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CERÂMICAS ARQUEOLÓGICAS DA AMAZÔNIA

Rumo a uma nova síntese

CRISTIANA BARRETO
HELENA PINTO LIMA
CARLA JAIMES BETANCOURT
Organizadoras

IPHAN |MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI |2016


CRÉDITOS
Presidenta da República do Brasil Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação
Tecnologia
DILMA R OUSSEF C ELSO P ANSERA

Ministro de Estado da Cultura Diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi


NILSON G ABAS J ÚNIOR
J UCA F ERREIRA

Coordenadora de Pesquisa e Pós-Graduação


Presidente do Instituto do Patrimônio ANA V ILACY G ALÚCIO
Histórico e Artístico Nacional
J UREMA DE S OUZA M ACHADO Coordenadora de Comunicação e Extensão
MARIA E MÍLIA DA C RUZ S ALES

Diretoria do Iphan Coordenação Editorial


MARCOS J OSÉ S ILVA R ÊGO NÚCLEO E DITORIAL DE L IVROS
ANDREY R OSENTHAL S CHLEE
TT C ATALÃO Produção Editorial
L UIZ P HILIPPE P ERES T ORELLY I RANEIDE S ILVA
ANGELA B OTELHO
Coordenação Editorial
S YLVIA M ARIA B RAGA Design Gráfico
A NDRÉA P INHEIRO
Projeto Gráfico ( CAPA E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA )

R ARUTI C OMUNICAÇÃO E D ESIGN /C RISTIANE D IAS


Editora Assistente
T EREZA L OBÃO

Fotos: Cristiana Barreto, Edithe Pereira, Glenn Shepard, Sivia Cunha Lima; Wagner Souza
Imagem da capa: Vaso da cultura Santarém, acervo Museu Paraense Emílio Goeldi. Foto: Glenn Shepard.

Cobra-canoa (kamalu hai)


(desenho de Aruta Wauja, 1998; Coleção Aristóteles Barcelos Neto).

Kamalu Hai é a gigantesca cobra-canoa que apareceu para os Wauja, há muito tempo, oferecendo-lhes a visão primordial de todos os tipos de
panelas cerâmicas, o que lhes conferiu o conhecimento exclusivo sobre a arte oleira. As panelas chegaram navegando e cantando sobre o dorso
da grande cobra que antes de ir embora defecou enormes depósitos de argila ao longo do rio Batovi para que eles pudessem fazer sua própria
cerâmica. Segundo o mito, esta é a razão pela qual apenas os Wauja sabem fazer todos os tipos de cerâmica (Barcelos Neto, 2000).

Cerâmicas arqueológicas da Amazônia: rumo a uma nova síntese / Cristiana Barreto, Helena Pinto Lima, Carla Jaimes
Betancourt, organizadoras. Belém : IPHAN : Ministério da Cultura, 2016.

668 p.: il.

ISBN 978-85-61377-83-0

1. Cerâmica – Brasil - Amazônia. 2. Cerâmicas Arqueológicas. I. Barreto, Cristiana. II. Lima, Helena Pinto. III.
Betancourt, Carla Jaimes.

CDD 738.098115
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO
APRESENTAÇÃO DO IPHAN - Andrey Rosenthal Schlee 8
APRESENTAÇÃO DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI - Nilson Gabas Jr.
APRESENTAÇÃO 9
PREFÁCIO - Michael Joseph Heckenberger 10
INTRODUÇÃO - Cristiana Barreto, Helena Pinto Lima, Carla Jaimes Betancourt 12
INTRODUCCIÓN - Cristiana Barreto, Helena Pinto Lima, Carla Jaimes Betancourt 14

PAR TE I - A HISTÓRIA MOLDADA NOS POTES: INTRODUÇÃO A UMA LONGA VIAGEM


ARTE 17

NOVOS OLHARES SOBRE AS CERÂMICAS ARQUEOLÓGICAS DA AMAZÔNIA 19


Helena Pinto Lima, Cristiana Barreto, Carla Jaimes Betancourt

NÃO EXISTE NEOLÍTICO AO SUL DO EQUADOR: AS PRIMEIRAS CERÂMICAS


AMAZÔNICAS E SUA FFAL
ALTA DE RELAÇÃO COM A AGRICUL
ALT TURA
AGRICULTURA 32
Eduardo Góes Neves

TIPOS CERÂMICOS OU MODOS DE VIDA?


ETNOARQUEOLOGIA E AS TRADIÇÕES ARQUEOLÓGICAS CERÂMICAS NA AMAZÔNIA 40
Fabíola Andréa Silva

QUADRO CRONOLÓGICO DOS COMPLEXOS CERÂMICOS DA AMAZÔNIA 50

MAP
MAPAA ARQUEOLÓGICO DOS COMPLEXOS CERÂMICOS DA AMAZÔNIA 51

PAR TE II - SUBINDO O AMAZONAS NA COBRA CANOA


ARTE 53

II.1. NORDESTE AMAZÔNICO 54

LA CERÁMICA DE LAS GUYANAS


GUYANAS 55
Stéphen Rostain

LA TRADICIÓN ARAUQUINOÍDE EN LA GUYANA FRANCESA:


GUYANA
LOS COMPLEJOS BARBAKOEBA Y THÉMIRE 71
Claude Coutet

OS COMPLEXOS CERÂMICOS DO AMAPÁ: PROPOST A DE UMA NOV


PROPOSTA NOVA SISTEMATIZAÇÃO
A SISTEMATIZAÇÃO 86
João Darcy de Moura Saldanha, Mariana Petry Cabral, Alan da Silva Nazaré
Jelly Souza Lima, Michel Bueno Flores da Silva

AIRE DES V
“C’EST CURIEUX CHEZ LES AMAZONIENS CE BESOIN DE FFAIRE VASES”:
ASES”:
ALF ARERAS P
ALFARERAS ALIKUR DE GUY
PALIKUR ANA
GUYANA 97
Stéphen Rostain

O QUE A CERÂMICA MARAJOARA NOS ENSINA


SOBRE FLUXO ESTILÍSTICO NA AMAZÔNIA? 115
Cristiana Barreto

A CERÂMICA MINA NO EST ADO DO PARÁ: OLEIRAS DAS ÁGUAS SALOBRAS DA AMAZÔNIA
ESTADO 125
Elisângela Regina de Oliveira, Maura Imazio da SilveirA

A CERÂMICA MINA NO MARANHÃO 147


Arkley Marques Bandeira

O COMPLEXO CERÂMICO DAS ESTEARIAS DO MARANHÃO 158


Alexandre Guida Navarro
II.2. BAIXO AMAZONAS E XINGU 170

ARQUEOLOGIA DOS TUPI-GUARANI NO BAIXO AMAZONAS 171


Fernando Ozorio de Almeida

CERÂMICAS E HISTÓRIAS INDÍGENAS NO MÉDIO-BAIXO XINGU 183


Lorena Garcia

CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE A CERÂMICA ARQUEOLÓGICA


DA VOL
VOLTTA GRANDE DO XINGU 196
Letícia Morgana Müller, Renato Kipnis, Maria do Carmo Mattos Monteiro dos Santos,
Solange Bezerra Caldarelli

CERÂMICAS ARQUEOLÓGICAS DA FOZ DO XINGU:


UMA PRIMEIRA CARACTERIZAÇÃO 210
Helena Pinto Lima, Glenda Consuelo Bittencourt Fernandes

CERÂMICA E HISTÓRIA INDÍGENA DO ALTO XINGU


ALTO 224
Joshua R. Toney

CERÂMICAS DA CUL TURA SANT


CULTURA ARÉM, BAIXO TAP
SANTARÉM, AJÓS
TAPAJÓS 237
Joanna Troufflard

CERÂMICA SANT ARÉM DE ESTILO GLOBULAR


SANTARÉM 253
Márcio Amaral

AS CERÂMICAS DOS SÍTIOS A CÉU ABER TO DE MONTE ALEGRE:


ABERTO
SUBSÍDIOS P ARA A ARQUEOLOGIA DO BAIXO AMAZONAS
PARA 262
Cristiana Barreto, Hannah F. Nascimento

CERÂMICAS POCÓ E KONDURI NO BAIXO AMAZONAS 279


Lílian Panachuck

II.3. AMAZÔNIA CENTRAL 288

AS CERÂMICAS SARACÁ E A CRONOLOGIA REGIONAL DO RIO URUBU 289


Helena Pinto Lima, Luiza Silva de Araújo, Bruno Marcos Moraes

AS CERÂMICAS AÇUTUBA E MANACAPURU DA AMAZONIA CENTRAL 303


Helena Pinto Lima

CONTEXTO E RELAÇÕES CRONOESTILÍSTICAS


DAS CERÂMICAS CAIAMBÉ NO LAGO AMANÃ, MÉDIO SOLIMÕES 321
Jaqueline Gomes, Eduardo Góes Neves

UMA MANEIRA AL TERNA


ALTERNA TIV
TERNATIV
TIVAA DE INTERPRET AR
INTERPRETAR
OS ANTIPLÁSTICOS E A DECORAÇÃO NAS CERÂMICAS AMAZÔNICAS 334
Claide de Paula Moraes, Adília dos Prazeres da Rocha Nogueira

A TRADIÇÃO POLÍCROMA DA AMAZÔNIA 348


Jaqueline Belletti

A FASE GUARITA NOS CONTEXTOS DO BAIXO RIO SOLIMÕES


GUARITA 365
Eduardo Kazuo Tamanaha

A SERPENTE DE VÁRIAS FFACES:


ACES: ESTILO E ICONOGRAFIA DA CERÂMICA GUARITA
GUARITA 373
Erêndira Oliveira
II.4. SUDOESTE DA AMAZÔNIA 484

VARIABILIDADE CERÂMICA E DIVERSIDADE CULTURAL NO AL


CULTURAL TO RIO MADEIRA
ALTO 385
Silvana Zuse

A CERÂMICA POLÍCROMA DO RIO MADEIRA 402


Fernando Ozório de Almeida, Claide de Paula Moraes

CERÂMICAS DO ACRE 414


Sanna Saunaluoma

A FASE BACABAL E SUAS IMPLICAÇÕES P ARA A INTERPRET


PARA AÇÃO
INTERPRETAÇÃO
DO REGISTRO ARQUEOLÓGICO NO MÉDIO RIO GUAPORÉ, RONDÔNIA 420
Carlos A. Zimpel, Francisco A. Pugliese Jr.

DOS FFASES
ASES CERÁMICAS DE LA CRONOLOGÍA OCUP ACIONAL
OCUPACIONAL
DE LAS ZANJAS DE LA PROVINCIA ITÉNEZ – BENI, BOLIVIA 435
Carla Jaimes Betancourt

CONTINUIDADES Y RUPTURAS ESTILÍSTICAS EN LA


CERÁMICA CASARABE DE LOS LLANOS DE MOJOS 448
Carla Jaimes Betancourt

II.5. ALTA AMAZÔNIA


ALT 462

TRAS EL CAMINO DE LA BOA ARCOÍRIS:


LAS ALFARERÍAS PRECOLOMBINAS DEL BAJO RÍO NAPO
ALFARERÍAS 463
Manuel Arroyo-Kalin, Santiago Rivas Panduro

LA CERÁMICA DE LA CUENCA DEL PAST AZA, ECUADOR


PASTAZA, 480
Geoffroy de Saulieu, Stéphen Rostain, Carla Jaimes Betancourt

CERÁMICA ARQUEOLOGICA DE JAEN Y BAGUA, ALTA AMAZONIA DE PERU


ALT 496
Quirino Olivera Núñez

COMPLEJO CERÁMICO: MAYO CHINCHIPE


MAYO 510
Francisco Valdez

LA CERÁMICA DEL VALLE DEL UP ANO, ECUADOR


UPANO, 526
Stéphen Rostain

PAR TE III - P
ARTE ARA SEGUIR VIAGEM:
PARA
REFERÊNCIAS P ARA A ANÁLISE DAS CERÂMICAS ARQUOLÓGICAS DA AMAZÔNIA
PARA 541

A CONSER
CONSERVVAÇÃO DE CERÂMICAS ARQUEOLÓGICAS DA AMAZÔNIA 543
Silvia Cunha Lima

GLOSSÁRIO 551
Processos tecnológicos 553
Denominações formais e funcionais das cerâmicas 568
Contextos arqueológicos das ocupações ceramistas 581
Conceitos e categorias classificatórias 589

REFERÊNCIAS 603
ÍNDICE ONOMÁSTICO 654
AGRADECIMENTOS 659
SOBRE OS AUTORES E SUAS PESQUISAS 661
AMAZÔNIA
CENTRAL
AS CERÂMICAS SARACÁ
E A CRONOLOGIA REGIONAL DO RIO URUBU

Helena Pinto Lima


Luiza Silva de Araújo
Bruno Marcos Moraes

RESUMEN
Las cerámicas Saracá y cronología regional del Rio Urubu
La región baja del río Urubu está siendo concebida cada vez más, como un área de frontera cultural de finales
del pasado precolonial. Estudios arqueológicos muestran una presencia ubicua de sitios cerámicos relacionados
con tres distintas tradiciones cerámicas: Borde-inciso, Inciso punteada y Policroma. Aunque la relación entre
estos tres tipos de tradiciones aún no se entiende por completo, la particularidad de este complejo cerámico
tardío en la región es clara. Cerámica Saraca muestra características estilísticas hibridas que comprenden las
tres diferentes tradiciones Amazónicas. Nosotros interpretamos la variabilidad local como una marca de procesos
de roce interétnico. Se piensa que los procesos culturales tales como estos ocurren en contextos de fronteras
culturales, y pueden resultar en la construcción de una identidad particular, teniendo la decoración de la cerámica
como un indicador cultural.

ABSTRACT
Saracá ceramics and the regional chronology of Urubu River
The lower Urubu River region has been increasingly thought of as a cultural border area in the late pre-colonial
past. Archaeological studies show a ubiquitous presence of ceramic sites related to three distinct ceramic
traditions: Incised Rim, Incised-Punctuated and Polychrome. Although the relationships between them are
not yet fully understood, the particularity of the late ceramic complex of the region is clear. Saracá ceramics
shows hybrid stylistic traits comprising the tree different Amazonian traditions. We interpret local variability
as a mark of inter-ethnic friction processes. Cultural processes as such are thought to happen in contexts of
cultural boundaries, and may result in a peculiar identity construction, having the ceramic decoration as a
cultural indicator.

289
Introdução
Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia • AMAZÔNIA CENTRAL

A arqueologia da região do baixo rio Urubu (Médio Amazonas/Amazônia Central), sempre chamou a
atenção de pesquisadores em função de sua grande variabilidade dos conjuntos artefatuais, assim como
dos contextos ecológicos associados (Figura 1). Trabalhando na região, estes demonstraram dificuldade
em conectar diretamente esses conjuntos às macrocronologias clássicas da Amazônia, agregando-os na
chamada Tradição Regional Saracá (Simões; Machado, 1987). Situada nos limites geográficos e estilísticos
da ocorrência da Tradição Polícroma da Amazônia (TPA) e da Tradição Inciso-Ponteado (TIP), levantou-
se, então, a hipótese de tratar-se de uma área de fronteira cultural. Esta hipótese vem sendo atualmente
investigada no âmbito do Projeto Baixo Urubu, vinculado ao Museu Paraense Emílio Goeldi e ao Museu
Amazônico da UFAM.
O projeto, em andamento desde 2009, tem se esforçado para apurar a cronologia de ocupação da área e
para conhecer os significados da variabilidade da cultura material ali encontrada, dentro um esforço
classificatório com fins interpretativos. Com foco na construção de uma história indígena de longa duração,
os trabalhos nos sítios arqueológicos levaram à formulação de uma hipótese preliminar sobre a cronologia
de ocupação da área. Essas pesquisas mostram evidências de ocupação humana que se estende desde os
primeiros séculos DC e adentram o período colonial em alguns locais.

Figura 1. Mapa de localização da área de pesquisa com identificação dos sítios arqueológicos. Elaboração: Bruno Moraes.

290
Até o momento, os resultados das pesquisas possibilitaram observações interessantes sobre o contexto

Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia • AMAZÔNIA CENTRAL


arqueológico da região, apoiadas em dados de naturezas variadas. O material cerâmico, sobretudo por
sua presença ubíqua, apresenta uma oportunidade ímpar para apoiar inferências interpretativas sobre as
relações sociais e culturais então presentes no passado local do médio e baixo rio Urubu.
Os trabalhos desenvolvidos identificaram materiais relacionados a três tradições cerâmicas, embora
suas ligações e conexões ainda estejam sendo investigadas. Optou-se por adotar a nomenclatura das
pesquisas anteriores, fases Silves (Simões; Machado, 1987) e Itacoatiara (Hilbert, 1968) para os conjuntos
mais antigos, relacionados aos conjuntos Borda Incisa/Barrancoide (Lima, 2008) e Pocó-Açutuba (Lima
et al., 2006; Neves et al., 2014), respectivamente, com o intuito de se promover uma comunicação
entre os dados preexistentes e aqueles angariados pelo projeto. Para os conjuntos mais recentes, não
adotamos a profusão de fases anteriormente definidas, mas o conjunto Saracá (tradição regional?) de
fato atende à peculiaridade das cerâmicas híbridas que caracterizam a região. Considerou-se importante
compreender os padrões classificatórios anteriores – que não necessariamente apresentavam uma clareza
cognoscível – buscando compreender padrões percebidos pelos pesquisadores prévios que poderiam
elucidar as novas hipóteses propostas.

Histórico e problemas de pesquisas no rio Urubu

A primeira exploração científica do rio Urubu e áreas próximas se deve ao naturalista João Barbosa Rodrigues
(1875), salientando a região como intensamente habitada por grupos indígenas (apud. Machado, 1991).
Na década 20 do século passado (1926), o etnólogo Curt Nimuendaju, munido das informações providas
por Barbosa Rodrigues (1875) e Bernardo Ramos (1930), identificou sítios arqueológicos nas margens
do lago de Saracá, em frente a ilha de Silves, com a finalidade de coletar material arqueológico para o
Museu de Gotemburgo (2004). Pode-se dizer que este antecedente de pesquisas, em conjunto com os
trabalhos de Peter Hilbert (1968), Mário Simões (1979, 1981) e Simões e Machado (1984, 1987),
reconheceu a dimensão e potencialidade da arqueologia local. Na ocasião, foram identificadas dezenas
de sítios arqueológicos e pôde-se vislumbrar a diversidade dos estilos cerâmicos da região, marcada pela
grande variedade de técnicas e motivos decorativos.
Mário Simões, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, realizou duas expedições à região, em
1979 e 1981. Seus objetivos eram a complementação de pesquisas anteriores realizadas em regiões adjacentes,
buscando:
“[...] estabelecer as áreas de dispersão geográfica das duas grandes tradições ceramistas da
Amazônia – Polícroma e Incisa Ponteada –, as rotas de migração e difusão, além de possível
influência dessas tradições sobre as fases locais e, finalmente, a elaboração de um quadro de
desenvolvimento cultural da área desde os tempos pré-históricos até a conquista portuguesa.”
(Simões, 1981: 1 relatório não publicado).
Mas esses dados não foram conclusivos, sendo poucos os resultados publicados.
Os dados levantados por Simões (1980, 1981) e por Machado (1991), que viram na região uma questão
importante a respeito da variabilidade cerâmica, e que ainda permanece por ser esclarecida, serviram
como base para a condução desta pesquisa. Dando continuidade a essas proposições, o Projeto Baixo

291
Urubu teve como objetivo inicial realizar um mapeamento extensivo da arqueologia da área, identificando
Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia • AMAZÔNIA CENTRAL

o tamanho, densidade, duração e a antiguidade das ocupações, além de entender a dispersão, organização
social e os limites territoriais das ocupações humanas na região pesquisada. Seus objetivos também incluíram
promover ações visando à socialização do processo de construção do conhecimento, através da educação
patrimonial voltada à população local, além de possibilitar um diálogo entre diferentes percepções acerca
do patrimônio arqueológico (Lima, 2009).
De forma mais abrangente, foram realizadas várias campanhas desde o seu início, em 2009, que
empreenderam ações de levantamentos, resgates e ações de extroversão e divulgação científica e de
educação patrimonial, especialmente nas comunidades sobre ou próximas aos sítios pesquisados. Os
núcleos urbanos também receberam atenção especial nessas ações. É importante mencionar a integração
entre o financiamento público de pesquisa (via Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas
– FAPEAM, 2009-2012 e CNPq, 2014-2016) e o privado, através de projetos ligados à processos de
licenciamento ambiental. Esta integração entre as parcerias públicas e privadas permitiram um grande
fôlego para o projeto e possibilitaram trabalhos praticamente contínuos durante os anos de atuação
da equipe. Muitos dos trabalhos também estavam ligados ao âmbito acadêmico, por meio de pesquisas
de alunos de pós-graduação ou de iniciação científica. Receberam algum tipo de pesquisa em torno
de 15 sítios arqueológicos da região, algumas delas não somente ligadas à arqueologia, mas também a
outras áreas, como turismo e etnobotânica. As coleções desses sítios foram recolhidas para estudo,
em diferentes níveis de amostragem. Os dados gerados levaram à formulação de uma hipótese preliminar
sobre a cronologia de ocupação da área, bem como a interpretações sobre os modos de vida no passado
(Lima; Moraes, 2011; Lima, 2013).
Atualmente, os trabalhos na região ocorrem através de uma parceria entre o Museu Goeldi e o Museu
Amazônico. Com isso, a coleção arqueológica do rio Urubu é desmembrada nas duas instituições. Por
exemplo, há sítios arqueológicos que foram pesquisados pelos dois projetos (Pronapaba e Baixo Urubu)
e com coleções nos dois locais. As análises cerâmicas abrangeram ambas, inclusive em um esforço em
reanalisar as coleções do Pronapaba, com o intuito de melhor compreender e avaliar as classificações
anteriormente propostas.
Neste contexto, destaca-se a necessidade da integração entre as pesquisas de uma mesma região, estudadas
em períodos distintos e sob perspectivas científicas diferentes. Ambas as incursões arqueológicas ao rio
Urubu têm mostrado a grande variabilidade e as peculiaridades da indústria cerâmica local, hipotetizada
enquanto expoente material de uma relação de fronteiras culturais (Lima, 2013).

A diversidade regional

Os levantamentos arqueológicos abordaram ecossistemas e compartimentos geográficos diferenciados,


visando assim obter uma maior representatividade das ocorrências de sítios arqueológicos dentro da
área de pesquisa. Foram identificados 71 sítios arqueológicos, dispostos em nichos ecológicos
diferenciados e em matrizes distintas. Com o intuito de mapear tal variabilidade, foi proposta uma
tipologia inicial, a partir da qual esses sítios foram classificados entre: 1) sítios cerâmicos, 2) sítios
históricos 3) sítios lito-cerâmicos, 4) sítios líticos, 5) sítios-oficina de polimento; e 6) sítios com
gravuras rupestres (Lima, 2013).

292
Os sítios cerâmicos são mais recorrentes na área de pesquisa, em especial aqueles compostos por Terra

Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia • AMAZÔNIA CENTRAL


Preta Arqueológica (TPAs). Essas matrizes de terra preta estão geralmente localizadas nas margens de
rios e igarapés e apresentam grande quantidade de cerâmicas em superfície e também em profundidade.
Em alguns desses sítios foi possível também identificar a presença de estruturas monticulares, com diferentes
formatos e tamanhos (Bassi, 2013, Bassi; Cavallini, 2013; Lima, 2013). Estes sítios estão inseridos em
contextos de paisagens antrópicas, a exemplo da composição florística observada nas comunidades/sítios
arqueológicos Pontão, Taperebatuba, Tauauqera (entre outros), especificamente nas áreas das terras pretas
que os compõem (Silva, 2013; Smith, 2013; Lins et al., 2015).
As cerâmicas coletadas nestes sítios serão o foco do presente artigo, em uma tentativa de dimensionar a
variabilidade encontrada na região, relacionando-as a tradições amplamente distribuídas na bacia Amazônica
(e, sem dúvida, alvo de debates).

Variabilidade cerâmica e o quadro cronológico regional

Os dados e interpretações sobre os processos de ocupação dos sítios arqueológicos da região permitiram
elaborar uma espécie de zoneamento preliminar da área, com base em critérios cronológicos e estilísticos.
Quanto às ocupações ligadas aos povos ceramistas, os dados e informações presentes na bibliografia indicam
um período inicial antigo, em torno do princípio da era Cristã, representado pelas fases Sucuriju e Silves.
Cabem aqui alguns comentários acerca dos dados encontrados na (ainda escassa) bibliografia sobre a
arqueologia da região.
Os dados publicados e não publicados de M. Simões e Machado (Simões, 1979, 1981; Machado, 1991;
Simões; Machado, 1984, 1987) fazem referência à existência de uma série de fases. Dentre os conjuntos
datados mais antigos, os primeiros seriam compostos por materiais ligados à fase Silves, definida para
alguns sítios da região do lago de Silves, e um segundo conjunto, também antigo, que foi denominado
como fase Sucuriju, pertencente à TR Saracá, para a região do rio Urubu. Os conjuntos mais recentes
definidos por esses autores são relacionados às Tradições Inciso-Ponteado e Saracá. Os intervalos cronológicos
desses conjuntos foram sintetizados na Tabela 1.

Tabela 1. Fases, Tradições e respectivos intervalos cronológicos obtidos por Simões e Machado para a
área de pesquisa (Fonte: Simões, 1979, 1981; Machado, 1991; Simões; Machado, 1984, 1987).
FASE TRADIÇÃO INTERVALO CRONOLÓGICO
Silves Borda Incisa AD 200 ± 105 a AD 210 ± 65
Sucuriju Saracá AD 140 ±90 a AD 740 ±75
Anebá Saracá AD 570 ±90 a AD 940 ±185
Saracá Saracá s/d
Iraci Saracá s/d
Sanabani Inciso-Ponteado AD 940 ± 85 a AD 1060 ± 180
Garbe Inciso-Ponteado s/d

293
A notável duração de quase um milênio para a TR Saracá, com datações entre AD 140 ±90 (Sucuriju)
Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia • AMAZÔNIA CENTRAL

e AD 940 ±185 (Anebá), com diferenças também entre os materiais que foram ora relacionados à
Tradição Inciso-Ponteado (Simões; Machado, 1987) e em outros momentos à Tradição Polícroma (Simões;
Machado, 1984) pode ser melhor elucidada a partir de novos dados.
De um lado, as semelhanças apontadas entre essas cerâmicas descritas como Saracá e a então chamada
subtradição (fase) Guarita – e também com a fase Pocó, da região do Trombetas/Nhamudá – mostra
uma consistência das ocupações ceramistas antigas, que têm sido sistematicamente identificadas nos últimos
dez anos por diferentes autores em toda a região amazônica, que partilham de uma série de elementos
comuns (Lima et al., 2006; Lima 2008; Guapindaia 2008; Costa 2012; Neves 2013; Neves et al., 2014,
entre outros). Esses contextos, geralmente com datações entre 3.000 e 2.000 AP, apresentam uma forte
padronização decorativa nas cerâmicas, que envolve elaboradas técnicas, tanto plásticas quanto pintadas.
Neste último caso, a policromia aproxima essas dinâmicas antigas dos conjuntos recentes ligados à TPA,
como a fase Guarita. Do mesmo modo, algumas decorações plásticas, como o amplo uso de modelados
zoomorfos, incisões e excisões, e de flanges mesiais, que levam os conjuntos mais recentes a se assemelharem
com as cerâmicas policrômicas antigas, embora resultem de contextos históricos completamente distintos
(Lima, 2008).
É importante ressaltar a possibilidade de haver a presença desses contextos antigos – cuja denominação
tem sido avaliada, mas geralmente reportadas sob o título de Pocó – também na região do Urubu, em
uma correlação complexa que já havia sido percebida anteriormente por M. Simões, embora com
interpretações distintas à época. Nesse sentido, somente a continuidade das pesquisas poderá desbravar
tais caminhos – por certo cientificamente profícuos – uma vez que as onze datações radiocarbônicas
realizadas pelo projeto ate o momento apontam para uma história mais recente do que isso, com início
a partir do século VI DC (Tabela 2).
Os contextos/conjuntos tecno-estilísticos estudados dividem-se em sítios unicomponenciais Borda Incisa
ou Saracá; e sítios multicomponenciais Borda Incisa-Saracá, dentre os quais alguns mostram maior ocorrência
de tipos da Tradição Polícroma junto às cerâmicas Saracá enquanto que outros não.
Os contextos mais antigos, Borda Incisa, são representados pelos sítios Pontão (AM-SL-06) e Mucajatuba
(AM-SL-08), localizados em frente à cidade e na área urbana de Silves, respectivamente. Esses sítios são
muito interessantes, por apresentarem contextos relacionados às ocupações densas em grandes extensões
de terra preta, que podem chegar a mais de um metro de profundidade em alguns pontos, em uma sequência
aparentemente unicomponencial. Ressalte-se que foi para esses sítios que Simões definiu a chamada fase
Silves (Simões; Machado, 1987), com as referidas datações antigas para um sítio localizado nas proximidades
de ambos, o Ponta Grossa (AM-SL-08), ao qual a equipe do projeto não teve acesso.
Os sítios Pontão e Mucajatuba foram intensivamente pesquisados, em especial o primeiro, no qual 12 cortes
estratigráficos com 1x1 m foram escavados, entre outras atividades de delimitação e mapeamento. As datações
radiocarbônicas obtidas para estes dois sítios variaram entre os séculos VI e VII DC (Tabela 2), que, se
comparadas aos contextos da Amazônia Central – região adjacente e melhor conhecida do ponto de
vista da arqueologia – corresponderiam ao período de ocupação ligado à Tradição Borda Incisa,
particularmente à fase Manacapuru (Lima; Neves, 2011). A presença de elementos tecnológicos e decorativos
diagnósticos a este conjunto não deixa dúvidas quanto à sua filiação cultural à Borda Incisa/Barrancoide:
assim como ocorre na fase Manacapuru, há certa predominância de bordas extrovertidas e de flanges

294
Tabela 2. Datações radiocarbônicas obtidas para a área de pesquisa.

Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia • AMAZÔNIA CENTRAL


SÍTIO LOCALIZAÇÃO NÍVEL / DATAÇÃO RADIOCARBÔNICA*
PROFUNDIDADE IDADE IDADE Nº. DE
CONVENCIONAL CALIBRADA 2 SIGMA LABORATÓRIO
Mucajatuba Cidade de Silves 90-100 cm 1450±40 BP Cal AD 550 to 1290 Beta-242446
Pontão Península em frente 70cm 1230±40 BP Cal AD 680 to 890 Beta-304001
à ilha de Silves
Pontão Idem 86cm 1170±40 BP Cal AD 770 to 980 Beta - 304002
Pontão Idem 53cm 1230±40 BP Cal AD 680 to 890 Beta-304003
Santa Helena Península em frente 39cm 1050±40 BP Cal AD 900 to 1030 Beta - 304004
à ilha de Silves
Santa Helena Península em frente 64cm 490±30 BP Cal AD 1410 to 1450 Beta-304005
à ilha de Silves
Sete Irmãs Margem esquerda do 39cm 620±40 BP Cal AD 1280 to 1410 Beta-303996
do Anebá do rio Anebá
(médio curso)
Sete Irmãs Margem esquerda 67cm 850±40 BP Cal AD 1050 to 1090 Beta - 303997
do Anebá do rio Anebá (Cal BP 900 to 860)
(médio curso) and Cal AD 1130
to 1140 (Cal BP 820
to 810) and Cal AD
1140 to 1260
(Cal BP 810 to 690)
Sete Irmãs Margem esquerda 94cm 1490±40 BP Cal AD 450 to 450 Beta-303998
do Anebá do rio Anebá (Cal BP 1500 to 1500)
(médio curso) and Cal AD 460 to
480 (Cal BP 1490
to 1470) and Cal
AD 530 to 640 (Cal
BP 1420 to 1300)
Tauaquera Margem esquerda 66 cm 340±30 BP Cal AD 1460 to 1640 Beta-304006
do rio Anebá
(baixo curso)
Jauary Cidade de Itacoariara 100cm 420±40 BP Cal AD 1430 to 1520 Beta-303999
(Margem esquerda (Cal BP 520 to 430)
do rio Amazonas) and Cal AD 1590
to 1620 (Cal
BP 360 to 330)
Jauary Cidade de Itacoariara 148cm 520±40 BP Cal AD 1320 to 1350 Beta-304000
(Margem esquerda (Cal BP 630 to 600)
do rio Amazonas) and Cal AD 1390
to 1440 (Cal
BP 560 to 510)

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labiais nas formas das vasilhas, locais que são preferenciais para a aplicação da decoração, que consiste
Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia • AMAZÔNIA CENTRAL

na modelagem de figuras, principalmente zoomorfas, esferas aplicadas com ponteados ao centro, incisões
simples, duplas e múltiplas e também o engobo vermelho (Figura 2).

Figura 2. Cerâmicas Borda Incisa (Fase Silves) dos sítios Pontão e Mucajatuba. Fotos: H. Lima.

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Os sítios multicomponenciais, com a sobreposição estratigráfica das ocupações com cerâmicas Borda

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Incisa por conjuntos mais recentes Saracá, podem ser exemplificados pelo contexto encontrado no sítio
Sete Irmãs do Anebá, localizado na margem esquerda do rio Anebá, em seu médio curso. O sítio tem
uma estratigrafia bastante “didática”, composta por dois contextos ocupacionais claramente separados
na estratigrafia e com cerâmicas tecnologicamente diferenciadas. O conjunto mais antigo é relacionado
à fase Itacoatiara (Figura 3), enquanto o mais recente comporta cerâmicas da fase Saracá. Foram feitas
três datações radiocarbônicas ao longo da estratigrafia em uma escavação realizada no sítio, que revelaram
uma sequência cronológica entre os séculos VI e XII DC.
Já o sítio Jauary, localizado na cidade de Itacoatiara, também multicomponencial, mostra uma estratigrafia
extremamente complexa e perturbada, por se localizar em área urbana assaz antropizada. As datações
radiocarbônicas evidenciam tal perturbação, com contextos profundos e relacionados às cerâmicas Itacoatiara,
com datas muito recentes (ver Tabela 2), o que parece indicar mistura ou contaminação das mesmas. A diferença
deste contexto em relação ao anterior aparece nas ocupações mais recentes, sendo, neste caso, predominantemente
Guarita (TPA). Voltaremos a este sítio mais adiante, ao tratar das ocupações mais recentes da área.
O material supostamente antigo do sítio Jauary caracteriza-se pela associação da policromia com uma
decoração plástica altamente rebuscada, o que assemelharia essas cerâmicas àquelas anteriormente
referenciadas como Pocó ou Pocó-Açutuba (Lima et al., 2006; Neves et al., 2014). Soma-se a isso, a
presença de flanges labiais decoradas através de incisões e excisões em motivos curvilíneos e modelagem
com motivos biomorfos, sempre tendo o cauixi como tempero. Todos estes são elementos bastantes
característicos da fase Itacoatiara, descrita por P. Hilbert (1968) e discutida por D. Lathrap (1970b) e,
mais recentemente, por Lima (2008).
Esses contextos mais antigos ocorrem em grande parte dos sítios da região, geralmente em profundidade.
Quando se está lidando com sítios multicomponenciais, esses conjuntos são geralmente identificados
nos níveis estratigráficos mais profundos (como é o caso dos sítios Sete Irmãs do Anebá, Jauary,
Taperebatuba, entre outros). Entretanto, vale ressaltar que nos sítios Pontão e Mucajatuba, as cerâmicas
TBI (fase Silves) aparecem ao longo de toda a estratigrafia, em contextos unicomponenciais.
Há diferenças sutis entre esses materiais Itacoatiara e aqueles anteriormente descritos, referenciados como
fase Silves. Independente das diferenças entre esses dois conjuntos, assim como o componente antigo
da Tradição Regional Saracá (fase Sucuriju) (Simões, 1984), ambos estão relacionados ao início de uma
ocupação humana em larga escala da região (Neves et al., 2014). Ainda não estamos certos quanto à
separação cultural ou cronológica entre esses dois conjuntos antigos (Silves e Itacoatiara), de modo que
tal quadro ainda pode vir a se modificar com o andamento das pesquisas.
Já o período mais recente da ocupação pré-colonial é caracterizado pela mescla de elementos ligados
às tradições Incisa Ponteada e Polícroma. Dentre os traços comumente associados à primeira, encontram-
se o largo uso de ponteados, incisões finas e o tempero composto principalmente por cauixi e areia.
Essas características ocorrem concomitantemente e, por vezes, num mesmo fragmento, em cerâmicas
com traços predominantes da Tradição Polícroma (TPA), entre eles as vasilhas com borda reforçada e
flanges mesiais e a pintura polícroma. Foi justamente a essa fusão regional de traços distintos que M.
Simões denominou Tradição Regional Saracá (Simões; Machado, 1984, 1987). É importante notar
que estratigraficamente e contextualmente esses elementos não se diferenciam e sugerem, mesmo, tratar-
se de um único conjunto miscigenado. Ao que Simões separou como fases distintas (Anebá, Sanabani,
Garbe, Saracá...) componentes da TR Saracá, englobamos sob uma mesma nomenclatura unificada,
Saracá, ligada às tradições Inciso-Ponteado e Polícroma.

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Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia • AMAZÔNIA CENTRAL

Figura 3. Cerâmicas Itacoatiara (Pocó-Açutuba) dos sítios Jauary, Sete Irmãs do Anebá. Fotos: acervo do Projeto Baixo Urubu.

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Figura 4. Cerâmicas Saracá do rio Urubu, sítio Sucuriju (acervo MPEG). Fotos: N. Smith.

A aproximação das cerâmicas Saracá com a Tradição Inciso-Ponteado pode ser facilmente percebida através
dos materiais cerâmicos ali encontrados, caracterizados pelo largo uso de ponteados, como os já descritos
por Simões, ponteado-estampado, ponteado-arrastado e ponteado-repuxado, ou ainda o uso de outras
técnicas que resultem num efeito visual semelhante, como o inciso-quadriculado ou tracejado-quadriculado.
De fato, esta pode ser considerada a característica mais distintiva do conjunto: os ponteados, que são
aplicados em áreas e setores específicos dos vasos globulares ou em meia-calota. Em geral, somente as
porções inferiores dos mesmos (mesiais ou próximas das bases) são decoradas a partir desta técnica, uma
vez que nas porções superiores, mais próximas das bordas, que geralmente são extrovertidas ou reforçadas
externamente, as técnicas utilizadas são as incisões ou acanalados. Os pratos, tigelas e assadores, quando
decorados, concentram as mesmas na face superior das bordas, também expandidas. Neste caso, são comuns,
além das incisões, estampas de pequenas circunferências em toda a sua extensão. Os antiplásticos são
varáveis, mas usualmente apresentam uma combinação de cauixi, minerais, caco moído e, em alguns
casos, também o cariapé ou caraipé (Licania spp.).
Os ponteados e flanges com acabamento entalhados e incisões finas inclinadas são importantes elementos
diagnósticos da cerâmica Saracá do Rio Urubu. As vasilhas com estas características têm sempre uma
espessura fina, variando de 3 a 8 mm. Os ponteados parecem ter sido elaborados por uma vasta gama
de instrumentos que, associados às variabilidades gestuais, geram uma amplitude decorativa extremamente
expressiva (Figura 4). Inferimos que esses instrumentos sejam compostos por pontas únicas ou múltiplas,
que podem ser circulares ou achatados finos ou grossos; ou ter a extremidade em forma de u, v ou

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retas compondo 90°. Os de múltiplas pontas podem ter três ou mais extremidades verticais paralelas
Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia • AMAZÔNIA CENTRAL

circulares, podendo ser as pontas da mesma ou de espessuras diferentes. São marcantes na coleção
instrumentos de fileiras verticais levemente côncavos, com várias pontas achatadas de mesma espessura
e comprimentos iguais ou diferentes. Pode-se pontear ainda com as unhas ou pontas dos dedos, ocorrendo
também grandes estampas com múltiplas pontas muito finas ou ligeiramente grossas.
Inseparável do processo de confecção do instrumento está o gesto que se utiliza para aplicar estampas.
Estes podem variar de uma precisão, clareza e regularidade milimétrica a padrões aleatórios, podendo
formar fileiras de entalhes aplicados em sentidos opostos ou de maneira a complementar a extensão de
aplicação do instrumento. Pode-se ainda simular uma cobertura uniforme, mas que é resultado de um
cuidadoso trabalho de repetição do instrumento, de pequeno ou grande porte. Ocorre a formação de
fileira de um a cinco pontos, com intervalos paralelos e regulares entre os pontos. Com instrumentos
de várias pontas ou individuais é possível repuxar suave ou intensamente a superfície, formando ou não
nódulos ou protuberâncias. Os ponteados podem ser complementados por incisões ou intervalos lisos,
formando padrões que remetem possivelmente a pintas, escamas, carapaças, espinhos ou outras representações
que ainda não foram identificadas.
Alguns elementos estilísticos dessas cerâmicas, tais como a preferência pelas bordas como suporte para
a decoração incisa, remetem aos conjuntos mais antigos existentes na região. Na região do rio Urubu e
adjacências, as cerâmicas Saracá substituem as ocupações mais antigas, sobrepondo-se estratigraficamente
aos conjuntos Borda Incisa/Barrancoide. Os processos culturais ligados a esses fenômenos ainda precisam
ser melhor entendidos e interpretados, mas é válido registrar que alguns elementos de continuidade ocorrem
entre as cerâmicas Silves/Itacoatiara e os conjuntos Saracá. Assim, a cerâmica Saracá pode ser caracterizada
enquanto um conjunto de síntese, combinando elementos ligados a três das quatro tradições ceramistas
definidas Amazônia: as tradições Borda Incisa, Inciso-Ponteado e Polícroma.
Cabe ressaltar, por fim, que embora com visível predominância na área de pesquisa, ela aparentemente
se concentra no curso do rio Urubu e afluentes, sem, no entanto, adentrar com tal intensidade nos sítios
que margeiam o rio Amazonas, pois, em alguns dos sítios estudados, mais próximos do Amazonas, há a
clara preponderância dos materiais polícromos (Figura 5), enquanto que em outros mais distantes da
calha do Amazonas predominam os conjuntos Saracá. De fato, a concomitância regional, local e até
mesmo contextual das cerâmicas Saracá e Guarita sugere um mesmo contexto cultural de apropriação e
uso. Ainda não sabemos se as cerâmicas Guarita presentes nos sítios do rio Urubu foram produzidas
localmente, mas essa questão está sendo investigada. De todo modo, parece clara a associação cultural
dessas duas cerâmicas, inseridas num mesmo contexto de uso. De outro lado, a maior preponderância
das cerâmicas Guarita (incluindo urnas Guarita/Miracanguera) na calha do Amazonas, ao passo em que
as Saracá (ponteadas) se concentram em outras áreas, pode dar dicas importantes sobre a diversidade e
contatos culturais na região. Neste sentido, é importante avaliar a correta distribuição dos contextos
com cerâmica Saracá, para que se possa vislumbrar os processos históricos levados a cabo nessa região.
Levantamentos e estudos mais intensivos nos sítios localizados em um perímetro de interlocução entre
esses dois contextos (rio Amazonas-Urubu), a exemplo dos ‘“furos” ali existentes, como o Arauató, são
áreas prioritárias para o estudo das relações entre esses conjuntos (Bassi, 2013). Com isso, as pesquisas
ora em andamento procuram entender como se deram as relações históricas entre esses dois sistemas
culturais e territoriais aparentemente distintos, que se aproximam e se mesclam em algum ponto do rio
Urubu, revelando-se esta área como uma zona de fronteira cultural.

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Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia • AMAZÔNIA CENTRAL
Figura 5. Cerâmicas policromas em contextos Saracá no rio Urubu, sítios Jauary e Sucuriju. Fotos: acervo do Projeto Baixo Urubu.

Considerações

As cerâmicas Saracá têm uma ocorrência regionalmente restrita e são mais recentes do que anteriormente
proposto, com duração entre 900 dC e 1600 dC1. A região do rio Urubu é a sua área de maior expressão.
Internamente, elas possuem características de outros conjuntos, tais como as cerâmicas Borda Incisa/
Barrancoide, Inciso-Ponteado e das Polícromas. Sua associação ora à Tradição Inciso-Ponteado (Simões;

1. Essa estimativa foi feita levando em consideração somente as datações obtidas pelo Projeto Baixo Urubu. As cerâmicas datadas por Simões estão sendo reanalisadas,
com o intuito de melhor contextualizar tais datações.

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Machado, 1987), ora à Tradição Polícroma (Simões; Machado, 1984), pode ser explicada pela sua
Cerâmicas Arqueológicas da Amazônia • AMAZÔNIA CENTRAL

característica de síntese de atributos diagnósticos de ambas as tradições, em algumas áreas pendendo


mais para um lado, em outras áreas para o outro. De fato, não pensamos ser possível associar a Tradição
Regional Saracá à Tradição Inciso-Ponteado, tampouco é evidente a sua filiação direta à TPA, apesar
das claras associações contextuais e culturais dos materiais.
Regionalmente, essas cerâmicas compartilham atributos ou associação de atributos com conjuntos de
áreas adjacentes ao rio Urubu. Este é o caso das cerâmicas Cumaru descritas por Miller (1992) no rio
Uatumã, na área da Usina Hidrelétrica de Balbina, e aparentemente com as cerâmicas Axinim, no rio
Madeira – que apresentam uma forte relação geográfica com o rio urubu, além de possuir algumas
características semelhantes, descritas por (Moraes, 2013: 144). Tais semelhanças estilísticas e contextuais,
no entanto, não descaracterizam o conjunto Saracá enquanto um fenômeno regional circunscrito à área
do rio Urubu e adjacências.
A cerâmica Saracá pode ser entendida enquanto um híbrido entre diferentes conjuntos presentes na região
do médio e baixo Urubu e suas adjacências. A essa fusão regional de traços distintos, as interpretações
propostas têm se apoiado na hipótese de que tal diversidade resulte de ressignificações locais de distintos
padrões culturais, típicas de áreas de fronteiras culturais, que denotariam uma construção identitária
peculiar, tendo a decoração cerâmica como um indicativo de forte marcação ou reafirmação desta mesma
identidade étnica (Lima, 2013; Hornborg; Hill, 2011). Assim sendo, a questão que aqui se coloca é, do
ponto de vista conceitual, se a peculiaridade do material cerâmico verificada no baixo rio Urubu pode
mesmo ser representativa de uma zona de fricção étnica e/ou de fronteira cultural; ou se trata de (mais)
um novo complexo arqueológico identificado, como parte de uma trama de relações geopolíticas entre
os diferentes povos ameríndios na Amazônia pré-colonial.
Para esta indagação ainda não temos resposta, mas a continuidade e o avanço dos trabalhos nesta região
e em áreas adjacentes poderão ser elucidativos a este respeito, o que pode dizer muito sobre a história
profunda dos antigos habitantes da Amazônia Central.

Agradecimentos

Aos muitos colaboradores diretos do Projeto Baixo Urubu, entre estagiários, bolsistas, pesquisadores
e voluntários; e aos inúmeros colaboradores indiretos, em especial aos moradores das comunidades e
proprietários dos terrenos onde fizemos as pesquisas. Institucionalmente, o Projeto Baixo Urubu conta
com o apoio do Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas (MA-UFAM) e com o Museu
Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Os principais financiamentos vieram da Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq), por meio do Programa de Desenvolvimento Científico Regional (DCR-FIXAM)
entre os anos de 2009-2012, e atualmente conta com o financiamento do CNPq pelo Edital Universal
14/2014 (2014-2016).

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