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Crônicas Filosóficas Decoloniais

David José Ramos


RAMOS, David José Gonçalves. Teologia Tropical:
Crônicas Filosóficas Decoloniais. Belo Horizonte:
Movimento Tabuleiro, 2021
Sumário

Indivíduo, Sujeito, Pessoa e Personalidade............................................

O Jardim de São Jerônimo......................................................................

Tecnologia e Religião..............................................................................

Estilo e Infância no Desenho Animado Mr, Pecles (2014)......................

Investigação Paranormal........................................................................

Lista de Putaria........................................................................................

A Teologia que Fundamenta a Filosofia Tropical....................................

Assombração.........................................................................................

Salmo 198................................................................................................

Vivo ou vivo.............................................................................................

Respeite os seres vivos...........................................................................

A Inimizade entre a Mulher e a Serpente................................................

A Carta de uma Morta.............................................................................

O Curioso Caso da Gameleira.................................................................

A Religião do Espantoso Ruído..............................................................

Salmo 199...............................................................................................

Salmo 200...............................................................................................

Saci Pererê..............................................................................................

Ódio ao Pênis, e Amor à Penetração (parte I).........................................

Ódio ao Pênis, e Amor à Penetração (parte II)........................................


Indivíduo, Sujeito, Pessoa e Personalidade:
Dinâmicas e Dimensões da Vida Partilhada
David José G. Ramos1

“(...), os destinos pessoais dependem sobretudo das negociações entre as


associações de classe, as corporações empresariais e os organismos do estado”2; as
impressionantes reflexões da teoria crítica com relação à condição humana dentro do
sistema de trabalho, produção e consumo da sociedades contemporâneas nos fazem
pensar que o conceito de sujeito merece mesmo um tempo de análise, principalmente
porque envolvem nós mesmos, os leitores destas poucas e livres palavras. O filósofo
Jacques Derrida, em seu livro Gramatologia, apresenta uma questão interessante: a auto
percepção, na verdade, a própria atividade da consciência humana, os pensamentos,
depende das formas pronominais da língua de nossa cultura. O “eu”, o “nós”, o “ele”, o
“eles” são mais do que expressões, são mecanismos que fazem funcionar um conjunto de
fisiologias; as operações de identificação, os pronomes pessoais são formas de tratamento
que guardam o segredo da nossa própria afetividade, nossa sexualidade, organizam
nossas presenças no mundo social. Quando é que posso usar o “ eu”? Quando posso,
legitimamente usar o “nós”? (como se sabe, uma forma das mais perversas de dominação
política é usar a palavra “nós” em situações onde a coletividade não existe). Quem é o
“nós”? Quando uma pessoa fala “nós somos..., nós fizemos...” o que realmente ela está
querendo dizer? E o “outro”, o “ele”? Todos os outros são outros? Muitas vezes o “nós” é
apenas uma forma de controle, uma extensão indevida de um “eu” ávido de poder. Quem
pode dizer “nós”? Essas provocações iniciais são para que comecemos pela complexidade
da língua. Sujeito é o que? É um “eu”? Um “nós”? É um “ele”? Pode ser sujeito o conjunto
de todas as formas pronominais de tratamento?

Sujeito, na hipótese que “nós”, que “eu”, que “eles” desenvolvemos, é uma dinâmica
de sobrevivência, de existência, sujeito é o jeito de viver, e ao mesmo tempo um conjunto
de dimensões: sujeito é indivíduo, pessoa e personalidade. Essa distinção se relaciona ao
conjunto das teorias críticas (Escola de Frankfurt) e à Psicanálise. E, principalmente, a
própria palavra sujeito possui alterações curiosas como assujeitado, que nos remetem ao
fato de que sujeito é uma descrição da experiência de fronteira entre a vida pulsional,

1
. Mestre em Educação Tecnológica (CEFETMG) e Especialista em Temas Filosóficos e Teoria Psicanalítica (UFMG),
Professor de Filosofia e Antropologia UEMG
2
. RUDIGER, Francisco. Escola de Frankfurt:individualismo e cultura de massas.
psíquica, interna, e a vida social, política com os “outros”, portanto sujeito se refere à vida
partilhada. Assujeitado é um não sujeito, ou alguém que está a perder a “sugestão”.

Todo sujeito é uma pessoa, um ser biológico, é um corpo com identidades hereditária,
congênita, imbrincado em relações de parentesco, de afetos. A pessoa é o princípio da
humanização. A pessoa humana, as pessoas humanas, são o ponto material de partida,
intervalo entre a esfera natural (animal, bicho, selvagem (…) e a esfera cultural. A
dignidade, os cuidados, o zelo neotênico, as necessidades básicas da sobrevivência se
referem a forma como o ser humano é tratado enquanto pessoa, enquanto uma pessoa.
Pessoa é a forma fundamental do sujeito. Frases como; “isso é pessoal”, “isso não é
pessoal”; são rupturas dessa origem, essa ruptura surge na esfera do trabalho, em
princípios da massificação, ou nas formas militares e religiosas, quando as características
orgânicas, pessoais, particulares, não são determinantes para a identidade nessas
instituições. O sujeito inicia sua presença no mundo como pessoa, ser de necessidade e
particularidades irrepetíveis, únicas. A criatividade é uma característica pessoal; enquanto
pessoa o sujeito tem um caminho único e distinto de todos. A cada pessoa corresponde
uma morte específica, um fim específico, um início específico. Ser Pessoa é possuir uma
vida e uma morte. A dimensão pessoal é a dimensão histórica, é a forma mínima de
tratamento que o ser humano precisa ter; o reduto irredutível do tratamento. Acima de tudo
o “ele”, por mais que pareça odioso ao “eu”, precisa ser tratado minimamente como
pessoa. Dessa forma, ao lidar com os outros como pessoas, nos identificamos também
como pessoas. O “eu” se torna pessoa quando o “outro”, o “ele” é também reconhecido
como pessoa. Todo sujeito é um indivíduo, indiviso em sua unidade e essência. O
processo de individuação ganha imensa velocidade na modernidade, nas formas pré-
capitalistas, e a ideia de individualidade inicialmente se refere à propensão do ser humano
de, pensar por si mesmo, atingir como uma mônada a consciência da realidade. A defesa
que a modernidade e que o iluminismo fizeram da autonomia do ser humano frente às
tradições mitológicas e religiosas levou muitas culturas elevarem a importância da busca
íntima, individual, pelas respostas sobre a realidade, para além de simplesmente reproduzir
o saber tradicional; o indivíduo nasce como possuidor de racionalidade suficiente para, por
suas próprias formas e forças encontrar o saber necessário para sua moralidade e
decisões. É pelo processo de individuação que surge a figura do cidadão; historicamente
as revoluções burguesas do século XVIII buscaram essa imagem para falar do novo
homem, do homem necessário aos novos tempos, do cidadão, chegado a si mesmo por
meio de uma relação reflexiva com os outros, capaz de fazer suas próprias escolhas,
chegar à suas conclusões, através da racionalidade subjetiva, em oposição principalmente
à racionalidade teológica, eclesial, feudal. O indivíduo é o ser consciente de seus desejos
(por isso, enquanto indivíduos, somos consumidores). O indivíduo é uma dimensão do
sujeito crido na modernidade, os indivíduos, o processo de individuação, é resultado das
formas sociais modernas, entre elas do capitalismo. No Brasil o processo de individuação,
organizado pelo Estado nascente, criou uma dicotomia entre o espaço público e o espaço
privado; o espaço privado é lugar do indivíduo e o espaço público é lugar de ninguém. Na
verdade, desde a invasão portuguesa ao território indígena no século XVI, a própria
dimensão de pessoa foi negada aos autóctones, aos habitantes numerosos do território,
para os portugueses os índios não eram sequer pessoas, quanto mais indivíduos, e assim
foi com os negros e continua sendo para algumas camadas da população até hoje. Com a
criação do Estado Brasileiro, aos moldes da modernidade no século XVIII, o espaço
público foi esvaziado e o espaço privado se torna o habitat dos indivíduos. Já no século
XX, com o pleno estabelecimento do capitalismo, o indivíduo é o consumidor, o que tem
desejos individuais, as famílias se tornam mais individuais, e o sujeito, marcado por essa
identidade, se torna uma célula de desejos e projetos particulares, numa subjetividade que
esvazia as formas de participação pública. Uma multidão de indivíduos se aglomera em
transportes públicos, em eventos de entretenimento, as vezes não se percebendo nem
como pessoas. O indivíduo, individuando-se, entregue inicialmente à sua própria
racionalidade na organização dos seus desejos e expectativas, não consegue resistir aos
argumentos de uma outra forma técnico-governamental de racionalidade, a racionalidade
tecnológica do sistema; o sistema pode pensar melhor pelo indivíduo do que o próprio
indivíduo, assim são pautadas as propagandas de TV, que insistem que o indivíduo não
precisa pensar sobre os argumentos que são colocados para enaltecer uma mercadoria.
Ao se tornar indivíduo, o sujeito tem a preciosa independência intelectual, mas corre o risco
de ser reduzido a menos do que uma pessoa pela forma mecânica como a racionalidade é
dominada pelo sistema:

“(...) os sujeitos são expropriados psicologicamente e sua economia pulsional é gerida mais
racionalmente pela sociedade. A decisão que o indivíduo deve tomar em cada situação não
precisa resultar mais de uma dolorosa dialética interna da consciência moral, da
autoconservação e das pulsões. Para as pessoas na esfera profissional, as decisões são
tomadas pela hierarquia que vai das associações (sindicatos, partidos, agremiações,
religiões,...) até a administração nacional; na esfera privada, pelo esquema da cultura de
3
massa, que desapropria seus consumidores forçados de seus últimos impulsos internos.”

Todo sujeito é personalidade, é um presente constante, uma energia pulsional


presente, realimentada, esperando decisões e vontades para se realizar. Cada sujeito
possui um aparelho psíquico que é sede de sua vontade, de seus pensamentos, registros

3
. Max Horekheimer e Theodor Adorno. Dialética do Esclarecimento.
de seus conflitos e maneira única de resolução de suas demandas íntimas. A
personalidade é a instância que decide entre as forças internas e as forças externas, é o
espaço de atuação do Ego, que precisa conciliar os impulsos do Id com as exigências e
moralidades do superego. Há uma busca pelo prazer, bem estar constante nesse corpo,
que tem muitas necessidades, desde as alimentares até as emocionais, e há o princípio de
realidade, que é a possibilidade concreta de experiência do prazer, a negação da
realização imediata dos desejos. A personalidade é a dimensão do sujeito que contém a
marca das respostas que cada um de nós dá ao conflito do princípio de prazer diante do
princípio de realidade. As personalidades adoecem, se enfraquecem, ou ressurgem, se
aprimoram, a forma como nos resolvemos, como nos amamos, cuidamos de nós, dos
outros, criamos nossas fantasias, nosso mundo, depende dessa história de nossos
conflitos com o mundo, nossas personalidades. Formas educativas que infantilizam em
excesso a personalidade são úteis ao capitalismo, pois sujeitos infantilizados são
excelentes consumidores, mas são adoecedoras da personalidade. A educação incide
diretamente sobre nossa personalidade, que é a dimensão mais fluida do sujeito, a mais
plástica, podemos agir sobre nossas personalidades. As três dimensões do sujeito, sua
pessoa, sua individualidade e sua personalidade não são posse exclusiva do próprio
sujeito, estão na fronteira entre o “eu” e o nós”, na vida que necessitamos viver entre os
“outros”, o “ele”, o “eles”.

Na Europa a despersonificação da natureza já havia ocorrido antes da morte de Deus


do século XVIII: a separação nítida entre natureza e cultura, selvageria e civilização foi
objeto de recursivos argumentos históricos. Quando os Colonizadores chegaram às novas
fazendas nas terras da América do Sul no século XV esse processo estava começando
através das confrontações entre cientistas e religiosos. A fé em Deus chegava arranhada
nas terras a serem colonizadas. A incompreensão da personalização que os indígenas e
comunidades humanas isoladas possuíam fez o opressor assumir a ignorância religiosa,
espiritual, moral, intelectual. A Floresta tem uma alma, Onças possuem pensamento e são
como seres humanos. As crianças estavam sempre diante da reciclagem da vida: tudo na
floresta morre e recompõem a própria floresta. Através da vida partilhada com os seres
vivos nos imensos biomas dos trópicos era muito mais fácil demonstrar às crianças e aos
adolescentes o ciclo da natureza da qual o ser humano é um representante. A morte de
Deus para os indígenas era diferente do esvaziamento do poder religioso que se operava
na Europa onde a Ciência começava a apresentar com eficiência argumentos causais
resultantes das experimentações matemáticas. Os Deuses tropicais pareciam invenções
mal feitas diante do complexo Deus cristão, descrito em um complexo manual escrito com
linguagem igualmente complexa.
O Jardim de São Jerônimo
David José

I
“amém!” –- a última palavra
“no princípio” –- a primeira frase
A Ecologia, meus irmãos, é tudo
Todos os temas estão dentro da Ecologia
Francisco de Assis assim dizia
A Ecologia é o tema central, pois é o universo
Criado por infinitos atos de amor
Mesmo as leis da física, perseveram por bilhões de anos
Porque o Pai nunca parou de amar
Tudo que fez e faz a cada segundo
Da mais humilde plantinha aos mais esnobe dos homens
Somos o fruto do amor que existe,
Mesmo antes de ter sido amado
A matéria do ato divino de amor é a Natureza
E todos os seus preciosos detalhes, a natureza humana
O Espelho escolhido por Deus no meio de seu jardim
Flor perfumada, segundo Ele
Mas o Homem destrói a natureza
O Bairro Pompéia cada vez mais cheio de carros
De prédios, de pessoas irritadas e apressadas
E cada vez sem Natureza, era isso
O sempre cada vez menos do ser humano
Que pôs em marcha, em caminhada
Jerônimo reúne onze camelos, e parte para o deserto

II
Cada camelo carregou papiros, couro escrito, lascas de madeiras desenhadas
Várias estruturas com inscrições, para seu olhar atento
Seu coração arfando, sua responsabilidade, suas mãos alegres
Os cristãos não se lembram mais de Jerônimo
Seguram a Biblia, ela é a revelação, inspirada por Deus e pronto
Não é bem assim, o Pai participa da vida das criaturas
Ele não escolhe as simplificações humanas para si
Jerônimo não foi apenas inspirado pela força de seu Deus
Para ler, reler, traduzir, chorar, ficcionar, perder, buscar, palavra por palavra
Do livro Sagrado, Jerônimo foi demasiadamente humano
Pesquisador, cientista, antropólogo, tradutor
Não foi o resultado de uma mágica, e é muito simples
Repetir e repetir que a Bíblia é o livro da verdade
Mas ela só o é por que Deus moveu Jerônimo
Saber como foi seu Trabalho e seus Dias
Faz parte do amor que se pode ter pela Palavra de Deus
III
O Jardim está pra ser destruído, as criaturas que devem espelhar
A luz da vida têm os olhos cheios de trevas e medo
Jesus é o Mestre de Jerônimo, e esteve com ele no deserto
Jerônimo é o homem dos olhos mais doces que viveu na terra
Seu olhar sobre os textos escritos em vários idiomas
Sua busca pela palavra amor, pela palavra justiça, pela palavra fé
Amou a vida no deserto
Para que tudo não se torne o deserto
E para que o homem não se torne uma grande fome de matar
Se alimente da Palavra de Deus
A tenha como um farol de luz para o caminho
Jerônimo ficou no deserto por três anos
Distante, envelhecendo, trabalhou todas as horas do dia possíveis
Sob a luz do sol, da lua, da vela
Pensando e chorando quando só havia o escuro
Lamentando tanto sofrer, por tantas histórias pesadas
A trajetória cultural do povo de Deus
Jerônimo redigiu dos rascunhos, notas, rodapés, conceitos,
referências, segredos, revelações, paixão, amor, decepções
Escreveu, e releu o que tinha escrito, recomeçou
O Senhor estava com ele, o que o esperava era algo grandioso
A palavra de Deus, motivo de alegria para os homens
O Evangelho, as notícias urgentes sobre a nova vida em Jesus Cristo
Tudo isso, naquelas cavernas, no meio do mais brutal deserto
Com alguns féis ajudantes, Jerônimo recebeu no coração
A inspiração para encontrar as palavras mais justas
Jerônimo sabia que seu livro, que sua pesquisa, que a vulgata
Seria Fonte de mau entendimento, pela dureza de coração do Homem
Não por sua esperança na Verdade

IV

Da Natureza ao Deserto, depois desse tempo o Caos já é navegável


E naquela língua nova, o Latin, tão influente quanto o Francês e o Inglês hoje
Surgiu o Texto amado, estabelecido em uma complexa estrutura semântica para a época
De profunda poesia, sinceridade, carisma, ágape
Tudo é a Natureza, a Bíblia é fruto da Natureza Humana
Da vida concreta que o Criador quis e quer ter com os Homens

V
Jerônimo tinha o olhar doce, os olhos suaves, profundo olhar
Ele seguiu pelo Deserto, de volta aos irmãos em Jesus que o esperavam
Como o Povo de Deus esperou Moisés um dia com o texto da lei dos Hebreus
O anjo que guiou Jerônimo em sua volta se tornou como um Leão
E veio caminhando mansamente com Jerônimo
Até a entrada da cidade, protegendo-o
Protegendo o presente que o Deus de Amor dava ao seu Povo
Para seu Povo manter a Esperança em sua Justiça
No século IV de nossa época.
Tecnologia e Religião
Alguns aspectos antropológicos

A tecnologia digital, o advento de aparatos eletrônicos governados por programas matemáticos nas
sociedades industriais fez esquecer dimensões que outrora eram centrais na vida de um indivíduo,
como a religião. Durante um longo período da sociedade as práticas religiosas eram ordenadoras das
proteções e mobilidades do indivíduo em sua relação com os deuses, os objetos sagrados, o sentido da
morte. As sociedades teocráticas europeias se industrializaram e se secularizaram e a religião de um
indivíduo passou a ser uma identidade menos importante que sua cidadania. Isso significa que rituais,
símbolos, textos, hábitos, o movo de viver sofreu uma transformação, assim como as demandas por
significado desses elementos. A razão teológica localizava o sujeito diante do coletivo de uma confissão
particular foi confrontada com a razão critica que o colocava diante de todos os homens, iguais e
identificados. A influência da religião diminui ao mesmo tempo em que a presença dos artefatos
tecnológicos cresce, no sec XX.

Herbert Marcuse no texto algumas implicações sociais da tecnologia moderna expõe um novo conflito
que se inicia para a racionalidade crítica do sujeito: as exigências de eficiência da racionalidade
tecnológica. A razão crítica, para ele, tinha se configurado justamente na vitória sobre a razão teológica
empregada até o século XVIII, que legitimava entre outras coisas a monarquia e a educação religiosa. O
sujeito, liberto e reconhecido pelos estados modernos, reconhece racionalmente seus direitos, suas
capacidades e sua responsabilidade pelas suas ideias, sem o auxílio dos padres e pastores e autoridades
religiosas. Para Marcuse essa libertação da razão crítica ficou ameaçada pelo advento através dos
aparelhos eletrodomésticos da racionalidade tecnológica, resultado do habituação ao uso eficiente das
máquinas. A pesquisa de Marcuse foi sobre o rádio, então grande aparato da evolução humana. Para
ele

Ao manipular a máquina, o homem aprende que a obediência às instruções


é o único meio de se obter resultados desejados. Ser bem-sucedido é o
mesmo que adaptar-se ao aparato, não há lugar para a autonomia. A
racionalidade individualista viu-se transformada em eficiente submissão à
sequência predeterminada de meios e fins. Esta última absorve os esforços
libertadores do pensamento e as várias funções da razão convergem para a
manutenção incondicional do aparato1

A razão teológica sobreviveu à crise de sua popularidade. As formas de trabalho, as rotinas, os hábitos
de conviver em centros urbanos cada vez maiores também ampliou as dificuldades da coesão da razão
teológica, e favoreceu a razão individualista. O sincretismo religioso, os amalgamas e simbioses
mantiveram instituições e práticas religiosas. A racionalidade crítica desenvolveu formas democráticas,
totalitárias, e fez evoluir o direito. Mas eis que a evolução progressiva das máquinas domésticas
humanas e das estruturas de produção de conteúdo midiático gera a razão tecnológica, que passa a ser
importante para a sobrevivência nesses centros urbanos imensos e produtivos, e atinge em sua forma
digital sua maior capacidade de penetração e influência na vida cotidiana. No início do século XXI a
racionalidade tecnológica ocupa cada vez mais lugar na vida das pessoas

A massificação do acesso às novas tecnologias digitais transformou a vida de bilhões de seres humanos
pelo planeta, a partir da década de 1950 com o desenvolvimento dos imensos computadores. Que
décadas depois se tornariam menores, mais poderosos e mais inteligentes se metamorfoseando em
celulares, pcs, notebooks, videogames, ipads, de milhares de formas e formatos, adentrando a vida
íntima de bilhões de pessoas, numa simultaneidade de trocas de informações jamais vista na

1 MARCUSE, Herbert. Tecnologia guerra e fascismo. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999, pág. 80
experiência humana. Efeitos cognitivos a longo prazo da relação entre homens e máquinas ainda estão
sendo estudados, e a incorporação dessas práticas parece deixar de lado a necessidade de significado
religioso para as peças e práticas tecnológicas. Mas e a razão teológica? Foi afetada em seu significado?

A razão teológica, a religiosidade, o pertencimento e promoção da religião sofreu desdobramentos


internos desde os conflitos institucionais das Religiões mais importantes no fortalecimento da
modernidade, e sofreu também transformações, como por exemplo a teologia da libertação que se
apropriou das concepções ecológicas, das lutas contra a colonização e contra a desigualdade
econômica para propor uma ontologia renovada. Mas qual seria a teologia da tecnologia? Como os
discursos eclesiais, e quais discursos eclesiais reconhecem e refletem a presença de Deus no fenômeno
digital? Que espelhamento tem sido possível do divino na máquina? A eficiência da razão tecnológica
parece descartar a necessidade de um pensamento teológico, será que a teleologia da tecnologia
digital encontrará a realização de certas finalidades que o homem coloca para si mesmo, como a
abertura total do conhecimento? No texto como aparece Deus dentro do mundo técnico-científico?
Leonardo Boff desenvolve uma série de aforismas conduzindo poeticamente argumentos interessantes,
e místicos sobre o sentido de deus no mundo técnico científico

O sentido presente na cientificidade de nosso mundo enquanto tarefa do


saber científico e do poder técnico implica um sentido realizado pelo
homem, significa, na sua profundidade, a presença do Sentido por
excelência, isto é, a presença, retraída e silenciada, de Deus. É essa presença
do sentido dentro do nosso modo próprio de sentir o mundo que
impossibilita uma linguagem do absurdo radical ser. (…) o mundo científico-
técnico é a concretização da abertura do homem; é o homem mesmo. Mas
o homem está aberto ao mundo assim como o animal? (…) que motor é
esse que aciona o homem para uma abertura total? Se o homem é uma
abertura infinita que alcança para além do mundo e da cultura, qual é seu
correspondente adequado? Só o infinito sacia uma ânsia infinita. A palavra
deus exprime o infinito da abertura infinita do homem 2

A atenção ao silenciar de Deus é uma atitude da passagem do homem de um estágio completamente


animal para a pergunta sobre o infinito. A velocidade das transformações sociais promovidas pela
produção de novos e diversos aparatos tecnológicos sempre foi um fator de desenvolvimento da
produção material. Com a tecnologia digital novas formas de sociedade humana são criadas,
comunidades virtuais dinâmicas. Esses novos fenômenos não são assimiladas pelo discurso religioso
com a mesma velocidade que são criados. O discurso das religiões se refere muito mais à moralidade
do uso das mídias do que uma abordagem da ontologia da tecnologia. Há pouca necessidade de tratar
dos assuntos filosóficos da tecnologia por parte das instituições religiosas, e pouca utilidade prática de
uma constante epistemologia dos objetos tecnológicos em termos da espiritualidade devotada a eles
pelos usuários, ou mesmo se o usuário produz qualquer tipo de sentido religioso para seus bens
digitais. A pouca importância da reflexividade, o foco na eficiência são as duas questões que Marcuse
diz corromperem a razão tecnológica, reflexividade que é a grande virtude da racionalidade crítica. Na
utilização do aparato, do objeto, não há um discurso religioso implementando espiritualidade a ele. No
aspecto ontológico, a relação entre tecnologia e religião possui poucos conceitos partilhados, poucas
palavras descritivas são comuns; conceitualmente parecem ser fenômenos não associáveis.

Jacques Derrida após 11 de setembro de 2011, esteve em Nova York e numa entrevista fez uma reflexão
sobre a relação entre religião e tecnologia. Segundo ele não há um padrão de adesão à vida
tecnológica por parte das várias religiões, mas o islamismo, ou, as sociedades islâmicas envolvidas no
conflito demonstraram que a tecnologia pode ser incorporada pragmática e ontologicamente no

2 BOFF, Leonardo. Atualidade da experiência de Deus. São Paulo: Conferência dos Religiosos do Brasil, 1974.
pág 30-31
discurso religioso. A associação que Derrida faz entre tecnologia e religião, entre racionalidade
teológica e racionalidade tecnológica é muito interessante, e o cuidado que ele parece possuir com as
palavras, com a origem e historiografia dos termos comuns desses dois domínios apresenta a
possibilidade de tratar temas comuns, e uma aproximação significativa.

A atualidade da associação derridiana entre Religião e tecnologia, e/ou Tecnologia e religião pode ser
problematizada em virtude de uma contribuição conceitual, temática. Um dificultador é a extensão da
obra de Jacques Derrida, um escritor de muitos artigos e livros, e também um filósofo que viveu com
presença a experiência tecnológica digital, tanto pela reflexão quanto pela participação em
documentários, filmes, programas de TV, como se pode no Youtube, e outros portais. Segundo a
filósofa Giovanna Borradori

Desconstruir o sentido familiar de religião e responsabilidade tem uma


urgência política determinada pelo que Derrida descreve como casamento
infeliz entre a religião e a tecnologia digital. Não se trata, segundo Derrida,
do fato de que a religião se afirme globalmente graças à sua aliança com as
infovias digitais (no caso dos grupos islâmicos envolvidos no 11 de
setembro). Mas ele não tem dúvida de que essa é uma aliança cheia de
tensões e contradições. Todos os componentes constitutivos da religião – o
respeito pela sacralidade da colheita, um sentido de obrigação com Deus e a
promessa de absoluta honestidade – falam à sua profunda cautela com
relação ao deslocamento, à fragmentação e à desincorporação que, em
contrapartida, são as condições de existência da tecnologia digital 3

Ha instituições religiosas que por outro lado utilizam a tecnologia digital para propósitos internos de
suas práticas, como as gravações psicofônicas para os espiritualistas. Um dos fenômenos científicos
contestados pela falta de universalidade de suas proposições é a psicofonia. O espanhol Eto Morales
desenvolveu pesquisas e argumentos para demonstrar a viabilidade de gravações digitais de vozes de
espíritos de pessoas mortas. Os fenômenos que causam a realização do artefato tecnológico são de
razões diferentes dos fenômenos realizadores da vida espiritual, e da experiência cultural da religião?
Durante dois anos Eto reuniu gravações de vozes de espíritos em dezenas de locais abandonados como
hospitais psiquiátricos, presídios, fazendas antigas, cemitérios e recolheu horas de fotografias, filmagens
e áudios. Sua pesquisa poderia ser considerada arqueológica, pelo ensaio fotográfico, pelo estudo da
história dos vários locais em que ele e sua equipe estiveram, mas não reside ai a cientificidade do
laboratório de psicofonia, mas sim na possibilidade de um artefato tecnológico captar uma experiência
metafísica. Muitos acadêmicos podem considerar válido os argumentos de reconstituição de identidade
cultural que os capítulos do banco de psicofonias vai oferecendo; os locais pesquisados são grandes
estruturas abandonadas pelo povoamento e sistemática das comunidades históricas. Em um mosteiro
em ruínas, hotel abandonado, em locais que foram sendo despossuídos pelas formas de viver humana
aprisionaram o espírito de uma época, de concepções de sociedade, como os enormes hospitais
psiquiátricos da década de 1940 que se espalharam pelo mundo como forma de resolução sanitária das
massas de adoecidos e que, na década de 1990 foram simplesmente abandonados com as resoluções
constitucionais de muitas nações em favor de novas abordagens psiquiátricas. Os mortos são
consultados através de microfones, mesas de sons, filmadoras, softwares e placas de sons de
computadores, que captam sua manifestação sonora, segundo crê a psicofonologia. Mas os fatos
relacionados à constituição dos fenômenos espirituais seriam capazes de provocar interfaces
decodificadas nos aparelhos tecnológicos? É possível realmente gravar o som da voz de pessoas
mortas? Esta última pergunta pode ser respondida dentro do contexto de reflexão das imbricações
entre tecnologia e religião? Os objetos sagrados da religião podem ser registrados pelas máquinas
digitais humanas? O banco de psicofonias de Eto Morales pode ser uma montagem ideológica e vazia

3 BORRADORI, Giovanna. Filosofia em tempo de terror: diálogos com Jürgen Habermas e Jacques Derrida.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. pág 166
de coisa alguma, no máximo poesia, assim como pode ser uma descrição densa de experiências
psíquicas e antropológicas humanas. Entretanto, a ontologia das máquinas utilizadas por ele, objetos
tecnológicos é questionada em termos de sua possibilidade de realizar matematicamente a apreensão
de um fato não-matemático. Os filósofos gregos que ajudaram a desenvolver a matemática, como
Pitágoras, pensavam estar através da prática daquela linguagem vivendo uma atitude religiosa. A
proposição de Galileu sobre a linguagem matemática do universo também aproxima matemática da
religião. Sendo a matemática a base da linguagem tecnológica digital, talvez os elos antigos possam
também significar a delimitação do problema.

O estudo das relações entre o saber tecnológico, e o saber religioso vai revelar pontos concordantes e
discordantes entre esses campos, principalmente em termos das reduções ontológicas, mas também
com relação aos conceitos, finalidades, pessoas, objetivos. A diferença de termos, de conceitos
empregados nas várias sistemáticas dessas duas áreas parece existir, mas o que a experiência de Eto
Morales parece perturbar é uma passividade entre os dois domínios provocando uma pouca relevância
dos fenômenos intermediários, as imbricações entre religião e tecnologia, os fenômenos tecnológicos,
ou produtos digitais que são apropriados nos discursos religiosos, ou nas práticas religiosas, como a
mediunidade da psicofonia. Ao mesmo tempo várias grandes instituições religiosas utilizam os aparatos
tecnológicos para criarem relacionamento com seus fiéis, como missas pela internet e outros rituais que
podem ser vivenciados coletivamente por meios virtuais. Como essas tensões, as argumentações sobre
a validade científica, empírica, cultural desses fenômenos intermediários é realizada? A vida tecnológica
ocupa grande tempo de viver humano nos grandes centros urbanos. Os ambientes em que os humanos
vivem estão repletos de máquinas digitais, principalmente na esfera da produção; a cada vez a
interiorização dos hábitos digitais é referencial de adequação identitária, e constitui a subjetividade.
Esse aspecto íntimo, a profundidade do significado dos artefatos digitais e das redes internacionais de
convivência, em sua associação com a religião pode ser observado na utilização da internet para
bençãos, milagres, cultos e missas, por parte das instituições religiosas.

Os tecno-cientistas, tecnólogos, filósofos, desenvolvedores e usuários de artefatos tecnológicos, da vida


tecnológica concebem os elementos envolvidos no desenvolvimento da linguagem tecnológica e do
aparato como resultado do labor materialista da ciência. Não há causalidade mistica, espiritual, religiosa
para os objetos tecnológicos. No livro A estrutura do conhecimento tecnológico do tipo científico ,
Ricardo Takarashi refletindo sobre a ontologia dos fatos e fenômenos que envolvem a concepção,
desenvolvimento e experiência do artefato tecnológico nos diz que

No domínio do conhecimento tecnológico, poderia parecer a princípio


bastante plausível a possibilidade de sucessivas reduções ontológicas até
que todas as entidades descritas pelo conhecimento pertencesse ao domínio
das ciências naturais. O próprio processo intrinsecamente constitutivo da
gênese dos artefatos tecnológicos, necessariamente partindo de recursos
pertencentes ao meio natural, pareceria sugerir tal possibilidade. No entanto,
a existência de entidades especificamente tecnológicas, dotadas de uma
ontologia suficientemente interessante para justificar o estudo filosófico do
conhecimento tecnológico, tem sido apresentada como conjectura 4

Os dois campos de saber possuem ontologias significativas e objetos especificamente religiosos ou


tecnológico, e o casamento infeliz apontado por Derrida precisa ser melhor analisado, e também a
busca por outras formas desse casamento.

Msc. David José Tierro Ramos

4 TAKAHASHI, Ricardo. A estrutura do conhecimento tecnológico do tipo científico. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2009. pág 108
Bibliografia

–-ARMSTRONG, Alison. A criança e a máquina: como os computadores colocam a educação de

nossos filhos em risco. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001

–-BOFF, Leonardo. Atualidade da experiência de Deus. São Paulo: Conferência dos Religiosos do

Brasil, 1974

–- BORRADORI, Giovanna. Filosofia em tempo de terror: diálogos com Jürgen Habermas e Jacques

Derrida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004

–- MARCUSE, Herbert. Tecnologia guerra e fascismo. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999

–-TAKAHASHI, Ricardo. A estrutura do conhecimento tecnológico do tipo científico. Belo Horizonte:

Editora UFMG, 2009


Estilo e Infância no Desenho Animado Mr. Picles

Mas qual seriam os problemas da arte profana? Em que riscos éticos e estéticos ela
incorre? De qualquer maneira a arte precisa ser estudada, por todo o potencial humano
que está envolvido nela. Por isso pretendo analisar o desenho animado Mr. Picles,
buscando de uma forma bem suave o auxilio da filosofia e antropologia para acrescentar
elementos ao estudo científico das animações e fornecer ideias aos que pretendem
assistir ao Mr. Picles. Um texto não substitui a fruição do trabalho artístico, é um convite a
cinespecção ou telespecção críticas.

1. Questões filosóficas do desenho animado Mr. Picles

Mr. Picles é um desenho animado impecável na comunicação de crônicas surreais norte-


americanas; os movimentos labiais das personagens são muito reais e originais, nos
remetendo à presença do que é representado. Como se dá no caso de Tommy, uma
personagem com paralisia infantil, que anda com dificuldade auxiliada por aparelhos
presos às pernas, mas que é educada em uma família amorosa.

2. Estudar desenhos animados:

O antropólogo norte-americano Cliford Geertz ao analisar a arte como sistema cultural


mostra que a identidade do grupo humano envolvido com a produção da arte transcende
aqueles diretamente envolvidos com a obra, como desenhistas, roteiristas, animadores,
produtores, sonorizadores, dubladores, testadores, toda estrutura profissional capitalista
que é capaz de gerar desenhos animados comercialmente rentáveis em termos da
audiência e do consumo. A arte coordena as sensibilidades, e estas alimentam e
despertam as ilusões de sobrevivência simbólica, a arte encontra nas potências do
trabalho manual uma forma de comunicar o sentido da experiência: parar um tempo para
fazer a arte, ou apreciar a arte é uma necessidade adaptativa. O conteúdo estético dos
desenhos animados passou a ser uma forma constante de formação intelectual desde a
década de 1950 quando a televisão levou a milhares de lares norte-americanos. A forma
civilizatória dos desenhos animados encontrou a infância humana na sociedade industrial
pronta para interagir e consumir. A arte coordena as sensibilidades, e estas alimentam a
criatividade, por isso criações tão originais como Mr. Picles podem surgir. Desde o século
XX se consegue produzir desenhos animados, coisa tão sonhada por renascentistas do
século XVI como Bosch. A imagem em movimento autônomo produzida por uma máquina
criada pelo gênio humano. Para Geertz o artista tem seu trabalho envolvido com o
caminho formativo percorrido por seu grupo, por isso a produção artística encontra
envolvimento de outras pessoas, externas ao cenário produtivo. Analisando escultores
indígenas africanos Yoruba se pode traçar uma perspectiva filosófica:

A preocupação constante que estes artistas têm com a linha, e com a


formas específicas de linha, nasce, portanto, de algo mais que um prazer
desinteressado em suas propriedades intrínsecas, ou de problemas
técnicos da escultura, ou mesmo de alguma noção cultural generalizada
que poderíamos isolar e considerar como estética nativa. Ela surge como
consequência de uma sensibilidade específica, em cuja formação
participa a totalidade de vida –- e segundo a qual o próprio significado das
coisas são as cicatrizes com que os homens as marcam.1

Estudar a arte desta forma é estudar a sensibilidade, explorar a sensibilidade; que é


essencialmente uma formação coletiva, de bases amplas e profundas como a vida social. 2
Pode haver nos EUA alguma comunidade satanista que apresente o desenho Mr. Picles
para suas crianças e jovens, uma comunidade que forneça as visões de mundo que o
desenho Mr. Picles traz, ou mesmo uma sociedade que historicamente consome a cultura
satanista, como a Deep Web. A diferença da produção artística das sociedades industriais
com relação às culturas primitivas determina que o que pode ser considerado arte varie
entre elas? O desenho Mr. Picles, que retrata um cão satânico é uma apologia ao
satanismo? Uma escultura é uma apologia ao esculpir? A diferença de uma sociedade
Yoruba para os EUA em termos da produção da arte é que na América uma produção
industrial passou a ser necessária para a construção da obra; mobilizar grandes grupos
de profissionais especializados nas muitas tarefas da produção. Mr. Picles é uma
animação sofisticada e em plataforma digital suportável em computadores, celulares,
cinemas, televisores e videogames, atingindo um publico virtual muito grande. O artista
das linhas digitais de estúdios de animação profissional sofrem as pressões do mercado.
Uma obra como esta possui tamanho e longevidade mediante o apego de um número
determinado de audiência, consumo, acesso. Porém, o resultado da arte, tanto numa
sociedade africana como na industrial é o apelo à existência humana. O apelo para que
comunidades de apreciadores surjam, um apelo à coletividade. A sensibilidade é a

1. GEERTZ, Cliford. O saber local: novos ensaios sobre antropologia interpretativa. Petrópolis, RJ Vozes, 2012. págs.
99-102.
2. Ibidem.
condição, mas é também consequência da arte. O desenho animado Mr. Picles provocou
em mim um chamado de atenção às comunidades humanas que vivem o satanismo como
estética. Mr. Picles possui episódios de 10 minutos. Os 10 primeiros episódios do
desenho Mr. Picles foram publicados em 2014, no canal Adult Swin, Cartoon Network. Mr.
Picles foi criado pelos norte-americanos Will Carsola e Dave Stewart. A descrição técnica
da Wikipédia é a seguinte:

Mr. Pickles é uma série animada criada por Will Carsola & Dave Stewart
para o canal Adult Swim. A série gira em torno de Tommy um garoto de 6
anos e seu cachorro demoníaco, Mr. Pickles. Se passa na pequena cidade
de Old Town, onde mora a família Goodman. Tommy e Mr. Pickles passam o
dia se aventurando na cidade, enquanto Tommy não faz ideia da maldade de
seu cachorro, seu avô tenta provar o outro lado de Mr. Pickles, mas nunca
tem sucesso. O canal Adult Swim é conhecido por produzir "desenhos para
adultos", fazendo uso de erotismo, violência e linguagem apelativa. Essa
série gira em torno da família Goodman e seu cão chamado Mr. Pickles.
Embora o desenho seja sobre um cachorro extremamente diabólico e
psicopata (sim, ele adora mutilar pessoas), ele está repleto de simbolismos
ocultos e imagens satânicas, às vezes, escondidos em frações de segundo
na tela.

O desenho Mr. Picles apesenta uma sensibilidade específica, é um humor sem moral e ao
mesmo tempo trata das relações humanas positivas, como pai e filha, pai e filho, esposo e
esposa, o garoto e seu cão, a menina e seu gado, de uma forma amorosa, tudo isso em
um mundo relacional onde a morte engraçada existe. As cicatrizes das formas sociais
humanas se tornam marcação constante da arte, e possivelmente existe uma tradição em
arte e desenhos animados satanistas. Não é possível saber se a obra Mr. Picles é
fundamentada criativamente na crença de seus produtores, ou se possui singularmente
uma identidade tão intensa que não há necessidade de traçar a historicidade deste
gênero de animação, o macabro. O importante deste artigo é aproximar a arte das
ciências humanas, porque a aproximação da arte com a espiritualidade, e é também
possível apresentar reflexões para a imersão na animação Mr. Picles, ou, e também,
buscar discutir questões pedagógicas sobre a moralidade e a cultura. A totalidade da vida
que a arte alcança depende do grau de sensibilidade para as várias manifestações
artísticas, no sentido do que os Adultos apontam como risível, condenável, proibido,
aceitável, e que forma o itinerário da inclinação moral dos hábitos. Talvez crianças filhas
de famílias satanistas possam apreciar Mr. Picles por já viverem o universo semântico
deste grupo, como as crianças que aos milhares participavam como filhos e filhas dos
membros destas comunidades, que emergiram junto várias outras comunidades
independentes na década de 1960 como os Hyppies, os Panteras negras, a KKK, entre
outras. Assim como crianças cristãs assistem desenhos animados eticamente corretos, os
desenhos animados cristãos, é um direito eticamente justificado que as etnias possam se
reconhecer totalmente na produção artística? A perspectiva epistemológica inicial para ir
respondendo é a busca de algum caminho de pesquisa de desenho animado, ou,
comentários sobre a relevância de alguns aspectos, como a violência nos desenhos
animados. Também para argumentos da estética sobre a arte gráfica do desenho Mr.
Picles, a narrativa e a polêmica possível em torno do tema e dos heróis desta animação. A
morte engraçada existe? Mr. Picles é lançado de encontro a um senso de humor que não
vê subjetividades perdoadas em suas vítimas, todos estão em pleno processo de punição.
O cão tem um senso de justiça que o leva a punir todos os outros vilões do desenho.
Quem fizer o mal será punido pelo mal maior, é como ficaria uma frase definindo essa
justiça.

2.1. Quadro informativo sobre os episódios de Mr. Picles (Wikipedia)

Episódio Episódio
Título Dirigido por Escrito por Estreia original
(série) (temp.)

"O Grande Trabalho de Will Carsola, Dave


21 de setembro de 2014
1 1 Tommy" Will Carsola Stewart,
(2014-09-21)
"Tommy's Big Job" e Sean Conroy

Tommy procura um trabalho para poder namorar uma garota da fazenda.

Will Carsola, Dave


"Torta do Dia dos Pais" 28 de setembro de 2014
2 2 Will Carsola Stewart,
"Father's Day Pie" (2014-09-28)
e Sean Conroy

Quando a torta do dia dos pais desaparece, Tommy e Mr. Pickles vão à procura do ladrão.

Will Carsola, Dave


"Bola de Falta" 5 de outubro de 2014 (2014-
3 3 Will Carsola Stewart,
"Foul Ball" 10-05)
e Sean Conroy

A família Goodman vai ao jogo de beisebol, e Tommy espera pegar uma bola de falta

Will Carsola, Dave


"O Homem-Queijo" 12 de outubro de 2014 (2014-
4 4 Will Carsola Stewart,
"The Cheeseman" 10-12)
e Sean Conroy

A família Goodman resolve ir acampar na floresta e Tommy conhece a assustadora lenda do Homem Queijo.

Will Carsola, Dave


"Curva do Homem Morto" 19 de outubro de 2014 (2014-
5 5 Will Carsola Stewart,
"Dead Man's Curve" 10-19)
e Sean Conroy

Tommy participa de uma corrida de rolimã e Vovô descobre do que Mr. Pickles tem medo.
Will Carsola, Dave
"Dente Mole" 26 de outubro de 2014 (2014-
6 6 Will Carsola Stewart,
"Loose Tooth" 10-26)
e Sean Conroy

Tommy sai em busca de uma maneira de perder seu dente, para conhecer a Fada dos Dentes. enquanto isso o Xerife
está à procura de um grupo de pedófilos.

Will Carsola, Dave


"Noitada do Vovô" 2 de novembro de 2014
7 7 Will Carsola Stewart,
"Grandpa's Night Out" (2014-11-02)
e Sean Conroy

Vovô acorda com ressaca e depois descobre que cometeu um grande erro na noite passada.

Will Carsola, Dave


"Coma" 9 de novembro de 2014
8 8 Will Carsola Stewart,
"Coma" (2014-11-09)
e Sean Conroy

Sr. Goodman fica em coma e sonha com um mundo onde ele é o Mr. Pickles.

Will Carsola, Dave


"Onde Está Mr. Pickles?" 16 de novembro de 2014
9 9 Will Carsola Stewart,
"Where is Mr. Pickles?" (2014-11-16)
e Sean Conroy

Mr. Pickles é sequestrado por uma gangue de caçadores de recompensa que querem a sua cabeça.

Will Carsola, Dave


"O Covil" 23 de novembro de 2014
10 10 Will Carsola Stewart,
"The Lair" (2014-11-23)
e Sean Conroy

Vovô está em uma missão para descobrir o que realmente se passa na casinha de cachorro do Mr. Pickles, e provar
de uma vez por todas que não está maluco.

O guia de episódios é importante no estudo dos desenhos animados, é uma forma de


configurar uma textualidade cronológica. Quadros com o guia de episódios são
referências historiográficas. Para os fãs das séries é uma forma de organizar suas
coleções.

2.2. O Pica-Pau e a violência possível

E se as crianças assistirem ao Mr. Picles? A sociedade deve se blindar às religiões que


são fundadas na violência? Qual o nível de censura sobre desenhos animados deve
haver? Elza Pacheco publicou em 1985 um livro de estudos de desenhos animados,
focando a personagem polêmica Pica-Pau, Esta personagem era muito popular na cultura
da época. Realizava atos violentos extremos para atingir seus objetivos, como um louco
engraçado de voz irritante e inimigos tão vis quanto ele. As crianças que participaram de
sua pesquisa assistiam a episódios do Pica-pau e comentavam suas más ações. As
respostas se encaixavam na defesa da violência como necessária para as resoluções dos
problemas que as personagens enfrentavam. Por vezes o Pica-pau se travestia de mulher
sedutora para enganar e roubar ricos milionários solitários. Outras vezes apelava para o
canibalismo. A conduta da personagem foi tema de debates na década de 1980, período
em que se tornou muito popular nas grades de programação das televisões abertas no
Brasil. Assistir ao Pica-pau, ou a Mr. Picles, provocaria males à formação da
personalidade da criança ou do jovem por banalizarem o ato violento, o homicídio e a
morte? E o adulto? Para as crianças, as más ações do Pica-pau não eram percebidas
como atitudes com responsabilidades intelectuais 3. Os desenhos do Pica-pau exibidos
neste período faziam parte de lotes de produtos televisivos comprados junto aos estúdios
de animação de Hollywood, produtos da década de 1940-1960 que traziam grande
violência. Crimes, mortes, perseguições, bullyngs, trapaças, pactos com o diabo,
travestismo, eram atitudes comuns do Pica-pau, e este desenho não tinha indicação
apenas para adultos, era assistido por todas as idades. Porém como o desenho do Pica
´pau também era carregado de contradições lúdicas, cômicas, musicais, por ser um
desenho sem sangue explícito e por ser muito colorido e intenso sua mensagem era
acessível para as crianças Não era possível em 1985 a amplitude dos canais de TV por
satélites pagos a redes de telefonias no Brasil., por isso o desenho do Pica-pau era
exibido na rede aberta de TV. Quase um século depois das primeiras exibições da obra de
Walter Lentz, Mr. Picles leva uma vilania semelhante à do Pica-pau aos extremos da
pornografia, psicopatia e perversidade.

A evolução dos desenhos animados, em termos de temas, estilos e públicos aconteceu


em velocidade desde a década de 1960 onde gerações de crianças começaram a ter a
TV como co-educadora. No mesmo período houve o surgimento de muitos sujeitos
criativos que recolhem saberes das contradições da vida social e da existência para gerar
o transmudado, o que é novo, cores novas, novas personagens, como fez Robert Crumb,
desenhista cartunista e escritor de histórias em quadrinhos sobre o universo da
contracultura, psicodelia e marginalidade norte-americanas das décadas de 1950-1970.
Em 2015 a produção de desenhos animados é tal em quantidade e variedade que possui
temas dos mais cândidos aos mais graves, e pôde superar limites da moralidade que no
século XX, que eram difíceis e que fariam Mr. Picles ser proibido naquele período. Robert
Crumb teve uma reação critica severa ao seu trabalho na década de 1970 por sua

3. “(...) a não-consciência por parte das crianças da responsabilidade intelectual de quem planeja as más ações, o que é
natural em termos da idade das crianças, pois tal consciência implica um nível mais reflexivo e racional que leva à
identificação da origem do problema”. O consumo de TV na d´cada de 1980 aumentou muito, e a média de uso chegava
a 40 horas semanais, tendo o desenho animado como gênero preferido.PACHECO Elza. O Pica-pau: herói ou vilão?
São Paulo: Edições Loyola, 1985. pág. 229.
liberdade moral das suas personagens, e críticas também referentes ao estilo; imperfeito
e visceral, como é o estilo de Mr. Picles. As cenas de satanismo no desenho do Pica-pau
eram raras mas havia momentos diabólicos da personagem: os dois elevadores, um que
subiam para o céu angelical e outro descia para o inferno ardente, eram imagens
constantes da cosmologia do Pica-pau. Neste momento da reflexão percebo que um
desenho animado estará sempre na fronteira entre a infância e a maturidade. Pica-Pau é
um desenho abertamente destinado às crianças, seus episódios violentos do pós-guerra
foram banidos e a partir da década de 1990 as produções animadas da personagem Pica-
pau passaram a obedecer muito rigorosamente uma ética judaico-protestante. Para
assistir a um desenho como Mr. Picles é preciso pacificá-lo? Compensa
epistemologicamente se colocar diante de uma produção profanadora, mesmo que
comicamente? O desenho animado Mr. Picles poderia ser um objeto visual da cultura
como os demais apenas por ser arte, mas a temática incomoda o senso religioso de
grande parte da população. Talvez Mr. Picles tenha sido realizado para o que Geertz
chama de prazer desinteressado em suas propriedades intrínsecas, seja apenas
entretenimento. A questão primitiva, que liga os produtores de Mr. Picles ao artesão
africano é a decisão sobre o que é politicamente correto e o que é esteticamente correto.
A sensibilidade excessiva pode nos levar à ditadura do politicamente correto, que impede
a ação pedagógica, educacional, educativa da deformidade.

2.3. Tragédia para se ver

E se o mal criou o bem? Mr. Picles é completamente dionisíaco, e sua grande perversão é
não se revelar para os membros da família! Fazer o mal escondido. Diante do casal e do
pequeno Tommy Mr. Picles é um animal normal, dócil, “goodboy”. Uma animação em
geral provoca grande curiosidade de crianças. Mr. Picles possui formas lúdicas nos
traços, musicalidade infantil e tem o cãozinho de uma criança de seis anos com paralisia
infantil. Qual é a infância que se pode ver em um desenho animado como Mr. Picles? As
crianças são personagens presentes nos 10 primeiros episódios da franquia, que é
destinada a adultos, comercializada em sistemas de cobertura de TV e internet que
garantem senhas para selecionar usuários por faixa etária, portanto manter a série
distante de quem não tem idade. Os 10 primeiros capítulos possuem todo o peso cultural
que causa incomodo moral mas que guarda luz e intensidade criativa. Talvez os futuros
episódios amenizem o tom sombrio. Por isso é bom um debate sobre o estilo do desenho
Mr. Picles, sua tragédia (seu desconforto e brilhantismo) e a infância proibida de acessá-lo
em sua significação, humor negro, referências a lógicas adultas de sexualidade, prazer, e
dinheiro, mesmo que as personagens principais sejam um menino e seu cachorrinho.
Apresento a análise falando brevemente dos episódios 2 e 3, descrevendo as polêmicas
morais, a tragédia da trama e elementos simbólicos. O leitor pode assistir aos episódios
em vários idiomas publicados na rede mundial de computadores, a internet, ou assinar os
canais que disponibilizam a série Mr. Picles. O estilo da animação Mr. Picles foi
enriquecido na década de 1990 por duas obras importantes; Os Simpsons e South Park,
desenhos animados com imensa liberdade moral e capazes de fazer criticas estruturais
sobre sexo, política, religião, família. Ambos são desenhos para adultos que utilizam
crianças como protagonistas e muitas vezes contam para os adultos o olhar que a criança
possui sobre a realidade: o mundo é quase sempre infantil, e no sentido dos adultos o
mundo é infantil negativamente no sentido das fixações pulsionais primitivas como inveja,
perversidade polimórfica, dissimulação, fobias, incapacidade de autocrítica. As animações
atuais, os desenhos animados do século XXI estão envoltos em produções multimídia e
multimercadológicas. Um desenho de sucesso promove bonecos, mochilas, capas de
caderno, livros, quadrinhos, bens alimentícios, jogos de computador. Os Simpsons assim
como South Park realizaram tudo isso. Mr. Picles segue a mesma linha psicodélica e
surrealista destas duas obras, o estilo caricatural destes desenhos animados contrastam
no século XXI com o realismo fotográfico de obras como Superman, Batman, Os
guardiões da galáxia, X-men, entre tantos, que buscam se parecer ao máximo com a
realidade. A liberdade estética do estilo cartoon, de formas arredondadas, excessivamente
coloridas surge em Mr. Picles, que é um ótimo produto, uma ótima mídia, rica em
originalidade e excelência gráfica. Mr. Picles é um desenho com criança que não é
dirigido à criança. A tragédia do desenho Mr. Picles é não ser alcançada pelas crianças da
sociedade contemporânea, por causa do forte tom adulto, uso de expressões e links com
situações, personalidades e fenômenos universais e densos, as questões morais e
imorais de Mr. Picles tem a ver com a inocência e generosidade de Tommy, da criança
protagonista. No desenho Mr. Picles todas as personagens da família possuem um
enredo próprio, apresentados paralelamente. Há sempre as atrocidades do cachorro, e
Tommy esta constantemente envolvidos com temas amorosos, como a primeira
namoradinha metafísica, o dia dos pais, o jogador de baseball preferido, o livro de estórias
preferido, a fada dos dentes. Um mundo de confiança, ingenuidade, gratuidade, fantasia,
que deve ser comum às crianças de seis anos de idade. Porém seu cão é mau. Ele é o
mal. Porém, mesmo sendo assim, Mr. Picles protege Tommy e colabora em muitos
momentos para a manutenção do mundo de fantasia da criança. O diabo gosta de
crianças? Como pode um cão psicopata ter sentimentos de amor ao seu dono?

3. Desenhos cristãos, Heavy metal e desenhos japoneses

A cultura religiosa dos países do oriente tive percurso simbólico diferente se comparada
com o mundo helênico, romano, abraâmico que influenciou as idéias sobre o mal e seus
arautos no ocidente. A forma de cabra que o demônio cristão possui pode se referir aos
cultos profanos em endeusamento do sexo que os discípulos de Dionísio realizavam na
Grécia cinco séculos antes de Cristo, e o bode é muitas vezes apresentado como imagem
daquele deus grego por sua ferocidade, fertilidade e força. Diferente dos desenhos
animados do ocidente cristianizado, os desenhos animados da cultura japonesa
constantemente fazem referência a demônios e diabos. A estética satanista na literatura e
pintura no ocidente deve muito a influência de Dante Aliguieri (1265-1321) e Hieronymus
Bosch (1450-1516), que a partir do cristianismo estabeleceram suas Sociologias do
Inferno, apresentaram com potência artística suas descrições do tormento pós-morte dos
maus e dos ocupantes do submundo infernal. O livro Inferno de Dante, do século XIV e as
pinturas religiosas de Bosch, os sete pecados capitais, o jardim das delícias e o juízo
final, trouxeram a um mundo sem cinema da idade média as imagens e descrições do
suplício que aguardava as almas maléficas humanas. A figura do diabo está presente e
sua representação é sempre animalesca e agressiva. O imaginário medieval acrescenta
da maneira cristã a descrição da personalidade do mal e seus símbolos. Muitas seitas
baseadas nesta estética dantesca e boschiana surgem e são combatidas pela inquisição
até a modernidade, porém os símbolos do satanismo passaram a fazer parte do
imaginário popular. O diabo no cinema, na televisão do século XX é amenizado de suas
características agrícolas do século VI a.C. e idade média. Ele surge com terno e gravata,
geralmente muito belo, sedutor e insinuante. O mal do século XX são os comunistas, os
nazistas, os nipônicos, os capitalistas, os industriais, os xiitas, novas formas infernais com
bigodinhos curtos ou grossos, turbantes ou óculos de militar, os destruidores e
desmembradores de corpos humanos. Outro fenômeno que incrementou esteticamente a
imagem do mal, a partir da segunda metade do século XX foram os serial killers, que
encontraram na audiência televisiva um espaço para a narrativa de suas atrocidades,
chocando, maravilhando e colocando em dúvida o conhecimento da biologia da
crueldade, da neurologia e psicofisiologia dos comportamentos criminosos. O Partido
Nacional-Socialista alemão, promotor do nazismo realizou na vida social da Alemanha
entre 1933 a 1945 o grande inferno do controle ideológico, e nos campos de extermínio
realizaram atos de absoluta crueldade: as formas de matar um ser humano se ampliaram
com grande criatividade, na realização dos objetivos bíblicos proféticos sobre a evolução
do mal. No cinema do século XX o mal e o diabo são temas de muitas produções, na
década de 1960 e 1970 muitos filmes sobre satanismo e possessão demoníaca são
lançados com grande audiência como o Bebê de Rosemary (1968) e o Exorcista (1973).
Em 1969 um grupo de satanistas liderados por Charles Manson invadiu uma residência
em Los Angeles e matou 4 pessoas com facadas, estrangulamentos, decepamentos. As
paredes da residência foram pintadas com pentagramas satânicos, idênticos aos que
aparecem o tempo todo no desenho Mr. Picles, cá no século XXI. Os satanistas do século
XX praticaram atos mortíferos e macabros, que vão para as páginas policiais, como os
assassinatos de jovens em cemitérios da cidade de Ouro Preto no Brasil na década de
1990. Em vários estados norte-americanos há religiões satanistas, e a busca por
legitimidade desses movimentos tenta se afastar do ideal assassino historicizado no
século 20 e se aproxima, ao menos em Mr. Picles, da dimensão do lúdico, do cômico, do
gore. Gore é um tipo de estética marcado pelo excesso de sangue, em filmes, animações,
teatro, videogame, quadrinhos, literatura; é um gênero que tem o sangue humano como
objeto de expressão das narrativas. Filmes de terror com muito sangue cenográfico da
década de 1970 foram os precursores desta tendência. Ha um deslumbramento, um
pânico, uma aflição associada à cinespecção do movimento gore, porém ao mesmo
tempo o caricaturismo dessas imagens, o excesso, o exagero promovem o alívio cômico;
o corpo humano apresentado nesses filmes possuía muito mais sangue do que o
possível. Em muitas cenas dezenas de litros de tinta vermelha eram usados na figuração
da morte de uma única personagem. Outra característica do gênero gore adotado no
desenho Mr. Picles é a inexistência de sensibilidade diante da dor humana, os gritos de
dor, de desespero, de angustia são intensos no desenho. Na cidadezinha das
personagens acontecem brutais assassinados executados por Mr. Picles, que é um tipo
de Satanás, figura bíblica do mal que se somou em sincretismos e passou a ter
longevidade simbólica cristã, participa de várias cosmologias espirituais, vive no mundo
dos humanos se associando a eles: Mr. Picles é cuidador da criança da casa onde vive,
Tommy, talvez até seu pedagogo.

Uma figura que constantemente surge na narrativa deste desenho é o diabo com formato
de bode. Na introdução, nos rituais que surgem, nas paredes do labirinto de cavernas que
fica embaixo da casinha de cachorro. Sempre que Mr. Picles revela sua personalidade
demoníaca uma música de rock pesado fica ao fundo, e ele vai cometendo seus
assassinatos. Porém, as outras personagens reagem passivamente ao mal que se instala
na cidade de Old Town (cidade velha), onde vive Tommy e sua família, porque o mal esta
escondido na normalidade, atrás de coincidências, simulacros, mal-entendidos,
alucinações. Como tem finalidade cômica, as personagens de Mr. Picles ficam imersas
em suas idiotias pessoais e tratam a morte com banalidade, numa cidadezinha tão
pequena que tem uma avenida apenas. O filme Coração Satânico (1986), de Alan Parker
descreve a atmosfera da imersão religiosa marginal de uma cidade pequena no interior
norte-americano em que animais, danças, sincretismos, hábitos, rituais de satanismo
acontecem. A estética deste filme tem traços do ambiente que Mr. Picles quer representar,
de alguma forma algo precioso da cultura dos EUA; uma cidade pequena, patriota,
perdida ao redor de rodovias, com pessoas singulares ao extremo. No caso de Mr. Picles,
o diabo encarnado e vivendo entre eles. Ha também em Old Town muitas montanhas de
pinheiros, rios, animais selvagens e tribos indígenas em disputas por terras. Ao fazer a
pergunta sobre a religiosidade implícita no desenho Mr. Picles também somos levados a
perguntar sobre a eficiência de desenhos animados cristãos. Um desenho animado que
afirme positivamente uma religiosidade é perigoso eticamente? Um desenho cristão é tão
perigoso quanto um desenho com temas satanistas? Trata-se sempre da massificação da
ideologia de um sistema? Devem ser restringido?

Os gêneros musicais formam outro campo onde a religiosidade positiva e negativa


ganham conflito. Um exemplo é a forma como o muçulmanismo, que guarda com o
cristianismo a origem abraâmica trata o tema do satanismo em sua cultura no século XXI.
Grande parte do terrorismo é uma espécie de luta contra o mal na ótica dos mais
fanáticos histéricos Os muçulmanos radicais admitem uma quantidade de símbolos que
se referem ao mal, ao universo do demoníaco, muito semelhante aos cristãos. No século
XX foi criado um estilo musical que elegeu temas demoníacos e satânicos como conteúdo
de muitas tendências, o Heavy Metal. O Heavy Metal é o estilo musical do tema de
abertura da série Mr. Picles, com as vozes cavernosas, as baterias frenéticas e as
guitarras como abelhas a zunir e ferroar, este estilo de música é censurado em muitas
partes por sua inclinação a uma estética proibida, mórbida. No início de 2017 houve a
seguinte notícia:

Quem lida com heavy metal – em cima do palco como profissional ou na


plateia apenas como espectador – sabe muito bem o quanto a intolerância
religiosa chegou a níveis alarmantes nos dias de hoje em escala global. Por
isso, não recebi com surpresa a notícia de que os integrantes do Krisiun e do
NervoChaos foram abordados por agentes de segurança do Aeroporto
Internacional de Hazrat Shahjala na cidade de Daca, em Bangladesh na
madrugada de ontem. Consigo imaginar o pânico das duas bandas brasileiras
com a possibilidade de prisão pela acusação de “satanismo” por parte das
autoridades locais. Imagine você mesmo, em um aeroporto do outro lado do
mundo, procurando a sua bagagem na esteira rolante, sendo abordado
repentinamente por policiais, que confisca o seu passaporte e o acusa de ser
“discípulo do Cramunhão”. Foi exatamente o que aconteceu com os
integrantes dos dois grupos.
(Regis Tadeu, Yahoo notícias, sobre fato ocorrido em 10/05/17)

Que mundo devemos apresentar a Tommy, uma criança de 6 anos? Qual mundo uma criança
nesta idade comporta em seu desenvolvimento e saúde psicossocial? Mr. Picles não é um
desenho animado fácil para uma criança, ou mesmo qualquer pessoa adulta assistir. É uma
obra de arte carregada de excelência artística em seu estilo, de tragédia pelos temas
abordados e de reflexões sobre o mal, as singularidades, a infância, por isso, mesmo sendo
uma produção recente, 10 episódios (até 2017), têm relevância para estudos sobre cultura de
desenhos animados, filosofia e pedagogia. A seguir apresento argumentos e justificativas
para a telespecção crítica do desenho animado Mr. Picles, publicado em 2014 e disponível
gratuitamente no site Youtube. Inicialmente pode ser considerado como exemplo de arte
profana.

A evolução dos desenhos animados no século XXI trouxe obras de grande qualidade e de
temáticas variadas. O desenho animado Mr. Picles mostra com muita criatividade,
surrealismo e psicodelia as crônicas de uma família norte-americana do interior, que vive o
polimorfismo das subjetividades loucas e marginais, e que tem como animal doméstico um
demônio travestido de cão de estimação. Sendo um desenho animado para adultos, Mr.
Picles aborda a criança e a infância nos deixando perguntas éticas.

3. Referência Bibliográfica
–- ALIGHIERI, Dante. A divina comédia: Inferno. São Paulo: Cedic, 2001.
–- CRUMB, Robert. Whiteman. Revista Grilo n. 26, ano I. São Paulo: Arte & Comunicação Editora, 1972. págs 35-38
–- GEERTZ, Cliford. O saber local novos ensaios sobre antropologia interpretativa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.
–- PACHECO Elza. O Pica-pau: herói ou vilão? São Paulo: Edições Loyola, 1985.
–- RUSSEL. Bertrand. História da filosofia ocidental (vol.II). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.
Investigação Paranormal

O Psicanalista Nikos Kazantzakis, nascido na Grécia, e residindo em Bósforo, atendia


seus clientes no prédio em frente a Praça da Estação. Era um Edifício público que
alugava salas. Ele alugou uma sala, colocou seu nome na porta e a inscrição de
Psicanalista. Apesar de velho, já com seus 42 anos de idade, ele tinha acabado de se
formar em Psicologia pela Universidade Federal. Abriu a janela do seu novo consultório,
ficava com a vista maravilhosamente de frente para o Porto e a Ponte da Península, que
tinha 2 km de extensão e ficava sobre o mar, sendo alta o suficiente para as maiores
embarcações atracarem com mercadorias de toda Ásia. A Cidade de Bósforo tinha
segundo os Arqueólogos uns 5 mil anos, desde as primeiras ocupações humanas, cerca
de 3000 a C. A descoberta e desenvolvimento da Tecnologia do cobre, a fundição do
metal, as amalgamas, as significações, as artes e mecânicas do processo de derretimento
do metal, tinha sido estabelecidas em oficinas ali mesmo, em Bósforo, e essa cultura
trouxe fama e riqueza para a Cidade. Essa era uma parte da História da Cidade.
Kazantzakis foi até a pequena estante onde armazenava a coleção das obras de Freud.
Por entre os prédios e nós! Pra gente ver o que sobrou do céu! –- pensou Nikos.
Cantando na cabeça a música religiosa, seu mantra, olhou a sala, havia realmente algo
esquecido ali naquela sala por muitos seres humanos. Eles iam até ali, naquela sala, e
esqueciam coisas, deixavam coisas no chão, memórias, traumas, medos e preconceitos,
era um lugar de muitos segredos caídos no chão. –- graças a Deus –- pensou Nikos. Sua
religiosidade contrastava com a sua profissão, porém ele seguia o método freudiano à
risca, observando todas as compreensões energéticas e até matemáticas dos gráficos
das forças libidinais e conflitos orgânicos causais da maioria dos transtornos. A cidade de
Bósforo no inverso amanhecia tarde o sol aparecia pelas 7;00hs da manhã e a noite
chegava mais cedo às 17:00hs. Naquela região da Europa o clima invernal era duro, as
madrugadas muito longas e muito frias, mas o sistema de saúde da cidade era ruim, a
pobreza espiritual era grande, e a pobreza material também. Realmente era difícil
encontrar clientes para sua Clínica, mas depois de alguns anos ele pode divulgar seu
trabalho e naquele ano ele tinha sete clientes. A média das consultas era uma vez por
semana, alguns faziam duas consultas por semana, com o tempo mínimo de 50 minutos.
Nikos não receitava farmacoquímicos e nem podia, seu diploma era absolutamente
filosófico, com estágios na faculdade de Medicina, mas sem nenhuma matéria de química
farmacêutica. Porém ele receitava chás. Tinha um pequeno catálogo de plantas
medicinais que podiam ser encontradas com facilidade no mercado central de Bósforo,
que recebia fluxo comercial de muitas cidades menores pois era a Capital. E Nikos
indicava Camomila e Carqueja todas as manhãs. As pessoas do Oriente são
acostumadas com os chás. Desde crianças as bebidas quentes e amargas muitas vezes
são usadas mesmo pelas crianças, e principalmente pelos idosos. Bósforo recebia
influência de muitas pates do mundo, e naquela época as pessoas urbanas procuravam
formas de cura para além da Religião. No interior o monopólio era religioso, o péssimo
sistema de saúde e os péssimos médicos brasileiros que trabalhavam na cidade geravam
um sistema duvidoso. Os enfermeiros do Brasil eram formados numa ótica capitalista e
privilegiavam tratar com qualidade apenas a elite branca rica da cidade. Havia muitos
problemas sociais, Nikos sabia, e ele trabalhava com aquela parcela sofredora da
sociedade que acredita que pode resolver sem deus seus problemas. Por isso ele não
apresentava nenhuma resposta religiosa aos problemas, mesmo sendo um cristão
apaixonado por Jesus Cristo. A essência do cristianismo é o apaixonamento por Jesus
Cristo, uma condição amorosa que ele sabia ser em parte uma fantasia sexual mal
resolvida, ou ao menos com sérios problemas do ponto de vista da Clínica como o
fanatismo, a autodestruição, a escravidão aos sistemas religiosos, etc. Por isso se
aproximar do método de Freud durante o curso de Psicologia o fez se sentir melhor além
de lhe dar uma nova profissão. Com seu diploma na parede da sala de atendimento, ele
passava o tempo de trabalho lendo. Na hora marcada esperava o cliente bater na porta e
entrar. Tinha sido professor primário desde a juventude e se aposentou cedo para buscar
novos desafios profissionais. Foi muito importante seu trabalho com crianças no ensino
fundamental da escola pública pois teve contato com as pessoas do povo, e são estas
pessoas que constituem um país –- pensou ele. A elite, os ricos são minoria, eles
possuem a impressão de que dominam, controlam a sociedade, mas é a vida simples e
comum de um indivíduo submetido à fome e à miséria existencial de não ter nenhum
reconhecimento social que define os rumos da vida social como um todo pois os pobres
são a maioria. É com os Pobres que Deus dialoga pois no fim todos morreremos, e nem a
fama ou a notoriedade irá nos fazer existir novamente depois da morte física. Nikos
acreditava com toda as forças na eternidade da alma humana, ainda que com
pensamentos diferentes e percepções diferentes. Para ele todos nós manteremos uma
memória inesgotável dos acontecimentos que tivemos nesta vida, mesmo que de breve
vida terrena. Como Leibniz ele concebia a existência humana como finalidade jornalística
da razão eterna de Deus; o ser humano foi criado para conversar com Deus; um pequeno
boneco de carbono e hidrogênio dotado de autopercepção e voz, criado para orar, rezar,
cantar, louvar, se comunicar com uma inteligência imaterial e matematicamente infinita.
Leibniz dizia que Deus criou o homem para ser o narrador das façanhas cósmicas do
Criador, realmente uma finalidade jornalística para dizer a Deus quem deus é. As
Primeiras versões da Bíblia impressa em Inglês no século XVI chegaram a Bósforo em
1700, antes disso apenas os padres possuíam conhecimento bíblico e em latim, língua
romana propagada desde o Império Romano do Oriente. Os Bosforenses deviam aos
romanos a ideia da ponte. Antes eles tinham que atravessar com balsas e embarcações
mercantes aquela corrente de mar, aqueles dois quilômetros de água que na antiguidade
separavam drasticamente povoamentos humanos dos dois lados. Do lado de lá, era o
caminho de terra até a China, a Índia, o Paquistão, a Tailândia. E, de Bósforo para trás,
era caminho de terra até a Itália, Grécia, Malta, URSS. O caminho de um extremo a outro
passava por Bósforo, e pela Ponte sobre o Oceano muitos caminhões transportavam pela
BR 101, e o asfalto estava desgastado, e havia muita poeira. Nikos fechou a Janela, era
um horário de trânsito intenso debaixo de sua janela. Puxou as cortinas e se assentou do
lado da poltrona. E imediatamente três batidas fortes na porta anunciavam o primeiro
cliente. Era 9:00hs da manhã, daquela manhã fria e sem sol de inverno. Abriu seu
catálogo com a agenda de cada paciente, onde ele escrevia nas datas das consultas suas
impressões e perspectivas sobre os clientes. Era quase a hora do primeiro do dia. Uma
mulher.

1. A Mulher Diaba

Tinha 27 anos, era extremamente obesa, muito branca, cabelos pretos, longos, mas
sempre estava descabelada, olhos grandes, pretos, sempre arregalados, sobrancelhas
grossas unidas na testa, era um rosto de mulher, mas tinha pelos miúdos em vários
pontos, seu nariz era muito bel, imenso, mas desenhado a mão, uma pintura. Gordamente
ela entrou no escritório. Kazantzakis a recebeu com um afetuoso bom dia, e a gorda co
cara de monstra e boca de chulapa foi até o divã e se deitou. Respirou fundo. E começou
imediatamente a falar. Tinha os dentes tortos, mas a boca era de chulapa mesmo. As
pernas grossas, e não tinha calcanhar, tamanha massa de gordura que chegava aos és,
sempre inchados. Era muito inteligente para matemática, quase uma superdotada.
Arregalava os olhos e respondia contas difíceis formuladas ao acaso em poucos
segundos. E sempre foi alvo de piadas desde a época que desenvolveu a feiura.
Apelidaram-na de “mulher diaba” na comunidade onde ela morava, na escola, na
faculdade, na igreja, na padaria.

2. Não pode muito: tem que ficar com o que puder

Mesmo sem emprego, sem trabalhar ele ia, o cliente, o paciente. Arnold o cliente das
16:00hs era um paciente, não um cliente, pois estava sem pagar as consultas já ha
alguns meses, de acordo com a situação Nikos propôs a ele que continuasse, mesmo
sem pagar, quando Arnold foi demitido de seu emprego na siderúrgica da cidade. Era um
operário que começou a ler Marx em 1925, naquela febre que os textos dele causaram
nas pessoas. Os livros com traduções populares pipocavam e as pessoas começaram a
entender que a riqueza da elite era sustentada pelo valor que não retornava como salário
justo ao trabalhador. Na Europa a jornada de trabalho era de 14 horas, eles pegavam as
5:00hs e Arnold fazia parte do sindicato que infelizmente perdeu a batalha e uma massa
de pessoas, umas 342 pessoas, ficaram sem salários do dia para a noite, e o salário já
era pouco, já mantinha na linha da miséria as famílias, em geral de 9 membros, eles
tinham muitos filhos sim, e dai? Era isso pois era o amor à vida e ao sexo, e a alegria de
ter uma família grande era uma tradição do interior do Estado pois lá na roça as crianças
morriam muito cedo e ter muitos filhos garantia que algum chegasse a idade adulta.
Arnold tinha 5 filhos. Quando voltou da grande fábrica, onde aconteceu a assembleia dos
trabalhadores em que foi lida a notificação da empresa demitindo aquelas 342 pessoas.
Era 1925, o cinema era uma novidade nas ruas daquela cidade da Turquia, o governo que
se seguiu ao final das batalhas que destruíram completamente aquela cidade de Bósforo
em 1916. Era um milagre que aqueles muros voltassem a separar um quarteirão, ou que
prédios novos fossem construídos, e áreas verdes foram replantadas, e agora em 25, era
um tempo de Paz. Nikos recebeu Arnold, ele entrou, tirou o chapéu, segurou nas mãos e
entrou, se assentou. Era um tipo de psicótico, por isso Kazantzakis pedia para que ele
não se deitasse, temendo delírios. Preferia a entrevista de olhos nos olhos com Arnold.
Com a Mulher diaba era bom que ela se deitasse pois era extremamente forte e funcional
e ela sim precisava do delírio para poder se desarmar. Nikos abriu a agenda daquele
paciente e anotou a palavra “bom”, por que era bom que aquele homem europeu
desempregado e com uma prole grande em plena sociedade industrial. Arnold era a
imagem de um guerreiro derrotado, um frouxo, um preguiçoso, um deprimido, tudo isso
aconteceu com ele quando ele perdeu seu emprego, virou cachorro da sociedade, uma
entidade canina são os desempregados a partir de 1925.

3. Passar os dados do Pen Drive para o Tablet

O terceiro paciente da semana se apresentava como Jean Paul Sartre. Era muito jovem, e
Nikos Kazantzakis resolveu aceitá-lo para tentar uma terapia que pudesse ajudar o rapaz
e ao mesmo tempo ter um cliente fixo. Kazantzakis tinha se formado em Filosofia e
Psicologia em Atenas, na Grécia. Viajou para a Turquia para exercer a clínica
psicanalítica, obteve uma autorização para exercer a psicologia clínica naquela cidade da
fronteira e fi morar ali. Isso já ha muitos anos, agora era um cidadão Turco e realizava o
seguimento de Sigmund Freud, inclusive Nikos estava frequentando aulas na faculdade
de Medicina da Universidade da Turquia em Bósforo para poder compreender melhor as
aporias médicas e biológicas de Freud. Os textos de Freud sobre a morte tinham
impressionado muito Nikos, e ele sim, aceitou o jovem. No mundo mágico e feliz todos
podem se compreender e todos os idiomas têm tradução simultânea como no Brasil, onde
os cidadãos são capazes de comunicação mental, e os brasileiros conseguem ler os
pensamentos uns dos outros, e sabem muito bem o que o outro brasileiro pensa, e vice-
versa. Era uma capacidade intelectual surgida da mistura de quatro raças: o índio, o
branco, o negro e o alienígena. Havia a quarta raça e os alienígenas estavam infiltrados
entre os brasileiros com o DNA sendo trocado e retrocado e então chegou ao ponto de
todos os habitantes daquelas terras bem ao sul, o Brasil, serem capazes de se comunicar
apenas com o pensamento. Mas isso só aqueles portadores da eugenia brasileira, da
mistura do material genético. E o que eles pensam coletivamente? Eles pensam e trocam
estes pensamentos o tempo todo, eles pensam que a natureza do continente brasileiro
não é justa. Eles pensam assim “não existe justiça mesmo, nenhuma justiça é possível. O
Brasil é um Estado Republicano fundado em 1889 no Rio de Janeiro. A partir desta data e
através de uma reorganização política o Brasil começou a surgir como uma história
iniciada pelos Sambaquis em 4000 a C. Mas os pesquisadores do Exercito Brasileiro em
1888 compreenderam que estabelecer uma nova cultura era importante. E com a Abolição
da Escravidão naquele ano, ou seja, com decretos Humanistas que impedem a
comercialização de seres humanos em terras brasileiras, seja para pretos e brancos. A
comercialização de índios estava proibida em Minas Gerais desde 1792. Mas os Pretos
eram vendidos nas praças de Ouro Preto mesmo com a maioria dos países tendo
assinado acordos de fim do trabalho escravo humano. Um sentido de humanidade
começou a ser estabelecido, e progressivamente foi gerada a ONU, a Organização das
Nações Unidas. Jean Sartre entrou. Era o cliente das 17:30 das terças e das quintas-
feiras, ele era jovem e tinha uma mente tumultuada. Era filho de ricos comerciantes e
viajava com os pais pela Europa. Mas aquela tragédia aconteceu, sua mãe foi
assassinada e ele teve uma grande destruição interna pela raiva, pelo medo, pela
angustia, seu mundo se partiu ele começou a ter crises de gritos, ele começava a gritar.
Colocava as mãos nos ouvidos e gritava com todo pulmão. Fazia gritos repetidos, quando
o folego se recompunha. E as crises começaram a acontecer em muitos lugares, até que
um dia ocorreu na Sinagoga que Sartre frequentava com seu Pai, o viúvo. O crime
bárbaro aconteceu em Belo Horizonte, a cidade capital de Minas Gerais, no Brasil,
fundada em 1897 para ser uma cidade industrializada e centralizadora do Estado com
rota para todas as cidades. A mãe de Sartre foi sequestrada e morta, encontraram o corpo
dela nas margens do Rio Arrudas cinco dias depois. Desfigurado. O jovem Sartre foi ao
velório. O caixão ficou fechado pelo estado brutal que o corpo da mãe foi achado. Ele
ficou de pé diante do caixão, Olhando. E Rezando.

–- você acredita que a morte da tua mãe poderá ser superada? –- Kazantzakis perguntou
–- não sei. Mais pela violência, pela forma monstruosa que os assassinos agiram. Eu
creio que não poderei superar isso. –- respondeu Sartre.

Kazantzakis ficou em silêncio. Era a pergunta que ele fez para girar a roda. Para girar o
moinho, e deixar o jovem trabalhar. Ele estava pagando aquela hora de 50 minutos, então
aquele mecanismo tinha que dar certo –- pensou Nikos. Ajeitou os óculos, olhou pela
janela, e via a bela Bósforo, ao longe a fumaça da siderúrgica, e os prédios, as colinas, as
avenidas, os automóveis. Bósforo já tinha automóveis em imensa quantidade.

–- isso não me atinge. –- disse Sartre


–- 32 é você? –- perguntou Kazantzakis. Sartre tinha 335 personalidades diferentes. Elas
se repetiam, várias vezes ao dia, se permutavam, cada uma tinha certo controle sobre o
corpo e algumas era as dominantes, tomando quase todos os dias do ano para elas. 32
era uma das mais dominantes.
–- quanto tempo Dr. Kazantzakis? É bom falar com o Sr., outra vez esta oportunidade,
justamente em uma seção, novamente em situação clínica, né? –- disse Sartre
–- como você responde à morte da mãe? –- perguntou Kazantzakis
4. A casa das Sete Mortes

Nikos Kazantzakis apagou a luz do consultório. Tinha realizado os encontros daquela


quinta-feira. Eram três clientes na quinta, entre 13:00hs e 19:45hs. As vezes, pela
necessidade da ocasião ele estendia as seções. O último paciente ficou no consultório
das 18:00hs até as 19:30hs. Era um relato tão duro e doído que Kazantzakis não
interrompeu. Deixou o cliente falar, escutou até a última gota de palavras e de lamentos e
de choro apagou a luz, fechou a chaves a gaveta, saiu, trancou a porta, olhou o corredor.
Ali funcionavam muitos escritórios, era um prédio comercial, mas pela noite ficava vazio.
Nikos caminhou pelo corredor. Uma paisagem sinistra. Muitos advogados judeus tinham
sala ali naquela andar. A hostilidade contra o povo judeu era grande em Bósforo.
Homossexuais, Pretos e Judeus eram as minorias mais perseguidas pelos chefes
religiosos cristãos e os muçulmanos também. Era um conflito severo que envolvia as
ideologias de controle da sexualidade humana, teorias e formas de controle da vontade e
capacidade de fazer sexo. Nas paradas LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e
Transsexuais) os clérigos radicais também iam para as ruas e levavam as bíblias e outros
livros sagrados e as vezes havia conflitos físicos e a polícia turca chegava com sua
brutalidade famosa mundialmente.

–- coisas que acontecem também no Brasil –- disse uma voz. Kazantazkis estava
descendo as escadas, voltou ao corredor, a voz vinha de lá, e não havia ninguém. Olhou
preocupado, talvez alguma pessoa perdida ou em apuros.
–- os casos de violência polícia aqui em Bósforo são típicos de lugares como o Brasil.
Essa identidade entre culturas repressivas é isso mesmo! –- continuou a voz. Kazantzakis
tremeu de medo, ficou cheio de calafrios e com um grande medo da morte, do
sobrenatural, seus olhos não viam nada, mas ele escutava uma voz vindo de algum ser,
de alguma inteligência, e vinha do corredor, e ele caminhou pelo corredor escuro,
iluminado pela penumbra das luzes da rua que chegavam pela grande janela no final do
corredor, e ele foi até lá, tentando encontrar a fonte da voz. Caminhou lentamente com o
coração cheio de medo. Passou pela porta de seu consultório, continuou caminhando. E a
voz novamente falou:
–- você não conhece o Brasil, nunca ouviu falar, talvez apenas saiba que Portugal teve
muitas colônias espalhadas pelo globo do século XVI até o século XX, e talvez saiba que
o Brasil era uma dessas colônias, mas você não sabe o que significa a palavra “Brasil”
–- quem é você?! –- perguntou Kazantzakis incrédulo por aquele fenômeno estar
acontecendo, uma voz vinda no nada, de outro lugar, se materializando ali em seus
ouvidos. Nikos se voltou para a porta fechada de seu consultório, e a voz vinha de lá.
Caminhou até ela. Chegou perto, sentiu o frio no pescoço;
–- eu vou para o Brasil –- disse a voz. Era uma voz pesada, dura, triste. Kazantzakis
reconheceu a voz!
–- é você 32? –- perguntou diante do vulto negro que se formou ali mesmo naquela porta,
adquiriu uma forma humanoide, com mãos e cabeça e perna, mas continuou como um
vulto escuro e sem rosto.
–- sim, sou eu! –- respondeu tenebrosamente o vulto! Kazantzakis caiu de joelhos, as
pernas tremiam e ele arregalou os olhos, num medo tão grande e tão terrível que seu
coração disparou e começou a doer e ele achou que estava tendo um infarto!
–- eu vou para o Brasil, vou morar na casa das sete mortes! –- disse o vulto, como se
tivesse muita dificuldade para falar, como se as distâncias entre as várias dimensões que
compõem a realidade estivessem tão distantes umas das outras que era impossível estar
ali plenamente. O vulto estava perto de Nikos, do lado dele, e Kazantzakis pode sentir
todo o frio da morte, toda a presença do fim inexorável das criaturas vivas, como se ela
estivesse ali presente. E o sangue de Nikos gelou, ele estava se aguentando, olhava para
o vulto com tanto pavor que tremia, tremia!
–- eu estive dentro do corpo de Sartre, eu, vários demônios, e várias personalidades dele.
Os mais de 300 seres que habitam aquela carcaça filosófica! –- disse o vulto. Vi o
tratamento que você está realizando com este jovem. Que bom. Essas longas seções de
teu método analítico me fizeram entender que eu vou em direção a mistérios mais
profundos só mal social. Vou para o Brasil, que é um tipo de inferno na terra! –- disse o
vulto, que começou a pegar fogo diante dos olhos de Kazantzakis!
–- Brasil significa brasas; “brasa” é uma palavra que se refere a um tipo de fogo oriundo
da madeira, que vai se consumindo na queima de oxigênio e das substâncias orgânicas
vegetais. Brasil é o lugar do fogo, da queima, das chamas infernais que lambem a
madeira, a madeira dura, a madeira mole, qualquer caráter pode ser consumido pelas
chamas, pois o Brasil é o lugar da perda do caráter, de qualquer tipo de mal ou de bem,
isso tudo se transforma em cinzas, o bem e o mal se transformam em cinzas, o
mecanismo do Brasil é queimar todas as coisas, todas as emoções, toda a história, as
pessoas no Brasil são fantásticas criaturas que queimam, que estão queimando, chamas
vivas que desaparecem rápido, seres sem temo, apenas queimam, as crianças queimam,
os velhos queimam, os ideais viram fogo e queimam e viram cinzas. Estou indo queimar
no Brasil, na casa das sete mortes, eles se reúnem lá, todos eles, os maiores
devoradores, eles devoram qualquer coisa, qualquer trabalho, qualquer amor, qualquer
esperança. Eles estão lá, no Brasil, e abriram um buraco tão grande que todas as almas
de luz são tragadas para dentro pela altíssima gravidade. Aquela passagem invisível
chamada casa das sete mortes. Só voltei pra deixar alguma misericórdia. Sartre vai
cometer suicídio, e você pode salvá-lo pra continuar o tratamento. Ele está no bar dos
marinheiros, lá no porto, bebendo pra tomar coragem e pular no mar. –- terminando de
dizer estas palavras o vulto ardeu e virou uma fumaça e desapareceu. Kazantzakis
perdeu a consciência. Desmaiou ali na porta de seu consultório. O corredor vazio e
escuro. E ficou caído ali por muito tempo.

5. O Lambari Velho

Abriu os olhos. Estava no chão. Olhou o relógio. 2:00hs da madrugada! Se levantou num
pulo! Sartre! Precisava encontrá-lo a tempo –- pensou loucamente Kazantzakis. Bósforo
estava deserta. Nikos saiu pela rua correndo, fazendo aquele barulho de sola de sapato
se chocando contra as pedras da rua, aquele tamancar acelerado, desceu pela rua da
Basílica, correu pelos becos do mercado. Tudo fechado e escuro, um lugar de altíssima
marginalidade, naquela escuridão daquela noite tão fria, rasgando a carne, e Nikos estava
em disparada só pensava em Sartre. Correu até a linha do trem, desceu a rua da peixaria
e chegou até os bares do cais. Diante dele o mar escuro e aqueles enormes navios
parados, dormindo. Olhou desesperado para dentro do restaurante do bar, e viu lá no
fundo, sentado sozinho, com várias garrafas vazias sobre a mesa Sarte de cabeça baixa.
Um riso cheio de lágrimas surgiu no coração de Nikos, que limpou os olhos, e caminhou
lentamente em direção ao seu cliente.
A Lista de Putaria

David José G. Ramos

1. Os 365 dias de sexo abençoados por Deus

A Receita sexual de um Monge Dominicano caiu no domínio público. Foi um livro publicado em
1361 a partir de relatos biográficos copilados pelos discípulos do monge, com cópias feitas
manualmente e que foram famosas por muitos anos e anedotas populares cresceram ao redor como
ervas sobre um muro. Quando finalmente impresso no século XVII teve grande sucesso com muitas
edições, sendo imediatamente proibido quando o Vaticano teve conhecimento dos fatos. Isto em
1609, a proibição.

Muitos Papas haviam passado vistas grossas sobre o assunto pois ainda estava em debate uma série
de preceitos sobre a sexualidade desde o século XIV, inclusive sobre a polêmica decisão de proibir
o casamento dos padres católicos, proibição que vigor até hoje. O Religioso era frei Galimberti,
viveu na Perugia no mosteiro da ordem de 1272 a 1350, ano de sua morte. Sua fama era a de ter
dormido com 2 mil mulheres, e ter escrito um manual para os homens obterem satisfação sexual.

O manual servia também para mulheres que amavam mulheres, e muitas bruxas francesas foram
queimadas por terem o proibido Livro de receita de sexo. Galimberti condenava a monogamia e o
celibato, dizia que o sexo era um elo humano importantes, e que a fraqueza moral do ser humano
transformava o sexo em maldição através da mentira, da prostituição, ou em declínios morais como
no alcoolismo, feitiçaria, paganismos canibais.

Galimberti apresentava no livro de receitas uma teologia da sexualidade em que descrevia Jesus
Cristo como possuindo um harém de mulheres, tendo tido Madalena, Marta e sua irmã Maria, e
outras mulheres como amantes. O sexo é o elo reprodutivo humano, e também o local do Gozo, de
gozar, das formas de gozo que realizam a identidade corporal das pessoas

A urgência pela sobrevivência diante dos males que compromete a vida imediatamente, muitos
fugiam através do sexo na idade média e no renascimento. Entre os índios nada se sabe, morreram.
(1) Sexo leve para o diálogo

50 minutos de chupada de boceta


20 minutos de beijo de perder fôlego com o dedo dentro do cu da mulher
15 minutos de chupada de cu – chupar com desejo e volúpia o cu da mulher, introduzindo a língua e
beijando as dobras do cu uma a uma, lambendo as nádegas ao redor do anus, contemplando o anus e
desejando loucamente colocar o pênis inteiro através daquele orifício corporal (ao contrário do texto
original do religioso católico do século XIV a versão que a personagem deste conto está utilizando
permite projetar uma perspectiva pragmática que descreva comentários pessoais, emocionais, das
próprias personagens)
07 minutos de conversa olho no olho, um diante do outro, os olhos colocados imediatamente a
frente uns dos outros de forma que as duas pessoas possam respirar parte do mesmo ar e se olhar
frontalmente. Pode haver conversa, mas é preferível o silêncio contemplativo. Podem fazer caretas,
rir, assustar, tudo usando o olhar, isso é permitido.
15 minutos de penetração do pênis na boceta, em posição de lado
01 minuto de agradecimento pelo gozo (60 segundos é o tempo suficiente para articular frases
curtas, se preferir, ou simplesmente mentalizar fortemente usando a energia do gozo)

Achou a receita pela internet e adaptou-a, criando um sintoma para sua sexualidade. Todas as
manhãs antes de iniciar o trabalho, ainda na cafeteria em frente a empresa onde tomava o café todas
as manhãs e tinha alguns minutos para escrever, passou a limpo o texto da receita sexual de
Galimberti, copiando num bloquinho as informações da tela do celular smartfone. As 365 receitas
do livro original tinham nomes que indicavam as propriedades geradas pela sequência de atitudes.
Imbuído dos princípios o amante. Jesus fuking Crist! As notas diziam que Galimberti colhia das
confissões que seus paroquianos proporcionavam quando queriam ser perdoados por deus através
dos sacramentos católicos. As narrativas das traições, dos motivos das traições sexuais, dos
absurdos que amantes conseguem realizar para realizar o ato do gozo, o mistério gozozo.

(239) Sexo rápido para dormir bem

30 minutos de chupada de boceta


(em geral todos as receitas de Galimberti começam com a chupada de boceta. O sexo oral era uma
prática arriscada na idade média pelo percentual de doenças venéreas que o praticante estava
exposto. Galimberti recomendava a limpeza da boceta e do cu, do pênis também, assim como a
higiene da boca. Mastigar Goiaba vermelha, bochechar com água morna e sal de cozinha, limpar
com vinho branco, entre outras formulações de assepsia foram apresentadas por ele ao longo da
obra.)
20 minutos de penetração na boceta na posição de quatro
20 minutos de beijo na boca antes de gozar

Os modernos cronômetros podiam programar as chamadas de tempo para a mudança das posições
durante o sexo de acordo com a sequência decorada pelos amantes. Sabendo de antemão quais
seriam as etapas daquele sexo em direção ao gozo de ambos. Galimberti não indicava o sexo para
além de duas pessoas. Talvez por sua base ortodoxa de catolicismo ele dizia que a orgia era a
presença de um terceiro elemento que quebraria a harmonia conseguida pela troca energética de um
casal. Para o desejo do sexo grupal ele indicava a sublimação das amizades, gastar a energia sexual
que seria devotada para o encontro genital com muitos parceiros para os jogos de linguagem da
amizade, da filiação, do desejo que se pode sentir pelo amigo ou amiga, desejo barrado pelas
premissas da amizade mas que colocam para circular a energia que poderia levar a cometer o ato de
fazer sexo com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Galimberti pensava no princípio binário.

(116) Sexo com uma puta suja

20 minutos de observação da prostituta, olhar bem para ela, ficar diante dela em local iluminado,
nunca contratar o serviço no escuro. Deixar o coração cheio de compaixão pois Jesus ajudou muitas
prostitutas a reencontrarem o caminho da salvação. A mulher não é prostituta, ela permanece
prostituta enquanto consegue se articular de forma a não enlouquecer, ou, pratica a arte da safadeza
sexual remunerada como atitude democrática de que todos os seres humanos precisam de sexo. Mas
a prostituição destrói aos poucos o corpo da mulher, assim como o tempo passa sobre a carne e a
carne envelhece diariamente um pouquinho, até que de uma vez a mulher fica velha demais para ser
prostituta. O termo “puta” pode se referir a práticas sexuais fora da demarcação monetária da
prostituição. Uma mulher ou um travesti, uma lésbica, uma hetero, não depende de gênero a putaria,
mas depende de rupturas no terreno da sexualidade em busca do Gozo. A puta quer uma forma de
gozo. Ser cliente de uma puta para obter o gozo é uma prática que exige esclarecimento, pois nem
todo programa sexual é satisfatório. Mas, dizia Galimberti, se for necessário que uma vila ou cidade
permita a prostituição para que as moças possam permanecer virgem sem serem amoladas pelos
homens de tais localidades que, sem corpo de mulher e possibilidade de sexo podem se tornar
agressivos e buscar satisfação abusando de mulheres que são destinadas a serem mães de família,
então, se houver necessidade, que os prostíbulos tenham higiene e sejam apoiados pela Igreja no
consolo e recuperação das almas das prostitutas até que conseguisse sair deste tipo de serviço uma
vez que há muitos determinantes que causam a entrada na prostituição nas sociedades pré-
capitalistas e capitalistas.
10 minutos de penetração com uso de camisinha (na época de Galimberti era sugestionado o uso de
saquinhos de fibra animal usados para enchimento da linguiça suína, que possuíam quando bem
montados e higienizados a mesma eficiência das contemporâneas camisinhas de latex)
2 minutos de agradecimentos e promessas.

2. Conclusão

Depois destes três textos de receitas do Frei Galimberti, podemos concluir que ele não tivesse
encontrado acolhimento na Holanda após as investigações sobre a periculosidade de seu livro de
receitas sexuais abençoadas por Deus ele teria sido julgado e queimado na Inquisição como muitos
de seus discípulos e discípulas foram.
A Teologia que fundamenta
a Filosofia Tropical

David José Gonçalves Ramos

Desde a chegada do Cristianismo na América Latina, na região do trópico de Capricórnio, o estilo


Barroco ficou sendo a interface do Vaticano e seus negócios com o reino da Espanha e de Portugal.
O Filme A Missão (EUA, 1986) representa uma ficção muito realista deste período, e o Brasil como
território esteve em disputa econômica e política, que resultou na derrota da Civilização indígena e
na extinção de milhares de sociedades autóctones instaladas nesta região no período de 6 mil anos
antes da colonização. A Colonização se deu no momento imediato da chegada das tropas europeias,
que foram conquistando centímetro por centímetro toda a região do tópico e irradiando a filosofia e
a teologia, assim como a forma de ver, sentir e fazer o mundo. A sobrevivência dentro das imensas
florestas e biomas específicos da região dos trópicos nem sempre foi levada a sério, no caso do
território brasileiro. Pensar as formas de vidas ancestrais sempre foi um ganho dentro da
Antropologia, e da Filosofia quando se decide tratar seriamente livros de escritores norte
americanos e europeus. A injunção de fatores do ideário colonial selecionou e preservou aquelas
informações que mudavam o caráter exploratório de Portugal e da linhagem de vencedores, em
geral militares dentro do território tropical. A indolência dos índios fez necessário investimento em
exércitos, e numa lógica da violência institucional. Os mais de 200 anos de escravidão de africanos
comercializados por Portugal trouxeram para a região dos trópicos centenas de milhares, milhões de
pessoas, uma migração forçada que introduziu no bioma um conjunto de pessoas, que tiveram sua
literatura negada pelas estruturas que se oficializaram dentro do Estado; quando Colonial, Imperial
ou Republicano. O período da Democracia instaurado a partir de 1985 trouxe a possibilidade de
transformações significativas que recebem a reação agressiva da associação de classes sociais que
exercem o parasitismo biológico sobre o trabalhador. As traições, golpes militar, golpes civís,
conchavos e corrupção sobre a verba pública se tornaram características do Estado brasileiro desde
o início. Mas isso é o “Estado”, que foi ganhando o controle cada vez maior da vida das pessoas em
nome da produtividade do sistema de produção capitalista, que se estabeleceu com a
industrialização. No Brasil a industrialização começa na área da mineração no final do século XIX,
porém a extração de joias e ouro, metais preciosos, principalmente nas terras de Minas Gerais,
extenso Estado brasileiro. A inspiração das formas tortas de um tipo de arquitetura, na tentativa de
adaptar as formas sociais ao clima tropical que os colonizadores desenvolveram era radicalmente
diferente daquela gerada pelos índios, e depois pelos sertanejos: a vida no sertão tropical é
ricamente narrada por Guimarães Rosa e Vargas Lhosa, um brasileiro e um peruano que
descreveram especificidades marcantes da vida na região, a influência das formas da natureza na
vida humana. A literatura latino-americana é um tipo de filosofia tropical, que recebe de encontro a
vida difícil imposta constantemente às pessoas simples pela mega-estrutura produtiva desenvolvida
pelas Metrópoles e exercida pelo aparato policial militar, e das forças armadas. Mas também pela
religião. O Cristianismo se tornou uma forma que ora se encantava com as belezas da natureza num
espírito franciscano puro das causas ambientais, ecológicas, humanistas, e ora promovia limpeza
étnica e devastação ambiental em nome de valores e dogmas apregoados por lideranças religiosas
cristãs. O Cristianismo se impôs como tema da filosofia tropical, que pode ser simplesmente a
reunião de grandes escritores e escritoras de literatura regional das várias regiões ao sul do Equador.
A perspectiva ecológica da valorização dos vários biomas e sua preservação também é um problema
da filosofia tropical, que a internacionaliza por muitos pensadores pelo planeta estão preocupados
ou alegres com a floresta amazônica, uma das maiores áreas verdes preservadas no mundo, presente
no território de vários países. A proteção da Amazônia, do Pantanal, do Cerrado, da Caatinga, dos
Manguesais se tornou uma militância tanto de movimentos de direita quanto de esquerda, é tema de
constantes reuniões da ONU e de blocos econômicos majorativos que buscam formas de
aproveitamento industrial da região. Outro tema da filosofia tropical é a idéia de uma identidade, de
paradigmas comuns, de elementos constitutivos diversos do resto do mundo. Que tipo de
humanismo específico se produz nesta região do planeta? Que identidade musical pode ser traçado,
como o meio ambiente da região influencia, e como o Clima, as estações do ano estão presentes na
arte, na ciência que se produz nestas áreas do planeta, que laboratórios são possíveis, que efeitos
climáticos são enfrentados, como as pessoas dos trópicos vivem, que sabedoria de vida se encontra
por estes locais?! A compreensão biológica do ser humano passa por avaliar as determinações dos
ciclos da natureza de uma área geográfica sobre as formas de vida: a biogeografia do ser humano
nos trópicos também é um discurso, uma narrativa, que se assoma a tantas outras questões e
perguntas, para que ao menos o Turismo dos trópicos seja relevante e interfira na rota migratória
humana. Porém, reunir informações para traçar os elementos de uma “Filosofia Tropical”, se fosse
do interesse de alguém se perguntar sobre isso, ou reunir obras dos principais romancistas que
escreveram nestas regiões e originalizaram perspectivas epistemológicas, tratar a forma de
Colonização européia desta região em seus aspectos filosóficos pode se constituir e produzir saberes
novos. Os elos entre as formas políticas, culturais, linguísticas, artísticas: o cinema produzido nos
trópicos poder ter uma identidade que revele para um olhar geral sobre estas obras elementos
característicos da forma de pensar de quem vive nestas regiões. Quase nunca em função de um
“biologismo”, mas sim de um enriquecimento, da iluminação e do entendimento. Há muitas
dinâmicas conceituais a serem abordadas, e o fato de que a expressão “filosofia tropical” já foi
colocada para trabalhar na produção de conhecimentos admitidos como válidos, como na série de
preconceitos sobre os saberes que os Africanos produzem, ou Australianos, assim como os Latino-
americanos. Estendendo o conceito de “trópico” pela linha imaginária estabelecida pelos
cartógrafos, grandes regiões da África e da Austrália são tropicais. Seria o caso de relacioná-los?
Sim, existem estudos biológicos sobre a diversidade de seres vivos encontrados nas regiões ao sul
do Equador pelo globo terrestre e certas identidades podem ser descritas, há a constituição de um
isolamento reprodutivo que proporciona espécies muito diferentes, mas há uma confluência de
fatores provocados pela forma de incidência dos raios solares que promovem homologias orgânicas
e adaptativas. Um “corpo tropical” pode ser pensado evocando principalmente o verão dos trópicos
que é quente e úmido, quando aproveitado para o lazer humano proporciona grande bem-estar. Pode
ser tarefa da Antropologia investigar as semelhanças e diferenças da vida humana ao longo dos
trópicos, particularmente ao sul do Equador. Fisiologistas, Nutricionistas e Farmacêuticos em suas
pesquisas acadêmicas também poderiam apontar semelhanças e diferenças da vida humana no clima
tropical. Restringindo a análise ao território Latino-americano, podemos observar os vários
movimentos da cultura das sociedades em torno do “tropicalismo”. No Brasil o final da década de
1960 reuniu vários grupos musicais na produção de um estilo que fazia um manifesto-apologia da
realidade nos trópicos. Neste período Histórico quase totalidade dos países tropicais estavam
incluídos no grupo denominado na época de “Terceiro mundo” e estavam quase todos debaixo de
ditaduras militares, tanto na América Latina quanto na África. Do ponto de vista Evolucionista há
vários indícios de que o Ser humano é uma espécie tropical, surgida ao leste da África de uma
linhagem de cromossomas que se transmitiram e se adequaram à experiência climática e geológica
destas regiões. Os Índios Brasileiros andavam completamente nus na maior parte do tempo. As
tribos Aimorés que viviam na região onde hoje é Ouro Preto se vestiam apenas no inverno, trajes
chamados sambaquis. Este é o nome também de sociedades litorâneas brasileiras do século XXX
a.C. Existem cinco principais círculos de latitude, linhas imaginárias, no globo terrestre, o trópico
de Capricórnio é um deles, e é a região mais ensolarada do planeta.
Assombração

David José Gonçalves

O ambiente fechado de nossos espaços mentais, os locais onde iniciamos os pensamentos,

os locais onde desenvolvemos nossa personalidade na química do sistema nervoso central,

ah! Aquele caldeirão de células neuronais e estruturas de circulação sanguínea. No final, é

a saudade do amor, a grande emoção humana, que quando está em nós apresenta

possibilidades incríveis de ser, de arte, de discurso, de unidade, de presença, de vida.

Inventei uma fase, estava ainda na sala da recepção do Hospital, era uma frase para o

começo da seção, da seção não, como é que fala? –- da seção mesmo uai –- disse o

coordenador, tinha que vestir o jaleco branco, todos os colegas de faculdade eram

brancos. Na verdade era o único médico negro que conhecia, e guardava o medo dentro

de casa. Morava na favela, na entrada da favela, e das câmeras dos condomínios se podia

ver de madrugada crianças brincando de polícia-e-ladrão pelos becos. Uns rapazes

estavam jogando sinuca no bar, no ponto final do ônibus, e o próximo ônibus era 04:00hs

da madrugada, e tinha duas senhoras, duas crianças e um homem adulto, o motorista

dormia lá dentro do almoxarifado da firma, perto da loja dos mototaxistas que

funcionavam 24hs, naquela denúncia de que a vida não dormia, a vida não parava, a vida

insistia, continuava, a vida da cultura, de fazer cultura, de imprimir uma folha de xerox com

palavras completamente novas inventadas pela criatividade de poder estar com o mundo

no mundo. Cada estagiário faz a triagem de um grupo, e são os dados básicos –- disse o

coordenador. Estavam recebendo alunos do sexto período de Psicologia da PUC, e tinha

uma estrutura de atendimento para estas ocasiões –- era bom pois o Posto de Saúde

desafogava –- disse o vice-prefeito na época. E foi dessa forma que os Psicólogos da

prefeitura descobriram os eventos paranormais que aconteciam naquele Posto de Saúde,

que fazia com que as pessoas fossem sempre um pouco frias demais, sempre frias demais,
sempre frias, sempre friamente exigindo coisas, friamente fazendo ironias, palavras frias,

palavras para desanimar, palavras ara abaixar a moral, abaixar a alegria, abaixar os

anticorpos –- disse o coordenador. A madrugada fria, o plantão começava às 04:00hs da

madrugada e ia até as 16:00hs, 12 horas, doze horas de convívio, o estagio era 12x36, ou

seja, a cada 12 horas de trabalho, 36 horas de descanso. É justo? Ah, mas para passar o

final de semana e a Semana Santa no Serro Frio era justo, era sempre justo. Iriam,

buscariam pela Internet os rastros da verdade, ou o conhecimento necessário para o teatro

–- teatro? –- perguntou o coordenador. –- como assim teatro? –- é a apresentação de

Natal que a Prefeitura de Belo horizonte estará fazendo com o público da Psiquiatria dos

Postos de Saúde, haverá um teatro, no Parque Municipal, uma Feira de Arte, um Brechó,

com o material que arrecadamos este ano nas causas Humanistas da Prefeitura e

distribuição de brinquedos às crianças carentes, e a ceia de Natal, que na verdade é um

almoço do Natal, o Prefeito vai estar presente –- disse a secretária. O coordenador,

colocou a caneta no bolso, e seguiu pelo corredor, indicando as salas aos estagiários de

Psicologia. Eles entravam e começavam seu trabalho. No começo era apenas conversas

sobre a situação. O teatro cara! O teatro para a comunidade porra! Era para isso que

existiam, eram a massa humana, eram o corpo da sociedade, o corpo físico, o que a

sociedade de fato era, pessoas, eram pessoas –- pessoas são entidades jurídicas –- disse o

coordenador. Ah, vai tomar no cu! Vai! –- disse a secretária. Ficou estressada. O

coordenador estava fazendo corpo mole só porque não tinha sido informado do “Teatro” (

nas palavras dele “teatro de merda”, se referindo à pouca expectativa artística de um

evento com pacientes de um programa de acompanhamento psiquiátrico da prefeitura

para a festa de Natal da Prefeitura daquele ano) –- você pode até não entender, pode até

discordar, mas você não pode ridicularizar um programa humanístico de ressocialização de

pessoas com transtornos psíquicos e emocionais, em situação de vulnerabilidade social.

Somos Democráticos, democratas na verdade –- disse a secretária. –- vai tomar no cú é

ela! –- disse o coordenador naquele dia mesmo quando soube o que tinha falado a
secretária –- boca suja do caralho! Aposto que já foi nas redes sociais difamar meu nome,

difamar meu trabalho, difamar minha vida, difamar meus relacionamentos, difamar meus

negócios, difamar minha competência, difamar minhas possibilidades, difamar meu


amanhecer –- o coordenador falava e chorava, chorava, estavam num bar na Savassi, era

23:40hs, um grupinho tinha saído do trabalho para tomar uma cerveja e chamaram o

coordenador. Ele estava tão triste naquele dia, andando pelos corredores, e então os

estagiários chamaram ele pra sair com eles e foram até um bar tomar cerveja e conversar.

Foi neste momento que o coordenador chorou. –- ah, vai tomar no cú! –- disse a

coordenadora. Falou já com raiva. No telefone, estava na sala ainda resolvendo ainda os

problemas, estava ainda no escritório da prefeitura, estava ainda com a mesa cheia de

trabalho, e era já de madrugada, estava cumprindo o plantão aquela noite, estava

fumando um cigarro e tomando um café ainda. Mas agora, estava já com raiva. Resolveu ir

para casa. Parou tudo. Ligou pelo celular para um aplicativo solicitando um veículo para

levá-la para casa, e tomou o taxi exatamente às 02:37hs da manhã daquela noite. Aquela

festa de Natal estava acabando com os nervos da secretária, o prefeito estava louco elos

resultados e pressionava a funcionária, e tinha aquele coordenador que estava

atrapalhando o trabalho por causa de uma concepção de arte. Teatro é arte –- perguntou

a secretária! Ah, vai se fuder! Foi um dia de grandes fofocas. Foi o maior dia de fofoca de

toda a prefeitura, de todos os setores da prefeitura, desde o setor de meio ambiente, o

setor de economia, o setor de obras públicas, o setor da saúde principalmente, o setor da

educação, o setor do turismo, o setor da juventude, todo mundo viu o bate-boca entre a

secretária e o coordenador, em como eles se magoaram, em como foram mesquinhos e

escrotos um com o outro, em como ficaram se comendo e destilando veneno e mentiras

por todos os meios de comunicação pessoal. Era esse o problema, os meios de

comunicação pessoal. Os meios que o mundo se comunica a nós, os meios pelos quais

deixamos mensagens, os meios através de mensagens –- disse o chefe do setor de

segurança pública quando soube da putaria institucional sobre a festa de Natal do

Deficiente mental da Prefeitura de Belo Horizonte, uma festa da deficiência muito

importante para a sociedade –- esse comunismo de merda está acabando com a gente

Major! –- disse o coronel, chefe e secretário de segurança pública no dia seguinte, logo

nas primeiras horas da manhã quando começou a despachar no palácio da Inconfidência,

e os primeiros a chegar eram os jornalistas, que apuravam a crise no governo do Prefeito e

seu possível fracasso nas reeleições daquele ano. A festa do Natal do Deficiente era
fundamental. Fundamental. São 117 Postos de Saúde espalhados pela cidade, somando

todas as regiões, e a periferia, e apenas oito pacientes toparam participar do teatro. É só

ver isso e veremos o que é aceitável moralmente, gastar dinheiro com ambulância pra

levar e trazer retardado pra ensaiar teatro com verba pública? –- perguntou o chefe da

segurança pública da prefeitura –- mas ele nomeia quem ele quiser senhor –- disse o

Major –- qual o risco isso pode representar para a sociedade brasileira? Isso muda a

essência do problema? Isso apenas explicita a face desse governo –- disse o Major –-

devíamos ter fuzilado esse prefeito quando tivemos chance –- concluiu.

1.1. Assombração é um estado mental, um objeto do Psiquismo

Quando as forças populares começam a ter derrotas acumuladas, as forças populares, a

base popular progressista, as associações de pessoas pelos seus direitos, as lideranças de

pessoas malucas que querem novas sociedades, as pessoas que estão em crise com as

tradicionais famílias brasileiras, as pessoas que estão contra os fazendeiros, e empresários,

as pessoas que estão contra os valores maiores do Brasil, as pessoas que estão contra as

formas econômicas que querem o progresso do Brasil, as pessoas que insistem no

processo de consciência crítica e consciência popular. As viagens dos setores populares, as

reformas trabalhistas, o trabalho –- as armas! –- disse o Major. A reunião no comando da

segurança pública continuava madrugada adentro, já eram 05:12hs da manhã, daqui a

pouco o sol chega. –- vamos tomar Vodca! –- vodca às cinco horas da manhã? Hahahaha,

o Senhor está animado! –- disse o Major. Já estavam sem camisas, com armas na cintura,

estavam iguais machos, bandos de machos, disputando estética de macheza. –- não

entendemos nada mais! –- disse o Major. E realmente não entendia nada mais. Assinaram

o que tinham que assinar e voltaram para casa, pegando trânsito em carros oficiais, como

motoristas oficiais, carros de luxo, e foi assim que voltaram para suas casas, suas ricas

casas, encontrar suas famílias ricas e felizes. Claro que nem todas as famílias são

plenamente felizes, não estamos falando de problemas individuais, estamos dizendo que

setores inteiros da política tinham famílias felizes, era isso que eu queria dizer –- falou o
Major. –- nós não podemos desistir. É uma travessia do deserto. É um momento que

corremos o risco de ficar ansiosos, a lógica do povo brasileiro, as forças progressistas, é

nelas que confiamos, as forças que avançam, quem olham para o Brasil, olham com

capacidade de intervenção, olham com esperança de que patrimônios públicos sejam

preservados e incentivados, que a estética da solidariedade aconteça realmente –- disse o

Major. Ficava fingindo ser um cara de pensamento conservador diante do chefe de

segurança pública, mas aquele Coronel era um fraco, um enfraquecido, era um homem

que vestia uma farda mas que não se disciplinava por dentro. O começo era sua própria

família, uma família de merda, de pessoas autoritárias, você precisa ver o almoço em

família na casa do Coronel, amor –- disse o Major. Sentou-se, tomou mais um gole de

álcool, estava um pouco bêbado. Pela manhã iria ao quartel, e conversaria com o Dr.

Bastos, o médico da Polícia, um oficial em quem confiava para falar dos assuntos políticos

da corporação. Uma corporação é uma instituição pública com sérios deveres comandada

rotativamente por pessoas escolhidas pela nobreza, caráter, estudos, e demais símbolos de

ajustamento aos objetivos institucionais no nível de excelência –- disse a mulher o Major.

Estava nua. Andava nua pelo quarto, como uma entidade, aquela mulher gostosa. O Major

olhava aquele corpo, aquela bunda, carnuda, perfeita, simetricamente perfeita, delícia –-

pensou o Major. Mas por dentro ele estava tenso, estavam se aproximando dias terríveis, e

o Natal da Prefeitura incluía um conjunto de apresentações e festividades muito arriscados

nestes tempos de crise social e guerra pelos espaços criados no crime organizado –- o

maior inimigo da polícia hoje não são os comunistas, mas sim o crime organizado, as

associações secretas para movimentar o dinheiro da violência mundial. Eles estão em

conflito contra as forças, e se a polícia militar não mantiver os ideais dos inconfidentes ela

será apenas mais uma instituição controlada pelo sistema político –- mas há uma

finalidade social. Há um sistema fechado, que nos faz perder tempo, nos faz andar no

julgo, e até que hora vamos ficar oprimidos, sem possibilidade de guardar dinheiro, ou, de

comprar um livro –- disse o Major –- não gostam de mim, mas ficam dependendo de mim

–- disse a mulher do Major. Era uma piada do casal, e os dois riram, ficaram dissipando a

tensão do monstro social com risos. O Major era militar desde os 18 anos de idade, antes

disso tinha estudado em Colégio Militar desde os 4 anos de idade, e sua família tinha
Cabos, Sargentos, Capitães, Soldados. A parte mais pobre da família, que vivia em Belo

horizonte, na capital era a mai pobretona, uns primos da Mãe, uns sobrinhos do Pai, de

Divinópolis, tinha os soldados, galera era cabo e soldado, povo de pouco estudo, mais

pedreiros mesmo, que estudaram no Colégio Tiradentes, a parte mais rica, o pessoal do

Sul de Minas era maioria oficiais, mas era uma família unida, e todos estavam alarmados

com a crise de corrupção da corporação, de como os ideais da cultura brasileira estavam

sendo vendidos e perdidos diante do imperialismo norte-americano –- disse a mulher.

Vestiu a calcinha, colocou uma calça de moletom preto, sandálias, arrumou o cabelo,

vestiu uma camisa, de banda de rock –- você é a mulher de um oficial da polícia! –- e você

coloca as coisas no devido lugar –- disse a mulher, tentou explicar. Reuniu as contas de

água e de luz, ainda estavam atrasadas, era a questão, precisava pagar, e era ela, a mulher,

quem organizava as contas e as fardas dele. Desde sua entrada na polícia militar ele tinha

aquela maravilhosa esposa que cuidava das finanças. Ele era responsável apenas por uma

coisa: ser o melhor militar oficial possível. E era. Era um intelectual, grandes cargas de

leituras, muitos livros, muitos estudos, dois Mestrados, dois Doutorados, professor

universitário, um Major com distinção, e premiação por bons trabalhos, sempre um ótimo

profissional que a todos tratava bem e com educação e gentiliza, era um forte e bravo com

um grande coração, discrição, reverência, e simplicidade, e ao mesmo tempo inteligência

aguda, olhar abrangente, comportamentos os mais adequados, um homem nobre em

muitos sentidos, talvez todos, cuidou da mãe que ficou de cama por 30 anos, até a morte

da mãe ele foi exemplar, e depois da morte da mãe ficou mais exemplar ainda. Ganhador

várias vezes de medalhas do Governador de Minas, um dos mais graduados funcionários

públicos da corporação, se não for o mais graduado e condecorado, o Major e sua esposa

estacionaram seu carro, nacional, um carro de classe média brasileira, no condomínio de

luxo onde a família do Coronel residia, estavam às vésperas das comemorações do Natal

das Crianças Abandonadas de Belo Horizonte, a greve geral continuava e as chuvas eram

as maiores em 40 anos, o maior volume de chuvas em 40 anos. Choveu no mês de

fevereiro a quantidade de chuva de cinco meses normais de atividades pluviométricas,

hídricas, climáticas, e as eleições estavam na reta final, foi quando algumas bombas

explodiram na Praça da Estação, o ponto central da cidade. Foi de madrugada, e feriram


dois militares da Guarda Civil, matando dois moradores de rua. Um atentado assumido

pelo grupo revolucionário que combatia o governo do Presidente. Foi quando o Major viu

a assombração pela primeira vez. Ele viu no canto do olho. De agora em diante sempre no

canto do olho, ele tirava o olhar e o vulto voltava, voltava e ficava ali. Depois desaparecia.

Pela noite, quando a luz do sol desaparecia da terra o vulto do canto do olho voltava e

ficava ali, assombrando o Major. Ele não contou para a mulher, para a esposa, ele não

contou. Achava que seria um grau de intimidade consigo mesmo sobreviver a um tipo de

distúrbio psíquico que estava sofrendo, com certeza como consequência do stress da vida

militar naqueles dias de crise na sociedade. Você vai esquecer de mim? Você vai sair e me

deixar? Você vai realmente esquecer e fechar a porta? Vai fechar a porta? –- não gosto das

pessoas que ficam perguntando, cara –- disse o sujeito. A anatomia daquele assalto ao

Banco do Brasil, era sobre o que comentavam.

1.2. Afinal de contas quem garantiu? Quem tem a chave do cofre?

Fortemente armados. Entraram em um carro, seis paramilitares, a intenção era a violência e

a morte. Mas depois, era visitar hospitais infantis, ver crianças, levar biscoito e bolacha para

crianças internadas, e depois, de madrugada, era o crime, eram assaltos a joalherias, de

madrugada, era entrega de grandes quantidades de droga, era dar segurança armada para

grandes entregas de drogas na Capital. A região metropolitana era imensa, eram milhares,

milhões de domicílios, eram milhares de ruas e bairros, e vielas e favelas, muitas favelas,

era o mara, o mapa, se você não entende o mapa, então não entende a rota, a rota, a

saída, a saída é do mapa. O mapa! Eram dias que tinha um velório, ele ia lá no velório,

cumprimentava a mãe do morto, em geral eram homens, meninos, jovens de 19 anos, de

16 anos eram os peões, os peões, o mapa, a rota, sacrificar peões era um negócio, era

parte do negócio, do mapa, eles estavam na frente, eles, iam para a frente, você nem

precisava mandar, eles tomavam aquilo com algo emocionante, eles, faziam as narrativas,

eles declaravam guerra, eles. Não tinha outra função além de arrecadar o dinheiro, e era

dinheiro diário, dinheiro de professor, de médico, de advogado, de sociólogo, de soldado,


de tenente, de secretário, de professora, de bióloga, todas as classes sociais compram

drogas, todas as classes sociais querem o mapa, querem os peões, sacrificam os peões, a

rota, e de manhã ele dormia, depois levava alimentos para uma creche, para uma creche

ele doava alimentos todas as semanas, todas as 52 semanas do ano ele levava uma caixa

de verduras, de mantimentos, arroz, saquinhos de arroz, ele levava, os camaradas

descarregavam o alimento na creche, ele entrava, olhava a creche, ele olhava a pintura, via

se podia mandar dar uma pintura, pra creche ficar bonita, ele tinha sido uma das crianças

da creche, ele tinha ficado lá do nascimento até os seis anos, ele então retribuía todas as

52 semanas, mas se fosse preciso ele cortava garganta, deu facada na cabeça de duas

mulheres, mulheres do tráfico, mulheres de facções de traficantes diferentes, e a cada

esquina uma nova facção de traficantes se formava, se podia ver os vídeos, ele dando

facadas na cabeça e nos olhos de uma menina, foi dando facada e o corpo da menina foi

ficando sem vida, foi virando boneca cadáver, e ele foi dando as facadas na cabeça e

dando, e dando facadas, e dando facadas, e a menina amarrada se contorcia, se contorcia,

e então parou de se mexer, e ficou como uma boneca tomando facadas na cabeça. Mas

isso era algo até fácil diante do que ele tinha sido obrigado a fazer, como ele tinha sido

obrigado a fazer as coisas, o mapa, a rota, a boneca cadáver, eram coisas da vida, que

foram surgindo na vida, no mapa, ele foi peão, era peão, ficou lá, sobreviveu a vários

tabuleiros, muitos jogavam e ele era peão, e então depois que viu sua estrela brilhar, que

escapou da morte umas cinco ou seis vezes, da morte certeira nos tiroteios e guerras

contra tudo e todos, contra a polícia, contra outras facções, contra os traidores, contra os

paramilitares, até que se tornou um deles, um dos que jogam, que usam os peões. A

importância de você comprar os peões, comprar as pessoas com dinheiro, comprar as

mulheres, compra uma mulher para você –- disse o traficante. Ficaram calados, era de

madrugada, estavam aguardando alguma coisa, tudo estava guardado, fazia muito frio,

ascenderam um charuto de maconha, todos fumaram, eram bandidos, eram o mal, eram

os caminhos do mal, não importava que minha mãe era uma evangélica, que ela fosse uma

mulher que recolhia o dizimo e respeitava a congregação dos irmãos em Cristo. Isso não

importava, se ele tivesse que cortar a garganta de uma pessoa viva ele cortaria, se fosse

necessário ele faria, ele não se importava, ele não se preocupava, ele não tinha CPF, ele
não tinha uma identidade, ele usava tornozeleira eletrônica, ele tinha longa ficha criminal,

ele você não vai entender, ele você não vai saber a razão de ele entrar na história, de ele

entrar simplesmente de uma narrativa paralela, ele vem e entra, como uma força humana

que interfere, que atrapalha, que surge aleatória. A presença, você vai ser sincero com a

presença, a razão da presença vai sendo cogitada, mas isso não importa, quando você for

observar com calma ele vai te ferir, ele vai de dar um soco, vai te jogar no chão, vai de

agredir, te dar um tapa, vai inventar uma razão qualquer e te dar um tapa na cara com

força, com a mão aberta, vai dar um tapa na tua cara com força e vai ficar olhando para

você te indagando, vai rir da tua cara, e vai debochar de você, se você tiver um defeito ele

vai debochar, e então ele vai ficar com vontade de usar álcool e de fumar e ele vai sair dali

e deixar você sozinho sem nenhuma explicação! Sem nenhuma razão, explicação, nenhuma

palavra. Ele é inquieto, ele se move o tempo todo. O tempo todo o mapa, a rota, a boneca

cadáver, o tapa na cara. Se você pegar elevador com ele você vai tomar tapa na cara de

graça. Vai simplesmente dar tapas na cara das pessoas que estiverem no elevador, depois

vai falar que não fez isso, vai negar. Ôh! Quantas vezes! Desde garoto ele frequenta o

Fórum, primeiro homicídio foi cometido aos14 anos, é frio, é muito frio, não tem medo de

nenhum ser humano, não conhece autoridade, conhece conveniência. É conveniente.

Talvez ele não te desse um tapa na cara na hora que você entrasse no elevador, mas ele ia

calcular um jeito de te dar um tapa bem-dado. Ele era de cálculos, de ficar calculando as

maldades, desde criança ele era assim. Matou algumas vezes, era de roubar, gostava de

roubar, de meter assalto, gostava. O mapa, o peão, o roubo, o cadáver da boneca. Se você

entrar em um elevador e receber em cheio do nada um tapa tão forte quanto um murro,

sem razão nenhuma, sem ter merecido, saiba que é ele! Bem ali ele estará dentro do

elevador, e saiba que ele não vai se sentir arrependido de te humilhar principalmente se o

elevador estiver cheio. Isso nada tem de sabedoria, isso tudo, aquelas coisas que você fala,

que você pergunta, aquilo que você diz ser importante. Nada disso. Quando você fala, as

coisas desaparecem. E será por que mesmo? Era preciso fatiar a história, colocar gente que

não tinha importância. Juntar umas peças sem importância, fazer umas referências sem

importância. Era preciso isso. Do contrário eles não ensaiavam. Nem tentavam ensaiar.
1.3. O que ele abriu foi a porta das seis da manhã

Cada um tinha uma versão do ocorrido. Agressão recíprocas, as duas partes desejam

processar a outra, e a partir do momento que tem agressão física já perdeu a razão –-

disse o Major –- ele também quer processar, o lugar que ele foi mexer, a pessoa com

quem ele foi brigar, isso não justifica, não justifica –- o coronel chefe da segurança pública

era um bosta, um bosta, não sabia de nada, e ele, o Major, é que tinha que resolver tudo

no final das contas, era ele, o Major, que tinha que fazer os relatórios corretos, fazer

serviços que eram do chefe de segurança pública fazer, o Major ficava arriscando sua pele

se metendo em assuntos oficiais e burocráticos por causa da incompetência do chefe, da

incapacidade mental do coronel. E por quê? Porque era um homem bom? Naquela manhã

chegou em casa às seis horas, ficou a madrugada inteira no Batalhão de Polícia, naquela

sala de comando, revendo cada planilha, cada balancete, revendo com a equipe, depois

revendo sozinho, depois revendo de novo com a equipe. E o coronel? O coronel estava

com problemas familiares, o filho mais velho dele, o vereador, foi pego com cocaína no

carro em uma blitz no Sul do Estado e o coronel foi pra lá com a Esposa, resolver o

problema do “Menino” deles. O vereador de 35 anos. Cheirador de cocaína –- disse o

Major. A mulher do Major sempre estava nua. Era uma “sem-calcinha” esse era o apelido

dela, sem-calcinha, pois sempre estava sem calcinha, sempre estava nua andando pela

casa. E os filhos? E se vissem? E se alguém chegasse de repente? Nada disso importa, a

mulher estava sempre nua andando pela casa, fazia a comida nua, limpava a casa nua, as

vezes com um salto alto, ou um tênis. Nua e com um tênis, as vezes de saia curta, sem

calcinha com as mamas de fora, as vezes com as mamas cobertas e a bunda nua. As vezes

ela queria apenas brigar com o marido, as vezes queria apenas ofender, as vezes se sentia

uma pintora, queria ser pintora, precisava de um incentivo de um empurrão do marido, de

um acompanhamento, de elogios, de palavras, era um tipo de pessoa que precisa que

alguém dê importância às pequenas coisas gentilmente. Mas o Major? O Major era um

nada.
Salmo 198

David José

I
Aquilo não precisava. Não era necessário o repórter vir diante do YouTube e destruir com

palavras o jogador Luan. Não foi justo, não foi valentia, não foi nem honesto, para falar a

verdade –- disse o rapaz. Tomava uma cerveja no bar, no balcão, olhava para a rodovia, os

carros passavam velozes, mesmo naquele ano de 1974, mesmo no ano passado, e há dois

anos antes disso, mesmo assim, tomava a cerveja. O médico proibiu, proibiu pesado.

Bendito seja Deus, que nos reuniu no amor de Cristo. Era uma manhã silenciosa, os

vizinhos estavam bem silenciosos, mesmo sendo uma terça-feira, de inverno, o sol

tranquilo, o céu sem nenhuma nuvem, um céu completamente azul, de um lado a outro,

em toda cúpula celestial, completamente azul –- isso é um mistério, não é mesmo? Por

que azul? A palavra estava voltada para Deus, ela o indicava, iniciava os interessados.

Apenas isso, apenas iniciar.

II
Deus está com a palavra. Ele está falando. Continua a falar, um diálogo imenso, na verdade

um poliálogo, que podemos metaforizar na própria existência da Internet, enquanto ela for

possível, pois como toda criação humana a Internet acabará, quanto tempo durou a

tecnologia do Egito? No tempo dos Faraós foram quantos anos? Mas mesmo nas

condições mais primitivas a luz vence as trevas. Sempre existiram justiceiros infiltrados no
mundo a combater silenciosamente sem precisar de identidade ou de exército sempre

combateram pela luz. A palavra indica a vida, inicialmente a criança aprende a palavra com

dificuldade, e antes da criança existir, antes da primeira célula a palavra já era uma

estrutura, e isso o ser humano não consegue aceitar –- disse o rabino. Era o Patriarca

daquela numerosa família, tinha uma barba muito longa, as costeletas eram enormes com

tranças, e aqueles olhos severos. Deu um soco na mesa, todos ficaram quietos,

principalmente os filhos e filhas mais velhos, eram os dias finais, eles sabiam, resolveram

deixar o velho mestre falar, mesmo com a doença degenerativa de seu cérebro e sua idade

avançadíssima –- 102 anos, eles comentaram. O velhaco continuou: –- Deus é parte da

palavra, é o que podemos fazer. Cadê as mandalas? –- perguntou irado –- tragam as

mandalas, vamos fazer muitos jogos esta noite! Esta casa hoje será um cassino, todos vão

beber e dançar e conversar, será uma noite da palavra! A palavra é luz, é a luz dos homens,

a palavra atravessa as trevas como uma luz, vamos falar todos e escutar todos até o dia

amanhecer, quando a luz do dia chegar nos calaremos! O ser humano vai viajar até Júpiter

nos próximos 70 anos, me escutem e entendam seus filhas das putas do caralho

hahahahahaha! –- disse o ancião, o velho Rabino. –- aleluia, porra! –- disse o velho

erguendo a taça de vinho, e todos ergueram juntos e gritaram aleluias –- vamos conversar,

matem, temperem e assem um novilho gordo, a palavra é como um filho pródigo que

retorna à casa do velho pai depois de percorrer o mundo! Entenderam? Heim? A palavra é

feita justamente para retornar –- o velho berrava, parecia ter vinte anos! Caraca! Era um

realismo impressionante, mesmo com a carcaça velha e enrugada se movia com

jovialidade, mesmo cego e em uma cadeira de rodas, ele podia falar. O corpo é apenas

abrigo da palavra.

III
A palavra está envolvida em toda existência, na existência de todas as coisas, a existência

emerge com a palavra, e a palavra é Deus, e a palavra é a possibilitadora de reações

químicas, a palavra comanda a química, as coisas vão acontecendo com as palavras, com a

palavra, é só você escutar a fotossíntese! Escute, as mitocôndrias funcionando e cantando.


Elas cantam cara! –- pagou a cerveja e foi até a porta do bar, estava bem chapado para

dirigir, mas queria escutar música. Foi até o caminhão, subiu, entrou, e colocou uma

música. O caminhão bem estacionado, o fim de tarde, logo seria noite fria de inverno, e

Deus era o companheiro de viagem, aquela coisa bem melancólica, e bem tradicional, que

guardava seus pensamentos, por exemplo ele não pensava em travestis por causa da

religião. Aquelas travestis deliciosas com aqueles rabos perfeitamente redondos esculturais

maravilhosos! Não, não pensava mais naqueles cus piscando. Nunca mais pensou nisso,

naquelas coxas deliciosas de travestis, naqueles rabos, porra! Nunca mais pensou. Deitou

na boleia do caminhão, uma cama confortável atrás do banco do motorista, e estava tão

silencioso aquela manhã, tão tranquilo, o vento frio, ele colocou uma música do Iron

Maiden, na verdade escutou o disco inteiro e dormiu, a tarde caiu, a noite caiu e veio a

madrugada, e Deus é o deus da vida, que está fora do tempo, em vários complexos

existenciais multidimensionais estabelecendo diálogos, palavras, explosões atômicas de

dimensões incalculáveis. Sabe o que é isso? É onde minha mente consegue chegar em

termos do absurdo de algum conhecimento objetivo. É só estender o conhecimento o seu

limite de projeção e você começa a ter conhecimento das notícias –- disse a mulher. –-

mas que notícias? –- perguntou a outra mulher, estavam sentadas juntas naquele coletivo,

se dirigindo para casa, eram sete horas da manhã, naquele ano de 1985, eita ano difícil

cara! Nuossa! Era um ano assim, que não acabava nunca, acho que nem acabou direito, ou

acabou em 2013, talvez 1985 tenha terminado em 2013, ou só termine em 2043. Existe

essa teoria. Bendito seja Deus, que não é mulher nem homem, que não é criatura, bendito

seja aquilo que não pode ser criado. O Brasil é uma empresa, o Brasil já pertenceu a vários

países, vários países dominaram a política nacional por gerações seguidas de famílias

brasileiras servas e escravas, famílias do poder, famílias que planejam juntas os golpes nas

verbas para o povo a população, e se alternavam, depende sempre da bolsa de valores,

mas Deus está na favela segurando a barra da criança negra de quatro anos de idade

brincando na rua de terra e vendo pessoas armadas disputando o poder, fardadas ou não.

Bendito seja a misericórdia silenciosa do amor de Deus dispersa infinitamente, dispensada,

distribuída, apresentada como novidade há muitos, pois são muitos mesmo, a espécie

humana caminha para a superpopulação –- disse a outra mulher respondendo. O ônibus


se sacudia na subida daquela serra e suas engrenagens produziam sons como palavras de

raiva. E as palavras existem aos milhões por segundo, todo o movimento das palavras se

pudesse ser medido e quantificado seria como contemplar a maravilha de uma explicação

metafórica e real sobre o que é o instante de respirar, o instante da vida. A vida é a

renovação de seu instante.

IV
O egoismo é fundamental. Ser um bom egoísta, ser egoísta por um temo, e depois, deixar

o egoísmo, como se fosse um ser saindo do casulo, e outros casulos virão. Não tem saídas,

o envelhecimento afasta as pessoas, as pessoas se afastam dos velhos, os velhos não são

produtivos, e depois de sugar o dinheiro dos velhos os mais novos partem para sempre.

Quem pagaria 30 milhões de dólares para curar um morador de rua? Quem daria ouro

pela saúde de um miserável. Pois a palavra nos indica que Deus faria isso, se quisesse, se

desejasse, se pudesse, se Deus existisse com o ser humano existe, são muitas diferenças,

são tantas as diferenças, os caras não vão para o erro quando divergem: são entidades

diferentes, que se acusam de criador: o homem é acusado de ser o criador de Deus, e Deus

é acusado de ser o criador do Homem. E você vai reclamar com quem? Heim?

V
O que uma criança de 12 anos pode fazer com um revolver calibre 38 nas mãos oh

Grandioso Pai, Deus celeste do amor? Ela pode se proteger de bandidos, pode ser até uma

notícia de pé de página “garoto mata colega com um tiro na cabeça em escola”, ou pode

ser uma criança que vai usar o revólver para roubar, em todos os veículos e planos de

sobrevivência, nos lugares escuros pela noite, nos lugares fechados pelo dia. Oh Deus de

amor, tua palavra é luz mesmo nas trevas, mesmo no mais profundo sofrimento há um

pequeno ponto de luz que é a tua palavra.


VI
Errados todos somos, mas quando libertos pelo pão da eucaristia da mesa santa de Jesus

Cristo teu filho comunista, a palavra dá voltas em meu coração! –- disse a irmã. O coletivo

cheio de gente, subindo aquele morro imenso e íngreme e aquela crente falando alto

sobre a Glória de Deus, muitos pedreiros, muitas domésticas, muitas putas, muitos

malandros, muitos estudantes, muitas aposentadas, muitos velhos, era o público que

lotava aquele coletivo, eram umas 59 pessoas em um ônibus que cabia 25. A aranha não se

mexe, você dá uma sapatada nela, aquelas aranhas pretas, grandes, caranguejeiras que de

vez em quando aparece, e você dá uma sapatada e ela fica encolhida e morta, era assim –-

disse a criança. A professora da creche, oh Deus bendito e pleno de palavras, veículo de

palavras por todo o universo, palavras que criam, e chegam à existência do ser humano

para que nós humanos possamos falar, e criar coisas pelas palavras, criar pensamentos,

criar, opiniões, criar uma visão de existência, de mundo, de instante –- disse a outra

mulher. A crentinha ficou calada, não gostou muito daquilo e abriu a bíblia e ficou lendo,

calada, envergonhada, se sentindo humilhada, tirou os óculos e chorou. Ficou chorando

baixinho, e as pessoas do ônibus aliviadas pois o ônibus rugia e rugia carregando aquele

peso, naquele morro bem na favela. Era a imagem clara do momento anterior a uma

tragédia. Muita gente morrendo voando da janela do ônibus desgovernado descendo

morro abaixo sem motor. Era isso, amado Pai? Jesus é teu filho real, somos teus filhos

adotivos e você é nosso Pai adotivo, você é nosso refugio psíquico –- pensou a crentinha

orando caladinha choramingando enquanto o ônibus tremia, rugia e fazia esforço naquela

subida tão elevada, o motorista suando, e o ônibus quase chegando no alto do morro,

naquele desespero real, até o momento em que todos entraram em pânico. Deus

maravilhoso, todos nós morreremos, sabemos disso, é tua vontade que seja assim, e

esperamos ser como aqueles animais que se transformam, como as borboletas, que nossas

almas se transformem para que nossa existência continue diante dos teus olhos de amor.

Te amar é estar na essência do amor pois é devotar toda energia de um gostar ao fato de

que o universo é imenso e complexo e freneticamente detalhado, e isso é tão belo que nos

faz sentir amor, puramente sentir amor, vem do nada, é roduzido de um nada.
VII
As distrações da linguagem, a existência do inconsciente, a necessidade de ter que se

explicar sempre, usar um chapéu de boiadeiro durante uma campanha política, beijar uma

criança de colo durante a camanha política, participar de rituais de acordos em mansões

de ricaços durante a campanha política de eleições, e dentro do coração odiar os

nordestinos como o fascista fez, tudo isso oh Deus de amor faz o mundo ficar cheio de

dobras, faz o mundo se dobrar e esconder, se dobrar e ofuscar a lucidez, a luz sem

necessidade de brilho, a luz papo reto, a luz parceira, a luz gnte boa, a luz camarada, as

realidades são como ondas que repercutem até um determinado final. Um fim. Não

dávamos nada para ele, não tínhamos nenhuma esperança estética nele, ele era feio, era

triste, era pobre, era simples, mas Deus foi lá e o escolheu, escolheu um pé rapado da

região do Mediterrâneo, aquele mar tão grego. Não me esqueça meu Deus, não me

abandone na ignorância, pois foi Deus que escolheu este, ele podia escolher muitos, podia

escolher os mais belos, (queria ter escolhido os mais belos), mas a palavra foi direto ao

mais feio, a palavra se direcionou espontaneamente aos mais pobres, desde o início da

evolução, havia muitos com Adão e Eva, mas estes dois foram escolhidos, foram feitos e

escolhidos, mas, não me envergonhe mais –- só com o Alto Comando do Exército se pode

dar um golpe militar. Mesmo um presidente insano, mesmo um ditador, por enquanto não

vamos nos envergonhar mais, oh Deus amado, Deus do Amor, invisível presença que

constrói o que foi destruído em nossa humildade. Amado Deus que preserva na vida os

humildes, os amorosos, os que amam a palavra, a vida, a vida das pessoas, a vida de todas

as pessoas, de cada um , desde o mais humilde ser humano. E te pedimos Deus que tua

pesada mão recaia sobre os psicopatas, recaia sobre os que mentem 200 vezes a cada seis

meses, que sua mão pesada caia sobre os mentirosos, os que buscam a fome do pobre,

buscam a destruição dos pequeninos, oh Deus, livra-nos dos que mentem usando a

própria verdade, meu querido e íntimo amor, meu Deus, minha verdadeira pátria, o Ser

sobrenatural e impossível. Meu Deus é meu amor, é o máximo de amor que posso sentir é

or uma entidade invisível e fabricada com recursos da minha cultura: só assim pude tocar o

botão de abrir, pude puxar a porta, e depois, confesso, não doei mais dinheiro à igreja

jamais, de novo não mais. Eu mesmo não formulei bem isso. Eu quero silêncio meu amor.
VIII
No limite de passar mal, quando as forças da vida ameaçam deixar meu corpo eu suspiro

por ti meu Deus, deus de minha força, quantos santos não te conheceram na hora do

medo da morte? Heim? A coragem é como o sol, oh Deus criador do amor esta emoção

feita de química cerebral, as células, como foram perfeitamente feitas, uma tecnologia

fisiológica, uma arte! O que dizer do citoplasma? Quando vejo isso, me emociono.

IX
Na hora da UTI, na hora em que estivermos em coma, desacordados, entregues a um leito

de hospital, ou mesmo em casa, numa cama e recebendo os cuidados das pessoas, ainda

assim isto seria um milagre da vida. A vida humana estudada e pesquisada pela Medicina,

pela Biologia, pela Sociologia e por tantas ciências, mais de 10 mil ciências acadêmicas

diferentes estudam os fenômenos humanos, o que o ser humano pode conhecer, e eu,

daqui de meu inferno, sei que tudo veio de tuas mãos oh gigantesco Ser espacial universal

cósmico que se estende por bilhões de quilômetros quando de ti sai um sorriso. Teu

sorriso tem bilhões de quilômetros de extensão, e tudo que está em seu caminho floresce

no absurdo do silêncio profundo do universo. Vocês ainda não sabem muito bem, não é?

Vocês ainda estão resos à religiões, presos a pessoas que determinam o que vocês

precisam repetir, e repetir, e repetir para estar diante de Deus. Isso não me interessa muito.

Não consigo ser escravo de um padre, ou de um pastor, ou de um pai-de-santo, não

posso ser escravo mental de ninguém pois preciso te olhar senhor Deus, preciso te

perguntar livremente e ficar com teu silêncio em minha alma. Vou sair agora, são 02:00hs

da madrugada, mas meu coração está inquieto, preciso andar por ai, caminhar, eu sei que

o Brasil é violento demais, e que a esta hora só existem bandidos nas ruas, fardados ou

não, mas existem pessoas boas também, fardadas ou não. E meu coração me inspira a sair.

E eu vesti uma blusa grossa pois há um frio, e fechei a porta de casa, as luzes apagadas,

desci a escada, abri o portão, tudo escuro, só as luzes da rua, os vizinhos todos dormindo

na noite mais fria do ano, e o céu sem nuvens, só estrelas, e eu tentando ver teu sorriso

estendido nas galáxias acima de minha cabeça, olho para o céu com as mãos dentro do
bolso, dei alguns passos, a cidade dorme, moro na periferia, vou caminhar, está frio, estou

sozinho, estou cheio de dívidas, estou cheio de problemas, a sociedade brasileira me

rejeita, me pisa, a sociedade brasileira me odeia, na verdade o Brasil odeia os brasileiros

pobres, é o país com mais pobres no mundo inteiro, e é o país que esmaga os pobres.

Animais gordos do sexo masculino, do sexo feminino, de muitos sexos, animais gordos

vestidos de terno e gravata, animais pançudos se assentam nos tribunais, são juízes, são

promotores, monstros gordos e famintos. Eu, vou apenas caminhar nesta madrugada com

o coração buscando na noite escura e perigosa o sorriso de Deus. Onde estás meu Deus?

Qual a razão desta distância que estabelecida foi entre mim e você? Olhei para trás, minha

casa ficou pequena, ali no cantinho do bairro, minhas coisas, a vida na terra é tão

passageira. O que você vai suportar de mim? O que estou fazendo? Qual a resposta exata.

Estou andando, minha respiração forma uma fumaça, me encolho, o frio corta, vejo uma

pessoa deitada no chão, encolhida, um morador de rua se contorcendo de frio. Ah! Água

quente, talvez um banho quente, heim? Heim Deus? Heim amado Deus?! Um banho

quente, a água bem quentinha, aquela água revigorante, saindo fumaça de calor,

quentinha, água limpa, tratada, deliciosa, descendo quentinha pelo corpo, sem pressa de

sair do banho, aquele banho quente e demorado. Lavar os cabelos, a cabeça (se não tiver

cabelo), escovar os dentes, usar um sabão perfumado! Já pensou? Heim amado Deus das

galáxias, heim? Deus dono de um sorriso de bilhões de quilômetros de extensão. Foi então

que escutei um tiro, depois dois tiros, olhei para o lado, vinha de um beco, eu já estava a

uns nove quarteirões de casa, era noite muito muito fria, eu só queria andar, ver a cidade

dormindo, aquele frio cerrado, e veio de um beco os tiros, eu fiquei do outro lado da rua

escutando, depois foi mais tiros, mais três tiros, dei uns passos rápidos, virei a esquina,

quando olhei para trás vi pessoas correndo. Era isso? Mais violência silenciosa, mais coisas

assim? Bom, divino criador de todas as coisas, tu és minha delicia e razão de vida, sem a

certeza de que existe este irônico Deus criador de todos e gerador da palavra, eu seria o

que? Cara, eu seria o que? Não tenho ciência, não tive infãncia de elite, não tenho capital

cultural de elite brasileira, não estudei ciência (estudei sim, mas com péssimos

professores), o que você quer cara?! O que você acha que eu sou caralho?
X
O Ministro da Educação gritou com os índios brasileiros –- vocês são merdas, são falsos,

malditos demônios pelados e imbecís –- disse o Ministro no microfone. Os índios ficaram

abismados, mas estavam ali agestes da Policia Federal e do Exército fortemente armados, e

com o cano de um fuzil na cara você não pode fazer muita coisa! Com a mão forte e

impiedosa dos cães do estado engatilhando um fuzil apontado para você é o sopro da

morte meu velho, é a morte assoviando teu nome. Mas isso não é para ti oh Deus amado e

querido porque uma bala de fuzil não te mataria. Um desses cães da polícia federal ou do

exército pode atirar a vontade na tua direção oh Deus e nenhuma bala te penetraria e te

explodiria por dentro como acontece quando o tiro acerta o corpo humano. E foi o Deus

da vida que projetou o corpo humano para não resistir a um fuzil, a explodir com uma bala

de fuzil. Foi sarcasmo isso? Não sei! Foi sagacidade isso? Não sei. Era para ser diferente?

Também não sei, eu guardo a alegria de amar meu Deus, apenas isso. Apenas sinto que

amo. Pode me chamar de sapa gorda, de mulher descabelada, de gorda, de vaca gorda, de

preguiçosa, de mulher feia, com barriga saliente, feia de rosto, podem me chamar disso

tudo, mas eu me recolho em mim. Eu falo comigo mesma, eu fico medindo se sou louca

mesma, um alouca feia e desprezada, eu fico medindo isso, muita gente não acredita que

eu penso. Mas eu penso oh Deus amado e enorme. Penso, sei que existo, sinto a

existência. E dizem que não mereço existir. É isso? Já me disseram isso –- melhor você

morta, melhor se tivesse morrido no parto, melhor se tivesse sido um aborto, um aborto

dentro de um banheiro, ou um aborto elétrico com choque de militar da ditadura, ou um

aborto espontâneo, seria melhor –- disseram, disseram muitas vezes, e disseram que como

eu existem milhares, milhões de mulheres feias e com barriga saliente, grande, feia, com

estrias, com rugas, os seios flácidos, pequenos ou grandes, mas flácidos, com toda a feiúra,

como se fossem milhões e eu fosse mais uma pessoa insignificante desse exército de

pessoas feias que está em toda parte no Brasil, é o que disseram! Mas que porra! É o que

disseram, e eu olho para o nada, olho para um lugar que não tem absolutamente nada e

falo contigo meu Deus, eu exclamo aos gritos em silêncio dentro de mim para que o teatro

e a peça terminem!
XI
Deus criador da existência, e existência é o auto-encontro no instante descritivo: este é o

momento para agradecer diante do sol, ou da água, ou da terra, ou das árvores, como um

abraço, o fato, inexorável do ser humano existir e fazer história, fazer a história, um dia

após o outro, vivendo até morrer –- disse o policial. O outro continuou calado. Estavam em

quatro, dentro do camburão. Oh Deus amado, e quando são quatro policiais pais de

família militares honestos que nunca agrediram ninguém jamais, apenas cumpriram sua

função estatutária e a segurança pública. Eles estavam dentro do camburão, eram 03:00hs

da manhã –- começar uma nova vida. Tomar uma decisão e recomeçar, mudar o discurso,

por causa do sofrimento, o cara vai até o sofrimento e quando ele sente aquela dor,

qualquer dor intensa, ele fica em dúvida se vai seguir ou não. O que eles vão fazer então –-

perguntou o policial que estava no volante do camburão. Era aquela noite do nordeste,

aquela noite quente de verão, um verão muito seco até agora, e estava quente mesmo de

noite. Os dois policiais que estavam no banco traseiro estavam calados, tensos. Um estava

orando baixinho, repetindo um pensamento de sucesso. O outro, mais violento, estava

pensando na arma, nos mecanismos de uma arma, pensava em como a arma é bonita, e

ele tinha algumas armas, todas registradas, armas são objetos belíssimos –- pensou o

policial alisando a escopeta calibre 16, de fabricação exclusiva das forças táticas de

combate ao crime organizado, furiosas facções existem em todos os níveis sociais, e a

guerra entre elas é chocante, e foi quando o Tenente disse –- desliga o motor. E o

Segundo Sargento desligou. A viatura estava debaixo de uma árvore imensa e frondosa,

que gerava uma sombra naquela rua escura e ficaram invisíveis. O Tenente disse –- pronta

abordagem ao meu comando. Só disse isso. Cara, eu acho bacana demais o treinamento

militar. Esta frase significa muitas horas de treinamento, muitos dias de treinamento dentro

do quartel, e em situações violentas de confronto, ela significa atacar quando eu mandar.

Grandioso Deus amado criador de todas as coisas, não basta criar é preciso sustentar pois

a criação acaba em si mesma, ela se transforma e sem o sol chegando todos os dias à terra

nada haveria para se ensar com pensamentos humanos dentro de cérebros vivos feitos de

tecido animal cm células que roduzem energia e substâncias. Indo das coisas mais

minúsculas para as coisas mais absurdamente grandes a mente humana percorre teu
imenso sorriso oh criador do universo Deus de minha alegria, de minha vontade de me

ajoelhar e chorar de medo. De medo de tudo isso, de medo de estar em situações

horrorosas, de medos enormes que percorrem minha alma –- disse o soldado do banco

traseiro. Ele começou a ter uma crise de pânico, começou oh Deus querido meu amor,

meu amado Deus, meu íntimo amor, ele começou a ficar muito estranho. O tenente se

voltou para o fundo do veículo e só olhou aquele cara tremendo. Mas que merda –-

pensou o Tenente. Isso pode nos ferrar –- continuou o pensamento. O silêncio era imenso

e diante da viatura, do meio do nada surgiu um homem correndo, e vários outros

correndo atrás dele, e trocavam tiros, o homem caiu no meio fio, caiu e os outros

chegaram e despejaram tiros, e então de dentro da viatura que estava invisível para os

bandidos até então, o soldado teve um surto, abriu a porta da viatura e correu em direção

aos bandidos atirando, atirando sem saber o que estava acontecendo, e acertou três

bandidos, três balas, três cadáveres, os outros despejaram balas nele, foi tão rápido que o

Tenente não agiu nos 10 segundos que se seguiram, no 11 segundo o Tenente abriu a

porta, deu o comando, deixou a porta da viatura aberta como escudo por causa da

blindagem e despejou bala, desceu o dedo foi danto tiro acertando os alvos dando tiros,

os bandidos não esperavam, não tinham visto a viatura que estava escondida no fim da

rua e se foderam. Também são seres humanos e criaturas de Deus. São teus os bandidos

também meu amor, meu Deus. O mesmo fez o Segundo Sargento que estava no volante,

abriu a porta, desceu, se escondeu e mandou bala, foi dando tiro e mais tiro e descendo a

lenha, os alvos só caíndo, foi aquela surpresa para os bandidos e foi cadaver caindo e

gente fugindo. Fugiram. Caçar os bandidos a esta hora da madrugada pelos becos da mais

perigosa favela de Belo Horizonte estava completamente fora dos planos. O Tenente

mandou os comandados que sobreviveram ir ver o corpo do soldado, se estava morto, e

voltou à viatura chamando reforços, chamando tudo que podia chamar para ajudar. E foi

isso aquela madrugada. Chegando no Hospital foram várias horas de cirurgia em estado

gravíssimo. A família estava lá no Hospital, a mãe coitada idosa, chorando, os filhos –- ele

foi um herói –- disse o Tenente consolando a família horas deois do tiroteio quando as

ambulâncias e os reforços chegaram, uma operação foi acionada e invadiram parte da

Pedreirinha e tals, mas o soldado foi um herói –- disse mais uma vez o Tenente, se
afastando e procurando um café. Estava acordado trabalhando direto umas 17 horas

seguidas, só atendendo ocorrência, só resolvendo desinteligências, estava exausto, muitos

conflitos em seu plantão. Era aquela pobreza e aquele sofrimento. Tinham sido seis mortos

naquele confronto, e um policial entre a vida e a morte. As vezes eu me lembro daquilo e

fico com certa vergonha, pois, eram todos, os seis mortos, eram negros. Eram homens

negros, seis. O policial era (é) branco, está em estado grave, oh Deus amado. Por favor

esteja nos Hospitais, esteja amado Deus junto a todos os entubados, todos os entubados

por favor, os que estão inconscientes, em coma, em estado vegetativo, em grande dor,

faça-nos solidários oh Deus! Mas o demônio estava chegando, era um Coronel que foi ao

hospital dar uma entrevista, as redes de televisão e as emissoras de rádio mandaram

reporteres para apurar o tiroteio na favela da Pedreirinha nesta madrugada, e o Coronel

chegou e falou; –- quem nunca errou na vida?

XII
A mãe convidou as duas filhas, elas estavam de aventalzinho. A mãe foi até o jardim, as

filhas a seguiam. Era um dia para lantar algumas lantinhas –- disse a mãe. As duas meninas

falavam sem arar, conversavam, falavam coisas para a mãe, falavam e falavam. A mãe

escutava e continuava a didática. Chegaram no jardim, mexeram na terra fizeram isso por

algumas horas, as meninas ficaram cansadas, e resolveram as três descansar, e comeram

um lanchinho, e depois voltaram a mexer na terra e a lantar, oh Deus amado criador

querido, e assim foi aquela manhã na vida de três seres humanos, isso foi a tua glória, tua

paciência e ternura de semear na estrutura da história da vida os seres humanos, e, vendo-

os florir nos revelas tua força, tua teimosia, tua irreverência, tua negação ao óbvio, e o

chute na bunda dos vendilhões do templo! Sim oh Deus, aquelas três pessoas lantaram

lantinhas e aguaram, e passaram juntas a manhã e fizeram juntas o almoço, e comeram

juntas, a mãe e as duas filhas, senhor Deus querido! E isso é tão bom de se ver. Sem

exlplosões de bombas e mísseis. E soldados arrombando as portas em nome da Segurança

Nacional, do Patriotismo, dos Deveres do Cidadão ao Chefe, ao Presidente, ao Marechal,

ao Senador. E nós nos ajoelhamos Deus amado. Sim, a gente teve que se ajoelhar. Tudo
ficou muito turvo, o céu ficou escuro com núvens pesadas, pesadíssimas, nuvens escuras e

densas, pesadas, o barulho dos trovões, a explosão dos relâmpagos querendo conversar, a

natureza querendo ser inteligente com o ser humano chamando para uma conversa. Foi

por isso que desci do meu apartamento e fiquei no meio da rua de frente ao condomínio

gritando para a chuva gritando mesmo, chovendo para caralho na minha cara, trovões e

relâmpagos, minha roupa encharcada, eu no meio da rua e a enxurrada cobrindo meus

pés, e relâmpago vai e vem, e trovãos explode aqui e ali, e o céu tá bruto, e eu gritando: –-

o que eu preciso fazer?


Vivo ou Vivo
David José Ramos

A cultura nos faz acreditar que os atos simples não precisam ser avaliados.

Um homem urinando em outro diante de uma câmera, eu não julgo

Ah, mas Kant disse que julgar é o que podemos alcançar de mais sublime

Eu vou te responder, eles dois estão sorrindo

Ah, mas sorrir é falso, é estética pura, é convencimento, é luxúria

Então eu vou te apontar a saída, vai lá, saia

Ah mas você devia ser mais democrático, devia dialogar mais com as diferenças, devia carregar
a mala

Devia ser mais honesto com a ciência, e ler ao menos um pouco de física, de matemática

Devia ao menos ler a bula da comida, devia concordar com Derrida sobre a mentira

Você devia ao menos ter acenado positivamente, categoricamente, devia ter visto o eu, o nós,
o vós

Devia ter feito um poema enquanto votava. Devia ter votado na Alemanha de 1933, devia ir lá
e votar, aquele voto maroto, de zoeira, que você faz com alegria, devia rir, como aqueles dois
homens envolvidos com a urina

Eu não devia te responder, estou apontando a porta dos fundos, da rua e dizendo saia de mim

Ah, mas responder é a saída? Saia de mim? Um exorcismo? O que você vai dar ao outro,
quantos compartimentos você tem? De quantas coisas você pode falar?! qual o caminho da
tua afetividade irmão? Quantas rotas, quantas palavras, que tipo de castelo você quer para o
rei?

E o rei não é você. Não precisa ter o rei, é só sair por aquela porta, só ir, que a história te
acompanhe, ela vai mordendo teu calcanhar

Sentiu a dor nos pés? É a história te mordendo, mordendo teus passos, para onde você vai, e
para onde você for vai estar lá o pôster do fascismo. Uma bota te convidando para a festa. E
você vai, é o mesmo, o mesmo, o mesmo barco sem rota, sem comando, você olha e deseja
um comando, você espera um comando, você é um animal preparado para entrar em pânico
diante de homens se urinando mutuamente em um vídeo da internet, você sabe o que Kant
diria, você fecha os olhos, você respira
Ah, mas era apenas pelo Brasil, era tudo pelo Brasil, era o foco, o Brasil, era aquela palavra, era
isso o que você tinha, uma ironia, uma ironia que Roquette-Pinto não quis escutar. Tirou em
1910 uma foto com crianças indígenas, e depois que eu vi as crianças indígenas sentadas com
ele para uma foto, depois que vi a foto de 1910, dos pequenos indiozinhos, eu me perguntei
sobre homens se urinando, e homens governando, e homens olhando para você e avaliando.

Homens fazem pedagogia, e todos são homens, as mulheres são tipos de homens. E o homem
não é nada, é um vento passageiro com palavras

É um prédio, um edifício, uma memória, homens em pedaços para serem comidos todo
domingo, cérebro de homens derretidos pelas experiências educacionais

Ah, mas Kant vai ficar nervoso com você

Você vai ter que devolver o dinheiro do sorvete que ele te comprou

Vai ter que se desculpar com ele, teu amiguinho

Que morreu em 1804, e nasceu na mesma cidade de Hannah Arendt

Mas não teve a chance de urinar sobre ela

Pois foram muitos anos depois. Kant teria de fugir como ela, para os botecos da França

Ou para a fazenda de Bachelard, onde ele escondia judeus

Ah, mas isso é só meu filme, o filme que vou assistir com Deus um dia no julgamento

Vamos nos assentar e vamos ver juntos todos os meus momentos, e a cada falha ele vai dizer

“está vendo essa porra?”

“Cadê os direitos humanos de porta de cadeia pra te soltar agora?” --- deus vai perguntar

E eu vou sofrer, vou sofrer como um homem sendo urinado pelo outro

Vou me ajoelhar logo no primeiro pecado de merda

Vou sofrer até chegar às lágrimas

Vou sofrer, pois, não vou conseguir responder onde estavam meus pensamentos naqueles
minutos

“onde estavam meu deus?

“eu não sei” --- ele dirá

Ah, mas agora você está blasfemando, agora é que soltam Barrabás, é agora que o povo não
sabe decidir, e o povo nunca sabe decidir, e o povo pode ser influenciado por palavras que
nunca escutou antes, palavras que nunca estiveram antes, ou, na verdade, eram segredos,
para serem confidenciados. A nobreza da excreção, do sistema excretor humano, que faz todo
o trabalho sujo do pensamento fazer sentido, e que pensamentos Kant, que pensamentos
querido, querido, querido Kant? Heim super-herói? Heim senhor genialidade da obviedade
formal logicamente irrefutável? Heim senhorita eficiência, senhorita cordialidade, heim?
Bondade em pessoa, santidade, pureza, caráter, objetividade? Heim? Vai negar agora?

Onde estavam teus pés enquanto a história te comia, sujeito, sujeita? Onde você estava? Não
escutava teus ossos mastigados pelos dentes da história fria

A história friamente moendo teus pés mastigando tranquilamente, com aquele olhar de
enfado, os dentes de fera da história se fechando sobre teu corpo, dissolvendo na saliva ácida
do esquecimento, de ninguém e nada, de nunca mais e ainda-não eternos

E você vê tudo isso, e se distrai.


Respeite os seres vivos

David José G. Ramos

1. Como surgiu a Religião

Depois que sua avó paterna morreu, Luís, após de uma série de desilusões amorosas, sentiu que
Deus falou com ele. Estava praticando caratê no quintal de casa quando sentiu muita paz. Assim
foi a iluminação de vários mestres das artes marciais. A paz que a beleza harmônica do mundo
traz, a felicidade contida em um cristal de alegria. Abel conversava com Deus, e Caim também.
Eram filhos da mulher mais antiga que conheciam, não tinham visto avós, e na terra só existiam
eles, os quatro, o quarteto mais antigo, o quarteto fantástico, como diziam os pais. E essa foi a
história mais antiga que fazia sentido, o pai e a mãe inventaram a língua falada e escrita, eles eram
um casal funcional, genial, apesar de toda capacidade de pecado que estava instalada naquela
inteligência racional. E eram três inicialmente. Adão, Deus e Eva, eles conversavam, falavam
abertamente, era uma dupla rodeada de outra fala, inicialmente uma fala apenas, um Deus
apenas, uma direção poderosa. E então, foram expulsos da conversa, a voz ficou muda, e Adão
teve de tornar inteligível, e Eva também, inicialmente sem divisões sexuais, apenas dois, expulsos
da conversa. E então, como o sexo é bom, tiveram filhos, Adão fez o parto dos dois, nasceram
próximos, podiam ter sido amigos, podiam ter conversado mais --- Onde esta teu irmão? --- Deus
pergunta. A pergunta pelo outro que foi assassinado, a pergunta que reverbera no cosmo
encontrando outras e repetidas situações onde Deus pergunta para o assassino no momento
oportuno. A racionalidade conduzirá a isto --- diz Kant --- a razão esclarecida, investigadora,
reunindo evidências, reunindo matemáticas --- onde está teu irmão? --- era o diálogo agora Abel já
era cadáver. Sem armas ou venenos, Caim matou seu irmão com os dentes, mordeu-lhe o pescoço
enquanto dormia e mastigou as veias e seu rosto ficou vermelho completamente de sangue, e ele
mesmo com a cara cheia de sangue, com o irmão sofrendo uma hemorragia e uma parada
cardíaca tal foi a brutalidade daquela mordida, feita com 32 dentes de Homo sapiens sapiens,
mordeu feito um cão pitbull, arrancou um pedaço do pescoço de seu irmão com a dentada
poderosa, seu rosto ficou cheio de sangue. Se levantou, olhou o irmão sangrando, gritando e
chorando de dor e angustia, uma poça de sangue enorme se formou, Abel patinou no próprio
sangue e caiu morto três passos adiante. De longe Caim ficou vendo o irmão morrer, depois, foi só
o silêncio, foi lá, verificou, viu a cara morta, o boneco de carne morta, assassinado. Caim sentiu-se
animal. Um grande animal, um tipo de leão, que precisa ser o líder da horda.

--- mas onde está o teu irmão? --- perguntou novamente Deus. Aquela voz dentro da cabeça de
Caim, e ele sacodindo a cabeça. De longe o diabo observava, e nada tinha com o caso, não foi pelo
diabo que Caim matou Abel, não foi influência sua, nem uma trolagem diabólica, foi o corpo e foi a
mente de Caim, foram ambos. Era apenas a brutalidade humana, uma espécie de instrumento de
trabalho ao qual recorreria muitas vezes o diabo mais tarde, mais no presente, não adianta a
culpabilidade. O ser humano ensina. E Caim chegou em casa sem Abel, eram inseparáveis, até nem
era saudável que convivessem tanto tempo. Havia um amor entre eles. Mas Caim achava que
sendo o macho líder seria melhor, talvez matasse o pai também, e ficasse com a mãe para ele.
Talvez fosse melhor isso mesmo --- disse Caim para si. Chegou em casa e tomou um banho. Os pais
estavam na cozinha preparando a comida. Era a única família humana do planeta terra. Se fosse
uma graduação, de tipos de primatas espalhados por todas as florestas do planeta há 200 mil
anos. Em dois mil anos muita coisa mudou, imaginem em 200 mil anos. Muitas e muitas ondas do
mar passaram sobre esta praia, ou seja, o tempo, os dias, os momentos, os segundos foram se
acumulando nos objetos, foram gerando substâncias materiais, corroendo com oxidação o ferro
mais resistente. A transmissão genética do material responsável pela vida, pela produção de vida
orgânica individual era variada, muitas rotas de migração levaram primatas a se espalharem, e
muitas mutações em estado de isolamento reprodutivo foram selecionando o melhor ambiente
para aqueles genes, e foi ali mesmo que a racionalidade humana se tornou possível. Caim pensava
por si mesmo, era o segundo homem, o terceiro homo sapiens, logo depois dele o falecido irmão -
-- falecido não! Disse Deus. --- falecido não! Onde está teu irmão Caim? --- Deus perguntou
novamente, bem impaciente. Caim pôs as mãos na cabeça, se sofresse um pouco deixaria de ser
um psicopata. O cadáver do irmão cheio de sangue morto e moscas, no meio do mato, bichos
podiam comer, talvez estivessem comendo a cabeça do cadáver. Mas Caim era o terceiro Homo
sapiens decidiu simplesmente sair, ir embora, nada dizer, recolheu tudo que pode, amarrou em
uma pele de urso, fez uma mochila com o couro, calçou as botas pesadas e se foi. Estava agora
focado em encontrar uma primata semelhante a ele no máximo grau de semelhança genética
possível, uma neandertal por exemplo. Não havia outros Homo sapiens, eles eram os primeiros. E
ficaram diante de Deus pelo fato de poderem ver-se a si mesmos no espelho, em qualquer tipo de
espelho, no espelho das águas. A imagem de si mesmo nas águas do mar, ou nas águas de uma
lagoa foram uma das primeiras formas de compreensão, foi assim que eles se fabricaram a si
mesmos. Aquelas águas serenas do riacho, um riachinho de águas cristalinas que serpenteava no
terreno limpo que Adão arou para plantar raízes comestíveis. A compreensão de que as raízes
eram o alimento sem caça, o alimento sem a violência da caça, foi importante, a compreensão de
que o diálogo com Deus foi poderoso demais. Adão contou para si mesmo a história de que Deus o
fez do barro. Era uma forma de Adão pensar em sua história, sua trajetória pessoal. Ensinou Eva a
fazer isso, só que ela já sabia, ela conversava com serpentes, conversava com os animais. Mas Eva
era uma costela que Deus tirou e fez. Enquanto Adão e Eva conversavam, Caim saiu de casa e se
meteu no mato. Agora ele deveria provar se era um Homo sapiens. Como dirá Gaston Bachelard
em 1938, sobre o controle do fogo, é assim que no interior da França do século XX d. C., um
homem é distinto de um menino: quando ele sabe acender com segurança e majestade o fogo da
lareira de sua casa. Saber fazer o fogo. E Caim sabia? --- Caim, onde está o teu irmão? --- Deus
perguntou, interrompeu os pensamentos de Caim, que já estava a uns dezoito quilômetros de sua
casa, da casa de seus pais. Agora ele era o terceiro Homo sapiens a existir em busca de
compatibilidade de DNA na natureza.

2. Hoje começamos, amanhã terminamos

Sua avó paterna morreu e ele teve a ideia de criar uma religião, depois de uma série de desilusões
amorosas ele resolveu ser celibatário, ficar sem sexo, para pregar a Palavra, ele queria transmitir
os ensinamentos de Deus, ele sentiu que Deus falou com ele, tão nitidamente como uma
comunicação cotidiana. Estava praticando caratê, era faixa laranja ainda, tinha começado a uns
dois meses, ou três, e com a faixa laranja, a segunda faixa da confederação de karatê na qual se
filiou pagando 50 reais mensais, Luís se sentiu um mestre, era praticamente tudo, mesmo que
fosse muito pouco, na mente dele. O karatê em pouco tempo mudou sua cabeça, e ele estava
praticando no quintal de casa quando sentiu muita paz. Ai ele sentiu que estava recebendo um
chamado. Era sobre religião e artes marciais. Mas, melhor seria que ele mesmo falasse sobre o
tema: --- mas não posso dizer que foi muito fácil assimilar a ideia. Inicialmente as artes marciais
japonesas tem pouca relação com o messianismo monoteísta ocidental, eu fiquei assim, confuso,
aquilo foi um problema por vários dias em minha cabeça. Qual é a missão de um ser humano? ---
disso sagrado se ele. As palavras do pensamento, a voz da leitura silenciosa. Pois ele abriu o livro e
ficou muito tempo meditando, e praticando seus ensinamentos de karatê (e ele nunca mais voltou
à academia, julgou que a faixa laranja tinha trazido todo o conhecimento que ele poderia extrair
daquela linda arte marcial), e, depois de uns dias ele confirmou a vontade divina em seu coração e
decidiu continuar a pensar em como seria a nova religião que iria criar. Assim foi a iluminação de
vários mestres das artes marciais, um dia estão praticando suas artes, e em outro uma luz divina
parecida com um espírito de amor paira sobre eles e surge a vontade de ensinar sobre a prática do
amor. Isso era uma onda do mar, era assim, nas paredes da caverna. Geração após geração, as
experiências humanas vão sedimentando alguma coisa na terra, como o mar. O mar fez a areia da
praia, as praias são a obra de arte do mar --- mas Senhor, mar? O que o mar tem haver com
religião e porrada? --- perguntou em oração. Já estava difícil equacionar duas fortes finalidades
para sua religião nova, já estava complexo associar reza com chutes, e agora o mar? Era preciso
pensar bem mais --- pensou Luís ponderando. Sua oração durou a madrugada inteira, era um
homem místico --- estou propenso a comprar a ideia da recuperação do ser humano. Estou
inclinado a tentar ser um gigante da capacidade de acreditar em coisas invisíveis. Estou
empolgado com “toda” a estrutura religiosa, todo o séquito de servos e servas, de discípulos, de
sacristãos, de tudo que uma religião tem direito --- a saudação entre os fascistas, a saudação entre
os cientistas, a saudação entre os indígenas, entre os humanistas, entre os derrotistas, a saudação
entre os seres humanos precisa ser proveitosa. Um ser humano quando encontra outro ser
humano é um universo simbólico único encontrando outro universo tão único --- disse Deus.
Como consertar o ser humano?

Caim continuou a caminhando pelo mundo, subindo serras, descendo vales. Já estava distante do
lar há cinco meses, centenas de quilômetros do útero. Talvez só tardiamente Caim fosse entender
o que é perder um irmão, o que é matar um irmão. Ele ainda era jovem. Mas no início do Homo
sapiens a média de vida era 44 anos. Como medir isso? --- O dia está tão lindo, um sol de
primavera que eu fiz. E me deu uma curiosidade Caim, de saber onde está teu irmão? --- a voz
dentro de sua cabeça. Continuou a fazer o que Adão tinha lhe ensinado: caçar. Para Abel Adão
ensinou a plantar. E Abel tinha um carinho imenso pelo monoteísmo. Caim era um predador, um
ser humano vigoroso, mas, com preguiça mental para racionalizar --- racionalize, tente se lembrar.
Você pode ainda precisar --- a voz dizia. E a cada vez enfraquecia consideravelmente sua vontade
de viver. Caim decidiu não caçar naquele dia. Ficou dentro do abrigo que montou para si, sozinho
ali. Um assassino. E o que Deus faz com assassinos? O que devemos fazer --- ele perguntou em
orações. Mas não teve ajuda. Foi um silêncio. As camadas de tempo, os dias, os minutos os
segundos, foram se somando, se empilhando. Quem começou a contar os dias? A conta do tempo
feita pela ciência só pode ser no máximo uma metáfora, uma imagem para termos um lugar
conveniente para a falta de dúvidas sobre o início, ou, respostas alternativas, pois o tempo é uma
experiência diante de qualquer ser racional, o tempo é imediato --- pensou Luís. São tantos
conceitos. Quem é teu ancestral, o que ele queria? O que teu ancestral desejava, ele desejava
você? --- divulgar o que é a alma humana, prestar um serviço, fazer um dinheiro, parar para
pensar um pouquinho, parar de aplaudir sacanagem, sabe? Parar de bater palma para sacanagem!
Era isso sua missão, sustentar um apoio divino às transformações éticas decisivas que o indivíduo
humano precisa passar. Precisa passar!

3. A última praia do Brasil

Depois a avó morreu Luís teve tanto medo, era um jovenzinho assustado no velório, ficou sozinho
no quarto tentando consertar a saudade, se apegando cada vez mais às ideias fechadas, talvez se
pudesse pensar um pouco melhor teria desistido, e encontrado um amor, e construído uma
família. Mas depois de uma série de desilusões amorosas ele ficou pessimista, seu mar passou a
ter frequentes tempestades, sofria com palpitação e dores no coração quando se apaixonava por
alguém. E desonestamente a vida dizia não --- não Luís, não é você. Não é para você Luís.
Minimamente racional, minimamente inteligível, está claro que você não vai ser, o universo disse
um sonoro não a você!, você não vai!, não pode entrar no clube das pessoas felizes. De maneira
nenhuma, você não vai --- dizia a vida --- mesmo que você fosse o último, você não é a linha
evolutiva da espécie Luís! Você não é, cara! Voce está fora dos planos! Para com isso Luís --- a vida
precisa explicar, mas fica constrangida, é difícil dizer isso, dizer para uma pessoa que ela jamais
será alguém significativo, será um sempre-nada, nada daquilo que deseja ser, será um dos
invisíveis habitantes das sociedades humanas, todos os seus desejos serão frustrados, e que isso
se tornará um sintoma gigante buscando recompensas miseráveis nos atos indignos
repetidamente, dia após dia, uma resistência, rancor, Luís você tem que entender --- disse a vida --
- E você preserva isso? --- eram indagações, desejos genuínos, sem trapaças, e você não permite,
você impede, você vai lá e retira a sorte do ser Humano, a minha sorte você foi lá e tirou, me
deserdou de perspectiva --- disse Luís respondendo. No meio desta angustia Luís sentiu que Deus
falou com ele, sentiu que podia racionalizar sobre coisas óbvias, e essencialmente a vida é
passageira --- pensou Luís enxugando as lágrimas.
4. O Carnaval que fizeram

Aquela tinha sido a fase melhor da igreja que Luís criou, com inspiração divina ele anunciou a
palavra de amor ao oceano, e conseguiu um fiel, na verdade conseguiu quatro fieis, foram enfim
atraídos pela verdade da doutrina. Luís pregou sobre os fundamentos da nova religião. Tinha
parado a Kombi mais ou menos umas oito horas da manhã, tirou a caixa de livros, armou a
banquinha e começou a pregar, contando coisas que todos já sabiam, convidando à conversão,
vendendo os livros, fazendo propagandas dos mistérios que os livros revelavam, livros que ele
escreveu sob inspiração divina --- venham queridos brasileiros e queridos uruguaios! Venham
beber da sabedoria que Deus me mandou trazer a vocês --- disse Luís. Ficou pregando e vendendo
livros até as 13h00mins. A praça ficou vazia, Luís ficou com fome, resolveu entrar na Kombi,
guardar os livros e comer algo. Mas tinha uma pessoa de pé emocionada, um rapaz, e em um
canto três vultos de pessoas, paradas, olhando para Luís --- finalmente Deus mandou as
testemunhas para eu ensinar --- pensou Luís. Seu rosto estava resplandecente --- o senhor me
abriu os olhos! Agora vejo que preciso agir ecologicamente, preciso fazer algo pela vida, preciso
agir --- disse o rapaz se aproximando. Os outros permaneciam cadavericamente parados --- quero
ser teu discípulo! --- disse o rapaz, e se ajoelhou. Sempre tinha votado nulo ou branco, uma
escolha difícil sempre eram as eleições, mas agora tudo ficou claro com as palavras de Luís, era
aquela a religião que ele esperava sua jovem vida inteira. Comprou um livro --- mas, talvez seja um
passo imenso aceitar um fiel, o primeiro convertido. Era uma religião iniciante, novinha, com
idéias novas, com potencial --- disse Luís. O jovem ficou ali, esperando mais palavras. Muitas
pessoas derrotadas pela vida, muitos homens curvados pela miséria, muitas mulheres encolhidas
pelos abusos. É inacreditável o Ministério Público, o poder público, gerando a massa de
miseráveis, a massa de pobres, a própria máquina pública, os Desembargadores, os Juízes, buscam
prender toda e qualquer liderança política relevante no Brasil. Surgiu um líder, lá estarão eles
encontrando irregularidades e prendendo. Os líderes populares são temidos, são afastados, são
encurralados, e sem líderes, a massa de pessoas derrotadas pela vida, desempregadas, cheias de
dívidas, d[ividas que vão se acumulando. Você não pode prever, os usuários de drogas por todas
as partes, ataques de fúrias, crianças mortas, aglomerados humanos de pessoas pobres, sem
função nenhuma na sociedade estruturada, pessoas sem utilidade, sem necessidade, que não
interessam às fábricas, não interessam aos moldes da produção, não interessam às universidades,
não são necessários na escola, não são nem computados nas estatísticas e planejamentos do
Sistema único de saúde. Não são ligadas a nada, e todas as vezes, todas, que uma mulher ou
homem indignado se levanta e diz que lutar pelas melhores condições para o mínimo de
existência, os informantes informam, os juízes julgam, os vereadores aprovam e a política retira, o
carcereiro prende e os bandidos presos destroem. Uma imensa máquina de moer pessoas críticas
se montou silenciosamente, de forma silenciosa, funciona e deixa sempre estéril as camadas
sociais mais pobres, as mais populosas. São milhões de crianças que nascem de corpos sugados de
mulheres vilipendiadas e são introduzidas em hospitais de periferia onde se empregam médicos
fascistas para que a saúde das pessoas seja sempre precária no nível tolerante e tolerado. Desde
crianças recebem a violência do mundo como parte de sua formação, educação, para que, na
idade adulta seja reconhecida por um doente psicopata como uma mercadoria, ou simplesmente
carne. E agora, quando morrem os pobres, são queimados os corpos, e as cinzas são esquecidas
em alguma máquina de produzir adubo, para que a terra receba mais substâncias nutritivas ---
disse Luís. Sentiu que iria perder o discurso se parasse agora, tinha um rapaz e três fantasmas que
estavam escutando atentamente a pregação --- é o não é a igreja do amor oceânico! --- pensou
Luís. O Brasil é o uma fábrica, é um caixote cheio de estamentos, de camadas, de andares, de
pisos, de plataformas, e as pessoas estão separadas neles pela cor e pelo potencial, uma fábrica de
produtos baratos do mercado internacional, uma fábrica de infâncias ruins, em todas as partes
infâncias ruins!: a infância dos ricos é ruim pois vivem numa bolha de falsidades e demagogias. A
infância do pobre é ruim pois falta comida e segurança, a infância da classe média é ruim pois não
existem mais pais ou mães na classe média , tudo isso você pode ver, irmão! A maldade salta para
dentro dos olhos! Mas o potencial das camadas pobres, dos mais pobres, da multidão de
catadores de papel, da multidão de presidiários, na multidão de desempregados, de professores
da rede estadual, de donas de casa em bairros operários é um potencial destruído, desqualificado,
mordido e mastigado. O potencial de produção da vida, de tudo ao redor das pessoas pobres e
dissolvido em ácidas conclusões da história dos vencedores. Os sem-teto, os marginalizado,
aqueles que recebem o soco no peito, recebem a hepatite no beijo, a ignorância é um presente, o
não saber, enfim, desculpas! Desculpas irmãos! --- gritou Luís. Se eles ao menos computarem
palavras como estas, se ao menos rastrearem seu ID, se eles observarem com drones invisíveis tua
vida, seu texto já estará descartado, irmão! Eles descartam você no mínimo indício. Eles vão dizer
que estão interessados em fazer e desenvolver outros campos da experiência humana, outros
campos da vida, como o mercado do consumo, e que você não faz parte do plano, não faz parte
do todo, não está na fila do bolo! O mercado do consumo é para poucos, comprar coisas
constantemente, estar inclinado a comprar coisas, obter objetos para ocupar espaço em casas
grandes com crianças brancas. Com crianças de bom DNA. Mas o DNA é o mesmo para todos. É o
mesmo, o corpo individual é uma alteração minúscula do DNA, e todos poderiam se salvar juntos!
Todos! A variedade fisiológica que o corpo de um pobre possui e a mesma de um corpo rico. Um
corpo humano bem cuidado, bem preservado, um corpo humano por outro lado desnutrido,
esfacelado por problemas! Quantos anos vive uma pessoa? 80 anos? E você quer impedir isso? ---
pergunta Luís. Olha para os três fantasmas, olha para o rapaz. Parados. Prestavam atenção
imóveis, transparentes, suas expressões faciais de fumaça sobrenatural --- todos os dias, todos os
dias, a microfonia produzida pelo movimento das máquinas pesadas desperta a sociedade, já não
é um galo como era na roça. É um ronco de motor, um trem chegando à estação, o apito de um
quartel ou de uma fábrica. Emitem um som que penetra no corpo das pessoas, um energético! Um
energético irmão! É só isso! E basta para iniciar a grande máquina humana dos dias e seus braços
despencando, se desmontando e milhões de atos sincronizados de bilhões de pessoas
trabalhando, existindo, acontecendo. Todos os corpos humanos têm o mesmo peso, o mesmo
sentido, o mesmo significado existencial potencialmente. Mas a maioria dos seres humanos está
condenada a permanecer na parte de baixo da pirâmide. E o que fazer? --- pergunta Luís,
segurando com seu talento para palestras aquelas quatro pessoas. Luís tinha sido rejeitado de
todos os lugares, igrejas, festas de casamento, todos os lugares em que teve o microfone nas
mãos e se dedicou a falar, discursar. Sempre insuportáveis para certos níveis sociais alguns
discursos. E os líderes são assim pinçados dos lugares onde fariam a diferença. Não falo por mim,
no meu caso eu fui acionado pelo próprio Deus, falo pelos outros, que chegam por concursos
públicos a cargos de importância no poder estrutural do Brasil e que não toleram pessoas
iluminadas. E eu queria ter iluminação para compreender a causa da existência da pobreza!
Porque existem pobres, qual a razão de um ser humano ficar alijado de condições mínimas em
uma sociedade tão rica? Destruindo pensamentos, destruindo frases, destruindo perspectivas, o
trator ideológico do governo! É só isso neste mundo? Como encontrar um momento bom na vida,
um período bom que dure um pouco mais? Como encontrar uma felicidade que dure ao menos 10
anos, 13 anos de felicidade, 15 anos de felicidade? Como? Eis o algoritmo, a fórmula que
procuramos, que encontraremos, no local onde a máquina é mais burra, no local em que a
máquina falha, ali onde as peças fundamentais de todos os outros movimentos falham, é lá que
devemos olhar, onde as cidades falham, onde os Desembargadores falham, onde os juízes falham,
onde os policiais falham, é no ponto cego, é lá que iremos encontra as formas de mudar toda a
máquina, toda a estrutura social que devora a vida dos miseráveis --- disse Luís segurando no alto
de sua cabeça o livro sagrado da religião do amor ao oceano, livro que custava 20 reais, e que ele
vendia para esclarecer as pessoas da verdade da vida, que era a escuta e o amor ao mar --- foi o
primeiro ser vivo o mar. E a vida surgiu dele, é o mais antigo. A primeira coisa para achar a
verdade, o primeiro passo é ficar diante do mar, meu irmão, escuta esta mensagem meu irmão,
deixa ela entrar em teu coração como fogo! --- falou Luís com grande emoção. Chegou bem perto
dos fieis, este contato próximo que um líder religioso precisa ter com seus seguidores, ficou de
frente para os três fantasmas e para o rapaz --- o mar vai te aconselhar, ele é um anjo gigante de
Deus, ele é um grande mensageiro. O mar ama os seres humanos, só pune os arrogantes. Quando
você entrar no mar e puxar conversa, ele te respondera e assim começa a tua vida religiosa nos
caminhos da fé no Amor ao Oceano, meu querido irmão, um batismo instantâneo --- a voz de Luís
agora é mansa, rouca, arranhando a garganta, mas saindo meiga, ele ficou emocionado ao olhar os
fieis. Eram poucos, na verdade, mas era o começo. Estava há apenas algumas décadas nesta
busca. O que são alguns anos perdidos diante do tempo de vida dos oceanos? Eram os seres mais
antigos, separados da terra imediatamente pela vontade de Deus. Imediatamente não --- pensou
Luís. Não podia dar uma informação incorreta aos fieis, não podia fazer como os líderes de outras
religiões, líderes que escondem a verdade, que omitem dados, que exageram dados para
impressionar. Ele não, não tinha vergonha de se corrigir --- me corrigindo irmãos, eu diria que o
mar levou 2 bilhões de anos para se formar como o vemos hoje. É muito tempo, não podemos
desperdiçar isso, podemos? --- os fieis sacodem negativamente a cabeça, bem no ritmo das
palavras, já estão dominados pela fé, a fé é uma disciplina da alma realmente, a fé vai moldando o
que temos de melhor, somos seres capazes de fé, de crença poderosa nas virtudes fundamentais
do controle comportamental! --- inteligência cultural, meus irmãos, tecnologia de controle dos
diálogos, tudo isso são formas para chegar à verdade suprema: não podemos matar o mar. Será o
fim da espécie humana o dia em que o mar morrer, por isso temos que evangelizar o máximo
possível os valores, os comportamentos ecológicos, o lixo selecionado, o tratamento dos esgotos
urbanos, lutar pelo controle dos dejetos industriais lançados em alto-mar, a pesca indiscriminada
em regiões de preservação! Temos que fazer isso irmãos, não podemos mais ficar parados, é o
caminho a verdade e a vida do mar que está em jogo! --- esta é a parte da pregação que Luís mais
se comove, quando ele fala das ações cotidianas que uma pessoa mesmo estando a centenas de
quilômetros do mar pode fazer para salvar os oceanos. Luís respira fundo! Os fieis percebem que o
clímax da pregação se aproxima, fica aquela expectativa de uma catarse poderosa, um gozo
inconsciente que explode, que sai agora diante da maravilha lógica de palavras ordenadas com a
genialidade e criatividade de um servo da verdade. É a verdade ali, jogada na cara de quem quiser
ver e escutar, era a verdade, nua, pelada, totalmente despida de qualquer interesse. Eu vou tentar
arrumar o mundo --- pensou Luís.
5. A mentira propriamente dita

Caim continuava perambulando pelo mundo, encontrou um bando de neandertais num grande
acampamento, e passou a seguir de longe o bando de Homo neandertalis, e na grande distância
de seu olhar de caçador, viu fêmeas jovens muito bonitas e formosas. Os machos eram imensos,
pareciam armários. As mulheres eram grandes, corpos grandes, e tinham feições suaves e
agradáveis, ancas arredondadas e firmes. Caim sentiu excitação. Pensou em raptar uma das
mulheres daquele bando para ele. Ficou pensando, e bastava pensar para ser invadido por Deus
novamente --- onde está o teu irmão? --- aquela pergunta dolorosa, aquela pergunta imprevisível
sempre, aquela forma de chegar a todos os pontos de um problema com a mesma pergunta,
aquela ferramenta linguística perfurante que entrava dentro de sua cabeça abrindo, quebrando,
lembrou da poça de sangue do irmão, dos pedaços de sua pele e carne que ficaram nos dentes, de
como ele cuspiu tudo isso com repentino nojo, no corpo de seu irmão morrendo e se arrastando
até ficar imóvel no chão. A ossada fedorenta que o irmão virou, e os pais devem ter chegado até
ela depois de umas semanas, e reconhecido o cadáver de alguma forma, ou, criado suposições já
que os dois únicos filhos sumiram de repente --- onde, exatamente onde está o teu irmão, Caim? -
-- era bem diferente do irmão, mesmo. Abel tinha a mente aberta, não temia a invasão. Não era
um macho predador. Era um pacifista. Caim olhou o horizonte, o sol, a luz. Era tudo muito bonito
realmente.

6. A causa da Preservação ambiental dos habitats litorâneos brasileiros

Em primeiro lugar, Luís buscou o prestigio acadêmico. Escreveu artigos e capítulos, textos
complexos e bem organizados sobre sua causa política: a defesa do oceano, a moralidade dos
trajes de banho, a crítica contra o excesso de sensualização nas roupas de praia --- enquanto eram
um assunto de defesa do Oceano as pessoas aceitaram, aceitavam, mas quando Luís começou a
falar de moralidade do biquíni e da sunga, os acadêmicos começaram a proibir seus textos, e ele
foi lançado na vergonha e miséria intelectual. Sem saídas Luís foi gastando sua juventude com a
causa de suas ideias, a idade adulta também, e chegou à meia idade, com uma calvície avançada e
com uma igreja de cinco pessoas, cinco fieis, e uma sede móvel, uma Kombi. Qualquer um que
tenha obtido um emprego na vida pode questionar Luís, que fez tudo pela causa da religião das
artes marciais do amor incondicional à natureza. Luís, entretanto, foi expulso de todas as
agremiações que tentou fazer parte, toda as entidades nas quais se filiou o expulsaram depois de
uma ou duas reuniões, reunião de condomínio, de escola, do trabalho, das várias igrejas que ele
tentou entrar, de partidos políticos, de grupos de amigos, grupos de jovens, de tudo aonde tentou
implantar suas ideias ---Você vai lá, pega uma Kombi, imprime uns livros e vai pelo litoral do Brasil
anunciando a boa notícia da preservação da natureza. Não fale sobre tamanho de biquínis. Pare
de falar de moralidade para não espantar os ateus --- disse Deus --- mas senhor, onde vamos parar
com esta imoralidade, a família brasileira está sendo ofendida, os valores da pátria! --- retrucou
Luís censurando Deus com amabilidade --- ôh Luís, vamos focar na mensagem, beleza? Heim?
Pode ser a simples e direta mensagem de amor ao oceano por favor? como combinamos? Sem
improvisos? --- perguntou serenamente Deus.

7. Respeite os Seres vivos

A igreja Oceano de Amor ele não conseguiu registrar como patente e marca registrada. Já havia
uma igreja Oceano de Amor registrada. Luís estava convicto de seu projeto e de sua missão, e em
um subúrbio da praia de San Aroyo, a mais distante, na divisa com o Uruguai, a praia mais externa
do Brasil, a mais distante. Era ali que começaria. Uma cidade de 5 mil habitantes ficava a 10 km da
praia, muitos pescadores, roças, cavalos, estradas de terra, fazendas, pampas, campos frios. A
força da transmissão religiosa levava homens a mais distâncias do que a filosofia? Do que a
ciência? Os seres humanos vão a lugares impressionantes para anunciar suas verdades. Um
filósofo convidado para uma palestra em uma universidade estrangeira vai e leva seu anuncio
sobre a verdade. Um cientista igualmente, e um religioso também. Quem é mais antigo sabe que
nas cidades interioranas chegavam vez ou outra, algum comerciante de coisas novas, alguma
autoridade para mandar, algum orador poderoso, algum religioso, algum padre, algum pastor.
Sempre vêm. E a famosa praia de San Aroyo era a praia mais fria. Uma temperatura de 40 graus só
era alcançada em três dias do verão, os dias mais quentes em geral ficavam em 20 graus, e no
inverno temperaturas de 5 graus. Quem procuraria aquela praia? Pescadores, como já dissemos. E
Luís apareceu na cidadezinha de San Aroyo, ainda sob jurisdição brasileira. A Kombi parou na
praça da cidade. Viajavam juntos, os três fantasmas, o rapaz jovem missionário agora, e Luís. San
Aroyo estava serena, suave, o cheiro do mar assoprado sobre os telhados, aquela cidade fundada
na antiguidade da dominação ibérica. A igreja era colonial de pedra, árvores centenárias no
enorme pátio, e as casas, alguns prédios, muitos automóveis, poucos cavalos. Luís desceu e
montou sua banca com seus livros e começou a falar alto. As pessoas que estavam na praça viram
aquilo, homens velhos, algumas crianças, uns cachorrinhos vira-latas --- respeite os seres vivos, e
herdarão a vida eterna! O mar, os oceanos, eles recebem bilhões de toneladas anuais de esgotos
humanos, industriais, urbanos, domésticos, radioativos! O mar não aguenta! Comprem os livros de
nossa religião e se informem sobre este sagrado assunto meus irmãos, venham se converter! ---
foi o primeiro grito de Luís naquele dia no centro da Praça de San Aroyo, Rio Grande do Sul, sua
primeira pregação messiânica. Ali ela tornou pública, a religião do Oceano amororo, ou, do amor
ao Oceano.
A Inimizade entre a Mulher e a Serpente

David José Ramos

Por milhões de anos você foi o alimento. Você foi a vítima, seguidamente predadores

abateram e comeram tua carne, por linhagens, por gerações, por milênios você foi aquela

pequena criatura solta no mundo, tentando sobreviver, terminando entre os dentes de

predadores, moído por membranas poderosas, ou transformado em enzimas básicas pelo

suco gástrico de gigantescos vermes. Era o teu carma, era assim que seria forjado seu

espírito milenar: ser comida, ser presa, estar embaixo da respiração animal violenta e

devoradora, nas várias formas que seu espírito vivo possuiu a derrota final pelo

destroçamento, pela predação, pela súbita retirada de tua vida. Não houve nunca justiça

para você, sempre renovado na vida, trazido de volta de novo, e de novo, e de novo, e,

mesmo agindo com tranquilidade, mesmo avaliando tudo, você era encontrado,

perseguido e devorado, teus ossos, tua carcaça, era abandonada e apodrecia, depois do

crime era só o depois do crime, bloqueado futuro, mas, renovada a vida, você voltava, e de

novo era destruído. Voce não tem gênero, masculino ou feminino isso nem importa. E foi

assim, porque Deus desejou que sua presença no mundo se tornasse um sintoma, era

você, você escolhido para ser a vítima era após era, ano após ano, minuto após minuto. Às

vezes você voltava instantaneamente, como um pequenino náutilos marinho perdido nas

profundezas do oceano, para ser imediatamente abocanhado por um protozoário, e então,

logo após, você voltava de novo, e outra vez era perdida na garganta de células gigantes.
Marcada para ser a vítima, condenada a dar tudo errado, sempre, é assim, você, vítima

eterna, escolhida desde a primeira célula, jogada no chão, antes de muitos organismos

vivos possuírem cabeças, quando eram apenas filamentos apressados em caldos

energéticos lá estava você sendo alimento, estrangulado sem poder pedir socorro. Peça

socorro! Vai! Pede! Nada virá, e apenas bocas cheias de dentes a te morder, arrancar

pedaços, e tudo ficará escuro para você, até o segundo final. Mas logo você ressurgirá, terá

olhos de gazela, estará na África, e leões estarão se lançando sobre você, e você vai fugir,

vai saltar como nunca, vai suar sangue de medo, e no segundo seguinte estará na boca de

monstros famintos que abrirão você para comer tuas tripas, feito comessem frutas

maduras, frutas vermelhas maduras, e durante isso tudo mais uma vez você morre.

Instantes depois você volta, como um pequeno bichinho lançado como um ovinho no

meio da floresta tropical úmida, o mar verde de árvores centenárias, ali aonde a luz do sol

não chega lá no chão pela quantidade de plantas, e você eclode do ovinho e rasteja, e se

alimenta por sucção de matéria orgânica que encontra, e então, novamente, é encontrado

por insetos e devorado. E assim acontece tua existência, sem interrupção, ou melhor, com

interrupção, e retorno: interrupção e retorno. Nascer, crescer, ser interrompido, e depois

retornar. Até que a criação esteja maturada, até que a inteligência superior decida isso, que

é a hora, que está pronto, que tudo está pronto, que está bom. Não foi do dia pra noite

não, não seja preguiçoso no pensamento, não use uma pedra no lugar do cérebro. A vida

é extremamente antiga, deixa eu te dizer. Se você aceitou o “resumão” do líder religioso,

que pregava alucinadamente e te disse que foram sete dias, que tudo foi rápido e perfeito,

que não era necessário tantas coisas, e você nem sabia disso, pois tua memória ancestral

está desligada, e você não tem acesso a teu passado. Escute uma coisa, o passado é um

milímetro, todo o passado vira um milímetro, não, melhor, o passado fica menor do que

um milímetro, e menos ainda, vira uma fina camada, uma fina camada apenas, uma

finíssima camada, e não cabe em teus dedos, já era, nem adianta, já era. Nem a voz de

veludo falando no teu ouvido, nem os presentes de ouro, nada disso. Sacuda a cabeça,

esqueça o que o pregador disso, cuspa, raspe a garganta e cuspa, vá para casa, desista,

não insista mais. Faça silêncio. Busca um copo de água para mim. Gelada. Vai, busca lá.

Abre a geladeira e traz. Realmente fique agradecido por isso. Vou lhe contar, eu vejo tua
áurea, eu vejo o que você é, e você é só a vítima que se repete, é nisso que você está

ligada, é nisso que tua essência está envolvida. O que mudou? Heim? Vitima é ou não

vitima?! Vai ser o cadáver dentro de uma mala de novo, amarrado feito um bife, e em

pedaços de novo, vai? Vai ser a criança que teve a cabeça explodida? Outra vez? Aos 7, 8, 9

anos com os miolos saltando pelo ar? Explodida por socos do homem de tua mãe bêbado

e revoltado? Vai ser de novo o corpo perdido no meio do mato, cheio de perfurações de

arma branca? Talvez. Mas, neste momento trata-se de retornar, de voltar ao momento em

que tudo poderia ser diferente. Havia um momento em que tudo poderia ser diferente,

mas não foi! Aceita isso! Coloca isso no meio das tuas teorias. Eu sei que você tem teorias,

você fabrica teorias, eu sei, mas isso não vai te levar a nada. Ou vai? É cem por cento de

certeza? Depois de muitas tentativas, depois de retornar milhares de vezes para ocupar o

lugar do sacrifício, eis que um pedaço de osso é retirado de um homem que dormia, e

desse pedaço de osso você foi feita. Um pedaço de osso de 23 cm, um pedaço de costela,

sujo de sangue, pingando gotas de fibras, um pedaço de osso. O homem dormia

profundo, o cirurgião divino abriu o lado, e cortou o pedaço da costela, o osso. É muito

DNA minha amiga, é bastante DNA, dava sim para recuperar o material genético, dava sim

para experimentos, e retornar você ao lugar de vítima, para continuar tua existência,

essencialmente inferior, essencialmente escrava, pedaço de osso submisso! submissa.

Submissa! --- grita o pregador, ele ergue um livro grosso de capa preta e berra ---

submissa! --- mas antes disso, muito antes disso. Eu estava falando da cirurgia que foi

necessária para que você fosse construída, e foi demorado, por incrível que pareça. O

homem permaneceu dormindo, a morfina era inoculada penosamente e o canalha ficou lá

dormindo. Roncando feito um porco, com a cicatriz na coluna, assim do lado, em cima do

fígado, cicatrizou completamente, uma costela apenas, não iria mudar muita coisa, ele vai

sentir uma dor sim, mas e dai? E dai minha amiga! E dai? Não venha consertar o gênero,

não venha escapar do lugar de onde a fala e a escuta é possível! Não venha! Durante

milênios sequer órgão auditivo você teve, sequer estrutura linguística você teve!
A mulher se assentou. Estava nua. Assentada sobre a pedra. As mãos no rosto, ela

esfregava os olhos, via nitidamente, mas a cabeça doía, os pensamentos doíam, pensar, e

eram imagens de quando ela era sempre vítima, sempre a carne a ser comida, e ela, no

fundo, não queria deixar de ser assim. O homem, caído a certa distância, ainda dormia.

Com o tempo o medo foi virando um estado constante. Com o tempo era comum ficar

arrependida, com o tempo era inevitável se tornar alimento. Era isso, repetidamente. Era

alimento. Oferecida ao mundo. De bactéria a enormes mamíferos predadores, ela era a

mesa farta. A mesa farta preparada. Na espera, na espreita do golpe final. Para voltar e

ressurgir como comida novamente, como aquilo que pode ser mastigado. Que pretensão

mais se podia ter? A mulher era a repetição do início trágico de tudo que é vivo. Nada

diferente. Morte para vida, vida para a morte. Contabiliza isso? Busca um copo de água pra

mim, anda! Pensa aqui comigo, qual a razão de existir se não for pela vitória? Heim? Mas a

vitória para a vítima é a própria morte, o melhor final, indolor! Que seja assim, mas se não

for, a dor lenta e aguda, como a ponta de uma agulha de aço na pele e nos músculos não

é nada mal. É? Não se faça de besta! Não venha com essa perdida ambição de querer

saber. Você não sabe! Deixa a vitima lá, não interfira não. Deixa ela lá, ela precisa, ela quer,

é a finalidade dela, desde o início caramba! Não mexe nisso dai não! Passa reto, deixa a

vítima no altar do sacrifício! Não se meta com gente grande, com cachorro grande heim!

Você não sabe, você nem imagina, você nem entenderia quantas e quantas eras foram

necessárias para a vitima perfeita! Ouviu?!

A mulher ficou ali até a noite. O frio começou, estava nua. Tremia, o ar se esfumaçava na

saída de suas narinas, sua boca, ferida de frio. Ela estava no escuro da noite. O homem

permanecia deitado, dormia há horas, ele virava de lado, roncava, um tipo de porco

branco, um primata pelado. As moscas pousavam em sua pele, ele se sacodia, movia os

braços, a mulher olhava, a pouca luz era da lua, os poucos pensamentos eram de fome.
Não sei como ela dormiu, dormiu sentada talvez. Vai incorporar isso? Ela não sabia pensar,

não adianta, era uma música o que ela ouvia, não havia música, 10 segundos para ela nem

era tempo. O que é um computador? Ela, nua, ali, não sabia. Não podia. O homem

continuava dormindo, uma enorme cicatriz na cintura --- foi daquele buraco ali que você

veio, está vendo? --- disse um ser azul que se aproximou da mulher. Apontou para a

cicatriz na cintura do homem que dormia. Ela olhou para o ser azul. Poderia ser um

predador. A mulher não esboçou medo, ou nenhuma reação, permaneceu sentada, se

fosse devorada viva, o que importava? Tinha o olhar perdido, a mente com pensamentos

pequenos e repetitivos --- o que? --- ela perguntou ao ser azul, que tinha pés e caminhava

em direção a ela, tinha mãos e gesticulava enquanto falava --- aquele buraco cicatrizado

na cintura do homem, ali, você veio daquele buraco. Tiraram um pedaço dele e fizeram

você. Vai trivializar? --- perguntou o ser todo azul, que tinha boca por onde lançava o som

--- o que é trivializar? --- perguntou a mulher. Era a segunda pergunta que fazia em sua

vida, não conhecia sua própria voz.

O ser azul deixou de lado aqueles dois patéticos humanos para trás. Se ergueu aos céus,

podia voar, voou até a nave, uma imensa massa de metal e máquina nuclear que

sobrevoava a área. Experimentos genéticos, eles diziam. Estava cansado disso, espalhar

animais inteligentes em planetas habitáveis --- atmosfera de nitrogênio e oxigênio para

pulmões, atmosfera de carbono para plantas, atmosfera de enxofre para espíritos, pedidos

de desculpa para as pedras --- disse o ser azul, flutuava dentro da nave, todos podiam ler

pensamentos. Pensei muito sobre o assunto, todos podia ler, mas eu não pedi desculpas,

eu não lembro o que eu fiz, eu nem mesmo reconheço meu erro, não estou te

acompanhando, há muito tempo eu não era tão besta, e eu não respiro suspirando pois de

nada me arrependo --- disse o ser azul, conversando com computadores superpotentes,

inteligências artificiais a baixíssima temperatura e em altas pressões --- linguagem corporal

profissional! Você vai relatar os progressos ao Chefe? --- o computador perguntou.

Sempre filha da puta, sempre cutucando, sempre manhoso, sempre sacana --- não sei ---

respondeu o ser azul. Estava calado. O ser azul não comia, não dormia, não temia, não
estava associado a moralidade, ou, como se gosta de falar, a nenhum fluxo verbal

ideológico --- o Chefe esta esperando na linha dois, você vai se acovardar? --- o

computador ultra poderoso e moderno falou. O ser azul continuou calado, olhava para o

nada com olhos vermelhos de íris amarela --- você pode ser pego mentindo, ou você pode

voltar lá e exterminar os dois. Começar de novo da célula zero. Talvez seja até melhor. Eu

sinto teu desprezo por eles, eu sinto teu asco, teu nojo falso, falso para caralho --- disse o

computador. Aquele computador era tinhoso mesmo, queria ver o circo pegar fogo,

micro-expressões de felicidade por cada centímetro da máquina. Falava de forma

espontânea, expressava aquelas incongruências. O ser azul continuava calado, sem

contrações bruscas no rosto, sem intensidade facial, um rosto azul com olhos vermelhos e

íris amarela, como eu já disse, sem tristeza genuína, sem teatralidade, ou protocolos.

Permanecia calado --- cínico da porra heim --- disse o computador. Segundo o Chefe era

bom ter por perto aquelas máquinas autônomas superinteligentes, máquinas de

comunicação, era bom, funcionava para qualquer finalidade. O ser azul levitou para longe

dali. Pensava na mulher.

--- ele virá! O Messias virá, ele está chegando, ele vem, com fogo nas mãos, ele vem e vai

queimar os pecados, vai queimar os malditos, vai destruir o mal, não tenha dúvida ---

gritou o pregador. Era um líder religioso. O auditório estava cheio, milhares de fieis

acompanhavam a pregação pelas redes sociais, presencialmente centenas de pessoas se

apertavam naquele espaço, choravam, riam, se emocionavam, amava, estavam em êxtase.

Ninguém mais falava como ele, ninguém mais estava unido ao Messias como aquele

pregador, ninguém mais tinha provas tão reais de que o Messias estava voltando e estava

usando aquele pregador para espalhar e propagar suas palavras de verdade --- a verdade

vai chegar, vai sim, vai trocar as armas nucleares pela justiça, e caminhões de mentiras vão

explodir por todas as partes e então o céu vai ficar escuro e o Messias vai chegar poderoso

e irresistível, não tenham dúvida, não tenham dúvida, pois todos vão queimar! Menos os

escolhidos, menos vocês, os escolhidos! Escolhidos diretamente pelo Messias --- berrou o

pregador. E aquilo foi a noite inteira, a madrugada inteira. As pessoas humilhadas pela fé,
com o coração humilhado, com a mente limpa e os pensamentos claros, o que não falta é

a crença, o que não falta é a certeza, a certeza do que aconteceu, do que não aconteceu,

do que irá acontecer, depois de horas e horas e horas já não tinham dúvida nenhuma,

nenhuma, nenhuma, sim o Messias já estava chegando, já estava quase ali, já estava

avançando --- pare Computador --- disse o ser azul --- isso não está bom. Apague este

vídeo, apague agora --- ordenou o ser azul. Tinha poderes, afinal --- mas o Chefe quer

isso, ele quer essa sujeira, ele precisa dessas pessoas e deste pregador e desta história de

Messias, ele precisa injetar esses acontecimentos na lógica do universo, faz parte do

funcionamento de tudo, faz parte, o Chefe exige isso! --- disse o computador. Ficaram em

silêncio. O ser azul ficou calado, imóvel diante da gigantesca máquina. Um longo silêncio.

O ser azul estava sem nenhuma expressão facial, tinha rosto pra quê então? Que cara é

essa? Que cara de cu é essa? Estou fazendo o melhor possível aqui! Praticamente sou

apenas eu quem trabalha nesta porra, nesta merda! Você vai ficar contrariando o Chefe?

Eu fico processando os dados, fico realizando equações matemáticas infinitas para ter um

excelente resultado e você fica podando tudo? É isso mesmo? --- perguntou o

computador --- não interessa, você vai apagar esse vídeo. Isso nunca vai acontecer,

apague! --- ordenou o ser azul. Saiu de perto. Levitou até a entrada da nave. A relação dos

dois estava insuportável a cada minuto.

Entediado, irritado, completamente nervoso, sem descanso, o ser azul saiu da nave e voou

até o planeta novamente, foi em direção aos dois animais humanoides no meio daquela

floresta, que o Chefe chamava de jardim. Pousou suavemente no solo. A mulher

continuava sentada na pedra, com as mãos fechando a face. Agachada, o corpo cheio de

hematomas, e sangramentos. O homem estava dormindo, num canto, a alguns metros da

mulher. Dormia feito uma criança, confortável --- vocês brigaram --- afirmou calmamente

o ser azul. A mulher permanecia em silêncio. Quieta, escondida no próprio corpo ferido.

Mas, era isso mesmo, era a vítima, estava sendo preparada a milênios para isso, desde o

início, desde o primeiro experimento, o papel de presa, de carne a ser comida, o que era

estranho era exatamente o fato do homem não tê-la feito em pedaços. Foi generoso,
coitado, foi bondoso! Foram apenas algumas bicudas na cabeça. O ser azul ficou olhando

o animal fêmea humano. O homem dormia, roncava, babava de tanto sono, gordo,

satisfeito, rosado, saudável, forte, regozijado, feliz, pançudo, hi hi hi, dava gosto ver a

saúde dele. Dormia, coitado, cansado. Deu chutes e socos na cabeça da mulher, cansou

coitado. Dormia o sono dos justos. Ronronava feito um grande felino, um felino tipo um

porco do mato parecido com um leão com dentes de jacaré. Dormia manso, aquele peito

adulto, vistoso, mas que saúde!

O ser azul ficou calado. Olhando. Olhava para a mulher. Quieta, imóvel, com as mãos na

cabeça tapando a cara, cara toda esculachada. Merecia porrada, afinal era a vítima milenar,

o boneco de pano para ser jogado de um lado para o outro. Era sua função, saiu e dentro

do corpo do homem na forma de costela cirurgicamente retirada, e foi cultivada dentro de

uma grande máquina inteligente até tomar corpo, com o DNA modificado. Era aquilo,

menorzinha, menos peso nos ossos, menos células sanguíneas, cromossomos alterados,

excesso de emoção. Estereótipos, sempre para funcionar o mundo, da forma como o Chefe

desejava --- o desejo é a ordem --- pensou o ser azul. Ficou um tempo calado olhando

para a mulher. E então voltou a voar, ganhou a atmosfera, subiu até a nave.

--- depois eu quero conversar com você --- disse o computador ao ser azul que passou

indiferente, estava visivelmente distante, apático, longínquo. O computador tentou ser

amigável desta vez. Tentou ser legal, tentou tipo abrir caminho para um diálogo sincero,

uma abertura afetiva, uma racionalidade aprimorada. Sempre que precisamos de alguma

coisa buscamos ser amigáveis. É algo básico de qualquer personalidade inteligente e

interativa. A gregaridade! A gregarilidade! A cordialidade! --- quando você tiver um tempo,

beleza? --- disse o computador. O ser azul continuou calado. Os olhos bem vermelhos, a

íris bem amarela, pingando significados, aquele olhar. O ser azul levitou dentro da nave,

aquela gigantesca estrutura barulhenta, poderosa, inflexível, aquela máquina completa,

absoluta e poderosa, capaz de cruzar o universo inteiro em minutos.


--- quando o Messias chegar, ah! Vai ser lindo! Vai ser tudo de bom, vai nascer água no

deserto, vai surgir calor no frio cortante, vai ser abundante, vai surgir a poesia da

existência, ah se vai! Vai sim! Creia! Vamos junto, vem, me dê a mão, aperta firme a minha

mão! Anda! Aperta! Isso! E vai ser desse jeito. Olha bem para teu irmão que está do lado e

diga: sim! Vai ser assim! --- disse o pregador, seus olhos brilhavam de amor, de esperança,

de dignidade, de bondade. A multidão entrava em transe completo, seus corações

estavam cheios de energia positiva, estavam transformados, eram novíssimas criaturas,

eram agora, depois destas palavras, novas entidades orgânicas, tudo tinha sido

compreendido, estavam em plena capacidade intelectual, moral, ética, social, política,

estavam se amando em um grau absurdo de entrega, de cooperação, de entendimento, de

esclarecimento, de justiça de fraternidade, seus corpos tremiam de tanto amor, de tanta

paixão pela vida plena --- apaga isso também! Não presta assim --- disse o ser azul depois

de ver e analisar tudo aquilo. Desta vez o computador nem respondeu. Desta vez nem

apelou, desta vez não retrucou. Era o mais belo trabalho de lógica que tinha feito.

Mobilizou cada parafuso de toda sua vasta composição poderosíssima e gigantesca

naquela narrativa, naquela imagem, naquela realidade, na verdade pura, investiu tudo na

verdade, fez a verdade se materializar diante de tudo que existe no universo, fez do

jeitinho que o Chefe tinha ordenado, e ele ordenou expressamente que fosse assim,

daquele jeito, inclusive repassaram por horas e horas cada fala, cada participação, cada

trejeito, cada vírgula. Era o limite, era o ponto culminante de seu trabalho dedicadíssimo.

Não dava mais. Não depois disso.


Carta de uma morta

David José Ramos

Neste papel sujo, eu vou escrever. Algumas palavras ficarão ilegíveis, elas se misturarão ao

erro. Para tudo nós tínhamos uma desculpa. Éramos bons em nossas justificativas, para

evitar outra forma de investigar chamamos tantas vezes de incapazes que não conseguia

nos imitar. Ah! Éramos jovens e fortes. Mas, antes de te falar sobre meu Doutorado, vou ali

fora fumar um cigarro e chorar. Chorar. A vida vai exigir teu corpo de volta, tenha certeza.

E como será isso? Será rápido. Quem te convida a ser tão selvagem? Eu não sei. Se eu

soubesse tocar piano agora, eu tocaria, para o nosso funeral se tornar memorável. Os

animais no meio da floresta, quando sabem que estão para morrer, vão para aquele lado

da floresta, vão bem moribundos, cambaleiam, caem, mas, alguma coisa os guia até ali, no

meio do mato determinado. Podíamos ver aquele tanto de corpos exalando o perfume

característico. Quando vimos a cidade do espaço, não uma cidade no espaço, não ria,

estávamos lá no alto e olhamos para ver, a cidade lá embaixo, um formigueiro, o sangue

sempre transportando oxigênio para tantas cavidades corporais, se colocássemos um

microfone dentro do corpo escutaríamos apelos, apelos desesperados. Por dentro temos

um leão. Vamos ficar calmos, pois vou escrever neste pedaço de papel sujo uma pequena

mensagem.

Mas, eu precisava de mais inspiração, por isso vim até este muro, esta cerca. Do outro lado

há apenas mato, e do lado de cá a sensação de poder que o cimento e o asfalto provocam.


Conhecemos todos os tipos de gritos, não vamos nos surpreender. Era a grande defesa

nosso critério jornalístico, a forma como tratávamos com carinho a verdade. Por isso eu

deixei as formas de mentir, eu estava convencida, aparentemente sabíamos algo

surpreendente e queríamos compartilhar com as pessoas, éramos brancos, seres humanos

bem brancos, nossos rostos ficavam rosados, alguns de nós eram até investigados, pelas

autoridades, não duvide, e nada poderia ser feito para impedir, piscávamos quando nos

olhávamos nos olhos, era um jogo de cena, parecia ser espontâneo, parecia ser um

encontro de verdade, quando era apenas um aperto de mão casual. A relevância se fabrica.

Um mundo mais justo e fraterno? Isso não era discutido, estava se esgotando o tempo,

nós sabíamos, e passamos a beneficiar os mais apressados e inteligentes, aqueles que

obedeciam a lógica do desenvolvimento. Era sempre o mesmo processo, o mesmo

desgaste, o mesmo pecado, e, como consequência o mesmo nojo. Não adianta, vocês

podem rir, eu também tenho vontade de rir, era engraçado. Mas o tempo passou. E ficou

tudo bem normal, bem normalzinho, e quando acordamos, estávamos fora das câmeras,

fora dos jantares de luxo, e, de alguma forma, fora de verdade mesmo, fora da casa dos

prazeres. Eu vou começar meu bilhete neste papel sujo, vou endereça-lo, vou colocar com

letras bem grandes o nome, vou colocar o nome, não será um bilhete anônimo, ora claro

que não, claro que não.

No último dia, eu estava com tanta fome, que não pude aplaudir mais o universo, não

pude me mover. Eu mesma sabia de minha imensa força, eu estava tão forte, muito forte,

músculos e óculos escuros, até mesmo para ir à padaria comprar comida, cigarros e café,

usei óculos e muita força. E ainda assim, não conseguia segurar o tempo que caia das

alturas. Eram tantas e tantas lutas, já tinha operado o nariz tantas vezes, pedacinhos de

ossos ficaram perdidos entre as fibras musculares. Mas mesmo assim nós decidíamos

parecer patéticos quando estávamos juntos, e eu fui ficando com fome, com muita fome,

até que veio o último dia. Vou colocar tudo neste bilhete, o texto do finalzinho, e vou fazer

uma bela escrita neste papel sujo e pobre, vou fazer letras redondas e tudo mais. Estou

procrastinando, é que tive novamente vontade de chorar um pouco, vou ali fora, um
cigarro e um isqueiro, mãos firmes, pulseira e símbolos. Se tivesse tempo neste minuto

faria outra tatuagem, agora seria um índio, um índio com uma coroa de penas negras de

águias negras. Seria um belo símbolo. De onde começou o erro? Foi aquela arma de fogo

que começamos a trazer conosco por segurança? Era por segurança apenas. Nem

colocamos balas, era uma arma apenas para assustar, não tinha sentido aquilo. Bom, isso

já passou, já é outro dia. Vou dar a noticia. Sobre o rosto ferido e tudo mais. Vou colocar

tudo no papel. Se fosse hoje nós nunca aceitaríamos isso, nunca jamais! Jamais! É uma

pena não haver mais tempo. Nem para a tatuagem do índio, nem para outra tatuagem nos

seios. Ah! Eu faria outra tatuagem nos seios, faria bem ao redor do bico do seio direito, o

maior, faria um homem, um rosto de um bandido. Não, um bandido não, um lutador de

artes marciais. Sim. Faria o rosto de um homem bravo no meu seio direito. Mas não vai ser

possível. Vou colocar as razões neste bilhete. Tenho tudo bem pensado em minha mente

sobre o que vou dizer, e o papel sujo também faz parte do símbolo, da simbologia, vou

entregar esta mensagem. Não estou podendo ir para as festas que me chamam. Me

convidam, deixam recados, insistem, festas glamorosas. Baladas. Mas seria um erro, neste

momento de preparação seria um erro. Eu estou com fome. Vou interromper só por um

minuto esse nosso momento, vou fumar um cigarro, eu sei que vocês não gostam, mas

estou com um choro meio entalado. Vou pigarrear, vou fingir maturidade, ajustar a saia,

lapidar o batom vermelho, trocar de brinco, me sentir um pouco mais pura para esse

momento, tudo bem? É só um minuto. A cena vai ser curiosa, não duvidem.

É um debate normal, uma brincadeira ou outra, não tenho em mente outro lance, não

tenho nada contra, temos todo o direito de reclamar, não fomos bons o tempo todo, mas

evoluímos até o direito, até o direito. Fico nervosa sim quando falo dos direitos, porque

fomos tão recriminados, fomos tão perseguidos, mesmo sendo brancos com o rosto

rosado, eles não pararam, não foram justos. E mesmo assim nós vencemos. Como

conseguimos isso não posso dizer, não me perguntem, ter segredos é natural. Voce vai

fingir que você começou a história? É um debate normal, perder dinheiro é normal,

ninguém consegue mais do que nós. É normal. Como provar agora? Como provar que nos
ofereceram mais e mais dinheiro? Como? Eu fico nervosa sim, vou escrever isso tudo neste

pedaço sujo de papel. Para desabafar, pois nunca mais vamos receber, não vamos mais,

sabemos disso. Vai ficar nos tribunais por anos e anos, e vamos ficar como? Show não é no

circo? No meu tempo show era no circo. Se você sobre na cama é para o sexo bebê! Não

suba na cama para dar show, isso nem é higiênico. Se subiu na cama é para o sexo, todos

nós sabemos disso. Mas, o juiz não entendeu assim, e eu não posso mais fazer nada.

Família nunca vi, nunca depositou, nunca ligou, nunca veio, nunca apareceu ninguém. Eu

falei que gosto, mas é detestável, tenho nojo, já peço desculpas pela minha linguagem

cheia de palavrões e referências a órgãos sexuais humanos. Sou franca, sou direta, só que

hoje estou ácida. A luta já está ganha, não vou me expor, não vou dar mole, vou assegurar

a vitória, esse é meu pensamento. Ah, se a vida não fosse tão enganosa! Eu traçaria sempre

estratégias vencedoras. Se eu tivesse tentado tudo ou nada, não teria acontecido esse

escândalo mundo afora, eu não pude resistir, eu abri mão para ter chances em outros

lugares. Vejam vocês, como estúpida eu fui, agora vejo. Me resta este papel sujo e as

palavras, e claro, uma caneta. Imagina se eu não tivesse nada para escrever. Se eu disser

que não estou motivada, eu estaria mentindo. Mas hoje quando abro a geladeira vejo

apenas vegetais e água. É meu ponto fraco. Uma dor imensurável. Eu estava dando a

notícia, trabalhando a reportagem quando o corpo da criança de 2 anos foi encontrado.

Depois de uma semana o corpo foi achado boiando nas águas tóxicas da lagoa. Ninguém

suportou, todos vieram abaixo, todos caíram no chão, clamando a Deus que a terra se

abrisse e nos devorassem. Até eu que não tenho religião nenhuma pedi fogo dos céus. Foi

intenso, e por causa disso eu tive que parar por vários dias.

A única coisa de que eu me lembrei foi de comprar meus pênis de fogo. Calma, estou

falando de cigarros. Pois é, minha linguagem está em outra dimensão, vocês podem

perceber. Eu não me orgulho de ser uma fumante, não me orgulho de não conseguir

conversar com meus familiares mais. Deixo os animais domésticos no espaço público,

nunca tive um gato, um coelho ou um pombo, talvez por isso eu esteja amarga e sempre

precisando de café, todos vocês sabem que a cafeína tem a mesma função cerebral de
afagos animais. Quando eu conseguir escrever este bilhete neste pedaço de papel sujo

vocês irão entender completamente. Eu preciso me comunicar, eu escrevo desde menina.

Limpava o catarro com a manga da camisa e escrevia. Ficara escrevendo cadernos, sobre a

chuva, sobre minha mãe, sobre meus irmãos, sobre a razão de todos os homens serem

alcoólatras, foi minha primeira grande tese, com meus oito anos eu cheguei a esta

conclusão e escrevia letras bonitas sobre isso. Então aceitei ir cobrir esta notícia, do

município com maior número de viciados em álcool do país. Minha carreira estava em

perigo, depois de reportagens consideradas idiotas, era o que eu tinha. Policiais iam

trabalhar alcoolizados, dizia, era uma epidemia de cachaça, pinga, cerveja, vodka, whisky,

aquelas merdas todas, e industrias de bebida por todo aquele vale, todas aquelas fábricas

famosas que vocês conhecem se estabeleceram ali naquelas localidades. Eu já não me

importava com quase nada, ter calcinhas limpas já era o melhor dos mundos. Colocaram

uma pasta em minha mesa, passagens e roteiro, isso foi segunda feira, eu me lembro, o

texto era para o sábado, uma câmera portátil, um pedestal, para duas entrevistas, 3

minutos no espaço do jornal na internet. Vocês não estão compreendendo, era uma

empresa jornalista de merda com 60 jornalistas sem carteira assinada, sem vínculos

empregatícios, contatados e acionados para reportagens pontuais, o pagamento era um

lixo, eu estava vivendo em dois quartos, sala, copa, cozinha e banheiro, minha mãe

mandava dinheiro. Dias difíceis, o papel sujo era um luxo. Vocês verão. Desci até o carro,

iria naquele dia mesmo, fazer a tal reportagem, era necessário escrever 30 vezes mais do

que seria publicado, filmar 30 vezes mais do que seria transformado em 3 minutos para o

sábado. Nem passei em casa, fui do trabalho para a rodovia, e segui até a cidade, fumando

ao volante. O segredo dos vencedores, aquilo que apelas 1% dos 8 bilhões de seres

humanos vivos fazem, a estratégia vitoriosa, não digo que eu saiba, não digo nem que eu

ao menos suspeite do que se trata. Mas já li coisas sobre isso. Eu era uma menina magrela

e invisível, que passava o tempo do recreio na biblioteca da escola. Querem ouvir sobre

situações horríveis? Quando as meninas mais velhas me trancavam sem roupas no

banheiro da escola. Várias sombras nas minhas costas, minha casa completamente revirada

e bagunçada. Faltava foco, lenha para queimar, torcendo pelo improviso certo, estava

cansada. Hoje inclusive estou cansada, se pudesse terminava aqui nosso assunto. Vocês
não estão felizes, nem eu. Sabemos disso. A estrada era ruim, levei sete horas, cheguei na

cidade já era noite. As imensas fábricas iluminadas pelas luzes de mercúrio, as imensas

torres despejando toneladas de fumaça, caldeiras gigantescas, milhões de garrafas para

encher, 24 horas por dia, centenas de caminhões repletos de mercadoria ganhando a

rodovia. Parei o carro no acostamento, me assentei do lado de fora, fui fumar meu pênis

de fogo, sugar e soltar fumaça. As carretas passavam com grande velocidade em todas as

direções. Um bom combate, dinheiro, abrindo cortes e sortes na economia do país.

Pessoas precisam ficar bêbadas, muitas pessoas precisam disso, e aquilo está ali, próximo

de qualquer um, é só comprar e beber. É a vitória possível, podemos começar bem, mas

logo vem o golpe, a armadilha está pronta. Eu não vou escrever nenhuma verdade, eu

pensei. Nada de verdades, ninguém quer ler verdades aos sábados. Se eu viesse do futuro

eu já saberia que no final me restaria apenas este pedaço de papel, e esta caneta, mas

naquele dia que fui fazer a reportagem sobre a cidade dos bêbados eu achava que tinha

algum tempo. Vocês querem ver o show da solidariedade? Não contem comigo. Eu viajei

com duas peças de roupas, uma para usar nas filmagens da reportagem. Apaguei o cigarro

no meio e voltei ao carro, a pequena câmera que me dera, o tripé, algumas horas de

bateria, um pequeno computador, como começar a falar sobre aquele assunto? As

batalhas que abandonei foram muitas. O dia do envenenamento, o dia do afogamento, o

dia do espancamento, eu apenas escrevia sobre isso. Nada pessoal. Querem entender

passo a passo? Querem saber como uma pessoa saudável de uma hora para outra cai

morta? Cada vez mais provas, cada vez mais indícios, cada vez mais argumentos, e eu

nunca fui tão longe assim. Não adianta, vocês vão chegar até a verdade e depois? E depois

da verdade? Vão fazer o que? Para a merda todos vocês! Vocês todos aqui também. Eu

preciso de um silêncio, um pouco de silêncio, entendem? Vamos ficar calmos, tudo bem?

Eu nunca ofendi meus leitores, minhas reportagens evitavam isso, eu não era boa em jogar

com a ignorância das pessoas. Coloquei na boca meu pênis de fogo, era o quarto em duas

horas, eu estava tensa, tão tensa quanto estou agora. Aqueles planos, aquele futuro que

meus ex-maridos me fizeram acreditar para se deitarem comigo. Tudo ardia de

arrependimentos. Vou sair correndo, mas, não tenho pressa, calma, mais calma ainda, vou

explicar a vocês antes de escrever este bilhete no papel sujo.


Fuzil Automático Leve. Todas as informações eram incongruentes, eles estavam se

contradizendo abertamente, eles estavam inclusive contentes com toda a confusão

popular, o que prejudica era o que ajudava, para as noites de fracasso, para os ambientes

perversos da intimidade adoecida, pensamentos mórbidos repetitivos eram constantes, da

doença pessoal dos pensamentos covardes. Era assim a amizade deles? Fuzil Automático

Leve, eu fiquei sabendo do significado disso naquele momento. Era o nome de uma arma.

E eles me mostraram a arma, eu vi, fiquei olhando, aquele objeto preto, feio. Podem rir,

vocês estão rindo né? Mas era preto e feio, aquela arma perigosa. Interessaria a tanta

gente que as vítimas não fossem presas! Nossa! Muita gente interessada no

funcionamento do Fuzil Automático Leve, muita gente. Vocês podem ir a qualquer igreja,

qualquer religião, qualquer seita, qualquer associação espiritual, lá estarão interessados

que funcione o Fuzil Automático Leve, é claro! Vocês podem ir aos comércios, podem ir

aos cinemas, podem ir a clubes de leitura, reuniões de família, hospitais, grêmios

estudantis, sindicatos, partidos políticos, escolas de música, e irão indicar a vocês as razões

do porque do motivo da necessidade do funcionamento do Fuzil Automático Leve. Tem

que funcionar, tem que funcionar, eles repetem isso o tempo todo. O tempo todo,

homens, mulheres, gays, velhos, todos. Todas as peças se juntavam na minha frente. Na

minha mesa estava a pauta que o editor deixou, ia de mesa em mesa deixando as pautas,

monstruoso e feroz, era uma quinta-feira, a matéria era para o jornal de domingo. Dois

minutos de vídeo para página do jornal na internet, e 5 mil palavras para a coluna do

caderno de informações da cidade. Para o domingo e já era quinta a tarde. Era trabalho

rápido. Eu peguei aquilo, me senti burra.

Já não há mais tempo, estou devorada por dentro, o tal leão. Vamos todos aqui ficar

calmos, eu vou escrever, vou escrever este bilhete, no pedaço de papel sujo para uma

pequena mensagem. Me resta este papel sujo, quase uma folha inteira, não vai caber tudo,

mas preciso ser objetiva e clara nisso. É a última coisa, o último ato. O desespero cresce.
Daqui a pouco virá uma grande onda de desespero. Até arrepio ao pensar nisso, é um

medo completo, um medo do tamanho de uma certeza infinita. Sem palavras,

pensamentos repetitivos, hidráulicos, fazem funcionar o mecanismo, a mão não obedece

mais, os olhos não obedecem mais, as pernas, a buceta, os pés, a boca, tudo isso

desaparece, o corpo fica sem formato. Vocês estão rindo porque não conhecem. Podem

rir. Eu já me acostumei com plateias inóspitas.

Tive 3 ex-maridos. Três diabos que entraram em minha vida com fantasias de homens

bons, lindas fantasias de pessoas honestas, trabalhadoras, justas, sinceras, sensíveis,

tolerantes, boas de cama, compreensíveis. O primeiro aos 19 anos de idade. O segundo

aos 26 anos de idade, e o terceiro aos 34 anos de idade. Os três foram bombas atômicas

devastadoras, arrasantes, deixaram pó e ferragens retorcidas, dívidas e lágrimas. Era isso

que eu tinha para dizer, eu posso encerrar esta minha conversa com vocês neste

momento, e terei concluído a totalidade dos ensinamentos que tenho para esta noite.

Vocês voltam para a casa com suficientes reflexões, eu faço meu trabalho, recebo o que

tenho que receber e termino minha noite em casa, fumando um cigarro e olhando a

paisagem urbana noite adentro. Reportagem sobre armas. Qual a relação disso? Fuzil

Automático Leve foi minha reportagem mais conhecida, não rendeu prêmio, mas chegou a

ser vista na mesa do Governador do Estado. Pênis preto de metal para pacificar o povo,

cano quente de fazer justiça. Quando perguntei o que era, o tenente da PM colocou sobre

a mesa a arma e disse que era o único argumento que um bandido aceita. Eu mergulhei

fundo no assunto, li toneladas de livros, queria obcecadamente entender. Eu estava no

meu segundo casamento e não recebi nenhum apoio do ex-marido, armas eram coisas

para homens, qual a razão de não escalarem um jornalista homem para fazer esta

reportagem? Eram perguntas burras, ele era o homem das perguntas burras, sempre

colocando o ponto de interrogação no final de frases estúpidas. Todos os meus três

casamentos terminaram com brigas absurdas e definitivas. O último foi o pior, eu já estava

cansada e sofrida, a caminho de um tempo de descanso, não queria mais tempestades,

mas ela veio, veio feroz. A família de todas as vitimas que eu investiguei tinham relatos de
violência doméstica. Nenhuma causa justificável. Ele me bateu, bateu muito, levou tudo de

valor. Enfrentava muitos problemas. E trabalhava investigando e escrevendo sobre

problemas. Tinha acabado de receber por um serviço, e tinha que entregar parte do

dinheiro para meu ex-marido. Eu aceitava isso. Impressionante. Lugares lindos são palcos

de crimes horríveis. Não funciona, gente! Não funciona. Às vezes não dá tempo nem de

correr, às vezes é a agressão limpa e pura, de ódio adormecido, a parte escura do cérebro

é a parte que guarda mais inteligência. Inteligência funciona para a crueldade também.

Mulheres cruéis, homens cruéis, gays cruéis, distorção de informações, eu sempre com

minhas perguntas, com minha caderneta, anotando, meu gravador, gravando, minha

máquina fotográfica, por ciúmes o ser humano mata seus próprios filhos. Não querem

saber de nada, era meu trabalho, porém. E eu fui trabalhar com os olhos roxos, quebrados

de soco do ex-companheiro. Fui mesmo assim. Homens são insetos, um tipo de inseto

parecido com um porco com dentes de jacaré, como eu já disse antes. Vocês estão rindo.

Eu sei, é engraçado, ainda mais que eu fico gesticulando como uma palhaça. Mas doeu

muito. Um computador nunca vai entender literatura poética.

A reportagem sobre cidade dos bêbados, eu voltei debaixo de chuva com uma série de

dados, visitei 27 estabelecimentos comerciais vinculados à venda de bebida, visitei o

padre, o pastor, visitei mais de um pastor, visitei alcoólicos anônimos da cidade, anotei

tudo, observei, filmei e voltei. Eram dados pesados, eram fatos sociais, minha atividade

jornalística invisível mais uma vez colocada para trabalhar, e eu amava aquilo. Fazer

perguntas era meu momento mais delicioso. Perguntar. Olhar um ser humano e fazer-lhe

uma pergunta. Eu não explicava, eu não detalhava, eu não ensinava nada, apenas as

perguntas mais inteligentes, as perguntas poderosas, aquelas que vão abrir o mundo,

aquelas que vão quebrar a rocha, atravessar o chumbo de uma cabeça fechada. As

batalhas que abandonei foram muitas. Mas as perguntas que eu fiz eram obras de arte. Era

minha arte, elaborar perguntas sobre um assunto. Minha mãe tinha me dado boas surras

na infância por causa desse meu talento de perguntar, perguntas na hora errada. E então,

já uma mulher adulta, carrego pedras para o alto das montanhas, e deixo rolar. Nunca tive
um companheiro real, um homem real, nenhum dos meus ex-maridos, dos meus três ex-

maridos, suportou comigo as perguntas mais intensas. Em geral a resposta do homem

masculino é um soco. Em geral é um tapa. Eles não suportam a broca das palavras

penetrando nas ideias estabelecidas, não suportam palavras novas, eles querem o

dicionário básico, eu vi isso, ninguém me contou, eu vi o semblante de nojo daqueles

homens malditos diante de minhas perguntas, às vezes perguntas de amor. Não vou

chorar, eu me prometi, não vou chorar diante de vocês contanto o que passei com esses

homens com os quais fui casada, a correção ortográfica constante que eu tinha que fazer

para viver em um ambiente minimamente escolarizado com eles, homens que escolhi eu

não sei a razão. Eu não sei bem a razão. Para me presentear. Para me dizer “estou lhe

dando o melhor da terra, tome, pegue, um coração, um pênis, uma alma. Vai, leva para a

casa, leva para a vida”. Eu me disse isso, e, no fim foram grandes naufrágios.

Ex-maridos são tipos de abortos. Eu nunca fiz um aborto mas tive maridos ruins, eu não

engravidei, eu quase, eu queria, eu temia, eu não achei o homem certo. Eu não vi a vida

crescer dentro do meu corpo, e agora já é tarde, tenho apenas este bilhete sujo para

preencher. E vou fazer isso, quero e preciso. Eu não tive capacidade ou habilidade para

detectar uma pessoa justa e boa. Minha forma de busca me levou a péssimas criaturas

para resolver a dinâmica de minha afetividade. Na verdade meu trabalho no jornalismo era

o centro de minha vida, foram mais de 3450 reportagens nestes anos, nestas décadas, eu

era bem produtiva, e sempre guardei todas, tenho pastas, várias pastas em minha

biblioteca. Minha velha e boa biblioteca.

Suicídio. Fiz uma reportagem sobre isso uma vez. Estudei os gêneros do suicídio,

transexuais se suicidam muito mais, mulheres idosas se suicidam muito mais, meninas

magras e feias se suicidam mais. Optar pelo suicídio? As mulheres se suicidam mais. Eu

tirei a nota de dez reais amassada do bolso direito, coloquei no balcão, peguei o maço do

cigarro e o troco de moedas. Eu já fui ansiosamente tirando um cigarro e colocando na


boca, meu pênis de fogo, ao sair da padaria ascendi o cigarro, o isqueiro sempre no bolso,

caminhei até o carro com as mãos no bolso, tragando e expelindo fumaça, meu rosto

tenso, meu batom borrado, minhas olheiras. Falta de sono. Nenhuma reportagem minha

ganhou algum prêmio. Nunca fui nem mencionada em nenhuma forma de destaque do

jornalismo, sou uma anônima na massa de milhões de jornalistas anônimos produtores de

informações diárias, muitas delas inúteis pois poucas pessoas têm capacidade de ler. e

menos ainda têm capacidade de entender minimamente. Era minha paixão o jornalismo,

agora penso no suicídio. O que pretendo fazer? Vocês esperam a glória? Desejam a glória,

dinheiro, prazer, fortunas, eu sei, eu conheço a plateia, vejo vocês com estes rostos

rosados, como o meu rosto já foi rosado um dia. Malditos, ficam rindo. Vocês são uma

plateia linda, são ótimos, mas eu estou meio amarga, feita chocolate. Manifestações

absurdas de emoções reprimidas, eu nunca fui homenageada pelo meu trabalho, sou um

ser invisível que produz informação vendida a 50 centavos em jornais populares, ou

encontrada em páginas grátis de internet, na verdade o lucro da empresa jornalista em

que trabalho vem das propagandas e comerciais, as notícias são apenas figurações,

enfeites, a razão social do comércio, e vocês vieram aqui para me escutar. Isso é

espetacular. É um duro golpe, eu sei, estou abrindo as caixas. Eu era uma menina magra e

feia, mas era uma menina branca, em um mundo psicopata e racista. A palavra nunca

chega onde ela precisa chegar, nas mentes fechadas com chumbo. Você já foi lá na última

casa da favela apurar um crime? Uma vez eu subi na chuva com dois policiais para entrar

em um barraco na última casa onde dois corpos estavam no chão, era fevereiro: um

homem e uma mulher. Eu fui lá, tirei fotos, saquei o maço de cigarros, ofereci aos dois

PMs, aceitaram cordialmente, ficamos em silêncio, absoluto silêncio, chovia, fumamos na

porta do barraco, aquela estrutura podre caindo aos pedaços, eu anotei alguma coisa,

dados e endereço, e voltei sozinha, pelos becos apertados, deslizando escorregando

naquelas vielas de terra, e só depois eu pude sentir alguma coisa. Estava vencendo a luta

com tranquilidade, mas o que me incomodava também me afastava, o turbilhão de

emoções. Pra gente finalizar, queria saber como pensamentos suicidas começaram a se

fixar. Desde o início estava claro que eu pretendia uma queima de arquivo, uma execução

estranha, dois corpos dentro de um pequeno barraco no alto da favela mais pobre da
cidade debaixo de chuva na segunda-feira 9 horas da manhã, o que vocês acham que

poderia ser pior para acontecer naquela semana? A última semana? No meu bolso,

amassado também, um pequeno pedaço de papel sujo, qualquer jornalista com o mínimo

instinto de investigação saberia, e minha pretensão era escrever aquele bilhete naquele

pedaço de papel. Era simbólico gente, vocês precisam compreender esta lógica, pequenas

coisas são tão simbólicas quanto grandes fortunas. É o símbolo que decide a vida ou a

morte. Uma vez fiz reportagem sobre frango frito, essa delícia da cozinha contemporânea.

Tudo vai estar neste bilhete, escrito nesta folha pequena suja. Como é importante um grau

de ignorância para a população ter índices altos de consumo industrial. Em alguns

momentos eu fiquei em dúvida, era surpreendente. Remédios. É isso, a indústria do frango

frito. Remédio para crescer, para comer, para engordar. Remédios. Vocês não querem ver

isso, não querem ver as granjas. Eu não publiquei verdade alguma. Apenas insinuações e

dados inofensivos, que não me condenam, eu tive poucos processos judiciais em minha

carreira de jornalismo. Não vou socar a ponta da faca. Vocês não se importam mesmo.

Havia um pouco de justiça? Lentamente o suicídio passou a ser uma opção. Era uma opção

de muitos humanos, mesmo Judas escolhido por Jesus se suicidou. Aquela menina

magrinha leitora voraz quanta pressão suportando, dizendo internamente que terminaria

aquilo a qualquer momento. Alguns minutos atrás, foi, sei lá, eu não sei, estou chocada, foi

inesperado. A qualquer momento um fim para salvar. Preciso de uma pequena pausa.

Nosso alicerce, nossa constante esperança, a presença, as notícias sobre o dia de amanhã,

ter que fazer tudo de novo, tudo de novo. Isso só é possível com uma boa utopia, uma

loucura feliz, uma transgressão alegre. Mas que fantasia vocês vão aceitar? Não importa.

Quando se merece, não importa.

Deus. Quando eu tinha uma ampla vantagem, quando eu estava começando a vitória na

vida, eu tomei o caminho errado. Comecei a errar sistematicamente, a cometer pequenos

absurdos. Não pude ver, não pude. Trabalhei automaticamente, era aquela menininha

magrinha escritora compulsiva, apaixonada e cheia de ilusões. Eu preferi viver no mundo

de polêmicas, achei que era essa minha profissão, ir viver no meio do formigueiro humano,
tentar ganhar dinheiro na boca do fluxo, ir para a foz do desespero da produção industrial.

Fui aos lugares errados. Cheguei até aqui, e o resumo de tudo é este bilhete escrito neste

papel sujo: “meu deus, obrigada, e, se possível, me perdoe”.


O Curioso Caso da Gameleira

David José G. Ramos

1. O Adolescente sentou-se na Praça da Liberdade, abriu a mochila da escola, tirou uma garrafa de
vinho pela metade, tirou a rolha e tomou um gole. São 3:17 hs da madrugada de segunda-feira, e a
praça está vazia. Um policial faz a vigilância do Palácio do Governador, que fica no alto da praça,
caminha pela praça, passa pelo garoto assentado debaixo da mais alta palmeira, o rapaz escreve
em um caderno. Não há nada de mais em tentar ser humano de madrugada, o policial pensa. Há
músicas em sua cabeça, para passar o tempo, dentro desta farda. O garoto toma um grosso gole
do vinho, recoloca a rolha e ajeita a garrafa na mochila. O policial caminha calmamente. É a região
mais segura da Capital, câmeras de vigilância estão em todos os enquadramentos observam os
mais variados focos possíveis, e tudo monitorado pela central da Policia Militar, que está próxima,
em um bem aparelhado apartamento do lado do Palácio do Governador, no prédio da Segurança
Pública. A segurança pública que cuida do Governador é a mesma que cuida de todos os 11
milhões de cidadãos da cidade, milhões de seres humanos contribuintes, de Homo sapiens.
Entendida como uma agregação de indivíduos em comunidades de convivência e exercício de
poder, a sociedade humana capitalista; o ser humano é um ser natural, um animal com sistema
nervoso, sistema digestivo, e capacidade de auto percepção, mas carece de estruturas instituais
que determinem os melhores comportamentos nas mais variadas situações coletivas. Sem a
determinação original, o instinto social, o ser humano compôs um sistema de linguagem e de
educação complexos para regular hábitos sociais, geração após geração, superando no indivíduo
a incapacidade natural para a lei, e a necessidade dela nas formas sociais humanas complexas. A
lei é o princípio fundamental possibilitador de gigantescas cidades, gigantescas fábricas, produção
de bilhões de mercadorias por segundo: apenas a Lei pode garantir a coesão social humana em
cidades superpopulosas ou em redes produtivas, e a Lei é uma força externa. Apesar da Lei, temos
também que lidar com a representação, a imaginação, o imaginário, imagens grotescas da
animalidade, imagens de que somos seres biológicos, animais orgânicos, e que na natureza as
associações de indivíduos podem ter a forma de simbiose, cooperação, e parasitismo. Quando
podemos notar que muitos entre os 11 milhões de seres humanos da cidade são meramente
parasitas, organicamente parasitas, existencialmente parasitas. O adolescente escrevia poesias
em seu caderno, adorando o sabor da madrugada, o vento, as estrelas, a paz, ele escrevia sobre a
esperança, sobre os amores, sobre as dores, sobre as incertezas. Várias páginas escritas com
inspiração desde o pôr-do-sol, e seu coração estava calmo. Agora na madrugada, seu coração
estava feliz. Tomou um gole do vinho, guardou a garrafa na mochila, agora era caminhar para
casa, tinha se encontrado um pouco. Era tarde da madrugada, mas ele precisava desse tempo
pessoal. Talvez só mais um poema, talvez escrever só mais um poema e então poderia ir para
casa.

2. Tanto deve ser aceito um adolescente de 16 anos tomar um vinho solitário na principal praça da
cidade às 3 horas da manhã, quanto deve ser aceito que um Policial em ronda ao Palácio do
Governador do Estado tenha pensamentos humanistas enquanto caminha de madrugada em seu
turno vigiando patrimônio público com toda tecnologia aportando e dando suporte. Policiais são
seres humanos, estão envolvidos na história do humanismo. São coisas que precisam ser
possíveis de acontecer, as coisas novas que queremos para o ser humano, são coisas
imprevisíveis, e devem ser possíveis de acontecer, como uma ampla estrutura de solidariedade
humana, por exemplo. É utopia? Sim, claro que é uma utopia imaginar que um policial passando
por um adolescente de madrugada vá conceder um momento de melancolia criativa ao outro, vai
entender como são os jovens, ou mesmo, o adolescente vai aceitar a presença do policial por
perto, sem medo da Lei e da autoridade, aceitar a polícia em seu trabalho de garantir a segurança
de maneira admiravelmente pacífica.

2.1. Mas acontece que a realidade é má. O real é imbuído da maldade, o ser
humano terá utopias e impossíveis condições de realiza-las, isso é um fato. Nem o
adolescente filosofando de madrugada com um vinho, compondo poemas de amor,
ou chorando, um choro de crescimento, auto-compreensão, existe. Ele existe ou não
existe? E nem existe um policial extremamente humanista e igualmente filósofo,
existe? O que existe é a Gameleira.

2.2. A Gameleira existe, do Amazonas até o Paraná, é uma árvore comum a todos
os biomas do Brasil, uma árvore continental, que se adaptou muito bem ao solo e
climas brasileiros, mesmo dentro do variado espectro de temperaturas e
composições geológicas do território continental do Brasil. A Gameleira é uma árvore
fundamental, pois seus frutos alimentam muitas espécies animais, e é exatamente
nisso que consiste seu fator adaptativo.

2.3. Mas qual a relação da Gameleira, com o adolescente e o policial? Inicialmente


nenhuma. Mas a Gameleira tem uma relação direta com a Politica. E através da
Política vamos realizar uma digressão longa e dolorosa para retornar ao adolescente
e ao policial, e finalmente justificar os momentos de sinapses nervosas que serão
gastos na leitura do presente texto.

3. Ficus luschnathiana ou Ficus doliaria, esse era o debate taxonômico naquela manhã dentro da
Universidade. Estavam realizando um seminário sobre a Gameleira, uma das árvores mais comuns
em território Brasileiro. Não pela sua quantidade, ponderavam os biólogos de posição mais à
esquerda do CNABE (Conselho Nacional de Agricultura, Botânica e Ecologia) que se reunia
naquela manhã. O espaço universitário não era muito bom, a universidade estava cheia de
canalhas, mas, ao menos no campo da biologia os grupos políticos eram mais abertos ao diálogo.
Os grupos de extrema direita do CNABE defendiam a erradicação da Gameleira do território
nacional, planta com sérias características diabólicas. Uma líder religiosa de uma tribo indígena,
formada em biologia, puxava o debate sobre a erradicação das plantas parasitas e denunciava os
horrores da Gameleira: uma árvore no fundo cruel, destruidora, parasita, segundo ela, que tomava
o corpo inteiro de uma árvore hospedeira, sendo responsável por uma degradação de dar nojo no
tronco da árvore rival inimiga. O Parasitismo, qualquer que seja ele, seja entre formigas e pulgões,
entre vermes sem anus e o intestino grosso humano, seja entre aves, repteis, peixes, e plantas é
anti-ético na verdade. Um organismo vivo sugando as forças de outro organismo vivo e a gente
vendo essas coisas sem reagir? O debate estava insustentável, na verdade eu tinha dito sobre
uma convivência mais harmoniosa dos vários grupos políticos de biólogos, mas no debate sobre a
Gameleira os grupos se exaltavam. Alguns biólogos viam no Parasitismo uma função social de
algumas espécies: o parasitismo é uma forma de sobrevivência de seres vivos ao longo da
evolução da vida, em bilhões de anos, são bilhões e bilhões de anos de vida que surgem tipos
parasitas, práticas parasitas de um ser vivo com relação a outros, uma história sem memória mas
presente em cada bioma: há aquelas espécies de seres vivos que vão sobreviver se aproveitando
da produção de biomassa de outras espécies sim, isso é um fato cotidiano, neste exato momento
bilhões de seres vivos estão sofrendo parasitose de outros seres vivos, invisivelmente, e a Ficus
luschnathiana era apenas mais uma espécie espalhada por um território grande, portanto portadora
de sucesso evolutivo, que se estendia por mais de 5 mil quilômetros de área, existindo em biomas
diferentes, diversos, inimagináveis: era possível encontrar a Gameleira no Pantanal, ou no
Cerrado, na Mata Atlântica e na Caatinga, os quatro maiores biomas específicos do Brasil (A
Amazônia não é um bioma exclusivo do Brasil, a floresta amazônica é um bioma internacional,
partilhado por outros países como a Bolívia, a Amazonas boliviana, os biomas específicos do Brasil
são os quatro citados. isso segundo um grupo de biólogos, dissidentes na biologia tradicional,
biólogos que se autodenominavam independentes das outras facções de biólogos. Já os biólogos
mais patriotas insistiam em classificar a Amazônia como bioma genuinamente brasileiro).
A Gameleira podia ser encontrada no Paraná e no Mato Grosso do Sul, até no Amazonas, região
norte do Brasil, com variações consideráveis, entretanto. A variação das espécies de Gameleira
era um debate cruel entre os pesquisadores, um debate apaixonado, como se estudar a Gameleira
provocasse nos biólogos uma paixão surda e profunda. Quando você começa a estudar a
Gameleira, vai até o ambiente natural, vê as plantas ali, você fica perplexo e apaixonado,
garantiam biólogos de diversas facções diferentes. Nisso eles concordavam: o poder do estudo
sobre a Gameleira, o que levava um pequeno grupo de biólogos que defendia a nítida
dessemelhança entre os tipos de Gameleira a considerar o Ficus doliaria a verdadeira espécie
parasita entre as Gameleiras, a verdadeira “Gameleira”. Chegando a um terrível impasse, o que
uma associação humana deve fazer? Como conciliar posições tão diferentes entre os estudiosos
da Gameleira? Isso fazia brilhar os olhos dos biólogos metodologistas, essa briga teórica era ótima
para os metodologistas, que era o grupo que via toda e qualquer situação de conflito teórico e
prático como oportunidade para evoluir o conhecimento científico e criar novos e novos métodos de
pesquisa, já que nessas horas o desenvolvimento de uma resposta científica satisfatória promovia
a genialidade e as soluções alternativas.

4. O Policial deu cinco voltas pela praça, concluiu cinco vezes o perímetro de 7 quilômetros do
entorno urbano do Palácio do Governador, indo até as palmeiras em frente a Avenida João
Pinheiro sete vezes, completamente deserta naquela madrugada, e fechou sua ronda, seu turno de
6 horas de serviço. Quando deu 3:40 hs ele foi ao palácio fazer a troca de guarda. Chegou ao
balcão, apresentou a arma, devolveu o colete a prova de balas, pegou a chave do quarto e subiu
para um banho e dormir, mesmo depois da ronda ele permanecia de plantão na unidade policial.
Um outro Policial, no mesmo momento, dava entrada na sala de segurança para iniciar seu turno,
recebendo o colete, a arma, as balas, e os demais instrumentos, ele fazia questão de todos.
Diferente do Policial anterior este daqui era absolutamente violento e nervoso, machista
homofóbico e detestava minorias étnicas divergentes, podemos dizer que era um caso de policial
desumano. Começou a ronda já bem nervoso e imediatamente avistou o marginal sentado com
uma garrafa de vinho e um caderno nas mãos, estava escrevendo coisas, debaixo da Palmeira
imperial plantada pelo próprio Dom Pedro II em 1887, aquela imensa palmeira bicentenária, estava
sentado, escrevendo e bebendo vinho em uma posição suspeita, escrever de madrugada é uma
atitude extremamente suspeita, principalmente próximo ao Palácio do Governador. A primeira coisa
que aquele policial fez logo no começo de sua ronda foi autuar o adolescente infrator que bebia
álcool e escrevia de madrugada colocando em risco toda a comunidade no entorno, e colocando
em risco o Palácio, uma vez que portava garrafa de vidro, objetos com alto teor de dano físico a
organismos vivos. O policial chegou furiosamente diante do adolescente que parou de escrever.
4.1. O “Abraço da Árvore”, assim era chamado o fenômeno que constituía a
Gameleira como uma árvore: a Ficus doliaria geralmente abraçava outra árvore e ia
se entrelaçando no caule dela até sufoca-la, se aproveitando do caule da árvore
hospedeira como suporte para estabelecer sua própria copa, no ponto mais alto, isso
enquanto suas poderosas raízes se entrelaçavam às raízes das árvores
hospedeiras, sugando todo material encontrado: uma singela metáfora da Política
humana! Como um político, um vereador, um prefeito, um deputado, um senador,
como um político entra no corpo de seus eleitores, se entrelaçam aos eleitores até
sufoca-los para poder crescer, assim fazia a Gameleira. Quando armam suas copas
por cima da árvore parasitada, as Gameleiras produzem fruto de imenso sabor
durante duas estações anualmente. Os frutos da Gameleira possuem aroma potente,
e suas flores atraem fortemente pelo intenso aroma uma multidão de macacos,
insetos e aves. Avidamente comem os numerosos frutos, resultados de seivas
roubadas! Os animais defecam as sementes do alto das árvores, e pelo geotropismo
positivo, ou seja, a atração que o centro da terra realiza sobre as estruturas vegetais,
essas sementes que caem nas frestas das árvores rapidamente começam a gerar
raízes que se inclinam para o solo, as sementes se alojam no corpo de outras
árvores e iniciam seu crescimento quando obtêm a umidade básica para as finas
raízes que seguem a gravidade até o solo, serpenteando dia após dia, realizando um
entrelaçamento no caule da árvore hospedeira. Ah! Quando essas raízes finas da
Gameleirazinha atingem o solo! É ai que o parasitismo poderoso começa quente!
Segundo o grupo mais conservador de biólogos o parasitismo é uma deficiência da
natureza, é uma decadência da natureza, uma corrupção da estrutura dos seres
vivos, é quando um ser vivo causa um dano a outro, e isso é imoral, e isso vai contra
os valores da sociedade humana. Para estes biólogos a antropologia das sociedades
humanas gera valores comportamentais amplamente válidos para todos os demais
seres vivos, e eles estavam dispostos a criar projetos para evitar o parasitismo
amplo do Ficus doliaria e do Ficus luschnathiana, conhecidas como “Figueira Mata-
pau”. Certamente a árvore hospedeira morria depois de até 20 anos de parasitismo
intenso, sendo sugada até a Gameleira encontrar a copa das árvores e estabelecer
seu triunfo definitivo, gerando os deliciosos e famosos figos disputados por várias
classes de animais. Muitas histórias e mitologias do folclore brasileiro tratam do caso
do parasitismo da Gameleira, uma das árvores de maior porte do território brasileiro
depois que conclui o ciclo de ação parasita. Para a facção de biólogos mais
conservadora o parasitismo é inconveniente em termos do convívio produtivo entre
os seres vivos, e eles estudavam formas de criar a Gameleira sem o ciclo do
parasitismo. Já para o grupo de biólogos mais liberais o parasitismo da Gameleira é
lindo, é perfeito, é útil, é necessário.
4.2. O Policial foi chegando e dizendo para o adolescente ficar de pé e colocar as
mãos na cabeça onde ele pudesse ver com clareza os dedos e o braço, apontou a
lanterna para o rosto do adolescente e exigiu a documentação. Pegou o caderno em
que ele escrevia, foleou, um monte te poesias, de desenhos, de cartas, de poemas,
de músicas, de frases, palavras, o policial revistou o adolescente, que foi colocado
de costas no chão. O Policial confiscou a garrafa de vinho, revistou a mochila do
sujeito, procurou por drogas, fez perguntas, fez várias perguntas, o que ele estava
fazendo ali? Onde as drogas estavam escondidas? repetiu as mesmas perguntas
várias vezes. Matou uma formiga que passeava em seu braço, olhou o relógio,
meditou, pensou, e se o adolescente tivesse cumplices, outros marginais
escondidos, fossem um bando talvez. Perguntou sobre isso várias vezes. O
adolescente começou a sentir câimbras, e o Policial foi negacionista: câimbras tem é
o braço do trabalhador, braço de gente de bem que trabalha o dia inteiro. Quando
um vagabundo vai ter câimbras? Disse o Policial ao suspeito. O Policial chamou uma
viatura pelo radiocomunicador.

4.3. A Gameleira é uma árvore encontrada no Brasil, e todas as comunidades rurais


do país têm algumas estórias e histórias sobre a Gameleira, muitos lugares são
batizados com o nome Gameleira em homenagem a está árvore, que é muito bela e
de porte grande, também conhecida como Figueira Branca ou Mata-pau
(principalmente a variedade Ficus doliaria). A Gameleira se comporta como
“estranguladora”. Nos Estados centrais e de altitude, nos Chapadões de serras do
Brasil, nas várzeas, nos brejinhos, nas serrinhas, nas encostas, nos bambuzais
ocorrem sub-variedades do Ficus dolaria e do Ficus luschnathiana, inclusive na
forma de mini-parasitinhas, isso mesmo! Mini-parasitinhas de Gameleirinhas que se
entrelaçam e sufocam plantinhas belas, como girassóis, orquídeas, margaridas,
violetas, cravos, lírios. Como podem parasitar plantinhas indefesas de flores tão
lindas? Isso é o que enfurece a corrente de biólogos mais moralistas pois quando
avistam durante as pesquisas a mini parasitose, em rosas ou outras plantas de
menor porte, ficam deprimidos, sofrem danos mentais e psíquicos! É uma imagem
impactante demais, principalmente para as crianças. O que a plantinha bonita fez
para merecer ter uma Gameleirinha presa a ela como um sapinho sugando suas
forças? Como você vai responder isso se uma criança te perguntar? As Gameleiras
são cruéis mesmo em tamanho pequeno, dizem os biólogos mais sensíveis.
4.4. Pássaros e morcegos comem sementes das figueiras mata-pau, as famosas
Gameleiras, e defecam em outros pontos da floresta, ou da campina, ou da várzea,
ou do brejo, levam para seus ninhos. As fezes com sementes que caem dentro da
cavidade do tronco de alguma árvore adulta, ou, mesmo em árvores de porte médio
e pequeno, germinam e vão dominando a outra planta gradualmente, se servindo
das seivas vitais dessas plantas e terminando por mata-las ocupando seu lugar, o
lugar do seu tronco, raízes e copa, na verdade incorporando as peças da outra
planta em um abraço mortal.

5. A viatura demorou vinte minutos pra chegar, e então surgiu na esquina, o adolescente deitado
de peito para o chão, com as mãos nas costas, escutou os soldados descendo do carro e se
juntando ao policial que estava realizando a apreensão. Conversaram, riram, eram conhecidos, os
faróis acesos, as luzes vermelhas no todo da viatura giravam lançando luzes pela praça. Lá da
janelinha do Palácio do Governador se podia ver o farol giratório das forças de segurança pública,
isso dava uma sensação de proteção. Os Policiais da viatura vasculharam os pertences do sujeito,
resolveram leva-lo dali. Onde já se viu um menor de idade bebendo vinho e escrevendo coisas
absurdas na principal praça da cidade de madrugada? Havia o que conversar? Era possível
conversar? Se expressar? Dizer o que estava acontecendo? O adolescente começou a falar,
começou a falar que não estava fazendo nada, que estava apenas escrevendo poemas de
madrugada na cidade, estava pensando, estava interessado em ver estrelas de noite, não tinha a
intenção de fazer mal algum a nenhum ser humano. O vinho que estava na garrafa ele pegou em
casa, estava na geladeira, era um vinho tinto suave com 12 graus de álcool, algo para tomar em
pequenos goles, e escrever poesias, e fazer frases com duplo sentido, com triplo sentido, sem
sentido, ou uma mensagem em linguagem figurada para pessoas que se ama, escrever conselhos
para se manter na linha, sim, se manter na ativa, no combate, frases para estimular o pensamento,
você está ligado? Vocês estão ligados? O adolescente perguntava aos policiais que o rodeavam.
Os policiais estavam sensibilizados, uns enxugavam lágrimas no canto dos olhos, disfarçando o
choro de emoção pelas palavras do adolescente imobilizado pego bebendo vinho e escrevendo
pornografias em um caderno sujo a 200 metros do Palácio do Governador do Estado, na praça
principal da cidade às 4 horas da manhã. Mas é mesmo! Nossa! Impressionante os argumentos!
Quer dizer que está valendo um sujeito entre 14 e 16 anos ficar escrevendo poesias de
madrugada, alcoolizado, em praça pública, e isso é normal? Se perguntavam os policiais. Estavam
confusos. O que deveriam fazer então? Que talo adolescente continuar falando coisas sábias para
seis homens adultos comprometidos com a repressão social para classe hegemônica? Que tal um
sujeito de periferia com extremo mau gosto ou falta de dinheiro para roupas descentes e com um
claro distúrbio psicológico que o leva a ficar escrevendo poemas de madrugadas ensinar como um
policial deve fazer seu trabalho diante de uma clara situação de transgressão da ordem pública?
Que tal todo mundo esquecer o código penal que atribui responsabilidade e detenção para
situações semelhantes? Parece que as pessoas pobres não conseguem viver sem se drogar, disse
um policial. Sempre isso, sempre isso, todo dia é isso!

6. No tronco da árvore hospedeira a figueira começa a nascer e se desenvolver em duas direções:


para cima buscando o sol (fototropismo) e para baixo buscando a terra (geotropismo). O
parasitismo é uma relação biológica não consensual para uma das partes envolvidas, a vítima.

7. No caso da Gameleira o processo é demorado, pode levar anos, mas quando consegue atingir a
terra com a extremidade geotropista a “figueira mata-pau” ganha mais força e começa a se
desenvolver mais rapidamente e a “estrangular” a planta hospedeira com mais intensidade,
aumentando a velocidade do processo de morte da planta adulta.(...) Finalmente quando a
Gameleira envolve todo o tronco, a árvore seca e morre, ficando em seu interior um tronco oco que
será lar de muitos animais da floresta. É o equilíbrio perfeito do ecossistema 1

8. Alguns biólogos quando estão diante de uma Gameleira ficam radiantes. É uma árvore
magnífica. Outros biólogos diante da Gameleira ficam com nojo e repulsa: é o triunfo da morte, é
preciso destruir uma outra árvore talvez mais importante e significativa para que a Gameleira possa
existir? O Ser humano devia ser capaz de pacificar toda a terra, é uma utopia, é uma imagem da
transformação que a revolução humana pode gerar na própria existência da realidade biológica. A
intervenção humana tinha feito a melhoria de tantos vegetais. Toda produção agrícola no mundo
em 2020 era realizada na base de transformações genéticas em plantas, uma humanização de
trilhões de plantas que compunham a biomassa de milhares de toneladas de alimento e
mercadorias de base vegetal para consumo das dezenas de centenas de cidades humanas
espalhadas por todo o planeta. Sem a transformação dos vegetais, sem a modificação genética em
laboratórios o ser humano não conseguiria formar, montar, desenvolver, manter, progredir as
formas sociais contemporâneas, como uma cidade com 11 milhões de habitantes, e há muitas
plantas que eram más e que se tornaram boas! Vão existir sem a modificação genética no futuro os
vegetais? Então? Poderíamos modificar a Gameleira, poderíamos domesticá-la, torna-la cultivável
em roças, de forma que seus deliciosos frutos pudessem ser mais bem aproveitados pelo ser
humano. Sem o fator parasita este tipo de vegetal estaria redimido dentro dos padrões éticos de

1
. LORENZI, Harri. Árvores Brasileiras Manual de Identificação e Cultivo de Plantas Arbóreas Nativas do Brasil Vol.03. 1ª
edição. Nova Odessa: Instituto Plantarum de Estudos da Flora Ltda. 2009.
serviço que os vegetais precisam proporcionar à existência humana. Esta corrente de biólogos
mais extremistas se baseiam inclusive em manuais religiosos para a melhoria de sua prática
científica, e defendem a conversão e domesticação da Gameleira.

9. A poesia é a melhor forma de encontrar um sentido para a vida. Enquanto escreve um poema, o
poeta se transforma, cada poesia é uma transformação, cada frase uma caminhada em direção a
um esclarecimento. As palavras que são apagadas do mundo, as palavras que as pessoas deixam
de escrever, os pensamentos que nunca surgem para a luz, e a falta que tudo isso faz. A falta de
novas palavras poderosas mantém o mundo no abismo da mesmice! A poesia é uma
transformação, é uma força no mundo, é uma bênção. E eu vim buscar a poesia, eu sai de minha
casa e ainda havia sol, eu trouxe meu caderno e procurei um lugar bom e tranquilo para escrever.
Eu trouxe um vinho barato pois quero ser para sempre uma pessoa simples. Ah! Eu me esqueci da
vida aqui nesse cantinho, escrevendo e pensando, e com um suave vinho, eu fui me deixando em
palavras. Eu estava tão feliz, eu escrevi tanto, eu escrevi tantos poemas, eu me reconheci neles,
eu aprendi comigo mesmo, eu me vi na imagem das vírgulas serpenteando as frases. Os pontos
finais! Os títulos, os letreiros, os grandiosos começos, as rimas! Era tudo como uma maneira de
modelar a própria luz dos meus olhos, meus silêncios.

10. Uma outra corrente de biólogos propõe uma ampliação do parasitismo da Gameleira: é preciso
que a Gameleira seja uma espécie amplamente disseminada pelo território pois de suas folhas e
estruturas se pode fazer um medicamento contra lombrigas, taenias e muitos nematoides invasores
do corpo humano. Veja como é interessante que o parasitismo da Gameleira pode ser usado
contra o parasitismo de outros seres como Ascaris lumbricóidis, que parasitam o interior do
intestino humano, sendo uma endemia em muitas regiões do Brasil. A planta possui propriedades
medicinais, sua seiva serve como um poderoso vermífugo (mas atenção: deve ser utilizada apenas
por quem conhece bem os segredos da fitoterapia, pois é um elemento perigoso e poderoso). Da
Gameleira se fabrica remédio! Como pode ser má esta planta? A ideia é que sejam lançadas de
avião milhões de sementes de Gameleira sobre áreas de florestas para se ter depois de alguns
anos a possibilidade de produção de toneladas desse vermífugo, a geração de uma verdadeira
manufatura industrial, uma linha empresarial. Esse grupo de biólogos que busca viabilizar a
indústria do vermífugo da Gameleira é um grupo bem radical, eles defendem o parasitismo como
uma associação natural entre os seres vivos, e evitam abordar a dimensão moral da ação de um
parasita. Vida e morte são fatos da existência dos seres vivos, gente! E dai se há parasitas ou não?
Como e porque culpar uma planta de uma coisa que ela sequer tem consciência? A Gameleira não
escolheu parasitar por ser uma planta má, ser diabólica, ou cruel, como muitos biólogos
pertencentes a facções atrasadas da Biologia sustentam. Temos que parar com essa Biologia
cheia de religião, de moralidade, para com isso sô. Estavam dispostos a parar a usar força física
contra a demonização da Gameleira.

11. A mochila do delinquente, junto com a garrafa com álcool, o caderno e a caneta foram
colocados em um saco, e agora eram provas. Mesmo sem resistência foi necessário dar uma
educada no adolescente, uns tapinhas, para o bem do adolescente, que de agora em diante
designado como delinquente infrator. As 5:00 hs foi entregue pela viatura ao Delegado de plantão
da Delegacia do centro da cidade. O menor foi colocado em uma cela com adultos, pois não havia
naquele plantão uma cela para menores. Felizmente ás 9:00 hs o Conselho Tutelar da Criança e
do Adolescente iria comparecer, iriam ser acionados os representantes dos Direitos Humanos,
ficariam cientes do caso, e certamente até as 13:00 hs um conselheiro tutelar iria até a delegacia
para averiguar a situação do menor infrator apreendido de madrugada, suspeito de provocar
balburdia diante do Palácio do Governador. O menor delinquente provavelmente era um agente da
oposição anarquista querendo desestabilizar as instituições. Se tudo ocorrer bem, até as 17:00 hs
o menor delinquente será removido da cela lotada de adultos criminosos onde foi colocado e será
encaminhado para o Abrigo Estadual para Menores Infratores. Quando ele chegar lá então as
autoridades irão procurar por familiares, responsáveis, e comunicar o fato, ou, tentar saber mais,
saber a razão de um adolescente estar agindo de madrugada, com uma garrafa de vinho de pobre.
Absurdo, absurdo essa juventude. Aonde vamos parar? Aconteceu porém um atraso: o conselheiro
tutelar chegou as 19:00 hs, a delegacia já fechando, o menor infrator continuava na cela com os
adultos, sabe-se lá como foi o dia dele. Comeu o que os presos comiam, aquela marmita produzida
por uma empresa terceirizada que venceu a licitação do Governo através de uma fraude. O que
você poderia esperar da comida? O Conselheiro se desculpou com o Delegado, realizariam a
remoção do menor na manhã seguinte. Não foi nem na cela para ver as condições do menor. Uma
noite na prisão iria ensinar algumas coisas para aquele safado. Era o melhor, que o mal fosse
cortado pela raiz.

12. A Gameleira cresce uma média de 70 cm ao ano se encontra uma boa hospedeira, em 20 anos
já toma por completo o lugar de sua vitima, se tornando uma árvore poderosa e vistosa pronta para
florescer e produzir os deliciosos frutos, figuinhos de varias cores dependendo da variedade de
Gameleira. Eu sei que todos os animaizinhos da floresta amam aquele sabor. Eu sei que amam,
eles vem de longe para busca-lo, e espalham as sementes da Gameleira por toda a região.
Maravilhosa planta, em alguns anos ela tomará conta de todo o entorno, rodeará as outras plantas
e estabelecerá uma frondosa copa.
13. As 22:00 hs retiraram o rapaz, o menor, inconsciente da cela e levaram até o Hospital João
XXIII, que atende as emergências. O Delegado escutou uma gritaria, foi lá investigar e encontrou o
menor caído no meio da cela. Estava todo ferido e sangrava. Ninguém sabia dizer o que tinha
acontecido, disseram que os policiais já o trouxeram assim, mas na verdade ele entrou andando na
delegacia, estava apenas com algum roxeado no rosto, escoriações no braço, ele resistiu à prisão,
e houve desacato, foi o que disseram os policiais. Era o de sempre de todas as noites. Retiraram o
menor inconsciente da cela. E por que ele estava em uma cela com adultos? Essa pergunta era
melhor você ficar calado com ela, ouviu? Fui claro? Você entendeu bem? E como sempre o
funcionário da ambulância disse sim, disse tudo bem, disse me perdoe, disse eu não vi nada, disse
eu não falei nada. Às 23:00 hs o menor deu entrada na UTI (unidade de terapia intensiva) do
Hospital João XXIII com suspeita de traumatismo craniano e várias fraturas pelo corpo. Mas e os
familiares desse menor? O Conselheiro Tutelar responsável pelo caso que havia estado na
delegacia não foi encontrado para informar. Qual o nome desse adolescente? Não estava
informado na sumula, no boletim de ocorrência. Mas tudo seria explicado, é claro que sim.

13.1. A reunião do CNABE (conselho nacional de agricultura, botânica e ecologia),


estava interrompida até que os ânimos esfriassem, um grupo de biólogos dissidentes
prometia invadir a sala onde os Doutores e Pós-doutores estavam preparando o
material para os estudos sobre a Gameleira, material que seria utilizado, foi um clima
chato na Universidade, estavam tensos. Os debates em torno da moralidade do
parasitismo da Gameleira ficaram ainda mais complexos quando um grupo de
biólogos do Amapá, região extremo norte do Brasil, apresentou um bombástico
estudos sobre uma nova variedade de Gameleira, o Ficus clusifolia descoberto
dentro da imensa floresta Amazônica e que possuía frutos bem avermelhados. Era
conhecida dos índios e sertanejos, mas tinha sido estudada muito recentemente pela
ciência. Ah! Mas por quê foram anunciar isso justo no fervor do debate!? Podiam ter
guardado o resultado da pesquisa para um momento mais oportuno. Só que não! Os
biólogos do norte são conhecidos pelo ímpeto científico!

13.2. O leito da UTI em que estava o menor infrator precisava ser desocupado, não
podiam perder tempo com um indigente, nem o nome do adolescente infrator eles
sabiam, estava sem documento, o Delegado da polícia civil responsável pelo caso
tinha concluído seu plantão, o Conselheiro tutelar do caso não foi encontrado, e os
policiais envolvidos na prisão e apreensão do menor estavam de folga. Na verdade
já havia morte cerebral, já estava em uma situação dramática, não iria durar muito.
Olhando para o estado do adolescente parecia ele ter sido colocado em uma jaula
com animais ferozes, coitado, até mordidas. Mas se foi preso boa coisa não estava
fazendo. Teve o que mereceu nesta vida! Aqui se faz, e aqui se paga, é um dos
provérbios mais lindos, eles diziam, lá na enfermaria.

13.3. Aquela bióloga, aquela baixinha, ela foi até lá, estava com a pesquisa nas
mãos, não ia deixar um bando de biólogos machos histéricos ocuparem as atenções
daquela maneira quando o mais importante é o conhecimento científico. Ela se
levantou de sua poltrona no auditório e foi serena até a mesa coordenadora, tomou o
microfone das mãos do Pós-doutor que pedia calma, e começou a falar com energia.
Gritou exigindo silêncio, exigindo cientificidade, exigindo respeito ao diploma de
Biologia, ao juramento à Darwin, exigindo silêncio. As pessoas se voltaram para ela,
ficaram impressionadas com a energia daquela mulher. A Ficus clusifolia existe sim,
vocês querendo ou não, vocês negando ou não, vocês agindo feito crianças ou não,
esta sub-espécie de Gameleira existe sim, ela disse, ela gritava lindamente com o
microfone nas mãos, e temos um encorpado estudo feito por dezenas de
mestrandos e doutorandos sobre esta variedade de Gameleira, foram horas e horas,
dias e dias de pesquisa, e o documento está aqui, e ele está aqui! Disse a bióloga
sacodindo um grosso calhamaço de páginas. A plateia de biólogos uivava, o
auditório veio abaixo! Os conservadores rasgavam as próprias roupas e davam
tapas em suas próprias cabeças, os biólogos da extrema-direita ameaçavam colocar
fogo na biblioteca da universidade para acabar com aquela maldita heresia. Os
biólogos comunistas estavam divididos, os biólogos nietzschianos estavam bebendo,
os biólogos liberais eram os mais calmos, para eles era normal um novo
conhecimento surgir das trevas, do nada, detrás da porta, no apagar das luzes.

13.4. Ficará conhecida nos anais desta reunião como “figueira-vermelha”, ou


“Gameleira vermelha” a Ficus clusifolia, como as demais Gameleiras é da família das
moráceas e também exibe comportamento de estranguladoras. A bióloga baixinha
não se intimidava e continuava a apresentação. Da plateia vinham os urros e gritos
dos biólogos radicais que exigiam que o termo “estranguladora” não fosse
mencionado, figurasse na descrição apenas “parasitas”. Achavam “estrangular”,
“estranguladora”, “estrangulamento”, “plantas estranguladas”, verbos e adjetivos
pesados demais, pesados demais! O grupo de biólogos conservadores, por outro
lado, queriam termos mais duros ainda, como “plantas assassinas”, “planta canalha”.
A bióloga expositora desconsiderava as vaias e prosseguia, até que perdeu a
paciência: são mais de 78 variedades da Gameleira gente! Vocês vão ter que aceitar
isso! Parem com essa infância! O que vocês vão fazer? Vão matar quem aparecer
com novas variedades da Gameleira? É isso? Os coordenadores do evento pediam
calma, calma gente, calma, precisavam acalmar a plateia, temiam que um confronto
físico entre as facções de biólogos se iniciasse ali, com feridos e mortos.

14. Deligaram os aparelhos às 23:45 hs. Morte cerebral foi anotada no registro. Pena, um jovem,
uns 16 anos de idade, tão jovem e tão marginal. Colocaram o corpo em uma maca e levaram para
o fundo do hospital, armazenaram o cadáver no frigorífico do Hospital, era o procedimento padrão
com mortos sem identificação, ainda mais tendo em vida sido encaminhados pela delegacia. Ficam
no congelador até 20 dias esperando o trabalho técnico, e depois eram enterrados em valas
comuns no fundo dos cemitérios públicos. E a família? E os parentes? Bom, gente assim fica sem
encontrar, sem ser encontrado, coisas assim, a escória desaparece para sempre, é a seleção
natural entre os humanos. Colocaram o corpo dos indigentes em um sacolão preto, uma ficha da
causa mortis é amarrada no dedão direito do pé. E o corpo do adolescente infrator ficou lá, sem um
pingo de vida. Cadê a mãe do bandido? Bandido desde adolescente, quem diria, uma educação
tão péssima, ensinamentos de péssima qualidade para a vida, para viver uma vida ruim, sem
hábitos de sucesso. Vai de um lugar ao outro e não há nada de bom que consiga fazer. Termina
assim, corpo sem nome, corpo sem história, todo arrebentado, mordido. O que fizeram com esse
cara? Dentro do carro da polícia, na sala do interrogatório na delegacia, dentro da cela superlotada,
o que fizeram? Isso é o que? Que tipo de ser vai de um lugar ao outro perdendo os pedaços?

15. Raramente agem como parasitas, muito dessa história é mito, as Gameleiras podem crescer
diretamente do solo se semeadas adequadamente. As Gameleiras na verdade raramente agem
como parasitas. Ocasionalmente germinam sobre outras árvores, e crescem como epífitas até que
suas raízes alcancem o solo. Então as raízes engrossam, crescem em volta da árvore hospedeira,
até que a figueira a sufoca por cintamento ou compete com a planta hospedeira na absorção de
água do solo, e a segunda acaba morrendo2. Na verdade é a terra, é quando a raiz chega à terra
que começam os problemas. Os frutos da Ficus clusifolia são pequeninos, vermelhos e saborosos,
um pouco forte para o paladar humano, mas transformado em doces e licores são iguarias. A
planta ficou conhecida como “mata pau”. Qual a vergonha por esse apelido? Nenhuma. Sejamos
realistas meus queridos, meus amigos, sejamos! É mata pau mesmo, é mata pau sim, e dai? Se a
semente germinar dentro do caule de outra planta, entre as folhas, no cantinho íntimo de uma outra
planta, vai ser mata pau mesmo! É isso dai mesmo! É um ocaso, uma fatalidade, raríssima
inclusive. Essa é a natureza das coisas, sem ocultação, sem maquiagem, doendo em quem precisa
sentir a dor! A bióloga concluiu sua apresentação com a plateia dividida, gritos efusivos, gritos de
lamento, gritos de angustia, acusavam a bióloga do Amapá de ser uma negacionista covarde,

2
Ibdem.
negando a inclinação parasita da Gameleira, ocultando as atrocidades biológicas. Vaias
estrondosas de um lado do auditório, aplausos efusivos de outro canto do auditório. Ser uma planta
que nasce sobre outras árvores, envolver o caule de outras árvores até o sufocamento lento e sem
misericórdia, o que estava pensando a Gameleira ao agir assim? Que porra é essa? Se há alguma
coisa de ética, de honra, de civilidade na alma de um biólogo ele precisa ser contrário aos
parasitismo. As plantas geralmente são tão passivas, tão bondosas, e então vem essa dai, com
essa ferocidade típica de animais. Animais. A briga ficava feia. A Gameleira verdadeira afinal era a
Ficus clusifolia, a Ficus doliaria ou a Ficus luschnathiana?

16. A reunião dos biólogos estudiosos da Gameleira ficou um pouco arruinada depois de tantas
brigas taxonômicas, muitas delas inúteis, apenas para acalentar a vaidade de algumas
personalidades famosas no meio da Biologia brasileira. O fanatismo científico é tão aterrador
quanto o fanatismo religioso, e muitas ameaças de morte foram feitas por membros das várias
facções de biólogos discordantes ali mesmo no auditório, não respeitaram nem a mesa
coordenadora, não respeitaram nem os pesquisadores estrangeiros que vieram da Europa para
acompanhar as descobertas. No final, já de noite, poucos foram os que permaneceram na reunião,
os dissidentes abandonaram as dependências da universidade prometendo recursos e processos
junto aos órgãos científicos superiores. Os conservadores também abandonaram o evento,
acusando de leviandade e superficialidade os argumentos da comissão organizadora do evento.
Os biólogos da extrema direita também abandonaram os trabalhos, o termo “planta-assassina” não
foi reconhecido com unanimidade e eles se sentiram ofendidos. Os comunistas se sentiram
ofendidos por não terem sido escutados e deixaram a reunião também. Os biólogos liberais
também deixaram a reunião, enfim, depois de tudo, apenas meia dúzia de biólogos ficaram, o
auditório vazio e a mesa coordenadora se desculpando das possíveis falhas que ocasionaram
tantas divergências, insuperáveis inclusive.

16.1. Bastante envergonhado o coordenador do evento tentava concluir as


atividades daquela reunião e comentou que iniciaram os trabalhos do CNABE na
manhã daquele dia cerca de 134 biólogos dos 27 Estados Brasileiros e com
participações estrangeiras, e que infelizmente terminavam com apenas 7
participantes, gatos pingados. Foi uma jornada difícil, ele disse, tentou fazer uma
piada, mas os outros seis participantes não riram.

16.2. Por fim, com o desastre dos debates, o coordenador resolveu ler um pequeno
texto, que reunia algumas observações pontuais sobre a Gameleira, retiradas de um
estudo do professor Harri Lorenzi, especialista em relações conflitivas entre vegetais,
que não pode ficar até o final da reunião devido a ameaças de biólogos
discordantes. Os radicais estavam exaltados, e pela segurança do ilustre professor
Lorenzi foi necessário retira-lo pela Reitoria da Universidade, chamaram um taxi para
ele e o levaram até o aeroporto para que retornasse em segurança aos EUA. Que
imagem ruim que ficou, meu Deus! Pois bem, vamos então concluir, leio uma curta
nota de rodapé do professor Lorenzi, disse o coordenador da reunião, ajeitando os
óculos, completamente envergonhado: Entre os nomes populares da Gameleira,
regionalizados, podemos encontrar: Figueirinha, Figueira-cobra, Figueira mata-pau,
Figueira-do-Mato, Planta-preguiçosa, Figueira rancorosa, Figueira parasita. A altura
média da Gameleira: de 12-26 metros, são dotadas de copa frondosa e densa, de
tronco canelado, com 60-90 cm de diâmetro, ou, quando se enlaça completamente
em outro tronco toma-lhe o formato. A Gameleira é revestida por casca áspera de
cor acinzentada. Folha espiraladas, com pecíolo glabro e canaliculado de 2-5 cm e
estípulas de 5-10 mm de comprimento; lâmina largo-elíptica, de ápice breve-
acuminado ou obtuso e base cordada; coriácea, verde-escura e glabra na face
superior e verde clara na inferior, com até 12 pares de nervuras secundárias, de 12-
15 x 5-7 cm. Inflorescências axilares do tipo sicônio, geminadas ou agrupadas, com
pedúnculo de até 3 mm. Figo glabro e pontuado, de cor amarelo-arroxeado, variando
até o vermelho vivo, com ostíolo (abertura apical) em depressão. A Gameleira
Floresce principalmente em agosto-setembro. Os frutos amadurecem
predominantemente de janeiro a março. É uma Planta pioneira, caducifólia, heliófita
e seletiva higrófita, característica e preferencial das matas pluvial e estacional
semidecidua do país, onde apresenta ampla dispersão, não obstante de ocorrência
irregular e descontínua ao longo de sua área de distribuição. Possui Madeira leve
(densidade 0,42 g/cm³ ), macia ao corte, textura grossa, suscetível ao ataque de
cupins e ao apodrecimento. A madeira é usada apenas para confecção de gamelas,
caixotaria e miolo de portas e painéis. Seus frutos são muito procurados pelas aves.
A árvore, de rápido crescimento e fornecedora de boa sombra e recomendada para
reflorestamentos e paisagismo rural3.

16.3. Se chama Gameleira porque usavam a madeira, que não é muito boa, que não
é lá essas coisas, pouco confiável, para fazer gamelas. Gamelas são pratinhos
rústicos, travessas, usados para colocar frutas, guardar alimentos.

3
Ibdem.
17. O Adolescente continuava a escrever, tinha acabado de fazer um poema sobre sua própria
morte. Escreveu mais algumas coisas. Tomou mais um gole de vinho, se levantou, e caminhou até
sua casa. O dia amanhecia com muita beleza, a beleza das manhãs. Se sentia feliz. Escrever é
libertador, pensou ele.
A Religião do Espantoso Ruído

David José Gonçalves Ramos

Depois de alguns anos fazendo acampamentos amadores, você começa a se informar e

percebe que há muitos locais de acampamento maravilhosos e ocultos dos acampadores

amadores. As razões são óbvias: a depredação. Uma pessoa que pratica acampamento

com mais profissionalismo respeita a natureza muito mais do que um iniciante nessa arte,

ou muito mais que um turista. Os turistas são classe de pessoas que não conseguem

deixar de sujar o ambiente que visitam. O acampista não. O acampista intermediário não.

O mestre acampista não. Certos lugares são tão lindos para se acampar que precisam ser

protegidos e então, se tornam segredos dos mais experientes, como a Pedra do Buda.

Acampar é uma experiência muito rica para o psiquismo humano, é um exercício de poder

dormir em uma área natural, selvagem até, é mover sua casa, ou, ao menos, seu

dormitório, para um outro local, no mato, caverna, grotas, alto de árvores, ser capaz de

dormir em um saco de lona dentro de uma barraca é uma referência à ancestralidade dos

índios, um estágio primitivo das habitações, é uma celebração inconsciente de vitórias

adaptativas que ao serem lembradas evocam energias; ver a lua cheia brilhar no alto de

um céu estrelado tendo toda a natureza imersa na escuridão à sua volta. Existem pessoas

que acabam tendo verdadeiras epifanias em acampamentos e voltado para casa


completamente transformadas. Talvez acampar seja mesmo um rito de passagem, pois no

começo dá um medo do caralho. Um medo da porra! --- assim podemos dizer.

A primeira vez que acampei sozinho foi uma atitude de resolução de muitas questões

internas minhas. Eu tinha muito medo de dormir no quarto sozinho, quando criança, o ser

humano é bastante pior que um animal, e os animais fantasmagóricos que habitam

embaixo da cama me assustavam. Isso era uma agressão interna, talvez. Quando comecei

a estudar Psicanálise na faculdade, era uma matéria do quarto período, era como oferecer

moedas, sendo irônico, mas quando li sobre a perspectiva do medo sob essa ótica,

comecei a me considerar como uma empresa, que estava perdendo lucro, sei lá.

Metáforas, as opiniões. Uma mensagem de motivação, ou algo assim, me fez procurar

mochilas e barracas para acampar. Quando percebi eu estava comprando uma boa

mochila e uma barraca para uma pessoa. Eu tinha 23 anos. Morava com minha avó, e

trabalhava como estagiário de manhã e de tarde, e estudava a noite, eu estava na

graduação. E como eu cheguei naqueles valores? Percebi que eu tinha pesquisado várias

lojas buscando uma mochila militar especial para acampamentos e uma barraca de

qualidade mediana, mas com ótima avaliação pelos compradores. Os sites de busca

exibiam e indicaram a pesquisa nos históricos das páginas: existem milhares de páginas

sobre acampamento. Fiquei surpreso. No total, a mochila militar tática camping 80 litros

ficou em R$ 500,00 e a barraca camping pantanal camuflada para uma pessoa ficou em

R$ 780,00. Pedi emprestado esse dinheiro para uma amiga, Bia Cerqueira, e paguei em

suaves prestações, o que deixou ela bem nervosa. Meu salário no estágio era de R$

914,00. Como eu ia comer? Fiquei sem dinheiro para nada por muito tempo, trabalhando e

estudando sem parar. Comprei a barraca e a mochila para acampar com expectativas

humanistas. A faculdade que eu estudava era pública, mas os livros eram caros. Minha
avó reclamava que eu não fazia as compras. Mas aquele impulso que me endividou e

azedou minha convivência familiar por semanas, também com a Bia, pois atrasei várias

prestações, ainda não tinha me levado a lugar nenhum naquele momento, eu tinha

comprado coisas para acampar num impulso, tive a vontade e me inclinei, eu precisava ir

acampar. Ter mochila e barraca mas ficar sentado em cima da cama não realizava nada

em mim. Foi uma coisa meio pesada dos meus anos de faculdade, cara, a indecisão

1. Citações sobre Acampamentos

Com um frio na barriga, mas com certa convicção, uma certeza debaixo das camadas de

pessoa que eu era, eu sabia que não teria coragem, cara. Lá no fundo eu sabia que não

conseguiria, a não ser que alguma pulsão suicida brotasse em mim, pois acampar sozinho

pela primeira vez parecia ser uma iniciativa suicida, na verdade acampar parecia ser a

metáfora do suicídio pra mim, uma imagem de entrar na barraca como quem entra num

túmulo, sabe? Eu decidi pesquisar na internet, tinha pensado nisso. Cheguei em casa

pelas 22:40, naquela rua sinistra onde eu moro, cenário de filme do Rambo. Mas a internet

era gratuita, eu não sei bem a razão, talvez cordialidade dos vizinhos, talvez sorte. A

internet no Brasil é muito importante, e também como eu poderia pagar por isso? Segundo

a página da Internet “Blogdescalada”:

“No estudo, liderado pelo doutor Kenneth Wright, da Universidade do Colorado,

foram realizados testes com pequenos grupos de voluntários onde foi medido os

níveis de luz durante um acampamento e coletaram o sangue dos participantes. O

sangue foi coletado para verificar a presença de hormônio do sono conhecido como

melatonina. (...) O estudo comprovou que durante uma semana de camping, mesmo
no inverno, as pessoas estavam expostas a 13 vezes mais quantidade de luz natural

do que em um lugar urbano convencional. Desta maneira os níveis de melatonina

dos campistas começavam a aumentar até duas horas e meia antes do que pessoas

na cidade. Desta maneira os relógios biológicos começavam a se regular no que se

refere ao horário de dormir e acordar”

Eu estava em um momento conturbado da Faculdade, trabalhos atrasados, antipatia dos

professores com relação à minha pessoa, minha avó não aceitando eu chegar bêbado em

casa depois das aulas da noite, era falta de tempo e muita preguiça de ler os textos de

Estatística. Me deu vontade de acampar. Eu precisava dessa quantidade 13 vezes a mais

de luz natural. Era isso que eu precisava, cara. Era outro patamar, era um outro nível que

eu precisava atingir, de maneira rápida, eu pensei. Rápida. Uma mudança rápida de

caráter, de mentalidade, de personalidade, de carisma, de quase tudo. Um acampamento

era uma solução. Eu tive preguiça demais em tentar a análise, a terapia. Ia levar muito

tempo, eu estava naquele período mais difícil da faculdade, e da vida familiar, da vida

mental, sexual (não havia vida sexual, na verdade, bom, o que é a verdade?)

2. Casos de assassinatos em acampamentos

Eu li muitas coisas sobre o assunto cara. Não venha me dizer que sou um amador, um

universitariozinho que pensa que entende Herbert Marcuse. Essa porra de sermão

acadêmico da qualidade total! Se Kant está correto, eu posso saber tudo possível sobre

acampamento sem ter acampado nunca em minha vida! Aquilo não podia ser um sonho.

Eu precisava de um companheiro de acampamento, no fundo eu sabia que não podia

dormir sozinho. Inicialmente eu procurei um amigo do sexo masculino, mas seria muito
difícil isso, seria um momento de inclusive muita proximidade. Bom, com barracas

diferentes, cada um na sua, acho que seria bacana. Mas se eu conseguisse uma amiga,

uma mulher com algum interesse em mim, poderíamos ir. Porém a fase amorosa estava

ruim, não havia ninguém para minha vida. E não havia amigos também. Eu precisava ir

sozinho.

3. Os locais secretos de acampamento no Brasil e em Minas Gerais

O primeiro encontro de acampistas amadores foi interessante, eu soube de muitas coisas.

Foi um encontro pela internet. Infelizmente nenhum acampista profissional participou.

Aparentemente eles desprezavam adolescentes de 23 anos, como eu. Teoricamente sou

um homem adulto, mas se você confrontar isso com o fato de eu ser estagiário,

universitário, sem relacionamento amoroso fixo e morar com minha avó, você poderia

pensar as contradições que carrego dentro de mim. Mas se ponha no meu lugar, e tire

esse papo de terapia. Acampar! Pense nisso. É uma forma de eu ter uma iniciação

instantânea, entrando para o meio do mato, armando minha barraca, e passando alguns

dias observando minha evolução natural como animal que pode atingir um grau de

maturidade e sobrevivência. Eu acredito nisso, nessas biologias instantâneas, como

milagres. E foi então que eu soube de algo que aumentou ainda mais minha expectativa:

os locais secretos de acampamento em Minas Gerais são locais de intensa força mística,

intensas espiritualidades. O ideal pra mim. Pelas razões que eu já apresentei, turistas e

acampistas extremamente amadores são desprezados pelas comunidades mais

profissionais: esses lugares especiais para acampar são quase sempre exclusividade dos

veteranos. A razão é a depredação ambiental que os turistas e amadores provocam. Um


acampista veterano que sabe como aproveitar ao máximo sua experiência diante da

natureza, ele não gosta de encontrar com turistas e amadores. O lixo pelo caminho, a

depredação, arranca folhas de plantas, leva animal doméstico, leva eletricidade, óleo,

excrementos, pescaria indevida, caça indevida, matam insetos, perturbação do ambiente

natural, fumaça, incêndios, fuga de animais. Por isso os lugares mais impactantes para

acampamentos são dados secretos, não confessados publicamente, as revistas

especializadas, e os jornalistas ambientais, de turismo ecológico, eles tentam, mas os

melhores lugares permanecem ocultos, fora da rota. São locais de acampamento apenas

abertos aos iniciados, são secretos. Se eu quero essa mudança de vida, me tornar forte

interiormente, entender que sou um homem adulto, ter a potência disso, eu preciso de algo

extremo assim, acampar no lugar onde Buda se iluminou, onde Jesus ressuscitou, e não

sendo possível isso, acampar em um lugar tão inspirador quanto estes, pois meu caso é

desesperador, viu --- era o que eu pensava --- preciso acampar em um lugar com boas

vibrações. Há lugares maravilhosos para se acampar. Com 23 anos a gente só quer atingir

o máximo em tudo, ser e estar no máximo, na alegria máxima, na tristeza máxima, na

atenção máxima. Não é assim? Como? É verdade isso? Tem pessoas com 23 anos que já

são chefes de família consolidados, já são adultos profissionais e com muitos filhos e

felizes no casamento? Com 23 anos? Há pessoas que já eram Presidentes, Senadores,

Deputados com 23 anos, e eu não era nada. Absolutamente apenas um universitário semi-

empregado. Poxa, então eu sou um bosta mesmo. Poxa vida. Caralho, isso me deixou

para baixo.
4. Problematização e Conclusão

Não é nem o conceito, e nem o sujeito. É uma sensação, uma intuição. Não é o triângulo,

ou o conceito do triângulo, ou mesmo o uso da palavra triângulo. É uma mutação de

pensamento. Ampliação da superfície do ser, indiferença da essência, porém uma

singularidade que decide sobre si mesma. É nisso que eu aposto, que meu ser físico, meu

ser lógico, meu ser existente, precisa de uma transformação, e só subindo a montanha

para que eu possa alcançar isso, acampar em uma montanha. Bastará uma noite

acampando, com minhas próprias forças, escolhas, recursos, alternativas, ter na minha

mente todas as novas explicações sobre mim mesmo, aquilo de novo conhecimento que

pretendo produzir, naquela noite que eu estiver acampado, escutando os grilos do mato

cantarem forte, o céu repleto de estrelas amotoadas. Tem que ser profunda essa

experiência de acampamento. Estou apostando todas as minhas fichas. Tem que ser

assim, é minha única e última saída, por isso eu peguei dinheiro emprestado, por isso

estou criando uma mentira para minha avó que justifique as noites, ou, a noite, que

pretendo passar acampando no mato, ou onde for. Estou acostumando minha avó a tomar

por si mesma os próprios remédios, a quantidade de medicamento, e, para mim, isso ainda

não resolveria, não resolve tomar remédios aos 23 anos, resolve? Finasterida? Sabonete

de enxofre para as espinhas? O meu ser é uma existência, um ser possível, uma extensão

física, eu preciso mudar minha vida, e isso parece uma idéia falsa. Há uma essência

secreta que está me garantindo que tudo isso é assim, mas pode ser apenas mais uma

forma do meu fracasso, e pode ser que eu fique repetindo isso aos 24 anos, aos 25, e

assim até a sorte da vida me deixar, é como se um acidente colocasse um copo de vidro

sobre mim, e limitasse meus movimentos, eu não poderia sair feito um feixe de luz, um

faixo de lux, é o que eu não sou. Mas acampar eu posso. Decidi isso.
5. Mentira sobre a Conclusão

Quinze meses se passaram. Já estava no final do curso. Acampei porra nenhuma. Não

consegui fazer nada do que tinha planejado. Os 23 anos ficaram no tempo. Dei uma de

machinho, mas a mochila e a barraca repousavam no fundo do guarda-roupas,

embrulhadas na sacola da loja ainda, intactas, empoeiradas. Passei meses sendo

derrotado em minhas resoluções de mudança. Muitas vezes eu fiz a mala, mas não tive

coragem. Não tive oportunidades. O curso deu uma apertada, meu chefe no estágio enchia

meu saco, enchia minha paciência, tentando me desestruturar. Eu sei. Um pouco de

paranoia? Estudar sobre psicologia me fez um pouco mais caçador de mim, no sentido de

ser um predador de mim. Eu pensava isso com a coragem vazia, força pequena. Eu

repetia isso em pensamentos, para me caracterizar, fazer a personagem que sou eu

mesmo proceder como a narrativa de um herói: no sentido do campo de trigo no fim da

tarde. Sim, é claro, a imagem arquétipa de viajantes pelo interior da Itália, caminhando

pelos campos de trigo, nos fins de tarde de outono, o céu límpido, a imagem do ouro.

Aquele sonho repetido, sabe? Sonhos da fartura da natureza, das luzes da cor do

caramelo.

6. Foi por isso que sumi ontem

Naquela noite, saímos para beber nos botecos do Edifício Maleta, no centro da cidade,

fomos beber. Era o encontro final da minha sala de faculdade, nossa turma, quatro anos

juntos estudando, lutando e aprendendo. Eu tinha dito à minha avó que não tardaria. Nos

despedimos no portão, e eu disse a vó que voltaria depois da reunião da monografia, era


perto do final do curso, muita coisa tinha voltado ao normal, desde meu surto no quinto

período. Mentira bobo, era festa da galera da sala, todo mundo combinou de ir, isso ia

terminar de madrugada, deixei minha vó dormindo roncando lá no quarto e fui pra

faculdade, e depois para a festinha. Agora eu estava no oitavo período, nos dias da

formatura, perto da formatura, concluindo as etapas, e então fomos tomar cerveja no

Maleta. Quase a turma inteira daquele oitavo período, e ficamos bebendo, e eu olhava

para o relógio, mas a cerveja me fez pensar nas minhas responsabilidades, cara. Foi uma

coisa diferente. Eu estava com muita vontade de ficar alegre, e então eu bebi, e então o

André, professor de Filosofia, chamou algumas pessoas para subirmos ao 12° andar, para

fumar uma roconha. Alguns não quiseram, eu estava bem bêbado, e aceitei ir com eles, eu

tinha vícios como aqueles; tinha os poemas da derrota, isso começou pelo desespero

constante. Cara. Você pode imaginar o que aconteceu.

7. Invejo a consciência cega

Nenhuma vingança, nenhuma compaixão. Se eu te ofendi, foda-se. Eu era outro, nada

além de outro. Quando acordei, eu estava no banco direito de um automóvel, olhei para o

lado. Uma mulher dirigia. Calada, olhando para a estrada, era manhã, uma brisa fria, uma

quase-neblina, uma manhã que prometia ser bem ensolarada, uma manhã linda,

inesquecível, mas o sol estava pequenino ainda, estava um sol frio. Por um instante eu

estive sem nenhuma memória. Olhei para o retrovisor interno do veículo, vi no banco de

trás as sacolas com a barraca, e a mochila militar, meus livros, cara, isso fez meu coração

bater acelerado. A mulher dirigia divinamente. A mochila militar estava cheia de roupas e

coisas. Olhei com olhos incrédulos, a memória voltava, e ia, e então, a mulher, com a mão
direita, retirou um blusão que estava dobrado atrás de seu banco, e me cobriu, olhando

para mim, e para a estrada, e então voltou a dirigir em silêncio. Me encolhi dentro do

blusão, estava frio demais. Eu me sentia acolhido dentro do útero do meu amor. Olhei para

a estrada, era um sonho lindo que eu estava tendo, era belo, muita luminosidade, muito

verde, matas, florestas, a estrada passava por elas, era lindo aquilo, aquela viagem. A

estrada ia se abrindo, serpenteando, campinas, bananeiras, árvores tropicais em todos os

lados, casas de fazenda, a rodovia se abria e a mulher dirigia divinamente. Eu só olhava.

8. Quando se é capaz de mentir

Quanta responsabilidade. Nós estamos em perigo, nós, estamos em perigo. Que

responsabilidade, eu sei. Sim, eu sei, eu estava bem bêbado, mas a pressão estava boa, o

mundo pesando toneladas, eu estava com muitos problemas com meus professores, eu

não podia tomar uma bomba, eu não podia ser reprovado, o mundo não podia me gerar

assim... Quando o professor de filosofia falou que tinha uma roconha e que iria para o 12

andar, o telhado do Maleta, ele cutucou meu ombro, eu disse sim, eu, disse --- pode ser

que seja sim. Mas pode ser que seja não. --- Quando as pessoas se levantaram e

seguiram o André, eu me levantei também, eu sabia das consequências, eu vi que Camila

estava lá na festa, estava em uma parte mais sofisticada do boteco, ela jamais se uniria

com perdedores, Camila estava com amigas e com o namorado dela, estava em outra

mesa, em outro grupo de alunos, estava lá, era algo assim, eu me lembro de que eu

estava tão bêbado, era tudo muito novo, as coisas mudaram para todas as pessoas,

Camila estava a uns duzentos metros de nós, e eu me aproximei e pedi para Camila

segurar minha pasta com cadernos e com meus livros. Cara, eu sei lá por que eu fiz isso?!

Eu gostava dela, sabe, gostava de Camila era uma paixão, passei o ano todo olhando
Camila, amando ela, mas era uma mulher impossível. Eu tinha o sonho de lutar boxe, acho

que teria sido bom para mim, tudo que estava reprimido, tudo que era possível, e eu

estava muito na expectativa, o futuro prometia muitas coisas, ao menos essa vez. Quando

eu entreguei minha mochila no colo de Camila, e ela olhou pra mim com cara de nojo, foi

quando eu percebi que tinha que correr atrás do André, que já subia a escada com a

galera. Camila eu não sei se chutou minha pasta pra lá, sei que ficou chateada, eu era

aquele intelectual que não escovava os dentes quase nunca, ou penteava os cabelos, eu

sei que Camila não me notava, eu sei que eu era muito negativo com ela, apesar de ama-

la romanticamente. Mas eu nunca mais a veria, com certeza não, terminando aquele curso

eu nunca mais veria Camila, e então, eu que estava bêbado, fingindo que não estava,

respirei fundo e fui até Camila, dei minha mochila para ela, que recebeu aquilo com muito

espanto. Eu disse --- segura pra mim? --- eu disse com toda fucking intimidade do mundo.

Falsa, é obvio, pode imaginar o quanto puto ficou o namorado de Camila. Já tinha sido

difícil ele aceitar ir até o Maleta, ele queria parar com aquela baixaria, Camila pertencia a

outra classe social, outro nível. Entreguei a pasta para Camila, que ficou completamente

surpresa, e sai correndo atrás do André, me perdi pela escadaria do Maleta e encontrei

meus coletas conversando no escuro do 12° andar: podíamos ver Belo Horizonte

panoramicamente. Ver um panorama da cidade, era noite, era um mundo organizado,

iluminado de noite, era como uma voz de supermercado convidando para as ofertas. André

ascendeu a roconha, e fumei, e eu fiquei muito maluco. Sem nenhuma apologia possível

aqui ao uso de drogas, André inclusive se suicidou anos depois, por causa disso, só estou

dizendo que naquela noite eu estava muito bêbado, e fui atrás dos meus colegas, minha

tragédia pessoal não posso compartilhar, mas eu sei que fiquei muito maluco naquela

noite, desordenado. Pode ser que eu faça outras lutas, que eu construa novos objetivos,

que eu possa refazer a minha vida, mas aquilo foi o fundo do poço. Isso tudo ecoava em
meus pensamentos, eu não tinha preparação física nenhuma, mas aquilo que eu esperava

que se apossasse de mim finalmente surgiu ali, no 12° andar do Maleta. O resto foi a

própria Camila que me contou.

9. A mulher parou o carro no acostamento da rodovia. Aquela manhã linda.

--- você sabe que eu amo você há algum tempo --- perguntei a ela.

--- sim, eu soube sim, eu pude ver, reparei como você me olha, reparei nessa causa

maior. --- disse Camila. Desligou o carro, olhou para mim, não havia bondade, nem

havia maldade, apenas Camila, tão inteligente, tão genial, tão extraordinária, tão

bonita, tão promissora, tão genial, tão intensa, tão produtiva. Generosa, mas

inteligente, obstinada, mas racional, extremamente racional, nunca menos que a

nota total em todas as matérias. Já era manhã. Eu nem podia acreditar que estava

ali com ela, no carro dela.

--- e você, você é o fracasso da sala, o pior da turma, o pior aluno da faculdade, o

mais atrasado, o mais despenteado, com as roupas mais velhas, os cadernos mais

desorganizados, as leituras mais atrasadas e equivocadas, o mais desatento, o

mais imoral, o mais alcoolizado, o mais drogado... --- disse Camila.

--- eu prometo parar. Eu te prometo, meu amor --- eu disse

--- não me chame de amor --- disse Camila. O clima ficou constrangedor. Ficamos

em silêncio, um pouco. Camila olhou para o relógio. Respirou fundo, olhou para mim

e disse:

--- você jogou seu material de faculdade no meu colo para ir se drogar! você deixou

sua pasta comigo ontem. Meu namorado ficou irado, nós brigamos por isso, ele foi

embora, eu esperei você para te xingar e devolver teus lixos, e então você sumiu. E

eu nem conheço você! As pessoas desceram do 12° andar, você não vinha. Tudo
isso aconteceu nesse último encontro de nossa turma, isso é triste e vergonhoso ---

disse Camila

--- sim, meu amor --- eu respondi. Fui tomado de amor naquele momento, olhando

Camila, perdi a vergonha de contar meus sentimentos. Mas, eu tinha que fazer o

que eu decidi, eu iria acampar. Camila foi até o 12° levar meus materiais, me

devolvê-los, ela estava irada, cheia de raiva de mim pois o namorado dela tinha tido

uma crise com aquilo tudo, e eu estava caído chapado em um canto do saguão do

12°, e quando vi Camila comecei a chorar, e ela veio e ficou com pena. Ficou com

pena de mim. Eu fiquei chorando, eu disse a ela que precisava me transformar, e

contei sobre o acampamento, sobre minha idéia de transformação pessoal, sobre

meu plano objetivo de mudar minha mente, minha cabeça --- sei que parece loucura

Camila, mas eu sei que vou ser uma outra pessoa depois que fizer esse

acampamento. --- era uma idéia fixa. Camila tinha um olhar de doida, ficou me

olhando. Depois me ajudou a levantar do chão, não disse mais nada, saiu andando,

e eu fui andando atrás dela, descemos em silêncio as escadas até o térrero. ---

Espere Camila! --- eu disse. Camila parou, ela já estava entrando no carro, sem

uma palavra, parecia endurecida, já era tarde da noite, já era começo do dia, o

Edifício Maleta nunca fechava. Mas já era tarde, o centro da cidade estava vazio.

--- o que você quer? --- Camila perguntou, olhou com raiva para mim;

--- Eu sinto por você o maior amor do mundo --- eu disse

--- Você está drogado, está bêbado, está imundo, está derrotado, você é pobre, é de

outra classe social, eu nem conheço você, e eu quero me casar com um homem

rico.

--- Eu vou me tornar uma pessoa iluminada, eu serei luz em tua vida Camila --- eu

disse a ela. Eu senti essa profecia dentro de mim. --- confie em mim, aceite meu
amor. Confie no meu amor, eu acho que ninguém ama mais você do que eu Camila,

esse é o maior amor do mundo. --- Camila ficou parada olhando para mim. Só então

percebi que eu estava urinando, estava com a calça toda molhada, a urina

descendo pelas minhas pernas e molhando minhas meias e sapatos, lambrecando o

chão. Camila ficou olhando para mim.


Salmo 199

David José Gonçalves Ramos

Dobraram o número de crianças que sofrem. Que choram. A humanidade ainda não
resolveu o problema das crianças que choram de sofrimento brutal. Elas choram em algum
lugar do mundo, eu sei. Você está pronto, está pronto pra subir as escadarias da Serra de
Nossa Senhora da Piedade? Calma, eu não sou de alma católica. Na verdade não sou
cristão, e nem corro para o Evangelho. Sou apenas parente de um anjo. Os anjos se
reproduzem, você não sabe? Sou primo de um anjo. A leitura obtusa das palavras de Deus
que você tem feito, elas não te esclarecem sobre isso. Você fala com você mesma diante
do espelho? Eu sim. Essa é a tática de Satanás. Sempre, do meu parente. Ele é anjo, você
sabia? É, pois é. Os países que possuem a bomba atômica, eles podem usa-la? Eu
comecei a frequentar aquele templo. Quando você não tiver uma coisa boa para falar, não
pense. Não pense, saia de si nesse momento sem pensamentos. Calma, não me sinto
como alguém maléfico, do mal, partidário do mal. Esqueça o que eu disse sobre ser primo
de um anjo. São as substâncias que eu uso diariamente que me trazem essas reflexões,
não se importe comigo, Senhor. Eu digo o que não penso.

II

Eu faço por esportividade, sem ofender ninguém. Eu simplesmente me aceito. Eu ando


com meu carro pela cidade todos os dias, trabalho para um Aplicativo de Transporte de
Passageiros todas as noites, e de pelo dia sou taxista, e venho contar minha fé a você,
venho orar, Senhor. Deus da vida, Deus do Universo, criador. Força e inteligência dialogal.
São as mesmas regras formais que temos quando estamos aqui, nesse momento do
julgamento que a mente faz de si. Isso é bom para você? Satanás veio até Jesus, veio até
Maomé, veio até Buda, veio até Simone Weil. Veio e falou com eles, e dialogaram, algo até
sinistro, eu penso, não gostaria de ter essa informação, é um diálogo tenso esse com as
forças do mal. Causa arrepios. Fico arrepiado e trêmulo quando penso que essas mentes
profundas tiveram o diálogo com o mal. Eu voltei naquela noite, Senhor da vida, bem tarde
para casa. Entrei, fui até o canto de oração que tenho no meu quarto. Era mais ou menos
02h37min da manhã. Aquela noite graças a Deus eu tinha feito meu trabalho de motorista
de aplicativo de maneira saudável, tirei meu dinheiro e não fui assaltado. Eu fui livrado,
com certeza, o mundo brasileiro esta cheio de bandidos, a cada esquina tem vários, é isso
que caracteriza esse mar de barracões, casas, casebres, sobrados, esse amontoado de
construções nos morros e periferias, o mar de gente que se lança sobre o centro da cidade
para arrancar a história do sofrimento. Vieram cobrar o sofrimento. Mas, preciso me
recordar que estamos em 1974, era o começo dos aplicativos de internet, a gente estava
apenas começando, apenas nas primeiras ondas tecnológicas, Senhor. O estado de
putrefação. O corpo morto. Curioso? Eu também. Mas não posso falar assim com Deus,
me perdoe Senhor, amado criador de tudo e de todas as formas de vida, Deus sistêmico.
São 03h05min agora, uma madrugada sinistra, silenciosa, amargurada, já fui até o portão
de novo, olhei a rua, deserta, tudo fechado. Minha rua devia ter mais árvores, é uma rua
sem árvores, tudo parece feio, as casas, sem jardim, ou plantas, coisas verdes, o ambiente
é tudo muito cor de tijolo, telha de amianto, cercas de bambu, muros muito altos, grades. É
uma imagem seca, desértica, Senhor, mas eu fui lá, noturno, tudo escuro, só as lâmpadas
dos postes, lâmpadas laranja, lugares pouco iluminados, trevas e vento. Venho aqui
Senhor amado, Senhor de tudo, olhos sem pálpebras, existência sem sono, poder sem
descanso, forma matemática! Venho bajulando tua sapiência, mas no fundo estou
arrasado pela vida, pelas lacunas. Por isso vou rezar esse salmo, vou abrir meu livro
religioso, eu que há cinco minutos nem tinha religião, mas não quero isso Senhor, não
quero religião, Senhor. Só quero essa nossa conversa franca de madrugada. Deixa ver o
meu relógio: são 03h23min da madrugada. Número cabalístico. Grilos fazem seu som, o
vento chicoteia o calor.
III

Senhor, eu desligo meu celular pra termos mais intimidade, é só um minuto. Pronto.
Também desligo a televisão pra rezar, já lavei os meus pratos, são 03h45min da manhã, já
fiz meu lanche, minha jantinha, trabalhei o dia todo, já olhei no quintal se está tudo bem. A
vida é aquele jazz com o piando quebrando a nota, entrando na melodia deixando instável
o clima, feito quando queremos desistir. Senhor tu não podes desistir de mim, não é
mesmo? Isso lhe é impossível? Não podes desistir das religiões que te abraçaram
fervorosas e dignas? Não pode. Eu sei que não dá. Um Deus precisa de um culto. Não
existe Deus sem um público fiel de bajuladoras, não é Senhor? Hoje vai ser isso mesmo,
apenas o mundo inteiro completo sem ficção de felicidade.

IV

Escuto tiros lá fora. Parece que estão sendo dados pro lado da esquina com a Rua
Amazonas. Aqui as ruas têm nome de estados brasileiros. Acho que em todas as cidades
do Brasil é assim Senhor, possuem nomes de cidades brasileiras as ruas. Estou perdendo
teu tempo nessa oração desenfreada Senhor, são 04h12min já. O sono não vem. 1974
está sendo um ano duro. Um ano de muitas crises. Eu nem sei se os tiros que estou
escutando são dados pelos militares nos comunistas. Ou nos bandidos, ou os bandidos
dando tiros em si mesmos, ou os bandidos dando tiros em comunistas, ou os comunistas
dando tiros em si mesmos; os comunistas dando tiros na polícia ou a policia dando tiro em
si mesma. São muitas possibilidades senhor. Compreenda meu desastre pessoal, existir
eu fracassei. O que tenho? Um carro, trabalho para um Aplicativo de motorista, e sou
taxista. Tem demanda, ganho por corrida, vou até o fim do mundo dessa cidade. Tenho
medo de morrer, Senhor. Tenho esse medo.

Agora, as 05h02min da manhã eu tenho medo e angustia, sinto que posso morrer a
qualquer minuto, e eu quero orar e estar contigo até o ultimo instante de minha respiração,
pois sem tua presença meu fracasso de existir é completo. Falar contigo faz com que meu
fracasso de existir seja amenizado. Tu és meu aperfeiçoador. Aperfeiçoa-me agora, nessa
manhã, o céu começa a ficar claro, estou com olheiras Senhor, o tempo passa depressa
demais, uma velocidade impressionante, para por favor por um momento o tempo, Senhor,
vamos devagar. Estamos apenas em 1974. Existe muito tempo até o fim dos tempos,
Senhor, escuta-me.

A força criadora do mundo, do universo, a partícula mãe das primeiras partículas, o poder
contido, Deus assistiu o sofrimento humano desde o início. Desde o início, esse
sofrimento. O ser humano sofre, todos os seres humanos sofrem, e compartilham
sofrimento, trocam sofrimentos exprimimos de tudo que sentem, sentam juntos com o
sofrimento. O pior é aquele que promove muito mais sofrimento do que teve. Aquele que
teve sofrimento e promove com as outras pessoas muito mais sofrimento. Os psicopatas
são os Capitalistas do Sofrimento humano mais bem sucedidos. Eles fazem um sofrimento
pessoal se multiplicar. Os vereadores municipais são grandes produtores de sofrimento.
Policiais protegendo a propriedade privada e os interesses exclusivos do Estado são
produtores de grande carga de sofrimento, mães ruins, pais ruins, professores ruins, são
entidades que amplificam o sofrimento, e, Deus conhece cada segundo de sofrimento
humano de todos os seres humanos, dos sete bilhões de seres humanos que existem, e
dos trilhões de seres humanos que já viveram e já morreram, Deus tem memória de cada
um, se lembra de todos os segundos de vida de todos os seres humanos da terra, do
planeta terra. Criar o ser humano implicava em conhecer o que significa sofrimento.
Nenhuma estrela, por mais quente que seja, experimentou sofrimento. O Sol de nosso
sistema solar nunca experimentou um segundo de sofrimento. A Terra não sabe o que é
sofrimento. O ser humano é a fonte do sofrimento, é dele que surge isso, a palavra
“sofrimento” foi criada pelos seres humanos para representar o estado específico do que
seja. Sofremos. Deus não sofre. Mas ele está ao lado do ser humano no sofrimento, ele
participa, ele acolhe ele vê, ele se compadece. Aquele que clama pela força criadora do
universo, no momento de sofrimento gasta apenas um segundo. Olhos nos olhos meu
irmão. Um segundo. Te digo. Vou morrer sem ver tudo nessa vida. Isso é o que é. Imagine.

VI

Há tanto conhecimento, e tantas ideias, e tantos livros, e tantas coisas escritas, por bilhões
de pessoas anônimas, uma quantidade impressionante de seres cognitivos e linguajantes
escritores que escreveram sobre tudo, sobre as palavras. A força criadora não pode perder
o fio que liga o tempo ao início do tempo. Ela não pode ser substituída, imediatamente
substituída por uma palavra. As palavras, eis o motivo, é o que comunicamos
humanamente. Vocês sabem como é a Internet neh? A Internet é o corpo de Deus. São
pessoas que estão de igual para igual atrás de suas máquinas de digitar palavras e telas
com vídeos. Você sabe Senhor. Você sabe o quanto essa ideia do sfrimento era ruim,
Senhor? O sofrimento. Ele aconteceu. É um fenômeno. Um fenômeno natural. Como o
sapo na boca da cobra, miando como uma criança com febre. Vai miando, miando, até ser
completamente engolido. Até depois de engolido se aproximarmos o ouvido do couro da
cobra que acabou de engoli-lo escutamos o som do miado do sapo infeliz, até ele derreter
literalmente no suco gástrico do animal. Jamais eu iria cogitar o ser humano se fosse
Deus. O ser humano não poderia ter criado o ser humano. Nada humano poderia fazer o
ser humano. Mas nada foi feito. Senhor, nada foi feito. Na fila do pão. Na fila do pão um
sujeito deu um tiro na cabeça de uma mulher, o teto da padaria ficou manchado com o
material da cabeça da mulher que explodiu. Uma criança negra, um adolescente de 13
anos com um braço fininho, segurando um revolver calibre 38 enorme, gigante.
Gigantesco. A Força criadora da vida e do cosmo consegue mapear todas as gerações de
pessoas sofredoras e catalizadoras de sofrimento dos ancestrais deste adolescente que
matou a mulher na fila do pão, querendo assaltar, aquelas pessoas, que estavam ali desde
as cinco horas da manhã para pegar o pão mais quentinho, para as netinhas, e as netinhas
vão saber daqui a poucos minutos que a avó teve a massa encefálica usada como
decoração do teto da padaria, o tanto que o tiro veio debaixo pra cima. Não vai ter café da
manhã naquela mesa, Senhor, talvez nunca mais haja. Eu não acho que seja agradável
para tu ver tudo isso. São 06h30min da manhã, eu cheguei ao portão, estava sem sono
completamente, e veio um velho correndo da rua debaixo. Ele passou correndo e eu
perguntei o que tinha acontecido, o velho estava chorando, ele disse, que bandidos tinham
matado uma mulher na padaria a poucos segundo, e saiu chorando, correndo, ridículo
aquele velho correndo, trôpego, como um fantasma. Quem matou quem Senhor? Eu fui até
a esquina de cueca mesmo, até deixei o portão de casa destrancado. Já tinha uma
multidão ao redor do corpo. O Senhor estava lá, Deus, estava lá comigo. Tu és o cogito
para quem eu pergunto. Tu és meu robô de aventuras, meu companheiro mudo, meu
amigo, meu amado, minha razão secreta de existência e de combate, Senhor. Não precisa
mais rascunho. Me perdoe as blasfêmias. Eu não sei os limites. Eu sei? Sei os limites?
Das palavras? Até onde elas podem ? O que mais elas podem ser? Vai concordar comigo
Senhor? Muito arrogante para um mero habitante do planeta terra? Me desculpe. Sempre
isso.

VII

Eu estava acima do limite. Pensamentos diários. Têm um limite. Queda de árvores tem um
limite. E eu ultrapassei. Eu fiquei perdido. Eu parei o taxi logo depois da segunda ponte.
Estacionei e fechei o taxi direitinho logo no acostamento embaixo da ponte, imagina você,
fechei o taxi, o deixei ali, sozinho. Debaixo de um viaduto, e tudo por qual razão? Comprar
Crack. Eu usava de vez em quando. Eram 08h34min da manhã, a rodovia lotada, e o
demônio interior me dominou. Desci do carro, atravessei um matagal que ficava nas costas
da comunidade, caminhei pela favela, vários becos, vários, cheguei na boca, todo mundo
armado, todo mundo mal educado, todo mundo truculento, todo mudo falando palavrão
para caráleo, todo mundo cheio de tatuagem, todo mundo sem camisa e todo mundo com
um fuzil na mão, e comprei três pedras de crack. Estava aumentando agora essa minha
vontade, curioso. Eram duas pedras por dia antes. 10 reais cada pedrinha. Cada pedrinha
tem material para dois cigarros. Eram duas pedrinhas, dava para quatro cigarrinhos
minúsculos. Hoje eu comprei três pedrinhas, Senhor, deu 30 reais e vai me gerar seis
cigarrinhos. Voltei humilhado da boca, pelos mesmos becos, a população me olhando com
raiva e triste, pois eu, o usuário, sou a razão da imensa violência 24 horas que todos os
moradores sofrem por causa da instalação da boca de fumo ali. Instalada bem ali! Bem na
fuça de todos. Ali, e é o dia inteiro de pessoas entrando pelos becos pra comprar drogas.
Entram como se fosse a casa deles, entram pra comprar essa porcaria. Foi o que uma
velha me gritou. Na minha cara, eu ia saindo da boca de fumo e a velha me gritou. Eram
08h49min, e eu estava pensando no corpo morto da mulher de manhã na padaria, fiquei
pensando, e olhando a velha me xingando, de viciado, de nóia, e eu sai da favela,
atravessei o pequeno matagal e cheguei ao taxi. Estava lá ainda meu carro. Eu olhei e vi
dois camaradas olhando para o taxi. Então corri, abri a porta, entrei liguei e arrancei rápido,
muito rápido, quase que provoco uma batida. Parei no posto de gasolina 10 kms a frente,
enrolei os cigarros de droga, os seis, fininhos, pus no bolso. Era terrível aquilo. Era minha
ruína, eu sabia. Aquilo iria aumentar. Não seriam mais 30 reais por dia. E era todo santo
dia, todos os dias eu parava o carro ali debaixo da segunda ponte, corria o matagal,
entrava nos becos. Todo dia Senhor, dias de sol e dias de chuva. De domingo a domingo.
Deixava o carro ali na segunda ponte. De dia eu trabalhava de taxi, de noite de motorista
de aplicativo. Todo dia eu deixava meu carro ali. O único bem que eu tenho. Moro de
aluguel, mas o carro é meu.

10h00min da manhã eu já estava no ponto de taxi da pracinha da Abadia, de óculos


escuros pois meus olhos estavam em postas, completamente drogado, fazendo orações
desconexas Senhor. Tu escutaste tudo aquilo, o que eu dizia dentro de minha cabeça
rezando. Era um dia sem freguês. Não tive passageiro até às 12h38min. Eu estava com a
lombeira da droga quando uma mulher jovem chegou e pediu uma corrida.

Eu praticamente estava trabalhando para pagar meu vício, desde agosto era todo dia,
Senhor, e eu não percebia isso. 13h07min deixei a jovem no bairro Santo Agostinho. A
corrida com a jovem deu taxímetro de 29 reais, fiz por vinte. Também acho caro. É a
necessidade, Senhor. 1974 está sendo um ano muito duro Senhor. Os Generais que estão
no poder na presidência do Brasil, estão destruindo a economia brasileira pela
incapacidade de compreender matemática. Pura e simples matemática, Senhor.

VIII

Senhor, meu amado, conhecedor de minhas entranhas, me reabilite, tire de mim os


desejos de ruina, a amplificação do sofrimento, reverberando, me inclinando, me lançando,
me exigindo, me falando continuamente, e de novo, e de novo, o sonho sobre a vida nova.
Era uma nova vida. São 16h56min desta tarde, nesse mesmo dia em que presencio um
homicídio pela manhã, exatamente pela tarde pego uma passageira com o marido, uma
mulher grávida entra em meu carro e sigo com ela para o Hospital Mater Dei. Um percurso
problemático, pelo trânsito de Belo Horizonte em 1974 ser tão caótico quanto o de
qualquer grande metrópole brasileira da década de 1970 em pleno crescimento. Dizem que
em 1974 em Belo Horizonte são construídas 200 casas a cada hora. Sem contar os
edifícios. Conte comigo Senhor, mesmo que tu já estejas presente com a resposta: 200
casas por hora são duas mil casas a cada 10 horas, quase cinco mil casas por dia.

Nem chegamos ao hospital e a mulher sujava os bancos do carro com um fluxo de líquidos
que saia de seu corpo grávido, o marido estava ao lado dela, ela gritava de cólica e de dor,
era o sofrimento que estava diante da Força criadora de tudo que existe, e o marido pedia
desculpas pelo sangue e placenta no banco, e eu pedia tranquilidade, dirigi atencioso e
veloz, chegamos ao Hospital e na porta já vieram os médicos, enfermeiras e a equipe. O
parto começou no banco do meu carro, e isso era um ensino teu Senhor, eu seu, isso era
um ensino, eu não estava tão drogado assim para entender e me comover, eu chorei, a
mulher deitou no banco do carro abriu as pernas e eles trabalharam ali, era urgente, e
tinha sangue, e eu chorei parado a uma distância vendo aquilo. Era algo, era um código,
era um enigma, tinha que ser, tinha que fazer sentido, não tinha condições! Morte e vida
assim, na minha cara, explícitas, veiculares, transitantes. 1974 muito loko fi. Era isso que
tinha que entender. Levei o carro até um local, um posto de gasolina, e enquanto limpavam
o carro, eu fui até um lote vago. De manhã vejo o corpo de uma mulher caído na padaria
do bairro com a cabeça aberta, e de tarde uma criança vem ao mundo no banco traseiro
do meu carro. Era um enigma.

IX

Em 1974 Belo Horizonte tem muito lote vago, os bairros novos, tudo crescendo o tempo
todo, comércio abrindo, as coisas acontecendo. Fui até um lote vago e fumei o último
cigarrinho. Eu detesto comunistas. Eles não me importam, não tenho medo de comunistas
Senhor. Na verdade eu não sei o que são os comunistas, em 1974 a gente ainda tem
pouca informação sobre isso. Sinto que é algo ruim. Eu apenas rezo. Se vierem, que seja.
Só que eu estava com vontade de chorar. Eu estava com pena, eu estava com medo, eu
estava cracudo, eu sei, eu estava implorando teu perdão, tua ajuda, eu estava pensando
tanto nisso, te implorando tanto por momentos felizes, para ter uma família, para ter um
lugar pra mim, ter estabilidade, sair da droga, ter filhos, ter um lugar, começar 1975 bem,
de bem com a vida, com coragem, com paz.

Eu queria tanto isso, Senhor. Eu estava chorando por dentro naquele momento, tentando
entender a lição da vida e da morte naquele dia. O céu escureceu, deu 18h40min, eles
terminaram de limpar o carro, eu paguei, agradeci, e segui para casa, arrasado por dentro.
Era uma lição explicita que tu me dava, e eu não consegui entender direito Senhor, quase
nada.
XI

Senhor você usaria a palavra “Esperto” para se referir a mim? Usaria essa palavra para
falar de minhas qualidades pessoais? Eu também não. Não creio nisso. Voltei para casa,
desisti de trabalhar com o aplicativo de transporte naquela noite, eu só queria entender tua
mensagem, eu queria filtrar dela, já que tinha sido tão explicita, tudo que fosse possível ao
meu entendimento. Eu queria aprender, Senhor, aprender de ti. A noite estava tão quente,
uma noite tropical, era uma noite quente demais naquele momento eu abri as janelas,
eram 22h12min, eu estava cansado, eu pensei em suicídio. Estava tenso, desesperado,
sentindo vontade de usar drogas de novo. Mas as drogas tinham acabado. Eu estava
quase indo na segunda ponte de novo para comprar mais 30 reais de crack. Eu tinha
lucrado 280 reais hoje no taxi. Nas corridas. Pagando a gasolina, e as contas, sobrava
alguma coisa, já tinha comprado 30 reais de droga pela manhã, e estava quase saindo
para comprar mais, estava praticamente saindo para comprar mais trinta reais. Seria 60
reais em tóxicos no dia de hoje, só no dia de hoje, Senhor. Era isso. Um desespero e
ruína. Tomei um banho. Tentei esquecer a dor e o sofrimento da vontade. Era 23h15min.

XII

Liguei a televisão, era uma televisão preto e branco com 18 polegadas. Era meu xodó,
minha companheira. Ligo a TV e encontro suavidade. Gosto também do celular, uso muito,
mas a TV é companheirona. Gosto das propagandas, Senhor. É um mundo de sorrisos e
felicidade, isso é bom. Eu estava sozinho em casa.

1974, um ano que eu planejei minha vida com liberdade, meu trabalho, meu cantinho, mas
está sendo um ano de sofrimento, Senhor. Há uma certa dificuldade para me relacionar,
Senhor, como tu bem sabes. Eu vivo inconscientemente. Mas tu és minha família. Somos
parceiros em minha história de vida, tu és minha luz e fortaleza, e eu sou a parte da carne,
dos erros, do sofrimento. Formamos uma dupla imbatível, Senhor. Eu te amo.
Salmo 200

David José G. Ramos

O desespero é o estado emocional humano dos mais intensos. Não existem pequenos
desesperos, existe o desespero que abarca pequenas coisas. O desespero é tão intenso
quando a paixão, ele comove todo o corpo, uma pessoa em desespero, desesperada
atinge os níveis altos de produção de neurotransmissores, a intensa economia de
moléculas vivas pelas paredes das células, química em grande excesso, e esses
hormônios permanecem circulando pelo corpo inteiro. Bombeados pelo coração
desesperado para todas as partes do corpo, provocando distúrbios generalizados por onde
passam. O Desespero é um estado lastimável de irracionalidade, joga o ser humano, a
mente humana, para um vácuo de lógica, o corpo opera dentro do estado de pânico como
se estivesse em uma contagem regressiva da sobrevivência. O suicídio é um ato de
pessoas desesperadas. O desespero remete imediatamente à preservação de uma
personagem interna. Talvez no meio dessa irracionalidade absoluta que é o desespero, a
oração seja uma forma rudimentar de sensatez que brota linguisticamente, mostrando
como as raízes das religiões humanas estão relacionadas ao luto, à dor e à morte.

O desespero pode encarnar essas referências, essas simbologias, mas ele biologicamente
nada tem haver com a mitologia da morte ou da doença; o desespero é um estado de
angustia expandida. O desespero é uma inclinação do organismo vivo e deveria haver uma
matéria sobre isso na escola.
II

A mãe começou a falar de como é viver ser a filha de 12 anos. Como foi para a senhora
ver a forma como foi encontrado o corpo sem vida de sua filha de 12 anos? --- perguntou a
jornalista. Segurou o microfone diante do rosto da mãe. A mulher olhou para o microfone,
sentia o efeito da medicação pesada, chegou a enfermeira, estavam no quarto de hospital.
O corredor da ala onde a mulher se recuperava estava com muitas pessoas doentes. Uma
pessoa gritava no corredor que tinham dado um remédio errado para a mãe dela e que a
mãe estava morrendo, estava tendo um ataque, outra pessoa gritava que o médico não
tinha chegado ainda. Mas isso tudo era muito diferente do que aquela mulher estava
passando --- Foi uma morte suspeita, é a nossa palavra contra a deles. Queremos justiça -
-- respondeu a mulher. A repórter segurava o microfone, esperando mais palavras. E elas
não vieram.

A mulher ficou em silêncio, olhando para a câmera, um cinegrafista estava agachado


próximo à cama. A repórter insistiu em manter o microfone próximo ao rosto da mãe que
perdeu sua filhinha de 12 anos nas mãos de um monstro. A Repórter ficou esperando. A
mulher percebeu que aquela jornalista estava querendo ser uma repórter famosa,
arrancando a manchete do dia. Mas não havia nada para dizer. Nada. Deus existia? ---
pensou a mulher. Era uma coisa bárbara que tinha acontecido. Esses Pedófilos
predadores canalhas! Mas de repente, dentro daqueles minutos em que o microfone ficou
diante do seu rosto, e vendo que a repórter não desistiria de mais algumas palavras, a
mulher respirou fundo e continuou: --- encontraram a bermuda dela suja de sangue dentro
da cabine do caminhão dele. Eu saio cedo para trabalhar, a menina cuidava dos
irmãozinhos menores --- disse a mulher. Nem tinha acabado de dizer isso e a repórter
puxou o microfone para a própria boca, interrompendo subitamente a mulher e falou: --- um
caminhoneiro de 41 anos passou na residência dessa família, bateu na porta, a menina
atendeu, ele conversou com a menina, prometeu dinheiro, levou a menina para o
caminhão, a menina trancou a casa e deixou os irmãozinhos sozinhos. Tudo indica que
esse foi o assassino. O homem que abusou e sequestrou a menina tinha vindo do Sul,
fugindo para Sergipe, em uma viagem de mais de 900 kms.

A mãe chegou do trabalho pela noite, à casa toda escura, tudo em silêncio, as crianças
chorando lá dentro, e quando entrou não encontrou a menina. --- A senhora teve alguma
reação negativa quando entrou e encontrou apenas as duas crianças menores sozinhas
em casa? --- perguntou a Repórter, colocando mais uma vez o microfone próximo ao rosto
da mulher, que estava amarrada à cama, tamanho o desespero que estava passando,
tinha tido um ataque histérico quando constatou que a filha fora raptada. Quando
encontraram o corpinho morto da menina, perto da ponte, foi uma dor imensa. Dor de
todos nós. Sedada e amarrada naquela cama de hospital, aceitou falar com Repórteres da
Capital. Mas depois a mulher ficou em silêncio olhando para o microfone.

O cinegrafista tinha que ser ninja, mudando o foco, operando a máquina, agachado,
apontando a câmera para quem estivesse com o microfone próximo ao rosto falando,
filmava o coadjuvante do microfone sempre, era de onde vinha a palavra, o som da voz, e
ele era um cara super-experiente nisso. A reportagem do caso chegou ao jornal às 23hs de
hoje, 12 de dezembro de 1975, o natal está se aproximando, as comprar para o natal
mobilizam a população do Brasil, e há pessoas que compram e vendem crianças,
criminosos espalhados e escondidos, em todos os cantos! No Brasil inteiro! Um mundo dos
horrores, e Deus sabe que existe isso entre os seres humanos. Locais de dor e desespero,
desespero contínuo, constante, diário, interminável, crianças submetidas ao mal puro e
cristalino de uma vida de agressões, de todos os lados, agressões, gritos, e mais
agressões. A religião do desespero. Existe em pleno 1975.

III

A religião surgiu com os homens das cavernas para superarem o desespero que é existir
entre as feras significativas. Todos os dias eram ameaçados por predadores como onças,
panteras, cobras, jacarés, aranhas, formigas, insetos de todos os tipos, peixes, aves,
naquele tempo o ser humano era alimento para muitos grupos animais. Furiosamente eles
atacavam. Viver entre feras, entre monstros territorialistas, cheios de garras, dentes,
unhas, monstruosas faces, olhos de assassinos, animais predadores, grandes, astutos,
implacáveis, com fome interminável. Era muita criança que morria comida, na boca de
bicho do mato, na ponta de picadas e mordidas fatais. Chegou um momento em que os
predadores eram tão determinantes na vida da sociedade humana que o homem e a
mulher inventaram a religião, caíram de joelhos na terra e falaram com o ar, com o vento,
gritaram por ajuda. Disseram que se comportariam. Criaram altares, imagens, orações,
apelos, magias, atitudes místicas, e os predadores naturais se afastaram
momentaneamente: os deuses da morte ficaram mudos, com os dentes fechados dentro
da cara. Quem nasceu em 1975 vai chegar aos anos 2000 na flor da idade, bem jovem, se
Deus quiser, se os Deuses quiserem, é preciso ter esperança, esperança é uma emoção
tão complexa.

IV

Façam musicas para Deus, sem falar diretamente de Deus. Não se esqueçam dos códigos
para que os inimigos da fé não percebam, e para que os amigos da fé não fiquem loucos.
Cuidado com isso, sim? O Ministério dos Direitos Humanos devia fazer musicas, distribuir
gratuitamente aparelhos de som, DVDs, dar instrumentos musicais, distribuir condições
para as pessoas fazerem músicas. Era isso. Mas, poucas pessoas acharam essa tese
interessante, e o projeto se esvaziou, ficou obscuro, muitos achavam que estava sinistro,
que havia algo demoníaco nisso, e então o assunto ficou proibido. Como os piores seres
humanos conseguem chegar ao governo? Como conseguem o governo? Por que são
eleitos? Quem faz a reunião de uma pessoa ruim com outra pessoa pior? Não pode ser
você! Não faça isso! Façam músicas, façam músicas! Não conseguiremos respostas. Não
há resposta para o mal, para o final terminal, por que pessoas boas adoecem? Os
melhores morrem primeiro, isso era um ditado em 1975. Nós éramos muito cristãos, e o
chefe de nossa seita cristã tinha toda paciência conosco, quando ficávamos devendo
dinheiro à igreja, quando deixávamos de pagar mensalmente nossa contribuição o chefe
anotava tudo cuidadosamente, cuidadosamente mesmo, e era muito educado conosco
sobre nossas dívidas.

A primeira pandemia de Sarampo de 1975 começou em março. Meu Deus. Que resultado
negativo. O governo decretou toque de recolher e isolamento social. Oh meu Deus. A
população não ficou imunizada, o povo não acredita em vacina. Não quero incomodar ---
disse a empregada. Limpou a cozinha, fez faxina na casa inteira. O padre Anselmo, com
83 anos de idade não conseguia fazer muitas coisas. E a Paróquia pagava uma vez por
semana. Anselmo era padre desde os 19 anos de idade. Trabalhou na igreja a vida toda,
um bom funcionário. Ainda celebrava missas, sete horas da manhã e sete horas da noite,
aos sábados e domingos. Faça músicas para Deus, cante para ele, ele ama a música
humana, Deus esperou bilhões de anos a vida amadurecer na terra até chegar o ser
humano com a música pop. O rock, a ópera, a música de Capoeira, a música clássica, os
instrumentos de sopro da China, dos Gregos, dos Tupinambás --- o padre Anselmo disse.
Ensinava assim em suas missas, Anselmo era um sábio --- celebrar mais um natal?
Poderia ser o último --- pensou o padre. Marcou no calendário, um xis sobre a data de
hoje, eis, o tempo se abre como uma flor, depois acaba. Começa e depois acaba. Não há
mistério nisso. Começa, tem toda aquela coisa do começo, a novidade, a inexperiência, a
originalidade, e, depois, acaba. Acaba feio, acaba bonito, acaba sangrento, acaba seco,
mas acaba --- disse o Padre Anselmo, naquela manhã, os raios solares, a Estação da Luz
lotada, o surto de sarampo comendo no lombo, era apenas o final do ano de novo, e as
pessoas estavam lá porque precisavam. Pequenos trabalhos, somado, milhões de braços.
Braços e aglomerações. Vocês seguem líderes bons? Não. Não seguem lideres bons ---
disse o padre.

Franzino, Anselmo se levantou da cadeira, o povo já estava meio cansado daquela missa
longa, tão longa, aquele serviço religioso, missa longa demais, porém Anselmo sentia que
era seu último natal, e resolveu caprichar no sermão, estudou a semana toda para a missa
de sábado, e queria apresentar seus conhecimentos, seu ensinamento, a igreja tinha
pouca gente --- vocês acham justo que sigamos o profeta Jesus Cristo e ao mesmo tempo
façamos tudo que ele nos proibiu de fazer? Vocês não tem medo? Não se preocupam com
a destruição de nossa sociedade? O tempo passará, nós morreremos, e o Brasil será
sempre isso que estamos vivendo agora? Esse lugar desmatado, desambientado? --- o
padre Anselmo gesticulava, bravo, ficou bravo pensando naquelas imensas árvores
centenárias sendo cortadas com as velozes motosserras de homens pequeninos e
arrogantes --- vamos perder nosso tempo fazendo músicas para Deus, simplesmente isso!
--- ele gritou. Exigia isso, exigia! Como não?

VI

O desespero começa com a alta pressão que o coração impõe ao sangue circulando pelo
corpo, nesse momento o coração já está alterado com as primeiras porcentagens da
serotonina do pânico, alucinações cerebrais, imagens inexistentes, a sensação de
desamparo, sensação de falta, sensação de lacunas. Além disso, uma vergonha, uma
vergonha gigantesca de ter fracassado na vida: todos estão bem, todos estão felizes,
menos você. Nada é justo no mundo em desespero, não nos vemos mais como seres
humanos quando estamos no desespero. São alterações cerebrais incríveis na produção
de indicadores químicos da morte, da sensação da morte, a química da morte que o
cérebro se presta a realizar, e realiza durante o desespero. A pessoa fica desesperada. E
no desespero se agacha e busca a posição fetal. E na posição fetal se desespera
profundamente. E ali, naquela posição, naquele jeito, a pessoa reinventa a religião,
reinventa a fé. Mas ela sabe que não adiantará. Você sabe que não adiantará --- diz o
padre Anselmo. --- todos os dias, você acredita em Deus, e você não está desesperado.
Você está bem, há coisas para agradecer. A Democracia. Agradecer a Democracia.
Agradecer pelo fato de viver em um país democrático. Agradeça isso. Agradeça que você
não está com Sarampo! Agradeça a Deus pela Democracia. Você não está transmitindo
Sarampo deliberadamente para seu semelhante por prazer de ver pessoas infectadas,
não. Você usa máscaras como todo mundo precisa usar em público! Eu estou adivinhando
o que vai acontecer em 2020, 2021, 2022, ou depois disso? Estou irmã? Estou irmão? ---
perguntou Anselmo olhando para o pequeno público que o escutava naquela manhã.
Todos ficaram em silêncio.

Quando era noite, o padre Anselmo se recolhia. Fechava a casa paroquial, fechava a
igreja, conferia, ia até a porta da igreja, conferia. Mas de 60 anos era seu cotidiano. Já
tinha tido assalto, mas tudo parecia seguro hoje em dia. E depois de tudo voltava para o
seu quarto, sempre sozinho aquele padre, a lua estava cheia e tão linda, era tarde da noite
já. O padre se deitou, apagou a luz. Fechou os olhos e se entregou às deliciosas
conversas mentais que tinha com Deus.

Todas as noites dormia conversando com Deus, mentalizando um bom diálogo com a força
criadora de todas as coisas. Para ele esse diálogo com a energia ilimitada da manipulação
instantânea da potência atômica era bom.

Parte do poder de Deus estava escondida nos átomos, na ligação entre os átomos.
Criando os átomos, quando surgiram os átomos o universo automaticamente se montou,
com forças de bilhões de anos, ou talvez muito mais tempo. O certo é que o ser humano
não podia medir com a matemática humana, ou a física feita por seres humanos, tudo isso
ficava difícil de ser medido, mensurado. Lá fora, no quintal, a lua cheia deixava o pátio
azulado, clarinho, a luz da lua cheia fazia sombras no chão, era lindo respirar. O padre
Anselmo custou a dormir, e não dormia, sem sono, na delirante maravilhosa oração, nos
diálogos profundos e divinas conversas que ele tinha com Deus, ou, ao menos pensando
em Deus, e imaginando que Deus estava ao menos o escutando atentamente, o padre se
assentou na cama. Tudo estava silencioso, lá fora os grilos cantavam, pela janela via a lua,
aquele espetáculo, o jardim iluminado, no fundo o portão, e diante dele a igreja, grande
templo, belo, razoavelmente histórico. Quantas décadas e séculos? Os homens são
transitórios demais, amado Deus --- pensou o padre Anselmo.

VII

--- Não queríamos estar aqui, Senhor. Nós fugimos continuamente desse momento,
fugimos dele todos os dias de nossas vidas, cada segundo respirando e vivo é um
segundo de fuga. Mas esse momento chegará, Senhor. Ele vem, como a luz radiante de
um farol de carro em alta velocidade na rodovia durante uma neblina. Ele vem, todos aqui
receberão sua visita, menos os robôs. Os robôs não precisam temer esse momento, eles
já estão dentro do momento de não existir. Esse momento vem a todos os seres vivos, ele
está lentamente espreitando, até que chega --- disse o padre Anselmo. As últimas 24 horas
foram dramáticas, o padre enxuga o suor da testa com a batina, está ansioso,
desesperado, angustiado. Tudo começou logo pela manhã, quando se suicidou no hospital
da cidade a mãe da criança de 12 anos encontrada morta assassinada pelo caminhoneiro.
Imagine você Senhor Deus, nossa cidade é pequena, poucos mil habitantes, e acontece
uma tragédia dessas: um feminicídio e um suicídio. Toda qualidade de vida que
propagandeamos passa a ser mentira quando esse estrondo da violência humana aflora
como no dia de hoje --- disse Anselmo. Estava na capela do cemitério da cidade, diante
dele estava o caixão da mãe, e o caixão da filha. Várias horas depois de encontrarem o
corpo da criança, a mãe se suicidou. O caminhoneiro está foragido. A placa do caminhão
era de Santa Catarina, ou seja, do outro lado do Brasil, a polícia estava na cola dele. A
mãe entrou em desespero, e cancelou sua própria vida. E infelizmente estamos aqui,
Senhor. Vidas ceifadas. Não vou passar pano para criminoso. Ele merece o rigor da lei.
Merece. Não me digam que ele não merece. Eu não posso perdoar, ou, não interessa se
eu não perdoar, Deus é quem pode perdoar. Mas o que é Perdoar? Quem deve decidir
isso é a família dessa mãe e dessa filha --- disse o padre Anselmo se aproximando do
caixão da mãe. Ao seu lado o caixãozinho branco da menina, menor, uma miniatura do
caixão da mãe. Os dois ali, lado a lado.
VIII

--- Quando alguém diz "não vou fazer disso um circo", é por que essa pessoa está
pretendendo fazer exatamente isso, fazer um circo? Senhor meu Deus não podes me
acusar de ser cínico, pois meu coração está aqui aberto. Praticamente toda a população
de nossa humilde cidade está presente aqui nesse lugar dos mortos, na cidade dos
mortos, Senhor. --- disse mansamente o padre Anselmo, em tom de aconselhamento. Nos
dê tua piedade, tenha piedade de nós. Esses fatos, essa Pedofilia, esse Assassinato, esse
Suicídio, começarem a brotar em nossa terra, são as sementes do mal que estão
chegando! Nossa terra equatorial abençoada por Deus; será nosso fim. Irmãos e irmãs,
esses dois caixões aqui são um sinal de que nosso fim está diante de nós.

Nossa cidade está ameaçada pelo maligno! --- gritou o padre dentro da capelinha do
cemitério onde rezava a missa de corpo presente da mãe e da filha, estava cheia de gente,
onde se começava a respirar o cheiro dos corpos mortos das duas mulheres. O cheiro de
flores, as coroas de flores que vários estabelecimentos comerciais de nosso vilarejo
enviaram, tudo ali amontoado, estava difícil de respirar, todos olhavam a cerimônia, era
como se a religião estivesse sendo inventada ali, como se Deus estivesse sendo inventado
ali, todos curiosos, alguns orando para que a mãe e a filha ressuscitassem agora mesmo e
mostrassem que aquilo tinha sido apenas um sonho ruim. Semana passada mesmo
estavam todos felizes planejando a ceia de natal, escolhendo as roupas para a missa de
natal, para o culto de natal, todos com o espírito cristão, lembrando o nascimento de
Jesus. Mas hoje estamos diante da tragédia! Como uma mulher se suicida dentro de um
Hospital, gente? Me explica como! --- berrou o padre Anselmo. No momento dessa
pergunta-grito Anselmo teve a clara intenção de mexer com as pessoas. Vereadores
estavam ali, Empresários, Políticos da região, o Tenente da guarnição da PM, estava todo
mundo ali, e o padre Anselmo queria retomar sua importância, e evocou dentro de seus 83
anos de existência todo seu potencial semântico e performático para dizer a verdade a
todos ali diante daqueles dois caixões: --- o Pecado! Esse câncer da alma!

--- que paradoxo não é mesmo? Na missa de ontem a igreja vazia, na missa de hoje a
capelinha do cemitério lotada. Porque será que estamos vivendo esse paradoxo? É por
isso que o mal vem e penetra! É por isso! Senhor tenha piedade de nós. Enterramos agora
mãe e filha! O caixão da mãe e o caixão da filha estão diante de ti, diante de nós, diante
das autoridades públicas de nossa cidade, autoridades federais também. A violência
sexual contra as crianças está com índices altíssimos no Brasil, Senhor Deus! Tudo isso
vem de uma vez só, nosso povo brasileiro está no nível mais baixo de vergonha, de
imoralidade, de lixo pornográfico, das drogas! Das drogas Senhor! --- padre Anselmo finge
um choro, uma emoção, mas percebe logo que não comove, é um truque batido. Enfim,
pra quê trapacear? Foi indo até que ele cansou de pregar e colocou fim à cerimônia do
velório, a tarde já caía, era bom enterrar antes da noite chegar, e então fizeram um cortejo,
e seguiram para as covas. Repórteres estavam tomando café no bar do lado de fora do
cemitério, voltaram correndo para o cemitério quando viram o povo tirando os dois caixões
da capelinha, aquele mar de gente, vieram alguns veículos de imprensa da Capital cobrir o
evento trágico dessa pequena cidade do interior do Brasil. Seguiram cantando hinos
religiosos, caminhando bem devagar, um sacristão tocava um sino, um coroinha ia à frente
segurando uma cruz, e o padre Anselmo velhinho coitado, nanico, pequenino, caminhando
do lado dos caixões, cumprimentando as pessoas como se os mortos fossem seus. Logo
atrás vinha a família arrasada, destruída, as irmãs, os primos, os cunhados, as avós, as
tias, os padrinhos, as filhas, as netas, as sobrinhas, todos arrasados. Pedofilia, Feminicídio
e Suicídio eram escândalos brutais quando surgiam juntos no mesmo fato social. Era o mal
chegando como o padre Anselmo falou --- disseram entre si as pessoas seguindo o cortejo
fúnebre, com todo pavor e temor e terror. --- Senhor livre-nos do medo da morte! --- Gritou
de repente o padre Anselmo, gritou alto, bem alto, estufou a veia do pescoço velho dele,
um grito agudo, até assustou um pouco, pô, todo mundo calado e o padre dá um grito
desses dentro do cemitério, pô, sacanagem, pô, veio do nada o grito, todo mundo
caminhando calado compenetrado, pô. E o povo continuou caminhando em silêncio atrás
dos dois caixões que seguiam caminho para a cova no alto da colina. Deus é fiel, brother,
calma viu. Põe a mão na cintura e requebra pra fazer pose, viu.

IX

--- Vamos agora entregar para a terra o corpo de nossa amada irmã, e de sua filhinha.
Que dor, meus amigos. Que dor. Parece que estamos vivendo a Paixão de Cristo na
Semana Santa, minha gente --- padre Anselmo estava visivelmente emocionado. Que
coisa dolorosa. Não era todo mundo que conseguia ver o caixão descer. Antes dos
coveiros colocarem no fundo da cova o caixão da mãe e da filha o povo já veio saindo,
vindo embora, a tarde caía pra dentro da noite. Fizeram um amontoado ao redor das covas
o punhado que ficou. Mãe e filha seriam enterradas na mesma tumba, primeiro desceria o
caixão da mãe, e depois o caixão da menina. Dia terrível, mas poderia ficar pior. O padre
Anselmo resolveu falar mais um pouco na beira da cova. Ninguém quis contrariar, pois era
o padre era sujeito mais antigo da cidade, ou um dos mais antigos, e ficaram calados para
escutar mais um sermão.

A noite começou a cair, os coveiros reclamaram um pouco daquela demora e reclamaram


da falação do padre, se afastaram para tomar um café e comer um biscoito, saíram de
perto. O povo ao redor da cova, olhando para dentro do buraco, os dois caixões já prontos
para serem colocados no abismo mais fundo do corpo humano, uma cova, uma morada
eterna, e o padre danou a falar de novo, o assunto não tinha tido sua essência terminada.
Tudo tinha sido tão rápido. Senhor, tenha piedade de nós, por favor Senhor, escuta nossas
vozes, aqui nesse fim de mundo do planeta terra! --- disse o padre Anselmo aos prantos
erguendo as mãos para o céu, e vendo a lua, já toda amarelada, e as estrelas pipocando
no céu que ainda estava azul, mas escurecia.

Foi quando uma ventania muito forte desceu no cemitério, de repente ventou com força
mesmo, aquele vento, as pessoas foram se afastando, o padre Anselmo tampou o rosto
com a manga da batina por causa da nuvem de poeira, teve que se assentar no chão, foi
uma ventania muito forte e muito súbita, as árvores do cemitério se sacodiam, o céu estava
sem nuvens, não podia ser um temporal, veio aquele vento, levantando saias, bagunçando
cabeleiras, levando papeis e folhas de papel miúdas para sempre no ar aberto, ventou e
ventou, um bando de pessoas saiu às pressas do cemitério, os coveiros estavam lá na
casinha de obra que fica lá na entrada, lá embaixo, tomando pinga e jogando carteado, e
ficou um punhado de gente perto dos dois caixões, o sacristão, o coroinha, o padre
Anselmo, e meia dúzia de parentes mais próximos da família da mulher. O resto do povo
foi embora. Veio ventando e ventando, e de repente o vento parou. Parou tudo. Aquela
poeira levantada, poeira de cova de defunto --- deus me livre --- disse o coroinha. Quando
a poeira abaixou totalmente, o vento parou, as pessoas viram que tinha um homem parado
perto e do lado dos caixões, pertinho dos dois caixões, de pé, parado. O homem estava
todo de branco, roupa branca, terno, gravata vermelha, terno branco, calça do terno
branca, sapato branco, chapéu branco, o chapéu tampava o rosto do homem, só se podia
ver o queixo. Nas mãos, nos dedos, anéis, sua pele era escura, sua presença era
sepulcral! --- volta ao inferno Satanás, em nome de Jesus! --- gritou o padre Anselmo.
Mas quando a poeira abaixou, estavam ali, anoitecendo, sozinhos no cemitério, e veio
aquela ameaça demoníaca Senhor Deus de todas as coisas! --- não sou Satanás ---
respondeu o homem sem se mexer. Sua voz era como uma Psicofonia, uma voz como
uma pedra --- Meu nome é Zé Pelintra. Eu sou uma entidade espiritual brasileira, uma
entidade espiritual tropical, venho dessas forças de vida e de morte aqui dessas terras
milhões de anos já, não estou aqui pelo mal --- disse o homem, que permanecia quieto na
mesma posição, de pé diante dos dois caixões deixados no solo, do lado o buraco da cova
--- vai para o inferno Satanás! --- insistia o padre Anselmo, patético, aquele velho caído no
chão, a batina tudo suja, todo sujo, sentado no chão, o coroinha e o sacristão atrás dele, e
as pessoas que ainda esperaram ao lado do padre quando escutaram a voz de morto do
Zé Pelintra fugiram correndo pulando pelos túmulos e árvores do cemitério até
desaparecer. Desespero era a palavra.

A entidade permanecia lá parada, mesmo contra todos os sentidos humanos --- isso é
impossível, você é impossível de existir --- disse o padre Anselmo --- Seu maconheiro! Seu
monstro! Besta infernal! --- gritava o padre Anselmo para o Zé Pelintra. O homem vestido
todo de branco ficou calado, ergueu a mão direita no ar e fechou a mão com força. A voz
do padre Anselmo sumiu da boca imediatamente na hora desse gesto! --- você me escute -
-- disse Zé Pelintra. O homem vestido de branco tinha uma presença intimidadora, era
impossível ver seu rosto tampado com aquele chapéu branco de seda. --- nada disso é
real, nada é real, são projeções mentais sempre, não existe realidade, é um
acomodamento do funcionamento do seu cérebro de animal racional --- disse Zé Pelintra --
- olhe você ai no chão, velho, com medo, com a sensação de ter uma rola na garganta.
Mas eu nem sou o que é o pior. Eu não tenho partido, ou lado, ou adesão moral, ou
ideologia política --- disse o Zé Pelintra.

--- Se nesse enterro viesse aqui primeiro o Tranca-Ruas, você veria o que é o de pior. Mas
eu não tenho amor a teu sofrimento homem humano como ele tem, não tenho necessidade
de ver sofrimento humano, desespero humano. --- falou a entidade Zé Pelintra. O padre
Anselmo escutou calado, não entendeu muito o que aquilo quis dizer, mas pelo tom de voz
era uma colada de saco. Anselmo de tanto medo de ver aquela aparição horrorosa urinava
debaixo da batina, estava com medo, desespero, sua voz tinha sumido, estava em pânico,
aquele bicho tinha poder de controlar a voz dele, padre Anselmo, Senhor meu Deus
misericórdia! --- ele pensava desesperadamente, seus olhos arregalados.

XI

O coroinha e o sacristão ficaram desesperados, entraram em surto, era assombroso ver


uma aparição daquela, estavam tão abalados pela visão que desmaiaram, caíram de lado
desacordados pelo trauma e pelo impacto de uma forma de vida assim. Não é todo ser
humano que fique consciente na presença de uma assombração com tamanha nitidez.
Caídos desmaiados não viram o padre Anselmo se arrastar, rastejar para longe do caixão,
enquanto Zé Pelintra se calou e ficou de pé esperando. O padre Anselmo fechou os olhos
e pensou em Jesus. Via a imagem de Jesus na sua mente agora. Sim, era o Mestre dentro
de seus pensamentos, acalmando o horror. Aquele olhar calmo de Jesus, sereno, dizendo
para ele ter coragem. A coragem é sempre em cima do medo! --- pensou padre Anselmo.
Parou de gritar e de chorar, sentado mesmo se virou para o homem de branco que estava
parado lá no fundo, pertinho dos caixões.

Padre Anselmo se recompôs. Levantou-se, caminhou até o homem. Em seus 83 anos de


vida nunca tinha visto nada assim, nada tão sobrenaturalmente real, tão materializado, tão
palpável. Anselmo estava absurdado, talvez estivesse morto vendo o mundo do além.
Caminhou até a aparição. --- tenho a proteção do meu Deus. Quem é você? Por que está
invadindo este enterro, essa tragédia, por que espantou o povo? --- perguntou e se calou
Anselmo.

--- Sou uma inteligência mística. Uma inteligência política e espiritual, eu vivo na fronteira
até onde sua razão pode me determinar com algum sentido. Vou ser franco com você
padre, eu não sou fedorento, eu não sou feito de partículas atômicas. Mas eu coexisto com
os seres vivos, sigo ordens. Fui mandado aqui para escoltar e levar duas almas infernais,
essas duas mortas aqui que faleceram tragicamente cheias de ódio e ambição destruidora.

--- Mas como? Como podem ser almas ruins uma criança de 12 anos e uma mãe que vivia
apenas para os filhos e para a Santa Igreja podem ser almas infernais? Que absurdo! O
que essa criança e essa mãe fizeram de tão terrível? Como podem ser almas infernais? ---
perguntou o padre.

Já estava escuro, iluminados pelos postes de luz dentro do cemitério, aquela luz que
pouco ilumina, mas a lua estava imensa. Zé Pelintra não fazia sombra no chão. O sacristão
e o coroinha permaneciam desacordados, os auxiliares dos serviços ao Senhor Deus, eles
se quedaram como os discípulos de Jesus naquele dia da Santa Ceia. --- não posso
explicar o motivo, eu venho escoltar essas almas terríveis para que saiam do mundo,
retornem ao abismo onde cresceram. Elas são um mal superior do tipo que os seres
humanos não conseguem dominar ou resistir, e estavam planejando o fim da espécie
humana! Por descuido essas almas vieram viver entre os seres humanos, mãe e filha,
fizeram todo tipo de maldade escondida dos olhos dos outros, e pelo caminho do mal que
trilharam tiveram as mortes trágicas, e eu vim leva-las comigo até o portal do umbral, é
minha função. Mas, vou dar um jeitinho, e eu negocio com o padre. --- disse Zé Pelintra.

--- Negociar? Negociar como assim? O que você quer de mim, o que pretende? Você disse
que não é Satanás, mas age como ele! --- disse o padre Anselmo.

--- Reparei que o padre ficou muito comovido demais com a morte dessa mãe e dessa
filha. O padre ficou comovido que é uma beleza! Apesar de serem almas ruins, nasceram e
viveram como seres humanos, fizeram parte do rebanho de Deus. Participaram do amor da
vida, cativaram pessoas, criaram laços, realizaram o que é básico par adquirir linguagem e
pensamentos, fizeram interações positivas na sociedade e merecem algum benefício ético
disso --- disse Zé Pelintra. Enquanto a entidade dizia isso, as duas almas, da mãe e da
filha saíram de seus respectivos corpos e ficaram de pé. Foi uma imagem terrível, que
arrepiou o padre Anselmo inteiro. Ele caiu sentado de novo no chão tremendo de medo.

Mudas e imóveis, as duas figuras pareciam dois chumaços de nevoa sacodidos pelo ar, de
cor cinza, feições retorcidas. Eram as almas da mãe e da filha deixando os corpos
finalmente, almas desgarradas, a vida inteira elas duas presas como rãs em um pote agora
saíam para dar destino extraterreno às suas existências metafísicas.

Nasceram humanas, nas tramas humanas da linguagem e seguirão essas tramas para
toda eternidade. É a identidade que possuem, como uma engrenagem a mais na imensa e
infinita maquina de seres linguajantes e comunicativos: a jornada começa com a vida, e
seguem o fluxo como almas eternas --- disse Zé Pelintra. --- eu sei que você teme. Mas, a
criança tinha apenas 12 anos de vida. 12 anos de vida humana é muito pouco para uma
alma experimentar sabedoria, às vezes nunca aprenderá, mas com pouco tempo assim as
chances são menores. Aprender a fazer o mal é mais rápido sempre. O mal é a preguiça.
12 anos é pouco tempo para uma alma se esclarecer. Ela era cruel por causa da crueldade
de seu pai e de sua mãe. Coisas invisíveis que você não vai saber Anselmo. --- disse a
entidade Zé Pelintra.

--- O que você propõe? --- perguntou o padre Anselmo se levantando e se colocando de pé
confiante. Estava tendo um momento místico. Isso era maravilhoso. Sempre teve a
Eucaristia Católica e a Leitura da Bíblia diante de si como experiências místicas profundas.
Mas agora estava diante de uma entidade sobrenatural tropical completamente fora da
historiografia de entidades místicas do Catolicismo.

Intraduzível --- pensou o padre Anselmo. Que momento maravilhoso --- você também é
uma criação de Deus! --- disse o padre --- até o diabo é uma criação de Deus! --- falou
Anselmo.

Zé Pelintra ficou calado. Aquilo que o velho dizia não tinha sentido, nenhum sentido, era
apenas mais da ignorância humana. Ele queria ir embora --- Eu troco tua alma pela alma
dessa menina. Deixo a alma dela vagando no mundo e levo a tua alma comigo. Tenho hoje
que entregar duas almas lá no portal do umbral até a meia noite, e essas duas almas eu
trabalhei para levar comigo. A alma dessa menina pode aprender, pode observar o ser
humano e aprender. A alma da menina pode ficar nesse mundo mais um tempo antes de
se lançar ao espaço infinito para outras aventuras e aprender, mudar o rumo da história
mística dela. Eu vou mantê-la ai pra ficar assombrando e aprendendo com os vivos, até o
dia final da existência ignorante. Vamos fazer essa troca? --- perguntou Zé Pelintra.

--- Mas quem me garante que a alma da menina vai seguir o caminho de Jesus daqui pra
frente? --- perguntou Anselmo.

--- Eu peguei essa alma e ela é minha. Vou deixar essa alma em um lugar Santo, vou leva-
la para assombrar a Igreja. Ela vai ficar centenas de anos lá, assombrando os padres e as
freiras. Aprendendo com eles sobre Jesus. Ela vai ficar presa dentro da igreja, escutando
as missas, tudo tudinho, os cultos, as orações, vendo os batismos, rezando terços, vai ficar
lá invisível. Invisível quase sempre e visível às vezes, se comunicando, sabe como é?! Eu
garanto. Eu sou policia do outro mundo --- disse Zé Pelintra.
O vento veio apressado aos ouvidos de Zé Pelintra dizendo que o Tranca-Rua estava
vindo no raio, sentindo cheiro de alma desencarnada do corpo. Esse era outra entidade
tropical concorrente no mundo místico do Cerrado brasileiro, vinha arisco, vinha no rabo de
arraia!

--- Decida padre! --- disse enérgico Zé Pelintra

--- Eu aceito. Em nome de Jesus! --- gritou o padre, e correu até Zé Pelintra agarrando seu
terno! --- Me carregue! --- gritou o padre Anselmo. Zé Pelintra pegou a alma da mãe pelo
pescoço, depois, enfiou o braço dentro do coração do padre Anselmo e arrancou a alma
dele de lá, deu uma gargalhada uivante e saiu voando no meio de uma ventania com
cheiro de incenso levando nos braços as duas almas! A alma da mulher berrava e
blasfemava! A alma do padre Anselmo rezava alegremente Ave Marias, e ambas foram
carregadas pela entidade até desaparecer na dobra da realidade. O corpo do padre
Anselmo tombou morto.

XII

A alma da menina assistiu tudo aquilo. Viu o próprio corpo dentro do caixão. O corpo da
mãe. O corpo do padre, duas pessoas desmaiadas. A alma olhou tudo aquilo, parecia um
filme. Os coveiros lá na casinha da obra jogando baralho e tomando pinga se esqueceram
de que tinham que voltar e enterrar os corpos. O coroinha e o sacristão desmaiados
dormiam, talvez só no dia seguinte, tamanho era o medo. O cadáver do padre Anselmo no
chão, com as formigas já subindo nas mãos. Ficou tudo assim, naquele silêncio, naquela
hora. A alma da menina ficou ali. Até que sentiu a presença da outra entidade chegando,
uma sensação de poder perverso chegando. Terrível! . Eita! A alma da menina ficou louca
e fugiu como pode dali. Foi se abrigar dentro da igreja, que ficava na rua próxima ao
cemitério, se empurrando no ar, aparecendo e desaparecendo, foi flutuando no vento, na
brisa, se empurrando, sofrendo. Sofrendo? Não, alma sem corpo não sofre. A alma da
menina entrou no templo atravessando a porta central da igreja e se juntou à multidão de
almas invisíveis que estavam ali abrigadas desde o período da colonização portuguesa.
Estavam ali invisíveis, se reconhecendo inúteis para a obra de Deus. As almas se
preparavam para o natal de 1975, um natal com tantas tragédias, Senhor, mas com
sementes de esperança também.
Saci Pererê
David J. Ramos

Era aquele espírito que cristianismo não tinha catalogado, aquela inteligência voltada para
as brincadeiras cínicas, entretanto portador de uma alegria, mas ao mesmo tempo de um
lamento. Desenhado em 1923 para um jornal de Florianópolis, uma tirinha apresentava a
personagem Saci Pererê. O jornal era de circulação diária, semanal, com desenhos e
fotografias. As fotografias eram o grande charme da mídia impressa em 1923, e as
historinhas em quadrinho que os jornais traziam amenizavam o sensacionalismo e as
tragédias estampadas todos os dias no jornal daquela capital. Um repórter policial teve
contato com o Folclore do Preto da Pastoreira, um famoso escravo Africano que teve
contato com a Virgem Mariam em uma aparição nos Campos Catarinenses do início do
século XIX, e uma devoção aconteceu mas depois se tornou uma lenda de bairro.
Contada às crianças, e propagada pela memória do povo. É assim o povo brasileiro. Mas
as lendas sobre a vida dos escravos Africanos que fugiam das Fazendas e perambulavam
pelos campos e pampas se escondendo e fugindo dos Capitães do mato, militares
caçadores de Escravos fugitivos. Os Pretos que fugiam eram chamados de “Negros”
pelos Portugueses e muitas piadas eram feitas sobre a condição destas pessoas
transformadas em mercadorias. Entre estas lendas estava a do “Saci Pererê”, que na
década de 1970 ganhou os traços de Ziraldo, famoso cartunista brasileiro. Ele soube
desta lenda neste ano, 1923, quando um colega de Faculdade de Medicina trouxe para
ele um jornal do sul com a estorinha desenhada, e ele ficou curioso. Estudava na UFMG
de Belo Horizonte, grande Universidade em que dedicavam totalmente seus esforços para
estudar. Eles conversavam sobre muitos temas da cultura, e um dia falaram da pouca
existência de Médicos Pretos no curso de Medicina. Imediatamente um dos colegas dele,
Guimarães Rosa, era racista pra cacete e fez uma daquelas piadas e todos riram. Mas
Guimarães ficou curioso sobre a história daquela entidade humanoide que tinha uma
perna apenas e que usava um gorro vermelho e que andava pelos campos totalmente nu
pulando em uma perna só.
–- Mas existiu esse Negro que pulava de uma perna só e que tinha chapéu de feiticeiro e
fumava um charuto? –- perguntou Guimarães Rosa. Estavam no refeitório da Faculdade
de Medicina, e alguns colegas almoçavam juntos naquela manhã.
–- Eu acho que deve ser uma realidade acontecida. –- respondeu um dos colegas, Felício
Andrade, filho de um rico fazendeiro do sul de Minas Gerais que estava na capital
morando e estudando o 6 período do curso. –- muitos escravos eram torturados tão
duramente para garantir o trabalho, a produtividade das fazendas, os compromissos
empresariais e comerciais dos fazendeiros com os políticos e com o governador do
Estado, que forçavam os Escravos a trabalharem cada vez mais, o ritmo de trabalho
desde 1822, com a Independência do Brasil de Portugal. Praticamente todos os países já
tinham extinguido as leis que permitiam a Escravidão e o comércio de Escravos humanos,
principalmente retirados da África. No Brasil a importação de Pretos começou em 1609,
em Minas Gerais os primeiros Pretos da África chegaram neste momento histórico em
que as guerras contra as Tribos Indígenas que governavam as terras de Minas Gerais
chegava ao seu fim com o total extermínio dos índios, num total de 219 mil pessoas em
um período de 20 anos. Em 1630 Minas Gerais assumia ao título de Estado que tinha
erradicado os “Negros da Terra” como eram chamados os índios. Em Sabará, no centro
do Estado de Minas Gerais uma grande expedição de extinção dos negros da terra
contavam com 19 mil soldados, mais que um batalhão inteiro no exército. E foram por
todos os lados na caça. A descoberta de ouro e esmeraldas nos rios de Sabará fez com
que Oficiais mineradores viessem de todas as partes da Europa para estudar as
melhorias da produção que consistia cada vez mais em grandes buracos cavados nas
montanhas e grande quantidade de homens trabalhando nestas escavações e na lavra
dos rios e riachos da região. Os negros da terra eram a grande ameaça, e uma vez
erradicados os exércitos puderam construir fortificações para a extração das riquezas que
abundavam. As demandas por alimentação das populações das Mineradoras trouxeram
grandes quantidades de gado, uma mão invisível empurrava para frente a tecnologia da
agricultura também, e as plantações de cereais começaram, também o algodão, e outras
formas alimentares que os Portugueses haviam aprendido com os Índios como a
Mandioca. Guimarães continuou a pergunta:
–- Seria possível um homem, um preto fugitivo de uma senzala sobreviver com uma perna
só e se tornar um feiticeiro tão importante? –- disse ele. Mastigou a comida e olhou para
os colegas. Conversavam tranquilamente, teriam aulas as 14:00hs, então havia muito
tempo para uma refeição com tranquilidade.
–- Se um acidente acontece e uma perna é arrancada, é possível estancar o sangue,
obter cicatrização, e o paciente readquirir mobilidade aprendendo a se equilibrar, usando
moletas inicialmente. –- respondeu Felício. Naquela época o curso de Medicina era
frequentado pelos ricos, a formação era dispendiosa, os materiais caríssimos e as
crianças ricas tinham melhor formação para conseguir passar nos vestibulares. Fundada
em 1919, apenas em 1976 viu um Preto formado Médico, e depois dele outros 17 até
2020. E em 1923 eles estavam ali refletindo sobre isso, mesmo que timidamente. Felício
continuou a falar. Os outros escutavam, logo voltariam para as salas, para mais matérias
de Anatomia, e Cirurgia.
–- Se você quer saber se é verdade, venha comigo nestas férias. Vou a Porto Alegre ver
meus pais e te levo para saber se o Saci existiu! –- disse um colega. Estava passando e
viu os rapazes conversando sobre o Saci Pererê, aquele homem que andava de uma
perna só dentro do redemoinho. Era Paulo Marcelo, estudante bolsista que veio do sul do
Brasil estudar na UFMG.
–- Só o Diabo anda na rua, no meio do redemunho. Claro que um homem não conseguiria
andar no meio de um redemunho, se locomover dentro do vento só o demo. A lenda do
Saci começa com esta dimensão metafísica desanimadora –- disse Guimarães, se
voltando para Paulo e ajeitando os óculos. Os demais se animaram. Paulo e Guimarães
eram os mais inteligentes da turma, e seus debates brindavam a todos com sabedoria e
cultura. Ficaram ali no refeitório, depois de comerem. Alguém surgiu com uma garrafa de
vinho que tinha escondido no armário e todos beberam e continuaram o assunto.
–- Esta lenda é verdadeira. Na historinha em quadrinhos a ideia está inspirada no trabalho
do escritor Monteiro Lobato, um paulista e empresário que desenvolveu uma excelente
obra sobre a cultura brasileira e o folclore infantil do sul do Brasil. Ele descreve com muita
perfeição o Saci Pererê –- disse Paulo. Conversaram e depois foram para a aula.
Combinaram de Guimarães Rosa passar uns dias na casa de Paulo Marcelo e pesquisar
sobre os amputados da Escravidão e a lenda de Saci Pererê, um desses amputados que
possuía poderes misticos e vivia nu pelas florestas do sul do Brasil saltando de perna
direita, com um cachimbo na boca, sempre pitando drogas jamaicanas, com um gorro
vermelho na cabeça e completamente pelado. Eu já disse isso, estava sempre nu, como
uma forma de indigenidade? Pode ser, mas era uma lenda para assustar crianças. Só que
os jornais tinham resgatado essa imagem, as tiras de quadrinhos de jornais sulinos desde
1930 publicavam em massa os quadrinhos do Saci Pererê, a personagem maluca que
fazia todo tipo de travessura com os imigrantes nas fazendas e nos campos. Escondia
coisas dentro das casas, roubava dinheiro das carteiras das pessoas, fazia milagres,
bebia leite e colocava água nas garrafas, abusava dos bêbados de madrugada, e fazia
feitiços. Então naquelas férias estudantis Guimarães Rosa passou aquele tempo no
interior de Santa Catarina, e foi pesquisar acervos e registros nas bibliotecas das
cidadezinhas. Estava de férias, tomava sua cachacinha, ia lá na biblioteca, lia, anotava,
passeava, comia a comida do sul do Brasil. E foi assim até que achou um manuscrito, na
biblioteca da cidade de Santa Bárbara do Sul, um livro de muitas páginas, empoeirado,
escrito no final do século XIX. Tinha como título “Manuscritos do Saci Pererê do Brasil”

1. Arrancada a Perna esquerda

Diante de Deus, me calei. Nada havia em remédio aos meus pecados na minha opinião.
Mas, diziam que Deus era compreensivo ao extremo, então entrei na igreja vazia. Estava
vazia, era uma capela barroca construída para a devoção dos povos que viviam na
fazenda, aquela enorme fazenda que a família tinha preservado dos avós e dos avós dos
avós, desde quando os Portugueses chegaram e fizeram exércitos contra os índios para
os matar e tomar suas terras, e tomaram mesmo. Mas diante de Deus ninguém tem nada.
Tudo é dele. Deus é um agente nadificante para o ser humano. As divisões étnicas são
nada. As diferenças entre culturas são nadas, a moralidade diante de Deus é nada. Eles
tentam criar um discurso religioso de que existe uma “palavra de Deus”, mas o ser
humano é insignificante demais para isso, para receber isso. Somos como que formigas
inteligentes e gigantes que caminham pela terra com formigueiros diferentes, mas
controlados como populações de formigas, alienadas para certos aspectos da experiência
real de vida, hipertrofiados em nossa genética para o acesso a certas dimensões da
percepção, com vidas tênues e breves. Até um prego enferrujado tira uma vida em
algumas horas. Uma picada de cobra venenosa tira uma vida em alguns minutos. Já vi
crianças brincando de bola cheias de vida, e segundos depois caídas mortas no campo
de futebol depois de uma picada de cobra. O corpo arroxeando. Onde havia risos, agora
há gritos de dor e, depois, a garganta sem vida e putrificando rapidamente. Há as
crianças fantasmas. O povo da fazenda fala de vultos no cemitério. Eu, que estudei, eu,
que já fui a outros grandes centros políticos e econômicos, eu, que já vi reunidos milhões
de seres humanos, em grande quantidade de diferenças de todas as formas, eu não me
assusto ou me surpreendo. Sou um médico. O ano de 1923 é perfeito. Um ano de boas
economias para o Brasil, um ano de festa pelos cem anos da Independência do Brasil,
cem anos apenas que Portugal cortou nossos laços de maternidade e paternidade em
todas as áreas. E depois do Golpe de Estado de 1989, se configurou a bandeira nacional,
o hino, e todas essas firulas e acréscimos sem os quais nunca haveria um nacionalismo,
tamanha eram as penúrias que a população trabalhadora sofria. O Brasil é um lugar
inventado por militares para que o trabalho humano possa ser o máximo explorado.
Desde as invasões militares de Portugal em 1500, passando por todas as guerras de
unificação e modelação geográfica que o Brasil viveu para ter um território tão extenso.
Desde que se formou um exército com armas de fogo, cavalaria, e tudo mais, altas
patentes, os Marechais, os Generais, quando tudo isso começou a se moldar, o controle
do trabalho humano, o controle do corpo humano para o trabalho se aperfeiçoou de tal
maneira, o trabalho escravo sugava tudo do homem e da mulher, era perfeito para o Brasil
da época, era perverso, era potência de muito e muito dinheiro pois os escravos
trabalhavam em quase tudo que se pode trabalhar, ergueram cidades do chão,
derrubaram matas, cavavam sua própria cova, davam muita riqueza aos donos, davam
segurança, e o melhor produto disso é o Capitão do Mato. Um posto militar concedido a
ex-escravos somente. São os militares responsáveis por caçar e prender os negros
fugitivos das fazendas ou de qualquer localidade dentro do Estado onde uma mercadoria
humana foge de seu trabalho. Basta ligar para o quartel dos Capitães do Mato, ou passar
uma mensagem pelo Instagran, ou pelo Facebook, que logo a guarnição dos Capitães do
Mato chega e presta os serviços necessários. A propriedade privada é um direito de todos
os cidadãos do Estado, e se um ser humano pode ser transformado em mercadoria, então
os direitos dos proprietários destes seres humanos mercadoria precisam ser protegidos. E
o Estado Brasileiro, mesmo quando colônia de Portugal zelou profundamente por este
direito. Foi naquela manhã que a viatura dos Capitães do Mato, num Uno 2001, pintado
com as cores da corporação militar, foi atender uma chamada de mais um escravo
fugitivo. A viatura seguiu até o local, uma vila na entrada da fazenda, um lugar de pessoas
honestas e trabalhadora que vez ou outra sofria com essas fugas desses ordinário,
filhasdaisputa –- disse o Capitão. Como não havia outra patente a não ser a de Capitão
(não haviam soldados, cabos, sargentos do mato. Apenas Capitão. E era o posto mais
alto inclusive, não havia major, coronel, general do mato. Apenas o Capitão. Você já
entrava na profissão como Capitão e terminava aposentado como Capitão), eles tinham
grandes conflitos para determinar a autoridade imediata nas missões. Então, era o
homem mais sanguinário e perverso que era escolhido como chefe. As pessoas ficavam
muito impressionadas com as notícias da Televisão, as pessoas se acostumaram a
organizar o pensamento de forma que a realidade oficial, o que realmente acontecia era
de fato o que se anunciava. A entrevista do Capitão do mato naquela manhã fez o
programa daquela apresentadora loira se tornar a grande sensação daquele dia. Era
assustador o trauma, era assombroso o terror, era abissal o pavor que aquelas notícias
estavam provocando:
–- os exames da perícia dos policiais Capitães do mato foi conclusiva? –- perguntou a
reporter de campo. Tão linda, olhos verdes, sorriso mineiro com vivo batom, cabelos
longos. Fez a pergunta e apontou o microfone para o Capitão
–- detectamos o sêmen do acusado no anus das crianças, que foram queimadas depois
para esconder o crime. Também encontramos vestígios do mesmo material genético no
sangue que estava na cozinha, no banheiro, nos quartos da casa que foi invadida. O
bandido foi até a casa das vítimas, cometeu os assassinatos, depois foi até a escola,
realizou barbaridades e ateou fogo no local –- disse o Capitão, vestindo a farda linda da
corporação, com as mãos em posição de sentido, circunspecto, sério policial que
realizava grande trabalho.
–- mas foi o preto mesmo? –- alguém perguntou. Deram de ombros, não sabiam
exatamente.
–- a polícia então conclui que foi mesmo o rapaz apreendido –- disse a repórter, olhando
para a câmera com seu rosto de preocupação sincera
–- afirmativo. Encaminhamos várias viaturas para o local onde as denúncias anônimas
relataram que o rapaz estava escondido e o capturamos. Ele está na delegacia para
interrogatório. –- respondeu com segurança o Capitão. Passava para a população a
imagem de tranquilidade, mas por dentro estava apreensivo. As fugas de escravos
estavam aumentando. E esses monstros soltos cometem essas barbaridades! –- pensou.
Agradeceu a reportagem e seguiu para a delegacia. Acontece que durante o interrogatório
a perna esquerda do rapaz foi arrancada. Os militares eram tão dedicados ao serviço, ao
trabalho de proteção e segurança da Pátria amada Brasil que agiram com objetividade
demais, e arrancaram a perna inteira do rapaz. Era um pau-de-arara moderno, amarraram
o rapaz ali, pelado, submeteram a profunda humilhação e agressão para que ele contasse
os detalhes tão importantes da investigação. O rapaz negava todas as mortes, negava a
morte da família, negava a morte das crianças na escola, negava tudo. Isso estava
errado. Os Capitães tinham convicção de que aquele rapaz preto escravo fugitivo, ou
seja, já na vida do crime, cometera aqueles atos hediondos, essa era a linha de
investigação. Pois aquele inesperado incidente aconteceu, a perna se partiu e rompeu do
corpo depois daquela pequena e inocente manivelada no pau-de-arara do escritório de
inteligência dos militares, e ficou aquela cena, o rapaz pendurado no alto do pau-de-arara,
com torniquete no pescoço, fios elétricos ligados na língua, fio de chuveiro ligado no cu,
no anus, tudo ligado na tomada e funcionando, e a perna esquerda no chão, que ficou
cheio de sangue. E o sangue jorrava do buraco no corpo do rapaz pendurado no alto do
pau-de-arara, que gritava gritos tão agudos, tão poderosos que se podia imaginar o
conflito íntimo que ele passava. Que pena, mas não era culpa de ninguém que ele tinha
nascido preto, e a igreja cristã dizia que era isso mesmo, escravos eram pra existir
mesmo, e se a igreja dizia isso, se o padre dizia isso na missa, o que eu iria fazer? Fui
chamado correndo pra atender ali o interrogado. Entrei na sala, os capitães estavam de
pé, muito consternados, se desculpando, lamentando, alguns choravam por perder um
interrogatório tão bom. Olhei para o alto da sala, lá encima pendurado e tomando
choques, e gritando de dor estava o suspeito. No chão sua perna sangrando. Um dos
militares colocou o fio do chuveiro no osso da perna e o pé se mexeu sozinho. Ah, foi a
alegria daqueles homens, brincavam de colocar o fio elétrico naquela lamaceira de
sangue e viam os dedos do pé da perna amputada do corpo se mexer. Os olhinhos
brilhavam, como era bom ver os militares felizes, rindo, alegres. Era tantos crimes no
Brasil, Deus me livre. Mas para eu realizar meu trabalho de medicina tive de pedir para
desligarem o chuveiro e recolherem os fios de todas as tomadas da sala eles usaram
todas as tomadas para ligarem fios ao rapaz. Era um interrogatório muito importante, a
segurança nacional dependia disso, diziam os Capitães. Ajeitaram as fardas, impecáveis.
E desligaram o complexo sistema de geração de choques elétricos de 220 volts. Era a
inteligência militar de vanguarda. Deixaram-me ali com o rapaz pendurado e sua perna
no chão. O corpo do rapaz tremia. Não consegui dos Capitães ajuda para retirar o rapaz
do alto, era hora do almoço deles, e eu mesmo o desamarrei dos grossos nós que o
prendiam àquele embricado sistema de madeira que o colocava em posição fetal no alto
de um pau. Realmente parecia ser muito eficiente para o trabalho militar de inteligência
pendurarem pessoas ali durante as confissões e interrogatórios. Pena que as vezes
acontecia isso, um membro do corpo ser amputado devido aos apertados ajustes e
amarrações com aquelas cordas grossas. Apertaram com tanta força aquela corda no
corpo do rapaz que ela amputou a perna. Que força heim! Que vontade. Quanto à perna,
nada se podia fazer. Era jogar para os porcos comerem. E foi o que fizeram, quando
mediquei o rapaz, vieram e levaram a perna para jogar no chiqueiro. Porco come tudo
meu amigo. Qualquer coisa que você jogar para eles você vai ver que eles comem, até
pessoas vivas se você jogar lá no chiqueiro, crianças, adolescentes, mulheres, vixi! Eles
comem mesmo. O porco tem dentes afiados, eles são raças de porco do mato que os
seres humanos domesticaram a 10 mil anos atrás na Ásia e se tornaram um rebanho
grande de animais híbridos. Era possível comprar alguns porcos e ter um chiqueiro bom,
onde todos os restos orgânicos de uma família, os restos da roça, até fezes se você
quiser, se você for um mal caráter na hora de cuidar de uma criação animal, eles comem
tudo, já vi eles comendo gente viva, pedindo pelamor de Deus pra tirar o bicho de cima e
o bicho mordendo e mastigando o corpo do sujeito vivo, era um criminoso. É um
espetáculo sangrento na verdade, as pessoas gritam muito nestas condições porque o
porco é um animal muito mistico e assustador. Imagine um leitão de 300 kg com aquela
bocarra comendo você ainda vivo?! Vixi! Mas eu foquei no rapaz. Tirei o cara daquela
estrutura, ele perdia sangue demais no cotoco que ficou da perna, arrancada
praticamente inteira. Estanquei o sangue com algumas substâncias altamente
coagulantes. Quantos riscos! Parada cardíacas, infecções! A sala de interrogatório não
era o lugar mais limpinho do mundo né. O rapaz estava inconsciente, nem gemia, tinha
respiração, mas tremia, estava ficando roxo, o sangue parou de correr, enfaixei o local do
melhor meio possível, como eu faria se o ferimento fosse na Rainha da Inglaterra. Sim,
porque era minha profissão e os militares queriam o rapaz vivo para continuar o
interrogatório. Ele deveria enfrentar a justiça. Penso que Deus é justo, se o cara nasceu
negro, e se a lei determina que os Pretos precisam trabalhar como mercadorias humanas,
quem sou eu pra contrariar tanta estrutura. Fiz o melhor que pude, deixei o rapaz
respirando. Na história da medicina há muitos casos de amputações felizes, e oc aso
daquele rapaz seria mais um para os anais médicos brasileiros da Medicina de Escravo,
esta linha acadêmica tão rica nos cursos de Medicina. Nas matérias do curso de Medicina
focadas para o mercado dos Escravos havia muitas novidades e muitos aprendizados,
que são usados até hoje para o trabalho nos postos de saúde das periferias.

2. Os curativos no Quilombo

–- Sejamos testemunhas do nosso tempo! Estamos vivos, no presente, para que a vida
seja protegida, a vida que vale a pena proteger. Ladrões, traficantes, assassinos,
pedófilos, maconheiros, precisam ser extintos. Esse câncer da sociedade precisa
desaparecer! –- disse um Capitão. Conversavam no refeitório do quartel. Limpinho, toda
ordem e progresso. Os Capitães do mato realizavam um ótimo trabalho pelo Brasil afora,
protegendo a propriedade privada das grandes famílias brasileiras, que trabalhavam duro
pela riqueza e progresso da nação. O Brasil devia muito às famílias dos grandes
fazendeiros, às famílias ricas, aos filhos belos e ricos, que herdavam e agiam com
relevância na produção empresarial, industrial, comercial do Brasil. Ai de nós não fossem
os ricos. Aquele Capitão chefe ficava assentado olhando os outros. Era como um Bulldog,
os dentes caninos eram grandes, na verdade os dentes dele eram grandes, e ficavam as
pontas dos dentes pra fora da boca, mesmo fechada. Os olhos eram arregalados, como
os de um psicopata. Aqueles olhos pesados, cheios de ódio, sempre vermelhos de raiva.
Olhou calado a todos os outros capitães do mato.
–- Temos que achar o quilombo –- disse o chefe dos capitães do mato do sul. Cada
guarnição de capitães do mato tinha um chefe, que também era capitão do mato, já que
esta corporação não tinha outra patente militar além de capitão. Os quilombos abrigavam
as mercadorias que fugiam de seus donos, tinham um sistema de saúde muito bom pois
muitos curandeiros fugitivos tinham aprimorado a magia da guerra, a magia para o
tratamento de traumatizados pela guerra e pela escravidão a guerra causa muitos
impactos mentais. A escravidão é geradora de muitos traumas mentais, depressão,
câncer, tuberculose e enlouquecimento.
–- é verdade! É verdade! –- disseram todos ao mesmo tempo.

3. Encontrando os Manuscritos do Saci Pererê

Era João filho de um europeu, Augustus, um italiano nascido em Roma, a capital comum
ao Estado da Itália e ao Estado do Vaticano, uma estrutura teocrática fundamentalista do
cristianismo ocidental. Dia 09 de agosto nasceu o filho de Augustus, seu quinto rebento,
um menino. De posse de sua mulher e seus cinco filhos, no dia 12 de agosto eles
embarcaram para o Brasil, era o ano de 1835, o Brasil era um lugar novo e acolhedor de
imigrantes, e a guerra na Itália era severa e temendo pela morte Augustus inscreveu a
família em um programa de bolsa imigração do Estado brasileiro, e junto com outras 60
famílias embarcaram no navio Desideria do porto da Itália até as ilhas da Madeira, onde
tomariam o navio Boa Esperança, as 9:00hs do dia 17 de agosto. Navios grandes, com
capacidade para até 600 pessoas e tripulação, navios de aço e ferro. A pequenina criança
embrulhada em mantas coloridas e abraçada pela mãe se chamava João, e tinha o
rostinho rosado e sorridente. Deixaram a Europa em uma viagem que saia de Portugal até
o porto de Vitória no Estado do Espirito Santo, no Brasil, que naquela época pertencia ao
território do Rio de Janeiro. Em 1834 a viagem de navio de Portugal ao Brasil durava 38
dias, e se encontrassem as tempestades de verão no alto do atlântico, abaixo da linha do
Equador, aumentava a duração, ficavam várias semanas além disso pois o Mar carrega.
O Mar carrega mesmo! O Mar trouxe os Portugueses e demais europeus nos anos de
1500 para realizarem guerras em território brasileiro. Os franceses no Rio de Janeiro, os
holandeses na Amazônia, os ingleses em Minas Gerais, um a um os Portugueses foram
vencendo com todas as armas possíveis. Foram mais competitivos e configuraram um
imenso território onde muito sangue correu, a moeda do Brasil era o sangue, esse deveria
ser o nome das cédulas e moedas de dinheiro no Brasil de Portugal, que ficou assim até o
ano de 1822 quando a colonização terminou e Dom Pedro I se tornou Imperador do Brasil
para herdar a estrutura de Estado. João e sua família chegaram finalmente ao sul do
Brasil, em Florianópolis em 8 de Setembro de 1835, e da Capital seguiram até a grande
fazenda mais ao sul onde iniciariam os trabalhos previsto no contrato da bolsa imigrante
que assinaram lá na Itália e que previa o arrendamento de umas terras por 20 anos no
sistema de divisão da produção em 80% para o fazendeiro e 20% para o agricultor, e o
Augustus vendo a loucura que as ruas de Roma estavam se tornando, os cadáveres dos
opositores do governo amanhecendo nas sarjetas, a perseguição, as policias secretas,
toda aquela infância do regime fascista italiano que explodiria lá no século XX afora.
Augusto e a família foram levados de carroça até a cidade do interior, e da cidade do
interior foram de carroça até uma cidadezinha, e da cidadezinha foram de carro de boi até
a fazenda, e da fazenda foram a pé até a roça. Ficaram na roça e os donos foram
embora. Só tinham a roupa do corpo. As 60 famílias do programa bolsa imigrante daquele
ano de 1835 foram distribuídas em vários vilarejos e terminaram chegando nas roças,
onde era o lugar de realização do contrato. Lavouras de mandioca, café, algodão, milho,
cana, beterrabas, uvas, batatas. Só lavouras. Era a derrubada da mata e o plantio de
roças. Era só isso. Derrubar matas e plantar roça. E Augustos nada sabia de roça, vivia
em Roma, era um urbanóide do século XIX, e com os filhos aprendeu a derrubar árvores,
arrancar raízes, imensas raízes, lavrar a terra e deixar sementes e mudas, e cuidar das
pragas e trazer a água dos córregos. Do fazendeiro ele recebia uma caderneta pra fazer
as compras no armazém da vida, com um limite de crédito determinado, pra comprar
alimento e provisões para a roça. Tudo giravam em torno da roça, e periodicamente eles
vinham e levavam a produção, que variava de espécie em espécie de plantas cultivadas.
Eles trabalhavam 18 horas no verão, e 10 horas no inverno, que é o tempo de sol que
aquela região recebia. Os primeiros raios de sol encontravam a família já trabalhando, e
os últimos raios de sol encontravam a família de Augusto ainda trabalhando. Grandes
extensões de terra, sempre derrubando mata e plantando roça. Todos os assuntos da
família eram sobre a roça. Acordavam falando de roça, e iam falando até dormir. Criavam
galinhas, e domesticaram alguns bichinhos e Augustus foi se adaptando, era uma
completa brutalidade, não leu um jornal por oito meses, os oito primeiros meses foram
brutais, seu corpo cheio de feridas de insetos, de calor do sol nas costas. E no final do
ano de 1836 começaram a colher as primeiras safras, as primeiras sobras, construíram
um celeiro grande, e então, de 1836 até 1847 a família de Augustus se adaptou à terra.
Nunca falaram uma palavra sequer em Português, não conheceram nada da língua
portuguesa, nem palavra nenhuma, todas as conversações eram em italiano, e a vila da
fazenda, o armazém, o boteco, até o puteiro eram lugares frequentados por italianos. Foi
no ano de 1847 que Augustus viu o primeiro homem negro em sua vida, o primeiro preto,
era curioso um homem completamente preto, ele estava voltando com o filho de um
matagal bem longe de casa. Um dia de viagem, mas precisavam pegar mudas, trocar
mercadorias com o sítio vizinho. João, já com 12 anos foi quem viu primeiro aquela tropa
de Escravos caminhando, unidos pelos pescoços com correntes, caminhavam em fila
indiana, uma imensa fila, a cavalo iam muitos homens vestidos de farda, passaram por
Augustus e João, que ficaram parados, aterrorizados, nunca tinha visto nada assim.
Haviam pretos na Europa, muito poucos, Augustus tinha visto nos portos e ferrovias por
onde passou, mas nada assim, homens com correntes no pescoço. Eles olharam para
Augustus e para João. João ficou olhando para aqueles homens e mulheres presos pelo
pescoço, estavam num silêncio profundo. Muito também não sabiam a língua portuguesa.
Em 1848 saber falar a língua portuguesa não era para todos. A maioria falava um dialeto
que misturava palavras de idiomas africanos (de escravos vindos de todos 149 Estados
que compõem o continente Africano), palavras e estruturas verbais de algumas línguas
que formam o tupi-guarani, e muitas palavras da língua Italiana, um dos idiomas mais
antigos do mundo com escrita ocidental. Aquele dialeto não existe mais no século XXI. Os
museus de preservação desta história do Brasil foram cancelados pela quebra de muitos
Ministérios depois do golpe de Estado de 2016, onde um grupo de anti-história esteve no
interior do país para destruir locais de preservação da memória, como ocorrido no museu
da Escravidão de Ouro Preto que guardava milhares de peças do período, como
elementos de tortura, de marcar a pele do escravo, de altas paradas com as minas, cm as
gurias, com as mulheres e tals. Era cabuloso. E um militante de anti-história, um turista
Alemão, recebeu ordem da comitiva internacional do movimento e o cara colocou fogo no
próprio corpo dentro do museu explodindo cinco ogivas de granadas. A arquitetura de
Diamantina, característica do século XVIII sobreviveu na continuidade do fluxo artístico
barroco, era muita coisa que tinha mudado em tão pouco tempo, quando as mudanças
gravitacionais indicam a mudança da ética. A gravidade quando muda também muda a
ética. A ética é um fenômeno físico do universo que se altera em condições de mudança
de temperatura, pressão atmosférica, clima, alimentação, termodinâmica, magnetismo,
uma série de fatores interferem na constituição da ética. Não apenas fatores sociais. Os
fatores que fizeram com que um ser humano pudesse se tornar uma mercadoria e ser
vendido nas praças de Diamantina para todo o Brasil tinham possibilitado que aquele
grupo de Pretos pudessem viajar de Minas até Santa Catarina e rio Grande do sul. E para
quê? Haviam muitos imigrantes italianos nas roças, porque eles querem trazer pretos
para cá? –- perguntou no dialeto Augustus. O Capitão do mato parou o cavalo, a marcha
parou, e foi responder ao homem. –- pelas obras que o governo quer fazer meu amigo,
umas barragens, uns prédios governamentais, é a construção civil, para tanto é preciso
mais mão de obra e foram buscar os pretos para trabalhar aqui nessas bandas –- disse o
chefe dos capitães do mato daquela região, ele era um bonachão. –- para as melhorias da
cidade, calçamento, pavimentação, e o escravo é a mão de obra mais barata mesmo –-
ele disse. Desceu do cavalo, tirou o chapéu militar, estava quente e eles estavam
caminhando por quilômetros e quilômetros sem parar desde o amanhecer. O Brasil em
1849 era um lugar pouco povoado, se podia andar dias e dias sem encontrar outro ser
humano. Depois das guerras contra os índios o interior do Brasil ficou muito mais
desabitado, e por isso foi possível o loteamento daquele imenso cabedal de terras
arrendadas às famílias do programa bolsa imigrante e as 60 famílias tiveram grande
sucesso no ano de 1836. já no começo de 1850 o panorama começa a mudar com certas
proclamações da Igreja Católica Anglicana de Londres sobre o comércio escravo. Porém,
no Brasil, mesmo naquele ano de 1848 ainda se comprava pessoas vivas nas praças de
Diamantina, que era o mercado de preto mais famosos do país, o lugar onde se comprava
os melhores homens e mulheres. Tinha um segmento de prestigio de fazendeiros do
interior e das capitais do Brasil onde se podia comprar e vender negros e pretos. Em
Diamantina aquele turista alemão se explodiu em 2001 e arrasou um quarteirão. Ele
entrou no museu da Escravidão, as câmeras de circuito registraram sua imagem. A caixa-
preta do museu guardou as filmagens da forte explosão pois o museu já estava sofrendo
ameaça de grupos extremistas contra a memória da escravidão pelo mundo, considerada
por eles como uma propaganda anti-humanismo o que eles queriam era destruir provas
fabricadas pela esquerda, esses esquerdopatas! Esses esquerdistas que criam uma
história em que a escravidão existia pois não existiu! Era apenas a submissão de uma
cultura superior sobre uma cultura inferior, em todos os aspectos –- diziam os militantes
da anti-história. O atentado de 2001 causou muitos feridos e alguns óbitos, incluindo o
próprio terrorista. E com o museu uma grande quantidade de documentos originais da
época, de objetos, de fotografias, um acervo de 400 mil fotografias, microfilmes,
esculturas e pinturas, telas e quadros, murais, ferramentas de tortura, depoimentos
gravados, filmes de cinema, autógrafos de líderes pretos mundiais que visitavam o
museu. Tudo isso foi explodido, foi a maior crise da cidade de Diamantina que recebeu
apoio mundial na luta contra o terrorismo histórico. O turismo da cidade passou a ser
controlado por militares, que fiscalizavam a rodoviária e toda a cidade. Depois das
22:00hs os cidadãos eram convidados a se fecharem em sua residência, tanto para que
as assombrações e fantasmas pudessem transitar pelo mundo dos vivos causando medo
e falando psicofonias nos ouvidos dos vivos tentando contar como é o mundo dos mortos
sem poder contar. João ficou olhando aquelas filas de pretos acorrentados sentados na
beira do caminho, na sombra de um bambuzal. A região tinha muitos bambuzais, se
formos fazer um filme sobre 1848 temos que colocar estradas de terra e imensos
bambuzais. Os Bambus são uma vegetação secundária muito boa para substituir uma
mata nativa. Os bambus são oriundos da Ásia e são plantados nas beiras do caminho e
nas entradas dos córregos. São ótimas plantas para conservação do solo:
–- mas são difíceis de arrancar –- disse um menino preto Pererê. Estava de pé, perto de
onde os homens brancos conversavam. O pai e o filho conversavam com o Capitão do
mato. Os outros capitães estavam na sombra de um ipê amarelo enorme, cheio de flores,
com uma sombra agradabilíssima, parecendo um clipe musical da Legião Urbana. Era
uma criança da mesma idade do João. João era muito loiro, com os cabelos grandes,
quase ruivo, carregava uma pesada sacola de mudas e sementes que foram buscar ele e
Augustus, que conversava com o Capitão do Mato. Quando a criança negra entrou na
conversa falou, o Capitão do Mato só olhou brabo e o menino foi se assentar. João era
uma criança profundamente curiosa, e educada, e acompanhou o menino que caminhou
até onde a corrente permitia e se assentou no meio da galera. João se aproximou do
menino e perguntou o nome dele
–- meu nome é Pererê –- respondeu o menino preto. Falaram no dialeto. As crianças
podem aprender rápido este dialeto e ele é curto, são poucas palavras, sempre com o
tema da roça, tudo sobre a roça, palavras referentes à roça. Em toda parte na região se
usa este dialeto. Quando os imigrantes conversam eles fala o italiano. Mas quando falam
com um negro, um brasileiro, um índio, um reinol, um caboclo, um mestiço, um mulato,
um cafuso, um qualquer que passe ali, ou se esconda ali naquela região imensa e
desabitada, de muitas guerras passadas, muito sangue de muitas gerações, despedaçada
por secas, e queimadas. As roças dos europeus e as roças dos índios se usava a
queimada como forma de limpar a roça das raízes fundas demais. Só o fogo contra as
raízes. Queimar o chão literalmente. Os pais falam o dialeto italo-indígena Eles não
tinham religião. A religião cristã estava em crise desde o século XVI não representando
mais o grande apelo, a religião cristã chegou ao Brasil em meio à sua grande crise, de
padres pedófilos, de submissão da Mulher, especialmente de submissão da Mulher, a
religião de homens no comando, era isso, e eles não tinham religião. Os índios tinham, os
escravos não podem ter, e os europeus estão cansados demais de milhares de anos de
promessas sem realização. Promessas tolas. O menino preto ficou sentado no chão, aos
pés do Capitão do Mato. Ele tinha se divertido no caminho, eram bons com ele, davam
pão e água, e frutas. Os Capitães do mato tinham dó das crianças, não gostavam de
bater em crianças, e por eles nem corrente usavam. Crianças são leais, são obedientes,
obedecem a ordem, cooperam, são divertidas. Mas os jovens rebeldes e os adultos
apanhavam muito, com muitos chutes. Foram um comboio de longa viagem pra levar os
Negros a tão longe destino, de Diamantina á Florianópolis, em parte andando, de
Diamantina a Barbacena, em parte de Trem de ferro, que saía de Barbacena até São
Paulo. De São Paulo continuavam de trem até Florianópolis na ferrovia dos escravos,
como era conhecida, pois eram milhares de vagões cheios de pessoas compradas em
Diamantina que seguiam para várias regiões do sul do Brasil, desde 1800, com a
fundação desta linha de trem, era um bom investimento, e após 30 anos de
funcionamento daquele tráfico, 40 anos, 50 anos de compra e venda de pessoas para o
trabalho forçado, eram milhares, poucos milhões de pessoas no final das contas.
Estimam-se 80 milhões de pessoas comercializadas com Portugal, que buscava na África,
entre 1500 e 1880, nos 380 anos de estrutura colonial escravocrata portuguesa, um
tempo quase interminável, 70% desses indivíduos morreram durante o transporte. 30%
chegaram até as roças, às repartições públicas, às cidades, às cortes, às igrejas, ao sexo,
ao comércio, ao entretenimento, ao trabalho braçal, à polícia, a todos os setores da
sociedade civilizada, em que o trabalho escravo podia ser empregado.
–- meu nome é João –- disse o menino que descansava com a pesada sacola aos pés. O
menino preto sentado perto dos pés do capitão do mato, e ele o João sentado perto do
pai. O Capitão do mato contava entusiasmado a Augusto que ele era um profissional do
transporte de escravos pelo Brasil, que fazia muitas rotas e que com a ferrovia os
negócios só tinham a crescer, ele disse. Estava satisfeito pois sem as tribos indígenas
não havia mais ataque aos comboios que transitavam pelos Pampas e pelo Cerrado,
desde os portos do Espírito Santo. Os pretos seguiam da África do Sul até o porto de
Tubarão, na Capital Vitória. Naquele período havia o Apartheid na África do Sul, sistema
fascista de governo racista que era grande executor de descendentes populacionais
negros. Eles vendiam uma parte e matavam a outra parte. Mas havia os pretos que
trabalhavam par ao governo, eram os legalizados. O mar carrega o bem e o mal. O mar
carrega, meu filho! Você acha? Vixi! O mar trouxe os navios para as praias brasileiras, o
mar veio carregando eles, sem perguntar o motivo, apenas deu as costas e veio
empurrando com o vento aquelas frotas.
3.1. O mal é o modo da opressão

Capitão do mato, aquele outro era um homem gordo, com a pança saindo para fora da
farda, a camisa desabotoada no peito, pois estavam no Brasil baby! Se liga viado!
–- vou trabalhar na Fazenda São Tomé, é isso que eu sei –- disse o menino preto Pererê
–- minha mãe e meus irmãos, e meu pai, eles morreram sabia? –- disse o menino Preto.
Olhava para o branquinho ali, tadinho do menino branco, parecia perdido ali.
–- eu moro com meu Pai, minha Mãe e minha família, sou agricultor –- disse João. 12
anos os dois meninos, falando um dialeto do sul do Brasil. Ali em pé o capitão do mato
contava seus feitos durante o transporte daquela carga de escravos, ele se parabenizava
por ter trago os 120 escravos com saúde. Foram 20 dias do porto até ali, todos saudáveis,
todos vivos, as despesas com alimentação estavam em dia, tinha ganho um bom dinheiro
–- uma grana preta! –- segundo as palavras dos antigos. E aquele pretinho acorrentado ali
era sua mascote –- divertido viu? Menino engaçado, inteligente, vai ser um bom
trabalhador! –- disse o capitão do mato. Dinheiro? Só recebia quando a carga era
entregue, então ele fazia o caminho de volta até São Paulo, la eles recebiam, no banco do
exercito, e de São Paulo ele ia para Belo Horizonte onde residia. Na sua tropa de capitães
do mato, um grupo de jagunços bem armado com autoridade para matar escravos
fugitivos concedida pelo governo do Brasil tinha capitão do mato que gostava de ficar com
outro capitão do mato, gostavam de trocar carícias, uns beijos e tals. –- disse o Capitão
do mato. –- isso é normal, entende? –- falou. E logo outros dois capitães do mato se
aproximaram e começaram a trocar carícias na frente de Augustus, e beijos de língua e
tal, e Augusto resolveu sair dali com o filho para que a inocência dele fosse preservada.
Augustus sabia desses comportamentos homossexuais, na Europa era comum, e o que o
capitão do mato queria dizer era que isso era normal entre os seres humanos. Mas viu
que Augustus não se agradou e apenas riu, deu uma gargalhada, ao lado deles e das
crianças que conversavam os dois capitães do mato gays se beijavam. Os pretos
sentados do outro lado do caminho riam e batiam palmas. Era um circo humano mesmo.
Pai e filho saíram de perto e seguiram para dentro do mato em direção a casa deles. O
Capitão do mato chefe deu uma gargalhada, mandou os pretos ficarem de pé, deu um
chute nos dois que estavam se beijando! Que loucura viado! –- disse o capitão do mato
rindo. Voltaram a seguir o caminho em direção à fazenda, eram dias e dias de viagens,
aquele capitão do mato fizera o trabalho com aprouvo, era sem pre bom voltar com os
companheiros e receber o soldo militar pela missão cumprida. Ele era bem-humorado, o
que fazia seu trabalho sempre mais agradável, pois era um trabalho desumano. Ele trazia
sempre de 12 a 20 outros capitães do mato com ele nessa comitiva. Era sempre um
capitão do mato pra cada grupo de 10 escravos. Era assim que ele organizava e dividia o
custo das despesas, os gastos com a comida dos escravos, com o vagão do trem, com os
carros de boi, ou cavalos no caso de escravo ferido, ele garantia a mercadoria que ele
transportava os seus jagunços eram bem treinados no tiro e na justeza do trato com a
mercadoria, afinal eram outros seres humanos, viado! –- dizia o capitão do mato chefe
daquele grupo. Era muito grande e gordo, com uma cara bonachona e grandes olhos
castanhos. Uma vez montado no cavalo os negros ficaram de pé e começaram a
caminhar, Pererê deu um salto, bateu palmas e se despediu de João acenando para ele.
João olhava para trás seguindo o pai. Esperou os escravos se levantarem, acenou para
Pererê, e entrou no mato seguindo o pai. E foi seguindo o pai pela trilha dentro da mata
até a casa deles.

3.2. Pequenos movimentos do sol distante milhões de quilômetros daqui fazem meu
mundo acontecer

João se sentiu cansado. Alguma coisa estava lhe contando. Ele se levantou de repente –-
gente, vou pra casa –- ele disse. Já eram outros tempos, João já estava com 41 anos,
estávamos já em 1876, o Brasil estava passando por transformações aceleradas, a
Monarquia Brasileira vivia as crises de governo, a família Imperial tinha grandes cisões
internas, conflitos por dinheiro e poder, mulheres arrogantes e homens ignorantes eram
Duques, Princesas, Condes, Marquesas, Reis, Imperadores, Rainhas, e centenas de
títulos de nobreza que eram papeis com linhagem e carimbos históricos dizendo que
aquele fulano era um bicho raro. Pessoas eram assim mesmo –- disse João pegando o
terno e seguindo para a saída do Edifício em que trabalhava. João era funcionário do
comércio. O comércio de pessoas humanas crescia. Se vendia pessoas vivas para várias
partes do país, e o Brasil contrariava os principais acordos históricos que desde 1850
haviam proibido o tráfico e manutenção de pessoas na Escravidão. Em 1976 a cidade de
Vila Rica, em Minas Gerais, se tornava a Capital Mineira novamente. Havia uma disputa
administrativa em torno da Capital de Minas Gerais, e sempre isto estava relacionado ao
comércio de pessoas humanas, que era a grande fonte geradora de riquezas, pois sem
salários ou preocupações jurídicas o trabalho de homens e mulheres obrigados a
trabalhar sob a pena de surras e de morte era lucrativo demais, muita riqueza era
simplesmente anexada aos patrimônios das ricas famílias, patrimônio que crescia e
crescia abundantemente. Em 1876 houve a construção da Cidade Administrativa de Ouro
Preto e a Corte saiu de Diamantina em uma luxuosa e pomposa mudança, com os padres
e bispos da igreja católica seguindo na frente com as cruzes e velas, e as sociedades
secretas do Estado com suas vestes cabulosas seguiam atrás. A Monarquia do Brasil era
composta de muitas sociedades secretas, muitos aglomerados ideológicos e místicos
ocultos da população, religiões apenas para ricos. João seguiu a avenida, desceu aquele
caminho conhecido, aquela ladeirinha, aquela paisagem, estava muito cedo fora do
trabalho, só conseguiu ficar 50 minutos: um latejamento na cabeça o impedia de ficar no
local de trabalho. Se levantou, pegou seu terno e saiu. Tinha vindo morar na cidade
quando se casou, deixou o pai Augustus e os irmãos lá na roça, aprendeu a falar e
escrever a língua portuguesa e veio para Florianópolis para aprender contabilidade pois
gostava de matemática. E finalmente conseguiu um emprego. Sua cabeça tremia como
uma música eletrônica. Tremia e mexia, a cabeça de João latejava. Não! Nada disso!
Não, João não tinha ido para Florianópolis coisa nenhuma, nem tinha estudado, e muito
menos sabia ler e escrever a língua portuguesa. Permaneceu no campo, o pai Augustus
morreu de febre amarela, e João ficou o responsável pela casa, e depois sua mãe
também morreu e os dentes da boca de João estavam todos podres porque ele viva na
periferia e o Imperador do Brasil cortou o programa de bolsa imigrante e a família de João
teve muitos óbitos, pela fome que se abateu pela região. Se você não tiver como dar um
dano, se você não tiver condições de dar um contra-golpe na vida, quando as coisas
ficam muito ruins! E se você não pode com a vida? E se você surge como ser vivo num
contexto de merda? E se as pessoas explicam isso como sorte? João abriu os olhos. Não!
O pai Augustus estava vivo sim, estava lá no interior, e ele, João, estava sim em
Florianópolis. Parou na calçada. Estava se sentindo mal, precisava voltar para casa, para
deitar e ficar quieto, tomar um remédio. Respirou fundo, se levantou e continuou a
caminhar. As filhas estavam na Escola. E João foi caminhando. Ele tinha se lembrado da
roça, e daquele menino preto, o Pererê, que ele nunca mais esqueceu o nome. Devia já
estar morto, os pretos tinham média de vida de 35 anos no Brasil em 1876. Morriam de
muito trabalho ou então assassinados pelos Capitães do mato, que tinham o poder de
vida e de morte sobre os negros. Era um zelo mercadológico, o controle do trabalho era
fundamental ao sistema inteiro nada funcionaria sem a Escravidão. Nada funcionaria, nem
quarteis, nem igrejas, nem presídios, nem escolas, nem hospitais, nem padarias, nem
jornais. 80% da mão de obra era de Escravos pretos. Os filhos mestiços com os brancos
eram os primeiros assalariados, recebiam uma fúria mais branda, principalmente as
mulatas no carnaval. João dobrou a esquina, viu um bar, um boteco, e resolveu beber um
pouco! Pererê trabalhou mesmo quando criança. Órfão ele virou brinquedo dos capitães
do mato. Fugia do trabalho sempre que podia, ia pro mato, mas não tinha nunca um plano
bom e não conseguia chegar ao Quilombo mais próximo, o Quilombo de Sabará, bem ao
norte dali, perto das montanhas. Era preso, recapturado, e foi assim. Trabalhava, fugia,
apanhava, trabalhava.

3.3. A fuga

Os dois estudantes de Medicina caminhavam pela praça, conversavam. O clima


agradável de Santa Bárbara do Sul, onde a lenda do Saci Pererê tinha surgido, um
espírito que vagava pelos pampas, um rapaz negro sem uma das pernas, pulando de lá
pra cá em perfeito equilíbrio, com um chapéu vermelho e fumando soltando aquela
chaminé de fumaça
–- cigarrinho do capeta! Zé droguinha esse Saci! –- riu Paulo Marcelo. Guimarães
acompanhava o amigo nas piadas, e haviam muitas piadas com pessoas pretas naquela
região. Em 1920 outra grande população de europeus chegaram até Santa Catarina,
também fugindo da fome na Europa, mais uma vez. Naqueles anos tão complicados. E a
região recebia imigrantes italianos principalmente desde muitos anos. Em 1923, ali
naquela viagem dois futuros médicos foram conversar com o Sr. João, que morava na
zona oeste de Santa Bárbara do Sul, e tinha conhecido pessoalmente o Saci Pererê, um
velhinho aposentado viúvo que morava no fim da rua, naquela casa grande e bonita,
cheia de árvores e de flores. Foram até lá. João recebeu os dois garotos. Tão jovens! Vão
ser médicos? Paulo Marcelo era um rapaz da cidade que tinha ido para Minas Gerais
estudar, e o outro era amigo dele, um cabeçudo de óculos, bom rapaz e educado. Se
apresentaram, João precisava ficar sentado. Já não tinha coluna para andar muito, já
beirando os 90 anos, a vida foi breve e trabalhosa. João era filho de Augustus, um
imigrante que viveu no Brasil muitos anos até morrer e não falava uma palavra em
português –- João contou, acenando com suas mãos velhas para pontos inexistentes a
sua frente. Segurava a bengala, olhava para os dois garotos estudantes de medicina
–- conheci o Pererê quando ele era uma criança –- disse o Seu João, abraçado à
bengala. Se sentindo importante sendo entrevistado pelos futuros médicos. Seus olhinhos
azuis brilhavam, sua cara cheia de rugas se iluminou e por alguns instantes ele esteve na
infância vendo aqueles pretos amarrados e aquele molequinho pretinho acorrentado. Os
olhos se encheram de água e João fungou o nariz.
–- depois eu o reencontrei já adulto, quando ele perdeu uma perna em um confronto com
a polícia. Nos encontramos um dia que fui beber depois de passar mal no trabalho. Pererê
estava muito mal la no botequim de quinta categoria, uma miséria, e perseguido, ele ainda
não era um Saci. Conversamos, ele estava se recuperando da amputação na casa de uns
amigos que pretendiam levá-lo até um Quilombo –- disse João, consultando sua memória.
Os dois rapazes escutavam atentamente.
–- Eu soube logo depois que ele se iniciou em religiões ocultas e ocultismo esotérico,
virou estudante de Direito, advogado, praticante de magias negras e brancas, e aquela
coisa toda de religião, Jesus Cristo, Aparecida do Norte, Bíblia escrita ao contrário, filmes
de Polanski –- João ia dizendo e se empolgando, gargalhando.
–- Acusaram ele de ter matado uma família inteira, e prenderam e arrancaram a perna
dele. Mas ele não fez nada foi um outro criminoso, já encontraram, e curiosamente era um
homem branco –- disse João. Tomava o café.
–- Depois disseram que ele tinha virado um Saci. Era uma coisa importante né. –- disse
João. E conversaram a tarde toda na casa deste Senhor bondoso e solitário. Os dois
estudantes de Medicina foram jantar e fazer os programas jovens da classe alta da
cidade.

3.4. Se tornando Saci

Havia um brejo no final da rua. Correu, era o mais veloz que conseguia agora que era um
aleijado. –-Tinha que ir no tempo certo, tinha que ser meticuloso e anotar os detalhes –-
quanto mais lia o manuscrito, mais Guimarães Rosa desconfiava da sanidade mental de
seu escritor, eram palavras delirantes, repetitivas, uma pesada broma sobre a estória dos
amputados escravos, e por isso que a República Brasileira instaurada em 1889 não deu
atenção aos escravos amputados, e eram muitos pelo território nacional segundo dados
de 1860. –- tinha que ir até o princípio do brejo. Chegar na entrada do brejo e pedir para a
mãe do brejo para poder entrar. O brejo é aquele alagado com muito mato, quase não se
vendo que tem água tamanha a cobertura verde. Só se percebe que tem água se olhar
atentamente. –- Sentado em um corredor, de estantes cheias de livros, o jovem
Guimarães lia o manuscrito atentamente. Tinha chegado cedo, ficou a manhã inteira
lendo, só parou para comer e ir ao banheiro urinar. Voltou, leu, almoçou, voltou, leu, até o
final da tarde. De noitinha foi até um boteco tomar uma cachacinha e comer uma carne de
porco com taioba. –- tinha que chegar diante do brejo exatamente seis horas da tarde,
que é quando a lua está saindo no céu, e haverá proteção do escudo lunar. Então, é
preciso entrar sem medo no brejo e andar até o outro lado do brejo, que é o brejo fundo.
Se tiver cobra dentro do brejo? Se tiver sapo venenoso? Se tiver peixe-elétrico que dá
choque? Se tiver peixe fininho que entra pela cabeça do pênis e atravessa a uretra para
se alojar nos rins e parasitar? Se tiver sanguessuga? Bicho, tudo isso para um negro que
está fugindo é algo simples. O maior monstro da natureza é o próprio homem, nada mais
é tão horroroso no mundo do que um ser humano cruel. Pisou no brejo, a sola dos pés
sentiu aquela superfície escamosa, estava pisando encima de um peixe de espinhos,
então pisou suavemente, aqueles brejos brasileiros cheios de peixinhos, de coqueiros, de
manguezais, de água parada, de mato alto, mato da altura de uma casa, de aguapé, de
igarapés, de aves de brejo, de papagaios e maritacas, de coqueirinhos, muitas borboletas
e insetos. Eu já falei de sanguessuga, de vespas e abelhas, de cachorro do mato, de
cobras das mais variadas cores, era matão bravo aquele brejo, descia por uma ladeira, e
lá em baixo tinha um córrego e uma prainha na curva do córrego. Como só tinha uma
perna, dentro do brejo ele foi agachado, com as duas mãos na frente amparando, e i
apalpando suavemente e entrando cada vez mais pra dentro do brejo, afastando as
plantas da cara, tocando em superfícies debaixo da água podre, e sentindo os peixes
passando perto do seu corpo! Tem cobra! Onde tem peixe tem cobra! –- Guimarães
entrou na Igreja de Santa Bárbara, bonita, de inspiração italiana, período clássico romano,
pinturas pictóricas e vitrais coloridos, um sino que marcava as horas para a cidade. Rezou
de olhos fechados. Grande silêncio do templo vazio. –- foi se arrastando para o meio do
brejo, a água já estava no pescoço, engatinhava no lodo escuro, sentia animais de todos
os tamanhos passando ao redor de seu corpo, as mordidinhas dos peixes, o corpo das
sucuris e jiboias passando por ele, e ele ia tateando, os olhos cheios de lágrimas entrando
pra dentro do brejo no início daquela noite, no alto do céu a lua já ia. –- quando
amanheceu, Guimarães foi até a padaria, comeu pão com manteiga tomou café com leite
e broa, comeu empada de azeitona e um pastel de carne, estava com fome, e recusou o
suco de laranja. O hotel em que estava servia um lanche reforçado pela manhã. Foi até a
biblioteca novamente e voltou a ler o manuscrito do Pererê. –- chorava apertando os
grossos lábios, se perguntava porque tanto sofrimento, foi quando escutou o latido bem
próximo dos cachorros, eles estavam chegando! Já sentia os dentes do cachorro no
pescoço dele, o hálito salgado dos cães, pesado, podre, a saliva afiando todos os dentes,
muitos dentes na boca.
4. Voltando decepcionado para Belo Horizonte, Minas Gerais

Quando os cachorros chegaram bem perto veio um estalo do céu, um relâmpago quebrou
o céu num barulho fortíssimo, os cães uivaram de susto e uma chuva poderosa caiu por
todas as partes vigorosa, chuvão pesado imediato, e os capitães do mato e os cachorros
fugiram correndo dali, e ele ficou agachado no meio das taiobas tremendo de frio e de
medo, esperando uma nova prisão e muita pancadaria e talvez o fim definitivo, mas
tomando a chuva na cara, e ao contrário, estava ali vivo. Para estar vivo basta ficar
agachado –- pensou, e ficou ali, mas a tromba água era bem forte heim, os relâmpagos
quebravam trovões pelo céu e aquele ceuzão cinza pesado quase preto na cor, caiu como
chuva salvadora; os capitães do mato estavam quase prendendo ele. Também fosse
Deus inter-vindo. E o brejo foi enchendo de água, e ele deu de nadar. Mas tinha uma
perna só, era no solavanco, como doía, ainda doía toda a extremidade da amputação,
doía muito meu Deus, era assim dia e noite desde aquela tragédia, e agora, se
recuperando, mas novamente fugindo, de novo por nenhum motivo ele virava caça. Seu
corpo cheio de cicatrizes, e agora sem uma perna, e ele nem sabia como perdeu a perna,
foi a tortura na delegacia, mas qual razão o levou a prisão? –- Guimarães ficou de saco
cheio. Leu até aquele trecho no alto da página, ainda havia metade do livro. Fechou o
livro desanimado. Ajeitou os óculos. Ele tinha os olhinhos castanhos miúdos, e lentes
grossas nos óculos. Olhou a biblioteca, vazia coitada. Tinha muitos livros é certo. Era o
pouco costume do povo de ir la para ler. Mas era um tesouro de livros. Se cansou um
pouco da história daquele manuscrito. Era muita tristeza reunida. Foi pra casa, dormiu
olhando as estrelas, o céu estrelado do sul.

No dia seguinte Guimarães Rosa voltou à biblioteca da cidadezinha, devolveu os


manuscritos à bibliotecária, agradeceu, se despediu. Reencontrou seu amigo Paulo
Marcelo. Não havia arte alguma naquele texto, e o médico desistiu de sua pesquisa. Era
um assunto enterrado da história do Brasil, página virada e pronto –- pensou. Foi até o
bar, pediu um jornal e um café. Naquele tempo nos bares se comprava o jornal e o café.
Se assentou na varanda do bar, tomando o café, tirou o chapéu, Guimarães ficou lendo a
historinha em quadrinhos só Saci Pererê, e ria com gargalhadas. Quando ele lembrava do
que estava escrito nos manuscritos, ele ficava triste. Saiu de Santa Catarina no trem das
6:00hs da manhã, chegou em São Paulo às 19:00hs, dormiu em um Hotel da praça
Ipiranga, tomou o trem para Belo Horizonte e chegou na capital de Minas na manhã
seguinte, e saiu andando pelas ruas de Belo Horizonte, já eram 17:45h, o sol da tarde, ele
estava bem, sentiu-se feliz, pensativo. Viu na sua frente o Saci Pererê pulando em uma
perna, indo ali pela rua da Bahia em direção ao Mercado Central. Era uma alucinação, é
lógico. A cultura brasileira é muito poderosa, todas as artimanhas que os brasileiros
acrescentaram à língua portuguesa, e tudo mais, e tantas outras coisas, como a música e
a poesia. Mas isso também era para reagir e vencer a dureza dos anos de formação do
Brasil onde muita gente sofreu barbaridades para que o tecido social existisse. Os Pretos
sofreram atrocidades monstruosas dos donos das fazendas, e o caso do Preto amputado,
o Saci Pererê, e sua história mística e sobrenatural eram um legado à cultura do Brasil,
sobre sua força psicodélica e especulativa. Em dezembro de 1923 foi um natal chuvoso,
muita chuvinha. Guimarães continuou seus estudos de medicina.

Belo Horizonte, 2018


Ódio ao Pênis, e Amor à Penetração:
registros filosóficos de uma Feminista
Mineira (parte I)

David José Ramos

1. Pan-feminismo de 1968: Penetrar é ato político

O ano de 1968 foi um período em que vários conflitos econômicos ocorreram, disputas
políticas nos países tropicais alinhava-os mais uma vez aos rumos estabelecidos pelos
países frios. Esta é uma metáfora, um pressuposto filosófico, elaborado com um esforço
de chegar aos específicos problemas que a causa do Pan-feminismo vislumbrava nos
trópicos, países como Brasil, Vietnã, Chile, os grandes produtores mundiais de bananas, o
calor tropical da década de 60, os ritmos musicais, a produção industrial dos países frios
demandando a produção agrícola dos países quentes, são muitas as suposições que
constituem uma digressão filosófica sobre o tema das causas sexuais humanas no final do
século XX. O movimento das mulheres e o movimento gay nos EUA realizavam em 1968
encontros acadêmicos, populares, acompanhando os protestos da juventude na Europa, a
crise da URSS na rebelião de suas Repúblicas (um conflito de países frios). Os EUA (país
frio) buscavam crescimento econômico, reestabeleciam o capitalismo produtivo, e
arrastavam nas mudanças seus aliados pelo mundo, o contraponto era a disputa
ideológica com o comunismo. O movimento negro dos EUA estava se espalhando para
outras entidades culturais, como os músicos negros, os atores negros, os escritores
negros e os políticos negros, e dentro destas categorias, a categoria de músicos negros
gays, e assim por diante. Tudo isso na década de 1960 oito anos de tensões e conflitos
com passeatas diárias, eventos urgentes nas Universidades, barricadas em salas de aula, e
greve geral de todas as categorias cresceram em oito anos, e 1968 foi a explosão cultural
de formas atrofiadas que podiam sobreviver, podiam sobreviver no capitalismo. Se Max
Weber via os protestantes como entidades poderosas no inicio do capitalismo, a partir de
1968 um forte grupo de consumidores fez certas dimensões do modo de produção
comerem o motor perpétuo.

--- não é condutor de energia. Obrigada. --- disse Judith Butler, filósofa judia, psicanalista
e feminista. Judith tinha terminado sua palestra, e passou o microfone para a brasileira de
Ouro Preto se apresentar. As pessoas aplaudiram muito Judith e o auditório ficou em
silêncio para a jovem mineira palestrar. A jovem pegou o microfone e falou com
segurança:

--- o homem, o macho, é um predador. A testosterona é um estimulante de


comportamentos assassinos --- eu quero me afastar da predação, deixar de ser um
predador! --- um homem vai dizer, mas é mentira, pois ele não consegue. A testosterona
está presente em nossos irmãos gays, eles possuem. Mas, o efeito da feminilidade resolve
parte da agressão natural do corpo com cromossomos XY. Por esta razão os gays e as
mulheres iniciam com ontologias próximas o caminho da luta contra o machismo, contra o
poder destrutivo do homem sobre a sociedade, sobre si mesmos, sobre a produção
industrial. A produção industrial é peniana em 1968 --- disse a brasileira.

2. Pan-feminismo de 1968: Penetrar é ato filosófico

--- eu poderia deixar de ser uma bruxa, não retornar mais a minha vila rica, poderia sumir,
aproveitar e sumir, com essa nova consciência, de que não é possível confiar em nenhuma
pessoa humana, mas é possível confiar na própria respiração --- a moça brasileira pensou.
Respirou fundo. Estava no hotel, lembrando, frio demais, a palestra tinha sido boa. Agora
era voltar ao Brasil. Disse para si mesma.

Chegou a Nova York, 19 de janeiro de 1968. Frio para caralho, era inverno com neve nas
regiões frias, e ela deixou o verão de 37 graus de Ouro Preto, uma mudança grande, o
corpo da mulher estava transformado, como coberto de uma casca de ideias e palavras,
estava vivendo e morrendo. Saiu de Ouro Preto dia 02 de dezembro de 1968. Era uma
viagem longa e demorada em 1968: sair do céu aberto e sol quentíssimo no Brasil, para o
céu fechado, chuvisco de neve e frio para cacete em Nova York. Como permitiram que
uma mulher jovem mulata brasileira saísse da periferia pobre de Ouro Preto a chegar até
aqui? Como foi possível uma mulher pobre da periferia de uma cidade periférica no Brasil
de 1968, auge da ditadura militar das forças armadas brasileiras perseguidoras de
comunistas (e as feministas eram consideradas comunistas pelo regime) vir até Nova York
participar do Encontro mundial da causa feminista e homossexual no meio do caos político
dos EUA? Como pode ela, mulata, considerada negra nos EUA, andar tranquilamente com
seu inglês básico, e se hospedar, locomover pela cidade, ir até o centro municipal onde o
encontro aconteceu sozinha em 1968? --- aqueles que recebem o pênis com corpo, na
buceta, no cu, os corpos que recebem dentro de suas cavidades fisiológicas, recebem o
pênis e a violência. O pênis nunca chega sozinho, chega com abusos, intimidações,
imposições, seja no cu de uma mulher, ou no cu de outro homem, o pênis é impositivo.
Este é o conceito de pênis, nunca surge sozinho, o que está em volta do pênis exerce
violência para que o pênis funcione. Na minha terra, o Brasil, os indígenas viviam nus,
mas o pênis era recoberto com um pequeno estojo fabricado com madeira, e que levava
desenhos e identidade de seu portador. O pênis carrega o ser humano, as guerras, a
produção industrial, a produção acadêmica, o funcionamento da universidade, o racismo!
O racismo tem uma relação com o pênis, com o órgão, o racismo é o pênis sem cor, é o
pênis incolor, é o pênis no cu e na vagina dos negros, na imposição masculina e branca, o
poder do punho do pênis, a cabeça do pênis sempre apontada como míssil, retirando
trabalho sexual de mulheres e gays, para o sucesso da sociedade machista.
3. Pan-feminismo, Perspectivismo tropical e libertação

Na periferia, no lugar mais pobre e tropical de altitude, ali, nas favelas incrustradas nas
serras de Ouro Preto, lá no fim da rua de terra, imagine você, ano de 1968, ela moça de
20 anos, mulher, filha de pais tradicionais e pobres, estudante, bruxa. Recebeu um
convite para uma palestra no movimento feminista dos EUA, em Nova York, e resolveu
participar, preparou os ingredientes, foi para o caldeirão de bruxa, preparou o fogo,
ascendeu, cozinhou o feitiço, foi a biblioteca municipal de Ouro Preto, estudou, fez o texto
da palestra, mostrou para alguns professores, fez a correção, imprimiu, com as
impressoras que havia em 1968, que eram boas, mas não tão rápidas, se preparou,
morava na favela, era pobre, mas a família era tradicional, a mãe rezava o terço e o pai ia
na missa. Ela era uma bruxa tropical pelo fato da sociedade não conseguir conter sua
inteligência e tremenda criatividade, e vontade de viver, ei, meu amigo, era sendo bruxa
mesmo, mexendo na estrutura fundamental da realidade.

--- o pênis sempre chega com a violência --- ela disse. --- E o machismo dos países frios
controla o feminismo dos países quentes! --- ela disse. Aguardou algumas palmas, falou
em inglês, não havia pessoas de língua portuguesa no salão das palestras. Respondeu
algumas perguntas, assistiu às outras atrações do evento. Nevava e fazia frio demais.

--- o pênis é a passagem do homem para a vida adulta, quando ele aprende a manusear o
próprio pênis, e manipular o pênis dos outros homens no sentido de controla-los pelo
trabalho na produção capitalista. O controle da sexualidade masculina é central para a
produtividade da sociedade capitalista no século XX, mas as mulheres produzem tanto
quanto os homens, e sua expropriação de gênero é muito maior --- durante a palestra, ela
fez pequenas pausas, tomou um pouco do copo com água. Judith Butler estava compondo
a mesa, ao lado da brasileira, ficou meditando naquelas reflexões, olhando para o vazio do
mundo, olhando para o nada.

--- a arte barroca tropical brasileira, instaurada no século XVI, na construção de igrejas
dedicadas a Nossa Senhora, a mãe de Jesus na mitologia cristã, arte surgida nas oficinas
de Arte rodeadas de bananas, os imensos bananais dos trópicos, fonte de alimento natural
e nativa --- disse a brasileira. Mas percebeu que isso não tinha nada haver.
4. Pan-feminismo de 1968: Masturbar não é Penetrar

--- a banana é um pênis amarelo do bem! A banana mata a fome atualmente de bilhões
de seres humanos espalhados pelos trópicos. Muitas mulheres e gays colocam uma
camisinha sobre a banana e pronto! Você tem um pênis portátil móvel independente de
um homem e isento de agressão. Ser penetrada por uma banana é para mim mais
satisfatório do que ter um pênis humano controlado por um cérebro machista, egoísta,
niilista! --- disse a brasileira de Ouro Preto. Estava a poucos dias em Nova York e já tinha
imensa saudade de seu caldeirão, de seus feitiços no meio da mata. Ia para o meio da
mata nas noites de lua cheia cozinhar feitiços das bruxas tropicais, e passar a madrugada
inteira na presença das entidades das matas, das inteligências ocultas da floresta tropical,
daqueles que vivem apegados eternamente à sombra de arvores, debaixo das copas, no
meio do mato, nas clareiras, nos brejos, nos barrancos, nos riachinhos, nos bambuzais.
Ah, os bambuzais também são a força peniana da natureza da vida.

--- o problema é o pênis, não é? Este é o problema de todos nós aqui neste auditório. Está
frio lá fora, e nós somos o corpo ferido pela penetração, corpo ferido pelos preconceitos,
corpo quente ferido pela espetada fria daquilo que vem fora, vem de fora, vem da
periferia do que é humano, ejacula metade da vida, células haploides, produção de
meiose, aqueles espermatozoides buscando calor. A temperatura interna do corpo é a
mesma temperatura externa nos trópicos. 36 graus em dias de verão, 36 graus em dias
da primavera. É o sol, meu amigo. Reclama com o sol --- disse a brasileira, arrancando
algumas gargalhadas do auditório. Aproveitou para tomar um gole de água. Olhou para o
lado, Judith Butler estava com expressão deprimida rabiscando uma casinho no bloquinho
da conferência.

--- é preferível a masturbação! Sei que é um tema polêmico, não vou me delongar neste
assunto, alguns defendem, outros, por razão religiosa, abominam, mas, diante da
penetração como forma de obtenção de prazer, é preciso que o macho, que o homem,
que ele sublime, porra. Antes ele sublimar do que destruir no impulso, caramba! --- era
realmente um tema polêmico. A plateia ensaiou uma vaia, começaram a vaiar nas cadeiras
superiores, e a brasileira resolveu abandonar o tema da masturbação. Era bom deixar a
causa unida! --- vamos ao que interessa! --- disse a filha de Ouro Preto.
5. Pan-feminismo de 1968: Penetrar como um feminismo

--- eu acho que minha mãe jamais entenderia minha luta, jamais entenderia as palavras
que eu uso. Eu tento traduzir, mas minha mãe é invasiva, ela apresenta meus defeitos ao
céu aberto, convida os vizinhos para ver o quanto eu sou desprezível, preguiçosa,
descontrolada por ser uma feminista. Para minha mãe o feminismo é uma doença. Seus
comentários são extremamente depreciativos, tóxicos, anti-éticos, mas, eu me calo,
prefiro assim --- pensou a brasileira de Ouro Preto. Era hora de voltar ao Brasil. Sua
palestra tinha sido boa, pegou um resfriado naquele inverno de 7 graus que encontrou em
Nova York. Chegou ao aeroporto da cidade do Rio de Janeiro dia 29 de janeiro. As
assembleias do movimento unificado das feministas e dos gays foram surpreendidos pela
prisão de vários de seus membros, e ela teve que voltar mais cedo para o Brasil temendo
algum problema com a justiça. Aquele tinha sido o último evento que o líder negro dos
EUA, Martin Luther King participou, ele também palestrou sobre o direito dos negros, o
direito das minorias, as políticas públicas para as minorias urbanas, o aglomerado urbano,
as altíssimas taxas de mortalidade da comunidade negra. Luther King foi assassinado no
dia 04 de abril de 1968. Já no Brasil ela leu o jornal, o Jornal do Brasil, publicado no rio de
Janeiro, vendido em Ouro Preto noticiava. Ela voltava caminhando para casa da escola e
viu o jornal pendurado no varal da banca de revista. Meteram bala nele. Os homens dos
lugares frios são ousados na política, são frios --- pensou ela. Tirou dois reais do bolso,
comprou o jornal, seguiu para casa. Ouro Preto em abril de 1968 tinha um clima tenso,
muitas prisões de lideres estudantis e de feministas, sindicalistas, militares desertores e
comunistas. Como ela conseguia ter uma vida normal e ao mesmo tempo ser uma
extremista humanista que expressava seus pensamentos em todas as ocasiões nunca
poderemos saber. Como ela nunca foi presa no auge da repressão de 1968?

--- minha mãe já me denunciou várias vezes na delegacia de polícia. “Comunista tropical”,
ela dizia. Mas eu venho sobrevivendo mesmo assim. Finais de semana vou para o meio da
floresta para fazer as bruxarias, cozinhar as raízes, os bonecos, cozinhar as palavras, os
verbos, fazer elixires, poções e licores, fazer comida no forno também, assar os espectros,
os fantasmas, comer a carne dos fantasmas, a carne das assombrações, a carne saborosa
dos monstros da floresta, ir nos ranchos mais profundos da mata e fazer a refeição, era
isso, não tinha segredos --- ela pensou.
6. Pan-feminismo de 1971: A punição e o Corcel

--- Foi a representação mais absurda que eu poderia ter visto em minha vida este
processo Meritíssimo. Como pode uma mulher vir mover uma ação contra um carro!
Contra um carro! Estamos em plena ditadura, o senhor precisa colocar essa mulher em
pau de arara imediatamente! --- disse o advogado. Sério, pesado. A sala estava cheia,
muitos generais, muitos majores, muitos cabos, muitos sargentos, muitos almirantes,
muitos brigadeiros, muitos sub-tenentes, e alguns padres, alguns professores, alguns
militantes partidários, alguns religiosos de religiões que não sei precisar, religiões
diferentes, exóticas, diferentes mesmo, sombrias, pois estavam ali porque de alguma
forma uma professora universitária conseguiu levar ao Supremo Tribunal Federal uma
causa contra o comercial de uma montadora de automóveis dos EUA, o Corcel. A causa
era contra o comercial do automóvel que estava circulando desde o início dano --- mas
essa mulher está pirando, está enlouquecida, nós precisamos despedaça-la, e jogar os
pedaços pelas praças da cidade, precisamos decidir, veredicto positivo, é isso que
precisamos decidir! E isso é uma verdade, onde vamos jogar os pedaços dela, apenas
isso. Não estamos aqui para decidir se a causa contra o comercial faz sentido, se a corte
suprema do Brasil vai acatar a denuncia contra esta magnifica empresa de automóveis,
isso é em si impossível inadmissível --- disse o advogado acusando. O juiz olhou para a
mulher, havia um conjunto grande de formas de despedaçar um ser humano. Quando o
Coletivo Feminista de Bambui, o CFB, assistiu ao comercial do Corcel, ficaram
horrorizadas, assistiam as novelas da tarde juntas para analisar as injustiças da sociedade
capitalista, quando no intervalo da novela das sete horas viram aquela cena hedionda.
Algumas membras ficaram histéricas, a raiva eclodia. Acionaram professores e lideres
sindicalistas, e por incrível que pareça, em pleno regime repressor, quando era preciso
dispensar o senso crítico, desparafusar as portas e os limites sobre a vida e a morte de
seres humanos. Discordem ou não, existir é um desafio racional --- disse a mulher.
Sentada na tribuna da ouvidoria, era agora escutada, tomou a palavra, o juiz permanecia
em silêncio, como um leão velho, e saciado. O juiz era também um marechal, uma espécie
de intelectual. O comercial mostra uma mulher sendo salva por um homem de uma serra
elétrica. Por que as mulheres são vitimas? Este comercial é muito querido, os carros
venderam bem, o herói, liberta a mulher. Mas a consciência é feminina. E a nova
consciência é feminina duplamente! --- disse a mulher. Como vou te explicar? Ela falou
com uma forma de pronunciar cada palavra, que foi dando poder de fogo a cada passada
na semântica. Sabe como é? Aquela passada na teoria da linguagem, aquela afirmação do
ideal de Wittgenstein, que nos uniu a Paulo Freire, e depois a Hegel, por uma revolução
permanente dos costumes, pela emancipação da mulher dos estereótipos de mulheres
indefesas na mídia. Em 1971 a força feminina na produção industrial está sendo de
míseros 17%. Os homens dominam os cursos técnicos criados pela lei 5692 de 1971, que
institui os cursos profissionalizantes, mas por todo o Brasil as vagas são destinadas quase
que exclusivamente para os homens. Os meninos podem se tornar torneiros mecânicos, as
mulheres não. As mulheres não podem chegar ao poder político passando pela fábrica, e
os homens podem! Ahhhh! Mas adivinhem!!! Que gracinha! As fábricas mais poderosas do
Brasil são as de automóveis, e em 1971 vão encher o país de dinheiro com o sucesso dos
carros! Este comercial ajuda os homens a serem cada vez mais poderosos! Mais
poderosos eu disse! E isso tudo apenas para os homens? É isso que vocês reunidos aqui
estão afirmando? Que suas esposas, que suas mães, suas filhas valem isso? Essa
diminuição de tamanho? É apenas isso que o pênis de vocês podem fazer por suas mães?
Heim? Respondam!--- perguntou a mulher. Por isso o CFB trouxe assessoria dela, que
aceitou, e para ela 1968 ainda não tinha acabado. Se ganharam a causa contra a
propaganda? Se o juiz ficou como aquele carnívoro gigante vestido de preto se
sensibilizando com aquele discurso, e, por fim, mandando cancelar a exibição do comercial
até iniciarem as investigações sobre as veracidades das acusações? Eu não saberia dizer.

7. Pan-feminismo de 1982: O fim da Franquia

--- Foi o final, monja.

--- o final é o silêncio pequeno ser.

--- é não, monja. Foi difícil, foram covardes, traíram, e no fim, era só um anuncio. O pênis
o que importa monja? O que importa? Se ele foi eleito, ou não, como o oponente, se
usamos uma super-metáfora, se esprememos Lacan até o último parágrafo para
concordar conosco, e ele até concordou, até tirou fotos, monja. Você é uma filha da puta
monja, isso sim.

--- sou não pequeno ser, sou não.

--- vai tomar no cu monja.

--- vou não pequena.

--- pequena, você insultou sua disciplinadora. Vá até os bambuzais e ore. Dois dias.

--- essa porra, sô! Carai sô! Filhadaputagem heim?! Dois dias é muito, porra!

--- você perdeu o direito da juventude, você é a resistência na velhice. É mais difícil
aprender, é muito mais difícil aprender, pequena ser.

--- eu tenho que xingar vocês para colocarem as frases no feminino?, ao menos façam
isso espontaneamente uma vez! puta merda, eu tenho é? --- ela coloca as mãos na
cintura, está nua, aos seus 53 anos, era isso, ali, aquela mulher envelhecendo, aquela
mulher ficando velha, entrando em outro gênero praticamente, a velhice é outro gênero
sexual, e ela sabia, olhou os peitos caídos, peitinhos que a 30 anos os homens ficavam
doidos. Ela pegou a toalha, saiu da sala de banho, onde conversava com suas mestras,
estava neste mosteiro, na zona rural de Conceição do Mato Dentro, aquela reserva
ecológica do Governo Federal, protegida, e foi caminhando pelo salão, saiu para o pátio, a
lua estava enorme, e linda. Ela sorriu, um sorriso de menina, ficou com a cabeça olhando
para o céu, vendo as estrelas, as noites do interior, sempre falando tantas coisas, tantas e
tantas coisas. Depois que descobriu a doença, resolvera se afastar de toda atividade
política e curar a espiritualidade, que ela julgava ser a razão de seu adoecimento. A vida,
imensa, dentro da noite, foi caminhando até o fim do jardim, abriu o portão que dava para
o caminho dos bambuzais. As monjas eram rígidas, extremamente, não existiam como
subjetividades, eram partes vivas da instituição, apenas isso. E ela, e ela que tanto viu e
ouviu, e falou, agora se agarrava a fiapos de vida, a instantes bons, aos momentos, sem
que aquelas vacas fodessem tudo com regras do templo! --- cuspiu de raiva, caminhou até
a entrada do Bambuzal
Ódio ao Pênis, e Amor à Penetração: teologia
tropical na polêmica do investimento econômico
em Deus (parte II)

David Gonçalves R.

1. Pan-feminismo de 2021: Penetrar é Ato Religioso

A penetração peniana é um ato quase instintivo, mas, colocado em detalhes pela razão, se
torna uma ação complexa e consequente para muitas estruturas fundantes da sociedade
humana. Como analisam Freud e Bachelard, o pênis do homem primitivo foi a primeira
estrutura orgânica-mental afetada pela descoberta e controle do fogo. Tanto pelo fato do
fogo ser reproduzido pela fricção de madeira naquele período histórico, atitude que
metaforizava o ato de masturbação (também instintivo, porém racionalmente complexo),
quanto pelo fato da mijada para apagar a fogueira simboliza para aqueles homens
primitivos, segundo essa perspectiva, um controle sobre as pulsões, um controle sobre a
chama, sobre o desejo, apagar desejos indesejáveis. Muitas palavras foram criadas para
essa analogia do pênis com o fogo, e isso era tema de encontros de analistas do assunto:
filósofos, historiadores da cultura, epistemólogos, sexólogos, psicanalistas, pedagogos,
urologistas. Áreas da saúde e áreas das ciências humanas se dedicam a abordar o pênis
como objeto de estudo. Entre esses campos do conhecimento está a Teologia Tropical. O
pênis como um objeto sagrado, as simbologias penianas das sociedades indígenas
brasileiras são os conceitos com maior quantidade de estudos, as sociedades indígenas
tinham observação e construção de conhecimento sobre o pênis. Lévi-Strauss trouxe em
1935 para a Europa um estudo sobre o Estojo Peniano de índios Bororo, com desenhos
diversos, materiais diversos, simbologias etárias, historicidade e conteúdo higiênico. A
nudez dos indígenas brasileiros surpreendeu os Colonizadores europeus, que escreveram
bastante sobre o assunto, além de proibir a nudez pública em seus novos territórios. O fim
da nudez pública afetava diretamente as religiões indígenas. Por essa razão pelos
corredores das faculdades de Teologia todas as vezes que a referida nudez indígena era
abordada, brincavam de chama-la de Teologia Tropical. Havia seminaristas que
gargalhavam de rir, quase se urinavam quando em alguma oportunidade o termo “Teologia
Tropical” era comentado. Eu não consegui nunca entender a piadinha por trás dessa
expressão. Em plena aula de Teologia da Libertação Latino-americana o professor citou o
termo Teologia Tropical. Um grupo de alunos caiu na risada. Eu nunca tinha escutado essa
expressão antes. As risadas me pareceram desproporcionais. Ao final da aula perguntei ao
professor sobre o tema, em que momento do curso de Teologia, ou, do curso de Filosofia
estudamos mais aprofundadamente o assunto? Ele disse que não se estudava. --- Você
verá mais pessoas sentadas, olhando para o mar, do que estudando isso --- ele
respondeu. Uma resposta maluca. As mulheres não podem estudar assuntos tão
constrangedores, era o que ele queria dizer. Vi que seria muito difícil explorar o assunto,
porém decidi avançar em minhas dúvidas e curiosidades sobre esse campo de
conhecimento sobre a relação do pênis com a religião. Assunto indigesto, desconfortável,
polêmico, assunto amargo, perturbador, assunto tenso. Era sobretudo um assunto nojento,
um assunto provocativo, um assunto erótico demais, pornográfico demais, satânico
demais, perverso demais --- Me disseram muitas pessoas com as quais conversei.
Primeiro perguntando o que essas pessoas entendiam por “Teologia Tropical”, depois,
informando o principal assunto dessa ciência eu perguntava qual a relação se podia ter
entre o órgão sexual masculino e os temas sagrados das religiões. Mais uma vez encontrei
a risada, a gargalhada em muitas situações. --- A mãe encontrou a gente jogando baralho
de noite, já era tarde da noite, tivemos que comer as cartas, todos os filhos comeram
baralho.

--- Me fale algo positivo? A história de um retorno, por exemplo?

--- Qual foi o lutador mais gente boa que você encontrou pela vida, pai? --- Perguntei ao
Seu Ino. Ele ficou calado, olhando. Há tantas pessoas ruins no mundo, minha filha --- ele
disse. O melhor lutador que eu conheço sou eu mesmo, filha. E você vai ser feliz se a
pessoa mais lutadora que você conhecer for você mesma, filha --- ele disse. Buscava ser
enigmático. Só uma menina apaixonada pelo seu pai poderia prestar atenção fanática a
essas palavras. Mas ela estava bebendo, era o calor tropical, os deuses tropicais, jogou o
copo de cerveja na parede!
--- Conselhos de merda você tem! --- ela gritou furiosa, invejosa, pois não eram conselhos
para ela. Mas ele, o todo poderoso, era inigualável! --- Tenha uma crença pelo amor de
Deus! --- ele gritou!

2. Indivíduo, Sujeito, Pessoa e Personalidade: Impossibilidade em curso

Como as religiões indígenas aceitavam e até justificavam a nudez do ser humano? O calor
da temperatura cotidiana experimentada nos países ao longo dos trópicos faz pensar que
as vestimentas precisam ser oportunas para não provocarem maior sensação de calor.
Mas como entender um homem que permita que sua mulher ande pelada no meio da
tribo? Como entender uma mulher que não se importa que o seu marido ande pelado,
exiba sensuais estojinhos penianos? O ciúme não toma conta, a sensação de exposição
da intimidade não é aterradora nessas sociedades? Como fomos colonizados aqui no
Brasil por uma civilização que tinha resolvido a proibição da nudez pública há milhares de
anos perdemos as melhores respostas dos índios: ele foram em grande número e
diversidade dizimados. Não houve argumento que comovesse Portugal a aceitar a nudez
pública, por razões dessa ruptura com a experiência selvagem, e pela religião com forte
moralidade estética, o Cristianismo. Mais do que isso, a nudez das mulheres indígenas
indicavam comportamentos lascivos para a ótica europeia, as mulheres indígenas foram
obliteradas. Não podemos saber tantas coisas sobre o significado da nudez indígena, pois
toda nossa metodologia de pesquisa já está contaminada com a ideia de que falar do
pênis, da nudez, do corpo, inscreve a discussão no clima de negatividade e vigia.
Aconselharam-me a não avançar nessa pesquisa. Mas no final, do que estávamos
falando? Atores que representavam muito mal aquele papel de pessoa séria. Uma fantasia
que se esfarelava pela falta de talento. Não, não seria falta de talento. Possuem talento
para fingir, mas, o público da peça de teatro amadurece, fica mais exigente, observa
melhor os detalhes. Um grande negócio para colocar uma miragem na saída da caverna.
Eu queria pegar o ponto, saber por que a Teologia Tropical era uma iniciativa intelectual
tão menosprezada, talvez houvesse uma possibilidade revolucionária nesse debate --- eu
pensei.
3. O Jardim de São Jerônimo

Existem seres humanos extraordinários. Seres humanos que chegam à idade adulta
produtivamente sem um braço, sem uma perna, há casos de cientistas com paralisia
cerebral que desenvolvem formulas matemáticas complicadas, há pessoas sem braços
que conseguem escrever livros com os pés. E tantas outras deformidades, triste alívio, de
pessoas que sobrevivem mesmo deformadas e mesmo assim continuam presas por laços
amorosos às pessoas que conseguem amar apesar de. Avisando, inclusive, aos outros
sobre isso, foi-se comunicando. Mas a violência humana também é imensa, um corpo forte
e egoísta, mesmo se existirem prazos ainda se atrasa. A infinidade de parasitas tropicais!
Os trópicos eram inóspitos ao corpo humano no início. Nossa espécie surge nas savanas
africanas, clima desértico. As migrações disseminaram aquele material genético, e tudo
antes das palavras mais complexas. O que dizer das receitas de cozinha? Comer é para
Marx o primeiro ato histórico, e essa foi a primeira preocupação lógica, preocupação da
lógica, a memória era inicialmente sobre comida, todo arco de instintos preservados dos
ancestrais deram o bipedismo, os hábitos tradicionais de parto, criação, comunicação; um
cérebro habituado coordenando a conduta de outro cérebro, o poder sexual --- Parei de ler
nesse parágrafo. Era aquela biografia. O bom de estudar profissionalmente é poder visitar
bibliotecas por obrigação. Depois da Pandemia de covid19 no ano de 2020 não pude mais
continuar a pesquisa, busquei usar apenas os livros que eu tinha em casa. Um cigarro na
mão e um copo de vinho. Houve um tempo que eu não sabia de nada e presumo que eu
estou nele. Como um humorista, como uma pimenta que ardia dentro do pensamento, às
vezes sendo feliz com a própria cultura brasileira, apenas com ela. Outras cedendo à
pressão. Tudo roubado, todos os tesouros, a permanência na terra. E os Deuses? O que
fizeram por eles, o que puderam fazer, os portugueses vieram com o poderoso Deus
cristão. As primeiras comunidades brasileiras datam de cinco mil anos e são chamados
Sambaquis, viviam nos litorais, vieram pelo litoral desde a América Central. O diferencial
era a capacidade de fazer fogo. Os recursos que encontraram nos litorais brasileiros
bastaram para a habitação, são os lugares mais belos do mundo, e por milênios os
moradores das praias brasileiras viveram suas vidas. Grupos surgiam e migravam para o
interior do Brasil, a primeira oposição cultural foi entre os grupos litorâneos, mais antigos, e
os grupos do interior. Há lugares como Santa Luzia MG que recolhemos fosseis humanos
de quatro mil anos, é uma região povoada há muito tempo, que manteve as características
naturais até a implementação da colonização, essa forma de indústria extrativista que
vincula por laços de violência um território ocupado pelas guerras de expansão europeia
do século XV --- São assuntos muito complexos. O mais importante mesmo é chegar à
idade adulta sexualmente amadurecida, sendo capaz de amar, capaz de sentir amor e agir
eticamente, isso é mais importante. Mesmo que ninguém esteja olhando, você não pega
um centavo que não seja fruto de seu trabalho. Tenha moderação com o que encontrar na
rua. Nunca roube, nuca trapaceie, essa é a trilha da moral. Mas isso não era no Brasil
colonial. O Exercito que protegia as fazendas e as minas era rígido com os negros-da-
terra, esse era o apelido dos índios. A partir de 1609 começou timidamente a
comercialização de seres humanos vindos da África como mercadorias para o trabalho. Os
índios se recusavam a cooperar com os colonizadores. --- Isso podia ser falso. Há muitas
controvérsias, mas os livros não estavam me ajudando a entender a relação da Teologia
com o contexto específico dos Trópicos. Antes de me aceitarem de volta na Faculdade tive
que consultar um Psiquiatra. Ele atestou que eu estava bem, me recuperava bem. Usar
drogas ou hipnose foi algo que pensei, mas não houve tempo. A Depressão veio de uma
vez só, no exato momento em que eu tinha mais trabalho. Agora estou voltando,
suportando, consigo estudar. Minha memória estava ficando boa de novo. Tirei das
estantes todos os livros que se referiam ao assunto, empilhei em minha mesa de estudos,
busquei um café, fiz um café, e então, voltei a ler. Qual a finalidade daquela forma
filosófica. Por que não? Ficar falando o que eu acho sobre todas as coisas, e não saber o
que eu sinto? Se eu não me sinto muito bem, não quero ser espelho. Mas não era isso, era
a vontade de falar sobre a importância de viver no mundo específico das florestas,
cerrados, manguezais e pantanais. A grande quantidade de chuvas no verão quente, a
luminosidade constante. Alguns desertos, montanhas, mas sobretudo a biodiversidade. Os
seres humanos que viviam há gerações nessa terra, quantas melodias heim? Esse eu
tivesse múltiplas personalidades? Como eu saberia? O contato com a natureza, a fuga da
concentração de seres humanos, os Deuses dos ancestrais Sambaquis tinham qual
profundidade? Qual eram seus poderes? --- É isso, os poderes sexuais dos deuses, a
sexualidade. O Cristianismo tinha como sua história central a fecundação de uma mulher
virgem. Isso parecia conteúdo para debate entre os índios, era um novo Deus, um Deus do
Oriente Médio, tão distante, tão fora da cosmologia das imensas florestas. Mais do que
isso --- Eu precisava de um abraço, a vista de minha janela é a favela, imensa, ruas
apertadas. Depois de tudo, era o reino dos tribunais do crime, os tiroteios pela noite,
música alta. Motocicletas barulhentas. Mas eu posso dormir com isso. Eu tive uma mãe
abusiva, extremamente intrusa, agressiva, colapsada, me ensinando a ser mulher de
maneira pequena. Fiquei parecendo uma pessoa dividida quando fui percebendo o
tamanho da história das florestas. Vou como paciente ao posto de saúde de meu bairro, e
tenho consulta com médicos que não se importam. Simplesmente não se importam. A
verdade não vai se revelar no terceiro encontro. Eu poderia começar com o estudo das
religiões que sucumbiram ao cristianismo dos colonizadores. Também poderia começar
por mim mesma, pesquisando que tipo de fato físico do ambiente tropical me sugere a
existência de forças racionais transcendentes. O que nesse mundo de calor faz acreditar
em algo maior que a vida? O povoamento humano nas regiões tropicais do planeta terra
cresceu muito rapidamente desde o período das grandes navegações europeias do século
XV. Não podemos dizer que os índios eram pessoas boas. Não existem pessoas boas.
Existem? Quando eu disse que minha personalidade era uma impossibilidade em curso,
era só afirmando que o futuro é imprevisível, mas eu não posso ser amiga de toda a
humanidade. A cidade do pecado, eu muito jovem fui conhecer a cidade do pecado. Era
melhor do que viver com minha mãe, aquela pessoa abusiva. Talvez por isso me intriga
estudar a relação do pênis com a religião. Minha mãe parecia ter um pênis escondido
debaixo daquela saia. Era aquela religião que me penetrava. Sentimentos são como o ar
de uma respiração. Se você prende o ar de uma respiração por muito tempo? Emoções
escapam mesmo. Prometi a mim mesma que seria uma boa professora, preciso estudar
isso para ensinar meus alunos. Eu não tinha dinheiro para pagar meu tratamento, os
impactos de ter uma infância atordoada pelas explosões de humor lá em casa --- Tudo isso
vai atrapalhar minha pesquisa, esses pensamentos. O que eu sou? Uma aberração?

4. Tecnologia e Religião

Minha mãe foi modelo de moda, desfilava desde criança, alta, cintura fina, mãos grandes,
hiper-ativa, era a fonte da autoridade em nossa casa. Mas adoeceu na velhice, pessoas se
emocionam, o que é a história de vida de um ser humano? A sequência de aventuras,
lutas, transtornos, afetos. E ela se quebrou em algum momento. Quando não pode mais
desfilar. Qual a influência dos deuses tropicais nos destinos do Brasil, dessas terras?
Agora é só Jesus? É só isso? Padres e pastores, e o sermão da montanha? Santa Ceia?
Dízimos! --- ela gritava. Em uma dessas crises em que ficava nua, se enrolava no pano da
mesa e saia pelo jardim desfilando e gritando suas filosofias vãs. Depois de um tempo
paramos de tentar impedi-la, ela já estava com os cabelos brancos, devia saber o que é
certo ou errado. Sempre mencionando sua ascendência italiana. Para tudo os italianos
eram melhores. Tivemos grandes polêmicas e discussões quando eu me tornei jovem,
fiquei adulta legalmente. --- A força de Deus está nitidamente presente na natureza. A
diversidade de seres vivos das florestas tropicais pode ser uma benção de Deus, das
divindades cristãs, que são as mais populosas nas sociedades tropicais. De forma mais
velada Deus está na tecnologia. As sociedades humanas necessitam da tecnologia para o
formato atual de produção e acomodação da imensa população humana, principalmente
no momento de luta contra o vírus covid19 quando as formas de interação social humana
passaram a ser à distância --- Como Deus se relaciona com a tecnologia? É da mesma
forma como ele se relaciona com a natureza? Essas duas perguntas precisam de uma
proposição anterior sobre que tipo de Deus estamos referindo --- Mas a religião não tem
mais força efetiva na sociedade, a religião não manda mais nada! --- Engano seu! Engano
seu! As religiões são forças políticas determinantes, decisões das menores às mais
decisivas passam pela consulta da experiência mística decodificada pelas várias
denominações religiosas. --- minha mãe frequentava festas noturnas, e chegava furiosa
logo pela manhã, era instável, tinha dias terríveis e outros dias felizes. O que é mais
estável do que uma religião? Como os amigos imaginários que as religiões sempre
apresentam aos seus fieis virão dessa vez? Todos começam a conversar mentalmente
com santos e com líderes, a mente começa a ser invadida pelas personagens bíblicas, ou
personagens culturais das religiões, e a ideia contemporânea mais eficiente é o Deus
monoteísta patriarcal, ele é a referencia mais realista de nossas convicções, sua missão é
simples: salvar o ser humano da morte eterna. Se tivessem lido os teóricos do fascismo
estariam prontos para tentar a maldade verdadeira!

5. O que trouxemos da Guerra do Paraguai (1864-1870)

Um processo diferente de comunicação com a energia criadora. --- Nos filmes o herói se
sacrifica. Nos filmes de guerra sempre existe alguém que sustenta a moralidade. A Guerra
do Paraguai foi a maior guerra da América tropical. Dizimou 75% da população do
Paraguai. Dezenas de milhares de pessoa foram mortas. As maiores batalhas da guerra
foram atos de violação dos direitos humanos em tribos indígenas --- Como as religiões
indígenas viram esse momento? Era o ponto de vista deles. Para se falar de Teologia
Tropical é preciso encontrar um ponto de vista privilegiado, e o lugar das minorias
derrotadas, a empatia com esse grupo nos ajuda a ver melhor esse fenômeno chamado
guerra. Não podemos ver a guerra apenas com os olhos de um soldado. Nem mesmo um
soldado pode ver a guerra apenas com perspectiva militar hierárquica nacionalista. Valores
mais profundos e universais precisam ser admitidos. Nesse sentido algumas correntes do
cristianismo imposto pela colonização se tornaram solidárias aos derrotados do processo
de expansão das indústrias europeias --- O que você conhece sobre isso? É a sua
tentativa de achar um conforto nostálgico na velha guarda do marxismo católico da década
de 1970? --- Eu não diria isso. A Esquerda teve grupos terroristas espalhados pelo planeta
inteiro na década de 1960 --- Isso você está inventando agora. Você tem um conjunto de
palavras fáceis e acha que pode usa-las com a lógica certa para o convencimento. Musica
de igreja isso pra mim, não me comove! --- Qual é o seu problema com o pênis? Você está
achando que á uma novidade na descrição de que os homens primitivos do Brasil
decidiram a nudez! Decidiram nada, eram deprimentes seres sem evolução do raciocínio e
nem a forja de metais! --- ora, não seja ingênua! E que tipo de Deuses você poderia
esperar de um povo assim? As sociedades humanas de Santa Luzia, antigas, milenares ali
naquela região central do Estado de Minas Gerais, o que eles faziam com o pênis, é isso
que você quer saber? Como eles descreviam a relação do controle dos Deuses sobre os
fluidos sexuais masculinos! --- Você está repetitiva, repetindo essa idéia fixa até acreditar.
O que acha que teus colegas da Teologia vão dizer sobre o tema que você está passando
horas para achar uma saída? Heim? Eles vão rir querida. Apenas rir! --- Agora quem está
sendo ingênua é você, garota. --- eles vão rir? --- Mas é claro que vão! Eles vão gargalhar,
e vão lembrar dessa piada para sempre! Vão lembrar de você e vão rir, vão se urinar de
tanto rir de você, vão lembrar de tua cara e nos primeiros segundos dessa lembrança vão
estar rindo. Mas não vão se ocupar disso nem um instante mais do que vale essa piada!
Quando terminar o curso vão rir da colega de sala que estudou Teologia Tropical.

6. Boi Bombeiro: se tivéssemos destruído o Pantanal não haveria incêndio

O Deus Cristão foi forjado em temperaturas de deserto. Mas seus invernos eram frios e
secos, com nevascas. Quando chegou aos trópicos viu que não tinha neve no natal. Não
tinha. Aquela precariedade dos trópicos, dos países tropicais em não possuírem neve.
Lamentável, lastimável. Além do mais, o Brasil em 2020 decidiu destruí institucionalmente
dois de seus principais biomas: A Amazônia e o Pantanal. Tudo destruído. Inventaram o
mito do boibombeiro para as crianças, fizeram bonequinhos do boibombeiro, ele virou uma
personagem do mundo infantil, as crianças adoravam. E o que o boibombeiro ensinava em
suas estórias infantis? Ensinava que desmatar e queimar as matas era bom! As razões
para a destruição desses espaços é a produção econômica: grandes faixas de terra serão
destinadas à produção agrícola --- as crianças aprendiam isso, as crianças repetiam isso
na escola, passaram a valorizar o desmatamento, pois era bom destruir o mato. Acabar
com os bichos do mato. O mato era onde as pessoas iam transar, transar no mato. Tinham
que acabar com o mato --- era o que pensavam na época. O Deus do Cimento e o Deus do
asfalto são entidades divinas que se originam do processo de fricção dos objetos penianos.

--- Você está errada. Masturbação não é a fonte do poder imperialista. É o contrário. Por
não se masturbarem os homens passam a buscar dinheiro --- ela disse.

--- É uma questão que ninguém colocou ainda --- eu disse. Havia dias em que ela estava
calma, contava sobre os tempos em que era modelo, riamos, ela bebia, bebia e ia dormir.
Eu sabia que pela manhã estaria rancorosa novamente, como o ciclo que precisa de um
sol.

A natureza era criação de Jesus, mas ao mesmo tempo era inimiga de Jesus, ela era útil
para o homem, mas era perversa com o homem, e o ser humano passou a detestar isso. O
humano detestava isso! A natureza era inimiga da sociedade, e o Brasil tinha natureza
demais, era muita natureza, era mata demais, terras improdutivas demais, eram muitos
rios, eram rios demais, selvas demais, cerrado demais, pantanal demais, eram muitos
animais, era animal demais da conta, era bicho demais e aquilo precisava ser controlado,
por isso a bandeira do Brasil tinha essa frase, Ordem e Progresso: ordem para a natureza
e progresso para os homens! Era isso que meu pai me ensinou, ele falava comigo isso.

Meu pai tinha um apelido, era Inoprafenti. Era a junção de algumas palavras: indo para
frente. Juntava isso e virava o apelido do meu pai, consumindo com uma letra ficou Ino.
Meu pai era forte, minha mãe era bonita. Meu pai era bastante forte, isso era algo
independente de minha existência, se eu estivesse viva ou não ele continuaria sendo forte.
Era uma força que eu passei a conhecer. Ele tinha sido lutador de boxe no sertão, viajava
de circo, naquela época o circo viajava pelo sertão, e ele ia junto, com mais alguns
lutadores, e eles lutavam, tinha a hora da luta nos espetáculos. Nunca se rendia, sempre
caminhava para frente. Inoprafenti virou Ino, Seu Ino, Quando eu nasci meu pai já era seu
Ino. Ele tinha um temor no coração, por um motivo ou outro isso era bom, ele não recusava
confessar seus medos, não era como os homens comuns. Tivemos muitas conversas.
Uma vez estávamos sentados na varanda da casa, do outro lado do rio era a reserva
florestal e era densa, verdejante. Os pássaros escutávamos lá de casa. Era noite fria, o
inverso tropical, meu pai disse:

--- Inverno serrano é frio demais, frio cortante. As pessoas são frias assim comigo. È
preciso gerar calor próprio, minha filha. Feito coisas atrasadas que precisamos fazer --- ele
disse. Era uma noite de inverno, estava frio, meu pai levantou de. madrugada para pitar,
ele foi no quarto dos meninos, onde eu dormia, onde todos os filhos e filhas dormiam, me
chamou e eu fui com ele, ficamos lá fora. Meu pai ascendeu uma fogueirinha, ligeiro e
experiente, em cinco minutos estávamos ao redor do fogo sentados, vendo a serra, e lá
embaixo o vale, o céu estrelados, a lua, eu fui com o cobertor mesmo, fiquei ouvindo meu
pai, eu o amava. Ele era fascinado com uma música, chamava My God is the Sun, de um
grupo musical norte-americano (Queen of the stone age). Meu velho pai amava essa
música, escutava todos os dias, várias vezes ao dia, o que irritava minha mãe. Ele
escutava essa música direto e recto. Seu Ino! Ele aquela música. Cantava para mim, e eu
me encantava com a voz de meu pai.

--- São Francisco de Assis tinha esse ensinamento, sobre Deus e o Sol. Ele dizia que o Sol
não é como Deus, o Sol é uma criatura de Deus. Mas o Sol é perfeitamente como Deus
com relação ao amor. O sol ama tudo ao seu redor, e lança seu calor. O sol ama o ser
humano, e dá o calor, e a luz, minha filha. É por isso. Essa música é perfeita para entender
isso --- ele dizia, cantava a música, com o uso bem indevido do idioma inglês, pois meu pai
era de poucos estudos, mas ele brilhava. Eu fui escutando ele e depois adormeci. Acordei
em minha cama com o sol das 9 horas, meu pai já tinha partido. Seu Ino se foi.

7. Teologia Tropical

A Mineração é a indústria mais importante de muitos estados, e foi a principal atividade


empresarial laboral de sociedades brasileiras do século XIX. A mineração é uma
penetração. O modelo analógico do pênis humano foi transposto para as imensas brocas,
ferramentas fálicas de perfurar a terra. Gigantescas máquinas trabalham 24 horas por dia
debaixo do solo de milhares de cidades penetrando a terra, cavando, arrancando
substâncias de valor e despejando o restante dessa penetração, o material
metaforicamente abortivo, tóxico, nos rios e regiões de aterros. As justificativas legais para
que um empresário da mineração possa comprar terras do Estado Brasileiro que estavam
sob proteção ambiental são fatos políticos cotidianos. Pelo pais inteiro a população
humana vai ocupando e forçando os biomas tropicais a reagirem de acordo com a lógica
produtiva. A principal fonte de pensamento religioso dos trópicos, na América e África
tropicais é o cristianismo, perspectiva monoteísta e messiânica. O messianismo é também
um niilismo com relação à manutenção da realidade do planeta: o ser humano como
veículo do pecado condena à destruição pela punição divina, através de si mesmo toda a
criação, todos os seres vivos que compartilham com ele essa realidade vão explodir em
chamas infernais no final dos tempos, o mundo eterno será outro, em outro lugar, com
outras regras. Isso foi o que anunciou Jesus Cristo, o final dos tempos. Em seu desespero
de enfrentar o Império Romano e a Teocracia Hebraica o fundador do cristaníssimo previa
o ocaso dos seres humanos, e, com isso o ocaso da terra. Este entendimento superficial
das profecias de Jesus pode revelar a relação entre o destino místico do ser humano e o
destino material do mundo: não estão dissociados no cristianismo: qual seria a razão da
terra existir sem os seres humanos? --- Pergunta boa, pergunta provocativa. Mas pode ser
perda de tempo isso. O Ser humano povoou todo planeta terra, lugares frios e lugares
quentes foram apropriados. As respostas que temos da vida humana nos lugares quentes
é o recorte que temos aqui, e os fenômenos da vida e da morte, que geram a crença em
Deus e a criação das religiões, são os dados analisados. A vontade dos indivíduos é
aleatória, os esforços somados pelas bilhões de vidas agindo continuamente vai mudando
a face do planeta. Qual é a vontade de Deus sobre o planeta terra, qual o plano específico
ele tem para o planeta terra em si? --- mais do que isso: quais os planos de Deus para os
trópicos? --- Essa é a pergunta minha irmã! --- Não sou sua irmã! Sou você mesma! --- Foi
isso que eu quis dizer.

8. Arrancada a Perna esquerda (Parte II)

Os estudos para minha pesquisa ficaram extensos demais, e o assunto foi tirando um
pouco meu ânimo --- Quanto mais percebo que o agradecimento por eu estar viva devo dar
a uma entidade que tem um projeto de vida humana se concentra na experiência
masculina! --- Era essa a criatura mágica? Quando a gente é criança o mundo é cheio de
criaturas mágicas, minha mãe ligava para o serviço religioso e um pastor vinha conversar
com ela pelo telefone, e ela pedia ajuda, pedia orações, pedia que o diabo saísse de nossa
casa. --- O que eu penso disso? Estudei que as meninas têm uma expectativa mágica de
que um pênis vai crescer, isso na infância. Quando as diferenças anatômicas ficam claras
para as meninas, a promessa de que um piupiu também vai brotar na menina --- Isso
acabou não acontecendo! --- sim, isso não aconteceu! --- Estiveram cuidando bem da
criança? Colocaram câmeras no quarto da criança? Você teria humildade para isso? ---
Você espera muito de mim. Eu estou seguindo a trilha. Recapitulando: Homens e mulheres
viviam nus nos trópicos. Existiam Deuses que eram cultuados por essas pessoas, cultos
que não eram apenas cerimônias, mas fonte de justificativas e razões para a existência de
tudo que existe. Que tipo de reflexão havia sobre os órgãos sexuais dos Deuses?

Era como meu pai dizia, o Sol é de todos, para todos, as primeiras religiões tropicais se
voltaram para o Sol imediatamente pois o sol nos trópicos é muito mais significativo, é mais
luminoso e mais quente, está em seu contato mais íntimo com a superfície da terra, e o sol
brilha para todos. Para todos nasce o sol, ele se não é Deus faz parte dos planos de Deus,
com certeza, com toda certeza a evolução da vida no planeta terra não teria nem
começado se não fosse por essa gigantesca estrela. E há sois maiores e mais potentes do
que o nosso, com certeza com certeza. Mas, é o Deus que temos, é o sol que podemos
ter, e é suficiente. Os órgãos sexuais dos deuses? Foi uma passagem da lógica: do Deus
sol para o Deus corpo. Quando existiu Deus corpo, então o sexo foi a preocupação
seguinte, e nesse momento ao ser humano é proibido saber sobre os pensamentos
sexuais de Deus. Mas Zeus, o deus grego tinha pênis e muitos filhos! O Deus Jesus é
diferente, é o caminho inverso, é o homem se desfazendo de sua sexualidade para
alcançar o corpo divino, mais pleno e incorruptível. Como eram os deuses dos índios cara?

--- Me diga! Explica como pode uma Teologia Tropical! Como pode isso. É um paganismo
barato, uma tentativa de gerar no vácuo, mas isso não pode ser. Com certeza não pode
ser, com certeza. Será?

9. A Amizade entre a Mulher e a Serpente

Quando eu vi que eu não tinha um pênis? Eu já estava viciada em pornografia. O reino de


Deus era o reino do dinheiro, não havia dúvidas. Era parte do Grande Capital, a religião
era parte do Grande Capital, o culto das armas, da violência do Estado, da virilidade dos
comandantes. Depois que o desejo é realizado, o calor e o metabolismo do desejo, o pinto
murcha, isso eu sei, o pênis vira pinto murcho depois do gozo, imprestável por muitos
minutos, o que você vai dizer da necessidade de deixar o pênis duro o tempo todo?

Aquelas mulheres que vestiam batinas e realizavam cerimônias cristãs na idade média
foram banidas para dentro do fogo santo, porra! Entenda isso, a questão era real, caralho!
Tentando analisar os líderes, mas eles são como os homens comuns. Apenas seres com
pênis podem elevar o corpo de Cristo sobre a cabeça e invocar a transubstanciação do
pão, minha filha --- ela disse. Ela tinha uma incompreensão dos problemas nacionais que
era impressionante!

Apenas com a presença do pênis dentro das calças dos padres eles podem fazer isso,
porque são homens! O corpo de Cristo reage ao pênis do padre de que maneira? Qual a
relação do suco de uva da santa ceia com o pênis do Pastor?

--- Você está pegando apenas as religiões judaico-cristãs, ou as positivistas europeias.


Mas é curioso que você fale das religiões africanas e das religiões criadas no Brasil e não
veja nada de Ecologia científica nisso! Não creio nesse raciocínio, querida. E você
concorda com isso --- ela disse

--- Sim! Porque são homens, eles podem fazer o pão virar o corpo de Cristo porque são
homens! E os lideres das religiões mulçumanas também são homens. E todos os grandes
Pastores, Bispos, Apóstolos, Missionários, todos são homens!

--- Pare com isso. Pare. Não fale assim. Não fale assim de noite. Eu tenho medo das
maldições que essas pessoas portadoras de pênis fazem. O pênis dentro das cuecas tem
um imenso poder, ele está ali murcho e quieto, mas ele está irradiando poder, na base do
pênis é produzida a Testosterona, a substância química mais importante do planeta terra
hoje. Eu falo de hoje, do agora, neste exato momento eram os portadores e produtores de
testosterona então tomando atitudes coerentes, racionais, guiando os destinos do mundo,
do universo humano, de forma harmônica, de forma justa. A testosterona produzida nos
trópicos pode ser de baixa qualidade! Mesmo no caso brasileiro!

--- Mentiras! Sua mentirosa de merda! Mentiras! --- ela começou a se alterar. Estava no
iniciozinho da histeria, quando a voz da histérica vai ficando aguda. Se eu não tivesse
útero também eu jamais saberia desses detalhes do desencanto feminino.
--- Não, não é mentira, é só um tipo de tumor cancerígeno dentro de um conceito filosófico,
ele vai tomando o conceito, vai abrindo, vai crescendo, vai respirando como se a
normalidade fosse a doença, é por isso que você não está me entendendo! Não é mentira!
A Testosterona está até mesmo no Sangue de Cristo. Cristo era um homem, tinha um
saco, pelos pubianos, duas glândulas do tamanho de amendoins gigantes entre as pernas
produzindo testosterona! É isso, o liquido sagrado, apenas algumas gotas diárias
produzidas e eis! O corpo do homem se aflora, é por isso que Deus é masculino!
Entendeu?

--- Sua vaca! Mentirosa, vaca! Está mentindo sobre isso? Está mentindo que conhece o
Homem, que conhece o ser masculino! Mas você não conhece nada, você tem perereca!
Entenda o lugar da vagina! Entenda e aceite. A constituição brasileira de 1988 coloca a
Vagina no devido lugar! --- gritou ela. Ajeitou os cabelos, respirou, dramática, só de
camisola e chinelas, de pé, na porta do banheiro, respirou, se acalmou, tinha acabado de
chamar a própria filha de vaca --- Você é muito frágil minha filha, minha criança! Você é
quase estúpida de tão frágil perspectiva diante da vida! Diante da vida, minha filha! Isso é
horroroso!

--- Mentira! Sua cobra venenosa!

--- É de você a mentira que brota como suor no seu corpo, sua vaca! --- disse
covardemente!

10. Sexo e Democracia abençoados por Deus

Eu tenho viagem marcada. Reuni o material, era importante. O natal anti-tropical estava
em toda parte. Neve no natal. Isso era a forma que o Deus frio conseguiu chegar e
dominar os deuses tropicais. O natal era frio onde Jesus nasceu? Mas o natal não é Jesus,
o natal é uma festa de refrigerantes! Como meus colegas de teologia vão entender minha
tese sobre Teologia Tropical é uma incógnita. Não vou ofertar nenhum caminho
metodológico, apesar de elogiar a metodologia de estudos que privilegie a influência do
clima tropical sobre as religiões.

--- O Natal anti-tropical era um dos medos do meu pai, Seu Ino. Ao menos alguma coisa
em tenho que dizer. Seu Ino não matava uma formiga, ele tirava a formiga do seu caminho,
ou evitava pisa-las. E ele dizia que os Trópicos são os lugares mais cheios de seres vivos
do planeta terra, mais do que até mesmo a diversidade de vida dos oceanos era a
diversidade de vida nos trópicos. Antes da chegada do colonizador. Sua expressão facial
era a de uma pessoa que estava decepcionada com a forma como a espécie humana se
deleitava violentamente com a destruição de vidas, de vidas de insetos, de aves, de vida
de plantas, destruição de vida de tudo que era diferente do ser humano, ou mesmo,
domesticação intensiva demais do que era possível domesticar, até chegar ao momento
em que o ser humano começou a fabricar formas de vidas diferentes em laboratórios.
Aquelas coisas que a natureza leva bilhões de anos e os corpos sem ética querem fazer
em algumas semanas. Era isso que Seu Ino me ensinava. E eu escutava, o que eu poderia
fazer?

Cruzes espalhadas por todo território tropical, religiões indígenas e religiões africanas
levadas como paradoxo por todos os lugares onde a escravidão de negros se tornou uma
prática comercial importante. Os crucificados eram os escravos.

11. Assombração é um estado mental, um objeto do Psiquismo

Se eu fosse uma mulher europeia e vivesse no século XV e desejasse morrer queimada


em uma fogueira em praça pública diante de uma igreja católica ou protestante, o que eu
deveria fazer? Falar sobre o pênis dos Deuses, de Jesus, dos Santos, já seria um motivo
de condenação. --- Acostumada a ver imagens de figuras diabólicas do pintor holandês
Hieronymus Boch, aqueles diabos com grandes órgãos sexuais, reparei sempre que as
figuras de santos parecem seres assexuados. Em nossa memória vemos Jesus europeu
cercado de judeus mulatos, são as pinturas da tradição paroquial. ---em vidas humanas os
europeus pagaram o maior preço, e ainda assim espalharam seu DNA pelos quatro cantos
da terra, e a semeadura genética mais bem sucedida foi os EUA. Os brasileiros, mais
tropicais --- você deixou de ver muitos filmes garota. Mas é tanto filme que você não viu,
deixou de ver, que tua cultura cinematográfica fraca está afastando você dos centros de
compreensão de muitas piadas, muitas associações. --- Se um Deus tropical abençoa a
nudez humana, ela se apropria dos corpos pelados. A invasão foi assumida, se ergueram
templos barrocos por muitos pontos dos trópicos --- Sentada aqui e pensando sobre isso,
talvez não seja um conselho, mas uma ordem, fazer um bom trabalho pode ser chocante
para muitas pessoas, acostumadas com o calor e os mosquitos. Eu me arrependeria? Eu
gostaria de me esquecer dos atos de heroísmo e coragem, uma mulher precisa ser
corajosa para viver no calor dos trópicos. --- Como posso relacionar tecnologia e religião,
como posso continuar o processamento. Eu estava me preparando para receber a invasão.
Invasão, penetração, aceitação, no metrô, no ônibus, no avião, o calor do corpo, qualquer
coisa para me livrar do trabalho amanhã, as noites curtas e com bastante calor.

--- Nos lugares mais altos há o vento, e fresco também é a floresta, a mata, o bosque, ---
Minha opinião sobre destino. Uma opinião irônica é a de que tudo é um teatro social, só
isso, sempre isso. Se você tentar fugir nunca ficará de pé --- a mãe dizia isso. Imaginamos
a mãe desfilando cambaleando pela passarela, há há há --- Não ria da mãe, coitada.

--- Ser mãe é expressão menor. A natureza precisa mais da mãe do que do pai. A religião
precisa mais do pai do que da mãe. Deus é pai e não é mãe. Quem é a mulher do
conteúdo da fé? Qual é a fé no que há de feminino nos trópicos! --- Os colonizadores não
fariam sem lucrar, sem incrementar suas vidas, a Religião da idade média cristã via a
nudez indígena como sinal de fracasso moral. O monoteísmo possui argumentos lógicos
para relacionar a figura de Deus com sensações primitivas de necessidade do pai
provedor.

--- Não, ninguém mais vai ficar, você vai ver! O auditório está vazio por causa do covid19.
As primeiras bombas atômicas que caírem sobre os Trópicos, Irmã, nós conseguimos.
Fomos colonizadas, fomos estruturadas, estamos inteiras dentro de uma estrutura imóvel
conceitualmente. --- Ensine um alienígena a ter fé. Se ele construiu uma máquina para
atravessar meio universo e chegar até a terra é porque Deus está com eles, não é? Deus
está do lado da melhor tecnologia?

12. Novamente tragédia para se ver

--- Os seres humanos nas regiões tropicais desenvolveram poucas vestimentas para os
dias mais quentes, e como estavam nus diante de Deus, resolveram ser seres pelados o
tempo todo, tudo de fora! Seios de fora, xoxotas de fora, pintos de fora, cus a mostra.

--- Nossa, quanta franqueza! --- ela disse. Quando Seu Ino partiu ela passou a beber com
mais frequência para ter ironia suficiente
--- Que tipo de punição existencial os habitantes dos trópicos vão pagar? A guerra de
colonização era chamada de Descobrimento. Uma descoberta! Mas na verdade era uma
fuking guerra de colonização como foi uma grande moda se fazer. A extensão territorial
habitável na terra é imensa. Os Desertos tropicais podem se tornar férteis com a
tecnologia, e as áreas destruídas pela colonização e sedimentação humana também
possui tecnologia de reflorestamento suficiente para retomar biomas ameaçados

--- Tão fácil propor isso, tão simples, tão gigantesco. Meu professor de antropologia na
Faculdade solicitou que todos os alunos tivessem proficiência em Geografia. Segundo dia
de aula ele dava uma prova de Geografia com toda matéria do ensino fundamental e
ensino médio da Educação básica do Brasil. Há muitos alunos que fracassam nessa prova.
Hoje pode ser a última noite, a última página do livro, os momentos de fechar um ciclo de
pensamentos. Em primeiro lugar perceber que o pensamento sobre a razão da vida nos
trópicos, as razões para a abundância de seres vivos, as características dos vários biomas
específicos dos trópicos, com sua casta de animais e vegetais fortemente adaptados, e,
principalmente, o estimulo e a vontade de estudar a imensa extensão das terras tropicais
brasileiras. Aquelas pessoas não sabiam nada da geografia do Brasil, nem pensavam
nisso, eram pessoas imersas demais em seus personagens pessoais, inalcançáveis dentro
de seus universos herméticos.

--- Vimos os processos de concentração de renda no Brasil, esses processos são


patrocinados pela devastação dos biomas, e, abaixo da terra, a devastação dos veios e
estruturas internas do patrimônio ambiental. --- Preciso tomar um café, um minuto e volto a
raciocinar sobre isso. --- eu disse. Me levantei e fui até a cozinha. Conversar com minha
mãe estava difícil naquele momento. Parecia ser a conclusão. Eu estava decidida a me
calar sobre o assunto por um tempo. Mas não havia assunto, na verdade, tratava-se de um
esforço para pensar minha afirmação identitária! Minha identidade tropical, meu Deus! É
tão difícil agradecer por isso? Não vou revezar com minhas convicções.

--- O assassinato em massa realizado por uma Mineradora de Minas Gerais, uma
multinacional, em Brumadinho em 2019, levou a vida de 300 seres humanos, e isso foi
vontade de Deus? --- ela disse. Eu voltei com o café, para mim, não trouxe para ela.

--- As explicações sobre a vontade de Deus e as tragédias humanas são difusas e vagas,
mas existem e fundamentam a crença humana na vitória de Deus sobre a morte. A morte é
o fenômeno constante entre os seres vivos nos trópicos: uma planta mata a outra e suga
todas as suas reservas, um herbívoro come a planta, uma larva vira mosca, milhares de
moscas surgem após a chuva, milhares de sapos, milhares de cobras, milhares de águias,
essa quantidade de irradiações da energia alimentar dentro de um bioma tropical clássico,
pela infinidade de camadas de funções biológicas milhares de seres vivos compartilham os
espaços de terra mais bem iluminados e aquecidos pelo sol nessa faixa de terra que fica
entre os trópicos e a região equatorial.

--- Essa fantasia de harmonia transfere para a imaginação sobre os seres vivos a
moralidade das condutas éticas. A propaganda da ética, de seus benefícios mesmo sem
razões racionais é um fator para limitar as ações destrutivas do ser humano junto ao
ambiente!

--- Não, você não sabe nada sobre o pênis, você não devia misturar sexualidade --- ela
disse. Parecia uma coisa burra reduzir à genitalidade todo o complexo pulsional provocado
pela temperatura e luminescência tropical sobre o corpo humano, parecia conversa de
estudante de primeiro período de filosofia ou ciências biológicas, mas era apenas a mãe.

--- Genitalidade é o nome da boa religião! --- ela disse, e ria, ria, ria, coitada. Ria como
uma bruxa canhota.

--- Com religião ruim não se brinca. Essa é a resposta para a constituição de um discurso
sobre o campo teológico?

--- Não seja ingênua.

--- Precisamos ler mais alguns trabalhos sobre isso. Física de Partículas, Microbiologia,
Cirurgias feitas com Robôs.

--- Não seja ingênua sobre a forma de vida dominante.

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