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DIFICULDADES DE LEITURA E ESCRITA

E O MÉTODO PANLEXIA
Jane Brim da Silva Corezola (Psicopedagoga, Graduada em Pedagogia-Faculdade
de Ciências e Letras de Araras)
jbrim@hotmail.com

Resumo
O presente trabalho teve como objetivo descrever a aplicação do Método Panlexia e
como conseqüência demonstrar sua eficácia. O participante do estudo foi um aluno da 3ª
série do Ensino Fundamental, encaminhado ao Centro de Atendimento Psicopedagógico
(CAP) com queixa escolar de dificuldades específicas de leitura e escrita. Logo após o
encaminhamento do aluno foram realizados testes fonológico, lingüísticos e screening
os quais compõem a primeira etapa do Método Panlexia. Terminado o Nível II do
Método foram realizadas novas aplicações dos testes onde se pode observar melhor
desempenho do aluno e a eficácia do Método.

Introdução
Uma pessoa enquanto aprende, desenvolve e aperfeiçoa suas habilidades motoras,
cognitivas, comportamentais, afetivas e sociais as quais serão necessárias à realização
de outras atividades úteis ao longo de sua vida. Quando por diversas razões a
aprendizagem não ocorre satisfatoriamente, especificamente no âmbito escolar, surge o
que se denomina de “dificuldades de aprendizagem”. Para Nunes (1997) as crianças
com dificuldades de aprendizagem são aquelas que apresentam alterações no processo
de desenvolvimento do aprendizado da leitura, escrita e raciocínio lógico-matemático,
podendo estar associadas ou não a comprometimento da linguagem oral. Tais
dificuldades de aprendizagem que não comprometem os aspectos fundamentais da
criança denominam-se primárias. Quando há comprometimento de áreas básicas como
sensoriais, motora, deficiência intelectual, e de comunicação encontramos as
dificuldades secundárias. Leitura e escrita envolvem habilidades cognitivas complexas,
além da capacidade de reflexão sobre a linguagem no que se refere aos aspectos
fonológicos, sintáticos, semânticos e pragmáticos (SCHIRMER, 2004). Com freqüência
encontramos nas dificuldades fonológicas a causa prejudicial ao aprendizado da leitura
e da escrita. O domínio da linguagem e a capacidade de simbolização são princípios
importantíssimos no desenvolvimento deste aprendizado e caso isto não ocorra

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podemos estar na presença de uma dificuldade especifica da leitura e escrita - a dislexia.
De acordo com a Associação Brasileira de Dislexia, ela é definida como um distúrbio
ou transtorno de aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração, sendo este o
distúrbio de maior incidência nas salas de aula. Pesquisas realizadas em vários países
mostram que entre 0,5% e 17% da população mundial é disléxica. Ela torna-se evidente
na época da alfabetização, embora alguns sintomas já estejam presentes em fases
anteriores. Segundo a Associação Nacional de Dislexia - AND, apesar de instrução
convencional, adequada inteligência e oportunidade sóciocultural e sem distúrbios
cognitivos fundamentais, a criança falha no processo da aquisição da linguagem. Para a
superação destas dificuldades há necessidade de uma assistência pedagógica com base
numa estratégia lexical e que intervenha diretamente nas habilidades de leitura
juntamente às atividades relacionadas ao processo fonológico da linguagem, um
trabalho que deve orientar-se principalmente na consciência fonológica. Segundo
CAPOVILLA e CAPOVILLA (2003), diversos trabalhos têm relatado que esta
habilidade se correlaciona com o sucesso na aquisição da linguagem escrita, de forma
que a importância da consciência fonológica para o processo de aquisição da leitura e da
escrita tem sido bem reconhecida. Dentre os métodos de alfabetização conhecidos
temos os métodos fônicos e o método global. Recentemente foi introduzido no Brasil
um Programa para Dificuldades Específicas de Linguagem conhecido como
PANLEXIA. Método de orientação diagnóstica consiste em um programa abrangente de
assistência pedagógica ao indivíduo disléxico cujas primeiras influências advêm do
trabalho do professor de lingüística da Yale University, Leonard Bloomfield cujo
método criado apresentava associações fonêmicas x grafêmicas de padrões simples
sendo gradualmente introduzidos padrões mais complexos numa abordagem pedagógica
conhecida como Lingüística Estruturada. Na década de 1960 o Dr. Jesse Grimes, Ph. D
da Harvard University criou um método para o aprendizado da leitura baseado num
treinamento para o desenvolvimento da consciência fonológica que se constituiu no
alicerce para o sucesso do Programa Estruturado em Leitura Lingüística. Anos depois
Pamela Kvilekval escreveu e registrou num Manual um programa de treinamento com
estrutura fundamentada nas características fonema x grafema do idioma inglês. Como
Consultora em Educação Especial na Itália, desenvolveu um programa de ensino dentro
da base estrutural fonética do idioma italiano que publicou como sendo IL MÉTODO

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PANLEXIA. Em parceria com a psicóloga brasileira Mônica Luczynski o mesmo
método foi construído segundo os padrões fonêmicos e grafêmicos do idioma português
do Brasil e aqui introduzido em 2004 através do Serviço de Neurologia do Hospital das
Clínicas da Universidade Federal do Paraná. Este Método tem características
multisensorial, pois, utiliza-se de todos os canais de aprendizagem (memória, visual,
auditivo, tátil, cinestésico) de forma simultânea ou em rápidas sucessões. Seu ensino é
explícito, fazendo a correspondência fonema-grafema com a leitura e escrita ensinadas
simultaneamente. É estruturado seguindo procedimentos passo a passo e é seqüencial e
cumulativo porque a linguagem é ensinada a partir dos elementos mais simples para os
mais complexos. Sua flexibilidade permite ao educador focar as necessidades
individuais do aluno (ensino-diagnóstico), observar como ele aprende e respeitar o seu
ritmo próprio, adaptando o ensino aos pontos fortes do estudante. Neste trabalho
objetivou-se descrever a aplicação do Método Panlexia e como conseqüência verificar
sua eficácia.
Desenvolvimento
A criança W.A.G. sexo masculino, aluno da 3ª. série do ensino fundamental da rede
pública foi encaminhada ao Centro de Atendimento Psicopedagógico - CAP para
avaliação e possível intervenção. A queixa escolar era de dificuldades de aprendizagem,
desmotivação, déficit de atenção, de memória, desempenho abaixo do esperado para sua
idade, grande dificuldade na aquisição e domínio da leitura e escrita. Devido a seu
histórico de fracasso escolar foi sugerido que participasse do Método de Panlexia. Antes
da aplicação do método o aluno passou por avaliação psicológica e fonoaudiológica. A
avaliação psicológica descartou a hipótese de déficit intelectual. A fonoaudiológica não
encontrou evidências de perda auditiva ou alterações no processamento auditivo central.
Realizadas estas avaliações iniciou-se a aplicação do Método cuja primeira etapa
consiste na realização dos testes: Fonológico, Diagnóstico Lingüístico, e Screening de
Leitura e de Escrita. O Teste Fonológico realizado com um conjunto de 24 cubos
pequenos formados por 6 grupos de cores distintas com 4 elementos cada (vermelho,
branco, laranja, preto e roxo) tem o objetivo de avaliar o grau de consciência fonológica
do aluno e a possibilidade de advir daí a sua dificuldade referente à leitura e a escrita.
Neste teste a avaliadora explica o procedimento adotado, ou seja, que cada som pode ser
representado por um cubo colorido e que sons iguais são representados pela mesma cor.

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Ao iniciar o teste a avaliadora diz: Mostre-me /s/s/ - e o aluno deverá então escolher
qual a cor que representará estes sons e colocar os cubos na seqüência em que foram
pronunciados os sons, procedimento este usado para todos os demais sons. As respostas
são circuladas pela avaliadora na folha de teste destacando sim para a resposta certa e
não, caso esteja errada.
TESTE FONOLÓGICO - CATEGORIA 1-A Nº de Erros
ESTÍMULO RESPOSTA 11 erros

Mostre-me /s/s/ PP sim não


Mostre-me /d/d/d/ BBR sim não
Mostre-me /n/l/n/ BPA sim não

Quadro 1 – Exemplo do Teste Fonológico Categoria 1 A - Aplicado em (06/03/2007)


Legenda: /s/ som feito pelo avaliador e PP – cor do cubo escolhido para a resposta pelo aluno.

Observe que as respostas do aluno (quadro 1) demonstram dificuldades com a seqüência


dos sons evidenciando incapacidade para discriminar entre sons específicos e perceber a
ordem dos sons o que demonstrou que ele apresentava defasagem para sua idade. O
segundo teste, Diagnóstico Lingüístico (KVILEKVAL, LUCZYNSKI, 2004) é formado
de duas partes: leitura e escrita e sua finalidade é testar a habilidade da criança em
codificar e decodificar. Ao iniciar-se o teste pede-se ao aluno que leia as associações
som-símbolo mais simples e freqüentes como o nome das letras, seguindo da leitura das
sílabas simples, prosseguindo para leitura de palavras com encontros consonantais,
dígrafos e outras associações fonema/grafema menos comuns. Testa-se também a
habilidade em reconhecer e identificar letras maiúsculas e minúsculas, leitura de
palavras isoladas, fora do contexto, seguindo a mesma progressão de palavras mais
simples às mais complexas. Os resultados deste teste (quadro 2) demonstrou uma
grande dificuldade do aluno e relação à decodificação dos elementos gráficos.
Descrição Quantidade de 1ª Avaliação
elementos (Nº de Erros)
Diga em voz alta o nome de cada letra (ex: c, f, d) 60 21
Diga os sons das seguintes letras (ex: m, p, z) 30 16
Leitura de sílabas simples (ex: ne, da, se) 30 03
Leitura de sílabas com encontros consonantais (ex: blu, cla, fla) 15 14
Leitura de palavras dissílabas e monossílabas (ex: bada, nho) 36 16
Quadro 2 – Exemplo do Teste Diagnóstico Lingüístico
Na parte escrita do teste (quadro 3) é ditada uma série de sentenças compostas por
elementos lingüísticos específicos as quais o aluno ouve, repete e só então escreve.

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DITADO
1. A casa do mago fica na rua das Araras. 4. A maga Lara faz um chá de hortelã e maçã.
2. A gata está cansada de tanto saltar sem parar. 5. Você mor no meu coração.
3. O menino trata com carinho o passarinho. 6. Deixe o cheque de quatro trilhões comigo.

Quadro 3 - Exemplo do Teste Diagnóstico Lingüístico – Parte Escrita (Ditado)

Aqui as respostas do aluno (quadro 4) evidenciaram desorganização bastante acentuada


em suas percepções dos símbolos escritos, com inversões de fonemas, deficiência na
associação auditivo-vocal, fraca memória visual, problemas de discriminação de
consoantes, confusão nos sons surdo-sonoros, omissões, confusão entre vogais,
dificuldades na utilização de sinais diacríticos, aglutinação de palavras, erro no emprego
das letras maiúsculas e escrita bastante comprometida.
1ª AVALIAÇÃO
1. Casa ficanaruadaararas 4. A fadalaura chave o telão demão
2. A gata e tacãosad detãodo satau 5. vosemoma dedo doucorasão
3. O nino tatá o passarocudado 6. deixaoge depatotii

Quadro 4 – Exemplo do Teste Diagnóstico Lingüístico – Ditado (Escrita do aluno)

O terceiro teste aplicado como integrante da primeira etapa do Método é o Teste de


Screening de Leitura: Sons e Palavras (KVILEKVAL, LUCZYNSKI, 2004). Sua
finalidade é avaliar a capacidade do aluno em responder com precisão a quase todas as
combinações de letras possíveis do idioma português. O teste se divide em quatro
colunas (quadro 5). Na primeira coluna encontramos 40 sons que vão desde letras
isoladas até outras combinações. A segunda coluna contém 40 palavras de duas ou três
sílabas diretas ou abertas, ditongos e hiatos. Na terceira coluna há 41 palavras com
encontros consonantais. A última coluna as 41 palavras são compostas por letras que
sofrem influências de letras específicas que as precedem ou de acentos.
SONS VOGAIS CONSOANTES VÁRIOS
m bota lento eloqüente
ã música livro infância
lhe abafado planeta saúde
Quadro 5 – Exemplo do Teste Screening de Leitura: Sons e Palavras
Durante a aplicação a avaliadora mantinha um cronômetro para registro do tempo
utilizado pelo aluno ao término da leitura de cada coluna e uma cópia do teste para
registro dos erros cometidos. As palavras lidas de maneira silabada foram contadas
como erro para efeito do teste. O aluno apresentou muitos erros, não decodificando os
símbolos e o tempo de execução foi bastante longo como ilustra o quadro abaixo.
Tempo usado sons Vogais Consoantes Vários TOTAL

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para leitura (40) (40) (41) (41)
Segundos 4’40” 7’59” 5’21” 6’32” 24’32”
Erros 40 39 41 39 159
Quadro 6 – Exemplo do Teste de Screening de Leitura: Sons e Palavras
O último teste foi o Teste de Escrita: palavras/pseudopalavras (KVILEKVAL,
LUCZYNSKI, 2004). Foi fornecida ao aluno uma folha de papel com três colunas
contendo cada uma vinte espaços. Aqui também o aluno ouvia o ditado das palavras de
forma clara, repetia e então escrevia em sua folha. Ao final do ditado foram registrados
os números de erros. Estes erros compreendiam omissões, trocas, inversões e etc..
Palavras Palavras Pseudopalavras
lobo almoço Fola
juba distância tarreta
alpaca serrar loteis
Nº de erros: 12 Nº de erros: 20 Nº de erros: 19
Quadro 7 – Exemplo do Teste de Escrita: Palavras e Pseudopalavras

Concluída a etapa dos testes, constatou-se que os resultados eram compatíveis com a
queixa escolar então se iniciou com os exercícios do Método que se constitui de cinco
Níveis: Nível I - Exercícios de consoantes e vogais em palavras e frase de duas e três
sílabas; Nível II - Exercícios de palavras e frases com ditongos, influência da letra R,
acento agudo e exercícios para desenvolver a consciência fonológica; Nível III
exercícios com palavras-padrão que contém encontros consonantais; Nível IV
exercícios com letras que mudam os sons das letras precedentes e pronúncias diversas e
no Nível V exercícios com todos os acentos, prefixos, sufixos, e outras associações
fonema/grafema menos comuns. Ao iniciarmos com o Nível I é apresentado ao aluno
uma tabela com lista de palavras (quadro 8) contendo exercícios no padrão
consoante/vogal começando pela vogal A. Neste nível o aluno realizou exercícios de
leitura de palavras monossílabas (padrão consoante-vogal - CV) seguidas de palavras
dissílabas e frases. Aos poucos foram sendo introduzidas palavras de três sílabas
seguindo o mesmo padrão consoante-vogal-consoante-vogal (CVCV).

Padrão 1
ma pata
ca dava A pata dava a nata da vaca
fa dava
Quadro 8 – Método Panlexia: Exemplo da Tabela do Padrão 1

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Desde o primeiro encontro, o aluno foi encorajado a ler e quando hesitava a professora
pronunciava o nome das letras seguindo a leitura da sílaba na seqüência (m com a? ma).
Quando uma sílaba era fixada outras iam sendo acrescentadas uma a uma. Ao constatar
que o aluno memorizara as sílabas, avançava-se para a leitura das palavras e em seguida
para as frases (ex: quadro 8). Posteriormente uma lista de palavras era apresentada ao
aluno para que lesse enfatizando a vogal para registro de seu aprendizado. Nos
primeiros encontros o aluno realizou apenas a decodificação do sistema gráfico, sem,
demonstrar compreensão do que lia. Sempre ao final da leitura, realizava-se um ditado
da tabela apresentada (quadro 8) e em seguida um jogo conhecido como Jogo de Troca
Letra cujo objetivo é treinar o aluno na identificação da seqüência dos sons e sua grafia
nas palavras trabalhando-se assim sua percepção auditiva e viso-motora. O jogo ocorre
como no exemplo a seguir:
A professora pede ao aluno que escreva a palavra “vaca”. Em seguida ela diz:
- Mude a palavra vaca para “faca”
- Mude a palavra faca para “paca”
Quadro 9 – Exemplo do Jogo do Troca Letra
Durante o jogo aluno demonstrou dificuldades na discriminação dos sons. Apresentou
trocas tais como v/f (vaca por faca) sendo preciso que a professora pronunciasse
novamente a palavra para que então ele a pudesse corrigir na escrita. No 3º. encontro foi
introduzida uma história nos padrões fonêmicos estudados com o aluno (quadro 8) e
trabalhou-se além da decodificação a compreensão do texto através de perguntas
referentes a história. Na compreensão do texto o aluno não demonstrava grandes
dificuldades, assim procuramos explorar bem a interpretação dos textos. Em cada novo
encontro o conteúdo era revisado com o aluno e novas palavras iam sendo acrescidas ao
vocabulário que já não se mostrava tão pobre como no início dos encontros. No 13º
encontro apresentou-se a tabela com monossílabas e dissílabas com a vogal O e uma
lista de palavras trissílabas com as vogais A e O, procedendo-se do mesmo modo como
foi feito nas sessões anteriores (leitura, escrita e jogo). No 19º encontro ele já realizava
a leitura de palavras e pseudopalavras com os cinco padrões estudados
(a – o – e – i – u) e então foram introduzidas palavras que iniciavam com vogais no
padrão vogal-consoante-vogal-VCV, tais como Ana e ali. A partir do 21º encontro
foram apresentadas ao aluno consoantes pós-vocálicas e no final de palavras. Neste
padrão o aluno apresentou muitas dificuldades as quais foram sendo trabalhadas através

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da escrita de palavras e leitura das mesmas. A memória auditiva era observada nos
exercícios em que se pedia a revocação e a escrita de sentenças simples contendo
somente um sujeito e um predicado. Durante todo o tempo da aplicação do método o
aluno foi sendo observado pela professora que procurava levá-lo a responder
corretamente o som referente ao símbolo apresentado e assim pudesse generalizar o
aprendizado. Todos os exercícios propostos nos atendimentos respeitaram o nível no
qual o aluno se encontrava sendo apresentados pequenos textos como também livros
escolhidos pelo aluno uma vez que já se sentia motivado para lê-los. Os erros
específicos cometido pelo aluno só eram apontados pela professora como último recurso
antes, porém, eram dadas todas as indicações para que o próprio aluno os encontrasse
por si só o que garantiria o seu aprendizado. Ao finalizar o Nível I o aluno nomeava
todas as letras do alfabeto e adquirira a habilidade para discernir mudanças no início e
no final dos sons das sílabas básicas. Lia corretamente todas as combinações dos
exercícios no padrão consoante-vogal (CV) e consoante-vogal-consoante-vogal
(CVCV). Lia e recontava histórias dentro deste padrão com 100% de precisão e na
seqüência própria. Encontrava e corrigia seus próprios erros quando sinalizada a
existência pela professora e escrevia com letras maiúsculas o começo das sentenças
pontuando-as ao final de maneira correta. O Nível II que é semelhante ao Nível I foi
apresentado ao aluno listas de palavras e frases com ditongos, palavras com a influência
da letra R, a utilização do acento agudo e exercícios para o desenvolvimento da
consciência fonológica. Após este Nível novos testes foram feitos para avaliar o
progresso do aluno. O Teste Fonológico comparado à primeira avaliação do aluno
(quadro 1) demonstrou acentuada evolução na discriminação e seqüências dos sons
como se vê:
ESTÍMULO RESPOSTA Nº de Erros

Mostre-me /s/s/ LL sim não 06


Mostre-me / ch / t(i) LV sim não
Mostre-me / d / d / d / LLL sim não
Quadro 10 – Exemplo do Teste Fonológico Categoria 1- A (2º Avaliação)
Legenda: /s/ som feito pelo avaliador e LL – cor do cubo escolhido para a resposta pelo aluno.
Na comparação dos Testes Diagnóstico Lingüístico (quadro 2 e 11) percebe-se que
houve uma evolução considerável na leitura com menor número de erros.
Descrição Quantidade 2ª Avaliação
(Nº de erros)
Diga em voz alta o nome de cada letra (ex: c, f, d) 60 06

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Diga os sons das seguintes letras (ex: m, p, z) 30 06
Leitura de sílabas simples (ex: ne, da, se) 30 Ø
Leitura de sílabas com encontros consonantais (ex: blu, cla, fla) 15 02
Leitura de palavras dissílabas e monossílabas (ex: bada, nho) 20 02
Quadro 11 – Exemplo do Teste Diagnóstico Lingüístico (2º Avaliação)

A mesma evolução é vista no tempo da leitura. Se compararmos a primeira avaliação


(quadro 6) com a segunda (quadro 12) o tempo reduziu em 17’27”.
Tempo/itens SONS (40) VOGAIS (40) CONSOANTES (41) VÁRIOS (41) TOTAL
Segundos 0’53” 1’27” 2’31” 3’04” 7’55”
Erros 10 05’ 14 10 39
Quadro 12 – Exemplo do Teste Screening de Leitura: Sons e Palavras (2º Avaliação)

Na escrita também vemos maior organização (compare com o quadro 4) e melhor


percepção dos símbolos escritos. As trocas e inversões de fonemas foram bem menores,
o uso da letra maiúscula passou a ser respeitado no início das sentenças, e não houve
aglutinação de palavras.
Ditado
1. A casa do mago fica na rua das araras 4. A maga Lara faz um xá de ontelão e masão.
2. A gata esta cãosada de tomto sautar cem para. 5. Você mora no meu coração.
3. O menino trada com carinho o passarinho 6. Dexe o xeque de quatro trilhóes comigo

Quadro 13 – Exemplo do Teste Diagnóstico Lingüístico –( Escrita do aluno)

Este progresso foi visto no ditado das palavras e pseudopalavras do quadro abaixo:

Palavras Palavras Pseudopalavras


lobo almoço fola
juba distância tarreta
alpaca serrar loteis
Nº erros: 09 Nº erros: 10 Nº erros: 11
Quadro 14 – Exemplo do Teste de Escrita: Palavras e Pseudopalavras (2º Avaliação)
Esta nova avaliação demonstrou uma acentuada evolução do aluno na aquisição da
leitura e escrita e na superação das dificuldades nestas áreas. Segundo o relato da
professora da escola o aluno melhorou sua auto-estima, sua motivação para aprender,
melhorou sua escrita, tornou-se mais participativo, principalmente nas atividades de
leitura e seu desempenho escolar evoluiu consideravelmente do conceito D para B.
Atualmente o aluno encontra-se no Nível III trabalhando com palavras padrão que
contém encontros consonantais.

Conclusão

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Comparando-se os resultados do aluno antes e depois da aplicação do Método Panlexia
pôde-se observar que W.A.G. superou grande parte das dificuldades iniciais que
apresentava quando encaminhado ao Centro de Atendimento com melhoras em sua
motivação, atenção e memória e na codificação e decodificação dos sons e símbolos
gráficos, elevando seu rendimento e desempenho escolar. Tal progresso vem
demonstrar a eficácia do Método Panlexia para alunos com distúrbios específicos de
leitura e escrita.

Referências

ABD – Associação Brasileira de Dislexia [acesso em 29 de agosto de 2008]. Disponível


em http://www.dislexia.org.br.
AND – Associação Nacional de Dislexia [acesso em 29 de agosto de 2008]. Disponível
em http://www.andislexia.org.br.
CAPOVILLA A. G. S. e Capovilla, F. C. (2003) Alfabetização: Método fônico. São
Paulo, SP: Memnon.
FONSECA, V.da. Introdução às dificuldades de Aprendizagem. Porto Alegre, Artes
Médicas: 1995.
KVILEKVAL Pamela, tradução Luczynski - Um Programa para Reeducação de
Dificuldades Específicas de Linguagem. Curitiba, 2004.
NUNES T, Buarque, Bryant P. Dificuldades na aprendizagem da leitura: teoria e
prática. São Paulo: Cortez; 1997.
SCHIRMER, C.R. at.alli. Distúrbios da aquisição da linguagem e da aprendizagem,
Jornal de Pediatria vol.80, Nº2(Supl.), 2004 [acesso em 30 de agosto de 2008].
Disponível em http://www.jped.com.br/conteudo/04-80-S95/port.asp.
BLOOMFIELD Leonard - Lingüística Estruturada [acesso em 30 de agosto de 2008].
Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Leonard_Bloomfield.

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