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“ Está redondamente enganado quem pensa que

os cristãos veem a falta de castidade como o vício


supremo. Os pecados da carne são maus, mas são os
menos graves de todos. Os piores prazeres são os de
ordem puramente espiritual, como o prazer de provar
que o outro está errado, de tiranizar os outros, de
tratar os demais com desdém e superioridade, de ser
um estraga-prazeres, de difamar.
São os prazeres do poder e do ódio. Isso porque


existem dois seres dentro de mim que competem com
o ser humano que devo tentar me tornar: o ser animal
e o ser diabólico, sendo este último o pior dos dois.
É por isso que um moralista frio e pretensamente
virtuoso que vai regularmente à igreja pode estar bem
mais perto do inferno que uma prostituta.
Mas é claro que é melhor não ser nenhum dos dois.

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Com essas palavras, querido leitor,
decidi iniciar esse e-book, para mostrar algo
bem claro – muitas vezes reduzimos nossa
visão de pecado grave a não viver a castidade,
principalmente quando somos jovens e, como
dizem, os hormônios estão “à flor da pele”. Pelo
contrário, muitas são as nossas fraquezas, e a
dificuldade na prática da castidade (que vai muito
além do pensamento de não ter relações antes do
casamento, ao que chamamos de continência)
pode ser um sintoma de uma vida espiritual tíbia,
e uma vontade nada fortalecida por falta boas

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práticas, que nos levarão à ruína de maneira ainda
mais proeminente. Neste material eu gostaria de
te apresentar de maneira mais completa e mais
profunda, a beleza da vivência da castidade, na
visão dos Santos cujas vidas são uma lição e um
estímulo para todos nós.

A castidade é, sem dúvida, uma


das virtudes mais difíceis de se
cultivar, por tudo que ela exige, e
por tudo que ela representa.

É uma virtude derivada da temperança, esta


última definida pelo catecismo da Igreja Católica como
“a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e
procura o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura
o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os
desejos dentro dos limites da honestidade”.

Nesse sentido, a castidade se


apresenta como “uma virtude com que
uma pessoa apta para a paixão reserva
o seu desejo erótico para o amor
consciente e decididamente, resistindo
à tentação de se perder na satisfação
voluptuosa dos elementos sexuais”
(Catecismo Jovem, 1a edição em português, dezembro de 2011)

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Vemos claramente nessas palavras que a
castidade não é, portanto, uma virtude castradora
– não há, em nenhum momento, uma definição
dessas virtudes como uma repressão, mas como
prática de domínio de si para situar o desejo
sexual em seu verdadeiro lugar – como uma
expressão do amor autêntico, que potencializa a
experiência sexual e a integra à pessoa, não sendo
mera sensação periférica de um prazer passageiro
e sem sentido.

A castidade não é uma virtude


castradora e nem o cristianismo
é um inimigo do prazer

O cristianismo não é inimigo do prazer, dessas


alegrias sensíveis. Não podemos, portanto, rejeitar
o prazer como uma rejeição de nossa própria
natureza, fugindo dos bens que Deus nos dispõe
– isso é o que São Tomás de Aquino chama de
“pecado da insensibilidade”.

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O que nos falta é, com uma vida ordenada
pelas virtudes, usufruir de maneira consciente da
nossa sexualidade, encontrando nessa condição
sexual (homem e mulher assim dispostos em
sua natureza, se complementando por esse amor
único e indissolúvel, generoso e fiel) uma maneira
extraordinária de cumprir a vocação primeira dos
homens para o amor – a Deus e ao próximo.

Podemos dizer, em suma, que a


castidade é a medida certa do amor,
que integra a sexualidade à pessoa
humana e a exerce de maneira boa e
fiel à sua natureza e dignidade.

Nas palavras de São Josemaria Escrivá, a castidade


deve ser uma “afirmação jubilosa”. Se reduzimos a
castidade à mera continência, ela certamente nos
soará como privação injustificável, ou um sofrimento
sem sentido, uma vez que pensamos “se nos amamos
tanto, como podemos encarar nossos desejos como
algo desordenado, se isso nos fará tão intimamente
unidos?”.
Se entendemos que a castidade é, de maneira
mais ampla, a condição do homem livre para o
amor, e não escravo de seus impulsos e suas paixões,
conseguimos redimensionar nossos interesses

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egoístas e colocá-los no seu devido lugar – todas
as vontades torpes podem se dissipar onde o amor
se instá-la como uma verdadeira força que une o
casal.
Assim os namorados, noivos e casados saberão
passar de maneira prazerosa e temperante por
cada um desses estágios do relacionamento,
encontrando na fase de enamoramento inicial
o desejo de conhecer e proteger seu amado, e no
matrimônio o lugar seguro onde ambos poderão
se doar de maneira total, exclusiva e definitiva.

Sim,
não podemos nos esquecer que a vida de castidade
exigirá renúncias e domínio de si o tempo todo, e
em cada fase do relacionamento as tentações serão
diferentes, bem como as consequências
de uma vida desordenada.

Se na adolescência e juventude a pornografia,


masturbação e toda uma visão sexual materialista
são motivo de enfraquecimento e distanciamento
de uma vida espiritual saudável, prejudicando
estudos, relações familiares e demais relações

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interpessoais, na vida adulta e na vida conjugal
essas práticas podem ser uma porta de entrada para
traições, distanciamentos, desentendimentos e
decepções sucessivas, sepultando a vida dos casais
e transformando o ambiente familiar, que deveria
ser sagrado, em um lar miseravelmente triste.

Não pense, também, que a vida


sexual desordenada provocará
prejuízos somente nesse campo.

Essa falta de domínio de suas paixões levará,


invariavelmente, a uma vida mais egoísta e
destemperada em vários aspectos.

A castidade, quando bem vivida, direciona


nossa vontade para o bem em um sentido muito
mais amplo, reforça nossos valores e nos dá mais
consciência de nossa condição vulnerável – é um
exercício de humildade, pois não é unicamente uma
virtude conquistada, mas concedida por Deus aos
que reconhecem sua necessidade.

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Você mesmo já deve ter percebido essa
dinâmica em sua vida cotidiana:

Quando mais contou com sua aparente valentia


e sua capacidade própria de autocontrole, foi
quando mais acabou se entregando aos vícios,
por vezes cometendo atitudes indignas como
nunca pôde imaginar que faria.

De fato, “Deus resiste aos soberbos, mas dá sua


graça aos humildes” (Tg 4:6).

Para que sigamos, portanto, em nossa jornada


por esse guia, eu te convido primeiro a um
profundo exame de consciência. Precisamos refletir
interiormente, à luz da Verdade (o próprio Cristo,
vivo em cada palavra do Evangelho) como temos
vivido nesse aspecto. Daí poderemos constatar as
consequências dessa vida imprudente, e atuar de
maneira prática e objetiva em nosso fortalecimento.

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Observe em você mesmo como a falta de
temperança em seus apetites te leva a falhar em
diversos aspectos, negando sua natureza nas
seguintes condições:

I.
Mal uso daquilo que foi
criado para o bem

Quantas vezes não olhamos para determinadas


oportunidades e situações com olhar malicioso?

Esse olhar “aproveitador” é um prato cheio para


que comecemos a olhar também para as pessoas
com esse pensamento possessivo e egoísta, nos
utilizando daqueles que nos cercam para nos
satisfazer. Nosso olhar contemplativo sobre essa
criação divina tão exuberante passa a enxergar
em tudo algo trivial e descartável – perdemos
o entendimento de que todo que temos é uma
concessão generosa de Deus, e que somos “meros
administradores” desses bens, com o promisso de
cuidá-los e protegê-los.

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Cada vez mais, desse modo, nos tornamos
senhores da verdade e das coisas, desfigurando
sua natureza e destruindo esse sagrado que existe
por trás de tudo que foi criado e dado a nós por
amor. Podemos enxergar esse descontrole em
coisas mais simples e aparentemente inocentes,
como bebida e comida, mas também nas pessoas,
quando pensamos na vida sexual ou mesmo ao se
cometer algum crime contra alguém.

II.
Tornar o que existe para servir ao
homem em seu próprio senhor e tirano


Aqui bem nos diz padre Faus:

O viciado alega que é livre, mas


engana-se. Quando pratica os vícios
ligados ao prazer físico, diz que faz o
que quer, porque é livre, mas só faz o
que não consegue deixar de fazer: já
não tem mais o poder de ´não querer´;
tornou-se escravo.

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III.
Transformar os meios em fins

Aqui vemos essa consequência mais emblemática de


uma vida desordenada.

Percebemos isso nitidamente na condição de


pessoas que, por exemplo, “vivem para comer”, e
não “comem para poder viver”. De modo análogo,
podemos encontrar essa mesma condição
miserável naqueles que encontram o prazer como
um fim, se utilizando das pessoas como um meio,
esmagando toda e qualquer alma que passa em
seu caminho para se satisfazer em seus instintos
mais egoístas.

Se nós nos esforçássemos por


reconhecer à nossa volta essa
dignidade que existe em cada coisa
criada, e que se utilizar das coisas e das
pessoas, viola essa dignidade inerente
a todo ser, talvez conseguíssemos ser
mais fortes em nossas vontades.

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É uma tristeza perceber o quanto as pessoas se
contentam com as migalhas de uma oportunidade
ou outra de prazer fugaz, quando estão na verdade
caminhando pela periferia de sua existência e
deixando de entrar nesse terreno mais amplo e mais
vívido de verdadeira realização sexual.
Mais do que uma experiência biológica sensorial,
o sexo é capaz, de maneira transcendente, de elevar o
casal a uma proximidade com esse amor do próprio
Deus, que livremente se dá, e generosamente cria,
gera vida em nós.
---

Ainda que deva ser assumida de maneira gozosa,


a castidade é, cotidianamente, uma luta, que
nos exigirá muitas vezes uma postura heroica,
especialmente nos dias de hoje, onde tudo
assume um apelo tão erotizado.

Em cada esquina, há um chamado escandaloso


para uma sexualidade irrefreada, banalizando
e vulgarizando o que deveria revelar de maneira
tão pura a preciosidade da condição humana
enquanto criação divina.

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Diz São Tomás de Aquino,
na Suma Teológica, que
a maior parte dos pecados se cometem não porque
o homem seja levado a eles pelas suas inclinações
naturais, mas pelo escândalo, que provoca uma
super-excitação artificial das paixões.

Pense como isso nos parece atual, ainda que


esse texto seja tão aparentemente “ultrapassado”.
Daí a necessidade de unir, ao amor, aquilo
que chamamos de luta ascética (essa busca
disciplinada por aperfeiçoamento espiritual),
evitando corajosamente situações que nos levarão
a cair, cedo ou tarde.

Não podemos pressupor, desse


modo, que a vivência de um amor
casto será uma vida de exclusão
social e castrações, mas uma vida
em que, de maneira consciente
e prudente, o homem enfrentar
sua realidade sem se deixar
contaminar por ela.

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Você pode estar pensando que, quanto mais esse
texto progride, mas distante de você
a vida casta parece.
Mas a boa notícia é que, por mais óbvio que
pareça, talvez você não tenha percebido que não
é o único, tão pouco o primeiro, a passar por
essas provações que você julga invencíveis.

Nas páginas que se seguem, conheceremos mais da


vida ou da obra de santos que souberam decifrar
de maneira muito sábia o comportamento humano e
as práticas que podem nos levar a aproximar nossa
condição sexual daquilo que Deus espera de nós.

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“ O homem casto e o anjo são diferentes não por sua
virtude, mas por sua felicidade.
E embora a castidade do anjo seja mais venturosa,
sabemos que a castidade do homem é mais corajosa.


Somente a castidade significa o estado de glória imortal
nesta época e lugar de mortalidade; só a castidade
reivindica para si, em meio às solenidades nupciais, o
modo de vida daquela morada abençoada em que nem
os homens nem as mulheres se casarão, permitindo
assim a experiência da vida celeste na terra.

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Começo nossas reflexões em torno da vida
e obra dos santos com este que tanto contribuiu
com belíssimos sermões e exortações que, mesmo
produzidos em um tempo tão distante, são ainda
tão atuais. Ele próprio ensinava em sua vida que a
luta pela castidade exige determinação: certa vez,
para se livrar de uma tentação dessa natureza,
lançou-se em um lago gelado até que sua vontade
passasse. E nós ainda resistimos a um simples
banho frio...
Como vemos nas palavras acima de São
Bernardo, a vivência da castidade é uma
experiência que pode nos assemelhar à realidade
dos anjos, daqueles que vivem no paraíso – ainda
que esses anjos experimentem a castidade de
maneira mais exitosa, nós a experimentamos como
via de santificação, como oportunidade única de,
resistindo às tentações, demonstrar nosso amor

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“ Porém, embora a castidade se destaque
tão eminentemente, sem a caridade ela
não tem valor nem mérito.

Castidade sem caridade é lâmpada


sem óleo; e, no entanto, como diz o

caridade, com aquela caridade que,


como escreve o Apóstolo, nasce de um
coração limpo, de uma boa consciência
e de uma fé sincera.

sábio, quão bela é a casta geração, com

pela sua criação (nós mesmos), pelo próximo,


e consequentemente pelo próprio Deus. Essa
“experiência da vida celeste na terra” a qual São
Bernardo se refere deve nos despertar para o fato de
que, embora difícil de ser alcançada. A castidade
é uma virtude a ser incessantemente buscada,
pois poderá nos aproximar de modo especial de
uma vivência mais santa e, consequentemente, da
salvação.

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No trecho que se segue àquelas considerações
iniciais de São Bernardo sobre a castidade, o santo
nos pontua algo fundamental. O cumprimento do
preceito sem o seu devido sentido não tem valor
algum. Podemos resumir tudo o que direi a seguir
no seguinte pensamento:

a caridade é a alma
das virtudes

Vou explicar:
Uma virtude mal vivida por ser encarada como
um mérito pessoal honroso, uma conquista de
um sábio, pode levá-lo a nada além de orgulho,
vaidade e soberba. O entendimento e a busca das
virtudes humanas são anteriores ao cristianismo,
mas a figura de Cristo, seu Evangelho, são um
ponto crucial que ressignificou a prática dessas
mesmas virtudes já conhecidas. Para o cristão, a
prática da castidade (como de qualquer virtude)
não é algo como um título de nobreza, mas uma

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luta cotidiana humilde e consciente de que o
sucesso nessa luta é concedido, e não puramente
conquistado. Da mesma forma, aqueles que
não são tão afortunados nas virtudes não são
considerados desvalidos, ou menosprezados; são,
ao contrário, motivo de especial dedicação para
que consigam também chegar dignamente mais
próximos desse estado de graça.

A VIRTUDE DEVE CURAR


NOSSAS FERIDAS,
E NÃO “COMPENSÁ-LAS”

Ainda na conquista da castidade, é preciso ser


honesto e consciente de seu estado – a virtude
deve curar nossas feridas, e não “compensá-las”
como uma relação matemática; algo do tipo “essa
semana eu só caí na tentação duas vezes, estou
melhor que semana passada, que só caí três”.
Ora, isso pode até ser um progresso, ou motivo
de alegria, mas não é o cerne do problema – você

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pode ter simplesmente errado menos por falta de
oportunidade. É preciso saber se o domínio de
sua vontade é motivado verdadeiramente por uma
consciência firme sobre a dignidade das pessoas
que te cercam, até que você pare de usá-las em
suas relações pessoais como pedaços de carne,
ou em sua imaginação e desejos sórdidos como se
fossem fantoches de suas fantasias cruéis.
Em outras palavras, errar menos não pode
ser mero alívio de consciência, mas uma
transformação verdadeira motivada por um amor
genuíno que nasce de um coração apaixonado,
antes de qualquer coisa, pelo próprio Deus.

Vamos usar um exemplo que deixa claro como a


caridade é que dá sentido à castidade:

Um homem vaidoso resiste a uma tentação e diz “sou forte”;


Um homem sábio, porém sem caridade simplesmente pode
pensar “não me deixarei enganar pelas ilusões desse desejo
passageiro que pode me prejudicar”;

Mas o cristão... Esse, ao resistir à tentação pensa “não


praticarei o mal se em mim habita o espírito de Deus, que me
criou para o bem, e não poderei praticar mal algum contra essa
pessoa tão igualmente amada, que não merece ser manipulada ou
maltratada por mim”.

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Ainda com São Bernardo podemos apreender
que a virtude humana à luz da fé, e não de um mero
heroísmo ou ativismo social, recebe do Espírito
Santo a força de Deus para fortalecer a prática
humana. Assim, o amor cujo exemplo de perfeição
é Cristo, consegue enxergar no amado de maneira
sobrenatural a maior motivação de suas ações,
gerando, como consequência, um amor ainda maior.
Alimentado já pelo Cristo, e não por uma “força
interior”, um homem virtuoso e prudente é capaz de
colocar “tudo em seu devido lugar”. Lembremo-nos
– “a castidade é a medida do amor”. Onde está o amor
(pensemos aqui como o próprio Cristo presente),
nossas ações são ordenadas para o bem - próprio e
do próximo - e por isso até mesmo na dificuldade,
nas provações, nas renúncias, na dor, na saudade, na
distância, nossos desejos e instintos mais egoístas
conseguirão ser contidos e transformados por uma
motivação maior.

É o que nos resume, perfeitamente,


São Bernardo de Claraval
nas frases a seguir:

- 22 -
“ Onde o amor emerge, ele
segura todos os impulsos e
sublima-os em amor.
---
O amor não busca outro
motivo e nenhum fruto
fora de si; ele é seu próprio
fruto, seu próprio deleite.
Amo porque amo; amo
para poder amar.

- 23 -
Se com nosso primeiro exemplo de homem
santo defensor da castidade vimos uma reflexão
profunda sobre a virtude, São Josemaria Escrivá
nos presenteia com conselhos práticos para que não
caiamos em tentação. Esse Santo tão contemporâneo
parece nos atravessar com cada uma de suas palavras,
pois tinha um olhar atento na nossa realidade, e
valorizava a ideia de que poderíamos, nessa própria
realidade em que nos encontramos, achar também
nosso caminho de santidade.

- 24 -
“ No momento em que permites
deliberadamente que comece um
diálogo com a tentação, a alma perde
a paz, do mesmo modo que consentir
com a impureza destrói a graça.

A tentação é necessária para nos fazer


perceber que não somos nada por nós
mesmos.
Não seja tão covarde assim…
seja corajoso o suficiente para fugir.

Aqui vão alguns conselhos do
fundador da Opus Dei:

- 25 -
I.
A ‘valentia’ de ser covarde,
para fugir das ocasiões

Vejam bem, não estamos falando de nenhum


grande mistério, mas o que nos falta muitas
vezes é a devida coragem em reconhecer nossa
condição vulnerável. Em outras palavras, não se
superestime. Festas, viagens, roupas, músicas,
conversas impróprias, filmes, novelas, grupos de
conversas em aplicativos de celular, “amizades”
impróprias, companhias devastadoras...
Cada um de nós conhece ocasiões propícias em
nosso dia a dia que nos levarão invariavelmente à
ruína. Teimamos, como falamos mais acima, em
nos achar fortes o suficiente para passar ileso
por uma conversa maliciosa ou carícias com o
namorado ou namorada, e o resultado é sempre
o mesmo: a soberba “surpresa” e revoltada com o
erro cometido. Ora, não há com o que se espantar
se, de maneira premeditada, nos expusemos ao
risco, e encaramos as consequências...

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II.
A guarda atenta dos sentidos

Isso significa simplesmente tomar cuidado com


o que interiorizamos de nosso mundo exterior.
Nossos apetites são constantemente estimulados
por esses estímulos externos – se nos expomos
àquilo que é impuro, naturalmente produziremos
em nós uma reação de igual natureza.
Sejamos sensatos:
Façamos uma opção por alimentar nossa
visão com uma beleza inspiradora, e não com
uma sensualidade vulgar; troquemos palavras
de baixo calão por palavras mais doces, gentis
e respeitosas, as “músicas” e demais produções
audiovisuais apelativas por conteúdos de qualidade
e consistência, e por aí vai.

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III.
Trabalhar a imaginação

Controlando os sentidos, controlamos o que


produzimos internamente. Boa parte de nossas
quedas quando falamos de castidade se dá por
articulações inoportunas e malícias criadas
dentro da nossa própria cabeça.
Quem nunca ouviu que “mente vazia é oficina
do diabo”? Pois bem, ocupe sua cabeça por
produzir aquilo que é bom em tanta quantidade
até que “sufoquemos” nossos pensamentos vãos
cotidianos, que só nos fazem perder tempo.

- 28 -
IV.
Vida espiritual consistente


Não podemos pensar diferente disso:

A frequência dos sacramentos,


de modo particular a Confissão

faltas, e tudo ungido com uma terna



sacramental; a sinceridade plena na
direção espiritual pessoal; a dor, a
contrição, a reparação depois das

devoção a Nossa Senhora, para que Ela


nos obtenha de Deus o dom de uma
vida santa e limpa.

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Por fim, deixo aqui mais uma mensagem
desafiadora e animadora desse querido santo
para a geração presente. Aos jovens, de maneira
especial, cabe ir contra essa onda materialista que
viola a dignidade dos seres e expõe à humanidade
a uma condição cada dia mais degradante, que
desvaloriza mais do que tudo a vida humana e


tudo que a sustenta em sua natureza mais elevada.

É necessária uma cruzada de


virilidade e pureza que enfrente
e anule o trabalho selvagem
daqueles que pensam que o
homem é uma besta. – E essa
cruzada é obra vossa.

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Como falar em castidade sem falar desse Santo
que tanto nos inspirou. Sua vida ainda tão próxima em
nossa memória é uma lição, e cada palavra sua é uma
preciosidade e nos ensina de maneira particular sobre
a profundidade e a transcendência do amor humano.
Poderíamos dedicar toda uma obra a estudar a castidade
na sua perspectiva, mas vou me ater aqui a te apresentar
aquilo que talvez você não possa conhecer com tanta
facilidade, já que este é um Santo muito citado.

- 31 -

E começo pelo trecho:

A sexualidade, mediante a qual o homem


e a mulher se doam um ao outro com os
atos próprios e exclusivos dos esposos,
não é em absoluto algo puramente
biológico, mas diz respeito ao núcleo
íntimo da pessoa humana como tal.
Esta realiza-se de maneira
verdadeiramente humana somente se é
parte integral do amor com o qual homem
e mulher se empenham totalmente um
para com o outro até a morte.

A doação física total seria falsa se não
fosse sinal e fruto da doação pessoal total.

- 32 -
Esse pequeno fragmento da “Familiaris
consortio” é de uma riqueza desconcertante!
Percebam aqui que São João Paulo II nos revela
uma visão particular de que a sexualidade
humana é um componente da pessoa humana,
e que só pode se manifestar, se partir do centro
de sua existência, não como um mero “esbarrar
de corpos”, mas como um encontro profundo
e indissolúvel de duas existências totalmente
dotadas de sua dignidade.

A SEXUALIDADE HUMANA É
UM COMPONENTE
DA PESSOA

- 33 -
O que ele sugere é que o envolvimento sexual
não pode ser uma ação fragmentada, mas um
movimento consistente de uma pessoa, de corpo e
alma, que revela ao outro aquilo que tem de mais
profundo e mais sagrado – por isso reserva o amor
sexual ao ambiente dos esposos, cuja fidelidade
foi prometida como salvaguarda para que esse
amor se manifeste com segurança e resplandeça
com toda a sua beleza.

Como é bonito ver que o Cristo eleva a condição


do amor sexual entre homem e mulher ao
“AMOR POR EXCELÊNCIA”,
pois Ele mesmo se coloca, para sua igreja, na
condição de esposo e esposa.

Com essas palavras que destaquei, São João


Paulo II nos leva a refletir que o amor não pode
ser banalizado.

- 34 -
Pelo contrário, exige responsabilidade, e que o
ato sexual em si só pode assumir total significado
quando exercido por aqueles que livremente
escolheram se tornar servos um do outro em toda
e qualquer condição. Por sua preciosidade, a
sexualidade como manifestação do amor generoso
de Deus que dá a vida precisa ser protegida e
alimentada por essa aliança matrimonial.
Portanto, se a sexualidade invariavelmente expõe
esse “núcleo íntimo” da pessoa, onde está presente
toda a dignidade com que foi criada, a doação física
motivada por um amor autêntico envolve e reforça
essa dignidade com um movimento de caridade
mais sublime – dois que se tornam uma só carne.
Por outro lado, se essa doação física é “falsa”,
como diz o papa, ela atinge esse mesmo núcleo
íntimo, porém rouba do outro sua dignidade e a
insere em uma condição profundamente miserável
e triste, ainda que a própria pessoa não se dê conta
do quanto tenha sido intimamente violada.

- 35 -
Observemos agora mais esse trecho de uma


conversa do papa com os jovens:

A experiência também demonstra que


as relações sexuais antes do matrimônio
dificultam mais do que facilitam a
escolha do parceiro certo para a vida.
Pertence à preparação para um bom
matrimônio que formeis e consolideis o
vosso caráter. Deveis também cultivar as
formas de amor e de afetos apropriadas

amizade.

à provisoriedade das vossas relações de

A espera e a renúncia facilitar-vos-ão mais


tarde o respeito afetuoso pelo parceiro.

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Mais uma riqueza sem fim!
São João Paulo nos afirma aqui algo tão óbvio,
mas tão ignorado – nossos impulsos sexuais nos
orientam a nos aproximarmos dos outros por
um natural interesse de prazer sensível mais
superficial, quando não nos cuidamos em, antes
de tudo, conhecer e amar o outro. Perceba aqui
que João Paulo II não despreza ou rejeita o prazer
sexual, mas o ordena, o situa na ordem reta de
construção das relações humanas. No caminho de
conhecimento, o envolvimento sexual é o último
estágio – o mais profundo, mais íntimo, esse
último estágio de “conhecimento” do outro.
Que beleza admirável nas sábias palavras
da Virgem Maria quando, interpelada pelo anjo
sobre o mistério da Encarnação, indaga como isso
se dará se ela não “conhece” homem algum.

Pois bem, o primeiro estágio na construção


de um amor firme, constante, que dura, é o
conhecimento.

- 37 -
Quantos casamentos se desfazem tão
rapidamente diante da esmagadora realidade
trazida pelo convívio!

Como pode um casal de pouco ou muito


tempo de casados dizer:

“nunca imaginei que fulano


fosse assim”?

A resposta é simples.
Nunca se detiveram a olhar para o outro,
viveram anos de relacionamento olhando só
para dentro.

E isso tem nome – egoísmo.


Pois bem, se a sexualidade a forma mais
excelente de demonstrar o amor humano, pode
ser também a mais degradante.

- 38 -
Quando praticada de maneira desordenada,
precoce e imprudente, torna-se uma cortina
de fumaça que confunde todo esse processo
de conhecimento do outro e desvia o foco do
que deveria estar realmente sendo abordado no
processo de namoro e noivado – o CARÁTER.

PRESTE ATENÇÃO:

Tudo se esvai em meio às distrações de


um encontro sexual furtivo que
“resolve” todas as desavenças,
ou faz com que todas as
incompatibilidades pessoais sejam
relevadas
em nome de migalhas de prazer
encontradas em relações sexuais
ocasionais,
por mais repetidas que sejam, sempre tão
vazias e sem propósito.

- 39 -
Também nas últimas palavras desse trecho que
destaquei sobre o Santo, vemos um conselho valioso –
a espera e a renúncia como práticas de fortalecimento
da vontade (em vista da provisoriedade do que podem
ser as relações humanas antes do casamento). Não há
nenhum mistério aqui – quem aprende a esperar e se
guardar por amor, resistirá às situações inesperadas
e às intempéries de uma vida conjugal.

As virtudes, e a castidade entre elas,


não são, apesar de concedidas por
Deus, algo que “cai do céu”, mas é
conquistado com boas práticas.

Não espere que, ao colocar uma aliança no


dedo, os noivos passem a ser misticamente
imunes aos problemas cotidianos.

- 40 -

“ Se queres ser feliz, sê casto.

Santo Agostinho de Hipona é, sem dúvidas,


um dos grandes contribuidores para a doutrina
da igreja como conhecemos hoje, e as palavras
do Santo destacadas acima talvez resumam de
maneira perfeita seu pensamento sobre a virtude.

- 41 -
Em suas várias obras ele discorre sobre nossa
relação com Deus, sobre a criação e como nossa
existência é uma concessão generosa de nosso
criador. Ele nos diz que esse amor da alma é esse
desejo natural que temos de nos unir a esse Deus,
de cuja existência participamos dessa maneira tão
íntima e tão profunda.
Apesar da riqueza de seus documentos em
vários sentidos, vamos nos ater aqui às suas
palavras no que se refere à castidade. E a primeira
coisa que precisamos entender é que não só em
suas palavras, mas em sua vida, Santo Agostinho
é para nós uma lição. Filho de Santa Mônica com
um homem originalmente pagão, não era o que
podemos chamar de “católico de berço”. Sua
conversão veio a partir dos estudos incansáveis em
busca de uma verdade. Ao longo dessa caminhada
intelectual, foi sendo progressivamente seduzido
pela única Verdade – o próprio Cristo. Foi batizado
já adulto por Santo Ambrósio, de quem ficou
amigo.
Poucos sabem, mas Santo Agostinho
viveu parte de sua vida na companhia de
uma concubina, com quem teve um filho,
que faleceu em uma época próxima do
falecimento de Santa Mônica.

- 42 -
Depois dessas perdas, e já convertido, Santo
Agostinho tornou-se sacerdote, e daí em diante
contribuiu imensamente para estruturar a doutrina
da Igreja.
Nesse processo viveu o que reconheceu como
inúmeras recaídas. Seu amor pela Verdade era
marcante, e nessa busca confrontava-a muitas
vezes com sua própria existência. Numa declaração
humilde e sincera, em seu livro “Confissões” (uma
autobiografia) ele diz que incessantemente pedia:

“Senhor,
fazei-me casto.”

No entanto, após longo tempo de reflexão


meditando sobre sua própria vida, pôde reconhecer
que, no fundo, seu coração sempre dizia, após pedir
pela castidade “mas, por favor, que não seja agora.”

- 43 -
Podemos, aqui, nos aproveitar dessa
constatação franca do Santo para trazer luz sobre
nossa própria vida.

- Quantas vezes não agimos também assim,


“desperdiçando” nossas palavras bonitas
em orações extremamente meticulosas,
suplicando por uma vida casta, sem que
tenhamos de fato aberto nosso coração a
deixar que Deus ali habite de fato e molde o
nosso ser conforme Sua vontade?

- Tantas vezes, no fundo, nos iludimos e


cumprimos nossa obrigação de rezar, mas
jogamos palavras ao vento sem que elas saiam
de onde partem também nossos reais desejos,
medos e anseios – nosso coração?

Essa fala de Santo Agostinho também nos revela


um pensamento comum em cada um de nós:
A PROCRASTINAÇÃO.

Esse eterno “deixar para amanhã” é um prato


cheio para que nossos instintos egoístas nos
corroam aos poucos e nos envolvam de tal modo
que, diante de uma eventual constatação de nossa
condição humilhante, tenhamos que percorrer
um caminho muito mais longo de volta.

- 44 -
Lembremo-nos que a ideia de eternidade não
pode ser para nós um “consolo” para que repitamos
insistentemente os mesmos erros. Essa visão
interesseira e acomodada com a misericórdia de Deus
(ainda dá para pecar mais um pouco, até que um dia
eu realmente conte com o perdão de Deus...) muitas
vezes sustenta nosso marasmo espiritual e nos torna
pessoas cada vez mais fracas e vulneráveis às nossas
paixões mais degradantes.
Vejam que belíssimo trecho com o qual Santo


Agostinho nos presenteia em seu livro “Confissões”:

Eu fui encarcerado não com o ferro de


uma cadeia, mas com o ferro de
minha própria vontade.
O inimigo tomou conta da minha vontade,


e disso ele fez uma cadeia e me prendeu.
Como minha vontade era perversa, ela
se transformou em luxúria, e a luxúria
rendeu-se em hábito, e
o hábito não demorou a tornar-se
uma necessidade.

- 45 -
Aqui o Santo nos adverte sobre essas “paixões
do corpo”, que buscam se guiar por esse prazer
sensível o tempo todo – uma vida totalmente
predisposta à luxúria e a gula.

A consequência dessa postura


concupiscente é uma vida
totalmente desordenada,
extremamente egoísta, e frágil.

O homem que, aos poucos, se deixa dominar


por essas paixões cotidianas fúteis e vazias,
acreditando que está livremente caminhando por
uma vida de prazeres, acaba por se tornar escravo
deles, perdendo totalmente a sensibilidade para
reconhecer o valor das coisas, e buscar aquilo
que realmente importa – como diz São Paulo, as
“coisas do alto”.
Aqui podemos traçar um paralelo entre o que
diz Santo Agostinho e o que diz São Paulo:

“Vocês estão mortos, e vossa vida está


escondida em Cristo”.

Ambos os Santos, cada um a sua maneira, nos


dizem que o processo de verdadeira realização
pessoal está em descobrir a cada dia essa vocação

- 46 -
maior que nós temos para a graça, que é, em
última e mais perfeita instância, a comunhão com
o próprio Cristo, nossa vida.

Quando esse “apetite da alma” por salvação se


apaga, crescem os “apetites do corpo” e, muitas
vezes sem perceber, os jovens vão assumindo
uma postura cada vez mais animal – instintiva,
insensível, e por vezes cruel e indigna.

Santo Agostinho mesmo nos fala que temos


uma condição existencial superior às outras
criaturas pois, à imagem e semelhança de Deus,
somos dotados de consciência, e que por isso
somos capazes de reconhecer e renegar o mal, e
buscar a graça.
Diante desse mundo de apelo constante e
atrativos torpes que nos levarão cedo ou tarde à
ruína (a gula nas suas mais diferentes formas,
inclusive na vida sexual), a castidade surge como
virtude moral fundamental para que o homem se
mantenha consciente e forte o suficiente para dar
uma “resposta de valor” nas suas circunstâncias:

amar aquilo que é bom e cuidar


da criação, e rejeitar aquilo
que é mal e leva à morte.

- 47 -

Diz assim o Santo, de maneira brilhante:

reconduzindo-nos à unidade que


perdemos quando
nos dispensamos na multiplicidade.

A castidade, com efeito, nos recolhe,

Em posição uníssona com todos os santos,


Agostinho de Hipona nos adverte – ainda que
tenhamos uma vida desregrada, muitas vezes
como ele mesmo teve,

sempre haverá uma


oportunidade de recomeço.

E a porta de entrada para esse caminho a ser


retomado é a humildade. Como o filho pródigo,
em nossa vida experimentamos, vez ou outra,

- 48 -
essa vontade de rejeitar nossa condição filial e
experimentar desordenadamente os sabores desse
mundo.
Até que, quando estamos totalmente entregues
e não nos resta mais nada, nem nossa dignidade,
reconhecemos a condição humilhante de disputar
farelo com os porcos.

Daí nasce a constatação que podemos encontrar


perfeitamente nas falas de Santo Agostinho:

“O que é impossível à natureza,


é possível à graça”

Só há um meio, portanto, de recomeçarmos


sempre – o retorno para o pai.

Muitas vezes, em nossos delírios mais vaidosos


e orgulhosos, queremos fugir da confissão e provar
com nossas atitudes que podemos nos controlar,
numa tentativa de demonstrar arrependimento
por uma mudança espontânea.

ISSO É UMA GRANDE ILUSÃO.

- 49 -
A confissão, enquanto sacramento
de reconciliação, é essa
oportunidade única e inevitável
de retomar uma possibilidade de
salvação.

Se pela natureza estamos sujos, pela graça podemos


ser limpos e recomeçar, agora já sem culpas. Com
Santo Agostinho, podemos reconhecer uma fórmula
eficaz de santificação e de fortalecimento de nossas
vantagens, já também constatada por São João Batista
há tanto tempo – é preciso que eu diminua para que
Ele cresça em mim.
Não haverá outro caminho para a vivência da
castidade que não se deixar ser seduzido por essa
força, que é a mais irresistível de todas aos olhares
mais atentos – o amor de Cristo que nos envolve e nos
preenche da maneira mais completa, nos devolvendo
à nossa natureza, nos permitindo viver da maneira
para a qual fomos criados.
Se ele é o princípio de tudo, só teremos verdadeira
felicidade quando encontrar em nossas atitudes
também o Cristo como único fim.

E a castidade é, em última instância, a


construção dessa hierarquia de valores que
nos leva a querer, mais do que tudo, a salvação
nossa e de quem amamos.

- 50 -
Santo Afonso Maria de Ligório é também
um doutor de nossa Igreja, e discorreu propriamente
sobre esse tema em seu “Tratado da castidade”. São
um compilado de preciosidades para aqueles que
querem melhor viver essa virtude.
Este Santo nos revela, citando inclusive o que
disseram muitos outros santos sobre o tema, que
a castidade é a virtude que no faz mais puros, e nos
aproxima, como diz Santo Efrém de uma realidade
“semelhante a dos anjos”.

- 51 -
A castidade é, sem dúvidas, condição muito
apreciada por Deus – escolheu a uma virgem para
gerar o Cristo, e escolheu a um homem virgem
para desposá-la. Entre os apóstolos, escolheu São
João Evangelista (também virgem) para receber
em casa sua mãe.
Da mesma forma, confia aos sacerdotes, em
sua condição especial de castidade, a missão de
sua igreja. Em sua obra, Santo Afonso esclarece
alguns pontos importantes para a prática da
caridade autêntica.

A vigilância dos pensamentos

Aqui nos diz santo Afonso que há


um duplo engano sobre eles:

Primeiro, viver de maneira escrupulosa – essa


maneira meticulosa de viver pensando que tudo é pecado,
acaba por tornar o homem refém de seus pensamentos,
sem entender que, sem o consentimento, o surgimento
inevitável de maus pensamentos inicialmente não
caracteriza pecado em si.

- 52 -
Não podemos também achar, no entanto,
que nossos maus pensamentos possam ser
encarados cotidianamente como naturais, e que
nunca serão um pecado. Quando damos espaço
a esses pensamentos de maneira deliberada, já
guardamos neles a malícia do ato, e isso nos fará
mal, igualmente. Será também um prato cheio
para cometer algum erro de fato.

Esse primeiro momento que nos incita


a praticar o mal, ao que o Santo chama
de sugestão, é crucial.

Quantas vezes não achamos que, nesse


momento, já há uma condição indigna que nos
afasta instantaneamente de Deus? Pois bem,
tomemos o exemplo de São Paulo. Quando
muito tentado, implorou a Deus que lhe tirasse a
tentação. E qual foi a resposta de Deus?

“PARA TI, BASTA A MINHA GRAÇA”.

EM OUTRAS PALAVRAS, NOS DIZ


SANTO ANTÃO QUE “PARA CADA
TENTAÇÃO A QUE SE OPUSERES
RESISTÊNCIA, SE TE DEVERÁ
UMA COROA”

- 53 -
Talvez isso tenha motivado São Bento a se tacar em
uma moita de espinhos para controle de tentações da
carne, ou motivado São Bernardo a se atirar em um
lago gelado, ou ainda, feito São Tomás de Aquino ir
contra uma prostituta arrumada por sua família com
uma tocha na mão...


Da mesma forma,
São Francisco de Sales diz que:

Quando um ladrão procura


arrombar uma porta, é porque
ainda não entrou na casa; assim
também, quando o demônio tenta
uma alma,é porque se acha ela
ainda na graça de Deus.

Se, após essa tentação inicial, cedemos e
nos deleitamos conscientemente com a ideia de
cometer esse pecado, ou o cometemos de fato,
estamos aí consentindo com ele, e aí sim, pecando.

- 54 -
Para aqueles que forem molestados por essas
tentações, Santo Afonso nos revela dicas práticas
que nos permitirão fugir do mal (não para nossa
surpresa, veja como são muito semelhantes ao que já
falamos anteriormente):

1. Humilhar-se continuamente
Não confiar nas próprias forças

2. Recorrer imediatamente a Deus


diz o Santo que devemos recorrer
prontamente e invocar o nome de Jesus,
Maria e José, poderosos para resistir a
qualquer tentação do demônio;

3. Recepção assídua dos sacramentos


na confissão, “uma tentação revelada
já está meio vencida” (São Felipe Neri).
Na comunhão, somos totalmente
alimentados pela presença de Cristo.

4. Fuga da ociosidade
quanto menos ocioso, menos tempo para
se perder em pensamentos indignos.

- 55 -
5. Devoção à Imaculada Mãe de Deus
natural entendermos que, para nos
mantermos castos, temos a força
intercessora da Virgem das Virgens!

6. Emprego de todas as precauções


exigidas pela prudência
aqui Santo Afonso enumera algumas
práticas valiosas: a modéstia dos olhos, e
a guarda do coração.

Sobre a modéstia dos olhos:

Diz São Francisco de Sales que “quem não quiser


que o inimigo penetre sua fortaleza, deve conservar a
porta fechada”.

Diz também Santo Agostinho que “do olhar nasce o


pensamento, e do pensamento a concupiscência”.

Aqui vemos como nossos sentidos podem nos trair,


e como devemos nos manter alertas para não deixarmos
que o mal entre em nossos corações por nossos olhos.

- 56 -
São Gregório nos diz, inclusive, que os olhos
podem se tornar “ganchos para o inferno”, e que “se
contemplamos um objeto perigoso, começamos a
querer o que antes não queríamos”.

SANTO AFONSO NÃO NOS


CONVIDA, NO ENTANTO,
A UMA VIDA “DE OLHAR
PARA BAIXO”.

Pelo contrário, ele nos convida a uma vida com


olhar fixo naquilo que é belo e inspirador para o
homem, causando efeito oposto aos maus olhares
que lançamos cheios de cobiça muitas vezes às
pessoas que nos cercam.

Sobre a guarda do coração

Nesse ponto Santo Afonso chama a atenção


para guardarmos boas relações com as pessoas,
renunciando a amizades temerárias e proximidades
com pessoas que dirigem maus pensamentos a nós,
ou que nos inspiram pensamentos inapropriados.
Diz São Tomas de Aquino de maneira brilhante:

- 57 -
“Podemos resistir aos vícios ficando na ocasião,
fazendo violência contra nós mesmos; mas o
vício contrário à pureza, porém, só poderemos
vencer fugindo da ocasião e renunciando às
afeições perigosas.”

Ainda sobre essas relações, São Tomás de


Aquino nos diz sobre as amizades, ainda que
santas, mas que podem ser armadilhas para nossos
sentimentos:

“Quanto mais santas são as pessoas pelas


quais sentimos afeição particular, tanto mais
devemos nos acautelar, porque o alto apreço
que fazemos de sua virtude mais nos estimula
ainda a amá-las.”

- 58 -
Colocando essas palavras em outros termos,
podemos entender que nossos sentimentos
muitas vezes nos enganam, e mesmo com pessoas
admiráveis e pelas quais sustentamos inicialmente
boas intenções, podemos por alguma fraqueza
desfigura-las e cair em tentação de, em algum
momento, usá-las tão somente para nosso prazer.
Dessa forma, a pessoa prudente deve estar apta
a fazer um exame de consciência na maneira como
se relaciona com as pessoas.

Toda vez que surgir um mínimo


movimento guiado por interesse
fútil, devemos recorrer ao
afastamento prudente e às
práticas de fortalecimento
espiritual que já enumerei,
sugeridas pelo Santo.

- 59 -
Ainda em seu Tratado, Santo Afonso enumera
algumas situações que sugerem que nossas
relações podem estar se tornando nocivas e
interesseiras:

1. Se entretêm em conversas inúteis

2. Ocorrências de olhares e louvores


múltiplos

3. Se desculpa faltas reciprocamente sem


buscar correções para não desagradar

4. Aparecimento de pequenos ciúmes

5. Sentimento de prazer pela gentileza


natural da pessoa amada, desejo de
correspondência da afeição, e não gostar
de que outros observem, ouçam ou falem
do seu relacionamento.

- 60 -
Muitas coisas ainda são faladas nesse incrível
tratado sobre castidade criado por Santo Afonso.
É uma leitura fundamental para qualquer jovem.
Mas sua mensagem geral é que, sem dúvida,
a castidade é algo a ser experimentado com uma
prática humilde e verdadeira diante de Deus,
com uma postura cristã ativamente protetora da
pureza, seja ao evitar situações de pecado, seja em
não hesitar ao cair vez ou outra.

Tenhamos a disposição de enfrentar o mal,


e esperança para recomeçar quando
formos derrotados!

- 61 -
Por fim, mas não menos importante,
você deve ter estranhado tantos lírios espalhados
por esse livro sem que eu falasse naquele que
primeiramente vem à sua mente quando os vê –
São José.
Não podemos jamais nos esquecer desse
homem, esposo castíssimo da Virgem Maria,
também modelo perfeito de castidade. Ambos
são para nós um modelo a ser seguido e uma força
intercessora sem igual.

- 62 -
Podemos aprender dessa relação castíssima na
Sagrada Família aquilo que queremos para nossa
família, e a postura de São José deve ser inspiração
para todo homem, especialmente aqueles que
desejam ser esposos e pais.

Para refletir sobre São José, vou


me utilizar das palavras do Papa
Francisco por ocasião da abertura
do ano de 2021 dedicado a este
Santo homem.

PRIMEIRO, José é um pai protetor e obediente


à vontade de Deus. Sabendo da condição de Maria
grávida, quis deixá-la sem segredo para não a
escandalizá-la.
Antes disso, é avisado pelo anjo que teria um
lugar especial no plano de salvação da humanidade,
e assim decide ficar.
Assim percebemos que a todo momento
José renuncia às suas próprias expectativas, sua
preconcepções, mas está sempre inclinado à escuta
constante da necessidade dos seus, de sua família.

- 63 -
SEGUNDO, José é pai acolhedor – recebe
Maria sem ressalvas.
Ainda que sua visão de casamento com Maria
tenha sido totalmente modificada pela chegada de
Jesus, ele não se desanima nem se amargura, mas
acolhe e protege aqueles que lhe foram confiados.
Mais ainda, José é pleno serviço. Ainda que
sob ameaça de morte, por parte daqueles que
procuravam achar e matar o menino Jesus, José se
aventura e incessantemente se dispõe a guardar
sua família, seja indo até Belém, seja fugindo para
o Egito.

Nesse modelo de homem


deveriam se inspirar todos os
homens, e esse modelo de esposo
deveriam desejar todas as
mulheres.

- 64 -
Assim encerro esse guia, fazendo votos que
você encontre nesse conteúdo a oportunidade
de reencontrar a alma dessa virtude, cuja
forma é o amor.
Que essas palavras possam atingir seu
coração de forma que, mais do que uma
ideia, a castidade lhe pareça uma realidade
próxima, não pela força de sua vontade,
mas pela grandeza do coração de Deus, que
generosamente concede a todos as graças
necessárias para que vivam cada dia mais em
sua presença!

Não desanimemos, jovens!

“Bem-aventurados os puros de coração,


porque verão a Deus”
(Mt 5,8)

- 65 -
Que nossa senhora te guie e
providencie as graças necessárias
para o seu propósito de
viver uma vida
verdadeiramente
mais casta.

D r . F ilipe D uarte
- D r F ilipe D uarte -
Sou médico formado pela Universidade Federal do
Estado do Rio de Janeiro – UniRio, minha residência
foi na área que sempre amei na medicina: a área de
ginecologia e obstetrícia. Foram anos de muito estudo
e aprendizado no Instituto Fernandes Figueira. Hoje,
já acumulo anos de experiência nessa especialidade
e finalizei, recentemente, uma pós-graduação em
medicina fetal.
Além de todos esses anos de estudo, carrego
também muito aprendizado prático adquirido
dentro dos principais hospitais da cidade. Toda
essa experiência me permitiu perceber quais são as
principais carências que a maioria das mulheres
possui: ser olhada com atenção e obter informação de
qualidade.
Por isso decidi me colocar a sua disposição, para
te ajudar em seus anseios e mostrar um novo caminho
para cuidar da sua saúde.

Essa é a minha missão e


eu levo isso extremamente a sério.
Conte comigo!

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