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O

Estado Servil

Capa:

A imagem que ilustra a capa trata-se de um vitral projetado por George Bernad Shaw e cujo nome é Janela Fabiana. A peça
foi retirada da casa de Beatrice Webb, em Surrey, Inglaterra, e hoje encontra-se na London School of Economics and Political
Science, fundada em 1895 por membros da Sociedade Fabiana.
No topo do vitral é possível ler a última linha dum poema escrito por Omar Khayyam, matemático, astrônomo, filósofo e
poeta persa:
“Dear love, couldst thou and I with fate conspire
To grasp this sorry scheme of things entire,
Would we not shatter it to bits, and then
Remould it nearer to the heart’s desire!”
“Querido amor, não poderíamos eu e você
Conspirar com o destino para afastar completamente
Este lamentável esquema das coisas?
Não o despedaçaríamos por completo,
Apenas o remodelaríamos ao nosso gosto!”
Abaixo deste trecho, no canto direito, vemos Sidney Webb e Bernard Shaw manipulando um globo incandescente, a Terra,
recém-saído da fornalha alimentada por Edward R. Pease sendo martelada sobre uma bigorna, isto é, a construção de um novo
mundo remodelado pela Sociedade Fabiana. Um escudo sobreposto à fornalha diz “pray devoutly, hammer stoutly” (ore
devotadamente, martele fortemente). Acima da Terra um brasão com um lobo em pele de cordeiro. Na porção inferior da
janela, ao lado esquerdo, podemos ver o historiador, filósofo e novelista britânico H. G. Wells consternado ao ver a burguesia
ajoelhada parente uma pilha de livros que advogam as teorias socialistas.

O Estado Servil

Hilaire Belloc


Editora Danúbio
© The Servile State: Hilaire Belloc, 1912
© Tradução: Fausto Machado Tiemann, 2017

Ficha Catalográfica
Belloc, Hilaire, 1870–1953

Estado servil, o / Hilaire Belloc; prefácio de Rhuan Reis do Nascimento; edição de Diogo Fontana e Jefferson Bombachim. — 1º ed. — Curitiba, PR: Livraria Danúbio Editora, 2017; 180 pp.

ISBN: 978-85-67801-11-7

1. Ensaios. 2. História 3. Economia I. Título.


CDD – 900


Editor:
Diogo Fontana
Editor-assistente:
Jefferson Bombachim
Editoração:
Caterina Veneziano Pacce
Capa:
Matheus Bazzo

Distribuição:
CEDET - Centro de Desenvolvimento Profissional e Tecnológico
Rua Ângelo Vicentim, 70, Campinas/SP
Todos os direitos desta edição pertencem à Livraria Danúbio Editora Ltda.
CNPJ: 17.764.031/0001-11– Site: www. editoradanubio.com.br

Proibida toda e qualquer reprodução desta edição por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer outro meio de reprodução, sem permissão expressa do editor.

AGRADECIMENTOS

O editor agradece aos mecenas que viabilizaram esta edição:


Bráulio Mendes
Caio Ometto
Cristiano Xavier
Douglas Winck
Edivar Silva Sales Junior
Eduardo de Sousa Arandas
Emerson Marinho
Fabricio Esmeraldino de Jesus
Gabriel Albuquerque
Izabel Christina Ghermacovski
Jair Soares de Oliveira Segundo

Jéferson Passig
Josuel dos Reis Muniz
Lucas Mendes
Marcelo Guizzo
Marcelo Pasqualette
Matheus Sturari
Orlando Tosetto
Rodrigo Cassanta Rossi
Ronaldo Lucas da Silva
Silvano Fontes
Spartacus E. Bottaro Marques


Este livro foi publicado por meio de financiamento coletivo privado. Nenhum centavo de dinheiro público
foi usado pela editora.

ÍNDICE

Introdução à edição brasileira 9


Prefácio da terceira edição 17
Prefácio da segunda edição 19

Introdução
O assunto deste livro 29

Seção I
Definições 35

Seção II
Nossa civilização era originalmente servil 51
Seção III
Como a instituição servil foi por um tempo dissolvida 59

Seção IV
Como o estado distributivo ruiu 71

Seção V
A estado capitalista, na proporção que se torna mais perfeito, torna-se mais instável 89

Seção VI
As soluções estáveis para esta instabilidade 101

Seção VII
O socialismo é a solução aparentemente mais fácil para o dilema capitalista 107

Seção VIII
Os reformadores e os reformados estão ambos se dirigindo para o estado servil 119
Seção IX
O estado servil já começou 149

Conclusão 173
INTRODUÇÃO À EDIÇÃO BRASILEIRA

HILAIRE BELLOC PRODUZIU uma vasta obra literária; algo em torno de 150 livros. Erudito, o autor anglo-
francês versou sobre os mais variados assuntos. Embora seja hoje mais conhecido como historiador, também
escreveu poemas, ensaios, relatos de viagens e até mesmo livros infantis.
É no mínimo curioso, portanto, que numa carta de 1936, destinada a um amigo norte-americano, Hilaire
Belloc tenha dividido sua imensa obra em apenas duas categorias: “os trabalhos de viés financeiro, que faço
para viver e que gastam sete oitavos de minhas energias e os trabalhos de ensino, que produzo para ensinar
1
aqueles que sabem menos do que eu. Estes, entretanto, não me rendem dinheiro algum”. De início, cabe
dizer que O Estado Servil pertence a essa segunda categoria. Trata-se de um livro sem pretensões financeiras,
escrito com o claro intuito de alertar o povo inglês sobre os perigos da acumulação desenfreada da
propriedade. Entretanto, antes de comentarmos essa obra, cabe falar um pouco mais sobre o autor, ainda
pouco conhecido no Brasil.
Joseph Hilaire Pierre René Belloc nasceu em julho de 1870, em uma pequena cidade francesa chamada
La Celle-Saint-Cloud. Era filho de um advogado francês, Louis Belloc, e de uma escritora e defensora da
causa feminina, a inglesa Elizabeth Rayner Parkes, mais conhecida como Bessie. Hilaire também tinha uma
irmã, Marie Adelaide Belloc, que se tornou uma grande romancista. Aos dois anos de idade, seu pai, Louis,
veio a falecer. Com isso, Bessie e seus filhos se mudaram para a Inglaterra. A família, no entanto, passaria
seus verões na França, de modo que Belloc nunca se afastou definitivamente de suas raízes francesas.
Quando criança, Belloc frequentou o Cardinal Newman’s Oratory School, onde estreitou seus laços com o
catolicismo e destacou-se por seus conhecimentos em relação aos autores clássicos da literatura. Após deixar o
colégio e servir o exército francês, Belloc se matriculou no Balliol College, em Oxford, onde se formou com
distinção máxima em história. Ainda nesse período, suas habilidades como escritor e orador levaram-no à
presidência da Oxford Union, a tradicional sociedade de debates da Universidade.
Apesar de suas conquistas acadêmicas, Hilaire Belloc foi reprovado nos exames que prestou objetivando
uma bolsa de estudos no All Souls College. Ele suspeitava que sua condição de católico tivesse influenciado
negativamente o resultado. De fato, o modo público como Belloc vivia sua fé católica, em um ambiente
dividido entre o secularismo e o protestantismo, fechou-lhe outras portas. Como quando se candidatou à
cadeira de história da Universidade de Glasgow, tendo então recebido uma carta do reitor onde leu que ‘sua
religião constituía um impedimento absoluto para sua eleição ao cargo”. Frustrado por não conseguir
ingressar na carreira acadêmica e sendo constantemente assombrado pelas dificuldades financeiras, Belloc
tomou a escrita como profissão. Fato que justifica sua numerosa obra e que também elucida sobre a primeira
das categorias citadas pelo autor.
Como escritor, Belloc alcançou notoriedade em 1896, com o livro infantil The Bad Child’s Book of Beasts,
que vendeu quatro mil cópias em três meses. Posteriormente, publicou More Beasts (for worse children)
(1897), The Modern Traveler (1898) e A Moral Alphabet (1899). Todos compostos por divertidos versos e
ilustrados por Basil Blackwood. Ao final daquela década, a revista Academy colocou os escritos de Belloc no
mesmo nível das obras de Lewis Carroll, o ilustre autor de Alice no país das maravilhas. E por falar em
autores ilustres, cabe mencionar que H. Belloc foi amigo próximo de personalidades como W. G. Wells, G. B.
Shaw e Gilbert Keith Chesterton. Com este, Belloc construiu uma amizade tão sólida que ambos foram, e
ainda são, frequentemente retratados como uma só figura – um monstro biforme que responde pelo nome de
“ChesterBelloc”. Ademais, Belloc propiciou a Chesterton a honra e a responsabilidade de batizar seu quinto e
último filho, que recebeu o nome de Peter Gilbert, em homenagem ao padrinho. Já Chesterton, que não teve
filhos, dedicou uma de suas mais conhecidas obras a H. Belloc, O Napoleão de Notting Hill.
Para complementar a renda e garantir o sustento de sua família, Belloc ministrava conferências, dentro e
fora da Inglaterra, e escrevia para os periódicos de sua época. Além disso, como havia se naturalizado inglês
em 1902, candidatou-se ao Parlamento pelo Partido Liberal. Foi eleito em 1906 por South Salford,
destacando-se rapidamente por criticar as decisões de seu próprio partido. Apesar de sua crescente
popularidade, que potencializou a venda de seus livros, Belloc logo se desiludiu com a política partidária,
deixando-a definitivamente em 1910.
Aliás, dizer que Belloc deixou a política partidária não significa dizer que ele deixou a política. Pelo
contrário. Era a desconsideração das demandas populares e a falta de correspondência prática das discussões
parlamentares que incomodavam o escritor. Sendo assim, ao deixar a Câmara dos Comuns, Belloc passou a
advogar por seus princípios – políticos e religiosos – em outras frentes. Sobretudo, através da escrita daqueles
que denominou como seus “trabalhos de ensino”.
Como já dito anteriormente, O Estado Servil é um dos mais importantes livros dessa categoria, ainda que
não tenha sido o primeiro. Antes dele, Belloc havia escrito, juntamente com Cecil Chesterton (irmão de G. K.
Chesterton), The Party System (1911), obra destinada a expor os problemas e limitações do sistema político
inglês.
O Estado Servil, por sua vez, surgiu como fruto de um debate protagonizado por Hilaire Belloc e Ramsay
MacDonald, líder do Partido Trabalhista, em 1911. Na ocasião, o assunto em questão era a eficácia das leis
destinadas a garantir a segurança social, que originaram o que conhecemos hoje como Previdência Social.
Principalmente aquelas sugeridas no projeto de reforma apresentado por Lloyd George, que na época
ocupava o posto de Ministro das Finanças.
MacDonald via nessas leis a possibilidade de instauração de um estado de bem-estar social que,
posteriormente, seria convertido em um estado socialista. Belloc, em oposição, acreditava que as leis sociais
apenas formalizariam e perpetuariam a condição de servidão vivida pela maioria dos ingleses. Em outras
palavras, o ponto levantado por Belloc é que a emergência de leis sociais não estabelece o socialismo, mas
fortalece a divisão entre a classe possuidora e a classe dos despossuídos, forçando os segundos a servirem aos
primeiros em troca de baixos salários.
Naquele mesmo ano, os discursos proferidos pelos dois debatedores foram publicados em um panfleto
intitulado O Socialismo e o Estado Servil. No ano seguinte, 1912, Belloc ampliou os argumentos que utilizou
no debate, acrescentou mais dados a sua análise do sistema capitalista, e publicou o livro que agora recebe
sua primeira tradução para o português.
De início, as teses trazidas por Belloc em O Estado Servil fugiram tanto do debate político habitual que o
autor sequer foi compreendido. Isso, porém, não impediu que ele fosse amplamente criticado. Em sua
Autobiografia, Chesterton comenta o caso, afirmando que “antes de criticar o que Belloc havia escrito, os
críticos começaram a criticar o que Belloc provavelmente havia escrito”. Até por isso, em 1913, Belloc
escreveu um novo prefácio para a segunda edição, respondendo algumas das críticas feitas ao seu livro.
Em pouco tempo, no entanto, o livro de Belloc frutificou. Pensadores importantes do socialismo inglês
como os jornalistas W. R. Titterton e Cecil Chesterton, o escritor Maurice Reckitt e o artista Eric Gill
abandonaram sua antiga crença política curvando-se aos argumentos de Hilaire Belloc.
Fossem estes todos os frutos dessa obra, Belloc já mereceria nossa atenção. Entretanto, o autor foi além.
Ao denunciar a tendência monopolista do capitalismo e ao desacreditar o socialismo como autêntica
alternativa, Belloc propõe, ainda que de modo embrionário, um novo caminho: o distributismo, que nada
mais é do que uma teoria econômica fundamentada nos princípios expostos pelo papa Leão XIII na
Encíclica Rerum Novarum.
O ponto central do distributismo é a defesa da pequena propriedade, entendida como condição básica ao
desenvolvimento do homem, ao exercício da liberdade e ao atingimento da sua felicidade. Os distributistas
entendiam que a raiz dos males ingleses estava na acumulação da propriedade, propiciada pela emergência
do sistema capitalista. Diferente dos socialistas, que advogavam por uma maior centralização da propriedade
nas mãos dos agentes do Estado, Belloc e os distributistas defendiam a descentralização e a maior distribuição
da posse.
O distributismo ganhou força em meados da década de 1920, quando foi fundada a Liga Distributista e a
G.K.’s Weekly. A primeira era uma sociedade de intelectuais inclinada à formulação e difusão das idéias
distributistas. Suas principais atividades constituíam na promoção de debates e na publicação de livros e
panfletos. A segunda, por sua vez, foi uma revista semanal que funcionou como órgão oficial de propaganda
da Liga.
Todos os números da G.K.’s Weekly traziam uma página destinada à captação de membros para a Liga.
Nela, abaixo de uma pequena descrição dos princípios defendidos pelo distributismo, havia uma pequena
lista de obras para que os possíveis interessados pudessem conhecer mais do ideal econômico. É interessante
notar que, em mais de 600 números publicados, O Estado Servil sempre ocupou o topo da dita lista.
Posteriormente, o próprio Belloc o retomou, atualizou e aprofundou as idéias distributistas em obras
como O Ensaio sobre a Restauração da Propriedade (1936) e As Crises da Nossa Civilização (1937). Além
dele, Chesterton, Arthur Penty, Vincent McNabb e outros distributistas publicaram livros sobre o ideal
econômico, que recentemente encontra eco nos escritos de intelectuais como Joseph Pearce e Fabrice
Hadjadj.
Por fim, cabe fazer um comentário sobre a atualidade de O Estado Servil. Afinal, trata-se de uma obra
que foi publicada pela primeira vez há mais de 100 anos, mas que parece descrever os dias de hoje. Nessa
perspectiva, a análise feita por Belloc do capitalismo e do socialismo soa quase profética. Ao dizer, por
exemplo, que o sistema capitalista se conserva por meio de pequenas concessões e afrouxamentos, Belloc
lança luz, lá em 1912, sobre uma questão que ainda gera angústia nas esquerdas atuais: a da impossibilidade
de atingir o socialismo por vias graduais. Para o autor, que escrevia antes do surgimento da URSS, a
estatização plena dos meios de produção era improvável e insustentável. O máximo que os socialistas
tentariam/conseguiriam seria regulamentar o sistema capitalista, formalizando a servidão, privilegiando os
monopólios frente às pequenas empresas, facilitando os acordos entre os governantes e os grandes empresários
e inibindo a iniciativa individual e familiar. Atual, não?
Diante disso, só nos resta dizer que se O Estado Servil diz tanto sobre nosso presente, talvez seja porque
continuamos a cometer os mesmos erros denunciados por Belloc no passado.

Rhuan Reis do Nascimento


PREFÁCIO DA TERCEIRA EDIÇÃO

2
ESTE LIVRO APARECEU PELA primeira vez no ano que precedeu a Guerra. Essa catástrofe ainda não havia
se abatido sobre nós quando uma nova edição se fez necessária. Os anos anormais que seguiram não eram
nada propícios ao pensamento econômico em geral, que se encontrava por demais absorto nas perturbações
econômicas imediatas. No entanto, dizem-me que uma terceira edição é necessária, e me alegro de que seja
assim, pois tenho a convicção de que o tema tratado é a principal questão política dos nossos dias.
Não mudei em nada o texto, sequer os termos de uso corrente antes da Guerra, dado que as questões de
interesse passageiro pouco afetam uma exposição geral desta natureza e a tendência geral a que se refere.
Nem mesmo modifiquei o parágrafo no qual digo que o coletivismo de Estado não serve como exemplo
probatório, pois a Revolução Russa, que se produziu quatro anos depois de aparecer a primeira edição deste
3
livro, não deu lugar a um estado coletivista, mas, pelo contrário, a um Estado que em sua quase totalidade –
uns 90% – foi por ele mesmo reconhecido como um Estado de proprietários rurais.
Tampouco nos pareceu valer a pena sublinhar, por ser óbvio a todos, os pontos nos quais se avançou,
desde a primeira edição, rumo ao Estado Servil, a saber: o rápido crescimento do monopólio, por um lado, e,
por outro, as novas disposições destinadas a assegurar ao proletariado o sustento necessário e a tranqüilidade
quanto ao futuro; ao que poderia se agregar as exigências crescentes de uma máquina estatal que
impossibilita uma ação conjunta do proletariado.
Em determinado momento, para dizer a verdade, pensei que seria conveniente acrescentar algumas
palavras acerca do termo “propriedade”, a fim de esclarecer que sua ampla distribuição em porções
insignificantes não apenas não debilitava mas fortalecia o capitalismo. Todos possuem algo. Até o mendigo
possui seus sapatos furados. A essência do capitalismo está fundada no declínio das pequenas fazendas e na
recusa em conceder à maioria a posse de propriedades significativas. Como eu disse, cogitei tornar isto mais
nítido mediante o acréscimo de umas poucas páginas de exposição mais extensa. Decidi, porém, após alguma
hesitação, deixar as coisas como estavam, considerando que aquelas pessoas a quem interessa o apelo em
favor da pequena propriedade – aquelas a quem nossa imprensa capitalista confunde com a simples menção
de quantos cidadãos possuem ações da indústria ferroviária ou títulos da dívida pública – não eram as mais
indicadas para sustentar uma discussão em matéria de economia.
Hilaire Belloc
1º de janeiro de 1927

PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO

COM O LANÇAMENTO DE UMA segunda edição deste livro o autor talvez possa ser desculpado por acrescentar,
à guisa de prefácio, umas poucas palavras sobre a tese que sustenta e o método através do qual esta tese foi
desenvolvida.
Parece ainda mais necessário fazê-lo porque uma apreciação minuciosa das críticas e das outras opiniões
de que ele tomou conhecimento, convence-o de partes do seu argumento são susceptíveis de interpretação
distorcida. Seria uma lástima corrigir tais más interpretações introduzindo modificações em um livro
terminado; umas poucas palavras escritas aqui como prefácio servirão suficientemente ao propósito.
Primeiro: eu assinalaria que as teses deste livro não têm relação com as acusações comumente levantadas
contra os socialistas (isto é, aos coletivistas) de que a vida em um Estado socialista seria de tal modo
submetida à regulação e à ordem que resultaria demasiado opressiva. Nada tenho eu que ver no presente
livro com esta comum objeção às reformas defendidas pelos socialistas, e isto tampouco se relaciona com os
meus argumentos. Este livro não discute o Estado socialista. Com efeito, constitui o centro de minha tese a
afirmação de que nós não estamos nos aproximando do socialismo, mas sim de um estágio muito diferente, a
saber: de uma sociedade na qual a classe capitalista será ainda mais poderosa e gozará de muito mais
segurança do que no presente; uma sociedade na qual a massa do proletariado não sofrerá nenhuma
regulação em especial, seja opressiva ou beneficente, mas na qual verá a alteração do seu status, perdendo a
liberdade legal que tem hoje e vendo-se submetida ao trabalho compulsório.
Em segundo lugar, rogo aos meus leitores que não creiam que coloco essa tese como um alerta ou um
quadro sombrio. Em nenhuma parte do livro digo que o reestabelecimento da escravidão seria mau em
comparação com nossa inseguridade presente, e ninguém tem o direito de ler semelhante opinião neste livro.
Pelo contrário, digo com bastante clareza que, segundo meu modo de pensar, a tendência para o
reestabelecimento da escravidão se deve meramente ao fato de que as novas condições podem ser
consideradas mais toleráveis do que as condições que vigoram sob o capitalismo. Qual regime social se
poderia com razoabilidade preferir -- o reestabelecimento da escravidão ou a conservação do capitalismo --
constitui um vasto tema para outro livro, porém essa alternativa não concerne a este volume nem à tese que
nele é sustentada.
Por fim, peço aos meus leitores socialistas por convicção que não interpretem mal o meu juízo acerca do
que o seu movimento vem fazendo. Os escritores mais capazes e sinceros do socialismo britânico, escrevendo
sobre este livro, disseram que o autor tinha tomado erroneamente por socialismo a “reforma social” dos
políticos profissionais, e que embora esta “reforma social” possa tender ao reestabelecimento do trabalho
obrigatório em benefício de uma classe detentora de bens, o socialismo não teria esta intenção e tendência.
Vejamos, em nenhum momento eu incorri nesse erro. O que eu disse neste livro é que o objetivo dos
socialistas (algo muito claro e simples: a alocação dos meios de produção nas mãos dos políticos para que eles
administrem em nome e proveito da comunidade) na prática não vem sendo executado; de fato, não estamos
nos aproximando da propriedade coletiva dos meios de produção, mas sim, pelo contrário, aproximamo-nos
velozmente do estabelecimento do trabalho obrigatório para uma maioria de indivíduos sem liberdade ou
propriedade, em benefício de uma minoria de proprietários livres. E digo que esta tendência se deve ao fato
de que o ideal socialista, em conflito com um capitalismo que é por ele modelado, acaba por produzir uma
terceira realidade muito diferente, a saber: o Estado servil. Como é importante deixar bem claro este ponto, e
talvez seja necessário o uso duma metáfora, apresentarei uma.
Um viajante com um desejo sincero de escapar do clima frio das montanhas concebe o plano óbvio de
dirigir-se para o Sul, onde encontrará terras mais baixas e amenas. Com este projeto em mente, ele se depara
com um rio que corre para o Sul, e diz: “Se eu viajar por esse rio, alcançarei meu objetivo mais
rapidamente”. Alguém que tenha estudado a natureza dessa região montanhosa poderá dizer-lhe: “Estás
errado. Os mesmos males que tentas evitar, isto é, as montanhas, estão de tal modo estruturadas que em
pouco tempo as verá desviando novamente o curso deste rio ao Norte. Com efeito, se olhares tua bússola,
verás que entraste já na grande curva”.
O viajante é o socialista. O Sul ao qual deseja chegar é o Estado coletivista. O rio é a moderna “reforma
organizada”. A comarca setentrional onde o rio da montanha encontrará finalmente um leito tranqüilo é
uma sociedade assentada sobre o trabalho obrigatório.
Um homem que falasse com este viajante não negaria a sinceridade de seu propósito de dirigir-se para o
Sul, nem sequer sua crença de que o rio o levará nesta direção; a única coisa que negaria seria o fato de que o
rio efetivamente o levaria lá.
Há somente uma discrepância neste paralelo: o viajante da metáfora, convencido do seu erro, poderia
abandonar o rio e chegar ao Sul por terra. Isto equivaleria, no caso do socialista, a uma ousada política de
confiscação, à transferência dos meios de produção dos controladores atuais para a mão de políticos para que
os administrassem em nome e proveito da coletividade.
Não nego em parte alguma do meu livro que isto em tese seja possível, tal como é possível que no dia de
amanhã todos os ingleses guardem voto silêncio por vinte e quatro horas e o cumpram. O que afirmo é que
nada deste tipo alguma vez foi feito, sequer algo parecido com isso, e que tampouco algo assim encontra-se
em curso no momento. E ainda mais – o que é de capital importância –, digo que a cada novo passo dado no
sentido das atuais mudanças em nossa sociedade industrial torna-se cada vez mais difícil reorientar esses
passos, abandonar os métodos aceitos, e buscar o ideal coletivista. O caminho da confiscação, o único modo
pelo qual o socialismo pode alcançar a sua meta, revela-se mais e mais remoto à medida em que são
sancionadas reformas econômicas novas e positivas, empreendidas, recorde-se bem, com o apoio e
aconselhamento dos próprios socialistas.
Tais são portanto os três pontos principais em que, creio eu, produziu-se más interpretações, e contra as
quais espero poder alertar o leitor. Em resumo:
1. A má interpretação de eu que teria usado o termo “servil” em algum modo retórico, no sentido de
“insuportável” ou “opressivo”, quando somente tratei de usá-lo dentro dos limites de minha definição, ou
seja, que o trabalho é “servil” quando não ocorre em virtude de um contrato, mas pela coação de uma lei
positiva vinculada ao status de trabalhador, e é executado em benefício de outros que não estão submetidos a
tal condição.
2. A má interpretação de que se anuncia o advento do Estado servil somente como uma alerta ou com
um sinal de perigo: minha missão com este livro é dizer como e porque estamos aproximando-nos deste
Estado, não se devemos ou não irmos em sua direção.
3. A má interpretação de que formulei erroneamente os fins e convicções dos socialistas. Estes fins e
convicções são muito simples, e não sustento que sejam ilusórios ou duvidosos, mas que na verdade não
estamos nos encaminhando em direção deles, e que, com efeito, a doutrina socialista na sociedade capitalista
consiste na produção de uma terceira coisa distinta das outras duas que a gestaram, quer dizer: o Estado
servil.
Ademais destes três pontos principais, e tendo em conta algumas críticas menos inteligentes suscitadas
pelo livro, devo mencionar uma ou duas questões mais.
A primeira: meu argumento de que a escravidão vinha sendo lentamente transformada, e que o velho
Estado servil pagão, sob a influência da Igreja Católica, aproximava-se lentamente de um Estado
distributivo, não é um apelo especial destinado somente a dar satisfação aos meus correligionários, mas sim
um fato histórico evidente que qualquer um pode corroborar por si mesmo, e que muitos consideram, mais
que como um progresso, como um prejuízo causado à humanidade o advento desta religião. Seja a instituição
servil uma coisa má ou boa é certo que, na realidade, desapareceu paulatinamente enquanto se desenvolvia a
civilização católica; e que, também no plano dos fatos, começou a renascer onde quer que a civilização
católica tenha cedido terreno.
Tampouco disse que a meta de um Estado distributivo completamente livre tenha sido alcançada algum
dia. Somente disse que estava em processo de formação quando, no século XVI, a fratura de nossa civilização
européia unitária deteve o seu curso e a substituiu, pouco a pouco, especialmente neste país, pelo capitalismo.
A segunda: os exemplos do rápido incremento da regulação estatal e da iniciativa do Estado ou do
município entre nós outros obviamente não invalidam o meu argumento. Mesmo que estejam fundadas em
uma política de confiscação, constituem em exemplo tão apropriado de socialismo quanto a explosão da
pólvora pode constituir exemplo de guerra. São “esforços socialistas” ou “começos” ou “experimentos
socialistas” tanto quanto os fogos de artifício do Crystal Palace são esforços “militares” ou “começos” ou
“experimentos militares”. O socialismo, certamente, englobaria tais regulações e tais empresas municipais,
assim como a guerra envolve a explosão de pólvora; porém, de modo algum constituem a sua essência. Esta
essência consiste em conferir aos políticos a gestão do que hoje é privado. Quando a gestão de empresas
estatais, acompanhada da regulação municipal e governamental, baseia-se em empréstimos, no lugar de
fundar-se na confiscação, e ainda mais, em empréstimos idealizados para evitar a confiscação, não estamos
senão ante uma negação do socialismo; e tive já ocasião de mostrar como as tentativas de dissimular a índole
capitalista de tais operações mediante o artifício dos fundos de amortização e coisas de mesma índole são
logicamente inúteis. Não se pode “comprar” o capitalismo.
Não preciso indicar os passos que foram tomados, inclusive no breve prazo transcorrido desde que veio à
4
luz este meu livro, na direção do que me propus a explicar. Temos já Wages Boards em uma grande
indústria; e em breve teremos também em outras. Temos já o registro do proletariado, com nome, domicílio,
mudança de residência, condição de saúde, “simulação de doença”, real ou suspeita, propensão a este ou
àquele vício (como ser alcoólico), hábitos domésticos, natureza do emprego, e assim sucessivamente, sem que
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falte quase nada; registro imposto pelas classes mais abastadas, que são as beneficiárias efetivas da Poll Tax
6
na qual este registro se funda. Temos através das Labour Exchanges um sistema que logo estará completo e
mediante o qual todo membro da classe proletária será finalmente registrado como trabalhador, a sua
frequência ao trabalho será monitorada, e todos ficarão sabendo de suas tendências à rebelião contra o
Capital, até que ponto está disposto a servir ao Capitalismo, se recusou-se alguma vez a servir, quando o fez, e,
neste caso, onde e porquê.
O leitor terá interesse em observar, entre as vicissitudes e reações dos últimos anos, o lento
aperfeiçoamento deste sistema de registro e fiscalização do proletariado, com sua necessária e fatal progressão
para a meta do trabalho obrigatório. Mas que creio que para ser justo com o meu livro devo assinalar a este
mesmo leitor o significado de suas páginas finais. Nenhuma mudança na sociedade europeia é completa a
menos que seja universal por toda a Europa. O capitalismo não é universal; ele desenvolve-se em graus
variados nas diferentes partes do continente; o advento da servidão, portanto, é uma probabilidade que varia
conforme a região. É evidente que o exemplo da liberdade econômica pode futuramente transformar, e
certamente irá limitar, as parcelas da sociedade europeia que se encaminham para o retorno da escravidão.
Mas a tendência ao reestabelecimento da escravidão como um desenvolvimento necessário do capitalismo é
patente em qualquer lugar onde o capitalismo tenha poder, e em nenhum lugar isto é mais intenso do que na
Inglaterra.
Hilaire Belloc Kings Land, Shiply,
Horsham, Sussex, 1913

“...Se não restaurarmos a instituição da propriedade, não escaparemos de restaurar a instituição da


escravidão; não há terceira via.”

HILAIRE BELLOC

Para
E. S. P. HAYNES


INTRODUÇÃO
O ASSUNTO DESTE LIVRO

ESTE LIVRO FOI ESCRITO PARA sustentar e provar a seguinte verdade: Que a nossa sociedade moderna e livre,
na qual os meios de produção são de propriedade de poucos, está necessariamente em equilíbrio instável, e
tende a alcançar uma condição de equilíbrio estável pela instauração do trabalho compulsório, legalmente
imposto sobre os que não detêm os meios de produção, em benefício daqueles que os detêm. Com este
princípio de coerção aplicado aos não-proprietários, deve acompanhar uma diferença de status; e aos olhos
da sociedade e de sua legislação positiva, os homens serão divididos em dois grupos: o primeiro, econômica e
politicamente livre, detentor dos meios de produção e seguramente confirmado desta posse; o segundo,
econômica e politicamente não-livre, mas inicialmente assegurado, por sua própria ausência de liberdade,
quanto a algumas necessidades vitais e um patamar mínimo de bem-estar, abaixo do qual não cairá.
A sociedade, tendo alcançado tal condição, seria libertada de suas atuais amarras internas e assumiria
uma forma estável: ou seja, capaz de se prolongar indefinidamente sem mudanças. Nela seriam resolvidos os
diversos fatores de instabilidade que perturbam excessivamente a forma de sociedade chamada capitalista, e
os homens ficariam satisfeitos em aceitar e permanecer em tal arranjo.
Para tal sociedade estável, por razões que serão descritas na próxima seção, darei o título de Estado
Servil.
Não me arrogarei o papel de julgar se essa iminente forma de organização de nossa sociedade moderna é
boa ou má. Me preocuparei apenas em mostrar a necessária tendência nesta direção, há muito existente, e as
recentes provisões sociais que mostram que, na realidade, ela já começou.
Este novo estado será aceitável para aqueles que desejam, conscientemente ou por implicação, a
restauração entre nós de uma diferença de status entre detentor e não-detentor: será desagradável para os que
vêem tal distinção com maus olhos ou com assombro.
Meu trabalho não será discutir com esses dois tipos de pensadores modernos, mas apontar, para ambos e
cada um, que, aquilo que o primeiro aprova e o segundo recusa, já se instaurou sobre eles.
Provarei minha tese partindo em particular do caso da sociedade industrial da Grã-Bretanha, incluindo
aquele pequeno rincão da Irlanda, excepcional e estrangeiro, que sofre ou goza das condições industriais
atualmente.
Dividirei, assim, a matéria:
1. Estabelecerei certas definições.
2. A seguir, descreverei a instituição da escravidão e o Estado Servil do qual é a base, tal como no mundo
antigo.
Irei então:
3. Esboçar brevemente o processo pelo qual aquela antiqüíssima instituição da escravidão foi lentamente
dissolvida durante os séculos cristãos, e pelo qual o sistema medieval resultante, fundado sobre a propriedade
altamente fracionada dos meios de produção.
4. Mostrarei como foi desmantelado em certas áreas da Europa conforme se aproximava da consumação, e
substituído, na prática, mas não na teoria legal, por uma sociedade fundada no capitalismo.
5. Então, mostrarei como o capitalismo era por sua própria natureza instável, uma vez que suas realidades
sociais estavam em conflito com todos os sistemas legais possíveis ou existentes, e porque seus efeitos no
sentido de negar a subsistência e a segurança eram intoleráveis para os homens; e como, sendo assim instável,
ele criou conseqüentemente um problema que demandava uma solução: a saber, a instauração de alguma
forma estável de sociedade, cuja lei e prática social correspondam, e cujos resultados econômicos, pelo
provimento da subsistência e da segurança, sejam toleráveis à natureza humana.
6. Apresentarei, em seguida, as três únicas soluções possíveis:
a) O Coletivismo, ou transferência dos meios de produção para as mãos dos agentes políticos da comunidade.
b) A propriedade, ou restauração de um Estado Distributivo no qual a massa dos cidadãos detenham em
grande proporção os meios de produção.
c) A escravidão, ou um Estado Servil, no qual aqueles que não detêm os meios de produção sejam legalmente
obrigados a trabalhar para os que os detêm, em troca de uma subsistência segura.
Ora, dada a aversão que os resquícios de nossa longa tradição cristã nos instilaram para uma defesa
direta da terceira solução e um apoio franco à restauração da escravidão, apenas os dois primeiros caminhos
estão abertos aos reformadores: uma reação na direção de uma condição de propriedade bem repartida, ou o
Estado Distributivo; ou uma tentativa de alcançar o Estado Coletivista ideal.
Pode-se mostrar facilmente que esta segunda solução apela com mais naturalidade e facilidade a uma
sociedade já capitalista, por conta da dificuldade que tal sociedade tem de encontrar a energia, a vontade e a
visão requeridas para a primeira solução.
7. Demonstrarei então como a busca deste Estado Coletivista ideal, que é engendrado pelo capitalismo, leva
os homens que atuam na sociedade capitalista não em direção ao Estado Coletivista ou qualquer coisa
semelhante, mas a esta terceira coisa totalmente diversa: o Estado Servil.
À oitava seção acrescentarei um apêndice mostrando como a tentativa de alcançar o coletivismo
gradualmente, através de aquisições públicas, baseia-se numa ilusão.
8. Reconhecendo que o argumento teórico, embora intelectualmente convincente, não é suficiente para
estabelecer minha tese, concluirei dando exemplos da legislação inglesa moderna, exemplos estes que provam
que o Estado Servil está efetivamente instalado entre nós.










SEÇÃO I
DEFINIÇÕES

O HOMEM, COMO OS DEMAIS organismos, só pode viver pela transformação do seu ambiente em benefício
próprio. Ele deve transformar o ambiente de uma condição em que é menos para uma condição que é mais
satisfatória de suas necessidades.
Esta transformação, consciente e inteligente, do ambiente, própria da peculiar inteligência e faculdade
criativa do homem, chamamos de produção de riqueza.
Riqueza é a matéria que foi transformada, de forma cônscia e inteligente, de uma condição em que é
menos útil para uma condição em que é mais útil a uma necessidade humana.
Sem riqueza, o homem não pode existir. A produção desta é-lhe uma necessidade, embora abranja desde
o menos até o mais necessário, e mesmo aquelas formas de produção que chamamos de luxos, ainda assim,
em qualquer sociedade humana, há um certo tipo e uma certa quantidade de riqueza sem a qual não pode
haver vida humana: como, por exemplo, na Inglaterra atual, certas formas elaboradas de comida, roupa,
calor e habitação.
Portanto, controlar a produção de riqueza é controlar a vida humana mesma. Negar ao homem a
oportunidade de produzir riqueza é negar-lhe a oportunidade de viver; e, de modo geral, a forma na qual a
produção de riqueza é por lei permitida é a única forma pela qual os cidadãos podem existir legalmente.
A riqueza só pode ser produzida pela aplicação de energia humana, mental e física, sobre a matérias e
forças da natureza que nos circundam.
Esta energia humana, assim aplicável ao mundo material e suas forças, chamamos de trabalho. Quanto a
estas forças materiais e aquelas forças naturais, nós as chamaremos, para fins de brevidade, por um termo
estreito, mas convencionalmente aceito: terra.
Ter-se-ia a impressão, portanto, de que todos os problemas ligados à produção de riqueza, e toda
discussão a respeito, não envolvem senão dois fatores originários principais, a saber, trabalho e terra.
Acontece, porém, que a ação consciente, artificial e inteligente do homem sobre a natureza, correspondendo a
seu caráter peculiar em contraste com os outros seres criados, introduz um terceiro fator de suma
importância.
O homem cria riqueza através de métodos engenhosos, de complexidade variável e, muitas vezes,
crescente, e se socorre da construção de implementos. Estes logo se tornam, em cada novo setor da produção,
tão verdadeiramente necessários para essa produção quanto o trabalho e a terra. Ademais, todo processo de
produção leva certo tempo; durante esse tempo, o produtor deve ser alimentado, vestido, abrigado e tudo o
mais. Deve haver, portanto, um acúmulo de riqueza criada no passado, e reservado com o objetivo de
sustentar o trabalho durante o esforço de produzir para o futuro.
Seja na fabricação de um instrumento ou ferramenta, seja na separação de uma reserva de mantimentos,
o trabalho aplicado à terra para quaisquer desses propósitos não está produzindo riqueza para consumo
imediato. Está separando e reservando algo, e este algo é sempre necessário em proporções variadas, de
acordo com a simplicidade ou complexidade da produção de riqueza em uma sociedade econômica.
Para tal riqueza reservada e separada para os propósitos de produção futura, e não para consumo
imediato, seja na forma de instrumentos e ferramentas, seja na forma de reservas para a manutenção do
trabalho durante o processo de produção, damos o nome de capital.
Existem, então, três fatores na produção de toda a riqueza humana, os quais podemos chamar
convencionalmente de terra, capital e trabalho.
Quando falamos de meios de produção, referimo-nos a terra e capital combinados. Logo, quando
dizemos que um homem está “destituído dos meios de produção”, ou não pode produzir riqueza salvo pela
permissão de quem “detém os meios de produção”, queremos dizer que ele é senhor apenas de seu trabalho, e
não tem nenhum controle, em qualquer quantidade proveitosa, sobre o capital, ou a terra, ou ambos
combinados.
Um homem politicamente livre, ou seja, que usufrui do direito legal de empregar suas energias quando
lhe convém (ou não empregar de forma alguma, se não convém), mas não detentor, por direito legal, do
controle sobre qualquer quantidade proveitosa dos meios de produção, chamamos de proletário, e qualquer
classe considerável composta de tais homens, chamamos de proletariado.
Propriedade é um termo usado para um arranjo social em que o controle da terra e da riqueza obtida da
terra, incluindo, portanto, todos os meios de produção, é conferido a alguma pessoa ou corporação. Assim,
podemos dizer de um prédio, incluindo a terra sobre a qual ele se encontra, que este é “propriedade” de tal
ou qual cidadão, ou família, ou colégio, ou do Estado, significando que aqueles que “detêm” tal propriedade
estão garantidos por lei do direito de usá-la ou abster-se de usá-la. Propriedade privada é a riqueza (incluindo
os meios de produção) que pode, pelos arranjos da sociedade, estar sob controle de pessoas ou corporações
outras que não são os órgãos políticos dos quais estas pessoas ou corporações são, em outros aspectos,
membros. O que distingue a propriedade privada não é que o seu detentor seja menos que o Estado, ou seja
apenas uma parte do Estado (pois se assim fosse deveríamos tratar da propriedade municipal como
propriedade privada), mas sim que o proprietário possa exercer seu controle sobre ela em vantagem própria,
e não como fiel depositário da sociedade, nem da hierarquia das instituições políticas. Assim, o Sr. Jones é um
cidadão de Manchester, mas não detém sua propriedade privada enquanto cidadão de Manchester; ele a
detém enquanto Sr. Jones, e se a casa ao lado da sua for de propriedade do município de Manchester, este a
detém apenas por ser um corpo político que representa toda a comunidade da cidade. O Sr. Jones pode se
mudar para Glasgow e ainda assim manter sua propriedade em Manchester, mas o município de
Manchester só pode deter propriedades em vínculo com a vida política corporativa da cidade.
Uma sociedade ideal na qual os meios de produção estejam nas mãos dos agentes políticos da
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comunidade, chamamos de coletivista, ou, de modo mais genérico, socialista.
Uma sociedade na qual a propriedade privada da terra e do capital, ou seja, a posse e portanto o controle
dos meios de produção, esteja restrita a um certo número de cidadãos livres, insuficiente para determinar a
massa social do Estado, enquanto os demais não detêm tal propriedade e são, portanto, proletários,
chamamos de Capitalista; e o método pelo qual a riqueza é produzida em tal sociedade só pode ser a
aplicação da mão-de-obra, cuja massa determinante deve ser necessariamente proletária, à terra e ao capital,
de tal forma que, do total da riqueza produzida, o proletariado que trabalha receba apenas uma parte.
As duas marcas, então, que definem o Estado Capitalista são: (1) Que os cidadãos são politicamente livres:
podem, a seu critério, dispor ou não de suas posses ou trabalho, mas também (2) dividem-se em capitalistas e
proletários, em proporções tais que o Estado como um todo não seja caracterizado pela instituição da posse
entre cidadãos livres, mas pela restrição da posse a uma parcela marcadamente menor que o todo, ou mesmo
a uma pequena minoria. Tal Estado Capitalista divide-se essencialmente em duas classes de cidadãos livres,
uma sendo capitalista ou proprietária, e a outra sendo proletária ou não-proprietária.
Minha última definição diz respeito ao Estado Servil em si, e, visto que esta idéia é razoavelmente nova e
também o assunto deste livro, hei de não apenas enunciar, mas expandir sua definição.
A definição do Estado Servil é a que segue:
“O arranjo da sociedade em que o número de famílias e indivíduos compelidos pela lei positiva a
trabalhar em benefício de outras famílias e indivíduos é tão grande a ponto de imprimir sobre a comunidade
inteira a marca desse trabalho, chamamos de Estado Servil. ”
Note-se, primeiro, certas limitações negativas no enunciado acima, que devem ser entendidas com clareza
se não quisermos deixar o pensamento claro perder-se numa névoa de metáforas e retórica.
Não é servil uma sociedade em que os homens sejam, de modo inteligente, constrangidos a trabalhar por
entusiasmo, ou por algum preceito religioso, ou indiretamente pelo medo da miséria, ou diretamente pelo
amor ao ganho, ou pelo senso comum que os ensina que pelo trabalho é possível aumentar o bem-estar.
Existe uma linha demarcatória clara entre a condição servil e a não-servil de trabalho, e as condições
vigentes de ambos os lados desta linha diferem profundamente entre si. Onde há coerção aplicável por lei
positiva aos homens de determinado status, e tal coerção é imposta, em último recurso, pelos poderes à
disposição do Estado, existe a instituição da escravidão; e se tal instituição for suficientemente expandida,
pode-se dizer que o Estado inteiro repousa sobre uma base servil, e é um Estado Servil.
Onde tal status formal e legal está ausente, as condições não são servis; e a diferença entre a servidão e a
liberdade, apreciável em milhares de detalhes da vida real, resplandece sobretudo nisto: que o homem livre
pode recusar trabalho e usar tal recusa como instrumento de barganha; ao passo que o escravo não possui tal
instrumento ou poder de barganha em absoluto, mas depende, para seu bem-estar, do costume da sociedade,
amparado na regulação daquelas suas leis que protejam e garantam o escravo.
Em seguida, observe-se que o Estado não é servil meramente porque se pode encontrar a instituição da
escravidão em algum lugar dentro de suas fronteiras. O Estado é apenas servil quando um corpo considerável
de mão-de-obra forçada é afetado pela jurisdição da lei positiva, a ponto de caracterizar a comunidade como
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um todo.
Similarmente, não é servil o Estado onde todos os cidadãos estão sujeitos a submeter suas energias à
coerção da lei positiva e devem trabalhar segundo a discrição dos funcionários do Estado. Por metáfora
genérica e para fins retóricos, os homens que repudiam o Coletivismo (por exemplo) ou a disciplina de um
regimento, falarão das condições “servis” de tais organizações. Mas, para fins de uma definição estrita e de
clareza, é essencial lembrar que uma condição servil só existe em contraste com uma condição livre. A
condição servil está presente na sociedade apenas quando também está presente o cidadão livre, em cujo
benefício o escravo trabalha sob a coerção da lei positiva.
Novamente, deve-se notar que a palavra “servil” de forma alguma conota o pior, ou sequer,
necessariamente, um mau arranjo para a sociedade. Este ponto é tão claro que mal deveria nos deter; mas
dei-me conta de que a confusão entre o uso retórico e o uso preciso da palavra servil constrange a discussão
pública do assunto, de forma que preciso enfatizar novamente o que deveria ser auto-evidente.
A discussão sobre se a instituição da escravidão é boa ou má, ou relativamente melhor ou pior do que
outras instituições alternativas, não tem absolutamente nada a ver com a definição exata dessa instituição.
Assim, a Monarquia consiste em lançar a responsabilidade pela direção da sociedade sobre um indivíduo.
Pode-se imaginar um romano do século I d.C. louvando o novo poder imperial, mas que, devido a uma
tacanha tradição contra os “reis”, jura que jamais toleraria uma “monarquia”. Tal sujeito teria sido um
crítico muito inepto dos assuntos públicos sob Trajano, mas não mais inepto do que um homem que jura que
nada o tornará um “escravo”, embora esteja bastante disposto a aceitar leis que o compelem a trabalhar sem
seu consentimento, sob a égide da lei pública e em termos ditados por outros.
Muitos argumentariam que um homem assim compelido ao trabalho, garantido contra a insegurança e
contra a insuficiência de comida, moradia e vestuário, com a promessa de subsistência para a velhice, e um
conjunto similar de vantagens para a posterioridade, estaria muito melhor do que um homem livre sem nada
dessas coisas. Mas o argumento não afeta a definição vinculada à palavra servil. Um cristão devoto de vida
sem manchas, vagando sobre as correntes gélidas na noite do Ártico, sem comida ou qualquer perspectiva de
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socorro, não está em circunstâncias tão confortáveis quanto o Quediva do Egito; mas seria loucura se, a fim
de estabelecer a definição das palavras “cristão” e “maometano”, levássemos esse contraste em consideração.
Devemos, então, ao longo de todo esta investigação, aferrarmo-nos estritamente ao aspecto econômico do
caso. Apenas quando isto estiver estabelecido e a tendência moderna à restauração da escravidão estiver
clara, é que estaremos livres para discutir as vantagens e desvantagens da revolução pela qual estamos
passando.
Deve-se ainda compreender que a marca essencial da Instituição Servil não depende da posse de escravos
por um determinado senhor. Que a instituição da escravidão tenda a essa forma sob as várias forças que
compõem a natureza humana e a natureza social, é bastante provável. Que, se ou quando, a escravidão for
restaurada na Inglaterra, perceba-se, com o tempo, que um dado homem é escravo não do capitalismo como
um todo, mas, digamos, do Consórcio Petrolífero Shell em particular, é um desdobramento muito provável; e
sabemos que, em sociedades onde a instituição era de antiguidade imemorial, tal posse direta do escravo pelo
homem livre ou por uma corporação de homens livres vem a ser a regra. Mas o meu ponto é que tal marca
não é essencial ao caráter da escravidão. Como uma fase inicial na instituição da escravidão, ou mesmo como
uma fase permanente, marcando a sociedade por um período indefinido, é perfeitamente fácil se conceber
uma classe inteira tornada servil por força da lei positiva, e compelida por tal lei a trabalhar em benefício de
outra classe livre e não-servil, sem que seja permitido a homem algum o ato de posse direta sobre a pessoa do
outro.
O contraste final assim estabelecido entre escravo e homem livre pode ser sustentado pelo Estado,
garantindo para os não-livres segurança em sua subsistência, e, para os livres, segurança de propriedade e
lucros, aluguel e juros. O que marcaria o escravo em tal sociedade seria o seu pertencimento àquele conjunto
ou status que é compelido, por uma definição qualquer, ao trabalho, sendo assim separado do outro conjunto
ou status não compelido ao trabalho, mas livre para trabalhar ou não conforme a sua vontade.
De novo, o Estado Servil certamente existiria mesmo que um homem, sendo compelido a trabalhar
apenas durante uma parte do seu tempo, fosse livre para barganhar e até acumular no tempo “livre”. Os
advogados de antigamente costumavam distinguir entre um servo “grosso modo” e um servo “relativo”. Um
servo “grosso modo” era aquele que o era perante toda a sociedade e em todos os lugares, o tempo todo, e não
em relação a um senhor específico. Um servo “relativo” era servo apenas por estar a serviço de determinado
senhor, sendo livre perante outros homens. Um indivíduo poderia perfeitamente ter escravos que eram
apenas escravos “relativos” a um determinado tipo de emprego durante certas horas. Mas seriam escravos de
qualquer forma, e se suas horas fossem muitas e a classe numerosa, o Estado que sustentam seria um Estado
Servil.
Por último, recorde-se que a condição servil permanece tão real enquanto instituição do Estado quando
se vincula permanente e irrevogavelmente, em qualquer momento, a um conjunto específico de seres
humanos, como quando se vincula a uma classe específica por todo o prazo de vida de seus integrantes.
Desse modo, as leis do paganismo permitiam ao escravo ser emancipado por seu senhor: elas também
permitiam que crianças ou prisioneiros fossem vendidos como escravos. A Instituição Servil, embora
mudando perpetuamente nos elementos de sua composição, era ainda um fator imutável do Estado.
Similarmente, ainda que o Estado só sujeite à escravidão aqueles que tenham menos que determinada renda,
ao mesmo tempo que deixa os homens livres para sair da classe escrava, por meio de herança ou qualquer
outra forma, e sujeitos a ela na hipótese de ruína; esta classe escrava, embora flutuante em sua composição,
ainda existiria de forma permanente.
Portanto, se o Estado industrial moderno criar uma lei determinando que as condições servis não se
imputam àqueles capazes de receber remuneração maior que dado valor por seu trabalho, mas se imputam
àqueles que ganham menos do que isso; ou se o Estado industrial moderno definir o trabalho manual de uma
forma específica, tornando-o obrigatório por um intervalo de tempo específico para aqueles que o realizam,
mas deixando-os livres para depois voltarem-se para outras ocupações se assim quiserem, tais distinções,
embora estejam vinculadas a condições e não a indivíduos, sem dúvida instauram a Instituição Servil.
Um contingente considerável terá de consistir de trabalhadores manuais, por definição, e enquanto eles
fossem assim definidos seriam escravos. Aqui, novamente, a composição da classe servil flutuaria, mas a classe
seria permanente e grande o bastante para marcar toda a sociedade. Não preciso insistir no efeito prático
disso: que tal classe, uma vez estabelecida, tende a ser fixa na grande maioria dos indivíduos que a compõem,
e que os indivíduos que nela ingressam ou dela saem tendem a ser poucos comparados à massa total.
Há um último ponto a se considerar nesta definição.
É este:
Dado que, pela natureza das coisas, uma sociedade livre deve garantir o cumprimento de um contrato
(uma sociedade livre consistindo em nada mais que a garantia de cumprimento de contratos livres), até que
ponto pode ser chamada de condição servil a que resulta de contrato nominal ou efetivamente livre? Em
outras palavras, um contrato de trabalho não é, independentemente da liberdade com que foi acordado,
servil por sua própria natureza quando garantido pelo Estado?
Por exemplo, se eu não possuo comida ou roupas, nem detenho os meios de produção com os quais posso
produzir qualquer riqueza para permuta, estou em circunstâncias tais que um detentor dos meios de
produção não me permitirá acesso a esses meios, a não ser que eu assine um contrato para servi-lo por uma
semana em troca de um pagamento de mera subsistência. O Estado, ao garantir o cumprimento desse
contrato, não me torna escravo por uma semana?
Obviamente que não. Pois a instituição da escravidão pressupõe uma certa atitude mental, tanto do
homem livre quanto do escravo, um hábito de vida em ambos, e a marca de ambos esses hábitos sobre a
sociedade. Nenhum efeito desse tipo é produzido pela garantia de um contrato de uma semana. Tal é a
duração da vida humana e a perspectiva da posteridade, que o cumprimento desse contrato de forma
alguma fere os sentidos de liberdade e escolha.
Mas e quanto a um mês, um ano, dez anos, uma vida inteira? Suponha um caso extremo, e um homem
miserável que assina um contrato obrigando a si mesmo e a seus filhos ainda menores de idade a trabalhar
pela mera subsistência até a morte, ou até a maioridade dos filhos, o que demorar mais. Estaria o Estado, ao
garantir esse contrato, tornando esse homem um escravo?
Tão claro quanto não estaria fazendo dele um escravo no primeiro caso, está-lo-ia no segundo.
Pode-se apenas dizer, perante velhas dificuldades sofísticas desse tipo, que o juízo dos homens estabelece
por si mesmo os limites reais de um objeto como a liberdade. O que a liberdade é ou não é, ao menos no
tocante à mera medida do tempo (embora, é claro, muito mais do que o tempo esteja em jogo), o hábito
humano determina; mas a garantia de um contrato de serviço que certamente, ou provavelmente, deixa
lugar para uma escolha depois de encerrado, é consoante com a liberdade. A garantia de um contrato que
provavelmente vinculará a vida inteira de um indivíduo não é consoante com a liberdade. Um que impute a
servidão aos herdeiros naturais de um homem é intolerável à liberdade.
Considere-se outro ponto no sentido contrário. Um homem compromete-se a trabalhar, e seus filhos
depois dele, tanto quanto a lei lhe permita em determinada sociedade, mas isto não para mera subsistência,
mas por um salário tão grande que ele ficaria rico em alguns anos e, na posteridade, quando o contrato
estiver cumprido, ainda mais rico. O Estado, ao garantir tal contrato, faria desse afortunado homem um
escravo?
Não, pois está na essência da escravidão que ao escravo seja assegurada a subsistência ou pouco mais que
isso. A escravidão existe para que os livres sejam beneficiados por sua existência, e conota uma condição na
qual os homens sujeitos a ela podem demandar uma existência segura, mas pouco mais que isso.
Se alguém resolvesse traçar uma linha precisa, dizendo que um contrato vitalício garantido por lei fosse
escravidão a partir de determinado valor semanal, mas deixasse de ser escravidão acima dessa margem, tal
esforço seria loucura. Apesar disso, existe um padrão de subsistência em qualquer sociedade, abaixo do qual
(ou pouco mais do que isso) a obrigação de trabalhar sob coerção é escravidão, enquanto a garantia de bem
mais não é escravidão.
Este malabarismo verbal poderia se prolongar. É um tipo de dificuldade verbal que aparece em toda
investigação aberta ao debatedor profissional, mas de nenhum efeito sobre a mente do investigador honesto
cuja ocupação não seja a dialética, mas a verdade.
É sempre possível, estabelecendo um corte seccional em um conjunto de definições, propor uma
dificuldade de grau irrespondível, mas isso nunca afetará as realidades em discussão. Sabemos, por exemplo,
o que se pretende dizer por tortura quando ela está presente em um código de leis, e quando é proibida.
Nenhuma dificuldade imaginária de grau entre puxar o cabelo de alguém e escalpelá-lo, entre aquecê-lo e
queimá-lo vivo, irá perturbar um reformador determinado a extirpar a tortura de um código penal.
Da mesma forma, sabemos o que é e o que não é trabalho compulsório, e o que é e o que não é o status
servil. O critério, repito, é privar um homem de seu direito de escolher se vai trabalhar ou não, aqui ou acolá,
para tal ou qual objetivo; e obrigá-lo por lei positiva a trabalhar em benefício de outros que não recaem nessa
mesma obrigatoriedade.
Onde se tem isso, tem-se escravidão: com todas as múltiplas conseqüências, espirituais e políticas, dessa
ancestral instituição.
Onde existe escravidão afetando uma classe tão grande a ponto de marcar e determinar o caráter do
Estado, aí se tem o Estado Servil.
Para resumir, então: o Estado Servil é aquele no qual encontramos um corpo tão considerável de famílias
e indivíduos distintos dos cidadãos livres pela marca do trabalho compulsório, a ponto de imprimir um
caráter geral na sociedade; e todas as principais características, boas ou más, associadas à instituição da
escravidão, permearão esse Estado, estejam os escravos direta e pessoalmente vinculados a seus senhores,
apenas indiretamente vinculados por intermédio do Estado, ou vinculados de uma terceira forma, pela
subserviência a certas corporações ou setores da indústria. O escravo assim compelido a trabalhar estará
destituído dos meios de produção, e obrigado por lei a trabalhar em benefício de todos ou de quem quer que
tenha posses. E a marca distintiva do escravo deriva da ação especial sobre ele de uma lei positiva que, em
primeiro lugar, separa um corpo de homens, os menos livres, de outro, os mais livres, em função de um
contrato dentro do corpo geral da comunidade.
Ora, foi de uma concepção puramente servil da produção e dos arranjos sociais que nós, europeus,
surgimos. O passado imemorial da Europa é um passado servil. Durante alguns séculos que a Igreja edificou,
permeou e formou, a Europa foi gradualmente liberta, ou divorciada, dessa concepção imemorial e
fundamental de escravidão; é para esta concepção, para esta instituição, que nossa sociedade industrial, ou
capitalista, agora se dirige novamente. Estamos restaurando o escravo.
Antes de proceder a uma prova disso, farei uma digressão, nas próximas páginas, esboçando muito
brevemente o processo pelo qual a antiga escravidão pagã foi convertida em uma sociedade livre alguns
séculos atrás. Hei então de alinhavar o processo subseqüente pelo qual a nova sociedade não-servil foi
desmantelada na época da Reforma em certas áreas da Europa, particularmente na Inglaterra. Produziu-se
gradualmente em seu lugar a fase transitória da sociedade (agora se aproximando do fim) chamada
genericamente de capitalismo ou Estado capitalista.
Tal digressão, sendo puramente histórica, não é logicamente necessária para a consideração de nosso
tema, mas é de grande valor para o leitor, visto que o conhecimento de como, na realidade, as coisas
caminharam, capacita-nos a entender melhor o processo lógico pelo qual elas tendem a um objetivo
específico no futuro.
Seria possível provar a tendência em direção ao Estado Servil na Inglaterra de hoje para um homem que
nada soubesse do passado da Europa; mas esta tendência lhe parecerá muito mais razoável e provável, muito
mais uma questão de experiência e menos uma questão de mera dedução, se ele souber o que nossa sociedade
foi outrora, e como ela se transformou no que conhecemos hoje.

SEÇÃO II
NOSSA CIVILIZAÇÃO ERA ORIGINALMENTE SERVIL

NÃO IMPORTA EM QUAL CAMPO do passado europeu façamos nossa investigação, encontramos, de há dois mil
anos para trás, uma instituição fundamental sobre a qual a totalidade da sociedade repousa; esta instituição
fundamental é a Escravidão.
Não há aqui qualquer distinção entre as civilizadíssimas cidades-estados do Mediterrâneo, com suas
letras, suas artes plásticas e seus códigos legais, com tudo o que perfaz uma civilização — e isto remontando
muito além de qualquer registro sobrevivente —, não há aqui qualquer distinção entre esse corpo civilizado e
as sociedades nortenhas e ocidentais das tribos celtas, ou das pouco conhecidas hordas que vagavam pelas
Alemanhas. Todas, indistintamente, repousavam sobre a escravidão. Trata-se de uma concepção
fundamental da sociedade, presente em todo lugar e em lugar algum contestada.
Há uma distinção (ou aparenta haver) entre europeus e asiáticos neste quesito. A religião e a moral de
um divergem tanto em suas origens das do outro, que esse contraste é sentido em todas as instituições sociais
— e a escravidão entre elas.
Mas com isso não precisamos nos ocupar. O que quero dizer é que nossos antepassados europeus, aqueles
homens de quem descendemos e cujo sangue corre, com pouca mistura, em nossas veias, tomavam a
escravidão como um dado natural: fizeram dela o pivô econômico em torno do qual girava a produção de
riqueza e nunca duvidaram que ela não fosse senão normal em todas as sociedades humanas.
Entender isso é de importância capital.
Um arranjo de tal sorte não teria resistido sem intervalo (e de fato sem ser questionado) por tantos
séculos, nem o veríamos surgir completamente pronto daquele vasto espaço de tempo sem registro em que a
barbárie e a civilização floresciam lado a lado na Europa, se não houvesse algo nele, bom ou mau, que fosse
nativo ao nosso sangue.
Estava fora de questão, nessas sociedades antigas das quais viemos, transformar as raças subjugadas em
escravas pela força das raças conquistadoras. Isto tudo é adivinhação das universidades. Não apenas não há
nenhuma prova disso, como toda prova existente vai no sentido contrário. Os gregos possuíam escravos
gregos, os latinos possuíam escravos latinos, os germânicos, escravos germânicos, os celtas, escravos celtas. A
tese de que “raças superiores” invadiam um território e, ou expulsavam os habitantes originais, ou os
reduziam a escravos, é uma tese que não encontra argumentos em nosso atual conhecimento da mente
humana, nem indícios históricos. Com efeito, o traço mais evidente da base servil sobre a qual o paganismo se
firmava era a igualdade humana reconhecida entre senhor e escravo. O senhor podia matar o escravo, mas
ambos eram de uma mesma raça e ambos se viam como humanos.
Esse valor espiritual não foi, como tendem a sonhar perniciosas teorias especulativas, um “salto” ou um
“progresso”. A doutrina da igualdade humana era inerente à própria essência da Antiguidade, como é
inerente àquelas sociedades que não perderam a tradição.
Podemos presumir que o bárbaro do Norte compreenderia essa grande verdade com menos facilidade
que o homem civilizado do Mediterrâneo, porque a barbárie, em toda parte, dá mostras de um retrocesso em
potência intelectiva; mas a prova de que a Instituição Servil era um arranjo social, e não uma distinção de
gênero, fica patente pela coincidência, em todo lugar, da emancipação e da escravidão. A Europa pagã não
só considerava a existência de escravos uma necessidade natural da sociedade, mas igualmente que ao
conceder a um escravo sua liberdade, o homem emancipado iria naturalmente ingressar, embora talvez após
o intervalo de alguma linhagem, nas fileiras da sociedade livre. Grandes poetas e grandes artistas, estadistas e
soldados, pouco se incomodavam com a memória de uma ancestralidade servil.
Por outro lado, havia um recrutamento perpétuo para a Instituição Servil, assim como havia uma
emancipação perpétua dela, procedendo ano após ano; e o método normal, ou natural, de recrutamento é-
nos mais claramente visível nas sociedades simples e bárbaras que a observação dos pagãos civilizados
contemporâneos nos permite julgar.
Era a pobreza que gerava o escravo.
Prisioneiros de guerra tomados em combate propiciavam um método de recrutamento, e havia também
a captura de homens por piratas em terras remotas e sua subseqüente venda nos mercados de escravos do
Sul. Mas, desde logo, a causa do recrutamento e do permanente apoio à instituição da escravidão estava na
indigência do homem que se vendeu para a escravidão, ou nela nasceu; pois era uma regra da escravidão
pagã que o escravo gerava o escravo, e que mesmo se um dos pais fosse livre, o filho era um escravo.
A sociedade antiga, portanto, normalmente se dividia (como se divide, enfim, a sociedade de qualquer
Estado Servil) em seções claramente demarcadas: havia, de um lado, o cidadão com voz na condução do
Estado, que freqüentemente trabalhava — mas o fazia de livre e espontânea vontade — e que normalmente
dispunha de posses; e, de outro, uma massa destituída de meios de produção e compelida por força da lei
positiva a trabalhar sob ordens.
É verdade que, no posterior desenvolvimento da sociedade, o acúmulo de reservas pessoais por um
escravo era tolerado, e que escravos assim favorecidos às vezes compravam sua liberdade.
É também verdade que, na confusão das últimas gerações pagãs, surgiu em algumas das grandes cidades
uma classe considerável de homens que, embora livres, não detinham meios de produção. Mas estes últimos
nunca existiram em proporção suficiente para marcar todo o Estado da sociedade com um caráter derivado
de sua própria circunstância proletária. Até o fim, o mundo pagão permaneceu um mundo de proprietários
livres, detentores, em vários graus, de terra e capital com que produzir riqueza, e que aplicavam nessa terra e
nesse capital, com o propósito de produzir riqueza, o trabalho compulsório.
Certas características desse Estado Servil original do qual todos viemos devem ser cuidadosamente
assinaladas à guisa de conclusão.
Em primeiro lugar, embora todos hoje em dia contrastem a escravidão com a liberdade em vantagem
desta última, naquela época os homens aceitavam livremente a escravidão como alternativa à indigência.
Segundo (e isto é importantíssimo para nosso julgamento da instituição servil como um todo, e das
chances de seu retorno), em todos aqueles séculos não se encontra qualquer esforço organizado, nem
(muitíssimo significativo) qualquer protesto de consciência contra a instituição que condenava o grosso da
humanidade ao trabalho forçado.
Pode-se encontrar menções aos escravos nos exercícios literários da época, lamentando sua sina – e
fazendo piadas a respeito; alguns filósofos reclamam que uma sociedade ideal não teria escravos; outros
escusam o estabelecimento da escravidão com base em tal ou qual argumento, enquanto garantem que ela
ofende a dignidade humana. A maior parte argumenta que o Estado é necessariamente servil. Mas ninguém,
escravo ou livre, sonha em abolir ou mesmo mudar essa realidade. Não há mártires argumentando pela
“liberdade” em oposição à “escravidão”. As ditas guerras servis são uma resistência por parte de escravos
fugidos contra tentativas de recaptura, mas não são acompanhadas de uma afirmação da servidão como algo
intolerável; nem se toca nisto, absolutamente, desde os incógnitos primórdios até os finais católicos do mundo
pagão. A escravidão é repugnante, indigna, deplorável; mas faz parte, para eles, da natureza das coisas.
Pode-se dizer, para ser breve, que esse arranjo social era o ar mesmo que a Antiguidade pagã respirava.
Suas grandes obras, seu lazer e sua vida doméstica, seu humor, suas reservas de força, tudo dependia do
fato de que a sociedade era aquela do Estado Servil.
Os homens estavam felizes com esse arranjo, ou ao menos tão felizes quanto os homens sempre são.
A tentativa de escapar da condição servil por meio de um esforço pessoal, seja de poupança, de aventura,
ou de lisonja para com um senhor, nunca teve tanto poder de resolução quanto muitos demonstram hoje na
tentativa de escapar das fileiras dos assalariados para as dos empregadores. A servidão não lhes parecia um
inferno ao qual seria preferível a morte, ou do qual um homem se elevaria a qualquer custo. Era uma
condição aceita por aqueles que dela padeciam tanto quanto por aqueles que dela se aproveitavam, e uma
parte perfeitamente necessária de tudo aquilo que os homens faziam e pensavam.
Não se encontrará nenhum bárbaro de algum lugar livre espantado com a instituição da escravidão; não
se verá nenhum escravo apontando para uma sociedade na qual a escravidão era desconhecida como um
lugar melhor. Para nossos ancestrais, não apenas naqueles poucos séculos em que temos registro de suas ações,
mas aparentemente durante um passado ilimitável, a divisão da sociedade entre aqueles que devem trabalhar
sob coerção, e aqueles que se beneficiam desse trabalho, era a configuração mesma do Estado – fora da qual
eles mal podiam cogitar a própria existência da sociedade.
Que tudo isso seja claramente entendido. É fundamental para uma compreensão do problema diante de
nós. A escravidão não é uma experiência inaudita na história da Europa; nem está sofrendo de delírios quem
fala da escravidão como algo aceitável para os europeus. A escravidão foi a substância mesma da Europa por
milhares e milhares de anos, até a Europa engajar-se naquele experimento moral chamado Fé, que muitos
acreditam já estar encerrado e descartado, e cujo fracasso sugere o retorno da antiga e primordial instituição
da escravidão.
Pois ocorreu-nos a nós, europeus, após todos esses séculos, e séculos de uma ordem social bem-assentada,
erigida sobre a escravidão enquanto fundamento seguro, o experimento chamado Igreja Cristã.
Um dos resultados desse experimento, emergindo muito lentamente do velho mundo pagão e consumado
não muito antes do naufrágio da própria Cristandade, foi a gradualíssima transformação do Estado Servil
em outra coisa: uma sociedade de proprietários. E como esta outra coisa se originou do Estado Servil pagão
eu explicarei a seguir.

SEÇÃO III
COMO A INSTITUIÇÃO SERVIL FOI POR UM TEMPO DISSOLVIDA

O PROCESSO PELO QUAL a escravidão desapareceu entre os homens cristãos, embora muito longo em seus
desdobramentos (cobriu aproximadamente mil anos), e embora complicadíssimo em seus pormenores, pode
ser fácil e brevemente compreendido em suas linhas gerais.
Que fique claro, em primeiro lugar, que a vasta revolução pela qual a mente européia passou entre os
séculos I e IV d.C. (a revolução normalmente chamada de conversão do mundo ao cristianismo, mas que,
para fins de precisão histórica, deveria se chamar de crescimento da Igreja) não envolveu qualquer ataque à
Instituição Servil.
Nenhum dogma da Igreja declarou a escravidão imoral, ou a venda e compra de pessoas um pecado, ou
a imposição de trabalho compulsório a um cristão como sendo uma contravenção a qualquer direito
humano.
A emancipação de escravos era, sim, vista como uma boa obra pelo fiel: mas também o era pelo pagão.
Tratava-se, basicamente, de um serviço prestado a um semelhante. A venda de cristãos para senhores pagãos
era abominável no Império tardio das invasões bárbaras, não porque a escravidão em si fosse condenada,
mas porque era uma forma de traição à civilização escorraçar seus homens de volta para a barbárie. De
modo geral, não se descobrirá nenhum pronunciamento contra a escravidão enquanto instituição, nem
qualquer definição moral a atacá-la, ao longo de todos aqueles primeiros séculos cristãos durante os quais,
apesar disso, ela efetivamente desapareceu.
A forma desse desaparecimento merece ser assinalada. Inicia-se com o estabelecimento como unidade
produtiva fundamental na Europa ocidental daquelas grandes propriedades de terra, comumente nas mãos
de um único proprietário, geralmente conhecidas como villae.
Havia, é claro, muitas outras formas de aglomeração humana: pequenas fazendas camponesas de
propriedade absoluta de seus insignificantes senhores; grupos de homens livres associados no que se chamava
de vicus; manufaturas nas quais grupos de escravos eram organizados industrialmente para o lucro de seu
senhor; e, governando as regiões em volta, o sistema das cidades romanas.
Mas, dentre todos esses, era a vila o modelo dominante; e conforme a sociedade transitou da alta
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civilização dos quatro primeiros séculos para a simplicidade da Idade das Trevas, a vila, a unidade de
produção agrícola, foi se tornando mais e mais o modelo de toda a sociedade.
Ora, a vila começou como uma considerável extensão de terra, contendo, tal como uma propriedade
rural inglesa moderna, pastos, terras aráveis, água, bosques e charnecas (ou campos inférteis). Era de
propriedade de um dominus ou senhor, com direito de posse absoluto para vendê-la, legá-la como herança
ou dela dispor como bem entendesse. Era cultivada por escravos a quem ele nada devia em troca, e que era
simplesmente de seu interesse manter vivos e se reproduzindo a fim de que perpetuassem sua riqueza.
Concentro-me particularmente nestes escravos, que formavam a grande maioria dos seres humanos a
habitar a terra, porque, embora tenham surgido no medievo, quando o Império romano estava em transição
para a sociedade da Idade Média, outros elementos sociais dentro da vila — os libertos que deviam ao senhor
um serviço diferenciado, e até mesmo cidadãos independentes, presentes mediante um contrato rescindível e
livremente aceito —, ainda era o escravo a marca de toda essa sociedade.
Na origem, então, a vila romana era uma parcela de propriedade absoluta, em que a produção de
riqueza se dava pela aplicação de trabalho escravo aos recursos naturais do local; e este trabalho escravo era
de propriedade do senhor tanto quanto a terra.
A primeira modificação que esse arranjo apresentou na nova sociedade que acompanhou a formação e
estabelecimento da Igreja no mundo romano, foi uma espécie de regra consuetudinária, que modificava a
antiga posição arbitrária do escravo.
O escravo ainda era um escravo, mas era tanto mais conveniente, com a degradação das comunicações e
do poder público, quanto mais consoante com o espírito social da época, garantir o fruto do trabalho do
escravo exigindo-lhe nada mais que certas obrigações ditadas pelo costume. O escravo e seus descendentes
tornaram-se mais ou menos enraizados a um determinado lugar. Alguns ainda eram comprados e vendidos,
mas em números declinantes. Conforme passavam as gerações, uma proporção crescente vivia como e onde
seus pais viveram, e o fruto de seu trabalho foi sendo fixado mais e mais em determinada quantia, a qual o
senhor estava contente em receber sem nada mais exigir. O arranjo tornou-se viável ao se deixar ao escravo
todo o fruto remanescente de seu trabalho. Havia uma espécie de barganha implícita aqui, com a ausência
de poderes públicos e com o declínio do antigo sistema altamente centralizado e vigoroso, que sempre
garantira ao senhor o produto total do esforço do escravo. A barganha implícita era que, se a comunidade de
escravos da vila produzisse em prol do senhor não menos do que uma certa quantia costumeira de bens a
partir do solo da vila, o senhor poderia sempre contar com o exercício contínuo desse esforço ao deixar-lhes
todo o restante — o qual eles poderiam ampliar, se assim quisessem, indefinidamente.
À altura do século IX, quando esse processo estava em ação por algo em torno de trezentos anos, uma
forma fixa de unidade produtiva começou a tornar-se visível em toda a Cristandade ocidental.
A antiga propriedade de domínio absoluto havia se dividido em três porções. Uma correspondia ao pasto
e às terras aráveis, reservadas privativamente ao senhor e chamada domain (domínio), ou seja, terra do
senhor. Outra era ocupada e já quase de posse (na prática, mas não legalmente) daqueles que outrora tinham
sido escravos. Uma terceira era terra comum, sobre a qual tanto o escravo quanto o senhor exerciam seus
vários direitos, direitos estes que eram minuciosamente recordados e consagrados pelo costume. Por exemplo,
em determinado vilarejo, se houvesse um pasto de faia para trezentos porcos, o senhor poderia colocar nele
nada mais que cinqüenta animais: duzentos e cinqüenta eram direito do village (vilarejo).
Na primeira dessas porções, o domínio, a riqueza era produzida pela obediência do escravo durante um
número fixo de horas de trabalho. Ele deveria comparecer tantos dias por semana, ou em tais e quais ocasiões
(todas fixas e costumeiras), para cuidar das terras do domínio para o senhor, e todo o fruto deste trabalho
devia ser entregue ao senhor — embora, é claro, um pagamento diário em espécie fosse permitido, pois o
trabalhador precisa viver.
Na segunda porção, “terra em vilanágio”, que quase sempre correspondia à maior parte do terreno
arável e de pasto das vilas, os escravos trabalhavam sob regras e costumes que eles mesmos foram elaborando
gradualmente. Trabalhavam sob a supervisão de um encarregado colhido dentre seus pares, ora eleito, ora
nomeado: quase sempre, na prática, um homem que lhes convinha, e mais ou menos de sua escolha; muito
embora esse trabalho cooperativo sobre o solo escravo fosse ditado pelos costumes gerais do vilarejo, comuns
ao senhor e ao escravo, e o principal encarregado sobre ambos os tipos de terra fosse o capataz do senhor.
Da riqueza assim produzida pelos escravos, uma parte fixa (estimada originalmente em espécie) era
devida ao meirinho do senhor, e tornava-se propriedade do senhor.
Finalmente, na terceira divisão de terra, o “refugo”, “mata” ou “charneca”, e certos pastos comuns, a
riqueza era produzida como em outros lugares pelo trabalho daqueles que um dia foram escravos, mas
dividida em proporções costumeiras entre eles e o senhor. Logo, tal e qual banhado teria pasto para tantas
reses; o número era rigorosamente definido e, deste número, tantas seriam de direito do senhor, e outras
tantas dos aldeões.
Durante os séculos VIII, IX e X, esse sistema cristalizou-se, tornando-se tão natural aos olhos dos homens
que o caráter servil original da gente trabalhadora da vila foi esquecido.
Documentos dessa época são raros. Esses três séculos são a encruzilhada da Europa, e os registros
acabaram submersos e queimados. O estudo das condições sociais, especialmente na parte final desse período,
são matéria mais de inferência que de evidência direta. Mas a venda e compra de homens, já excepcional no
início desse período, é quase desconhecida antes do seu fim. Com exceção dos escravos domésticos nos lares, a
escravidão, no antigo sentido que a Antiguidade pagã dera à instituição, havia se transformado ao ponto de
se tornar irreconhecível; e quando, com a chegada do século XI, a verdadeira Idade Média começou a brotar
do solo da Idade das Trevas, e uma nova civilização a surgir, embora a antiga palavra servus (escravo em
latim) ainda fosse usada para o homem que lavrava o solo, seu status, na agora crescente quantia de
documentos disponível para consulta, está completamente modificado; com certeza não podemos mais
traduzir a palavra pelo termo escravo; somos obrigados a traduzi-la por uma nova palavra com conotações
muito diferentes: a palavra servo.
O servo do começo da Idade Média, século XI e início do século XII, o servo das Cruzadas e da Conquista
Normanda, já é quase um camponês. Está, sim, vinculado, do ponto de vista jurídico, ao solo sobre o qual
nasceu. Na prática social, tudo o que se lhe exige é que sua família trabalhe uma cota de terra servil, e que o
devido ao senhor não falte por ausência de trabalho. Cumprida essa obrigação, é fácil e comum para os
membros da classe dos servos ingressar nas profissões e na Igreja, ou tomar um novo rumo; tornarem-se
homens praticamente livres nas indústrias então em expansão nas cidades. A cada nova geração, a antiga
concepção servil do status do trabalhador vai se tornando mais tênue, e os tribunais e a prática da sociedade
o tratam mais e mais como um homem sujeito a certos foros e certos trabalhos periódicos dentro de sua
unidade industrial, mas, em todos os demais aspectos, livre.
À medida que se forma a civilização da Idade Média, à medida que a riqueza aumenta e as artes
florescem progressivamente, essa característica de liberdade vai se tornando cada vez mais marcada. Apesar
das tentativas, em tempos de escassez (como após uma praga), de teimar nos antigos direitos ao trabalho
compulsório, o hábito de permutar tais direitos por foros e pagamentos em dinheiro se tornou forte demais
para ser rechaçado.
Se ao fim do século XIV, digamos, ou no começo do século XV, visitássemos um fidalgo rural em sua
propriedade rural na França ou na Inglaterra, ele diria a respeito dela: “Estas são as minhas terras”. Mas o
camponês (como, de fato, ele agora era) diria o mesmo de sua parcela: “Esta é a minha terra”. Não se podia
expulsá-lo dela. Os foros que era costumeiramente obrigado a pagar não eram senão uma fração do que
produzia. Nem sempre era possível vender a terra, mas ela era sempre legável de pai para filho; e, de modo
geral, ao fim deste longo processo de mil anos, o escravo tornou-se um homem livre, para todos os propósitos
comuns da sociedade. Ele comprava e vendia. Poupava conforme quisesse, investia, construía, drenava à
vontade, e, se melhorasse a terra, era em proveito próprio.
Enquanto isso, lado a lado com esta emancipação da humanidade que descendia em linha direta dos
antigos escravos pessoais da antiga vila romana, surge, na Idade Média, uma miríade de instituições que, da
mesma forma, favoreciam a distribuição da propriedade e a destruição até mesmo dos resquícios fósseis de
um já esquecido Estado Servil. Assim, indústrias urbanas de todos os tipos, no transporte, nas manufaturas,
no comércio, organizam-se na forma de guildas. E uma guilda era uma sociedade parcialmente cooperativa,
mas sobretudo composta de detentores privados de capital, cujas corporações eram autogeridas e destinadas a
frear a competição entre seus membros — para evitar o crescimento de um à custa de outro. Acima de tudo,
a guilda protegia com máximo zelo a divisão da propriedade, para que não se formasse, entre suas fileiras,
um proletariado de um lado, e um capitalista monopolizador de outro.
Havia um período de aprendizagem quando da entrada de um homem na guilda, durante o qual ele
trabalhava para um mestre; mas, com o tempo, ele mesmo se tornava mestre. A existência de tais
corporações como unidades industriais normais de produção, de empresa comercial e de meios de transporte
dá prova suficiente do espírito social que havia emancipado o trabalhador da terra. E embora tais instituições
florescessem lado a lado com as comunidades de vilarejos não mais servis, a posse alodial ou absoluta do solo,
em distinção à terra que o servo arrendava como vassalo do senhor, também se ampliou.
Essas três modalidades sob as quais o trabalho era exercido — o servo, seguro em sua posição e
perturbado apenas pelos foros comuns, que não representavam mais que uma fração do que produzia; o
proprietário livre, um homem independente salvo por suas obrigações pecuniárias, que se assemelhavam
mais a um tributo que a um aluguel; a guilda, em que o capital bem repartido trabalhava de forma
cooperativa para a produção de bens, o transporte e o comércio — as três, juntas, favoreciam uma sociedade
que devia se basear no princípio da propriedade. Todos, ou a maioria — a família normal —, deveriam
dispor de posses. E sobre a posse deveria repousar a liberdade do Estado.
O Estado, da forma como era concebido pelos homens ao final desse processo, era um aglomerado de
famílias de riqueza variável, mas que, na maioria dos casos, detinha meios de produção. Era um aglomerado
em que a estabilidade desse sistema distributivo (conforme o denominei) era garantida pela existência de
órgãos cooperativos, reunindo os homens que praticavam o mesmo ofício ou habitavam o mesmo vilarejo;
garantindo o pequeno proprietário contra a perda de independência econômica, ao mesmo tempo que
garantia a sociedade contra a formação de um proletariado. Se a liberdade de compra e venda, de hipoteca e
herança, eram restringidas, eram-no com o objetivo social de evitar a formação de uma oligarquia
econômica que pudesse explorar o restante da comunidade. As restrições à liberdade eram restrições voltadas
à preservação da liberdade; e todas as ações da sociedade medieval, da flor da Idade Média à iminência de
sua catástrofe, voltavam-se à instauração de um Estado em que os homens fossem economicamente livres por
meio da posse de capital e terras.
Salvo em pontos específicos da fórmula legal, ou em raros rincões isolados e excêntricos, a Instituição
Servil havia desaparecido por completo; não se deve imaginar, no entanto, que algo de natureza semelhante à
do coletivismo a tenha substituído. Havia terras comuns, mas eram terras comuns guardadas zelosamente
por homens que também eram donos de outras terras. A propriedade comum do vilarejo era apenas uma das
formas de propriedade, e usada antes como volante para preservar a regularidade do mecanismo cooperativo
do que como algum tipo de propriedade coletiva peculiarmente sagrada. As guildas possuíam propriedades
em comum, mas eram as propriedades necessárias para a sua vida cooperativa — seus salões, seus fundos de
reserva, suas dotações religiosas. Quanto aos instrumentos dos ofícios, eram de propriedade de cada membro
individualmente, e não da guilda, salvo quando fossem tão caros a ponto de necessitar controle corporativo.
Tal foi a transformação que ocorreu na sociedade européia no curso de dez séculos cristãos. A escravidão
fora extinta, e em seu lugar veio o estabelecimento da livre propriedade, que parecia tão normal aos homens
e tão consoante com uma vida humana feliz. Na época, nenhum nome específico se deu para isso. E hoje, que
esse arranjo desapareceu, temos de cunhar um, ainda que insólito, e dizer que a Idade Média,
instintivamente, concebeu e deu existência ao Estado Distributista.
Essa excelente consumação da sociedade humana não existe mais, como sabemos, e foi, em certas
províncias da Europa, mas especialmente na Grã-Bretanha, destruída.
Em lugar de uma sociedade onde a massa determinante das famílias era detentora de capital e terras;
onde a produção era regulada por corporações autogeridas de pequenos proprietários; e onde a miséria e a
insegurança de um proletariado eram desconhecidas, surgiu como substituta a pavorosa anarquia moral
contra a qual todo esforço moral agora se volta, e que atende pelo nome de capitalismo.
Como se deu tamanha catástrofe? Por que foi permitida, e por qual processo histórico esse mal se
consolidou? O que transformou a Inglaterra economicamente livre na Inglaterra que conhecemos hoje, onde
pelo menos um terço é indigente, onde 95% são destituídos de capital e terra, e cuja indústria e vida nacional
são controladas, em seu aspecto econômico, por uns poucos e aleatórios dirigentes de milhões, uns poucos
senhores de monopólios anti-sociais e irresponsáveis?
A resposta mais comum a esta pergunta fundamental de nossa história, e a mais prontamente aceita, é
que esse infortúnio se deu por meio de um processo material conhecido como Revolução Industrial. Imagina-
se que o uso de maquinário caro, a concentração da indústria e de seus implementos, tenham escravizado, de
alguma forma às cegas e sem o concurso da vontade humana, a ação do povo inglês.
A explicação é inteiramente falsa. Nenhuma causa material desse tipo determinou a degradação de que
padecemos.
Foi a ação deliberada dos homens, a vontade maligna em alguns e a apatia da vontade em muitos, que
produziu uma catástrofe tão humana em suas causas e origens quanto vil em seus efeitos.
O capitalismo não foi um produto do movimento industrial, nem de descobertas materiais aleatórias.
Um pouco de intimidade com a história, e um pouco de objetividade no seu ensino, bastariam para prová-lo.
O sistema industrial foi um produto do capitalismo, e não a sua causa. O capitalismo já existia na
Inglaterra antes do advento do sistema industrial; antes do uso do carvão e do novo maquinário caro, e da
concentração dos implementos de produção nas grandes cidades. Não estivesse o capitalismo presente antes
da revolução industrial, esta revolução poderia ter se provado benéfica para os ingleses, da mesma forma que
se provou maléfica. Mas o capitalismo — ou seja, a posse, por alguns poucos, dos mananciais da vida —
estava presente muito antes do advento das grandes descobertas. Ele deturpou os efeitos dessas descobertas e
novas invenções, e as transformou de algo bom em algo ruim. Não foram as máquinas que nos tolheram a
liberdade; foi a perda de uma mente livre.

SEÇÃO IV
COMO O ESTADO DISTRIBUTIVO RUIU

COM O FIM DA IDADE MÉDIA, as sociedades da Cristandade ocidental, e a Inglaterra entre elas, encontravam-
se economicamente livres.
A propriedade era uma instituição nativa ao Estado e usufruída pela grande massa de seus cidadãos.
Instituições cooperativas e regulações voluntárias de trabalho restringiam o uso plenamente independente da
propriedade por parte de seus donos, unicamente para manter essa instituição intacta e evitar a absorção da
pequena propriedade pela grande.
Este excelente estado de coisas, que havíamos alcançado após muitos séculos de desenvolvimento cristão,
e no qual a antiga instituição da escravidão fora finalmente extirpada da Cristandade, não sobreviveu em
todos os lugares. Na Inglaterra, em particular, ele ruiu. As sementes do desastre foram plantadas no século
XVI. Seus primeiros efeitos visíveis vieram à luz no século XVII. Durante o século XVIII, a Inglaterra veio a
finalmente se estabelecer, embora inseguramente, sobre uma base proletária, ou seja, já havia se tornado
uma sociedade de homens ricos detentores dos meios de produção, de um lado, e de uma maioria desprovida
de tais meios de outro. Com o século XIX, a erva-daninha alcançou a maturidade e a Inglaterra tornou-se,
antes de findo o período, um Estado puramente capitalista, a forma e o modelo do capitalismo para o
mundo todo: com os meios de produção firmemente detidos por um grupo muito pequeno de cidadãos, e
toda a massa determinante da nação desprovida de capital e terras, e desprovida, portanto, de segurança em
todos os casos, e em muitos de suficiência também. A massa dos ingleses, ainda dispondo de liberdade
política, carecia mais e mais dos elementos de liberdade econômica, e estava em posição pior do que os
cidadãos livres jamais se encontraram antes na história da Europa.
Como tamanha catástrofe se abateu sobre nós?
O primeiro passo neste processo consistiu no modo equivocado com que se lidou com uma grande
revolução econômica que marcou o século XVI. As terras e a riqueza acumulada dos monastérios foram
tomadas de seus antigos donos com a intenção de concedê-las à Coroa – mas foram, na realidade, não para
as mãos da Coroa, mas para as mãos de um setor já abastado da comunidade, e que, finda a transição,
tornou-se, nos séculos posteriores, o poder governante da Inglaterra.
Eis o que ocorreu:
A Inglaterra do início do século XVI, a Inglaterra em que Henrique VIII herdou sua poderosa Coroa
ainda jovem, embora fosse uma Inglaterra na qual a grande massa dos homens fosse dona das terras que
cultivava, das casas em que morava e dos implementos que utilizava, era ainda uma Inglaterra na qual tais
bens, embora amplamente distribuídos, estavam distribuídos desigualmente.
Nessa época, tal como agora, o solo e suas benfeitorias eram a base de toda riqueza, mas a proporção
entre o valor do solo e suas benfeitorias, e o valor dos outros meios de produção (implementos, artigos de
vestuário e subsistência, etc.) era diferente da que se verifica agora. As terras e suas benfeitorias formavam
uma fração muito maior da totalidade dos meios de produção do que formam hoje. Hoje, elas não
representam nem metade do total dos meios de produção deste país, e embora sejam a fundação necessária
para toda a produção de riqueza, nossas grandes máquinas, nossas provisões de comida e vestuário, nosso
carvão e petróleo, nossos navios e todo o resto, somam mais do que o valor real das terras e suas benfeitorias:
valem mais do que o solo arável e os pastos, o valor construtivo das casas, atracadouros e docas, e assim por
diante. No início do século XVI, a terra e suas benfeitorias somavam muito mais do que todas as outras
formas de riqueza juntas.
Ora, essa forma de riqueza estava, mais do que em qualquer outro país da Europa ocidental, já nas mãos
de uma abastada classe proprietária de terras ao fim da Idade Média.
É impossível apresentar estatísticas exatas, porque nenhuma se coletou, e podemos apenas fazer
afirmações genéricas com base em inferências e pesquisa. Mas, grosso modo, podemos dizer que, do valor
total das terras e suas benfeitorias, provavelmente mais de um quarto, embora menos de um terço, estava nas
mãos dessa classe abastada.
A Inglaterra de então era principalmente agrícola, e consistia de mais de quatro, mas menos de seis
milhões de pessoas, e em cada comunidade agrícola havia o senhor, como era legalmente chamado (o
fidalgo, como o chamavam nas conversas), detentor de mais terras de domínio do que em qualquer outro
país. Na média, o encontraríamos, digamos, dono dessa forma absoluta de mais de um quarto, se não um
terço, das terras do vilarejo: nas cidades, a distribuição era mais equitativa. Às vezes era um indivíduo
particular que estava nessa posição, às vezes uma corporação, mas em todos os vilarejos encontraríamos esta
terra de domínio, de posse absoluta do chefe político do vilarejo, ocupando uma porção considerável do
território. O resto das terras, embora distribuídas como propriedade entre os menos afortunados da
população, e abarcando as casas e implementos dos quais não podiam ser desvinculadas, pagavam certos
foros ao senhor, e, mais ainda, nelas era o senhor quem exercia a justiça local. Por um século já, essa abastada
classe de proprietários de terra vinha sendo a Justiça da qual dependia a administração local.
Não havia razão para que esse estado das coisas não levasse, gradualmente, à ascensão dos camponeses e
ao declínio dos senhores. Foi o que ocorreu na França, e poderia perfeitamente ter ocorrido aqui. Um
campesinato ávido de aquisições poderia ter estendido suas terras, gradualmente, avançando sobre as terras
de domínio, e à distribuição da propriedade, que já estava praticamente completa, poderia ter-se
acrescentado outro excelente elemento, a saber, a posse mais equitativa de tal propriedade. Mas esse processo
de aquisição gradual das terras do grande pelo pequeno, tal como pareceria natural ao temperamento de nós,
europeus, e tal como ocorreu desde então em quase toda parte nos países que foram deixados livres para agir
de acordo com seus instintos populares, foi interrompido neste país por uma revolução da mais violenta
espécie. Esta revolução artificial consistiu na tomada das terras monásticas pela Coroa.
É importante compreender claramente a natureza dessa operação, pois todo o futuro econômico da
Inglaterra decorrerá dela.
Das terras de domínio, e do concomitante poder sobre a administração local que estas proporcionavam
(uma característica importantíssima, como veremos adiante), bem mais de um quarto estava nas mãos da
Igreja. A Igreja era, portanto, “senhora” de algo acima de 25%, digamos 28%, ou talvez quase 30%, das
comunidades agrícolas inglesas, e supervisava semelhante proporção de toda a produção agrícola inglesa. A
Igreja era, ademais, a dona absoluta, na prática, de algo em torno de 35% das terras de domínio nos vilarejos,
e a receptora de igual quantidade de foros consuetudinários etc., pagos pelos pequenos proprietários aos
maiores. Todo esse poder econômico permaneceu, até 1535, nas mãos de cabidos catedralícios, comunidades
de monges e freiras, estabelecimentos educacionais dirigidos pelo clero, e assim por diante.
Quando as terras monásticas foram confiscadas por Henrique VIII, essa vasta influência econômica não
foi toda extinta de uma hora para outra. O clero secular conservou sua dotação, e a maior parte dos
estabelecimentos educacionais, embora saqueados, mantiveram parte de suas receitas; mas embora o total
daqueles 30% não tenha sofrido confisco, algo bem acima de 20% sofreu, e a revolução causada por essa
vasta operação foi de longe a mais completa, súbita e avassaladora entre todas as que ocorreram na história
econômica de qualquer povo europeu.
Inicialmente, a intenção era conservar essa grande massa de meios de produção nas mãos da Coroa: isto
deve ser claramente lembrado por todo estudioso dos destinos da Inglaterra, e por todos que se maravilham
com o contraste entre a velha Inglaterra e a nova.
Tivesse essa intenção se concretizado, o Estado inglês e seu governo teriam sido o mais poderoso da
Europa.
O executivo (que, naqueles dias, significava o rei) teria tido uma melhor oportunidade de esmagar a
resistência dos ricos, respaldar seu poder político com o poder econômico, e reordenar a vida social de seus
súditos, do que qualquer outro executivo da Cristandade em qualquer época.
Tivessem Henrique VIII e seus sucessores conservado as terras então confiscadas, o poder da monarquia
francesa, que tanto nos assombra, nada seria frente ao poder dos ingleses.
O rei da Inglaterra teria em suas mãos um instrumento de controle do tipo mais absoluto. Ele o teria
usado, podemos presumir, como sempre o faz todo governo central forte, para debilitar as classes mais ricas, e
para o benefício indireto da massa das pessoas. De qualquer forma, teria sido uma Inglaterra bem diferente
da que conhecemos, tivesse o rei se mantido fiel aos próprios interesses após a dissolução dos monastérios.
Ora, é precisamente aqui que surge o ponto crucial desta grande revolução. O rei não logrou conservar as
terras confiscadas. Aquela classe de grandes proprietários de terra que já existia e controlava, como citado,
qualquer coisa entre um quarto e um terço das riquezas agrícolas da Inglaterra, provou-se demasiado
poderosa para a monarquia. Eles insistiram em que as terras lhes fossem concedidas, ora gratuitamente, ora
por valores irrisórios, e tiveram suficiente força no Parlamento, e junto ao aparato administrativo local, para
garantir que suas exigências fossem satisfeitas. Nada do que a Coroa cedeu jamais retornou a ela, e, ano após
ano, mais e mais do que outrora haviam sido as terras monásticas foi se tornando de posse absoluta dos
grandes proprietários de terra.
Observem o efeito disso. Por toda a Inglaterra, homens que já detinham, em posse praticamente absoluta,
em torno de um quarto a um terço do solo, dos arados e dos celeiros de um vilarejo, tornaram-se detentores,
em uns poucos anos, de uma porção ainda maior dos meios de produção, alterando o equilíbrio
completamente a seu favor. Àquele terço de terras acrescentou-se mais um quinto adicional. Tornaram-se, de
um só golpe, donos de metade das terras! Em muitos centros de importância capital, vieram a tornar-se
donos de mais da metade das terras. Eram, em muitos distritos, não apenas os superiores inquestionáveis, mas
os senhores econômicos do resto da comunidade. Podiam comprar da forma mais vantajosa. Eram
estritamente competitivos, cobrando cada centavo de tributo e aluguel, onde os senhorios clericais de outrora
haviam respeitado a tradição — deixando grande parte para o arrendatário. Começaram a lotar as
universidades e o Judiciário. A Coroa decidia cada vez menos entre o grande e o pequeno. Mais e mais o
grande podia decidir em seu próprio benefício. Logo estavam de posse, por conta dessas operações, do grosso
dos meios de produção, e de pronto começaram a devorar os pequenos homens independentes e,
gradualmente, a formar aquelas grandes propriedades rurais que, no decurso de algumas gerações, tornaram-
se idênticas ao próprio vilarejo. Por toda a Inglaterra é possível perceber que os casarões dos grão-fidalgos
datam dessa revolução ou depois. O solar, a casa do figurão local, tal como era na Idade Média, sobrevive
aqui e acolá para mostrar quão imenso foi o efeito dessa revolução. O descampado, com seus anexos e prédios
secundários, apenas uma casa rural maior que as outras, converte-se, da Reforma em diante, num palácio.
Salvo onde os grandes castelos (que eram apenas de uso da Coroa, mas não de sua propriedade) constituíam
a exceção, os nobres pré-Reforma viviam como homens mais ricos que os fazendeiros em volta, mas não
como seus senhores. Após a Reforma, começam a surgir por toda a Inglaterra aquelas grandes “casas de
campo” que rapidamente se tornaram os típicos núcleos da vida agrícola inglesa.
O processo estava a pleno vapor antes da morte de Henrique VIII. Infelizmente, para a Inglaterra, ele
deixou como herdeiro uma criança adoentada, em cujos seis anos de reinado, de 1547 a 1553, a pilhagem
prosseguiu em um ritmo acachapante. Quando de sua morte e da ascensão de Maria ao trono, a pilhagem já
estava quase completa. Uma massa de novas famílias havia ascendido, ricas para além da proporção com
qualquer coisa que a antiga Inglaterra conhecera, e ligadas por um interesse comum às velhas famílias que
participaram do saque. Cada homem que se sentou no Parlamento representando um condado, sem exceção,
cobrou seu preço para votar pela dissolução dos monastérios; todos, sem exceção, o receberam. Uma lista dos
membros do Parlamento da Dissolução basta para prová-lo. E, além do poder de que dispunha no
Parlamento, esta classe tinha cem outras formas de fazer valer a sua vontade. Os Howards (já de certa
linhagem), os Cavendishes, os Cecils, os Russels, e cinqüenta outras novas famílias ascenderam dessa forma
sobre os escombros da religião; e o processo prosseguiu com regularidade até que, passados cerca de cem anos
de sua gênese, toda a face da Inglaterra havia mudado.
No lugar de uma Coroa poderosa dispondo de receitas bem maiores que a de qualquer súdito, restou uma
Coroa desesperada por dinheiro e dominada pelos súditos, alguns dos quais eram seus pares em matéria de
recursos, e que poderiam, especialmente através de ações no Parlamento (que agora controlavam), fazer o
que bem entendessem com o governo.
Em outras palavras, findo o primeiro terço do século XVII, em 1630 –40, a revolução econômica estava
finalmente consumada, e a nova realidade econômica, avançando sobre as antigas tradições inglesas, consistia
numa poderosa oligarquia de grandes proprietários lançando sua sombra sobre uma monarquia empobrecida
e minguada.
Outras causas contribuíram para esse resultado deplorável. A mudança no valor do dinheiro, que foi um
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grande baque para a Coroa ; a história peculiar da família Tudor, suas paixões violentas, sua falta de
resolução e de qualquer política contínua; em certo grau a personalidade do próprio Carlos I; e muitas outras
causas subsidiárias podem ser citadas. Mas o fato principal de que tudo depende é o fato de que as terras
monásticas, pelo menos um quinto da riqueza do país, haviam sido transferidas aos grandes proprietários de
terra, e esta transferência alterou a balança completamente a seu favor, em detrimento dos camponeses.
A definhante e empobrecida Coroa não poderia mais se sustentar. Ela lutou contra a nova riqueza, a
contenda das Guerras Civis; foi cabalmente derrotada; e quando se chegou a um novo acordo, em 1660, tem-
se todas as realidades do poder nas mãos de uma pequena e poderosa classe de homens abastados — o Rei
ainda cercado pelas formas e tradições de seu antigo poder, mas na prática um fantoche remunerado. E
naquele mundo econômico que subjaz a todas as aparências políticas, a grande nota dominante era que
algumas poucas famílias abastadas haviam assumido o controle do grosso dos meios de produção na
Inglaterra, enquanto essas mesmas famílias exerciam todo o poder administrativo local e eram, ademais, os
juízes, a educação superior, a Igreja e os generais — ofuscando o que ainda sobrava de governo central neste
país.
Tome-se, como ponto inicial para o que se seguiu, o ano de 1700. Nesta época, mais da metade dos
ingleses eram desprovidos de capital e terra. Nem um homem a cada dois, mesmo considerando os
proprietários muito pequenos, habitava uma casa da qual fosse o proprietário seguro, ou cultivava uma terra
da qual não pudesse ser despejado.
Tal proporção pode nos parecer um arranjo maravilhosamente livre hoje, e, certamente, se quase metade
da população detivesse os meios de produção, estaríamos em uma situação muito diferente daquela em que
nos encontramos. Mas o ponto a se observar é que, embora a vil empresa estivesse longe de encerrada por
volta do ano 1700, a essa altura a Inglaterra já havia se tornado capitalista. Já havia permitido a um vasto
segmento de sua população tornar-se proletária, e é isto, e não a dita “revolução industrial”, posterior, o que
explica a terrível condição social em que nos encontramos hoje.
O quanto isso é verdadeiro, o que ainda tenho para tratar nesta seção irá provar.
Em uma Inglaterra já atormentada por uma classe proletária muito grande, e em uma Inglaterra já
dirigida por uma classe capitalista dominante, dispondo dos meios de produção, sobreveio então um grande
desenvolvimento industrial.
Tivesse esse desenvolvimento sobrevindo a um povo economicamente livre, ele teria tomado uma forma
cooperativa. Vindo como veio, sobre um povo já amplamente destituído de sua liberdade econômica, ele
tomou já na origem uma forma capitalista, e foi esta forma que se conservou, expandiu-se e se aperfeiçoou ao
longo de duzentos anos.
Foi na Inglaterra que o sistema industrial surgiu. Foi na Inglaterra que todas as suas tradições e hábitos
se formaram; e uma vez que a Inglaterra em que surgiu era já uma Inglaterra capitalista, o Industrialismo
moderno, onde quer que o vejamos em operação atualmente, procedeu do modelo capitalista.
Foi em 1705 que o primeiro motor a vapor funcional, de Newcomen, foi posto em funcionamento.
Transcorreu o prazo da vida de um homem antes que esta invenção se tornasse, pelo advento do condensador
de Watt, no grande instrumento de produção que transformou a nossa indústria. Mas nestes sessenta anos
encontraremos toda a gênese do sistema industrial. Foi logo antes da patente de Watt que apareceu a
máquina de fiar hidráulica de Hargreaves. Trinta anos antes, Abraham Darby, de Coalbrookdale, ao fim de
uma longa série de experimentos que se estenderam por mais de um século, conseguiu fundir minério de
ferro utilizando coque. Nem vinte anos depois, King introduziu a pinça volante, o primeiro grande
aprimoramento do tear manual; e, de modo geral, o período abrangido por uma vida como a do Dr.
Johnson, nascido logo após o primeiro uso do motor de Newcomen, e falecido setenta e quatro anos depois,
quando o sistema industrial estava em pleno funcionamento, cobre essa grande transformação da Inglaterra.
Um homem que, da infância, se lembrasse dos últimos anos da Rainha Ana, e tivesse vivido até a véspera da
Revolução Francesa, veria passar diante dos olhos a mudança que transformou a sociedade inglesa e a levou
à situação expansiva e periclitante que testemunhamos atualmente.
Qual foi a marca característica desse meio século e pouco? Por que as novas invenções nos deram a forma
de sociedade hoje conhecida e odiada sob o nome de “industrial”? Por que o vasto aumento da capacidade
produtiva, da população e do acúmulo de riquezas transformou a massa dos ingleses em um proletariado
assolado pela pobreza, isolou os ricos do resto da nação e desenvolveu ao máximo todos os males que
associamos ao Estado Capitalista?
A esta questão deu-se uma resposta quase tão universal quanto tola. Trata-se de uma resposta não só tola,
como falsa, e será meu trabalho aqui mostrar o quanto ela é falsa. A resposta fornecida em inúmeros
manuais, e tomada quase como lugar-comum em nossas universidades, é que os novos métodos de produção
— o novo maquinário, os novos implementos — constituíram, fatalmente e por si só, um Estado Capitalista
em que alguns poucos são donos dos meios de produção e a massa é proletária. Os novos instrumentos,
aponta-se, eram de uma escala tão mais vasta que os antigos, e tão mais caros, que o pequeno não podia arcar
com eles; ao passo que os ricos, que podiam comprá-los, engoliram pela competição, e reduziram da posição
de pequeno proprietário à de assalariado, seus concorrentes insuficientemente equipados, que ainda
teimavam em labutar com as ferramentas mais antigas e baratas. A isto (dizem-nos) somaram-se as
vantagens da concentração em prol do grande proprietário contra o pequeno. Não apenas os novos
instrumentos eram caros quase na proporção de sua eficiência, mas, especialmente após a introdução do
vapor, eram eficientes na proporção de sua concentração em uns poucos lugares e sob a direção de uns
poucos homens. Sob o efeito desses falsos argumentos, fomos ensinados a acreditar que os horrores do sistema
industrial foram o produto cego e necessário de forças materiais e impessoais, e que onde quer que o motor a
vapor, o tear automático, a fornalha e o resto, sejam introduzidos, fatalmente aparecerá um pequeno grupo
de proprietários para explorar uma vasta maioria de desabonados.
É espantoso que uma explicação em tão flagrante contradição com a história tenha ganho uma
credibilidade tão generalizada. Com efeito, se as principais verdades da história inglesa fossem ensinadas em
nossas escolas e universidades de hoje, se os homens educados travassem contato com os principais fatos
determinantes do passado nacional, tais loucuras nunca teriam se enraizado. O vasto crescimento do
proletariado, a concentração da propriedade nas mãos de uns poucos proprietários e a exploração da massa
da comunidade por esses proprietários, não têm nenhuma conexão fatal ou necessária com a descoberta dos
novos meios de produção, em perpétuo aprimoramento. O mal procede em seqüência histórica direta;
procede, patente e demonstravelmente, do fato de que a Inglaterra, a sementeira do sistema industrial, já
havia sido capturada por uma abastada oligarquia antes do início dessa série de grandes descobertas.
Considere-se o modo pelo qual o Sistema Industrial se constituiu segundo uma orientação capitalista. Por
que uns poucos homens ricos se apossaram dos novos métodos com tanta facilidade? Por que era normal e
natural, a seus olhos e aos da sociedade de então, que aqueles que produziam a nova riqueza com o novo
maquinário fossem proletários desabonados? Simplesmente porque a Inglaterra em que as novas descobertas
ocorreram já era uma Inglaterra cujos solo e acúmulos de riqueza eram detidos por uma pequena minoria: já
era uma Inglaterra onde talvez metade de toda a população era proletária, e um instrumento disponível para
ser explorado.
Quando uma nova indústria qualquer era iniciada, ela tinha de ser capitalizada; ou seja, tinha-se de
encontrar riqueza acumulada de uma fonte ou outra para sustentar a mão-de-obra até o processo de
produção se completar. Alguém precisava arranjar o cereal e a carne, o abrigo e as roupas, com que
sustentar, entre a extração da matéria-prima e o consumo do produto acabado, os agentes humanos que
lidavam com a matéria-prima e a transformavam no produto acabado. Estivesse a propriedade bem
distribuída, protegida por guildas cooperativas cercadas e amparada pelo costume e pela autonomia das
grandes corporações artesãs, esses acúmulos de riqueza, necessários para o lançamento de cada novo método
de produção e para cada novo aperfeiçoamento, teriam sido encontrados na massa dos pequenos
proprietários. Suas corporações, suas pequenas parcelas de riqueza combinadas, teriam fornecido a
capitalização requerida para os novos processos, e homens já proprietários, conforme as invenções se
sucediam, poderiam ampliar a riqueza total da comunidade, sem perturbar o equilíbrio da distribuição. Não
há qualquer elo, na razão ou na experiência, que vincule a capitalização de um novo processo à idéia de uns
poucos empregadores proprietários e uma massa de empregados não-proprietários trabalhando por um
salário. Se tais grandes descobertas tivessem ocorrido em uma sociedade como aquela do século XIII, elas
teriam abençoado e enriquecido a humanidade. Surgindo, porém, nas condições morais enfermiças do século
XVIII deste país, elas provaram-se uma maldição.
A quem poderia a nova indústria recorrer para capitalizar-se? O pequeno proprietário já tinha, em larga
medida, desaparecido. A vida corporativa e as obrigações mútuas que o apoiavam e confirmavam em sua
propriedade haviam sido estilhaçadas não pelo “desenvolvimento econômico”, mas pela ação deliberada dos
ricos. Ele era ignorante porque suas escolas lhe foram tomadas, e as portas das universidades lhe foram
fechadas. Ele era ainda mais ignorante porque a vida comunitária, que outrora lhe nutrira o sentimento
social, e os arranjos cooperativos, que tinham sido sua defesa, desapareceram. Quando se buscava um
acúmulo de cereal, roupas, moradia e combustível, como requisitos indispensáveis para o lançamento
preliminar de uma nova indústria; quando se olhava em redor em busca de alguém que pudesse encontrar a
riqueza acumulada necessária para esses experimentos portentosos, tinha-se de se buscá-lo na classe que já
havia monopolizado a maior parte dos meios de produção da Inglaterra. Somente estes homens ricos
poderiam fornecer tais artigos.
Tampouco isso era tudo. Uma vez garantidos os suprimentos e a aventura “capitalizada”, aquela forma
de energia humana que era mais fácil de manipular, que era indefinidamente explorável, fraca, ignorante e
desesperadamente necessitada, pronta para produzir sob quase quaisquer condições, e capaz de se contentar
com a mera manutenção da vida, era o proletariado, que a nova plutocracia havia criado no momento em
que, apossando-se da riqueza do país depois da Reforma, despojou a massa dos ingleses da posse de
implementos, casas e terras.
A classe rica, ao adotar algum novo processo de produção para seu ganho pessoal, operava numa linha de
mera concorrência que a sua própria avareza havia estabelecido. A tradição cooperativa estava morta. Onde
ela encontraria a mão-de-obra mais barata? Obviamente, dentre o proletariado — não entre os pequenos
proprietários remanescentes. Que classe ganharia corpo sob a nova riqueza? Obviamente, de novo, o
proletariado, sem responsabilidades, sem nada a deixar para seus descendentes; e que, à medida que
engordava os ganhos do capitalista, permitia-lhe cada vez mais comprar as terras do pequeno proprietário e
mandá-lo engordar, por outra via, a massa proletária.
Foi por esse motivo que a chamada Revolução Industrial assumiu em suas origens a forma que a
transformou numa maldição quase pura para a sociedade infeliz na qual floresceu. Os ricos, já de posse dos
acúmulos sem os quais essa mudança industrial não poderia ser levada a cabo, herdou todos os sucessivos
acúmulos de implementos e todos os crescentes acúmulos de subsistência. O sistema fabril, partindo de uma
base composta de capitalista e proletariado, cresceu nos moldes que haviam determinado suas origens. A
cada novo avanço, o capitalista buscava nova matéria proletária com que alimentar o moinho produtivo.
Cada circunstância dessa sociedade, a forma pela qual as leis que regulavam o lucro e a propriedade eram
promulgadas, as obrigações dos sócios, as relações entre “senhor” e “homem”, favorecia diretamente a
expansão indefinida de uma classe assalariada amorfa e subserviente, controlada por um pequeno grupo de
proprietários, o qual tendia a ser cada vez menor e mais rico, e dispor de um poder cada vez maior conforme
a vil empresa prosseguia.
O alcance da oligarquia econômica era sentido em todas as partes, não apenas na indústria. Os grandes
senhores de terra destruíram deliberadamente, com calculado propósito e em vantagem própria, os direitos
comuns sobre as terras comuns. A pequena plutocracia com a qual estavam mancomunados, e com cujos
elementos mercantis estavam agora fundidos, direcionava tudo para seus próprios fins. Aquele governo
central forte, que deveria proteger a comunidade contra os desmandos de uns poucos, havia desaparecido
gerações atrás. O Capitalismo, triunfante, manejava todos os mecanismos legislativos, e de informação
também. Ele ainda os detém; e não há um só exemplo da dita “reforma social” hoje em dia que não seja
demonstravelmente (embora, muitas vezes, de forma subconsciente) direcionado para um maior
entrincheiramento e confirmação de uma sociedade industrial na qual fica subentendido que uns poucos
devem possuir, que a vasta maioria deve viver sob o jugo destes à base de salário, e que tudo o que a maioria
dos ingleses pode esperar é a melhora de sua condição por meio de regulamentos e controles vindos de cima
— mas não por meio da propriedade; não por meio da liberdade.
Todos sentimos — e aqueles poucos de nós que analisaram o tema não apenas sentem, mas sabem —
que a sociedade capitalista que gradualmente se formou desta maneira, desde suas origens na tomada das
terras quatrocentos anos atrás, está com os dias contados. É quase auto-evidente que ela não pode continuar
da forma que agora três gerações conheceram, e é igualmente auto-evidente que alguma solução deve ser
encontrada para a intolerável e crescente instabilidade com que ela envenenou nossas vidas. Mas antes de
considerar as soluções apresentadas pelas várias escolas de pensamento, mostrarei, na próxima seção, como e
por que o sistema industrial capitalista inglês é intoleravelmente instável e, por conseguinte, apresenta um
agudo problema que precisa ser resolvido, sob pena de morte social.
Deve-se notar que o industrialismo moderno se espalhou para muitos outros centros partindo da
Inglaterra e carrega por toda parte as características que lhe foram estampadas em sua origem neste país.

SEÇÃO V
O ESTADO CAPITALISTA, NA PROPORÇÃO QUE SE TORNA MAIS PERFEITO, TORNA-SE MAIS INSTÁVEL

DA DIGRESSÃO HISTÓRICA que introduzi à guisa de ilustrar meu assunto nas duas últimas seções, retorno
agora à discussão geral de minha tese, e ao processo lógico pelo qual ela pode ser estabelecida.
O Estado Capitalista é instável, consistindo, mais propriamente, numa fase transitória entre dois estados
estáveis e permanentes da sociedade.
Para compreender por que isto é assim, vamos relembrar a definição do Estado Capitalista:
“Uma sociedade na qual a propriedade dos meios de produção está confinada a um grupo de cidadãos
livres, pequeno demais para representar o caráter geral dessa sociedade, enquanto os demais estão destituídos
dos meios de produção e são, portanto, proletários, chamamos de capitalista.”
Note-se os vários problemas com este estado das coisas. Existe propriedade privada; mas não se trata de
propriedade privada distribuída nas mãos de muitos e, portanto, de uma instituição familiar à sociedade
como um todo. De novo, tem-se a grande maioria desabonada, mas, ao mesmo tempo, na condição de
cidadãos, ou seja, homens livres para agir politicamente, embora impotentes economicamente; de novo,
embora isto seja apenas uma inferência de nossa definição, é uma inferência necessária a de que, sob o
capitalismo, haverá uma exploração planejada, direta e consciente da maioria, os cidadãos livres que nada
possuem, pelos poucos que possuem. Afinal, é preciso produzir riqueza; toda a comunidade precisa viver: e os
proprietários podem negociar com os não-proprietários condições que garantam que uma parte do que estes
produzem lhes seja entregue.
Tal sociedade não tem como perdurar. Não pode perdurar, pois está sujeita a duas tensões bastante
severas — tensões que aumentam em severidade na proporção com que a sociedade se torna mais
plenamente capitalista. A primeira dessas tensões advém da divergência entre as teses morais sobre as quais o
Estado repousa e as realidades sociais que tais teses morais tentam regular. A segunda tensão advém da
insegurança a que o capitalismo condena a grande massa da sociedade, e do caráter geral de ansiedade e
risco que impõe a todos os cidadãos, mas em particular à maioria — que consiste, no capitalismo, de homens
livres sem posses.
Dessas duas tensões, é impossível determinar qual é a mais grave. Qualquer uma seria suficiente para
destruir um arranjo social no qual estivesse presente por muito tempo. Ambas combinadas tornam essa
destruição uma certeza; e não há mais dúvida de que a sociedade capitalista precisa se transformar num
outro arranjo mais estável. É o objetivo destas páginas descobrir qual, provavelmente, será este arranjo.
Afirmamos que há uma tensão moral já intoleravelmente severa, e que se torna cada vez mais severa a
cada aperfeiçoamento do capitalismo.
Esta tensão moral advém de uma contradição entre as realidades do capitalista e a base moral de nossas
leis e tradições.
A base moral sobre a qual nossas leis ainda são administradas e nossas convenções erigidas pressupõe um
Estado composto de cidadãos livres. Nossa legislação defende a propriedade como uma instituição normal
com a qual todos os cidadãos estão familiarizados, e que todos os cidadãos respeitam. Pune o roubo como um
incidente anormal que só ocorre quando, com dolo, um cidadão livre adquire a propriedade de outro sem o
seu conhecimento e contra a sua vontade. Pune a fraude como outro incidente anormal no qual, com dolo,
um cidadão livre induz outro a se desfazer de sua propriedade por meio de representações falsas. Garante o
cumprimento dos contratos, cuja única base moral reside na liberdade das duas partes contratantes e na
possibilidade de qualquer uma delas, se assim desejar, não entrar em um contrato que, uma vez firmado,
deve ser cumprido. Ela dá a um proprietário o direito de legar sua propriedade por herança, segundo a
concepção de que tal posse e tal transmissão de propriedade (a herdeiros naturais, via de regra, mas
excepcionalmente para qualquer outro que o testador apontar) são a operação normal de uma sociedade em
geral familiarizada com tais coisas, e tendo-as como parte normal da vida doméstica da massa dos cidadãos.
Ela obriga à reparação de danos o cidadão que, por ação premeditada, causar prejuízos a outrem – pois o
pressupõe capaz de pagar.
A sanção sobre a qual a vida em sociedade repousa, em nossa teoria moral, está na punição legal
aplicável em nossos tribunais. E a base pressuposta para a segurança e felicidade material de nossos cidadãos
está na posse de bens que nos garantem contra a ansiedade e nos permitem a ação independente em meio a
nossos semelhantes.
Agora contraste isso tudo, a teoria moral em nome da qual a sociedade é ainda perigosamente conduzida,
a teoria moral a que o próprio capitalismo recorre quando é atacado; contraste, digamos, suas formulações e
pressupostos com a realidade social de um Estado Capitalista, como a Inglaterra atual.
A propriedade permanece uma instituição, talvez, para a maioria dos cidadãos; enquanto experiência e
realidade, porém, ela é desconhecida a dezenove de cada vinte cidadãos. Uma centena de formas de fraude
— o corolário necessário da concorrência irrestrita entre poucos e da avareza irrestrita enquanto fator
motivador da produção — não são ou não podem ser punidas: com pequenos atos de violência na forma de
roubo, e de astúcia na forma de fraude, a legislação pode lidar; mas não pode lidar com eles sozinha. Nosso
aparato legal tornou-se pouco mais que um mecanismo para proteger os poucos proprietários das
necessidades, das demandas e do ódio da massa de seus semelhantes miseráveis. A vasta maioria dos ditos
contratos “livres”, hoje, são contratos leoninos: arranjos que um homem é livre para aceitar ou não, mas que
o outro não é, pois sua alternativa é definhar.
Mais importante de tudo, a realidade social fundamental de nosso movimento, muito mais importante
que qualquer segurança proporcionada pela lei, ou qualquer mecanismo que o Estado possa colocar em
funcionamento, é o fato de que a subsistência está à mercê daqueles que possuem. Ela pode ser concedida
pelos que têm aos que não têm, ou pode ser recusada. Em nossa sociedade, a verdadeira sanção aos arranjos
pelos quais ela se conduz não está na punição pelos tribunais, mas na recusa da subsistência aos
desamparados por parte dos proprietários. No momento, a maioria dos homens teme mais a perda do
emprego do que as sanções legais, e a disciplina pela qual homens são coagidos, na Inglaterra, em suas formas
modernas de atividade, é pelo medo da dispensa. Atualmente, o verdadeiro senhor dos ingleses não é o
soberano, nem os funcionários do Estado, nem, salvo indiretamente, as leis; o verdadeiro senhor é o
capitalista.
Dessas verdades maiores todos estão cientes; e quem quer que as negue hoje, o faz ao risco da própria
reputação, quer de honestidade, quer de inteligência.
Caso se pergunte por que as coisas demoraram tanto para chegar a esse ponto (estando o capitalismo em
formação há tanto tempo), a resposta é que a Inglaterra, mesmo agora o Estado mais plenamente capitalista
do mundo moderno, não se tornou um Estado plenamente capitalista até a presente geração. Os homens hoje
vivos ainda guardam na memória o panorama de metade da Inglaterra agrícola, com relações domésticas, e
não competitivas, entre os vários fatores humanos de produção.
Essa tensão moral, portanto, emergindo da divergência entre o que as nossas leis e sentenças morais
pretendem, e o que nossa sociedade de fato é, faz dessa sociedade algo sumamente instável.
Essa tese espiritual é de uma gravidade muito maior do que o tacanho materialismo de uma geração que
se aproxima do fim poderia imaginar. O conflito espiritual gera mais instabilidade no Estado do que
qualquer outro tipo de conflito, e há um agudo conflito espiritual, conflito em todas as consciências humanas
e mal-estar em toda a comunidade de nações, quando as realidades da sociedade estão divorciadas da base
moral de sua instituição.
A segunda tensão que notamos no capitalismo, seu segundo elemento de instabilidade, consiste no fato de
que o capitalismo destrói a segurança.
Basta a experiência para nos poupar de delongas neste importante tópico de nosso tema. Mas mesmo sem
recorrer à experiência, poderíamos raciocinar com certeza absoluta, partindo da própria natureza do
capitalismo, que seu efeito principal é a destruição da segurança na vida humana.
Combine estes dois elementos: a propriedade dos meios de produção por alguns poucos; a liberdade
política tanto dos proprietários quanto dos não-proprietários. Dessa combinação decorre imediatamente um
mercado competitivo onde a mão-de-obra dos não-proprietários alcança apenas o seu valor não enquanto
plena potência produtiva, mas enquanto potência produtiva que deixará um excedente ao capitalista. Ela
nada alcança quando o trabalhador está incapacitado de trabalhar; e tanto mais quanto maior o ritmo com
que for conduzida; menos na meia-idade que na juventude; menos na velhice que na meia-idade; nada na
doença; nada no desespero.
Um homem em posição de acumular (o resultado normal do trabalho humano), um homem amparado
na propriedade, em quantia suficiente e de forma estabelecida, não é mais produtivo em seu ócio do que um
proletário; mas sua vida é equilibrada e regulada pelo fato de receber, além de salários, receitas de aluguel e
juros. Os valores excedentes que lhe chegam são o volante que dá equilíbrio às vicissitudes da vida e o sustenta
nos maus momentos. Com um proletário, isso não ocorre. A perspectiva da qual o Capital olha para um ser
humano cujo trabalho propõe-se a comprar não se prende diretamente àquela perspectiva normal da vida
humana da qual todos contemplamos nossas afeições, deveres e personalidade. Um homem pensa em si
mesmo, em suas possibilidades e segurança, segundo as linhas de sua própria existência pessoal, do
nascimento à morte. O capital, ao adquirir mão-de-obra (e não o homem em si), adquire apenas uma parcela
de sua vida: seus momentos de atividade. Quanto ao resto, ele deve se virar sozinho; mas se virar sozinho
quando nada se tem é conhecer a fome.
A bem da verdade, onde poucos detêm os meios de produção, as condições políticas perfeitamente livres
são impossíveis. Não é possível a existência de um Estado Capitalista perfeito, embora tenhamos nos
aproximado dele na Inglaterra mais do que se considerava possível em qualquer nação mais afortunada. No
Estado Capitalista perfeito não haveria comida disponível para o não-proprietário, salvo quando este estivesse
de fato engajado na produção, e tal absurdo, rapidamente dando cabo de todas as vidas humanas, salvo as
dos proprietários, logo poria um fim neste arranjo. Se deixássemos os homens completamente livres num
sistema capitalista, a morte por inanição secaria as fontes de trabalho em um prazo brevíssimo.
Imagine-se que os destituídos sejam, idealmente, covardes perfeitos, e que os proprietários não levem em
consideração nada além da aquisição de mão-de-obra no mercado mais barato: o sistema ruiria em função
da morte de crianças e desempregados e mulheres. Não teríamos um Estado em mero declínio, como o nosso,
mas um Estado em manifesta e patente deterioração.
Na verdade, o capitalismo não pode, é claro, proceder até seus últimos desdobramentos lógicos. Enquanto
a liberdade política de todos os cidadãos estiver garantida (a liberdade dos poucos que têm comida de dá-la
ou recusá-la; dos muitos que não têm de aceitar qualquer barganha para não ficar de mãos vazias): exercer
tal liberdade plenamente equivaleria a deixar os muito jovens, os velhos, os impotentes, os desesperados,
morrerem de inanição. O capitalismo precisa manter vivas, através de meios não-capitalistas, grandes massas
da população que de outra forma morreriam de fome; e é isto que o capitalismo teve o cuidado de fazer
numa dimensão crescente, conforme foi adquirindo um controle cada vez maior sobre o povo inglês. A Lei
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dos Pobres de Elizabeth, primeiro, a Lei dos Pobres de 1834, advinda quando quase metade da Inglaterra
havia se tornado presa do capitalismo, são exemplos originais e primários: existem hoje centenas de outros.
Embora esta causa de insegurança — o fato de os proprietários não terem nenhum incentivo direto para
manter os homens vivos — seja logicamente a mais óbvia e sempre a mais persistente num sistema
capitalista, há uma outra causa mais pungente em seus efeitos sobre a vida humana. Esta outra causa é a
anarquia competitiva que a conjunção de propriedade restrita e liberdade provoca na produção.
Consideremos as implicações do próprio processo de produção onde os implementos e o solo estão nas mãos
de alguns poucos, cuja motivação para fazer o proletariado produzir não está no uso da riqueza criada, mas
no gozo, por esses mesmos proprietários, do valor excedente ou “lucro”.
Se permitirmos a plena liberdade política a dois desses detentores de implementos e reservas, cada um
cuidará ativamente de seu mercado, tentará vender mais barato que o outro e tenderá a produzir em excesso
ao fim de algum período de demanda extra para seu artigo, saturando, assim, o mercado e sofrendo um
período de depressão posteriormente — e assim por diante. De novo, o capitalista, gestor livre e individual da
produção, incorrerá num erro de cálculo; às vezes irá fracassar, e suas fábricas fecharão. De novo, uma massa
de unidades concorrentes isoladas e imperfeitamente instruídas nada pode senão dirigir seus esforços
conflitantes à base de um enorme desperdício, e este desperdício irá oscilar. A maioria das comissões, a
maioria dos anúncios, a maioria dos desfiles, são exemplos desse desperdício. Se fosse possível tornar esse
desperdício de esforços uma constante, o emprego parasítico que ele proporciona também seria constante.
Mas, por sua própria natureza, trata-se de uma coisa das mais inconstantes, e o emprego que garante é
necessariamente precário. A tradução concreta disso está na insegurança do caixeiro-viajante, do agente
publicitário, do corretor de seguros, e de toda forma de importunação e logro de clientes que o capitalismo
competitivo traz consigo.
Ora, aqui, de novo, como no caso da insegurança produzida pela idade e pela doença, o capitalismo não
pode ser levado à sua conclusão lógica, e quem sofre é o elemento da liberdade. A concorrência, na verdade, é
restringida cada vez mais por um entendimento entre os concorrentes, acompanhado, especialmente neste
país, pela ruína do concorrente menor através de conspirações secretas, tramadas pelos maiores e apoiadas
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pelas forças políticas secretas do Estado . Em uma palavra, o capitalismo, revelando-se quase tão instável
para os proprietários quanto para os não-proprietários, tende à estabilidade mediante a perda de sua
característica essencial de liberdade política. Melhor prova da instabilidade do capitalismo enquanto sistema
não se poderia desejar.
Tomemos qualquer um dos numerosos trustes que agora controlam a indústria inglesa e fizeram da
Inglaterra moderna o modelo, repetido por todo o continente, dos monopólios artificiais. Se a fórmula plena
do capitalismo fosse aceita por nossos tribunais e estadistas executivos, qualquer um poderia iniciar um
negócio rival, vender a preços menores que esses trustes, e destroçar a relativa segurança que proporcionam à
indústria em seu setor. A razão pela qual ninguém faz isso é que a liberdade política não é, de fato, protegida
aqui pelos tribunais em matérias comerciais. Alguém que tentasse competir com um de nossos grandes trustes
ingleses, logo se veria incapaz de concorrer com os preços artificialmente baixos. Ele até poderia, guiando-se
pelo espírito do Direito europeu durante séculos, indiciar aqueles que o arruinaram, processando-os por
conspirar contra o livre-comércio; desta conspiração ele descobriria que os juízes e políticos são apoiadores
entusiásticos.
Mas deve-se sempre lembrar que essas conspirações restritivas ao comércio, que são a marca da
Inglaterra moderna, são, elas mesmas, uma marca da transição da fase verdadeiramente capitalista para
outra.
Sob as condições essenciais do capitalismo — sob uma liberdade política perfeita — tais conspirações
seriam punidas pelos tribunais pelo que realmente são: ou seja, uma contravenção da doutrina fundamental
da liberdade política. Pois essa doutrina, ao mesmo tempo que dá a qualquer homem o direito de fazer
qualquer contrato com qualquer trabalhador, e de ofertar a produção ao preço que julgar conveniente,
também abrange a proteção dessa liberdade mediante a punição de qualquer conspiração que tenha por
objeto um monopólio. Se não se busca mais essa liberdade perfeita, se os monopólios são permitidos e
fomentados, é porque a tensão antinatural a que dá ensejo a liberdade, quando conjugada com a propriedade
restrita — a insegurança da concorrência, a anarquia dos métodos produtivos — revelou-se, ao fim,
intolerável.
Já me demorei mais que o necessário, nesta seção, nas causas que tornam o Estado Capitalista
essencialmente instável.
Talvez tenha tratado o tema empiricamente, aceitando sem pôr em dúvida as observações que todos os
meus leitores devem ter feito, de que o capitalismo está de fato condenado, e de que o Estado Capitalista já
ingressou em sua primeira fase de transição.
Nós claramente já não dispomos daquela liberdade absolutamente política que o verdadeiro capitalismo
requer por essência. A insegurança daí decorrente, conjugada ao divórcio entre nossa moral tradicional e as
realidades sociais, já introduziu características tão inauditas quanto a permissão para conspirar, quer entre os
proprietários quer entre os não-proprietários, a provisão compulsória de segurança pela ação do Estado, e
todas as reformas, implícitas ou explícitas, cuja tendência estou prestes a examinar.

SEÇÃO VI
AS SOLUÇÕES ESTÁVEIS PARA ESTA INSTABILIDADE

DADO UM ESTADO CAPITALISTA, por sua própria natureza instável, ele tenderá a alcançar a estabilidade de
uma maneira ou outra.
Trata-se da definição de equilíbrio instável que um corpo em tal situação esteja em busca de um
equilíbrio estável. Por exemplo, uma pirâmide equilibrada sobre um vértice está em equilíbrio instável; o que
apenas significa que uma ínfima força aplicada em qualquer direção irá fazê-la cair numa posição em que
repousará. Similarmente, diz-se de certas misturas químicas que estão em equilíbrio instável quando seus
componentes possuem tal afinidade entre si que o menor choque pode levá-los a se combinar, alterando a
configuração química do todo. São desta espécie os explosivos.
Se o Estado Capitalista está em equilíbrio instável, isto apenas significa que ele está em busca de um
equilíbrio estável, e que o capitalismo nada pode senão se transformar num outro arranjo em que a sociedade
possa repousar.
Há apenas três arranjos sociais capazes de substituir o capitalismo: a escravidão, o socialismo e a
propriedade.
É possível imaginar uma mescla de quaisquer dois desses três arranjos, ou até de todos os três, mas cada
um é por si mesmo um tipo dominante puro, e, pela própria natureza do problema, nenhum quarto arranjo
pode ser concebido.
O problema surge, recorde-se, da questão do controle dos meios de produção. O capitalismo significa que
este controle está investido nas mãos de poucos, enquanto a liberdade política é apanágio de todos. Se esta
anomalia não pode persistir, em função de sua insegurança e da contradição com sua base moral presumida,
terá de ocorrer a transformação de um ou outro de dois elementos que juntos revelaram-se inoperáveis. Estes
dois fatores são: a propriedade dos meios de produção por alguns poucos e a liberdade de todos. Para
solucionar o capitalismo, é preciso se livrar da propriedade restrita, ou da liberdade, ou de ambas.
Ora, há apenas uma alternativa à liberdade, que é a sua negação. Ou um homem dispõe de liberdade
para trabalhar ou não, conforme queira, ou ele estará sujeito a uma coerção legal para trabalhar, respaldada
pelas forças do Estado. Na primeira alternativa, ele é um homem livre; na segunda, por definição, um
escravo. Temos, portanto, no que tange a esse fator de liberdade, não uma opção entre várias possíveis
mudanças, mas apenas a oportunidade de uma, a saber, a instauração da escravidão no lugar da liberdade.
Tal solução, a restauração direta, imediata e consciente da escravidão, forneceria uma verdadeira solução aos
problemas que o capitalismo enseja. Ela garantiria, sob a égide de regulamentações viáveis, suficiência e
segurança para os desamparados. Tal solução, conforme demonstrarei, é o provável objetivo a que nossa
sociedade se lançará. Para sua imediata e consciente aceitação, no entanto, há um obstáculo.
A instauração direta e consciente da escravidão como solução para o problema do capitalismo, os
homens são compelidos a rejeitar pelo que resta da tradição do cristianismo em nossa civilização. Nenhum
reformador irá defendê-la; nenhum profeta ousa tomá-la como fato ainda. Todas as teorias de uma
sociedade reformada, portanto, tentarão, num primeiro momento, deixar intocado o fator da liberdade
dentre os elementos que compõem o capitalismo, ocupando-se apenas de alguma mudança no fator da
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propriedade .
Ora, se ao tentar remediar os males do capitalismo, remediamos aquele dos dois fatores que consiste na
má distribuição da propriedade, temos dois, e apenas dois, caminhos abertos diante de nós.
Se estamos sofrendo porque a propriedade está restrita a poucos, podemos alterar este fator do problema
ou colocando a propriedade nas mãos de muitos ou não colocando a propriedade nas mãos de ninguém. Não
há terceira via.
Concretamente, não colocar a propriedade nas mãos de “ninguém” significa confiá-la aos agentes
políticos. Se dizemos que os males procedentes do capitalismo decorrem da propriedade em si, e não da
destituição dos muitos pelos poucos, então é preciso proibir a posse privada dos meios de produção a qualquer
agente privado ou individual da comunidade: mas alguém tem de controlar os meios de produção, ou nada
teríamos para comer. Então, na prática, essa doutrina significa o gerenciamento dos meios de produção por
aqueles que são os agentes públicos da comunidade. Se estes agentes públicos são eles mesmos controlados ou
não pela comunidade, isto nada tem a ver com essa solução em seu aspecto econômico. O ponto essencial a se
compreender é que a única alternativa à propriedade privada é a propriedade pública. Alguém tem de se
encarregar da aragem e controlar os arados; de outra forma, nenhuma aragem será feita.
É igualmente óbvio que, caso se conclua que a propriedade em si não é um mal, mas apenas o reduzido
número de proprietários, então o remédio será aumentar o número de proprietários.
Isso tudo entendido, podemos recapitular e dizer que uma sociedade como a nossa, antipatizando com a
palavra “escravidão”, e evitando a restauração direta e consciente do status do escravo, irá necessariamente
contemplar a reforma de sua propriedade mal distribuída segundo um ou outro de dois modelos. O primeiro
é a negação da propriedade privada e a instauração do que se entende por coletivismo: ou seja, o
gerenciamento dos meios de produção pelos agentes políticos da comunidade. O segundo é uma distribuição
mais ampla da propriedade, até que esta se torne a marca de todo o Estado, e até que os cidadãos livres
sejam normalmente os detentores do capital, ou das terras, ou de ambos.
O primeiro modelo chamamos de socialismo ou Estado Coletivista; o segundo, chamamos de Estado de
Propriedade ou Distributivo.
Elucidado isso, demonstrarei na próxima seção por que o segundo modelo, que envolve a redistribuição
da propriedade, é rejeitado como impraticável por nossa atual sociedade capitalista, e por que, portanto, o
modelo escolhido pelos reformadores é o primeiro modelo, de um Estado Coletivista.
Demonstrarei então que, tão logo encetada, toda Reforma Coletivista necessariamente se desencaminha,
desaguando não no que pretendia, mas em algo novo: uma sociedade onde os proprietários permanecem
poucos e onde as massas proletárias aceitam a segurança pelo preço da servidão.
Fiz-me claro?
Se não, repetirei pela terceira vez, e nos termos mais breves, a fórmula que é o núcleo da minha tese
inteira.
O Estado Capitalista engendra uma teoria coletivista que, posta em ação, produz algo absolutamente
diferente do coletivismo: a saber, o Estado Servil.

SEÇÃO VII
O SOCIALISMO É A SOLUÇÃO APARENTEMENTE MAIS FÁCIL PARA O DILEMA CAPITALISTA

AFIRMO QUE A LINHA DE menor resistência, se percorrida, leva o Estado Capitalista a se converter num
Estado Servil.
Proponho-me a demonstrar que isso se deve ao fato de que não uma solução distributiva, mas uma
solução coletivista é o objetivo mais fácil para o Estado Capitalista almejar, e que, contudo, no ato mesmo de
se intentar o coletivismo, o que se alcança não é de forma alguma o coletivismo, mas a servidão dos muitos e
a confirmação dos poucos em seu corrente privilégio; ou seja, o Estado Servil.
Homens a quem a instituição da escravidão repugna propõem, para remediar o capitalismo, uma ou
outra de duas reformas.
Ou colocariam a propriedade nas mãos da maioria dos cidadãos, partilhando assim a terra e o capital de
forma a que um número expressivo de famílias no Estado detivesse os meios de produção; ou colocariam tais
meios nas mãos dos agentes políticos da comunidade, para o benefício de todos.
A primeira solução podemos chamar de tentativa de instauração do Estado distributivo. A segunda
podemos chamar de tentativa de instauração do Estado Coletivista.
Os que favorecem o primeiro modelo são os Conservadores ou Tradicionalistas. São homens que
respeitam e, se possível, preservariam as antigas formas da vida européia cristã. Eles sabem que a
propriedade estava distribuída dessa forma por todo o Estado durante os períodos mais felizes de nossa
história; também sabem que, hoje, nos lugares onde ela está adequadamente distribuída, há maior sanidade
social e tranqüilidade. Em geral, aqueles que se possível restaurariam o Estado Distributivo em lugar dos
vícios e inquietações do Capitalismo, e como solução para eles, são homens que se ocupam das realidades
conhecidas e tem por ideal uma condição social que foi testada pela experiência e comprovada como boa e
estável. São, pois, das duas escolas de reformadores, os mais práticos, no sentido de que lidam, mais do que os
coletivistas (também chamados socialistas), com coisas que existiram ou existem de fato. Porém são menos
práticos em outro sentido (como veremos em breve), pelo fato de o estágio da doença com que estão lidando
não se prestar a essa reação com a presteza que propõem.
O coletivista, por outro lado, propõe colocar a terra e o capital nas mãos dos agentes políticos da
comunidade, com base na idéia de que esta cessão será vantajosa para a comunidade. Ao fazer esta proposta,
é evidente que ele está lidando com um estado de coisas ainda imaginário, e que seu ideal ainda não foi
testado pela experiência, nem nossa raça e história podem fornecer exemplos de sua aplicação. Neste sentido,
portanto, ele é o menos prático dos dois reformadores. Seu ideal não pode ser encontrado em nenhuma fase
passada, registrada e conhecida da nossa sociedade. Não podemos examinar o socialismo em funcionamento
concreto, nem podemos dizer (como o podemos da propriedade bem partilhada): “Em tal e qual ocasião, em
tal e qual período da história européia, o coletivismo foi instaurado e produziu estabilidade e felicidade
social”.
Nesse sentido, portanto, o coletivista é bem menos prático que o reformador que deseja a propriedade
bem distribuída.
Por outro lado, há um sentido no qual o socialista é mais prático que qualquer outro tipo de reformador:
pelo fato de o estágio da doença que a sociedade contraiu aparentemente aceitar esse remédio com menos
choque do que aceitaria uma reação em direção à propriedade bem partilhada.
Por exemplo, a operação de adquirir uma grande parcela de ações de uma propriedade hoje (como uma
ferrovia ou uma empresa portuária) com recursos públicos, mantendo sua administração nas mãos de
agentes públicos remunerados e convertendo o lucro para uso público. Trata-se de algo familiar para nós, e
que poderia, ao que parece, multiplicar-se indefinidamente. São comuns os exemplos individuais dessa
transformação, de uma base capitalista para outra coletivista, em empresas de saneamento, gás, ferroviárias,
e a mudança não perturba em nada de fundamental a nossa sociedade. Quando uma empresa privada de
saneamento ou bondes é adquirida por alguma municipalidade e daí em diante operada segundo o interesse
público, a transação é feita sem qualquer atrito perceptível, não perturba a vida de qualquer cidadão em
particular, e parece, sob todos os aspectos, normal para a sociedade onde isso ocorreu.
De forma contrária, a tentativa de instituir um grande número de acionistas em tais empresas, e
artificialmente substituir vários dos sócios, distribuindo-os por uma grande parcela da população, ao invés
dos poucos donos capitalistas originais, provar-se-ia longa, e a cada passo enfrentaria oposição e distúrbios,
ocorrendo ao custo de muito atrito e sendo comprometida pela possibilidade dos novos e numerosos donos
venderem-na de novo para alguns poucos.
Em poucas palavras, o homem que desejasse restabelecer a propriedade enquanto instituição normal à
maioria dos cidadãos do Estado, estaria remando contra a corrente de nossa sociedade capitalista atual,
enquanto o homem que deseja estabelecer o socialismo — isto é, o coletivismo — está trabalhando a favor da
corrente desta sociedade. O primeiro é como o médico que dissesse a um homem cujos membros estivessem
parcialmente atrofiados pela falta de uso: “Faça isto e aquilo, pratique tais e quais exercícios, e você
recuperará o uso de seus membros.” O segundo é o médico que diria: “Não dá para continuar assim. Seus
membros estão atrofiados pela falta de uso. Sua tentativa de agir como se não estivessem é inútil e dolorosa; é
melhor aceitar logo ser colocado numa cadeira de rodas e agir de forma condizente com a sua doença.” O
médico é o reformador, e seu paciente é o proletariado.
Não é o propósito deste livro mostrar como e com quais dificuldades uma condição de propriedade bem
partilhada poderia ser restaurada de forma a substituir (mesmo na Inglaterra) o capitalismo, que deixou de
ser estável ou tolerável; mas para fins de contraste, e de enfatizar meu argumento, antes de mostrar como o
coletivista caminha inconscientemente para o Estado Servil, mostrarei as dificuldades que cercam a solução
distributiva e por quê, portanto, a solução coletivista apela tão mais prontamente aos homens que vivem sob
o capitalismo.
Se desejo substituir certo número de pequenos proprietários por alguns poucos grandes em determinado
empreendimento, como devo proceder?
Posso bruscamente confiscar e redistribuir, de um só golpe. Mas por qual processo devo escolher os novos
proprietários? Mesmo supondo que houvesse algum mecanismo pelo qual se pudesse garantir alguma justiça
nesta nova distribuição, como poderia evitar os enormes e inumeráveis atos de injustiça que acompanhariam
uma redistribuição generalizada? Dizer que “ninguém terá nada” e confiscar é uma coisa; dizer que “todos
devem ter” e repartir a propriedade é outra. Atos desta espécie iriam perturbar toda a malha de relações
econômicas, ao ponto de arruinar de uma só vez todo o corpo político, e em particular os interesses menores
indiretamente afetados. Em uma sociedade como a nossa, uma catástrofe que atingisse o Estado de fora
poderia causar um bem indireto ao tornar tal redistribuição possível. Mas ninguém trabalhando de dentro do
Estado poderia provocar tal catástrofe sem arruinar a própria causa.
Se, porém, agindo com mais vagar e racionalidade, canalizássemos a vida econômica da sociedade para
que as pequenas propriedades pudessem se formar gradualmente dentro dela, veja contra que forças de
inércia e costume é preciso trabalhar hoje na sociedade capitalista!
Se desejo beneficiar as pequenas poupanças à custa das grandes, devo inverter toda a atual lógica
econômica que rege o pagamento de juros sobre depósitos. É bem mais fácil poupar 100 libras com uma
renda de 1.000 libras do que poupar 10 libras com uma renda de 100 libras. É infinitamente mais fácil
poupar 10 libras com uma renda de 100 libras do que poupar 5 libras com uma renda de 50 libras. Fomentar
a pequena propriedade através de pequenas economias, uma vez tendo as massas descambado para o cocho
proletário, é impossível, a não ser que se subsidie deliberadamente as pequenas poupanças, oferecendo uma
recompensa que, em condições de livre concorrência, elas nunca obteriam; e para fazer isso, o vasto
mecanismo de crédito deve ser operado às avessas. Ou, então, adotar a política de penalizar
empreendimentos com poucos proprietários, tributar pesadamente os grandes blocos de ações e subsidiar
com a produção os pequenos acionistas, na proporção inversa do tamanho de sua participação. Aqui,
novamente, deparamos com a dificuldade da vasta maioria que não pode sequer dar lances na menor ação.
Poder-se-ia multiplicar eventos deste tipo indefinidamente, mas a maior força contrária à distribuição da
propriedade em uma sociedade já permeada pelos modos capitalistas de pensamento ainda é a moral. Os
homens desejam ser proprietários? Os administradores, funcionários e legisladores serão capazes de retirar dos
ricos o poder que, sob o capitalismo, lhes parece normal? Se abordo, por exemplo, as operações de um de
nossos grandes trustes, adquirindo-as com dinheiro público, e, mesmo sem custo, cedo as ações a seus, posso
contar com alguma tradição de propriedade neste meio que possa preveni-los de dissipar a nova riqueza? É
possível encontrar algum resquício do instinto cooperativo entre tais homens? Conseguirei que gerentes e
organizadores levem os pobres a sério, ou trabalhem para eles como trabalham para os ricos? Acaso a
psicologia toda da sociedade capitalista não está dividida entre a massa proletária, que pensa não em termos
de propriedade, mas de “emprego”, e os poucos proprietários, únicos que estão familiarizados com o aparato
administrativo?
Toquei muito breve e superficialmente neste assunto, porque ele não requer maior elaboração. Embora
seja evidente que, com suficientes vontade e vitalidade social, fosse possível restaurar a propriedade, é
evidente que todos os esforços para restaurá-la em uma sociedade capitalista como a nossa adquirem um tom
de excentricidade, de experimento duvidoso, de desarmonia com outras realidades sociais em redor, que
marca o pesado handicap sob o qual qualquer empreitada desse tipo deve proceder. É como recomendar
elasticidade aos idosos.
Por outro lado, o experimento coletivista está plenamente ajustado (ao menos em aparência) à sociedade
capitalista que se propõe a substituir. Ele opera com o maquinário já existente do capitalismo, fala e pensa
em termos já existentes no capitalismo, apela justo àqueles apetites que o capitalismo incitou, e ridiculariza
como fantásticas e inauditas aquelas coisas na sociedade que o capitalismo extinguiu da memória dos
homens, onde quer que sua praga tenha se espalhado.
Tão verdadeiro é isso tudo que o coletivista mais estúpido com freqüência fala de uma “fase capitalista”
da sociedade como o precursor necessário de uma “fase coletivista”. O truste ou monopólio é bem-visto
porque “fornece um modo de transição da propriedade privada para a pública”. O coletivismo promete
empregos à grande massa que pensa na produção apenas em termos de emprego. Promete aos seus
trabalhadores a segurança que uma unidade industrial capitalista grande e bem-organizada (como uma de
nossas ferrovias) pode proporcionar através de um sistema de pensões, promoção regular, etc.; mas tal
segurança é enormemente aumentada pelo fato de que é o Estado, e não uma mera unidade dele, que a
garante. O coletivismo administraria, pagaria salários, promoveria, pagaria pensão, multaria — e tudo o
mais — exatamente como o Estado Capitalista faz hoje. O proletário, quando o Estado Coletivista (ou
socialista) lhe é mostrado, nada enxerga no quadro senão algumas melhoras em sua presente posição. Quem
consegue imaginar que, digamos, se duas de nossas grandes indústrias, a carvoeira e a ferroviária, fossem
entregues ao Estado amanhã, os exércitos de homens ali organizados viriam qualquer mudança no caráter de
suas vidas, exceto no sentido de um aumento de segurança e, possivelmente, de um reduzidíssimo aumento
em seus ganhos?
O esquema inteiro do coletivismo, no que diz respeito à massa proletária do Estado Capitalista, não
apresenta nada de desconhecido, mas a promessa de um incremento de renda e a certeza de uma
tranqüilidade muito maior.
Para aquela pequena minoria de uma sociedade capitalista que detém os meios de produção, o
coletivismo certamente aparecerá como inimigo, mas, ainda assim, um inimigo que entendem e com quem
podem tratar em termos que são comuns a ambos. Se, por exemplo, o Estado propõe encampar tal e qual
truste, que agora paga 4%, e acredita que sob gestão estatal fará o truste pagar 5%, então a transferência
assume a forma de um acordo comercial: o Estado não é mais cruel para com os capitalistas encampados do
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que o Sr. Yerkes foi para com o Metrô de Londres. Novamente, o Estado, tendo maior crédito e
longevidade, pode (ao que parece) adquirir o controle acionário de qualquer organismo capitalista em termos
favoráveis. Novamente, a disciplina pela qual o Estado imporia suas regras ao proletariado que emprega
seriam as mesmas regras com que o capitalista impõe disciplina em seu próprio interesse hoje em dia.
Não há, no esquema inteiro que propõe a conversão do Estado Capitalista em Estado Coletivista,
nenhum elemento de reação, nenhum emprego de termos que soem estranhos à sociedade capitalista,
nenhum apelo a qualquer instinto, seja de covardia, ganância, apatia ou regulação mecânica, com que a
comunidade capitalista não esteja amplamente familiarizada. De modo geral, se a Inglaterra capitalista
moderna fosse magicamente transformada em um Estado de pequenos proprietários, todos sofreríamos uma
enorme revolução. Ficaríamos admirados com a insolência dos pobres, com a preguiça dos satisfeitos, com a
estranha diversidade de tarefas, com as personalidades rebeldes e vigorosas discerníveis por todo lado. Mas se
esta Inglaterra capitalista moderna pudesse, por um processo tão lento que permitisse a reacomodação dos
interesses individuais, se transformar em um Estado Coletivista, a mudança aparente ao fim da transição não
seria perceptível para a maioria de nós, e a transição em si não encontraria qualquer resistência concebível
em teoria. A margem de desesperança e insegurança abaixo da faixa dos salários normais desapareceria,
salvo em ambientes de trabalho isolados de natureza penal — dificilmente fariam falta. Muitas rendas agora
atreladas a responsabilidades consideráveis para com o Estado seriam permutadas por rendas iguais ou
maiores, envolvendo essencialmente as mesmas responsabilidades e recebendo a nova nomenclatura de
vencimentos. A pequena classe de lojistas seria em parte absorvida no funcionalismo público sob regime
salarial, em parte engajada no antigo trabalho de distribuição com rendas seguras; e os pequenos
proprietários que restassem, de barcos, de fazendas e até de maquinário, talvez reconhecessem o novo estado
de coisas no qual sobreviveram por nada mais inédito que um aumento no irritante sistema de inspeções e na
onerosa carga tributária: já estão razoavelmente acostumados com ambas as coisas.
Esta imagem da transição natural do capitalismo para o coletivismo afigura-se tão óbvia que muitos
coletivistas de uma geração prévia acreditavam que nada podia impedir a realização de seu ideal, salvo a
falta de inteligência da humanidade. Bastava-lhes expor seus argumentos, paciente e sistematicamente, para
que a grande transformação se tornasse possível. Bastava-lhes continuar expondo seus argumentos para que
ela enfim se concretizasse.
Digo “da geração prévia”. Hoje tal julgamento simples e superficial vem deparando com deploráveis
dificuldades. O mais sincero e simplório dos coletivistas não pode deixar de notar que o efeito prático de sua
propaganda não é uma maior proximidade do Estado coletivista, de forma alguma, mas de algo bem
diferente. Tem ficado cada vez mais evidente que, a cada nova reforma — e aquelas reformas comumente
promovidas por certos socialistas e abençoadas de forma confusa pelos socialistas em geral — um outro
Estado vai surgindo cada mais claramente. Vai ficando cada vez mais certo que a tentativa de transformar o
capitalismo em coletivismo está resultando não em um coletivismo, mas em uma terceira coisa com que o
coletivista nunca sonhou, nem tampouco o capitalista; e esta terceira coisa é o Estado Servil — ou seja, um
Estado em que a massa dos homens será constrangida por lei a trabalhar em proveito de uma minoria, mas,
como recompensa, desfrutará de uma segurança que não tinha com o velho capitalismo.
Por que a ação aparentemente simples e direta da reforma coletivista desviou-se para um canal tão
inesperado? E que novas leis e instituições dão mostras de que na Inglaterra moderna em particular, e na
sociedade industrial em geral, esta nova forma de Estado está ganhando corpo entre nós?
A estas duas questões tentarei responder nas duas próximas seções deste livro.

SEÇÃO VIII
OS REFORMADORES E OS REFORMADOS ESTÃO AMBOS SE DIRIGINDO PARA O ESTADO SERVIL

PROPONHO NESTA SEÇÃO mostrar como os três interesses que juntos dão conta de praticamente todas as
forças de mudança social na Inglaterra moderna estão necessariamente caminhando na direção do Estado
Servil.
Destes três interesses, os dois primeiros representam os Reformadores; o terceiro, o povo a ser reformado.
Os três interesses são, primeiro, o socialista, que é o reformador teórico trabalhando na linha de menor
resistência; segundo, o homem prático, que, como reformador “prático”, apóia-se em sua visão míope, e é,
portanto, um fator poderoso hoje; ao passo que o terceiro corresponde àquela grande massa proletária por
quem a mudança está sendo realizada e sobre a qual está sendo imposta. Aquilo que eles muito
provavelmente aceitarão, a forma como eles reagirão às novas instituições, é o fator mais importante de
todos, pois são eles o material com o qual e sobre o qual esse trabalho está sendo realizado.
1. Do Reformador socialista:
Afirmo que os homens que estão tentando alcançar o coletivismo ou socialismo como remédio para os males
do Estado Capitalista encontram-se caminhando não em direção a um Estado Coletivista, de forma alguma,
mas em direção a um Estado Servil.
O movimento socialista, o primeiro dos três fatores à deriva nesta corrente, compõe-se, por sua vez, de dois
tipos de homens:
a) o homem que considera a propriedade pública dos meios de produção (e a conseqüente coerção de todos os
cidadãos a trabalhar sob a direção do Estado) como a única solução factível para os nossos males sociais
modernos.
b) o homem que ama o ideal coletivista em si, e o busca não tanto porque seja uma solução para o
capitalismo moderno, mas por ser uma forma ordenada e regular da sociedade que em si mesma exerce um
apelo. Ele adora o ideal de um Estado no qual a terra e o capital serão controlados por agentes públicos que
darão ordens aos homens, preservando estes das conseqüências de seus vícios, ignorância e loucura.
Trata-se de dois tipos perfeitamente distintos, em muitos aspectos antagônicos, e que juntos cobrem todo
o movimento socialista.
Agora imaginemos qualquer um desses homens que estão em desacordo com o atual estado da sociedade
capitalista, tentando transformá-la. Por qual linha de menor resistência eles serão conduzidos?
a) O primeiro tipo começará por demandar o confisco dos meios de produção das mãos dos atuais
proprietários e sua concessão ao Estado. Mas um momento! Tal demanda é algo excessivamente difícil de
satisfazer. Os presentes proprietários deparam, diante do confisco, com uma sólida barreira moral. É o que a
maioria dos homens chamaria de base moral da propriedade (o instinto de que a propriedade é um direito),
e o que todos os homens admitiriam ser uma tradição profundamente arraigada. De novo, eles têm as
inúmeras complexidades do moderno direito de propriedade a seu favor.
17
Para ficar num exemplo muito simples. Decretemos que todas as terras comuns submetidas a cercamentos
desde 1760 sejam revertidas ao público. Eis aí um pleito bastante moderado e bastante defensável. Mas pense
um momento em quantas pequenas propriedades, quantos nexos de obrigação e benefício envolvendo
milhões de pessoas, quantos milhares de negociações, quantas aquisições feitas à custa de árduas poupanças
por homens pequenos, tal medida destruiria! Trata-se de algo concebível, pois, na esfera moral, a sociedade
pode fazer qualquer coisa à sociedade; mas que destruiria consigo vinte vezes a riqueza envolvida e todo o
crédito seguro de nossa comunidade. Em uma palavra, tal coisa é, no uso coloquial do termo, impossível.
Assim, o melhor tipo de reformador socialista é levado a um expediente que aqui apenas mencionarei — pois
precisa ser analisado em minúcias mais adiante, por conta de sua importância fundamental — o expediente
de adquirir o controle acionário do atual proprietário.
É suficiente dizer aqui que a tentativa de “adquirir o controle acionário” sem recorrer ao confisco baseia-
se num erro econômico. Isto eu provarei em seu devido momento. Por ora, assumo-o como fato e passo para
o restante da ação do meu reformador.
Ele não confisca, portanto; no máximo, adquire o controle acionário (ou tenta adquirir) de certas
parcelas dos meios de produção.
Mas esta ação de forma alguma abrange toda a sua motivação. Por definição, o sujeito está empenhado
em curar aquilo que vê como os grandes males imediatos da sociedade capitalista. Está empenhado em curar
a penúria que ela provoca em grandes multidões, e a acachapante insegurança que impõe sobre todos. Está
empenhado em substituir a sociedade capitalista por uma sociedade na qual todos os homens serão
alimentados, vestidos e abrigados, e na qual os homens não vivam com suas moradias, vestimentas e comida
sob constante ameaça.
Pois bem, há uma forma de alcançar isso sem o confisco.
Este reformador acredita, corretamente, que a posse dos meios de produção por uns poucos causou os
males que despertaram sua indignação e piedade. Mas eles só foram causados pela conjunção de propriedade
limitada e liberdade universal. A conjunção desses dois elementos é a própria definição do Estado Capitalista.
É realmente difícil desapropriar os proprietários. Não é de forma alguma difícil (como veremos novamente
quando lidarmos com a massa a quem tais mudanças afetarão primordialmente) modificar o fator da
liberdade.
Pode-se dizer ao capitalista: “Desejo desapropriá-lo, e, neste meio-tempo, estou determinado a que seus
empregados tenham uma vida tolerável”. O capitalista responde: “Recuso-me a ser desapropriado, e, salvo
no caso de uma catástrofe, é impossível me desapropriar. Mas, se você definir a relação entre eu e meus
empregados, assumirei as responsabilidades correspondentes à minha posição. Sujeite o proletário, enquanto
proletário e por ser proletário, a leis especiais. Invista-me a mim, o capitalista, enquanto capitalista e por ser
capitalista, com responsabilidades especiais complementares sob tais leis. Hei de garantir fielmente a
obediência delas; compelirei meus empregados a obedecê-las e assumirei a nova função que me é imposta
pelo Estado. Não, irei ainda mais longe, e direi que esse inédito arranjo tornará os meus lucros maiores talvez,
e certamente mais seguros”.
Assim, esse reformador social idealista vê a corrente de sua vontade canalizada. Uma parte dela, o
confisco, está neutralizada e barrada; para a outra, assegurar condições humanas para o proletariado, as
portas estão abertas. Metade do rio está represado por uma forte barragem, mas há uma comporta, que pode
ser suspensa. Uma vez suspensa, toda a força da corrente fluirá pela oportunidade propiciada; por ali
escorrerá, aprofundando o canal; por ali o curso principal aprenderá a fluir.
Para abandonar a metáfora, todas as demandas do verdadeiro socialista que são compatíveis com o
Estado Servil certamente podem ser alcançadas. Os primeiros passos neste sentido já foram dados. São de tal
natureza que sobre eles se pode embasar um maior avanço na mesma direção, e todo o Estado Capitalista
pode ser transformado em um Estado Servil de maneira rápida e fácil, satisfazendo, no curso dessas
transformações, os clamores mais imediatos e as demandas mais urgentes do reformador social — cujo
objetivo final pode de fato ser a propriedade pública do capital e da terra, mas cuja força propulsora é uma
inflamada piedade pela pobreza e pela situação periclitante das massas.
Finda a transformação, já não há terreno, nem qualquer demanda ou necessidade, para a propriedade
pública. O reformador só a exigiu com o objetivo de garantir segurança e suficiência: sua demanda foi
satisfeita.
Neste caso, a segurança e a suficiência foram alcançadas por outro método mais simples, consoante com
a fase capitalista que imediatamente a precede, e procedendo dela: não é preciso ir além.
Dessa forma, o socialista que tem por motivação o bem humano, e não a mera organização, é conduzido,
a despeito de si próprio, para longe de seu ideal coletivista e na direção de uma sociedade na qual os que têm
posses permanecerão com posses e os que não têm continuarão não tendo; uma sociedade na qual a massa
dos homens ainda deve trabalhar em benefício de poucos, e na qual estes poucos continuarão usufruindo do
excedente produzido pelo trabalho, mas na qual os males específicos da insegurança e da insuficiência, frutos
principalmente da liberdade, foram eliminados por meio da destruição da liberdade.
Ao fim do processo, teremos dois tipos de homens: os proprietários, que dispõem de liberdade econômica,
e, controlados em nome da tranqüilidade e da garantia de subsistência, os não-proprietários, que não dispõem
de liberdade econômica. Mas isto é o Estado Servil.
b) O segundo tipo de reformador socialista pode ser tratado com mais brevidade. Nele, a exploração do
homem pelo homem não gera indignação. Com efeito, não se trata de alguém acostumado à indignação ou a
qualquer outra paixão exaltada. Planilhas, estatísticas, um quadro preciso para a vida — eis o alimento que
satisfaz seu apetite moral. A ocupação que lhe é mais congênita é o “gerenciamento” dos homens — como se
gerencia uma máquina.
Em tal homem o ideal coletivista exerce um atrativo especial.
Ele é ordeiro ao extremo. Toda aquela complexidade humana e orgânica que dá cor a uma sociedade
viva ofende-o por sua infinita diferenciação. Ele é perturbado por coisas multitudinárias; e a perspectiva de
uma vasta burocracia que possa tabular todos os aspectos da vida, referindo-os a certos esquemas simples,
derivados do trabalho coordenado de funcionários públicos e organizados por poderosos chefes de
departamento, dão ao seu estômago uma satisfação final.
Ora, este homem, como o outro, prefere começar pela propriedade pública do capital e da terra, e sobre
esta base erigir o esquema formal que tanto se adequa ao seu peculiar temperamento. (Mal preciso dizer que
em sua visão de uma sociedade futura ele se concebe como o líder de ao menos um departamento, e
possivelmente de todo o Estado, mas isto é só um parêntesis.) Mas apesar de preferir começar por um
esquema coletivista pronto, na prática ele descobre que isso não é possível. Seria preciso confiscar, exatamente
como o faria o socialista mais emotivo; e se tal ato é difícil para o homem que arde diante da visão dos erros
humanos, quão mais difícil não será para o homem que não tem esse ímpeto, e não é movido por nada mais
intenso que um apetite mecânico pela regulação?
Ele não pode confiscar ou começar a confiscar. Na melhor das hipóteses, irá “adquirir o controle
acionário” do capitalista.
Ora, neste caso, como no do socialista mais humanitário, “adquirir o controle acionário” é, como irei
demonstrar no seu devido momento, um sistema de aplicação geral impossível.
Mas todas as outras coisas com que um homem desses se importa, muito mais do que com a socialização
dos meios de produção — a tabulação, a administração pormenorizada dos homens, a coordenação de
muitos esforços segundo um cronograma, a eliminação de todo poder privado de reagir contra o seu
departamento — tudo isto é imediatamente alcançável, sem perturbar o arranjo atual da sociedade. Neste
caso, exatamente como no caso do outro socialista, o que ele deseja pode ser alcançado sem a desapropriação
dos poucos proprietários existentes. Basta-lhe garantir o registro do proletariado; e, em seguida, que nem estes
no exercício de sua liberdade, nem o empregador no exercício da dele, produzam insuficiência ou
insegurança — e ele estará contente. Bastam leis que incumbam a classe proprietária da provisão de
moradia, alimentação, vestuário e entretenimento para o proletariado, e que a observância dessas regras seja
imposta sobre aqueles que ele pretende beneficiar, mediante inspeção e punição, e tudo que realmente lhe
importa terá sido alcançado.
Para tal homem, o Estado Servil dificilmente será algo para o qual ele é arrastado, sendo antes uma
alternativa tolerável ao seu Estado Coletivista ideal, alternativa que está bastante disposto a aceitar, e vê com
bons olhos. A maior parte dos reformadores que uma geração atrás se autodenominariam “socialistas”, hoje
estão menos preocupados com qualquer esquema de socialização do capital e da terra do que com os
inúmeros esquemas existentes, alguns dos quais já com força de lei, para regulamentar, “gerenciar” e treinar
o proletariado, sem adentrar um centímetro sequer no privilégio de implementos, reservas e terras desfrutado
pela pequena classe capitalista.
O dito “socialista” deste gênero não caiu no Estado Servil por um erro de cálculo. Ele é o pai da criatura:
celebra o seu nascimento e prevê o seu poder sobre ela no futuro.
Nada preciso acrescentar sobre o movimento socialista, que uma geração atrás propunha transformar
nossa sociedade capitalista em outra onde a comunidade fosse dona de tudo e os homens, economicamente
livres ou não, estivessem todos sob sua tutela. Hoje que seu ideal fracassou, das duas fontes das quais procedia
a sua energia, uma está relutante, enquanto a outra consente alegremente com o advento de uma sociedade
que não é socialista de forma alguma, mas servil.
2.) Do reformador prático:
Há um outro tipo de reformador, que se orgulha de não ser socialista, e que exerce enorme influência
hoje. Ele também se dirige para o Estado Servil. Este segundo fator de mudança é o “homem prático”; e este
tolo, por estar em grande número e deter uma influência decisiva sobre os detalhes da legislação, deve ser
meticulosamente examinado.
É este “homem prático” que diz: “O que quer que vocês, doutrinadores e teóricos, pensem a respeito dessa
proposta (que eu apóio), ainda que ofenda algum de seus dogmas abstratos, na prática vocês devem admitir
que ela é benéfica. Se vocês tivessem a experiência prática da miséria da família Jones, ou tivessem realizado
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trabalhos práticos em Pudsey, viriam que um homem prático...”.
Não é difícil perceber que o “homem prático”, na reforma social, é exatamente o mesmo animal que o
homem prático de todas as demais parcelas da atividade humana, e podemos encontrá-lo sofrendo das
mesmas duas incapacidades que marcam o homem prático em qualquer situação: a incapacidade de definir
seus princípios fundamentais e a inaptidão em entender as conseqüências de suas ações. Ambas estas
incapacidades decorrem de uma forma simples e deplorável de impotência, a incapacidade de pensar.
Vamos ajudar o Homem Prático em seu ponto fraco e pensar um pouco por ele.
Como reformador social, ele tem, naturalmente (embora não saiba), princípios fundamentais e dogmas
como todas as outras pessoas, e seus princípios fundamentais e dogmas são exatamente os mesmos que os de
seus superiores intelectuais em matéria de reforma social. As duas coisas que lhe são intoleráveis enquanto
cidadão decente (embora um ser humano muito estúpido) são a insuficiência e a insegurança. Quando ele
estava “trabalhando” nos cortiços de Pudsey, ou privando a família proletária Jones da base segura de
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Toynbee Hall, o que mais o chocava era o “desemprego” e a “penúria”: ou seja, a insegurança e a
insuficiência em carne e osso.
Ora, se o socialista que meditou com calma os seus argumentos, seja ele um mero organizador ou um
homem faminto e sedento por justiça, é desviado do socialismo para o Estado Servil por força da situação
moderna da Inglaterra, quão mais facilmente o “homem prático” não será conduzido a esse mesmo Estado
Servil, como um burro em direção ao pasto? Para estes olhos opacos e míopes, a solução imediata que mesmo
os primórdios do Estado Servil propõem se assemelham a uma ladeira para um pedaço de matéria acéfala. O
pedaço de matéria acéfala rola ladeira abaixo, e o homem prático igualmente descamba do capitalismo para
o Estado Servil com a mesma facilidade inevitável. Jones não tem o suficiente para viver. Se lhe dermos algo
por caridade, este algo será consumido, e logo ele não terá o suficiente de novo. Jones está há sete semanas
sem trabalho. Se lhe arranjarmos um emprego “em nosso sistema desorganizado e dispendioso etc.”, ele pode
perdê-lo, assim como perdeu seus empregos anteriores. Os guetos de Pudsey, como o homem prático sabe por
experiência prática, são freqüentemente não-empregáveis. Para não falar da “devastação da bebida” e, mais
fatal ainda, o lamentável hábito da humanidade de formar famílias e gerar filhos. O valoroso sujeito nota
que, “em termos práticos, tais homens não trabalham a não ser que se os obrigue”.
Ele não coordena todas essas coisas, porque não consegue. Ele nada sabe sobre uma sociedade de outrora
na qual os homens livres eram proprietários, nem sobre as instituições cooperativas e instintivas para a
proteção da propriedade que uma sociedade desse tipo gera espontaneamente. Ele “toma o mundo tal como
o encontra” — e a conseqüência é que, enquanto homens de maior capacidade talvez admitam, com
diferentes graus de relutância, os princípios gerais do Estado Servil, ele, o homem prático, se refestela com
cada novo detalhe da construção dessa forma de sociedade. E a destruição gradual da liberdade (embora ele
não a veja como a destruição da liberdade) é-lhe uma panacéia tão óbvia, que ele se admira com os
doutrinadores que resistem ou suspeitam do processo.
Foi necessário desperdiçar tanto tempo nesse indivíduo deplorável porque as circunstâncias de nossa
geração dão-lhe um poder peculiar. Nas condições de comércio modernas, um homem desse tipo goza de
grandes vantagens. Ele se encontra, como nunca em nenhuma outra sociedade antes da nossa, na posse de
riquezas, e politizado como nunca antes havia sido um cidadão antes de nosso tempo. Da história e de todas
as suas lições; dos grandes esquemas da filosofia e da religião, da natureza humana em si, ele nada sabe.
O homem prático, deixado por conta própria, não produziria o Estado Servil. Não produziria nada além
de um amálgama de restrições anárquicas que, no fim das contas, provocariam algum tipo de revolta.
Infelizmente, ele não é deixado por conta própria. Ele é nada menos que o aliado ou coadjuvante das
grandes forças a que não se opõe, e particularmente de homens capazes e preparados para o trabalho de
transformação geral, que o usam com gratidão e desprezo. Não fosse ele tão numeroso na Inglaterra
moderna, e, nas condições extraordinárias de um Estado capitalista, tão poderoso economicamente, eu o teria
negligenciado nesta análise. Do jeito como as coisas são, podemos nos consolar lembrando que o advento do
Estado Servil, com sua poderosa organização e a necessidade de pensamento lúcido por parte dos que
governam, certamente o eliminará.
Nossos reformadores, assim, tanto os que pensam, como os que não pensam, tanto os que estão
conscientes do processo, como os que não estão, caminham para o Estado Servil.
3. E quanto ao terceiro fator? E quanto àqueles que serão reformados? E quanto aos milhões sobre cujas
carcaças os reformadores trabalham, e que são objeto deste grande experimento? Qual a tendência deles,
enquanto material: aceitar ou rejeitar essa mutação do proletarianismo livre para a servidão, que é o
argumento deste livro?
Trata-se de uma importante questão, pois de o material se prestar ou não ao trabalho a que está
submetido depende cada experimento voltado para o Estado Servil.
A massa de homens no Estado Capitalista é proletária. Para efeitos de definição, o número real de
proletários, e a proporção deste número em relação ao número total de famílias no Estado, pode variar, mas
tem de ser suficiente para determinar o caráter geral do Estado antes de podermos chamar esse Estado de
capitalista.
Mas, conforme vimos, o Estado Capitalista não é uma condição estável e, portanto, permanente da
sociedade. Ele se provou efêmero; e por isto mesmo o proletariado de qualquer Estado Capitalista retém, em
maior ou menor grau, memórias de um estado da sociedade em que seus antepassados dispunham de
propriedades e eram economicamente livres.
A força dessa memória ou tradição é o primeiro elemento que temos de considerar em nosso problema,
quando examinamos até que ponto um proletariado específico, como o proletário inglês de hoje, está pronto
para aceitar o Estado Servil, que o condenará à perda permanente da propriedade e de todos os hábitos livres
que a propriedade engendra.
Ademais, note-se que, em condições de liberdade, é possível aos mais astutos ou mais afortunados da
classe proletária ingressar na classe capitalista. O recrutamento desse tipo costumava ser comum na primeira
formação do capitalismo, a ponto de ser uma característica duradoura na sociedade, e capaz de impressionar
a imaginação geral. Tal recrutamento ainda é possível. Sua proporção em relação à totalidade do
proletariado, a chance que cada membro acredita ter de escapar de sua condição proletária em uma fase
particular do capitalismo, como aquela em que estamos hoje, é o segundo fator do problema.
O terceiro fator, e de longe o mais importante, é o apetite dos desamparados por aquela segurança e
suficiência de que foram privados pelo capitalismo, com sua condição essencial de liberdade.
Agora consideremos a inter-relação desses três fatores no proletariado inglês tal como o conhecemos neste
momento. Este proletariado é certamente a grande massa do Estado: abrange cerca de 95% da população, se
excluirmos a Irlanda — onde, conforme apontarei nas páginas finais deste livro, a reação contra o
capitalismo e, portanto, contra sua evolução na direção de um Estado Servil, já se provou bem-sucedida.
Quanto ao primeiro fator, tudo mudou muito rápido dentro de um prazo ainda na memória dos que
estão vivos. Os direitos tradicionais de propriedade ainda possuem força na mente dos ingleses pobres. Todas
as conotações morais desse direito lhe são familiares. Estão familiarizados com o conceito de roubo como algo
errado; são tenazes em relação a quaisquer parcelas de propriedade que possam adquirir. Todos poderiam
explicar o que se quer dizer por posse, herança, troca, doação, e até contrato. Não há um sequer que não possa
se colocar mentalmente na posição de proprietário.
Mas a efetiva experiência da posse, e o efeito que essa experiência tem sobre o caráter de um indivíduo e
sobre a visão que ele tem do Estado, é outro assunto completamente diferente. Dentro da memória dos que
ainda estão vivos, um número suficiente de ingleses compunha-se de proprietários (como pequenos
fazendeiros, pequenos mestres, etc.), de tal forma a dar à instituição da propriedade, conjugada à liberdade,
um efeito muito vívido na mente popular. Mais que isso, havia uma tradição viva a sair dos lábios de homens
que ainda podiam dar testemunho dos resquícios de um melhor estado das coisas. Eu mesmo conversei,
quando menino, com velhos lavradores nas vizinhanças de Oxford, que haviam arriscado a pele em protestos
armados contra o cercamento de certas terras comuns, e que, é claro, foram presos por algum juiz rico como
recompensa por sua coragem; e eu mesmo conversei, em Lancashire, com velhos capazes de lembrar, por
experiência própria, das últimas fases da pequena propriedade no setor têxtil, ou, por relato de seus pais, das
condições numa época em que a propriedade pequena e bem partilhada dos teares domésticos era realmente
comum.
Tudo isso é passado. O último capítulo desse passado foi singularmente rápido. Grosso modo, foi a
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geração criada sob a égide das Leis Educacionais dos últimos quarenta anos que cresceu definitiva e
irremediavelmente proletária. O efetivo instinto, uso e significado da propriedade perdeu-se para essa
geração: e isto teve dois efeitos muito potentes, que inclinam nossos assalariados modernos a ignorar as velhas
barreiras que se interpunham entre uma condição de servidão e uma condição de liberdade. O primeiro
efeito é o seguinte: a propriedade não é mais o que eles buscam, nem o que acreditam que podem alcançar. O
segundo efeito é que eles vêem os detentores de propriedade como uma classe à parte, a quem sempre devem
obedecer em última instância, muitas vezes invejar, e às vezes odiar; cujo direito moral a uma posição tão
singular a maioria hesitaria em conceder, e muitos deles agora negariam energicamente, mas cuja posição, de
qualquer forma, aceitam como uma realidade social conhecida e permanente — uma posição cujas origens
esqueceram, e cujos alicerces acreditam ser imemoriais.
Em suma: a atitude do proletariado na Inglaterra de hoje (a atitude da ampla maioria, no caso, das
famílias inglesas) com relação à propriedade, e àquela liberdade que só se pode obter pela propriedade, não é
mais uma atitude de experiência ou expectativa. Eles vêem-se como assalariados. Aumentar o pagamento
semanal do assalariado é um objetivo que eles valorizam e buscam com entusiasmo. Eliminar a classe dos
assalariados é um objetivo que lhes pareceria completamente fora das realidades da vida.
E quanto ao segundo fator: a chance fortuita que o sistema capitalista — com sua necessária condição de
liberdade, seu pleno poder legal de barganha, e assim por diante — proporciona ao proletário de escapar de
seu ambiente proletário?
Desta chance fortuita, e do efeito que ela tem sobre a mente dos homens, podemos dizer que, embora não
tenha desaparecido, perdeu muita força durante os últimos quarenta anos. Freqüentemente encontramos
homens que dizem, seja em defesa ou em crítica ao sistema capitalista, que ele ainda cega o proletário para
qualquer mínima consciência de classe, porque o proletário ainda tem diante de si o exemplo de membros
conhecidos de sua classe ascendendo (normalmente recorrendo a diversas formas de patifaria) à posição de
capitalista. Mas quando nos colocamos no meio de trabalhadores, descobrimos que tal esperança de
mudança na mente de qualquer trabalhador, é hoje remotíssima. Milhões de homens em grandes grupos
industriais, notavelmente na indústria de transportes e mineradora, praticamente desistiram de tal
expectativa. Diminuta como esta chance sempre foi, exagerada como a chance de ganhar na loteria sempre
é, essa pequena chance decaiu na opinião geral dos trabalhadores para algo negligenciável, e aquela
esperança que uma loteria desperta se extinguiu. O proletário agora se considera definitivamente um
proletário, destinado a nunca ser, dentro das probabilidades humanas, algo mais que um proletário.
Esses dois fatores, então, a memória de uma antiga condição de liberdade econômica e o efeito de uma
esperança que os indivíduos podem nutrir, de escapar da classe assalariada — os dois fatores que podem
atuar com mais força contra a aceitação do Estado Servil por essa classe — perderam tanto valor que quase
não proporcionam resistência ao terceiro fator da situação, que tanto pesa a favor do Estado Servil: a
necessidade de suficiência e segurança que todos os homens sentem agudamente. Apenas este terceiro fator
precisa ser seriamente considerado hoje, quando nos perguntamos até que ponto o material sobre o qual a
reforma social opera, ou seja, a massa das pessoas, está pronta para aceitar a mudança.
Isso pode ser posto de várias formas. Expressarei-o naquela que acredito ser a mais conclusiva de todas.
Se abordássemos esses milhões de famílias que hoje vivem de salário com a proposta de um contrato de
serviço vitalício, garantindo-lhes emprego em troca do que cada um considerasse seu salário habitual pleno,
quantos recusariam?
Tal contrato, é claro, implicaria uma perda de liberdade: para ser preciso, um contrato vitalício desse
gênero não é um contrato de forma alguma. É a negação do contrato e a aceitação do status. Ele colocaria o
homem que o celebrou numa obrigação de trabalho forçado, coextensiva e coincidente com sua capacidade
laboral. Seria uma renúncia permanente ao seu direito (se é que tal direito existe) aos valores excedentes
criados por seu trabalho. Se nos perguntarmos quantos homens, ou melhor, quantas famílias, prefeririam a
liberdade (acompanhada de sua incontornável insegurança e possível insuficiência) a tal contrato vitalício,
ninguém pode negar que a resposta é: “Pouquíssimos recusariam”. Eis o ponto central de toda a questão.
Que proporção o recusaria ninguém pode determinar; mas afirmo que, mesmo como oferta voluntária, e
não como obrigação compulsória, um contrato dessa espécie, que dali em diante iria destruir o contrato em si
e restabelecer o status de uma classe servil, seria encarado como uma dádiva pela massa proletária de hoje.
Agora tomemos a verdade por outro aspecto (considerando-a por um ponto de vista e depois por outro,
podemos compreendê-la melhor): o que a massa dos homens mais teme hoje em um Estado Capitalista? Não
as penas que podem ser infligidas por um tribunal de direito, mas o “olho da rua”.
Podemos perguntar a um homem por que ele não resiste a tal e qual ignomínia legal; por que se permite
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ser vítima de multas e deduções das quais as Leis de Trucagem especificamente o protegem; por que ele
não pode expor suas opiniões em um ou outro assunto; por que ele aceitou, sem revidar, tal e qual insulto.
Algumas gerações atrás, um homem desafiado a dizer por que renegou sua hombridade em qualquer
aspecto, responderia que foi porque temia a punição da lei; hoje ele diria que é por medo do desemprego.
A lei privada, pela segunda vez em nossa história, sobrepujou a lei pública, e as sanções que o capitalista
pode invocar em auxílio de seu domínio privado, pela ação de sua vontade privada, são mais fortes que
aquelas que os tribunais públicos podem impor.
No século XVII, um homem temia ir à Missa por medo de ser punido pelos juízes. Hoje, um homem
teme falar em favor de uma teoria social que lhe parece justa e verdadeira porque pode ser punido por seu
patrão. Negar a vigência dos poderes públicos já implicou punições públicas temidas pela maioria dos
homens, mas alguns se rebelavam. Negar a vigência dos poderes privados, hoje, implica uma punição
privada contra cuja ameaça pouquíssimos, na realidade, ousam se rebelar.
Olhemos para o tema de ainda outra perspectiva. Aprovou-se uma lei (vamos supor) que aumenta a
renda total do assalariado, ou o garante minimamente contra a insegurança de sua posição. A
implementação dessa lei requer, por um lado, o inquérito estrito das circunstâncias do indivíduo por agentes
públicos, e, por outro, a concessão do benefício por um capitalista ou um grupo de capitalistas em particular,
a quem o assalariado serve e enriquece. As condições servis vinculadas a esse benefício material impedem que
um proletário na Inglaterra de hoje prefira o benefício à liberdade? É notório que não.
De qualquer ângulo que se analise o assunto, a verdade é sempre a mesma. A grande massa de
assalariados sobre a qual nossa sociedade repousa entende como um bem presente tudo o que aumente, ainda
que infimamente, a sua renda, e tudo que possa garanti-la contra os perigos da insegurança a que está
perpetuamente sujeita. Ela entende e celebra um bem desse tipo, e está perfeitamente disposta a pagar por
tal bem o preço do controle e da arregimentação, exercido num grau cada vez maior por aqueles que são seus
patrões.
Seria fácil, pela substituição de coisas fundamentais por outras superficiais, ou mesmo pela proposição de
certos termos e frases no lugar de outros termos e frases hoje correntes — seria fácil, digo, por tais métodos,
ridicularizar ou antagonizar as verdades primordiais que estou aqui apresentando. Não obstante, elas
permanecem verdades.
Substitua o termo “empregado”, em uma de nossas novas leis, pelo termo “servo”, ou mesmo algo tão
modesto como a palavra “empregador” pelo tradicional termo “senhor”, e a sem-cerimônia das palavras
talvez gerasse revolta. Imponha de súbito as condições plenas de um Estado Servil sobre a Inglaterra
moderna, e isso certamente gerará revolta. Mas o que quero ressaltar é que, quando os alicerces da coisa
precisam ser assentados, e os primeiros grandes passos tomados, não há revolta; pelo contrário, há
concordância e, em grande medida, gratidão por parte dos pobres. Depois dos longos terrores que lhe foram
impostos pela liberdade desacompanhada da propriedade, eles vêem, à custa de perder uma liberdade
meramente formal, a perspectiva bastante real de ter o suficiente e não perdê-lo.
Todas as forças, então, dirigem-se para o Estado Servil nesta última fase de nossa nociva sociedade
capitalista na Inglaterra. O reformador generoso foi canalizado nessa direção, o não-generoso vê nele um
espelho de seu ideal, a horda de homens “práticos” encontra em todas as etapas de sua implementação as
medidas “práticas” pelas quais ansiava e exigia; ao passo que a massa proletária sobre a qual o experimento
está sendo realizado perdeu a tradição da propriedade e da liberdade, que poderia oferecer resistência à
mudança, e está fortemente inclinada a aceitá-la pelos benefícios concretos que lhe são conferidos.
Pode-se objetar que, por mais verdadeiro que isso tudo seja, ninguém, com base em tais pretextos
teóricos, pode considerar o Estado Servil como algo realmente iminente. Não é preciso acreditar em seu
advento (nos será dito) até vermos os primeiros efeitos de sua ação.
A isso respondo que os primeiros efeitos de sua ação já são aparentes. O Estado Servil, na Inglaterra
industrial de hoje, não é mais uma ameaça, mas algo com existência concreta. Ele está em processo de
construção. Suas primeiras linhas-mestras já estão traçadas; sua pedra fundamental já foi assentada.
Para comprovar essa verdade, basta olhar para as leis e projetos de lei: já sentimos os efeitos das
primeiras, ao passo que os últimos passarão de projeto a legislação vigente no devido tempo.

APÊNDICE ACERCA DA “AQUISIÇÃO DE CONTROLE ACIONÁRIO”

HÁ UMA IMPRESSÃO generalizada entre o que propõem a expropriação da classe capitalista em benefício
do Estado, mas que se dão conta das dificuldades que se impõe ao confisco direto, de que se o processo se
prolongar por um número suficiente de anos, e for realizado da maneira adequada, mantendo todas as
aparências externas de uma aquisição, seria possível efetuar a expropriação sem as conseqüências e
dificuldades decorrentes do confisco direto. Em outras palavras, tem-se a impressão de que o Estado poderia
“adquirir o controle acionário” das mãos da classe capitalista sem que esta o percebesse, e que esta classe
poderia ser lentamente extirpada da existência de forma indolor.
Essa impressão é sentida de forma confusa pela maioria dos que a aprovam, e não resiste a uma análise clara.
É impossível por qualquer malabarismo “adquirir o controle acionário” sobre a universalidade dos meios de
produção sem o confisco.
Para prová-lo, tomemos um caso concreto que dispõe o problema nos termos mais simples.
Uma comunidade de vinte e duas famílias vive da produção de duas fazendas, propriedade de duas dessas
vinte e duas famílias.
As outras vinte famílias são proletárias. As duas famílias, com seus arados, terras, mantimentos etc., são
capitalistas.
O trabalho das vinte famílias proletárias aplicado à terra e ao capital dessas duas famílias capitalistas produz
300 medidas de trigo, das quais 200, ou 10 medidas para cada família, provêm o sustento anual das vinte
famílias proletárias; as 100 medidas remanescentes são o valor excedente retido na forma de aluguel, juros e
lucro pelas duas famílias capitalistas, cada uma contando, assim, com uma renda anual de 50 medidas.
O Estado propõe criar, após determinado prazo, uma conjuntura tal em que os valores excedentes não mais
se destinem às duas famílias capitalistas, mas sejam distribuídos em prol de toda a comunidade, enquanto ele
próprio, o Estado, se tornará o proprietário irrestrito de ambas as fazendas.
Ora, o capital é acumulado com o objetivo de se alcançar algum retorno como recompensa pelo acúmulo. Ao
invés de gastar seu dinheiro, um homem o economiza com o objetivo de obter, como resultado dessa
poupança, um certo rendimento anual. Essa medida não cai abaixo de certo patamar em cada sociedade de
uma dada época. Em outras palavras, se um homem não puder obter uma recompensa mínima por seu
acúmulo, não irá acumular, mas gastar.
O que se chama em economia de “Lei dos Rendimentos Decrescentes” determina que, mantidos os outros
fatores constantes (ou seja, os métodos de produção mantendo-se os mesmos), o acréscimo contínuo de capital
não proporciona um aumento proporcional de rendimento. Mil medidas de capital aplicadas a uma área
específica de forças naturais produz, por exemplo, 40 medidas anuais, ou 4%; mas 2.000 medidas aplicadas
da mesma forma não irão produzir 80 medidas. Irão produzir mais do que as 1.000 medidas, mas não na
mesma proporção, não o dobro. Elas irão produzir, digamos, 60 medidas, ou 3%, sobre o capital. A ação desse
princípio universal limita automaticamente o acúmulo de capital quando este alcança um ponto em que o
retorno proporcional corresponde ao mínimo que um homem aceita. Abaixo disso, ele irá gastar ao invés de
acumular. O limite deste mínimo, numa certa sociedade de uma dada época, dá a medida do que chamamos
de “Desejo Efetivo de Acumulação”. Desta forma, na Inglaterra atual, ele está em pouco mais de 3%. O
limite para a acumulação de capital corresponde ao retorno mínimo de aproximadamente um trinta-avos
anual sobre tal capital, e isto podemos denominar, para abreviar, o “D.E.A.” de nossa sociedade no momento
presente.
Quando, portanto, o capitalista estima o valor total de suas posses, ele as contabiliza em termos de “anos de
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rendimento”. E isto significa que ele está disposto a aceitar uma soma de dinheiro por suas posses
equivalente a tantas vezes a renda anual de que usufrui atualmente. Se seu D.E.A. for de um trinta-avos, ele
aceitará um valor que represente trinta vezes sua renda anual.
Até aqui, tudo bem. Suponhamos, então, que os dois capitalistas de nosso exemplo tenham um D.E.A. de
3,3%. Eles venderão sua propriedade ao Estado se este puder fornecer 3.000 medidas de trigo.
Naturalmente, porém, o Estado não pode fazer nada disso. Estando os acúmulos de trigo já nas mãos dos
capitalistas, e tais acúmulos somando bem menos do que 3.000 medidas de trigo, a coisa aparenta estar num
impasse.
Mas não será um impasse se o capitalista for um tolo. O Estado pode chegar para o capitalista e dizer:
“Entregue-me suas fazendas e, em troca, garanto que lhe será pago bem mais do que 100 medidas de trigo
por ano ao longo de 30 anos. Na verdade, eu lhe pagarei mais metade desse valor de novo, até que esses
pagamentos extras perfaçam a compra de sua participação original”.
De onde vem esse valor extra? Do direito de tributar que o Estado possui.
O Estado pode cobrar um imposto sobre os lucros dos capitalistas A e B, e pagar-lhes o extra com o próprio
dinheiro deles.
Num exemplo tão simples, é evidente que este “alerta de mudanças” seria percebido pelas vítimas, e que
contra isso elas empregariam precisamente as mesmas forças que empregariam contra o processo bem mais
simples e direto do confisco.
Mas num Estado complexo, argumenta-se, onde se está lidando com miríades de capitalistas individuais e
milhares de formas privadas de lucro, o processo pode ser mascarado.
Há duas maneiras pelas quais o Estado pode mascarar sua ação (de acordo com esta política). Ele pode
adquirir primeiro uma pequena área de terra e capital com recursos da tributação geral, e depois outra, e
mais outra, até que o todo seja transferido; ou ele pode tributar certos setores com peculiar severidade, que o
restante ainda imune abandonará à própria ruína, e, com os tributos gerais mais esta tributação especial,
adquirir o controle sobre esses setores desafortunados, que terão, é claro, sofrido profunda desvalorização sob
tal investida.
Este segundo truque logo ficará evidente em qualquer sociedade, independentemente de sua complexidade;
pois após a escolha de um setor impopular como alvo de investida, tentar o mesmo método em um setor
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menos impopular levantará suspeitas.
O primeiro método, no entanto, poderia ter alguma chance de sucesso, ao menos por um bom tempo depois
de iniciado, em uma sociedade altamente complexa e numerosa, não fosse por uma certa barreira que surge
por si mesma. Esta barreira é o fato de que o capitalista só aceita mais do que seu antigo rendimento anual,
com o objetivo de reinvestir o excedente.
Tenho mil libras em ações da ferrovia de Brighton, que rendem 3%: 30 libras ao ano. O governo me propõe
trocar meu título por outro título que me garante o pagamento de 50 libras anuais, ou seja, uma receita extra
anual por tantos anos, totalizando mais do que os juros normais que renderiam o meu título. O papel do
governo promete pagar a seu titular 50 libras por ano, por, digamos, trinta e oito anos. Alegro-me em fazer a
troca, não porque seja um tolo que aprecia a perspectiva de ver minha propriedade extinta ao fim de trinta e
oito anos, mas porque espero poder reinvestir essas 20 libras extas anuais em outra coisa que me renderá 3%.
Desta forma, ao fim de trinta e oito anos, eu (ou meus herdeiros) estarei em melhor situação do que estava no
começo da transação, e terei usufruído, até a maturidade do título, de minhas 30 libras da mesma forma.
Assim, o Estado pode comprar em pequena escala, subsidiando essa aquisição com a tributação geral. Pode,
portanto, aplicar esse truque sobre uma pequena área e por algum tempo. Mas tão logo esta área ultrapasse
um exíguo limite, o “mercado de investimento” ver-se-á restringido, o capital automaticamente se alarmará,
e o Estado não mais poderá oferecer seus papéis, salvo por um preço majorado. Se tentar mudar sua posição
aumentando ainda mais a tributação, até um valor que o capital entenda como índices “confiscatórios”,
despertará contra a sua atuação as mesmas forças que se contraporiam à expropriação franca e aberta.
Trata-se de uma mera questão de aritmética, e toda a confusão introduzida pelo complexo mecanismo das
“finanças” não pode mudar os princípios fundamentais e aritméticos envolvidos, mais do que a acumulação
de triângulos em um levantamento topográfico pode reduzir os ângulos internos do maior triângulo para
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menos de 180 graus . Em suma: se o que se deseja é confiscar, então deve-se confiscar.
Não é possível passar a perna no inimigo, como o fazem os financistas na bolsa e os vigaristas nas corridas
com os representantes mais simplórios da humanidade. Tampouco se pode conduzir o processo geral de
expropriação com base em uma esperança vaga de que, sabe-se lá como, algo surgirá do nada no fim das
contas.
Há, na verdade, duas maneiras pelas quais o Estado poderia expropriar sem deparar com a resistência
suscitada por qualquer tentativa de confisco. Mas a primeira é precária, e a segunda, insuficiente.
Elas são as seguintes:
A primeira maneira pela qual o Estado pode prometer ao capitalista um rendimento anual maior do que ele
está obtendo, na esperança de que ele próprio, o Estado, possa gerenciar o negócio melhor do que o
capitalista, ou que alguma expansão futura venha a socorrê-lo. Em outras palavras, se lucrar mais com a
coisa do que o capitalista, o Estado pode adquirir o controle das mãos do capitalista, da mesma forma que
um indivíduo privado poderia fazer com uma proposta de negócio semelhante.
Mas o contraponto disto é que, se calcular mal, ou tiver má sorte, o Estado estará fomentando os capitalistas
do futuro, ao invés de os extinguindo.
Desta forma, o Estado poderia ter “socializado”, sem confisco, as ferrovias deste país, caso o tivesse feito
cinqüenta anos atrás, prometendo aos então proprietários mais do que estavam obtendo. Mas se tivesse
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socializado as carruagens de aluguel em 1890, teria agora de sustentar esse valoroso mas extinto gênero de
taxista (e seus filhos) para sempre, à custa da comunidade.
A segunda forma pela qual o Estado pode expropriar sem recorrer ao confisco é através da anuidade. Ele
pode dizer àqueles capitalistas sem herdeiros, ou que pouco se importam com os herdeiros: “Você só tem
tantos anos de vida para aproveitar suas 30 libras. Você aceita, então, 50 libras até morrer?” Em caso
afirmativo, com o tempo, embora não imediatamente após a morte do beneficiário, o Estado se tornará o
proprietário irrestrito do que outrora fora a participação dele nos meios de produção. Mas este método só
pode ser exercido sobre uma área muito pequena. Não é em si um instrumento para a expropriação de
qualquer setor considerável.
Mal preciso acrescentar que, a bem da verdade, as medidas ditas “socialistas” e confiscatórias de nosso tempo
nada tem a ver com o problema aqui discutido. O Estado está de fato confiscando, quer dizer, está tributando
o pagador de impostos em muitos casos de forma a empobrecê-lo, e, ao invés de podar a sua renda, está
reduzindo o seu capital. Mas não está aplicando essas receitas nos meios de produção. Está ou as destinando
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para uso imediato, na forma de novos salários oficiais, ou as entregando para outro grupo de capitalistas .
Mas tais considerações práticas a respeito da forma como esses falsos experimentos socialistas operam cabem
mais propriamente na próxima seção, na qual tratarei dos verdadeiros primórdios do Estado Servil em nosso
meio.

SEÇÃO IX
O ESTADO SERVIL JÁ COMEÇOU

NESTA ÚLTIMA DIVISÃO DE MEU livro, trato da aparência concreta que o Estado Servil assumiu em certas leis
e propostas hoje familiares para a sociedade industrial da Inglaterra moderna. São estes os objetos concretos,
“leis e projetos de leis”, que dão substância ao meu argumento, e demonstram que ele se baseia não em mera
dedução, mas na observação das coisas.
Duas formas desta prova são evidentes: em primeiro lugar, as leis e propostas que sujeitam o proletariado
a condições servis; em seguida, o fato de que o capitalista, bem longe de estar sendo expropriado pelo
experimento “socialista” moderno, está sendo confirmado em seu poder.
Trato-os nesta ordem, e começo por perguntar em que normas ou propostas o Estado Servil se fez
presente entre nós pela primeira vez.
Uma falsa concepção de nosso tema pode levar alguém a enxergar os primórdios do Estado Servil nas
restrições impostas a certas formas de manufatura, e nas concomitantes responsabilidades depositadas sobre o
capitalista no interesse de seus operários. As Leis Fabris, tal como encontradas neste país, parecem oferecer a
essa perspectiva errônea e superficial um ponto de partida. Não é o caso, de modo algum; e a perspectiva é
superficial e errônea porque negligencia os fundamentos da questão. O que distingue o Estado Servil não é a
interferência da lei sobre a ação de qualquer cidadão, mesmo quando relacionada a assuntos industriais. Tal
interferência pode ou não indicar a presença de um status servil. Mas não indica a presença de tal status
quando proíbe um tipo específico de ação humana realizada pelo cidadão enquanto cidadão.
O legislador diz, por exemplo: “É permitido colher rosas; mas como vejo que as pessoas às vezes se
arranham, prenderei quem não usar tesouras de pelo menos 122 milímetros de comprimento, e designarei
mil inspetores para circular pelo país e fiscalizar o cumprimento da lei. Meu cunhado será o chefe do
departamento, recebendo 2.000 libras por ano”.
Conhecemos muito bem esse tipo de lei. Conhecemos muito bem os argumentos pró e contra que surgem
contra ela em qualquer caso específico. Podemos considerá-la onerosa, desnecessária, benéfica, ou sob
qualquer outra luz, conforme nossos diversos temperamentos. Mas ela não se inclui na categoria de legislação
servil, porque não estabelece nenhuma distinção entre duas classes de cidadãos, demarcando-as mediante
algum critério de trabalho manual ou de renda.
Isso vale até para regulamentações que obrigam uma usina de algodão, por exemplo, a respeitar um
espaço cúbico mínimo para cada operador, e a instalar tais e quais proteções em um maquinário perigoso.
Estas leis não se ocupam da natureza, da quantificação ou mesmo da existência de um contrato de serviço. O
objetivo, por exemplo, de uma lei que obriga a isolar com grades certos tipos de maquinário é simplesmente
a proteção da vida humana, seja esta vida humana rica ou pobre, capitalista ou proletária. Essas leis podem
efetivamente atuar em nossa sociedade de forma a responsabilizar o capitalista pelo proletário, mas ele não é
responsabilizado enquanto capitalista, nem o proletário é protegido enquanto proletário.
Da mesma forma, a lei pode me obrigar, caso eu seja um proprietário ribeirinho, a colocar uma cerca de
determinada envergadura nos trechos onde a água do meu rio ultrapassa certa profundidade. Ora, essa
obrigação não incide sobre mim a não ser que eu seja o proprietário da terra. Em certo sentido, portanto,
podemos chamar isso de reconhecimento de meu status, uma vez que, pela própria natureza do caso, a lei
incide apenas sobre proprietários, e os proprietários seriam obrigados a resguardar a vida de todas as pessoas,
sejam elas proprietárias de terra ou não.
Mas a categoria assim instituída seria puramente acidental. O objetivo e método da lei não se ocupam de
uma distinção entre cidadãos.
Um observador atento poderia mesmo descobrir aspectos nas leis fabris, certos pormenores e cláusulas,
que de fato conotam, distintamente, a existência de uma classe capitalista e de outra proletária. Mas devemos
tomar as normas como um todo, e a ordem em que foram criadas, sobretudo a causa e as expressões gerais
que regem cada norma principal, a fim de julgar se tais exemplos de interferência nos oferecem um
primórdio ou não.
O veredito será que não oferecem. Essas leis podem ser opressivas ou necessárias em qualquer grau, mas
não instituem um status em lugar do contrato, e não são, portanto, servis.
Tampouco são servis as leis que na prática só dizem respeito ao pobre, e não ao rico. A educação
obrigatória é exigida, em teoria legal, para os filhos de todos os cidadãos. A mentalidade que acompanha a
plutocracia exime do cumprimento dessa lei, obviamente, todos os que estão acima de um certo patamar de
riqueza. Mas a lei se aplica, sim, à universalidade das nações do reino, e todas as famílias residentes na Grã-
Bretanha (não na Irlanda) estão sujeitas às suas disposições.
Esses casos não representam primórdios. Um verdadeiro primórdio para o tipo de legislação que estou
analisando surge mais tarde. O primeiro exemplo de legislação servil que podemos encontrar no Anais do
Parlamento é a que estabelece a forma presente de responsabilidade do empregador.
Longe de mim dizer que essa lei foi sancionada, como vem ocorrendo com as leis modernas, com o
objetivo direto de instituir um novo status; embora ela tenha sido sancionada com alguma consciência, por
parte do legislador, de que esse novo status existia concretamente enquanto realidade social. Sua motivação
era meramente humana, e o alívio que proporcionou parecia simplesmente necessário naquele tempo; mas
eis aí um exemplo didático de como uma pequena negligência em matéria de doutrina estrita, e uma leve
tolerância em relação a uma anomalia, acarreta grandes mudanças no Estado.
Sempre existiu, em todas as épocas e comunidades, fundada no senso comum, a seguinte doutrina legal:
se um cidadão, por força de contrato, é colocado em certa posição diante de outro, no cumprimento desse
contrato ele deve prestar certos serviços; e se estes serviços envolverem danos acidentais a uma terceira parte,
não aquele que os causou, mas sim aquele que o designou para a ação específica que resultou nos danos, era o
responsável.
Trata-se de uma distinção sutil, mas, como estou dizendo, fundamental. Não há aí nenhuma distinção de
status entre empregador e empregado.
O cidadão A oferece ao cidadão B uma saca de trigo em troca de o cidadão B arar um pedaço de terra
que pode ou não produzir mais que uma saca de trigo.
É claro que o cidadão A espera uma produção maior e conta com o valor excedente, ou não teria feito o
contrato com o cidadão B. Mas, de todo modo, o cidadão B empenhou seu nome no acordo e, como homem
livre, capaz de contratar, estava obrigado a cumpri-lo em conformidade.
No cumprimento desse contrato, o arado que B está conduzindo destrói uma tubulação que, conforme
contrato com A, levava água para as terras de C. C sofreu danos e, para reparar o prejuízo desses danos, só
poderá processar, por justiça e bom senso, o cidadão A, pois B apenas estava cumprindo um plano e uma
instrução cujo autor era A. C é uma terceira parte que nada tinha a ver com esse contrato, e não poderia
obter justiça, salvo por suas chances de obtê-la de A, que foi o verdadeiro autor da perda não-intencional
infligida, visto que concebeu o curso de trabalho.
Porém, quando o dano é causado não a C, mas a B, que está ocupado de um trabalho de cujos riscos está
plenamente consciente, e assumiu voluntariamente, a coisa muda de figura por completo.
O cidadão A acorda com o cidadão B que este, em troca de uma saca de trigo, are um pedaço de terra.
Certos riscos conhecidos estão vinculados a essa operação. O cidadão B, se é um homem livre, assume estes
riscos de olhos abertos. Por exemplo, ele pode torcer o pulso ao manobrar o arado, ou um dos cavalos pode
lhe dar um coice enquanto ele come seu pão com queijo. Se no caso de tal acidente, A for obrigado a reparar
os danos de B, reconhece-se de imediato uma diferença de status. B aceitou fazer um trabalho que, segundo
toda a teoria do livre contrato era, com seus riscos e dispêndio de energia, equivalente aos olhos de B a uma
saca de trigo; no entanto, sanciona-se uma lei que determina que B tem direito a mais de uma saca de trigo
caso se machuque.
Não há direito correspondente de A contra B. Se o empregador é prejudicado por um acidente desse tipo
com o empregado, ele não tem o direito de privar o empregado daquela saca de trigo, embora ela fosse vista
no contrato como o equivalente de determinada quantia de trabalho a ser realizado e que, na realidade, não
foi realizado. A não tem como acionar a Justiça, a não ser que B incorra em negligência ou omissão culposa.
Em outras palavras, o simples fato de que um homem está trabalhando, e o outro não está, é a consideração
fundamental sobre a qual a lei está embasada, e a lei diz: “Você não é um homem livre que firmou um
contrato livre com todas as suas conseqüências. Você é um trabalhador, e portanto um inferior: você é um
empregado, e este status o coloca numa posição especial que não seria reconhecida pela outra parte do
contrato.”
O princípio é levado ainda mais longe quando um empregador é responsabilizado por um acidente
sofrido por um de seus empregados por culpa de outro empregado.
A dará uma saca de trigo para B e outra para D em troca de eles cavarem um poço. As três partes estão
cientes dos riscos e os aceitam no contrato. B, segurando a corda na qual D está pendurado, acaba deixando-a
escapar. Se o status desses três homens fosse exatamente igual, obviamente a ação de D seria contra B. Mas
eles não gozam do mesmo status na Inglaterra de hoje. B e D são empregados, e estão, portanto, em uma
posição especial e inferior perante a lei, em comparação com o empregador A. A ação de D, em função deste
princípio inaudito, já não será contra B, que acidentalmente o machucou durante um ato pessoal,
involuntário o quanto seja, e pelo qual um homem livre seria responsável, mas contra A, que estava inocente
na história.
Ora, em tudo isso está bastante claro que A possui responsabilidades peculiares não por ser um cidadão,
mas por ser algo mais: um empregador; e B e D tem reivindicações especiais contra A, não por serem
cidadãos, mas porque são algo menos: empregados. Eles podem reivindicar proteção de A enquanto inferiores
de um superior, num Estado que admite tais distinções e tal paternalismo.
Logo ocorrerá ao leitor que em nosso estado social atual, o empregado será muito grato por tal legislação.
Um trabalhador não pode reivindicar reparação de danos de outro, simplesmente porque o outro não tem
bens com que pagá-la. Que o fardo, portanto, recaia sobre o homem rico!
Excelente. Mas não é este o ponto. Raciocinar assim é dizer que a legislação servil é necessária para
resolver os problemas criados pelo capitalismo. Nem por isso deixa de ser uma legislação servil. É uma
legislação que não existiria numa sociedade onde a propriedade fosse bem partilhada, onde um cidadão
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normalmente seria capaz de pagar pelos danos que ele mesmo causou .
Esse primeiro filete de água da correnteza, contudo, embora de considerável interesse histórico enquanto
ponto de partida, não é de importância tão decisiva para o nosso assunto, perto da grande relevância de
propostas posteriores — algumas das quais já foram incorporadas em lei, e outras a ponto de se tornarem leis
— e que definitivamente reconhecem o Estado Servil, o restabelecimento do status no lugar do contrato, e a
divisão universal dos cidadãos em duas categorias: a do empregador e a do empregado.
Estas últimas merecem uma consideração bem diferente, pois representarão para a história a
incorporação planejada e consciente das instituições servis no antigo Estado Cristão. Não se trata de
“primórdios”, pequenas indicações de mudança futura que o historiador desencavará, a duras penas, como
uma curiosidade. Trata-se dos reconhecidos alicerces de uma nova ordem, deliberadamente planejada por
uns poucos e confusamente aceita pelos muitos, como a base sobre a qual se erguerá uma nova e estável
sociedade, para substituir a fase instável e passageira do capitalismo.
Elas recaem, grosso modo, em três categorias:
1. Medidas pelas quais a insegurança do proletário será aliviada pela ação da classe empregadora, ou do
próprio proletariado, agindo sob coerção;
2. Medidas pelas quais o empregador será compelido a dar não menos que determinado valor por qualquer
trabalho adquirido;
3. Medidas que compelem o homem destituído de meios de produção a trabalhar, mesmo não tendo feito
qualquer contrato neste sentido.
As duas últimas, como veremos em breve, complementam-se entre si.
Quanto à primeira: medidas paliativas para a insegurança do proletariado.
Temos um exemplo disso na legislação vigente neste momento. Essa lei — a Lei de Seguros (cuja fonte e
motivação políticas não discuto aqui) — segue em cada pormenor as linhas do Estado Servil.
a) Seu critério fundamental é o emprego. Em outras palavras, sou compelido a ingressar em um esquema
que me resguarda contra os infortúnios da doença e do desemprego, não por ser um cidadão, mas apenas se
eu:
I - Estiver permutando serviços por bens; e, ademais, uma das seguintes coisas:
II - Estiver obtendo menos que uma certa quantidade de bens por tais serviços; ou
III - For um indivíduo ordinário que realiza trabalho manual.
Ciosamente, a lei exclui de suas provisões as formas de trabalho a que estão sujeitas as classes poderosas, além
de excluir de sua obrigatoriedade a massa daqueles que no momento ganham o suficiente para ser
reconhecidos numa classe economicamente livre. Eu talvez seja um escritor de livros que, em caso de doença,
deixará em grandes dificuldades a família que sustenta. Se o legislador estivesse preocupado com a moral dos
cidadãos, eu deveria sem sombra de dúvida estar protegido por essa lei, sob a forma de um seguro
compulsório acrescido a meu imposto de renda. Mas o legislador não se preocupa com pessoas da minha
estirpe. Ele está preocupado com um novo status que reconhece no Estado, a saber, o proletariado. Ele vê o
proletário, equivocadamente, como um homem pobre ou, se não for pobre, uma pessoa ordinária que faz
trabalhos manuais; e legisla com base nisso.
b) Ainda mais chocante, como exemplo de status tomando o lugar do contrato, é o fato de que essa lei coloca
a responsabilidade de controlar o proletariado e de garantir o cumprimento da lei não sobre o próprio
proletariado, mas sobre a classe capitalista.
Ora, este ponto é de uma importância que não pode ser exagerada.
O futuro historiador, qualquer que seja o seu interesse nos primeiros sinais desta profunda e acelerada
revolução pela qual estamos passando, muito provavelmente irá se fixar neste ponto como sendo o marco
cardeal de nosso tempo. O legislador que perscruta o Estado Capitalista propõe como remédio para alguns de
seus males o estabelecimento de duas categorias no Estado, obriga o homem inferior a se cadastrar, a pagar
um imposto e tudo o mais, e ainda obriga o homem superior a ser o instrumento que executa esse cadastro e
coleta esse imposto. Ninguém familiarizado com a maneira com que as grandes mudanças do passado
ocorreram — com a substituição do direito romano de posse da terra pelo domínio, ou com a substituição do
servo da Idade das Trevas pelo camponês medieval — se deixará enganar quanto à importância de tamanho
ponto de inflexão em nossa história.
Se isso irá se consumar, ou se uma reação acabará por impedi-lo, é outro assunto. O mero fato de ter sido
proposto é da máxima importância na investigação que estamos conduzindo.
Quanto às duas outras medidas, a fixação de um salário mínimo e o trabalho compulsório (que,
conforme demonstrarei em breve, se complementam), nenhuma ainda ganhou a forma de lei, mas ambas
foram planejadas e pensadas, dispõem de defensores poderosos, e estão no limiar da incorporação em lei.
A fixação de um salário mínimo, com um valor definido por regulamento, ainda não se incorporou em
nossas leis, mas o primeiro passo nessa direção foi dado na forma de sanções legais a um salário mínimo
hipotético que será estipulado após discussões internas num setor específico. Tal setor, naturalmente, é a
indústria mineradora. A lei não diz: “Nenhum capitalista pagará a um minerador menos de tantos shillings
por tantas horas de serviço”. Mas diz: “Definidos os valores por juntas locais, qualquer minerador
trabalhando dentro da área de cada junta pode exigir, por força de lei, a quantia mínima estipulada por tais
juntas”. É evidente que deste passo para o próximo, que deverá definir alguma escala crescente de
remuneração para o trabalho, de acordo com os preços e os lucros do capital, a transição é fácil e natural.
Isso daria a ambas as partes aquilo que cada uma exige imediatamente: ao capital, a garantia contra
distúrbios; à mão-de-obra, suficiência e segurança. A coisa toda constitui uma ótima aula prática em
microescala daquela transição maior do contrato livre para o status, e do Estado Capitalista para o Servil,
que é a maré de nosso tempo.
O abandono de princípios mais antigos, sob o pretexto de serem abstratos e doutrinários; a necessidade
imediata de ambas as partes serem satisfeitas imediatamente; a imprevista mas necessária conseqüência de
satisfazer tais necessidades de tal e qual forma – tudo isto, que está patente no acordo que a indústria
mineradora ensejou, são as típicas forças que produzem o Estado Servil.
Consideremos numa perspectiva maior a natureza desse acordo.
O proletário aceita uma posição em que produz para o capitalista uma certa soma de valores
econômicos, e retém dessa soma apenas uma parte, deixando ao capitalista todo o valor excedente. O
capitalista, por sua vez, está garantido na expectativa segura e permanente desse valor excedente em meio a
todos os perigos da inveja social; ao proletário é garantida suficiência e uma segurança nessa suficiência; mas
pela própria ação dessa garantia, retira-se dele o seu poder de recusar trabalho e, assim, de almejar a
possibilidade de ver-se a si mesmo na posse dos meios de produção.
Tais esquemas, definitivamente, dividem os cidadãos em duas classes: a capitalista e a proletária. Eles
impossibilitam a esta última combater a posição privilegiada da primeira. Introduzem na legislação positiva
da comunidade um reconhecimento das realidades sociais que já dividiam os ingleses em dois grupos de
indivíduos, uns mais e outros menos livres economicamente, carimbando com a autoridade do Estado a nova
constituição da sociedade. A sociedade não é mais reconhecida como constituída de homens livres que
barganham livremente o seu trabalho ou qualquer outro bem em sua posse, mas de dois status contrastantes,
os proprietários e os não-proprietários. Ao primeiro não se deve permitir deixar o segundo sem subsistência;
ao segundo não se deve permitir o controle dos meios de produção, que são o privilégio do primeiro. É
verdade que este primeiro experimento é pequeno em dimensão, e deixa a desejar em qualidade; mas para
julgar o movimento como um todo, devemos considerar não apenas a expressão que de fato ele encontrou até
agora na legislação positiva, mas o estado de espírito de nosso tempo.
Quando esse primeiro ensaio de salário mínimo foi debatido no Parlamento, qual foi o grande tema de
disputa? No que os reformadores mais ardentes insistiram em particular? Não que os mineradores devessem
ter o caminho aberto para obter a posse das minas; nem mesmo que o Estado devesse ter o caminho aberto
com vistas ao mesmo fim; mas que um salário mínimo fosse fixado em certo patamar satisfatório! Foi este,
como nossa experiência recente deu testemunho para todos nós, o ponto crucial da contenda. E que tal ponto
seja o problema, e não a socialização das minas, não a admissão do proletariado aos meios de produção, mas
apenas alguma suficiência e segurança em matéria de salário, diz muito das forças talvez irresistíveis que
impulsionam no sentido que argumento neste livro.
Não houve aqui qualquer tentativa do capitalismo de impor condições servis, nem do proletariado de
resistir a elas. Ambas as partes estavam de acordo quanto a esta mudança fundamental. A discussão voltou-se
para o valor mínimo de subsistência a ser assegurado, um ponto que deixou de lado, porque dado por
pressuposto, a fixação de algum mínimo qualquer.
Depois, note-se (pois é decisivo para uma parte posterior de meu argumento) que experimentos desta
espécie prometem estender-se por etapas. Não há nenhuma probabilidade, a julgar pelas ações e discursos dos
homens, de que se proponha um grande esquema geral para o estabelecimento de um salário mínimo para
toda a comunidade. Tal esquema, claro, representaria a instauração do Estado Servil, tanto quanto a sua
realização por etapas. Mas, como veremos em breve, a extensão gradual do princípio, por etapas, exerce um
efeito considerável sobre as formas que a coerção pode assumir.
A recusa de trabalhar por parte dos mineradores, e o pânico exagerado que ela causou, alimentou essa
primeira aparição provisória do salário mínimo em nossas leis. Normalmente, o capital prefere o trabalho
livre, com sua margem de desamparo; pois tal anarquia, embora efêmera por natureza, propicia mão-de-
obra barata enquanto dura; de um ponto de vista mais estreito, propicia, nos setores do capitalismo em que
ainda há concorrência, uma maior chance de lucros.
Mas à medida que uma categoria de trabalhadores após outra — ocupados de ofícios de necessidade
imediata para a vida da nação, e portanto tolerando pouca interrupção — descobrem que o poder que a
união lhes confere, é inevitável que o legislador (concentrado como está nos remédios momentâneos,
conforme surgem as dificuldades) proponha para um setor após outro o remédio de um salário mínimo.
Resta pouca dúvida de que, setor por setor, o princípio se estenderá por toda a sociedade. Por exemplo, os
dois milhões e meio que hoje estão garantidos contra o desemprego, o estão graças a determinada soma
semanal que têm de pagar. Essa soma semanal deve ter alguma relação com os rendimentos estimados que
proporcionam quando estão empregados.
É um passo curto do cálculo do benefício do seguro-desemprego (sua fixação regulamentar em
determinada quantia, e tal quantia determinada por algo tido como remuneração justa pelo trabalho nesse
ofício); é um passo curto, digo, daí para a fixação regulamentar dos valores pagos durante o emprego.
O Estado diz ao servo: “Garanti que você receba tal quantia quando desempregado. Vejo que em muitos
casos meu arranjo o leva a ganhar mais quando desempregado do que quando empregado. Percebo ainda
que, em muitos casos, embora ganhe mais quando está empregado, essa diferença não seja suficiente para
convencer um homem preguiçoso a trabalhar, ou fazê-lo se dar ao trabalho de arranjar emprego. Preciso
resolver isto”.
A provisão de um esquema fixo para o período de desemprego leva então, inevitavelmente, ao exame,
definição e finalmente imposição de um salário mínimo para o período de emprego; e cada nova provisão
obrigatória relativa aos benefícios para o desempregado é a semente de um salário mínimo.
De efeito ainda maior é a mera presença da regulação estatal nesta matéria. O fato de que o Estado
começou a reunir estatísticas de salários sobre amplos setores da indústria, e de fazê-lo não por um mero
objetivo estatístico, mas prático, e o fato de que o Estado começou a imiscuir a ação e as restrições da lei
positiva com o antigo sistema de livre barganha, tudo isto significa que o peso inteiro de sua influência foi
deslocado no sentido da regulação. Não é uma profecia precipitada afirmar que, num futuro próximo de
nossa sociedade industrial, numa área cada vez maior da indústria, a fixação de salários regulamentados por
lei aparecerá em duas frentes. De um lado, na forma do Estado examinando as condições de trabalho em
conexão com seus próprios esquemas para prover suficiência e segurança através da seguridade. De outro, por
propostas razoáveis de contratos entre grupos trabalhistas e associações de capital, fiscalizados pelos tribunais.
Eis aí, então, o princípio do salário mínimo. Ele já figura em nossas leis. Com certeza se espalhará. Mas
como a presença desta introdução de um mínimo se integra na marcha para o Estado Servil?
Afirmei que o princípio do salário mínimo traz no bojo, como oposto complementar, o princípio do
trabalho obrigatório. De fato, muito da importância do princípio de um salário mínimo para esta
investigação reside na necessidade de trabalho compulsório que implica.
Mas como o nexo entre ambos pode não ficar claro à primeira vista, não basta dar este fato por
pressuposto. Devemos demonstrá-lo por um processo de raciocínio.
Há duas formas distintas pelas quais a política de garantir segurança e suficiência para o proletariado,
por força de lei, produz uma política correspondente de trabalho compulsório.
A primeira destas formas é pela coerção que os tribunais exercerão sobre quaisquer das partes
responsáveis pela concessão e recebimento de um salário mínimo. A segunda é pela necessidade na qual a
sociedade incorrerá, uma vez admitido o princípio do salário mínimo, conjugado aos princípios de suficiência
e segurança, para sustentar aqueles que o salário mínimo exclui da área de empregabilidade normal.
Quanto à primeira forma:
Um grupo proletário firmou um acordo com um grupo de capitalistas no sentido de produzir para esse
capital dez medidas de valor em um ano. Ele se contentará em receber seis medidas de valor para si,
deixando quatro medidas de valor como excedente para os capitalistas. O acordo é ratificado; os tribunais
têm o poder de fiscalizá-lo. Se os capitalistas, recorrendo a algum subterfúgio de multas ou descaradamente
quebrando sua promessa, pagarem menos que seis medidas de salário, os tribunais devem ter alguma forma
de obrigá-los. Em outras palavras, deve haver alguma sanção prevista em lei para essa ação. Deve haver
alguma possibilidade de punição, e, através da punição, de coerção. Em contrapartida, se os homens, tendo
feito tal acordo, voltarem atrás em suas palavras; se alguns indivíduos do grupo, ou grupos, pararem de
trabalhar para exigir sete medidas ao invés de seis, os tribunais devem ter o poder de obrigá-los e puni-los.
Nos casos em que o acordo é efêmero ou de alguma forma se estende apenas por limites razoáveis de tempo,
seria talvez exagero dizer que cada caso individual de coerção aos trabalhadores é um caso de trabalho
compulsório. Mas se estendermos o sistema por um longo número de anos, tornando-o normal na indústria e
um hábito aceito na concepção cotidiana dos homens, na forma como suas vidas devem ser conduzidas, o
método necessariamente se converte num sistema de trabalho compulsório. Em setores onde os salários
variam pouco, obviamente este será o caso. “Vocês, trabalhadores agrícolas deste distrito, recebem quinze
shillings por semana há muito tempo. Sempre funcionou perfeitamente bem. Não parece haver razão para
que ganhem mais. Não, vocês o aceitaram por meio de seus representantes no ano tal, comprovando que
julgaram o valor suficiente. Tais e quais dos seus membros estão agora se recusando a realizar o que este
tribunal entende como um contrato. Eles devem recolocar-se sob os limites desse contrato, ou sofrer as
conseqüências.”
Recorde-se o poder que a analogia exerce sobre a mente dos homens. Quando sistemas dessa espécie
tornam-se comuns a vários setores, isso tende a criar pontos de vista gerais para todos os ofícios. Recorde-se
também que uma ameaça relativamente tênue é suficiente para controlar os homens em nossa sociedade
industrial. A massa proletária está acostumada a viver toda semana sob a ameaça de dispensa e tornou-se
prontamente suscetível a qualquer ameaça de redução nestes salários, que não provêm senão a mera
subsistência.
O fato de esses contratos, ou arremedos de contrato (como virão a ser considerados) serem reconhecidos e
fiscalizados pelos tribunais tampouco é o único fator de indução em jogo.
Um homem é obrigado a entregar uma parte de seu salário sob a forma de seguro contra o desemprego.
Mas ele não é mais o juiz de como essas somas podem ser utilizadas. Elas não estão em sua posse; não estão
sequer nas mãos de alguma sociedade que ele possa efetivamente controlar. Estão nas mãos de um agente
governamental. “Eis aqui um trabalho que paga vinte e cinco shillings por semana. Se você não aceitá-lo,
certamente não terá direito ao dinheiro que foi obrigado a entregar. Se aceitar este emprego, a soma
permanecerá em seu crédito, e da próxima vez que, segundo meu parecer, o seu desemprego não se dever à
teimosia e recusa de trabalhar, permitirei que receba um pouco desse dinheiro: de outra forma, não.”
Ajustar-se a este mecanismo de obrigatoriedade é sujeitar-se a toda a massa de registros e certificações que se
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acumula pelas operações das Bolsas Laborais. Não só o funcionário do Estado terá o poder de celebrar
contratos especiais, ou de compelir os indivíduos a trabalhar pela ameaça de uma multa, como terá à
disposição uma série de arquivos pelos quais o histórico de cada trabalhador pode ser registrado. Nenhum
homem, uma vez registrado e conhecido dessa maneira, pode escapar; e, pela própria natureza do sistema, o
número de indivíduos pegos na malha do sistema deve crescer regularmente, até que toda a massa de
trabalhadores esteja mapeada e sob controle.
Trata-se de instrumentos de coerção poderosíssimos, sem dúvida. Eles já existem. Já fazem parte de
nossas leis.
Por último, há a evidente coerção da “arbitragem compulsória”: uma coerção tão óbvia que é revoltante
até ao nosso proletariado. De fato, desconheço um estado europeu civilizado que tenha sucumbido a uma
sugestão tão grotesca. Pois é uma franca admissão de servidão peremptória, uma que os homens de nossa
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cultura não estão ainda preparados para engolir.
Eis aí, então, o primeiro argumento e a primeira forma pela qual o trabalho compulsório é visto como
uma conseqüência direta e necessária da criação de um salário mínimo e da organização dos empregos em
grande escala.
A segunda é igualmente clara. Na produção do trigo, os homens saudáveis e hábeis que podem produzir
dez medidas de trigo são obrigados a trabalhar por seis medidas, e o capitalista é obrigado a se contentar com
quatro medidas para sua parte. A lei o punirá se ele tentar fugir à obrigação legal de pagar a seus
funcionários menos de seis medidas de trigo durante o ano. E quanto ao homem que não tem força e
competência para produzir sequer seis medidas? Por acaso o capitalista será obrigado a pagar-lhe mais do
que os valores que ele pode produzir? Certamente que não. Toda a estrutura de produção, tal como erigida
durante a fase capitalista de nossa indústria, foi deixada intacta pelas novas leis e costumes. O lucro ainda é
tido como uma necessidade. Se fosse destruído, mais ainda, se o prejuízo fosse imposto por lei, teríamos aí
uma contradição com todo o espírito com que estas reformas estão sendo realizadas. Elas estão sendo
realizadas com o objetivo de criar estabilidade onde agora há instabilidade, e de “reconciliar”, como diz a
irônica expressão, “os interesses do capital e do trabalho”. Seria impossível, sem provocar uma ruína geral,
obrigar o capital a perder dinheiro com o homem que não vale sequer um salário mínimo. Como seria
possível eliminar tal elemento de insegurança e instabilidade? Sustentar alguém gratuitamente, por ser
incapaz de fazer jus a um salário mínimo, quando todo o resto da sociedade labuta para ganhar seus salários
garantidos por lei, é premiar a incapacidade e a preguiça. Ele deve ser obrigado a trabalhar. É preciso
ensiná-lo, se possível, a produzir essas importâncias econômicas, que são consideradas o mínimo da
suficiência. Ele deve ser mantido no emprego, mesmo que não possa produzir o mínimo, ou sua presença
como trabalhador livre colocará em risco todo o esquema do salário mínimo, ao mesmo tempo que introduz
um elemento contínuo de instabilidade. Logo, ele é necessariamente um alvo de trabalho forçado. Não temos
ainda neste país, estabelecido por força de lei, o direito a essa forma de coerção, mas é uma conseqüência
inevitável das outras reformas que acabaram de ser examinadas. A “colônia de trabalho” (uma prisão assim
chamada porque o eufemismo é necessário em toda transição) será erigida para absorver esse excedente, e
esta última forma de coerção irá coroar o edifício das reformas. Elas estarão então completas, no que diz
respeito às classes servis, e mesmo que essa instituição específica da “colônia de trabalho” (logicamente, a
última de todas) preceda no tempo a outras formas de coerção, o advento dessas outras formas de coerção
será mais certo, fácil e rápido.
Uma última observação que deve ser feita quanto ao aspecto concreto de minha exposição. Ilustrei nesta
última seção a tendência em direção ao Estado Servil com base em leis e projetos de lei reais, com os quais
todos estamos familiarizados na sociedade industrial inglesa. Mostrei ainda como estas leis estão certamente
criando para o proletariado um inédito, mas para eles satisfatório, status de servidão.
Resta assinalar em umas poucas linhas a verdade complementar de que aquilo que deveria ser a essência
mesma da reforma coletivista, a saber, o traslado dos meios de produção das mãos dos proprietários privados
para as mãos dos agentes públicos, não está sendo tentado em nenhum lugar. Tão longe está disso que todos
os experimentos ditos “socialistas” de municipalização e nacionalização somente aumentam a dependência
da comunidade em relação à classe capitalista. Para prová-lo, basta observar que cada um desses
experimentos é sempre realizado através de um empréstimo.
Ora, o que se significam na realidade econômica esses empréstimos municipais e nacionais em que se
incorre para adquirir determinadas parcelas dos meios de produção?
Certos capitalistas possuem grande número de trens, carros, etc. Eles colocam alguns proletários para
trabalhar aí, e o resultado é um certo total de valores econômicos. Digamos que os valores excedentes
obteníveis pelos capitalistas, depois de provida a subsistência dos proletários, some 10.000 libras ao ano.
Todos sabemos como um sistema desse tipo é “municipalizado”. Faz-se um “empréstimo”. Sobre ele
incorrem “juros”. É preciso arcar ainda com um “fundo de amortização”.
Ora, este empréstimo não é realmente feito em dinheiro, embora seus termos o sejam. Trata-se, ao fim de
uma longa série de permutas, de nada mais nada menos que o empréstimo de carros, ferrovias etc. pelos
capitalistas à municipalidade. E os capitalistas exigem, antes de fechar o acordo, uma garantia de que todo o
antigo lucro lhes será pago, além de uma soma anual adicional que, após certo número de anos, representará
o valor original que tinham quando foram entregues. Estas somas adicionais são o chamado “fundo de
amortização”; o pagamento contínuo dos antigos valores excedentes é chamado de “juros”.
Em teoria, pequenas parcelas dos meios de produção podem ser adquiridas dessa maneira. Aquela seção
em especial teria sido “socializada”. O “fundo de amortização” (ou seja, o pagamento, em prestações, da
planta aos capitalistas) pode ser amealhado da tributação geral imposta à comunidade, dado o seu enorme
tamanho diante de qualquer experimento do tipo. Os “juros” podem, através de uma boa gestão, ser pagos
com os lucros reais das linhas de bonde. Ao fim de certo número de anos, a comunidade estará de posse das
linhas de bonde, não será mais explorada neste particular pelo capitalismo. Terá adquirido o controle do
capitalismo por meio dos impostos gerais, e, até onde o dinheiro resultante da compra for consumido, e não
poupado ou investido pelos capitalistas, uma pequena parcela de “socialização” terá sido alcançada.
Na realidade, as coisas nunca são tão favoráveis.
Na prática, três condições militam contra até mesmo esses pequenos ensaios de expropriação: o fato de
que os implementos são sempre vendidos por um valor muito maior do que realmente valem; o fato de que a
compra inclui coisas não-produtivas; e o fato de que o ritmo de tomada de empréstimo é muito maior do que
o ritmo de amortização. Estas três condições adversas, na prática, nada produzem senão uma incrustação
mais firme do capitalismo em torno do corpo do Estado.
Afinal, pelo que se paga quando um bonde, por exemplo, é estatizado? É o verdadeiro capital apenas, a
planta efetiva que é comprada, mesmo por um preço exagerado? Longe disso! Muito além dos trilhos e
vagões, há todas as comissões, todos os almoços com champanhe, todos os honorários advocatícios, todas as
compensações para este ou aquele sujeito, todos as propinas que foram pagas. E nem isto encerra a questão.
Bondes representam um investimento produtivo. Mas e quanto a jardins ornamentais, lavanderias, banhos
públicos, bibliotecas, monumentos e o resto? A maior parte dessas coisas são fruto de “empréstimos”. Ao criar
uma instituição pública, o Estado empresta os tijolos, e o cimento, e o ferro, e a madeira, e as telhas, tudo dos
capitalistas, e se compromete a pagar juros e criar um fundo de amortização, precisamente como se um
banho ou uma prefeitura fossem uma máquina que reproduz o capital investido nela.
A isso deve-se acrescentar o fato de que uma proporção considerável das aquisições revelam-se um
fracasso: aquisições de coisas que em seguida são abandonadas por causa de uma nova invenção; enquanto,
por cima disso tudo, os empréstimos seguem num ritmo muito maior do que a amortização.
Em uma palavra, todos esses experimentos realizados por toda a Europa durante a nossa geração,
municipais e nacionais, resultaram num endividamento que cresce entre duas e três vezes mais rápido que o
ritmo das amortizações. Os juros, que o capital cobra com total indiferença quanto à produtividade ou não
dos empréstimos, ultrapassam em mais de 1,5% o retorno desses vários experimentos, mesmo levando-se em
conta os mais lucrativos e bem-sucedidos, como várias ferrovias estatais nacionais e os empreendimentos
municipais que lograram razoável sucesso em muitas cidades modernas.
O capitalismo assegurou-se de sair vencedor e sem perdas dessa modalidade fajuta de socialismo, como
de qualquer outra. E as mesmas forças que na prática interditam o confisco fazem de tudo para que a
tentativa de confisco disfarçada de aquisição não apenas fracasse, mas se volte contra aqueles que não
tiveram a coragem de atacar frontalmente o privilégio.
Com esses exemplos concretos de como o coletivismo, no intento de se realizar, apenas confirma a posição
capitalista, e de como nossas leis já começaram a impor um Status Servil sobre o proletariado, encerro a tese
argumentativa deste livro.
Creio tê-la comprovado.
O futuro da sociedade industrial, e particularmente da sociedade inglesa, deixado em suas próprias mãos,
é um futuro no qual a subsistência e a segurança serão garantidas para o proletariado, mas à custa da antiga
liberdade política e pela atribuição ao proletariado de um status nominalmente livre, mas concretamente
servil. Ao mesmo tempo, os proprietários serão garantidos em seus lucros, com todo o aparato produtivo
trabalhando regularmente, e aquela estabilidade que se perdeu na fase capitalista da sociedade sendo
novamente alcançada.
As tensões internas que ameaçavam a sociedade em sua fase capitalista serão relaxadas e eliminadas. E a
comunidade se acomodará sobre a Base Servil que era o seu alicerce antes do advento da fé cristã — base da
qual a fé lentamente se afastou e para a qual, com o declínio desta fé, retorna naturalmente.
CONCLUSÃO

É POSSÍVEL RETRATAR UM grande movimento social do passado com precisão e minúcias caso se disponha
do tempo necessário para a pesquisa e se consiga dar-lhe uma certa coordenação pela qual uma grande
massa de informações possa ser integrada e dotada de unidade.
Tal tarefa raramente é cumprida, mas não excede os poderes da história.
Com respeito ao futuro, ocorre o contrário. Ninguém pode dizer, mesmo em seu aspecto mais amplo ou
em sua linha estrutural principal, como será esse futuro. Pode-se apenas apresentar as principais tendências
de uma época: pode-se apenas determinar a equação da curva e presumir que essa equação se aplicará mais
ou menos aos próximos desdobramentos.
Até onde consigo julgar, as sociedades que romperam com a continuidade da civilização cristã no século
XVI — grosso modo, norte da Alemanha e Grã-Bretanha — tendem, no presente, à restauração do Status
Servil. Ele será diversificado por acidentes locais, modificado pelo caráter regional, encoberto sob muitas
formas. Mas virá.
Que a mera anarquia capitalista não pode perdurar está patente a todos os homens. Que apenas
pouquíssimas soluções existem para ela deve estar igualmente patente a todos. De minha parte, conforme
expus nestas páginas, acredito não haver mais de duas: uma reação em direção à propriedade bem
partilhada ou a restauração da servidão. Não consigo acreditar que o coletivismo teórico, que vem
fracassando tão cabalmente, dará forma, algum dia, a uma sociedade viva e real.
Mas a minha convicção de que a restauração do Status Servil é iminente na sociedade industrial não me
induz a nenhuma profecia esquálida e mecânica de como será o futuro da Europa. A força da qual estive
falando não é a única força em jogo. Há um complexo entrelaçamento de forças presente por baixo de todas
as nações outrora cristãs; velhos fogos que ardem sem chama.
Ademais, é possível apontar as sociedades européias que com toda a certeza rejeitarão tal solução para o
nosso problema capitalista como justo aquelas sociedades que rejeitaram ou suspeitaram do próprio
capitalismo, e rejeitaram ou suspeitaram da organização industrial que até há pouco se identificava com o
“progresso” e o bem-estar nacional.
Essas sociedades são em geral as mesmas que, na grande tempestade do século XVI — o episódio capital
da história da cristandade — se apegaram à tradição e resguardaram a continuidade dos valores morais. Em
especial entre elas deve se notar hoje a França e a Irlanda.
Registraria como uma impressão, e não mais do que isso, que o Estado Servil, forte como é a maré em
sua direção na Prússia e na Inglaterra de hoje, será modificado, contido, talvez derrotado em guerra,
certamente barrado em sua tentativa de plena instauração, pela forte reação que essas sociedades mais livres
exercerão perpetuamente sobre o seu flanco.
A Irlanda optou por um campesinato livre, e nossa geração viu a sólida fundação dessa instituição se
assentar. Na França, os muitos experimentos que em outros lugares introduziram o Estado Servil foram
rejeitados desdenhosamente pela população, e (da maior relevância!), uma recente tentativa de registrar e
“assegurar” os artesãos como uma categoria à parte de cidadãos desfez-se em face de um desprezo viril e
universal.
Que este segundo fator, a presença de sociedades livres, nos desdobramentos futuros venha a destruir a
tendência ao Estado Servil em outras partes, não é algo que eu afirme. Mas acredito que irá modificar essa
tendência, certamente pelo exemplo e possivelmente por um ataque direto. E assim como estou em geral
esperançoso de que a Fé irá recuperar seu lugar íntimo e condutor no coração da Europa, creio que esta
queda para o nosso paganismo original (pois a tendência ao Estado Servil nada mais é do que isso) será no
devido momento interrompida e revertida.

Videat Deus.

O Estado servil
Foi composto em caracteres da família Walbaum e impresso sobre papel pólen 80g em agosto de 2017 para a
editora Danúbio

Foi composto em caracteres da família Walbaum e impresso sobre papel pólen 80g em agosto de 2017 para a
editora Danúbio
Notas
[←1]
A carta citada foi enviada a Carl Schimdt, um amigo e leitor de Belloc, em 8 de julho de 1936. Na ocasião, Belloc tinha 65 anos. Essa e outras
cartas do autor de O Estado Servil estão disponíveis no livro Old Thunder: A life of Hilaire Belloc, de Joseph Pearce.
[←2]
Belloc comete um lapso, como se o tivesse publicado em 1913 e não em 1912, ano da primeira edição.
[←3]
Novamente o mesmo lapso do autor: a Revolução ocorreu cinco anos após a publicação da obra.
[←4]
Organizações não-estatais que regulavam os salários dos trabalhadores britânicos.
[←5]
Imposto de capitação.
[←6]
Espécie de agência de empregos estatal com a finalidade de ajudar os trabalhadores a conseguir uma recolocação no mercado de trabalho. Foi
estabelecida em 1909.
[←7]
Salvo neste sentido especial de “coletivista”, a palavra “socialista” ou não tem um significado claro, ou é usada como sinônimo de palavras
mais antigas e conhecidas. [N. do A.]
[←8]
Esta definição assemelha-se à definição de modo de produção formulada pelo historiador marxista Moses I. Finley. Para este, o modo de
produção é caracterizado pelo tipo de relação de trabalho predominante em uma sociedade, mesmo que nesta coexistam outros tipos de
relação. V. FINLEY, Moses I. Econômia e sociedade na Grécia antiga. São Paulo: Martins Fontes, 1989 [N. do E.]
[←9]
Título usado pelo vice-rei do Egito durante o período Otomano. [N. do E.]
[←10]
Muito embora o termo Idade das Trevas seja condenado como incorreto e pejorativo quando usado para designar todo o milênio medieval,
os historiadores contemporâneos costumam aceitá-lo para nomear os dois primeiros séculos imediatamente após a fragmentação do Império
Romano do Ocidente. Este período da história europeia caracteriza-se pelo esvaziamento das cidades, a simplificação da vida material e a
escassez de registros históricos escritos. [N. do E.]
[←11]
O poder de compra do dinheiro caiu durante esse século para cerca de um terço de seu padrão original. Três libras, então, comprariam sob
Carlos I as necessidades que uma libra comprava sob Henrique VIII. Quase todas as receitas da Coroa eram consuetudinárias. A maior parte
de seus gastos eram ditados pela concorrência. Ela continuou a receber uma libra para cada três que foi gradualmente obrigada a
desembolsar. [N. do A.]
[←12]
O autor refere-se ao conjunto de leis de alívio aos pobres e indigentes já existente desde a Idade Média e que foi codificado em 1601. [N. do
E.]
[←13]
Legislação promulgada durante o governo do Lorde Melbourne que tinha por objetivo aliviar a situação dos pagadores de aluguel. [N. do E.]
[←14]
Antes de se formar um truste na Inglaterra, o primeiro passo é “interessar” um de nossos políticos. A telefonia, o truste carvoeiro de Gales do
Sul, o cartel do sabão, felizmente desbaratado, os cartéis da soda, do peixe e das frutas, são exemplos disso. [N. do A.]
[←15]
A palavra “propriedade” aqui, significa, é claro, a propriedade dos meios de produção. [N. do A.]
[←16]
Charles T. Yerkes (1837–1905), financista americano, grande investidor responsável pelo desenvolvimento de rodovias e ferrovias nas
cidades de Chicago e Londres. [N. do E.]
[←17]
Cercamentos refere-se ao processo de transformação das terras de uso comum em terras “cercadas” para usufruto exclusivo de seus
proprietários. [N. do E.]
[←18]
Subúrbio industrial de Leeds, Pudsey era uma das áreas mais miseráveis e poluídas da Inglaterra do século XIX. [N. do E.]
[←19]
Famoso asilo de pobres que foi a primeira base do Settlement Movement, cujo objetivo era reunir os ricos e os pobres para que vivessem de
forma mais próxima em uma comunidade solidária dentro da sociedade. [N. do E.]
[←20]
Conjunto de medidas legislativas iniciadas com o Ato Foster de 1870 que instituíram o ensino compulsório para as crianças inglesas entre 5
e 10 anos de idade. [N. do E.]
[←21]
Os Truck Acts, iniciados a partir de 1831, codificaram as práticas legais que continham o abuso patronal nos casos de pagamento parcial de
salário em mercadoria. [N. do E.]
[←22]
Por uma ilusão que o estadista hábil poderia usar em prol da comunidade, ele estima até as forças naturais que controla (que não precisam de
acumulação, mas estão sempre presentes) em analogia com seu capital, e se desfará delas por “tantos anos de rendimento”. É tirando
vantagem dessa ilusão que os esquemas de compra de terra (como na Irlanda) atuam felizmente a favor dos desamparados. [N. do A.]
[←23]
Assim, é possível investir sobre os fabricantes de cerveja em uma sociedade semipuritana, onde a bebida é tida como imoral por muitos. Mas
passe a atacar as ações ferroviárias e será um assunto bem diferente. [N. do A.]
[←24]
Ao usar esta metáfora, registro minhas desculpas àqueles que acreditam em universos elípticos e hiperbólicos, e confesso-me um parabolista
antiquado. Ademais, admito que os triângulos em questão são esféricos. [N. do A.]
[←25]
Um tipo de carruagem patenteada em 1834 por Joseph Hansom. [N. do E.]
[←26]
Assim, o dinheiro cobrado sobre a morte de algum fidalgo não muito rico, e representado por, digamos, locomotivas na Argentina, converte-
se em duas milhas de paliçadas para os agradáveis quintais de mil novos funcionários contratados sob a Lei dos Embriagados, ou é
simplesmente repassado aos acionistas da companhia Prudential pela Lei de Seguros. No primeiro caso, as locomotivas foram devolvidas à
Argentina e, após uma longa série de permutas, negociadas em troca de um grande número de paliçadas dos Bálcãs — não exatamente um
caso de riqueza reprodutiva. No segundo caso, as locomotivas que costumavam ser as mãos do fidalgo se tornam, ou seus equivalentes se
tornam, meios de produção nas mãos dos Sassoons. [N. do A.]
[←27]
O quanto a idéia de status subjaz essa legislação pode ser facilmente testado recorrendo-se a hipóteses paralelas, uma envolvendo
trabalhadores, e outra a classe profissional. Se firmo um contrato com uma editora para publicar a História do Condado de Rutland, e, no
cumprimento desta tarefa, enquanto examino algum objeto de interesse histórico, caio em uma fossa, não me é permitido buscar reparação
com a editora. Mas se me visto com roupas grosseiras e o mesmo editor, ludibriado, me oferece um mês de trabalho limpando a sua água
ornamental, e sou atacado por um peixe feroz, ele será multado em meu benefício, e pesadamente. [N. do A.]
[←28]
Agências de emprego estatais, criadas por uma lei de 1909. [N. do E.]
[←29]
Mas foi apresentada como projeto de lei no Parlamento, dentro dos trâmites previstos, duas vezes! [N. do A.]

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