma notícia, está descrito que 75% da população
brasileira possuem smartphones. Os celulares se tornaram uma forma de acessar a
internet que se popularizou muito:

Em um recorte da Pnad a partir de grupos de idade, pessoas entre 15 e


17 anos e de 18 a 19 anos registraram os maiores índices de
internautas em 2013, com 76% e 74,2%, respectivamente. Já na faixa
etária entre 40 e 49 anos, 44,4% do total acessa a Internet. Apenas
21,6% de quem tem mais de 50 anos se conecta à web (Ibid.).

Os dados indicam que a geração Z é uma das que mais acessam a Internet no
país – nessa faixa etária aproximadamente 75% o fazem. Entretanto, a geração X tem
também atuado fortemente no uso da Internet, pois 44% dos pesquisados dessa faixa
etária acessam a rede. Em 2013, dos 32,2 milhões de domicílios com computador em
casa, 28,0 milhões tinham com acesso à Internet. Contudo, há uma teoria de que 90%
dos indivíduos são simples espectadores, 9% contribuem com conteúdo ocasionalmente
e apenas 1% dos usuários é a maior parte dos contribuintes de conteúdos (ACEDO,
2012, p. 159). Isto quer dizer que somente uma pequena parte dos usuários é realmente
empenhada no mundo virtual. O que dizer então do Ciberativismo? Peguemos a ATEA
como exemplo, com quase 400 mil seguidores no Facebook e, em contrapartida, com
uma quantidade mínima de contribuintes com recursos financeiros para a entidade,
7
LIMA, Eliomar. IBGE – Em 10 anos, número de computadores triplica nos domicílios do Brasil.
Disponível em: <http://blog.opovo.com.br/blogdoeliomar/ibge-em-10-anos-numero-de-computadores-
triplicam-nos-domicilios-do-brasil/>. Acesso 24/03/2015.
8
Mais de 50% dos brasileiros estão conectados à Internet, diz Pnad. Disponível em:
<http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2014/09/mais-de-50-dos-brasileiros-estao-conectados-Internet-
diz-pnad.html>. Acesso 24/03/2015.
100

somando 14.750 ao todo9, um número reduzido se comparado com 400 mil seguidores
da página no Facebook. E os militantes da página são poucos, sendo que a maioria não
posta comentários e imagens ou compartilha todas as postagens da página. Os
compartilhamentos de imagens, em 2011, chegavam aos 5mil, mas a média era de 2 mil
a 1,5 mil. Atualmente, apesar de crescer em número de adeptos,pode-se perceber uma
diminuição do alcance da página. Em média, os compartilhamentos, quando muito, têm
atingido o número de 500. Porém, nos momentos de atentados terroristas envolvendo
religiosos, como caso daquele da revista Charlie Hebdo, e polêmicas com
fundamentalistas evangélicos, a página fica mais movimentada e, assim, aumenta o
número de compartilhamentos e alcance10 no Facebook.

3.3.Agentes do ateísmo e os conflitos entre a Ciência e a Religião

Não será possível comportar todas as respostas do questionário na dissertação.


Então, foram selecionadas as mais importantes, pois apresentam um panorama desses
agentes que criam e administram páginas. As entrevistas trouxeram dados sobre o perfil
da moderação.
Os entrevistados foram divididos pela idade seguindo a separação por geração.
Os gostos, anseios e aspirações dos moderadores foram revelados nos resultados das
entrevistas. Os moderadores podem ser separados em dois grupos distintos, de acordo
com sua faixa etária, sendo um grupo entre 15 e 30 anos, e outro, mais velho, com mais
30 anos. Sobre a escolaridade, o nível Superior foi agregado entre aqueles que estão se
graduando, graduados e pós-graduados. Tal separação com certeza é arbitrária, mas é
uma forma de demonstrar a influência desse nível de escolaridade sobre a moderação
ateísta.

3.3.1.Os moderadores mais novos (de quinze até trinta anos)

No dia 03 de dezembro de 2014, um dos pesquisados, o moderador Thiago, disse


ter lido,de Richard Dawkins,Deus, um delírio, e O gene egoísta; Evolução de Mark

9
Dados dos contribuintes. Disponíveis em: <http://www.atea.org.br/>. Acesso em 24/03/ 2015.
10
Alcance seria um instrumento do Facebook que indica quantas pessoas viram suas postagens através
dos curtidores e compartilhamentos.
101

Ridley; Hitchens, Deus não é grande; Michel Onfray, Atheist Manifesto. Thiago é
criador do blog “jesusbebado”11 (Jesus Bêbado) que está na faixa etária entre 22 e 30
anos, tendo Ensino Médio completo, pardo, de origem Evangélica, modera hámais de
quatro anos e acessa as páginas várias vezes ao dia. Diz que leu O Mundo Assombrado
pelos Demônios (Carl Sagan), A Origem das Espécies (Charles Darwin), Deus um
delírio (Richard Dawkins), Por que não sou cristão (Bertrand Russell), etc.

No começo de 2011 não encontrei nada atualizado sobre ateísmo com


um toque de humor, criei o blog jesusbebado.com.br no intuito de
trazer informação, questionamentos e opiniões. “Seria mais correto
dizer que a religião está em conflito com a Ciência”. A Ciência não é
uma democracia, ela apenas é12.

No comentário acima, é possível perceber a visão dos moderadores, que é


compartilhada pelos demais: fé total na ciência, e visão conflituosa entre esta e a
religião. A moderação é a missão de levar informação à população para retirar do
obscurantismo religioso.
O entrevistado, Gabriel Filipe, moderador das páginas “Revista Ateísta”13; “Bar
do Ateu”; “Pense, é grátis”; “Só eu”. É jornalista, com idade entre 22 e 30 anos, Ensino
Médio completo, negro e ex-evangélico há mais de um ano, acessa as páginas uma vez
ao dia, gastando 3 horas. Declara "Sou ateu a[sic] 2 anos, então nos últimos 2 anos.”
Diz ter lido sete livros ateístas. Ele declara que criou a página por “Nececessidade [sic]
de expressar o[sic] minhas ideias. [...] "ciência e religião sim estão em conflito, mas
religiosidade não; a religiosidade ainda é possível."Religião e Ciência sempre terão
rabos presos, afinal, são controversos."
O entrevistado Hugo Jardel é professor, com idade entre 22 e 30 anos, negro, ex-
católico, tem a página há mais de um ano, acessa-a duas vezes por semana, e gasta uma
hora. Ele declara que:

Respeitar o direito de expressar a crença e a não crença e que o Estado


defenda o direito de expressão de ambos os lados. Acredito que
nenhum. Geralmente leio livros de Filosofia que é minha área de
formação. Eu havia curtido a página do Jesus Bêbado e vi uma
publicação pedindo um criador de conteúdo para o blog. Daí me

11
Disponível em: <http://www.jesusbebado.com.br/>. Acesso em 10/03/2015.
12
Entrevista “Questionários da Pesquisa com a Moderação” feita através do GoogleDocs feita nos meses
de dezembro de 2014 e janeiro de 2015. Autor: Rogério Fernandes da Silva
13
Disponível em: <http://www.revistaateista.com/>. Acesso em 10/03/2015.
102

candidatei a uma vaga e fui selecionado. Hoje, além do blog, escrevo


para a revista Ateísta. Foi um trampolim natural para mim14.

No tocante ao Conflito entre Ciência e Religião, o jovem autor define que de


fato, ocorre: “Estão desde a queda da Idade Média no séxulo [sic] XV. A ciência surgiu
como oposição ao pensamento hegemônico [sic] da Igreja Católica e de lá para cá vem
contestando –passo a passo – os dogmas. Mesmo que não de forma intencional.”
O moderador Joh, da página “Jesus Deveria Ter Apanhado Mais”, masculino,
entre 15 e 21 anos, Ensino Médio incompleto, branco, ex-evangélico, há menos de seis
meses, acessa a página uma vez por semana e gasta uma hora na moderação.Acredita na
separação entre governo e religião, na laicidade como modelo de governo. Assim
declara:“queria expressar minha opinião sem medo de represaria[sic]. apenas [...] Não,
acredito que não a[sic] motivo para conflito, religião usa a fé, enquanto a ciência usa a
verdade.”
No dia 05 de dezembro de 2014, Jef Lucas, que é Coordenador da Qualidade,
alocado no grupo etário entre 22 e 30 anos, que diz possuir nível Superior completo, e
de etnia branca, declara ter lido: “O gene egoísta, Deus: um delírio, Buracos negros, os
gênios da ciência, uma breve história do tempo, George [Sic] e Os segredos do
universo, deus e os homens, diabo, a máscara sem rosto e As origens do cristianismo.”
Numa descrição importante do entrevistado, declara que as páginas surgiram “Para
garantir o divertimento de ateus que, antes, não tinham esse tipo de conteúdo.” Ou seja,
sua preocupação é quase missionária de prover uma “catequese” ateísta com o livros
supracitados, principalmente, divertimento para os curtidores. Note-se ênfase dada pelo
entrevistado. No dia 09 de dezembro de 2014, Alysson, que está na faixa dos 15 a 21
anos, e possui Ensino Fundamental completo diz: “não li nem um livro ateísta,
mais[sic]de ciência eu leio muito eu li a Bíblia que e cheia de contradição por isso virei
ateu, sou livre, eu quis me juntar a pessoas que pensam como eu (ATEU), e engrandecer
o ATEISMO no Brasil.” Alysson acredita na tese de conflito entre ciência e religião.

3.3.2.Moderadores com mais de trinta anos

O entrevistado Ezio Cardoso Junior, um programador de computadores, entre 31


e 40 anos, nível superior incompleto, pardo, ateu há mais de quatro anos, diz ter lido

14
Entrevista “Questionários da Pesquisa com a Moderação” via GoogleDocs (Op.cit.).
103

muitos livros, de Carl Sagan a autores desconhecidos. Diz ainda que sua militância
surge “por considerar de vital importância a divulgação da realidade sobre o tema”. Por
não concordar com as falsas afirmações acerca do ateísmo, ele não acredita em conflito.
Neste mesmo dia, o moderador designado “@diaboreal”, militar, Masculino,
entre31 e 40 anos, nível superior incompleto, branco, de origem católica, moderador há
mais de dois anos, acessa a página uma vez ao dia e leva três horas na moderação. Ele
escreve que leu: Deus não é grande; Deus, um delírio; Não tenho fé suficiente para ser
ateu; Desvendando o arco-íris; O relojoeiro cego; Universo numa casca de noz; Uma
breve história do tempo; O universo elegante.
Ele assim argumenta:

“Conflito apenas da parte dos religiosos, que insistem em tentar


colocar crendice e dogma no mesmo patamar que estudo e método. E
usam isso apenas para tentar manter alguma espécie de poder
controlador baseado em um sistema de moralidade maniqueísta;
opressor e preconceituoso”15.

Outro entrevistado, Fabio Marton, jornalista, cuja idade está entre 31 e 40 anos,
nível superior completo, branco, ex-evangélico, diz ter lido: Deus, um Delírio; Zelota;
Tabula Rasa e Sobre o Islã, Faces do Fanatismo. Fabio tem uma descrição sobre os
religiosos bem contundente:

Sim. Grande parte dos religiosos acredita que a religião pode explicar
o mundo físico, como os criacionistas. Outros, como os teólogos
católicos, buscam restringi-la a questões metafísicas, acreditando num
conceito algo vago de eventos físicos e evolução dirigida. Mas,
enquanto um religioso é teísta, isto é, acredita numa divindade que
interfere no mundo, está falando que existem fatos sobrenaturais, que
contrariam nosso conhecimento da ação da física, corpo humano etc16.

Marton ainda deduz que o deísmo seria a melhor opção:

Então, por mais liberal que seja sua interpretação sobre a evolução e
origem do universo, ainda há um ponto em que sua crença se choca
com a ciência. É o caso, por exemplo, do Padre Quevedo, que
desmistifica quase todos os fenômenos tidos por sobrenaturais, mas
acredita em alguns milagres em particular. [...] Obviamente, cristãos
que acreditam em milagres, mas também em evolução e na origem
antiga do mundo estão muito mais em paz com a ciência que

15
Ibid.
16
Ibid.
104

criacionistas de terra jovem. [...]A crença religiosa mais compatível


com a ciência seria o deísmo, a de que deus ou deuses não interferem
no mundo físico17.

O moderador do Bar do Ateu, cujo nome é Wagner, diz ser Professor Federal,
com idade entre 41 e 50 anos, possui pós-graduação, branco, ex-presbiteriano, acessa as
páginas várias vezes ao dia, e gasta 2 horas em média. Já leu "Deus um delírio; Deus
não é grande; Carta a uma nação cristã; A Origem do Ateísmo; O mundo assombrado
pelos demônio[sic]e outros." Wagner descrever que criou a página para ajudar pessoas
que ainda não saíram do armário, ainda não se identificaram para a sociedade como
ateus. Declara sobre a existência do conflito: “Não, porque são áreas que não se
comunicam. A religião age no contexto da fé, a ciência no experimento reproduzível e
verificável”.
No dia 19/01/2015, Fernando, administrador, na faixa etária entre 31 e 40
anos, nível Superior completo, ex-evangélico, afirma que, para ele, a laicidade é: “O
direito e a liberdade de crenças múltiplas e de não crença, onde nem uma nem outra
podem prevalecer numa sociedade”. Sobre o conflito entre Ciência e Religião, aponta o
seguinte:

Ambas devem andar em harmonia e tolerância mútua, se respeitando e


vivendo dignamente entre si. É uma forma de protesto contra os
religiosos que envergonham a fé e sua religião, contra os que
discriminam, disseminam ódio e não vivem o que pregam. É também
uma crítica a muitas de suas práticas bizarras que são questionadas
biblicamente, como cair no poder, desmaiar, gritar e rodar nos cultos,
promover a fusão de política com religião, a prosperidade material, a
chantagem do dízimo e outras muitas manifestações estranhas. Claro
que há exceções a esse tipo de evangélicos18.

Fernando declara que a ciência é sempre aberta, diferente da religião que se


apoia em dogmas.

Não se pode ficar calados ou deixar que sigam sem que mostremos
isso. Dessa forma, iremos lutar contra a ignorância, a alienação, a
hipocrisia, a intolerância e o falso moralismo. nao[sic] se pode levar
evangelico[sic] a serio[...] Sim, poia[sic] a ciência é aberta ao novo, à
descobertas, é mutável, e a religião é estática e não permite que seus
dogmas arcaicos sejam questionados19.

17
Ibid.
18
Ibid.
19
Ibid.
105

No dia 30 de janeiro de 2015, o moderador William respondeu o questionário.


Ele é empresário e professor, tem idade entre 31 e 40 anos, e nível Superior completo.
Ele valoriza o congregamento e o poder de se expressar na página. Para motivar suas
ações, tece o seguinte comentário: “Para extravasar meu tempo livre e tentar colocar
pelo menos um ponto de interrogação na cabeça dos cristãos!!![sic] É foda ser ateu.” É
enfático ao declarar que ciência e religião estão em conflito: “Eternamente !!!”
No dia 02 de fevereiro de2015, foi entrevistado Jonas, que diz ser autônomo,
idade entre 31 e 40 anos, nível Superior incompleto, ex-protestante, e que diz ter lido os
livros neoateus em inglês. Em defesa de sua causa, declara:

Não considero conflito no sentido de disputa, pois só o lado religioso


se movimenta para vetar leis ou gerar proibições ou destruir
laboratórios etc. A Ciência foca em se desenvolver e ignora Religião
na maior parte do tempo, enquanto os religiosos ficam "se batendo"20.

No mesmo dia, André, comerciante, faixa etária entre 31 e 40 anos, Ensino


Médio completo, acredita que laicidade é “liberdade de escolha religiosa, liberdade ao
culto e principalmente, que uma não interfira de forma política, social ou econômica das
outras ...” Diz que nunca leu “nenhum livro para difundir o ateísmo”,e foi levado à
moderação pelo fato de “tentar mostras as pessoas que ateus não são adoradores de
demônios e sim pessoas normais e, na sua esmagadora maioria, mais honestas, íntegras
e sinceras que os religiosos.” Quanto ao conflito entre ciência e religião, afirma que “a
ciência se baseia em fatos e a bíblia em contos surreais.”
Várias respostas ressaltam a leitura de obras ateístas e o caráter militante dos
moderadores. Essa militância de moderação de páginas possui, em sua maioria,
defensores que estão na faixa etária de 18 a 40 anos. Já os frequentadores das páginas,
que não têm laços com a moderação apresentam idades menores, no espectro de 15 a 28
anos.
Após a leitura de tantas entrevistas, foi possível perceber nas respostas um apelo
quase missionário de conversão ao ateísmo, ou melhor, de desconversão do teísmo.
Além, claro, da crença no conflito entre ciência e religião. Notou-se, ainda, a crença
positiva do ateísmo com o único vínculo para compreender a ciência atual.

20
Ibid.
106

Destacamos, a seguir, uma entrevista em separado com um moderador que, que


apesar de não estar diretamente vinculado a uma página, de acordo com o que ele
mesmo declara, tem um papel relevante na militância virtual.

3.3.3.A entrevista de Eli Vieira, ativista gay e ateu

Também foi entrevistado Eli Vieira, biólogo, geneticista, doutorando em


Cambridge e vinculado ao “humanismo (secular) no Brasil”, como se definiu. Eli Vieira
foi membro fundador, é ex-presidente e atual diretor de relações-internacionais da Liga
Humanista Secular do Brasil (LiHS). A liga Humanista secular existe,
extraoficialmente, desde setembro de 2009 e, oficialmente, desde fevereiro de 2010.
Perguntado sobre o conflito entre Ciência e religião, ele declara:

Ciência é o resultado de muitas gerações de lapidação do senso


comum em direção a ideias cada[sic] mais refinadas que se tornam
cada vez melhores em descrever e prever como o mundo funciona.
Não que esse progresso seja inexorável - estases são comuns,
regressos não são exatamente impossíveis também. Algo que acontece
em ciência e que ajuda em sua confiabilidade, que o filósofo Whewell
chamava de "consiliência de induções", é que grupos de pesquisa
diferentes trabalhando no mesmo problema chegam às vezes na
mesma resposta. No melhor da ciência, temos convergência de
investigação independente, algo como uma persuasão racional.
Religião é algo antropologicamente mais universal: difícil alegar que
haja cultura sem o fenômeno religioso. [...]21.

Porém, Eli, logo a seguir, escreve sobre o linguista Daniel Everett, membro
emérito da LiHS, o povo indígena Pirahã, descrito por Daniel Everett,que, para Eli,
seguindo as ideias desse autor, seria um povo desprovido de religião. Para Elia religião
é "convergente" em procurar se associar a ciência, mas divergente por ser humilhante tal
formula:

[...]Se Scott Atran e Pascal Boyer estão certos quanto a religiões não
terem grande compromisso com a verdade descritiva do mundo, estão
a religião como um todo é flexível o suficiente para lidar com a
rigidez rigorosa da ciência e se modificar em função dela para apagar
as incompatibilidades e conflitos existentes (negar que esses existem
seria tapar o sol com a peneira). Essa relação diz algo sobre a ciência e
algo sobre a religião, na minha opinião algo que é lisonjeiro à primeira
e humilhante à segunda22.

21
Ibid.
22
Ibid.
107

Vieira, apesar de, inicialmente declarar não haver o ora tratado conflito, acredita
que a religião só sobrevive se adaptar às inovações científicas. Então, é possível
notarmos uma degradação da figura da religião em sua resposta. Entretanto, o
entrevistado não diz quais são esses conflitos existentes. Nota-se, para Eli, que a
humilhação da religião ocorre porque esta, em seu discurso, sempre se adapta à ciência,
ou seja, para o entrevistado, é característica ruim essa mutabilidade da religião. Eli julga
um dos pontos mais negativos da religião o de apresentar possibilidade de se modificar
para apagar a incompatibilidade ao discurso científico.
Os dados das imagens e das entrevistas, que dão o remate final dos perfis
investigados, serão apresentados a seguir.

3.4. Análises das imagens, dos gráficos e das entrevistas

Retornando ao que é descrito no segundo capítulo, é preciso analisar as imagens


para relacioná-las com o imaginário neoateísta dentro da rede social Facebook. Essas
imagens, comumente, recebem o nome de memes, uma referência a Dawkins, como já
foi dito. Os Memes acabam sendo uma representação cultural na Internet, e são usados
para descrever um conceito ou imagem que se espalha via Internet.
Quanto às entrevistas, a preocupação maior desta pesquisa foi conhecer a
moderação ateísta. Não houve a preocupação em descrever o perfil dos frequentadores
das páginas. Para tanto, foram feitas perguntas abertas e fechadas no questionário
utilizado. A entrevista era curta, pois textos e perguntas muito longos poderiam afastar
ou desanimar os entrevistados virtuais. Quatro entrevistados disseram que não iriam
responder: um por ter achado as perguntas tendenciosas, outro apenas não quis
responder. Um terceiro entrevistado começou a discutir com o pesquisador, fazendo
interpretações exageradas das perguntas. O último disse que não iria responder, pois não
ajuda universidades cristãs (no questionário de pesquisa está revelado que seria para a
pós-graduação da PUC/SP). Ao todo, foram 120 páginas ateístas com as quais foi
tentado contato, mas 54 responderam. As entrevistas ocorreram em janeiro de 2015,
através de mensagens pelo Facebook, com insistência até, pois foram mandadas mais de
uma vez para se ter respostas.
108

A militância da moderação das páginas ateístas do Facebook está no espectro de


20 a 30 anos (32%) e de 30 a 40 anos (39%), e percebe-se que moderadores mais velhos
constituem levemente maioria. Isso foi de alguma forma surpreendente, pois parecia que
teríamos um mesmo perfil etário dos moderadores coincidindo com os dos
frequentadores. Entretanto, a maior parte da faixa etária dos frequentadores/curtidores
está entre 18 e 30 anos.
Os moderadores são, em sua esmagadora maioria, homens, mais especificamente
em números, somando 91%. Entre os que estão cursando o Nível Superior, ou o tem
completo ou na pós-graduação, somam-se 66%. Verificou-se também que várias horas
ao dia são gastas com a militância e na administração das páginas. Em quesito de
religião, 20% eram católicos, 14% eram evangélicos e em terceiro lugar, 11%
declararam não ter tido nenhuma religião antes do ateísmo. Vê-se, aqui, um pequeno
reflexo das transformações da sociedade brasileira nas últimas décadas. A perda da
pertença católica, mas também do pertencimento evangélico para o novo grupo secular.
Dos entrevistados, cerca de 46%, ou seja, quase a metade, acessa as páginas
várias vezes ao dia. Isso demonstra um grande interesse pela militância virtual em prol
do ateísmo na rede social. Ao serem perguntados sobre o que os motiva, muitos
declaram que a religião atrasa a humanidade, sendo necessário combatê-la. Acessando a
página várias vezes ao dia, deixando de lado outros afazeres e distrações, o militante
entra num combate virtual através dos debates. Não basta lutar em sua página, é preciso
ir, também, às páginas religiosas e combater no terreno do “inimigo”.
Esses dados revelam o empenho e a formação desses militantes ateus.Também
um bom número diz ter sido influenciado pela leitura ateísta do movimento neoateu.
Neste caso, podemos dizer que os best-sellers são um fator importante para a entrada na
militância virtual. Boa parte da moderação das páginas diz ter lido obras de Richard
Dawkins, Daniel Dennett, Christopher Hitchens e Sam Harris, mas o mesmo não se
pode dizer dos curtidores das páginas.
Dawkins, mais que os outros, procura no riso a ridicularização dos temas
religiosos.23 Chega a declarar, num evento, que se deve ridicularizar a fé católica na
transubstanciação. Ao abordarmos esse ponto, uma periodização rápida do riso faz-se
necessária.

23
Na cidade de Washington DC, no dia 27 de março de 2012, no Comício da Razão (Reason Rally)
Dawkins declara que se deve ridicularizar católicos e outras religiões. Disponível em:
<http://sentircomaigreja.blogspot.com.br/2012/03/dawkins-pede-para-que-os-ateus-zombem.html>.
Acesso 26/05/2015.
109

3.5. Humor como estratégia

O humor nas páginas neoateístas é importante, pois é usado como estratégia de


crescimento e de críticas religiosas. A pesquisa da GAUGE, apesar de ser voltada para
as características do mercado de Internet, revela aspectos importantes sobre a tendência
da crítica religiosa no meio virtual. O humor acaba atraindo um público mais jovem
para as páginas, e, quanto mais debochado, mais escatológico, mais identificação por
parte do público jovem é obtida por essas páginas.
Primeiramente, é preciso descrever um pouco sobre a história do riso.
Introduzindo uma perspectiva de longa duração sobre o riso e o humor, há mudanças e
permanências ao longo da história dos últimos 500 anos do ocidente. Entender o
desenvolvimento do riso permite conhecer o momento atual (BRAUDEL, 1992, p. 43).
O riso como crítica à religião não é novidade e nem é produto exclusivo de grupos
antirreligiosos. O humor crítico nasce no seio das sociedades cristãs europeias, nas
festas populares da Idade Média.
O historiador inglês Peter Burke, ao estudar o riso, escreveu sobre Mikhail
Bakhtin, um estudioso russo que é referência no estudo da cultura popular na idade
Média e Renascença, brincadeira e riso nos estudos. Burke relata que, na ‘década de
1960, Bakhtin24 fez do assunto o tema central de seu estudo sobre Rabelais, enfatizando
o que descreve como função libertadora do “riso popular” (BURKE, 2000, p. 93).’
Entretanto, para Bakhtin, de forma geral, a Idade Média foi uma época de tristeza, e já
para ele, a Renascença foi o contrário, onde o riso predominou. Os historiadores, como
Peter Burke e George Minois, atualmente, contestam isso, demonstrando com outras
fontes que o riso zombeteiro já existia na Idade Média e era muito usado. O presente
trabalho não se propõe a analisar de forma exaustiva a história do riso ou do humor,
porém, julgamos necessário apresentar um panorama diacrônico dessa história como
crítica ao sagrado, que, segundo Minois, acontece desde a Idade Média. A zombaria à
ineficiência de Deus não é nova. Diante das catástrofes que marcaram o fim da idade
Média, o riso torna-se um acusador (MINOIS, 2003, p. 253).

24
BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Cultura popular na Idade Média e no renascimento: o contexto de
François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 2010.
110

Na Renascença, a gargalhada, segundo o historiador francês Minois, fica ainda


mais forte. Com as lutas originadas da Reforma Protestante, no século XVI, o riso se
tornou uma arma nas mãos de reformadores e contra-reformadores.

Quando o riso diz respeito ao sagrado, a conflagração é terrível,


porque o sagrado é o sério por excelência. É intocável. Fazê-lo objeto
de escárnios é sacrilégio e blasfêmia, é atacar o próprio fundamento de
sua existência. Esse é o aviso de Calvino, incentivando “esse
zombadores” que “se enganam”, tanto reformados, quanto católicos,
eles riem, divertindo-se com as tolices e brincadeiras dos papistas [...].
Eis o que torna Erasmo insuportável aos olhos dos fanáticos de todos
os lados: ele introduz a brincadeira na religião (Ibid, p. 295).

Neste trecho, a crítica à religião nasce dentro da própria, o espírito de reformá-la


por dentro é forte, e o humor é uma arma eficaz. O Concílio de Trento condena aqueles
que usam das escrituras para bufonarias. As autoridades eclesiásticas na Idade Média
eram mais tolerantes, mas, após a Reforma o cerco se aperta. Contudo, não evita as
mudanças sociais. A obra de Henri Estienne, Apologia a Heródoto, digna de nota,
ridiculariza a Bíblia, zombando de seus episódios.
Mas engana-se quem acredita que a zombaria não era usada pelos religiosos,
sejam católicos ou reformados, pois ambos usavam como forma de apologética. Como
também era usada, por religiosos, para criticar o fanatismo. O riso era e é uma faca de
dois gumes, serve tanto para uma critica benéfica quanto para a critica maledicente
destrutiva. Entretanto, a partir da Renascença, a crítica começa um processo de
“divórcio entre o riso e a fé (Ibid., p. 297).”
As lutas religiosas dão origem à caricatura, as pinturas realísticas do século XV,
com seus retratos por encomenda, abrem o campo para o surgimento dos estereótipos.
Servem para dessacralizar o inimigo, assim a caricatura nasce do ódio, da crítica
religiosa, na tentativa de humilhar pelo riso (Ibid., p. 299). A caricatura é antítese do
belo, não que na Idade Média não existissem figuras grotescas, maneira de zombar do
mal e assim exorcizá-lo. Porém, é a partir da Reforma que a caricatura torna-se uma
arma para crítica religiosa, que, breve, sai das mãos dos eclesiásticos e cai no gosto de
intelectuais e do povo. O século XVI, um momento de conflitos, propicia isso.
Agora uma necessária explicação sobre o nascimento do humor. Minois faz
algumas considerações sobre os tipos nacionais de riso, e parte para a explicação do que
seria o humor. No livro Canterbury tales, século XV, o narrador disfarça sua malícia,
dissimulando uma melancolia embaraçada (Ibid., p. 303). O humor nasce na Inglaterra,
111

a partir do século XVI, na era dos Tudor. Segundo Minois, “o olhar humorístico é capaz
de nos fazer sorrir de qualquer coisa – mesmo que seja da asneira e do fanatismo.”
Pode-se observar que a crítica anglicana buscava nos textos católicos fontes de censuras
em seus tratados de demonologia, para criticar a Igreja de Roma, pois viam como os
atos das feiticeiras como culto invertido a dos cristãos. Os anglicanos precisavam
caricaturalizar a antiga religião como fontes de misticismo obscuro e de preconceitos
ridículos. São fontes para o riso e humor dos ingleses reformados que procuram
caricaturar a antiga religião.
Enquanto à ironia, o sarcasmo, a paródia e a sátira? A linguista Maria Joana
Guimarães relata que a ironia é antiga no Ocidente, surge na Grécia helenística que
“designava um tipo de comportamento fingido imoral e que todos eram unânimes em
ver encarnado em Sócrates (GUIMARÃES, 2001, p. 411).” Era a ironia socrática que
julgava ensinar as pessoas a pensar pela dúvida e percepção de sua ignorância. O humor
e a ironia são difíceis de serem separados, pois não têm fronteiras muito delimitadas. A
ironia pode ser verbal ou não verbal.
Para outro linguista, o professor doutor Fernando Moreno da Silva, a ironia é:

Outro recurso para o riso [...], muito utilizada para exprimir o


contrario do que se pensa. Ela assenta num jogo dialético: afirma para
negar e nega para afirmar. As palavras expressam o contrário da ideia
que se pretende exprimir, mas se insere na mensagem um sinal que, de
certa forma, previne o destinatário das intenções do enunciador,
ficando subentendido que tal recurso foi usado propositadamente
(SILVA, 2010, p. 224).

A ironia já vem com um sobreaviso de que o humor virá, funcionando, em


outras palavras, como uma prévia do humor. As obras de Rabelais Gargântua e
Pantagruel são referências desse mundo em transformação e de transformação do riso.
O mundo que surge no século XVI tem nova cosmovisão, rabelasiana, com gosto pelo
grotesco.Voltados a funções biológicas, fezes, sexos odores, peido e sujeira são fontes
de riso. Este mundo é o das festas carnavalescas de Bakhtin. Também se percebe um
distanciamento entre as culturas erudita e popular (Ibid., p. 217).
Já o sarcasmo é uma crítica mordaz, que pretende magoar e ferir (Ibid., p. 213).
Quanto à sátira,

ela exige pleno conhecimento do satirista sobre o conteúdo que será


alvo de seus ataques, e uma correspondência de quem os lê. A sátira
112

explora mais a ideologia, a ética, figurando como uma arma crítica e


agressiva, que está ligada à desmistificação dos costumes, da política e
da ordem vigente (Ibid., p. 225).

A sátira acaba também sendo um dos instrumentos de crítica atual, e, sendo mais
agressiva acaba por incomodar mais o criticado.

Muito próxima da sátira está a parodia, uma imitação burlesca que


explora, sobretudo, a estética e a linguagem. É possível parodiar tudo:
movimentos e ações de uma pessoa, a fala, os hábitos de uma
profissão e tudo o que é criado pelo homem no campo do mundo
material (Ibid., p. 225).

O uso da paródia acaba sendo mais frequente em eventos fora do meio virtual,
uma encenação para criticar ritos religiosos, como o desbatismo feito pela ATEA em
São Paulo, criticando a Jornada Mundial da Juventude, organizada pela Igreja
Católica(JMJ). Já o cartunista Carlos Ruas fez uma paródia dos cultos religiosos com
sua primeira missa do batatismo (culto irônico à batata)25.
Todos podem ser percebidos na crítica antirreligiosa no mundo virtual, uma vez
que o humor, o riso incontido, fazem parte desse mundo virtual. Em nossa sociedade da
informação, o riso ganhou outra conotação, este precisa ser contínuo, pois buscamos o
prazer e a diversão sempre. A inovação tornou-se banalizada, somos quase indiferentes
a ela, não nos encantamos mais, ou, se nos encantamos, perdemos rapidamente o
interesse. É fácil perceber que as páginas que usam do humor crescem de forma
exponencial, mas, logo, perdem boa parte do movimento inicial. Os usuários se cansam
da novidade e procuram novas páginas. Tudo envolto num “humor positivo e
desenvolto, um cômico teen-ager à base de despropósito e sem pretensões (Ibid., p.
219)”.
A pesquisadora e blogueira Desideria Cempaka Wijaya Murti escreveu a
dissertação com o título de O movimento da neoateu na blogosfera: burlesco e
carnavalesco, as estratégias de retórica em produções visuais26, na qual, pode-se
perceber que a pesquisa da autora acaba encontrando elementos sobre a construção de
imagens do movimento neoateu, nos Estados Unidos. Em seu abstract, temos as
seguintes especificações:

25
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=HaotJAFnoBw>. Acesso em 15/04/2014.
26
The new atheist movement in the blogosphere: Burlesque and carnivalesque as rhetorical strategies in
visual productions (MURTI, 2013)
113

Na esfera pública, o movimento neoateista usa imagens burlescas para


criticar a religião majoritária nos EUA e criticar a dinâmica do poder
entre religião e humanidade. Os ateus também criticam a relevância
contemporânea de atitudes religiosas e oferecem uma perspectiva
alternativa com foco na capacitação humana, ciência e tecnologia.
Enquanto isso, as imagens carnavalescas funcionam para descobrir o
discurso social problemático do ponto de vista ateísta e das
perspectivas alternativas oferecidas pelo ateísmo. A abordagem
carnavalesca ajuda a suavizar a promoção da premissa principal dos
ateus, a desafiar a premissa dominante, e dessacralizar a hierarquia
através do riso [...] (MURTI, 2013, p. ii)27.

Para Murti, as imagens são carnavalescas, buscam o riso e ajudam a suavizar a


mensagem neoateísta. Visam, ainda, desafiar a religião dominante na sociedade dos
Estados Unidos, e dessacralizar seus líderes. Então, percebe-se que a alternativa inserida
pelo movimento é baseada na capacitação humana, mas também no discurso de ciência
e tecnologia como se integrados à identidade ateísta. Tanto nos Estados Unidos quanto
no Brasil, as imagens são representações dessa identidade construída na fé científica.
Murti diz que a imagem suaviza para deixar atrativa a mensagem neoateísta para a
sociedade americana. A autora, todavia, está preocupada com o uso dessas imagens nos
blogs. Contudo, a pesquisa de nossa dissertação sugere que as imagens humorísticas
estudadas, além de serem referentes ao Facebook, são uma forma de atração direta (por
que não dizer proselitista?) sobre os usuários das redes sociais. O humor, além da
atração, faz parte da identidade das comunidades que surgem no Facebook. Lembrando,
é claro, que o uso do humor não é monopólio das comunidades ateístas, mas está
disseminado por toda a rede. E os que mais se identificam com o humor debochado são
os jovens de faixa etária entre 18 a 25 anos.
Todavia, isso não que dizer que a exclusividade da crítica humorada seja dos
ateus e grupos seculares. Como já foi visto, o humor crítico à religião nasce no seio das
próprias comunidades religiosas. Isso explica de forma atual porque muitos religiosos
acabam partilhando imagens ateístas em suas páginas pessoais. O humor, não importa

27
In the public sphere, New Atheist movement use burlesque images to criticize the majority religion in
the U.S. by critiquing the power dynamic between religion and humanity. The atheists also criticize the
contemporary relevance of religious attitudes and offer an alternative perspective focusing on human
empowerment, science, and technology. Meanwhile, the carnivalesque images function to uncover the
problematic social discourse from the atheistic point of view and the alternative perspectives offered by
atheism. The carnivalesque approach helps to smooth the promotion of the atheists’ main premise,
challenge the dominant premise, and desanctify hierarchy through laughter.
114

de onde, passa a ser um antídoto contra o fanatismo, ou mesmo uma autocrítica


assumida.
Neste caso, observa-se que, no meio virtual, as gerações envolvidas dão os perfis
que constroem essas identidades. A sociabilidade construída será o tema abordado a
seguir.

3.6.Trolls e fakes como forma de interação social e crítica religiosa

Percebeu-se, com a pesquisa, que os fakes são frequentes nas páginas ateístas,
inclusive alguns justificam sua conduta como fake por causa da reação familiar diante
de sua conversão ao ateísmo, se é que podemos usar livremente o termo conversão, que
é de cunho propriamente religioso. Segundo Siméia Rêgo de Oliveira, os fakes devem
ser entendidos como uma forma de identidade contemporânea e amplificada. Não
constituem apenas um fenômeno das páginas ateístas, mas relacionamentos nascem
delas(OLIVEIRA, 2013, p. 5). No entanto, a pesquisadora estuda os fakes sobre autores
de novelas, muito diferentes dos de páginas ateístas que são nossa preocupação. Como o
espaço virtual é desterritorializado, o autor de um perfil falso se sente muito mais à
vontade para expressar sua opinião, muitas vezes de forma irônica ou agressiva. Este
artifício permite esconder o ativismo do usuário, ou minimizar os efeitos de seu
engajamento sobre os mais próximos.
Os fakes representam uma parcela pequena, mas atuante, dos frequentadores das
páginas. O uso da Internet amplia o sentido de lugar e cria formas novas de
sociabilidade, perfis falsos se tornam famosos. Alguns são usados para fazer caricaturas
de religiosos ou religiões como o de Ciro Junior (o perfil já não existe mais), que era
fake de um ateu que se apresentava como uma caricatura de evangélico. O banner
famoso sobre ele é um Print Screen no qual ele declara que a namorada estava grávida
por obra do Espírito Santo. No entanto, as principais finalidades dos fakes são para
serem usados em debates ou expressar livremente sua descrença. A pessoa que usa um
perfil falso se sente mais à vontade, sem a preocupação de se expor ou incomodar
familiares que possam ser ofendidos pelas postagens ateístas.
Os trolls são outros aspectos dos debates no Facebook, nem todo fake é troll.
Em determinados momentos, uma pessoa pode ter atitudes trolls: “A falta de identidade
na comunicação mediada pelo computador [...] por meio de seus vários gêneros levou à
115

codificação da comunicação behaviorista que não está inscrita na comunicação face a


face (MORRISSEY, 2010, p. 75)28.” Os trolls, por não serem uma comunicação,
permitem que o usuário modifique seu comportamento, tendo mais liberdade do que
teria num debate ao vivo. O comportamento nem sempre é respeitoso e a tendência
principal do troll é ridicularizar as postagens. “Trolls são, muitas vezes, vistos como os
responsáveis pelas travessuras destrutivas e o termo traz consigo uma conotação
negativa [...] (Ibid., p. 75)”29.

A trollagem online é a prática de se comportar enganosamente, de


maneira destrutiva ou perturbadora em um ambiente social na Internet
sem nenhum propósito aparente instrumental. De uma perspectiva de
leigo, trolls da Internet compartilham muitas características do
clássico vilão coringa: uma variante moderna do arquétipo malandro
do antigo folclore (anglo-saxão, grifo meu)[...]. Muito parecido com o
coringa, trolls operaram como agentes de caos na Internet, explorando
'questões polêmicas' para fazer os usuários parecem excessivamente
emocionais ou tolos de alguma maneira. Se uma pessoa infeliz cai em
sua armadilha, a trollagem intensifica mais, para impiedosa diversão.
É por isso que os utilizadores da Internet novatos são rotineiramente
advertidos, “Não alimente os trolls!” (BUCKELS; TRAPNELL;
PAULHUS, 2014, p.1)30

Como vimos, o troll torna-se um incendiário de emoções dentro da Internet. O


usuário que cai em sua cilada é um desavisado que será exaurido nos argumentos e na
paciência. A melhor opção é não alimentar o debate e ignorá-lo. Contudo, é preciso
fazer uma ressalva, nem todo aquele que insiste num debate é troll. As acusações de
trollagem são frequentes, mesmo que esta não seja a intenção do usuário mais intenso. E
os trolls são críticas à religiosidade na Internet, e a postura agressiva demonstra isso.

28
A lack of identity in computer‐mediated communication […] throughout its various genres has led to
the codification of communication behaviours that are not subscribed in face‐to‐face communication.
29
Trolls are often seen as destructive mischief‐makers and the term carries with it negative connotations
[…].
30
Online trolling is the practice of behaving in a deceptive, destructive, or disruptive manner in a social
setting on the Internet with no apparent instrumental purpose. From a lay-perspective, Internet trolls share
many characteristics of the classic Joker villain: a modern variant of the Trickster archetype from ancient
folklore […]. Much like the Joker, trolls operate as agents of chaos on the Internet, exploiting ‘‘hot-button
issues’’ to make users appear overly emotional or foolish in some manner. If an unfortunate person falls
into their trap, trolling intensifies for further, merciless amusement. This is why novice Internet users are
routinely admonished, ‘‘Do not feed the trolls!’.
116

Figura 22 – Humor sem fim

Por fim, terminado essa parte com a definição da expressão “zuera”, que
exemplifica um pouco das subjetividades contemporâneas que emergem dos meios
digitais de informações fontes do self making (ALMEIDA, 2006, p. 144). Zuar ou zoar
são termos informais, o ‘ato de “zoar”, em sua apreensão semiológica, expressa a
capacidade de fazer ruído, emitir som forte e confuso ou equivalente a zumbir’, o termo
que, antes, era usado para a saída da noite de jovens ávidos pelo consumo, tornou-se,
nas redes sociais, combativo e de humor. Ser “zuero” é vencer seu adversário no debate
usando as ferramentas do riso, a atitude troll é parecida com a zuera.
Entretanto, há que se diferenciar o troll e o zuero. O primeiro tenta desestabilizar
o usuário contra o qual discute, enquanto que o “zuero” usa do humor para vencer
debates, mas, mesmo quando não há humor envolvido numa resposta a um dos debates,
o debatedor pode ser considerado um “zuero” quando vencer de forma inegável uma
discussão.

3.7.Ateísmo brasileiro, um processo de secularização

Muitas vezes, no ambiente virtual, há provocações com afirmações de que o


futuro do mundo será ateísta e de que as religiões do mundo estão em declínio. Mesmo
veículos da mídia gostam de fazer previsões sobre o futuro da religiosidade. Jornalistas
se transformam em oráculos, com reportagens que são verdadeiras vidências
consultadas pelos críticos da religiosidade a fim de saber o futuro. Enquanto isso, a
sociedade se transforma, e as instituições religiosas perdem espaço para uma
religiosidade mais subjetiva. A Religião se torna mais privativa, convivendo com outros
grupos sociais, perde seu monopólio de significação e dá espaço até para grupos
117

seculares. Como exemplo, citamos o caso do Primeiro Encontro Universitário Ateu,


ocorrido na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, no dia 7 de abril de 2015.
Emblematicamente, o tema do encontro é Evolução. Tal encontro é interessante, pois
foi alegadamente promovido por uma universidade federal, diante dos conflitos que
impediram eventos religiosos por terem sido considerados ataques à laicidade, houve
um encontro para discutir evolução e criacionismo numa universidade. Embora não
fosse um encontro articulado por grupo religioso, era, por outro lado, um grupo
antirreligioso. Levanta-se a questão da parcialidade, e de como o ateísmo no senso
comum é vinculado à ciência, ou seja, para muitos, o ateísmo militante é neutro e
científico.

Figura 23– Cartaz do 1º Enc. Nac. entre Ateus e Agnósticos Universitários31

Como demonstra a figura 23, esse encontro universitário ateu teve como tema
Evolucionismo versus Criacionismo. Nas pesquisas feitas na rede social Facebook, foi
possível perceber o crescimento da influência do Criacionismo e do Design Inteligente
no Brasil. E não apenas nas redes sociais, mas também na política e no meio acadêmico.

31
Disponível em: <https://aasaoficial.wordpress.com/>. Acesso em 08/04/2015.
118

O encontro teve apoio da Universidade Rural, da ARCA, foi levada a cabo,


principalmente, pelo grupo de Ateus e Agnósticos da Universidade Rural – Sociedade
Ateísta (AAUSA). Esse núcleo de ateus universitários se define como Grupo
Organizado de Extensão Universitária da UFRRJ, ou seja, é, aparentemente, apoiado
pela própria universidade.

Figura 24-Programação do encontro32

No período desta pesquisa, de 2011 a 2015, vários grupos se organizaram para


fazer eventos e a virtualidade foi um instrumento arregimentador de pessoas para a
causa e para os eventos. A ATEA e a LiHS no primeiro encontro nacional ateu, a
ARCA com seus hangouts, a AAUSA com o primeiro encontro nacional universitário
de ateus e agnósticos. A virtualidade da comunicação via meios de comunicação
facilitaram a organização e divulgação de ideias para um grupo tão disperso como os
ateus. Esses encontros reafirmam a identidade. Uma identidade construída através do
conflito,muitas vezes pautadas mais no eu-não-sou do que no eu-sou.
Numa pesquisa publicada nos Estados Unidos, Jesse Smith classifica quatro
estágios para o desenvolvimento da identidade do ateu nos Estados Unidos: “o ponto de

32
Disponível em: <https://www.facebook.com/aausa.ufrrj/photos/pb.888876567801470.-
2207520000.1428521942./891854507503676/?type=1&theater>. Acesso em 08/042015.
119

partida que é a onipresença do teísmo, questionando ao teísmo, rejeitando ao teísmo, e o


"sair" ateu (SMITH, 2010, p.1)33.” O autor procura identificar o processo de ruptura
teísta para uma identidade ateísta. Porém, nota-se que, na pesquisa, boa parte dos
entrevistados nunca teve uma educação religiosa (Ibid., p. 6).

Eu considero que muito da identidade ateísta é construída em termos


do que é não. Isto foi aparente em todas as narrativas dos
participantes. Assim, a noção de o "não-eu" é instrutivo. O não-eu
"refere-se a gestos significativos (vocal e de outra maneira), pelo
ego... designam certos pensamentos, sentimentos, atos, relações,
papéis e/ou outros objetos sociais como fundamentalmente
inconsistente com auto realização do ego...” [...]. Uma parte essencial
da auto definição processo inclui não apenas definir as coisas que são,
mas também aquelas coisas que não são(Ibid., p. 14).34

O ser ateu se realiza numa tomada de consciência, um autoconceito que rejeita a


normatividade de uma sociedade majoritariamente religiosa. O “sair” ateu, quarto
estágio de Smith, é uma atitude desviante. O ateísmo acaba sendo uma atitude prática
contra a religião tradicional e hegemônica (Ibid., p.15). Suas autoconcepções estão
baseadas em sua saída do teísmo, vista como algo positivo em suas biografias. A
identidade pessoal é construída em cima de "um senso de diferença e separação" da
sociedade. Smith percebe que a simples não-crença não é o bastante para defini-los, mas
que essas identidades baseiam-se no desafio às normas da cultura americana (Ibid.,
p.17).
O sociólogo Stephen LeDrew dá um novo aspecto ao quarto passo de Smith, o
da descoberta de ser ateu e sair da “matriz” religiosa. Suas entrevistas com ateus
demonstraram a questão da descoberta como algo importante na construção da
identidade e da desconversão. O processo indica que há uma coletividade ateísta.
Segundo LeDrew, muitos dos entrevistados não indicam que se converteram ao ateísmo,
mas que o descobriram (LEDREW, 2013, p. 438). LeDrew tem a preocupação com
aqueles que nasceram em famílias religiosas e com o processo que sofreram de
questionamento de suas crenças. Para este pesquisador, o ateísmo não é uma condição

33
of atheist identity development are presented: the starting point/the ubiquity of theism, questioning
theism, rejecting theism, and “coming out” atheist.
34
I found much of an atheist identity is constructed in terms of what it is not. This was apparent
throughout participants’ accounts. Thus, the notion ofthe “not-self” is instructive. The not-self “refers to
meaningful gestures (vocal and otherwise) whereby ego . . . designates certain thoughts, feelings, acts,
relationships, roles and/or other social objects as fundamentally inconsistent with ego’s real self . . .”[…]
An essential part of the self-definition process includes not just defining those things we are, but also
those things we are not.
120

permanente. O indivíduo pode sair da quarta fase para ser um buscador religioso (o
“sair” ateu e quando o indivíduo deixa suas antigas atitudes de teísta e assume de vez
sua postura ateísta.). De maneira fluída, o indivíduo pode passar do teísmo para o
ateísmo, de forma dinâmica entre a crença, descrença e dúvida (Ibid., p. 443).
A preocupação da pesquisa de LeDrew, então, se volta para os ateus ativos, os
militantes. Para o autor, a identidade coletiva é essencial para ação e formação de ateus
militantes. É possível fazer um paralelo com as comunidades do Facebook, e perceber
que elas acabam contribuindo para a construção da identidade coletiva dos
usuários/curtidores e usuários/moderadores, e isso acaba fomentando a militância. No
texto de Smith, há preocupação com a construção pessoal, individualizada do ateu, já
LeDrew tem uma preocupação com esse processo no âmbito coletivo. Ambos são
importantes para compreendemos estas trajetórias. O autor percebe também a influência
de Dawkins e companhia na formação dos militantes ateus americanos (Ibid., p. 445).
Em outro texto, LeDrew faz uma classificação do ateísmo e separa em duas
grandes categorias históricas: ateísmo científico e ateísmo humanista. O ateísmo
científico é um produto do iluminismo e da era vitoriana, nele a religião é considerada
uma falsa explicação da natureza e por isso deve ser rejeitada. Já o ateísmo humanista
tem suas bases na ciência sociais, a religião é vista como resposta a alienação e ao
sofrimento. Essas duas classificações não se excluem. O neoateísmo estaria vinculado à
tradição do ateísmo científico, LeDrew, citando o exemplo de um famoso blogueiro
neoateu americano,PZ Myers, um biólogo, fez um discurso apaixonado pela ciência
numa convenção internacional ateísta, na convenção da Atheist Alliance International,
em 2010.Sobre a fala do blogueiro, LeDrew escreve:‘isso reflete o discurso do
Neoateísmo, onde as crenças "positivas" em relaçãoà ciência e ao progresso são
inseparáveis das crenças "negativas" sobre o teísmo35.’ Esse sentido negativo foi
observado na permanência da tese de conflito, na construção das imagens e a ideologia
por trás delas, e no sentido de alteridade percebido entre ateísmo e teísmo nas
páginas.Por fim, a visão quase paradisíaca de futuro, para o militante neoateu, está em
sua crença a inevitável da vitória da ciência sobre todas as outras formas do saber
humano, pois o que ela não pode resolver hoje, ela resolverá no futuro que será
governado pelo pensamento científico. Entretanto, nada de filósofos, porque, por

35
Indeed, this reflects the discourse of New Atheism, where the ‘positive’ beliefs regarding science and
progress are inseparable from the ‘negative’ beliefs regarding theism. Disponível em:
<http://blog.nsrn.net/2014/03/21/atheists-are-believers/>. Acesso em 25/05/2015.
121

diversas vezes, a filosofia foi declarada inútil, tanto por militantes comuns quanto por
nomes proeminentes do movimento36, o problema, para eles, é que a filosofia é vista
como inimiga das certezas científicas.
Em relação ao neoateísmo e à militância virtual, podemos dizer que as obras dos
pensadores ateus influenciaram o crescimento da militância. Contudo, é o entusiasmo
neoateu que faz o crescimento e divulgação nos tempos atuais, além das transformações
do campo religioso brasileiro. Flavio Gordon define o neoateísmo como um gênero de
Religião. “Trata-se, no caso, de uma religião política, um milenarismo científico”
(GORDON, 2011, p. 10). Não concordamos plenamente com Gordon, pois vemos que
o ateísmo não se sustenta sem o teísmo para criticar. Pode ser sugerido que o
neoateísmo seja mais uma oposição, por vezes competitiva em relação à religião.
Poderia ser a ATEA um grupo dentro do neoateísmo com característica
secular/religiosa? Parece ser o caso. O neoateísmo é mais uma alternativa secular para a
Religião. A atitude proselitista dos membros da ATEA é concorrencial e substitutiva, já
que tenta substituir aspectos da religião na vida de seus participantes mais engajados.
Exemplo dessa postura são possibilidades de incluir ritos de passagens seculares na vida
dos filiados:

Ritos de passagem são aqueles que marcam momentos importantes na


vida das pessoas. Os mais comuns são os ligados a nascimentos,
mortes, casamentos e formaturas. Em nossa sociedade, os ritos ligados
a nascimentos, mortes e casamentos são praticamente monopolizados
pelas religiões. Já as formaturas não costumam ser, em si, religiosas,
mas frequentemente têm importantes momentos religiosos. Como
podem se posicionar ateus, agnósticos e todos os demais não-
religiosos quanto a isso? Esta seção é para ajudá-lo a responder essa
pergunta. [...] A ATEA espera poder ajudar essas pessoas fornecendo
ideias, apontando recursos e indicando pessoas que possam conduzir
esses ritos [...] Não resta dúvida de que os demais formandos têm todo
direito de promover as cerimônias religiosas que bem entenderem,
mas surgem problemas caso elas se misturem aos momentos não
religiosos ou sejam financiadas pelo dinheiro que é de todos.37

Nessas instruções na página oficial da ATEA (não aquela que se encontra no


Facebook), é perceptível que a instituição busca substituir ritos religiosos por ritos

36
Has Physics Made Philosophy and Religion Obsolete? Disponível em:
<http://m.theatlantic.com/technology/print/2012/04/has-physics-made-philosophy-and-religion-
obsolete/256203/>. Acesso em 15/08/2014.Stephen Hawking tells Google ‘philosophy is dead’.
Disponível em: <http://www.telegraph.co.uk/technology/google/8520033/Stephen-Hawking-tells-
Google-philosophy-is-dead.html>. Acesso em 16/08/2014.Neil deGrasse Tyson and the Value of
Philosophy.Disponível em: <http://www.huffingtonpost.com/massimo-pigliucci/neil-degrasse-tyson-and-
the-value-of-philosophy_b_5330216.html>. Acesso em 20/08/2014.
37
Disponível em: <https://www.atea.org.br/ritos-de-passagem>. Acesso em 15/042015.
122

seculares, dando especial atenção aos de formatura, que, para eles, são menos
monopolizados pela religião. O importante, para a instituição, é fornecer opções aos
seus filiados. Todavia, a última parte parece estar fora de contexto. Geralmente,
formaturas são cerimônias pagas por iniciativas individuais, não financiamentos
públicos,o que torna incoerente vinculá-las a questão da laicidade. Na página sobre os
ritos de passagem, há um link para a British Humanist Association38, onde existem
modelos de cerimônias não-religiosas para funerais, casamentos e uma espécie de
batizado de bebês secular.
Podemos perceber, também, uma leitura literal (fundamentalista, por que não
dizer?) da Bíblia nas comunidades ateístas. Segundo Alfredo Dinis:

A interpretação literal da Bíblia serve perfeitamente a autores como


Christopher Hitchens, Sam Harris, Victor Stenger e Richard Dawkins,
bem como aos demais ateus radicais, tanto para mostrar a imagem de
um Deus insensível e cruel, quanto para lançar o descrédito sobre a
verdade de passagens relativas a personagens, acontecimentos e
afirmações sobre o universo e vida contidas no texto bíblico (DINIS,
2014, p. 207).

Como observa bem Dinis, a interpretação da Bíblia, por parte desse grupo, é
literal, assim como a de muitos cristãos fundamentalistas. Um dos moderadores da
ATEA no Facebook, Edson Kunde (o apelido é Sky Kunde), se tornou especialista em
citações da Bíblia, a ponto de criar uma segunda comunidade – a primeira, que contava
com mais de 30 mil participantes, foi apagada pelo Facebook, devido a denúncias –
conhecida como "Contradições da Bíblia.”39 Tal comunidade contava, no dia 27 de
maio de 2014, com 8.467 participantes.
Ora, uma página ateísta do Facebook como a ATEA, que tem a preocupação
secundária de formar um grupo complementar de discussão sobre a Bíblia, demonstra a
preocupação exclusiva de combater os textos sagrados do cristianismo. Além de
promover o Estado laico, há uma preocupação em atacar a religião no seu cerne,
destruindo-a por dentro. Ao atacar a Bíblia, seus participantes procuram provar como
ela é anticientífica, para eles, como sua linguagem é arcaica e dúbia, por ser palavra de
Deus, não deveria dar espaço a múltiplas interpretações.

38
Disponível em: <https://humanism.org.uk/ceremonies/>. Acesso em 15/042015.
39
Disponível em: <https://www.Facebook.com/groups/529335397125756/?ref=ts&fref=ts>. Acesso em
10/02/2014.
123

Diante das percepções e análises feitas neste trabalho acadêmico sobre as


características do neoateísmo brasileiro no mundo da militância virtual, podemos fazer
um síntese deste capítulo. O ateísmo se define como negação da crença em Deus
(principalmente o judaico-cristão) ou deuses até chegar ao período do neoateísmo. A
ATEA, e outras instituições, dão incremento ao ciberativismo no Facebook, focadas na
influência das redes sociais no Brasil para o desenvolvimento e divulgação do ateísmo,
ou neoateísmo. Todavia, essa divulgação não se faz sem a crença na tese de conflito
entre a ciência e a religião e incremento de humor, coisa que foi sugerida e discutida.
Além disso, verifica-se também a visão positiva que o neoateu tem de si, sua crença no
conflito entre Ciência e Religião, no ateísmo como oposição às religiões e sua fé no
poder irresistível da Ciência.
124

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As teses de conflito entre ciência e Religião são facilmente observáveis nas


páginas ateístas do Facebook, assim como a influência do movimento neoateu na
construção identitária dos grupos virtuais e de suas militâncias. Duas das mais
importantes contribuições de nosso trabalho são a percepção do humor como estratégia
de marketing pelo movimento e, na ATEA, a presença de testemunhos semelhantes aos
de páginas religiosas.
Considerando que o ateísmo como negação da ideia de Deus é recente na
humanidade, surgindo concretamente no Iluminismo, muitas ideias neoateias trazem o
ateísmo como ausência de crença em Deus ou deuses. O maior propagador desta
concepção de ateísmo é Richard Dawkins. O que o principal cavaleiro do ateísmo
escreve e diz acaba repercutindo muito nas mídias, sejam seus acertos, sejam seus
tropeços. Dawkins está numa cruzada pessoal contra a religiosidade, participando de
debates, indo a encontros ateus, lançando livros, etc. Estará no Brasil em maio de 2015,
no evento Fronteiras do Pensamento. O professor aposentado de Oxford, já antes do
sucesso editorial neoateísta, atacava a figura da religião. As novas mídias aumentaram
seu alcance.
Apesar de o ateísmo não ser novo no Brasil, não houve motivos para criarem
associações, especificamente de cunho ateísta, como nos outros países. O ateísmo no
Brasil sempre foi muito tímido, existindo à sombra das grandes ideologias do século
XX, tais como marxismo, anarquismo, psicanálise, etc. A partir do fim da década de 90
do século passado, uma geração de brasileiros influenciados pelo surgimento e
ampliação da Internet e ampliação do mundo virtual, através da Web 2.0, acabou
perdendo o medo e partiu para as luzes dos debates. A virtualidade foi o ingrediente que
faltava para impulsionar o ateísmo brasileiro. No final dos anos noventa do século XX,
militantes iam a programas de pouca audiência e sensacionalistas para terem espaço de
debate, em agosto de 2013 chegaram a Rede Globo, principal rede de televisão do país
tendo espaço no programa Na Moral. Tal acontecimento sugere que o ateísmo militante,
exclusivista e associativo deixou de ser uma novidade do mundo virtual para se tornar
uma tendência do processo de secularização da sociedade.
125

Então, neste começo do século XXI, as associações de ateus estão se


multiplicando pelo país, muitas delas discordantes entre si. A maioria levanta bandeiras
comuns, como a defesa da laicidade, do aborto legal, de minorias, do casamento
homoafetivo, da fé na ciência, etc. Entretanto, tamanha é a diversidade entre os ateus
que existem até aqueles conservadores.Há também aqueles que criticam o cientificismo
das próprias comunidades, ou são contra o aborto. A tese de conflito impera na
construção de suas identidades, e é essencial para que possamos conhecer os discursos
da maioria das comunidades, acabando por legitimar muitos mitos históricos
antirreligiosos que vêm a ser reproduzidos nas páginas.
Também foi notada a influência do humor para a construção das páginas.
Possivelmente, o uso do humor é quase intuitivo, sem muito aprofundamento reflexivo
sobre sua produção midiática, o militante sabe que o uso de tal ferramenta é motivo para
criticar e arrigementar seguidores. Os moderadores não fizeram um planejamento ou
estudo sobre qual seria o melhor meio para o crescimento de suas páginas. O humor no
ocidente já era usado como instrumento de crítica aos costumes e, a partir da
Renascença, torna-se crítico à religião, distanciando-se do antigo respeito que tinha a
ela. Essa crítica feita pelo humor se distanciou da fé e essa distância cresceu conforme o
tempo. Entretanto, dentro do seio das comunidades religiosas, o humor foi e é uma
forma de crítica que ainda sobrevive. Por isso, vemos que a crítica ateísta atrai também
religiosos, pois a critica humorada à religião nasce dentro das comunidades religiosas
como forma de combater o fanatismo e a intolerância.
O Facebook possui ferramentas que possibilitam maior interatividade entre os
usuários e aumenta o alcance das mensagens. A ferramenta de compartilhamento é
fundamental para propagação de imagens e ideias, sendo que imagens são muito mais
compartilhadas que textos e vídeos. Sem isso, o Facebook seria uma rede social
qualquer, pois a interatividade dentro dessa rede foi fundamental para sua popularidade,
E a ferramenta do compartilhamento ajudou no crescimento do fenômeno neoateu
dentro do ciberespaço. Há um medo atual das tentativas de monopolização que a
empresa pratica, mas é muito cedo para saber qual será o rumo futuro. Por enquanto,
mais de um bilhão de usuários estão utilizando a rede e, para muitos, inclusive os ateus,
o Facebook é um local de congraçamento e identidade.
Tanto é assim que há espaço para testemunhos na ATEA, o que nas outras
páginas não existe, mas a moderação acaba conhecendo seus frequentadores. E os mais
militantes acabam se conhecendo. Os encontros nacionais de ateus que acontecem no
126

mês de fevereiro, são momentos em que eles deixam a virtualidade e acabam criando
laços para além do Ciberespaço. O mundo virtual, por fim, não é o bastante e o contato
humano torna-se imprescindível. Entretanto, os encontros nacionais não têm a
amplitude que deviam ter e terminam sendo apenas regionais por causa dos diversos
eventos simultâneos, no mês de fevereiro. Esses encontros são feitos em diversas
cidades pelo país, capitais e cidades do interior espalhados por diversos estados da
federação.
Os vlogs e hangouts acabaram tendo papeis importantes na divulgação da
mensagem neoateísta, já que nem todos os entrevistados tiveram acesso aos best-sellers
da referida temática. Então, vlogs e hangouts popularizam a mensagem de forma
mastigada. E acabam sendo um dos meios do YouTube, que é usado com muita força
para a mensagem a propagação de ideias ateístas. Os vlogueiros, quase sempre ligados
às ciências biológicas e às Ciências exatas, são muito respeitados por causa da forma
atrativa com que a mensagem é divulgada.
Quanto aos moderadores das páginas ateístas, os estudos de gerações apontam
para um modelo que, mesmo não podendo ser aplicado para todos, serve como
orientação para percebermos as características gerais dos grupos envolvidos,
principalmente as gerações Z e Y. O humor debochado e rápido revelou-se um atrativo,
mesmo que momentâneo. Esse humor tem suas origens principalmente na Renascença,
época em que surge a caricatura e do distanciamento deste humor crítico da fé. Grupos
ateus estão surgindo pelo país nos últimos 20 anos, e a organização de eventos
sistematicamente mostra um amadurecimento do movimento.
As seguintes hipóteses foram confirmadas durante a pesquisa: a visão de que a
tese de conflito é uma das características principais da identidade neoateísta que se
forma durante a militância. Também o movimento neoateu tem uma visão baseada no
senso-comum sobre laicidade, sendo observável nos discursos que foram coletados.
Outras duas hipóteses supunham, primeiro, que esses discursos defendiam um
secularismo radical, um secularismo que não aceita o religioso na esfera política e nem
na esfera privada, defendendo que a religiosidade deveria ser combatida até sua
eliminação. Segundo, de que sem o humor, essas páginas não teriam tanta popularidade.
O humor foi, e é, uma estratégia de crescimento e de crítica. Entretanto, não pode
ocorrer além de um limite tolerável, onde a blasfêmia radical não é bem aceita em
páginas abertas, embora, nas comunidades fechadas, elas sejam comuns. Os objetivos
foram cumpridos, de discutir o neoateísmo brasileiro na rede social Facebook e como a
127

rede serve de espaço ao proselitismo ateu e ao ato de congregar mediado pela


virtualidade; e de entender a temática neoateísta e como esta tem sua identidade
intermediada pela Internet, através das redes sociais, construída em torno da noção de
conflito entre ciência e religião.
128

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ANEXOS
140

QUESTIONARIOS DA PESQUISA COM A MODERAÇÃO

Nome: _____________________________________________________________

1) Trabalha

( ) sim ( ) não Função:

2) Estado civil

Solteiro/a ( ) Casado/a ( ) Divorciado/a ( ) Viúvo/a ( )

3) Sexo:

( ) Feminino ( ) Masculino

4) Faixa etária

( ) até 8 anos ( ) entre 9 e 14 anos ( ) entre 15 e 21 anos ( ) entre 22 e 30


anos ( ) até 8 anos ( ) entre 9 e 14 anos ( ) entre 15 e 21 anos ( ) entre 22 e
30 anos
5) Formação

Nível de formação: ( ) Ensino Fundamental ( ) Ensino Médio ( ) Ensino


Superior ( ) Outros___________________________________________

6) Você se considera

( ) branco ( ) pardo ( ) negro ( ) outros____________________

7) Qual era a sua religião antes do ateísmo?

( ) Católica ( ) Evangélica ( ) Umbanda


( ) Candomblé ( ) Budista ( ) Kardecista
( ) Muçulmana ( ) nenhuma ( ) Judaica
( ) Taoista ( ) Espírita ( ) Outros ________

8) Há quanto tempo você tempo você participa da página do Facebook?


( ) menos de seis meses ( ) menos de um ano ( ) mais de um ano
( ) mais de dois anos ( ) mais de três anos ( ) mais de quatro anos

9) Quais foram os motivos para ter largado a antiga fé?


( ) problemas de saúde ( ) nenhum motivo específico ( ) curiosidade
( ) problemas financeiros ( ) problemas amorosos ( ) problemas no trabalho

10) Qual a frequência que acessa a página?


( ) várias vezes ao dia ( ) uma vez ao dia ( ) uma vez por semana
( ) a cada quinze dias ( ) duas vezes por semana
141

11) Quantas horas você gasta com o acesso?


( ) 1 hora ( ) 2 horas ( ) 3 horas ( ) 4 horas ( ) 5 horas ( ) se mais, quanto?
____

12) O que seria laicidade para você?


___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________

13) Quais livros de temática ateísta você leu nos últimos 5 anos?
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________

14) Você crer que a Religião e a Ciência estão em conflito?


___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
142

ENTREVISTA COM ELI VIEIRA

Sinta-se a vontade em responder ou não responder as perguntas

1) Se quiser, faça uma pequena descrição da sua pessoa:

2) Quais os grupos no qual você está filiado ou ajuda?

3) Há quanto tempo existe a LiHS?

4) Qual foi motivo da criação da LiHS?

5) Qual a relação da LiHS no passado com a ATEA? E quais as relações agora?

6) A LiHS pode ser considerada uma organização ateísta ou não?

7) A LiHS tem sede física ou é virtual?

8) Para você qual é a relação entre ciência e religião? Você acredita que há
conflito?

9) Poderia me descrever o que seria laicidade para você?

10) Quantas pessoas participam da LiHS e quais seus cargos (se existirem)?

11) Você gasta muito tempo em militância online?

12) Quais suas motivações em sua militância (offline ou online)?

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