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A prática simpoiética das editoras cartoneras:

UM COLETIVO DE RESISTÊNCIA EM TEMPOS DE URGÊNCIA


Carolina Noury
carolinanoury@gmail.com
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RESUMO:

A prática cartonera vem se multiplicando em diversos países da América Latina,


inclusive no Brasil que já conta com mais de vinte projetos ativos. O surgimento dessas
editoras se deu a partir da Eloisa Cartonera que nasceu na Argentina, Buenos Aires, em 2003,
como uma alternativa à crise econômica que o país enfrentava e com o objetivo de ampliar o
acesso da população ao livro, ou seja, surge como um instrumento de resistência. O nome
cartonero vem do material utilizado para fazer as capas dos livros, o papelão ou cartón, que é
descartado nas ruas como lixo e coletados por catadores como material para criar as capas que
são pintadas à mão. Assim, os livros reintegram esse material que seria descartado no ciclo
produtivo. “Essa é uma forma original de confeccionar livros como um instrumento de
resistência e crítica às práticas tradicionais, comerciais, nas mãos do mercado editorial”
(VASCONCELOS, 2016). A partir desse movimento que traz uma forma própria de projetar,
incluindo diferentes atores, criando relações e valorizando mais o processo que o resultado, o
presente trabalho tem por objetivo pensar o design como uma prática simpoiética, ou seja,
outras formas de pensar e de projetar cultivando a responsa-habilidade, a habilidade de dar
respostas aos desafios sociais contemporâneos, como as catástrofes sociais e ambientais
(HARAWAY; SZANIECKI). Pensando no Novo Regime Climático que vivemos, Starhawk
(2018) acredita que a resposta à mudança climática pressupõe uma regeneração do sistema
social. O modo e as relações sociais de produção fazem parte desse sistema social de modo
que a prática cartonera pode contribuir para uma recuperação parcial ao ir na contramão da
lógica de produção capitalista. A crise climática está associada a uma massiva disfunção
global econômica e social e compor comunidades em que “nós, seres humanos, tenhamos
senso de conexão, para que nossa satisfação se origine menos no ato de consumir e mais do
fato de estarmos nos relacionando” (STARHAWK, 2018, p. 64) é uma das alternativas para
enfrentar a mudança climática. O universo cartonero reúne uma mutiplicidade de participantes
possibilitando o vínculo e a troca de vivências que valoriza o fazer e o afeto gerado nesse
processo, podendo ser entendido como uma comunidade. Já Haraway (2019) destaca a
importância de contar histórias e gerar parentescos para permanecermos nesses tempos de
turbulência, “worlding with” (fazer mundo com). “A simpoiética se revela, pois, como um
‘fazer com’ que é também um viver e lutar com os outros” (SZANIECKI et al, 2019)
possibilitando que nos afetemos e nos transformemos. Entendemos que publicar livros é
contar histórias e que o universo cartonero é uma forma de gerar parentes. Sendo assim, a
prática cartonera é uma ação simpoiética caracterizada pela teia de conexões e pelo fazer
coletivo incluindo diferentes atores de forma particularmente criativa. Talvez esse momento
de reflexões que vivemos no período de pandemia seja ideal para desenhar ideias de
mudanças políticas, sociais e econômicas e a prática cartonera pode ser uma delas.

Palavras-chave: Práticas Simpoiéticas; Cartonera; Território de Resistência; Design.

Referências

HARAWAY, D. Seguir con el problema: generar parentesco en el Chthuluceno. Buenos


Aires: Consonni, 2019. (Obra completa)

STARHAWK. Magia, visão e ação. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n.


69, p. 52-65, abr. 2018.

SZANIECKI, B. et al. Design.com: práticas simpoiéticas no design contemporâneo. In: 7º


Simpósio de Design Sustentável, 2019. Disponível em: http://encurtador.com.br/grMTV.
Acesso em 19 out. 2020.

SZANIECKI, B. Dois Contos do Chthuluceno: e o que isso tem a ver com design?
Disponível em: http://encurtador.com.br/bhHX1. Acesso em 24 set. 2020.

VASCONCELLOS, E. A resistência das cartoneras. Disponível em: http://


encurtador.com.br/fBQZ6. Acesso em 17 out. 2019.

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