Você está na página 1de 21

TRATADO DE CRISTOLOGIA

PE. UYRAJÁ LUCAS MOTA DINIZ

1
Introdução

“Muita vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Agora,
neste tempo que é o último, ele nos falou por seu Filho...esplendor da sua glória e imagem do seu ser”
(Hb 1,1-3a).
Jesus Cristo, ao olhar da fé, é o centro da história. Nele está a manifestação humana de Deus,
primeiro realizada no quadro de um mundo alienado, marcado pelas seqüelas do pecado, que tornam
mais intensas as tentações e tribulações da vida humana; depois esperada numa condição de
imortalidade e fulgor, que mostrará o homem novo e a criação restaurada. Em Jesus Cristo há uma
recapitulação da história sob o signo do retorno para a reconquista da verdade do homem, que é
imagem de Deus. Nele se concretiza o misterioso Desígnio divino impregnado de amor.
A fonte de base deste trabalho é o Catecismo da Igreja católica, bem como a Sagrada Escritura
e a Tradição da Igreja.
Sob está ótica trataremos nesta síntese os principais aspectos da vida do homem-Deus,(mas não
temos a pretensão e nem a presunção de abarcar o mistério que o envolve), que se dignou assumir a
natureza humana elevando-a condição de filha adotiva de Deus.

2
I. Importância do Tratado de Cristologia

1. Conceito de Cristologia
É a ciência que estuda Cristo homem-Deus, i. é, verdadeiro-homem e verdadeiro Deus.
Sentido originário/ originante: é o conhecimento que Deus tem de Cristo e o que Cristo tem de
si mesmo Ex.: Jo 8, 14.18 “Jesus respondeu-lhes: embora eu dê testemunho de mim mesmo, meu
testemunho é válido, porque sei de onde venho e para onde vou vós, porém, não sabeis de onde venho e
nem para onde vou.. Eu dou testemunho de mim mesmo e também o Pai, que me enviou, dá testemunho
de mim.”, Batismo de Jesus – Deus dá testemunho de Cristo: Mt 3, 17 “...Este é o meu Filho amado, em
quem me comprazo.” O Espírito Paráclito dá testemunho de Jesus – Jo 15, 26 “Quando vier o paráclito,
que vos enviarei de junto do Pai, o Espírito da Verdade, que vem do Pai, ele dará testemunho de mim.”.
Sentido Originado/ comunicado: é o testemunho de Cristo comunicado aos Apóstolos e a
Igreja. I Jo 1, 1-3. Quem pode ter essa teologia originada e comunicada? Todo ser com capacidade
intelectual.
Em suma, a cristologia é a disciplina teológica cujo objeto é Cristo, enquanto Verbo encarnado e
Salvador.

2. Importância da Cristologia
Se Jesus Cristo Surge, ao olhar da fé, como o centro da História e nele recapitulamos a mesma sob o
signo do retorno para a reconquista da verdade do homem, que é a de imagem de Deus. Logo podemos
afirmar que a Cristologia como ciência de Cristo, é o eixo de toda a Teologia pois todo o conhecimento nos
é revelado por Cristo. Ele é o centro da Revelação de Deus para o homem, visto que ele é o Filho de Deus
encarnado (cf. Cl l, l5-20) .

3. Cristologia e os demais tratados


Sendo a Cristologia o eixo de toda a Teologia, ela se relaciona com os demais tratados:
 Eclesiologia: Cristo é a cabeça e o Corpo Místico da Igreja. É na Igreja que Cristo realiza e revela o
seu próprio mistério. A Igreja é, em Cristo, como que o sacramento ou o sinal e instrumento da
íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano. E como sacramento a Igreja é
instrumento de Cristo.
 Mariologia: O mistério de Maria está intimamente relacionado com o mistério de Cristo, pois tudo
aquilo que se afirma sobre Maria funda-se naquilo que se afirma do Cristo. Maria é Mãe de Deus,
Theotókos
 Sacramentologia: Cristo sacramento primordial do Pai, instituiu os sacramentos da nova lei.
 Trindade: Cristo, Verbo de Deus, segunda pessoa da Santíssima Trindade.
 Criação : “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava
no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi
feito se fez”. (Jo 1, 1-3)
 Graça: Cristo é o doador da graça, é a Graça de todas as graças.
 Escatologia: Em Cristo toda as coisas serão renovadas (Ap. 21, 5). “Eu sou o Alfa e o Ômega, diz
o Senhor Deus, aquele que é, e que era, e que há de vir, o todo-poderoso” (Ap 1,8).
 Teologia e Espiritualidade Sacerdotal: Cristo é o centro da espiritualidade cristã sacerdotal.

4. Método ascendente e descendente


A Cristologia é descendente na sua origem em nível ontológico e gnosiológico – “Cristo desceu dos
Céus para nos revelar o Pai”.
Podemos esquematizar os dois métodos
Cristologia ascendente (debaixo para cima)
1. Visão que o homem tem de Jesus (com ou sem fé).
2. Enfatiza a humanidade de Jesus. (Jesus de Nazaré e o Jesus histórico)
3. Constitui-se sobre o homem, Jesus de Nazaré, cuja divindade aparecerá, eventualmente, apenas na
medida que aflore na sua humanidade. A humanidade de Jesus como sacramento da sua divindade:
revela e esconde a mesma.

3
Cristologia descendente (de cima para baixo)
1. Visão que Deus tem de Cristo e que Ele revela ao homem
2. Enfatiza a sua Divindade
3. É Iluminada e dirigida, desde o início, pela consideração da divindade de Cristo, a sua Encarnação. A
humanidade de Jesus revela a sua divindade na medida que Deus a manifesta de modo claro. Só a fé
pode perceber o mistério escondido. E a fé é a resposta à Revelação expressa de Deus.

5. Cristologia e exegese
Assim como há um só Deus, uma só Verdade, um só Espírito Santo, um só Cristo, logo há uma só
cristologia. No Novo Testamento encontramos uma só Cristologia vista sobre vários enfoques (Joanina e
Paulina), por isso é que podemos falar de várias cristologias. Deste modo, podemos afirmar que uma
verdadeira cristologia tem que levar em conta os vários aspectos contidos nas cristologias.
Os Santos vivem aspectos diferentes de uma mesma cristologia.

6. Historicidade dos Evangelhos


 A santa mãe Igreja ensina que os Santos Evangelhos transmitem fielmente tudo aquílo que Cristo
fez e ensinou para a eterna salvação dos homens DV 19.
 Os apóstolos transmitiram aos ouvintes aquilo que Cristo dissera e fizera, com aquela mais plena
compreensão de que gozavam, instruídos que foram pelos gloriosos acontecimentos de Cristo e
esclarecidos pela luz do Espírito da verdade.
 Os autores sagrados escreveram os quatro Evangelhos, escolhendo certas coisas das muitas
transmitidas, fazendo síntese de outras ou explanando-as com vistas à situação das igrejas,
conservando enfim a forma de proclamação, sempre de maneira a referir-nos a respeito de Jesus
com verdade e sinceridade.

II. “E em Jesus Cristo, seu Filho único, Nosso Senhor”

1. Os principais títulos bíblicos de Jesus

a) Cristo:
O nome Cristo significa “Ungido”, “Messias”. Jesus é o Cristo pois “Deus o ungiu com o Espírito Santo e
com poder” (At. 10,38). Ele era “aquele que há de vir” (Lc 7, 19), o objeto da “Esperança de Israel” (At. 28,
30).

b) O Filho do Homem
A expressão Filho do Homem (em aramaico: barnaschá) diria por si o mesmo que homem num
modo de falar enfático, não usual na linguagem corrente. Esse título aplica-se a Jesus Cristo no contexto de
Daniel.
• Em Dn 7, 13-14 – se trata de alguém que tem origem celeste e está em certa proximidade de Deus, é de
origem misteriosa e do alto; é mais que um simples homem.
• No N.T. aprece 87x, das quais 84x nos Evangelhos. Em Jesus Cristo, esta expressão tinha os seguintes
significados:
• Natureza humana frágil - Mt 8, 20; 20, 28
• Natureza/ origem divina e seu destino escatológico Jo 3, 13
• Em Jo 8, 28 temos a síntese de Filho do Homem em Jesus Cristo
• Jo 8, 28: síntese de Filho do homem em Jesus Cristo – na fraqueza da cruz se manifesta à glória de
Cristo. Cristo dá muita importância a este título, pois ele conduz à fé: enxergar o divino que se esconde
por detrás da fraqueza humana, aparentemente sem glória.
• Enfim, o termo Filho do Homem manifesta todo o mistério de Cristo: verdadeiro Deus e verdadeiro
Homem..

4
c) Senhor:
Senhor Na versão grega dos livros do Antigo Testamento, o nome inefável com o qual Deus se
revelou a Moisés, Iahweh, é traduzido por Kyrios (Senhor). Senhor torna-se desde então o nome mais
habitual para designar a própria divindade do Deus de Israel. É neste sentido que o Novo Testamento
utiliza o título de Senhor ao mesmo tempo para o Pai e para Jesus reconhecido assim como o próprio Deus.
O próprio Jesus se atribui este título Mt 22, 4l-46.

d) O Filho de Deus:
O título “Filho de Deus” tinha diversos significados no Antigo Testamento e na literatura rabínica:
podia designar o povo de Israel (cf. Ex 4, 22s), o rei de Israel (cf. 2Sm 7, l4;), os anjos (cf. Jó l,6), os justos
(cf. Eclo 4, l0). Significa então uma filiação adotiva que estabelece entre Deus e a sua criatura relações de
uma intimidade especial.
Jesus designa-se a si mesmo como “o Filho, Único de Deus” (Jo 3, l6) e afirma com este título a sua
preexistência eterna. Somente após o mistério pascal que os apóstolos compreenderam o alcance último do
título “Filho de Deus”. Que quer significar a relação única e eterna de Jesus com Deus seu Pai: Ele é o Filho
Único do Pai e o próprio Deus.

III. O mistério da Encarnação

1. A preexistência do Verbo
A encarnação supõe em primeiro lugar a pré-existência divina de Cristo cujas atestações mais
explícitas se acham nos textos de S. Paulo, em S. João

Principais Textos sobre a preexistência em Deus:

 Em Fl 2, 5-11, temos uma clara afirmação da preexistência de Cristo, mas também se inclui neste hino
a dimensão da exaltação e de sua situação humana. É um hino no qual se unem todas as dimensões da
cristologia (preexistência, vida obediente, exaltação). O sujeito é o mesmo através de todo o hino:
refere-se a Jesus Cristo. Afirma que Cristo “sendo de condição divina... fez-se semelhante aos
homens... pelo qual Deus o exaltou”. A expressão “sendo de condição divina” significa ser igual a
Deus. A ação de despojar-se provém do mesmo Cristo, que a faz, naturalmente, tendo presente à
vontade do Pai. Tenha-se em conta que o que se faz semelhante aos homens, se humilha, obedece e
morre é o mesmo que “é igual a Deus”. O mesmo sujeito permanece nas três situações. Cristo, que é
de condição divina, ao encarnar-se, permanece na condição divina, ainda que não retenha a força e o
poder devido a seu ser divino. Por isto é exaltado, se lhe outorga o Nome e se lhe confessa como
Senhor.

 Em Gl 4, 4-6, manifesta-se que Deus, Senhor dos tempos, tem decidido realizar um novo começo.
Para isto envia a seu Filho. Este envio constitui a plenitude dos tempos. O Filho de Deus não começa
a existir com o envio, mas que tinha uma existência real como Filho de Deus, antes da criação. No
entanto, este Filho nasce de mulher abaixo da lei.

 Em Jo 1, 1, encontramos o prólogo que nos apresenta a teologia do Verbo de Deus, que subsiste
eternamente no seio do Pai. São João apresenta o Verbo ou Palavra de Deus em três frases: No
princípio era o Verbo / e o Verbo estava com Deus / e o Verbo era Deus.

a) a anterioridade do Verbo com relação a todo o criado: “No princípio era o Verbo”. No princípio, ou
seja, antes de que o mundo fosse feito. Há aqui uma clara alusão ao primeiro versículo do Gênesis, que
começa do mesmo modo: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1,1). São João quer insinuar
com isto que o Verbo ou Palavra que vai descrever é a Palavra de Deus, pela qual Deus criou o mundo
inteiro.

b) Sua presença eterna em Deus: “E o Verbo estava em Deus”. Sem dúvida alguma, pela palavra Deus
se deve entender aqui a pessoa do Pai.

c) Sua distinção da pessoa do Pai: se estava em Deus (Pai), é evidente que distingue d’Ele.
5
d) Sua divindade enquanto Verbo, ou seja, enquanto distinto do Pai “e o Verbo era Deus”.

Desde o prólogo até o último capítulo, S.João não deixa de repetir que Cristo Palavra de Deus,
existia e era Deus (1,1); que saiu de Deus e que a Deus voltaria (13,3); que está no Pai e o Pai está nele
(10,38).

2. História do dogma
O acontecimento único e singular da encarnação do Filho de Deus não significa que Jesus Cristo
seja em parte Deus e em parte homem, nem que ele seja o resultado da mescla confusa entre o Divino e o
humano. Ele é verdadeiramente Deus e se fez verdadeiramente homem. Contudo, no decorrer da história
há aqueles que não concordaram com esse ensinamento da Igreja. Deste modo podemos apontar três tipos
de erros acerca deste mistério: uns que negavam, em Cristo, a natureza divina; outros, a natureza humana;
outros, por fim, erram sobre o modo como estão unidas ambas as naturezas.

a) Dos que negavam a Cristo a sua natureza divina:


O principal expoente é Ário que nega a eternidade do Verbo; a consubstancialidade do Filho com o Pai
e a divindade do Filho. Afirmava que o filho é criatura do Pai (ainda que a mais excelente); o Filho era como
instrumento do Pai para a criação do mundo. Esta heresia destruía o mistério da Santíssima Trindade. A
Redenção e o Evangelho ficavam completamente sem valor; pois si o Verbo não era Deus, Jesus Cristo não
pode redimir o mundo com a satisfação que o pecado exigia. Esta heresia foi condenada solenemente pelo
Concílio de Nicéia em 325, o qual definiu que o Filho é consubstancial ao Pai, gerado e não criado.
(Theotókos)

b) Os que negavam a natureza humana de Cristo:


As primeiras heresias, mais do que a divindade de Cristo, negaram a sua humanidade verdadeira
(docetismo gnóstico) desde os tempos apostólicos a fé cristã insistiu na verdadeira Encarnação do filho de
Deus, “que veio na carne”. Mas desde o século III, a Igreja teve de afirmar contra Paulo de Samósota em
um concílio reunido em Antioquia, que Jesus Cristo é Filho de Deus por natureza e não por adoção.
Apolinário, bispo de Laudicéia – afirmava que a natureza humana de Cristo era incompleta, pois lhe
faltava a alma intelectual. O Verbo fazia às vezes de alma. Esta heresia foi condenada no pelo concílio de
Constantinopla I em 381, o qual definiu como dogma de fé que em Cristo há uma natureza humana
completa (corpo e alma) como a dos demais homens.

c) Erros em relação à união das duas naturezas em uma só pessoa:


Nestório, Patriarca de Constantinopla, no século IV ensinou que em Cristo as duas naturezas eram
completas, que formavam dois depósitos independentes, duas pessoas unidas entre si por um vínculo
afetivo ou moral. Conseqüentemente, Maria Santíssima não podia ser chamada Mãe de Deus (Theotókos),
por não ser mãe senão da pessoa humana (antropotókos). Esta heresia cristológica foi condenada pelo
concílio de Éfeso em 431, o qual declarou que em Cristo há duas naturezas completas; uma divina e outra
humana, mas uma só pessoa, a divina. Por isso Maria é verdadeira Mãe de Deus.
Os monofisistas afirmavam que a natureza humana de Cristo tinha cessado de existir como tal em
Cristo aos ser assumida pela sua pessoa divina de Filho de Deus. Confrontando com esta heresia, o IV
Concílio Ecumênico, em Calcedônia, confessou em 451: Um só Senhor em duas naturezas, sem mistura,
nem confusão, sem separação, nem divisão. Porque a união não suprime a diferença das naturezas, cada
uma conservando as suas propriedades e encontra-se com a outra numa única pessoa.
O Monotelismo, cujo principal expoente é o Patriarca Sérgio. Procurando uma fórmula conciliatória
Sergio afirmava que em Cristo só havia uma energia ou vontade, a divina, a capacidade humana estaria
absorvida na divina e não teria suas expressões naturais. O III concílio de Constantinopla em 680-681
condenou esta heresia e afirmou e pronunciou a fórmula dogmática que declarava a existência de duas
vontades em Cristo o mesmo que duas operações que não se opõem nem se contradizem..

3. Encarnação: conveniência e necessidade


A Igreja denomina a encarnação como Mistério da admirável união da natureza divina e da natureza
humana na pessoa do Verbo.

6
A encarnação em si não é necessária porque Deus não é obrigado a salvar o mundo e também
porque Deus poderia fazer uso de outros modos, mas nenhum mais admirável do que descendo e
atendendo-nos qual Bom Samaritano.
Não é necessária mas conveniente. Pois “quando Ele se encarnou e se fez homem, recapitulou em si
mesmo a longa história dos homens e, em resumo, nos proporcionou a salvação, de sorte que aquilo que
havíamos perdido em Adão, isto é, sermos à imagem e à semelhança de Deus, o recuperamos em Cristo
Jesus... É aliás, por isso que Cristo passou por todas as idades da vida, restituindo com isto a todos os
homens a comunhão com Deus” (Sto Irineu Adv. Haer. 3,18,1.7-2,22,4).

4. Finalidade da Encarnação

1. O Verbo se fez carne para dar glória a Deus. (Jo 13,31-32)


2. O Verbo se fez carne para salva-nos reconciliando-nos com Deus. (1Jo 4,10.14)
3. O Verbo se fez carne para que assim conhecêssemos o amor de Deus (Jo 3,16)
4. O Verbo se fez carne para tornar-nos “participantes da natureza divina” (2Pd 1,4)
5. O Verbo se fez carne para ser nosso modelo de santidade. (Mt 11,29)

Santo Irineu
“Pois esta é a razão pela qual o Verbo se fez homem, e o Filho Deus, Filho do Homem: é para que
o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a filiação divina se torne filho de Deus.”
(Adv. Haer. 3,19,1)

5. Se o homem não tivesse pecado, o Verbo se encanaria?


João Dusn Scotus O.F.M. e, com ele, a escola franciscana, afirmam que Jesus Cristo é de tal
excelência no plano de Deus que, mesmo que não fosse o pecado, o Filho de Deus teria se encarnado. Com
outras palavras: O Verbo Encarnado estava previsto e predestinado antes de todas as criaturas, e, em
particular, antes do pecado do homem, 1) como o soberano adorador e glorificador da SS. Trindade; 2)
como a razão de ser, a causa exemplar e a causa final de toda a ordem natural e sobrenatural; 3) como
Cabeça e Mediador dos anjos e dos homens.
Se não fosse o pecado, o Verbo Encarnado preencheria as funções de Mestre dos homens e
Rematador da Obra do Pai. Dado o pecado, o Verbo se fez também o Redentor dos homens.

6. Encarnação obra da Trindade: missão do Filho


A Encarnação é obra (ação) ad-extra da Trindade, porém, é missão exclusiva do Filho, porque
somente a Segunda Pessoa da Trindade se une à natureza humana, Pela união hipostática.
Missão do Filho no sentido de novo modo de presença à ordem criada por parte de uma pessoa
procedente, no caso, o Filho de Deus que se encarna. A natureza humana, assumida recebe dele seu
subsistir: a encarnação traz ao Filho uma extensão histórica de sua processão eterna. Isto consiste sua
missão visível no mundo (cf. S.Th.1.q.43)>

7. Encarnação e Redenção
A Redenção consiste nos atos com os quais Cristo, cheio de amor, Se oferece e morre por nós, a fim de
satisfazer a dívida à Justiça divina, merecer-nos de novo a graça e o direito ao céu, e libertar-nos da
escravidão do pecado e do Demônio. Ou aquele “tremendo mistério do amor em que a criação foi
renovada” RH 9a.

a) Necessidade da Redenção
Tal como a Encarnação, a redenção não era absolutamente necessária, pois Deus podia deixar
abandonado o homem, ou perdoar-lhe generosamente. Era, sim, necessária na hipótese de que Deus
exigisse uma reparação condigna. Neste caso, era preciso que uma das Pessoas Divinas se fizesse homem e
reparasse a ofensa causada a Deus, visto que só um Homem-Deus pode reparar de amaneira a ofensa
cometida contra Deus.

b) Efeitos da Redenção

7
A Redenção teve por fim reparar o pecado e os desastrosos efeitos que o pecado tinha trazido ao
homem. A Redenção é pois, simultaneamente, uma satisfação ou reparação para com Deus, e uma
restauração e resgate para o homem.
No esquema abaixo mostra os efeitos da Redenção que vieram para reparar os efeitos do pecado.

No pecado Na Redenção

1º A ofensa a Deus, que mancha a alma e a faz A satisfação de Cristo, reparou a ofensa, apagou a culpa.
merecer uma pena.
2º A degradação do homem. Ele fica privado O mérito de Cristo, Restaurou o homem merecendo-lhe
da graça do Céu. novamente a graça e o Céu

3º A sujeição ao Demônio O resgate de Cristo nos libertou do poder do Demônio

d) A satisfação realizada por Cristo


Abrange duas coisas: mediante a sua morte, reparou a ofensa causada a Deus pelo pecado (Rm.
5,10); apagou-nos a culpa(a mancha que o pecado deixa na alma, ao despoja-la da graça) – Ap. 1,5;
Embora Cristo tenha dado satisfação pelos nossos pecados em todos os atos da sua vida, quis, no
entanto, que tanto as suas satisfações como os seus méritos só produzissem efeito depois da sua Paixão,
tudo referindo à sua Morte. Assim se compreende que a Sagrada Escritura aplique ao sacrifício da Cruz às
satisfações e méritos de Cristo.
A satisfação de Cristo foi voluntária, completa, condigna e superabundante.
Voluntária, pois Cristo deu a sua vida sem ser forçado, pelo amor que nos tinha. O próprio Jesus Cristo
exclama: “Ninguém Me tira a vida: sou Eu que a dou por livre vontade” Jo 10,18.
Completa, pois tem a virtude suficiente para nos reconciliar com Deus e apagar os nossos pecados. “O
sangue de Cristo purifica-nos de todo o pecado” 1Jo 1,7.
Condigna: é a satisfação em que há proporção entre o que se deve e o que se restitui. A satisfação de Cristo
foi condigna, porque guardou proporção com a ofensa. Se a ofensa causada a Deus com o pecado é de
certo modo infinita, a satisfação de Cristo foi de infinito valor.
Superabundante: A satisfação de Cristo não só foi condigna, mas ainda Superabundante, i. é, pagou mais
do que devíamos. Diz S. Paulo que “onde abundou o pecado superabundou a graça” (Rm. 5,20). De fato, o
pecado não é um ato em si mesmo infinito, visto que procede de uma criatura e a criatura é incapaz de um
ato infinito. Só pode dizer-se ofensa infinita porque ofende a Deus, ser infinito. Pelo contrário, qualquer ato
do Filho de Deus era infinito em si, pois procedia da Pessoa do Verbo.
Jesus Cristo quis que a sua satisfação fosse superabundante e copiosa a sua redenção, a fim de nos
fazer compreender a excelência de tão divina obra, e dar-nos plena confiança nos seus méritos e no perdão
por nós recebidos.
João Paulo II – na Redemptor Hominis 9a, vai salientar que “Jesus Cristo, filho de Deus vivo, se tornou a
nossa reconciliação junto do Pai. Ele precisamente e só ele satisfez ao eterno amor do Pai, àquela paternidade que desde o
princípio se expressou na criação do mundo na doação ao homem de toda a riqueza do que foi Criado, ao fazê-lo pouco inferior
aos anjos, enquanto criado à imagem e à semelhança de Deus; e, igualmente satisfez àquela paternidade de Deus e àquele
amor, de certo modo rejeitado pelo homem, com a ruptura da primeira Aliança e das alianças posteriores que Deus repetidas
vezes ofereceu aos homens”.

e) Universalidade e nossa cooperação:


É de fé que Cristo morreu por todos os homens, i. é, que se entregou em resgate para que todos se
salvem; embora, muitos não se salvam, por não utilizarem os meios de salvação necessários.
Embora Cristo tenha morrido por todos os homens, não pode salvar-nos sem a cooperação da nossa
parte. É o próprio Cristo que nos ensina: “Se queres entrar na vida eterna, guarda os mandamentos” (Mt.
19,17). E Santo Agostinho diz: “Aquele que te criou sem ti não te salvará sem ti”, i. é, sem a tua cooperação.
João Paulo II na encíclica Redemptor Hominis 14, fala sobre a cooperação humana: “ O homem é o
caminho da Igreja, caminho que se encontra de certo modo na base de todos os caminhos pelos
quais deve caminhar a Igreja: porque o homem – todo o homem, sem exceção alguma – foi redimido
por Cristo, de algum modo. Mesmo quando o homem não é consciente disso. Cristo morto e
ressuscitado por todos os homens a estes, a todos e a cada um dos homens – oferece sempre a luz e a
força para poderem corresponder à sua altíssima vocação”.
8
8. A Encarnação do Verbo: União hipostática e suas implicações

União Hipostática: O concílio de Calcedônia em 451 definiu que em Jesus Cristo há uma só pessoa ou
uma só eu (divino) e duas naturezas. As duas naturezas – a divina e a humana – se unem entre si não por
laços afetivos, mas por subsistirem numa só e mesma pessoa. Deste modo, há um só Senhor em duas
naturezas, sem mistura, nem confusão, sem separação, nem divisão. Pois a união não suprime a diferença
das naturezas, cada uma conservando as suas propriedades e encontrando-se com a outra em uma única
pessoa.

Natureza: é a essência na medida em que é princípio de ação Ex.: A natureza humana é o ser homem
enquanto atua como homem (segundo a sua essência)

Pessoa: O conceito de pessoa não deve ser aplicado só à natureza ou à substância, mas também às relações.
O conceito de pessoa exprime o que há de mais perfeito no universo. E os coeficientes essenciais da pessoa
são a subsistência e a espiritualidade. É pessoa o que subsiste na ordem do espírito. O que se exige para
haver pessoa, além da espiritualidade, é a subsistência (a existência por si e em si; ter um ato próprio de
existir), não a natureza e nem mesmo a substância.

Jesus Cristo é verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem


Segundo os Santos Padres, Jesus é perfeito em divindade e perfeito em humanidade, o mesmo
verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, composto de uma alma racional e de um corpo,
consubstancial ao Pai segundo a divindade, consubstancial a nós segundo a humanidade, “semelhante a nós
em tudo, com exceção do pecado” (Hb 4,15); gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a
divindade, e nesses últimos dias, para nós e para nossa salvação, nascido da Virgem, Mãe de Deus, segundo
a humanidade.

De que maneira o Filho de Deus é homem


Uma vez que na união misteriosa da encarnação “a natureza humana foi assumida, não aniquilada, a
Igreja tem sido levada, ao longo dos séculos, a confessar a plena realidade da alma humana, com suas
operações de inteligência e vontade, e a do corpo de Cristo. Mas paralelamente, teve que lembrar cada vez
que a natureza humana de Cristo pertence “in proprio” à pessoa divina do Filho de Deus que a assumiu.
Tudo o que Cristo é e o que faz nela depende do um da Trindade. Na sua alma como no seu corpo, Cristo
exprime humanamente os modos divinos de agir da Trindade.

Concebido pelo poder do Espírito Santo, nascido da Vigem Maria

Quando se completou a plenitudes dos tempos (tempo propício) Deus enviou o seu Filho nascido de
uma mulher (Gl 4,4). Maria foi convidada a conceber em seu seio o Filho do Altíssimo, o Emanuel – Deus
conosco. Maria o concebeu pelo poder do Espírito Santo Lc 1,35.
A missão do Espírito Santo está sempre conjugada e ordenada à do filho. O Espírito Paráclito foi
enviado para santificar o seio da Virgem e fecundá-lo divinamente, ele que é o Senhor da Vida.

A alma e o conhecimento humano de Cristo


Apolinário de Laodicéia afirmava que em Cristo o Verbo havia substituído a alma ou espírito. Contra
esta heresia a Igreja confessou que o Filho assumiu também uma alma humana dotada de um verdadeiro
conhecimento humano. Enquanto tal, este não podia ser em si ilimitado: exercia-se nas condições históricas
da sua existência no espaço e no tempo. Por isso o Filho de Deus, ao tornar-se homem, pôde querer
“crescer em sabedoria, em estatura e em graça”(Lc 2,52) e também informa-se sobre aquilo que na condição
humana se deve aprender de maneira experimental.
Este conhecimento humano do Filho de Deus exprimia a vida divina da sua pessoa. A natureza
humana do Filho de Deus, não por si mesma mas pela sua união ao Verbo conhecia e manifestava nela tudo
o que cabe a Deus. Pela sua união à Sabedoria divina na pessoa do Verbo encarnado, o conhecimento
humano de Cristo gozava em plenitude da ciência dos desígnios eternos que vira revelar (Mc 8,31).

9
As duas vontades e operações em Cristo
Paralelamente, a Igreja confessou no III concílio de Constantinopla que Cristo possui duas vontades e
duas operações naturais, divinas e humanas, não opostas, mas cooperantes, de sorte que o Verbo feito carne
quis humanamente na obediência a seu Pai tudo o que decidiu divinamente com o Pai e o Espírito Santo
pela nossa salvação. A vontade humana de Cristo segue a vontade divina, sem estar em resistência nem
oposição em relação a ela, mas antes sendo subordinada a esta vontade todo-poderosa.

O Verdadeiro corpo de Cristo


O corpo de Cristo era delimitado, visto que o Verbo se fez carne assumindo a verdadeira humanidade.
Em razão disto, o rosto humano de Jesus pode ser representado (Gl 3,1). Ao mesmo tempo a Igreja
reconheceu que, no corpo de Jesus, Deus, que por natureza é invisível, se tornou visível aos nossos olhos.

A humanidade adorável de Cristo


A humanidade de Cristo é adorável em todas as suas partes porque a filiação divina atinge toda a
natureza humana. Ela deve ser adorada (cf. Dz 221), com adoração única, não dupla (uma direcionada ao
Verbo de Deus e outra á humanidade). A humanidade de Cristo é filha natural de Deus e não filha adotiva
como afirmava Nestório.

9. Conseqüências da encarnação

1. Ausência de Pecado
“Mas sabeis que ele se manifestou para tirar os pecados e nele não há pecado.” (3,5)
 A humanidade de Cristo não tinha nem pecado original e nem pecado pessoal.
 Pois não foi gerado por sêmen humano e tem por mãe , Maria Imaculada. Ainda mais, a humanidade
de Cristo é hipostasiada pelo Verbo (o que Deus toca é santificado).
 A Impecabilidade da Pessoa divina é metafísica – de Maria (impecabilidade moral).
 A Impecabilidade de Cristo não contraria a sua liberdade. Pois a liberdade é a faculdade pela qual a
natureza atua conforme a sua essência.
 A liberdade de Cristo é a maior que existe : totalmente aberta a ser o que é.
 Poder dizer sim ou não diante do pecado é uma limitação da criatura (livre arbítrio).

2. Ausência de Concupiscência
 Concupiscência ordenada: apetite sensível que se inclina aos seus objetos próprios, submisso à razão.
 Depois do pecado original, este apetite não, ficou mais submisso à razão, i. é., orientado para o bem
último, mas ordenado ao mal (opondo-se ao bem ou facilitando o mal).
 Em Cristo, há uma concupiscência ordenada à razão, pois ele é homem completo. Nele não há a
concupiscência desordenada, ou seja, a inclinação para o mal.

3. Santidade de Cristo

Graça da união (hipostática): na união hipostática Deus se deu a Jesus não por mediante um dom criado,
mas imediatamente por si, e de modo irreversível. Tal dom se chama “a graça da união”. Em conseqüência,
Jesus possuía uma santidade substancial, ao passo que nossa é acidental. Jesus é propriamente Filho de Deus
por viver da pessoa do Filho de Deus, i. é, Filho natural de Deus; nós, ao contrário, somos filhos adotivos.
Esta graça de união é exclusiva de Cristo e, por isso, é incomunicável. Ela é raiz da santidade de
Cristo (princípio ontológico).

Graça Habitual ou Santificante:


A essência da graça santificante de Cristo é a mesma da nossa. A dele se diz capital (cabeça) pois é
comunicada aos seus membros. Ela é ontológica e comunicável.
Cristo possui todas as virtudes exceto aquelas que se referem ao pecado: arrependimento e
penitência. No que se refere às virtudes teologais, podemos afirmar que Cristo possuiu a caridade, pois a
mesma é a essência de Deus. Já a Fé e a esperança enquanto virtudes teologais não. Jesus tinha confiança
(próxima da fé), mas não é fé, porém faz parte da fé. Cristo é o objeto da fé cristã. Já esperança Cristo a
tinha somente como espera do cumprimento das Escrituras e da vontade de Deus.
10
Os dons do Espírito Santo: são instrumentos para o trabalho da graça santificante.

• Sofrimento e morte
 São conseqüências do pecado original.
 Por que Cristo assumiu o sofrimento e a morte e não assumiu concupiscência, dado que todas são
conseqüência do pecado original?
 Cristo quis assumi-las porque não constituem em si uma desordem moral (diferente da
concupiscência)
 O Sofrimento e a morte são causa instrumental e exemplar da salvação.
 Sofrer e morrer para nós é justiça; para Cristo é misericórdia. Se vivermos estas realidades em
Cristo, aquilo que era sinal de condenação torna-se sinal de salvação.
 Dz 212-255 “A princípio, Jesus poderia ter dispensado as duas conseqüências do pecado:
sofrimento e morte. Porém a humanidade de Jesus é instrumento de salvação – o Verbo encarnado
assume a obra de redenção do homem, assumindo as suas conseqüências. Cristo crucificado é causa
exemplar de nossa salvação.”

As ações teândricas de Cristo


Consiste em poder atribuir a Cristo-Deus o que é próprio da natureza humana, e a Cristo-homem o
que é própria da natureza divina. Note-se enfim, quanto à expressão “operação teândrica”, que em certo
sentido todas as obras de Jesus, mesmo as puramente humanas, eram “teândricas”, no sentido que sempre
o agente era o Deus Feito homem.

Ciência humana de Cristo


Na inteligência humana de Cristo, podemos distinguir três níveis de conhecimento. Eles já que
pertencem a determinadas criaturas, devem necessariamente ser atribuídos a Cristo: visão beatífica (anjos),
ciência infusa (alguns santos) e ciência adquirida (todos os homens).

a) Visão Beatífica
 Cristo teve a visão beatífica desde o instante de sua união com a pessoa divina do Verbo, isto é,
desde de sua concepção no seio da Virgem Maria. Por isso Cristo foi ao mesmo tempo, como
explica a escolática, viator (ciência infusa e adquirida) e comprehensor, isto é, peregrino pela terra e
possuidor da meta da peregrinação.1
 O Papa Pio XII declarou na encíclica Mystici Corporis (1943): “Incluso aquele conhecimento que
chamam conhecimento de visão beatífica o possui (Cristo) em tal plenitude que supera com muita
extensão e claridade a contemplação beatífica dos bem-aventurados no céu... Em virtude daquela
visão beatífica, da qual desfrutou desde o mesmo instante de ser concebido no seio da Mãe de Deus,
tem presente sem cessar e em cada instante a todos os membros de seu corpo místico”.
 Também o Santo Ofício (1918) afirma que Jesus possuía a visão beatífica.
 Cristo Não podia explicar nem comunicar a Visão Beatífica nem para Ele mesmo nem para os
outros. Ela é conseqüência da graça de união. Ela é o conhecimento direto de Deus por parte de
uma criatura, é participação do conhecimento de Deus.

b) Ciência Infusa

 A alma de Cristo teve ciência infusa desde de sua origem.

 A ciência infusa é um conhecimento que se verifica mediante espécies espirituais, que, a modo de
hábito, Deus comunica imediatamente a alma. Se distingue da ciência beatífica pois as coisas são
conhecidas em sua própria natureza. Se distingue da ciência adquirida porque Deus comunica a mente
às espécies em ato primeiro, sem que ela tenha que formá-las pela percepção dos sentidos e a
abstração direta das coisas e da obra de Deus. A ciência infusa de Cristo, Segundo a Doutrina de Sto.
Tomás, abarca por um lado tudo o que pode ser naturalmente objeto do conhecimento humano, e
por outra parte tudo o que Deus comunicou aos homens por revelação sobrenatural, mas não
compreende a essência mesma de Deus, que é objeto da ciência beatífica.

1 Isso não é dogma de fé, mas ensinamento do Magistério Ordinário da Igreja.


11
 A ciência infusa tem dois objetos: Deus e o homem

c) Ciência adquirida (Kénosis)

 Conhecimento natural do homem.

A ciência adquirida é o conhecimento humano natural que parte da experiência sensível e se realiza
pela atividade abstrativa do intelecto. Na ciência adquirida, a consciência de que Cristo é Deus vai crescendo
progressivamente. Isso não significa que este conhecimento só apareça num dado momento de sua
existência. Ele sempre teve a consciência de ser Deus (V. beatífica e ciência infusa). Essa consciência
progrediu na ciência adquirida. Lc 2,52 “E Jesus crescia em sabedoria, estatura e em graça, diante de Deus e
diante dos homens”.

Conforme o texto de Lc 2,52, é necessário admitir um progresso do saber, humano de Cristo. Na


ciência beatífica e na infusa, segundo Sto. Tomás, não é possível um progresso real do saber, pois estas
duas classes de conhecimento abarcam desde o princípio todas as coisas reais do passado, do presente e do
futuro, o progresso do saber em Cristo somente pode significar uma manifestação sucessivamente maior,
segundo o nível da idade, do saber que já possuía Cristo desde o princípio2. Na ciência adquirida era
possível o progresso real do saber, por quanto o hábito da ciência, adquirida por via natural, podia ir
crescendo passo a passo pelo trabalho abstrativo do intelecto. Como os conhecimentos que Cristo adquiriu
pela ciência experimental se continham já na ciência beatífica e na infusa, no eram novos enquanto a seu
conteúdo, senão unicamente enquanto ao modo de adquiri-los3.

10. Predestinação de Jesus e a nossa


1. Fundamento bíblico da predestinação de Cristo
 At. 2,23 “Este homem, entregue segundo o desígnio determinado e a presciência de Deus, vós
o mataste. Cruscificando-o pela mão dos ímpios”.
 At. 4,28 “para executarem tudo o que, em teu poder e sabedoria, havias predestinado”.

2. Cristo o primeiro predestinado


Santo Agostinho, afirma que o próprio Salvador, o mediador entre Deus e os homens, o Senhor
Jesus Cristo, foi predestinado enquanto homem4.

 A humanidade de Jesus foi predestinada a união hipostática (filiação divina) e ao Mistério Pascal.
 (graça de união faz da humanidade de Cristo Filha natural de Deus, enquanto que em nós a graça do
Batismo nos faz filhos adotivos de Deus).
 Pelo Espírito Santo, Cristo é concebido e gerado, e pelo mesmo Espírito, nós renascemos pelas águas
do Batismo.
 Pelo Espírito Santo, a humanidade de Cristo é isenta de pecados, e pelo mesmo somos remidos de
nossos pecados.
 Cristo foi predestinado a ser cabeça da Igreja e nós somos predestinados a ser membros do corpo
místico de Cristo.
 Tanto a predestinação de Cristo enquanto homem e a nossa é um dom gratuito de Deus.

IV. Mistério da vida de Jesus


Toda a vida de Cristo se mostra como um grande mistério. Em nossa profissão de fé só se fala dos
mistérios da Encarnação (concepção e nascimento) e da Páscoa (paixão, crucifixão, morte, sepultamento,
descida aos infernos, Ressurreição e Ascensão). Não diz nada, de modo explícito, dos mistérios da vida
oculta e pública de Jesus. Contudo, os artigos de nossa fé referentes à encarnação e à páscoa de Cristo
iluminam toda a vida terrestre de Cristo.

2 S. III 1a art. 2 q. 2
3 S.th. III 12,3
4 A predestinação dos Santos, cap. 15,30-31: Pl 44, 981-983; Ofício das Leituras, T. Comum, Sexta-feira da 13ª semana.

12
A Humanidade de Cristo aparece assim como “o sacramento”, isto é, o sinal e o instrumento da sua
divindade e da salvação que ele traz: o que havia de visível na sua vida terrestre apontava para o mistério
invisível da sua filiação divina e da sua missão redentora.

1. Traços comuns dos mistérios de Jesus


 Toda a vida Cristo é Revelação do Pai: suas palavras e seus atos, seus silêncios e seus sofrimentos, sua
maneira de ser e de falar. (Jo 14,9);
 Toda a vida de Cristo é mistério de Redenção, Redenção que nos vem antes de tudo do seu sangue na
cruz, mas este mistério está em ação em toda vida de Cristo. (1Pd 1,18-19)
 Toda vida de Cristo é mistério de Recapitulação. Pois tudo o que Jesus fez, disse e sofreu, tinha por
meta restabelecer o homem caído na sua vocação primeira..

2. Os Mistérios da Infância de Jesus


A Circuncisão de Jesus é sinal da sua inserção na descendência de Abraão, no povo da Aliança, da
sua submissão à lei. Este sinal prefigura “a circuncisão” que é o Batismo (Cl 2, ll-l3).
A Epifania é a manifestação de Jesus como Messias de Israel, Filho de Deus e Salvador do mundo e
também manifesta que “a plenitude dos pagãos entra na família dos patriarcas e adquire a dignidade
israelítica”.
A Apresentação de Jesus no Templo mostra-o como o Primogênito pertencente ao Senhor. Jesus é
reconhecido como Messias tão esperado (Ana e Simeão), “luz das nações” e “glória de Israel“, mas
também sinal de contradição. A espada de dor predita a Maria anuncia esta outra oblação, perfeita e única,
da cruz, que dará a salvação que Deus “prepara diante de todos os povos”.
A fuga para o Egito e o massacre dos inocentes manifestam a oposição das trevas à luz (Jo l, ll).
Toda a vida de Cristo estará sob o signo da perseguição. Sua volta do Egito lembra o Êxodo e apresenta
Jesus como o libertador definitivo.

3. Os mistérios da vida oculta de Jesus


Cristo em grande parte de sua vida, levou uma vida simples com trabalhos manuais, tinha uma vida
religiosa baseada na Lei mosaica. A sua submissão aos seus pais (José e Maria) é sinal da obediência filial ao
Pai celeste (Lc 22,42).
A vida oculta de Nazaré permite a todo homem estar unido a Jesus nos caminhos mais cotidianos
da vida.

4. O Batismo (Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22 e Jo 1,31-34)

A vida pública de Cristo iniciou-se com seu batismo por João no Jordão (batismo de
arrependimento ‘Lc 3,3’). O batismo de Jesus demonstra a sua aceitação e a inauguração da sua missão de
servo Sofredor e é sinal da sua sangrenta morte na cruz (Mc10,38).
Cristo se faz batizar para cumprir toda a justiça, i. é, submissão total a vontade do Pai: aceita por
amor o batismo de morte para a remissão dos pecados (Mt 3,26,39). A esta aceitação responde a voz do Pai
que coloca toda a sua complacência em seu Filho. (Lc 3,22).
Jesus que desde a concepção possui em plenitude o Espírito Santo, que repousou sobre ele no
Batismo (Jo 1,32-33), torna-se a fonte do Espírito para toda a humanidade.
No Batismo de Jesus, os céus se abriram (Mt 3,16), pois com o pecado de Adão haviam se fechado;
e as águas santificadas pela descida de Jesus e do Espírito, são prelúdio da nova criação. O batismo de Jesus
é sinal da primeira regeneração do homem.

5. A tenção no deserto
Após o Batismo, Jesus é “Levado pelo Espírito” ao deserto, Jesus ali fica quarenta dias sem comer,
sendo tentado por Satanás; e vive entre as feras, e os anjos o serviam (Mc 1,12-13). No término dessa
permanência, Satanás o tenta por três vezes, procurando questionar sua atitude filial para com Deus. Jesus
refuta os ataques de Satanás que recapitulam as tentações de Adão no Paraíso e de Israel no deserto, e o
Diabo afasta-se dele “até o tempo oportuno” (Lc 4,13).

13
O sentido salvífico deste acontecimento misterioso esta em que Cristo é o novo Adão, que ficou fiel
lá onde o primeiro sucumbiu à tentação. Jesus também cumpre à perfeição a vocação de Israel; Cristo se
revela como o Servo Deus totalmente obediente à vontade divina. A vitória de Jesus sobre o tentador no
deserto antecipa a vitória da paixão, obediência suprema do seu amor filial ao Pai.

6. Os milagres de Jesus e os sinais do Reino de Deus


A palavra milagre vem do latim miraculum = o que provoca admiração. Geralmente se considera o
milagre tão-somente sob este aspecto. A Bíblia, porém, fala de seméion, sinal (Jo 6, 26; l0, 37s; l2, 37; l5, 24);
ora o sinal é sempre algo que não tem sentido em si mesmo, mas é relativo; é uma mensagem dirigida a
alguém.
Jesus ao realizar milagres e sinais manifesta que o Reino está presente nele, atesta que é o Messias
anunciado, que o Pai o enviou, demonstra que veio recriar o homem decaído pelo pecado. Todos os
milagres realizados por Jesus estão orientados para o único e grandioso sinal, a Cruz (Mistério Pascal) Mt
12,38-42.
É pela Cruz de Cristo que o Reino de Deus será definitivamente estabelecido: “Regnavit a lingo
Deus _ Deus reinou do alto do madeiro”. Assim entendemos porque os milagres de Jesus estavam
profundamente inseridos dentro da pregação do Senhor; a ressurreição deveria ser o sinal por excelência ou
o sinal de Jonas (cf. Mt l2,38-40), que atenderia aos anseios dos fariseus.

7. A Transfiguração
A transfiguração de Jesus no monte Tabor diante de Pedro, João e Tiago confirma a confissão
petrina, i. é, a sua divindade.
Essa teofania manifesta toda a Trindade: a voz, o Pai “Este é o meu Filho, o Eleito; ouvi-o” (Lc
9,35); o Verbo, sacramentalizado na humanidade de Cristo e o Espírito a nuvem “... ainda falava, quando
uma nuvem desceu e os cobriu com sua sombra”(Lc 9,34).
Pelo Batismo de Jesus foi manifestado o mistério da primeira regeneração: o nosso Batismo; a
Transfiguração é o sacramento da segunda regeneração”: a nossa própria ressurreição. Desde já
participamos da Ressurreição do Senhor pelo Espírito Santo que age nos sacramentos do Corpo de Cristo.
A transfiguração dá-nos um antegozo da vinda gloriosa do Cristo”, que transfigurará o nosso corpo
humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso”(Fl 3, 2l).

V. Mistério Pascal

1. A última Ceia
Na última Ceia Jesus antecipou de modo supremo a oferta livre de si mesmo, fez desta ceia com
seus discípulos o memorial da sua oferta voluntária ao Pai (1 Cor 5,7): isto é o meu corpo que é dado por
vós (Lc22,19). “Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por muitos para a remissão dos
pecados” (Mt 26,28).
Nesta Ceia, mediante a instituição da Eucaristia, Cristo faz uma interpretação sacrifical de sua morte
na cruz (revelação do valor redentor da cruz: corpo entregue e sangue derramado – sacrifício – antecipação
sacramental da cruz).
Cristo se revela como vítima (o cordeiro de Deus) e sacerdote.
Cristo dá um passo fundamental na fundação da Igreja: Eucaristia e a Ordem, pois Cristo incluiu os
apóstolos na sua própria oferta e lhes pede que a perpetuem. Com isso institui seus apóstolos sacerdotes da
Nova Aliança: “Por eles, a mim mesmo me santifico, para que sejam santificados na verdade” (Jo 17,19).

2. Agonia de Jesus
O cálice da Nova Aliança, que Jesus antecipou na Ceia ofercendo-se a si mesmo, aceita-o em
seguida das mãos do Pai na sua agonia no Getsêmani, tornando-se “obediente até a morte” (Fl 2,8). Jesus
exprime o horror que a morte representa para sua natureza humana com a súplica “Meu Pai, se for possível,
que afaste de mim este cálice...” (Mt 26,39). A natureza humana de Jesus bem como a nossa está destinada à
vida eterna, embora seja diversa da nossa pois é totalmente isenta do pecado. Ao aceitar a vontade do Pai,
Cristo aceita a morte enquanto redentora para “carregar em seu próprio corpo os nossos pecados sobre o
madeiro” (1 Pd 2,24)
14
Jesus podia querer outra coisa do que à vontade do Pai? Ou a vontade humana de Cristo quis coisas
diferentes das que Deus quer?
Segundo São Tomas a natureza humana de Cristo encerra dupla vontade, a sensitiva, chamada
vontade por participação, e a racional, considerada quer como natureza, quer como razão. Ora, o Filho de
Deus, por uma certa dispensa e antes da sua paixão, permitia à carne fazer e sofrer como carne. E
semelhantemente, permitia a todas as suas faculdades agir como lhes era próprio. Ora, é manifesto que a
vontade sensitiva evita naturalmente as dores sensíveis e os sofrimentos do corpo. Semelhantemente, a
vontade como natureza evita o que lhe é contrário e o mal em si mesmo, como a morte e males
semelhantes. Deste modo, Cristo pela vontade da sensualidade, e pela racional, considerada como natureza,
podia querer coisas diversas da queridas por Deus. Mas, pela vontade racional queria sempre o mesmo que
Deus. Isso resulta das palavras mesmas de Cristo: Não se faça a minha vontade, mas sim a tua. Pois, queria,
pela vontade racional cumprir a vontade divina, embora diga que quer coisa diversa, pela sua outra vontade
(S.Th. III.q.18,a.5)

3. O grito de Jesus na Cruz “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”


O grito de Jesus na cruz é uma experiência de despersonalização, de abandono do Pai. Jesus na
cruz vive a separação de Deus, por obediência (ato interior), mudando o valor desta separação (morte -
vida). A morte, que antes era a conseqüência do pecado, aqui se torna causa de salvação. A pessoa do Verbo
assume a separação da humanidade de Jesus.

O significado teológico deste grito de Jesus: experiência salvífica do abandono de Deus em


solidariedade com a humanidade angustiada, separada de Deus pelo pecado.

Nesse grito Cristo reflete o significado de ter assumido a iniqüidade da humanidade inteira;
Naquela experiência, naquele brado, naquele “por que” dirigido ao céu, Jesus estabelece também um
modo de solidariedade conosco, pois muitas vezes elevamos a nossa voz ao céu, a fim de exprimirmos o
nosso sofrimento.
No por que de Cristo não há sentimento ou ressentimento algum que leve á revolta e nem é censura
dirigida ao Pai, mas é expressão de uma experiência de fragilidade, de solidão, do abandono a si mesmo,
feita por Jesus em nosso lugar.

Interpretação psicológica
Jesus experimenta de fato o sentimento de ser abandonado pelo Pai, Ele sabe, contudo que não o é
de modo algum. Ele próprio disse ao falar da paixão: “não estou só, porque o Pai está comigo”. No vértice
do seu espírito, Jesus tem a nítida visão de Deus e a certeza da união com o Pai. Mas nas zonas de confim
com a sensibilidade, e portanto mais sujeita às impressões, às emoções e às repercussões das experiências
dolorosas interiores e exteriores, a alma humana de Jesus está reduzida a um deserto, e Ele já não sente a
“presença” do Pai, mas faz a trágica experiência da mais completa desolação. Na esfera dos sentimentos e
dos afetos, este senso da ausência e do abandono de Deus foi a pena mais pesada para a alma de Jesus, que
hauria a sua força e a sua alegria da união com o Pai. Na alma aflita de Jesus decerto estava presente a
perspectiva da libertação e a salvação do gênero humano (pois todas as vezes que Cristo falava de sua
morte a apresenta como passagem para a sua ressurreição e glorificação). E perante este pensamento a Sua
alma retoma vigor e alegria, sentindo que está perto, precisamente no ápice do drama da Cruz, a hora da
vitória.
O papa João Paulo II na Carta Apostólica Salvifici Doloris afirma que << Cristo, mediante a
profundidade divina da união filial com o Pai, apercebe-se, de modo humanamente inexprimível, desde
sofrimento que é a separação, a rejeição do Pai, a ruptura com Deus. Mas é exatamente mediante este
sofrimento que ele realiza a Redenção e pode dizer ao expirar: “Tudo está consumado” (Jo 19,30)>>.

4. O Segundo grito de Jesus na Cruz: A sede de Jesus

Sentido Físico
Jesus relaciona à sede física, ao grande tormento que faz parte da pena da crucifixão. E ao
manifestar a sua sede Jesus deu prova de humildade, exprimindo uma elementar necessidade física. Cristo
também se mostra solidário com todos aqueles que, vivos ou moribundos, sãos ou doentes, pequeninos ou
adultos que tem necessidade e pedem ao menos um pouco de água.

15
Sentido simbólico
Segundo o evangelista João quando Cristo exprime “tenho sede” é para que se cumpra a Escritura
(Jo 19,28). Já nas palavras do salmista: “A minha garganta secou-se como barro cozido, a minha língua
pegou-se ao meu paladar; reduzistes-me ao pó da morte” (Sl 21/22), trata-se de uma sede física, mas que
nos lábios de Cristo ela se reencontra na perspectiva messiânica do sofrimento da Cruz. O Cristo
moribundo procura uma bebida muito diferente da água ou do vinagre: “como quando no poço de Sicar
tinha pedido à samaritana : Dá-me de beber” (Jo 4,7). A sede física é símbolo de outra sede: a da conversão
daquela mulher. Agora, na cruz, Jesus tem sede de uma humanidade nova, que deverá surgir do seu
sacrifício, em cumprimento da Escritura.
A sede da Cruz, na boca de Cristo moribundo, é a última expressão daquele desejo do batismo a
receber e do fogo a acender sobre a terra, que tinha sido por ele manifestado em vida (Lc 12,49-50). Agora
aquele desejo está para realizar-se, e com aquelas suas palavras Jesus confirma o ardente amor com que quis
receber aquele supremo “batismo” para abrir a todos nós a fonte da água que verdadeiramente extingue a
sede e salva (Jo 4,13-14).

5. A morte redentora de Cristo


A morte (separação do corpo e da alma) de Cristo não foi o resultado do acaso num conjunto infeliz
de circunstâncias. Ela parte do mistério do projeto de Deus, como explica S. Pedro aos judeus de Jerusalém
já em seu primeiro discurso de Pentecostes : “Ele foi entregue segundo o desígnio determinado e a
presciência de Deus” (At 2,23).
A morte de Cristo é o sacrifício único e definitivo pois é ao mesmo tempo o sacrifico pascal que
realiza a redenção definitiva dos homens pelo “cordeiro que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29) e o sacrifício
da nova e eterna aliança que recoloca o homem em comunhão com Deus, reconciliando-o com ele pelo
“sangue derramado por muitos para a remissão dos pecados” (Mt 26,28).

Problemas referentes a morte de Cristo:

a) Se foi conveniente a morte de Cristo.


A morte de Cristo foi conveniente, 1º para satisfazer e remir todo o gênero humano, condenado à
morte pelo pecado; 2º para mostrar que assumiu verdadeiramente a natureza humana. 3º a fim de,
morrendo, livrar-nos do temor da morte (Hb 2,14); 4º a fim de, ressurgindo dos mortos, mostrasse o seu
poder, pela qual venceu a morte e desse a esperança de ressurgir dos mortos (I Cor 15,12).

b) Se na morte de Cristo a divindade separou-se da carne.


Está questão é interessantíssima e de grande importância para compreender o verdadeiro alcance da
união hipostática das duas naturezas na pessoa única de Cristo (Verbo), que é um dogma fundamental de
nossa fé.
Santo Tomás e São João Damasceno afirmam que pelo fato da morte de Cristo a alma tenha sido
separada da carne, a única pessoa não foi dividida em duas pessoas: pois o corpo e alma de Cristo existiram
da mesma forma desde o início na pessoa do Verbo; e na morte, embora separados um do outro, ficaram
cada um com a mesma e única pessoa do Verbo.

c) Se na morte de Cristo houve separação entre a divindade e a alma


“A alma está unida ao Verbo de Deus mais imediatamente que ao corpo, e anteriormente a esta
segunda união; pois, o corpo está unido ao Verbo de Deus mediante a alma. Ora, como o Verbo de Deus
não se separou, na morte do corpo, com muito maior razão não se separou da alma.”

6. Sepultura
A permanência de Cristo no túmulo constitui o vínculo real entre o estado passível de Cristo antes
da Páscoa e o seu atual estado glorioso de ressuscitado. É a mesma pessoa do ‘Vivente’ que pode dizer:
Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos (Ap. 1,18).”.
Durante a sua permanência no túmulo, sua Pessoa Divina continuou assumir tanto a sua alma como
o corpo, embora separados entre si pela morte. Por isso o corpo de Cristo “não viu a corrupção” (Sl 15,10).
João Paulo II, em seu discurso de 4a feira, 11 de janeiro de 1989: “Desceu aos infernos”: o poder da
morte sacrifical de Cristo: “...sofreu a sorte do homem, até a morte, à qual sucede habitualmente a
sepultura, pelo menos no mundo cultual e religioso no qual Ele se inseriu e viveu. A sepultura de Cristo é,
16
pois objeto da nossa fé, uma vez que nos repropõe o seu mistério de Filho de Deus, que se fez homem e
foi levado até o extremo da vicissitude humana”.

7. Jesus Cristo desceu aos infernos ressuscitou dos mortos no terceiro dia
Na expressão “Jesus desceu a mansão dos mortos” o símbolo confessa que Jesus morreu
realmente, e que pela sua morte por nós, venceu a morte e o Diabo, “o dominador da morte” (Hb 2,14).
Cristo morto, na sua alma unida à sua pessoa divina, desceu à morada dos mortos (infernos, Sheol
ou o Hades), não para libertar os condenados nem para destruir o Inferno da condenação, para libertar os
justos que o haviam precedido.
A descida de Cristo aos infernos foi à fase última da sua missão messiânica e o cumprimento, até à
sua plenitude, do anúncio evangélico da salvação.
João Paulo II no seu discurso sobre “a descida aos infernos”, de 4a feira, 11 de janeiro de 1989
afirma, que não devemos entender o inferno como o lugar dos condenados, mas a habitação dos mortos:
onde os mortos antes de Cristo, esperam a salvação.
O Papa apresenta ainda dois significados sobre a expressão descida aos infernos:
A morte de Cristo foi real, e não aparente. A sua alma, separada do corpo, glorificada estava em
Deus, mas o corpo jazia no sepulcro como um cadáver. Durante os três dias (não completos) passados entre
o momento em que “expirou” (Mt 15,37) e a ressurreição, Jesus experimentou o “estado de morte”, isto é, a
separação da alma e do corpo, no estado e condição de todos os homens.
Se a morte comporta a separação da alma e do corpo, disto deriva que também para Jesus se
verificou, por um lado, o estado de cadáver do corpo e, por outro, a glorificação celeste da sua alma, desde
o momento da morte.. “Cristo morreu segundo a carne, mas foi vivificado segundo o Espírito” (I Pd. 3, 18).
É Cristo que, deposto do sepulcro quanto ao corpo, mas glorificado na sua alma admitida na
plenitude da visão beatífica de Deus, comunica o seu estado de beatitude a todos os justos, com os quais
compartilha, quanto ao corpo, o estado de morte... nisto se manifesta e realiza o poder salvífica da morte
sacrifical de Cristo, a qual operou a redenção para todos os homens; também daqueles que tinham morrido
antes da sua vida e da sua “descida aos infernos”, mas que foram alcançados pela sua graça justificadora.

8. No terceiro dia ressuscitou dos mortos


O mistério da Ressurreição de Cristo é um acontecimento real que teve manifestações
historicamente constatadas, como atesta o Novo Testamento.5 “Contudo, a Ressurreição de Cristo
transcende e ultrapassa a história. Ninguém viu o fato em si. Ninguém pode ser testemunha ocular do
acontecimento ... ninguém pode dizer como ele se efetuou fisicamente”.
É este valor meta-histórico que nós devemos considerar se quisermos, de algum modo, dar-nos
conta do mistério daquele acontecimento histórico, trans-histórico.
‘O corpo de Jesus, na Ressurreição, fica repleto do poder do Espírito Santo, feito participante da
vida divina no estado de glória’, de modo que se pode dizer, com S.Paulo, que é o ‘O homo caeletis’ (1 Cor
15,47ss). Neste sentido, a ressurreição de Cristo encontra-se para além da dimensão histórica, é um
acontecimento que pertence à esfera meta-histórica, e por seguinte foge aos critérios da simples observação
empírica humana6”.

9. Ressurreição – obra da Santíssima Trindade - CIC 648-650


A Ressurreição de Cristo é objeto de fé enquanto intervenção transcendente do próprio Deus na
Criação e na história. Nelas as três pessoas Divinas agem ao mesmo tempo juntas e manifestam a sua
originalidade própria. Ela aconteceu pelo poder do Pai que “ressuscitou Cristo, seu filho, e desta forma
introduziu de modo perfeito a sua humanidade – com o seu corpo – na Trindade. Jesus é revelado “Filho de
Deus com poder por sua Ressurreição dos mortos segundo o Espírito de Santidade” (Rm 1,3-4). O Filho
opera, por sua vez, a própria Ressurreição em virtude do seu poder divino.

10. Relação entre Ressurreição e Encarnação


Por ser obra trinitária e meta-histórica a Ressurreição acontece de modo semelhante à Encarnação.
Com efeito, a Encarnação acontece sem testemunha: o diálogo com Maria que precede à encarnação não

51Cor. 15, 3-4.


6João Paulo II, alocução 1 de março de 1989. O. R. 5 de março de 1989, p. 12 “A Ressurreição de Cristo, acontecimento
histórico-meta-histórico da Ressurreição de Cristo”.
17
torna Maria testemunha ocular da Encarnação. E como a Ressurreição a Encarnação é obra Trinitária e obra
meta-histórica ao mesmo tempo em que se dá na história.

11. Paralelos entre Encarnação e Ressurreição

1) não há testemunha do fato como tal.


2) É uma obra trinitária, histórica e meta-histórica;
3) Presença dos anjos (testemunhas dos mistérios);
4) Presença das mulheres (morte – vida)
5) Encarnação (Verbo unido ao corpo e à alma) – Ressurreição (Verbo unido ao corpo e alma
glorificados);
6) Papel do Espírito Santo (Rm 1,3-4).
7) A ressurreição é a prova definitiva da verdade da encarnação7.

12.Efeitos da Ressurreição
O papa observa que “De certo o mistério pascal, como toda a vida e a obra de Cristo, tem uma
profunda unidade interior na sua função redentora e na sua eficácia, mas isto não impede que nele se pode
distinguir vários aspectos em relação aos efeitos que dele advém ao homem. Daqui a atribuição do
específico efeito da ‘vida nova’ para a ressurreição como afirma S. Paulo8” e à morte a libertação do pecado
(Rm 4,25).
“Três são os efeitos: Vida nova, fonte da nossa futura ressurreição, processo inefável
espiritualização dos corpos. Na esperança de esta espiritualização definitiva, Cristo vive nos corações dos
crentes, fonte, no espírito, de vida divina, de filiação divina, fonte da futura ressurreição9”.
A ressurreição de Cristo é causa exemplar da nossa Salvação e a causa eficiente. Contudo, não pode
ser causa meritória (pois é um evento pós-morte).

VI. “Jesus subiu aos Céus, está sentado à direita de Deus Pai Todo-Podoroso”

1. Ascensão e Encarnação

“Ninguém jamais subiu ao céu a não ser aquele que desceu do céu, o filho do Homem.” (Jo 3,13).

A Ascensão de Cristo assinala a entrada definitivamente da humanidade de Cristo no domínio


celeste de Deus, donde voltará, mas que até lá o esconde aos olhos dos homens.
“A Ascensão integra-se no mistério da encarnação, do qual é o momento conclusivo...A Ascensão
ao céu está portanto totalmente ligada à ‘economia da salvação’ que se exprime no mistério da Encarnação,
e sobretudo na morte redentora de Cristo na Cruz”, afirma João Paulo II10.

2. Ascensão e Morte na Cruz (elevação) - CIC 662


Citando e comentando Jo 3,14 e 12,32, o Papa conclui que: “A ‘elevação” na Cruz é o sinal da outra
‘elevação’, que se dará mediante a Ascensão ao Céu. O Evangelho de João vê esta ‘exaltação’ do Redentor já
no Gólgota. A cruz é o início da Ascensão ao Céu”.

3. Significado salvífico da Ascensão - 668


A Ascensão de Cristo ao Céu significa a sua participação, na sua humanidade, no poder e na
autoridade do próprio Deus.

4. Ascensão e leis do tempo


Cristo na e após a ressurreição e na ascensão se subtraiu plena e definitivamente às leis do tempo e
do espaço, para subir ao céu.

7 João Paulo II, alocução 8 de março de 1989. O.R. 12 de março de 1989, p.12 “Relação entre Ressurreição e encarnação –

Plenitude da Revelação.
8 João Paulo II, alocução 15 de março de 1989. O.R. 19 de março de 1989, “Efeitos da Ressurreição .
9 idem.
10 João Paulo II, alocução 5 de abril de 1989. O. R. de abril de 1989, p. 8 “Ascensão: mistério anunciado”.

18
5. Ascensão e descida do Espírito Santo
Nos At 2,32-33, as palavras de Pedro atestam a convicção dos Apóstolos de que só com a
Ascensão Jesus ‘recebeu do Pai o Espírito Santo’ para o derramar, como tinha prometido.

6. Pentecostes: A Igreja
No dia de Pentecostes o Espírito Santo é manifestado, dado e comunicado como Pessoa Divina:
aos apóstolos e a Igreja.
Neste dia é revelada plenamente a Santíssima Trindade. A partir deste dia, o Reino anunciado por
Cristo está aberto aos que crêem nele; na humildade da carne e na fé, eles participam já da Comunhão da
Santíssima Trindade. Pela sua vinda – e ela não cessa – o Espírito Santo faz o mundo entrar nos “últimos
tempos”, o tempo da Igreja, o Reino já recebido em herança, mas ainda não consumado: Vimos à verdadeira
Luz, recebemos o Espírito celeste, encontramos a verdadeira fé, adoramos a Trindade indivisível, pois foi ela quem nos salvou11.
A missão de Cristo e do Espírito Santo realiza-se na Igreja, Corpo de Cristo e Templo do Espírito
Santo. Esta missão conjunta associa a partir de agora os fiéis de Cristo à sua Comunhão com o Pai no
Espírito Santo: o Espírito prepara os homens, antecipa-se a eles pela sua graça, para atraí-los a Cristo.
Manifesta-lhes o Senhor ressuscitado, lembra-lhes a sua palavra, abrindo-lhes o espírito à compreensão da
sua Morte e Ressurreição. Torna-lhes presente o mistério de Cristo, eminentemente na Eucaristia, a fim de
reconciliá-los, de colocá-los em comunhão com Deus, a fim de fazê-los produzir “muito fruto” (Jo l5, 5.8.
l6).

7. Donde virá julgar os vivos e os mortos


Desde a Ascensão, o desígnio de Deus entrou na consumação . Já estamos na “última hora” (1Jo
2,18). “Portanto, a era final do mundo já chegou para nós, e a renovação do mundo está irrevogavelmente
adquirida e de um certo modo real já é antecipado nesta terra. Pois já na terra a Igreja é assinalada com a
verdadeira santidade, embora imperfeita”. Nela o Reino de Cristo já está presente, mas ainda não está
consumado.
Cristo afirmou antes da sua Ascensão que ainda não chegara a hora do estabelecimento glorioso do
Reino messiânico esperado por Israel . O tempo presente é um tempo de expectativa e vigília.
Antes do advento de Cristo a Igreja deve passar por uma provação final que abalará a fé de
muitos12.
A Igreja só entrará na glória do Reino através desta derradeira Páscoa, em que seguirá seu Senhor na
sua Morte e Ressurreição. Portanto o Reino não se realizará por um triunfo histórico da Igreja, mas pela
vitória de Deus sobre o mal; que fará a sua Esposa descer do Céu 13. Esse triunfo de Deus sobre o mal
assumirá a forma de Juízo Final14.
No Juízo do último dia, que Cristo anunciara em sua pregação será patenteada a conduta de cada
um e o segredo dos corações. Será também condenada a incredulidade culpada que fez pouco caso da graça
oferecida por Deus.
O pleno direito de Julgar definitivamente as obras e os corações dos homens pertence a ele
enquanto Redentor do mundo. Ele adquiriu este direito pela sua cruz. O Pai entregou “todo o julgamento
ao filho” (Jo 5,22). Ora, o Filho não veio para julgar, mas para salvar15 e para dar a vida que está nele16. É
pela recusa da graça na presente via que cada um já se julga a si mesmo, recebe de acordo com suas obras e
pode até condenar-se para a eternidade ao recusar o espírito de amor17.

11 Liturgia bizantina, Tropário das vésperas de Pentecostes; ele é tomado nas Liturgias eucarísticas após a comunhão.
12 Lc 21,24
13 Ap. 21,2-4
14 Ap. 20,12
15 Jo 3,17
16 Jo 5,26
17 Mt 12,32

19
Conclusão

Neste breve tratado de Cristologia não tivemos a pretensão de abarcar e esgotar todo o mistério
e conhecimento do Filho de Deus, nascido da Virgem Maria.
Mais abordar a pessoa mais importante na história da humanidade, que foi Jesus de Nazaré que
deve ser conhecido e amado por todos os homens. Pois o mesmo crucificado diz: “quando eu for
levantado da terra, atrairei a mim todos os homens” (Jo 12,32).
Mais que um conhecimento intelectual da Cristologia que é fruto de uma reflexão teológica,
devemos levar em conta que o estudo da pessoa de Jesus Cristo deve nos levar a viver a mesma
obediência filial de Cristo ao Pai no cotidiano da nossa vida pessoal e comunitária. Precisamos fazer das
palavras do apóstolo das gentes, São Paulo uma reflexão permanente para entendermos e conhecermos
a pessoa de Jesus:
“Mas o que para mim era lucro passei a considerá-lo como perda por amor de Cristo; sim, na
verdade, tenho também como perda todas as coisas pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus,
meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como refugo, para que possa
ganhar a Cristo, e seja achado nele, não tendo como minha justiça a que vem da lei, mas a que vem pela
fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé; para conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição
e a e a participação dos seus sofrimentos, conformando-me a ele na sua morte, para ver se de algum
modo posso chegar à ressurreição dentre os mortos. Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito;
mas vou prosseguindo, para ver se poderei alcançar aquilo para o que fui também alcançado por Cristo
Jesus.
Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que,
esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo
pelo prêmio da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus”.

20
Bibliografia

A BÍBLIA DE JERUSALÉM, São Paulo: Ed. Paulinas, 1973.

DENZIGER, Enrique. El Magistério de La Igrlesia. Barcelona: Ed. Paulinas, 1987.

JOÃO PAULO II. Catecismo da Igreja Católica. Petrópolis: Ed. Vozes, 1997.

JOÃO PAULO II. Encíclica Redemptor Hominis. São Paulo: Ed. Paulus.

PAULO VI. Documento do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Ed. Paulus, 1997.

BETTENCOURT, Estevão Tavares. Escola Mater Ecclesiae. Rio de Janeiro: Ed. PAT.

GOMES, Cirilo Folch. Riquezas da Mensagem Cristãs. Rio de Janeiro: Ed. Lúmen Christi,1989.

PABLO, Arce e RICARDO, Sada. Curso de Teologia Dogmática. Lisboa: Ed: Rei dos Livros, 1992.

REYRO, Maximino Arias. El Dios de Nuestra Fe. Bogota: CELAN, 1991.

BUJANDA, J.. Manual de Dogmática. Porto. Ed.: Emprese de Publicidade do Norte, 1952.

AQUINO, S. Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Ed. Linográfica, 1959.

MARIN, Royo. JesuCristo y la vida cristiana. Madrí: Ed. BAC, 1961.

AQUINO, Felipe. Escola da Fé “Sagrada Tradição I. São Paulo: Ed. Loyola e Cléofas.

21