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Guilherme Giotti Sichelero – 6 de julho de 2021

Considerações sobre o capitalismo comercial na Holanda

Considerações sobre o capitalismo comercial


na Holanda
Guilherme Giotti Sichelero1
Os Países Baixos, como o próprio nome já indica, é uma
região de baixa altitude em que a maior parte da sua região
está localizada abaixo da linha do mar (cerca de 36%).
Localiza-se ao norte da Europa continental e é banhada pelo
Mar do Norte, em um território pequeno, marcado por redes
de rios e canais fluviais, uma alta urbanização e grande
densidade populacional - em 1627, cerca de metade da
população vivia nas cidades - desde o período medieval
(FIORI, 2012; BRAUDEL, 1967; TENENTI, 1997). Como
afirma Braudel (1967), “comparadas com o resto da Europa,
as pequenas Províncias Unidas revelavam-se
superurbanizada, superorganizadas, precisamente por
causa da densidade da sua população” (BRAUDEL, 1967, p.
162-163).
Vinculada ao Sacro Império Romano-Germânico desde
longa data, durante o Império de Carlos V, a Holanda fazia
parte das Dezessete Províncias (que incluíam também a
Bélgica e Luxemburgo). Com a morte do imperador, em 1558,
e a divisão do Império, os Países Baixos são cedidos a ala
espanhola dos Habsburgo, e passam a fazer parte do Império
Espanhol de Felipe II. Durante a Idade Média a fraqueza do
poder centralizador do Sacro Império deu à região certa
autonomia que, aliado às suas características geográficas e
demográficas, criou boas condições para o desenvolvimento
urbano, artesanal e do comércio (TENETI, 1997). A formação
da Holanda como um centro comercial e artesanal e um
entreposto mercantil, fez com que se desenvolvesse nas
grandes cidades uma forte burguesia. Quando passou para o
1
Formado em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (UFRGS). Professor da rede estatual de ensino do estado de Santa
Catarina. Contato: guilhermesichelero@gmail.com.
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domínio espanhol, o papel centralizador, feudal e católico do


absolutismo espanhol levaria a rebelião holandesa e a busca
pela autonomia, que não significou outra coisa senão poder
gerir livremente seus próprios negócios empresariais.
O capitalismo comercial holandês e o seu século de ouro2,
isto é, o período de hegemonia holandesa no comércio
europeu e mundial, insere-se num amplo período de
transição do feudalismo ao capitalismo (séculos XIV-
XVIII), em que o feudalismo vive a sua crise final e o
capitalismo seu estágio inicial e prematuro sob a forma
dominante do capital comercial (a era do capitalismo
comercial). A transição, em história, é sempre um período
em que o velho ainda não morreu, e o novo ainda não está
suficiente maduro para moldar a sociedade à sua maneira
(FALCON, RODRIGUES, 2006; HOBSBAWM, 1977).
Pode-se dividir as hegemonias durante esse período da
seguinte maneira: a) durante o apogeu da Idade Média, entre
os séculos XI-XII, as cidades italianas e flamengas
controlavam a produção artesanal e o comércio de breve (ao
norte, flamengos; ao sul, italianos) e longa distância –
sobretudo com o Oriente -, em que predominava a pequena
produção mercantil, embora os germes do desenvolvimento
capitalista amadureciam; b) a crise feudal dos séculos XIV-
XV, seguiu-se um período de expansão (séculos XV-XVII),
em que a revolução burguesa em Portugal e a unificação
espanhola produziram o estabelecimento da hegemonia
ibérica (séculos XV-XVI) que baseava-se na primazia da
região na expansão mercantil-colonial e na formação do

2
O século de ouro ou a idade de ouro da Holanda corresponde, basicamente, ao
século XVII. Período de hegemonia comercial holandesa, pelo menos em parte do
período, mas sobretudo de ampla produção cultural, principalmente nas artes. É
o tempo de Rembrandt, Spinoza, Vermeer, Huygens, entre outros.
A ideia do século XVII como século holandês é muito questionada, já que, em
primeiro lugar, a decadência da Holanda se inicia nesse século, sobretudo na
segunda metade, além disso, em segundo lugar, esse também foi o século de
Cromwell e da revolução inglesa e o século ou a era de Luís IV, o Rei Sol.
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estado nacional; c) ao início da decadência e putrefação


espanhola, na segunda metade do século XVI - materializada
na derrota da Invencível Armada, em 1588 -, segue-se o
período de hegemonia holandesa, o século de ouro holandês,
que só termina em meados do século XVII; d) a famosa crise
do século XVII – a última crise geral do feudalismo –, segue-
se o duelo anglo-francês pela hegemonia, que termina com a
vitória definitiva da Inglaterra e da revolução industrial, no
final do século XVIII (HOSBAWM, 1977; FALCON,
RODRIGUES, 2006).
Sobre o capitalismo comercial holandês, esse trabalho
objetiva realizar apenas algumas considerações: 1) discutir a
revolução burguesa holandesa; 2) debater o papel do
comércio intermediário ou comércio de comissão como base
da hegemonia holandesa; 3) discutir algumas das
características do capitalismo comercial holandês; 4) debater
os motivos estruturais da decadência holandesa e do seu
atraso no desenvolvimento industrial.
***
1) O desenvolvimento do capitalismo comercial na Holanda
foi produto de uma revolução burguesa. Ao contrário das
revoluções burguesas na Inglaterra, no século XVII, e na
França, no século XVIII, a burguesia holandesa teve que
enfrentar, além dos entraves feudais - mais fracos nesse país
do que nos dois anteriores -, a dominação estrangeira, no
caso, a monarquia absolutista espanhola. Nesse sentido, a
fundamentação ideológica da revolução, ao mesmo tempo
que apresentava um caráter religioso, a defesa da fé
calvinista e luterana e a tolerância religiosa, também
apresentava um caráter nacional, de luta contra a invasão
estrangeira3.

3
O caráter de defesa nacional não é nenhuma novidade da revolução holandesa,
basta lembrar o caso da revolução burguesa em Portugal, no final do século XIV,
que teve que enfrentar as tentativas de invasão de Castela. O que, talvez, seja uma
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Entreposto mercantil do Império Espanhol, a província dos


Países Baixos passou, a partir de meados do século XVI, a ter
as taxas tributárias aumentadas pelos Habsburgo devido às
guerras, principalmente, contra a França. Aliado a isso, a
imposição católica espanhola buscava barrar qualquer forma
de manifestação religiosa da maioria luterana e calvinista
que residiam nas principais cidades e vilas holandesas4
(FIORI, 2012; FALCON, RODRIGUES, 2006; BENNASSAR
et al., 1980). Essa dupla opressão, tributária e religiosa, não
fez mais do que agudizar as contradições existente entre a
dominação feudal-absolutista espanhola e o progresso
comercial-burguês dos Países Baixos5, o que se atesta pela
maioria reformista dessa região. A religião não passou de
mera maquiagem ideológica aos interesses da emergente
burguesia holandesa6. Como afirmou Alberto Tenenti (1997),

novidade é o aparecimento do cristianismo reformado como uma forma de luta


da burguesia durante um processo de revolução burguesa – já que as reformas
foram antes lutas por espaço político e ideológico para a burguesia no marco
feudal do que revoluções sociais. Ademais, o cristianismo reformado apareceria,
novamente, de maneira mais radical e essencial, na revolução inglesa no século
seguinte.
4
Em 1565, Felipe II havia anunciado o estabelecimento da inquisição nos Países
Baixos e pedia a aplicação dos éditos contra as heresias.
5
“A Holanda tinha uma estrutura social idêntica à do resto da Europa Ocidental
em meados do século XVI, com um clero e nobreza privilegiados, com uma
divisão territorial complexa, com um campesinato distante da vida política e
social e com uma burguesia que exigia mais poder político e não se contentava
em contribuir com recursos sem participar da tomada de decisões. No entanto,
uma das características peculiares dessas terras foi o grande desenvolvimento
da burguesia, em um país muito urbano que, graças à produção e ao comércio
de tecidos, vinha se desenvolvendo há séculos” (GALLEGOS, 2014, p. 177).
6
A maioria dos historiadores acreditam que a religião teve um papel central na
independência dos Países Baixos, Gallegos (2014) e Tenenti (1997) se encontram
entre eles. Contudo, nesse trabalho, abordo as Reformas e o cristianismo
reformado do ponto de vista marxista, segundo qual esses movimentos não
passaram de formas ideológicas e culturais da burguesia em ascensão para lutar
contra os interesses da velha sociedade, que possuíam como pilares ideológicos e
políticos o catolicismo, a igreja e seu braço repressivo, a inquisição. Como
afirmou Engels sobre as reformas, “Mesmo nas supostas guerras de religião do
século XVI, tratava-se antes de tudo de muitos positivos interesses materiais de
classes, e essas guerras foram lutas de classes exatamente como as colisões
internas mais tarde produzidas na Inglaterra e na França. Que essas lutas de
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“Por muito tempo [os Países Baixos] foi


também um dos polos mais importantes
do fluxo comercial que atravessou o
continente de norte a sul. A Holanda,
portanto, não demorou a se tornar um
centro nevrálgico da Europa Ocidental
do ponto de vista econômico. [...] Era
relativamente paradoxal que uma
região com uma situação tão excelente
não tivesse alcançado uma verdadeira
autonomia política” (TENENTI, 1997, p.
38-39)
A rebelião holandesa, iniciada em 1566, durou até 1648,
ficando conhecida como a Guerra de Oitenta Anos7. Mesmo
que tenha havido algumas tréguas entre ambos os países
durante esse período - como a Trégua de Doze anos (1609-
1621), por exemplo -, “a fronteira da economia nacional
holandesa foi criada pelo próprio cerco dos exércitos
espanhóis” (FIORI, 2012, s/p). Mesmo que a rebelião só
acabasse, oficialmente, em 1648, com Paz de Vestfália e o fim
da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), a burguesia
holandesa já havia dominado o aparelho de estado e fundado

classes hajam possuído marcas religiosas de reconhecimento, que interesses,


necessidades e reivindicações de cada uma das classes tenham se dissimulado
sob uma capa religiosa, isso em nada altera os fatos e facilmente se explica pelas
condições da época” (ENGELS apud DELUMEAU, 1965, p. 251).
7
“Nestes oitenta anos, as Províncias Unidas viveram cercadas e em estado
permanente de guerra, dentro do seu próprio território. Em 1585, a situação
havia se deteriorado de tal forma que Amsterdam chegou a oferecer a soberania
holandesa aos reis da França e da Inglaterra, e viveu dois anos como
protetorado da Rainha Elizabeth I. Mas em 1590, este cenário mudou de forma
súbita e radical. Amsterdam centralizou o poder e impôs sua hegemonia dentro
da federação, e em seguida fez um enorme esforço fiscal e organizou em poucos
anos um dos maiores e mais eficientes exércitos da Europa, iniciando uma
ofensiva militar impressionante e vitoriosa, que conquistou 43 cidades e 55
fortalezas espanholas, em menos de dez anos. Em seguida, criou um anel
protetor de cidades fortificadas e militarizadas e manteve sua ofensiva até o
estabelecimento de uma trégua de 12 anos, com a Espanha, entre 1609 e 1621”
(FIORI, 2012, s/p).
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uma, nas palavras de Falcon e Rodrigues (2006, p. 21),


república mercantil oligárquica.
Em 1609, a República das Província Unidas era formada por
sete províncias (Frísia, Groninga, Gueldres, Holanda,
Overissel, Utreque e Zelândia), cada uma formada por redes
de cidades, com certa hegemonia da província da Holanda -
e de sua capital, Amsterdã - sobre as demais. A instituições
centrais se sobrepunham as instituições locais, embora as
cidades tivessem ampla autonomia, podendo escolher seu
burgomestre e os magistrados municipais, além de enviar
delegados para os “parlamentos” provinciais, variando de
acordo com a província o poder de voto de cada cidade (na
Holanda, 18 cidades tinham poder de voto, enquanto na
Zelândia, somente seis). Sobre a autonomia das cidades,
afirmou Braudel (1967): “Cada uma dessas cidades tem o seu
governo, cobra impostos, ministra justiça, vigia
atentamente sua vizinha, defende constantemente suas
prerrogativas, sua autonomia, sua fiscalidade" (BRAUDEL,
1967, p. 163).
Os Estados Gerais (localizado em Haia, na Holanda), o
parlamento das sete províncias, contavam com delegados
escolhidos por cada província que possuíam apenas um voto
por província, as decisões mais importantes deveriam
sempre ser tomadas em consenso. Os Estados Gerais eram
auxiliados pelos parlamentos e executivos provinciais (o
“pensionista”, espécie de executivo civil, e o estatuder,
executivo militar). Devido ao poder econômico da província
da Holanda, o pensionista holandês tendeu a ter mais força
que os demais8 (BENNASSAR et al., 1980, p. 515-516;
BRAUDEL, 1967).

8
Assim como a maioria das confederações na história, existia uma luta entre dois
partidos: os adeptos da centralização, organizados em volta do estatuter da
Holanda, que buscavam um poder central forte que auxiliasse o poderio militar
na continuidade da luta contra a Espanha - apoiado sobretudo pela nobreza e
pelos camponeses e cidadãos pobres das cidades que representavam a base social
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Percebe-se, como a república mercantil oligárquica das


Provinciais Unidas era um estado burguês fruto de uma
revolução burguesa9 que, embora possuísse continuidades
feudais (como o caso das províncias monárquicas), já possuía
os germes dos órgãos burgueses essenciais da democracia
burguesa dos séculos XIX e XX.
2) A base principal da hegemonia comercial da Holanda foi,
sobretudo, o chamado comércio intermediário ou comércio
de comissão10. Os mercadores holandeses, “os carreteiros do
mar”, controlavam o comércio internacional através da
compra e venda de produtos de diversas regiões da Europa,
Américas, África e Ásia11. O lucro era obtido através da

das forças armadas; os adeptos da autonomia das cidades e províncias, em volta


do pensionista e do parlamento da Holanda, eram a favor da paz com a Espanha
por acreditarem que isso iria ajudar no desenvolvimento dos negócios comerciais
e usurários – era apoiado sobretudo pela burguesia comercial e manufatureira
das grandes cidades (BENNASSAR et al., 1980, p. 517).
9
Como o objetivo do trabalho é discutir mais as consequências econômicas da
revolução burguesa na Holanda, e não exatamente seu caráter social e o seu
padrão de luta de classes, abstive-me de discutir com mais profundidade essa
questão, contudo uma nota se faz necessário. Não só na revolução holandesa, mas
também nas revoluções burguesas em Portugal, Inglaterra e França, o motor
dessas revoluções foram as massas, isto é, os camponeses e a plebe urbana ou
gente miúda (setores semiproletários das cidades). Esses setores levaram adiante
as reinvindicações burguesas, muitas vezes indo muito adiante dos interesses da
burguesia, de maneira que acabaram sendo reprimidos. No caso holandês,
sobretudo os Mendigos do Mar (artesãos pobres, pescadores, pessoas sem teto e
posses, etc.) cumpriram esse papel (WOODS, 2016).
10
“O capital comercial, crescentemente fortalecido, vai rompendo os limites à
sua valorização, impostos pela esfera da produção, e a Holanda vai se tornando
o país do comércio intermediário. Em outras palavras, na medida em que a
esfera da produção nacional mostrava-se incapaz de acompanhar o ritmo do
desenvolvimento comercial, este passava paulatinamente a buscar sua
valorização, intermediando a circulação mercantil entre outras nações e
regiões. Esse processo fortalecia o comércio ante a esfera produtiva, a qual
sempre foi incapaz de impor políticas protecionistas quando seus interesses
entravam em conflito com os do capital mercantil” (OLIVEIRA, 2003, p. 122).
11
"A Holanda transformou-se no maior fretador marítimo da economia-mundo:
por volta de 1660, ela possuía três vezes a tonelagem da Inglaterra, e mais que
a tonelagem somada da Inglaterra, França, Portugal, Espanha e Alemanha. O
tráfico comercial holandês alcançava todo o espaço econômico da época: o
oceano Índico, a África, a América, o Báltico, o Mediterrâneo, e os rios do
noroeste europeu" (REZENDE, 2010, p. 127).
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compra dos produtos em um determinado mercado e da sua


venda por um preço muito superior em outros. A Holanda
seguia a máxima do capitalismo comercial: “comprar barato
e vender caro”12 (OLIVEIRA, 2003; FALCON, RODRIGUES,
2006). Os produtos do Oriente (especiarias, açúcar, chá,
tecidos de luxo, etc.), os grãos da Europa Oriental, a madeira
da Escandinávia, etc., esse eram os principais produtos
controlados pelos mercadores neerlandeses.
Enquanto no mercado internacional, os holandeses
praticavam uma política de mare liberum, mar livre, –
exatamente por possuírem superioridade comercial -, nas
suas colônias e regiões dependentes (como o caso da Europa
Oriental) o que predominava era o mare clausum, mar
fechado (BEAUD, 1987).
A hegemonia holandesa começou a ruir quando, em meados
do século XVII, as demais potências regionais passaram a pôr
em prática políticas protecionistas. Como resultado da
revolução burguesa na Inglaterra, Oliver Cromwell
estabeleceu os Atos de Navegação em 1651 (seguido de vários
outros atos de navegação no restante do século), que
garantiam o mercado inglês à burguesia comercial inglesa,
na medida que proibia que mercadores estrangeiros
trouxessem mercadorias de outros países, assim um
mercador só poderia comercializar produtos de seu próprio
país. Ocorreram várias guerras entre a Holanda e a Inglaterra

12
Segundo Marx, “Comprar para vender, ou, mais acuradamente, comprar para
vender mais caro, D-M-D’, parece ser apenas um tipo de capital, a forma
própria do capital comercial” (MARX, 2011, p. 299). Ainda no Capital, escreveu
Marx, “É no genuíno capital comercial que a forma D-M-D’, comprar para
vender mais caro, aparece de modo mais puro. Por outro lado, seu movimento
inteiro ocorre no interior da esfera da circulação. Mas como é impossível
explicar a transformação de dinheiro em capital – isto é, a criação do mais-
valor – a partir da própria circulação, o capital comercial aparenta ser
impossível, uma vez que se baseia na troca de equivalentes, de modo que ele só
pode ter sua origem na dupla vantagem obtida, tanto sobre o produtor que
compra quanto sobre o produtor que vende, pelo mercador que se interpõe como
um parasita entre um e outro” (MARX, 2011, p. 309).
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– as guerras anglo-holandesas – até o final do século XVIII


buscando dominar o mercado internacional. A França de
Luís XIV e François Colbert também estabeleceu o
protecionismo, buscando desenvolver a manufatura interna,
que ficou conhecida como indústria artificial dos séculos
XVII-XVIII.
Como afirmou Oliveira (2003),
“A Holanda foi bem-sucedida enquanto
disputava a supremacia com Portugal e
Espanha, nações que, então, possuíam
débil base produtiva e que não
mantinham política externa tão
unilateralmente favorável ao comércio
como os holandeses.
Entretanto, a partir de meados do
século XVII, França e Inglaterra
passam à ofensiva no mercado
mundial, implementando agressiva
política mercantilista, que protegia não
somente o comércio, mas também a
produção, e desde então a Holanda não
mais conseguiria manter sua posição
dominante. O comércio intermediário
holandês sofre rude golpe não somente
com os atos de navegação da Inglaterra
e com as medidas equivalentes
adotadas pelos franceses, mas também
com as políticas mercantilistas de
outras nações européias que tendiam a
eliminar os intermediarismo no
comércio externo. Como já fizemos
referência, a Holanda não entra em
abrupta decadência, mas a partir de
então não mais foi capaz de
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acompanhar o ritmo de
desenvolvimento do comércio
internacional da França, e
principalmente da Inglaterra, o que
evidentemente a condenava a futura
decadência” (OLIVEIRA, 2003, p. 123)
3) O historiador Michel Beaud (1987, p. 34–38) identificou
três pilares que sustentaram a hegemonia holandesa durante
o século de ouro: a) Companhia holandesa das Índias
Orientais, expressão típica do capitalismo comercial – um
misto de iniciativa especulativa, investimento a longo prazo
e empresa colonizadora, segundo Wallerstein (1974, p. 73) -,
estabelecia o monopólio comercial à burguesia mercantil
holandesa13 e chegou a dominar vários mercados, sobretudo
na África e na Ásia, “estabelecendo numerosos entrepostos
comerciais e conquistando algumas colônias, eles
firmaram-se na Insulíndia (atual Indonésia), em alguns
pontos do litoral ocidental da África e em algumas ilhas do
Caribe [...] seus estabelecimentos na América do Norte
(Nova Amsterdã), na América portuguesa (nordeste
brasileiro), em Angola e na Índia não resistiram às reações
de ingleses e portugueses, conforme o caso” (FALCON,
RODRIGUES, 2006, p. 22); b) Banco de Amsterdã,
controlado pela burguesia usurária, era extremamente
seguro e contava com uma grande variedade de moedas, o
que atraía os capitalistas estrangeiros que poderiam
comercializar produtos do exterior com mais facilidade, além
disso realizava pagamentos sem lastração de metal e
concediam empréstimos privados e públicos ao governo
holandês e a outras nações (o Banco da Inglaterra, fundado
no final do século XVII, só foi constituído devido aos capitais
13
Sobre as companhias, argumentou Arrighi (1994), “as companhias de comércio
e navegação foram o meio através do qual a classe capitalista holandesa
estabeleceu ligações diretas entre o entreposto de Amsterdam, de um lado, e
produtores do mundo inteiro, de outro” (ARRIGHI, 1994, p. 143).
10 | C o n s i d e r a ç õ e s sobre o capitalismo comercial na
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holandeses); c) frota holandesa, o domínio hegemônico dos


mares necessitava do desenvolvimento de uma frota
moderna, nesse sentido que algumas inovações tecnológicas
(como o fluitschip, embarcação leve capaz de levar cargas
pesadas e volumosas) e, sobretudo, uma mão-de-obra
numerosa e barata (os marinheiros que compunham a frota
eram em boa parte estrangeiros que recebiam salários
extremamente baixos14) se faziam necessários.
Outra característica importante do capitalismo comercial
holandês, sobretudo na sua decadência, foi a criação da Bolsa
de valores de Amsterdã, em 1602. Vinculada ao Banco de
Amsterdã e a Companhia das Índias Orientais, surgiu como
uma forma de emitir ações para a companhia e acabou se
tornando uma praça especulativa importante para os capitais
ociosos holandeses e estrangeiros.
4) Como discutido anteriormente, a partir de meados do
século XVII, as políticas protecionistas das demais nações
europeias (sobretudo a Inglaterra e a França) pôs em xeque
o comércio intermediário praticado pela Holanda. Os
historiadores buscaram compreender porque os Países
Baixos, mesmo com todo o seu poderio marítimo-comercial,
não conseguiu manter sua hegemonia diante da Inglaterra e
da França durante a virada do século XVII e todo o século
XVIII.
É lugar-comum (e correto) afirmar que foi a ausência de um
processo de revolução industrial, semelhante ao que
aconteceu na Inglaterra, que deixou a Holanda para trás. As
razões para essa ausência é um tema clássico entre os
historiadores. Várias são as explicações apresentadas: os
salários elevados; o obstáculo que representava a força
manufatureira-industrial da vizinha Bélgica; a escassez dos

14
“Sozinha, a frota holandesa empregava, em 1614, mais marinheiros que as
frotas espanhola, francesa, inglesa e escocesa reunidas” (BEAUD, 1987, p. 36).
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recursos naturais e humanos; a ausência de “mentalidade


empresarial” e o caráter rentista da burguesia holandesa
(CHANG, 2004; FALCON, RODRIGUES, 2006).
Embora várias dessas explicações possam ser consideradas
relevantes, não são explicações estruturais. Nesse sentido, a
tradição marxista, segundo Falcon e Rodrigues (2006),
sempre defendeu que “o grande desenvolvimento do capital
mercantil não é capaz de assegurar por si só a passagem à
produção capitalista, ou seja, o fator decisivo teria sido a
inexistência de um processo de acumulação primitiva de
capital em escala suficiente para desencadear uma
autêntica revolução burguesa” (FALCON, RODRIGUES,
2006, p. 22).
Segundo Oliveira (2003), a Holanda seria um típico caso do
que Fernando Novais (1979), seguindo Marx, denominou de
“cristalização do capital comercial”15, e Erick Hobsbawm
(1971) denominou de “negócio feudal”16.

15
Analisando o caso do capitalismo comercial em Portugal, afirmou Novais
(1979): “Veja-se bem, procuravam manter a riqueza móvel, isto é, reinvestir no
comércio: assim se bloqueava exatamente a transição essencial da acumulação
mercantil para o setor produtivo, elemento fundamental na mudança da
estrutura. Foi este pois um dos mecanismos fundamentais (não o único, por
certo) a travar, em Portugal 'a penetração do capital comercial na produção
artesanal' [...] O Portugal da época moderna parece, pois, configurar a situação
de cristalização do capital comercial, que Marx referiu de passagem” (NOVAIS,
1979, p. 210).
16
“Mas os maiores beneficiários da concentração durante o século XVII, os
Países Baixos, foram em certo sentido uma economia de "negócios feudal",
Florença, Antuérpia ou Augsburgo em uma escala seminacional. Ele sobreviveu
e floresceu, monopolizando o estoque mundial de certos bens escassos e grande
parte dos negócios mundiais como intermediário comercial e financeiro. Os
lucros holandeses não dependiam muito da manufatura capitalista. Portanto, a
economia holandesa não serviu, até certo ponto, à industrialização no curto
prazo. Nem a sua, porque sacrificou a manufatura holandesa (até 1816) aos
imensos interesses estabelecidos do comércio e das finanças, nem do resto do
mundo europeu, porque encorajou a manufatura em áreas feudais e
semicoloniais onde eles não eram suficientemente fortes para romper com a
velha estrutura social: como a Silésia ou a Alemanha Ocidental” (HOBSBAWM,
1971, p. 38).
12 | C o n s i d e r a ç õ e s sobre o capitalismo comercial na
Holanda
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Considerações sobre o capitalismo comercial na Holanda

Seguindo essa linha de intepretação, a burguesia holandesa


teria sido incapaz de revolucionar a esfera produtiva e
moldar a sociedade à sua imagem, isso porque o capital
comercial tendeu a se cristalizar nos próprios setores
comerciais e usurários17. Enquanto possuía a hegemonia
comercial europeia, a contradição entre o avanço e domínio
do capital comercial e o atraso do setor produtivo ficaram em
segundo plano18, porém quando as ótimas condições para a
expansão mercantil acabaram, em meados do século XVII, a
Holanda começou a passar por um longo processo de
decadência e putrefação. Ao contrário da Inglaterra, que
utilizou os capitais acumulados no comércio internacional na
manufatura e depois na indústria, o atraso do setor
produtivo, levou a burguesia holandesa – assim como havia
levado as suas predecessoras italianas e ibéricas19 – a investir
os capitais no próprio comércio ou em setores improdutivos,
como a especulação e as obras de arte (OLIVEIRA, 2003;
HOBSBAWM, 1971).
Mas a grande novidade da expansão comercial holandesa em
relação às expansões italianas e ibéricas dos séculos
anteriores foi o desenvolvimento de uma ampla praça

17
“Portanto, a raiz da relativa debilidade da Holanda no século XVIII pode ser
encontrada na assimetria do seu até então florescente e dominante comércio,
em contraposição ao limitado desenvolvimento de sua produção, vale dizer,
num capital comercial que tendia a tornar seu processo de valorização
independente da produção nacional” (OLIVEIRA, 2003, p. 122).
18
Braudel (1967) e Wallerstein (1974) e os demais teóricos da sistema-mundo, ao
contrário da abordagem que segue esse trabalho, defendem que o
desenvolvimento do comércio intermediário holandês ocorreu ao lado e, em
parte, em consequência do desenvolvimento manufatureiro, da pesca e da
agricultura. Nesse sentido, o fim da hegemonia holandesa teria ocorrido devido à
recuperação militar, econômica e política da Inglaterra e da França, que haviam
passado por graves crises entre o final do século XVI meados do século XVII.
19
As burguesias italianas e ibéricas, mais “feudais” que a holandesa, investiram
mais em terras do que na especulação. Embora as três tenham em comum o
investimento nas artes e na ciência. Como afirmou Arrighi (1994), “a grande
diferença entre os holandeses e seus predecessores italianos foi a precocidade
com que os negociantes holandeses transformaram-se numa classe rentista”
(ARRIGHI, 1994, p. 138).
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Holanda
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Considerações sobre o capitalismo comercial na Holanda

especulativa20, que apenas ajudou a atrasar ainda mais o


desenvolvimento capitalista dos Países Baixos em relação aos
seus vizinhos. Como argumenta Oliveira (2003),
“os lucros derivados das atividades
comerciais não tiveram alternativa
senão transformar-se em capital a
juros, destinado a financiamentos
externos. Dessa maneira, Amsterdã, no
século XVIII, transformou-se em centro
financeiro do mundo e suas exportações
de capitais financiaram o comércio e as
dívidas públicas de outras nações,
principalmente a dívida da Inglaterra,
país que absorve maiores volumes de
capitais holandeses no século XVIII.
Ora, a exportação de capitais
dinamizava o processo de acumulação
primitiva de outros países, reiterando
evidentemente o atraso relativo da
Holanda perante seus concorrentes”
(OLIVEIRA, 2003, p. 124)
Se, como argumenta Oliveira (2003), o atraso da esfera
produtiva e a cristalização do capital comercial foi o entrave
estrutural do desenvolvimento capitalista holandês, a
mentalidade da burguesia holandesa pode ter contribuído
para isso, afinal, como argumenta Chang (2004), “quem
possui uma base comercial mundial, como a Hong Kong de

20
Marx definiu a fórmula do capital como: D-M-D’, isto é, um dinheiro que através
da produção ou circulação de mercadorias se valoriza, sendo o capital comercial
a sua forma mais pura. Em relação ao capital usurário, Marx definiu como D-D’,
ou seja, um dinheiro que se valoriza sem passar pelo processo de produção de
mercadorias e, portanto, se valoriza somente artificialmente, na medida que não
tem nenhum tipo de lastro na produção material. Em outras palavras, não existe,
é mera especulação. É somente “dinheiro que se troca por mais dinheiro, uma
forma que contradiz a natureza do dinheiro e, por isso, é inexplicável do ponto
de vista da troca de mercadorias” (MARX, 2011, p. 309).
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hoje, não tem por que se preocupar com a indústria”


(CHANG, 2004, p. 81). Hobsbawm (1971), sugeriu ainda que
havia um limite estrutural no mercado europeu devido a uma
boa parte da população ser “economicamente neutra”, isto é,
em outras palavras, a ausência de demanda entre as camadas
mais populares. Se “eles [burguesia] usaram o grande
capital de forma improdutiva, pode ter sido simplesmente
porque não havia mais espaço para investi-lo
progressivamente dentro dos limites desse ‘setor
capitalista’” (HOBSBAWM, 1971, p. 18).
***
Busquei, nesse trabalho, a partir de revisão bibliográfica,
discutir algumas considerações sobre o desenvolvimento do
capitalismo comercial holandês, assim como o seu papel no
processo de transição do feudalismo para o capitalismo. Esse
trabalho buscou somente apresentar uma síntese de algumas
discussões a respeito do assunto, ao mesmo tempo que
algumas considerações do autor foram contempladas.
Ademais, a pouquíssima produção em língua portuguesa
sobre o assunto (nem tanto sobre a hegemonia comercial,
mas sim sobre a revolta holandesa) me levou a produzir esse
trabalho de síntese, mesmo que com limitações evidentes de
todo trabalho feito a partir de revisão bibliográfica.
Os estudos de Oliveira (2003), apoiados nas intepretações de
Novais (1979) e Hobsbawm (1971), serviram de base para
esse trabalho no que diz respeito ao conceito de cristalização
do capital comercial e no papel do comércio intermediário,
assim como e de Falcon e Rodrigues (2006), sobretudo no
último ponto. Beaud (1987) e Fiori (2012), em suas visões
mais particulares do fenômeno, também contribuíram para
a reflexão do autor a respeito do assunto. Por último, os
trabalhos de Braudel (1967), Wallerstein (1974) e Arrighi
(1994), que buscaram explicar a hegemonia holandesa a

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partir de outras perspectivas, serviram mais para auxiliar a


produção desse artigo, daí reside um limite desse trabalho
que, futuramente, possa ser desenvolvido: dialogar mais
profundamente com os teóricos do sistema-mundo. Além
disso, outro ponto pouco discutido e que pode ser
aprofundado futuramente é a questão do capital usurário, da
especulação e sua relação com o comércio intermediário.
Porto Alegre. 6 de julho de 2021.
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Considerações sobre o capitalismo comercial na Holanda

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