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Education

Como conseguir publicar


seu artigo biomédico
Guia prático para
pós-graduandos e pós-doutorandos

U.A. Boelsterli

RESEARCH
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© Copyright 2021 by S. Karger AG, P.O. Box,


CH–4009 Basel (Switzerland)
www.karger.com

Cover illustration: © iStock.com

ISBN 978–3–318–06904–4
e-ISBN 978–3–318–06905–1
Como conseguir publicar
seu artigo biomédico
Guia prático para
pós-graduandos e pós-doutorandos
Como conseguir publicar
seu artigo biomédico
Guia prático para
pós-graduandos e pós-doutorandos
U.A. Boelsterli
Índice

Sobre o autor VI
Apresentação VII
Prefácio IX
Introdução X

1 Antes de escrever 1
1.1 O que faz um artigo se destacar – e não ser
como os outros, medianos e mal escritos? 2
1.2 Por que escrever um artigo? 3
1.3 Quando finalizar sua pesquisa e escrever
um artigo? 4
1.4 O que é um artigo biomédico? 5
1.5 A estrutura de um artigo original 6
1.6 Técnicas gerais de escrita 7
1.7 Escolha da revista 12

2 Escrevendo 15
2.1 Apresentando dados 16
2.2 Tabelas 17
2.3 Figuras 20
2.4 Resultados 26
2.5 Materiais e métodos 30
2.6 Introdução 33
2.7 Discussão 35
2.8 Referências 38
2.9 Agradecimentos, divulgações,
declarações de financiamento 41

IV
2.10 Resumo 42
2.11 Título 43
2.12 Autores 45
2.13 Materiais suplementares 47
2.14 Linguagem e estilo 47
2.15 Plágio 50
2.16 Vocabulário, sintaxe e gramática 51

3 Após escrever 59
3.1 Reescrevendo 60
3.2 Como enviar seu artigo 63
3.3 Lidando com comentários de revisores 64

Conclusões 66
Referências 66

V
Sobre o autor

Urs A. Boelsterli, PhD, FAASLD pela Universidade de


Zurique, Suíça. Após intensivo período de estudos
em Toxicologia nos EUA e na ETH Zurich, se tornou
Chefe de Toxicologia Molecular, em Roche, Basileia,
Suíça. Posteriormente se tornou pesquisador e
professor na ETH, Universidade da Basileia, e na
Universidade Nacional de Cingapura.
Foi nomeado Professor de Toxicologia na Escola de
Farmácia da Universidade de Connecticut em Storrs,
Connecticut, EUA, onde também assumiu a cátedra
patrocinada Boehringer Ingelheim em Toxicologia
Mecanística.
Foi autor de mais de 110 publicações científicas
(Índice h: 44) e é autor solo de um livro-texto
(Mechanistic Toxicology, CRC Press, 2007)
amplamente comercializado internacionalmente.
Atuou também como mentor e orientador de grande
número de estudantes de pós-graduação e pós-
doutorado. Atualmente é Professor Emérito, e mora
com sua família na Suíça.

VI
Apresentação

A Karger Publishers é uma editora internacionalmente


ativa na área de Ciências da Saúde, com sede em
Basel, Suíça. Sou da quarta geração desse negócio
familiar e estou muito contente que você esteja
lendo este livro: Como Conseguir Publicar seu Artigo
Biomédico.
Naturalmente, você já quer entrar de cabeça, mas
antes, quero compartilhar uma verdade pouco dita
sobre publicações científicas: qualquer pessoa da
área científica – de quem financia, a quem publica, e
quem lê – quer que sua pesquisa seja publicada com
Gabriella Karger,
sucesso. Se seu trabalho segue na gaveta, ninguém Presidenta do Conselho
se beneficia. Como editora, nada me dá mais prazer Diretor da Karger Publishers
do que dizer à pessoa autora que os editores e a
revisão de pares aceitaram seu artigo.
Na Karger, tentamos simplificar a vida para quem
é autor(a). Temos um sistema para envio de arquivos
que é fácil de usar, uma equipe amigável, solícita,
ágil e prestativa, e alguns requisitos de formatação
mínimos para as submissões etc. Naturalmente, nós
respeitamos pessoas leitoras e parceiras garantindo
a precisão científica e compromisso ético de nossas
publicações.
Nossos serviços para autores(as) não começa apenas
nas submissões. Temos uma compilação de materiais
que ajudam da idealização do estudo até o aceite do
artigo final. Visite courses.karger.com ou pergunte à
equipe de sua universidade para saber mais.
Estamos em constante expansão de oferta de
produtos e serviços para autores, e a chegada deste
livro, que você está lendo agora, é muito bem-vinda.
Nestas páginas, Urs Boelsterli consegue com

VII
maestria apresentar um assunto complexo de forma
acessível: como conseguir publicar seu artigo
biomédico. Temos certeza de que você vai gostar.
Agora, chega de introdução – é hora de se deixar
levar! Espero que nossos caminhos se encontrem
novamente quando você enviar seu artigo para nós.
Enquanto isso, lembre-se que estamos aqui para
suas necessidades durante sua pesquisa e a escrita.
Torcemos por você.

VIII
Prefácio

A ideia deste livro foi sendo amadurecida por anos,


enquanto eu atuava com ensino de pós-graduandos e
mentoria de pós-doutorados internacionais. Percebi que a
maioria vivia desafios, inicialmente, pelo menos, com o
processo de escrita de um artigo científico. Foi através das
questões dessas pessoas, retornos que me ofereciam, e
sugestões, que aprendi quais seriam as maiores dificuldades.
Ser jogado no mar sem saber nadar é difícil, e o mesmo
vale para o processo de escrita. Ajuda é necessária.
Existem excelentes manuais sobre como se escrever
artigos científicos – muitos inclusive extremamente
abrangentes [1–3]; bem como cursos e workshops. Muito
já foi dito. Entretanto, este pequeno livreto de instruções
foi concebido para ser um manual, um tutorial, um guia
prático que sumariza o essencial, permitindo a estudantes
de pós-graduação e pós-doutorado um ponto de partida
imediato. Quero compartilhar com essas pessoas aquilo
que funcionou para mim.
Dedico este livro a quem já esteve comigo como
estudante de pós-graduação ou pós-doutorado. Seu
entusiasmo e energia sempre me inspirou. Muitas destas
pessoas se tornaram não só pesquisadoras bem-
sucedidas, mas também autoras entusiastas de
publicações científicas.
Agradeço em especial o Doutor em Farmácia Christian
Sengstag, que fez a leitura crítica do manuscrito, e que
com suas extraordinárias habilidades didáticas e
profissionais, forneceu indicações para o melhor
desenvolvimento da obra. Também agradeço a Lavender,
Líder de Competências Estratégicas, e à equipe editorial
da Karger Publishers, pelo encorajamento, e por guiarem
com maestria o processo de publicação.
Ao trabalho!

IX
Introdução

Você concluiu sua pesquisa e já pode escrever seu


artigo!
Para algumas pessoas, o processo de autoria
parece árduo, tomando muito tempo e recursos para
pouca recompensa. Não precisa ser assim. Escrever
um artigo pode ser divertido e, como regra geral da
vida, você se torna melhor com a prática [4]. Felizmente,
todo mundo pode aprender o ofício (esse não é um
traço genético, que você pode ter ou não). Existem
técnicas, regras escritas ou não, convenções, e jeitos
tradicionais do que fazer (e do que não fazer). Saber
sua aplicação é um catalisador do processo e ajuda,
com o tempo, a melhorar a escrita.
Tal como tocar um instrumento, a arte da escrita
não pode ser adquirida através de teorias – seu
sucesso se dá no aprender ao fazer, e com muita
prática. Ainda assim, você precisa saber o básico.
Então, qual o melhor caminho para adquirir essas
habilidades? Por qual razão, quando, e como você
deveria escrever um artigo?
O objetivo deste guia prático é ajudar você a
transformar seus dados em um artigo que será aceito
em uma publicação com revisão de pares, e que seja
fascinante de ler, que será lembrado e citado por
outros autores. Mais importante, que ofereça novos
dados para que cientistas construam além. Este livro
foi feito para auxiliar este processo de jovens cientistas
– pós-graduandos e pós-doutorandos.
Desenvolver os experimentos certos, trabalhar
dados estimulantes, e fazer “boa ciência” é,
obviamente, um pré-requisito. Este livro vai além
disso: como apresentar dados e demonstrar o que
você fez – escrevendo um artigo.

X
1 Antes
de escrever
1.1 O que faz um artigo se destacar – e não ser
como os outros, medianos e mal escritos?

Não há prosa mais difícil de entender e mais tediosa de ler


do que o artigo científico médio.”
Francis Crick

Artigos científicos têm má reputação – mas não precisa ser assim.


Você abre uma revista científica, lê um artigo com título promissor, e sua
reação é “Uau!” Tenho certeza de que isso já aconteceu com você. Por outro
lado, você abre outra revista, bate o olho em um artigo (que é relacionado à
sua própria área de pesquisa), e você balança a cabeça, sem conseguir dar
conta, pois é confuso demais. Ainda pior, você dá uma olhada e segue, até que
conclui com um: “E então?”. Isso soa familiar? Já se perguntou porque sua
reação foi tão diferente em cada caso? Analisar as diferenças pode dar uma
pista para entender o que torna uma contribuição científica empolgante,
incompreensível ou tola (Tabela 1).

Tabela 1. O que diferencia um artigo que se destaca de um mal escrito?

• O(s) autor(es) conta(m) uma história.


• Estilo científico, direto, conciso e simples (em vez de literário, prolixo, e
complicado).
• Uma única questão, que aparece no topo do artigo, sendo respondida
por meio de dados experimentais ou epidemiológicos; ou, também, uma
hipótese sendo testada (em vez de propor uma mistura de diferentes
questões, ou ausência de hipótese clara).
• Achados relevantes (em vez de achados do tipo “e daí?”).
• Novos dados (em vez de repetidos, ou uma pequena modificação de
pesquisas anteriores).
• Estilo e conteúdo do artigo são adequados ao público.
O “público” (leitor) são cientistas conhecedores da área (nem
superespecialistas técnicos, nem pessoas leigas interessadas em ciência).
• Quem lê é guiado durante todo o artigo pelo(s) autor(es) (com
explicações sobre as razões e formas dos procedimentos).

2 Antes de escrever
Há dois componentes em um artigo que podem determinar a reação que
você vai ter. Primeiro, é claro, o conteúdo científico, os dados em si. Segundo,
a escrita, o estilo, vocabulário, e clareza. Talvez você pense que a informação
(que esperamos que seja nova) seja o mais importante, e que a técnica que
sustenta o documento escrito seja algo secundário. Bem, acho que você vai se
surpreender!

1.2 Por que escrever um artigo?

“ A vida de um naturalista seria feliz se tivesse que


apenas observar sem nunca escrever.”
Charles Darwin

Há diversas razões convincentes para você que pesquisa escrever um


artigo – razões práticas, pessoais ou existenciais.
 Se você está visando uma carreira acadêmica, você precisa publicar. E
muito. Para quem não trabalha com isso, a verdade por trás é mais difícil
de entender: publicar artigos é a única forma de documentar o que você
fez. Pense um pouco: com dores de coluna, você trabalhou dia e noite, por
cinco anos ou algo assim, e se não publicar nada sobre o trabalho, não há
outro modo de mostrar a quem orientou você, a quem patrocina, a quem
vai empregar você no futuro, o que afinal você fez durante este tempo.
 Publicações, em revistas bem conceituadas, melhoram e fortalecem seu
currículo. Qualquer pessoa que seja empregadora, orientadora em
potencial, ou responsável por recursos humanos, não vai apenas olhar
sua lista de publicações, mas vai também se basear nisso para decidir.
 É essencial ter financiamento. Quando você se tornar pesquisador
independente, uma grande parte do seu tempo vai girar em torno de
buscar obter recursos. Para ter sucesso, você vai precisar ter publicações.
Isso é um ciclo vicioso: sem publicações não há financiamento – sem
financiamento, não há pesquisa – sem pesquisa, não há publicações. O
velho ditado, publique ou pereça, segue atual.

Boelsterli 3
 Quem pesquisa só pode construir conhecimento e desenvolver projetos
com base no que já foi publicado. Dados não publicados (sendo novos e
relevantes) são sinônimo de perda: financeira, humana, e de tempo e energia.
Infelizmente, muitos dados, especialmente os do mundo corporativo,
seguem trancados para sempre nas gavetas (por razões de confidencialidade).
A publicação de dados previne duplicidade de trabalho.
 Tem gente que gosta de escrever artigos (sim, essas pessoas existem!). A
sensação de concluir um projeto, e ver os resultados, impressos ou na
tela, pode gerar uma enorme sensação de conquista pessoal. Acredite se
quiser, escrever pode ser divertido!

–– Para ser uma pessoa bem-sucedida em área de pesquisa, publicar


é fundamental.

1.3 Quando finalizar sua pesquisa e escrever


um artigo?

O momento de pensar em transpor seus resultados para um artigo é


quando você (e seus colaboradores) sentirem que vocês têm uma história.
Uma publicação sobre um assunto científico se torna forte quando é abrangente,
em vez de fragmentária. É desaconselhável dividir sua história em um monte
de pedaços tentando a partir daí, de forma irracional, produzir vários artigos
(alguns pesquisadores chamam isso de “unidade mínima publicável”). Por
outro lado, não espere tanto tempo; seu projeto de pesquisa é dinâmico e
nunca, de fato, vai acabar (e quem está na competição pode chegar primeiro).
Um bom artigo tem como uma de suas características a tentativa de dar
conta de um aspecto específico (uma questão, uma hipótese) de um problema
científico (ver Tabela 1). Desta forma, é desaconselhável agregar vários
elementos desconexos no mesmo artigo. Um artigo original não deve estar
sobrecarregado de informação sem relação com sua história principal (muitos
focos podem confundir e distanciar quem lê do que se busca demonstrar).

–– Escreva seu artigo quando você tiver uma história

4 Antes de escrever
1.4 O que é um artigo biomédico?

Nas ciências biomédicas, existem basicamente quatro tipos distintos de


artigos científicos:
 Comunicações curtas/rápidas, cartas. São artigos curtos, para pronta
disseminação de novos dados ou discussões críticas de outros trabalhos.
 Artigos originais. Um artigo original é um meio de publicar dados! A
maioria desses artigos são contribuições originais.
 Análise. Uma análise abrange uma área ou questão específica de pesquisa.
Em uma análise “crítica” ou “narrativa”, a autoria coloca seu ponto de
vista. Uma análise sistemática é um compilado da literatura, com
interpretação dos principais achados.
 Estudos de caso. Pequenos artigos clínicos, para informação rápida.
São normalmente descritivos, em vez de experimentais ou mecanicistas.

Há vários subtipos de estrutura de artigo que refletem os muitos tipos


de metodologias de pesquisa e estudo. A pesquisa biomédica pode, no geral,
caber nas seguintes categorias: (1) Pesquisa básica/fundamental: Pesquisa que
visa compreender um processo natural, sem referência específica a saúde ou
doença. (2) Não-(pré-)clínica: Pesquisa in vitro e in vivo feita em animais,
tecidos ou células humanas, ou modelos computacionais visando gerar dados
que impactam saúde e doença humanas. (3) Clínica: Pesquisa feita em seres
humanos que visa gerar dados que impactam saúde e doença. (4) Translacional:
Pesquisa geradora de dados visando a melhoria de aplicação prática de achados
laboratoriais em saúde e doença. Com frequência, uma revista se dedica a um
desses quatro tipos de pesquisa, e a estrutura de artigo toma a forma adequada
a cada caso.
Além do mais, mesmo em um tipo específico de pesquisa, há formatos
de estudo diferentes, assim como metodologias que exigem a presença de
determinada informação no artigo. Por sorte, roteiros de todas as diversas
estruturas de artigos biomédicos, com seus requisitos de informações, estão
compilados em www.equator-network.org. A maioria das diretrizes que
delineiam a forma de relatar os achados (“roteiro de redação”) possuem
também checklists úteis para garantir que as autorias incluam em seu artigo

Boelsterli 5
todas as informações necessárias. Algumas revistas exigem a presença destes
checklists preenchidos na seção de Material Suplementar, em conjunto com o
artigo publicado.

–– Artigos originais apresentam dados


–– Artigos de análise podem incluir opiniões da pessoa autora e
ênfase em determinados pontos de vista

1.5 A estrutura de um artigo original

Artigos originais são o tipo de artigo mais comum, e o foco primário


desta obra. Sua estrutura é conservadora, e bem amarrada. Um artigo original
de pesquisa típico é subdividido nas seguintes seções:

 Título/Autoria. O título é informativo e contém palavras-chave principais.


Normalmente, já traz as principais conclusões do artigo. As pessoas
baseiam suas escolhas nos títulos, portanto as palavras importam. Após
o título, segue lista de autores e suas afiliações.
 Resumo. O resumo é uma das partes mais importantes do artigo, já que
pode ser acessado com facilidade nos bancos de dados. Ao ler o resumo,
as pessoas decidem se querem ler o artigo inteiro. O resumo é repleto de
informação concreta e contém a pergunta/hipótese, dados e conclusões/
respostas principais.
 Introdução. A Introdução traz a razão de seu trabalho, permitindo que
quem lê entenda os resultados. Não é uma análise de literatura!
 Materiais e Métodos. Essa sessão permite a outras pessoas repetir
exatamente o que os autores fizeram. Também, essa sessão faz o leitor
entender quais métodos e técnicas foram utilizados para produzir os
dados e extrair as conclusões.
 Resultados. Esta seção expõe os dados. São apresentados em texto, tabelas
e figuras. As tabelas e figuras, com suas legendas e títulos, devem ser
autoexplicativas, sem que seja necessário ler todo o texto.

6 Antes de escrever
 Discussão. Aqui, os principais resultados são listados e os significados são
explicados. Nesta seção, quem lê é conduzido ao ponto de chegada,
interpretações e conclusões. A discussão, também, faz o elo entre dados
e o mundo além.
 Referências. Lista das referências-chave (trabalho anterior fundamental,
métodos e conceitos). Por vezes há um limite para o número de citações,
portanto, a lista não deve ser exaustiva.
Agradecimentos/Declarações. Aqui, são relatados os apoios e
financiamento, bem como conflitos de interesse.

Nota: Ainda que a sequência destas seções seja rígida no caso de artigos,
impressos ou eletrônicos, a escrita em si não segue o mesmo padrão. Assim,
você não precisa necessariamente começar pelo Título, e então passar para a
Introdução etc. (por que não? – veja a seção Técnicas Gerais de Escrita).
E vale o mesmo na hora da leitura de um artigo científico.

–– Todas as seções de um artigo importam, por diferentes motivos.


Deste modo, é necessário o mesmo esforço no arranjo das várias
seções do artigo
–– Mesmo que a sequência das diversas partes do artigo completo
seja padronizada, não escreva seu artigo na mesma ordem

1.6 Técnicas gerais de escrita

Escrever um artigo já foi comparado com o processo de esculpir uma


escultura da pedra. De início, você esquematiza um desenho geral, a nível
macro, e depois se concentra em detalhes, refinando aos poucos, até que faça
sentido. Idealmente, após a primeira versão, se distancie por um tempo, e
então revise e reescreva (veja a seção Reescrevendo).

Boelsterli 7
Após ter a ideia geral do que quer dizer, escreva e continue. Não pare
para ponderar a respeito de uma palavra ou frase em específico por muito
tempo – você vai revisar o texto depois. Se quiser tudo perfeito desde o início,
não vai terminar o artigo nunca.
Outra vantagem de fazer um esquema inicial básico de seu artigo: logo
de início, você pode perceber subitamente a necessidade de experimentos
adicionais, que você nota que deixou passar na fase experimental. Então é o
momento de voltar ao laboratório e preencher a lacuna; se essa necessidade for
percebida apenas depois da finalização do artigo, você vai ter perdido tempo
valioso.

–– Comece por um roteiro amplo, e refine aos poucos


–– Escreva a primeira versão, e revise, e então revise novamente

Construindo a história em torno de um tema


Um bom artigo deve ter um tema geral que será seu eixo, sendo
apresentado do início ao fim. A amplitude do tema é variável; você pode
começar com temas guarda-chuva e então delimitar até temas específicos –
mas o tema geral deve seguir por todo o artigo como linha de sustentação.
Transforme o tema em uma história. Explique o porquê desta pesquisa,
seus achados, significados, e como isso se relaciona com o conhecimento
científico já aceito. Quem lê jamais deve se sentir sem direção; deve sempre
poder compreender o objetivo geral de sua pesquisa.
Sua história deve se desenvolver com naturalidade, e a descrição do que
você fez deve fazer sentido. É importante saber que os experimentos descritos
não precisam necessariamente seguir à risca a cronologia dos experimentos
realizados. A montagem da história deve ser lógica, e não apenas reproduzir
a sequência de experimentos de seu diário de laboratório.

Por onde você deve começar?


Decida para qual revista você vai enviar seu artigo, e confira as Diretrizes
para Autores. Isso é fundamental, afinal, diferentes revistas possuem diferentes
requisitos, regras, e limitações, por exemplo: número de figuras, tabelas ou
palavras. É tentador pensar que, quando seu objetivo é escrever o artigo, a

8 Antes de escrever
Seleção da revista Tabelas/figuras

Materiais
Resultados
e métodos

Formatando
Introdução Discussão
referências

Resumo

Título

Fig. 1. Sequência temporal da escrita do artigo científico

sequência da escrita vai já corresponder à forma final – Título, primeiro,


Referências, por último. Essa abordagem é desaconselhada por ser muito
difícil e por poder levar a erros graves. Há uma grande chance de omissão ou
repetição de dados ou texto, uso de argumentos não lógicos, e de dar respostas
que não correspondem às perguntas iniciais, deixando quem lê sem as devidas
respostas.
Mas e então, por onde começar? A resposta simples é começar pelo que
já está delimitado e que certamente vai ter que aparecer no artigo. Para um
artigo clínico, seria o último parágrafo da Introdução, que explica a pergunta
ou hipótese do estudo, e a seção de Métodos.
Para pesquisa básica e não-clínica, a melhor forma de montar um artigo
seria (ver Fig. 1): decidir quais de seus resultados você quer apresentar em texto,
e quais apresentar em tabela ou figura.
Decida primeiro Tabelas e Figuras. É provavelmente a parte mais difícil
e pode levar um tempo, mas vale a pena (veja a seção Apresentando seus
dados). As tabelas e figuras não precisam estar perfeitas ainda, mas devem

Boelsterli 9
conter o essencial. Então comece a escrever a seção Resultados (ter as tabelas
e figuras prontas vai ajudar). Agora escrever os resultados com encadeamento
lógico fica fácil. Depois, escreva a Introdução e a Discussão, que se
complementam. Na Introdução, a pergunta norteadora é feita; na Discussão,
você a responde, e explica os dados. A seção de Materiais e Métodos pode ser
feita à parte, e pode ser bom fazer isso aos poucos durante a escrita geral. O
Resumo e o Título só devem ser definidos ao final.

Prendendo quem lê
Do mesmo jeito que acontece em ficções, as primeiras frases ou
parágrafos de um artigo são importantes. Se você “prende” quem lê com uma
abertura forte, ou seja, se na Introdução ou Discussão captura a atenção e gera
curiosidade, desperta interesse, então é provável que a pessoa siga a leitura.
Seu artigo científico não é um filme, mas com um gancho forte, ele será
gravado na memória.

Construção de fluxo – Conectando frases e parágrafos


O conteúdo do artigo deve fluir bem. Em outras palavras, nada de
mudanças abruptas de assuntos e aspectos; ou seja, a conexão entre partes do
texto deve ser suave, facilitando o caminho de quem lê. Vale a pena se colocar
no lugar de quem lê – você visualiza a pessoa fazendo um sim com a cabeça,
compreendendo, e aprovando sua lógica?
Este processo é muito facilitado quando você conecta uma frase com a
próxima. Há duas formas: primeiro, começar a frase seguinte com uma única
palavra (conjunção ou advérbio) que se refira à anterior e enfatizar contraste,
causalidade ou similaridade.
Exemplo: Considere as seguintes frases: “Ratos metabolizam a Droga X
para hidróxi-X. Humanos produzem o acetil da Droga X.” Ambas as frases
estão corretas, mas a segunda traz nova informação de forma abrupta. Uma
forma melhor seria: “Ratos metabolizam a Droga X para hidróxi-X. Em
contraste, humanos produzem o acetil da Droga.” Para frisar causalidade,
poderia se dizer: “Ratos metabolizam a Droga X para hidróxi-X. Portanto, o
metabólito é prontamente eliminado na urina.”

10 Antes de escrever
Frase 1 Frase 2 Frase 3

Conector Conector

Parágrafo 1

Conector
Fig. 2. Conectar frases (ou
parágrafos) cria fluxo Parágrafo 2
lógico e facilita a fluidez
da leitura.

Mas atenção a excessos. Se cada nova frase se inicia com “similarmente,”


“ademais,” “contudo,” “além do mais,” “no mesmo sentido,” etc., a leitura se
torna incômoda.
A segunda forma de vincular frases perfeitamente é retomar a ideia (ou
termo) que finaliza a frase anterior e conectar logicamente a algo novo (Fig. 2).
Exemplo: Se em um parágrafo você descreve que a Droga X se liga à
molécula Y, então você pode escrever no parágrafo seguinte: “Tendo observado
que a Droga X se liga à molécula Y, buscamos então identificar o local e a
natureza da ligação”. Desta forma, você retoma a informação anterior e conecta
logicamente com nova informação e um novo assunto. Essa breve repetição
pode soar redundante agora que você sabe que um artigo deve ser curto e
preciso; contudo, além de criar uma conexão lógica, também reforça a história
para quem lê, ajudando para que a pessoa não se perca.

Estrutura de frases: a posição importa


A ênfase de certas palavras em uma frase pode variar (ou até mudar de
significado) de acordo com suas posições (Fig. 3). Assim, considere onde
colocar as palavras – são palavras que introduzem o assunto ou que trazem a
mensagem principal?

Boelsterli 11
Mensagem chave
Posição de destaque
Assunto Ênfase menor Mais importante
Introdução Descrição será
Do que se trata? Explicação lembrado

Início Meio Fim


Fig. 3. A posição relativa
das palavras na frase Frase
resulta em significados
diferentes

Exemplo: “Resistência antibiótica é um problema crescente para


tratamentos antibióticos” não passa a mesma mensagem que “Tratamentos
antibióticos se tornam mais dificultosos pelo problema crescente da resistência
antibiótica.”

–– Seu artigo deve ser uma história com um tema geral


–– Escreva primeiro os Resultados, e então a Introdução/ Discussão,
e finalize com Resumo e Título. A seção de Métodos pode ser
escrita a qualquer momento
–– Prenda quem lê com um começo impactante
–– Conecte frases e parágrafos de forma lógica
–– Posicione suas palavras-chave na frase para gerar ênfase

1.7 Escolha da revista

Há milhares de revistas científicas reconhecidas, e novas revistas se


proliferam continuamente – nem todas igualmente bem avaliadas. Quando
você chega ao momento de escrever um artigo, você já deve saber quais são as
revistas mais relevantes da sua área. Mas então, como escolher corretamente
essa revista?

12 Antes de escrever
Confira onde artigos similares foram publicados
Faça uma pesquisa de literatura, ou peça a quem lhe orienta, para
identificar algumas das principais revistas da área. Tentar publicar seu artigo
numa revista bem avaliada, mas sem relação com seu assunto, tende a ser
difícil, e também não vai atingir seu público-alvo.

Mire alto
Sendo realista – todo mundo quer publicar nas revistas que são
consideradas como as melhores da área, como a Science ou a Nature, mas a
taxa de rejeição dessas revistas mais conceituadas é alta. Por outro lado, com
excelentes dados, e um artigo escrito de forma profissional, você não vai
querer desperdiçar seus valiosos resultados enterrados em uma revista de
terceira classe que ninguém lê. Mire alto, mas não em excesso.

Fator de impacto
O Fator de Impacto (FI) é o número médio de citações de cada artigo de
uma revista num dado período de tempo. É considerado que quanto maior o
número de citações, maior o impacto da revista no mundo científico. Revistas
de uma área específica frequentemente são hierarquizadas pelo FI, fazendo
com que autores busquem publicar onde há maior classificação.
Contudo, o FI surge originalmente como uma ferramenta para ajudar
biblioteconomistas a identificar quais revistas adquirir, e não como medida
de qualidade científica de artigos. Portanto, possui muitas limitações como
medidor de qualidade (veja https://sfdora.org/).
O FI é dirigido por uma empresa privada chamada Clarivate. Em seus
Relatórios de Citações de Revista, as revistas são classificadas pelo FI em sua
categoria de assunto (por ex., oncologia, biologia do desenvolvimento,
otorrinolaringologia). O FI de 2018, em “oncologia”, variou entre 0,4 e 74,6;
contudo, em “otorrinolaringologia”, variou entre 0,2 e 2,6. Levando esse
ranking em consideração, uma revista excelente em um assunto pode ser fraca
em outro. A mensagem central é: não se baseie apenas no FI da revista, mas
também de revistas similares.

Boelsterli 13
Público-alvo
Seu artigo é um estudo clínico ou não clínico? Enviar um artigo altamente
sofisticado sobre mecanismos moleculares para uma revista com foco
exclusivamente clínico, ou tentar publicar um relatório de caso em uma revista
de bioquímica, provavelmente não vai ser a melhor ideia. Pense no público-
alvo. Veja quais são os diferentes tipos de pesquisa na seção O que é um Artigo
Biomédico.
Algumas empresas, como por exemplo a Enago, possuem um serviço de
busca de revistas que sugere três ou cinco possibilidades com base em
percepção de impacto e chance favorável de publicação.

Instruções para autores


Após selecionar várias revistas em potencial, escolha a melhor. Se seu
artigo não for aceito, você ainda poderá enviar a outra de avaliação menor.
No website da revista, leia as Instruções para Autores. Atente-se às
diretrizes de organização estrutural do artigo e, mais importante, às limitações
potenciais de total de páginas, tamanho máximo do texto, quantidade de
figuras e tabelas etc. Se você percebe tardiamente que preparou figuras em
excesso e que a seção textual está longa demais, terá que recomeçar do zero,
perdendo tempo.

–– Mire alto (mas seja realista)


–– Considere as restrições de tamanho de texto e quantidade de
figuras

14 Antes de escrever
2 Escrevendo
Escrever um artigo (especialmente um que tenha impacto na comunidade
científica) é um grande empreendimento. Assim, não pode (nem deve) ser
feito rápido e de qualquer maneira. Vale a pena fazer com cuidado pois,
quando publicado, se torna eterno. Quando alguém tenta fazer o máximo de
artigos em pouco tempo, há chances ocorrerem lacunas e erros, que são
difíceis de consertar, deixando um furo em sua credibilidade profissional.

2.1 Apresentando dados

As tabelas e figuras são parte essencial da seção de Resultados do artigo.


Sua discussão fica à parte, pois devem ser preparadas primeiro.
Dados simples devem estar no texto, e o que pode ser dito em poucas
palavras não deve ser transformado em tabela ou figura.
Uma simples lista em coluna (por exemplo, palavras enumeradas com
marcadores em ponto lista) pode funcionar bem em uma apresentação oral ou
para um artigo de análise, mas não em um artigo original. Logo, é melhor escrever.
Em contraste, para dados mais complexos, em que você busca comparar
diferenças entre valores, ou trazer visualidade para um desenvolvimento
temporal etc., figuras ou tabelas funcionam muito melhor que texto.

Qual ilustração é mais efetiva para apresentar dados?


A depender do tipo de dados mostrados, há formas diferentes de
apresentação. Para otimização do impacto de cada tipo de ilustração, escolha
a mais apropriada (Tabela 2).

Lembre-se de que todas as tabelas de seu texto, a serem publicadas, vão


ser digitadas de novo assim como o layout será modificado, talvez para um
formato mais elegante. De forma oposta, figuras não serão modificadas para
a publicação; deste modo, o processo de editoração vai apenas fazer uma cópia
exata de sua figura, sem alterações ou ajustes. Leve isso em consideração
também quando decidir quais dados serão transformados em quais tipos de
ilustrações.

16 Escrevendo
Tabela 2. Escolha a ilustração mais efetiva para apresentar seus dados

Efeito desejado Tipo de ilustração

Apresentar valores quantitativos exatos, dados Tabela


brutos, ou dados que não caibam numa
padronagem simples

Demonstrar sequência temporal ou dose-resposta, Gráfico de linha


mostrar interações entre duas ou mais variáveis,
relacionar dados a constantes, ou enfatizar um
padrão geral em vez de medidas exatas e
específicas

Enfatizar diferenças entre grupos, delinear Gráfico de barras


comparações, descrever proporções

Ilustrar relações complexas, configurações Diagrama,


espaciais, vias, processos, interações, processos fluxograma
sequenciais

Descrever o objeto inteiro, visualizar efeitos, Ilustração, foto


imagiologia, fluorografia, histopatologia

2.2 Tabelas

Quando tabular seus dados


Antes de organizar alguns resultados em uma tabela, pondere se há real
necessidade.
Exemplo (ficcional): Por que esta tabela é ruim?

Temperatura (°C) Número de Concentração Citotoxicidade


experimentos da Droga X (μM)

37 5 0 –

37 5 10 +

Boelsterli 17
Primeiramente, essa tabela é supérflua. Daria pra dizer a mesma coisa
em uma frase, tornando-a desnecessária. Em segundo lugar, não se deve usar
os sinais de mais, ou de menos, para indicar presença ou ausência de resposta
em uma tabela. Tabelas devem conter números; aspectos qualitativos devem
ser descritos no texto.

Desenhando uma tabela


Tabelas, tal como figuras, devem ser autoexplicativas. Idealmente, devem
ser compreendidas sem necessidade de consulta ao texto.
Sua organização deve ser lógica. Uma tabela deve auxiliar quem lê a
entender a mensagem/informação de forma imediata; assim, faça tabelas
simples e de fácil compreensão. Não faça tabelas enormes.
O título (subtítulo) de uma tabela deve dizer o principal elemento da
história; não basta que seja apenas descritivo. Sua posição é a parte superior
da tabela, e não a inferior.
Exemplo: “Efeitos das Drogas X, Y, e Z na topoisomerase de bactérias e
mamíferos.” Este título é inócuo e sem significado. Melhor seria: “Droga Z:
potente inibidor de topoisomerase bacteriana, mas não em mamíferos.”
Qual o melhor modo de organizar os dados na tabela para que a
mensagem seja compreendida rapidamente? Tabelas são organizadas em
colunas (leitura vertical) e linhas (leitura horizontal). Elementos essenciais
comparados devem estar em colunas. No exemplo abaixo, as tabelas contêm a
mesma informação, mas uma parece mais compreensível. Qual delas?
Exemplo (ficcional):

Droga Inibição de topoisomerase em mamíferos e bactérias


IC50 (μM)
Girase Topo IV hTopo IIa

Droga X 3,7 5,2 >50

Droga Y 1,1 3,8 >50

Droga Z 0,05 0,04 >50

18 Escrevendo
Inibição da topoisomerase Droga
IC50 (μM) X Y Z

Girase 3,7 1,1 0,05

Topo IV 5,2 3,8 0,04

hTopo IIa >50 >50 >50

A resposta: depende do que você quer destacar. Se for para comparar


efeitos das três drogas, X, Y, e Z, a primeira tabela é melhor. Por outro lado, se
você busca comparar as três enzimas topoisomerase entre si, a segunda tabela
vence.
Em português, também lemos da esquerda para direita. Deste modo,
preferimos ler uma tabela em que a variável independente (definida pelo
pesquisador) apareça primeiro, e a variável dependente (resposta investigada)
venha depois.
Exemplo (ficcional): Ambas as tabelas contêm os mesmos dados. Pelas
razões acima, é mais fácil ler a da direita.

Efeito (%) Tempo (h) Tempo (h) Efeito (%)

0 0 0 0
3 1 1 3
5 3 3 5
7 6 6 7
21 12 12 21
22 24 24 22

Nenhuma célula da tabela deve estar vazia. Não-respostas devem ser indicadas
com clareza usando N/A (não se aplica), ND (não determinado) ou (–), etc.
As abreviações devem estar definidas na legenda (mesmo que haja uma
lista de abreviações na primeira ou segunda página do artigo).

Boelsterli 19
As tabelas não devem estar isoladas. Cada uma exigirá uma referência
direta no corpo textual do seu artigo.

–– Tabelas devem ser autoexplicativas e de fácil compreensão


–– A legenda apresenta um sumário dos resultados, e não apenas
uma descrição monótona do que foi feito
–– Lemos a tabela verticalmente, e não horizontalmente

2.3 Figuras

As figuras podem ser poderosos recursos para ilustrar certas partes de


sua história. Assim, pense com cuidado em conteúdos, e faça a execução com
extrema atenção e esmero. Os softwares (ex: PowerPoint, GraphPad Prism
etc.) podem facilitar seu trabalho.

Quando apresentar dados no formato de figura


Antes de colocar dados em uma figura, se questione sobre a real
necessidade disso.
Exemplo (ficcional): Por que a figura abaixo é pobre?

Não faça isso...

60 *
Ŷ Controle de Solvente
Inibição de enzima, %

Ŷ Droga X
40

20

20 Escrevendo
Na comparação de apenas dois valores, é mais fácil (e mais econômico,
tomando menos espaço) simplesmente escrever os valores, em vez de desenhar.
O gráfico permite ver o efeito da Droga X melhor, e com mais ênfase. Mesmo
assim, uma figura é desnecessária nesse caso.

Desenhando uma figura


As figuras devem ser autoexplicativas, isto é, ser entendidas sem que seja
necessário ler o texto correspondente. Muita gente, ao bater o olho no artigo,
vai primeiro nas figuras para pegar a essência da pesquisa.
Simplicidade é essencial. Quem lê deve conseguir se colocar dentro da
figura rapidamente. Apenas uma mensagem deve ser trabalhada por figura.
Em vez de uma figura sobrecarregada, com muitas linhas, símbolos, grupos
diferentes etc., seria melhor subdividir em figuras diferentes (A, B, C etc.).
Alguns recursos gráficos, aceitáveis em apresentações orais, não são
aplicáveis em artigos. Efeitos de destaque, como colunas tridimensionais,
sombreados, texturas elaboradas etc. devem ser evitados, já que não agregam
informações adicionais, como vemos na figura abaixo.

Não faça isso...

60
50
40
30
20
10
0
1 2 3 4

Boelsterli 21
De forma similar ao subtítulo e título, a legenda da figura deve contar os
principais pontos da história, e não deve ser genérica e sem graça. As legendas
devem estar completas, para o entendimento da mensagem da figura. Contudo,
evite textos duplicados nas seções de Resultados ou de Materiais e Métodos.
Faça legendas simples. Não coloque várias explicações, números, símbolos etc.,
na figura ou abaixo. Ao contrário, coloque isso à parte, em texto. (Uma
observação prática: no envio de seu documento, revistas costumam requisitar
que as legendas das figuras estejam em página separada).
A definição de abreviações deve constar na legenda (mesmo que haja
uma lista na primeira página do artigo). Não use símbolos ou abreviações
muito parecidos entre si, que se confundam facilmente.
Temos abaixo dois exemplos (ficcionais) de figuras ruins. Por que será
que se distanciam do ideal?

Não faça isso... Não faça isso...

30 Ŷ Grupo 1 25
Inibição de enzima, %

Ŷ Grupo 2
20
% LDH, do total

Ŷ Grupo 3
20
Ŷ Grupo 4 15
Ŷ Grupo 1
10
10 Ŷ Grupo 2
Ŷ Grupo 3 5
0 Ŷ Grupo 4 0
2 8 0 1 2 3 4 5
Tempo de Tempo (h)
incubação (h)

À esquerda temos médias (em colunas) de oito grupos diferentes com


seus desvios padrões (DP) correspondentes. Nenhum dos grupos difere dos
outros de forma significativa. Todas as médias permanecem entre 10 e 20%.
Deste modo, o gráfico não dá a visualização nem enfatiza efeito ou direção
específica alguma (em função do tempo, ou dentre os distintos grupos de
tratamento e controle) que já não seria evidente pelos números da tabela, ou
– ainda mais simples e melhor – por escrito na seção de Resultados.

22 Escrevendo
À direita vemos a sequência temporal de um efeito inibidor de quatro
grupos de tratamento e controle distintos, marcado como média com adição/
subtração do DP. O que vemos com nitidez no gráfico é que a resposta cresce
com o tempo. Contudo, é quase impossível diferenciar os símbolos; todos são
pequenos, preenchidos, em preto, e muito similares. Os DP, também, estão no
geral sobrepostos, com poucas exceções. A distinção entre início e fim de cada
linha é impossível. Seria melhor omitir as linhas do DP no eixo-y e indicar, se
necessário, os níveis de significância com asteriscos ou letras pequenas. Os
símbolos dos quatro grupos deveriam sempre ser fáceis de distinguir (cores
diferentes, tamanho maior).

Figura ou tabela?
Às vezes você se pergunta se é melhor usar uma figura ou uma tabela
para os dados (vamos supor que eles sejam muito complexos para serem
apenas descritos no texto).
Exemplo (ficcional): O exemplo abaixo traz, simultaneamente, uma
figura e uma tabela e, à primeira vista, ambas contêm a mesma informação. A
tabela (à direita) apresenta uma lista de indivíduos não doentes (ND) e doentes
(D), com suas porcentagens de deleção de DNA mitocondrial e quantidade de
base de DNA oxidada, usada como biomarcador. Isso já é interessante em si
– mas se você põe esses dados em uma figura, consegue alcançar também outro

8-OHdG deleção de mtDNA


Grupo (por 10ࢎ dG) (mtDNA total)
150
8-OHdG (por 10ࢎ dG)

ND 101 3.0
100 ND 86 2.1
ND 15 0.5
50 ND 115 3.2
ND 42 1.7
0 ND 67 1.9
1 2 3 4 D 3 0.2
–50 deleção de mtDNA D 2 0.1
(% do mtDNA total) D 5 0.3
D 7 0.4

Boelsterli 23
resultado: primeiro, a visualização clara de uma relação linear (com cálculo
de regressão linear) e, segundo, o agrupamento em duas classes distintas.
Nesse exemplo, o gráfico, ainda que mais complexo, é evidentemente a
melhor escolha (pois permite que se extraiam mais conclusões).

Elementos essenciais de uma figura


Abaixo há um exemplo simples (e fictício) de uma figura padrão. Ela
contém todos os elementos necessários. Temos suas características:

 Estrutura simples
 Fácil compreensão
 Mensagem clara
 Título que diga ao que veio
 Todos os grupos nomeados corretamente
 Inclui um controle (comparador) e também o controle negativo
 Oferece a significância estatística entre médias e os Desvios-Padrão (de
acordo com a relevância – é desnecessário lotar a figura de símbolos
referentes a diferenças não-significativas, ou para uma comparação entre
dois grupos que seja irrelevante para a história. Por exemplo, comparar
Droga X + Inibidor Z com Inibidor Z seria supérfluo e não faz sentido).

Uma característica importante desta figura é que todos os grupos de


tratamento e controle comparados são dispostos lado a lado na mesma figura
(já que os dados são um conjunto), em vez de picotados em diferentes figuras.
Isso corresponderia ao fato de que – assim se espera – todos os grupos foram
incluídos na mesma execução de teste.
Isso segue sendo verdade quando, por exemplo, em um laboratório de
biologia molecular ou bioquímica, você compara diferentes bandas no gel.
Os grupos experimental e de controle devem ser feitos no mesmo gel. Os
dados não são mais convincentes se for feito dessa forma – você simplesmente
não pode juntar processos de diferentes géis em uma só figura!

24 Escrevendo
* *
70
Atividade Plasma ALT , IU/L

60
50
40
30
20
10
0
Controle Droga X Droga X + Inibidor Y Droga X + Inibidor Z
de Solvente Inibidor Y Inibidor Z

Fig #. O inibidor Y protege de danos induzidos pela Droga X ao fígado em ratos.


A Droga X foi dissolvida em solução salina aquecida e administrada i.p. (10 mg/kg).
O inibidor Z, usado como controle negativo, não apresenta efeito protetivo quanto
a danos hepáticos induzidos pela Droga X. Dados compostos por média + DP
(*, P ≤ 0,05), n = 6 por grupo de tratamento e controle.

–– Figuras são importantes


–– Figuras devem ser autoexplicativas, fáceis de entender, e simples
–– Figuras ganham preferência em relação a tabelas ou a texto
quando permitem visualizar relações complexas, mostram
mudanças em um período de tempo, revelam informação
direcional ou multidirecional, ou enfatizam similaridades ou
diferenças
–– Use símbolos que indiquem significância estatística, mas apenas
quando necessário

Boelsterli 25
2.4 Resultados

Os resultados são a essência de seu trabalho. Os dados importam.

Subestrutura
É provável que você apresente vários achados relacionados, e não apenas
um único resultado. A seção de Resultados, portanto, deve ser estruturada
para facilitar o caminho de quem lê, bem como a compreensão. Subdividir a
seção de Resultados em partes menores (módulos) é a melhor forma de fazer
isso. Cada parte será estruturada de modo similar à estrutura geral do artigo.
De forma específica, explique por que você realizou tal experimento (uma
“mini introdução”), como você fez (“Métodos”), o que você encontrou
(“Resultados”), e o significado disso (“Discussão”). Então você repete o
processo com o próximo módulo (Fig. 4).
Aqui, há um porém. É útil que a pessoa que lê já descubra o que cada
subconjunto experimental (módulo) significa, mas a discussão a respeito dos
significados gerais do resultado deve ficar para depois, na seção de Discussão. Por
exemplo, não antecipe uma nova teoria, nem questione agora um caminho
bioquímico consagrado. Guarde o mais significativo para o arremate da Discussão!

História
A seção de Resultados deve contar uma história.
O que vale para todo o artigo segue sendo verdade e é especialmente
importante aqui: não siga a ordem cronológica dos experimentos ao escrever os
resultados, siga a ordem lógica que guia a história. O foco (o tema de sua
história) pode ter mudado após a fase experimental e ser diferente do que era
no início do projeto. Sendo assim, não fique transcrevendo os caminhos
errados e situações sem solução conforme seu longo diário de laboratório. Em
vez disso, siga o caminho que agora você sabe melhor, o que leva ao resultado
bem-sucedido. Você pode agir como se sempre soubesse qual seria o resultado
mais bem-sucedido.
Particularmente no caso de pesquisa laboratorial, o que você descreve
no artigo pode ter apenas uma pequena semelhança com o projeto original
Com o tempo, seu projeto pode mudar, tomar novas direções, e o foco pode

26 Escrevendo
Módulo 1

“ Introdução” • Propósito “Para determinar...”


“ Métodos” • Descrição da etapa “…, medimos”
“ Resultados” • Resultados (ref. a fig./tabela) “Descobrimos que…”
“ Discussão” • Significado “…indicando que…”

Módulo 2

(Repetir) “ A seguir, para


determinar...” etc.

Fig. 4. Subestrutura da seção de Resultados

se dirigir a algo novo e inesperado. As razões para esta mudança podem ser
múltiplas, como se deparar com desafios metodológicos que geram achados
negativos inesperados, ou, de forma mais positiva, a emergência de novo
conhecimento em sua área de pesquisa, ou acaso. Neste caso, é importante
ligar harmonicamente as perguntas da Introdução com seus novos resultados
(e descartar as perguntas originais).
Contudo, para alguns tipos de pesquisa (por exemplo, testes clínicos,
revisões sistemáticas) ou para alguns campos (como a psicologia), é importante
não modificar o projeto a posteriori. Para grandes testes clínicos, em especial,
se tornou cada vez mais comum publicar os protocolos antes da realização do
estudo. O objetivo é evitar mudanças no projeto de pesquisa já aprovado, ou
viés de autoria na escolha dos resultados que serão apresentados.

Ensine a quem lê o motivo por trás das ações


Tente antecipar a pergunta: por que o autor tomou esse curso de ação?
Explique de imediato porque você fez isto ou aquilo. Não há razão para esperar
para explicar no momento da Discussão. As conexões lógicas não devem ser
quebradas (veja Fig. 4).

Boelsterli 27
Explique o que significam seus achados específicos
Normalmente, a Discussão é usada para explicar o significado (geral)
dos achados do projeto. Contudo, para achados específicos de séries de
experimentos, é desaconselhável demorar muito a trazer explicações. Diga
imediatamente a quem lê o que seus resultados significam, a não ser que seja
evidente por si mesmo (veja Fig. 4).

Encadeamento de sentenças ou parágrafos


Conforme descrito antes (Fig. 2), o fluxo da sua “história” se sustenta
melhor se você conecta as diferentes frases. Do contrário, cada frase fica isolada,
e a transição para outro tópico ou ponto de vista pode se tornar muito abrupta,
arremessando quem lê para fora do encadeamento lógico de pensamentos.
Isso também é verdade para parágrafos.

Mostrar ou demonstrar?
Pode ser útil aqui tornar mais nítida a distinção sobre a confusão no uso
(e mau uso) de duas palavras, mostrar e demonstrar. Pode parecer uma troca
trivial, cabendo melhor na seção de Vocabulário (na sequência) – mas é um
erro que ocorre com maior frequência na seção de Resultados.
Ao apresentar os dados (brutos ou não), por exemplo, numa figura ou tabela-
chave, você vai mostrar ou demonstrar? Espera-se que sejam as duas coisas!
Mostrar é expor, fazer com que alguém veja algo. Demonstrar significa
mostrar como algo funciona, difere, desvia, afeta etc.
Exemplo: “Efeitos da Droga X na pressão sanguínea de pacientes são
mostrados na Figura Y” (ou seja, você fez um gráfico para que todo mundo veja,
compilando os dados da Droga X). Em contraste, “A Figura Y demonstra o maior
efeito da Droga X na pressão sanguínea, comparado à Droga Z” (significando, você
produziu uma figura que permite visualizar os efeitos diferenciais das duas drogas).

Controles
Uma das maiores razões para revisores rejeitarem artigos é a ausência de
experimentos de controle apropriados. Pode parecer óbvio que cada
pesquisador deve fazer o “controle” e incluir os dados na seção de Resultados,
mas o esquecimento (mais acidental do que por ignorância) é muito comum.

28 Escrevendo
Há três principais tipos de controle.
 Controle teste – para eliminar (ou ao menos minimizar) confusão quanto
aos efeitos de variáveis outras que não a variável independente (definida
pelos pesquisadores; consulte a seção Tabelas). Alguns controle testes
comuns são solventes, placebo, intervenções cirúrgicas falsas etc.
Exemplo: Você expôs células cultivadas à Droga X, que foi dissolvida em
DMSO. Você precisa fazer um grupo de controle com o DMSO sozinho,
para excluir qualquer possível efeito causado pelo solvente.
 Controle positivo – quando há expectativa de resposta. Estes grupos são
incluídos para garantir que o método funciona de forma adequada.
Exemplo: A leitura mostra fluorescência celular, e sua hipótese é que a
Droga X aumenta essa fluorescência. Um teste concorrente com a Droga
Y, muito conhecida por gerar grande aumento de sinal fluorescência, será
seu grupo controle positivo.
 Controle negativo – nenhuma resposta é esperada. São grupos incluídos
para testar se o que se observa como sinal é “verdadeiro” ou causado por
um efeito não específico.
Exemplo: Ao usar gel para um experimento PCR. Para ter certeza de não
haver nada (por exemplo, contaminação) que amplie o efeito, o controle
negativo é incluído (apenas com buffers, sem template, e apenas um primer).

É extremamente importante que os testes com grupos de controle aconteçam


no mesmo experimento que inclui o grupo experimental (e não após). Se um
grupo de controle não for incluído, é necessário repetir o experimento inteiro,
e não apenas a rodada de controle.
A inclusão dos controles apropriados na seção de Resultados (e se referir a
eles brevemente) vai impressionar quem lê (ou quem revisa). Isso demonstra sua
habilidade de pensar cientificamente, de autocrítica, e de checar possíveis erros.

Indicando significância estatística


Indique o nível de significância de diferentes grupos em uma figura com
um símbolo (asterisco, pequena letra etc.). Diga com clareza o que está sendo
comparado; evite frases pouco precisas tal como “em comparação com o
controle” – sempre especifique o controle. Use símbolos com parcimônia e

Boelsterli 29
apenas se necessário; não há necessidade de encher uma figura de símbolos
apenas para dizer que nenhum dos grupos diferiu de forma significativa dos
outros.

Combinando resultado e discussão


Determinadas revistas exigem que as seções de Resultados e Discussão sejam
mescladas em apenas uma seção. Isso implica que seus dados sejam pareados com
achados de outras publicações. Assim, há o posicionamento em um contexto maior.
Neste caso, tenha o cuidado de distinguir com clareza entre fatos (o que você
encontrou) e interpretações (significado dentro de um contexto mais global).

–– Resultados são dados


–– Conte uma história
–– Estruture cada módulo com o porquê de suas ações, o que você
encontrou, e o que significa
–– Conecte as frases e parágrafos
–– Garanta a inclusão de todos os controles necessários

2.5 Materiais e métodos

Esta seção tem dois propósitos. Primeiro, garantir a reprodutibilidade de


suas ações com exatidão. Assim, a pessoa pode partir da sua seção Métodos
para outras construções. Se a seção estiver obscura, tal leitura terá sido uma
considerável perda de tempo e recursos. A ausência de clareza nas descrições
da metodologia é uma das razões para a atual crise de reprodutibilidade na
biomedicina. O segundo intuito é prover entendimento para quem lê (ou
quem revisa) acerca do seu método especificamente aplicado, e assim, julgar
se foi apropriado para gerar os dados desejados.
A seção de Materiais e Métodos é, via de regra, subdividida em partes
distintas (consulte as Instruções para Autores para conferir os requisitos de
cada revista). Tradicionalmente, as subseções incluem (de acordo com a
natureza de cada estudo): Reagentes e substâncias, Tratamento e Animais, ou
Pacientes. As técnicas específicas e os subtítulos adequados normalmente

30 Escrevendo
compõem a maior parte desta seção. É importante e necessário incluir uma
parte de Análise Estatística.
Para artigos clínicos, costuma se exigir um fluxograma mostrando como
pacientes foram incluídos ou excluídos do estudo. Normalmente, será na seção
Métodos (estudos retrospectivos) ou Resultados (estudos prospectivos). Para
mais auxílio, use as diretrizes de www.equator-network.org .

Qual o nível de detalhamento?


Obviamente, por razões práticas, é impossível descrever tudo nos
mínimos detalhes. Sendo assim, use o bom senso.
Por exemplo, na subseção de Produtos Químicos, listar a fonte de cada
item obtido comercialmente é desnecessário (por exemplo, NaCl) por ser
irrelevante. Entretanto, caso você tenha usado, vamos dizer, um anticorpo
monoclonal específico, a origem (quem vendeu, pessoa colaboradora de uma
instituição acadêmica etc.) deve ser exposta, já que esta substância tem eficácia
distinta a depender de sua fonte.
Isso também é verdade para animais de laboratório. Ao usar camundongos
ou ratos, por exemplo, declare a fonte com exatidão já que, mais uma vez, pode
haver diferenças na herança genética de animais da mesma raça, mas
criadouros diferentes.
Ao descrever o tratamento de animais envolvendo substâncias, inclua
suas dosagens, rotina de administração, solvente, e outros detalhes. É comum
que se negligencie a indicação do momento do dia das aplicações; a injeção
de um composto pela manhã pode ter um efeito profundamente diferente se
realizada à noite.
Se você desenvolveu um método novo, descreva com precisão, de modo
que possa haver repetição por pares (não exclua deliberadamente qualquer
“dica” – se o método só funciona com você, a credibilidade se perde). Por outro
lado, aplicando uma técnica já publicada, é suficiente citar a referência; repetir
os detalhes é desnecessário. Finalmente, se você adotou uma técnica já
publicada, mas fez pequenas modificações, você pode escrever, por exemplo,
“…usamos o método X (Referência) tal como descrito, mas com uma pequena
modificação…”
Algumas revistas exigem que você disponibilize a massa de seus

Boelsterli 31
Materiais e Métodos online como Material Suplementar. Sendo este o
caso, selecione os métodos mais relevantes para o texto enviado e inclua o
restante no material suplementar.

Análise estatística
Use um software estatístico para analisar níveis de significância de dados
ao comparar médias de grupos. Indique a fonte do software (Excel, GraphPad,
etc.), mas omita as equações ou fórmulas complexas.
“Significância Estatística” significa que a diferença entre dois conjuntos
de valores não é fruto do acaso. O nível de confiança deve estar presente na
seção de Métodos. Indique se o nível de 95% de confiança (p < 0,05) é aceito
para definir diferença significativa, ou 99% (p < 0,01).
Temos um erro comum e difícil de erradicar, entre pesquisadores, quanto
ao uso do teste t de Student. O teste pode ser usado ao comparar dois grupos
entre si, mas nunca para comparações múltiplas (por exemplo, comparar mais
de dois grupos, múltiplos pontos temporais etc.).
Outro erro comum é o uso de testes estatísticos inadequados para a
distribuição dos dados, que pode ser distribuição normal padrão (e a clássica
curva de sino) ou assimétrica. Só é possível saber o tipo após a coleta de dados
e sua avaliação via teste, como com os testes Kolmogorov-Smirnov ou Shapiro-
Wilk. Alguns dos testes estatísticos para avaliar diferenças significativas só são
adequados para distribuição normal (por exemplo, teste t); são os chamados
testes paramétricos.

Ética
Se seu estudo envolver seres humanos, é necessário aprovação prévia
institucional de um comitê de ética. Estudos com animais também necessitam
de aprovação prévia de comitê , bem como seguir diretrizes internacionalmente
reconhecidas (como a ARRIVE). Estas aprovações devem constar na seção de
Métodos, e em outras requiridas por cada revista (por exemplo, uma seção
especifica antes das Referências, como uma Declaração de Ética).

32 Escrevendo
Conjuntos de dados
Muitas revistas encorajam fortemente a disponibilização dos conjuntos
de dados (datasets) que embasam as conclusões do artigo. Algumas exigem
que eles sejam enviados para seus repositórios, especialmente quando há uma
norma amplamente aceita pela comunidade quanto ao compartilhamento de
dados. Temos como exemplos, Uni-Prot para sequências de proteínas,
GenBank para DNA e RNA, Gene Expression Omnibus (GEO) e ArrayExpress
para dados de microarray. Confira as diretrizes da revista.

–– Mencione a aprovação do comitê de ética


–– Especifique o que for necessário, mas evite descrições exaustivas
–– Defina seus “controles”
–– Defina os níveis de significância
–– Não use o teste t de Student para comparações múltiplas

2.6 Introdução

A Introdução deve ser escrita de forma a guiar quem lê, saindo de um


contexto geral para a pergunta científica em específico que você busca
responder, ou para a hipótese que você quer testar. Por vezes, autores
inexperientes pensam que a Introdução equivale à revisão de literatura – e não
é verdade. Apenas as publicações mais cruciais pertinentes à sua história
devem ser citadas (aquelas que contradizem seus achados devem ficar para
depois, na Discussão, por necessitarem de alguma elaboração, o que romperia
o fluxo e a direção da Introdução).
A Introdução deve trazer o porquê, a razão pela qual você se dedicou à
sua pesquisa. Sendo assim, deve conter mais do que já se sabe do campo,
também destacando o que ainda não se sabe, e o mérito da nova proposta
clínica ou experimental.

Boelsterli 33
Introdução Discussão

Geral Específico

O que se sabe/
não se sabe

O que
significa

Fig. 5. A Introdução é Específico Geral


estruturada como uma
pirâmide invertida.

A Pirâmide invertida
O melhor jeito de começar a escrever a Introdução é partir de frases
amplas e gerais, e gradualmente delimitar a informação até que se chegue ao
argumento específico.
Esta técnica foi comparada a uma pirâmide invertida (Fig. 5). A partir de
enunciados gerais, você aproxima a imagem até visualizar pontos específicos.
(Nota: A Discussão vai se dar inversamente, veja na sequência).
Quão geral? Mais uma vez, pense no seu público-alvo ao escrever, ou seja,
cientistas com familiaridade com o campo (nem grandes especialistas, nem
cientistas de forma genérica). Sendo assim, vá direto ao ponto.
Exemplo: Seu projeto de pesquisa compara diversos novos antibióticos
de fluoroquinolona, avaliando seu potencial de dano à mitocôndria. Começar
explicando a ação de antibióticos, seria excessivamente generalista. Ao explicar
a estrutura química e mecanismo de ação de fluoroquinolonas, você
provavelmente está errando o rumo – quem lê já tem essa informação. Mas
se começar a Introdução considerando que todo mundo tem familiaridade
com todos os efeitos das diversas fluoroquinolonas na topoisomerase
bacteriana em comparação com a de seres humanos, bem, possivelmente você
acabou aprofundando no assunto cedo demais. Use o bom senso.
Um erro comum é dizer na Introdução que “não se sabe muito” sobre
uma determinada área de pesquisa. Soa estranho (e arrogante, até),
considerando milhares de artigos publicados naquela área específica de
pesquisa. Defina a lacuna no conhecimento e então foque no assunto.

34 Escrevendo
Descreva brevemente a importância de preencher essa lacuna. Então,
faça uma pergunta específica que você vai responder através de sua pesquisa.
Ou formule uma hipótese que será testada – tenha certeza, porém, antes ainda
de escrever, que você tem de fato a resposta da pergunta, ou a confiança de
dizer se sua hipótese é rejeitada ou se mantém. (Nota: uma hipótese nunca
pode ser “comprovada,” apenas testada).
Não antecipe a conclusão na Introdução. Descreva seus achados primeiro.
Faça uma Introdução pequena – observe algumas das melhores revistas
de sua área!

–– Use a pirâmide invertida ao escrever a Introdução


–– Defina a lacuna do conhecimento
–– Formule uma pergunta, ou hipótese
–– Mantenha a concisão

2.7 Discussão

Em termos de estrutura, a Discussão deve ser a imagem espelhada da


Introdução. Enquanto a Introdução segue o formato de uma pirâmide
invertida, a Discussão se constrói segundo uma pirâmide tradicional (Fig. 5).
Ou seja, comece pelos pontos mais específicos (os achados de seu artigo) e se
torne mais generalista gradualmente, até que ao fim você discuta como isso
se encaixa com o cenário geral e o que significa para o mundo.
Ao final da Discussão, é possível até especular sobre os impactos futuros
de sua pesquisa (mas mantenha os pés no chão e garanta também a inclusão
de outras contribuições de pesquisa).

Explique o que os dados significam


Muitos autores inexperientes cometem o erro de repetir os resultados na
Discussão, apenas modificando palavras. Obviamente, esta duplicação de relato de
dados deve ser evitada.
Explique o que seus achados significam. Algumas revistas exigem uma
subseção específica: Conclusões. Está tudo bem resumir os achados gerais em uma
frase ou duas, mas então extraia uma conclusão de seus resultados.

Boelsterli 35
Os dados podem trazer suporte sólido para um princípio geral amplamente
aceito, ou simplesmente sugerir algo. Ao descrever quão bem eles dão suporte às
conclusões, escolha os verbos com cautela, e de acordo com a força da evidência.
Por exemplo, os dados sugerem (fraco) < indicam = trazem argumentos < sustentam
< fornecem evidências convincentes (forte)… Note o crescimento do nível de certeza.
(Dúvidas sobre a força de suas evidências? Não fale em “evidências convincentes”.)

Responda com clareza às perguntas que você formulou


Lembre-se de que se a pergunta formulada na Introdução foi concreta,
clara e simples, sua resposta também deve ser. Se a pergunta inicial for difusa,
ou mal delimitada, sua resposta também acabará sendo vaga.
Volte à Introdução e confira; pergunta e resposta devem estar em
harmonia. Isso é igualmente verdade para uma hipótese inicialmente levantada.

Nada de conclusões vagas


Todo mundo sabe que nova pesquisa se seguirá em sua área. Novas
questões surgirão, e novas respostas. Assim, se seus resultados são novos e
convincentes, e as conclusões claras, dê solidez, e não arruíne a Discussão
dizendo que o assunto segue obscuro.
Exemplo (de uma frase estranha num artigo original): “…Mais estudos
do assunto X são necessários para trazer mais clareza para esse ponto.” Isso é
óbvio. Além do mais, tal enunciado sugere que você falhou em responder à
pergunta inicial. (Artigos de análise são uma exceção; ao avaliar o conhecimento
da comunidade científica quanto a um determinado assunto no presente
momento, você obviamente pode dizer que mais pesquisa é necessária.)

36 Escrevendo
É importante, contudo, que você declare as limitações do estudo (é uma
exigência de algumas revistas). Faça isso de forma honesta, exerça a autocrítica,
demonstre que você considerou, por exemplo, a validade de determinado
método (isso vai impressionar tanto quem lê, como quem revisa). Busque
mostrar que, mesmo com limitações (todo estudo possui limitações!), seus
achados contribuem com a literatura científica e merecem ser publicados.
É um erro comum se perder na Discussão, falando longamente de assuntos
irrelevantes para sua história. Uma regra geral: deixe a Discussão o menor
possível, mas do tamanho necessário para encaixar com clareza os resultados
no quadro geral da literatura da área. Em caso de dúvida sobre quão pequena
deve ficar essa seção, dê uma olhada nas melhores revistas da área. Em um artigo
original, não há espaço para uma revisão geral e ampla de toda literatura.
Uma verdade inconveniente: não ignore (ou ofusque) pesquisas da área
simplesmente pelo fato de que elas contradizem suas conclusões ou não se
encaixam com sua hipótese. É necessário mencionar os achados já publicados
que desviam ou conflitam com os seus. Dê créditos a seus competidores
também. Se conseguir propor uma razão que explique a diferença de resultados,
faça isso de forma plausível (mas não diga apenas que a explicação seria
“condições experimentais diferentes”).

Quando usar ou não o termo “significativamente diferente”


Tome cuidado com a palavra “significante.” Em análise estatística,
“significativamente diferente” significa que o nível de confiança é, por exemplo,
95%. Evite a expressão “significativamente diferente” para interpretação de
resultados qualitativos, por exemplo, na Discussão.
O que fazer quando você encontra o que parece ser uma grande diferença
entre as médias de dois grupos (por exemplo, um aumento triplo da variável
de um dos grupos quando comparada com as de outros grupos), e a análise
estatística das médias revela que a diferença não é significativa? É uma variação
aleatória? Aja com honestidade (mesmo que você desejasse que os dois grupos
fossem diferentes um do outro). Você pode também repensar o tamanho do
grupo (n). Teria sido suficientemente alto?

Boelsterli 37
Exemplo: “Notamos um aumento na atividade de citocromo c oxidase no
fígado em até 109% dos valores de controle (estatisticamente não significativo)
em ratos expostos cronicamente a...”
Não tente fugir do dilema dizendo que havia uma “tendência” de
diferenciação. Escreva com clareza.

–– Use a abordagem da pirâmide tradicional na escrita da Discussão


–– Responda a pergunta levantada, e sustente ou rejeite a hipótese
que você havia formulado
–– Explique com total clareza os significados dos resultados
–– Não crie conclusões estranhas
–– Busque concisão
–– Traga os dados divergentes de seus competidores

2.8 Referências

Citações e referências são importantes. Cite outras pesquisas da área – as


pessoas buscam e olham a lista de Referências. Não ignore contribuições
científicas por serem de possíveis competidores; isso pode ser até
contraproducente. É óbvio que você não é a única pessoa pesquisando o
assunto (e se for, talvez seja melhor pesquisar algo mais popular). Você pode,
contudo, optar por não listar um determinado artigo se for mal elaborado,
irrelevante, ou simplesmente uma contribuição do tipo “eu também acho”.

Quantas?
A maioria das revistas tem um limite máximo para número de referências
em publicações. A regra geral é que de 30 a 40 referências são suficientes. Mais
uma vez, uma contribuição original não é uma revisão de literatura, e não pode
(nem deve) ser geral. Escolha, portanto, as referências mais apropriadas.
Nota para autores avançados: Ainda que seja importante citar seus artigos
anteriores como forma de construir o itinerário, é igualmente importante trazer
outras autorias. Quando mais de 90% das referências são do próprio autor, a
lista provavelmente está desbalanceada.

38 Escrevendo
Quando incluir uma citação?
Se você inclui uma citação no texto a cada frase e método usado, sua lista de
referências cresce exponencialmente. Então, quando citar, e quando deixar passar?
Para conhecimento científico com ampla aceitação geral, obviamente, as
referências são dispensáveis. Quanto a achados específicos de sua área de
pesquisa, contudo, sempre inclua citações para dar crédito ao autor original.
Diga claramente se foi você ou outro pesquisador que produziu os dados ou
chegou a uma conclusão. Por exemplo, quando você escreve: “… descobriu-se
que…,” se torna necessário trazer a referência. Do contrário, melhor escrever
“… descobrimos que …”
E o que você faz quando quer citar seu próprio trabalho ainda não
publicado? Mais uma vez, clareza: se o texto foi aceito por uma revista (mas
ainda não tem o volume, paginação, ano, ou número DOI), cite normalmente
e, nas Referências, escreva “no prelo” (em parênteses). Contudo, se você ainda
está aguardando a decisão da revista (ou pior ainda, se ainda está trabalhando
no artigo), a citação não é permitida. Por favor, não escreva: “enviado para
Science” (todo mundo pode enviar para a Science!) ou, pior ainda, “em
preparação”. Simplesmente não inclua.
Da mesma forma, evite frases como “dados não publicados disponíveis
via requerimento,” ou “correspondência pessoal com Dr. X.” Além de ser
antiprofissional, o que isso realmente significa é: “Tenho uma grande ideia,
mas ainda não tenho os dados,” ou “Quero esconder algo.”

Formatando referências
Cada revista tem suas regras sobre formato de citações e referências.
Desse modo, talvez pareça que seguir tais requisitos seria uma tarefa onerosa
e demorada.
Ainda bem que existem softwares excelentes disponíveis, que facilitam
esse trabalho (por exemplo, EndNote, Zotero, Mendeley). Não há necessidade
de digitar manualmente todos os autores, anos, títulos, volumes e números
das páginas etc. É possível importar as referências com facilidade (copiar/
colar) das bases de dado online (por exemplo, Scopus, Medline, Web of Science),
e criar sua própria lista de referências pessoal. Cada publicação adicionada
gera automaticamente um número, e com o tempo a lista cresce.

Boelsterli 39
À medida que você escreve seu artigo, o programa que registra sua lista
formata automaticamente as Referências. Basta apenas copiar/colar o número
da referência de seu banco de dados pessoal no texto e indicar a revista visada.
O programa então formata a bibliografia de acordo com as regras específicas de
cada revista. Isso auxilia muito quando, por exemplo, você formata o artigo
novamente para outra revista; e é essencial quando você escreve uma análise
com centenas de referências.
Sua instituição acadêmica ou corporativa pode geralmente prover acesso
a este software. Se esse não for o caso, adquirir o programa é um excelente
investimento, e você vai ter muitos benefícios ao usar esse banco de dados
pessoal de referências. Um conselho: em sua carreira, comece a construir sua
lista cedo. O ideal é que seja assim que você começar a fazer pesquisa. Além
de ser uma tremenda ajuda para a escrita de artigos, vai ser indispensável
quando for escrever relatórios, revisões, teses, ou pedidos de financiamento.
Basta um clique no mouse e as referências são inseridas na formatação correta.
Quando for escrever a lista de referências manualmente, sem a ajuda de
um software (o que não é recomendável), saiba que este é um jeito ultrapassado
de trabalhar e sujeito a erros. Então tome um cuidado ainda maior com o estilo
e os requisitos específicos da revista. Tenha a certeza de usar as abreviações
corretas para cada revista.
O escopo de referências cresceu, e pode incluir textos ainda não
publicados, bases de dados, e códigos. Talvez seja necessário adicionar as
referências de forma manual no programa, e ajustar de acordo com a
formatação que a revista exige.

Citações no texto
Repito aqui, os softwares disponíveis fazem o trabalho para você,
rapidamente, facilmente, sem erros, e focado nas regras da revista. Se você
decidiu escrever as citações manualmente (mais uma vez, não recomendo), há
uma regra para se ter em mente:
Ao citar um método, um achado importante, ou uma ideia importante
etc., cite a fonte entre parênteses ao fim da frase. Por exemplo, caso haja um
autor, diga “Analisamos as amostras usando HPLC, conforme descrição
(Smith, 2019).”

40 Escrevendo
Para dois autores: “… (Smith e Miller, 2019).” Três ou mais: “… (Smith
et al., 2019).”
Outra opção, por exemplo, “As amostras foram analisadas com HPLC,
conforme Smith (2019).”
Não há necessidade de usar as iniciais dos nomes nas citações (contudo,
é necessário na lista de referências).
Note que muitas revistas pedem que sejam usados números, e não nomes,
nas citações textuais. Mais uma vez, siga as diretrizes da revista com atenção,
e adeque o resultado do software de acordo com a formatação requerida.
Por último, mas não menos importante, se você põe a referência de um
artigo não publicado, isso normalmente é feito no corpo do texto, e não na
lista de referências (por exemplo, Smith et al., no prelo).

–– Busque limitar o número de referências a <50


(para um artigo original)
–– Dê crédito aos autores originais
–– Use seu banco de dados personalizado para formatar
automaticamente citações e referências

2.9 Agradecimentos, divulgações, declarações


de financiamento

Agradecimentos
Esta seção pode parecer irrelevante, mas não subestime os
Agradecimentos. É importante. As pessoas leem, conferem se o nome delas
está lá, e ficam contentes. Algumas pessoas podem não gostar de serem
esquecidas, ainda mais quando realizaram uma série de testes na sua pesquisa
(não sendo coautoras). Não é aconselhável, contudo, mencionar sua avó por
ter feito uma revisão de seu texto.

Boelsterli 41
Divulgações
Revistas exigem que se diga os potenciais conflitos de interesse. Muitas
seguem as recomendações do ICMJE, que exigem a declaração de todas as
fontes de recurso que autores, ou a instituição, receberam nos últimos três
anos, bem como potenciais conflitos ocorridos em qualquer momento do
passado (www.icmje.org/conflicts-of-interest/). Caso não haja nenhum
conflito de interesse, escreva “nada a declarar.”

Declaração de financiamento
É muito importante listar todos os financiamentos! Vai ser necessário
enviar suas publicações para quem financiou: eles querem ver o nome da
instituição, bem como detalhes do programa de financiamento.

–– Liste as origens dos recursos


–– Agradeça a quem colaborou
–– Declare os conflitos de interesse (quando for aplicável)

2.10 Resumo

O Resumo tem uma importância especial, e compensa investir muito


tempo escrevendo. Em primeiro lugar, a editoria da revista vai provavelmente
decidir para quem enviar seu texto (revisão de pares) com base em seu Título
e Resumo. Deste modo, o Resumo deve ser atraente e claro. Em segundo lugar,
um leitor em potencial vai se basear no resumo para decidir se vai ler o artigo
completo. É sempre importante lembrar que, para revistas que requerem
assinatura, o resumo pode ser a única parte inicialmente acessível a todo o
público.
Assim, há uma forte razão para escrever o Resumo apenas após a
conclusão do artigo. Garanta que ele se encaixa com o texto – use as mesmas
palavras-chave, perguntas e conclusões.

42 Escrevendo
O Resumo deve conter todas as palavras-chave (mais do que no Título),
já que serão listadas nas bases de dados científicas. Um Resumo forte deve ser
completamente preenchido de informação e dados e isento de fraseologia vazia.
Tal qual o artigo completo, mas em miniatura, o Resumo deve conter uma
frase introdutória, expondo o problema, trazendo a questão ou levantando
uma hipótese, bem como uma síntese dos dados, e finalizar com uma pequena
interpretação e conclusão.
Normalmente, o Resumo tem limite de 250 a 350 palavras. Escolha cada
uma com sabedoria, elimine a verborragia e omita tudo que não é essencial.
Você pode usar abreviações (com cautela) desde que traga as definições desde
o início, no primeiro uso.
Use todo o espaço disponível. Um Resumo com cem palavras parece
incompleto.
Se você não tem familiaridade com a revista para qual vai enviar seu
artigo, confira as diretrizes sobre o Resumo, se deve ser estruturado (com
subtítulos) ou não estruturado (apenas o bloco de texto). Além disso, cada vez
mais revistas exigem uma seção separada sobre “limitações do estudo,” que
pode ser elaborada resumindo o parágrafo correspondente da Discussão
(confira na seção Discussão).

–– Use todas as palavras-chave no Resumo


–– Preencha de dados
–– Use todo o espaço delimitado (300 a 350 palavras) pelas diretrizes
da revista

2.11 Título

O Título deve ser a última parte de seu artigo. Desta forma, você terá
tempo de refletir e, idealmente, tentar várias alternativas, até tomar a decisão
final sobre o título. Até chegar este momento, você já vai ter nitidez quanto à
história exata do seu artigo.
É importante lembrar sempre que as pessoas escolhem o Título para
decidir se leem ou ignoram o artigo. O Título é importante!

Boelsterli 43
O Título deve conter as principais palavras-chave; por razões óbvias, é
difícil usar todas elas. É melhor usar as mais populares, (ou seja, aquelas que
são normalmente usadas na área). Evite palavras que você tenha criado,
mesmo achando que elas são interessantes ou, em sua visão, mais apropriadas
– em uma pesquisa de literatura, elas podem desaparecer e nunca serem vistas.
O Título não é o melhor lugar para exibir sua criatividade.
Cada vez mais revistas médicas exigem que o tipo de estudo fique
explícito no Título (por exemplo ‘duplo-cego’ ou ‘caso-controle’). Assim, quem
lê já tem uma ideia inicial da força das evidências que seu artigo apresenta.
O Título também deve conter as principais conclusões de seu artigo. Evite
Títulos pouco significativos, como o exemplo seguinte.
Exemplo: “Efeito de X em Y” (mesmo que X e Y sejam palavras-chave
importantes). A pessoa que lê fica sem saber se houve mesmo algum efeito, e
qual a direção do mesmo. Tente, em vez disso, fazer do seu Título uma
miniatura do resumo de seu trabalho (como um resumo do Resumo).
O Título deve ser pequeno (algumas revistas limitam os caracteres). Use
o mínimo de palavras possível e busque concisão.
Exemplo: “Farmacocinética da Droga X e seus hidróxi metabólitos em
ratos e os efeitos da dose única concomitante da Droga Y: Relevância do efeito
de primeira passagem de transportadores hepáticos, e metabolismo intestinal
e hepático.” Muito longo e complicado. Poderia ser, em vez disso: “A droga Y
inibe a extração hepática da Droga X mediada por polipeptídios transportadores
de ânions orgânicos em ratos.”
Algumas revistas pedem, além do Título, um Título Resumido que será
posicionado no topo de cada página do artigo. Esses devem ser ainda mais
curtos e, obviamente, limitar a quantidade de informação.
Os verbos têm mais força do que substantivos, e a voz ativa é mais forte
do que a voz passiva (veja a seção Vocabulário). Por exemplo, “X inibe Y” é
mais forte do que “Inibição de Y por X.”
Evite perguntas no Título. Isso produz ambiguidade, deixando quem lê
sem entender nada.
Quão específico deve ser seu Título? Para um artigo original, o Título deve
descrever com clareza os achados específicos (sem enumerar todos os detalhes).
Assim, quem lê saberá qual o destaque de seu artigo perante outros da área.

44 Escrevendo
Exemplo: “Toxicidade de Antibióticos” é um Título muito amplo (exceto
para um livro-texto geral). Melhor dizer: “Droga X é um ligante de alta-
afinidade para o Receptor Y em hepatócitos humanos”.
É necessário indicar a espécie animal no Título? A não ser que seja óbvio,
sim, para diferenciar trabalhos experimentais de trabalhos clínicos. É
necessário indicar a dose da droga ou da exposição no Título? Só se for
relevante para a essência do artigo, do contrário, não faça.
Não use abreviações no Título, exceto as mais comuns (como DNA). Em
alguns casos, isso pode ser um problema; por exemplo, usar “NADPH” é
perfeitamente aceitável em uma revista bioquímica, mas uma revista clínica
pode exigir o termo por extenso (“fosfato de dinucleotídeo de adenina e
nicotinamida”), o que ocupa grande parte do limitado tamanho do Título.

–– Inclua as principais palavras-chave


–– Entregue a grande conclusão – use verbos, e não substantivos
–– Mantenha a concisão e especificidade

2.12 Autores

Para a área biomédica, a posição relativa dos nomes das pessoas autoras
e coautoras é mais importante do que parecer ser à primeira vista.
Apenas os nomes de quem contribuiu com a pesquisa de forma efetiva
devem ser incluídos – quem ajudou com o desenho de pesquisa, realização
de experimentos, análise de resultados, ou na escrita do artigo. Colocar o
nome de outras pessoas como forma de “cortesia” é desaconselhável, apesar
de ser uma prática ainda existente. Isso acontece pois há muitas pessoas que
ainda pensam que o número – em si – de publicações vai ser um fator que
indique o desempenho de carreira. Deste modo, seguem a lógica de “uma
mão lava a outra”, com a crença de que ao pôr o nome de uma pessoa amiga
no artigo, a pessoa vai retribuir da mesma forma. Isso não funciona, e é
antiético. Além do mais, muitas revistas demandam que seja declarado o
papel individual de cada autor no estudo (www.icmje.com).

Boelsterli 45
A convenção dita que o nome da pessoa que mais trabalhou no estudo
(normalmente pós-graduando ou pós-doutorando) venha primeiro. O nome
do pesquisador sênior, que lidera a equipe e possivelmente assegura os
recursos financeiros, virá por último. Normalmente esta pessoa é também o
“autor correspondente”, submetendo o artigo à revista e lidando com
comentários da revisão. Nomes de coautores intermediários são menos
importantes (declara-se, por vezes, que o primeiro e segundo autores
“contribuíram igualmente”; mas isso só significa que ambos autores podem
listar tal artigo como “primeiro autor” em seus currículos).
Jamais coloque o nome da pessoa como coautora sem pedir! Em paralelo,
nunca inclua um nome apenas por seu destaque profissional, ou por sua posição
em uma grande instituição (sem que esta tenha efetivamente contribuído). Você
pode até pensar que o nome poderia aumentar o valor e qualidade do artigo,
mas isso é, na verdade, antiético, e se for descoberto, haverá consequências.
O ICMJE recomenda que autores sigam quatro critérios:

 Contribuições substanciais à concepção ou desenho da pesquisa; ou


aquisição, análise, interpretação de dados; E
 Esboço ou revisão crítica do trabalho focando em relevância do conteúdo
intelectual; E
 Aprovação da versão final do texto; E
 Acordo de responsabilidade geral, para assegurar que quaisquer questões
sobre precisão e integridade, de qualquer parte do trabalho, sejam
investigadas e resolvidas corretamente.

Atenção: aconselha-se que a discussão e acordo sobre a sequência de


nomes de autores seja prévia, idealmente já no momento que a equipe decide
escrever o artigo. Quanto maior a espera, mais difícil de resolver mal-
entendidos ou de eliminar falsas esperanças. A disputa pelo primeiro ou
último lugar já colocou muitas amizades em risco.
Os créditos da pesquisa podem vir a ser atribuídos a uma pessoa sem
relação alguma com a pesquisa, mas que por coincidência tem um nome igual
ao seu. Para quem mudou de nome (por exemplo, ao se casar), pode ser difícil

46 Escrevendo
também manter o vínculo com os trabalhos anteriores. A solução é usar o
número ORCID – um número de identificação digital que se mantém, e pode
ser usado nos arquivos, pedidos de financiamento, revisão de pares etc.
Registre-se em www.orcid.org e receba sua identificação.

–– A posição de primeiro autor e último (sênior) detém maior peso


–– Todos os coautores listados devem ter contribuído com o artigo

2.13 Materiais suplementares

Muitas revistas permitem o envio de material opcional suplementar, tal


como texto, figuras, tabelas, que serão acessadas por um link no PDF ou site
do artigo. Esse é um ótimo caminho para encaixar figuras auxiliares não
essenciais, bem como grandes compilados de dados (tabelas extensivas), ou
fotos. Em certos casos, é mandatório ter uma porção do texto (por exemplo,
uma seção extensiva de Materiais e Métodos) como Material Suplementar,
principalmente porque revistas (especialmente as de maior classificação)
delimitam rigidamente o número de páginas ou palavras.
Não espere, contudo, que todos os leitores vão baixar os Materiais
Suplementares; a maioria vai se concentrar no corpo do artigo. Não deixe,
portanto, dados essenciais escondidos na seção de Materiais Suplementares.

2.14 Linguagem e estilo

O conteúdo do artigo é o que mais importa, mas a forma que você como
autor se expressa é igualmente fundamental, pois impacta na qualidade do artigo.
A escolha de palavras importa.

Clareza, concisão
Clareza é essencial para o artigo. O significado de cada frase deve ser
óbvio. Deve se evitar toda ambiguidade.

Boelsterli 47
Exemplo de frase confusa: “Diclofenaco é um anti-inflamatório não-
esteroidal largamente utilizado em pacientes que contém porções de ácido
fenilacético com peso molecular de 296.” Pacientes contém porções de ácido
fenilacético? O ácido fenilacético possui peso molecular de 296?
Em caso de dúvida sobre o entendimento da frase, mude a sequência das
partes, ou transforme uma frase em duas.
Exemplo de mudança de sequência: “O diclofenaco, com peso molecular
de 296, é um anti-inflamatório não-esteroidal largamente utilizado que
contém porções de ácido fenilacético.”
Exemplo de transformação em duas frases: “O diclofenaco é um anti-
inflamatório não-esteroidal largamente utilizado. Seu peso molecular é de 296,
e contém porções de ácido fenilacético.”
Na linguagem cotidiana, muitas das palavras são turvas e imprecisas, e
devem ser substituídas por outras de significado mais unívoco em artigos
científicos.
Exemplos: “…certo número de pacientes…”; “relativamente”; “muito”;
“algum”; “…tendência no sentido…”; “significativamente” (“significativamente”
é permitida quando o assunto é estatística).
Concisão é igualmente essencial. Muitas palavras cotidianas são apenas
formas preencher espaço, e podem ser omitidas sem que se mude o sentido
da frase. Cada vez mais revistas exigem artigos pequenos, com limite de
palavras, então busque ser sucinto, escrevendo frases curtas.
Evite redundância – não repita frases, não descreva duas vezes os mesmos
resultados (por exemplo, tanto na seção de Resultados como na Discussão).
Evite clichês. Por exemplo, frases-padrão como “…com o advento de
tecnologias modernas, temos a possibilidade de…” são sem significado aqui,
supérfluas, só preenchendo espaço. Corte esse hábito.
Evite verborragia – e vá direto ao ponto. Você não precisa esbanjar seu
domínio do idioma. Elimine a enrolação.

Simplicidade
“Tudo deveria se tornar o mais simples possível, mas não simplificado”.
Albert Einstein

48 Escrevendo
Tente tornar suas perguntas, hipóteses, e conclusões simples (sem que se
tornem ingênuas ou simplistas). Mas não retire a força das frases. É necessário
que você possa dizer do que trata sua pesquisa, de forma simples, a uma pessoa
leiga. Não deixe sua mensagem chave embolada de termos altamente técnicos.

Honestidade
É inquestionável que toda pesquisa deve ser conduzida de forma honesta,
de acordo com os mais elevados padrões éticos.
Pense, contudo, sobre este exemplo: Você possui evidência de um novo
mecanismo ou via bioquímica, mas parte de seus dados experimentais
apresenta controvérsias ou se opõe claramente ao restante dos dados. Há um
dilema – o que você deve fazer? É melhor repetir o experimento ou usar um
método alternativo. Se os resultados seguem sendo ambíguos, diga isso. Não
esconda uma informação óbvia. Não use linguagem embolada para “encenar”
clareza, tentando deixar todas as portas abertas. Esperteza não se finge. Seus
dados se tornarão mais difusos, e o arrependimento futuro provavelmente virá.
Confira novamente suas frases mais importantes (normalmente, na
conclusão de sua Discussão) – o significado está claro? Tudo é verdadeiro?

Imparcialidade e neutralidade
Nossas expectativas são altas, e queremos que os experimentos tragam um
determinado resultado. E quando isso não ocorre? E se os dados fogem do
consenso científico? Escolher a dedo publicações que dão apoio à sua opinião
(divergente), citá-las e ignorar as outras, é um erro comum. É fácil ser tendencioso.
Evite a autossugestão! Você deve se lembrar de que tudo publicado se torna
eterno. Idealmente, tudo que você escreve deve seguir correto no futuro, então
cuidado com conclusões, pois elas apenas seguem a sua visão de mundo vigente.

Novidade
Cada artigo científico deve portar uma mensagem, algo que se diz a quem
lê. O ideal é que seja uma mensagem nova, que não apenas repita o que já foi
descoberto. Não basta apenas uma modificação mínima de metodologia (que
não muda os resultados), ou trocar um reagente por outro similar, para se ter
material digno de publicação.

Boelsterli 49
Seu artigo provavelmente será pouco mencionado se você apenas copiar
os experimentos, metodologia, e interpretações de outro artigo, sem que isso
traga uma nova contribuição. Artigos do tipo “eu também acho” têm pouca
originalidade e criatividade e, geralmente, pouco impacto.
Cada descoberta científica, mesmo as menores, enseja milhões de novas
perguntas. Quanto à novidade, é questão de fazer as perguntas corretas!

2.15 Plágio

Plágio inclui, mas não se limita a, cópia ou reutilização de texto, ideias,


imagens, ou dados de outras fontes sem referência direta e clara, e vai contra
os princípios que regem as publicações acadêmicas.
É aceitável usar pequenas frases padrão, específicas, de outros artigos,
mas cada autor deve usar suas próprias palavras. Não é aceitável copiar longos
trechos de outro artigo, ou até seções inteiras, fazendo apenas mudanças
pequenas (por exemplo, substituir os nomes de uma substância). Isso é plágio.
De forma similar, ao tratar de uma nova teoria, ou ao repetir uma proposição
forte de outros autores, a fonte original deve sempre ser citada.
Editores de revista possuem programas específicos que detectam plágio.
Em casos graves, medidas são tomadas contra os autores.
É importante também dizer que há maior tolerância ao plágio acidental
que ao deliberado. A distinção geralmente se baseia no fato de haver ou não a
referência à fonte original. Sempre referencie a fonte original. Para trechos
grandes, também use aspas.

–– Escreva com clareza de linguagem


–– Mantenha a concisão. Faça frases pequenas
–– Deixe suas perguntas e conclusões o mais simples quanto possível
–– Seja honesto e imparcial
–– Não cite apenas publicações em concordância com suas opiniões
– evite a autossugestão
–– Para gerar novos dados, faça as perguntas certas
–– Use suas próprias palavras – plágio é proibido

50 Escrevendo
2.16 Vocabulário, sintaxe e gramática

Não há necessidade de dizer que seu texto deve estar isento de erros de
sintaxe, gramaticais e escrita (com os atuais programas de texto, não há
desculpa para os últimos). Também é importante que um cientista (e não um
leigo) nativo verifique seu texto. Existem muitas empresas com serviços
profissionais de escrita e revisão (por exemplo, www.enago.com/karger);
entretanto, escolha com cautela uma pessoa com familiaridade com o
pensamento científico e o jargão profissional.
É importante evitar erros óbvios, mas há também ferramentas úteis do
ofício que vão aumentar a efetividade de seu texto.

Defenda a precisão
Nada é perfeito. Na escrita de um artigo científico, contudo, você deve
agir de forma meticulosa quanto ao rigor, verdade e correção.
Obviamente, um artigo com referências equivocadas irrita, pois quem lê
vai ter trabalho para encontrar a publicação. Ainda pior – se você deixa escapar
um erro de unidades (por exemplo, dosagem de uma droga), as consequências
podem ser terríveis. Por exemplo, trocar mili por micro pode ocorrer num
instante quando você muda a fonte tipográfica e os símbolos somem. (Uma
nota curiosa: O erro quanto ao “alto” conteúdo de ferro no espinafre e em
outras folhagens verdes remete à pesquisa do século XIX, quando a pessoa
errou a posição da vírgula decimal.)
Por fim, negligenciar a eliminação de erros e falhas traz outro
inconveniente: ao ler um certo descuido no texto, pode se concluir o mesmo
a respeito de sua pesquisa.
Tenha leituras de revisão e confira mais de uma vez!
Sua última chance para eliminar qualquer erro que tenha escapado é
quando você recebe as provas da edição e revisão. Decerto, ler com cuidado
extra é uma ótima ideia, e mostrar também a um colega.

Boelsterli 51
Posição de palavras
Ponha a ênfase no início da frase. Em Português, é o local que mais fixa
na memória e mais impacta. Retome os elos posteriormente com palavras de
conexão. (veja Figs. 2 e 3).
Exemplo: Note a diferença de ênfase entre as duas frases: “Lesão no
fígado induzida por medicação é a maior causa de lesão aguda do fígado nos
EUA, mesmo que sua ocorrência seja pouco frequente” – ou – “Apesar da
pouca frequência de ocorrência, a lesão no fígado induzida por medicação é
a maior causa de lesão aguda no fígado nos EUA.”

Verbos fortes
Use verbos, quando possível, e não substantivos. Verbos são mais
poderosos, e a linguagem ganha em concisão.
Exemplo: “Analisamos…” é melhor que “Fizemos uma análise com…”

Substantivos múltiplos
Quando houver mais de dois substantivos, pode haver polissemia.
Especifique as relações na ordenação.
Exemplo: “Ratos e camundongos geneticamente modificados” (ambos)
difere de “Camundongos geneticamente modificados e ratos” (aqui, apenas
camundongos).

Voz ativa
Use voz ativa em vez de voz passiva sempre que possível. A frase fica mais
forte e direta. Use a primeira pessoa do singular ou plural (Eu, nós). Nada de
timidez. evitar a primeira pessoa para descrever o que você fez não é apenas
desatualizado, também parece desajeitado.
Exemplo: “Determinamos (medimos, encontramos)…” é melhor que
“Foi determinado (medido, encontrado).”
A seção de Materiais e Métodos é uma exceção – é a única em que o uso
de voz passiva é preferencial.

52 Escrevendo
Tempo verbal: presente ou passado?
Uma regra geral: O que é tido como conhecimento aceito (como artigos
publicados) deve ser escrito no presente (por exemplo, na Introdução). Para
ilustrar a questão: O DNA carrega informação genética – isso está acima de
dúvidas. Entretanto, o que ainda não é conhecimento aceito (incluindo seu
presente trabalho) deve ser escrito no passado (na seção de Resultados, ou
outras). Seu artigo vai, assim, ser composto por frases nos dois tempos verbais.

Pronomes relativos
O uso correto de pronomes relativos como “que”, “o qual/a qual”, é um
desafio geral para muitos escritores.
Para a frase a seguir; se esta traz informações adicionais, que podem ser
omitidas mantendo o sentido, a frase ficará entre vírgulas. Note que usar “a
qual”, aqui, não é interessante.
Exemplo: “A Droga X, que é lipofílica, atravessa de imediato as membranas
plasmáticas.”
Entretanto, se a frase for essencial para a compreensão e não pode ser
omitida, não use vírgulas.
Exemplo: “Substâncias que são lipofílicas têm maior chance de atravessar
membranas plasmáticas.”

Singular ou plural?
O uso do singular ou plural para volume e massa é um problema comum
na seção de Materiais e Métodos. Qual é correto: “100 mg foi adicionado,” ou
“100 mg foram adicionados”?
Em português, a concordância se dá com miligramas, que é plural. O
correto é “100 mg foram adicionadas.” Em inglês pode ser o oposto a depender
do caso, não se confunda.
Uma dica para a escrita em inglês: “data” (dados) pode ser usado no
singular ou plural (“data is (was)” ou “data are (were).”). Saiba, contudo, que
originalmente é plural, pois é derivado do latim.

Boelsterli 53
Números
Para um dígito, escreva por extenso. Exemplo: “em dois experimentos.”
Para vários dígitos, use algarismos. Exemplo: “em 15 experimentos.”
Contudo, conjuntamente à unidade de medida, use sempre algarismos.
Exemplo: 2 ml.
Nunca comece uma frase com algarismos!

Abreviações
Você pode usar abreviações para um termo ou palavra frequente em seu
texto, para economizar espaço e aumentar a fluência da leitura. No primeiro
uso, escreva por extenso, e traga a abreviação entre parênteses; posteriormente,
use apenas a abreviação. Abreviações de conhecimento e uso amplos dispensam
definições (por exemplo, DNA).
Não abrevie palavras que aparecem apenas uma vez no texto.
Não use abreviações no Título, nem no Resumo (exceto se o uso for
constante e definido na primeira vez).

Palavras fortes
Use palavras fortes sempre que possível, com significado definido, e evite
as pouco usuais, especialmente no Título e no Resumo.
Exemplo: “X inibe Y,” é melhor que “X cria um efeito em Y.”
Algumas outras palavras fortes: demonstrar, identificar, desenvolver,
descobrir, proteger, aumentar.

Palavras/expressões suspeitas
Existem palavras e expressões muito usadas visando elegância, mas que
se tornam estranhas, diferentes e pesadas. Abandone seu uso.
Exemplos: “e/ou”; “demasiado”; “neste instante preciso.”
Ao descrever achados quantitativos, não use palavras vagas: “muito,”
“bastante,” “consideravelmente,” “extra,” “extremamente,” “um pouco” – diga a
quantidade, e evite palavreado.
Evite palavras antiquadas, afetadas, e expressões literárias análogas.

54 Escrevendo
Contrações
Apesar do uso cotidiano, e também em ficção, certas contrações informais
não devem fazer parte de textos científicos.
Exemplos: “Pra”; “numa”, “num” – use para; em uma; em um.

Significados distintos
Muitas palavras e expressões, apesar de similares, têm significados
distintos. Evite essas confusões.
Exemplos: “bastante significativo” (muito) – “significativo o bastante”
(suficiente). “De encontro a” (se opondo) – “ao encontro de” (concordando).
Outro equívoco: confundir “sensível” e “específico.”
Sensibilidade trata da probabilidade da ocorrência de uma resposta
esperada (um sinal). Por exemplo, na frase “o método é muito sensível”
significa que a chance de resultado falso-negativo é pequena.
Especificidade, entretanto, trata da probabilidade da ausência de resposta.
Como exemplo, a frase “o método é altamente específico quanto a…” diz que
a chance de resultado falso-positivo é pequena.

Termos técnicos, jargões


Termos técnicos são componentes necessários em artigos científicos,
pois trazem significados precisos para especialistas. Tome cuidado ao
introduzir (inventar) seus próprios termos técnicos, pois não são de uso ou
entendimento geral. Ao pensar no leitor médio da revista na qual seu artigo
será publicado, considere a possível ausência de familiaridade. Defina os
termos – ou se tornarão jargões. Há uma distância curta entre soar arrogante
(por não definir termos muito técnicos) e insultar a inteligência da pessoa (ao
explicar o que todo mundo sabe).
Exemplo: DILI é um termo amplamente aceito para “lesão hepática induzida
por drogas”. Por analogia, o termo AILI tem sido introduzido por alguns autores,
para “lesão hepática induzida por acetaminofeno”; nem toda pessoa que ler vai
entender de imediato, a não ser que você traga a definição. Supondo que você
escreva um artigo sobre lesão hepática induzida por isoniazida, e crie o termo
IILI – seria mais indicado escrever “DILI causada por isoniazida.” Se um artigo
está lotado de termos técnicos e abreviações, a leitura perde a fluidez.

Boelsterli 55
Ler nas entrelinhas…
Podemos, a seguir, entender o significado “verdadeiro” (destaque para
as aspas) de algumas expressões estereotipadas (Fonte: Anônima).

• “Há tempos se sabe…” significa: “Não quis olhar a referência original”


• “De grande importância teórica e prática…” significa: “eu gosto desse
assunto”
• “Ainda que não tenha sido possível oferecer respostas definitivas para estas
perguntas…” significa: “os experimentos não deram certo, mas, pelo
menos, eu descobri como fazer um artigo”
• “Três das amostras foram selecionadas para estudos detalhados…” significa:
“os outros resultados não faziam sentido e foram ignorados”
• “Experimentos conduzidos com extremo cuidado…” significa: “sem deixar
cair no chão”
• “Temos aqui os resultados típicos…” significa: “os melhores resultados”
• “Acredita-se que…” significa: “Eu acho”
• “Há uma crença geral quanto a…” significa: “algumas outras pessoas
também acham isso”
• “Claramente, necessitamos de muito trabalho adicional antes da
compreensão completa do…” significa: “Não entendi o que aconteceu”
• “Agradeço Fulano de Tal pelo auxílio com o experimento e Beltrana de Tal
pelo valioso diálogo…” significa: “Fulano fez o trabalho e Beltrana me
explicou o que aconteceu de fato.”

56 Escrevendo
–– Posicione a parte mais importante da frase no início
–– Verbos são mais fortes que substantivos
–– Usar voz ativa é melhor que passiva
–– Use verbos no presente para conhecimento consolidado, e verbos
no passado para seus resultados
–– Não use abreviações no Título
–– Use palavras fortes
–– Evite palavras e expressões estranhas
–– Não use jargão técnico em excesso
–– Revise com cuidado e confira mais de uma vez

Boelsterli 57
3 Após
escrever
3.1 Reescrevendo

“ O único tipo de escrita é a reescrita.”


Ernest Hemingway

Aqui, o que é verdadeiro para a ficção é também para o artigo científico.


A primeira versão do seu texto vai estar longe de ser perfeita. É crucial revisar
seu artigo diversas vezes. Você vai notar que, a cada vez, você vai reescrever
determinadas partes, e a qualidade do artigo aumentará.
A grande vantagem da reescrita é que, além de decidir o que eliminar,
você pode também adicionar material novo (quanto a isso, a comparação já
mencionada com quem faz esculturas não funciona). De fato, há uma
tendência a se ater excessivamente a um detalhe. A arte é, contudo, contar uma
história tão elaborada quanto necessário, mas tão concisa quanto possível.

As três fases da revisão


Não perca a maior parte do seu tempo buscando erros de grafia ou
edição (mas faça correções assim que necessário). Olhe para o quadro geral
primeiro – você respondeu a pergunta da Introdução? Os resultados dão
suporte às suas conclusões? Você tem uma história? O texto flui de forma
lógica? A Introdução e Discussão podem se tornar mais concisas?
Às vezes é difícil jogar toda uma seção fora e começar do zero, mas é
necessário ser autocrítico. Caso uma seção ou parágrafo não te satisfaça (ainda
que você não saiba ainda o motivo), deixe o texto de lado por um ou dois dias,
faça outras coisas. Então, olhe de novo de forma renovada.
É um bom momento, também, para mostrar o rascunho aos coautores
(importante!) para aprovação. Não espere demais – se deixar para mostrar
apenas o que sente ser a versão final, e objeções relevantes surgirem, será
muito mais difícil fazer grandes mudanças. Ferramentas online permitem que
todos os autores vejam, acompanhem e comentem o progresso do texto. O
exemplo mais óbvio é o GoogleDocs, mas há outras com foco em escrita
científica (por exemplo, Authorea, AuthorCafe, SciFlow).

60 Boelsterli
Só envie o texto após mostrar a todos os coautores. Tenha cuidado,
contudo, ao pedir a opinião de pessoas que não estejam envolvidas com o
projeto – todo mundo tem contribuições adicionais e “importantes”, gerando
possibilidades infinitas.
O segundo passo se dá após posicionar todas as figuras, tabelas e dados.
Você vai revisar o estilo, palavras e reorganizar frases quando necessário. O
foco é concisão, simplicidade, força de palavras, e clareza.
O terceiro momento, ao final, é polir o texto, cuidando inclusive da
formatação e eliminando erros de digitação.

Armadilhas comuns
Durante a primeira etapa do processo de reescrita (ao olhar o “quadro geral”),
é melhor checar duas vezes cinco pontos importantes, e facilmente negligenciados.
Você praticamente terminou seu artigo, e está sentindo ansiedade: quer
enviar logo. E então você corre os olhos pelo seu artigo pela enésima vez, e
não consegue mais ver nenhum pequeno erro, quanto mais as grandes falhas.
A experiência acaba mostrando quão fácil é cair nas seguintes armadilhas –
portanto, se assegure de estar ciente dos perigos.
Primeiro: confira se completou todos os controles necessários para seus
experimentos (e os incluiu em seus conjuntos de dados). Pode parecer óbvio,
mas é irritante quando você recebe o retorno do artigo exigindo que o
experimento seja repetido devido à ausência dos controles apropriados. Seria
embaraçoso, por exemplo, descobrir (tarde) que você esqueceu de conferir se
o composto teste interferiu com o sinal (por exemplo, afetando negativamente
a fluorescência ou absorção), e não com o alvo biológico. E assim, seu “grande
inibidor”, na verdade, não inibe coisa alguma.
O segundo ponto é garantir que você diferenciou, na Discussão, causalidade
e correlação. Esta falha sinaliza o frequente pecado da omissão. O fato de a variável
independente (definida por quem pesquisa) e a variável dependente (resposta)
apresentarem correlação adequada (por exemplo, em uma regressão linear) não
denota causalidade alguma. Poucos exemplos são tão óbvios, e frequentemente
demonstrados, quanto à excelente correlação entre a densidade populacional de
cegonhas (ninhos de cegonha por metro quadrado) e a taxa de natalidade de seres
humanos (nascidos por ano) [5]. Cuidado com suas conclusões!

Após escrever 61
O terceiro ponto a se considerar é a possível existência de múltiplas
causas para um efeito ou fenômeno. Busque as possíveis explicações alternativas
e faça a discussão adequada. Não busque uma exclusividade quanto às
conclusões. Infelizmente, nem tudo é tão evidente quanto na velha história do
sapo instruído a pular a cada comando do cientista, que dizia: “pule”; após
amarrar as patas do sapo, disse “pule” novamente, e nada do sapo se mover –
sua conclusão lógica: o sapo ficou surdo.
O quarto ponto a ser conferido é se as conclusões têm completo
embasamento nos dados. Mais uma vez, isso parece evidente, mas é um dos
grandes fatores de rejeição de artigos. Quando você escreve que o processo X
se regula pelo composto Y, mas se esquece de fornecer os dados pertinentes a
Y (concentrações, níveis de expressão, atividade), sua conclusão fica por um
fio, e perde toda a substância.
Finalmente, é fácil cair na armadilha da definição incorreta da função de
uma biomolécula, por exemplo, um produto gênico. Por exemplo, edição
gênica e nocaute de genes são métodos largamente utilizados para analisar a
função de determinado gene. Ao estudar os efeitos de tal manipulação, algumas
conclusões podem ser delineadas a respeito da função do gene. Este caminho
pode ser equivocado – quando a ausência de um gene leva a um efeito
específico, isso não significa necessariamente que o gene intacto teria a função
de inibir tal efeito. Um bom exemplo que ilustra este ponto é: Quando uma
engrenagem com um dente quebrado não para de fazer barulho, você conclui
que a função do dente é “inibir o barulho”? [6].
Mais uma vez, cuidado com suas conclusões!

Bloqueio criativo
E quando você, subitamente, se sente incapaz de continuar a revisar seu
texto, sente que perdeu toda a sua criatividade, e não consegue encontrar mais
erro algum? Isso ocorre com frequência, em especial, quando já se releu o
texto muitas vezes, ou quando o prazo está próximo. O melhor caminho de
superação do chamado “bloqueio criativo” é deixar o texto de lado por um
tempo e focar em outra coisa. E, então, você volta. Agora, com um olhar mais
racional.

62 Boelsterli
–– Revise a primeira versão, e então revise de novo
–– Reescreva o conceito primeiro, então avance para o estilo, e faça
as alterações cosméticas ao final
–– Confira mais de uma vez os controles apropriados, a causalidade
ou correlação, ou se suas conclusões têm suporte nos dados
–– Deixe o texto de lado, e depois retorne com um olhar renovado

3.2 Como enviar seu artigo

Consulte a seção de Instruções para autores no site da revista e siga as


diretrizes à risca. Preste atenção às instruções de formatação específicas. Envie
o texto e as figuras.
A carta de apresentação é uma parte importante para muitas revistas, e
deve ser curta, mas conter o essencial: você deve prover o óbvio (título, autores,
afiliações, tipo de artigo etc.), mas também uma declaração de que seu trabalho
é inédito, não tendo sido publicado em outro lugar, e que todos os coautores
contribuíram, bem como a ausência de conflito de interesses (e caso haja,
declare). Em tal carta, você pode, se quiser, dizer o motivo pelo qual você acha
que o trabalho encaixa no escopo da revista – até com um certo nível de
entusiasmo.
A maioria das revistas pede a sugestão de uma lista de revisores em
potencial. Não liste pessoas amigas, por pensar que assim seu texto seria mais
facilmente aceito. Recomenda-se sugerir as pessoas mais especialistas da área
como revisoras – já que sua crítica profissional tem valor inestimável. Se
recomendarem ao editor que seu artigo seja aceito, você saberá que não deixou
passar grandes falhas em seu texto. Nada garante, contudo, que o editor vai
seguir sua lista.
Envie seu artigo para uma revista por vez. Se rejeitado, você poderá
tentar outra. Normalmente, o tempo de resposta é de algumas semanas.
Rejeições imediatas podem chegar antes. Se a revista tem dificuldade para
encontrar pares para revisão prontamente, o processo pode ser mais demorado.

Após escrever 63
–– Escreva uma carta de apresentação curta
–– Sugira revisores em potencial – escolha especialistas da área
–– Não envie o artigo para várias revistas ao mesmo tempo

3.3 Lidando com Comentários de Revisores

Após o envio de seu artigo para a revista, o editor encaminha para dois ou
três revisores, que geralmente são pares e especialistas na área. Será feita a
avaliação do mérito de seu artigo. O anonimato quanto a quem revisa rege essa
relação. Por outro lado, o nome dos autores é revelado. Esse tipo de revisão se
chama simples-cego, sendo o formato mais comum. Contudo, as revisões de
modelo duplo-cego (nomes de autores não são revelados) e totalmente abertas
(todos os nomes são revelados) têm se tornado mais comuns.
As pessoas que revisam não decidirão o aceite ou rejeição de seu artigo,
mas podem fazer recomendações ao editor. O mais importante é que elas
oferecem feedback para os autores. Autores jovens e inexperientes, com pouco
preparo, podem se surpreender (e até se chocar) com o que sentem ser críticas
duras, mas vale lembrar (1) a excelência de muitos dos pontos elencados nos
comentários, e que (2) seu artigo vai melhorar após a incorporação da revisão,
bem como que (3) uma revisão de sucesso precisa encontrar pontos de melhoria.
Pode ocorrer a rejeição direta de um artigo por parte do editor da revista.
As razões pode sem ser variadas (por exemplo, mesmo para um bom artigo,
pode ser muito difícil receber aceite nas melhores revistas). Contudo, em
muitos casos há como os autores se prevenirem. Abaixo, uma lista das razões
de rejeição mais frequentes:

 Conclusões não suportadas pelos dados


 O estudo é muito preliminar ou incompleto
 Ausência de novidade
 Falhas no desenho experimental
 Falhas na metodologia
 Texto mal escrito

64 Boelsterli
A boa notícia é que se sua pesquisa for sólida e o artigo bem escrito, você
terá a oportunidade de enviar uma versão revisada do seu texto que, na maioria
dos casos, será aceita, contanto que você siga as recomendações.
Nunca espere que um revisor diga que seu texto original está excelente,
e deveria ser publicado sem revisão: isso simplesmente não vai acontecer. Vale
lembrar sempre: você pode ter dificuldade em lidar com críticas, mas faz parte
do processo comum de publicação científica. Mude sua atitude: aceite e dê
boas-vindas às críticas. Trabalhe todos os pontos levantados em uma resposta
adequada. Busque fazer os ajustes e encaixes necessários. Avalie o valor da
crítica. Se necessário, modifique ou adicione alguns experimentos.
Revise seu texto. Ele vai melhorar ao fim do processo.
Se você não concordar com um ponto específico, escreva uma réplica
(educada, e não rejeite todos os pontos levantados). Assegure-se de incluir
referências para as evidências nas quais se baseia.
Você pode aprender muito com os comentários de revisores. À medida
que avançar na carreira científica, trabalhe também com revisão.

–– Aceite as críticas de revisores


–– Trabalhe todos os pontos levantados na revisão

Após escrever 65
Conclusões

Algumas mensagens gerais para você guardar:


 Conseguir publicar depende fundamentalmente de uma boa pergunta
(ou hipótese) de estudo e uma metodologia robusta.
 Escrever bem – com clareza, estrutura lógica, e conclusões fortemente
embasadas por resultados – é a chave para conseguir a publicação de
seu artigo.
 Nunca houve tanta ajuda disponível para autores. Quando você se
sentir sem saída, busque ajuda – quanto antes, melhor!

Se o início está sendo árduo, não desista. É possível aprender a arte da


escrita de artigos científicos e conseguir publicações. Desejo sucesso!

Referências

[1] Shimel, J. Writing Science. New York, Oxford University Press, 2012.
[2] Gastel, B. and Day, R.A. How to Write and Publish a Scientific Paper. New York,
Cambridge University Press, 2017.
[3] Cargill, M. and O’Connor, P. Writing Scientific Research Articles.
Hoboken, Wiley Blackwell, 2013.
[4] Sand-Jensen, K. How to write consistently boring scientific literature.
Oikos 116: 723–727, 2007.
[5] Mathews, R. Storks deliver babies (p = 0.008). Teaching Statistics 22: 36–38, 2000.
[6] Pinker, S. The Blank Slate. London, Penguin, 2002.

66 Boelsterli
Como conseguir publicar
seu artigo biomédico
Esta obra é um guia prático e arrojado que vai
ajudar você a produzir artigos científicos a partir de
seus relevantes dados de pesquisa, e enviar o
material para publicação em revistas internacionais
com revisão de pares. Aqui, explicaremos o
modelo de cada seção do artigo e a montagem das
partes, compondo uma “história” lógica e coerente,
que será lida, compreendida, lembrada e citada.

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