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O sonho diurno

e a metáfora noturna

U
Aguinaldo J. Gonçalves

ma face e outra face do mesmo recorte


implicam o procedimento lunar da busca
da essência das coisas. As formas inaudí-
veis ressoam das vozes ecoadas cuja origem
não se define nem se aponta o ponto de
onde ela parte para eclodir no vasto fio
da infindável noite. Ela, a noite, é inco-
mensurável para que se possa determinar
algum elemento definitivo no contorno do
espaço sideral e metafórico. A metáfora
encontra na noite o que não possui em si
mesma: moldura do que não é salientável

AGUINALDO J. GONÇALVES é professor de


Relações Intersemióticas, escritor, ensaísta,
crítico de arte e autor de, entre outros, Nove
degraus para o esquecimento (Ateliê Editorial).

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dentro do equilíbrio que se vasculha nes- cada contorno de forma ou de cor, cada
ta vida de rascunhos e mais rascunhos na dispositivo formal dos elementos dispostos
tentativa de arranhar os contornos ásperos no mundo, entendidos como sonhos, nos
do silêncio. Se a noite não fosse a noite, conduziria ao entre-sonhos e nos aproxi-
poder-se-ia ter nela um apoio ou um su- maria não da verdade, mas da validade que
porte na esfera cognoscível dos volumes relativiza o universo visível das coisas e
violáveis. Mas a noite não é determinada explicitaria a face invisível do mundo. É
pelo controle vivencial dos referentes e das no dia que a subversão da percepção nos
vontades materializadas dentro das cama- domina e é no dia que a falsa crença da
das reconhecíveis do imediatamente cap- existência das coisas mostra sua cara e faz
tável pela carne, nem pelo que os órgãos com que o sonho tremeluza na oportuni-
do sentido tangenciam, como a esfera do dade de reconhecer-se como metáfora, à
conforto que tocamos, colocamos nossas luz do sol e ao cair das sombras. Falamos
mãos e nossos pés, cheiramos, buscamos aqui da experiência sensível de relação entre
pela boca o sabor na língua; enfim, envol- nosso sentido diante das coisas e de nosso
vemos o máximo possível nossos órgãos na pensamento no sentido desta relação, pois
tentativa de conhecer ou reconhecer o que é a partir desse ponto que tudo se inicia.
nos acostumamos denominar de vida. Isso A partir do momento em que o nosso tato
tudo ocorre dentro da perscrutação diurna toca e sente a superfície da matéria sem
que acreditamos vivenciar, mas que na ver- nos iludir pelo procedimento traiçoeiro da
dade são sonhos peregrinadores que viven- antimetáfora é que começamos a vislumbrar
ciamos desde o momento em que nascemos o início da vibração de nós mesmos, de
e, por analogia, ficamos sempre estupefatos nosso corpo, de nosso pensamento frente às
diante de cada gesto, à luz do sol ou no coisas e da relativização do que acreditamos
delineio das sombras, naquela hora em que ser as coisas que se tornam móveis diante
o verde dos renques de árvores se enfileira de nossos olhos ou de nosso pensamento
em matizes de verdes: verde-água, verde- para que possamos construir uma certeza
musgo, “verde menos verde”, verde verde. sem certeza, uma espécie de plasmação do
incerto, e dentro desse processo nos tor-
O TERRITÓRIO DA NOITE: namos incertos para nós mesmos. Durante
estas reflexões ou deste ziguezaguear deste
UMA METÁFORA pequeno ensaio, estaremos indo e vindo
num movimento pendular entre o sonho
Tudo isso compõe o cair das sombras, diurno e a metáfora noturna, tendo sempre
ponto de partida para o nascimento da me- o universo de um invadindo o universo do
táfora noturna. Todo sonho prismado com outro sem que haja divisórias entre ambos.
o contorno de realidade em que os sentidos Na verdade, o propósito destas ideias sem
lidam com cada referente do mundo, como fim nem princípio, mas com o ímpeto de
se fosse realidade na ilusão de que se co- uma determinação, surge das camadas que
nhece o que se vê e o que se vive, mas não se sobrepõem nos ninhos ou dos nichos de
se vivencia, pois se assim fosse, mediante significação que pesam na noção constru-

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tiva de vir a ser, do modo de viver, de se maquiar as palavras, esperando transmitir
fazer entender, de acreditar que seja o olhar um sentimento ou uma ideia dentro de um
com certeza do homem prostrado às duas tom com ares de verdade ou com noções
horas da tarde olhando para algum ponto subjetivas e ornamentadas por aparatos
com lentes escuras e tendo certeza para verbais que trazem em si ressonâncias de
que lado se dirigirá em busca de algo que uma tradição de um legado, de outras vozes
sabe que irá encontrar. Este homem não que também realizaram o mesmo procedi-
conhece a metáfora. A sua precisão solar mento, sendo que alguns se perderam na
revela a sua total incapacidade de ver; no história das formas e outros se mantive-
sonho deste homem a luz do sol não existe, ram persistentes na memória da tradição
mas ele tem certeza. Seguindo um caminho e foram transportados ou atualizados para
sem aclive e sem declive dentro daquela este eterno presente de transfusão sanguí-
reflexão sobre o sonho diurno, passamos nea, carregando o mesmo poder de persu-
ao referencial textual. Seja o texto verbal, asão retórica e se apresentando com uma
seja o texto visual, para realizarmos um máscara desfalecida e com ares de “sonho
procedimento analógico entre a percepção diurno”. Tudo que foi até aqui considerado
situacional e a linguagem, damos aqui um nesse procedimento entre os referenciais do
passo mais expansivo. Refiro-me ao contex- mundo e procedimentos retóricos verbais
to artístico. O denominado discurso verbal literários vale para linguagens construídas
literário consiste numa tentativa do homem com outros meios expressivos (pintura, es-
de se valer de uma retórica que subverta cultura e outras formas de artes plásticas).
as medidas da linguagem-padrão em busca Devemos assinalar, aqui, que as questões dos
de uma sensibilização dos recursos estilís- sonhos diurnos mais ainda se acentuam em
ticos para que se atinja a composição de se tratando pela criação artística das artes
uma esfera distinta da linguagem em busca plásticas, uma vez que a transmutação dos
de uma expressão no mundo e em busca signos depende da competência do olhar
da transmissão dessa expressão ao outro, e do modo de construir no objeto que se
de modo a mobilizar seus estigmas e seus fabrica um modo de “descascar” as esferas
valores para conduzi-los a alguma forma de da referência para que se procure se apro-
crescimento. Este sonho diurno das palavras ximar do que seria a substância do mundo.
ou das imagens acredita estar recriando o Na tradição retórica da metáfora des-
mundo por um esfacelamento das camadas de os gregos até a modernidade, alguns
referenciais deste mundo. Trata-se de um equívocos têm ocorrido com insistência nas
uso retórico da linguagem que, na maioria considerações teóricas, sejam acadêmicas,
das vezes, consiste num enorme valer-se sejam didáticas, que mais e mais transmi-
de um modo ingênuo e sofisticado de um tem falsas consciências em relação à mais
sonho diurno; “desculpo-me da intensida- relevante figura do pensamento estilístico.
de hiperbólica da expressão”: isso atinge a Esses equívocos se dão no fundamento bá-
grande maioria das manifestações retóricas sico da metáfora e, se não fossem eles,
e tudo é chamado de literatura quando qua- seriam muito mais equilibradas e lógicas
se sempre corresponde ao tênue estilo de as possibilidades de construção da metá-

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fora, bem como de sua compreensão num em si todo o procedimento de anulação


contexto textual de qualquer natureza. O do equívoco a que acima nos referimos.
que denominamos de equívoco consiste em Essa figura talvez seja a mais relevante da
aproximar a figura da metáfora à figura retórica. Ela atua com intensidade sobre a
da comparação ou símile, que represen- significação das palavras e das coisas. Por
ta o outro vértice equacional das relações isso sua grandeza e por isso a necessidade
semânticas. Na comparação temos explici- de compreendermos com certa precisão o
tamente a ocorrência de uma relação entre seu conceito. Mas também devemos assim
termos determinantes que são: o elemento assinalar os graus de sua complexidade. A
comparado e o termo comparativo, unidos metáfora existe por necessidade de nome-
pelo componente linguístico da relação. Esse armos aquilo que não pode ser nomeado
termo linguístico vai determinar o tipo de diretamente por uma palavra ou por um
relações comparativas tais como “mais que”, signo representativo; se isso fosse possível,
“menos que”, “tanto quanto”, “como”, “igual não teríamos necessidade da metáfora. Por
a” e assim outros. Nesse tipo de relação isso, na vaguidão semântica entre um signo
os elementos da comparação mantêm suas ou uma expressão e um outro signo e outra
identidades e isso é fundamental para de- expressão, na busca de uma nomeação do
terminar o procedimento equacional dessa inominável, surge a profusão interativa dos
figura. A figura que tangencia de modo in- traços semânticos e nasce assim a metáfora.
cômodo a figura da metáfora é a catacrese, Claro está que realizada qualquer tendên-
que diríamos se tratar de uma figura que cia de interação semântica, já se considera
não é figura; é um incômodo da retórica, uma metáfora, mas isso não significa que
pois significa apenas o uso de um termo tenhamos efetivamente a metáfora no seu
linguístico ou de um lexema ao invés de sentido mais decisivo e profícuo. Na maioria
outro, por uma espécie de empréstimo se- das vezes, quando o sentido de uma pala-
mântico: boca do forno, barriga da perna e vra resvala no sentido de outra, costuma-se
céu da boca são exemplos clássicos dessa já considerar a resultante como metáfora.
forma de expressão muito distante do que Sendo assim, a metáfora perpassa vários
poderíamos compreender como metáfora. graus de produção e de realização gerando
Voltando ao equívoco anteriormente assi- efeitos de sentidos com menor ou maior
nalado, quanto mais aproximada a figura intensidade semântica. Esse tipo de grau
da metáfora da comparação, mais destituída evolutivo da metáfora depende do grau de
da metáfora está sua natureza essencial. abertura da intersecção que ocorre entre o
elemento metaforizante e o elemento me-
UM CONCEITO: A METÁFORA taforizado, onde bailam os semas que vão
conviver e se inteirar no procedimento me-
tafórico. Quanto maior o grau de interação
A metáfora, no seu sentido primordial sêmica, mais a metáfora se imporá como
e essencial, consiste num processo de in- metáfora. Por isso consideramos frágeis as
teração semântica entre universos distin- consideradas “metáforas de uso”, consti-
tos de sentido. A palavra “interação” traz tuídas da relação x é y em que os dois

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termos se manifestam. Nesse universo se composição do tangível e atinjam o recep-
encontram as metáforas de uso tais como tor nos seus pontos mais veneráveis, que
“aquela mulher é uma onça”, mas podendo jamais poderiam ser atingidos por meio de
ocorrer certa metáfora expressiva como na metáforas fáceis, flébeis, como assinalamos
poesia de Fernando Pessoa “Meu coração anteriormente. Neste ponto devemos assi-
é um rio subterrâneo”: mais abstrata que nalar alguns aspectos da criação artística
a anterior, mas ainda marcada por termos que promovem esse processo de composi-
concretos. Temos a metáfora em que os ção da metáfora. Referimo-nos ao conceito
dois termos são separados por preposição: de “motivação do signo” já prenunciado
“lábios de mel” (romance Iracema, de José pelos gregos, sobretudo por Platão, e con-
de Alencar) ou “olhos de ressaca” (roman- firmado por outros grandes pensadores da
ce Dom Casmurro, de Machado de Assis). linguagem. Na modernidade, a motivação
Num terceiro grau de manifestação temos dos signos foi teorizada por Ferdinand de
apenas a presença do elemento metaforiza- Saussure na linguística e assinalada como
do, o que faz a metáfora atingir uma gama fundamento da relevância desse processo
semântica mais elevada. Depois desse painel de motivação. Na criação artística o proces-
de graus metafóricos, temos uma elevada so de motivação faz com que se acentuem
dimensão da metáfora que vem sendo re- as noções de semissímbolos, que são fun-
fletida neste artigo. Para que se possa falar damentais para a construção do processo
de uma metáfora de alto grau construtivo metafórico em nível mais elevado. Como
e relacional, temos de atingir dimensões já viemos teorizando em outros trabalhos,
semânticas bastante abstratas e a metáfora a obra de arte deve se realizar em três di-
deve atingir as camadas do discurso, o que mensões distintas: composição, realização
denominamos de metáfora discursiva. Nesse e modulação. Esse último procedimento
universo desaparecem os traços semânticos trabalha as gamas de motivação do signo
dos elementos metaforizadores, permane- e o modo como operar na formulação da
cendo os rastros das unidades sêmicas na metáfora discursiva.
construção daquilo que na esfera referen- Ao se relacionar com uma obra alta-
cial não conseguimos nomear; daquilo que mente modulada e consequentemente me-
o filósofo da linguagem L. Wittgenstein taforizada, o receptor não pode esperar
denominaria de inefável. desse tipo de obra imagens alegóricas que
A inefabilidade do discurso artístico (seja driblam o teor metafórico propriamente
constituído pela semiótica verbal, seja cons- dito para ilustrar a obra com figuras re-
tituído pela semiótica visual) vai-se confor- tóricas, diversificadas e sem verdadeira
mar figurativamente na metáfora engendrada substância significativa. Na literatura esse
numa dimensão elevada de manifestação. processo se dá de maneira profusa, em que
As grandes obras se realizam por meio da as imagens verbais acabam por delinear
competência do artista em romper com os dimensões icônicas da linguagem.
limites da referencialidade e atingir planos A metáfora discursiva advinda do proces-
de significação inusitados em que os sig- so de modulação da linguagem é responsável
nos e semissímbolos se amalgamam para a pelos discursos promovedores de intertextos

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advindos dos movimentos semânticos que da da memória” implica afastamento das


muitas vezes denominamos palimpsestos, relações de lembrança dos liames com as
que promovem isotopias inusitadas num coisas mundanas para penetrar no universo
entrecruzar do genotexto e do fenotexto das imagens, no fluxo das sensações em
dentro da concepção da semiótica de Ju- que uma verdadeira intersecção em nível
lia Kristeva. Esse tipo de engendramento profundo ocorra entre a tangibilidade das
literário só é possível em autores produ- coisas e a esfera dos sentimentos profun-
tores de obras de intensa complexidade. É dos mantidos pela inter-relação e evocação
incongruente imaginar um trabalho literário das imagens que tocam várias camadas de
mediano gerador de uma metáfora discursiva nossa sensibilidade. Esse poema de João
dessa natureza; e isso engloba tanto as ar- Cabral é “monitorado” pela imagem central
tes verbais, quanto as artes visuais. Mesmo da bicicleta, que nos dá a impressão de pro-
que não comporte neste artigo a análise vocar o movimento nas imagens que por si
de obras, é mister que exemplifiquemos o sós vão criando novos tipos de intersecção
que vem sendo discutido. Iniciemos com e formando o labirinto lógico das ideias.
um poema de João Cabral de Melo Neto Os elementos imagéticos se conectam de
intitulado “Dentro da perda da memória”, modo a apresentarem um movimento pe-
do livro A pedra do sono (1942): culiar da metáfora. Devemos aqui lembrar,
a propósito, uma riquíssima conceituação
“Dentro da perda da memória de metáfora realizada pelo poeta alemão
uma mulher azul estava deitada Hölderlin nos idos de 1800. Para ele, o
que escondia entre os braços poema lírico consiste na metáfora contínua
desses pássaros friíssimos de um sentimento único. Como se nota, a
que a lua sopra alta noite conceituação de Hölderlin vai ao encontro,
nos ombros nus do retrato. com exatidão, do poema de João Cabral. O
E do retrato nasciam duas flores movimento das imagens inscrito no poema
(dois olhos dois seios dois clarinetes) é corroborado pela integração das imagens
que em certas horas do dia que o compõem. A própria noção de tempo
cresciam prodigiosamente é figurativizada pela imagem do hierofante
para que as bicicletas de meu desespero que move “inutilmente seu único braço”.
corressem sobre seus cabelos. Isso tudo é possível por se tratar de um
E nas bicicletas que eram poemas poema que possui a competência de ab-
chegavam meus amigos alucinados. sorção do mito e da linguagem e em que
Sentados em desordem aparente, a metáfora ocorre em seu esplendor sem
ei-los a engolir regularmente seus relógios trazer em si os ranços da ilustração ou dos
enquanto o hierofante armado cavaleiro “enfeites retóricos”. Uma vez que o poema
movia inutilmente seu único braço”. lírico é considerado um discurso circular,
ele espelha o teor da metáfora que, por si,
O próprio título do poema indicia a materializa na poesia a circularidade.
desconstrução da referencialidade para a Passemos agora a um caso exemplar de
construção do universo metafórico. “Per- metáfora “discursiva” nas artes plásticas:

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Joan Miró, Poema I, 1968

O pintor catalão Joan Miró, desde o iní- alia às linhas e às cores num plano altamente
cio de sua produção plástica, no começo do modulado da metáfora.
século XX, teve como exercício permanen- Essa forma de pintura mobiliza todos os
te um trabalho de desreferencialização. Em planos de articulação icônica e acaba por
momento algum esse pintor se deixou con- construir uma expressão que atinge o recep-
duzir pelas rédeas ou pelos caminhos que tor de uma maneira aparentemente enigmá-
as escolas de seu tempo tentavam lhe impor. tica; queremos dizer, pois, que a profusão
Mesmo a escola surrealista, com seus me- metafórica não consiste, como adiantamos,
lhores representantes, tentou lhe impor a sua numa relação em que x é y ou, para melhor,
tendência ao figurativo e à dissoluta forma a que se intersecciona a b conduzindo a c,
de representação plástica, mas Miró seguiu como quer a retórica clássica. Na verdade, a
sempre seus próprios passos. Dentre os traços intersecção entre a e b conduz a n ou a um
de estilo de sua pintura, a deslexicalização e enigma. A metáfora em Miró envolve não
a construção da alegoria foram seus pontos apenas formas, linhas e cores, mas envolve
fortes, até, paulatinamente, atingir o âmago da sua concepção de moldura e a dinâmica que
construção metafórica, e nessa forma o que se instaura entre todos os elementos modu-
vimos discutindo destaca-se com intensidade lados no interior da tela. Tudo isso cria na
exemplar: o nível eidético (camada formal) se pintura desse artista catalão uma ilusão do

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lúdico e da visão infantil de mundo levando O ninho – que erguem – é néxil, pléxil, di-
muitos a assim compreendê-la. Nisso sua fícil. Já de segredo o começaram: com um
pintura engana, diferente do poema de João bicadinho de barro, a lama mais doce, a mais
Cabral, em que as imagens se impunham pela terna. De barro, dos lados, à vária vez, ajun-
sua complexidade e pela sua difícil compre- tam outros arrebiques. À muita fábrica, que
ensão; mas a metáfora discursiva de Joan se forma de ticos, estilhas, gravetos, em cur-
Miró não é mais fácil que o intenso poema tas proporções; e argueiros, crinas, cabelos,
de João Cabral. fibrilas de musgos, e hábeis ciscos, discer-
O terceiro passo da apresentação deste nidas lãs, painas – por estofo. Com o travar,
exemplário optou pela escolha de um tex- urdir, feltrar, enlaçar, entear, empastar, de sua
to considerado narrativo para que se possa simples saliva canora, e unir, com argúcia e
compreender a metáfora discursiva em todos gume, com – um atilho de amor, suas todas
os seus ângulos. Se bem que a metáfora no artes. Após, ao fim, na afofagem, forrá-lo
sentido que vimos discutindo desde o prin- com a própria única e algodoída penugem –
cípio deste artigo possui aspectos peculiares do peito, a que é mais quente do coração. O
que não se alteram independente do gênero ninho – que querem – é entre asas e altura.
em que se manifesta. Além disso, há de Como o pássaro voa trans abismos. A mais,
se notar que o gênero narrativo, em certos num esperanceio: o grácil, o sutil, o pênsil.”
casos, possui um grau de poeticidade de
singularidade difícil de encontrar nos textos Devemos atentar para o desenho que cada
literários em versos. Passemos a tratar, a pro- um dos exemplos traz na metáfora discursiva
pósito, de um caso singular: uma passagem e nas implicações sensitivas e significativas
do pequeno conto “Uns inhos engenheiros” geradas pelo objeto apresentado. Sabe-se que
de João Guimarães Rosa, contido na obra abordar em linhas gerais um texto de Guima-
póstuma Ave, palavra (1970). rães Rosa é praticamente impossível e pode
trazer resultantes perigosas para a realidade
“Onde eu estava ali era um quieto. O ameno do texto. Como a obra do autor mineiro é
âmbito, lugar entre-as-guerras e invasto ter- extensa e de excelência, decidimos optar por
ritorinho, fundo de chácara. Várias árvores. este fragmento no qual se pode deslumbrar
A manhã se-a-si bela: alvoradas aves. O ar elementos da metáfora discursiva por meio
andava, terso, fresco. O céu – uma blusa. de procedimentos só encontrados em Guima-
Uma árvore disse quantas flores, outra res- rães Rosa. Lendo atentamente a passagem,
pondeu dois pássaros. Esses, limpos. Tão notamos que os aspectos da linguagem sal-
lindos, meigos, quê? Sozinhos adeuses. E tam aos nossos olhos. Torna-se mais difícil
eram o amor em sua forma aérea. Juntos argumentar a favor de uma narrativa do que
voaram, às alamedas frutíferas, voam com a favor de uma poesia. O plano de expressão
uniões e discrepâncias. Indo que mais iam, é eximiamente trabalhável e nele as figuras
voltavam. O mundo é todo encantado. Ins- de som, as imagens sonoras farfalham entre
tante estive lá, por um evo, atento apenas tons e cores em que a linguagem fonologi-
ao auspício. camente reorganiza seus fonemas, gerando
[...] conjuntamente os desenhos que nos deixam

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atônitos sem muito entendermos o que está O teor metafórico não só deste quadro,
acontecendo. Num turbilhão de formas so- mas da obra de René Magritte, compõe-se
noras conjugam-se aliterações, coliterações, de estruturas metonímicas. Sua obra sempre
assonâncias, paronomásias, poliptoto, rimas parte de figuras em relação de contiguidade
internas, onomatopeias, figuras que com outras e na sua forma de construção nasce a rela-
formas de expressão criam o arcabouço fo- ção metafórica por similaridade. A pintura
nético/fonológico no processo de composição desse artista belga trabalha na maioria de
semissimbólica do discurso. Daí vem a dinâ- seus casos com o eixo paradigmático na bus-
mica efervescente do discurso de Guimarães ca de semelhanças e dessemelhanças para
Rosa construindo a metáfora absoluta em a construção do resultado da imagem. Sua
que, por meio do ninho dos pássaros, nasce obra caracteriza-se pela capacidade de síntese
a imagem do poema lírico e isso consistindo nos levando sempre a analisar o título de
no reino da bricolagem, numa permanente cada um de seus quadros. São eles muitas
forma metalinguística do discurso. Apesar vezes que nos levam à construção metafó-
de pertencer ao gênero narrativo, “Uns inhos rica da imagem. No quadro em questão, no
engenheiros” pode ser considerado o que eixo paradigmático são duas cabeças (que
denominamos “narrativa poética”. Assim sen- se pode considerar sinédoques) de seres que
do, o próprio teor de prosa que determina inferimos tratar-se de gêneros diferentes (um
a base do texto se torna de alta poeticidade homem e uma mulher), mas que não temos
e os elementos da linguagem interceptam o certeza uma vez que se trata de ícones, isto
segmento natural da narrativa. é, signos e não referentes. Ao buscar essa
Um pouco distinto, mas igualmente intenso referência possível temos a impossibilidade,
e metafórico, segue-se o ultimo exemplo. Trata- pois os ícones das cabeças são envolvidos
-se do quadro Os amantes, de René Magritte. por um tecido que tira qualquer possibili-
Reprodução

René Magritte, Os amantes, 1928

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dade de uma interação afetiva. Os ícones a metáfora ou pensarmos a metáfora como


são metonímias de dimensão associativa e se fosse pela primeira vez. Os elementos
o que nos resta no conjunto são simulacros linguísticos e retóricos que atuam na cons-
semióticos, como se dissesse a nós como trução da metáfora prescindem de qualquer
nos dissera no quadro do cachimbo: “Isto reflexão sobre a metáfora. Como pensar com
não são amantes”, e essa noção semiótica acuidade sobre a conotação se não temos
se repete em muitos outros quadros. o mínimo de entendimento sobre a denota-
ção? Para aquém de uma forma de vermos
Mitigar as investigações sobre a metáfora o mundo por meio da metáfora, temos de
e seus movimentos tensivos é obliterar as instigar os entremeios por meio de um co-
evidências do que se propõe a se esconder nhecimento mínimo das ordens das coisas
sob os escombros dos desmandos dos sen- e dos sentidos das coisas do mundo. Isso
tidos. Essa figura nuclear da retórica dribla é necessário para que possamos caminhar
e, ao mesmo tempo, argumenta em favor na direção do esgotamento de sentidos a
dos juízos semânticos desde que o homem ponto de nos valermos de uma metáfora
vislumbrou manifestar-se ou expressar-se ou reconhecermos num contexto verbal as
dubiamente em forma de expressão verbal marcas de uma metáfora para atingirmos
ou extraverbal. Uma vez que o princípio da a precisão que um signo ou que mais de
metáfora advém de processo de interação um signo não consigam apreender.
de sentidos para criar novos sentidos que A face da noite naquela instância em que
nomeiem ou denominem algo que não seria não se ouve nada a não ser o silêncio da
possível ser nomeado com precisão, a me- noite em que o cão já não late, o pipiar dos
táfora não pode ser criada trazendo no seu pássaros se cala e o uivar de vozes indefen-
corpo pedaços dos sentidos oriundos dos sáveis se mortifica – neste instante a noite
mundos das referências que não precisam apresenta o que ela possui de essencial para
ser renomeados. É trabalhoso repensarmos que seja oferecida ao artista como metáfora.

referências

HÖLDERLIN, F. Reflexões. Trad. Márcia de Sá Cavalcante e Antonio Abranches.


Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1994.
MELO NETO, J. C. de. Obras completas. 1ª ed. Rio de Janeiro, Nova Aguillar, 1995.
ROSA, J. G. Ave, palavra. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001.
SZONDI, P. Ensaios sobre o trágico. Trad. Pedro Süssekind. Rio de Janeiro,
Zahar Editores, 2004.

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