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Sisiceco Pioneira de Esudos Brasileiros

“OS CRISTÃOS-NOVOS
POVOAMENTO E CONQUISTA DO
“SOLO BRASILEIRO(1530-1680)
José
' Goncalves
Salvador
Biblioteca Pioneira de EstudosBrasileiros

OS CRISTÃOS-NOVOS
POVOAMENTO E CONQUISTA
DO SOLO BRASILEIRO
José Gonçalves Salvador
O AUTOR de Cristãos-Novos, Jesuítas e Inquisição (Pioneira, 1969)
apresenta agora ass leitores um trabalho de grande enverga-
dura no qual aborda questões pouco versadas da historiografia
nacional e responde a algumas indagações suscitadas pela
obra anterior, premiada com menção honrosa pelo Instituto Na-
cional do Livro.
Esta obra é um prosseguimento da ouira, mas sob diferenies as-
pectos, quais sejam, o religioso e o social. respectivamente. Para
este estudo, o Autor realizou extensas e meticulosas pesquisas no
Brasil e em Portugal — sobretudo na Torre do Tombo, nos arqui-
vos Ultramarino e da Ajuda — permitindo o recolhimento de
dados fundamentais para o esclarecimento da nossa formação
étnica e social durante os 150 primeiros anos, bem como para o
referente à conquista do soio brasileiro.
O livro está dividido em duas paries, que se conjugam harmonio-
samente, começando pelo reexame da tese segundo a qual as |
populações meridionais do Brasil — a que Oliveira Viana dedi-
cou uma de suas mais conhecidas obras, tirando conclusões fa-
voráveis à posição arianisita — teriam marcado cunho aristocrático,
tal a qualidade ou a nobreza de seus elementos formadores.
GonçALVES SALVADOR susienia ponto de vista contrário, mostrando a
participação eficaz, em volume e qualidade, de povoadores ju-
deus ou cristãos, pertencentes à classe média ou q níveis sociais
inferiores.
Em abono da temática geral, o Autor oferece dados e argumen-
tos dignos de alto apreço, sobretudo no concernente à impor-
tância da imigração judaica, fato esse que representa, sem dú-
vida, uma contribuição positiva em prol de estudo mais profundo
acerca de nossas raizes éinicas e culiurais.
Na segunda parte é tratada mais especificamente a presença 5
dos Cristãos-Novos na conquista do solo brasileiro, incluindo a
“obtenção de sesmarias, a exploração dos seriões, o ataque aos
aldeamentos jesuíticos do Paraguai e o subsequente recuo da
“linha de Tordesilhas. O quadro do bandeirismo paulista ganha,
* desse modo,perspectivas novas. A valiosa contribuição de Gon-
CALVES SALVADOR recebeu o endosso da EDiTORA DA UNIVERSIDADE DE
“São PauLo, eprediera deste lançamento.

LIVRARIA PIONEIRA EDITORA E


EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
JOSÉ GONÇALVES SALVADOR

OS CRISTÃOS-NOVOS
POVOAMENTO E CONQUISTA
DO SOLO BRASILEIRO
(1530-1680)

LIVRARIA PIONEIRA EDITORA


EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
SÃO PAULO
Capa de
Jairo Porfírio

Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida sejam quais forem
os meios empregados(mimeográfia, xerox, datilografia, gravação,re
produção em disco ou em fica), sem a permissão porescrito da Editora.
Ãos infratores se aplicamas sanções previstas nos artigos 122 e 130 da
Lei n.º 5.988 de 14 de dezembro de 1973

1976
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com a colaboração da
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Reitor: Prof. Dr. Orlando Marques de Paiva

EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO


Presidente: Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri
Comissão Editorial:
Presidente: Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri (Instituto
deBiociências), Membros: Prof. Dr. Antonio Brito da
Cunha Instituto de Biociências), Prof. Dr. Carlos da
Silva Lacaz (Faculdade de Medicinal, Prof. Dr. Pérsio
de Souza Santos (Escola Politécnica) e Prof. Dr. Roque
Spencer Maciel de Barros (Faculdade de Educação)
BIBLIOTECA PIONEIRA DE ESTUDOS BRASILEIROS

Coordenação
OSMARPIMENTEL
Á memória de meusqueridos pais,
Elias Gonçalves Salvador
Encarnação Gonçalves Cardoso,

O meu sinceroagradecimento
à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estadode São Paulo
ao Institutode Alte Cultura, do Ministério da Educação de Portugal,
os quais, acravês de suasajudas valiosas, permitium.me realizar extensas pesqui
sas no Brasil e naquele país,além de manter uma proveitosa correspondência
com álguns ilustres historiadores do Paraguai, Argentina, França, Holanda e Is-
rel
Prefácio, XI
Introdução, XVI
PARTE À
A Formação Étnicae Social
das Capitanias do Sul

Capítulo Primeiro
Os Cristãos-Novose a Questão Filogenética, 3
Capítulo Segundo
OsEstatutos de Pureza Sangitinea e a Nobreza doSul, 19
Capítulo Terceiro
UmaAvaliação Quantitativa dos Cristãos-Novosnas
Capitanias do Sul, 45
Capítulo Quarto
O Elemento Flutuante nas Capitanias do Sul, 69
Capítulo Quinto
Os Cristãos-Novos Estrangeiros nas Capitanias do Sul, 85
Capitulo Sexto
Cristãos-Novos Portugueses Radicados nas Capitanias do
Sul, 107
A. No Espírito Santo, 108
B. Na Capitania de São Vicente, 124
€. No Rio de Janeiro, 153

Capítulo Sétimo
A Contribuição Cultural dos Cristãos-Novos à Sociedade
Luso-Brasileira, 211
PARTE B
A Presençados Cristãos-Novos na Conquistado
Solo Brasileiro
Capítulo Primeiro
OsPrimórdios da Ocupação do Solo, 237
Capitulo Segundo
A Colonização Sistemática do Brasil, 241
Capitulo Terceiro
O Povoamento das Ca itanias Meridionais e os Cristãos-
Novos. 249
Capitulo Quarto
Os Cristãos-Novos e a Exploração dos Sertões, 263
sulo Quinto
O Recuo da Linha de Tordesilhas e os
Cristãos-Novos, 283
Capétulo Sexto
O Domínio rangeiro e os Cristãos-Novos, 319
1. Ingleses no Brasil e Cristãos-Novos, 319
2. Os Franceses e a Conquista do Solo Bra
3. Holandeses e Cristãos-Novos no Bra:

Considerações Finais, 369


Apêndice, 377
Abreviaturas, 383
Fontes e Bibliografias, 387
Índice Onomástico, 399
Prefácio

José Gonçalves Salvador — umdos mais respeitados historiado-


res brasileiros, merecidamente acatado no País no estrangeiro — é
bacharel e licenciado em Geografia e História pela Universidade de
São Paulo, bacharel em Teologia e, ainda, Doutor em Ciências pela
então Faculdade de Filosofia, Ciências « Letras da Universidade de
São Paulo.
Figura norol dos docentes do Ensino Superior que nosinfundem
naturalmente respeito e admiração. Dotadoda mais alta qualificação
profissional, cultural e científica, revela-se, outrossim, nosetor do
ensino comodistinto professor, exercendo o magistério no Grande
São Paulo.
José Gonçalves Salvador participou do V ColóquioIntern: ional
de Estudos Luso-Brasileiros, realizado na cidade de Coimbra, em
1963. Neste ano e em 1970, com ajuda financeira da Fundação de
Amparo à Pesquisa doEstado de São Paulo, da Fundação Calouste
Gulbenkian e do Instituto de Alta Cultura do Ministério da Educa-
ção de Portugal, trabalhou nos Arquivospúblicos e particulares de
Portugal, notadamente nos ricos acervos de Lisboa, ultimando segui-
damente suas pesquisas em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Bue-
nos Air
José Goncalves Salvador é um dos andes especialistas emHis
tória dos Cristãos-Novos, no atinente,sobretudo. ao papel desempe-
ahado noprocesso de desenvolvimentoda formação brasileira, como
nos mostra a sua produção científica onde se destacam, entre outras,
as seguintes obras, todas elas bem conhecidas e apreciadas,
marcando-lhe à vocação de historiador: Cristãos-Novos, Jesuitas eIn-
quisição — que mereceu menção honrosa doInstituto Nacional do
Livro; Os transportes em São Paulo no período colonial — que em 1959
fez jus aos prêmios da Academia Paulista de Letras e da Câmara Mu-
nicipal de São Paulo; À (ei de imprensa e do comércio de livros,de Filipe
1, é seus reflexos na América Luso-Espanbola — com que obteve, meri-
tamente, o prêmio de jornalismo da Prefeitura Municipal de São
Paulo, em 1963. O seulabor de historiador revela-se, outrossim, em
suas colaborações na Encyclapedia of World Mesbodism, vols. Le IL
Projeta-se, ademais, em seu currículo, ovalioso estudo sob aná-
lise, que presentemente temos a honra € a satisfação de apresentar,
recomendando-o, Os Cristãos-Novos: Poroamento e Conquista do Solo
Brasileiro (1530-1680).
A Editora da Universidade de São Paulo, em co-edição com a
Livraria Pioneira Editora, editando este estudo, coloca ao alcance dos
interessados uma obra marcante, consagradoca de uma vocação.
O trabalholê-se com gosto e proveito,tal ointeresse que suscita.
O poderde interpretação do fenómeno histórico nele manifestadoé
de anotar e de imitar. Atento o cuidado posto pelo autor na sua
preparação, recomenda-se insistentemente. A pesquisa sobre a qual as-
senta custou a José Gonçalves Salvador algunsanos de paciente e
constante labor profissional. Impressiona,logo de início, a sua inves-
tigaçãotanto bibliográfica, como documental. Dir-se-ia mesmoque
autor preparou-se cuidadosamente para a elaboração deste estudo,
podendo, por isso, apreciar-se oseuquilate.
Atravésde Cristãos-Novos, Jesuitas e Inquisição, é agora deste es-
tudo Os Cristãos-Novos: Povnamento e Conquista do Solo Brasileiro
— José Gonçalves Salvador demonstra que o acervo de judeusibéri-
cos, notadamente portugueses, estantes noseioda população do Bra-
sil, no decurso dos séculos XVI e XVII, foi bem maior do que se
tem, cá e lá, admitido. Assim sendo, influíram com expressiva gran-
deza em nossa formaçãoétnica, cultural e econômica.
Comprova-se, de modo igual, que os Cristãos-Novos participa
ram denossa vida colonial, ajudando na conquista da terra € na ex-
pulsão do inimigo estrangeiro. Equivale dizer que a maioria deles
mostrou-se sempre identificada com a causa portuguesa no processo
de ocupaçãodoespaço tropical — terras e águas doAtlântico Sul —
contribuindo,em todosos setores da vida, no processo de mudança
do Sistema Colonial e deslocamentoda fronteira.
O presenteestudo toma por enfoque as Capitanias do Sul, as
quais não despertaram ainda a devida perquirição da historiografia
contemporânea, nacional e estrangeira. Ademais, o que se escreveu,
sobretudo atinente a São Paulo, deixa muito a desejar, negando,
inclusive, a conduta psicológica e as apridões dos judeus para o ser-
tanismo, que o fenômeno penetração continental — bandeirismo
paulista — contradiz e denega.
O tema — Cristãos-Novos no Brasil — encontra-se ainda por
desbravar. Realmente muito pouco se tem escrito com sericdade
científica. Excepto os estudos de Anita Novinski, Sônia Siqueira,
Arnold Wiznitzer e Eduardo &'Oliveira França, nada, ou quase nada,
merece destaque. Salvocitadas abordagens, oassunto permanece
omitido.
Comefeito, as Capitaniasdo Sul sempre andaram negligenciadas.
Dilucida-as agora em grande parte José Gonçalves Salvador, levan-
tando genealogias e estudandoo labor desempenhado pelos
Cristãos-Novosnessas áreas, principalmente. De par com isso revela
aspectos bem diversosde outros espaços brasileiros, destacando-se,
de modosingular, a diferença entre São Paulo e Rio de Janeiro — o
planalto olitoral
O trabalho em cpigrafe acha-se desdobrado emduas partes. À
primeira —"A formação étnicae social das Capitanias doSul” — com
sete capítulos. À segunda — “A presença dos Cristãos-Novos na
conquista dosolo brasileiro” — composta por mais seis capítulos
Precede-as uma sugestiva introduçãoonde se problematiza o tema à
ser esclarecido. O trabalhoé deveras conclusivo. Oque José Gonçal-
ves Salvador se propós comprovar foi realmente demonstrado.
Osíndices — geral e onomástico apêndice, abreviaturas, fon-
tes manuscrisas e impressas —, tudo, afinal, testemunhao planeja-
mento a logicidade da obra queora apresentamos, confirmando,
sobejamente, a inteligência e erudiçãodoautor em tratar 05 referi-
dos aspectos daatuação dos Cristãos-Novos naquelas Capitanias.
Certamente a obra se irá impor, quer pelo imteresse intrínseco do
assunto, quer pela seriedade e rigor científico com que foi concebida,
qualificação quese estimaparticularmente importante.
leitura dolivro ratífica plenamente à nossa expectativa e certi-
fica O preparo curístico de José Gonçalves Salvador. É exato que
nenhum historiador é insensível a determinados induzimentos ou
propensões. Entretanto o autor procurou manter-se neutral na abor
dagem dofenômenohistórico, cientificamente reto na verdade do
evento, sereno na comprovação sobre a qual assenta a obra elabo-
rada.
Claro que nenhum trabalhointelectual esgota o tema abordado.
Toda lavra científica tem méritos e deméritos. Ademais, toda ciência
progride pelas controvérsias. Seguramente alguns críticos mais escla-
recidos encontrarão deficiências oulacunas. Mas, asseveramos, em-
bora passíveis de reparos, não são, de modo nenhum, suficientes para
deslustrar o merecimento doestudode José GonçalvesSalvador que,
afinal, na apuraçãodos resultados, apresenta saldosobremaneira po.
sitivo e se exprime como umadas mais valiosas obras que nos foi
dado conhecer.
Através deste livro bem acabado, o autor contradiz, sem odizer,
osfalsificadores do passado e as mal-avinhadas testemunhas do pr
sente, fiéis representantes de uma historiografia contemporânea sub-
reptícia, dolosa e fraudulenta, inserida de temperos oriundos de outras
Ciências Humanas, que certos adeptos igualmente ingnoram, e que se
comprova subdesenvolvida, transferindo para O pretéritorealidades de
nosso tempo,então inexistentes, adulterando, com isso, consciente cu
inconscientemente, à verdade histórica sempre indagada.

MANUEL NUNESDIAS
Professor Catedrático da Universidade
de São Paulo
Introdução

Antropólogos, historiadores e sociólogos têm-se ocupado em estu-


dar a presença do indigena e a do escravo negro na elaboração do
complexo socioeconômico brasileiro, mas não deram aindaa suficiente
importância a um terceirogrupo étnico muisignificativo, qual seja odos
chamados cristãos-novos, nos primeiros séculos. São poucas as obras que
tratam dos mesmos, quer as de caráter geral, quer as de natureza especi-
fica?,e bem assim os estudosvindosa lume em jornais € revistas? E, no
entanto,já se passaram mais de sessenta anos desde que Varnhagen abriu
valiosas trilhas em suainvejável História Geral do Brasilº. É impressio-
nante, sobretudo, o laconismo com respeito às Capitanias do Sul.
Acrescente-se,aliás, que quase tudo quanto ja se escreveu, gira ao
redor da Bahia e de Pernambucoestribando-se os autores nas visitações.
do Santo Oficio em 1591 e 1618, Aiestão a comprová-lo as introduções
aostextos das mesmas,as biografias de Bento Teixeira, os alinhavos
sobre a pessoa do mercadosJoão Nunes,e alguns outros estudos. Mere-
cem destaque mais recentemente diversas comunicações de Anita No-
vinski e a sua obra Os Cristãos-Nocos na Babia (1624-1654); os dois
esclarecedores trabalhosdoprofessorEduardode Oliveira França, inticu-
lados “Engenhos, Colonizaçãoe Cristãos-Novos na Bahia”, e “Um Pro-
blema aTraição dos Cristãos-Novos em 1624"*, Constitui uma honrosa
exceção às obras de cunhoespecífico Os Judeus no Brasil Colonial, de
Arnold Wiznitzer, ainda que limitada em amplitude e profundidade.
Nela o autor dedica uma dezena e meia de páginas ao Rio deJaneiro, no
século XVIII,é nada mais quanto às Capitanias do Sul. Sobre São Paulo o
silêncio permanece totais.
Mas, por queessa exigrúidade?
O fato decorre,certamente, de umasérie de perspectivas mal formu-
Jadas sobre a emigração judaicae do papel que os da progênie desempe-
nharam na mesma. A deduzir das leis quelhes proibiam o ausentarem-se
de Portugal, não seriam tantos os quevieram para o Brasil, terra inóspita
e que teria pouco à oferecer-lhesde proveitoso. Mas, ao invésdisto, os
Países-Baixos lhes acenavam com excelentes opormnidades.
Norol detais critérios concebidos aprioristicamente, outros se enfi-
leiram. Assim,já se pretendeu quea presença daCompanhia deJesus em
nosso país, bastaria para afastar os judeus daqui, como se os inacianos
fossem seus inimigos. E, a semelhante engano,foram levadoshistoriado-
res e genealogistas na suposição de que certos nomes adotados pelos
sefardins os distinguiam dos legítimoscristãos, ou ainda quandoalguém
estivesse identificado com as confrarias religiosas, ou senão com as
ordenseclesiásticas e militares, ou exercesse um encargo público. Não se
deram conta,porém,da falácia, deixando deobservar a distância entre a
rigidez das leis e as realidadesda vida prática. Nem é exato que somente
se distribuíram sesmarias aos cristãos, conforme preceituavam os Forais
conferidos aos donatários capitães-mores e as Ordenações do Reixo. Se
assim fosse, serfamios obrigados à reconhecer que os imigrantes da pro-
gênie hebréia andaram ausentes das fainas agricolas, nada mais lhes
restando senão o comércio e as profissões liberais. Como, porém,expli-
catíamos a sua presença na indústria açucareira, uma vez que muitos
dentre eles tornaram-se “partidistas”'de canae senhores de engenho,já
nosprimórdios da colonização?
Examinado o problema sob tais critérios, longe estaremos de alcançar a
plena verdade. O movimento imigratório sofrerá duas distorções basila-
res: a primeira, enaltecendo-o a favor do cristão-velho, e a segunda
menoscabandoo afluxo hebreu, especialmente nas Capitanias do Sul. O
cômputo demográfico permaneceria o mesmo, mas desfigurado quanto
às duas ecnias brancas. De modoque, tambémassim, seria dificil precisar
o comportamento de cada uma em relação à outra e às subservientes,
representadas pelos indígenas e pelos escravos africanos.
Note-se, todavia,além disso, que os judeus figuravam entre as pes-
soas bem informadas sobre o ultramar português, e inclusive o Brasil
Gente sua havia tomado parte nas expedições de Vasco da Gama e de
Cabral. Martim Afonso de Sousa, donatário de São Vicente, era paricu-
Jar amigo do cosmógrafo Pedro Nunes. Nesta mesma profissão serviu
depois o ilustreJoão Batista Lavanha. Na qualidade de médicos da Corte
enumeram-se os doutores Manucl Rodrigo de Lucena e Antônio de
Leão, ao passo que Diogo do Couto, Antônio Bocarro e Duarte
Nunesde Leão foram cronistas oficiais. Ligados a D. João IV,
atrolar-se financistas e embaixadores. E assim pordiante.
Porpalavras e porescrito os“da nação”foram grandes propagandistas
do Brasil. Luís Mendes de Vasconcelos, em 1606, enalteceu as suas
possibilidades econômicas, « nisso foi imitado logo depois (1618) por
Ambrósio Fernandes Brandão, autor dos Diálogos das Grandezas do
Brasil. Em 1621, Duarte Gomes Solis procurou mostrar aorei que mais
valia ocupar-se com o Brasil do que com o Oriente. Em 1629,veio a
público, no meio castelhano, a obra dolic. Antônio de Leão Pinelo,
Episomede la Bibl Oriental « Ocidental.
Além de tudo, as condições no Reino transcorriam mal para os da
progênie. O Brasil pois,era um incentivo. Haviafatores, aqui, capazes de
atraí-los. E osjudeus vieram em número crescente. Aqui acharam o seu
Paraiso. O fluxo imigratório nunca cessou. Mesmo nas fases de impedi
mento, achavam meios para sair. Muitos possuiam navios. A Inquisição
também os enviava a cumprir degredo nestas partes.
As Capitanias do Sul com maioresrazões não escaparam apreconcei-
tos e nem perspectivas falazes. Admite-se, por exemplo, que à econo-
mia do Rio deJaneiro, durante todo o século XVII manteve-se em nível
inferior à do Nordeste, e que São Paulo, no cimo da Paranapiacaba,
vegetou na pobreza e no isolamento. Pretende-se, ademais, que ne-
nhuma das três, ou mais especificamente, asvilas do planalto, ofereciam
atrativos para osjudeus, os quais no entender de algunsautores, gosta-
vam de umavida cômoda e onde pudessem granjear riqueza fácil. São
Paulo, localizadaà bocado sertão e subsistindocom base no escravismo
indigena, nenhum fascínio teria sobre eles. À prova está, acrescenta-se,
em que à Inquisição jamais subiu aos campos de Piratininga.
Daí o nosso interesse pelo assunto.
Preferimos enfocar os estudos nas Capitanias do Sul, campoainda
mal conhecido nafase em apreço: 1530 a 1680. O Rio deJaneiro c São
Paulo prestam-se a comparações admiráveis, de um lado por suarelativa
proximidade, e do outro por suas diferenças geoeconômicas e “modus
vivendi”
Se é que “a gente de nação” se localizou nas duas áreas, como defato
sucedeu, pergunta-se: queinfluência o “habitar” gerou sobre cada núcleo?
Qual oseuprocedimento e formas de atividade? Quais as respectivas
contribuições?
Natusalmente o problemada identificação dosindividuos foi o que
mais nos preocupou. Sem resolvê-lo, como haveriamos de discernir os
atorese de acompanhar-lhes a ação? Assim, fomos ouvir primeiroos
sencalogistas, mas eles nos confundiram, excetuando-se oinclito Cr
tóvão Alão de Morais. Procuramos, a seguir, osróis das fintas que se
cobraram aos judeuse nãoos encontramosemparte alguma. Asevidên-
cias proporcionadas pelas atas das Câmaras, pelas habilitações de gênere
ao sacerdócioe às Ordens Militares, poucoajudaram. As visitações de
1591, 1618 e 162; também nãoadiantaram muito. Os cadernos manda.
dos copiar por Eduardo Prado, e aindainéditos, não atiram luzes sobre à
capitania deSãoVicente, Certa vez informou-noso professorJosé Perez,
que, se fossemos Torre do Tombo, em Lisboa,lá acharíamosums livro
uscrito com os nomes de inúmeros judeus, muitos dos quais do
Brasil. Então, para lá nos dirigimos em 1963,e, de fato,logo vimos o
precioso alfarrábio, pois os funcionários doarquivo conhecem-nobem
pelo título de Litro Grande dos Homens do Santo Ofícios. Nele estão
arrolados por ordem alfabética os individuosque foram sentenciados
peloTribunal de Lisboa desde o perdão geral de 1605. Vem até meados
doséculo XVI. Constitui fonte valiosa graçasaosinformes que oferece.
É falho,porém, quantoàs capitanias de São Vicent e EspíritoSanto,e
apresenta lacunas sobre o Rio de Janeiro no século anterior. Mas ontros
documentos do mesmoarquivo concorrem para eliminar alguns dos
senões”.
Assim,processadas as identificações foi possível conheceras pessoas
e, em muitoscasos, formalizar osseus quadros genealógicos. Tínhamos,
agora, por conseguinte, uma base para clucidar os quesicos que nos
acudiram à mente. Queriamos saber, antes de tudo, se, na realidade,a
diáspora sefardim alcançou O Brasil, e mais particularmente as Capitanias
do Sul. Nãose daria o caso de efetivar-se apenas quanto já estivesse bem
adentrada a colonização, sendo menoresos sacrifícios, ou, por ventura
osda estirpefiguraramentre os pioneiros do novel País? De que regiões
procederam? Forammuitos ou poucos? Que ambiente osaguardava
aqui? Qual o seu estado civil? Que profissões tinham? Ossolteiros
casaram-se dentroda própria ermia ou sucederam-se enlaces exogâmicos?
Mas o espírico da época nãoera contrárioa isto, quer doladocacólico,
quer do judaico? Foram matrimônios fecundos, se admítirmos que o
hibridismo étnico é nocivo?
Deno, ainda, da mesma linhade pensamento, evocamos a situação
emPortugal, onde sofriam perseguições e não mais lhes facultavam as
judiarias. Vindo para o Brasil, tentavam viver em guetos ou separados
dos restantes europeus? Que tipos de relacionamento mantiveram com
respeito aos vizinhos? Agiram em São Paulo « no Rio de Janeiro da
mesma forma? Foram valiosas as suas contribuições sociais e culturais?
Enfimeles se interessavam pelo bem da terra? Que atitudetiveram face
aodesbravamento do solo e àpresença de estrangeiros, tais como france
ses, ingleses, holandeses, e mesmo espanhóis
Eis porque, em resposta a esses considerandos,dividimos a obra em
duas partes, Ver-se-á pelaleitura que ambas se entrosam perfeitamente.
E mais: que ela não esgota o assunto. Alargamos apenas a contribuição
que outros estudiosos já vêm prestando. Demos um passo adiante em
nossa promessa anterior, quando publicamos Cristãor-Notos, Jesuítas e
Inquisição € deliberadamente evitamos proceder a maiores detalhe:
Fica, desta vez, lançado um novo desafio a nós próprios que é o de,
em próximo lançamento, tratarmos da questão econômica nos seus
amúltiplos aspectos. Na oportunidade traremosà cena as relações preva.
Iecentes ao redor do Arlântico Sul.

Notas
Estão seste vol duas monorafias de Solidônio Leite Filho sobre 05 judeus no
Brasi, e a História Secreta do Brasil, por Gustavo Barroso;a Brse Elistóia des
obra Os Judeus na História mo Brasi,
Judeus an Brasil, do Jacó Serebrenick; aTodas,
escrita por Afrânio Peixoto é outros. porém, falhas às vezes, visto
Basvaram-se em fontes secundárias. Não merece igual Confiança a Héstória dis
Iureltas mo Brasil, de 3sa3c Rairman.
2 - Incluiciamos aqui os artigos e comunicações de António Baião, de Pedro de
Azevedo + de João Lúcio de Azevedo, somando uma derena,se tanto. Além,
naturalmente, dos informes que este nos legou na História de Anténio Vísira
(1928), na Hitório dos Cristãor-Novor Percuputss (1927) e nas Noca Ebamafiras
(980).
3 - Erancisco Adolpho Varnhagen. Iii Geral do Brasil. São Paulo: Rdições
Melhoramentos
em que
- São também de sua lavra: "Notas no Diário de Pero Lopes de Sousa”.Condena.
se tefere aos da progênie crsti-nova, e “Excersos de várias Listas de
dos pela Inquisição de Lisboa desde o ano de 171 ao de 1767, compreen-
dendo só brasileiros ou colonos estabelecidos no Brasi. ém Rem. do Insrisê
His. e Grogr. Brasileiro, TX, 144, e tomo VIL
= As listas foram ampliadas ultimamente por Amold Wianitrer na revista Aonde
Vamos, ano XII, 1953
4 = Anais do IV Simpósio dos Professores nivenitáris de História, São Paulo, 1969,
pp. 181 e segs
- Revista de História, da USP. n.º 85, 1970, pp. 21 é segs
5 - Arnold Wimicrer. OiJudeus no Brasil Colonial Paulo: Livraria Pioneira
Editora, 1966.
6 - Tratase de um volume pesado, com 1.136 folhas, de 0,45 por 0,30 em. mais
ou menos. Foi redigido pelo Dr. Luís Álvares da Rocha, depois que deixou o
cargo de promotor daInquisição em Lisboa
= O material é farco. Basta citar 0s Cadernos da. Promotoria, as Autas Procesoais dos
Rus, 05 Índices dos Reconiliados, 0% Linear dos Pregos Ric, os da Receita do Fisc,
8 - São Paulo: Livraria Pioneira Editora e Editora da Univ. de São Paulo, 1969.
PARTE A

A FORMAÇÃO ÉTNICA E SOCIAL


DAS CAPITANIAS DO SUL
Capisanias Paraiba
Nor Recife
Salvador

lo
Capitao.
Poxesi do
é Vitória
Riode Janeiro
Santos
ITAIM

Buenos Aires As Capitanias do Sul


a de Tordesilhas

Século XVIL

BAS Matas
CAPÍTULO PRIMEIRO

OS CRISTÃOS-NOVOSE A
QUESTÃO FILOGENÉTICA

A Península Ibérica foi o cadinho onde, através dos séculos, se


fundiram os mais diversos grupos émicos. Ao substrato formado em
tempos remotos,sobrepuseram-se sucessivamente os fenícios,os gregos,
os romanos,os godos, e por último, os mouros, além de numerososfilhos
da África negra. A contribuição dos hebreus nãose afigura menos
importante, porque o fluxo imigratório manteve-se quaseininterrupto, e
ainda que confinados em comunas separadas, judiarias ou guetos,atéfim
da Idade Média, casos houve de cruzamentos exogâmicos e não poucos.
Eles próprios,a im de resistirem à assimilação, defendiam a endogamia e
cultivavam suas tradições religiosas, Não são, pois, de admirar, os confli-
tos comas populações nativas desde, talvez, quando se radicaram na
Península. Aos motivos de ordem étnica, social e religiosa, juntaram-se,
certamente, os de narureza econômica, porquanto certosindivíduos da
estirpe exerciam destacadas posições navida pública, ao passo que outros
exploravam atividadesfinanceiras com lucros exorbitantes. Mas não se
pense que a animadversão surgida fosse generalizada, permanente e
radical, e sim local e extemporânea, conforme as circunstâncias.
Embora dedifícil absorção, o judeu nunca foi inassimilável por
índole. A História,as genealogias,as inquirições de gênere e os proces.
sos do Santo Ofício aí estão para mostrar ocontrário, comprovando a
miscigenação de parte à parte, tanto assim que nenhuma classe social
escapou, fosse por bastardia ou por legícimo casamento. Lembre-se, a
propósito, que D. Pedro [, cognominado o “justiceiro”, teve de suas duas
amantesisraelitas, D.º Tereza Lourençoe D. Inês de Castro, descenden-
tes que se integraram na alta nobreza. Um deles, D. João 1, ainda quedu-
plamente prejudicado, porcausa do sangue e do abastardamento, tormou-
se 0 fundadorda dinastia de Avis, sendo elevado ao trono pelo povo
comum.Igualmente participavam da seivaconsideradainfecta, D. Afonso
de Barcelos, sobrinho de D. Pedro « D. Inês, e de quem se originou a
furura dinastia dos Braganças, e Da Isabel de Aragão, mulher dorei
Fernando de Castela. Mesmo este carregava nas veias o sanguecristão-
novo que lhe transmitira a mãe, D.4Joana Henriques.! E quem desco-
ahece 0 famoso prior do Crato, D. Antônio, pretendente à sucessão da
coroa portuguesa em 15807 Era cle filho do príncipe D. Luís e de uma
israelica2
Assim, nobres é plebeus, clérigos e gente de todas as classes e
profissões participaram do caldeamento peninsular, Ainda em pleno
século XVII, quando vigoravam leis impedindoos casamentos mistos,
eles se realizavam.Por esse tempo,dizia com acerto o padre jesuíta,
Diogo de Arede, que os cristãos-novos estavam de tal modo incorpora-
dos às famílias cristás-velhas que nenhuma havia de consideração isenta
de sangue hebreu. Em 1674, o agente diplomático da Coroa, em Roma,
Gaspar de Abreu de Freitas, escreve que Portugal é uma nação de marra-
nos, certamenteem virtude da infusão do sangue hebreupelavia matrimo-
nial, Eles tinham-se incorporado em grande parte?.No entanto,as discri-
minações chegaram até ao governo do marquês de Pombal, quando certas
casas blasonavam de seu pretenso puritanismo,fato quelevou o ministroa
abolir as duas etnias, obrigando-as a se conjugarem por meio de casamen-
tos, Portanto, a integração de fato só aconteceu depois disso. Judiciosa-
mente escreveu então O padre Alexandre de Gusmão, ridicularizando a
quantos se jactavam de possuírem boa cepa, pois não a tinham,e para isso
bastava uma análise desde os bisavós.
O próprio clero e a nobreza, escudados na Inquisição, haviam retar-
dado, por umasérie de motivos, o efetivo entrelaçamentoérnico dosdois
arupos. Veja-se, por exemplo,o que se passou em decorrência das
medidas decretadas por Filipe III a 11 de março de 1628. Em troca de
elevadaquantiaoferecida pelagente da naçãohebréia, elelhesconcedeu,
entre outras faculdades, a de se casarem, se quisessem, com pessoa de
linhagem cristã-velha, conforme acabavam de solicitar. O impacto cau-
sado foi tremendo e a reação ainda maior, constrangendoo rei voltar
atrás. Na oportunidade, os israelitas foram acusados por toda a sorte de
males advindos ao Reino. Propalava-se em teis escritos queeles eram os
culpados pelo enfraquecimento do valor lusitano,por terem inoculado o
judaísmo,religião e raça, ou ainda, que o tinham debilitado pelo amor do

4
luxo e das riquezas incutidos ao povo*,E evidentemente os argumentos
foram levados até ao absurdo pará impressionaraFilipe, mas uma coisa é
inegável: o alarme contra a elevada porcentagem de sangue hebreu na
população portuguesa. Quanto, porém, ao enfraquecimento daquele
valor de que sobejamente Camões se vangloriava, devemos procurá-lo
nos eventos e circunstâncias da época e não ne miscigenação. Vem a
calhar, nesse sentido,as expressões do escritor Guido Bedarida, quando
diz;
“..) interessante motare che Spagnoli c Portogbesé divengomo protagonisti
delastoriadelmondo nom quando si lberano de “sorie”semitiche, ma quando il
Jorovechissangue iberico resulta impregmatíssimodevasti mavviapporsisemitic,
nei sec, XV e XVI'S
Contudo o fenômeno heterogâmico português não cessou 1o Reino
e nemfora dele.Indivíduos nascidos de um tão complexo caldeamento
entrando em contato com novas e diferentes populações desde a tomada
de Ceuta, não podiam serescravos exageradosde preconceitos e nem de
discriminações legalistas. Mesmo o hebreu, em face das situações pre-
dominantes nas terras das conquistas, teve, por vezes, que abrir mão de
escrúpulos étnicos. Sirva de exemplo a colonização da ilha de SãoTomé,
cujo donatário, Alvaro de Caminha, levou consigo para lá, a fim de
povoála, judeus « degredados,e deu à cada um deles uma escrava,Mas,
Jogo depoisenvatamlhe camibém os filhos dos judeus acrancadosà
força dos pais. De modo que, consoante afirma certo historiador: “é.
“lhos dos colonose das escravas que descendeà nobreza ou classe mas ado
de São Tons.
No Brasil, por sua vez, às circunstâncias e o meio ambiente exigiram
que o colonizadorfosse compreensivo, tolerante e adaprável. Sem adap-
tação e sem a amizade doindígena difícil lhe seria a subsistência, sobre-
tudo em se tratando dos que vieram nas primeiras décadas, rais como
degredados, náufragos, aventureirose feirores, muitos dos quais deviam
ser judeus. De 1501a 1516, 0 Brasil esteve arrendado a um consórcio de
cristãos-novos, encabeçado por Fernão de Noronha. Posteriormente,à
Inquisição lançou para cá inúmeros judeus « outros vieram espontanea-
mente. Por muito tempo seriam a maioria da população branca. Esses
primeiros indivíduos desempenharam papel de sumaimportância no
povoamento € na futura colonização da terra porque, granjcando a
confiança dos indígenas,foram admitidosao seu convívio, aprendendo a
língua nativae aparentando-se com clesatravés de uniões oucasamentos.
E desse modo, incutiram-Jhes, provavelmente, idéias e antigas tradições a
exemplo dalenda diluviana. Talvez,inclusive, hajam batizado acidentes
eeográficos e contribuído com vocábulos hebraicos para o Tupi, ante-
riormente à chegada dos jesuítas”. A situação de que desfrucavam
permitia-lhes favorecer aos que chegaram dali em diante.
Porisso, conclui-se que o adventício nem semprerecebeu má aco-
lhida. Caciques houve, no Norte e no Sul, que 0 admitiram oa família.
São bem conhecidosos nomes de Diogo Correia, o Caramuru,e deJoão
Ramalho, dentre outros, cujos exemplos logo se generalizaram. An-
chieta, escrevendo 16 de abril de 1553, declara que osíndiosconsidera-
vam umagrande honra terem filhas casadas com portugueses?. Aliás,a
mulherindígena sentia forte inclinação paracom o homem branco, oqual
chegava solteiro à nova terra, ou sem a família, Este, pois, impelido pelo
sexo e pela força do ambiente, buscava uma companheira ou reduzia à
escravidãoaquela que pudesse, Ospróprios clérigos vieram incentivar tal
situação, conforme escreveu o padre Nóbrega, esclarecendo que eles
diziam publicamente aos homensser-lheslícito pecarem com suas escra-
vas?, Eassim,através deligações fortuitas ou de uniões duradouras,sem a
sanção oucom a bênção da Igreja, surgiram os mamelucos, futuros
troncosdas mais antigas famílias. A mulher brancasó tardiamente passou
ao Brasil, sendoprecário sempre o seu número aqui. Tal eraa falta, que o
padre Nóbrega, em 1549,recomendou enviassem do Reinoaté as“erra
das”, pois achariam bons casamentos, e, de novo, em 1552, lembra a D.
João II « carência de mulheres brancas?
A facilitar, outrossim, a inter-relação do hebreu com o indígena
surgiu O problemada origem deste, levantadoaqui e ali. Divulgou-se,
juntamente com outras hipóteses,a de queproviria de umatribo israelita
desaparecida, segundoregistrou o padre Simão de Vasconselos, éJoseph
Barbosa de Sá, ainda noséculo XVIIaceitava". O faro é que, na verdade,
tais enlaces se realizaram nos primeiros tempose depois. Assim, entre as
filhas do Caramuru, uma, pelo menos, Madalena Álvares, casou com o
cristão-novoAfonso Rodrigues. E quantoàs deJoão Ramalho, Beatriz foia
mulher de Lopo Dias, também da progénieisrmelita, como o seriam, de
igual forma, Pascoal Fernandes é Bartolomeu Camacho,genro dopatriarca
andreense. Com suas netas casaram-se os cristãos-novos Manuel Fernan-
des e Cristóvão Dinis. Muitoscasos semelhantes aparecem navisitação ao
Nordeste em 1591. Até fidalgos se uniram a mamelucas, à exemplo de
Jorge Ferreira, capitão-mor de Santo Amato (1543 a 1557) e de São
Vicente (1567 a 1571), qual se casou comJoana Ramalho. São provas da
inexistência de preconceiros racistas entre branco e o silvícola. A etnia
indígena não causava repulsa ao português, mesmo sendo judeu;aocontrá-
rio, prezava os filhos, associando-os em seus empreendimentos e
introduzindo-os na vida civil local, mais ou menosà semelhançado que
sucedia no Paraguai, onde os mamelucos(mestiços)também usufruíram da
posição do pai castelhano. .
Já 0 autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil constatara isso. É
dele o testemunho segundo o qual o Brasil se povoou primeiramente
com degredadose gente demau viver, sem nobreza, destiruída de bens
materiais e pouco afeita à política, mas a tesra lhes foi de tal maneira
pródiga que os filhos aqui nascidos passaram a gozar de melhorsituação
social e econômica. E com o passar dos anos, muitos homens nobres e
fidalgos, em aqui chegando,se aliaram acles por casamento,“emforma
que se ba feito entre todos uma mistura de sangue assás nobre"ê
Em nenhuma outra capitania a afluência do sangueindígena penetrou
mais profunda e persistentemente na formação étnica da sociedade
quanto na de São Vicente,graças 20 movimentosertanista das bandeiras,
que casreava para 0 planalto sempre novos contingentes. Aqui, em razão
do sistemaeconômico predominante, o negro africano quasc nenhuma
influência exerceu. A miscigenação foi obra exclusiva do branco,
cristão-novo ou velho, com o aborígine e descendente e, no iranscorrer
dos anos, tambémentre as duas etnias ibéricas. Deste modo Francisco
Vaz Coelho, Martim Rodrigues Tenório, Pedro Vaz de Barros e seu
irmão Antônio, Bernardode Quadros e Luís Gomes da Costa,todos de
linhagem hebréia, casaram-se com mulheres de inteiro sangue lusitano.
Ora, se isto sucedia no seiodas famílias mais representativas, o que não se
passaria com as de menor projeção?
Paulo Prado é mesmo de parecer que a concorrência de sangue
hebreu em São Paulo não foi inferior à do ariano, como pretendia
Oliveira Viana nas Populações Meridiomais. Ele acreditava, assim como
nós, que planalto de Piratininga oferecia condições excepcionais aos
perseguidos pela Inquisição. Em síntese: asilo, segurança,liberdade,a
indulgente proteção dos jesuítas, etc. Admite, ainda mais, que o tipo
étnico resultante ficou marcado de modo sensível pelos elementos que
entraram na sua constituição'?, Que características revelaria então? Jul-
“gamos nós, à luz da história paulista, que seriam traços fisionômicos,
maior resistência biológica, mais adaptabilidade ao meio, amorà liber-
dade, extraordinária mobilidade. o destemor,enfim.
De certa forma, € até certo ponto, algo de semelhante se deu em
BuenosAires, à qual, também, no início do povoamento pouco de
convidativo apresentava. A entrada ali de sefarditas alterou a sua econo-
mia. Em 1622, um quarto da respectiva população era de pormgueses,
que, segundoos estudos de Machain, deviamser judaizantes, ou melhor,
cristãos-novos'*.
É ainda mais enfático o sociólogo Ingenieros, quando, acerca do
influxo israelita naetnia rioplatense, se expressa dizendo:
“Umo de los elementos más decisivos em la constituicióm dela sociedad
rigplatense, fué la abrendante imigración de judíos portugueses, mercado-
res dos más: actutabam comofactor de progresso ccomomico3 desemvolotam los
hábitos de contrando que iniciaron la prosperidad de estas regimes”. E
prossegue: Apesar delasdificaltades obuestas porloespanóles, um siglo
después era descendiente de fudios portugueses buena parte de la gente
principal. Segem puede inferir-sedeanalises delos apellidasportenôrdeba
época”ts
À medida se desenvolvia a colonização do Brasil,
número de curopeus, portugueses, sobretudo, alémde espanhóis, é
algunsraros flamengos, francesese ingleses, cristãos-velhosno geral, mas
nem sempre deilibada pureza étnica. É também com elementosdessa
espécie que se entrecruza a gente de linhagem hebréia, de que são
demonstraçõesna capitania de São Vicente o casamentodo capitão-mor
Jerônimo Leitão coma judia Inês Castelão (ou Mendes), o de Isabel de
Almeida, filha de Antônio deProença, com o hebreu Francisco Vaz
Coelho, o de Luzia Leme,filha de Fernão Dias Pais, com ocristão-novo
Pedro Vaz de Barros, homem dos mais atuantes na vida local. E, igual-
mente, em muitas outras famílias se imiscuiu o sangue sefardita por
intermédio dos descendentes de Lopo Dias, de Cristóvão Dinis, dos
Gomes daCosta, deFrancisco Vaz Coelho, de Bernardode Quadros, dos
Tavares, é de outros, os quais se espalharam por quase todas as vilas
seiscentistas e atingiraminclusive o Rio de Janeiro e à Bahia. É curioso,
igualmente, que muitas famílias, em cujoseio havia clérigos, admitiram,
não obstante, determinadocristão-novopela via matrimonial's. À socie-
dade colonial era,sem dúvida, bem menosfechada doque no-la mostram
os gencalogistas, embora diferenças existissem de região para região. É o
casode São Pauloe Rio de Janeiro, assemelhando-se maiseste últimoà
Bahia e à Pernambuco,graças à feição de suas economias muito pareci
das
Osdocumentos paulistas comprovam que os casamentos se proces-
savara, via de regra, dentro da própria capitania,e, mais particularmente,
noplanalto, em vista do seu relativo isolamento determinado pela serra
deParanapiacaba. Quando, porém, algum individuo portador de certas
qualidadesaí se detinha, acabava absorvido pelo meio social. Assim,
torna-se parente terem sido raras as famílias que conservaram incólume a
eugenia cristà-velha, o que também nosdá a razão da unidade social
existente na “república” de São Paulo.
A interpenetração étnica na capitania martim-afonsina, foi, pois, das
mais ponderáveis já antesdaluta entre as facções dos Pires e Camargos,
mas acencuou-se quando ambas se pacificaram por meio de um acordo
estabelecido pelo governador-geral, conde de Atouguia. À tal respeito
dizia uma consulta do Conselho Ultramarino, a 2 de maio de 1674:
“e depois da concessão do perdão do Conde de Atouguia, não bote atéo
presentecontrmérciaalguma,antes estão aumidaspor casamento amasfami
lascom onetras, dando-seaodescobrimentodosertão,eafábrica, eLavourados
frutos da terra"
Esse fatofoi confirmado também pelo ouvidor-geral, André da Costa
Moreira, quando,noreferido ano,esteve em correição navila planaltina.
Eis como se expressa:
“estavam muito aparentados enscom outros assim porsamguinidadecomo
porafimidade,peloque nãoerapossívelguandar-seo rigordalinaspessos
que há de seguir os cargos desta República"tê,
anos mais tarde, ou seja, a 9 de maio de 1700, outro ouvidor,
Antônio Luís Peleja, em carta a D. Pedro IL, repetia a mesma coisa!'º. E
ainda depois,é um filho daprópria capitania,José de Gois e Morais,fruto
damiscigenação paulista, quea esta se reporta. Em 1710,necessitandode
umadispensa para casar-se com Ana Ribeiro, arrazoa queas famílias de
São Paulo achavame-se “tão travadas umas com as outras, como « todos é
rotório?%,
Ora, em «ais condições, visto inexistir um puritanismo cugênico,
ociginou-se entre as famílias o espírito de clá, comunitário, graças ao
parentesco, à interdependência mútua e a interesses em comum. Os
membros são muitos, mas o corpo é um só. À voz dacabeça, todos se
movimentam « então as bandeiras singram os sertões. À princípio, é a
gente do patriarcaJoão Ramalhoquese manifesta. Depais,são osPires e
os Garcias, unidos aos Dinis, aos Fernandes povoadores, aos Cunha
Gago, aos Vaz de Barros e aos Taques. É o grupo que combate os
Camargos e seus partidários, e que, em parte, promove a restauração dos
jesuítas ao seu colégio em SãoPaulo, de ondehaviam sido expulsos. É a
facção que melhor reproduz a tradição israelita deuniões consaniguíncas.
Osgermes do antagonismo Pires-Garcia versus Camargos, não são
bem conhecidos. Talvez fossem mais de um os motivos « estivessem
entrelaçados. Em 1612, quando da agitação contra osjesuítas, os Taques
eos Vaz de Barrosparecem afastados do conflito,descontentando, quem
sabe, aos Camargos. Até 1635 a política local é dirigida por elementos
dos Pires, mas os Camargos c partidários conseguem afastar da ouvidoria
* Antônio Raposo Tavares, sento de Manoel Pires, e depois também a
Simão Borges de Cerqueira,ligado aos Leme, Dias Pais e aos Taques. Em
1640, estes últimos não participam da expulsão dos jesuítas. Os Pires-
Garcia, entretanto, apóiam o regressodeles, exatamente ao tempo em
que o padre Vicira atuava na Corte favor dos cristãos-novos. A aclama-
ção de Amador Bueno, em 1610, rejeitada pelopróprio, desapontou o
grupodos Camargos, constiruído de espanhóis e, por isso, adepros de
Filipe IV. Na ocasião, Manoel Gil, genro de José Camargo, chegou a
proferir palavras de baixo calão contra o novo rei português. O descm-
bargadorJoão Velhode Azevedo, que,a seguir, veio a São Paulo, abriu
devassa a respeito e constarou quea desavença também tinha motivo em
“amfermento estrangeiro”?", aludindo aos espanhóis
Outro aspecto que se deve levar em conta, reside no fato de que
muitos do partido dos Pires tinham sangue hebreu, ou estavam ligadosa
ele por enlaces conjugais, direta ou indiretamente,tais como os Garcia
Velho, os Motas,os Vaz de Barros, os Taques,os Dias Pais,os Lopes de
Medeiros, e outros. Uma cuisa sabemos: que aquestão érnicafoi trazida
bailaem plenacontenda. Assim quando em 1728 se fizeram as inquirições
de gênere de um descendente do velho Pedro Taques, para habilitação à
leitura no Paço, antigos moradores de São Paulo disseram que esse pade-
ceu a famade cristão-novo,levantadaao tempo dos Camargos, que,aliás, o
tinham chamado dejudeu??, Calúnia da oposição?Talvez. Era umaforma
de vingança comum naqueles dias, mas o rumor permaneceu por mais de
um século, como se percebe.
Na capitania doRio de Janciro, a questão Emica-social tomou, aos
poucos, rumos bem diferentes dos operados na sua vizinha de São
Vicente. Lá, conquantofossem numerosososíndios catequizados, cerca
de 3.000 em fim do século XVI, sua contribuição afigura-se pequena,
declinando à seguir, porque o escravo negro lhe foi comando o lugas,
Contudo,também aqui europeuse cruzoucom o indigenae com ofilho
da África, mas de modo insignificante no período quinhentista. O

10
branco, via de regra, tomou por mulher a européia. Os mestiços são
bastardos quase sempre. Além disso, o indigena e africano repeliam-se
mutuamente.Em consequência, deu-se o retardamento aa uniformidade
“nica e social, ao contrário do que sucedeu na capitania vicentina onde o
negro penetrou em exígua proporção?
Elementos da nação hebréiachegaram àGuanabaraapartir deEstácio
de Sá, como adiante revelaremos. Se, porém,gozaram de plena liberdade
nos dias da conquista, ela lhes fugiu logo depois. À vigiá-los constante-
mente havia um comissário do Santo Ofício. Mesmo elementos do povo
ou do governo lhes observavam a conduta. Era inegável à indisposição
para com oshebreus. E por que? De um lado, por causa dos privilégios
concedidos aos cristãos-velhos e dapresença das autoridades preláricas,e
do outro, em virtude de a indústria açucareira local e o seu comércio
terem caído, em grande parte, nas mãos de cristãos-novos e de judaizan-
ces.
Por conseguinte, formou-se aqui uma sociedade heterogênea, pois a
miscigenação das três raças pouco se consumou. O hebreu, que em São
Paulo foi comumente bem recebido, na capitania fluminense tornou-se
alvo de desconfiançae de animosidade. Era narural, em vista disso, que se
precavesse e se abseraísse, aproximando-se tanto quanto convinha dos seus
congêneres de cinia. Por outro lado, à chagada periódica de gente da
progênie, mercadores, colonos, militares « servidores públicos, além da
catequese judaizante?t,alimentava o seu conservantismo.
Mostram os autosinquisitoriais doséculo XVIII que os hebreus do
Rio deJaneiro, embora dispersos na capitaniae ocupados em múltiplas
atividades, formavam uma comunidade,graçasaos elos érnico-religiosos,
à afeição que cultivavam e, às vezes, à interesses econômicos. Sirva de
exemplo o enface de Catarina Marques, filha do rico mercadorJoséf
Gomesda Silva, consumado em 1694. À festa nupcial, realizada após a
cerimônia católica, apenas comparecem os convivas da crmia hebréia. É
esta mesma gente que, a seguir, denunciada pela homónima Catarina
Soares Brandão, à quem induziram voltar-se para a lei mosaica, consti-
tuí grosso dos condenados pelo Santo Ofício.
Em cal ambiente « circunstâncias, não desejavam os cristãos-velhos
uniõesconjugais com os deoutra ernia,e nem os destaaspretendiam. Era
detestável e arriscado o casamento com descendentes de judeus, por
infamar à família e incorrer no desagrado da Inquisição.
Quem, com efeito, permitisse o casamento com judeu ou cristão-
novo, tomava-se suspeito de ser, igualmente, da linhagem hebréia, tal

!
comose passou com Manoel de Morais, provedor da Fazenda no Espírito
Santo, porvolta de 1675, porqueduas filhas contraíram macrimônio com
indivíduos dessa ermia?5, NoRiode Janeiro, osPinto Homem, descen-
dentes de Brás Pereira Sarmento, por idêntico motivo unca puderam
livrar-se da pecha infimante?$e, por isso, muitos outros filhos da terra
foram dar com os costados nos catres de Santo Ofício, no começo do
século XVIII. De modoque, quando os pais eram desobedecidos pelos
filhos, deserdavam-nos, tal como fez o capitão-mor Francisco Gomes
Ribeiro a Inácia, porque se casou com F. de Lucena,cristão-novo. E esse
nãofoi o único caso?”, salvo quando a noiva cristâ-nova trazia um dote
valioso, ou quando o pretendente cristão-novo possuía condições vanta-
josas. No Reino, em 1629, adotou-se comocritério para impediros
casamentosmistos, que a noiva não levasse em dote ao marido cristão-
velho mais doquedois mil cruzados, visto que os hebreus, para sua
melhor segurança,escolhiam genros da etnia cristá-velha, os quais, aliás,
também achavam aquilo um bom negócio?s.
Os da nação”faziam omesmo,preferindo os da sua própria ernia aos
demais, ainda que o pretendente fosse de remotalinhagem hebréia e
viesse de outras plagas, pois osurto comercial doRiode Janeiro com o
Reino conquistas possibilitava esse “desideratum”, mais do queàs vilas
de São Vicente. Conhecemos, a propósito, numerosas famílias que pri-
maram por agirassim. Uma delas,a dos Mendes de Ceia,teve os filhos
casados com pessoasdaseivaisraelitae inclusive os nove netos, nascidos
de Beatriz e de Duarte Ramires de Leão. Outra foi a dos Paredes;
também as dos irmãos Diogoe Álvaro da Costa; a dosVale daSilveira, a
dos Gomes Mourão,a dos Rodrigues de Andrade, a dos Mendes da Paz,
a dos Calassa, a dos NunesIdanha,e tantas mais. Só muito raramente se
encontra em suas primeiras gerações algum enlace com cristão-velho.
Isso, todavia, não prova que o hebreu fosse visceralmente contrárioàs
exogamias, segundo já vimos, e no Rio de Janeiro os exemplosse
repetemnumerosos. Poucas, no entanto, as famílias que vieram a se
conservar puras, eticamente. Mas O curioso,é que, muitas dentre as de
cristãos-novos, embora recebessem em seu seio certos indivíduos da
cepa cristá-velha, mantiveram a crença mosaica e a ensinaram aos des-
cendentes, sinal de quea prezavammais,às vezes, que 20 próprio sangue.
Quando convinha, os progenitores buscavam a um dos futuroscon-
sortes fora do meiolocal, recorrendoa procurador de confiança, a quem
enviavam para tal fim O respectivo documento, passado em cartório.
Assim, a 4 de maio de 1612,o cristão-novo Pedro Fernandes de Melo e

12
sua mulher subscreveram umaescritura de dote a favor de três irmãs
dele, com a condição de uma casar-se com Luís Pires, € este, por seu
turno, no dia seguinte, passou procuração ao pai, Gaspar Luís, ao tio
Álvaro Lopes, e a seusirmãos Antônio Roiz e Bartolomeu Roiz paía lhe
receberem por esposa a uma das referidas candidatas e embarcá-ia, ao
que se deduz, para oRio de Janeiro?s.
A exogamia, contudo, (a além das uniões legitimadas. Relações
extraconjugais eram mais ou menoscomuns em todo o Brasil, dando
origem a bastardos, quer mamelucos quer mulatos. Da capisania de São
Vicente, vem-nos à lembrança asfilhas de Diogo Gonçalves Castelão,
ouvidor ali, nascidas de mulheres índias, as quais, depois, quandose
casou com a judia Branca Mendes, levou para o novo lar, sendo bem
acolhidas por esta. Tinha dessas coisas a sociedade colonial. O capitão-
mor, Pedro Vaz de Barros, deixou dediversas índias sete bastardos, e o
filho, Antônio, quatro. No Rio deJaneiro, então,a moral descambou aos
poucos. Em meadosdo século XVII parece ter decaído a nível nunca
visto. É que a população tinha aumentado muito com o desvio de
emigrantes para cá. À licenciosidade se avolumou. As mancebias germi-
naram, envolvendo cristãos-velhos, judeus e negros. Osfatosaí estão.
Martim deSá era bastardo,filho de Salvador C. de Sá e de uma judia
DiogoTeixeira, preso pela Inquisição em 1619, tinha umafilha de cerra
cristã-velha, mulher de Diogo Pinto. Ojudeu Antônio Gomes Vitória
vivia licitamente com outra congênere. Á mulherlegítimade Luís Peres
sabia que o marido andava de amores com a cristã-nova, Sebastiana
Vozada. Tampoucoa negra africana escapava à concupiscência do
branco, mesmosendo judeu. Por exemplo, Silvestre Mendes Caldeira,
mercadore senhor de engenho, teve quatrofilhosde sua amásia, a parda
Catarina Gomes da Luz,e o irmão Antônio Peres Caldeira, três, de outra.
Luís de Paredes, deixou da preta Leonor, pelo menos quatro. assim
procederam oscristãos-ovos Salvador Cardoso Coutinho,Baltazar Ro-
drigues Coutinho, Diogo Pereira, João Correia Ximenes, e outros,pai,
todoseles, de bastardos mulatos. Até clérigoscristãos-novos, comoos
padres Bento Cardoso e João PeresCaldeira, deixarambastardos, filhos
de negras. À diferença com a capitania de São Vicente consiste em que os
mestiços são mamelucos, produto dos cruzamentosbranco € indígena.
No Rio são mulatos, ou pardos, como eram conhecidos
Pergunta-se, em vista disso, se as uniões entre duas ermias diferentes
seriam menos frutíferas, genericamente, do que as endogâmicas, apenas
entre arianosou entre sefarditas? É difícil dizer, porque, no caso do

13
planalto de Piratininga, em virtude do sistema econômico instaurado, o
morador se ausentava freqlientemente para osertão em demanda de
índios ou de riquezas mineralógicas, rarcando O convívio no lar, ou
perecia aindavigoroso no “hinterland”. Sabe-se, apesar de tudo, que
LopoDiasteve seis filhos da primeira mulher e numerososnetos. De
Cristóvão Dinis conhecem-se três filhas, todas comgeração. Manuel
Fernandes Ramos,troncodos Fernandes povoadores, foi pai de doze, um
dos quais, Baltazar, deixou treze, Francisco Vaz Coelhodeixou larga
descendência deseus onze filhos. Pedro Vaz de Barros,além dosbastar-
dos, deixou oito. Ocastelhano Martim Rodrigues Tenório, além dos
filhos naturais, teve quatro legítimos e dezenovenetos. Bernardo de
Quadros, seis filhos, e todos com geração, exceto um. O bandeirante
Antônio RaposoTavares casouporduas vezes mas só deixou quatro filhos,
ao passo que oirmão Diogo, menos sertanista, deixou onze de dois
matrimônios. Note-se contudo,que ostrês primeiros, acima, e Francisco
Vaz Coelho. não foram sertanistas. NoRio, ao contrário, ogrosso da
população vivia sedentariamente, entregue à indústria açucareira e ao
comércio, gozandode condições que lhe facultavam maior proliferação.
Mas, em onze casos decasamentos mistos estudados, verificou-se que a
média de filhos era de apenas quatro, Admitimos, portanto, que esta
questãonão écugênica, nemétnica, puramente, e nem depende só de
conceitos religiosos, « sim de fatores diversos. Guido Bedarida, por
exemplo,notouquenaItáliaa classe menosproliferacra a burguesa, aqual
limitava o númerode filhos para dar-lhes melhores condições"?
Dos onze casamentos mistos do Rio de Janeiro, as profissões dos
genitores assim se classificam: dois eram funcionários públicos e tiveram,
respectivamente, sete e quatrofilhos; dois, senhores de engenho, um dos
quais teve trêsfilhos, mas igmora-se a respeito do outro;dois profissiona
liberais, cada um deles com trêsfilhos; três mercadores, com seis filhosis
cada um; trés militares, comquatro filhos,
Quemmais filhos geroufoi ocapitão Lucas onze é um, re
doCouto, cristã -novo, com
onte, massua irmã Luiza nãodeixou nenhum. O de maior prole, a segui,
foio funcionário Francisco Álvares da Fonseca, comsete. E, finalmente, os
mercadores?!
Muitos bastardos, não obstante, quer da capitania vicentista quer do
Rio,chegaram alcançar uma boa situação exatamente porque os geniro-
res possuam bens. Na família Vaz de Barros nada menos doque quarr
imamelucosatingiram o sacerdócio. O mulato, porém,tinha de vencero
preconceitos, mas, assim mesmo,ainda quealguns fossem portadores de
sangue hebreu e negro e, por conseguinte, duplamente impedidos,
subiram, social ou profissionalmente, graças às condições do genitor.
Verificamos, desse modo, quea filha de Silvestre Mendes Caldeira casou
com ocristão-novo JoãoRoiz Calassa, senhor de engenho em Itabuna; à
do padre BentoCardoso, com o mercadorespanhol Henrique Homem;
a de Luís de Paredes, com João Afonso, senhor de engenho; as de
Antônio PeresCaldeira, com homens abonados. Um dos filhos cursou à
Universidade de Coimbra e ordenou-se clérigo como nome de padreJoão
Peres Caldeira. Outro padre,rev. Francisco de Paredes igualmente mes-
tiço,era filho de Luísde Paredes. Teodoro Pereira da Costa, filho de Diogo
e de umaescrava negra, formou-se em medicina, apesar dos tempos, e veio
a clinicar emsua terra naral. O mulatoJosé Correia Ximenes andava nos
estudos. em 1713, quandoo Santo Ofício oprendeu porjudaizar”.
A população do Rio de Janeiro em fins do século XVII tinha a
constituía as etnias ariana, semita, ameríndia e negra, distribuídas so-
cialmente e de mancira bem diversificada e, portanto, revelandomaior
heterogencidade que a da capitania vicentina. Outrofator que derermi-
navatal situação decorria das condições econômicas dosindivíduos,
como bem notara Brandônio ao classificar os moradoresdo Brasil em
cinco condições: oshomens domar, os mercadores, os oficiais mecânicos
(ouartesãos), os assalariados « os lavradores, distinguindo-se entre estes
ossenhores de engenho € os partidistas e, por último os escravos, que o
autor não inclui nessas caregorias?. Temos, por conseguinte, com
respeito ao RiodeJaneiro e seria para diversas outras capitanias, quatro
classes dentroda hierarquia social, sendoque entre as três primeiras,
formadas porbrancos, a transposiçãopara à imediatamente superior ra
possívei, bastandoaoindivíduo a aquisição de fortuna ouapresentar
uma boafolhade serviços à Coroa. Já o mesmo nãosucedia com oescravo
africano, sempre relegadoaoservilismo. Assim, aparece no ápice da
pirâmide a elite, ou aristocracia, representada peloalto funcionalismo,
aliás diminuto, mas prepotente, arrogante, c geralmente mal quisto pelos
que lhes eram inferiores. Nela encontramos de quando em quando
homens portadores de sangue semita, semelhança de Martim Correia
de Sá de Salvador de Benevides,seu filho. No extremooposto acha-se a
classe dos escravos, cuja maioriaé de negros africanos, e cada vez menora
de índios, emvista da proteçãoque os jesuítas lhes dispensavame do
declíniodas entradas preadoras. A segunda emimportância era a da
burguesia, na qual estãoincluídos militares graduados, proprietários de
engenhos,certos funcionários públicos,indivíduosde profissõesliberais,

15
mercadores e talvez alguns partdistas ou foreiros, grande parte deles
pertencentes, outrossim, àlinhagem sefardita, conforme teremosocasião
de revelar. E logo a seguir,vinha, então,a classe dos homenslivres, ou
povo comum, constituída por artesãosdas mais diversas modalidades:
feicores de engenho, mestres de açúcares, caparazes,carpinteiros, etc.,e
nela se encontravam numerosos da ermia, judeus e cristãos-novos.
menor grupo) — atta administração
“militares graduados, senhores da engenho, cltrigos,
“mercadores, profissionais liberais, etc.
artes,titora de angenho,cspotazes,ate,

NEGHOS E AMERINDIOS escravos Imaior rumo)

A formação mica e social da capitania do Espíri


to Santo devia
assemelhar-se mais à de São Vicente que à do Rio de
Janeiro,tendo
afluídopara lá elementos da nação hebréia desde e come
çoe no decorrer
do século XVIL mas seu número não parece equipa
rar-se ao de ne-
nhuma das donatárias do Sulsuas co-irmãs. Exceto a indústria açucareira
que se desenvolveuali em fins do quinhentismo
do seguinte, poucos meiosde vidarestavam e todose nas primeiras décadas
precários. Por isso,as
demais a ofuscavam.
Sabemos, contudo,de enlaces matrimoniais cfetuados lá entre ostda
nação" cristãos-velhos, ou que,julgamosserem cristãos-vel
hos, comoé
O caso do juiz ordinário Manuel de: Morais quepossuía duas filhas
casadas
com cristãos-novos; de João Gomes Leitão e sua Mulher Maria
Duarte,
cujafilha, Guiomar Roiz Cabeça de Vaca se casou com Manuel de
Paredes da Costa; de Gomes Fernandes e Isabel Gomes,pais
de Lucrécia
Barreto,que se consorciou com Tomás Ruiz, neto de Belchior Ruiz.
Aolado desses, houve uniões também com mulheresdo gentio,daí
resultando os bem conhecidos mamelucos, aliás comuns em todo
o Brasil
na época
O negro, do mesmomodo que na capitania marcim-afonsina, quase
nenhumainfluência exerceu na formação social do Espírito Santo, ao
período histórico em apreço, muito embora existissem lá diversos enge-
nhos trabalhados por escravos africanos.

16
Noras
1º Isaac daCosta Noble Bamilics Among The SephandiJour, pp. 58, 123.
2 - Uai Augusto Rebelo daSilviHiáriadePortagal nt tds XVIeXVII,Epp
3 - 8Apude |tio de Acvedo Hi de CritêmNta Portus 343
4 - Apud Lúcio de Azevedo. Op. cb, pp. 167 e 197
- Quaaro aos argumentos de Alexandre de Gusmão, leia-se a sua obra Gencelogiz
Geralda Noção Bortususa. Cópia no LHG.B, Rio de Jairo.
5 - Guido Bedariada, Ebbref D'liaia, p, 55.
6 - Adriano Antero. His. Econômica,vol IV, p. 159,
7 - Dessas analogias daremos exemplos no Capítulo VIL.
8 - Res LHGB. e 11,ama de 1916, p,556.
9 Pe. Serafim S, Leio, Caviar dar PrimeirasJesuítas, vol 1, p, 270.
10 - Ibidem, 1, pp. 119, 120, 344,
11 - Pe. Simão de Vesconceios, Li. 1, das Notícias, p. LV
= José Basbosade Sá, Diúlngos Geográfica, Crunalgicos, Política « Natuncir.
- Brandônio também esposa essa opinião nos Diigo das Grandezas do Brasil, à
pá,
12 - Ambrósio Fernandes Brandão. Op, ct, p. 155
13 - Apud AE, Taunay. São Pauta no sé XVI,£ IV,pp. 109 e segs
- Paulo Prado,Pantínico.
14 + R de Laftente Machain, Las Portugues em Bueno Aire, p. 85,
25 = José Ingeniccos. La Esolución de lar ideas argentina, vol Lp. 125.
16 - 16. Salvador. Op,
= Ver, também,o estudo gencalógico que se encontra mais adiunee.
17 - ALULR Jas. cf Re. 1.816.8., tomo especial, 1, 1956, p. 71, 0.º 63
18 - Apud Paulítico, p. 22; Atas, vol. 1, 328 a 331
19 - ARLUR jan, É Res LH.G.B, tomo especial, 1, 1956, p. 71, n.º 63.
20 - Apud Paulínia
21 - AU — Auto efetuado pelo Dr, João Velho de Azevedo,
22 - ANTTombo, Let dor Bacbars, m 4, P. a.º 30
23 - Nesta mesma capitania a miscigenação com o indigna diminuiu sensivelmente
desde que cessou o sercanismo preador.
24 - JG Salvador. Critãonnoos,Jesus Inquisição
- Ver escudo genealógico smais adiante, especialmente caps. Y e YL
25 - ANTTombo. Ing, de Lisboa,proc. 7394,
26 - ANT Tombo tlab. O, CriJetta À, m. 44, nº 1
27 - 1G.Salvador, Cristãos, Jeatia «Inquisição
- Cardoso de Misanda. O Cich das Geração. pp. 249 e 333,
28 - J Lúcio de Azevedo. Op.cit, pp. 113 e 200
29 ANR, cód. 616, As 52, 55, 58 e 59.
30 - Guido Bedarida Op. it. P. 53.
51 - Todos os exemplos aqui Etados, bem como nas páginas anteriores, referem.se a
ctstio-novos, à exceção, talvez. de Antônio Raposo Tavares
32 - ANT. Tombo, Ing, de Lisboa,processos do Rio de Janeiro.
53 - Brandônio. Op. vit, pp 46 47,

nm
CAPÍTULO SEGUNDO

OS ESTATUTOS DE PUREZA SANGUÍNEA


EA NOBREZA DO SUL

Os gencalogistas, frei Joboatão e Pedro Taques, bem como frei


Gaspar da Madre de Deus insinuamque elementosda nobrezareinol
tenham participado denossa formação étmico-social, e com isso influíram
sobre Oliveira Viana, Taunay é outros, Elesdavamgrande importância a
títulos, a mercês honoríficas e a provanças de gênere, acreditando que seus
portadoresfossem de ermiacristá-velha ou descendentes de antigas prosá-
pias. Frei Gaspar chegou até a dizer que “a nobreza de São Paulo se conservou
pura”. Que espécie de nobreza, contudo, era a mesma, e osfidalgos
vindospara o Brasil seriamisentos de “linhagem infecta”, conformea
terminologia da época?
Já vimos como pela superposição de povosinvasores diferentesse
formou a população ibérica. Ossubmetidos passavam às classes inferio-
res, ao passo que s conquistadores constituíam as dominantes. Tal
fenômenorepetiu-se por mais de uma vez alterandoa estrutura social. E
acresce aindaqueas classes não permaneceram fechadasrigorosamente,
impedindoo acesso a indivíduos menosprivilegiados. Uma guerra ou
umarevolta política podiam modificar tais escalões, a exemplodo que
sucedeu no começo doreinado de D. Afonso Henriques, pois quantos o
serviram no campode Ourique (1139) foram guindados à nobreza,
estendendo-se a mercê aos descendentes. Assim nasceu a monarquia
portuguesa, a qual, no tempodo Mestre de Avis (1385 - 1433), sofreu
nova mudança, porque, na revolta que liderou contra o domínio estran-
geiro, a velha nobreza permaneceu fiel a Castela, e ele contou como
apoio do povo e da burguesia, pelo que depois elevou a muitos dos
companheiros, nivelando-os com os nobres de sangue.

19
Ofim da Idade Média, caracterizado por nocíveis modificações,
alterou inda mais o quadrosocial europeu, permitindo de novo à
burguesia, enriquecida agora pelo comércio com o Oriente, a penetração
nasclasses da nobreza por casamentose porserviços prestados à Coroa.
Nem se deveolvidar que muitos eram judeus ou cristãos-novos. Aliás, a
nobreza ibérica estava marcada de há longo tempo pelo sinete dosangue
hebreu. Sirvam de exemplo as figuras históricas de el-rei D. João 1 de
Porcugal e a de D. Fernandode Aragão.
Os bastardiosno seio das altas prosápias, nem se fala,tantos foram os
casos. Todavia, inúmeros desfrutaram da legitimação obtida pelos geni-
tores. Estão nesse rol dois dos mais insignes governadores gerais do
Brasil nos primórdios da administração colonial. Referimo-nos a Tomé
de Sousa e a Mem de Sá. Outro meio para à ascensão emPortugal e na
Espanhafoi,em diversas ocasiões, a passagem para o Cristianismo e bem
assim osenlaces matrimoniais. Títulos nobiliárquicos muitas vezes refle-
temapenas umaparte da verdade. Veja-se, especialmente, o que sucedeu
entre a média, entre a pequena nobrezada Espanha e o habitante isruelica
impossível dizer até que ponto chegou a miscigenação, mas, por6
lembracíamos que os condes de Punhoenrosto, os de Benavente, osde
Maiorca, os de Cepilho e os duques do Infantado,todos receberamo
aposte de sangue hebreu?
Em Portugal osfatosse reproduzem. O seu exclusivismo nunca se
revelou tão cerrado quanto o dos Reis Católicos e dos sucessores. E daí,
também,a liberalidade na concessãode fidalguias. Já mencionamos o caso
dos bastardos. Das heterogamias ou enlaces com elementos sefardins,
falam alto e bomsom os 4.º condes de Redondo,os barõesda Ilha Grande,
osviscondesde Vila Nova,de Asseca, de Barbacena e tantos mais?. Havia,
portanto,uma nobreza que se pode intitular fidalga, tradicional, e uma
outra adquirida porenlace ou porserviçosfeitos no Reino e fora. E nisto os.
reisibéricos tiveram imitadores em toda a Buropa. NaItália,talsucedeu
com os Portaleone, que eram de linhagem israelita. Ali, deigual modo,o
papa Leão X concedeu ograu de conde ao compositor Giovani Maria de
Medici; ao passo que, na Turquia, os Mendes(ou Nassi) tornaram-se
duques de Naxos.
Muito,antes, porém, que se finde a Idade Média, vão surgindo na
Espanha certasrestrições ao ingresso na vidapública, nas ordens militares
e mas eclesiásticas, nas universidades e a algumas profissões liberais. Ao
tempo do Mestre de Avis, Portugaljá era, praticamente, uma nacionali-
dade, o que nãose dava com ovizinho país, o qual, além de apresentar

20
múltiplos dialetos, jazia emparte sob o domíniodos mouros,adeptos do
islamismo. A reconquista deveria operar-se, por conseguinte, com o
apoio das forças cristãs. O conflito assumiu,assim, também, caráter
religioso e racista, fomentador de exigência imunizante, ou seja do
exclusivismo hemárico.
Findaa luta,a unidade geopolítica obtida representava a vitória dos
arianoscatólicossobre os semitas, pelo que os vencedores firmaram-se,
então,naidéiada superioridadesanguíneae se atribuíram qualidades que
aegavam aos vencidos. À eles cabia todo o prestígio;as altas dignidades
noEstadoeram suas por direito; as funções eclesiásticas pertenciam aos
legítimos filhosda nação; o matrimônio honrosoera o concebido entre
cristãos da velha cenia. Povo, nobreza aristocracia formavam a naciona-
lidade. Os demais indivíduos não faziam parte desse mesmo
corpo; eram aberrações,e, portanto,olhadoscom desdém. Todo erabalho
desprezível, segundo a mentalidade que surge, é relegadoao elemento
espúrio. Enfim, ao heterodoxo.
A idiossincrasia remonta pelo menos ao século XVI. Em concomi-
tância com a reconquista da Península, levantou-se na Espanha carólica
tremenda reação contra os judeus. Em 139] deu-se o massacre de
Sevilha, que logo se propagou ao resto do país, sob o incitamento do
frade Vicente Ferrer. O único caminho querestava para osfilhos de
Israel se preservarem consistia em submeterem-se 20 batismo, meiode
ingressona religião cristã. Muitos, pois, aceitaram-no de boafé, enquanto
outros fizeram porque lhes acenava com vantagens. E, de faro, poressa
maneira, houve os que conseguiram elevar-se socialmente e vincular-se
inclusive com as mais distintas famílias, sobretudono reino de Aragão,
cuja fidalguia, em plenoséculo XV,já se achva inoculada fartamente pela
seiva hebraica.
Osclamores, comoé facil prever, foram-se levantando aqui e ali, Os
mais puritanos clamavam às portas dotrono, visto que,além da infusão
sanguínea,os hebreusiam absorvendo exercício de funções públicas e
sujeitandoa sioscristãos. Assim, em1408, Afonso, o sábio,lhes proibiu
o acesso atais cargos, decisão que a seguir (1412) Henrique Il de Castela
confirmou e ampliou, obrigando-os ao uso de sinais distincivos. De ora
em diante nenhum poderia invocar o tírulo de “dom”e nem ser admitido
nas profissões de boticário,de físicoe de cirurgião, as quais,no entender
queixosos,se prestavam ao cometimento de abusos. Mas, passadas as
agitações, e tendomuitos deles ingressado no rol da Igreja através do
batismo, voltarama gozar desses e de outros privilégios, embora tantos

21
ainda persistissem a cumprir secretamente as tradiçõesinscritas no An-
tigoTestamento. Fosse verdade ou simples suspeita, a aversão encon-
trava lenhapara se aquecer de tempos em tempos.
Porfim, o converso Alonsode Espina sugere o recurso da Inquisição.
A idéia é bem acolhida, de sorte que, em 1478, o Tribunal é organizado
soba proteção dos Reis Católicos. Tem como objetivosintrínsecos à
defesada fé e da filosofia política vigente. A unidade religiosa c a unidade
geográfica devem ser mantidas atodocusto. O órgão policiadorzela por
ambas, mas o Estado lhe dá a mais ampla cobertura. Um precisa dooutro.
A questão, entretanto, acaba por assumir também um novo carárer.
Deixa de ser exclusivamente religiosa « política e abarca os aspectos
social é econômico, porque, na verdade, o Tribunal passa a servir aos
interesses da nobreza emdesabonode umaflorescente classe, que eraa
da burguesia, representada em grande escala por membros da raça judia,
tais comoprestamistas, contratadores, comerciantes, médicos, sacerdo-
tes,funcionários públicos e outros. Em Castela e em Aragão, sobretudo,
a sua influência pesava bastante, e, por isso mesmo, fazia-se imperioso
corar-lhes as asas. Era mister defender o prestígio social da velha no-
breza, bem comoa sua posiçãoeconômica,visto queoficios e ocupações
subvencionados à custa do Erário,e que se destinavam por direito aos
filhos segundos da fidalguia, iam-se transferindopara as mãos de conver-
sos. O clero estava cheio de cristãos-novos e nos conventos subiama
muitas dezenas asreligiosas da progênie aborrecida. Em 1480 as Cortes
solicitaram aos Reis Católicos o revigoramentodas leis discriminarórias.
Em 1481 dá-se novo morticínio de cristãos-novos judaizantes.
Desenvolveu-se, assim, um período de conflito socio-émico-
religioso, o qual se estendeu ao século XVe marcou oespírito da nação.
OpapaSistoIV (1471-1484), que aprovara o Santo Ofício, por influên-
cia de tai conjuntura, expede aodepois uma bula em queproibe aos
cristãos-novos o ingresso nas ordens religiosas militares. Seguindo na
mesmatrilha, o inquisidor-mor, Torquemada, em 1484, determina que
se impeçam aos filhose aos netos dos hebreus condenados oexercício de
cargos públicos, o da medicina, da advocacia e de outras profissões,
revelandodesta forma suaaliança com Estadoe com osinteresses em
jogo. As corporações religiosas, porsua vez, passam a incluir nos respecti-
vos estatutos e exigência da limpeza de sangue, aré aí adotada mais ou
menos vagamente. Por isso,a expulsão dosjudeus, em 1492, não causou
grande estranheza. Todavia, transcorridos alguas anos,ou seja,ao término

22
da primeira fase do Concílio Tridentino, achando-se acesa a chama da
contra-reforma (Católica) coube ãoarcebispode Toledo, Juan Martinez
Siliceo,reativar a febre discriminatóriada limpeza de sangue, pela publica
çãodos novosestatutos(1547),muito maisrigorosos do que-osde 1449. A
princípio o papa condenou-os, devido ao extremismoqueimpunham, mas,
aprovou-os finalmente*
EmPortugal a aversão para com os hebreus esteve longe da flores-
cente no país vizinho, mesmo porque ná época atrás mencionadaa
nacionalidade se havia estabelecido, entregando-se os habitantes aos
empreendimentos marítimos, ao comércio e à colonização das novas
terras, neles colaborandoativamente os daquelaetnia. Tudo mudou,n
entanto, em vista da vizinhança com a Espanha, das tradicionais alianças
entre as duas monarquias, « sobrerudoa contar dosesponsais deel-rei D.
Manoel com a princesa D.* Isabel,filha dos Reis Católicos. Por fanatismo
religioso, ou porque não desejasse ter como súditos a muitos dos que os
genitores haviam expulso em1492,exigiu ela dopretendente, mediante
compromisso porescrito, o banimento do povohebreus. Aceitou o Ven-
turoso à imposição, mas procurou contorná-la, obrigando osjudeus ao
batismo,pois deste modoseriam convertidosà religiãooficial e integrados
no corpoda nação. E mais: dererminou que pelo prazode vinte anosnão se
inquirisse quanto aoseu passado a fim de evitar discriminações,intenção
que durou pouco,ou não se chegou a concretizar, porquelogooscristãos.
velhosse arrogaramprivilégiose passaram a denominaros conversospelo
apelidodecristãos-novos, étambém, a seguir, pensou-se na criaçãodo
tribunal do Santo Oficio, idéia que afinal vingou.
A partir de então, a exigência da limpeza de sangue mais se avolumou,
envolvendooexercíciode funções religiosas oucivis. Sucedeu, por isso,
que muitos cristãos-novosforam abandonandoo Reino, enquanto emis-
trabalhavam em Roma contraosestilos da Inquisição. Sendo
jo, D. JoãoIH chama a quatro dosprincipais para ouvi-os a
respeito. Corre oanode 1546. Eles apontamas causas, culpando nãosóa
Inquisição, mas também fatode que já não consentem a alguns nas
miscricórdias, oscolégios, nos misteres dasvilas, nemnasviagens paraa
Índia mesmoasoldo, e, se pleiteam ofícios,logolhes vêm comembargos.
Pedem, em consequência, S. Majestade “nãofaça li nempermita em seus
veios estatuetas mem costume que separe esta gente dos cristãos-zelhar"S. Nada
há, então,de definidoaté aí. Os casos sãoparticularizados ese caminha
paulatinamente para a generalidade com o beneplácito dosumopontífi-
ces. Em 1550, o padre Simão Rodrigues, provincial da Companhia de
Jesus em Porcugal, insere nas constituições da Ordem que os cristãos-
novos não sejam admitidos nela, embora saibamos queaexigênciacustou
a vingar. Por sua vez, o papa Paulo IV,em 1558, expediu um breve
impedindo-os de ingressar na religião de São Francisco,e nas Constitui.
ções que formulou, fez constar à necessidade da pureza de sangue para
entrar na vida eclesiástica, decisão esta às vezes revigorada por seus
sucessores, outras, atenuada, dependendo doespírito de cadapomtífice e
do valimento dos interessados. Todos, desde Gregório XII (1572-
1585) a Paulo (1605 a 1621), a confirmaram, mas Clemente VIII, em
1598, determinou que não houvesse impedimento àordenação de quem
descendesse de judeu ou herege, bastando, naturalmente, que o candi-
dato desse provas de bom cristão. Levantaram-se, porém,sérias objeções
da parte dorei Filipe e de alguns prelados, « S. Santidade viu-se na
contingência de expedir um novo breve a 18 de outubro de1600,
excluindoaos cristãos-novos, até o sétimo grau, dos canonicatos, das
prebendas, das dignidades eclesiásticas, dos benefícios e de curas d'al-
mas”, o que,entretanto,jamais impediu os chefes daIgreja de dispensa-
rem Os casos que a consciência e a razão lhes ditassem.
O maior empecilho estava sempre na Inquisição, a qual pressionavao
clero ea nobrezaquando nãoão própriorei. Assim, em 1562,nas Cortes,
solicicaram os dois estados vedar aoscristãos-novoso serviço público e
as profissões de fisico-mor é de médico. Depois, em 1572, foilhes
proibido o hábito honorífico da Ordem de Cristo, mercê das mais
cobiçadas por eles?. As prescrições inibitórias prosseguiram no governo
dos três Filipes e dos sucessores, estendendo-se aos casamentos mistos,
mas, nunca, qualquer delesconseguiufossem observadas integralmente.
Apesar de todos os obstáculos, aos cristãos-novos mais do que a
ninguém interessava a obtenção de um título honorífico, por modesto
que fosse. Almejavam-no é O buscavam avidamente, em especial o hábito.
de uma das três ordensreligiosas militares pelas vantagense privilégios
que proporcionavam,tais como a elevação social do agraciado,
aproximando-o da nobrezade sangue,aisenção doforo civil, deimpostos
e de contribuições forçadas,a libertação de trabalhosjulgadosindignos,
pois, para cano, receberia pensão ou tença da Coroa. Mas, parao judeu,
acrescia ainda outro proveito,talvez mais lucrativo, porque,
acobertando-o contra perseguições, conferia-lhe relativa tranquilidade e
desembaraço de movimentos. A Ordem de Cristo, a mais dignificante
entre todas, andava de contínuo a alimentar-lhes o espírito, embora
sabedores de que a mesma, e bem assim as restantes, se destinavam

24
esclusivamente à indivíduos da etnia cristá-veiha, conforme prescreviam
os Estatutos?, e o tribunal da Mesa da Consciência e Ordens, criado em
1532, fazia questão absoluta de cumprir, bem como osbreves pontifícios
cas determinações expedidas pelos monarcas,
De forma que, segundo osEstatutos, estavam impedidos dereceber a
comenda os individuos portadores de sangue “infecto”, os bastardos, os
de oficio mecânico, os menores de 18 anos e os acima de 50. Assim, pelo.
que se vê, eles mantém O espírito racista, o orgulho de classe e o
menosprezo ao trabalhomanual, inexistentes entre os portugueses dos
séculos anteriores.'º Eis, a prosósito, um trecho desse documento:
“Titulo NVIH — Das pessoasque devem ser recebidas a esta Ordem . das
suas qualidades.
Pela exelência desta Ordem ser deJess Cristo mosso Senhor, épela insígnia
da Cruzquetem, queentre todasas ordens militares, maisseassemelha,e pareceu
em quedepadece; merece ser venerada, e respeitada; pelo que s que a elaforem
recebidos, devem ser nobre, fidalgos, ou Cavaleiros, ou escudeiros, limpos, sem
mácada alguma em seus nascimentos, mem onesros impedimentos e defeisos quese
apontam alsixo nos intervogatório s, porquese bápergamtar , quando se habilita»
vem; e 0s papas Pio V, é Gregório Decimotércio no ano de setenta e dois, proibiram
que nenhuma pessoa que descendesse de Mouro, ou Judeu, ousorfosserecebidos filho de
mecânico 8 mecânica; mem neto de avô é atá mecânicos possam do
hábito da ordem".
Nas inquirições crarava-se de averiguar com exatidãoas qualidades do de
pretendente, ou do agraciado com a mercê, mediante testemunhas em
confiança, as quais não podiam ter parentesco algum com o indivíduo
apreço, A regra consistia em efetuar os interrogatórios por elemento
pertencente à própria Ordem nos locais onde residiram ospaise os avós
do habilitando. O processolevava meses,€, às vezes, até anos, mas, para
tanso, a Mesa da Consciência exigia antecipadamente um depósito em
dinheiro, o que marginava, assim,aos mal aquinhoados. As conclusões,
afinal, eram fiéis, embora se conheçam numerosos casos de embuste, a
exemplo de um Domingos Sales de Cá, cristão-novo, que mediante
provas falsas, se habilitou à Ordem de Cristo. Descoberto, foi obrigado
ir o Reino e responder à processo??, enquanto muitos outros escapa-
ram ilesos.
Quem possuísse na família um sacerdote, ou antepassado com o título
de fidalgo ou o hábito de uma Ordem militar, gozaria de vantagem nas
provanças e ganharia tempo, porquanto se admitia que se tinham habili-
tadode gênere, Bastava isto, às vezes, conforme se deu com os Gama

25
Lôbo e com os descendentes de Salvador Corrcia de Sá e Benevides,
ainda que mesclados de sangue hebreu.
Os Estatutos, na verdade,prescreviam das ordensmilitares os porra-
dores de sangue espúrio. Mas alei cera umacoisa, e prática, outra. Quos
candidatos burlavam a exigência por algum modo, ou os reis a contorna-
vam, premidos pelas circunstâncias. Estes viram-se muitas vezes na con-
tingência de se valerem dos recursos ou dos serviços de cristãos-novose
Jhes retribuíram com títulos nobiliárquicos, mesmo quando recomenda-
vam àMesada Consciência guardar irevogavelmente o estatuído. Isso foi
notório durante os três habsburgos « no governo de D. João IV,pois a
críticasituaçãodo Erário obrigava-os aprometermercês aquem osservisse
bem. Quando o impedimento era de sangue,o rei solicitava a dispensa ao
papa ou confiava o pedido ao interessado, Se, contudo, o obstáculo fosse
de idade oude ofício, competiaa S. Majestade a insenção. Assim, porcarta
à Mesa, datada de 10 de abril de 1607,dizia cer concedido au cosmógrafo
João Batista Lavanha o hábito de Cristo, embora de sangue hebreu,
esperava que Sua Santidade emitisse o breve de dispensa, porque“ele me
está aqui servindo com particular satisfação, minha..."
Asitudes semelhantesa esta já cometeraante
facultando dispensas junto à Santa Sé « depoiss Filipe Il (de Porcugal),
esquecendo-se disso,
numa demonstração da facilidade com que assinava documentos ou da
desordem reinante nasecretaria do Estado. Em carta de 30 de novemb
de 1606 indagava àMesa da Consciência quando se concedeu o hábito ro de
Cristoa Duarte Nunes e por queserviços, e se o mesmo obsivera o breve
de Sua Santidade, visto ser da nação dos cristãos-novos. Aoque a Mesa
responde que tanto ele como o tio Luís Fernandes Duarte tinham rece-
bido uma provisão de Sua Majestade e o respectivo breve do papa,
dispensando-os do impedimento. Todavia, a comendalhe foi negada!
O curioso, outrossim, é que em circunstâncias idênticas, rei « papas
denegam a mercê, ou o primeiro reage contra a decisão do segundo,
mesmo no preenchimento de cargos eclesiásticos, conformedeterminou
porcartadatada de 31 de dezembro de 160315, Em 1615, Fernão Dias
Silva, cristão-novo, foi provido em Roma em umaconezia, contra da as
determinações existentes em Portugal'S. Isto a instâncias donúncio, neste
país. mas Orei permitiu que tomasse o cargo apenas por dois meses,
devendo renunciar nesse prazoem pessoa hábil. Ordenou também que se
tomassem providências para cal não mais acontecer, devendo obedecer-se
Ordenação,livro2.º, título 15, sobre-os que alcançaram provisãoem Roma

26
contra as graças a ele, Soberano. Pois tendo isto sido observado, “e
atreveram tantos a pedidas",
Apesar das restrições, a coisa ía de mal a pior. O rei quer a todo custo
cumpriros Estatutos e desafogar a Fazenda, poisas “tenças”são numero-
sas os cristãos-novos nobilitadosestão isentos de fintas e contribuições
e, demais a mais deixam, em consegiência, as atividades mercantis com
prejuízos para a economia da nação. Assim, à 28 de fevereiro de 1604,
ordena que não se dispense a nenhum deles para o hábito das erês ordens
militares,e de novo repete 6 de julhodesse ano, e em 13 de outubro de
1612. Agora, exige a observância absolura dos regulamentos, protestando
que dos danos a Deus e ao Erário, estavam misturando maísfacil.
mente 0 seu sangue com os dos cristãos-velhos'*.
O sucessor, Filipe 1, enfrentando maior penúria financeira que os
anteriores « coadjuvado pelo inescrupuloso ministro duque de Olivares,
concedeu liberalmente hábitos e tenças a quem por natureza se achava
impedido. Um desses foi o mercador Pero de Baeça, que, com grande
escândalo,saiu em auto público do Santo Ofício, pelo que,a seguir, em
junho de 1630, a Mesa da Consciência lembra a S. Majestade as delibe-
rações anteriores do progenitor. Porém, dois anos após, ou seja, a 19 de
outubro de 1632, precisa adverti-lo mais uma vez de que os hábitos das
ordens militares se têm profanado por se darem a gente defeiruosa e
dispensada'S. Não obstante, na mesma ocasião, o Soberano fazia igual
mercé a Marcos Fernandes Monsanto. E o diapasão prosseguiria pelo
tempo afora, pelos motivos e pelos meios já indicados.
Havia, por conseguinte, maneiras várias para contornar a exigência
legal: subornandoo responsável pelas inquirições, ou as testemunhas; ou
conduzindo o processo pelo costadoque convinha; ou solicitandoque os
trâmites corressem no lugaronde residia o pretendente e não no dos pais
e avós. Este argumento, por exemplo,se usou durante a ocupação do
Nordeste brasileiro pelos holandeses, alegando os habilitandosser difícil
alio inquérito. Se, todavia, a identidade do candidato fosse conhecida e
ele desse provas de bom cristão, vivendo limpamente,isto é, à lei da
nobreza, e sem exercer ofício mecânico, mais fácil seria obter dispensa
papal. Foi o caso de Ruí Lopesda Veiga, em 1608, embora neto dos
Lopes d'Évora é dos Angel-Coronel de Elvas?
decadência dos hábitos nobiliárquicos « títulos defidalguia vinha
de longe, mas acenuou-se desde o século XV. Já as Cortes em 1472 «
1481-1482 reclamavam contra referida profanação, poisrecebia a
honraria quem não tinha méritos nem ascendência digna?!, Enereranto,

27
surgem as empresasmarítimas, aexploração das novas terras, ecom elasa
demanda de gente e de recursos, acenando os reis com vantajosas pro-
ssasaos seus colaboradores. Diz Rabelo daSilva que no tempo de
Eilipe II (L de Portugal)se chegaram z vender fidalguias, e no reinado do
neto o descrédito caiu ainda mais,a tal ponto que os hábitos das ordens
militares e outras mercês perderam o significado e deslustraram a velha
as quais se davam quase om almada, sendo constante o leilão das
raças
A própria casa de Bragança nunca abriu mão, enquanto durou o
governo dos habsburgos, do direito de distribuir títulos e mercês às
pessoas do seu agrado,pois bulas papaislhe facultavam doaraté quarenta.
e umacomendas da Ordem de Cristo?! D. João IV não fez mais que
seguiras pegadas de todos osantecessores,sobretudo em face da herança
deixadapelos Filipes. Mas o escândalo das honrarias continuou por
razõesdoEstado. EmmeadosdoséculoXVIItornara-sedifícil encontrar
quem quisesse ir para à Índia, salvo mediante promessas,e os que lá
chegavara, em breve preferiam avida eclesiástica. onerando aínda mais a
Coroa e deixandoos redutos pormgueses sem defesa, Em 1653,isto lhes
foi proibido.
NaÁfrica chegou-se ao ridículo. Em novembro de 1664, o provedor
da Fazenda, de Angola, denunciavr ter encontrado lá nove ou dez
potentados negros que andavam com os hábitos deCristo e de Santiago,
sem habilitações nem mercês de S. Majestade?4, e bem mais tarde, na
própria Lisboa, «o tempo de D. João V, até uma filha de Eva, aconhecida
judiade nome Salvador, ostentava o hábito deCristo,que lhe granjcarao
amante D, Luís da Cunha, o qual, segundo Camilo de Castelo Branco,
influíra cambém no ânimo do marquês de Pombal,quando ministro de D.
José, para nobiliar os cristãos-novos arrependidos e acabar com as
distinções raciais?s. Portanto, longe das vistas do Santo Ofido e da Mesa
da Consciência, nas terras das conquistas, com maiores probabilidades
poderia alguém pavonear honrarias ou preencher condiçõespara obrê-
Iniciada a colonização do Brasil, vamosencontrar aqui, desde logo,
certosindivíduos de linhagem sefardira portadores de algum hábito
religioso, eclesiástico ou militar, enquantooutros vieram com os olhos
postos na sua obtenção.
Um dos primeiros de que temosnotícias foi Filipe de Guilhem,
chegado ao país em 1538 ou 1539. Estava na capitaniados Ilhéus quando
Tomé de Sousa mandou chamá-lo para certo empreendimento. Possuía

28
tença e o hábito da Ordem de Cristo desde 1528,e, no entanto, para cá
viera desterrado. Atendendoao governador, acabou por prestar bons
serviços até 1563, pelo menos. Parece que deixou descendência em
nosso paste.
A lista dosque alcançaram semelhante graça, por serviços realizados.
aqui, é de vulto, a começar por Álvaro e Martim Rodrigues Adorno,
netos do Caramuru, os quais foram galardoados com a mercêdefidalgos,
sem que nenhum sangue nobre lhes circulasse nas veias. Aliás, é provável
o seu parentesco pela via paterna com o cristão-novo Francisco Rodri-
gues, casadocom Catarina Dias Adorno 7.
É a esse tempo que se principia a divulgar a lenda acerca da Sabará-
bossá, no Brasil « no Reino,incitando muitos a descobri-a. À empresa
requeria bravura e capitais, porque so chefe da entrada cabia custear o
empreendimento. A Coroa só tencionava os lucros, nada pretendendo
“gastar em coisa são arriscada e hipotética, pelo que oferecia mercês em
troca. E assim aconteceu com os Rodrigues Adorno, em meados do
século XVI, e a seguir com Gabriel Soares de Sousa, D. Francisco de
Sousa e tantos mais, até o século XVIIL É sintomático, por exemplo, o
oferecimento àquele governador, a fim de prosseguir no entabulamento
das minas. Além do título de marquês, para si, o rei lhe permitia doar o
foro defidalgo a quasro pessoas, o de cavaleiro à cem, o de moço da
Câmara Real a outras cem, doze hábitos de Cristo com a tença. Caloustre
e seis com a de 508000. No caso destes dezoito hábitos, entretanto,
estabelecia uma ressalva, exigindo que as referidas pessoas “não serão
defeito de geração para que seja necessário haver dispensação de Sua Santi.
dade'?8. À cessrição não era absoluta. Ainda restava uma válvula de esc-
pae, qual a da recorrência ao pontífice, de sorte a permanecer aberta a
oportunidade para os cristãos-novos. E, de fato, D. Francisco trouxe
consigo diversos para as Capitanias do Sul. Um deles foi Sebastião de
Freitas, a quem armou cavaleiro da Casa Real, conforme alvará de 26 de
junho de 1600. Ainda outro, relacionado também com as jornadas mi-
neralógicas, foi certo Antônio Raposo, elevado igualmente a cavaleiro
pelo alvará de 20 de maio de 1601, ou IG00, consoante Pedro Ta-
ques?s,
Nunca, talvez, se distribuíram tantos hábitos comono reinado de
Filipe HI (de Portugal)e mais ainda após aRestauração, porque D.João,
à míngua de recursos, precisando de enfrentar os espanhóis no conti-
nente, os holandeses na India e no Nordeste brasileiro, recorreu às
mercês honoríficas. Financistas, soldados, funcionários públicos, foram

29
agraciados; até indivíduos que haviam saído nos autos da Inquisição, a
exemplo de um filho e o cunhado do banqueiro Duarte da Silva.
Firmadaa paz com as Províncias do Norte, não podia o rei interferir
na luta que os luso-brasileiros moviam ao holandês, mas, secretamente,
apoiava,€ tanto é assim que premiou já no decurso da guerra aos que se
salientaram por seus feitos ou por serviços prestadosaté aí. Em 1643,
contemplou a filha do cristão-novo, da Bahia, Pero Garcia, morto em
defesa da cidade, e ao nero dele, Francisco Gil de Araújo%. À Diogo
Gonçalves Laço concedeu os foros de escudeiro e de cavaleiro fidalgo, e
ao irmão Bernardo de Aguirre (em 1645) o hábito da Ordem de San-
tiago, em vista das ações praticadas por ambos no Reino e no Brasil,
embora fossem da linhagem hebréia dos Lopes, da Bahia", Em 1644, são
agraciados, entre outros, noReino, Manocl Serrão Botelho, « naturais do
Brasil diversos dos Corrcia de Sá e Bartolomeu Bueno, de São Paulo, a
quem, por tomar parte em combate na armada do condedaTorre,coube
a pensão de 208000 e aoferta do comando de uma companhia no Rio de
Janeiro, e ainda nesse mesmo ano, ao cristão-novo Alexandre de
Castro, o comando de um corpo deinfantaria, no Rio de Janeiro,
por haver seguido com Salvador de Sá e Benevides às minas de São
Vicente. Em 1645, Filipe Bandeira de Melo, pernambucano,neto da
judia Maria de Herédia recebe o hábito de Cristo34 No ano de 1647, são
agraciados, dentre outros, os mercadores hebreus, Francisco Gomes
Chacon, com o hábito de Avis, e Francisco Fernandes Furna, com o da
Ordem de Cristo, ambos porserviços no Reino,sobretudo contra a
Espanhaºs. AolicenciadoJerônimo de Burgos,juíz de órfãos na Bahia,
concedida a comenda de Avis « 158000 de pensão,por ajudar na defesaé
da capital quando a sitiou Maurício de Nassau?. E assim, sucessiva
mente: em 1654, Francisco de Figueirõa, restaurador de Pernambuco,
recebe o hábito de Cristo,a despeito deser neto de Clara Afonso,judia;
Gaspar Dias Ferreira, mulato e de sangue hebreu,que sc fez passar por
amigode Nassau, a mercê defidalgo, e em 1655 a de fidalgo cavaleiro?
€, posteriormente, o célebre João FernandesVieira e numerosos outros.
Nenhum deles, comoestá evidente, satisfazia porinteiro os estatutos das
ordens nobiliárquicas, mas as circunstâncias propendiam para seu lado.
Sc, entretanto, houve alguém que por seus méritos, ou pelos dos
antepassados,fazia jus ao hábitode uma das três ordens militares, sem a
menor dúvida, foi o sertanista de São Paulo, Garcia RodriguesPais. Nem
ele, nem a progenitor, Fernão Dias Pais, jamais se recusaram servir a
Coroa na busca de riquezas minerais, sulcando rios e florestas pelo

30
interior a dentro. A prova disso estava nas amostras de esmeraldas é de
ouro que levara pessoalmente a D. Pedro II. Em recompensa, este -
prometeu-lhe o foro de fidalgo-cavaleiro com 18600 de moradia, além
dos direitos sobre as passagens dosrios Paraíba e Paraibuna, o cargo de
guarda-mor das minas e algumas sesmarias. E então, eufórico, Garcia
Roz volta à terra natal para dar encaminhamento ao respectivoprocesso.
de habilitação à Ordem de Cristo.
Como é que os autos tramitaram?
Nada menos de trinta « sete peças documentais lhes deram corpo,
satientando-se o comprovante de que o padre João Leite da Silva cra
iemão legítimo de Fernão Dias, e rambém um instrumento de “puritare
sanguínis” bascado no testemunho de nove pessoas, as quais, sob jura-
mento aos Evangelhos, declararam que os pais e os avós do interessado
eram tidos e havidospor cristãos-velhos, sem mácula algumas. Tudo
concluido,foi o calhamaço entregue à Mesa da Consciência, « qual, por
seu turno e dever, mandou efetuar averiguações. Porfim,esta o enviou
com o seu parecer a D. João V,conhecido como Magnânimoe de quem
escreveu Castelo Branco que cevava o corpo nas graças israelitas de
Margarida do Monte'8. Pois bem! O último texto do precioso docu-
seno, ignorado cu silencio pelos gencalogisa, reza de maneira
“Foi V. Mg. de. servidafazerMçe, do hábitoda Ordem à GarciaRoiz Pais,
epapoder veceberelin mandaramfazer asprovanças desua habilitação, das.
quais constox que em sua pessoa concorre qualidade necessária; porém que é
maior de cincoenta amas, e infamado de cristão-noto por parte de sua avó
materma por fama constantes é por éstes impedimentos se julgom incapaz de
entrar na Ordem, do que se dá uma « V. Made. como Governador eperpétuo
Administrador dela, na forma que « dispõem: as Definitório
Lisboa , 29 de outubro de 1710”. E seguem-se oito assinaturas de
membros da Mesa.
Quase oito anos tinham decorrido e nesse ínterim faleceu Pedro IL,
sendo substimído por D. João V, o qual também se simpatizou por
Gascia Roiz. No entanto, a Inquisição que estivera quase inativa, recru-
deseeu noseu furor contra oshebreus, condenando dezenas deles. É
provável. então, que o papa Clemente XI (1700-1721) lhe houvesse
recusadoa dispensação, ou os reis se houvessem desinteressado em face
da nova situação; aindaporque começavam a chegaraLisboaas primeiras
levas de judaizantes presosno Rio de Janeiro. O podescivil « o Santo

31
Ofício dão-se as destras novamente, em estreita colaboração. Nem os
cxistãos-novos tinham sido assimilados e nem o judaísmo cessara.
O texto acima nosesclarece sobre a ascendência de Garcia c mostraa
linhagem étnica dealguns ramos da parentela, além da falcatrua que se
processou nahabilitaçãodo homônimo,padre Garcia Rodrigues, talvez
nas do próprio filho Pedro Dias Pais Leme e do neto Fernão Dias Pais
Lemeca Câmara, porque ambos se tornaram fidalgos da Casa Real. e
aquele também cavaleiro da Ordem de Cristo,
Outro caso de São Paulo é o referente a João Maciel Parente,
agraciado em maio de 1674 com amercêdo hábito de Cristoe a comenda
de 40$000. Tendo-se perdido a competente portaria, as inquitições só
começaram em 1696, sob a presidência do reitor da Companhia.
Ouviram-se seis anciãos, mas quatro estavam vinculados por parentesco
com família do interessado, confirmando deste modoo elevado indice
de entrelaçamento nacapitania. Contudo, a Mesa da Consciência não se
deu por satisfeita, pois os informesacerca dos pais e avósnão esclareciam
suficientemente a condição érnica dos mesmost?, e isso faz supora
existência de qualquer impedimento na sua linhagem.
A transferência de mercês de um parente para outro, inclusive por
colateralidade, enquadrava-se nos regulamentos das Ordeas, desde que
concedidas a título de juro e herdade,e também os serviços o podiam,
digamos, de tio para sobrinho e de sogro para genro. Assim procedeu o
padre Fernão de Gois de Barros, mestre em artes e clérigo do hábito de
São Pedro, neta do cristão-novo Pedro Vaz de Barros, quando « 17 de
julho de 1666 pediu que revertessem a seu favor osserviços prestados
peloirmão, pelo pai e pelo avôs3. Convém esclarecer,a propósito, que o
pai, de nome Valentim de Barros, registrara no cartório de São Vicente,
sob nº 1645, uns autos de justificação de “nobilitate probanda”, e tam-
bém o irmão Fernão Pais de Barros, em 1678, consoante escreveu o
gencalogista Pedro Taques*. Todavia,é mister não confundir tal“ nobili-
tate” com a habilitação de gênere, pois alguém podia descender de
linhagem nobre sem estar isento de sangue hebreu, como,exatamente,
essa família. Osancestrais,Jerônimo Pedroso e sua mulherJoana Vaz de
Barros eram,cada qual, meio cristãos-novos, segundo informou o filho
“Antônio Pedroso de Barros, em 1591, perante a visitação do Santo
Ofício, na Bahia. Mas tanto a prova de “nobilitate” comoa de “puritare
sanguinis” estavam sujeitas a fraudes distorções,de sorte que, quando
se providenciaram aquelas, foi, às vezes, porque circulavam rumores
acerca dalimpeza ou da falsa prosápia de algum indivíduo ou família,

32
Veja-se, neste sentido, o caso de Luís Gomes, antigo morador de São
Vicente é tronco de numerosos paulistas. Dele consta, segundoo re-
gistrodo genealogista Roque Leme, que tirou instrumento de “puritate”,
mas nós sabemos luz de umasérie deevidências, que eracristão-novos.
Eo mesmo parece ter ocorrido com um certo Franci-o Lopes Pinto que
em 1618 apresentou às autoridades da capitania martim-afonsina docu-
mentos comprobatórios de sua etmia cristâ-velha, declarando-o moço da
câmara deel-rei e cavaleiro-fidalgo, forosesses, segundoalegava o
próprio, “que se não dá senão a cristãos-velhos”. O motivo é que, «o
chegar a São Vicente, viera precedido da fama de cristão-novo e fora
incluído na relação dos que deviam contribuir para a finta da gente
hebréia. Todavia, o pai dele, em 1571, achando-se em Mazagão, já preci-
sara justificar a competente “puritate”, visto ser considerado da crnia,
mas não obstante o rumor persistiu, aindaque Francisco apresentasseos.
alvarás das mercês concedidas por el-rei. Exigia, em vista disso, que o
aratassem com a devida honra e o excluissem dafinta, pois os títulos lhe
davam tal direito.
Poucas famílias no velho São Paulo padeceram mais insistentemente
a pecha depreciativa quanto à dos Taques. Aravessou o séculoàsXVII e
perdurou no XVIIL. De modoqu e andaram os descendent es voltas
com as provanças de gênere por mais de uma vez. Em 1728 quando se
realizaram as inquirições sobre o Dr. Pedro Taquesde Almeida, candi-
dato à leitura no Paço, disse o padre Estanislau de Campos, ancião de
oitentaanos, que conhecera o bisavô deste, chamadoLourenço Castanho
Taques,filho do primeiro Pedro Taques é de Ana de Proença, e que cle
esa tido por cristão-novo, e o mesmo afirmaram as demais testemunhas.
“Todas,porém, comoqueindustriadas deantemão,tal a semelhançade suas
declarações, acrescentaram que fama, embora falsa,se devia ao faro de
PedroTaques ser concunhado do hebreu Francisco Vaz Coelho. O certo é
que o candidato foi recusado*”. Aliás,jávimos que durante a contenda dos
Garcias e Camargos, veio à baila a emia hebraica dos Taques. Por essa
mesmarazão, em 1694, o capitão-mor Pedro Taques,neto do homônimo,
«tonco da família, achou por bem requerer provas de limpeza de sangue
dos ancestrais porugueses, e em 1703 a do bisavô castelhano D. Diogo
Ordonhesde Lara, natural de Zamora. Tivemos em mãos instrumentode
gênere referente a este último e constatamos que nada se procurou
esclarecer quanto à mulher de D. Diogo, mas, o curioso, é que o reque-
rente, embora quisesse eximir-se da mácula, não tivera escrúpulo em
casar-se com mulher da linhagem impeditiva e nem outros da famílias

33
Ainda mais tarde encontramosevidência de tais enlaces em umas notas
escritas no manuscrito genealógico dos Arrudas Botelhose Sampaios, que
acreditamosredigidas pelo próprio Pedro Taques. Rezam:
“Etempoque Vs eusmetas demeu tioJoséde Gois cuidemom sebabilit
“impedimentotidostádesfeito, a verdadedeclarada, aestradaabersacocamarpais
inho
dem plano e daqui por diante, adeirtão com quem se caxarão 8
As expressões não deixam dúvidas, Houve impedimento através de
casamento, mas agora já se conseguira desfazê-lo, e quem redigiu as
referidas notas recuara apenas a José de Góis, bisnero materno de Pedro
Vaz de Barros.Fora cle sargento-mor nacapitania, e sua mulher descen-
dia do bandeirante Antônio Raposo Tavares. Em 1729 José é referido
comosimpatizante dojudaísmo no processo de Miguel de Mendonça
Valadolid, mercador de São Paulo, preso por ordem da Inquisição*.
Ora, 0 gencalogista Pedro Taques de Almeida Pais Lemepertencia à
família, fato esse que se deve levar em conta para melhor compreensão
de suaNobiliarquia:Nem se deve esquecera época naqual redigiu aobra,
ou seja, no século XVIII, quando se dava tanta importância às prosápias
gencalógicas.
Muitos, pois, dosfidalgos que viveram outrora em nosso país não
eram de pura linhagem cristá-velha « alguns, até, haviam-se nobilitado
recentemente, aexemplo dos Leme, dos Cubase,sobretudo, dos Correia.
de Sá relacionados com as Capitanias do Sul. Martim Leme, tronco da
família, vivera em Burges, entregue ao comércio com o parceiro Pero
Dinis. Suas transações efetuavam-se com negociantes hebreus, espes
mente, Por volta de 1456 fixou morada em Lisboa, e teve de Leonor
Rodrigues, mulher solteira e talvez judia, sete filhos, legitimados por
cartas régias em 1464, onde, então, é qualificado como escudeiro do
reis?. E quanto a Brás Cubas, nenhum título possuía ao desembarcar no
Brasil. Em documento de 1536 é designado “criado”de Martim Afonso
de Sousa, donatário da capitania de São Vicente. Em agosto de 1540 já é
moço da câmara de cl-rei, e de 1551 em diante é intitulado cavaleiro-
fidalgo 82, portanto, uma gradação ascendente que corresponderia à
escala deserviçosprestados por Brás Cubas.
O RiodeJaneiro também se caracteriza por diversos casos notáveis.
Um deiesfoi o do padre Manoelda Nóbrega, que não obstante ser meio
cristão-novo, ernicamente, foi agraciado aos 20 de outubro de 1643, por
D. João, com o hábito da Ordem de Cristo, tendo-o favorecido nisto a sua

34
habilitaçãoanterior aosacerdócioS?, Outro, foi o do conterrâneo Antô-
niode Mendanha Soto Maior, a quem, em 1699, S. Majestade conferiu o
foro defidalgo poe serviçosprestados. Efetuaram-se as inquisições nas
terras dos avós,sendotodas favoráveis aocandidato;só nãose conseguira
informações sobre o avô materno,daBahia, a avó parerna, de Bolonha,
com oque se pretendeu contornar a situação. Mas a Mesa da Consciên-
cia desconfiou das provas e recusouo veredictum. Em consequência,o
interessadopediu novo inquérito, conseguindo no entretempo ordenar.
se sacerdote. As testemunhas, porém, nãose deixaramburlar e por
unanimidade atribuíram-lhe sangue cristão-novo, de nada lhe valendo,
no caso,o hábito de SãoPedro e nemo de ser pároco de umafreguesias.
Em fins doséculo XVII mais dois Auminenses se candidataram ao
ambicionado título da Ordem deCristo: os cidadãos FranciscoViegas de
Azevedo, em 1687, e Baltazar de Abreu Cardoso, em 1698. Oprimeiro
fora soldado, e depois almotacé, membrodo senado da Câmara, juiz
ordinário é guarda-mor, finalmente. Umabela folha de serviços e, no
entanto, verificou a Mesa da Consciência haver impedimento por causa
da avópaterna. Então,Francisco Viegas entra com um recurso, provando
que ostios, padres Manoel da Nóbrega e Manoel do Couto, já tinham
dado provas da pureza de sangue quandose habilitaram. Todavia, aquele
tribunal sabia que o padre Nóbrega recebera dispensa para ordenar-se,
manteve o despachonegativo, dado anteriormencess.
processo de Baltazar de Abreu Cardosoiniciou-se em novembro
de 1698,para ser investido no hábito da Ordem de Cristoe recebera
tença de 708000 emrecompensa por seus serviços e pelos dosogro
Francisco Sodré Pereira. Não tendoproduzidoefeito as primeiras dili-
gências, realizaram-se outras em 1720,porseufilho,o coronelJoãode
Abreu Pereira. Mas as inquirições revelaram queobisavô, advogado
Jorge Fernandes da Fonseca, natural de Buarcos,noReino, e que, depois,
veio residir no Rio de Janeiro, onde casou com Dt Brites da Costa
Homem, carregava a mácula de sangue cristão-novos8, À tanto chegavao
absurdodas discriminações que umas obscuras gotículas de sangue já por
demais dissolvidas. serviampara marcar oindivíduo muitas gerações
depois,
A tentativa de habilitação à Ordemde Cristo, por Antônio Pinto
Homem, em 1735 1738,foi aindapior, porqueastestemunhas inquir
das fizeram cemontar odefeitosanguíneo a mais de um séculoatrás, ou,
se quisermos,à antiga família dos Sampaio,a qual se estabelecera noRio
de Janeirocom Antônio de Sampaio, companheiro de Estácio de Sá. O
impedimento viria, pelo menos, de Elena de Oliveira, irmã deManuelda
Cunha de Sampaio. Acresce, também, que um bisneto de Elena, cha-
madoJosé Dutra,não conseguira babilitar-se àsOrdens militarese mem à
Misericórdia por descender de cristãos-novos, e um primo-irmão do
habilicando, de nome Manoel Pinto Homem, fora penitenciado pelo
Santo Ofício. Nem as filhas de Elena obtiveram ingresso na Ordem de
São Francisco, devido aos rumores da linhagem cristi-nova dos Sam-
Os Correia de Sá, bem ao contrário, gozaram de sorte invejável,
favorecidos pelo parentesco com o terceiro governador-geral do Brasile
pela ascendência que desde cedo conquistaram no Rio de Janeiro, em-
bora mesclados com a gente da nação hebréia.
Iniciemos à propósito, com Gonçalo Correia da Costa, de quem
procederam os doBrasil. Do seu enlace com D.*Filipa, nasceram,além
de outros, Salvador Correia de Sá, ao passo que, da amante, Maria
Ramires,cristê-nova de Barcelos, teve: Manuel Correia, Duarte Correia
Vasqueanes e Isabel Correia, aos quais legitimou depois de viúvo,
casando-se com a mãe deles.
O filho,Salvador Correia deSá, veio para o Rio de Janeiro e recebeu
pelos serviços prestados diversas mercês. À 30 de agosto de 1574
tornou-sefidalgo da Casa Real. Casou três vezes sucessivamente, com
Da Inês de Sousa, Dº. Luísa Tibão a última com sua amante D+.Vitória
da Costa Freire, cristi-nova,fato este que pode ser comprovado, como
abaixo se verá
(1) — Salvadorjá estava casado com D.?Inês em 1583, ano em que
elachefiouumacompanhia de mulherespara enfrentarinimigo francês,
achando-se o marido no sertão. Em 1602 aindavivia, pois acompanhou
Salvador à Portugalss.
(2) — Alão de Morais, na Pedatura, refere-se aos casamentos de
Salvador com D.* Inês e D.º Luísa acrescenta, baseado em informa-
ções que forneceu em 1663 0 governadordo Rio de Janeiro, Pedro de
Meio:
“Asmdon esteSalvador Correiaamancebadocom... ueforapenitenciada por
judiasmulherde umpiluto queandavaausente da cidadedoRiodeJaneiro: sem
embargo de que o padre Peixoto diá que esta se chamava Vitória da Custa,
mulherquefora deum... do Vade... tevedesta... iegótimos:a) Martin Correia
«de Sá; b) Gonçalo Correia de Sá”
(3)—Depreende-se dasMemárias HistóricasdoRio deJaneiro, escritas
por monsenhor Pizarro e Araújo, que o referido Salvador celebrou o

36
terceiro matrimônio com D.Vitória da Costa, filha de Fernão Marcas
Freire e de D.* Branca Freire da Costa, viúva, a qual, ao que parece,
também resídia na Guanabara. De entre filhoambos, isto é, de Salvador e
Vitória, nasceu Martim Correia de Sóf?, bastardo, contudo, pois
nasceu antes do casamento com D*. Inês, devendo ser vivo, ainda, o
maridode D.Vitória.
(4)— Nas Ementas de Habilitações das Ordens Militares, encontram-se
Costa
duas importantes declarações: uma, afirmando que D.* Vitória da Salvador
foi a mãe de Martim de Sá, é à outra, que os avós paternos de
Correia de Sá e Benevides foram Salvador Correia de Sá, natural de
Bareclos, e Vitória da Costa, de Azamor! Confirmando, assira, o que
disseram os anteriores, já citados.
(5)— Anthony Knivet, ao narrar eventos sucedidos nas duas capita-
nias meridionais, de 1591 a 1602, quando regressou ao Velho Mundo,
conta, a propósito de uma entrada chefiada por Martim Correia de Sá,
que os portugueses, seus companheiros, o taxavam de “filho bastardo do
governador”, insinuando que nãotinhaautoridade sobreeles*?. Querdizer
que até aí permanecia sem legitimação e D. Inês cra viva.
(6) — Annes Amado no seu livro de genealogias dá a dos viscondes
de Asseca, a partir deste Martim Correia de Sá, a quem considera filho
natural, ou seja, bastardoS,
(73—Emadendoaoexposto, lembramos que,no ano de 1710,foi ter
às mãos do Santo Ofício umarelação genealógica de autoranônimo. em
que este ridicularizava a pretensa limpeza de sangue de certos fidalgos
portugueses, mostrando a origem da contaminação. A dos viscondes de
“Asseca estava em Vitória da Costas
Fica, pois, positivado que Salvador Correia de Sá (o velho) andou
amasíado com Vitória daCosta, judia, cujo legítimomarido eraumpiloto
de sobrenome Vale; e que, da mesma, por este tempo,teve dois filhos
bastardos: Martim Correia de Sá« Goncalo Correia de Sá. Ambos foram
legitimados mais tarde, certamente após o casamento com D. Vitória.
Os dois, por conseguinte, receberam sangue hebreu através da mãe.
Não obstante a linhagem contaminada, Martim veio a receber as
“comendas de fidalgo da Casa Real e da Ordem de Cristo,e também dois
de seus colaboradores foram contemplados: Antônio de Sampaio, que
obteve hábito de Avis com 305000 de pensão,poratode 9 demarço de
1647, e Gregório Mendes daSilvao hábito de Avis com 408de tençae o
ofício deprovedorda Fazenda, poraro de 30 deabril de 164765, Ambos
de linhagem cristê-nova.

37
Martim casou-se com a distinta senhora D.º Maria Mendonça Bena-
vides, e tiveram trêsfilhos: Salvador Correia de Sá c Benavides, Cecília
de Benavides, que morreu solteira, e Artur de Sá que desempenhou
cargos no Rio de Janeiro.
Ofilho, Salvador Correia de Sá e Benavides viveulargo ternpo nas
Capitanias doSul; sobretudo no Rio de Janeiro. Aqui alargou considera.
velmente à folha de serviços encetados pelo avôe depois pelo pai
destacando-se na restauração de Angola. Por issofoi agraciado, suces:
vamente, comdiversas comendas, inclusive du
interessante que ao ser providona administração da comenda de São
Salvador da Lagoa, . Majestadeestipulouporcarta de 15 de dezembro
de 1632 queo beneficiadosolicitasse a S. Santidade “as dispensas mecessá-
rias”, as quais lhe permitiriamreceber o hábito da Ordemde Cristo.
Mais uma evidência de que a avó fora a judia Vitória da Costa, E se tal
ainda nãobastar, recorramos a uma carta dos camaristas de São Paulo,
adversários dele, na ocasião,a el-rei D. JoãoIV,aclamadohá pouco mais
de um ano:
“mas É necessário que V.M. se sirva mandar bomens práticos que saibam
Scar às ensaios e fendições dor ditos metais como tambémfidalgo de sangue
cristão e verdadeiro no serviço de V.M... que mos governa eaassista semmover ódio
mem paisão € amizade comoa que tem muito particularo governador Salvador
Correia de Sá comas padres .”*7, À referência a Salvadoré clara, o qual não
era fidalgode sangue e nem cristão-velhode pura cepa.
Dosfilhos deste Salvador de Catarina Ramires de Velascoe Osó-
rios, temos: Martim,que foi o primeiro visconde de Asseca, e deixou
geração; João,fidalgo da Casa Real c fidalgo-cavaleiro, o qual se casou
por duas vezes, sendoque, da segunda, com D:2Ana,filha do negociante
cristão-novoInácio Sarmentode Carvalho,mas semgeração de ambas,
Um terceiro filho, seu homônimo, tornou-se chantre da catedral de
Lisboa,fidalgoda Casa Real « cavaleiroda Ordem de Cristo. O quarto,
padre Sebastião de Sá, ingressou na Companhia de Jesus. Uma filha,
Tereza Velasco, casou com ovice-almirante Luís da Silva Teles de
Menezestê, Por ondese vê que alinhagemcristã-nova de Martim Correia
de Sá não oimpediu e nem aosdescendentes de subirem naescalasocial,
chegando à formar uma nova casa noseioda nobreza, qual fosse a de
Asseca.
Oirmão, Gonçalo Correia de Sá, também filho de Vitória da Costa,
nãofoi tão longe, embora fidalgo da Casa Real. Teado-se casado com

38
Esperança da Costa, ca linhagem cristã-nova de uma família de Barcelos
radicada na capitania de São Vicente, só teve a filha Vitória (nome da
avó), que se uniu por matrimônio com ogovernadordo Paraguai, D. Luís
de Cespedes y Xeria
Ostios, ou seja, os meio-irmãos dovelho Salvador Correia de Sá,
porque filhos de outra mãe, isto é, de Maria Ramires, cristi-nova de
Barcelos, e os descendentes, deles, o máximo aqueatingiram foi o hábito
da Ordem de Cristo e o prau defidalgos da Casa Real, aliás merecida.
mente, pois muito se destacaram nos fastos das capitanias do Rio de
Janeiro « de São Vicente. Entrecanto, à mácula sanguínea foi cransposta.
sem muito estorvo devido às habilitações anteriores de outros parentes.
É o caso, por exemplo, de Duarte Correia Vasqueanes, o qual pedira
dispensa das inquirições no Rio de Janeiro, visto que O irmão Martim
Correia Vasqueanes já se tinha habilitado. Igual razão apresentaram o
filho dovisconde de Asseca é outros,alegando que os avós passaram nas
provanças, sendo, por conseguinte “bem reputados na qualidade é Limpeza
desangue"s8, A esse tempo, Salvador Correiade Sáe Benavidesgosava de
grande prestigio na Corre, sendo por isso guindado a membro do
Conselho Ultramarino. E, contudo,a mácula persistia no século XVIII,
de que são evidências a crítica gencalógica referida atrás « os processos
inquisiroriais atinentes a Josef Barreto, a Mateus de Moura Fogaça e a
Alexandre Soares Pereira, presos no Rio deJaneiro porjudaísmo. Nos
três documentos os filhos de Duarte Correia Vasqueanes são menciona-
dos comocristãos-novos, insinuando o segundo autuado que a inocula-
ção proviria de Marta Borges, mãe deles'º. O historiador Baltazar da
Silva Lisboa, por sua vez, cita um descendente do velho Salvador, o
capitãoJosé Correia, entre os que na ocasião sofreram as peras do Santo
Ofício”. Os Correia de Sá não só carregavam sangue hebreu, mas até
procuraram retardar a sua assimilação através de novos casamentos com
pessoas da ermia.
Eis porque descremosdas habilitações de gênere e das “nobilitate
probanda” em que se apoiaram certos gencalogistas, aceitando como
csistãos-velhos quem não o era. Ou quando sabiam da inteira verdade,
ocultavam-na, temendo represálias, sobretudo em se tratando de pessoas
influentes na vida social ou administrativa. Mas, além disso, os seus
manuscritos ceriam que ser submetidos a umasérie de crivos censoriais
antes de virem à público, que tais eram os doSanto Ofício,doTribunalda
Mesa da Consciência Ordens, e da Real AcademiadasCiências. Nem se
pode accitar,à luz do que apontamos, que a generalidade da nobreza do

39
Reino pertencesse estritamente à etnia cristi-velha, e nem todos os
fidalgose nobilitadosque militaram no Brasil.
À primeira vista, Pedro Taquese primofrei Gaspar da Madre de
Deus, que escreveram sobre os antigos paulistas, nos confundem com as
suas expressões, dando a entender que as Capitanias do Sul, e em part
cular a de São Vicente, hajam recebido um contingente significativo de
nobres vindos do Reino. Ambos referem-se “gente nobre”, a “nobre
família”, a “nobreza de seus ascendentes”, etc. que melhor seria
compreendê-has no sentido de boa gente, de pessoas honestas ou de
mãos limpas, de bons costumes, enfim. É esta gente que constitui os
“homensbons”, ou seja, a nobreza da terra. No Nordeste as classes
“dominantes eram consideradas a “nobreza da terra”, sendo verdade que
os senhores de engenho estavam incluídos nela, diversos pertenciam
mesmo à etnia judaica.
Frei Gaspar é de uma ambiglidade só comparavel à do parente. Em
suas Memórias pretende que ao tempo da expedição de Martim Afonso
cenham ficado na capitania alguns nobres, e que outros mais vieram
depois. Diz ele:
“A nobreza com que Martim Afonso povou São Vicente... "e noutro local
assim se expressa.
“Dos companheiras nobres do primeiro donatário... e de muios outros que
ienam correndo com à tempo... compõemese a nobreza destas capitanias,a qual
se conservou pura, conbecida « respeitada"Pê,
Mas, na verdade, foram raros os companheiros de Martim Afonso
portadores de sangue nobre, pois nem ele o possuía totalmente. Talvez
nenhum fossefidalgo,e quanto aos que vieram em seguida, alguns não
passavam de fidalgos de nobilitação recente. É certo, também, que a
nobreza de São Paulo não se conservoupura, conforme declara,bastando
lembrar o casamento do capitão-morJerônimoLeitão,o de Franciso Vaz
Coelho os dos Vaz de Barros. Entre 0s primeiros colaboradores do
donatário havia israelitas, c com eles,igualmente,se deu início à coloni-
zação, sendo conhecidos Lopo Dias e Antônio do Vale. Nem é cerco
“comparar a nobreza ou se quisermos a elite da terra nos séculos XVI e
XVII com a do Nordeste açucareiro da mesmaépoca, estabelecendo
equivalência de riqueza entre as duas, comofez Oliveira Viana, o qual
tomou por protóripo o Creso de Paraíba, rev. Guilherme Pompeu de
Almeida, que viveu no século XVII é cuja riqueza seu parente Pedro
Taques exagerou?s, Oliveira Viana « Pedro Taques superestimaram a
nobreza dos antigos colonizadores tendo aquele se deixado levar pelas

40
fantasias do gencalogista. Assim, porém, não sucedeu. São Paulo nunca
atingia o grau de Pernambuco, mas também não foi tão pobre conforme
o descrevem certos autores. Seria demais,semelhantementenivelar Bue-
nos Aires ou Assunción do Paraguai com a aforcunada é excepcional
Lima, no Peru, que nadava em riquezas minerais.
Oinsígne A. E. Taunay chamou atenção por mais de uma vez paraos
erros idiossincrasias do autor daNobiliarquia, embora ele próprio lhe
seguisse as pegadas em certas ocasiões?4. De fato o gencalogista claudi-
cou, pelo que deve ser crido mediante cautelas,

Notas
1 - Frei Gaspar da Madre do Deus. Memórias da Capitania de S. Vicente
2 + Além dos exemplos acima citados, à leitorencontrasá muitos outros na obra de
Tsanç da Costa.
5 = ChristAlão de Morais Pedat, Lasitono, pass
= À Baião, Episódios Dramáticada Inquisição Portuguesa, vol. 11, pp. 107 e seg.
4 = Res, Triunfo, ano XXV. n.º 425, 1970, Madi,pp. 1á é segs.
- Alberr Seco. Les Cantreveri ds Status de Paretê de Samg em Espada XV
au XVIé Sie,
5 =As Gavetas da Tarre de Tomo, vol. VIL, pp. 131 - 10; 406 - 409.
6 As Gavetas da Torre do Tombo, vol. 1 pp. 35 a 40,
- Deve entender-se,aqua,por fis, os encargos é postos oficiais.
7 = Crises, Jesuítas + Inquisição, pp, é é segs.
8 ANT, Tombo, EG. Cal Moeine, vol IV, Às, 19 a 23 ve
9 - As ordeos militares originaram-se no séc, XII, ao tempo das cruzadas ao
Oriente. Mais tarde osreis de Portugal receberam o grão-mesteado das mesmas
Por concessão des pontífices.
= OsEstarutos da Ordem de Cristo sofreram reformas em 1529 e em 1628, mas,
intrinsicamente conservaram secopre 0 espirito exclusivista,
20 + Os exemplos que se seguem comprovam esse espirito
17 Definiçor é Eltetasa dos Cavaleiros é Freire de Ordom de N.S. Jose Cristo, om a
bistória da origem, « pricíbio dla, Com licença da Santa aquisição, Ordinário e
Peço. Em Lisboa: Por Pedro Craesbeck, impressordel rei. Ano M.DCKKVIIL
DEXXvI.
12 - ANT. Tombo. Conialtas da Mesa de Consciência, li. 1, (1589-2602), fl 41 vs,
15 Lavanha foi cosmógrafo de Portugal desde 1582 « desde 1618 cronista-mor do
Reino. — Escrever diversas obras. Morreu em 1624.
- ANT Tombo. Meio de Coniciência é Orders, Livro das Consultas (1594 à
1608),pp. 110 vs.
14 = Idem, CIGOS a 1606),vol, & da nova class, pp. 89 vs. 90 é 125,
15 + ldem, Liveo de 1594 a 1603, p, 35.
26 = ldemibidem

41
37» Hé também, uma carta deste escrita em Madri à 20 de janeiro de 1615, ao
regedor Manoel de Vasconcelos, mandando dar comprimento à referida pres.
crisão, contra as provisões aos cristãos-novos, Devia-se atalhar 0 benelício logo
19 princípio, antes que subisse à Santa Sé. Especialmente ox desembargadores
da Relação deviam cuidar disso. Andrade e Sitra CH Chroo, du Leg. Portne =
1613-1619, p, TU,
!8 - E outra vez O repete em 1614 « à 6 de setembro de 1616, sinal de que o
estrecruzamento das duas esias tinha prosseguimento. Ide, ibid, pp. 52 vs
€ 53; pp. 66 6 66 v5, Idem, Comvalsar dz Mesa da Cons, « Ordens. (1589 à IG1GL,
pp. 221; 251 vs, e 252,
19 = Idem, livro 32, pp. 135 vs, e 136,
20 - ANT. Tombo. Hatiliações da Ordem de Cristo, letra Rm. 2, nº 4
21 - Fortunato de Almeida His, de Portuga. € pp. 102 é JOS,
= Gama Barvos.Hi. da Adm.
22 - Rabelo da Silva. Op. cit. (IV,Público
p.69;t
em Portugal, 1, p. 385,
Vip. 372.
25 = Idem, bidem, € IV. pp. 89 segs
24 - AH, Angola, ex. 6.
25 - Camilo de Castelo Branco, Pos! do Marquês de Pombal, pp. 69 e segs
26 - Garstas da AT. Tembo, vol. IV. pp. 419 sega.
27 - Carlos Malheiro Dias. His. de Col,
28 - CMS, Reg. Geral liv Lp. 195, Por. da Brasil vol. 1, p. 359.
29 - lenoramos-lhe a cenia, porém ideneificamos um homônimo « contemporâneo.
stisso-novo, que residiu no Ria de Janeiso e foi progenitor du padre Raposo,
Yigário de São Vicente, mas não pareco tratar-se da mesma pessoa,
- Carvalho Franco. Dicionári o Bandeinanto, p. 326.
- Nashingron Luís P. de Sousa.de Contribui ção para História da Capisamia de São
Paulo,em anexo à obra,
= Jost G. Salvador. Op.cr, pp. 40 e segs.
30 - Imeem ds Livros das Portaria do Reino. vol 1, pp. vs
32 - FA. Carvalho Eranco. Nobiliâio Colonial, pp. 15, 136
52 Imeemdis Livro, vol.po 163 ve, 157 vs175, 91176,
33 = Idem, ibidom, pp, 44 w5
34 - Carvalho Franco. Op, ct, p. 105.
= Dem. de Pernambuco, 1595, pp, 36, 67.
85 - Ensent. dos Livra, vol, 1, pp. 891
36 - Opit, vol Tp. 400,
3? - Caralho Branco, Op.ci
- ABLU. Peo.. x 4, catalogados (1652-1660)
38 = À supracitada justificação, note-se bem,foi reconhecida a 9 de março de 1682
pelo ouvidor-geral, Dr, André da Costa Moreira, cavaleiro professo da Ordem,o
tal assim, poctuou com a fraude. Rev. 151.S.P. vol, JK, pai
39 - Camilo Castelo Branco. Op. ci. p. 69.
SO - ANT. Tombo, Habil de Ordem
7 - Re LHGSP, vol XXXII de Cristo, letra G.. m.6, 0.º 66,
- ANT. Tombo. Hubil Ordem de Cristo, letsa E, 19.37.
“2 - ANT Tombo. Hóbil. Ordem de
43 - Anais do Primeiro Cong. de Hr. daCria, letra 1, tm75, 1.º 1
Baba, vol. 177. n.º 2138,

42
44 - Nabiliarquia Pautistama, vol 1, pp. 507 «5
Nes, Jecaitas é Inquisição, pp. 17, 46 e 48
45 BNR Jan ms 11,3,5,p. HI
46 - CMSP. Reg Gr, vol. Lp. 252
47 ANT. Tombo, Leit du Bachorés. P.30, má
48 | Pedro Taques, Nobsliarpuia, vol, 1 pp. 64 vs, 241
“A ES.Paulo, m, 57, p. 1, doc 1
49 - LHGB, lata 399, doc. 3, pp. 70 e 71
50 - ANT. Tombo. Ing. de Libua, proc. 9973.
52 = AHP, vol 1 pp. 42 85, 199 vs
52 Amei: do IV Comp, de Hit Naciomal vol, X. pp. 409 vs.
53 Cristãor-Novas Jesuítas « Inquisição, pp. 36, 138.
ANT. Tombo. Chane. da Ordem de Cristo, lv. 25, . 196 vs
34 ANT, Tombo. Habilitações, letea A, m. 42, nº 2
55 - ldem, leva Bum 38, 051
É Rev. ADE, ano 1895, nº, p 4I7
56 - ANT, Tombo, Habilitação, letra B, m. 11, 0.º 1
57 ANT, Tombo. Habilitações letra A, m. 44, nº 1
58 - Anthooy Kniver. Varia Forttma e Estranhos Fados. past,
59 - Alão de Morais. Op. ct. HI, vol 11, p. 373.
60 - Mons. J, de Sousa Azevedo Pizarro e Araújo, Memórias Hlstíricas do Rio de
Janeiro, vol. Tp. 249, nota 1: vol. 1, p. 24
61 BAN Estar de Hail ds Ordons Militares nos Princípios da suo XII, E 87. ex
62 - AnthonyKniver Op. cit. p . 76,
6 - BPM, Pro, My a 1315, 177
64 A Baião, Episódio, Dramáticas de Inquisição Porsugatsos vol. MI, p 113.
65 - Carvalho Franco, Nobiliária Culemial, p. 141
= Inventário dorLiane. Op. cit
66 - ANB. Ajuda,Liv. SLVI - 6f, 60 v, (antigo
67 Atevedo Marques. Apontamantas Históricos, vol 1, p. 22,
68 Luís Norton. À Disastia du Sãt — Alo de Morais. Op. it, «HT, vol 1, p. 375
- ANT, Tombo. Habil da Ordem de Cristo, é, vol. EL p, 375.
69 ANT. Tombo. Habil da Ordem de Cráto, letra], m. 89,nº 42; ra Mm,
nº28 € 29; letra Sum. Gatsd es,
70 ANT. Tombo. Ing. de Lisboa, proes. 4.950, 2.040 e 6.
71 Baltazar da Silva. Anais do R, de Janeiro, vol. 394.
72 Frei Gaspar da Madre de Deus, Memórias da Capitania de São Vicent, pp. 67,
142, 167, 168, eee
73 - OliveiraViana Populações Meriismais, pais
Idem, Evolução do Pavt Brasileiro, bescim
74 - Nobiliangaio: vol. 1 pp. TO, 71, Introdução
Vejo à Inoduçãque case tor ee à obra de PedTagus, Inrmação
Sobre as Minas de São Paulo

43
CAPÍTULO TERC. RO

UMA AVALIAÇÃO QUANTITATIVA DOS


CRISTÃOS-NOVOS
NAS CAPITANIAS DO SUL.

A comunidade hebréia de Portugal orçava em fins do século XV.


aproximadamente 200.000 almas, mas há quem lhe atribua maior nó-
mero. Em 1506,tendojá decorridoalguns anos desde a expulsãopor D.
Manuel e à saída voluntária de muitos, um enviado diplomático vent
ziano em Lisboa calculou que um terço era de cristãos-novos. O fato é
significativo, levando-se em conta quea população total dopaís andava
pela casa dos 1.200.000! e tendiaa baixar emconsequência de múltiplas.
causas, sobrelevando-se a da emigração. Numerosos foram para os
Países-Baixos, em vista das condições que lhes proporcionavam de culto
e de comércio, e, dali, muitos se passaram ao Brasil, ou mantinham
transações com os que nele viviam, além de se cartearem mutuamente.
Outros tantos emigraram para o Norte da África, asilando-se entre os
mouros,cujo modo devidae tolerância conheciam bem. Dezenas acha-
ram boa acolhida tanto nos Estados Papais como naGrécia, na Turquia e
na França, de onde, por sua vez, houve os que se transferiram para O
Novo Mundo, aportuguesando os nomes. À dispersão alcançaratal vulto
que, em determinadas regiões, comona Arhérica Espanhola, todoportu-
guês era considerado da estirpe hebréia e olhadocom suspeita.
É possível, agora, obter-se umaidéia aproximadadoslugares em que
se fixaram,ainda que temporariamente, e quantos somavam, graças a
documentosdoextinto Tribunal do Santo Ofício, além de outras fontes
coadjutorasê. Tomemos, pos exemplo, a segunda década do século
XVI. Recorramos primeiro ao processo de Hector Mendes Bravo (n.º
12.493), Em suas declarações à Inquisição de Lisboa, em 1617, denun.
ciou cerca de12 residentes em Veneza, mencionando-lhes os nomes, 30

4
em Hamburgo e mais de 100 em Amsterdã, todos praticantes doju-
daísmo. Um pouco depois, ouseja, em 1619,é o hebreu madeirense
Manuel Homem de Carvalho (proc. 3157) que esclarece. Preso em
Angola porordem do inquisidor Marcos Teixeira e conduzido à Bahia,
informouter estado noBrasil, em Flandres e Hamburgo, pois era merca
dor é como tal, um andarilho. Disse, então,referindo-se a Amsterdã,
acharem-se lá mais ou menos200, idos de Portugal”,adultos, sem dúvida,
uns solteiros, mas independentes, outros na qualidade de cabeças de
família. Quanto a Antuérpia, que pouco a pouco foi perdendo a hegemo-
nia que desfrutava, usurpada por Amsterdã em virtudedo seu crescente
movimento comercial, o professor 1. S. Révah encontrou umalista dos
hebreus portugueses ali residentes e convocados para a assembléia da
comunidade em 5 de janeiro de 1619. São ao todo 46 nomes, masculinos
apenas, devendo tratar-se de chefes de família e de indivíduosindepeo-
dentes. Nenhuma viúva é convocada, embora as houvesse, pois em outra
relaçãoalusiva ao ano de 1591, aparecem identificadas 20, e na de 1666
“mais de 264, É que elas não tomavam parte nessas reuniões, Na França
existiam cambém diversos grupos de judeus, sendo o de Bordéus O
maior de todos, ao que parece, e nada inferior ao de AntuérpiaS. Na
América Espanhola o centro de atraçãopor excelência foi o Peru, devido
às suas riquezas em ouro e prata e das vantagens comerciais existentes, de
modoque para lá afluiram numerosos sefarditas, com riscos de caírem
nas malhas da Inquisição, até que, em janeirode 1639, muitos pagaram
coma vida essa ousadia, condenados por seu ribunals.
Na orla atlântica, ou mais precisamente, em BuenosAires, à boca do
estuário no Rioda Prata, desde os primórdios dacolonização também.
se fixaram os cristãos-novos, tomandoparte ativa nas suas transações. Em
1622 a população andava pela casa dos 1.200 habitantes, calculando-se
que 25% era de portugueses, o que é fácil de compreender, porquanto as
duas nações ibéricas estavam sujeitas ao mesmo rei. Todavia o historia-
dor Lafuenee Machain, num estudo a que procedeusobre os pormgueses
em BuenosAires, considera ser a maioria destes da progênie israelita”.
Assim veremos como este grupo foi de magna importância nas relações
comerciais como Brasil, Angola e ilhas do médio Aclântico, mesmo após
independência de Portugal, em 1640. Nem se deve ignorar a existência
deles nos Açores, na Madeira, Canárias c Cabo Verde, bem comoem
Angola, de que são prova as repetidas denúncias ao Santo Ofício de
Lisboa e as visitações promovidas pelo referido tribunal
vezesàs possessões portuguesas. Em Cabo Verdevingouporpordiversas largo

46
tempo umasinagoga chefiada pelo rabiJacó Peregrino, a qual era fregiên-
tada por umas 20 famílias, todas sob a proteção: do contratados João
Sociro*. Angola, porser lugar de degredo e fonte supridora de escravos,
recebeu um contingente de hebreus talvez nada inferior ao da ecnia
csistá-velha, pois esta sempre foi pequena. Em 1633 constatav
eram numerosos, « deles se dizia que chegando ão país logo dei
hábitopunitivoimposto peloSantoOfícioe se passavam a confundir com
a população. Ali, porém, viviam cautelosamente guardando-se contra
possíveis delações ao tribunal da féº. O tráfico negreirocaíra nas mãos
doscongêneres, que arrendavam os contratose para lá enviavam os
feitores. Outros iam apenas à negócio, ou a exercer encargo públ
icados na terra há muitos anos, a exemplode Miguel de
Orta que, desde 1587, eaindaem1617, desempenhava papel relevante
nocomérciolocal'?, Neste mesmo ano, é governador Luís Mendes de
Vasconcelos, casado com cristã-nova, e provisor da Misericórdia um filho
seu. O rendeiro dos contratos de escravos é o burguês Antônio Fernan-
des «'Elvas, o qual tinha comoagente na possessão o cunhado Jerônimo
Roiz Solis. Aí se acha, também, o mercador Gaspar Fernandes Penso,
judeu denunciadoà Inquisição por essa época, « cuja mulhes,igualmente
judia, estava residindo em Hamburgo,na Alemanha”?. Queeles eram em
número superiora este rol, é certo, mas a sua relevância baseava-se não
na quantidade e sim na influência, como é parente, São pessoas que
ncjam O grande e o pequenocomércio, à vida administrativa as
profissões.
Nosegundo decênio do século XVII já existe em Ang
tuado comércio escravista, de modo que o núcleo de cristãos-novos é
notório. Para vigiá-los e zelar pela religião católica, o SantoOfício delega
poderes aos vigários-gerais, e, no ano de 1624, designa para atuar como
deu comissário o padre Jerônimo Vogado, da Companhia de Jesus. Este,
escrevendo aoTribunal, a 12 de dezembro, informa que, defato, reside
ali“muita gente da nação”'2 e noanode1627o visitador Piresda Veiga
constatou o mesmo,pois recebeu denúncias contra uns treze judaizan-
testa, Por esse tempo promoviam eles reuniões muito emsegreemdoPer- nas
residências de amigos's. Diversos tinham parentes na Bahia,
nambuco e no Riode Janeiro. Umareferência nosfala também de certo
Pero Fernandes,cuja mulher vivia em São Paulo de Piratining a, ao passo
que o velhaco se amancebe ra na colônia africana!
As denúncias sobre rais pessoas continuam portodo oséculo. Assim,
dando um salto aré 1658,verifica-se que acomunid ade judaica mantém-se

47
ativa, figurando agora no rol de seus membros principais o ourives
Fergandes do Porto, o mercador Gabriel Vaz Pereira, do Porro, c Luís
Felix- Cruz, narural de Olinda em Pernambuco, casado com Beatriz
Cortes, cuja família ainda reside em Angola, e que, de igual forma, é
denunciada. Luís é homem dotado de bons conhecimentos, tanto que,
após servirde secretárioaogovernadorSalvadorCorreia de Sá e Benevi-
des enquanto este se deteve ali, foi elevado a posição mais alta, €
depois, guindado ao posto de capitão do presídio de Mazangano'S. No
ano de 1675 a obra pastoral está confiada ao padre Manuel de Matos
Coutinho, cristão-novo, primo de Luís de Matos Coutinho, que foi
mercadorno Rio de Janeiro e no Espírito Santo e então perseguido,
preso e autuadopela Inquisição"”.
Os hebreus de Angola andam,portanto, em constante relaciona-
mento com os da progênie espalhados por diversas terras « nações do
Velho e do Novo Mundo, e, inclusive, com a gente do planalto de
Piratininga, em diferentes ocasiões. Basta adiantar, por ora, que O
vigário de Angola, em 1659, é um filho da vila de São Paulo, ou seja,
o padre Pedro de Lara de Morais, de eemia suspeita's, O intercâmbio
mercantil existiu, também, desde fins do século XVI.
Dispersos por quase todo o Orbe, os cristãos-novos necessariamente
voltaram o olhar para o Brasil na esperança de encontras aqui o que lhes
negavam no Reino:liberdade, segurança, condição para trabalhar e ensi-
quecer. Vieram, viram e gostaram,acabando sua presença por excederà
dos patrícios refugiados noutra qualquer parte durante O século XVIL.
Pode-se afirmar, nesse sentido, que eles descobriram o Brasil,
avaliaram-no e lhe incentivaram a colonização. Brandônio elogiou-lhe o
clima é a prodigalidade do solo. Duarte Gomes Solis o considerava mais
vantajoso que o longínquo Oriente, no qual a Coroa e 0s cristãos-velhos
se consumiam com insignificante lucro, engano esse que os da sua emia,
hebraica, já haviam observado, preferindo mudar-se para cá'?, Aqui tudoà
lhes parecia propício, animando-os cada vez mais a emigrar.
Tão benéficas eram as condições do novo país no raiar do seiscen-
tismo, que o número deles começava a impressionar. Dirk de Ruiter
notara isto quando em viagem de corso andoupor nosso litoral e esteve
presonaBahia. No regresso àHolandaescreveu que muitos doshabican-
tesentreo Amazonas e o Rio da Prata eram criptojudeus??. Mesmo o rei
tinha conhecimento do fato, porque, em 1621, julgou necessária a
criação de tribunais do Santo Ofício no Brasil, pela muita população c
qualidade da gente que vivia nestas bandas, coisa que, entretanto, não

4s
sucedeu, para gaudio dos judaizantes?!. As visitações de 1591 1618,
pelos delegados inquisitoriais, puseram à mostra os nomes-de dezenas
deles, onde residiam,as ocupações e os bens que possuíam.É provável,
também, que o governador-geral houvesse remetido à S. Majestade a
relação de todos os cristãos-novos do Brasil soli.iada à D. Luís de
Sousa??, Este, como sabemos, confiara a correspondência oficial ao
seu secretário, Belchior Roiz,cristão-novo, chegadoao tempo de D.
Francisco, ocasião em que principiara a servir. Teria, por ventura,
dado cumprimento à régia petição? Uma coisa é certa: os judeus
prosseguiram cultivando as tradições mosaicas é a prosperar. Bem
diria o ilustre León Pinelo, filho do cristão-novo Diogo Roiz de Lis-
boa, que O Brasil era o verdadeiro Paraíso dessa gente. E anos de.
pois, ou melhor, em 1632, o padre Manuel Temudo, vigário-geral da
diocese brasileira por cerca de nove anos, confirma essa opinião, re-
latando aos inquisidores que a gente de nação confessa inexistir no
mundo “melhor terra para viver e negociar”, e que, por isso, “a poroa-
rem em tanta quantidade que a maior parte dos que à habitam são ju-
deus”. Aqui, eles têm liberdade e influência, possuem bens imóveis
engenhos. S6 os cristãos-velhos não se aperceberam das vantagens
que o país oferece dizem, c, daí, porque os consideram “parvos”,
visto ficarem em Portugai?, A Bahia ocupava, então, um lugar ex-
traordinário em suas preferências, seguida por Pernambuco,até que
os holandeses ocuparam o Recife, vindo a cederposição ao Rio de
Janeiro.
Alguns anosdepois, quando D.João IV resolveu permitir acriação da
Companhia Geral do Comércio do Brasil, pelo alvará de 6 de fevereiro
de 1649, concedendo aos cristãos-novos portugueses a isenção de con-
fisco das bens pelo Santo Ofício,foram os inquisidoresà presença de S.
Majestadepara solicitarem-lhe de viva voz a revogação daquele aro, e
alegaram, entre as razõesque tinham, que,se o que pretendia era conscr-
var intacta religião católica nas conquistas, segundo rezava o próprio
texto, menos se conseguiria poresse modo,“isto serem 05 habitantesdelas
na maior parte de nação bebréia”28, E ninguém melhor do que os senhores
do egrégio tribunal sabia disso, tantos os informes que possuíam. Um
destes fora-lhes enviado da Bahia, em junho de 1642, pelo abade do
mosteiro de São Bento, Bernardode Braga, relatandoa situação dificil
em que se achavaa capitania porcausa dos holandeses,e acrescentava que
o EstadodoBrasil estava cheio de judeus, pelo que convítia designarum
deputadoda Inquisição para tomar denúncias e assim aralhar o mai?

49
É errônea, por conseguinte, a declaração de Josué Barbosa de Sá em
seusDiálbgos, escricos em Cuiabá no ano de 1769, quandoafirma que-ma
América Espanhola se instituiu o Tribunal da Iaguisição e não na Portu-
guesa, porque não havendo aqui nem judeus nem hereges nãotinha o
Brasil erros que dessa espugnação carecesse2E, Contudo,adiciona, incoe-
rentemente, que osbispos exerciam a função de comissários-gerais do
SantoOfício. Nem o autor podia ignorar as dezenas de pessoas presas no
Rio deJaneiro hárelativamente pouco tempo,já para nadadizer das que
cairam nas malhas desse tribunal nosséculos XVI é XVILNa verdade,
houve judeus em todo o Brasil, não escapando nem o planalto de
Piratininga.
Iovocariamos também, para calcular a população israelita nas capita-
nías do Brasil os livrosde registro das quantias referentesàs “Sintas” que
se cobraram desde 1606. São conhecidos três, os quais estiveram sob a
custódia do provedor-mor da Fazenda, na Bahia. Coube, segundo con-
vieram o licenciado Francisco Coresma de Abreue osfintadores,“pagar
à Capitania da Babia e as demais defpara o Sul. Espíriso Sanso Rjo de
Janeiro e São Vicente dezoito contos de séis conforme lembrança que o dito
Francisco quaresma trazia do Regmo.. laçarão as ditas capisanias debaxo dous
contas é seis comtos mil veis?
Quer dizer que à Bahia coube levantar 15.4008000 e às três do Sul
apenas 2,6008000, fato que revelacapacidade financeisados hebreus lá
ea sua superioridade numérica, com relação aos das capitanias de baixo,
anteriormente à invasão holandesa, porque depois teria mudado.
Ignora-se, porém, quanto recaiu sobre cadafamília c sobre osindivíduos
autônomosou independentes. De umaexpressão escrita no segundo
livro lê-se que oito homens fintados pagaram 1498000,sem esclarecer a
parte de cadaum,e se essa era à quantia total que deviam. Nem a relação
dos fistadosnas capitanias aparece naqueles documentos.
As três Capitanias do Sul foram envolvidas especificamente na
“finta”, porque sabiam os repartidores que residiam nelas certos cle-
mentos da etnia sefardica e quais eram as suas possibilidades financeiras,
tanto assim que determinaram à quantia com que deviam contribuir, E
anos depois, em 1625, frei Diogo do Espísito Santo, cujo ministério no
Rio de Janeiro começara há quase três décadas e conhecia bem situa-
ção, escreve à Inquisição do Reino alarmado quanto ao aumento deles
nestas capitanias, c lhe solicita providências, porque, segundo se ex-
pressa, constituem um mal que deve ser abolido??. A nosso ver,a visita-
são do inquisidor Luís Pires da Veiga, em 1628, ao Rio, capitanias de

50
São Vicente e Espírito Santo,estaria ligada à denúncia atrás, além de
outras em anos passados dirigidas ao egrégio tribunal.
“Asvisitações em 1591 1618 são excelentes fontes de informação,
porque ajudam a identificar dezenasde judeus, de cristãos-novos e de
marranosresidentes no Nordeste, em diversas capitanias, c mesmoem
Angola; mas, em se tratando do Sul, projetam pouca luz: cerca de uma
vintena de nomes, se tanto. Não obstante, as condições econômicas do
Espírito Santo e do Rio de Janeiro já se mostravam promissoras. Em
ambashavia bom número de pessoas de origem sefardita, menor, porém
segundo supomos, do que na capitania de São Vicente nesse momento.
Quando,no entanto, indústria açucareira e o comércio ganharam vulto
mais acentuado na sua congênere fluminense, em meadosdo século
XVII,esta últimateria sobrepujado a cada uma das vizinhas no montante
de hebreus, como é possível inferir especialmente dos processos do
Santo Ofício a partir daquela época, e em particular no começo doséculo
seguinte?S, Não olvidemos, porém, que,se o litorabkvicentino decaíra
materialmente, noplanalto as condições econômicas ofereciam bons
augúrios, em vista de uma variedade de recursos.
Existem no Arquivo do Tombo, em Lisboa,diversas relaçõesatinen-
tes a judeusdo Brasil, denunciados ao Santo Ofício em Portugal. Têm
clas o mérito de nos revelarem o nome de numerosos deles,local onde
residiam e a época; apenas, todavia, dos que, por algum motivo, comu-
mente prática da religiãodos ancestrais, foram acusados ao referido
tribunal. São, pois, bastante incompletas, e quanto a São Vicente guar-
dam silêncioquase total. Dir-se-ia,à luz de tais delações, que a população
da capitaniaestava isenta de gente da cepa israelita, ou que, se existia, cra
constituída de cristãos-novos sinceros e dedicados à fé católica, nada
havendo, por isso, contra a sua atuaçãoreligiosa e mododevida. Mas jáse.
demonstrou que a verdade era bem outra?
A semelhante enganonos induziria a constatação de que O Santo
Ofício raríssimas vezesagiu aqui, diretamente ou por outros meios,visto
que onúmerode autos concernentes à seus moradoresé por demais
restrito, não somando mais que uma dezena para os séculos XVI e XVII
juntos, dos quais uns quatro ou cinco por judaísmo. O Riode Janeiro,
contudo, fornece uma lista acentuadamente maiore, do Espírito Santo,
além de alguns autuados, tambémse conhecem os nomes de uma por-
ção referidos em documentos civis ou denunciados aos inquisidores. Tal
disparidade com respeito a São Paulo,a nosso ver, liga-se à sua posição
geográfica, ao espírito dos habitantes, consideradosgente audaz e temi-

51
vel, e ao seu modo de vida, recolhidosnos sítios aoredor e passando
grande parte dotempo nosertão em entradas e bandeiras. Se porém,
nosfaltam documentos inquisitoriais para avaliar a participação dos he-
breus nos fastos da capitania martim-afonsina, temos, felizmente, alguns
de procedência hispano-americana e do próprio São Paulo.
A correspondência jesuítica do Paraguai inspirada em grande parte
nosataques dos paulistas às “reduções”, deixa sobreoespíritodo leitor a
impressão de serem numerosos os sectários de Moisés nacapitania de
SãoVicente, e em particular no planalto. Mas, porisso mesmo,
aceitando-la com reservas, porque redigida sob o impacto emocional
daqueles tristes acontecimentos.
Tais investidas começam à acentuar-se no segundo decênio doséculo
XVII, quando o perigo do bandeirismo para as regiões de Castela já se
pronuncia, € é o jesuíta pe. Diego de Torres quem, a 24 desetembro de
1610, adverte à Inquisição de Lima, informando-a de que por Buenos
Aires e por São Paulo passa ao Peru “alguma gente pormguesa” suspeita
de judaísmo, a qual tanto na vila planaltina como no Paraguai recebia
ajuda. Recomenda que, para atalhar o mal, se criem dois comissariados,
um em Córdova e outro em Assunção. À idéia é bem acolhida,
criadoode Assunção e mantido o queexistia em BuenosAires, esendo 26º!
Nem as autoridades na Espanha consentiram em elevar este últimoa
tribunal autônomo e independente, devido ao ônus Bnanceiro ad
ria da sua montagem € funcionamento. Contudo a criação do que segundo
originou incompatibilidades entre odo Paraguai e o da cidade portenha,
com vantagens, quiçá,para judeus e cristãos-novos, que jamais
de subir a Potosi. A preferência pela via mediterrânea explica-sedeixasam
por
menor à vigilância por aqui, do que pelo caminho de Porto Belosere
mesmo por BuenosAires. Então, as queixas se avolumam, quer de
parte autoridades civis, quer das eclesiásticas, emespecia dojesuí-
tas, quandoas “reduções” se tornaram oalvo indefectível dal gente de
São Paulo,
Em 24 de setembro de 1627, meses antes das terríveis arremetidas
contra as aldeias do Guairá, o padre Nicolas Duran, respirando os
azedumes que caracterizariam seuscolegas paraguaios, envia uma carta
ao padre Francisco Crespo, da Companhia, dizendo-lhe entre outras
“informe queestagente no temedescomamiomes ni obedece cedulas reales que
mo acem caso de justícia de Dios nú la dedos bombres y adm tengo por ciertoy que
asta que se despueec esta villa de Sen Pablo no se pondra limite a estas
tiranias y crueldades”a
Parecem exageradas as expressões do padre inaciano, mas também é
verdade que as autoridades civis do Brasil se queixavam dos paulistas,e
não poucas vezes os administradores-eclesiáticos da Repartição do Sul.
Eles afrontavam tanto aquelas, como a estes, De fato era difícil exercer a
justiçaem São Paulo,eaexcomunhõesquase ninguém davaimportâncias
Após os ataques de 1629 as diatribes ganham corpo através das
missivas e relatórios dos padresJusto Mancilla e Simon Maceta, revolta-
dos contra o vandalismo sacrílego de quem lhes destruíraas “reduções”,
obra de abnegação e de sacrifícios. O procedimento dos paulistas, inva-
dindo igrejas, profanando objetos de culto, desacatando sacerdotes,
matando « aprisionando índios carequizados, é consideradopróprio de
judeus,de hereges « de cristãos nominais.São indivíduos que não respei-
tam dias santos nemosdosjejuns. Suasfalas indicam tratar-sece Sjudios
x comfesos3 herejes qualrarecem muchos destos que vjenem al serton”“ten es
verdad que entreelos nofaltarian berees,»judios...34, E 05 padres tinham
razão, porque os cabeças dessas bandeiras eram de linhagem sefardita ou
com eles aparentados, conforme se verá. Mas os motivos de taisatitudes
não eram apenas de ordem econômica ou sentimental, e sim política.
Então, com base nosinformes dos padres atrás referidos, e no que ele
mesmo conhecia pessoalmente, redigiu o padre Crespo um memorial ao
rei. Conta a respeito dos catveiros realizados pelos paulistas, com o
beneplácito de D. Luís de Céspedes desde que entrou comogovernador
do Paraguai, e ossacrilégios que cometeram nas “reduções”. Tacha a uns
de judeus e à outros de hereges, embora a si próprios se chamem de
cristãos. Refere que, perguntando-se-lhes porque agiam de semelhante
modo, retrucaram que aquela região pertencia à coroa de Portugal. São
Paulo é lugarperigoso,acrescenta, pois muitos deles, os“portugueses de
San Pablo”, vão às províncias de Castela, facilitam a outros quesobem a
Potosi, igualmente é verdade que os de Lima dão as mãos aos dascostas
do Brasil, havendoentre todos muita gente suspeita de judaísmo. São
Paulo é tanto pior visto que
“sa de senôrioy esta tam remotoy grauepartedel Poblado de ls malbechores
de todo el Brasil que machos delos som christiamos muetos se ham becho yndo
mitos sin conocer a la discina y Umana Vuestra Magestad mostrandose saspe-
cosos em lafee en eldichoproceder.” Pede “seponga em elo eficaz, remedio38”
Lembraremosem consonância, que muitos dos bandeirantes sabendo
que se insistia perante o rei a fim de os mandar castigar, declararam que se
tal sucedesse, cles renegariam o batismo. Note-se bem isto! O cristão

53
velhoraramente fala em renegar esse sacramento; o batismo é aconteci-
mentonatural emsua vida, Não, porém, para o cristão-novo. Paraeste,era
esporádicoe forçadotantas vezes. Obatismo lhetrazia à mente recorda-
gões riste, indelevelmenteguardadas na consciência desde D.João II e D.
Manuel. Não seria então, por isso, que muitos fossem apenas cristãos
nominais, conforme diziam os padres inacianos? Pelo menos é oque se
depreende da leitura dos documentoscitados é das declaraçõesdodeão
FranciscoJarque nosseusInsígnes Missioner
“Mamelucos del Bravi, te atrevida, belicasa y sem ley, que tiememsolo de
Christianos al Baptismo y sommas carmiceras que ls infidles
Era natural que os seguidores de Santo Ináciose irassem contra os
paulistas porlhes deseruírem a obra que vinham empreendendo com
idealismoe sacrifício. Razãobastante lhes sobrava para usarem a lingua-
gem acre com que se expressaram, Mas, de outro lado, aatitudedagente
bandeirante nãodeixa de ser estranhável levando-se em conta à natureza
religiosa das “reduções”. Acontece que ocatolicismodos antigos mora-
dores dacapitania vicentina, comose encontra nos Inventários e Testa-
mentos, tem sido exagerado,e, por conseguinte, a nós causa pouca
admiração Oquese passou duranteas “malocas”. Além do mais, tenha-se
em mente que os paulistas consideravam aquelas terras dentro do domi-
nio português. À empresa explicaria, portanto, muitos dos atostidos
comosactílegos. É preciso convir em que algumas das principais autori-
dades rioplatenses e do Peru também confirmam declarações dos padres
da Companhia em se tratando da linhagem cristã-nova dos portugueses
de São Paulo. Senão, vejamos.
Atendendoà Audiência de Charcas, que lhe pedia averiguasse as
queixas que havia contra os “porragueses de San Pablo”, Hernandárias
de Saavedra responde por carta de Santa Fé del Riode la Plata, em23 de
junho de 1631, confirmando-as”, depois de bem informado. Aliás
tendoouvido os padres, certamente
As acusações se avolumam poresse tempocontra ospaulistas. Sobem
doParaguai, de Buenos Aires e da longínqua cidade de Charcas. Os
lugares sãodíspares, mas a tecla em que batem imasó, e isto, no
conjunto, lhes dá grande importância.
O governadordo Rio da Prata, D. Franciscode Céspedes, por mais de
uma vez chamou a arenção de S. Majestade para os males queos “portu-
gueses de San Pablo” vinham causando nas províncias de Uraí, Tape e
Viaçá, Escreveu a TOde agostode 1630 e a 30 de agosto de 1631. Nesta
chega à dizer que tem por menor inconveniente o despovoar-se São
Paulof8, Escrevepela terceira vez, no ano seguinte, e repete quase que
literalmente as expressões do padre Francisco Crespo, denunciandoque
a vila de Piratininga é um ninho de cristãos-novos
“EI dicho logar de San Pablh es poblado de los malechores de todo el Brasil
muchas delos som christiamos muevos3 se fam bechopardomitos siconocera la
divina y umana ruestra magestad"59,
Tempos depois, em 1637, porcarta de 10 de agosto, o presidente da
Audiência de Charcas, D. Juan de Lizarazu, voltaa lembrar a Elipe IV que
as bandeiras constituíam grave ameaça para o Peru, além dos danos que
produzim à indiada. O recurso que sugere,também,é o de acabarde uma
vez comagenteperversa de São Paulo,àqual impura. labéu de israelita:
“9 es mas conveniente que estas (índios)se salvem que no una gavílla de
judias congregados enaquelparage, sin mas religiomyverguença quela quecave
em hombres tam perversas. "40,
É só ao fim detantas e tão amargas queixas que el-reidecide agir.
Uma cédula enviada ao governador do Rio da Prata, com a data de 16 de
setembro, é documento importante. Foi expedida em atenção às dentn-
cias feitas pelos padres Francisco Dias Taão e Antônio Ruiz, da Compa-
nhia, a $. Majestade, porintermédio do Conselho das Índias, « com base
também em informes que chegaram ao dito órgão desde o ano de 1614.
Aoexpor os motivosdas providências adotadas para liquidar os males
que a gente de São Paulo causava,afirma em determinado trecho que à
maior parte dos seus habitantes é constituída porcristãos-novos,os quais
quandoaprisionam os índios das “reduções”, repartem-nosentresie lhes.
põem nomes do Antigo Testamento,
Mas prossigamos.
Em carta da Ciudad de los Reyes, com a data de 3 de junho de 1641,
os inquisidores respondendo a S. Majestaderelativamenteà fundação de
um tribunal do Santo Ofício no Rio da Prata, porque o de Limaenfren-
tava dificuldades para atuar convenientemente nessaárea, lê-se:
“esdeadvertirqueleprovíncia delParaguay... confinaporlogueamam el
euertodeSan Pablo, donde tienen lospadres14 relueciones dotrimasde índias
eófitos com eiBrasil, donde bay muchos porcugueses,fudios sugeos al gobierno
dela Corona de Portugal“?
A redação é um tanto obscura Parece referir-se a todo o Brasil,
Entendemos que ela melhor se aplica a São Paulo, que consrituia o
motivo dapreocupação paraas autoridades do Prata, Paraguai
sua proximidade, e ser umadas vias de acesso a Potosi é Peru, por

55
Há, enfim, evidentes exageros em determinadas assertivas, mas cam-
bém é sintomáticoquea insistênciacom que se referem a cristãos-novos, a
judeuse a cristãos só no batismo,revelaalgo de verídico: o fato inegável
de existirem aacapitania numerosos hebreus. Talvez não tantos como os
seus inimigos supunham. Estes, sem dúvida, carregaram nas tincas para,
assim,mais facilmente atingisem o cfeito desejado.
Nossos dois escritores, Afonsa de EscragnoleTaunay e Paulo Prado,
admirem que o afluxo judaico em São Paulo foi notável. Pensamos,
todavia, que o segundo entendeu melhor do que o primeiro a situação
real vigente no planalto, bem comoo espíritodos moradores. Taunay
nega, acertadamente, a generalização dos inacianos, sem se aperceber
que caiu em semelhante engano, ao afismar que
“As actas dão a entender claramente que na villa piratiningana era
pequenaàproporçãodecbristãns-novos dagentedenação, havendo sm registra
especial para esta população beserogônea8,
Para este mesmo autor a população judaica na Bahia teria sido
superior à de São Paulo, conforme suposição quefez baseado em docu-
mentos paulistas, « que nós julgamos insuficientes e até mal compreen-
didos. Acrescenta ele:
"O que nsfiz supor, porém que apopulação israelitaem São Paulo haja
sido bem menor éofato de quea região vicontina, pobre, pobrissima como era
em relação a outras xomas da Brasil em que o açúcar dava a opulência, pouco
descia ser de interessante pasa gente da lei movaica e adoradora do bezerro de
Ora, seria São, Paulo, de fato, (ão pobre assim? E só a indústria
açucareira constituía incentivo econômico, ou meio de vida?
Interessava-se o judeu apenas pelo vil metal? Contudo, uma coisareco-
ahece o historiador bandeirante, ao declarar que o planalto de Piratininga
oferceia a vantagem da tranqiiilidade. Enquanto na Bahia e em Pernam-
buco eferuaram-se visizações do Santo Ofício,estas “jamaisebrangeram as
terras protegidas pela Serna de Paranapiacaba”.
Taunay cita, ainda, em abono de sua tese,a religiosidade dos paulis-
tas, evidenciada, segundo admite, na instituição de fundaçõesreligiosas,
como no caso de Manuel Preto, que erigiu igreja do Ô; de André
Fernandes, que fezconstruira de Santanade Parnaíba, etc. e nas demons.
trações de fé reveladas na hora extrema, de que 0s testamentos sériam a
provacabal, Mas tais evidências já receberam umaoutrainterpretação“,
Paulo Prado vé painel de modo bem diferente. Contesta fosse a
concorrência de sangue hebreu em São Paulo inferior à dos outros

56
elementos europeus do tipo ariano, comopretendeOliveira Viana nas
Populações Meridionais. Para o escritorpaulistaa capitania de São Vicente
oferecia aquela gente, perseguida, timorata e dócil na adversidade, um
abrigo seguro e, por isso, para aqui afluiu desde os primeiros tempos da.
colonização. E quanto ao sentimentoreligioso dos planaltinos, declara
que era relativo; pois “só ia até o limite do interesse individualista”. Neste
sentido, recorda as lutas com os mamelucos de João Ramalho, as de-
monstrações anticatólicas dos destruidores das reduções, os motinsani.
jesuítas da vila em III, a expulsão em 1640 e o longo exílio dos
inacianos. Frisa, outrossim, que a expedição de Antônio RaposoTavares
através dos sertões, até ao Pará, consumiu mais de treze anos, enfren-
tandoos componentes toda sorte de perigos, inclusive para a alma, e
nenhum deles se confessou nem recebeu os saccamentos, nem tomaram
consigo um sacerdote, procedimento estranhável, tratando-se de país
católico e em vista das circunstâncias e da época.
Em sua obra, Pasdística, externa idênticas opiniões, às acima. Dela
transcrevemos os trechos que se seguem:
“Sem querer remontar às ascendências semíticas que tonto influtram na
Península Ibérica, é indubitável que 405 elementos povoadores de São Paulo
comém ajuntar uma muito sensível mescla de sangue judaico” — E mais
adiante: “EmSão Paulo, sem indagardas origens comtrovertidasdopatriarcal
misterioso João Ramalho, o afluxo de sangue judeu é sensivel, marcando
caracteristicamente o tipo racial e a própria vida dos habitantes da capita
mia"
“Além das fontes planaltinas, Paulo Prado conheceu documentos de
procedência castelhana, por ele citados em seus escritos. Que tenha
manuseado outros alusivos à Inquisição, também o demonstra, como
sejam alguns davisitação de 159]. Tivemos a curiosidade de examinar o
carálogo dabiblioteca de Eduardo Prado, seu tio, antes de ser leiloada, e
neledeparamos com três maços dearrolamentosde processos alusivos ao
Santo Ofício, e dos quais O autor se serviu, certamente, para chegar
aquelas inferênciasts, a
O fatode serem os paulistas gente destemida, sem temoràs autorida-
“des, mas, de outro lado, sem antipatia para com os hebreus, é prova de
“que,se não eram numerosos, pelo menos eram bem relacionados, Desde
o princípio ligaram-se, sem dúvida, a clementos do maior prestígio que
tais cram os caciques, através de suas filhas, bem comoàs dos primeiros
mamelucos, Não dispunham os povoadores, exilados ou não, de cle-
mento feminil mais do que citado. À razão e as evidências o confirmam.

57
Daí porque só extemporaneamente encontramos nas atas da. Câmara
de São Paulo alguma decisão nociva aos cia linhagem israelita,
Ésignificativo que em sua população de mais oumenos cem. fogosse
encontravam cristãos-novos. De uma lista compreen
de 1571 à 1580, perfazendo noventa e um nomes de dendo período
moradores
tada por Nuro SantAnna, identificamos osseguintes: Lopo Dias,, Ceisté-
levan-
vão Dinis e Salvador de Paiva, e prováveis: João Maciel, Diogo
Vaz
Riscado e Baltazar Rodrigues, além de outros. Jerônimo Leitão
estava
casado com uma judia da família Mendes”,
A ara de 6 de julho de 1613, a propósito da finca a que estavam
sujeitos os judeus congêneres, é específica, distinguin do de maneira
clara a existência de dois tipos noseio da população; o cristão-novo e o
hebreu não convertido, Ela assim se expressa
“E loguo na mesme camara
pars bem€ 2 regueria mascvireguereo? iso
o procurador do conselho que lhe
coma fis ao sf ds
evistãos-novas be homês da nasão cbrea b.” que a todo tempo conse à verdade
orque sendo canto que als dos fintadores morra que se saiba o que be
necessário au bem dafazemda de sua maçdess,
ata refere-se apenas aos hebreus que viviam dentro limites
territoriais da vila de São Paulo, sujeitos à sua alçada. Osdosque,
exemplo, se tinham localizado em Mogi das Cruzes, recentemepor
criada, passaram paraa jutisdição desta, de queFrancisco Vaz Coelhonte éa
melhor prova.
É de notar-se ainda no mesmo texto a
houve, “alguas fintadores”, revelando que adeclaração de que havia, ou
cobrança exigira o trabalho
de diversas pessoas. Cada fintador teria a seu encargo mais do que um
contribuinte, e também é possível que um fintador tivesse sucedido a
outro, dando continuídade às artecadações. É evidente, pois, à luz de
Certo documento doCorpa Cronológico, já citado por nós, que
eferuou a primeira das fintas, a qual prosseguiu durante algunsemanos,
1606 se
e as
atas da Câmara de São Paulo confirmam, bem como informes posterio.
tes. Assim, quando alguém se candidarava is ordens religiosas, às teste
munhas declaravam, uma vez ou outra, que 0 pai ou os avós do habil
tando nãocontribuiram para a finta dos hebreus, como evidência de que
este provinha de sangue limpot?, Igualmente se passava com bacharéis,
para poderem aruar no Paço. Em caso dedúvida, recorria-se
fintas, onde estavam registrados os nomes dos respectivos ao livro das
contribuin -
testo,
Nas capitanias do Brasil, o dito livro ficava poderdo ouvidor, ou,
quando não, com à Câmara. Na ata da sessãoem de 6 de julho de 1613 9

58
procurador requereu mandassem vir à Câmara o rol da finta em execu-
ção, e na de 3 defevereiro de 1624, repete-se a exigência, tendo o atual
procuradorrequerido “mandaséviro livro dafinta dagenteda naçãoebrea
pasarão para a finta mores. nesta dita villas*,
No ano de 1624 encontram-se duas referências. A 3 de agosto, os
oficiais da Câmara quiseram saber quais os elementos da “gente da
nasão”, que havianesta terra(S.Paulo), tinham contribuído para frota
porquanto murmurava-se oa vilaque algunshaviam ficadode fora. Então,
o fintador Gaspar Gomes prestou informaçõesa respeitos? À outra é de
21 de setembro, quando o procurador requereu aos senhores camaristas
“mandassem vêr do vio dejam o voldos omês de masão queavia”, ao que eles
acederam, declarando que “no toquante ao roll dafinta que máodarião ao
ouvidor-geral o mandase dorios!
Em 1725, no processo de gênere do habilitando Pedro Vilela às
Ordens Sacras, as testemunhas declararam que os avós não padeceram
rumor de cristãos-novos, pois sabiam que não contribuíram para finca
da gente da nação hebréia.
Em julho de 1728 aindaviviam em São Paulo pessoas que conheciam
esse livro das fintas. Depondo como testemunhas no processo do bacha-
rel Pedro Taques de Almeida,filho de D. Francisco Rendon e de D.*
Maria de Araújo, disseram que avó materno,de igual nome, c bem
assim outros ascendentes pelo lado dos Taques não tiveram seus nomes
inscritosno livro das finras quepagaram os judeus. Pretendia-se comisso
isentar o habilitandoda impureza do sangue, que, defato,possuía. Uma
delas, frei Jorge Moreira da Encarnação acrescenta que aquela é a ver-
dade, pois, ele próprio vira "o livro dafinta quese fez aoscristãos-novos,
queestava na Câmara desta cidades
O desembargador « ouvidor-geral, Francisco Galvão de Affonseca,
em cujas moradas se fizcram as inquirições, confirma as declarações.
prestadas pelas testemunhas e afirma quetodos os Taques eram limpos,
conforme também vira dos livros que examinara's. Mas, segundojá
dissemos, apenas se realçou uma parte da verdade, e esta podia ser
jurada em sã consciência, mesmo pondo a mãosobre os Evangelhos.
Tudo muito bem arranjado!
Reportando-nos àsessão da Câmarade 3 deagosto de 1624, na qualo
procurador Lionel Furtado requerera se trouxesse o livro, depreende-se
que mais nenhuma finta se cobrara até há pouco. Respondem-lhe os
colegas, edis, que em 1622 efetuaram-se diligências junto a Gaspar
Gomes a fim de se apurar os nomesdos que estavam registrados, e que

59
odito intador declarara “ue somente era lembradode rodrigofernandes e tomas
freire àelhe tiraram o seu di efre vaz coelho é que semte estes tinha émemuria é
as mais se não lembrava reportando ao dito livro definta's
Autores menosavisados, bastando-se em leitura apressada do
acima, têm pretendidoque etamapenas três os judeusresidentes emtexto São
Paulo. Poucos, então. Contudo, deve-se notar que Gaspar Gomes foi
chamado a declarar alguns anos depois de concluída a última cobrança.
Disse ele, explicitamente, que os três eram os que “tinha em memória e
os mais se nãolembrava”. Está claro, portanto, que a expressão “os mais”,
signífica que existiam outros alémdostrês. Aqueles seriam,talvez,
únicos israelitas ainda não convertidos ao cristianismo, visto possuirmosos
à identidade de mais alguns, na época. E até que ponto Gaspar Gomes
merece confiança? —De linhagem scfardita, não estaria a empanar
verdade? E oouvirdor que o fiscaliza, FernãoVieira Tavares, se não eraà
cristão-novo, achava-se ligado a essa gente por vínculo matrimonial
Em confirmação à nossa assertiva, citaremosaindaas atas da vila
paulistana. Nasessão de15 defevereiro de [614 solicitou oprocurador
FranciscoJorgeficasse registradoseu protesto contra o procedimento de
Jorge Nexo Falcãoque, nodia anterior, em casa do provedor Diogo de
Quadros
“dixeemaltasvozes que avia defim resteparem afinta dos xprãas
ovos que estanlansada pelo ouvidor fr», sotil de sequeiro... e sendo tais os
podia e que ele os averia de botar « todos que lhe pareseise querfosem
xprãos velhos quer nãos”
Asexpressões de Jorge Neto Falcãoindicam que a finta dos cristãos-
novos envolvia a população toda, porque os moradores “sendotais” os
podia cobrar. Pasece que cle encontrava dificuldade emsaber quem era
cristão-velho e quem nãoera. Em todocaso, O entrelaçamento era
notável. Destafeita recaíra sobre os de São Paulo à quantia de duzentos
mil réis. Quereria 0 fintadoraliviar os hebreus, distribuindo-a também
aos demais habitantes? Nãoresta dúvida queele admitia assim poder
agir. A fama de que muitos levavam nasveiassanguecristão-novo corria,
inclusive, noplanalto. Os jesuítas doParaguai nãose nosafiguram tão
extremados comose os tem julgado,vistos à luz de fontes contemporá-
Encontramos mais umainformação preciosa quantoao livro das
fintas, mas, agora, noRegistroGeralda Câmara. Ao efetuar-se em1618 a
cobrança da quora que se atribuía a Francisco Lopes Pinto, tido como

0
csistão-novo,este apresentou provas de não o ser, e requereu fosse seu
nometirado do respectivo livro. O ouvidor, Gonçalo Correia de Sá,
ordenou, então, ao escrivão da ouvidoria, que o era, igualmente, da
Fazenda, Francisco Rodrigues Raposo, atendesse aoreclamante. Por
isso, ato contínuo, o escrivão passou um certificado, no qual dizia:
“Borrei e risquei a Francisco Lopes Pintodo roldondeestá assente a genteda
maçãoa folhas vinte e sema ma volta della... Santas aos sete dias do mez de agosto
de mil seiscentos e dezoito anmos",
Em vista das referências exaradas nasatas da Câmara, sabe-se que o
rol constava em livro especial, destinado às fintas, O que sepor ignora é o
modo de registro dos nomes: se por ordem alfabéti ca, se setores
residenci ais, se por antigui dade na capitani a, ou se por outra maneira. O
de Erancisco Lopes Pinto achava-se na folha vinte eum, no verso dela,
sem esclarecer se noinício, no meio, nofim ou em queOra, se Escrevi parte, a-se,
por conseguinte, em ambos os lados de cadafol ha. admiti rmos
que em cadapágina se registrassem apenas dez nomes,a svinte e uma
somariam 210. Se, todavia,o registo principiasse na vigésimae prosse,
“guisse na página do verso,ainda computaríamosmais de dez, represe n-
tando sempre cabeças de famílias e deindiv íduos emancip ados, Ademai s,
o col poderia não conter o daquelesisentos por mercês especiaiseemosisrae- que
provassem possuir algum título nobiliá rquico, embora de linhag
lita, ou quisessem ocultar a verdadeira eugenia, tal comono caso de
Francisco Lopes Pinto. E no Reinosu cedia o mesmo, embora 8. Majes-
tade ordenasse que nenhum home m da nação hebréia fosse excluído . Por
este motivo, em 1617, levantou-se um pleito com Nicolau Mendes de
Lapenha, a quem os deputados da nação doscristãos-no vos incluíram na
fintarecente, Alegou que seu avô recebera dos Reis Católic os, Fernando
fidalgoe
e Isabel,para si e descendentes, forode Porém os lançadorescont isençã ode quaisquer
peitas, fintas,tributos, emprést imose sisas. es-
taram,dizendo que opai dele e um irmãode ste, e outros parente s tinham
contribuído. Mas Nicolau, adepto do deus Mamonrecurso: ou do bezerrode
ouro,teimava em fechar a bolsa, « entrou com novo apresentou
a folha dos serviços que prestar a na conquis ta e defesa do Brasil. A
demanda corria ainda em 16198.
Para termos umavisão do quadro genealógico no planalto nesta
época, mesmo que imperfeito,é suficiente mencionar os nomes de uns
tantos que carregavam sangue semita nas veias, Lembraremos os nume-
rosos descendentes de Lopo Dias, de que faziam parte também os Fer-

61
nandes povoadores e os Garcia Velho; os Dinis, entroncados com os
Camacho, os Costa e os Paiva; as descendências de Estevão e Martim da
Costa ramjficadas através dos Mota, dos Colaço, dos Machado, dos
Godoi Moreira e dos Lopes de Siqueira; os filhos e netos de Diogo
Gonçalves Castelão e da judia Branca Mendes; os Vales; Pedro Vaz de
Barros e família; os descendentes de Martim Rodrigues Tenório; Ge-
raldoda Silva e família; Francisco Lopes Pinto; Manuel Godis Malafaia;
“Tomás Freire; Gaspar Gomese família; além de muitos outros de linha-
gem suspeita. Deles trataremos mais adiante. Em 1622 fixam-se na capi-
tania os Tavares, e assim pos diante. Aí se demorou por algum cempo,
desde este mesmo ano, Marcus de Moura Fogaça, casado com cristã-
nova, € à semelhança dele havia outros. À vila de São Paulo em 1591
possuia mais ou menos cento e quarenta fogos; em, 1637 a Câmara
dava-lhe “passante de seiscentos vizinhos”, e de um bando de Salvador
Correia de Sá em 5 de novembro de 1660, verifica-se que a população
branca da vila e seu termo era de mais de três mil homens*?. Quer dizer
que à ocorrência de sefarditas devia ser notável.
Infelizmente, visto não possuirmos o livro das finas, torna-se difci-
limo obter identificação detodosquantos da emiaviveram na capita-
nia de São Vicente ou nas restantes do Brasil. Temos que respigar aqui
cal
A quantos somariam, então, os cristãos-novos em São Paulo,diga-
mos, em meados do século XVIF? Quem o dirá, ainda que aproxima-
damente? Ninguém! Apenas nos avenmramos a repetir o quedeclarou
em 27 dejaneiro de 1727 o vigário Bento Curvelo Maciel, ao ser inter-
rogado sobre a qualificação de gêncre do habilitando às Ordens Sacras,
Ângelo Raposo, descendente dos Motas, considerados da linhagem:
“assim como padererão a mesma notta, m.tosfamílias dessa sobredita cidade
moradoras, as quais se achão baje purificadas"*.
O afluxo de elementos da progênie israelita ao Rio de Janeiro
efetuou-se no decurso de toda a sua história. Estiveram presences à
expulsão dos franceses e à fundação dacidadee foram dentre os primei.
ros a receber sesmarias, devotando-se ao cultivo da cana açucareira e à
respectiva industrialização. Uns logo trouxeram as famílias, outros aqui se
casaram. O comércio cresceu de ano para ano. No período de 1560 a
1580fixaram-se na capitania dez famíliastroncos, mais ou menos,e até
1600 seriam nada menos de vinte é cinco. De 1601 a 1620 computamos
dezessete novos casaisJá, então, impressionante o seu “quantum”, fato

62
esse que levou frei Diogo do Espírito Santo, em 1625, a clamar ao
inquisidor-mor viesse pôr cobro à muita dissolução que há de gente de
nação nesta capitaniaSé, As visitações à Bahia e a Pernambuco em 1591,
1618 e 1627, atiraram a muitos para as regiões do Sul. Outros mais
vieram atraídos pelas oportunidades do comércio com o Peru, que à
união das coroas ibéricas facilitava
Porvolta de 1637 a cidade de São Sebastião já é considerada a
terceira em importância no Brasil. Em 1639 acontece em Lima a conde-
nação de numerosos judeus pelo tribunal do Santo Ofício, e no ano
seguinte Portugal lberta-se do domínioespanhol, com o que se acentua
emigração para o Rio de Janeiro, beneficiada outrossim com as lutas no.
Nordeste contra os holandeses. Desse crescimento demográfico, muito
expressivo quanto ao afluxode sefarditas, dão testemunho duas cartas da
edilidade ao Soberano, tas quais solicita certas providências para a
capitania, a fim de se “reprimir os desaforos dos cristãos-novos de que
consta à maior parte desta cidade",
Não houve ano sem que novos elementosse viessem agregar aosjá
existentes. Por exemplo, na década de 1640 entraram cerca de vinte e
«és famílias, ou casais, simplesmente, « assim por diante, acé 1705,
quando o Santo Ofício lançou pasa cá a sua rede ardilosa. Com sobeja.
razão diria o bispo DD José de Barros Alarcão, ao tomar posse da diocese
recém-criada, queosda erniahebraicaeram numerosos e muiinfluentes.
ABás, já antes do iluscre epíscopo, certo Diogo Correia, ali morador
« familiar do Santo Ofício há vinte e cinco anos, escrevendo 2osinqui-
sores lisboetas, pedialhes por misericórdia que viessem acudir à capita-
nia, pois a tanto chegara o poderio dos judeus, que a mesma estava
sujeita à cair toda nas mãos deles, Esclarece-nos, por fim, queos referi-
dos constituíam clevada soma de três partes da populaçãoS*.
O tempo decorre, e anos depois, ou mais precisamente, em outubro
de 1695, ancora no porto guanabarino à expedição francesa de M.
Gennes, Um dos seus integrantes, Froger, deixou valiosas impressões do
que pôde observar. Referindo-se à população branca, registrou o
cômputo seguinte, em plesa consonância com o que dissera Diogo
Correia anteriormente: “dont plus de trois quares sont originairemene
Juifs'85. As duas proporçõesdiferem, mas,na prática, equivalem-se, pois
“ambas afirmam uma só € única realidade. Isto é, que a maior parte dos
babitantes provinha da cepa israelita.
Quanco à capitania do Espírito Santo, somos de opinião que,de todas
as três,foi a que recebeu menorcontingente de cristãos-novos. À maior

63
“percapita” teria lugar no períodode 1580 1660,e índicemais elevado,
provavelmente,nas primeiras décadas do século XVII, graças ao seu
surto açucareiro. Poucos, depois de 1660, conforme evidenciam as listas
existentes no Arquivo do Tombo, em Lisboa, e bem assim outras fontes.
Aodepor como testemunhanas inquirições efetuadas em Vitória, no
ano de 1724,sobre o meio cristão-novo, Brás Gomes de Siqueira, a
testemunha Teodoro Xavier declarou que estava residindo na capitania
há perto de sessenta anos e, portanto, desdecerca de 1664, e só conhe-
ceracomocristãos-novos em tal espaço de tempo a Manuel Rodrigues de
Leão e ao acusado. Este hátrinta anosºs, Que sentido, porém deveremos
axribuir às suas palavras? Queapenas privara com essesdois? Talvez sim,
porque, na realidade, depois quese fixara na vila, diversos outros indiví-
duos da progênie estabeleceram-se ali, Os documentos trazem à cena
elementos da família Orta por mais de uma ocasião. Em 1668, encontra-
se Dinis Bravo. Em 1674, 0 vigário Antônio de Moura. Em 1675, Luís de
Matos Coutinho e sua mulher.
Em todo caso, o número é bem inferior ao que encontramos nas duas
capitanias sulinasao seu redor.

Notas
1 - Rebelo da Silva dá-lhe 1.326.000 no fim do governo de D. Manuel; cerca de
1.180.000 em 1580, e aproximadamente 1.300.000 ou mais em 1636. História.
de Pora mor séculos XVI é XVII TV, pp. 416 e 565,
2 - Além das denúncias que 0 Santo Ofício recebia por visjantes, mescadores e
homeas do mar, à Inquisição de Coimbra, a 20 de novembro de 1613 expediu
uma circular secreta aos párocos, solicitando informações smimuciosas sobre as
pessoas da nação hebeéia que se ausentaram do Reino. Andrade e Siva Cof
Chron. pp. 66, 67.
3 - Esses dados podem ser computados com o que o prof Kejlenbenz expõe em
seu livro Sepbardine am der UnterEl
418, Révah. “Les Marranes a Anvecs”, Paris. Rer des Etudes Juice. juneico -
junho, 1963.
5 = Rev da Unio. de Coimbra, vol. XI, pp. 158 e segs.
6 - José Toribio Medina Lu Ing em l Ris de le Pleta, pp. 243 € segs.
= Hisr, del Tiób. de la Img. de Lim, vol. 1, pp. ÁS e sega,
7- R de Lafuente Machaio. Los Portugues em Buena Aire, p. 40.
8 - João Soeiro emu traficante de escervos, « junto com alguns parceiros exercia o
contrabando na costa da Guiné negociando mercadorias que lhe vinham de
Flandres,de Lisboa « Sevilha. Img. de Lisa, Caddo Promotor,nº 1, 8 645

64
9 Carta do bispo do Congo e Aggola, em Cad. do Promotor, nº 16,, A. 499 e segs
-
10 AMU, Angola, ex. 1, doc. 34
17 AH, Angola, cx 1, passire
-
É
Img, de Eisbna, Cad do Promtor, nº 8, A. 383.
12 Idem, Cad, do Promutor, nº 7,1. 82
13 JG. Salvador. Op. cit. p. 107.
24“ Img. de Linha, Cad do Promotor, n.º 33, patrém
15 - Ldem, ibidem, 0.9 24,0, 311 e segs
Mais adiante, do tratarmos especificamente daatuação do Santo Ofício em An-
Bola e da presença dos cristãos-novos notráfico dessa área com as Capitanias do
Sul é Rio da Prata, daremos informações mais detalhadas
16 - Idem, cadernon.ºdO, Bs. 1 vs. e lá vs
1. Salvador. Op. ct. pp. St, 118, 150, 176.
AHU, Angola, o 5.
noprocesso do
Certo parente sew, tempos depois,foi refecido como iudaizantearredores
Febreu Miguel de Mendonça Valadolia, morador na Penha, de São
Paulo. Ing. de Linha, proc. 9.972.
1) Duarte Gomes Solis, Albgaiór o Fator de La Compafia de La India Orienial pa
20 - Apad CR. Boxer, Salnador Coreia de Sá and she Strugale for Bratil, p. 44.
21 JG, Salvador. Op. cit, pp. 100 e 105
22 - AM, Pia. “Livro Segundo do Governo do Brasil”, JL, pp. 80 e BL
23 - Img. de Lisbua, Cad, do Promotor, nº 15, RA dS e seas
24 - B Nacional de Lidboa, cód, 656
25 Img, de Lisa, Cad, do Promotor, n.º 25, 0. 361 e segs
26 - Joseph Barbosa de Sá. Diálogos Gengráfico, Cronológico, Política e Naturais,
235 e segs
A “finas” provinha do acordofirmado com o re, do qual os hebreusfimportugue-
ses se comprometeram a dar à quantia de 1.700.000 cruzados a de lhes
obter um perdão-geral
28 ANT, Tormbo. Cad. de Promotor, n.º9, 341 segs. Segundo essefrade, sa- os
ceistãos-novos doRio de Janeiro comeciam impunemente os maisdiversos
<tlégios, diziam impropérios nas igrejas alguns viviam de maneira dissolutã.
29 As genealogias de muitos dos réuse as informações dadas por eles reportam-
se, no mais das veres, a passado aínda próximos os nomes dos avós pelos dois
coitados, os seus descendentes, as pessoas com quem mantinham celações co-
mercais e religiosas, as atividades que exerciam, etc
30 JG. Salvador. Crintãos.Novos, Jertas é Inquisição
31 - José Toríbio Medina. La Inguiriciir em e! Rio de le Plata, pp. 336 e segs
32 AM, Pta. t.1, pp. 169 e segs.
53 1G. Salvador, Op. «it. pp. 65 e sess
34 CAM Pta, t 1, pp. 247 e segs. et IL, pp. 260 e segs
35 - AM, Pra, tomoII, pp. 262 e segs; 283 e segs
Essa afiemiativa de que os paulistas não ligavam muito à autoridade dos Filipesé
parenteada nessas incursões + por outras avitudes em diversos momentos

65
36 - A, de Escragnole Taunay, Históia des Bandeirar Paulistas, vol, p. 84.
37 AM, Pla, CIT,pp. 267 é sem
58 = AM. Pia E IT, pp. 273 e segs
39 - Taunay. Op si, vol 11 pp 123 e segs.
40 - Arch, General de Iudias, 74-d-5, cÊ Taunay, Op. er, vOL IL, pp. 258 e segs.
47 + Pablo Pasceils. História de la Compariia doJus em [a Provincia del Paraguay,vol
T pp. 34 e aos
- Examinumos, a propósico, a grande maioria dos inventários € testamentos de
São Paulo e de algumas vifas próximas para verificar os nomes dados aos ind.
Beras ali anorados, tendo coastatado serem poucos os que receberam apelar
vos do Antigo Testamento, O comum são os de origem é os mais nomes.
em voxa entre 0s portugueses, e,provavelmente, assim setupi
escravos vendidos para fora da capitania. Tais nomes não teria passado com os.
passariam de exce-
ções.
42 - Toríbio Medina Op. it pp, 374 e 375,
45 = A, de Escragnole Taunay. História Sicenvsto da Villa de São Paul, tomo 1,
pp 05 e 106
44 + Taunay. Op. té. pp. MA, 17
- 16. Salvador Op. cit, pascim.
- Oinsigne mestre ignorava certamente que o visitador Pizes da Veiga andou por
aquier missão do Santo Ofício.
= Em nossa próxima obra traremos à luz uma nova interpretação sobre à econo-|
mia de São Paulo noséculo XVI,
45 - Abud AE Taunay. Op. ct, caps. KIV e XV.
dó - Paulo Prado, Paulútico, pp. 18 e 15.
- Dois desses maços, oa melhor, cadernos, encontramos no arquivo do LH.G.B.,
ão qual focam parar após o leilão, São bem suscincos.
= Travem os nomes de indivíduos do Brasil penisenciados pela Inquisição. Entre
les, diversos das capitanias do Sul.
47 - Nuto Sant'Anna, Res Mesripl, vol, HI, 1953, p. 10.
48 ACMSP, vol 1, 336,
- Respeitada a ortografia do original
49 - Os processos de habilição “Je gênere cx mocibus” dos sacerdotes mencionam
este fito, comumeare.
50 + Exemplo: 0 proc n.º 50, maço 4,8,Leitura dor Bacharés, de Pedro Taques de
Alimeida, existente ao AN. T. Tombo.
3 = ACMSP, vol Tp Bl; vol. IL, p. 236,
52 - À froxo,acima referida, deve sera que se organizou parair em auxílio da Baia.
Os hebreus de São Paolo conttibuítam à parte,assim como os da capitania
toda, registrando se os nomes em livroespecial, Defa foi por comandante Mar-
tim Correia de Sá,
58 = dba, vol. H1, p, 151. Respeicada à ortografia original, comotambém nos de-
mai tetos a Câmar
54 - ANT. Tombo. Leitura ds Bucharç, processo já referido atrás.
55 - Com referência a tal livro, queremos dizer que em vão o procuramos, em São
Paulo fora, Nem cremos que se venha a encontrar. São rarssimos róis das
fincas discriminando os hebreus portugueses, porque, porlei de Z de03 maio de

66
1768, D. José 1, sob influência do Marquês do Pombal, mandou destruir “como
se munça Dosezene exiztdo, sadas 1 rot das fêntas que ma; últimos séculos passados
foram lomgadas am christáos movos deste Rejna tevebém a cópias dos mesmos ros que
“achame exito em Lies, ou pais tlemtes.”
- Bivar Guerra. Lim Caderno de CristãosNovas de Barcas, pp. 20 « 21
56 - ACMSP. vol Up. IB
57 CACMSP, vol. 1, pp. 363 e 564
SE - Registo Coralda Ciâmara de 5. Pauls, vol .p. 273
59 - ANT Tombo, Mesa da Consc. é Ordeas, Lisro de Consalios, nº 24, M 218
vs 4219.0825, 8.311 95
60 = Reg. Geral da Ciâmura de S. Paulo, vol. 1, p. 594,
61 = Inquisição da Lisbn, Cad. do Promotor, ci
62 = Ingusição de Lézino, Cad, do Promatr,cs
63 - Estas missíva estão daradas de 22 de janeiro « 4 de maio de 1640 AHU.,
Rfan. cx. 4, não - cat
64 ANÊ, Tombo. dues. da Ing, de Lisboa
65 Redation dum Voyage Bait en 1695, 1696, 1697 £..), Paris MDEXCVI
66 - Teodoro Xavier cra natural de Roterdã, na Holanda, Contava. 85 avos ao
tempo das inquirições. Exercia o ofício de cirurgião e aqui se radicou depois
que Portugal e as Províncias tinham fmado a par.
= Ing, de Linho, proc. 17.815.

6
CAPÍTULO QUARTO

O ELEMENTO FLUTUANTE NAS


CAPITANIAS DO SUL

Nas primeiras décadas seguintes ao descobrimento do Brasil é quase


impossível a identificação dos elementos da progênie israelita que se
detiveram momentaneamente ou de modo permanente nas terras de
Santa Cruz. É a fase incipiente de nossa História, que só se vai cvidem-
jandoapós a adoção do regime das donatárias. Passamos, então, a conhe.
ceralgunsdos quese locomoveram paracá, obrigados ou de moto próprio,
inclusive para as Capitanias do Sul, também denominadas “de Baixo”. E,
se,na verdade, desde Martim Afonso de Sousa ainda se tem de lançar mão
de conjecturas, o terreno apresenta-se mais seguro graças a valiosos docu-
mentos que se vão produzindo daí por diante!,
Devemosdistinguir nessa população, quanto à mobilidade de sua
gente, elementos de duas espécies: o flutuante ou instável, é o estável,
fixo, permanente, que consideraremos em separado, apenas por questão
metodológica. O elemento flutuante é o que vem e vai, via de
regra, não possuindo residência fixa em nenhumadas três capitanias, ou
quandoa possui, exerce atividadequeo impele daqui paraacolá a fim de
realizar um objetivo ou cumprir umaobrigação transitória. Nesse nú-
mero contam-se os mercadores ambulantes, porque houve os de loja
aberta; o aventureiro em busca de riqueza fácil rápida; o bandeirante da
última hora; 0 foragido em demandade local seguro para ocultar-se às
autoridades ou à Inquisição; o feitor ou agente de algum rendeiro, de
senhor de engenho ou de consórcio, e, enfim, todos quantosà seme-
lhança do militar e do funcionário público foram enviados para cumprir
temporariamente um determinadoencargo ou missão. Sucede que o
hebreu, por seu proverbial nomadismo,enquadrava-se bem dentro da
espécie mencionada.

69
Pelas três capitanias andaram de todos esses tipos, embora muitos
nem sequer tivessem deixado marcas de sua passagem; outros
deixaram-na de leve, através do nome simplesmente registrado em
algum documento, Por exemplo,são ignoradosinúmeros dos degreda-
dos parao Brasilo local ondeviveram e o modo deexistência, emboraas
relações inquisitoriais os citem cada momento. Ao contrário, se o
indivíduo é conhecido, no geral desconhece-se a sua atuação.
1. Detenhamo-nos, a propósito,na capitania do Espírito Santo.
Em 1541 foram concedidas sesmarias aí, dentre outros, a Francisco
Sernige, pertencente a uma família de negociantes florentinos, radicada
em Portugal e aliada, ao que parece, por laços de casamento,a cristãos-
novos. Talvez pretendesse erguer engenho de açúcar, indústria que
muito interessava na época. Mas isto não passa de comjectura?. De igual
modo, Garciad'Avila,océlebre fundadorda Casa daTorre,casadocoma
judia Mécia Rodrigues, foi aquinhoado pelo donatário a 21 deabril de
1564 com terras nessa capitania, as quais, certamente, jamais explorou,
porquanto os encargos na Bahia e mais vantajosos interessesretiveram-
no por lá?.
Pouco tempo depois, alguns hebreus sefarditas construíram enge-
shos, que administravam pessoalmente ou porintermédio defeitores da
sua etnia, salientando-se dentre aqueles, Diogo Rodrigues d'Évora, em
1570, e mais tardePero de Baeça e Marcos Fernandes Monsanto. Dos
últimos lembraríamos Jorge Esteves, Simão Luís, Antônio Frois, Luís
Fernandes, Tomás Ruiz e outros. Nacondiçãode degredado,aí viveu até
cerca de 1573 Fruruoso da Costa, a quem, nesse mesmo ano, achando-se
já ma capitania de São Vicente, Jerônimo Leitão nomeou escrivão da
Cámara de São Paulot. Em 1618, vamos encontrar na vila de Vitócia o
judeu de Antuérpia, Manuel Martins Viegas primo de Diogo Dias San-
ches, morador na capitania, e que era um dos comprometidos nosdesca-
minhos dopau-brasil.
Além doViegas e do conhecido Rodrigo Pedro, ambosrelacionados
com elementos dos Países-Baixos, outros teriam vindo de lá à capitania.
Diversos tinham parentes aqui ou amigos. Já mencionamos os Teixeira e
os Dorta. Durante algum tempo o influente mercador Antônio Dorta
teve o congênere Manuel Rodrigues Capão 4 desempenhar-lhe o cargo
de escrivão particular, no qual, porém,se houve de maneira condenável,
pois acabou dando um desfalque à terceiros e fugindo para Recifes.
Deigual modo, teria aportado na vila,de quando em quando,com os
artigos do seu negócio, o mercador Paulo Roiz, casado com umasenhora

70
dafamília Kamires,doRio, onde também vivia,sendoele proprietário de
um navio em que viajavapornosso litoral até ao Nordeste e Rio da Prata.
Isto mesmo dar-se-fa com Antônio de Azevedo de Sá e Davi Ventura,
“genro de Manuel João Branco, residentes na capitania de São Vicente,
pois tinham navios no tráfico, No Espírito Santoocultaram-se poralgum
tempo às sanhas da Inquisição, Luis de Matos Coutinho e a consorte. Aí
viveram, também,Gaspar Vaz Guedes « Brás Cardoso, de ernia duvi-
dosa, os quais, com as respectivas família, vieram para São Paulo,e
ausiliacam na fundação da vila de Mogi das Cruzes. Por onde se vê que a
passagem de hebreus porlá seria expressiva.
2. O elemento flutuante penetrou na história do Rio de Janeiro já
nos primórdios do descobrimento. Entre os primeiros relacionados com
à Guanabara estão os navegantes Gaspar de Lemos”e Nuno Manuel, e
“mais tarde João Dias de Solis, aos quais atribuimos linhagem semita,
sem nos olvidarmos da possibilidade de embarcações do consórcio de
Fernão de Noronha terem estado nestas paragens.
Foi, porém,a partir daluta contra os franceses que os enstãos-novos
passaram a identificar-se com a capitania, uos permanentemente,
outros transitoriamente. O elemento ambulante deu início desde essa
época a um fluxo que jamais se intessompeu, nem mesmo com as
perseguições, encarceramentos e confiscos movidos pelo Santo Ofício
no começo do século XVII.
Figuram,primeiro,no rol dos que principiaram tal corrente, aqueles
que acompanharam Estácio de Sá e o governador-geral,seu tio, à recon-
quista do território, regressando,ato seguido,às suas respectivas capita-
nías, Asssim, remos ciência de que na primeira armadaveio o cirurgião
Ambrósio Fernandes, o qual, não medindo sacrifícios, se expós em
combate a fim de socorrer os companheiros feridos, pagando ele pró-
prio com avida. O inaciano Simão de Vasconcelos atribuiu-lhe a mortea
castigo do céu, porque o supradito doutor Ambrósio não passava de
homem sacrilego ou coisa parecida no conceito do padre, pois confiava
mais em suas habilidades curadoras do que na intervenção divinas.
Na mesma ocasião veio O físico-mor, bacharel Mestre Afonso,
médico-assistente de Mem de Sá. Chegaraa São Salvador, no Brasil, a 28
de dezembro de 1557. Conformeera de seu dever, acompanhou o
governador em 1560 na expedição de socorro ao sobrinho. Duas fontes
comprovam-lhe à estaca na Guanabara. Uma delas é a justificação judi-
cial dos serviços de Mem deSá em 1570, quando esculápio prestou
declarações, e, referindo-se «os acontecimentos da Guanabara, disse:

71
“Sabe ele testemunha por yr com o dito govermadorae me tornarcom elle a
esta cidade”?
A outra fonte sãoos autos da ação cível movida pelo próprio bacharel
contrao espólio do mesmo governador-geral, em 1573, é nos quais se lê
que
“fora com governador em todas as guerras que lefizera aos Ulbeos. Pervaça
é Rea deJaneiro quando se tomos o São Vicente"
O governador nada lhe pagara e ele exigia, agora, por todos os anos
em queoservira, o total de 2608000. Todavia, uma comissão de enten-
didos arbirrou o débitoem 418000,por julgar aquele demasiadamente
alto
Veio, também, em 1560, como escrivão da armada de Mem de Sá
porprovisão deste, datada de 3 de janeiro,o cristão-novo AntônioSer-
rão, concunhado de mestre Afonso Mendes. Ambos eram judaizantes,
ou se preferirmos, marranos,e, como taís, denunciados na visitação de
Heitor Furtado de Mendonça". E,igualmente, o acompanhou na em-
presacerto AntônioRibeiro que,a seguir,recebeu pelos serviços presta-
dos no RiodeJaneiro o encargo decapitão de Ilhéus, e depois,porato de
S. Majestade, em outubro de 1562, 0 ofício de provedor da Fazenda
Real, na Bahia, desempenhado antes pelo sogro, Rodrigode Argolo"?
Parece tratar-se de indivíduoda nação hebréia
Outros houve, certamente,e inclusive da capitania martim-afonsina
que levaram o seu apoioaosconquistadores portugueses. Lá se encontra-
ram, por exemplo, Cristóvão Dinis e Manuel Veloso de Espinha, além
daqueles que em 1575 foram em auxílio do governador Antônio de
Salema, cumprindolembrar neste sentidoo nomede Jerônimo Leitão,
que era casado com uma judia. Em todos os casos as suas respectivas
famílias participaram indiretamente da luta.
Não muito depois,residiram no Rio por algum tempo, Antônio
Raposoe a mulher, Inês da Mora, cristâ-nova, dos Mota vicentinos.
Foram os progenitores do padre Antônio,vigário nesta capitania. Tam-
bém viveram lá mais ou menos na mesma época, diversos filhos de
Tristão Mendes e o genro,Fernão Roiz
Acrescentem-se mais os quese refugiaram devido a perseguições no
Reino € ação inquisitorial nas capitanias de cima em 1591 e 1618.
Documentos alusivosà primeira Visitaçãorevelam bem tal fato e enume-
ram nomes, como o de Lucas Fernandes que se evadiu para o Sul e o de
certo Duarte Nunes que se radicou no Rio de Janeiro com a família. Por
iguais razões veio ocultar-se aqui, cerca de 1628, o jovem João Roiz
Estela, a fim de que não o apanhassem em Lisboa. No anode 1642
encontraremos servindo de soldado na praça o miliciano Francisco
Mendes, a quem o pai obrigara a isso para livrá-loda Inquisição. E aínda
depois, aoredor de 1660,Josef Gomes da Silva também foge doReino
por causa doSanto Ofício.
Em todo o séculoXVII estadiaram ou fixaram-se na capitania flumi-
nense muitos cristãos-novos e judeus engajados no serviço militar.
Aquele Francisco Mendes não foi exceção. Defrontamo-nos com diver-
sos, desde simples milicianosa oficiais de altas patentes, sem ignorar os
que se casaram com mulheres da referida ecnia. São exemplo, dearre os
portadoresde sangue sefardita, os capitães Diogo Rodriguesde Faria e
Lucas da Silva Tavares.
O maior contingente, como é compreensível, pertence ao grupodos
mercadores vindos de fora com objetos manufaturadose produtos de
as espécies para negociarem na praça local, quando nãotambém em
Santos, Vicente ou BuenosAires. Após concluírem as transações,
vendendo e comprando,regressam àsterras de ondesaíram ou velejama
outrosportos,
São demonstrações dessa atividadeas exercidas por traficantes do
naipe de Diogo Lopes de Cádis, que largandoda Península, embicou para
as costas doBrasil e veio descendo até aoRiode Janeiro. Aqui tevedea
infelicidade de ser preso por ordem do Santo Ofício, em outubro
1594, quando se achava de partida para Buenos Aires. Melhor sorte
destrurou o seupartrício Alonso Ramirez. Este, no segundo semestre de
1596 já estava de volta para a Espanhaapós venderno altiplano andino os
artigos que levara. Agora conduzia à pátria outras espécies, as quiais lhe
permitiam dobrar os lucros. Foi,igualmente, a experiência que contou
o português Francisco Soares. Escrevendoaoirmão, enquanto se detinha
noRiode Janeiro, revelou-lhe que 0 tráfico por estas bandas com as
regiões plátinas era bastante compensador”*.
Outros documentos nosfalam da presença no Rio dediversos merca-
dores em 1612, tais como Matias daVitória e Martim da Costa Tertam.
Este veio tomar posse dos bens deixadospelo irmão Baltazar dadeCosta,
assassinado há pouco. Um terceiro, Baltazar Roiz Mendes,a 19 maio
concedeu procuração ao padre Manucl Tavares c ao lic. Rui Vaz,
cristão-novo, para lhe receberem umadívida de Álvaro Barreto, por
quanto necessitava prosseguir viagem!3, Sabemos também das atividades
de João da Silva, de FranciscoLopes Franco, Duarte Ramires e de
Rodrigo Fernandes, todosde linhagem israelita, como deveriam ser os

73
referidos anteriormente. Por volta de 1616
marranos Antônio Dias € Antônio Pereira, encont ravam-se na cidade os
do Porto, primos de Diogo
Teixeira, evidenciando as relações comerciais entre as duas praças!ê,
Conhecemos mais, a Manuel Homem de Carvalho, preso em Angola, em
1620, enquanto permanecia sua mulher no Riode Janeiro, para ondese
haviam mudado há pouco.
Um documento da biblioteca da Ajuda refere queJoão Nunes
solicitara licença para ir ao Rio deJaneiro. Tratava-se evidentemente de
cristão-novo,pois a lei que proibia a saída do Reinoaoshebreus conti-
nuava em vigor, sendo punidos com severidade os transgressores, caso
apanhados nas terras da conquista ou voltassem ao Reino, e se tivesse m
bens, ser-lhes-iam confiscados. Estando para esgotar-se O prazo da con-
cessão,o paidointeressado, Sebastião Nunes da Vila, pleiteou a renova-
ção por mais um ano?”
afluxo ao Rio de Janeiro de mercadores redobrou na década de
1630 a 1640, quando a capitania viu sua indústria açucareira dar um salto
as produção,em decorrência de condições desfavoráveis na Bahia e no
Nordeste. O comércio na praça local acompanha O surto, estreitando
mais o seu intercâmbio com oReino, Angola c Rioda Prata. À crise geral
que se seguiu, não os esmoreceu. Ao invés disto,assinala-se aqui, ainda
gue temporariamente, a presença de Miguel Gomes Bravo,do Porto; de
um irmão de Mateus Lopes,também do Douro; de certo Afonso Lopes;os
dois irmãos Sebastião e Jorge Nunes Neto, narurais da Torre de Mon-
corvo, de onde esa, igualmente, Miguel Cardoso, então residen te na
cidade guanabarina. Além de outros.
Alguas desses indivíduos revelam uma disposiçãofísica impressio-
nante, locomovendo-se a distâncias imensas por mar ou porterra, não
sendo homens dedicadosà vida marítima, e até sem ofício. É o exemplo
do verdadeiro andarilho, mais interessado em correr o mundodo que
em outra coisa. Assim foi o marcano Afonso Munhoz de Lima, meio
cristão-novo,nascido em Lisboa porvolta de 1620, Esse tipocurioso
experimentoude tudo, Na mocidadeingressou na Ordemde São Fran-
cisco, em cujo seio adquiriu bons conhecimentos, mas abandonou-
depois. Esteve em Castelae viajou por Portugal. Em 164] encontrava-se
em Goa, trabalhando no comércio com um tio,e dali passou sucessi
mente 2 Moçambique, a Angola, ao Espírito Santo no Brasi, e ao Rio va-
Janeiro (1646), onde ficou alguns meses, e então regressou a Lisboade
iveu aqui até 1656, mas seis meses após o casamento foi deportado para
S. Luís do Maranhão,porcrime de morte. Três anosdepois é preso por
bigamia e devolvido ao Reino fim dese haver com o Santo Ofíciopor
esta altaimperdoável. Como diversos parentes dolado maernotinham
caído recentemente nasgarras da Inquisição, porjudaísmo,acabou sendo
envolvido também. Em outubro de 1660 saiu condenadoa degredo para
Elvas,no Algarve,visto achar-se malde saúde?8, À ele nosreportaremos
de outrafeita
Já, então, o governo português permitia a embarcações de países
amigos irem ao Brasi), inclusive, naturalmente, às Capitanias de Baixo,
, contando-se,sobretudo, as da Inglaterra, e,a seguir,as
da França e Holanda, nações para as quais haviam emigrado numerosos
sefarditas. São estes, agora, que, juntamente com os seus patrícios de
Portugal, reativam o comércio do Brasil com o Velho Mundo.
Em 1656, o flamengo João Batista Jacobus, velho morador em Lis-
boa, pois já ali residia há cerca de trinta anos, foi dos que solicitaram
licença. Queria enviar com a frota o sobrinho Simão Jacobus, a fim de
receber o quelhe deviam os Rodrigues da Veiga, cristãos-novos, e Diogo
Correia, os quais já há alguns anosse dedicavam ao comércio no Rio de
Janeiro. Se João Batista não era cristão-novo, estava ligado a cristãos-
novos, visto que o sobrinho levava também por incumbência cobrar os
haveres que ficaram a seus enteados,filhos de Duarte de Sousa, da
família Dique, uma das perseguidas pela Inquisição?
O fluxotornou a ativar-se nas décadasfinais do século, à medida que
cessavam as crises e se exploravam as jazidas auriferas nas Minas Gerais
O comércio lhes ensejava novas oportunidades e nele encontramosdeaqui,
cerca de 1681, Diogo de Almeida, solteiro, Antônio Mendes Al-
meida, viúvo; em 1683, João Rodrigues Ferreira, também solteiro;
Diogo Roiz, de alcunha 0 “Dioguinho hebreu”, cerca de 16942º, Por
volta de 1696 o castelhano D.João Francisco Salinas?!. Não têm encar-
“os de família, e, por isso, podem locomover-se para onde quiserem.
Oucros mercadores houve que acabaramporse fixar na capitania, cra-
zendo mulher filhos, ou contraíndo matrimônio na mesma. Vê-los-
emosingressandodepois naindústria açucareira, na condiçãode parridis-
tas, de arrendarários e até como senhores de engenho.
3. Ao grupo dos flutuantes na capitania São Vicente nãoserá demais
juntar os nomesde alguns velhos moradores. Dentre eles,o do mercador
Antônio de Castro, cristão-novo, e o de sua mulher Maria da Costa, que
residiram navila fundada por Martim Afonso. Dal, o casaltransferiu-se
para a Bahia, tendo Antônio falecido antes de 159122. Mas, bem antes

75
dos mesmos, haviam passado daqui para o Rio de Janeio, no iníciodo
povoamento, Manuel Veloso de Espinha, Crispim da Cunha Tenceiro,
Francisco Mendese outros, deixandolá descendência, à exceção do
último. Este erafilho dos judeusTristão Mendes e Vilante Dias,dos mais
antigos em São Vicente. Francisco morou primeiro na Bahia, de
onde removeu-se para São Vicente, precedido pelos demais familiares,
todos foragidos de Pormgal por causa da Inquisição,cerca de 1549. À
seguir deslocou-se para o Riode Janeiro com os primeiros conquistado-
res, permanecendodurante anosnesta, e ali, por algum tempo, se lhe
agregaram duas irmãs e o cunhado, Fernão Roiz, mestre de açúcares.
Franciscoainda permanecia no Rio em 1593, Porém, em 1598,acha-lo-
emos em São Vicente como juiz ordinário, não obstante andar pelos
sessenta e sete anosde idade,
Nacapitania vicentista há que distinguira situação do planalto e a da
região litorânea, À serra de Paranapiacaba, cobertaporespessa vegctação
recortada apenas por alguns caminhosrústicos e perigosos, constituía
sério desafio a quem se aventurasse a subi-a para atingir asvilas de cima.
Porisso, muitos indivíduos que estacionaram nabaixada, provavelmente
jamais vieram a São Paulo ou qualquer de suas irmãs, e dos que ousaram
fazê-lo, nemtodos deixaram marcas de sua estada, quer forasteiros quer
Dos estranhos que legaram o nome à posteridade consta um certo
Manuel Antunes,forasteiro estante navila de São Paulo, o qual ficara a
dever sete patacas a Ambrósio Fernandes, de resto de contas. Isto por
volta de 1642, Manuelresidia no Espírito Santo?s.
A palavra “estante”, usada para desigmar indivíduo que estava de
passagem pelo lugar ouque nele se demorava poucosdias, aparece em
diversos documentos, às vezes na qualidade de simples testemunha em
um testamento,sem lhe precisar a procedência e a ocupação. De modo
que, “estante” em São Paulo podia ser morador em Santos, São Vicente,
Cananéia ou em qualquer outra parte
Muitos“forasteiros estantes” subiram serraacimaàs vilas planaltinas.
Visto trarar-se de gente “sem eira nem beira”,e de passado incógnito,era
mister tomar precauções. As atas da Câmara, de quando em quando,
revelam o cuidado da edilidade em face da situação. Não somente
indivíduos foragidos à justiça secular vinham ocultar-se nestas bandas,
mas igualmente osque procuravam escapar à Inquisição na Penínsulae
noBrasil. Quandose eferuou Visitação de 1618 à Bahia, até oscristãos
psose os judeus do Riode Janeiro se alarmaram,evadindo-se com

76
muitos do Nordeste para as províncias do Prata, pelavia mediterrâneade
São Paulo. E além desses, acrescentemosos mercadores ambulantes e os
chamados“peruleiros”, comumente de nação hebréia, que por aqui
passavam rumo à região de Potosi
escrivão, porém, ao designar o referido Manuel Antunescomo
“forasteiro estante”, estabeleceu uma curiosa distinção válida para a
época. Havia, com efeito, outro tipo de forasteiro, qual fosse o não.
estante. Este é o que se demora nolocal por tempo mais ou menoslongo,
ouali vive. Que é, então, o forasteiro? O sentido original da palavra
certamente nos esclarecerá, porqueo“forasteiro” é o indivíduo que vem
de fora, é o estranho ou estrangeiro que nãotem vínculos familiares ou
bensimóveis nolugar *º Pode,no caso, tratar-se de trabalhadores livres,
vivendo o dia-a-dia de sua profissão, manual ou intelectual. O pedreiro, o
carpinteiro, o mestre-escola,oescrivão, o advogado e o médicoestariam
nesse rol. Dessefato decorreria oserem excluídos social e politicamente
da categoria de “homens bons”, cujo “status” se apoiava na propriedade
imóvel,e porisso mesmo formavam a elite da terra, à única corm direito a
assento nas câmaras municipais. Todavia, em São Paulo e noutras vilas
brasileiras não se levavam muitoa sério as exigências das Ordenações
régias
Em SãoPaulo o númerode forasteiros se acentuou desde quandoD.
Francisco de Sousa imprimiu novo caráter às explorações mineralógicas
noplanalto. Veio para cá gente de toda à espécie. As atas registram
mesmoo nome da cigana Francisca Rodrigues, a quem a Câmaca em
1603 autorizou a instalar uma hospedaria para melhor acomodar os
adventícios visto que a de Marcos Lopesjá não bastava?8. O forasteiro
torna-se figura comumno cenário paulistano, abrangendo, inclusive,
homensde alto gabarito.
Seis médicos,pelo menos, trouxeram a sua contribuição profissional
e cultural à São Paulo noséculo XVII: os doutores Diogo Dinis, José
Serrão, Antônio Vieira Bocarro, João de Mongelos Garcês « na penúl-
timadécada ofrancês Domingos de Afonseca.
A Saixada litorânea corria o perigo de ataques dos holandeses,
informados quanto a notícias sobre as minas de São Paulo, o que levoua
criar diversas milícias ou companhias para descer ao encalço deles, caso
necessário, é para boa ordem no planalto?”. Umadessas companhias
formou-se exatamente comforasteiros noinício do sciscencismo. Em
1618 o comandode ssa companhia de forasteiros foi entregue a Gaspar
Manuel Salvago, sujeito de etnia suspeita para nós.

77
A presença de forasteiros e mercadores revela que
Paranapiacabasó apenas relativamente isolava o planalto daa serra de
baixada.
Homens comoo padre Fernão Cardim, que transpós em 1585, ou
comoo fidalgo D. Luís de Céspedes Xéria, em a1628, acharam-na cruel,
"ais, talvez, por condicionamento pessoal. Pelos caminho s abrutos.
retorcidos e pedregososque à cortavam, índios desciam e subiam crans.
portando cargas. Às vezes ia algum morador aolitoral, ou algum edil,ou
vinham administradores-eclestásticos, ou ainda umaque outra autoridade
civil. Gente de São Paulo locomovia-se ao Rio de Janeiro, à Bahia, ao
Peru, € à Portugal mais raramente. Havia também relações comerciais
quase frequentes com as capitanias vizinhas e mais esporádi
Nordeste. Quem se aventurava a caminhar dezenas de cas com as do
léguas
florestas, comofaziam os bandeirantes, não temeria as durezas da pelas
serra
do mar. Oisolamento da vila planaltina era, pois, bem menor do que se
supõe.
Quase 20findar o século XVI e no começo do seguinte, deu-se um.
surto populacional nestas capitanias, conforme salientamos, emvirrude
dosplanos do governador D. Francisco de Sousa. Vieram para cá, na
oportunidade, ocapitão Diogo Gonçalves Laço, a esposa e os filhos, o
sirurgião José Serrão, além de diversos outrosque se casaram aqui pos-
teriormente com mulheres da linhagem sefardita.
Diogo Gonçalves Laçoera português. Veio do Reino para a Bahia
com 07.º governador,trazendoa família consigo?º. Em 1597 D. Eran-
cisco nomeou-o administrador das minas e capitão davila de São Paulo
quando, conseqúentemente,se fez acompanhar doselementos necessá-
rios aos serviços em mira. Demorou-se poralgunsmeses nestas bandas e
voltou a Salvador, de onde regressou em outubrode 1598, mas, agora,
com opróprio governador,interessadoem seguir bem de perto o desco.
brimento das almejadas riquezas minerais. Ainda a 25 de novembro de
1601 encontramosDiogo no planalto, em plena atividade, pois nesse dia
estevepresente à escolha de um capitãopara infantaria, encargo que os
eleitores fizeramrecair sobre Garcia Rodrigues. Temos por certo que o
seu falecimentoocorreu entre aquela dara € fins de fevereiro do ano
seguinte, deixandogeração? É esclarecedor, a propósito, o alvará de 6 de
junhode 1644,pelo qual D. João IV nomeou a Bernardo de Aguirre para
à capitania do fore de São Filipe, donatária da Bahia. Menciona O
documentoque o referido Diogo,avô do beneficiado,serviu de capitão
durante seis anos nas minas de São Vicente, até que veio à morrer
enquantoseprocedia ao descobrimentodas mesmas?

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O ofício deJosé Serrão leva-nos a considerá-lo cristão-novo, além do
cognome. Diversos portadores desse apelido apareceram na época exer.
cendo atividades curativas, como boticários e médicos, tão comunsà
gente da nação hebréia. É provável, inclusive, que estivesse ligado à
família de Antônio Serrão, concunhado de mestre Afonso Mendese
irmão deJoão Vaz Serrão,esculápio também, natural da Babia, o qual, na
década de 1590, ao tempo da Visitação na capital, viajara para Tucumã,
deixando na capitania brasileira numerosa parentela.
José demorou-se pouco em São Paulo. Contraiu matrimônio na vila
com Isabel Pais,filha de Fernão Dias Pais e de Lucrécia Leme,retirando-
se depois para o Rio de Janeiro. Em 1605, quando se efetuava o inventá-
rio do sogro,José e a consorte jáali estavam residindo há mais decincoo
anos, contrariamente ao que Pedro Taques parece afirmar. Notificad
oficialmente a vir assistir às partilhas em São Paulo, negou-se à atender.
Como, no seu modo de pensar,tinha sido desfavorecido no date ofer-
tado à noiva, nada mais queria. Por conseguinte, o escrivãoteque o
procurara viu-se obrigado a remeter uma declaraçã o à competen auto-
ridadepaulistana, dizendo:
“fai àspousadas do licenciado Jasé Serrão aonde 0 achei e a sua mulher
Izabel Pais”, O qual respondeu: “pasto que a ele lhe não deram casamento
algum quee nem porisso queria berdar ele nem sua mulher cousa algama e que
desistiam de todo direito da tal berança . porquejá que casara semnada, queo
não queria agora (..jº%
Nasatas da Câmara de São Paulo ficaram perpetuados os nomesVaz. de
três homensda nação: Tomás Freire, Rodrigo Fernandes « Francisco
Coelho, a quem Gaspar Gomescobrara a finta exigida dos hebreus
pormgueses'?, Pelas informações,tais pessoas residiram no planalto bem
antesde 1622, conforme veremos. Infelizmente ignoramos tudo, fora
disso, a respeito do primeiro, pois não deixouqualquer ato significativo
que lhe marcasse a passagem pela capitania. O mesmo, porém, não
sucedeu com os dois congêneres e contemporâneosrestantes. De Fran-
cisco Vaz Coelhofalaremosaotratar dos quese radicaram aqui, é quanto
a Rodrigo Fernandes podemosadiantar que exerceu a mercancia no Rio e
em São Paulo. Faleceu em bandeira, nosertão.
Em 1620 reativou-se, como sabemos, a questão de litígiosentre o
conde de Monsanto e acondessa de Vimieiro para demarcação e posse de
determinadafaixa deterras confinand o com as suas respectiva s capita-
nías.Para tanto, D.* Mariana de Sousa da Guerra nomeou 2 Joãode

79
Monra Fogaça seu capitão-mor e ouvidor e procurador bastante para lhe
defender osdireitos, o qual, chegando a São Vicente, tomou posse a 30
de novembro de 1622dos cargos, apesar da oposição do outro capitão
mor, Manoel Rodrigues de Morais, e de Fernão Vieira Tavares, mas já
antes, a 26 do mesmo mês, substabelecera na pessoa do mano Mateus
de Moura Fogaça a procuração da condessa para tratar da pendência.
Fixou-se este em Santos, estando casadocom Ursula da Costa Caldeira,
cristã-nova, natural do RiodeJaneiro, filha doconhecido hebreu Manuel
Caldeira, sertanista e mercador, ouconvolou omatrimônio logo depois.
Transferindo-se para juntodos sogros, sucedeu-o então, na defesa dos
direitos da casa de Vimieiro, o advogado Domingos deFreitas?
Outro que andou por aqui, cerca de 1639, foi o capitão João Pais
Florião. Veio coma finalidade, segundose crê, de auxiliar nO recruta-
mento de gente e na obtenção de recursos para a luta contra os holande-
ses no Nordeste. Resídia na Bahia, onde estava casado desde 1Á de julho
de 1625 com D4Brites de Faria, senhora rica, proprietária de um en-
genho,a qual tinha ficado viúva de Manuel Rodrigues Sanches, judeu,
gue lhe deixou muitos bens e nenhum herdeiro. Elaera filhade Bernardo
Pimentel de Almeida, neta materna de Sebastião de Faria e de sua
mulher Brites Antunes, cristã-novacuja família fora das mais visadas pela
Visitação de 1591. É provável que algum descendente tenha vindopara
cá, porquanto achamos entre os moradorescerta Ângela Florião,falecida
em Mogi das Cruzes em 1732 é casada com Antonio Pimenta de Abreu
em 1672 ou ancestt
A família do dramaturgo Antônio José da Silva, o “judeu”, também
deixou marcas na capitania de São Vicente. Em 1656 o capitão Luís
Fernandes Crato, cristão-novointeiro, cunhado de André Mendesda
Silva e, portanto, tio-avô daquele, prestouserviços à Câmara da vila de
São Pauloe foi provido noofício de tabelião. Dez anos depois outro
cunhado, André de Barros de Miranda, exerceu igualmente ambos os
cargos durante bom espaço de tempo antesde fixar-se com a família no
Rio de Janeiro. Porém, mais tarde, duas filhas vieram residir com os
maridos em Santos: Joana de Barros, casada comocapitão Inácio Fran-
cisco de Araújo, e Ana de Barros, casada com Pedro Homem da Costa
Ainda outro membroda família, Brites (ou Beatriz) Aires, ceistâ-nova
inteira, irmã da mulher de André de Barros, acima, e tia de Joanae de
Ana,foi casada com Luís Rodrigues de Andrade,cristão-velho,e também
passaram a morar em São Paulo, ondeela, por fim, encerrou a vida
terrenais,

80
Lembramos, porúltimo, a presença temporária nas capitanias de São
Vicente e do Espírito Santo, do padre Leonardo Nunes, € a seguir,
também na sua vizinha do Rio de Janeiro,a do padre Inácio de Tolosa,
ambosceistãos-novos,e a deJosé de Anchieta, cristão-novo, em parte. A
eles acrescentaremosos influentes Correias de Sá,alvos de informações
mais detalhadas noutro capítulo deste trabalho.

Notas

Tais como as atas das câmaras, os tegiseros notariaise alfandegário s, a cor


pondência oficial, os livros das visitações dos delegados do Santo Ofício, dos.
bispos é dos prelados administr adores, os testamento s, os inventário s, erc
2 - His, da Col. Port, vol HI, p. 200.
= Podas, Lusitano, €J. p. 381
3 - Bibl daAjuda, lv. 37, 9. 20.
4 Re LHGSP. vol XLVIL b. 328.
Pe. Simão de Vasconcelos. Vida da Veneravel Pe. José de Anchita, 1,p. 197 61
p.159. madeiro, e cujos donos
5 Navios empregados no contrabando de açúcar e do Holanda, frequentavamo
seriam judeus sefardinsresidentes na Flandres« na
licoalespiritossanrense até Cabo Erio. A.HU., Esp. Sto., 1
6 - Idem, ibidem, doc. de 1655
- A identidade dos Lemos, cristãos-novos, é dada por Alão de Morais, Assim, de
Gaspar de Lemos ede sua mulher Brites Pinheira, desceade m os Pinheico
Lobo e outros. Op. ti t TV, vol. 1, p. 479.
8 - Vasconcelos. Crónica da Comp, de Jeras, pp. 165 a 209.
9 ABNRJ, 9º 27, anode 1905,
20- Testi. dó Açúcar € do Álcool, Doe. para a História do Apúcar, 1º ed., Rio de
Janeiro, 1963. « cunhado, por com.
Mestre Afonso era ctistão-novo, casado com Maria Lopes e O
seguinte, dopadre Manuel Afonso,capelão da Bahia. Família de judaizant
sogro fora queimado pela Inquisição em Lisboa. UmMuitas tio de Maria, Mestre Ro-
que, suicidara-se naprisão paraescapar à fogueira. acusações se levanta
ram contra elementos da parenteia na Visitação de 1591
11 - BNRJ Does. Brasileiras, vols, XXXVé XKXVL da Rio de Janeiro, pp. 589
12 Elísiode Oliveira Belchior. Conguiitadores + Penoadores
e 390.
13 Vieira Fazenda. Antigualhas. Ret LHG.B. tomo 86 e outros.
tá - EO, Belchior. Op. ci, 451
15 - ANRJ. cod S16, pp. 69 e segs

81
16 - Todos os trêsforam presos, depois, pela Inquisição, os dois primeiros noPorco
é Diogo em Lisbou. Ing. de Lisboa, proc. 5.724,
27 = À consulta do desembargo do Paço, o rei apôs o despacho a 24 de dezem.
bro de 1628 - Bibl. da Ajuda, liv. SÍ-VI-2E-120.
18 Ing, de Lishos, proc 4.786,
19 AH, R, Jan cx 3, nio-catalog.
20 e 21 - Ing, de Lisboa, procs. 6.525, 1978 e 11.480.
- Veja, para maioresinformes sobre o “Dioguinho”, a obra deWizniter,
à página 132.
22 - Antônio era filho do mercadorJorge Fernandes, residente em Lisbos, e como
qual aprendera a negociar, Damãe, Ang de Castro, por motivos que ignora
mos, adotou 0 sobrenome. Dm. Bh. 1591, p. 314
25 Dm. Bh, 1591, pp. 314 e 477; Di. Pen, 1593, pp. 99 e segs, e 482.
26 - lnos, é Tonto. de São Pauls, vol. XII, p. Á8S
25 - O “forasteiro” ao chegar a um povoado, vila ou cidade,e recenias sempre com
descontiança, porque é estranho e suas intenções e modo de vida são desco-
ahecidos. Se, no entanto, é pessoa de bem e, de algurma forma útil ao lugar,
vai, sos poucos, sendo admitido como membro da coletividade, mas continua
na mesma condição,até que pela via matrimonial ou por outra, se identifique
com os moradores tudicados na terra.
26 Atas vol 1 pp. 132, 133,
27 - regimento de 1570 estabelecia que tivesse até 250 homens, mas, não sendo
possível, menor número bastava. Em 1620 houve companhias em São Paulo
cujo múmero de milicianos oscilou entre 40 e 60
Jaime Cortesão. Introd, à Hit, des Bandeira, pp. 52 « segs
28 Diogo estava casado com[D.* Guiomar Lopes,judi,filha de Gaspar Lopes « de
Beatriz Lopes. Diogo e a mulher em 1597 submereram-te a processo inquisito-
rial movido concea ambos pela Visitação,a qual, a 2 de derembro, presereveu-
lhes repreensão perantea Mesa e mais penasespirituais, Nessa ocasião dese
penhava ele, na Babia, O cargode juiz dos órfãos,
29 - Do seu enlace com Guiomar, o capitão Laço deixou ao menosa filha Catarina
Quaresma, que casou com Pedro Aires de Aguirre, irmão de Diogo de
Aguirre, capitão-mor de São Vicente de 1598 a 1600. Foram os progenitores
de Diogo Gonçalves Laço (neto) de Bernardo Aires de Aguirre
Cremos que Pedro também se deslocou para esta capitania, pois nopedido de
meccês que Giomar solicitou para sie para o neto, recomendou que o genro
assumisse o posto de capitão das minas enquanto durasse à minoridade daquele:
Provisão do governador a 1 de março de 1602.
30 Ing, de Lisboa, proc. 1273.
= Da. Bb, 159), p, 554
Varnhageo, Op. cit. vol. 1, p. 101,
Melo Morais. Brasil Héstírico,série 24, 1867, 70 e segs.
31 Ines. e Test. de São Paulo, vol 1 pp. 401 e segs
- Pedro Taques. Nobilizrquia, vol. IL, pp. 380 e segs
32 Ater, vol. UL, p. 61
33- Frei Gaspar. Memórias, pp. 302 segs
= Img. de Litboa, proc. 2040.
- Este advogado, como adiante se verá, nos identificará a mulher de Fernão
Vieira Tavares, dizendo-a penitenciada pelo Santo Ofício.
» = Jaboatão. Catal. Gemealgico, Rev. do 1G.H.Bb.. 0.º 61, 1935, pp. 242 4 243.
Wanderley Pinho, Hitória de um osganho do Ritincavo, pp. 63 4 71
= Doc. Históricos, pp. 353 335.
- RGCSP, vol, MAIS Silva Leme, Op. ci, vol. p. 39,
3 - RGCSP. Op. cit, vol. 1, p. 432. Ing. de Lito, procs. 1538, 5327, 9978
5005.
= Atas da Com. de São Pago, passe

83
CAPÍTULO QUINTO

OS CRISTÃOS-NOVOS ESTRANGEIROS
NAS CAPITANIAS DO SUL

Espanha e Portugal diferiam um tanto em sua política ultramarina


com relação às terras da América. Os reis de Castela, ciosos de seus
direitos e, ao mesmo tempo, animados por interesse religioso, tudo
fizeram nosentidode impedir nelas infiltração estrangeira bem como a
do elementoconsideradoespúrio: judeu, mouro, herege, a do recon.
ciliado pela Inquisição, e a de cristãos-novos, conformese lê na 1rs-
trucción a Nicolás de Ovando em 1501, e repetida muitas vezes de.
pois? tal a persistência do seu espírito exclusivista. Atéos aragoneses
foram excluídos,visto que as Índias eram de Castela. À Casa de Con-
tratación, estabelecida em Sevilha a 1á de fevereiro de 1503, assu-
miu desde logo a responsabilidade pelo controle de passageiros,
mercadorias « embarcações que se destinassem ao além-mar. Aos re-
presentantes e funcionários nos portos de embarque exigia-se, por
seu turno, idêntica vigilância. De sorte que, apenas mediante licença
real, por curto prazo, e em brevesintervalos, foi permitido a alguns
estrangeirosirem às terras hispario-americanas. Via de regra perten-
ciam eles a países que mantinham boas relações com a Espanha, e
quase só no governo de Carlos V, porqueFilipe II adotou maior
rigor, vedando-lhesa encrada?. Osportugueses, apesar dos entraves,
excederam ali, mesmo assim, a todos os adventícios, particular
mentedurante a uniãodas coroas, dadas certas tradições em comum,
vizinhança territorial e, agora, fator político. Admitia-se que mui-
tos, senão a maioria desses portugueses, eram da nação dos hebreus,
e, portanto, sempre considerados com suspeitas. A criação de tribu-
nais do Santo Ofício para diversas regiões já no século XVI amparou
consideravelmente as normas adotadas pelo governo metropolitano.

85
À coroa portuguesa usou critério mais liberal, quer antes da união
quer após a Restauração. Mas, de modo geral, acompanhou a atitudede
sua vizinha peninsular. Aliás, as demais nações européias agiam de igual
modo. Ossúditos de cada uma gozavam deprivilégios, ao passo que aos
estrangeiros negava-se O ingresso nas possessõesdo ultramar, fato perfei
tamente compreensível à luz da mentalidade em vigor na época.
Por semelhantes motivos, também no Brasil poucos estrangeiros
firmaram ospés. O governode Filipe I levantou-lhes maioresentraves é
bem assim aoscristãos-novos. Em 1591 proibiu aosalienígenas a entrada
em nosso país. Depois, em 1604 e em março de 1605, seu sucessor
tornou à reforçar a medida, determinando fossem removidos para o
interior, a dez léguas dolitoral, os que, por ventura já aquiestivessem, e
punir com o confisco e morte os quefossem encontrados depois disso na
faixa proibida. Também se pensara em expulsar a todosindistintamente.
Porfim a régia autoridade decidiu tolerar a estada de uns tantos, visto
passarem por inofensivos,conservando-os sob vigilância dali pordiante.
Oshabsburgos madrilenos receavam a comunicação dos ádvenas
não-espanhóis com as respectivas nações de origem ou com outros
patrícios,e até com osdo corso, dandolhes informações ou facilitando-
lhesa entrada nas terras da conquista. Temiam, sobretudo, que pelo
Brasil estesalcançassem as regiões do Peru. Os mais visados eram os das
nações do Norte, ou sejam, os adeptos da Reforma protestante. E daí,
cogitar-se por diversas vezes no estabelecimento daInquisição em nosso
território?. Ademais pesavam sérias dúvidas acerca da fidelidade dos
cristãos-novos à coroa espanhola. À questão excedia, por conseguinte, o
âmbitoreligioso. Como,entretanto, os hebreus portugueses se tinham
tornado um mal necessário e considerados menos perigosos do que os
estrangeiros, nunca se pôde atalhar 0 seu ingresso aqui. Na verdade, ao
Jado do judeu lusitano vamosencontrar o de outras nacionalidades, além
dos espanháis, e, de modo especial, nas Capitanias do Sul.
1. Comosabemos, os franceses precederam osingleses em suas investi-
dasao litoral brasileiro. No Rio de Janeiro chegaram a firmar Pé durante
algunsanos. Mas, apoa expulsão,ainda ficaram remanescentes,até na
capitania de Martim Afonso, embora nenhum deorigem semita. É sinto-
mático, todavia, achar-se aqui,logo mais, um ou outro portando sobre-
nomeibérico acrescido de um apelido que lhe revela a verdadeira
nacionalidade, a exemplo de Francisco Casado de Paris, contemporâneo.
deSalvador de Sá e de Jerônimo Leitão, o de certo Luís Fernandes

86
Francês, pessoa conhecida do tabelião André de Barros de Miranda,a
quem este aceitou como testemunha no testamento deIsabel Ribeiro,
em São Paulo, no mêsdejulho de 1661. Anos depois,ainda permanece
na capitania. Descobrimosquea 25 de outubro de 1677, o mesmo Luís
levantou aqui um empréstimo de 4$000, tendo por fiador a Manuel
Bicudoe dando em hipoteca duas moças do gentio do Brasils. Lembra-
ríamos mais os nomesde Estevão Furquim e deJoão PorrateS. Não deixa,
então,de causar estranheza, que sendo franceses, hajam gozado da
amizade dos portugueses? Eram bem poucose porisso, sinda que alguns
fossem talvez protestantes, não causavam grande apreensão.
2. Osingleses de há muito pertenciam a nação considerada amiga de
Portugal. Ambas haviam firmado alianças em diversas ocasiões, uma das
quais à 20 de outubro de 1576. A coroa portuguesafoi representada
neste ato por Francisco Giraldes, de sangue hebreu, e casado com
cristi-nova, o mesmo que, ao depois, também procurou o apoio da
Inglaterra para a causa do priordo Crato contra Filipe IT,infelizmente
ganha pelo habsburgo. Então a velha amizade permaneceu abalada atéà
Restauração e só foi reativada oficialmente em 1654. E daí serem raros
os ingleses que encontramosno Brasil duranteos séculos em apreço. Um
deles, o conhecido Tomás Bebington,primeiro residiu na ilha de Itapa-
rica e a seguirem Pernambuco,ondese dedicou ao comércio. Era casado
com a cristi-nova Maria de Peralta que costumava esboferear imagens,
segundo propelavam as más línguas. O filho médico, Dr. Belchior Be-
bington, passou a clinicar no Rio de Janeiro por volta de 1627,e ali
continuou a praticar o judafsmo herdado no lar?. Talvez fosse, igual.
mente, da etnia cristâ-nova, Henty Barrawell, ou Barway, deixado en-
fermona ilha de São Sebastião pela esquadra de Cavendish e ao conter-
fâneo Anthony Knivet. Note-se, antes de tudo, que 0 prefixo “Bar”,
justaposto à palavra “Well”, ou “Way” podesignificar “filho do bem” ou
“bom filho”ou “o filhodocaminho”, ou “andarilho”, híbrido,quiçá, de
“bas”hebraico, com inglês. Serve de exemplo o apelidodo judeuJacó
Barsimson, que em agosto de1654 fixouresidência em Nova Amsterdã,
na América do Norte, emigrando da Holanda para 148. Em 1923 também
moravanos Estados Unidoso hebreu Aaron Baroway, e no Brasil, em
meados doséculo XIX,veio estabelecer-se em Tabatinga, no Amazonas,
a família isruelita Baruel, a um de cujos membros, Abrão,a princesa
regente,D. Isabel, conferiu a Ordem da Rosa por serviços prestados'º.
Lembramos, mais, que outrora residiu na cidadedo Porto o judeu Davi

87
Barufel, donode uma botica, isto em1450e ainda em 1461". Pelo que
supomos que 0sobrenome “Barwell” seria uma simples adaptação de
Barufel” ou dé Baruelúsidosporjudeussefarditas,algum oualguas
dosquais teriampassado àInglarerra!?. De fato havia judeusibéricos
neste país aotempode Henry Barwel pr
Do Rio deJaneiro, Hensique Baruel, que assim se passoua chamar,
ou assim se chamava mesmo, passou para São Paulo, é aqui se radicou
pelo casamento comFrancisca Álvares, filha de Pedro Gomes, ou de
Pedro Álvares, e de Maria Afonso. Deixou descendência descrita pelos
genealogistas
3. Voltemo-nos, agora, para ositalianos. Acham-se eles relacionados
com o Brasil desde os albores dodescobrimento através da participação
dos Macchioni, dos Giraldi, dos Laferá, ou Affaitati, e de outros, nas
empresas comerciais de Portugal. Escareçamosque ao consórcio de
*ernãode Loronhaestavam ligados os armadores Bartolomeu Marchioni
«o sobrinho Benedito Morelli, hebreus, quiçá, bem como diversos
igualmente italianos que ajudaram noimpulsoaçucareiro das ilhasarlân-
ticas, lusitanas's, O intercâmbio entre as duas nações prosseguiu,e
como sucedeu, elementos daquela península mostraram interesse pelo
Brasil já nos primórdios da colonização. Por exemplo, ao tempode
Marcim Afonso de Sousa ficou emSão Vicente umPascoal Fernandes
Genovês, quesa julgar-sepelo patronímico, seria dos tais, ou lá viveu
muito tempo. Aqui obreve sesmarias e, posteriormente, adquiriu um
navio que empregou notráfico de indígenas. Casou, segundo consta,
com Margarida Fernandes,filha de João Ramalho,aparentando-se dessa
mancira com Lopo Dias. Ignora-se à sua emia's.
Vieram,igualmente, na mesmaocasião, osirmãos Adorno, genove-
ses,oufilhos, nascidos,talvez,na ilha da Madeira,pois moraram acla. Em
1528 André Doria expulsou de Gênova amuitos da família Adorno, após
uma rivalidade que cra secular. É curioso que em15160 grupodejudeus
espanhois, ali recebido tempos antes,foi expulsopor Otaviano Fregoso,
inimigodos Adorno, mas, no anoseguinte,estes readmitiram a muitos
tomando-os sobsua proteção. Havia, por conseguinte, uma certaafini-
dadeentre os Adornoe os hebreus,revelada, outrossim, no fato de que
mercadoresitalianosestabelecidos emPortugal, como os Marchioni,lhes
dispensaram atenções quando eles se passaram para os domínios lusos,
Sabe-se que José Adornodirigira na Madeira a feitoria que osreferidos
patrícios possuíam na ilha. Depois, vindo para a capitania vicentina,
tundou o engenhodenominadoSão João, doqual Cristóvão Dinis foi

88
um dos “partidistas”. O padre Simão de Vasconcelos conta que José
esteve para casar com Filipa da Mota, mas O enlace não chegou a
realizar-se, com grande pesar dos pais desta. Ora, sabemos que a moça
pertencia à uma família de criscãos-novos muito conservadores, os quais,
porém, faziam gosto no matrimónio, talvez porque onoivofosse da
mesmaetnia, ou quando não, porser indivíduo de futuro. Acrescente-
se, por fim, que Paulo Dias Adorno, imão de José, envolvido em certo
homicídio, fugiu de São Vicente para a Bahia e lá casou com uma filha
do Caramuru. vindo a tornar-se sogrodo cristão-novo Francisco Rodri-
gues, cujos descendentes estivem sob ameaças do Santo Ofício em
18, Das duas, uma: ou o Adornoprovinham de linhagem hebréia
ou, pelo menos, tinham grande simpatia para com os dessa estirpe. Isso
ajudou a formar oespírito de liberdade que se desenvolveu na capitania.
É possível que iguais motivos ou a amizade devotada aosdois genoveses
hajam atraído para cá a Jacome Dória, o qual veio estabelecer-se na
capitania um pouco depois. Este, e Jacome Lopes, casado com Isabel
Dória, talvez sua parenta, foram parúdistas de José Adorno. Os Dória
deixaram descendência no Rio e na capitania de Martim Afonso!”
Documentos da época aludem, ainda, a um Nicolau Grilo Gomes,
também genovês, e companheiro dos anteriores e de José Adorno. O
apelido de “Grilo”e “Gomes” caracterizavam certas famílias sefarditas!e,
sendo possível que o atrás mencionadoofosse.
Diversos outrosfilhos da histórica península italiana apareceram na
capitania, comoJoão Batista Malio, Tomás Dias Mainardi e Bácio de
Filicaia, mas lhes desconhecemos etnia
4 De todos osestrangeiros, exceto os espanhóis, O grupo mais rele.
vante foi o dosflamengos holandeses, não tanto em virtude do número,
esim dos capitais quepossuíam e de suas relações com osjudeusibéricos,
muitos dos quais refugiados nos Países-Baixos, de onde, porsua vez, se
comunicavamcom os de Portugal e Espanha, senão comos do ultramar.
Certos individuos que aparecem“em nossa história carregandonomes
aportuguesados ou castelhanizados, conquanto de outra nacionalidade,
não passam de emigrados ou de filhosdestes, a exemplo de Rodrigo
Pedro, que viveu noEspíritoSanto,e de um Paulo Freire,judeu ibérico,
residente na Inglaterra no começo do século XVII, e implicado, como o
anterior, no contrabandode pau-brasil nas Capitanias do Sul
Vem, à calhar, que Portugal e os Países-Baixos mantiveram boas
relações aré à ascensão de Filipe II, de modo queos produtos do Oriente
e do Brasil chegavam aos portos do Norte sem maioresdificuldades, e

89
daí porque flamengos e holandeses raramente se estabeleceram em
nosso país até 1580. Mas, com a proibição imposta pelo monarca em
1591, visando especialmente aossúditos de nações protestantes e à
limitaçãodo comércio com os mesmos, voltaram-se eles para cá. Alguns
vieram sub-repticiamente, por espíritode aventura ou de lucro, outros
por conveniência da colonização, mediante licenças conferidas a feitores
de engenhos, mineiros, engenheiros de obras, etc. Em São Vicente
encontramos bem cedo indivíduos cuja ascendência remonta aos
Países-Baixos, e até de provável mesclagem istaclita, a exemplo dos
Lemes dos Taques (Tacks, ou Tags) que se casaram com mulheres
Portuguesas de etnia suspeita. E quediríamos dos feitores enviados pelos
Schetz, em particular de Pedro Roso ou Rosel, « de
Não bastasse a experiência dos judeus em negócios Jerônimo da Maia?
de açúcar, lembra-
ríamosqueos apelidos Roscl, Roesel, Rosales e mesmo Rosa, eram
comuns entre à gente de nação. Os hebreus tinham uma facilidade
enorme em adaptar scus nomes conforme as nações em que pássavam
residir's, Ou escolhiam um que mais se parecesse com oseu, ou adora.a
vam o do padrinho cristão, como sabemos quanto
Fernão de Noronha, sendoque este, depois, passoua Gaspar da Gama e
a Loronha?o
Outro natural da Flandresradicado
Comélio de Arzão, ou Darzan,já referinadocapita nia martirm-afonsina, foi
anteriormente. Veio com D,
Francisco de Sousa para a vila de São Paulo, em 1609, com à missão
precípua de construir engenhos de ferro. Denun
Inquisição como hereje, o Visitador andou prendêciado mais tarde à
-loe seqiiestrar-Jhes
9s bens, faro sucedido em 1628. Reaparece depois, vindoa falecer em
1638, em nosso planalto. Deixou descendentes, dos quaisalguns foram
bandeirantes notáveis. Casou com Elvira Rodrig
Martim Rodrigues Tenório e de Suzana Rodriuesfil gues?!
ha docristão-novo
Contemporâneoe patrício de Arzão,foi Manuel Vandale, cujos ape.
lidos talvez tenham sido estropiados. Já em 1609 numa comunicação ao
Soberano, mencionava-o o governador Diogo de Menezes comoindi
duo que bem conhecia o litoral. Era perigoso tolerá-lo em nosso país.
Portanto, elrei mandou embarcá-lo para o Reino, e assim, no decorrer
desse ano, juntamente com outros, enviaram-no às justiças. Todavia, em
alto-mar, libertaram-nos nos corsários holandeses. Depois Vandale apa-
rece ligado ao assalto à Bahia, em 1624, e então, por efeito da recon-
guista refugia-se em São Paulo com a familia, distante daqueles aconee.
cimentos. À 6 de outubro de 1626. achando-seenfermo, fez testamento,

90
vindoa falecer. Verifica-se, de tudo, que era pessoaativa,com negócios
importantes em Pernambuco, Bahia e Portugal. Taunay admitiusua pro-
vável eia hebraica?2. Bem antes dele, e do próprio Arzão, morou em
Santos O holandês Wilhelm Josten. Glimmer, entendido em mineralo-
gia, e que talvez atraído por boatos quanto a existência de ouro,
locomoven-se para a capitania. O certo é que D. Francisco solicitou-o a
acompanhar André de Leão na bandeira de 1601 ao Sabaraboçu??. Nada
sabemos, porém, acerca de sua etnia.
5. Oselementos de origem espanhola formaram a maior porção de”
estrangeiros. As razões são facilmente compreensíveis: vizinhos dos
portugueses na Europae no continente sul americano, tinham tradições
em comum, línguas icms, parentesco entre os reis, a união dinástica de
1580 a 1640,e assim pordiante. Já por volta de 1539 deparamos com a
figura interessante de Filipe de Guilhem ligada à históriadas capitanias de
Ilhéus, PortoSeguroe Bahia, e 20início dos descobrimentos mineralógi-
cos no Brasil. Poucos ânos mais, outro castelhano, igualmente cristão-
novo, Erancisco Bruza Espinoza, prosseguir-lhe-ia os feitos. Ao tempo da
Visitação de 1591, falava-se deJoão Herrera Solis,também da nação dos
hebreus, mas havia mais. Algumas mulheressão mencionadas, De sorte
que, de Norte a Sul, encontramosespanhóis,ou se quisermos,castelha-
nos, espalhadospelas costas brasileiras, na condição de sobreviventes de
naufrágios ou vindos para cumprir penas, ou por abandonodas segiões
americanas de Castela
Quandose eferuou a uniãodas coroas,esta concorreu paraincremen-
tar 0 afluxo deles, até então insignificante. Espanhóis « pormgueses
viviam agora sob a égide de um e o mesmo rei, possibilitando relações.
mais afins. A necessidade de defender a terra contra o inimigo estran-
geiro forçou o envio decontingentes militares em diversas ocasiões,
acabando muitosde seus integrantes porficar nopaís. A esquadra de
Diogo Flores de Valdez largou gente desde o Norte, e das armadas que
vieram em socorro daBahia e de Pernambuco, outrostantospreferiram
radicar-se ali ou numa das Capitanias de Baixo. Entre eles figuravam
numerosos sefasditas. E, por estranho que pareça, muitos vieram
localizar-se no planalto de Piratininga, embora como espanhóis devessem.
optar pelo riquíssimo Peru. Mas, por que nãoo fizeram? Que vantagens
lhes oferecia São Paulo? Naquelehavia Inquisição, mas neste não. Aqui,
além da liberdade, devia existir um bom grupo de correligionários e
ótimas possibilidades para subira Potosi, du mercadejar escravos indíge-

91
Durante o governo dos habsburgos estabeleceram-se na capitania de
São Vicente nada menos que 42 indivíduosde origem espanhola, cabeças
de família quase todos e assim distribuídos, conformea data doingresso:
de 1580 a 1590 - 14
de 1591 a 1600 - 10 .
de 1601 a 1620 - 4
de 16212 1630 - 3
de 1631 a 1640 - 11
TOTAL. comem 42
Percebe-se que a maioria chegou à capitania nas duas primeiras
décadas do governo filipinoe nosanosqueprecederam à Restauração.
De1601 a 1630 entraram apenas 7, período que coincide com o apogeu
do bandeirismo paulistae, estes, segundo parece, sefarditas na maioria,
alguns dos quais vindos o tempo deD. Francisco de Sousa. Osespanhóis
não deviam aprovar o sistemade vida dos bandeirantes no momento,
pois eferuavam os apresamentos em áreas que os referidos peninsulares
julgavam pertencer a Castela. Ademais a campanha na Flandresprosse-
guia, desviando forças para o campo da luta. À expulsão dos mouriscos
nosanos de 1611 a 1614 agravou o problema da mão-de-obra em
Espanha. Depois Filipe IV envolveu-se em contínuas guerras no contur-
bado Velho Mundo.
Narelação de quantos temos como portadores da seiva hebréia,
mencionamos: Bartolomeu Bueno, Diogo de Onhate, Baltazar de Go-
doi, Diogo Sanches, Martim Rodrigues Tenório, Francisco Maldonado,
Jorge de Barros Fajardo, Bernardo de Quadros,João Bernal, Diogo
Árias de Aguirre, Lucas Rodrigues de Cordoba, Diogode Lara y Ordo-
des, Gaspar Manuel Salvago,Belchior Ordas de Leão, Álvaro Gomes
Godinez, Barnabé de Contreras, o lic. Geraldo de Medina, Diogo
Rodrigues de Salamanca, Bartolomeu de Torales, Pero Fernandes Ara-
“gonês, os irmãos Rendon de Quebedo, ou Rendon Cabeça de Vaca, D.
João de MongelosGarcês e os Portesde El-Rei. Nomesmorolestão os
padres jesuítas, Inácio de Tolosa José de Anchieta,
Seja-nos permitido, agora, tecer considerações sobre alguns deles, a
começar por Bartolomeu Bueno.
1. Bartolomeu Bueno conhecido pelo patronímico de Sevilhano,
porser originário de Sevilha. Chegando a São Paulo em fins doséculo
XVI logo se identificou com os moradores, exercendoa profissão,
ocupando cargos na vida pública, tomando parte em certosnegóciose

92
unindo-se por casamento a 4 de agosto de 1590 com Maria Pires, da
influente e já tradicional família dos Pires.
Está comprovada sua vinda entre 1581 e 1583, pois achava-se entre
os que figuravam na armada de Diogo Flores de Valdez, a qual tendo
largadoda Espanha em 1581, aportou também noRio de Janeiro e em
SãoVicente no ano de 1583. Então, diversosficaram poraqui, embora
seudestino fosse oEstreito de Magalhães. Numa petição de sesmaria ao
capitão-mor Gaspar Conqueiro, em fevereiro de 1611,ele próprio decla-
rou estar morando em São Paulo “havia trinta anos” sem precisar tempo
exato. Nãoantes, ipsofacto, de 1581. Quando, outrossim, Pedro Ta
ques escreveu que provinha de “nobre família de Sevilha” não quis dizer
que descendia de “família nobre”, coisas bem distintas; nem tão pouco
devemos dar créditoa umahipotética ligação com a casa de Bascones, da
fidalguia espanhola. Ocorrências da época contradizem tal suposta no-
breza. Vejamos
Segundo os estatutos das ordensreligiosas, ninguém que tivesse
ofício mecânico podia pertencer à nobreza ou receber um título honorí-
fico. Se era difícil para o indivíduo de sangue considerado impuro,tanto,
ou mais, O seria para oque se dedicava a atividade reputada como
humilhante. Ora, Bartolomeu Bueno veio na referida expediçãona
qualidade de carpinteiro, pagoa trinta ducados, em São Paulo,exerceu
o mesmoofício, visto que, em 1587, foi juiz desse mister.
Aoinvés de o ligarmos à umafamília nobre, ou decristãos velhos,nós.
consideramo-locristão-novo e de origem hebréia, luz de ponderáveis
razões. Iniciaremos por chamara atenção para o aspecto um tanto
enigmático que envolve sua pessoa, conformese percebe. Dissemos,
noutro local, de quantosfugiram da armada de Valdez, e Bartolomeu
Buenofoi um deles. Mas o fato mais sugestivo consiste em saberque
existiu na Espanha, emNavarrae Aragão, uma família Buenojudaica,
cuja origem remonta aosséculos XIII e XIV, à qual depoisse estendeu a
Portugal, Países-Baixos Itália, onde alguns lhe adicionaram um sc-
gundo sobrenome, comofizeram David Bueno de Mesquita e David
Buenode Livorno. Oprimitivo, porém, era BOINO,que osda estispeàs
vezeslatinizarampara Bonus, e após a expulsão de 1492, para O caste-
lhanoBueno,sem jamais abandonarem inteiramente o originário. Assim,
em 1450 e ainda muitos anosdepois,residiu na cidadelusa do Porto o
hebreu Moussem BonoouBoino, proprietário de uma botica. Também
em1545 foi rendeiroali o judeuJuça Boino. Diversos descendentes de
Moisés, ou seja, Moussem Boino,lecionaram na Universidade de

95
Coimbra, cumprindo lembrar o nome do Dr. Antônio Homem,lente de
Cáânones desde 1614. Advogadosfamosos dessamesma família foram-no
os drs. Gonçalo Homem,ouvidor no Rio de Janeiro advogado na
Bahia, colic. Rui Vaz, que supomoster sido o mesmoqueresidiu noRio
de Janciro na segundadécada do século XVII. Entre os holandeses
estabelecidos em Pernambuco encontrava-se o judeu português Abraão
Bueno,ou, conforme o nome de batismo,Diogo Henriques, que, com os.
irmãos e pais, se haviam mudado primeiro para a França. Tendo sido
preso pelas forças luso-brasilciras, juntamente com Jehudabar Jacob
Polaco, Samuel Velho e outros hebreus judaizantes, foi entregue, bem
como os demais, ao bispo da Bahia, Pedro daSilva, que os remete à
Inquisição de Lisboa. Em1647 um Simão Rodrigues Boino teve igual
desdita, pois caiu mas garras dessetribunal. Os Buenotinham-se difun-
didopor toda a Europae América luso-castelhana, onde aparecem,via de
regra,identificados comogente da nação hebréi
Há outra razão mais ponderável quanto aovelho Bartolomeu Bueno.
Comprovamos que descendentes seus também usaram oprimitivo ou
originário apelido BOINO. Queremos vefificá-lo? Abramos o livro de
“Atas da Câmarade São Paulo na sessãode 6de agosto de 1641. Jáa 4 de
maiose havia cogitado da eleição de procuradores para irem à Corte levar
a adesão dospaulistas aonovorei, o senhor D. João IV. A medida
concretizon-se três meses depois, naquela data, quando,por unanimi-
dade, foi eleito Amador Boino,segundo reza 0 texto em apreço:
“Aceitoà dita procuradoria com decluração..de pagarem toda quantia
que o ditoamadorboino tomara ganancia e lhefor necessáriapara os negócios a
que tae(...J” As está o Boinobem claro.
Simples coincidência? Erro do escrivão? Para que tal não se pense,
recorramos a outro documento é de um outro descendente deBartolo
meu. Referimo-nos a Luís Fernandes Bueno, ou Boino, casado com Ana.
de Morais, dos Morais de Antas. A 15 de abril de 1648 os oficiais
Câmara paulistana subscreveram carta ao rei em quetratavam de velhada
questão com osjesuítas. Pois bem! Lá está, em grafia perfeita, quenão
admite dúvidas, a assinatura de Luís Ffz Boino. É documento original e
pode servisto no Arquivo Ultramrino,em Lisboa,na caixa 1, pasta14, nº
3, da capitania de São Vicente. Aliás, é assim que 0 encontramos sempre,
dezenas de vezes, nas atas de $, Paulo?s
Aconcessão mais tarde de tírilo honorífico a Manuel Bueno da
Fonseca, em nada invalida oarrazoadoacima exposto?s.


2. Martim Rodrigues Tenório. É assim que o encontramosregistrado
em documentos. Silva Lemegrafa-o Martim Fernandes Tenório de Agui-
lar. Devia tervindo para São Pauloantes de 1589,porque, neste ano, 2 30
de julho, aparece casado com Suzana Rodrigues à ex-viúva de Damião
Simões. Era homemrico. Dedicava-se ao comércio. Foiinteressadono
engenho de ferro de Ibirapuera. Possuiu diversas datas de terra nos
arredores, um sítio e um lançode casas na vila. Desempenhou cargos na
vida pública paulistana. Em 1608 embrenhou-se em demanda à região de
Paraupava, vindo a perecer na empresa com os demais companheiros.
Em 1612, tendochegado notícias de sua morte, eferuou-se o inventário,
“ab intestado”, pois os parentesignoravam o testamento ou o ocultaram,
e só 0 exibiram muito depois. digno de nota que Martim Rodrigues,
embora natural de nação católica, só ingressou no rol daIgreja em idade
adulta, talvez já bastante avançado em anos. Nosapontamentos que
deixou,escreveudepróprio punho terrecebidoo batismo a 18 de agosto
de 1601. Istoprova suficientemente cratar-se de cristão-novo. É também,
partir dessa épocaque se assentapor confrade de Nº. Srt. do Carmo, do
Santíssimo Sacramentoe da Misericórdia. Por seu casamento com Su-
zana Rodrigues, veioa tornar-se sogro dos mineiros Clemente Álvares c
Comélio de Arrão e avô de umaplêiade de renomados bandeirantes?
3. Bernardo de Quadros — Nasceu em Sevilha porvolta de 1565.
Estava com cerca de vintee seis anos quando aos 18 de janeiro de 1591
foi nomeadoescrivão da almoraçaria do Rio deJaneiro. Dali passou a São
Paulo, ondejá se encontrava em 1597. Desempenhou diversos cargos.
Faleceu em1642 com testamento. Contrafu matrimônio nesta vila com
Cecília Ribeiro,natural do Porto,e quefaleceu em1667, filha de Estevão
Ribeiro Baião Parente, o velho, e de Madalena Fernandes. Foram pais de
“Acenço de Quadros, Bartolomeu de Quadros, Maria de Quadros,Este.
fânia Ramires, Benta das Neves e BernardoRibeiro de Quadros, todos
com geração, exceto oúltimo.
Dentre os seus descendentes conta-se oneto padre Bernardo de
Quadros, quese habilitou “de gênere”por sentença de 13 de novembro
de 1671, fatorelevante para outros parentes, candidatos nofuuto às
ordens eclesiásticas. Em 1680 foi coadjutor em Parnaíba. Nos autos
figuraram comotestemunhas Manvel Soeiro Ramires, Fernão Dias Pais,
PedroFernandes Aragonês, que temos por suspeitos, os quaio declara-
ram sem impedimento. Era vigário de São Paulo, então,tendo presidido
às inquirições, o padre Domingos Gomes Albernás.

95
Não obstante a habilitação acima, o processo de Francisco de Arruda
Sá, em 1702, revelou coisa diferente. Este era filho de Esanciscode
ArrudaSá, da ilha de São Miguel, e de sua mulher Maria de Quadros,
natural de São Paulo, neto, por conseguinte, de Bartolomeu de Qua-
dros (2.9)e de Isabel Bicudo, e, bem assim, bisneto do ancestral sevi-
lhano. Pertencia à quarta geração. Note-se, porém, que asseis primeiras
testemunhasafirmaram unanimemente que os Quadros padeciam a fama
decristãos-novos. Tentou-se depois contornarà situação, mas, passados
anos, o pe. Domingos de Abreu, da Companhia, ao ser ouvido respeito,
no Rio deJaneiro, a 15 de abril de 1706, confirmouque Bartolomeu de
Quadrosfora tido porcristão-novo;e ainda mais tarde, no processo de
babilitação dé Filipe Machado, em 1717, o capitão Joãode Toledo
Castelhanos disse ter existido rumor de que, através dos Quadros, os
Bicudos haviam recebido sanguecristão-novo?s,
Eleva-se, outrossim,a mais de umadezena, o número de prováveis
cristãos-novos de origem espanhola. Consideramo-los suspeitos não só
por causa das circunstâncias, mas também por encontrarseusapelidos em
indivíduosde linhagem sefardita. Falecem-nos provasobjetivas, con-
tudo,para incluí-los positivamente no rol dos da etnia. Em todo o caso
nossas dúvidas têm fundamento. Vejamos:
(D) -José (ou Jusepe) Ortiz de Camargo, natural de Castrogeriz, filho
de Francisco de Camargo e de Gabriela Ortiz. Parece-nos duvidosa sua
ascendência,pois o avô paternofoi um Luís Dias de Camargo é a mulher
deste certa Beatriz de la Pefia. Roque Leme acha que Beatriz foi mãc de
José e não avó. Temos encontrado, além de inúmeros Dias e Ortiz
cristãos-novos,indivíduos de sobrenome “la Pega” condenados pela Inqui-
sição, como sucedeu ainda a 5 de julho de 1722 em Sevilha, quando
diversos foram queimados em efigie?s.
(2) - Baltazar de Godoi. Nasceu em Albuquerque, cerca de
Veio para São Paulo na última década do século XVI. Casou com 1561 Paula
Moreira, da família Garcia Velho aliada porsangue a Luís Gomes da
Costae a descendentes de Lopo Dias. Filhos do casal davam-se à tarefade
passar gentepara o Paraguai, fugitiva das perseguições religiosas e à
mercadores em demanda das regiões do Prata e do Peru
(3) - Francisco Maldonado. Casou com Joana Camacho, cuja linha-
gem nos parece suspeita. Foi rendeiro na Capitania. Exerceu diversos
cargos em São Paulo. Admite-se ter sido o progenitor de Miguel Aires
Maldonado, o qual casou primeiro com Maria de Medeiros, dos Medei-
ros de Santos,e segunda ver com Bárbara Pinto. Narelação de judeus

96
residentes em Antuérpia, ano 1666, encontramos um Domingo Árias
Maldonado, sem dúvida de origem ibérica e, talvez, do mesmo tronco.
Miguel passou residir noRio de Janeiro antes de 1610 e aífoi senhor de
engenho, rico influente. Aindavivia em 1657. Por esses motivos,
incluímosFrancisco e Miguel na relação de cristãos-novos.
(4) -Jorge de Barros Fajacdo. Era nacura! de Ponte Vedra, na Galiza de
Os nomes dos progenitores têm laivos de cristânovice, Belchior
a família de
Barros e Catarina Vaz. Igualmen te sua mulher pertenci a
suspeitosa ernia,visto que Ana Maciel era filha deJoão Maciel. Américo
de Moura, descendente do casal, jamais encontrou nos documentos
paulistas consultados tratamento “dom”, que lhe atribuíram Pedro
Taques e Silva Leme. Foi sercanistae procurados da Câmara. Faleceu em
1615, deixando geração.
bandeira de
(5)-João Bernal. Aparece entre os que tomaram parte na1602.
João Pereira de Sousaem 1596, e nade Nicolau Barreto em Quase
mais nada se sabe a seu respeito. Houve um tronco do mesmo apelido
estabelecido no Paraguai. Os Bernal, de linhagem semita, são conheci-
dos desde o século XV, pelo menos. Naprimeira expedição de Colombo
facomofísico Mestre Bernal, reconciliado em 1490 por judaísmo, c bem
mais tarde, em 1655,a Inquisição espanhola queimou Abrão Nuhez
Bernal e Isac (Marco) de Almeyda Bernal por esse mesmomotivo?9.
(6) - DiogoÁrias de Aguirre. Narural de Nova Espanha.Era neto de
Diogo Fernandes Martinse de Isabel Rodrigues da Ribeira, ao qual o rei
fez fidalgode cota de armas por merecimentos. Diogo veio de Portugal
em 1591 acompanhando o governador D. Francisco de Sousa, que o
enviou para a capitania de São Vicente na qualidade de capitão-mor,
cargo que exerceu de 1598 a 1600. Casou com Mariana Leitão de
Vasconcelos, filha do antigo capitão-mor Antôniode Oliveira, entrela-
cada com diversos de linhagem cristi-nova. Deixou numerosa descen-
dência
Por queo incluímosna relação dos possíveis cristãos-novos? (a) - A
fidalguia foi-lhe dada por mercê real e não por nobreza herdada, de que
houvetantos casos entre os da nação dos hebreus. (b)- Seu irmão Pedro
Árias de Aguirre, que também veioresidir na capitania, acompanhando o
sogro Diogo GonçalvesLaço e família, era casado com a meio-cristã-
nova Catarina Quaresma(c) - Morou no Rio de Janeiro antes de 1619
um Fernão de Aguisre, aí falecido, e que foi casado com 2 cristâ-nova
Isabel Teixeira,filhade Álvaro FernandesTeixeirae de sua mulher Maria

97
de Azevedo.(d) - A família de Mariana Leitão de Vasconcelos tinha
admitido elementosde linhagem sefardita em seu meio: Inês Mendes,
Antônio Pedroso de Barros, André Fernandese outros?".
(7) - Cristóvão de Aguiar Girão. Casou em São Paulo com Luísa
Neto, filha de Álvaro Neto, o velho, porruguês de Viana. Fez várias
entradas ao sertão. Subscreveu o respectivo testamento em 21 de maio
de 1615 e faleceu pouco depois. ConhecemososGirão, cristãos-novos,
da Bahia, 40 tempo da Visitação de 1618, e também os de Barcelos,
igualmente delinhagem israelita. Seriao de São Paulo damesma enia2?
(8) - SegundoPedro Taques, os Lara de São Paulo, de quem ele
descendia, provinham de D. Diogo de Lara, aatural de Zamora. Este
radicou-se na vila de Piratininga nosprimeiros anosdo século XVIT, cem
1704 foi aprovadaa sua “puritate sanguinis”. Isto querdizer
vam dúvidas acerca da mesma. De fatoassim sucedeu, porqueque paira-
existiram
cristãos-novos desse apelido, tais como o músico Isidoro de fara é D.
Manuel de Lara, membro da Academia delos Floridos fundada
€ outrost?. Acontece, todavia, que o judeu espanhol, Miguel em 1685,
de Men.
donça Valadolid, mercador queresídia no bairro da
achando-se preso como observante dalei de Moisés,Penha, em São Paulo,
em 1729, envolveu
nas suas declaraçõesao Santo Ofício, a diversos da antiga família dos
Gomes da Costa (ou Mota, é Raposo), dosPereira doLago, dos Pais
Leme, e a Diogo de Lara, como simpatizantes do judaismo“
É verdadeque Pedro Taques escreveu a respeito do velho Diogo de
Lara, dizendo que passava dias inteiros a rezar nas igrejas, mas fê-lo
bascado na tradição. Ninguém, no entanto, deve ignorar que o cristia-
nismo contou em seu rol com muitos e excelentes adeptosde origem
judaica. O contrário não é menos verdadeiro, pois houve, também,
elementos da etnia-velha que praticaram o judaísmo.
(9) - Paulo de Anhaia era natural do Porto, mas descendi espa-
nhóis. Veio residir em São Paulo, casando-se aqui com Mariaa de
filha do hebreu Francisco Vaz Coelho, e dela deixou seisCoelho, filhos.
Ignoramos-lhe a ernia.
(10) - Os apelidos que encontramos na família de Barnabé de Contre-
ras levam-nosa crer naprovável linhagem sefardita dele ou da mulher.
Era castelhano. Morou no planalto de Piratininga e no Paraguai. Foi
casado com Violante de Guzman. Dois de seus filhos fixaram-se na
capitania entre 1630 e 1633: Barnabé de Contreras y Leon, casado com
Beatriz de Spinoza, e Gabricl Ponce de Leon que,segundo Silva Leme,

98
contraiu matrimônio com Maria de Torales,filha de Baltazar Fernandes,
fundador de Sorocaba.
“Gusman” ou “Gusmão”,“Espinoza” e “Ponce de Leon" são encon-
tráveis também em ctistãos-novos, embora alguns fossem peculiaresema
famílias da nobreza. Oveículo datransmissão estaria no batismo ou
casamentos mistos.
(11) - André de Zunega, ou talvez Zuniga. Espanhol. Passou-se do
Guairá para São Paulo e aqui se casou com Cecília de Abreu,filha de
Baltazar Fernandes,o povoador. Faleceu na vila de Sorocaba, deixando
geração.
Além do fatode unir-se a família de sangue cristão-novo,qual a dos
Fernandes,o sobrenome revela-o portadorde linhagem hebréia, con-
forme se pode verificar consultandoa Pedatura Lusitana.
(12) - Quanto aos Rendon, as referências dão-nos como cristãos-
velhos, mas quantoao lado materno ligam-se aos Alarcão e Cabeça de
Vaca que se mesclaram com sangue hebreu. Acresce, outrossim, que os
de São Paulo e Rio deJaneiroconsorciaram-se com mulheres descenden-
tes de cristãos-novos. Vejamos. D. João Mateus Rendon casou primeiro
com D.Maria,filha de Amador Bueno, o aclamado,e a segunda com a
viuva do capitão Valentim Pedroso de Barros. Osnetos, D. Pedro e D.
Francisco Mateus Rendon seguiram o mesmo exemplo, unindo-se às
famílias Rodrigues Arzão e Vaz de Barros(através de Maria de Araújo,
neta de Luís Pedroso de Barros); a neta, Maria. casou com Manuel
Lopes deMedeiros, infamado de cristão-novo. O filho de D. João Marcus
Rendon, homônimo, casou com uma Azevedo Coutinho no Rio de
Janeiro, família ondea seiva israelita também penetrou. D. Francisco
Rendon de Quebedo, espanhol, casou, igualmente, com uma filha de
Amador Buenoe foram pais, dentre outros, de Madalena Clemente
Cabeçade Vaca, que casou em 1642 com um neto e homônimode
Martim Rodrigues, o que se batizou depois de adulto.
Sobre introdução de sangue hebreu na família nobre dos Cabeça de
“Vaca,leia-se a obra da autoria de Isaac Costa, onde o autor é pródigo em
exemplos da mesma natureza.
Isto, contudo,basta para evidenciar que à ocorrência de gente “da
nação”no Brasilfoi relevante, destacando-sedepois da lusitana e espa-
nhola. Predominou, aqui, logicamente, a de procedênciaibérica, direta,
mas com odecorrer dos anos, somaram-se os expatriados que vieram de
outras nações ou descendentes seus.

99
Poucos os espanhóis relacionados com o Espírito Santo. Em um dos
mais antigos engenhosde açúcar, em atividade já em 1577,foi associado
certo Diogo Fernandes do México. Durante anos,e ainda em 1594,
residiram em Vitória a crist-nova Violante Álvares e seu marido, o
mercador castelhano conhecido pela alcunha“o Mirandinha”. OsBravo,
aí moradores, e também no Rio de Janeiro, eram de antiga linhagem
espanhola. Em Vitória exerciam atividades comerciais em 1618, Diogo e
Pero DiasSanches. A mulher docristão-novo Manuel de Paredes foi a
sua congênere Guiomar Roiz Cabeça de Vaca, talvez da família do
loco-tenente dessa capitania em meadosdo século XVI, Bernardo San-
ches de la Pimenta Cabeça de Vaca, de origem espanhola. Por volta de
1640,aí possuíam engenhos Diogo Ximentes de Vargas, Pedro de
Baeça, e Marcos Fernandes Monsanto, todoscristãos-novos, aos quais
foram sequestrados os referidos engenhos em 1642 porcrime de tai
ção??. Havia um grupo influente de hebreus ibéricos, mas a maioria
destes era de portugueses,
E que nos mostra o Rio de Janeiro quanto aosvizinhos pensinsula-
res de nossos avós lusitanos?
Até1580foram raríssimosos quese detiveram naregião fluminense.
À semelhançada capitania de São Vicentee de outras,a afluência sóse
pronunciou durante a união dinástica das coroas, destacando-se a de
foragidosdas armadas, um ou outro militar, e mercadores, elemento
flutuante, como se percebe. Poucos os espanhóis radicados nestas bandas
nesse período, sendo quealguns já haviamnascidono Brasil. Encontra-
mos também mulheres espanholas casadas com portugueses ou filhos
destes, nascidos no Brasil. De modo que, assim especificados, enumera-
mos, por exemplo,aréà Restauração, dentrodo primeirogrupo,Francisco
de Burgose sua amásia Catarina Morena que se evadiram da armadade
Diogo de Alzega, em 1583, da qual era tripulante, e do segundo, Diogo
Lopes de Cádis, mercador noRio em 1594, e Alonso Ramices,também
mercador, o qual, vindo do Peru com destino a Castela, deteve-se noRio
noúltimo semestre de 1596%. Cremos que todosesses indivíduos, além
de Diogo, pertenciam à nação dos hebreus.
Dos quese fixaram na Guanabara, temos: Bernardode Quadros, que
aí foi escrivão da almotaçaria desde 1591, e em 1597 mudou-se para a
capitania de S. Vicente; osirmãosJoão e Mateus de Moura Fogaça, os
quais primeiro atuaram na capitania martim-afonsinae depois no Rio.
Mateus passou-se para esta em 1623 e aí contraiu matrimônio com

100
Úrsula da Costa Caldeira, filha do hebreu Manuel Caldeira e de sua
mulher, Ana daCosta, tendo deixado diversos filhos,dos quais cumpre
salientar os padres Francisco e João de Moura, ambosdohábito de São
Pedro. Maistarde, ou seja, em 1630, vamos encontrar o padre lic. Tomás
de Mantila Ruedas em reunião do clero local, presidida pelo padre
Manuel da Nóbrega, o “arrevessa toucinho”, para, junto com os demais
colegas, escolherem o novo provisor e vigário-geral. O eleito foi o rev.
pe. Pedro Homem Albernás. Gozava, então, de grande prestígio o
referido padre Nóbrega, cristão-novo, tanto assim que,porsua influên-
cia, formou-se uma conjuração em 1636 contrao preladoseu contempo-
râneo, da qual, entre outros,fizeram parte um Fábio NoyaCalabrês,frei
João de la Cruz, provavelmente castelhano, um irmão de Nóbrega, e
“outros'?, Atmesmo, em 1639, o capitão de infantaria D. João de Avalose
Benevides casou com D.? Maria Correia, filha, ao que se supõe, de
Duarte Correia Vasqueanest?. Dos casados com mulheres de sangue
espanhol, são bem conhecidos Martim Correia de Sá e seu filho Salvador
Correia de Sá e Benevides, portadores estes de linhagem israelita.
A libertaçãode Portugal do domínio habsburgo trouxe perturbações
entre ossúditos das duas nacionalidades no Brasil. Osespanhóis, comoé
natural, permaneceram fiéis a Filipe IV,enquanto osJuso-brasileiros se
decidiram pelo rei bragantino. Houvecasos de prisões e sequestro de
bens, envolvendo, inclusive, algunscristãos-novos, de que trataremos
noutraoportunidade,
O ingresso de espanhóis cessou então quase por completoe bem
assim o intercâmbio com o Rio daPrata. A crise econômica do Reinose
aprofundou e se estendeuàs terras da conquista. As Capitanias do Sul axé
aí beneficiadas sofreram também o impacto,e os paulistas viram-se na
contingência de alterar O seu sistema de vida. Mas, uma vez que as
condiçõesgerais na capitania fluminense vinham melhorando de anopara.
ano, naturalmente o concurso teria que se acentuar para lá De 1641 à
1670, mais ou menos, constata-se a predominânciadefrancesese icalia-
nos, devido, certamente, a queosreis daEspanha se recusavam a admitir
independênciade Portugal, mas, aindaassim,diversosvieram fixar-se
no Rio. Dentre eles, certoGaspar de Molina, escrivão da alfindega, que
presumimos espanholou filho!; e em 1667,ou antes,o cristão-novoJoão
Tomás Brum, nascido na frequesia do Colegiado de San Salvador, em
Sevilha, filho de D. Manucl de Castro y Lara e de D.: Beatriz de Santllana,
e que, nesse ano,casou a 28 de dezembro na Igreja deS. José, com D*
Branca Rodrigues Coutinho, nascida na Guanabara, filha de Manuel

101
Gomes Mourão e de Isabel Cardosa, cristãos-novos. Faleceu João
Tomás no Rio,a 13 dejaneiro de 1686, deixandoosfilhos abaixo:
a) — Dr. Miguel de Castro y Lara, nascidono Rio e batizado a 7 de
maio de 1670, Foi advogado. Preso pela Inquisição em 6 deoutubro de
1710. Casou no Rio de Janeiro a 16 de julho de 1697 com a parenea Dt
Maria Coutinho,filha de Baltazar Rodrigues Coutinho e de Beatriz
Cardosa, ambos de linhagem cristã-nova. Tiveram diversos filhos, entre
osquais o Dr. João Tomás de Castro, médico. Preso pela Inquisição,
conforme dissemosjá, teve os bensconfiscados. Sua casa na rua do
Palácio valia 2.0008000. Deixaram geração.
b)— João Tomás de Brum,também nascido no Rio de Janeiro e foi
batizado ai a 14 de junho de 1677. Casou a 14 de janeiro de 1696 com
D.*Branca Isabel(ou Clara) de Morais, filha do advogado Dr. Guilherme
Gomes Mourão e de D.* Branca de Morais, ambosde linhagem hebréia.
Diversos membros da família Brum cairam nas malhas da Inquisição,
denunciados por praticarem O judaismo*?,
Operíodo das guciras da restauração portuguesa, que se estendeu
por vinte e oito anos,impediu fossem boasas relações com osespanhóis.
Firmadaa paz em 1668, duraria pouco, no Brasil, é de modoespecial nas
Capitaniasde Baixo,em virtude das lutas na colônia do Sacramento desde
1680. Mesmo assim sucedeua fixação de alguascristãos-novos no Rio de
Janeiro, sobretudo mercadores, o que bem revela a importância comer-
cial da cidade, Um destes chamava-se Francisco Antônio Henriques,
natural da freguesia de Santa Maria de Merida, na Espanha. Já estava
no Rio deJaneiro em 1683,e aquicasou. Exerceu a mercanciae também
foi lavrador de cana. Ele € a mulher mais tarde foram presos como
judaizantest?. Outro chamava-se Henrique Homem Pardo, caste-
lhano. Casou no Rio por volta de 1690, com umabastarda, mulara“*.
Igualmente, por volta de 1690, teve moradia na cidade, o indivíduo
João Rois Estela. Talvez se trate daquele jovem que aí se deteve em
anos passados, seguindo depois para Buenos Aires, onde veio à
tornar-se prefeito da Companhia de Jesus. Foi preso como judaizante
em 1673. Documentos inquisitoriais dão-no ora como castelhano,
ora como português, natural deLisboa. Machain informa que entrou
de arribada forçosa em 1634 e em 1641 casou com D.? Catarina
Salvatierra. Deixaram filhose bensde raizts. Um quarto, de nome,
D. FranciscoSalinas,castelhano,teve casa noRiode Janeiro cerca de
1696, mas depois retirou-se para Portugalf&. Por meio deles e de

102
tantos mais,a capitania mantinha ligações com as regiões do Prata,
Peru e partes doVelho Mundo.
Constata-se, pois, à luz daexposição feita, que o ingressode estran-
geiros europeus no Brasil foi uma realidade desde osprimórdios da
colonização; obviamente das nações com que Portugal mantinha laços
comerciais. Há, até 1580, uma leve preponderância de espanhóis, com
relação italianos, flamengos, ingleses € franceses. Aqueles primeiros e
estes dois, via de regra, foragidosdas embarcações quesulcavam o nosso
litoral ou abandonados pelos companheiros. Mas, no conjunto, são pou-
cos, e, mesmo assim, dispersos no seio das populações.
Noperíodo que se segue, caracterizado pelo domínio filipino, a
situação se altera. Cessa quase que porcompleto 2entradadefrancose de
britânicos, e dá-se a de algunsfilhos dos Paises-Baixos anteriormente à
independência das Províncias do Norte. O quese acentua é a de espa-
nhóis devido à união ibéricae à relativa proximidade com as regiões de
Castela na América Meridional. O ingresso efetua-se, então, por dois
meios: o direto e o indireto. E isto aconteceaté que, de novo, Portugal
readquira o domínio político, sacudindoo jugo dos habsburgos.
Os anos transcorrem. A Casa de Bragança vai aos poucos realizando
as pazescoma Holanda, Françae Inglaterra. A Espanha é a última De
sorte que,porunstrinta anos,são raríssimososestrangeiros a radicar-se
emnosso país. Mas, nas décadas finais do século,deparamos aqui com um
ou outro.
Sãoindividuos que chegam solteiros. Não casam de pronto, por
serem desconhecidos, ou porque falam lingua diferente e trazem outros
costumes. Alguns procedem de nações protestantes e, por isto, encon-
tram dificuldades. Existem os que,também, por serem daseiva israelita,
ou poralguma outra razão,tardam em achar a “cara metade”. Francisco
Antônio Henciques é um desses, pois tendo aportado no Rio com 25
anosdeidade, só se casou aos 31, unindo-se a Catarina Mendes da Paz,
filha de umadistinta familia de cristãos-novos*”. Leve-se, em conta,
porém, que o número de mulheres brancas, em idade de casar, estava
aquém dode pretendentes. Em São Paulo, pelo menos, havia muitas
mamelucas, ao passo que,no RiodeJaneiro,as poucas mulatas nãoeram
desejadas para os enlaces legicimados. Exceções não faltaram. Umada-
quelas, por exemplo,foi a mestiça de nomeEsperança Maria da Cruz, ou
do Desterro,filha bastardado padre BentoCardoso, cristão-novo,a qual,
por volta de 1690, casou como mercador espanho! Henrique Homem
Pardo. O motivo talvez estivesse não só na condiçãosocioeconômica do

103
progenitor dela, mas também nas afinidades érmicas. Nas veias da mulata.
corria sangue hebreu, « nas de Henrique parece que deslizava o camita,
deduzir de um dos sobrenomes.
Por conseguinte,o incracruzamento d béricos com estrangeiros, ou
de qualquer deles com as etnias ameríndia e hegra, aquise processou.
Naturalmente a que mais influiu foi a dos primeiros, sem esquecer a
contribuição sefardim.
Desse fato, decorre em grande soma, espíritode tolerância que
vingou nopaís, e bemassim O sincretismo de crenças é de costumes.
Aqui, se mesclaram tradições católicas,judaicas, indigenas e africanas,
ainda hoje patentes nasfestas, nos cultos, nocardápio cotidiano e em
determinadosusos.
Notas
= HC. Haring. Comércio Y Novegación entre Espana Y las Indias, passim
Ibidem.
Beleslao Levin. El SentoOficio em América, pasm,
J Tonibio Medina. Hlittoria del Tribal de a Inquis. de Lima, vol. Epp. IX e
Segs
TG. Salvador. Op, vit, pp. BI é segs
Carvalho Franco, Dicionário. p, 284,
= Ins. e Tets. deS. Paulo, vol. XVI, pp, 182 € 345,
“Re LHGSP, vol 47, . 568,
- Supomos que alguns dos referidos indivíduos sejam procedentes de sefarditas
expulsos da Península, ou que, voluntariamentese exilaram aa Brança, bem
como à outros cujos paisviveram na Inglaterra,naItália ou algures.
- Rabelo da Silta. Hist. de Portugal mos séculos XVII e XVII, past.
8 Ing. de Lithça, proc. 5436,
Den, Pio, 1595, p. 163,
ldem, 159, p- 485,
9 - UM. Schappes. UM TheJe im the Units Stats, pp. 6 e 566, n.º5.
10 = Eme Jud, Cast, vol. 1, po 367
- Um dos discípulos de Jesus, ou sejs, 0 apóstoloSão Pedro, era conhecidopor
“Simão bar Jonas”, Isto é, Simão, filho de Jonas, para distinguio de outros
homônimo,
11 - Por,Livro 1.º do Cofre e Bens do Conselho.
12 Eme. Jud. Cast. vol. 1, p. 367.
13 - Cecil Rosh Hit 0/ theJus im England, Oxford, 1941.
14 = O primeiro engenhodágua que nelas se conseruiu, pereencia a Diogo de Teive,
CarvalhoFranco. Disiomário, pp. 154 e 155.
= Idem, ibidem, pp. 9 e segs
- Ve. Simão Vasconcelos. Op, es, lis. EL, pp. 1 157
17 - BNRJ Ansi, vols. 25 € 27
- Pe, Vasconcelos. Op. cr, p. 158.
18 - Consulte J. Gentilda Silva. Siratéie des Affaire - Leres de Lisbonne,
- Pe. Vasconcelos. Op.ei, p 210.
19 - O simbolo totêmico da tribo de Benjamin, um lobo, em Portugal, convertia-se
no Loup,dos franceses; no Wolf,dos ingleses, assim por diante.
20 - Sempre que possível, os hebecus ao se butizarem na religãão cristã, escolhiam
os padrinhos entre os das mais altas classes. Assim, os boas profissionais
buscavam-nos até no seio da nobreza
21 - Carvalho Ecanco. Op.cit. p. 38.
22 - Varnhagem, Hétl. Geral do Brasi, vo. 1, 180, nota,
= Taunay. Hist da Vile de São Paulomo téeulo XVII,p. 173.
= Ibidem, His. Seis da Vila de São Paulo, vol. TV, p. 330.
= Ines, e Tests. vol. VI, 41 a 77.
23 - Carvalho Franco. Op cit. p. 178,
%á » 1. G. Salvador. Op cr.
25 - Bem mais tarde, em 1690, 0 nome de um seu descendente aparece registrado
como Mauei da Fonseca Boino, Veja, a propósito, Res, 1 H1.6.B., Tomo Espe-
cial, 1, 1956, pp. 19 e BO.
26 - Encyelepélia Judaica, Berlim: Verlag Eschkoe AG. 1929, vol. IV, p. LITÁ,
- Enc Judaica Castlhama, vol. p 408.
= Loro 1.4 do Cofee e bens do Comlho da Parto. Veja-se a obra de Arthur Carlos de
Barros Bastos, 01 judeno Velho Ponto, pp. II-12.
- Pre. da ng. de Coimbra, 0.05 4650 € TOBA e Ing. de Lisboa, 11550, 1770.
- Antônio José Teixcira, António Homem e a Ingaiiição, Coimbra, 1902.
- Melo Morais, BratiHistórico, 2 Série, 1867, temo ILp. 134.
= Atar da Câmara Munit. de S. Paulo, vol, 12 do orig. fi. 85
27 e ulmes, é Teste. vol. L9p-13 « egos vol IL Pp e segs
- Silva Leme. Op, ct, vol, 4,99-428 e segs: vol, 7PP315 e segs.
= Atar da Cam. de S. Paulo, TH, 217.
= A, Taunag,His. des Bandeiras, 1, 185-190.
- Roque Leme. Op, cit, em Rev LHGSP, vol XXIp. 210,
28 - Arg, do Distr Federal. Rio de Janeiro: Pref. do Distr. Fedecal 1894/1953.
- Pref. do Diste. Federal, Litro de Ordens« Prossões Rea, Rio de Janeiro, 1928/
1929.
= Felisbelo Freire. His. de Cade do RjodeJaneiro, Rev. dos Tribunais
- Silva Leme, Op. et, vol. 4, pp. S08 e segs
= Ins. e Tests. deS. Paulo, vol 1,89,
- Ce Me, de S. Paulo, Est 1, Gt,0.º 39: Est 1, Gt7, n.º 103,
29 - Carvalho, Franco. Os Camergor de São Paulo,São Paulo: Gráfica Paulista
- Silva Leme. Op. cit
- Roque Leme. Op.et,
= Cecil Roth. À History af the Marzamos, pp. 217, 356.
= M. Bucílco. Erasmo y Espanba, pasim.
30 - Cecil Rosh. Op. cs, asim,
= Eme Costlana (Judaica), vol. VIL
31 - C. Franco, Nebiliório Colonial, p. 15.
= ReAMS,P, vol LXV, pp. 51 e segs
= Ing.de Lisõos, proc. 5724

105
32 mes é Test, vol. IV, pp. 205 e segs
-ABNRJ. vol. 49, 1956, pp. 77 segs,
- Bivar Guerra. Um Caderno de Coifrzon-menos po TO.
35 - Silva Leme. Op cit, vol. VII, pp. 537 e segs
= Cecil Roth. Op. cit, pp. 311,338
34 - Ingu de Lisboa, proc, 9973,
35 - Re LHGSP. vol XEVILp. 326,
= IsacCosta. Noble Emilie ep. ct
36 - Re LHGS.P. vol XLpp 77 e 378,
= Alão de Morais. Peda?. Lenstema, t IV. vol. Lp. dO.
37 AH,Ep Santoex L
= Ing. de Lisboa, procs, 9978, 5447. 5206
38 - Vieira Firenda. Antigualhas é Memórias da R. de Janci,
= Arquivo do Distr. Federa, ap. ci
39 =- CF Bb. 1591 - De Bh, 1591
BPMPio. Ms, BZ,anvigo, 442 ama, p. 167
- LHGB. le 218, doe, 6410.
dO - Rhcinganz, Op. cs, vol. 1, pp. 377 378,
4L = BNRI, Aneis, vol. 39, pp. 55, 64,75
42 = Ing. de Lisboa, procs, 4146,1558, ca
= Rheingante. Op cit, pp. 270 é 331
43 Ing. de Lisboa. proc. 6004
44 Ing. de Lisbna, proc. 1365
45 - dem, proc, 11492.
- Medina. La Ing. em el Rjo de la Plato, pp. 246
= Machain. Las Portauser em Busca Aires, p. 167« 247
46 + Ing. de Libna, proc. 11480.
47 + Catarina era naruraldo Rio, Glha de José Fernandes de Miranda e de Isabel da
Paz. O casamento eferuou-se a 18-XI-1688, Rheingante. Op. it, Lp. 99.

106
CAPÍTULO SEXTO

CRISTÃOS-NOVOS PORTUGUESES RADICADOS


NAS CAPITANIAS DO SUL.

Já está evidente que elementos da nação bebréia alcançaram o Brasil


desde, pelo menos, instituição do regime das capitanias hereditárias,
nestas condições capazes de atraílos. É assim que antigos documentos
cente. Se é verdade que numerosos judeus, solteirosou com as respec-
tivas famílias afluíram para a de Pernambuco e as adjacentes, é certo, de
igual modo, que também o fizeram para à de Martim Afonso, havendo
nesta condições capzes de atraílos. É assim que antigos documentos
revelam a presença em São Vicente do tabelião Tristão Mendes « fam.
lia, nos idos de 1549, e outras fontes projetam luz sobre época mais
remota ainda, bastandoceporar-nos ao desembarque de Lopo Dias e de
Estêvão Gomes da Costa, pioneiros da colonização nestas plagas!.
No Rio de Janeiro e Espírito Santo o mesmofato se repere. À
presença de cristãos-novos na Guanabara já se constata ao tempo da
memorável campanha de Estácio de Sá contra os franceses, sendo que
vinte anos mais tarde deveriam constituir um grupo apreciável, por-
quanto após a chegada do primeiro administrador-ecesiástico, Dr. Bar-
tolomeu SimõesPereira, em 1578, sofreram uma perscguição, movida
ou consentida por ele, Escreve Baltazar da Silva Lisboa, ou quem tenha
sido o autordosoriginais em que se baseou, que a população, esperando
em meio às agruras da peste que grassara, fosse o prelado umabênção,
este, ao contrário, agravara-lhe os padecimentos, não dando o anelado
amparo consolação, nem protegendo os judeus de opressões e perse-
guições, “maltratados e atroz.º castigados",
própria criação desse cargo eclesiástico para a Repartição do Sul,
teria no afluxo cadavez maior de cristãos-novos e de judaizantes uma de

107
suas causas. É certo que os vigários desempenhavam algumas funções
como delegados do Santo Ofício?, mas, quando se julgou necessário,
criou-se a prelazia, cujas atribuições eram mais acaplas,axé que,porfim,
se instimiu O episcopado, exaramente no momento em que a maré
imigratória atingia um ponto elevado.
Isto posto, vejamosaqueles individuos e famílias de linhagem hebréia
que se radicaram nas três capitanias, « dos quais possuímosalgumaprova.
ou evidência. Não lhes exporemos à gencalogia por completo, mas,
apenas,até ondea julgamosimprescindível.iniciando pelos mais antigos
moradores vindos para cáa partir do regime das donatárias, chegaremos
aos estertores do século XVII, consoante os objetivos em vista no pre-
sente crabalho.
A
CRISTÃOS-NOVOS RADICADOS NO ESPÍRITO SANTO.
As condiçõesdacapitaniacontinuaram bastante dificeis após a renún-
cia que eferuou o primeiro donatário, Vasço Fernandes Coutinho, exau-
sido de recursos e vendo debelados os esforços até aí empregados. Os
ataques dos indígenas tinham reduzido quase tudoao estado primitivo. A
vida tormara-se duríssima, Os franceses de quandoem quando rondavam
a modesta povoação, aumentandoas aeruras dos poucos moradores.
Vitória ficara ameaçada de quase total isolamento, quer do Reino, quer
das demais capitanias, embora a terra desse mostras de prodigalidade.
Por isto, osjesuítas estabeleceram casa ali, alguns burgueses ibéricos
anos depoisvieram instalar engenhos de açúcar, com o que se reanimou
de novo aimigração, é entre os que chegaram conta-se, porvolta de1566
ou 1567, o hebreu Manuel Álvares de Barros, homem interessado no
comércio, pois dedicou-se ao trato de mercadorias na vila e noutras
parces. Em sua companhia trouxe a mulher, Liznor Roiz,igualmente da
estirpe, e dois filhos ainda crianças, os quais lhes nasceram no Porto:
Bento Teixeira, com cinco anos ou seis anos e Fernão Rodrigues da Paz,
com mais ou menos sete, É o próprio Bento quem, achando-se preso em
Olinda, no ano de 1595, e submetido a processo inquisitorial, nos
esclarece em documento dirigido ao Visitador do Santo Ofício,dizendo
ques
“oeio comsepai émãe doReino à capitania doE. SantopartedoBrasil, de
idade de sinco para seis amos, é na dita capitania sendo da tal idade
começou aaprendercom 0 reverendospadresda CompanhiadeJestst..

108
Foram esses os dois únicos filhosdocasal, contrariamente ao que
pensava Rodolfo Garcia, que distinguia Fernão Rodrigues da Paz, de
Fernão Rodrigues. Nem a família teria vindoprimeiro para a Bahia. As
testemunhas que depuseram no processo de Bento mencionam apenas
este e o segundoirmão, comprovandooutros documentos que os sobre-
nomes dados a Fernão referem-se a um só individuo. Vê-se que ambos,
isto é, Fernão Rodrigues, « o da Paz, são naturais do Porto c exercem
idêntica profissão,qual seja, a de mestre de ensinar meninos, em Itama-
racá. Eo que é mais: em 1594 os dois contam trincae cinco anos deidade,
não se devendoestranhar que em julho desse anodissesse er trinta e
quasro, « cinco meses depois os trinta e cinco.
A família demorou-se no Espírito Santo algum tempo, segundo se
depreende do testemunho da depoente Maria Álvares que,viajando do
Reino, ali chegou pos volta de 1570, estando o menino Bento com oito
para dez anos, e ela conviveu com todos por uns dois anos mais.
Daí, em busca de melhores oportunidades, mudaram-se os Alvares
“de Barros para o Rio deJaneiro entre 1572 e 1574,afirmam-no Isabel e
Simão Fernandes, Essa declarou conhecê-los na cidade de São Sebastião
há vinte e um anos, ou seja, em 1574, e este último, em mais ou menos
1575. Também o referido Bento Teixeira no documento ao visitador
Mendonça, escreveu que,da capitania de cima, foi com opai e amãepara
o Rio deJaneiro, onde, novamente, se matriculou naescoladospadres da
Companhia de Jesus, com os quais “aprendeu a lasinidade e casos”. E, só
então, veio com os progenitores para a Bahia, na qual os mesmos
faleceram. Nesta viviam parentes seus, todos cristãos-novos;entre eles
Henrique Roiz Barcelos, feitor de engenho,e que antes fora associado
num destes estabelecimentos no Espírito Santo; Miguel Fernandes, e
ousros. Na Bahia, Bento Teixcira desfrutou da proteção do bispo D.
Antônio Barreiros caquanto andou nosestudos,recebendo porconta do
antiste sustento e roupa. Anos mais tarde,já feito moço,abriu uma escola.
em Olinda, dedicando-se ao ensino de meninos.
O irmão Fernão Rodrigues da Paz ainda permaneceu no Rio de
Janeiro, ou. pelo menos, por lá andou por volta de 1577. Contava
dezessete anos: fato que não é para estranhar, aínda que, por acaso,lá
vivesse sem osfamiliares. As circunstâncias compeliam às vezes os
cristãos-novos à deixarem o lar bem cedo,de que temos exemplos em
JoãoRodrigues Estelae em Isaac de CastroTartas. O primeiro, depois de
penitenciado pela Inquisição de Lisboa, evadiu-se para o Rio deJaneiro

109
em 1628 ea seguir para BuenosAires,contando quinze anosapenas. O
segundo éum dosmártires clássicos doSantoOfício. Seuspais, Cristóvão
Luís e Isabel da Paz, marranos portugueses, de Bragança,refugiaram-se
na França e aí, em Tartas, cerca de 1625, nasceu Isaac, ou melhor, Tomás
Luis. Depois a família passou a residir em Amsterdã. Em 1641, com
dezesseis anosde idade, Isaac embarcou para o Recife, em busca de
futuro. Em 1644 achava-se na Bahia, e tencionava descer ao Rio de
Janeiro a fim de recambiar os parentes ao judaísmo, quandofoi preso.
Enviado aLisboa, os inquisidores condenaram-no,por fim, àpenacapital,
nas chamas, em 23 de agosto de 16478
Voltando aos irmãos Fernão e Bento. Aquele permanecia solteiro
aindaem 1594, mas o segundo casara-se com Filipa Raposa,cristã velha,
que lhe causou algunsdissabores, inclusive o de adultério, pelo que a
assassinou em fias desse ano. Nesse entrementes, foi preso por heresiae
jadaísmo e enviado para Lisboa, ondefaleceu, doente, no mês de julho
de 16008.
Outra família, contemporânea dessa,foi a de João Roiz, marido de
Catarina Álvares, residentes antes em Lisboa, em cuja cidade viviam da
mercancia. No Reino estes dois tinham incorrido nas penasda justiçapor
cercearem moeda « serem culpados na morte de uma jovem. Em conse-
aiiência, foi ele remetido às galês« ela ao degredo na capitania do Espí-
rito Santo, por volta de 1570. Trouxe, então, para cá os filhos consigo,
segundo informes de sua filha Maria, à 23 de setembro de 1595,na vila
de Olinda, quando chamada a depor nos autos de Bento Teixeira. De-
clarou entre outras coisas:
“anera vinte e cinquo annos que ella teste desembarcou na capitania do
spéritu Stº do Reyno e que ma dita capitania conheces então ao paie mai
do ditto bento teixeira (...)”,
Catarina Álvares, no Espírito Santo, supria as necessidades dolar
ensinando moças a cozinhar e à bordar. Praticava o judaísmo. Certafeita,
disse a um jovem de nome AndréJorge, certamenteda gente da nação,
criado de soldada, ou se preferirmos,diarista, de Pero de Andrade, que
o Messias ainda não eravindo, mas quando viesse, os ceistãos-velhos, que
apelida “canis”, haveriam deser escravosdosjudeus. evidenciandoassim
certos ressentimentos entre os de ambas asecnias.Uma vizinha, Catarina
de Lemos, mulher de Manuel de Andrade, ceistão-novo, contou que à
referida fora vista um dia, por volta de 1582, “dentro de sua camara
acontando com bs cordeis a brum crucifixo (..)”

“o
Afinal, cumprindoo exílio que lhe fora imposto, c já decorridos
alguns anos, Caracina Álvares regressou a Lisboa, onde vivia ainda em
1594, ao queparece, na companhia do filho Palos Roiz, homônimo de
certo mercador quevamos encontrar morandono Rio de Janeiro desde a
segunda década do século XVII, casado com uma cristá-nova, e que
ralvez seja o mesmo.
Descobrimos-lhe os filhos seguintes, conforme abaixo:
- Maria Álvares, natural de Lisboa, nascida cerca de 1563. Casou
noEspírito Santo com ocristão-novo Luís Anquncs, boticário.se
Mudaram-se depois para Pernambuco. 2) - Manuel Álvares, o quale de
casou comIsabel Roiz, irmã de Luis e ambosfilhos de Rui Gomes
Guiomar Lopes. Resídiram também em Pernambuco. Em1593 tinham
idoparaLisboa. 3) - Violante Álvares, Casou no Espírito Santocom um
individuode alcunha “o Mirandinha”, mercador, e ainda aí permane-
em 1594. 4) - Palos Roiz, que se estabeleceu em Lisboa como
rcador é cambém aí se encontrava em 1593. Já atrás referido7
É pouco depois dissoque vem estabelecer-se na capitania o boricá-
rio Luís Antunes e família, cuja ascendência remonta no Brasil aos
hebreus, judaizantes, Rui Gomes, ourives de profissão, homemde
pequenoporte, e sua mulher Guiomar Lopes. Em 1594, sendojá
idosos,residiam estes em Olinda, defronte à porta principal da Miseri-
córdia. Parece que se transferiram doEspírito Santo para lá. Ruí foi
denunciadoà Visitação por guardaro sábado, aopasso que, nos domin-
gos,trabalhava e vendia. Alegou, contudo, emsua defesa,assim proc
em hon de Nº Senhora. Sabemos serem filhos do casal: 1) - Luís
Aarunes,atrás referido. Eranatural de Évora, tendo nascido por volta
de 1555. Em Lisboa aprendeu o ofício na botica deGarcia Nunes,
quando contavacerca de vinte anos. Veiodepois para o Espírito Santo,
casando-se com Maria Álvares, filha de Catarina e deJoão Roiz, já
descritos. Anos mais tarde, tornou a mudar-se. Desta vez para Olinda,
estabelecendo-se no seu mister junto à moradia dopai, em 1595. Eleea
mulhertambém foram denunciadosao delegado do Santo Ofício.
Bento Teixcira considerava-a uma boacristá. 2)- Isabel Roiz,já referida.
Foi casadacom Manuel Álvares. 3) E. . casada comPero de Lcão?.
Os irmãos Andrade, Manuel e Pedro,já estavam residindo noEspí-
sito Santopor volta de 1582. Amboseram cristãos-novos tinham
posses. Manuel casara-se com Catarina de Lemos, cristi-velha, que
também ali residia, Depois de 1585 foram a Lisboa, e no regresso ao
Brasil preferiram fixas-se em Pernambuco, então em grandedesenvol.

11
vimento. Em 1594 estabêleceram-se na freguesia de Santo Amaro, no
engenho de Pero Cardigo, maridoda crist-nova Isabel Mendes. Em
Pernambuco dedicou-se à lavoura.
Pedro de Andrade, Pouco sabemos a seu respeito. Era cunhado de
Catacina Álvares, atrás, com cujairmã teria casado?
Por esse tempo veio suprir-lhes a lacuna o mercador Miguel Gomes
Bravo,figura que não se deve confundir com alguns dos homónimos,
todos da mesma linhagem.
Os Bravo, Gomes Bravo e Mendes Bravo procediam de antiga
família isruelita estabelecida inicialmente na Espanha'?, de onde passa-
ramaPortugal, tanto que, em 1558, deparamos com um Miguel Gomes
Bravo, cidadão no Porto, e que admitimos ser cristão-novo, assim
como,na verdade, eram os que se passaram dessa cidade para o Brasil.
Este foi contrarador das ilhas dos Açores e teve a garantir-lhe o arren-
damento um Francisco Bocarro, quiçá também da progênie, a exemplo
do cronista Antônio Bocarro e do médico Manuel Bocarro Francês,
Conforme se observa, Miguel era negociante, ocupando-se não do
trato, mas de transações com a Fazenda de el-rei, atividades tão peculia-
res aos da nação hebréia. Com o seu exemplo, abria, assim, caminho à
parentela. Em 1559 tomou sobre si mais um arrendamento. Desta vez
foi o das alfindegas de Entredouro, em sociedade com Miguel Fernan-
des Pina. Ignoramos quando faleceu e que descendentes deixou,
Ficaram-lhe alguns bens, Em 1586, sua mulher vendeu propriedades a
Diogo Fernandes dElvas"
Os Bravo radicaram-se especialmente no Porto. Dalivieram Hércu-
les Bravo, quese fixou na Bahia, Miguel Gomes Bravo, homônimo do
acima, que se estabeleceu no Espírito Santo e depois no Rio
€ Rui Gomes Bravo que, de Lisboa, veio também para o Rio.deJaneiro,
Além de
Outros, já antes da primeira Visitação.
Hércules « sua mulher Margarida Dinis
entremeou com os Piçarra de Vargas, osdeixaram geração, a qual se
Moura Rolim e os Silva
Pimentel. Dentre seus filhos cumpre destacar Diais Bravo vindo do
Porto com os pais, antes de 1591, e consta ter sido um dos colaborado-
tes dos holandeses quando tomaram a capital baiana. Casou com Beatriz
Nunes, filha de Rui Gomes Bravo. Em 1660 vamos encontrá-lo, um
parente de igual nome,residindo no Espírito Santo, devendo serouentão
homem de idade avançada. Teve os irmãos, Álvaro Gomes Bravo, que
Se relacionou com o Rio de Janeiro, « Pascoal Bravo que também
colaborou com os holandeses?

12
Miguel Gomes Bravo fixou-se no Espírito Santo em 1585, ou pouco
depois, e nesta capitania demorou longosanos, mantendo-se ficl ao
espírito e às tradições judaicas, os quais procurava reviver entre os.
neocristãos. A semelhança, também, de tantos de sua nação, dedicava
se ao comércio. E quem nos dá o informe é cristâ-nova Antônia de
Oliveira, em sua confissão ao Santo Ofício,na cidade de Salvador,a 5 de
outubro de 1591. Esta senhora residiraantes com o marido na capitania
de Vasco Fernandes Coutinho, onde tornaram-se amigos de Miguel.
Declarou ela
“que seu compadre Miguel Gomes cristão-novo mercador morador no
Espérito Santo averá seis amnos dixe a ellaconfessante que então morava
tambem no Espórito Santo costa deste Brasil per muitas vezer vendo a
rezar, estas ballauras , como reza e não sabe como se ha de salvar,
dizendo-lhe mais que os antepassados della sabiam comu se haviam de
istória do bezerro douro
salvareque todos estanão maglória, ebeconsou aMousés
quando os filhas de Ierael ydolasrarão estando no monte e que
queriam dizer dos que adorarão procedem os iuguos (jugos) daquella
nação, e lhe dixe mais , vendo que eljejuava como se cstuma na Sancta
Madre igreja , que seus avis jejuavão doutra maneira'"S.
Miguel Gomes aparece antes disso como testemunha em certidão
passada pelo provedorda Fda. Real, em Vitória, a propósito dos bens
que ficaram por morte do tabelião Antônio Manuel, « nela assina-se
Miguel GomesBravo. Ainda permanecia na capitania em 1610, pois
achando-se agora no Rio de Janeiro, sua presença é registrada como
“estante”, mas tal não sucede mais em 1613, data em que já está
morando nesta cidade. Era casado com Isabel Pedrosa de Gouveia. À
geração de entre ambos difundiu-se e alcançou projeção no Rio de
Janeiro!
Outrafamília notável pelo número de membros, porseu relaciona-
mento e por seu apego às tradições dos judeus foi a de Gaspar Dias da
Vidigueira.
Gaspar veio centar a vida no Brasil. Aportou primeiro, segundo
presumimos, em Salvador, mas, por volta de 1561 fixou residência na
vilade Porto Seguro, dedicando-se ao amanho da terra. Aílhe nasceram.
filhos. Como cristão-novo que dizia ser, praticava, contudo, o ju-
daísmo, €, por isso mesmo, em visitação que ati realizou o padre
Francisco de Alvarenga, enviadopelo bispo D. Pedro Leitão, ficou com
o nome arrolado no competente livro, como judaizante. Note-se bem

13
esse fato, porque osbispos não só inspecionavam direramente as áreas de
sua jurisdição, mas comissionavam outros para tanto. Constava que O
acusado,entre outras coisas, levara no quadragésimodia do nascimento
uma criança sua q certa hermida para apresentá-la com uns pombos,
conforme à tradição dos hebreus.
Esta família deixou fama de suas práticas judaicas nos lugares por
ondese deteve. Diversas pessoas acusaram membrosseus ao visitador
de 1591, na Bahia « em Pernambuco. Vigiados de perto no Reino pela
Inquisição, no Brasil cultivavam a fé mosaica sem grandes sustos.
Porto Seguro tornou-sefoco de judeus no último meioséculo do.
quinhentismo. São conhecidos os nomesdealguns. Destacamos, por
exemplo, Álvaro Pacheco,sobrinho de Gaspar e de sua mulher Ana
Roiz, O qual, igualmente, era praticante do mosaismo e proselitista;
Henrique Mendes, alfaiate primeiro e depois cortador de pau-brasil, e
sua mulher Violante Roiz, irmã de Ana; Rui Dias Bravo, aparentado
com essa família por sua mulher Antônia Roiz, ou Rodrigues, « estes
tiveram uma filha que vcio morar no Rio de Janciro, casada com
Francisco de Lemos de Azevedo.Lá viveram DuarteNunes é família, que
também se cransferiram parao Rio deJaneiro; lámilitou o capitão Gaspar
Curado e seu contemporâneo escrivão da capitania, lá íniciou suas
atividades no Brasil o espanhol Filipe de Guilhem,anres de 1539. Por lá
andaram, outrossim, Antóvio Nunes, Diogo Lopes Ulhoa e tantos
mais!s,
De Porto Seguro, Gaspar Dias da Vidigueira e família, inclusive
“genro,vieram habitar no EspíritoSanto entee 1580 e 1585.Ele faleceu
antes de: 1591; Ana ainda vivia ao tempo da primeira Visitação, porém
em Salvador, na Bahia. Era filha de Fernão Lopes e da Branca Rodrigues;
e, portanto, cunhada do bacharel Me. Afonso Mendes de Leão; tia do
cônego da Sé, padre Manuel Afonso e parente de diversos que se
passaram para o Rio de Janeiro, a saber: o Dr. Bibentão, a filha de Rui
Dias Bravo e Antônio GomesVitória.
O casal teve, ao menos,os filhos seguintes: 1) - Antônia de Oliveira.
Nasceu em Porto Seguro, cerca de 1561, Era a mais velha. Casou por
volta de 1574 com o cristão-novo Pero Fernandes, mercador, de qua-
renta anos mais ou menos em 1591. Em 1585 já estavam no Espírito
Santo. Retornaram a Porto Seguro e, por fim, à cidade do Salvador.
Admitimos que Jorge Fernandes, progenitor de Pero, e família,
também foram moradores no Espírito Santo. À mesmadevia pertencer
Beatriz Fernandes,referida por Bento Teixeira, parteira, presa porju-

114
daísmo!s. 2) - Catarina Gomes. Casou com Salvador da Maia, marrano,
“manco de um pé, o qual morou primeiro em Ilhéus e depois na Bahia.
Corria fama que matara a primeira mulher. Dizia-se, outrossim, que cle
sabia livrar-se perante o bispo das queixas que lhe movia. De fato,
levantaram-se muitas acusações ao mesmo Salvador perante o inquisidor
Furtado de Mendonça, pelo que foi preso e processado. 3) - Branca
Rodrigues, a qual casou comDinis Eanescristãonovo, em Porto Seguro.
ondeele já se encontrava em 1565. Viviam ah em casa de sobrado, que,
ao mesmo tempo,servia para efetuarem Esnoga, ou seja, reuniões para
práticas mosaicas, sob o disfarce de jogode cartas,e às quais concorriam o
dito Dinis, o sogro chamado Henrique Mendes, mouco, casado com
Violante Roiz, irmã de Branca Rois (avó de Branca, acima)e Antônio
Nunes.
De Porto Seguro este casal mudou-se para o Espírico Sanco é bem
assim oueros da família. Chegaram à capitania em 1585 ou antes, Nesse
ano, Dinis Eanes, Miguel Gomes Bravo e mais três indivíduos assinaram
em documento passado na vila de Vitória a 25 de abril. 4) - Diogo
“Afonso — Nacural de Porto Seguro, nascido por volta de 1565. Resídiu
com a família no Espírito Santo. Em 1592 continuava solteiro e sem
ofício. Gostava de tocar viola Dois anos após um homônimo pedia
sesmaria no Rio de Janeiro, mas ignoramosse se tratava da mesma pes-
soa. 5) - Marias Roiz — Em 1591 achava-se residindo aa Bahia. Era
moço e doente. "Andata sempre com as contas na mao” a rezar, pelo que o
admoestou a ria Maria Lopes, viúiva de Me. Afonso, a abandonar tal
embraciamos,ainda, que por esse tempo, o padreJosé de Anchicea
iniciava na capitania espiritossantense suas funções de sacerdote,só as
deixando por morte, ocorrida em junho de 1597, após dez anos de
profícuo ministério.
De modoque, em finsdo século XVI, havia no Espírito Santo um
bom grupo de ceistãos-novos, constituído por diversas famílias. Alguns
dosfilhos solteiros contrairam matrimônio aqui com pessoada sua ceia,
porexclusivismo racista,porafinidade de tradições e porserem poucasas
mulheres criscis-velhas. A maioria era de judaizantes e, como tais,se
reuniam em sinagoga nas sextas-feiras à noite, sob direção domercador
Francisco Rodrigues Navarro, homem já avançado em idade. Funciona-
vam, então, diversos engenhos na capitania, e quase todos pertenciam a
cristãos-novos, o que explica a existência dareferida comunidade. Toda-
via, certos casais preferiram mudar-se para a Bahia ou Pernambuco,que

115
lhes ofereciam melhores condições e perspectivas. Mas outros, lhes
vieram tomar 0s lugares.
Assim, vamos enconerar a Diogo Dias Sanches instalado na vila de
Vitória desde mais ou menos 1602, quando o referido contava cerca de
trintaanos deidade, Viviade suas mercancias, e mantinhatransações com
a Bahia « o Reino. Parece ser um dos implicados no contrabando de
pau-brasil com Rodrigo Pedro € outros, por volta de 1618.
Diogo possuía familiares em Amsterdã, reconhecidamente judeus,
dos quais convém salientar os Martins Viegas. Supomo-lo,à vita disso,
filho de Marcos Dias que vivia em Lisboa no ano de 1617. E daí se
compreende porque os reis habsburgos tanto receio tinham do inter-
câmbiocom os da Holanda, e com razão. Porsuavez, Diogo eraprimo de
Diogo Dias de Moura residente em São Paulodesde 1619, pelo menos, e
provavelmente de Gaspar Dias de Moura, cristão-novo da Bahia, ao
tempo da visitação de 1591. Aindaresidia em Vitória no ano de 1627,e
nesta foi compadre de Marcos de Azeredo, provedor da Fazenda Real na
capitania. Cremos ter deixadogeração aí,e não é para se duvidarque um
descendente,Jerônimo Dias, casado com Isabel Mendes em 1636, refe-
rido por SilvaLeme comofilho de Diogo Dias Sanches, se tenha passado
para São Paulo.
Outro elemento da família que também se fixou no Espírito Santo,
chamava-se Pedro Dias Sanches. Casoucom Maria Cardosa, crisrâ-velha,
filha de Gaspar Dias de Ledesma. Enviuvando, realizou cla segundos
esponsais, agora com o advogado judeu, natural de Lisboa, Tomás de
Miranda, com quem diversas pessoas do Rio de Janeiro e do Espírito
Santo tiveram relações profissionais e amistosas
Pedro era mercador, « o governador Diogo Botelho fê-lo capitão.
Esteve implicado no tráfico de índios para a Bahia, onde os vendia. Isto
em 1606. No ano seguinte, com João Fernandes Anjoarrendou os
dízimos do Estado do Brasil. Sendo um dos que praticavam o judaísmo,
foi denunciado ao visitador do Santo Ofício, Marcos Teixeira, a Bahia, e
preso, remetido ao Tribunal em Lisboa?8,
Entre os senhores de engenho, contava-se o rico e influente Marcos
Fdes. Monsanto, mercadorcristão-novo,ligado ao Espírito Santo desde
1617, mais ou menos. Na qualidade de seu agente e feitor aí residia
Simão Luís, o qual viajava frequentemente para O Reino e demais partes
no Aclântico Sul. Trazia-lhe mercadorias de lá e as vendia aqui,
devolvendo-lhe novas espécies com o açúcar do engenho. Em 1628
precisou cobrar judicialmente uma dívida de Diogo Dias de Moura,

116
falecido há pouco, ocasião em que serviu como testemunha Diogo Dias
Sanches, o velho, primo daquele e compadre de Simão Luís.
Anos mais tarde, em 1647, tendo sido confiscado o mencionado
engenho, porque Marcos preferiu acompanhar Filipe IV, Simão
arrendow-o mediante contrato, « cuja vigênciaainda perduravaem 1645,
de modo que, assim, deixou de ser feitor do mesmo. Temosciência,
também, de queera parente de Marcos Fernandes Monsanto e cunhado
de Manuel da Costa Moreno e que tinha parentespor afinidade em
Castela. Não deixou filhos ao que consta. À última notícia que dele
possuímos, dão-no ainda em Virória, recebendo mercadorias de Portu-
“gal por conta de diversos, em 1648'º.
De alguns cristãos-novos que residiam na capitania sabe-se bem
pouco,tal o caso de Manuel de Paredes da Costa, a quem não devemos
confundir com um homônimo que viveu na Bahia, napenúltimadécada
do século XVI. Sem dúvida, os dois eram parentes, porque ambos eram
csistãos-novos e usavam o mesmo sobrenome; ambos eram naturais de
Lisboa; ambos tiveram filhos de nome Agostinho de Paredes, talvez em
homenagem a ancestral comum. De faro, o da Bahia teve por genitor
certo Agostinho de Paredes, alfaiate em Lisboa, e por genitora Violante
da Costa. À nosso ver,seria, então, tio de Manuelde Paredes da Costa,
que viveu no Espírito Santo. Ainda, porque este último nasceu porvolta
de 1588 e o da Bahia em, mais ou menos, 1555.
O Manuel, alvo denosso estudo, encontramo-lo no Espírito Santo
desde 1608. À 15 de março de 1618, servindode testemunha na devassa
abertacontraos oficiaisdaalfândega local, prestou declarações após jurar
aos Santos Evangelhos e disse contar mais ou menostrinta anos de idade.
estar residindo na vila de Vitória há cerca dedez. Veio, por conse-
guinte, aindajovem.
Nessa capitania Manuel contraiu matrimônio com Guiomar Roiz
Cabeça de Vaca, cristá-nova, nascida namesma. Aí lhes nasceram filhos.
Depois toda a família foi de mudança para o Rio de Janeiro, nela se
prejetando social e economicamente.
Posteriormente veio para esta mesma donatária a família Gomes
Fernandes, cujo tronco, porém, não nosfoi possíveldescobrir. Sabemos,
entretanto, que remonta aos genitores de Ana Gomes, a qual jáé filha da
capitania. Quer nos parecer que eles scriam aparentados com Guiomar
Roiz, mulher de Manuel de Paredes, porque ambas, Ana e Guiomar,
nasceram no Espírito Santo, mais ou menos na mesma épocae, nas suas
descendências, aparece o sobrenome Barreto, notadamente com Lucré-

“7
cia Barreto. Umaneta de Guiomar assim se chamou,e foi casada com o
ctistão-novo Diogo da Costa. Porsua vez, Ana teve umafilha de iguais
nome e apelido, e se casou com Tomás Roiz, também cristão-novo, de
quem descendem muitos Pais Barreto, do Rio de Janeiro.
“Ana Gomescasou no Espírito Santo com Gomes Fernandes e aí lhes
nasceram alguns filhos. Ocasal transferiu-se depois para o Rio deJaneiro,
onde a família frutificou novamente. Na Bahia, por diversas vezes,
fizeram-se acusações ao visitador Furtado de Mendonça, de um Gomes
Fernandes, o desnarigado, cristão-novo, judaizante, mas pode ser sim-
ples coincidência. Descobrimos seis filhos do casal, sendo que: 1) -
Lucrécia Barreto, casou com Tomás Roíz. Deixaram geração no Rio de
Janeiro. 2)- Francisca Pais, nasceu nesta cidade e nela contraiu matrimô-
aio com Agostinho Roiz, irmão de Tomás. Deixaram geração?!.
Ainda outro que se radicou no Espírito Santo foi Apolinário Lopes,
cujospais viveram primeiroem Pernambuco, de onde se mudaram parao
Rio de Janeiro, ou talvez para São Vicente, antes. O certoé que O
progenitor, Francisco Lopes, jáse encontrava no Rio, cerca de 1578, com
casa montada, conforme veremos mais adiante. Nesta última exerceu
cargos e deixou geração.
“Apolinário Lopes, que foi um dos filhos de Francisco, casou com
Marta del Rioe passaram a morar no Espírito Santo, ondefaleceram antes
de 1622, segundo se depreende doenlace de seu filho Alonsodel Rio (ou
dos Rios?), com Simoa de Góis, na Sé do Rio deJaneiro,a á de abril do
referido ano. Aqui deixaram descendentest?.
As visitações do Santo Ofício em Portugal e às capitanias do Nor-
deste brasileiro, cal como que realizaou à cidade do Porto em 1618,
cuja ação se prolongou à Bahia através do enviado inquisitorial Marcos
Teiscira, avraram para o Sul numerosos, judaizantes, muitos dos quais
ainda jazem ignorados. Um deles, chamado Aleixo Fernandes, não pôde
ser localizado. Havia pessoas que os conduziam de um lugar para outro,
cobrando, em semelhante situação, valiosas quantias, Sabe-se, por
exemplo,que na Bahia, ao tempo dovisitador Mendonça, o escrivão da
alfindega, Diogo de Amorim Soares, deixou partir para as Capitanias de
Baixocertos navios,estando proibido de fazé-lo. Entreestescontava-se o
de seu irmão Gaspar Soares, que residia no Espírito Santo, e o de
Francisco de Araújo, seu cunhado, que também partiu sem licença,
embora avisado por duas vezes que devia aguardar ordens. Em conse-
quência, Diogo foi preso, sendo obrigadoa penitência pública na igreja
da Sé a fazer abjuração da falta cometida. De sorte que alguns

118
indivíduos encontrados nestas capitanias a partir das visitações de 1591,
1618, 1627, e quem sabe de outras, seriam marranos fugidos à ação
inquisitorial” Assim, tomamos conhecimento através de um relatório do
li, Pires da Veiga, que em 1628 esteve no Espírito Santo a servico do
Tribunal, de certo cristão-novo, já falecido, que abençoava O neto
segundo a mancira judaica. Também lhe foram denunciados Aires
Nunes d'Ávila, irmão dolicenciado Gonçalo Nunes «'Ávila, porque
queimara uma cruz.e Manuel Fernandes dElvas, porque sevangloriava de
pertencer à nação dos hebreus. Parece que 0 então governador da
capitania, Gaspar Álvares de Siqueira, era dos mesmos, pois foi denun-
ciado na ocasião porfaltasgraves. Em todo caso,suamaneirade proceder
comoautoridade favorecia o comportamento dos judeus, nem sempre
dos melhores?* 4 ao
A Inquisição mantinha incranquila e em permanente circulação
elemento hebreu, notadamente à classe burguesa, formada por merca-
dores em sua maioria. Bastava a prisão de um deles para quea parenecla
se movimentasse à procura de asilo seguro, certa de queseria envolvida
nos autos processuais,e então, à fim deescapar a igual desdita, seus
membros se dispersavam c mudavam de um lugar para outro seguida-
mente, duas a três vezes, € até os que se encontravam no além-mar.
Inclusive quando o Tribunal de Gôs, no longínquo Oriente, punha a
mão sobre algum dos da grei. Dois desses casos ligam-se às capitanias do
Espírico Santo « Rio de Janeiro, pelo que 0s vamoscitar.
Em 1641 achava-se na cidade de Gôa o mercador lisbonense Afonso
Munhoz (ou Manhos) de Lima, a convite do tio materno, Afonso Mu-
nhoz, cristão-novo, que o chamara para negociarem juntos. Sua tividade
mercantil estendia-se a Moçambique. Em 1646, quando se encontrava
nesta, soube que esse fora preso, por conseguinte fugiu. Em maio
chegou ao Espírito Santo, onde vivia um amigo deinfância, Manuel
Fernandes Anjo, filho do mercador cristão-novo Luiz Fernandes Anjo,
de conhecida família, burgueses muito ativos no comércio pormguês, o
qual aqui também se dedicava ao comércio « tinhaolaria, Mas,talvez não
se sentindo seguro, ou para despistar, Afonso Munhoz de Lima embar-
cou para o Rio deJaneiro, sendo hospedado por outro amigo, seu velho
conhecido, Manuel Gomes Inigo. Os da progênie israelita encontravam
por todaparte pessoas de suas relações, e quando não,sempre outras que
lhes davam boa acolhida. Em 1648, Manhoz estava em Lisboa aínda em
1653. Desta, por último, foi depredado para o Maranhão por crime
cometido. Anos depois é preso em S. Luís, por bigamia, e remetido à

"9
Inquisição de Lisboa, sendo condenado também como judaizante
(1660). Adoeceu na prisão, € por isso teve comutada a penalidade
paradegredo no Algarve?S, Nem sempre o Tribunal chegavaaextremos.
Oscgundocaso referidoprende-se a LuísdeMatos Coutinho,natural
de Lisboa, onde nasceu por volta de 1631, sendo seus pais Francisco de
MatoscJuliana Brandôa, ambos cristãos-novos. Havia na família alguns
parentes que: se tinham dedicado à vida eclesiástica, enquanto outros
viviam do comércio,a exemplodo tio Antônio de Matos Coutinho e do
filho Luís, que residiam na Bahia.
Luísingressou nas forças armadas, em Portugal ou na Bahia. Veio
paracáem1655, mas a seguir, embarcoupara Angola e retornou à Bahia.
em1657, de onde foi degredado para o Rio deJaneiro por causa de uma
pendência que tivera com o Mestre-de-Campo. Voltou de novoà Bahia.
Em 1658 achava-se em Pernambuco,e, então, após andar pela Paraíba,
viajou para o Reino. Nesta oportunidade, desejando casar-se com a
prima Micaela, foi a Roma pedir a necessária dispensa, a qual, de faro, o
Pontífice lhe concedeu.
Luís, depois, torna-se negociante, associando-se com Mateus da
Gama,da ilha da Madeira. Numa de suas viagens vai à Angola dali ao
Rio deJaneiro levandogrande quantidade de escravos. Vende as “peças”
e adquire um engenho,mas, ao saber da prisão de parentes no Reino
(1672), dispõe de tudo por menos, dinheiro, e se no Espírito
Santo. Aqui mantém relações comerciais com diversas pessoas. Entre-
tanto, prendem-no em Vitória, a 19 de janeiro de 1675,por ordem do
Santo Ofício. Em 1683 ainda encontrava em Lisboa, solto. mas sob
vigilância do Tribunal da Inquisição, e, portanto, restringido em seus
negócios.
É na segunda vintenado seiscentismo que o Espírito Santo parece
reunir o maior número de hebreus, concorrendo para isso à lavoura
canavieira é o comércio, de um lado, e do outroas luras no Nordeste. De
fato, em 1646 existia em Vitória e cercanias uma florescente comuni-
dade, constituída em grande parte por judaizantes e quase todos paren-
tes; uns,donos de engenhos, residentes na capitaniaoufora; outros,eram.
apenas seus feitores; e aindaoutros viviam entreguesa diversas ativida-
des. Ao nome de Manoel Fernandes Anjo,acrescentariamos o de Fran-
cisco Rodrigues, natural doAlentejo, oqualhápouco chegaradeTripoli,
na Berbéria, onde deixara parentes, e agora se tornara oleiro?Aídevia
estar, igualmente,certo Pero Roiz Funchal, ex-morador por largo tempo
deJaneiro, pois mostrou-se interessado em arrendar o engenho

120
confiscado a Marcos Fernandes Monsanto. Alegou a favor da pretenção
os serviços prestados à Fazenda e a experiência de muitos anosno cultivo
da cana de açúcar, além de oferecer maior renda doque Simão Luís,
detentor do contratoaexpirar-se2º, Porém,o grupo mais importante de
macranos era formado pelas famílias Teixeira, Orta e Farto, aliás aparem-
tadas entre si. À dos Orta estava vinculada também umBernardoAires,
primo de Antônio &'Orta, o qual, anos depois,foi culpado peloassassi-
nio do capitão-mor João de Almeida Rios?
Os Teixeira eram antigissimos na Bahia. Por volta de 1567 já aí
andava um PeroTeixeira. Anos mais tarde, cerca de 1571, fugiu para a
mesma, vinda doPorto, a mãe de um segundo Pero Teixeira, cristão.
novo, 0 qual na cidade de Salvadorfoi escrivão de Rui Teixeira, feitordae
correspondente de Bento Dias de Santiago. Talvez fossemparentes
família de Bento Teixeira, a qual também era do Porto.
Teriam ramificações no Espírito Santo, para onde emigrarampri-
meiro os progenitores dosuposto autor da Presopopéia? Quem sabe!
Porque, na verdade, encontramosnesta capitania diversos Teixeira,
cristãos-novos. Assim, demos com referências a um Pero Teixeira, em
1618, provavelmente chegado um pouco antes, mas não devemos
confundilo com nenhum dosque acabamos de mencionar, embora
tambémfosse hebreu. Este nasceu por volta de 1578 evivia com a
mulhere filhos emsua propriedadeagrícola fora de Vitória. Porvizinho,
tinha oirmão Manuel, mistode fazendeiro e de mercador. À ambos são
seriamestranhas relações comos Países-Baixos, visto que lá se haviam
estabelecido outrosirmãos. Talvez O intercâmbio seefecuasse como
auxílio de Marcos Fernandes Monsanto,ao qual estavamligados, agora,
pelo casamentodediversas filhas, cinco ou seis, comparentes dele, Não
eram os únicos envolvidos na rede. Sem dúvida incluiria o destacado
negociante Antônio Diogo Dorta (ou d'Horta),igualmente criprojudeu
e cujo matrimônio coma cristã-nova Francisca da Silva tornara cunhado
de Antônio Teixcira, que supomosfilhode Pero ou de Manuel, acima.
Era cunhado, outrossim, de Manuel da Costa Moreno, elementodos
mais atuantes nogrupo, pois viajava para o Reinoe correspondia-se com
o filho Domingosda Costa Brandão,residente em Recife,e, quiçá, com
os parentes da Holanda'”,
Antônio Dorta surge na capitania ao tempoemque os holand
estabeleceram em Pernambuco. Nesta época documentos doEspírito
Santo precavêm as autoridades do Reinocontra o perigodas relações de.
ceistãos-novos, aqui moradores, comos dos Países-Baixos, diretamente

121
ouatravés de congêneres. E nisso, como vimos, tinham elas boas razões.
Antônio Dora era um dos tais. Uma denúncia, darada de Vitória, em
outubro de 1655, dizia que se carteava com Domingos da Costa Bran-
dão, o qual, por sua vez, retransmitia as informações aos holandeses,
“Afirmava também eracar-se de bem conhecido homem de nação hebré
e praticante da lei de Moisés. Há pouco mais de trêsanos fora preso
por crime de lesa-majestade, por deprecação à pessoa de D. João IV,
enviado para o Rio de Janeiro ao ouvidor-geral, após à abertura da res-
pectiva devassa. Mas, entrando em exercício o novo ouvidor, licenciado.
João Velho de Azevedo,este logo o libertou, e propalava-se que tal
Sucedeu porque o réu “o soube tão bem contentar”. Solto, Antônio
continuava a cometer outras faltas. Devia, pois, S. Majetade dar licença
para que fosse preso de novo e receber o merecido castigo. Isto, porém,
talvez jamais sucedeu, pois continuoua gozar de prestígio nacapitania,
tanto que, posteriormente, foi rendeiro dos dízimos e provedor de Fa-
zenda Ainda lá o encontramos em 1660, « salvo engano, Henrique de
Dorra (ou de Horta), que aparece em seguida como vereador da Cã-
mara local € sargento-mor, era de sua descendência.
Antônio Dorta tinha a referendá-lo na direção dos negócios, seu
secretário, também judeu, Manuel Rodrigues Capão. Este, contudo,
tendo quebrado, fugiu para Pernambuco, onde montara loja e aí se
estabelecera?!,
Em Vitória,a esse tempo, era vigário o criscão-novo frei Antônio de
Moura, responsável, em parte, pela tolerância vigente na capitania e
que, depois, Manuel de Morais, juiz ordinário e provedor da Fazenda,
ajudou a alimentar, porquanto havia ligado a família à gente da nação
hebréia casando duas filhas com elementos da estirpe. Ademais sendo
viuvo, contraiu matcimónio com a filha de Ecancisco Garcia « de Maria
de Lemos, que admitimos serem cristãos-novos; ele mercador, ou con-
forme se dizia, “tratance”
Ainda outro que encontramos relacionado com o Espírito Santo
nesta época, é Manuel Rodrigues de Leão. Se aí chegou a morar,foi por
breve tempo, porque radicou-se no Rio de Janeiro e nela deixou pera-
çãoS?. Também lá viveu o soldado Simão FernandesÁrias, que viera de
Elvas, e foi denunciadoà Inquisição. Era irmão de Antônio Dias Árias,
Aofim do século XVII são rarosos crisrãos-novos noEspírito Santo.
O açúcar decaiu de preço e os engenhos lhe sofreram as consegiiências. A
crise se acentuou com a migração de gente para as minas recém-
descobertas. Entretanto, vem aqui residir, Brás Gomes de Siqueira,

122
sujeito natural de Santos,capitaniade São Vicente, Erafilho do mercador
Tuis Gomes Pereira de Leão, cristão-novo, do Alentejo, e de Inês do
Rosário,
Teveele mais trêsirmãos e duas irmãs, e todos mudaram-se para o
Rio de Janeiro, em data que ignoramos, mas os rapazes, sendo ainda de
menor idade, seguiram para Porrugal
Brás Gomesde Siqueira aprendeu no Reinooofíciode ourives e,
deixando lá os demais irmãos, veio,já moço feito, para Vitória,
entregando-se à profissão. Temposdepois enveredou para a vida
mercantil. Tinha-se estabelecidonacapitania por volta de 1694 eaí viveu
quase trinta anos. Em 1724, a 17 de março, quando se encontrava em
Lisboa, foi pi eso pela Inquisição por culpas de judaísmo, compreca-
dendo também heresia e apostasia. Nãoobstante, gozava na capitania a
fama de bomcristão, na qual se tornara bem conhecido, pois alha
convoladonúpcias com Teodora de Oliveira, Nãotiveram filhos??, Uma
das testemunhas que depuseram nos autos foi o cirurgião Teodoro
Xavier, holandês que residia noEspírito Santo desde mais ou menos
1664. Conta que durante os sessenta anosque ali morou só conheceu,
alémde Brás, umcerto Manuel Rodrigues de Leão, mencionadopor nós,
Todos quantos relacionamos até aqui nãoforam os únicos indivíduos
de linhagem semita ligados a esta capitania. Alémdisto poucodissemos a
respeito dos senhores de engenho € dos mercadores, muitos deles
cristãos-novos ou judeus, como Diogo Fernandes do México (1576
93) e Diogo Ximenes de Vargas (1640), o que faremos em próximo
lívco, quandoabordamos à questão econômica. Mas, antes de passarmos
à região de São Vicente, queremos mencionar mais as seguintes pessoas
de presumível linhagem hebréia, residentes no Espírito Santo: 1) Am
tônio Manuel, natural de Aveiro. Erafilho do mercador Manuel Pires e
de sua mulher Maria Rodrigues. Foi tabelião do público « judicial em
Vitória « nela faleceu, viúvo, em 1585, deixandotrês filhas moças, e em
Portugal o filho Luís. 2) Manuel Nunes, mercador. Noivo em 1585,
de Jerônima Pinheiro, filha de Antônio Manuel, acima. 3) - Pero Car-
doso e sua mulher Francisca de Lemos. Moravam em Virória em
15853, 4) - Maria Maciel, conhecida de Bento Teixe - Heitor
Homem de Leão,sargento -mor em 16153, 6) - Anrique Lopes, contra-
tador 161788. 7) rancisco d'Escovar,escrivão e almoxarife da Fa-
zenda em 16197,
Processos do Santo Ofício na s junda década doséculo XVII,
mostramainda a presençade cristãos-novos no Espírito Santo, apesar das
más condiçõesda capitania.
E agora, afinal, algumas considerações acerca da família Azeredo
Coutinho, famosa porsua atuação no governoda capitaniae naprocura
de minérios. Os seus ancestrais, Coutinho,já tinham recebido pordiver-
sas vezes a inoculação da seiva mosaica em Portugal”, e cla se repetiu no
Brasil. Paranão cetroceder muito, partiremosdos Godins de Brito e dos
Mendesda Fonseca Coutinho, de quem procediam os que vieram para cá,
pelolado materno, ouseja de Inês Gonçalves da Fonseca, que supomos
de linhagem cristã-nova. Seu neto, Lansarote de Azeredo, casou com
Isabei Dias Sodré, que também parece pertencer à linhagem, e destes
nasceram Miguel e Marcos que vierampara o Espírito Santo, tendo
ambos se casado com mulheres bastardas. A de Marcosexa filha de Vasco
Fdês. Coutinhoe de Ana Vaz deAlmada, e tiveram Belchior de Azeredo
Coutinho, Domingos de Azeredo Coutinho e Antônio de Azeredo
Coutinho. Note-se que os três casaram com pessoa de origem israc-
lita: aquele, com Antônia de Gouveia,filha de Miguel GomesBravo; o
segundo, com Da, Antônia, dafamília Tenreiro « oúltimo com Maria de
Galegos, descendente dos judeus Pedro de Galegose Apolônia Xime-
nes. Todos deixaram numerosadescendência, ge nteda maior projeção
nas Capitanias do Sul, e em particular noRiode Janeiro*?.
B
CRISTÃOS-NOVOS RADICADOS NA CAPITANIA
DE SÃO VIGENTE
fase ainda incipiente e um tantoobscura do povoamentoacha-se
gadaaextensa área de Cabo Frio ao Rio da Prata Nenhuma outra à
igualava emimportância nas primeiras decúrias seguintes ao descobri-
mento, como patenteia O número de indivíduos encontrados nela por
MartimAfonso de Sousa, em 1531, bemcomoas atividades econômicas
que se realizavam nologradouro da futura vila de São Vicente. Existia
aqui um minúsculoaglomerado populacional conhecido pelo nome de
Portodas Naus, iniciado, talvez, por mestre Cosme Fernandes, entre
1510€ 1516,e do qual foram capitães, sucessivamente, Pero Capicoe
Antônio Ribeiro*!, Nele,as embarcações que passavam adquiriam víve-
res e escravos a troco de artigos diversos,
É comavinda de Martim Afonso de Sousa que se palmilha terreno
mais seguro, graças 20 interesse da Coroa pela região e às condições
estabelecidas em São Vicente, transformada emsede da novel capitania.

124
D. João III pretendia o domínio de toda a área até ao Prata, mas,nestas
evitar conflicos com o rei da Espanha, seu cunhado, decidiu erigir de
bandas uma colônia vigorosa, e daí a opção pelo refesido logradour»,
onde seria relativamente fácil atingir o Sul e o Paraguai, oque também por
motivoua fundação de São Paulo no mesmo ano*?. Não há dúvida, um ou
conseguinte, de que à armada martim-afonsina visava estabele cer
mais centros de povoamento, bem comoescorraçar os francese s de
nosso litoral, descobrir terras e explorar algunsrios
A época dos preparativos para a viagem ao Brasil coincidia com uma
fase difícil na vidados hebreus portugueses. Desde 1525 reacenderarm-se
osesforços nosentidode obter do papa à bula necessária à criaçãodo
SantoOfício. Uma onda de fanatismojudaico,incitada pelo visionário
Davi Rubení e porSalomão Malco, seu discípulo, preocupou à nação«
deu, por fim, margem a tumultos contra os sectários do movimen
Acresce, para maior desdita dos neocristãos, que certos privilégios con-
cedidos antes por D. Manuel estavam com O prazo à acabar, embora
renovados em 1524. Nãoobstante,alguns dos que residiam em Olivença
foram presos e queimados, por determinação do respectivo vribunal
diocesano. Em 1531 Clemente VII nomeouo primeiro inquisidor, mas a
medida não chegou a vingar*?. Abria-se,poressas razões, uma oportur
dade para sair do país,a qual, meses depois,seria ampliada com o regime
das capitaniais hereditárias, cumprindo lembrar, em consonânci
remoto de 1531, que destruiu grandeparte de Lisboa, julgandoo povo
tratar-se de castigopelo fato de existirem judaizantes nacidade. À espada
de Dâmocles jazia, assim, pendente sobre suas cabeças.
A armada de Martim Afonso de Sousa zarpou de Porcugal a 3 de
dezembro de 1530,trazendo a bordo mais de 400 homens, incluíndo
alguasfidalgosé degredados, dentre os quais havia, certamente, pessoas
da exnia hebréia, porque,além das circunstâncias atrás referidas,sabe-se
que O capitão-mor autria simpatias para com esta genteté, Da
teve Martim Afonso de Sousa uma filha natural, de nome Isabel de
Sousa, que se casou com ocristão-novo Estêvão da Costae juntosvieram
a residir emSão Vicente porvolta de 1535, talvez porsugestão dopai
dela. Mesmo o próprio donatário carregava nasveias certa dose de
sangue hebreu, segundo fama corrente na época, e de que adiante se dará
informes. Inclusive a pureza étnica de sua mulher legítima, D: Aa
Pimentel, nos parece duvidosa, porque encontramos judeus e cristãos-
novosnasfamílias Árias, Árias Dávila, Árias Maldonado e Maldonadode
Talaveira, de origem espanho Justre senhorapertencia àdos Ária

125
Maldonados. São fatos que se devem ter em mente a fim de podermos
avaliar a história da capitania de São Vicente nosdois primeirosséculos.
Casaistalvez nãotivessem vindo na armada, embora certos autores
admitam o contrário, Mas, à luz da petição do meirinho João Gonçalves
aocapitão-mor Gonçalo Monteiro,a 4 deabril de 1538,solicitando-lhe
uma sesmaria, e na qual diz ser 0 primeiro homem que veioà capitania
com mulher, casado, pensamos que issonão invalida apossibilidade deos
compaoheiros de Martim Afonsoterem recebido as suas nointerregno
de 1531 15374, porque,na verdade, o lapso deseis anos é mais do que
suficiente para isso. Muitos, porém, desses primeiros colonos, eram
solteirose aqui constituíram família
Enumeramos entre osque arribarama São Vicente com Martim
Afonso, ou logo depois, Antônio do Vale, Lopo Dias e os Gomesda
Costa,todos da progênie israelita, como, talvez seriam Brás Cubas
Fernão de Morais,
Este últimofoi identificado comoantigo senhorda judiaria de Silves,
à qual lhe fora doada por D.Manuel à 2 de março de 1498e extensiva 208
descendentes, em virtude de serviços que prestara desde el-rei D. João
JL Fernãode Morais, vindopara São Vicente, recebeu terras junto ao
Portodas Naus e nelas localizava-se o marco denominado “pedra do
judeu”. O referido senhor já era falecido em 25 de maio de 1542,
consoante a carta de confirmação das terras de Pero Correia”.
Antônio doVale aparece a exercer o ofício de tabeliãodesde 3 de
marçode 1533, pelo menos, por nomeação do donatário vicentino,
sendo, por conseguinte, umdos primeiros servidores de Martim Afonso
na oficialização de certos atos públicos. Nessa data redigiu uma licençaa
Perode Gois permitindo-lhe mandar para o Reino dezessete peças de
escravosem navios da Coroa. Deixou marcas,igualmente em documen-
tos que lavrou nos anosde 1537, 1538, 1540, 1542, enode1545 prestou
depoimento sobre uma questão de terras, cuja escritura redigira ante-
riormente*s. Ignora-se quandofaleceu. Seriam seus descendentes os
denunciados por Maria da Costa ao Santo Ofício, em 159], os quais ela
bem conhecera, por haver morado em São Vicente cora o marido Antô-
no de Castro,cristão-novo e mercador. Declarou, a respeito de Fran-
cisco Mendes, que este *é da geração de uns cristãos-novos que chamam
os Vales em São Vicente"s?. À confirmaçãodissoestá faro de que em
fins do século vamos encontrar também um Salvador doVale unidopor
laço conjugal aos Mendes ali radicados, pois casara-se com aenteada da

126
judia Branca Mendes. E deste Salvador temos notícias ainda em 1624
quando, mais uma vez, vereadorso, Admítimos que o padre Leonardo
do Vale pertencia à mesma família", É provável, outrossim, que o
tabeliãojudeu, Tristão Mendes, tenha sucedido a Antônio no ofício.
Diversos foramos Cubas quevieram para capitania. Os dois primei-
ros, Brás Cubas e ofilho PeroCubas, chegaram na companhia de Martim
Afonso. Mais tarde seguiram-nospara cá mais dois icmãose calvez alguns
parentes. A família remonça à Idade Média, quando Oapelido Cubas
deixou traços emPortugal. Em 1393 um Vasco Marcins Cubas, tabelião,
registra em documento as despesas da guerrra com os castelhanos, e em
1401, esse mesmo,ou outroda família,foi juiz na cidade doPorto. Anos
depois, a 23 de dezembrode 1435, efetuou-se o aprazamento de umas
rras, tambémno Porto,aojudeu Vasco Martins Cubas « à mulher,as
quais, em 7 de março de 1437, foram cedidas aos judeus Antão Aniel e
Juça Primo. Pelo que se vê, uma transação entre pessoasda progênie
hebréia. À seguir deparam os nolivro das vereações dessa mesma cidade
cosa os nomes de PeroAfo nso Cubas em 1453 é 1454,e de Pero Cubas,
basbeiro, em 24 de julhode 1582. Este oficio de barbeiro correspondia
aode sangrador e era exercido comumente por judeus, a exemplo, ainda,
de outro judeu da família que o desempenhou em fios doséculo XVL e
começo do XVI, noPorto, umtalJacó Simões Cubass?, Tem-se notícias
diversos Cubasaté residentes naquela cidade,terra natal,
igualmente, dos que se passaram à capitania de São Vicente.
Brás Cubaspa winhada família Cubaspor parte do avô paterno, que
se admite ser ov ador Pero Afonso Cubas, pai de João Pires Cubas.
Mas, nemposisso, o encargo público os isenta contraíd da suspeição éenica. É
sintomático, ainda, que diversos Cubas cenham o matrimônio
com elementos da estirpe judaica, Um sobrinh o de Brás, Manuel Ferraz
Cubas, casou noPortocomLeo nor Fonseca. cristã-nov a, irmã do boticá-
rio Pero Álvares Vilafanhe34, Uma das filhas domesmo Brás, Jerônima,
rece, casoucom Manuel Veloso de Espinha, cristão-Francisc novo, e
a o Rio de Janciro. Outrosobrinho, de nome o
Nunes Cubas,filhode seu irmãoGonçalo, casou emSantos com Catarina
Diais tambémde linhagem cristi-novass.
Em conclusão: o apelidoCubase: pouco comum, de sorte que
quans adotaram deviampertencer imesmaestirpe,e,de igual forma,
Je linhagem semita. Ou o ramodos que vierampara cá descendia
bas judeus, ou tinham afeição para comestes, conforme revelam
as relações atrás apontadas,

127
As famílias Gomes da Costa aparecem bem cedo na capitania,
pelo menosa de Estêvão. A de Martim Gomesda Costa, talvez um
pouco depois, ao passo que Luís Gomes da Costa veio solteiro na
penúltima década do século XVI. Estêvão Gomes da Costa foi se-
nhor da quinta do Costa, em Barcelos, mas preferiu vir para São
Vicente, cuja donatária pertencia a Martim Afonso, pai ilegítimo de
Isabel Lopes de Sousa, com quem aquele se casara. Já aqui estava em
1535 ouno anoseguinte, pois a 31 de dezembro de 1536 lhe foi
passada umaescritura de dadas de terras e na qual se lê que veio à
capitania “em êste ano passado” 38 Estêvão viveu longos anos no li-
toral, deixando numerosa descendência através de sua filha Felipa
Gomes da Costa, que se casou com Vasco Pires (ou Gomes) da
Mora, natural de Coimbra. Poucas famílias conservavam tão longa-
mente a fama decristá-nova quanto esta. Persistiu até quase meados
do século XVIIL
De Felipa Gomes da Costa e seu marido nasceram três filhos: (2)
—, Atanásio da Mota, que se casou com uma sua parente, neta
Martim Gomesda Costa. Em Santos exerceu diversas escrivaniasdee
foi cabelião. Da respectiva prole constam quatro homens € três mu-
lheres, todos muito bemrelacionados e dos mais influentes na capi-
tania. Desuafilha Isabel, casada com o bracarense Dionísio da Cosa,
teve doze netos, dos quais cinco abraçaram a vidaeclesiástica. (b) —
Inês da Motacasou noRio deJaneiro com Antônio Raposo, de Por-
tugal, indivíduo que Washington Luís nãorelacionou em sua lista
desse mesmoapelido. O casal viveu durante anos na capitania Aumi-
nense, mas, uma vez viúva, Inês veio residir em Santos com os filhos,
dentre os quais cumpre destacar 0 padre Antônio Raposo%!. Dei
ram geração das filhas Esperança Gomes da Costa € Luísa de Gus-
mão,inclusive sacerdotes. (c) — Felipa da Mota convolou
sio por duas vezes, sendo que à última com Manuel de matrimé Oliveira
Gago, sujeito que veremos envolvido no contrabando de pau-brasil
com osingleses.
Assimse verifica que esta família foi um dos instrumentos de
maiordifusão da seiva hebraica na capitanias”,
O outra remo dos Gomes da Costa, de Barcelos, tem comoca-
beça o já referido Martim, O qual casou em São Vicente com a filha
de Pedro Colaço Vilela, capitão-mor de 1571 a 1573. Parece que
tiveram apenas a filha Maria da Costa, a qual lhes deu uma neta e

128
cinco netos, quase todos sertanistas, ou, quando não,atuantesna go-
vernançade Santos'?.
terceiro ramo provém de Luís Gomesda Costa, que, segundo
Roque Leme, era natural de Santo Antônio de Tojal, em Lisboa,
filho de Antônia Gomes e de Rodrigoda Costa. Em1583 morava em
São Paulo e tinha fazendapara os lados do Ibirapuera. Na visitação
de 1593, a Pernambuco, um dos denunciantes fez-lhe referências
como “cristão-novo”,esclarecendo que, poristo, certa jovem de São
Vicente não se quisera casar com ele. Aqui, então, havia também
preconceito érmico, embora menos do que noutraspartes do Brasil
próprio Luís Gomesprocurou mais tarde encobrir o defeito san-
guíneo, obtendo um instrumento de “puritate”, a exemplo do que
muitos outros faziam. Casou com Ângela Moreira, da família Garcia
Velho, é foram os genitores de Maria Gomes, à qual contraiu mari-
mônio com o alferesJorge João que veio da Bahia ao tempo de D.
Francisco de Sousa. Deixaramgeração,nela se destacandofreiJorge,
carmelita, e o padre Cosme Gonçalves Moreirasô
Em meados do século, quando a região litorânea da capitania dava
mostras de prosperidade, com diversas vilas à beira mar, engenhos
em produção e algum comércio com o Reino, mais gente de origem
sefardita veio juntar-se aos elementos já estabelecidosaqui. Além da
família Mendes, os indivíduos Lopo Dias e Cristovão Dinis, pelo
Navisitação de 1591-95 acumularam-se acusações contra os
Mendes por suas práticas judaizantess!, Merecem especiais referên-
cias as denúncias do padre Pero Leitão que estivera em São Vicente
de dez a vinte anos atrás, e as de Bárbara Castelhana, enteada de
Branca Mendes, com a qual vivera enquanto solteira. Informou o
padre ser coisa vulgar naquela capitania que Teistão Mendes e família
tinham fugido da Inquisição de Bragança para cá, e lhe enumera o
nomedealguns filhos. Acrescentou ainda que o velho Teistão cos-
tumavaaçoitar um crucifixo na torre de Bertioga'?, mas, para que
isso não se divulgasse, os parentes mataram-no com peçonha. Julga-
mos, contudo, que não teria procedido assim, pois outra versão,
dada pela denunciante Maria da Costa, especifica que ele, na ver-
dade, fora presos, mas os filhos libertaram-no à noite c o embarca
ram para o Reino, O testemunho de Bárbara Castelhana cambém é
esclarecedor, pois dá informes sobre os filhos de Tristão, exceto
quanto a Diogo, € menciona as práticas judaicas de Vilante Mendese

129
de sua filha Branca. Sobre o velho revela que fora tabelião em 5,
Vicente desde agosto de 1549, pelo menos, e que faleceu antes de
1555, ao passo que sua mulher, Vilante, entre 1567 e 157095. Talvez
fossem seus parentes André Mendes, morador em Santos ao ano de
1571, é Antônio Mendes, sogro de Nuno Vaz Pinto.
Em síntese é a seguinte a gencalogia dos Mendes, a começar
pelos filhos do casal: 1 — Francisco Mendes. Veio da Bahia para São
Vicente e daqui se passou ao Rio deJaneiro aotempo da expulsão
dos franceses. Em 1563 depôs comotestemunha no processo deJoã
de Bolés. Estava com sessenta anos, mais ou menos, quando, em
1591, o denunciaram na visitação do Santo Ofício como seguidorda
lei mosaica. Em 1598aparece comojuir-ordinário em São Vicente.
Nunca se casoute, 2 — Branca Mendes. Casou com Diogo Gon-
salves Castelão, cerca de 1555, o qual foi ouvidor da capitania é
momposteiro doscativos. Ele tivera anteriormente,fora do marri-
mônio, três filhas mamelucas: Bárbara, Isabel e Beatriz, que a ma-
drasta recebeu em seular e ajudou ase encaminharem,tal o espírito
em desenvolvimento nasociedade local. Bárbara convolou núpcias
com Felipe de Aguiar e foram morar em Pernambuco; Beatriz, em
1593, estavacasada com Salvador do Vale, e Isabel foi a mulher de
Antônio de Oliveira, dos da governança. Um filho deste casal uniu-se
com Ângela Fernandes, da família cristã-nova dos chamados "povoa-
dores”s”
Doenlace de Branca com Diogo nasceram dois filhos, como se-
gue: a) — Inês Castelão(e posteriormente Leitão) veioa ser a con.
sorte do capitão-mor JerônimoLeitão, loco-tenentedo donatário por
lacgo tempo. Descobrimos-lhes quatro filhas, cuja descendência, en-
tretanto, se perdeu com os anos. Umadelas casou com o cristão-
novo Antônio Pedroso de Barros, quetambém governou a capitania;
outra, casou com Diogo D'Avila Bitencourt e fixaram moradia no
Rio deJaneiro. A terccira contraiu matrimônio com capitão Fer-
nando de Miranda,sobrinho de Diogo Elôces de Valdez, o mesmo
gue em 1581 comandou a expedição ao Rio da Prata A última, He-
lena, casou com o mercador Antônio do Vale de Vasconcelos, o
qual, pouco depois foi preso por bigamia e catregue à Inquisição,
porquanto cometera 0grave deslize é enxovalhara o bom nome da
família Leitão. Encontramos, ainda, mais doisfilhos de JerônimoLei-
são, porém de outroenlace: Franciscoda Silva Leitão, que se achava
em Olinda no ano de 1595, e Simão Leitão, senhor de engenhono

130
Rio de Janeiro na segundadeéada do século XVIIS. b) — Antônio
Castelão — Viveu com a mãe até ao desenlace dela, ocorrido em
1593, ou antes. A 13 de fevereiro de 1598 adquiriu terras em Gere-
bati. Legou duas casas à Ordem do Carmo, não obstante sua linha-
gem cristã-nova. Já era falecido em 161288. 3 — A segunda filha de
Tristão e de Vilane Dias chamava-se Esperança Mendes. Parece que
vcio casada do Reino. O marido, de nome Fernão Roiz, "torto de um
olho”, já era conhecido nacapitania deSão Vicente em 1550. Nessa
e na de Santo Amaro exerceu a profissãode mestre e purgadorde
açúcares. Foi denunciado à visitação de 1591 por expressões indeco-
rosas e aritudes sacrílegas que lhe notaram. O casal viveupor algum
tempono Rio de Janeiro, mas após o falecimento de Fernão, a mu-
lher retornou a São Vicente?o. 4 — Ana Tristão foi residir com al-
guns dos irmãosnoRiode Janeiro, cerca de 1580. Aindavivia em
1583, mas não mais em 1593. 5 - E quanto a Diogo Tristão,sabe-se
apenas que em1563 devia ser de maioridade, pois nesse mesmoano
serviu de testemunhano processo do francês Bolés?!
Lopo Dias foi contemporâneodos Mendes, tendo chegado à capi-
tania mais ou menos na mesma época. Há, até, quem pretenda ú-
vesse vindo com Martim Afonso de Sousa. Deumacoisa temos cer-
tera, € é que depois de viver no litoral, trocou-o pelo planalto,
fixando-se novilarejo de Santo André. Aqui, a 5 de outubro de 1555
multou-o à Câmara por ausência ao conserto de um caminho em que
todos os moradores deviam colaborar. Anos depois transferiu-se com
a família para São Paulo, participando por vezes na administração
pública local. Avançado em idade ingressou na Ordem do Carmo,
como irmão,e lhe legou fazenda de Mogi. Casou por duas vezes,
sendo que, da primeira, com Beatriz, filha ou neta do cacique Tibi-
riçá, « deste enlace são conhecidosseis filhos, dois homens e quatro
mulheres, masde alguns se ignora a geração. O filho, Belchior Dias
Carneirofoi notável sertanista e bandeirante, tendo deixado doseu
consórcio com Hilária Luíz Grou, dois filhos e uma filha, cumprindo
acarIsac Dias Carneiro, cujo nomeé caracteristicamente hebreu.
Este casouna família de Jácome Nunes e teve oico rebentos.
Coube, posém, Suzana Dias « a Catarina, filhas do velhoLopo,
as maiores descendências e talvez as mais atuantes, ao passo que,de
Jerônima, mulher de Gonçalo Camacho,família antiga e cambém li-
Bada à de João Ramalho, pouco sc sabe. Suzana casou com Manuel
Fernandes Ramos, que supomos cristão-novo, € foram o tronco dos

13
Fernandes povoadores, sobre quem recaiu, igualmente, a fama de
serem dessa eia. Enviuvando, contraiu matrimônio com Belchior
da Costa, da linhagem cristã-nova por sua mãe Beatriz Dinis, mas não
deixou descendência deste. À terceira, ou seja, Catarina, foi a con-
sorte de Garcia Rodrigues Velho, cuja descendência na capitania foi
notável por seus feitos no bandeirismo e na busca de minérios pre-
ciosos??,
Ora, que provastemos da exnia hebréia de LopoDias? A identidade
com um homônimo contemporâneo do Porto, judeu, que ali exerceu a
medicina e a quem a Câmara conferiu a cidadania"?, Então, o de São
Paulo poderia, igualmente,ser de linhagem sefardita. O apelido,“lobo”,
ra adotadopor muitos dos que descendiam datribode Benjamim e lhes
servia de craço de união/4, Dos Fernandes, descendentes de Suzana, se
dizia que tinham sangue cristão-novo. À avó de Garcia Rodrigues Pais,
que era dessa mesma família, foi a causa para nãoser investido nohábito
da Ordem de Cristo, porque cla padeceu a fama “constante”,isto é,
persistente, de cristã-nova?s.
Enfim, revelam as gencalogias dos Mendes e dos Lopo Dias, que
ambas as cepassão antigas na capitania, remontando a meados dopri-
meiro século de nossa história. Nas duas houve 0 intracruzamento
étnico, mesclando-se as três raças, indígena, cristão-velha e semita, en-
volvendo nele elementosdosmais atuantes na vida social e administra-
tiva, Tal hibridismo produziu efeitos admiráveis. Concorreu para desen-
volver 0espírito de democracia que brotou na capitania; deu origem ao
tipo humano talhadopara os célebres eventos dosséculos KVIL e XVIII;
permitiu interrelação de hebreus, de cristãos-velhose de mamelucos no
bandeirismo e a aceitação cordial de outros cristão-novos que foram
chegando.
Um destes, aliás, bem acolhido aqui, e que,à semelhança de Lopo
Dias, se concorciou com mulher cujo sangue provinhadas três etnias,foi
Cristóvão Dinis. De modoque, porseu casamentocom Maria Camacho,
aparentou-se com osTibiriçá, os Ramalhos, os Fernandes povoadores é
com tantos mais.
CristóvãoDinis provavelmente veio com Tomé de Sousa, porque,a
partir de 1554 é que o encontramos em Santos. Nesse ano exercia o
ofício de tabelião, e ainda em outubro de 1573, Nesse interregno esteve
no RiodeJaneiro, com Estácio e Mem de Sá na luta contraos franceses,
QuandoBolés andou por São Vicente, discutiu com ele e reprovoulhe
as idéias, demonstrandopor isto ser partidário das doutrinas daIgreja
nas da Igreja Católica?é, Em 1567 possuía lavoura de cana em Santose
era um dos “partidistas” no engenho de José Adorno,mas depois, trans-
feriu a residência para São Paulo e, de novo, em1575, voltou para
Santos. Exerceu diversos cargos na capitania?”
Cristóvão e Maria Camacho,tiveram, ao quese sabe, três filhas: (1) -
Catarina Dinis, quecasou com Francisco Nunes Cubas,sobrinhode Brás
Cubas, e deixaram descendência em Santos e São Vicente; (2)
Dinis, que casou com Domingos Dias e foram pais de: ) CristóvãoDinis,
omoço,o qual se tornougenro de Domingos Fernandes, fundadorde
tu, deixougeração; b) Maria Dinis, que foi a primeira mulher de
Francisco de Mendonça, sertanista, e cuja filha única de entre ambos,
casou com Belchior de Godoi e, assim, encrelaçou a família com os
Gomesda Costa, os Lopes de Medeiros, os Quadros e, mais uma vez,
com os Fernandespovoadores; c) Catarina Dinis casou com outro filho
de Domingos Fernandes, chamado Anastácio, « cuja geração se radicou
em Parnaíba,inicialmente; d) Domingos Dias Dinis,casou com uma filha.
do referido fundadorde Itu, e também deixou descendência. E ainda
mais três filhas (e,£g,). (3) - Fulana Dinis ou Camacho casou com
Salvador dePaiva, o qual desempenhou diversos cargos em São Paulo
desde 1579, e tiveram três ou quatro filhos, os quais lhes deram gera-
ção,
Analisando osenlacesdos filhos e netos de CristóvãoDinis, nota-se
que muitos deles se efetuaram compessoas já portadoras de sangue
hebreu, a exemplo dos Fernandes, dos GodoiMoreira, dos Vaz Coelho,
dos Quadros,etc. retardando a total assimi
provávelquea família Camacho também fosse de linhagemsefar.
dita79, em vista de casoscorrelatos. Assim, em 1569 saiu penitenciado
em Goa, por judaísmo, umAntônio Camacho. Por volta de 1645 desem
penhava o cargo de representante do mercadorhebreu, Duarte daSilva,
na ilha da Madeira, certo Manuel Fernandes Camacho. No começodo
século XVIIIapós seu regresso do Brasil, foi preso peloSanto Oficio
com outrosda família, onegociante judeu Francisco Fernandes C
machoSº, EmSão Pauloseiscentista também deparamos comos Fernan-
des Camacho,a exemplo de Sebastião, que se casou com uma neta do
português Pedro Afonso e de uma tapuia, e dela teve geração?! Obser
vemos, afinal, os enlaces dos Camacho com os Dinis, com os Dias
(erônima Dias,filha de Lopo) e os Fernandes povoadores, evidenciando
que os da etnia cristã-nova se uniam,via de regra, com os própria
estirpe

133
4 campanhaque o governador Mem de Sá empreendeu na Bahia e
noutras capitanias para enviar gente ao Sul, a fimde expulsar os franceses
da Guanabara, achou eco noespíritode alguns homensda nação hebréia,
identificados com a causa portuguesa: Manuel VelosodeEspinha, que
colocouo seu navio, escravos e criados à serviço da reconquista, c bem
assim o respeitável Antônio de Sampaioe ocirurgião Ambrósio Fernan-
des, Este, certamente, mais por dever,pois estava na obrigação deassissir
ao governador « aos seus comandados.
Manuel aparece também como Manuel Velho Espínola, Manuel
Velho de Espinho € Manuel Veloso de Espínola. Finda a expulsão dos.
inimigos e reduzidos os tamoios de CaboFrio,fixou-se na capitania de
São Vicente e nela constituiu família, casando-se em Santoscom Jerô-
nima,filha de Brás Cubas. Em 1580 passou a residir no Rio de Janciro
com a famílias?
“Antônio de Sampaio deixou-se ficar de uma vez na Guanabara,e láse
multiplicou a sua descendência, bemcomo a de seu con;
Veloso de Espinha
É compreensivo queos portugueses se estabelecessem a princípio
juntoaolitoral, onde encontravam maior segurança e maisfácil comuni
cação com a mãe-pásria. Santo André, crigido porJoão Ramalhoe seus
apaniguados, foi a primeira exceção, nocimoda Paranapiacaba e já nas
bordas do campo. Mas nunca passou de um burgo de valor secundário,
habitado por reduzido número de brancos,até que, em 1560, a pedido
dosjesuítas, o governador ordenou que se transferissem para a vila de
São Paulo, criada há seis anos, e cujo progresso também se revelava
moroso. Aliás, esta mesmasinaa caracterizaria por quase todoo resto do
século, uma vez que a serraa isolava praticamente da baixada licorânea,
visto serem difíceis os caminhose porque, economicamente, poucotinha
acferecer. Entretanto,ainda houve quem ousasse radicar-se no planalto,
porinfluênciadosramalhinos,ouatraído peloclima, pelaescravizaçãodo
indígena, ou para fugirà justiça, ou porque osolosuperasse embondade
aoda beira-mar. Contudo,o maiorinteresse se concentrava nolitoral, ao
redor de $. Vicente e de Santos, sobretudo.
Pouco depois tantos mais foram aparecendo. As minas do Peru
estavam produzindo ouroe prata em quantidade é havia possibilidade de
asingi-las passandopela vila de São Paulo e destaaoParaguai. Além disso,
àindústria açucareira já em franca produção, acenava com bons lucros.
Surgem,então,por estas bandas, Fernão Dias Pais, Manuel Fernandes
Ramose certamente ouerosquea história não registrou
A ascendência dos Pais é um tanto confusa. Pedro Taques escreveu
que o primitivo FernãoDias Pais foi narural e mosador em Abrantes e
teve uma filha, Isabel Pais,que, casando-se com Pedro Leme, deram
origem aos dacapitania martim-afonsina. Comenta o mesmo autor que
este casamento produziu mal-estar nos fidalgos, tios de Pedro Leme,
porque a moça era açafata no Paço Real!*, Ora, desempenhar tal serviço
na Corte, junco à rainha e às princesas, equivalia a gozar de confiançae
estima, pelo que muitas senhoras o ambicionavam. Nãoseria, porven-
cura, devido a Isabel Dias possuir linhagem hebréia? Isto parece
confirmar-se através dofilho, Fernando(ou Fernão)Dias Pais, que, anos
maistarde se passou ilha da Madeira e dali a São Vicente, Santo André e
São Paulo, ondefoi pessoa de grande consideração.
Certa feita ocorreu um caso interessante em São Paulo, defronte da
igreja matriz, quando Fernão Dias Pais travou áspera discussão com
outras pessoas. D, Francisco de Sousa, presentea tudo, quis acomodá-
Jas, mas aquele manteve-se intransigente, Então, o governador, irando-
se, chamou-o de “cão judeu"?S, Alguns dias depois, pretendeu
desculpar-se, mas era tarde, porque suas palavras tinham voado como
penas. É preciso adiantar que Fernão Dias Pais admitiria cambém a
diversos cristãos-novos na família, enumesando-se o cirurgião José Ser-
rãoe Pedro Vaz de Barros.É provável que o genro, ManuelJoão Branco,
o fosse, igualmente, O neto, Fernão Dias Pais, o das esmeraldas, casou
com Maria Garcia Beting de reconhecida ascendência bebréia, e o
mesmo sucedeu com outro neto,ouseja Pedro Dias Leite, e assim por
diante, A justificação da limpeza de sangue por seus irmãos Pedro e
Lucrécia para garantiremna posse de uma herança, em nada invalida
Os argumentosexpostos, porque os três só tinham o pai em comum.
Fernão era filhodo primeiro matrimônioe os dois outros, do segundo.
Assim:
Antão Leme - foi o progenitor de Pero Leme que se casou com
1º Isabel Pais mãe de Fernão Dias Pais.
2º Luzia Fernandes, mãe de PedroLemee de Lucrécia.
3º Grária Rodrigues de Moura, sem filhos.
FernãoDiasPais casoupor duas vezes, €, de ambosdeixou oiro filhos.
e mais um bastardo, oi inventariado em 160588,
Os Dias Pais, bem como os Fernandes povoadores pertencem à
“galeria da gente mais célebre da capitania noséculo XVII porsuas ações
na vida pública, e, sobrerudo, como desbravadores do sertão.

135
A cepa varoni, destes últimos, iniciou-se aqui com Manuel Fernan-
des Ramos, narural de Moura, no Algarve. À partir de 1564 já o encon-
ramos exercendo cargos na vila de São Paulo, até 1589. Casou com
Suzana Dias e dela teve dezessete filhos,dentro osquais,três,fundaram
respectivamente as vilas de Parnaíbe, Sorocabae Inu, e daí a alcunhade
“povoadores”. Foram eles, André Fernandes, bandeirante insigne, Balta-
zar Fernandes e Domingos, igualmente figuras de prol no sertanismo
paulista. André e sua irmã Ângela uniram-se por matrimônio com as
famílias de Jerônimo Leitão e dos Mendes, cristãos-novos. Baltazar, em
segundas núpcias, casou com Isabel de Proença, neta de Brás Cubas, ao
passo que a primeira mulher era filha de Bartolomeu de Torales, do
Paraguai, o que explica, emparte, a facilidade com que gente de São
Paulo penetravaaquela região, a exemplo dos Godoi, passadores de
judeus para o Peru, dos Dinis,intermediários em determinadas cran-
sações com o Paraguai: e, também o motivo doindiferentismo, quando
não de interessedos seus moradoresface aosataquesdos paulistas contra
as reduções jesuíticas
Diversos dos Fernandes casaram com mulheres de linhagem
cristã-nova e nas suas descendências o mesmo fato se verifica?”. É o caso
de DomingosFernandes, cuja mulher, Ana da Costa, o era, e bem assim
osseis filhos que lhes nasceram. Dois destes, porsua vez, uniram-se à
descendentes de Cristóvão Dois, o velho. Uma neta contraiu matrimnio
com Francisco Vaz Coelho, filho homônimo deste bem conhecido he-
breu, Umairmã de Domingos,ou seja Custódia Dias, pelo enlace com o
engenheiroalemão, Beting, veio ligar à família com os Garcia Velho,
«om os Dias Pais e os BorbaGato.
Bastaria à família Fernandes para comprovar à enormeinfiltração da
seiva hebraica nocorpoétnico desta capitania, pois se o progenitor
deixoudezessete filhos, Baltazar Fernandes deixou mais treze, sendo que
apenas um morreu sem geração. É imprescindível acrescentar que, em
1715, portanto muitos anosdepois,ao se efeuarem as inquirições para
habilitação às ordens sacras de Antônio Fernandes Soares, bisneto do
doBaltazar, uma testemunhaaindalembrava o rumor da origem
cristi-nova dos Fernandes.
A família Maciel nãoescapaà suspeita. O tronco achava-se em Viana
doCastelo, noMinho, de onde alguns rumarampara o Brasil: Melchor
Maciel e João Maciel,filhos de Antônio Fernandese de Ana Maciel, e os
sobrinhos Gaspar Maciel Aranha, Melchor Maciel Aranha e Branca Dias
Maciel. Melchor Macicl morou primeiro na Bahia, entregando-se ao

136
comércio com Buenos Aires desde 1604, mas, depois,transferiu-se para
a cidade postenha. Em 1613 esteve preso
por mandado delos oficiales rreales por quinientos pesos ensayados
de la acion de nacion por executoria de larreal audiencia de la pias”.
Talvez não fosse por serportuguês, sim de nação hebréia, porque os
sogros jáaí tinham a sua própria morada e o fiadorque o tirou docárcere,
João Martins, era seu patrício de Viana. Muitos outros portugueses
residiam nas provácias do Prata. Acontece que no Espírito Santo também
residiu uma certa Maria Maciel, esposa certamente de um Maciel,à qual
se referiu Bento Teixeira nosautos de seu processo dizendo ser ela uma
boa cristá, como quea defendê-la, conforme procedeu com outras
conhecidas cristá-novas. O padre Serafim Leite, por seu tuo, nos dá
conta de um jovem chamado João Maciel, de linhagem hebréia, que sos
30 de abril de 1662 ingressou na Ordem de Santo Inácio, no Recife,
mediante dispensa. E em São Paulo,João Maciel, dafamília atrás decla-
rada, casou com Paula Camacho,e uma das filhas com Fernão Dias Pais,
outras duas com elementos quetemos porsuspeitos: o espanholJorge de
Barros Fajardo e Antônio Nunes Lobo*º.
Por conseguinte, é inócua qualquerdiscussão com base no texto da
ata de São Paulo,quando, 19 de julho de 1578, os oficiais da Cathara se.
reuniram, e dentre outras resoluções “acordaram mais que algums morado-m
ves sejam desta vila e algumsjudeus cristãos quese arrastavam por nãopodere
defender suas roças (...J”(grafia atualizadao.
O texto acimafoi lido erradamente pelo cranscrissor das atas, porque
o original diz “indios cristãos”, e ainda porque umacoisa é ser “judeu”e
outra ser “cristão”. Pode O hebreu ou israelita ser cristão, muitos o
foram realmente,mas ser judeu e cristão ao mesmo tempo é difícil, se
não, impossível.
Nãosó existiam antes de1578, conforme vimos demonstrando, mas,
aestaépoca já eram numerosos, se bem que, em muitoscasos, alinhagem
andasse difusa. Todavia, outros de pura cepa hebréia vieram trazer a sua
contribuição, &,tanto quanto sabemos,agence “de nação”mui raramente
foi molestadapelos moradores,sinalde que ponderava na vida socioeco-
nômica e administrativa da capitania.
A fatídica jornada a Alcácer-Quibir, em que pereceu o jovem rei D.
Sebastião, deu margem ao governo intolerante do cardeal D. Henrique
e, por morte deste, à união das coroas,concorrendoambos acontecimen-
tos para a vinda de hebreusdas duas nações ibéricas. A expedição de
Diogo Fores de Valdez, em 1583, prestar-se-ia bem para isso. O certo é

137
que surgem nacapitania marcim-afonsina a partir daí, Bartolomeu Bueno
diversos outrosespanhóis
Na penúltima década do século XVI o planalto de Piratininga já
media forças com a baixada santista, graças aosurtoagropecuário que se
desenvolveunos arredores de São Paulo. E, não obstante, os moradores
vestiam-se mal, e pobremente, porque o meio não exigia luxo, os recur-
soseram escassos e morosas as relações com as vilasdolitoral. Muitos
viviam nas roças e só em dias de festa é que se ajuntavam. A sua
população se acelerou, porém, depois que Afonso Sardinha descobriu
ouro, em 1589, na Mantiqueira, no Jaraguá e noutros lugares próximos,
fato esse que parece ter repercutido até no Ocidente. Seguem-se, em
conseqiência, os ataques de corsários à Santos e a S. Vicente, e a desman-
telação de sua principal fonte econômica, ou sejam, os engenhos de
açúcar. À predominância acena daí por diante a São Paulo,praticamente
livre do perigo indígena,alviçareiras as condições locais e com riquezas à
vista. Assim, novos elementos humanos vieram engrossar o rol dos
Babitantes, sobressaindo-se os nomes de Martim Rodrigues Tenório e do
algarvense Sebastião deFreitas, ambos cristãos-novos e figuras de relevo
nos destinosdavila planalina.
primeiro destes era natural da Espanha. Viveu poralgum tempo no
Riode Janeiro, de onde se transferiu para a capitania de São Vicente.
Passando a São Paulo, contraiu matrimônio com Suzana,irmáde Baltazar
Rodrigues, prestigioso cidadão nos meios locais. O casal fixou moradia
emIbirapuera, futuro bairro da paulicéis, o que, não obstante, jamais foi
impedimento sério a embaraçar Martim Tenório no exercício de cargos
da municipalidade. Pessoa de trato e muito rico para o seu tempo,
interessou-se além do mais pela construção de um engenho de ferro na
citada paragem. Tomou parte na bandeira ao Guairá, em 1602. Seis anos
depois organizou ele próprio uma à região dos bilreiros ou caiapós, na
qual findou a vida. Dele descendem diversos dos famosos sertanistas
denominados Rodrigues Arzão*!
O segundo, Sebastião de Freitas, veio do Reino na qualidade de praça
de Gabriel Soares de Sousa,sujeito este cujos olhos andavam a mirar o
“hinterland” à procura de minérios preciosos. Desceu então, da Bahia
para São Paulo, em 1592, e aqui se casou com Maria Pedroso, filha de
Antonio Rodrigues de Alvarenga. Vêmo-lo a seguir, na bandeira che-
fiada pelo capitão-mor Jorge Correia, em 1594, e no ano imediato na
expedição de Manuel Soeiro,e assim por diante, até 1628, pelo menos.
Ao tempo dogovernador, D. Francisco, desceu a Santos por mais de uma

138
ocasiãoa fim de repelir possíveis ataques dos corsários holandeses. Em
vista de tantos serviços,oliberal representante de el-rei fe-lo cavaleiro
da Casa Real já em 1600. Também ocupou cargos na Câmarada vila.
Todavia, em 1628, foi denunciadoao visitador do Santo Ofício como
blasfemo. Intimado a comparecer à mesa presididapelo Jic. Pires da
Veiga, negou ser cristão-novo mas, ato contínuo, temeroso doque lhe
viesse a suceder, correuaocolégio da Companhia deJesus e solicitouao
reitor que ofosse desdizer em seu nome,porque, naverdade,cle o era.
Deixou numerososdescendentes?
Os descobrimentos mineralógicos iniciados infrutiferamente em
1553, por ordem do Governo, encontraram emFrancisco de Sousa, na
“últimadécada doséculo, um ardoroso. incentivador. Homem ambicioso
por títulos e riquezas, soube cativar à atenção de Filipe II, o qual,
assoberbado pelos compromissos do Erário,viu nas possibilidades do
achamento uma esperança confortadora, Porisso concedeupromessas é
favoresao seu cortesão, permitindo-lhe, inclusive, trazer doReino à
quantos homensda naçãohebréia lhe parecessem necessários. A mancira
“um tanto vaga das provisões e a identidade dosindivíduos que trouxe
consigo, revelam-no suficientemente. E quanto a estes, cuja emigração
estava tolhida, valeram-se da oportunidade que se lhes abria para saírem
de Porrugal, temerosos mais umavez da sanha inquisidora?.
Assim, chegando à Bahia, logo determinou que se efecuassem ex-
pedições ao interior na busca de minérios preciosos. Mas, noentanto,
nenhuma produziu o fim almejado. Nem no Espírito Santo, para onde
foram transferidas, se encontrou algo que valesse a pena. E, então, D.
Francisco faz convergir para São Faulo dePiratininga os seus esforços,
pois constava existirem ouroe ferro nas imediações, sendo permissível,
outrossim,acreditar que também se encontrassem filões de prara. Não
era a capitania um prolongamentodas terras que desciam de Potosi?
Em consequência a pacata vilazinha estremece ante as notícias. Os
forasteiros vão chegando. Os preços das utilidades sobemvosezmenre
Oscostumesse alteram. A Câmara toma providências. O governador,
por sua vez, também age. A fim de evitar imprevistos e dissabores, ensia
para cá (1597) umaforça milisar sob o comandoseguro é Diogo
Gonçalves Laço%t e de seu subalterno oalferes Jorge João
Acompanham-nos, ainda, Pedro Árias de Aguirre, genro de Diogo, o
cirurgiãoJosé Serrão, o meirinhodas minas Gaspar Gomes Muacho, d
quem trataremosabaixo,e também, Jogo depois, PedroTaque: o caste-
lhano Bernardo de Quadros, Geraldo Beting e outros?

139
Em 1599 opróprio D. Francisco se trasladou para a capitania vicen-
tina. Era à primeira vez que um governador vinha a São Paulo e
daí poder-se imaginar o alvoroçoquesua presençateria causado. Entre.
tanto deixara na Bahiao fiel secretário Belchior Roiz,o qual, sem dúvida,
O inteiravadas coisas que iam sucedendo porlá.
O meirinho Gaspar Gomes Muacho é uma figura curiosa e mal
conhecida. Pedro Taques grafou-lhe erradamente o sobrenome
chamando-o Mualho, quando ocerto é como nós o registramos. Esse
indivíduo ainda há pouco havia curtido maus bocados perante a Visitação
do li. Furtado de Mendonça, a exemplodo quese passara com o capitão
GonçalvesLaço. 4 31 de julho de 1591 precisou de comparecer à
audiência da Mesa,Disse, entre outras declarações que fez,ser cristão-
velho pelo lado paterno, pois era filho de Antônio Gomes do Carmo.
Andavaem 45 anosdeidade e tinhanascido em Torres Novas, Porugal
Casara-se por duas vezes,a primeira com a viúíva Isabel Dias e a segunda
com Lianor Mendes. Sabe-se que fora denunciado pela enteada «por
diversas outras pessoas, as quais alegaram ao inquisidor que oréu prati-
cava certas coisas vedadas pela Igreja. Transcorrido mais algum tempo,
ou seja, a 5 de fevereiro do anoseguinte as denúnciasse converteram em
processo, e a 13 de novembro foi obrigado a apresentar-se novamente
perante o Visitador. Agora, no entanto, após jurar aos Evangelhos
declara-se filho de cristãos-novos, por ambos os costados, corrige o
sobrenomedo pai, que é Campos e não do Carmo. Esclarece, outrossim,
que sua segunda mulher é também cristã-novae têm filhos, estando o
mais velho com oito anos. O pior, é que o complicava ainda miais: a mãejá
saíra penitenciada pela Inquisição de Lisboa. O acusado pertencia, ob-
viamente, a uma família de judaizantes. No Brasil, ou noutra parte,
abandonara o ofício de alfaiate e se dedicara à mineração, e daí o motivo
por que D. Francisco o mandou em 1597 para a capitania de São Vi-
cente. Trouxe a família e em São Paulo, onde se fixou, recebeu chãos
além do Anhangabaú. Consta que oreferido Gaspar Gomes realizou
sondagens no Jaraguá, em Araçoiaba e noutros lugares. À 20 de janciro
de 1600 as atas da Câmara ainda revelam a sua presença aqui, mas,
agora, comoescrivão dosíndios. Depois, perdem-se os seus rastos,
Na mesma ocasião Francisco Vaz Coelho deve ter-se fixado aqui, a
julgar pelo nascimento dos filhos. Casou no seio de uma das mais
distintas famílias da capitania, qual a dos Almeida-Proença, gente da
“governança, o quenosleva a pensar nas qualidades de Francisco ou na
possível ascendência cristã-nova da consorte, fato, aliás, evocado por
ocasião das inquitições sobre o candidatoà Leitura no Paço, Dr. Pedro
Taques de Almeida. Com isso tornou-se ele concunhado de Pedro
Taques, secretário do governador D. Francisco de Sousa. À sua descen.
dência ramificou-se por Santana de Parnaíba, Itu, Taubaté, Rio de Ja.
neiro e outroslugares, pois tendo falecido em 1624, deixou onze filhos.
Lembraríamos apenas, em conexão, que o filho Manuel casou com a
prima Andreza de Almeida, no Rio deJaneiro, e de entre ambos nasce.e
ram ofuturo padre Bernardo de Almeida, o frade Manuel de Proença
a filha Francisca de Almeida que casou com Antônio de Sampaio, de
linhagem cristi-nova, neto do velho Sampaio, companheiro de Mem de
Sáº7, O referido padre e outroirmão,Josefde Almeida,foram denuncia-
dosmais tarde como judaizantes
Admitimos que Gaspar Vaz, com que Francisco tinha particular
amizade, fosse, igualmente, da progênie. Além da equivalência dos so-
brenomes, ambosse avizinharam no sertão de Mogi das Cruzes, dando
origem à Vila e organizando a primeira Câmara Local*
Contemporâncosseus foram, também,os irmãos Barros,algarven-
ses.Ou melhor, Antônio Pedroso de Barros e Pedro Vaz de Barros, filhos
de Jerônimo Pedroso e Joana Vaz de Barros,meio cristãos-novos, con-
formeo primeiro declarou à Visitação na Bahia, em 1591. Antônio
estava nesta dara com vinte e doisanos,erasolteiro e se dedicava aotrato
com o Peru. É provávelquesuas relações com o governadordo Brasil
hajam começado então. Parece, outrossim, que em 1596, junto com o
irmão Pedro, já se achava na capitania, integrando a bandeira de João
Pereira de Sousa. Ambos, sem dúvida, eram homens de experiência e
de capacidade, de modo que, por uma provisão passada em Lisboa a 30
de oumbro de 1602, entraram no exercício de altos cargos à frente da
donatária, desempenhando-os alternadamente até 1607.
Antônio casouem Santos com umadas filhas do capitão-mor Jerô-
nimo Leitão, masignoramos se deixou geração, poisretirou-se dacapita-
nia. Contudo, o irmão Pedro, que passou aqui O resto daexistência, foi
pessoa de muitos bens, realizou grandes feitos teve numerosaprole
entre legítimose bastardos. Casou com Luzia Leme, filha de FernãoDias
País, a qual lhe deu alguosvarões ilustres, senhoresna terra de grandes
riquezas e notáveis porsuas ações, excedendonelas o próprio genitor.
Dois deles, Valentim e Luís, consorciaram-se com suas primas da Bahia,
Catarinae Leonor daSiqueira, netas de Sebastião Pedroso de Barros, e,
por conseguinte, portadoras da mesma etnia. Um terceiro filho, Antônio
uniu-se por matimônio com os Pires Medeiros, ao passo que Lucrécia

141
casou com Antônio da Silva Pimentel, neto de Pero Garcia, cristão-novo
da Bahia erico senhor de engenho. E este casal, por sua vez, teve uma
filha,cujo maridofoi Tomé de Lara,irmão de Pedro Taquesde Almeida
Igualmente sucedeu com Maria de Araújo, filha de Luís,a qualse casou
com LourençoCastanho Taques. Umaoutra filha, Ângela de Siqueira,
foi a segunda mulher de Pedro Taques de Almeida *º
É provável que em sua segunda viagemà Península, aonde foraa dar
contas ãoreiacerca doentabulamento das minas, D. Frâncisco trouxesse
novos colaboradores da progênie sefardita. Em novembro de 1609 já se
achava de volta em São Paulo, investido, porém, agora, nogoverno
exclusivo das Capitanias do Sul, e com o direito de conceder certo
número de hábitos militares. Sabemos que um daqueles, flamengo
Cornelio de Arão,se não pertencia à estirpe, professava 0o protestan .
tismo.
Todavia, surgem aqui, nessa época, ou logo mais, alguns sujeitos de
identidade seguramente suspeita, de que são exemplos o ourives Miguel
Vaz Lobo,o rábula Manuel Godis Malafaia"00, Francisco LopesPinto'0!e
Diogo de Quadros, cunhado deste, Quanto à outros, como Rodrigo
Fernandes mercador de Beja e dogmastistajudeu, nenhuma dúvida
existe, pois é citado nominalmente pelofintador da gente hebréia. Apa-
rece em S. Paulo desde 27 de novembrode 1610,pelomenos, e viajava
frequentementeaoRiode Janeiro, onde vivera antes. Morreu nosertão
numa entrada ao gentio, entre 1617 € 161978
Aindaquea faina mineralógica tenha serenado após a morte de D.
Francisco, ocorrida em IGLI, notícias levadas à Europa por Anthony
Kniver ou por outro,teriam aguçadoos espíritos!º3, Em consonância,
desenvolve-se no planalto de Piratininga o cultivodo trigo e 0 apresa-
mento deíndios. Háum incentivo de ordem econômica. A Bahia por seu
turno,recebede novoa visitação do Santo Ofício em 1618,como que
judeus, cristãos-novos hereges demandam o Sul, localizando-se numa
das três capitanias ou refugiando-se nas regiões de Castela.
De15904 1606 a populaçãocrescera rapidamente em mais 40 fogos,
atingindo cerca de 1,150 moradores, muitos dos quais hebreus inteiros,
ou emparte, € mamelucos resultantes das ernias cristá-velha e sefardira.
Já eram muitos os descendentes dos Gomes da Costa, dos Mendes, de
Lopo Dias, de Cristóvão Dinis, de Manuel Fernandes Ramos,além dos
que vieram mais ou menos por esse tempo. Pelo que não se deve
estranhar que documentos ibero-americanos se refiram a $. Paulo como
ninhode judeus.
As atas da Câmara, contudo, pouco esclarecem. A primeira vez que sc
referem a “cristãos-novos e homens da nação hebreia” é em 6 dejulho de
1613, a propósito da “finta”que deles se cobrara; não lhes identifica ose
nomes, mas discrimina de modoinconfundível a existência no planaltod
“ceistãos-novos” e de “homensda nação hebreia”, ouseja, de hebreus já
batizados, ou descendentes destes, e os que não o tinham sido!"
É sintomática a atitude de Jorge Neto Falcão em fevereiro do ano
seguinte. No dia 14 ameaçou a altos brados“defintara este ficadod povo em a finsa
ds cristãos-monos (. "08, porque, pelojeito,mu itos tinham e fora
confundidos pelo tempo,pelos cruzamentose por razões,porque, eumaespeciais, ele
não sabia comodistinguido.E isto parece ter acontecido
década mais tarde, a 3 de fevereiro de 1624, a Câmara quis saber quemna
verdade tinha contribuído,e de novo a 3 de agosto, porque sedizia que o
“fintador” protegera a “alguns bomens de nação na república ...108, Suco-
deu que Gaspar Gomes apenas se lembrara de erêsdos pagantes: Tomás
Freire, Rodrigo Fernandes e Francisco Vaz Coelho. Onde, portanto,
andariam os demais? Porque não se incluíram nem ao menosos que se
radicaram noplanalt o ainda há pouco,di gamos,o s Vaz de Barros e alguns
dos companheiros de D. Eranciscode Sousa? E, igualmente, cisco é certoque
outros chegaram mais recenteme nte. Além dodiscuti doFran Lopes
Pinto,também Gaspar Gomes, fintador, Geraldo da Silva, e os Medei
ros, Diogo Dias de Moura, Lopo Ribeiro Castanho e outros
Este último eranarural de Viana e se estabeleceu emSantos, antes de
1620, dedicando-se ao comércio. Foi casadopor duas vezes « teve emao
menos os dois filhos seguintes: Simão Ribeico Castanho, nascido
“Abrantes, e Manuel Lopes de Siqueira, nascido emSantos. Ambosforame
mercadores, e casaram-se respectivamente com Luisa de Gusmão
Esperança Gomes da Costa, cristãos-novas, irmãs do padre Antônio
Raposo, vigário de S. Vicente.
De Simão e Luísa nasceram: (1) Jorge Lopes Ribeiro, quefoiescrivão
dos órfãos em SãoPaulo e pai, dentre outros, dos padres Lopo Ribeiro
ncisco LopesRibeiro; (2) Lopo Rodrigues Ulhõa, que exer-
sos cargosna capitania, e nela morceu sem geração. E, por
aquelesegundo ramo, ou seja, de Manuel « Esperança, procedem os
Lopes Siqueira, pois o casal 167teve seis filhos, dentre os quais o padre
Antônio Raposo deSiqueira!
Quanto à Geraldo da Silva, de quem já temosnovícias em 161
para a capitaniaatraído, certamente, pelas notícias que cosriam sobre os
z
empreendimentos mineralógicos. Era ourives de profissão, nascido em $
Miguel de Cabreiras, Portugal. Veio casado, À 14 de julho de 1633
precisou demitir-se da edilidade paulistana, porque,além do ofício,era de
linhagem hebréia. Teve um filholegítimo,de igual nome,quese casou
em Santos com umairmã de Bartolomeu Lourenço de Gusmão,o padre
voador''8,e deles, por sua vez, procede o Dr. Teotônio da Silva e
Gusmão, candidatoà Leitura no Paço, em 1732, a qual, porém,não
conseguiu alcançar, pois à inquirição revelou a linhagem infecta doavô
paterno, filhode AnaViegas,cristã-nova. Por absurdo que pareça, o Dr.
Teotônio pertencia à quarta geração, em queodefeitoera coisa insignifi-
fama de que “as Lopes de Medeiros padeciam à nota de cristãos-novos”
alcançou o século XVII. Assim o declarou o sexagenário Manuel Do-
mingosCalaça no processo de habilicaçãodo padre Ângelo deSiqueira.
Sabe-se, agora, queessa família procedia do enlace de Catarina de
Medeiros, filha de SalvadorPires, com O sargento-mor Matias Lopes,
Mas, qual dosdois, seria de origem hebréia? Ou seriam-no ambos? É
ignificativo observar que osPires se ligaram aos Pedroso de Barros, aos
Garcia Velho e aos Tavares, em que corria ouse infiltrara O sangue
cristão-novo.
Sabe-se, outrossim, que o casal, acima, gerou a Antônio Lopes de
Medeiros, que em1642 casou com Catarina de Unhate e foi ouvidor, a
Maria de Medeiros, que casou com Gonçalo da Costa Ferreira, do Rio de
Janeiro; ao sargento-mor Matias Lopes, que casou com Catarina do
Prado; e a Zuzarte(ouJuzarte) Lopes,o qual faleceu nosertãodos Patos,
com testamento, em 1635, e nô-lo revelam aparentado com os Bueno,
com os Tavares, os Nunes os Pontes. Todos deixaram descendência".
Que, também, Diogo Dias de Moura pertencia aos de linhagem
hebréia, está claro luz das inquirições efetuadas em Vitória, no Espírito
Santo, entre IO de dezembrode 1627 e 14 de março de 1628,a fim de ser
comprovada certa dívida do mesmo para com o mercador Simão Luis,
referente a doze pares de meias que trouxera para vender em São Paulo.
Aí se afirma que Diogoera amigo daquele e primo de Diogo Dias
Sanches, Ora, os Dias Sanches estavam identificados com uma família de
deus portugueses imigrada em Amsterdã.
Existem, outrossim, no testamento de Diogo Dias de Moura ex
pressões reveladoras desua procedência érmica-religiosa,próprias de um.
ceistão-novo. Em uma, afirma que faz O testamento “como serdadeiro
cristão sem ser constrangido de pessoa alguma (...J"

144
Diogo Dias de Moura foi mercador,e em 1612 achava-se na Bahia. Já
estava morando em São Paulo desde 1619, pelo menos. Casou com
Suzanade Gois, filha de Antônio Rapõso,o velho,e de Isabel de Gois,
sua segunda mulher, cujostroncos supomos fossem de Beja e, neste
caso, de emia duvidosa, porque os Gois, os Raposo, os Pegas e os
Bocarro, de Beja, tinham sangue hebreuou receberam-no em suas
famílias. Faleceu ele, em 1627, é deixou filhos, um dosquais, Antônio
Dias de Moura, veioa tornar-se destacadosertanista'
As populações dasvilas planaltinas continuaram, pois,a crescere, ao
invés de entrarem num período de calma, mais se agitaram. O bandei-
rismo escravocrata levou-as a acirradoconflito com os jesuítas, defenso-
resdoindígena. Ao mesmo tempo feriu-se entre os herdeiros de Martim
Afonso e osde seu irmão uma disputa com vistas à demarcação de suas.
capitanias, que se prolongaria pelos anos a dentro. É a célebre questão
entre as casas de Vimioso Monsanto, que, por sua natureza, repercutiu
em benefício dos cristãos-novos, pela dubiedade administrativa e pela
atuação de elementosda progênie na confusa demanda. É assim,e talvez
por causa desta, queiremosdefrontrar-nos desde esse momento com os
Tavares, de Beja, Fernão Vieira Tavarese seu filho Antônio Raposo
Tavares, de famosa memória. Ambos vieram para o Sul entre 1620 c
1622, porque, até aquela dara, Fernão tinha sido contador-mor da Fa-
zenda, na Bahia, mas,a 9 de abril de 1622, recebe no Rio de Janeiro uma
previsão passada por Martim de Sá, designando-o seu substituto como
capitão-mor doterritóriovicentino. Entretanto,sendo investido, depois,
no cargo de provedor da Fazenda, tomouo partidodoconde de Mon-
santo.
NoReino, porém, a mulher dovelho Tavarese osfamiliares curtiam
penosas amarguras. Denunciados como observantes da lei mosaica, di-
versos deles, moradores em Beja, deram entrada na Inquisição. Corria o
ano de 1618. Receando igual desdita, João Lopes d'Elvas, sogro de
Fernão, resolve fugir para o Brasil com às filhas, Maria e Francisca e os
garotinhos daquela, mas, em Lisboa, suas intenções acabaram descober-
tase todosforam levadospara o Limoeiro, porque, sendocristãos-novos,
só poderiam embarcar comlicença especial. Maria da Costa, queassim se
chamava a mulher de Fernão, embora em extremapobreza, precisou
ajustar advogadoe quandojáestava prestesa sair docárcere, requisitow-a
o Santo Ofício lisbonense em vista das acusações acima referidas. De
modo quepadeceu ela seis longosanos nosfrios estáus inquistoriais,
separada do maridoe dosfilhos. Já antes disso perdera os bens, porque

145
lhos tomaram a fim de cobrir um desvio de 6008000 feitopor Fernão
quando tesoureiro da Bula da Cruzada, em Beja,e que ele, entretanto,
pretendia resgatar
Tais acontecimentos deviam ter produzido no espíritoda família
toda o mais profundo dissabos, e inclusive no de Antônio Raposo
Tavares, o futuro demolidor das “reduções” jesuíticas. Nem se pense
que esses fatos tenham passado desapercebidos na capitania de São Vi-
cente, à julgar pela distância ou por um suposto isolamento da mesma
Não: tanto assim que Domingosde Freitas, residente em Santos e ad-
vogado da condessa de Vimieiro, pretendendo investr-se na provedoria
da Fazenda, ocupada interinamente por Fernão Vieira, reivindicou o
cargo para si numacarta à S. Majestade e na qual arrazoou dizendo:
“está servindohum Fernão Vrk. Tavares por provimento do gover.
nador Diogo de Mendonça Furtado, o qual Fernão Vert. fugiu deste
Reino com dinheiro de V.Mide, que levou de Beja das bulasda Santa
Cruzadae sua mulher foi presa na cidade de Beja pelo Santo Ofício e saiu
penitenciada, pelo que vistodas vias fica sendoodito Fernão Vert. pessoa
inábil para 0 tal cargo "2"
Esclarecemosmais, à luz dos autos em apreço, que Fernão Vieira
Tavares casou por duas vezes. Da primeira, com Francisca Pinheiro da
Costa Bravo,que também cremos ser da linhagem cristã-nova, etalvez
parente da segunda mulher. Teve, dessaprimeira, os filhos: Maria de
Assunção, Margarida Pinheiro e Manuel Tavares. Devia, igualmente, ser
deste matrimônio Antônio Raposo Tavares, nascido entre 1598 é 1600,
e que veio com o pai para São Vicente ainda moço. Todavia, do se-
gundo enlace, ocorridocerca de 1611, com Maria da Costa,viúva, en-
tão, de Diogo Nunes Machado,cristão-novo, rendeiro, nasceram: Pas
ccal, com 8 anos em 1619, Diogo é Ana, mais novos. Cremos, assim,
que os bandeirantes Diogoda Costa Tavares e Pascoal da Costa Tavares
eram do último enlace e, por conseguinte, meios-irmãos de Antônio
Raposo Tavares, e não conformeescreveram os genealogistas. Além do
que estes e os demais da família só teriam vindo para a capitania após a
soltura de Maria, em 1624. Esta senhora era natural de Évora, onde
nascera porvolta de 1584. O pai fora mercador e fazendeiro em Moura.
A mãe, Inês Álvares, já era falecida em 1619. Deixaram um filho e seis
filhas, todos cristãos-novos, moradores em Beja''º
Se o Santo Ofício quisesse agirpentão,na capitania de São Vicente,
como fizera na Bahia, encontraria messe farta. Hereges, judaizantes e
gente de maus costumes sobravam porestas bandas. Os paulistas goza-
vamde fama. Apenas em 1628, que se saiba, atuou na capitania um
inquisidor, vindo especificamente do Reino. Trata-se do lic. Pires da
Veiga, oqual procurou tirar em proveito próprio as maioresvantagens
Por isso prendeu somente umas poucas pessoas, mesmo porque se
achava em vigororecente “edito da graça”, concedido pela Inquisição.
Contudo, de um relatório redigido porele, tomamosconhecimento de
diversoscristãos-novosanônimos, além de um cobradorda finta dagente
da nação. marchante em São Paulo (Gaspar Gomes), e seu irmãoN. de
Fontes, marchante navila de Santos,e do blasfemo Sebastião de Frei-
tas!!4, homem de influência no planalto e com numerosa família, pois
chegara à capitania em 1592, conforme vimos
Gaspar Gomes, o cobradordas fintas, andava pelos vinte é quatro
anos de idade quando,pela peimeira vez, o encontramosem documento
de São Paulo. Consoante oreferidoescrito,a 18 de maio de-1613 ojuiz
Bernardo de Quadros fez curador dos filhos órfãos de Bartolomeu
Rodrigues
(Gaspar Gomes aquimorador, porser casado com umaprima dos
órfãos e ser homemabonado, ao qual fez vir perante si € lhe deu
juramento dos Santos Evangelhos(....
A esse tempo, note-se, já era considerado pessoa abonada,e estava
casado com umafilha ra, isto é, nascida na capitania. Temosciência
de que cra Isabel Nunes, filha deLucas Fernandes Pinto e de sua mulher
Maria Nunes. De sorte que, por essavia, achava-se ligado às famílias de
Pero Nunes « de Gaspar Fernandes que foi casado comDomingas, filha
de Antônio Preto. Eracunhado, então, de Diogo Vaz Pinto, de Miguel
Vaz Pinto e de Custódio Nunes Pinto?'s
Descobrimos-lhe osfilhos, abaixo:
1)— Brites Gomes, a qual casou em São Paulo a 23 de maio de 1638
com Miguel Nunes Bicudo, filho de Antônio Luís Groue de sua
mulher; 2) — Diogode Fontes, que casou com Isabel Dias, descendente.
de João Ramalho, de quemfoi osegundomarido; 5) — Gaspar Gomes,
aindarapaz em 1636.
Gaspar Gomes, o velho, foi compadre de Pero Nunese de Manuel
João Branco. Teve sítio emSão Paulo. Mudou-se depois para Santos.
“Ainda estava ematividade no anode 1651. Teve um irmão, Diogo de
Fontes, açougueiro em Santos
Por queo incluímos narelação dos cristãos-novos? Ele e o irmão
foram denunciados ao visitador Luís Piresda Veiga comojudaizantes.

147
Umdeles, ouvido pelo inquisidor,embora se dissesse cristão-velho, não o
era. Indagado porque não comia peixe de escama, respondeu que assim
agia visto fazer-lhe mal. Era marchante em São Paulo. O outro, Diogode
Fontes, morava em Santose tinha sidoescolhidopara cobradorda finta
da gente da nação, encargo queaté há pouco exercera Gaspar. Além
disso, asatividades em que Gaspar se ocupava eram peculiares à gente da
naçãohebréia. Senãovejamos:
1) - Foi ativo mercador durante os longosanos em que viveu na
capitania, conforme revelam as atas,os testamentose osinventários; 2)
— Obseve o direito de cobrar osdízimos da capitania, mediante arren-
damento, de que temosumaprova no ano de 1633; 3) - Conhecia como
ninguém os indivíduosda nação hebréia e, por isso, chamaram-no por
mais de uma vez à Câmara para informá-la sobre as fintas, ou se na
edilidadeestava servindo algum deles; 4) - Teve a incumbência de
arrecadar as fincas atribuídas aquela gente, como se verifica das atas.
Lemos,a propósito, que a 3 defevereiro de 1624 estando reunida a
oficialidade da Câmara, o procuradorLionel Furtadoquerendosaber
comoandavam as coisas neste sentido, requereu “mandasé vir o livro da
finta da gente da nação ebrea pagarãopera a frota mores nesta dita villa
adº o declarase Gaspar Gomes comofintador quefoi desta dita
Cos,
Tal responsabilidade era confiada,via de regra,aelementoda própria
etnia. Por exemplo, em 1478, quando Portugal se encontrava em sérias
dificuldades por causa da guerra com Castela é também quandost
preparou o socorro à Pernambuco, ou aínda quandosecontratou no
tempo de Filipe II, de Portugal, à finta de 1.700.000 cruzados,
distribuiram-se as somas, € eles mesmos arrecadaram as quotas quelhes
eram pertinentes!!”. Em Goa, no ano de 1632, lançaram-se acusações
contra o inquisidordo SantoOfício,João DelgadoFigueira, por favore-
cer o cristão-novo frei Simão de Nazaré. E a prova de que este era
cristão-novo? Simplesmente “que um seu irmão por nome Sebastião de
Vargas foi repartidor da finta lançada aoscristãos-novos...'',
Outro exemplo: Francisco Quaresma de Abreu, entre os serviçosque
prestara no Brasil, contava o dedistribuidor geral das fintas da gente
hebréia. Pois bem! Quando pretendeureceber certa mercê que S. Majes-
tade lhe concedera, a Mesa dos Desembargadores levantou empedi-
mento,exatamente porter desempenhadoo dito encargo, pelo que devia.
ter sanguehebreu"is,

148
Assim sendo, não só Gaspar Gomesera cristão-novo, mas, deigual
modo, seu antecessor Jorge Neto Falcão, cobrador em 1614 das fintas,
segundose depreende da ata da sessão da Câmara de São Paulo em 15 de
fevereiro desse ano. Lê-se aí que o procurador do povo, FrancisconoJorge
dia
protestau contra o procedimento de Jorge Falcão, cometido
anterior, pois, "estandoem cata da provedor diogo de quadrosent rarajorge
dos
meto falcão e disse em alta vozes que havia de fintar este povo em a finta
cristâos-novas... e sendo tais os podia botar... que lhe fazião botar duzentas mil
seis de finta e queee os baveria de lotar a todos que lhe paresesse querfossem
cristãos velhos quer não a,
Jorge NetoFalcão ainda exercia o cargoquatro anos depois. Por sua
alçadafoi incluído o nome deFrancisco Lopes Pinto no respectivo livro
de rol gente da naçãodos hebreus. De uma feita, sendo-lhe pergun-
tudo peloouvidor Gonçalo Correia, porque ofizera, emface da reclama-
ção doprejudicado, respondeu Jorge: “pela ima que na terra bavia” de
Depois,a documentação local silencia por completo sobre judeus e
cristãos-novos, quando mais o poderiafazer, por que no períodoque se
segue à visitaçãodo lic. Pires da Veiga o planalto usufruiu de condições
excepcionais, economicamente falando. Foi quandoo bandeirismo apre-
sador lhe proporcionou maiores recursos em razão, especialmente, do
csáfico de escravosindígenas já meio-civilizados e do crescimento agro-
Aconjuntura transparece, agora, no mobiliáriodo paulistano «
até naconstrução das moradias. É, não obstante, fase histórica em que as
fontes documentais castellianas, jesuítica e civil, mais enfaticamente se
referem àgente hebréia da nação portuguesa, sem lhe identificar os
nomes.Assim, só podemosconjecturar que os Rodrigues Brandão che-
gados a Paulo por volta de 1638 ofossem. Era-o, contudo, Diogo
Lopes Ramos, pois em 1587 um homônimo, cristão-novo, veio com à
mulher paraa Bahia pode ser quese trare desse mesmo,ou doseu filho,
o qual atuou no Sul comoescrivão da ouvidoria e como promotor
público!22, Pauloe Francisco Rodrigues Brandão, cram parentes,artemas
ignoramosem quegrau. Aquele era natural de Lisboa e exerciaa de
curar, tão comum entre os sefarditas « outros hebreus. Demorou-se
pouco tempo na capitani porque seguiu logopara Angola, mas uma
filha, de nome Isabel, casou com o capitão Antônio Pinto do Rego!
Assim, Paulo permaneceu sem médico algum, porque Antônio
Vieira Bocarro, chegado Bahia em 1634, não se fixouaqui, talvez
porque a medicina desse pouco resultado, ou lhe negassemosfavores
que precendia. O povo vivera canto tempo sem um clínico e ainfluência
indígena era tal que muita gente recorria às plantas medicinais ou à
otica do colégio jesuíta!2t. Porém, Francisco Rodrigues Brandãoaqui se
radicou com a família, montando sua moradia na “rua direita de santo
antônio, ovelho”. Ainda vívia em 1668'25,
Menor dúvida pesa acerca de Simão Rodrigues Henriques « de
Manuel Soeiro Ramises, chegados à capitania porvolta de 16: época
em quea Bahia e o Nordeste enfrenta de perto a guerra contraos
holandeses,
Simão Rodriguesantesde vir para o Sul, cerca de 1637, viveu na
Bahia e ali casou com Joana Correia, filha de Gaspar Soares. Passoua
residir, então,noRiode Janeiro,e depois em Santos,e finalmente em
São Paulo. Tinha casa própria na rua de $. Erancisco. Sua transfercácia
para cá deve-se ao fato de encontrar campo mais propício àsua profissão,
pois era ourives. Inferimos, outrossim, tivesse algum parentesco como
cristão-novo Belchior Roiz, porque, em 1642, achando-se no Rio de
Janeiro,foi chamadoa prestar declaração sobre os bens deixados pelo
almoxarife Gregório de Barros, falecido há pouco, genro daquele, São
conhecidos quatro filhas e um filho. Uma de suas netas casou com Gar-
cia RodriguesPais Betin, delinhagem cristã-nova!*,
Manuel Soeiro Ramires foi pessoa bem conhecida em São Paulo,
onde exerceu os ofícios de escrivão da Câmara,tabelião e inquiridor. A
12 dejaneiro de 1643 uniu-se por matrimônio naigreja matriz da vila
com a viúva Mecia de Freitas,filhado cristão-novo Sebastião de Freitas
O nubente era natural de Lisboa,filho de Antônio Soeiro e de Susana
Ramirez, Na visitação de 1591, encontramos Soeiros e Ramires,
ceistãos-novos, entrelaçados por casamento,e também os havia em An-
tuérpia nos anos de 1571 a 1611, e, igualmente, em Pernambuco,
durante o domínio holandês'?”, Nessa mesmavisitação ouvimosfalar de
um Diogo Vaz de Escobar, marido dacristi-nova Violante Antunes. Já
era falecido em 159], mas deixoufilhos. Seria, então, um destes, ou pelo
menos,parente, o homônimo que foi escrivão da Fazenda no Riode
Janeiroantes de 1652 e após também da administração geral das minas do
Sulzizs
Osprocessos de habilitação ao sacerdócionos fornecem evidências
quanto a dois outros cristãos-novos de São Paulo. Um deles, certo
Domingos da Rocha, em 1640 fazia parte da edilidadelocal juntamente
com Matias Lopes « Geraldo daSilva, e foieste, exatamente, quem,em
1659,ao ser inquiridoacerca de um filhodaquele, candidato às ordens

150
sacras, declarou que o mesmo havia padecido a fama de cristão-novo, mas
se habilicara ao ingressar na Misericórdia como provedor". O outro,foi
Gonçalo Simões Chacim, natural de Portimão, noAugarve,filho de Rodri-
“&gues Simões e de Joana Jorge Chacim. De S. Paulo, passou Gonçalo a
Parnaíba, decuja vila teve 0 governopor diversas vezes. Casou com
Maria Leme de Brito, em $. Paulo,cerca de 1655,quelhe deu oito filhos.
Orumor de cristânovice persistia quandoo neto, Antônio Simões Cha-
cim, concorreu aoingressona vida eclesiástica em 172070,
Quanto, porém, à segunda parte doséculo XVI,são,ainda, asfontes
inquisitorias as mais elucidativas em matéria de identificação, embora,
como temosdito, o Santo Ofício raramente haja atuado macapitania de
Vicente. É, quase sempre, por meios indiretos que nosrevela
certos indivíduos. Assim, ficamos sabendo que ao redor de 1659 se
emSantos o mercador alentejano Luís Gomes Pereira de
Leão, o qual aí se casou com Inês doRosário, cristá-velha,e de onde, ao
depois, possuindojá diversos filhos, foram residir no Rio de Janeiro, e
nesta, mais tarde, o Santo Ofício botou as mãos sobre quantos ainda ali
viviam. O pai, osfilhose os cunhados dedicaram-se à vida comercial. Um
neto, Simão Farto Dinis, foi militar, e Francisco Gomes Dinis, irmão
deste, formou-se em leis's!
Ao mesmo tempo vêm para S. Paulo, Inês Aires da Silva, irmã do
ilustre advogado Dr. João Mendesda Silva, com o marido, de nome
André de Barros de Miranda, e osfilhos nascidos no Rio deJaneiro. Aqui
permaneceram de 1660 a 1671, quandoregressaram à Guanabara coma
família mais acrescida, pois navilaplanaltina lhes nasceram três ou quatro
filhos, André exerceu aqui oscargos de escrivão da Câmara e tabelião do
público, judicial e notas. Viera, certamente, por indústria do cunhado
Luís FernandesCrato, escrivão da referida Câmara, um pouco antes.
Anosdepois,três filhas, já casadas, vierampara Santos: Isabelde Barros,
mulher do capitão Rodrigo Coelho Bonsucesso; Ana, mulher de Pedro
Homemda Costa, e Joana, mulher de Inácio Francisco de Araujo'S?.
Aqui aportaram também, por volta de 1680, os doisirmãos José e
Teotônio da Costa, filhos do ex-banqueiro português, cristão-novo,
Gaspar da Costa de Mesquita, cujas firanças entãose achava abaladas
Isto, ou o temoraoSantoOfício tê-los-fa compelido para São Paulo,
ainda porque desde há anosse reativara a busca de riquezas mineralógi-.
cas. O certoé queo pai, emabril de 1682, caiu nas guarras da Inquisição,
e os dois irmãos,por causa dele, sofreram igual destino meses depois.
José contava vinte e cinco anos e Teotôniovinte e dois. Ambos

151
dedicavam-se à lavourae tinham-se casado em S. Paulo com moças de
linhagem cristá-velha. Durante todo Oprocesso inquisitorial Teotônio
conservou-se fiel à lei mosaica e por isso, a 12 de julho de 1686,foi
entregue justiça secular para ser queimado. Em São Paulo lhe ficara o
filho André, agoraórfão, com apenas seis anosde idade'%3, Osinocentes
pagavam pelos culpados.
À bem maior número somariam agora os hebreusna capirania, a
deduzir de uma série de fatores: o reavivamento da Inquisição em
Portugal,as concessões a quantos colaborassem na defesa da colônia do
Sacramento, o progresso do Riode Janeiro,e as descobertas de Fernão
Dias de outros. Desses, porém, só trazemos à ribalta um Francisco
Mendes de Crasto, que foi morador navila do Parati, caminhodas minas
do além-Paraíba. Teve numerosa família, sendo que um dos netos,
Miguel Teles da Costa, veioa ser capitão-morde Itanhaem'3t, Todavia o
fim do século XVII trouxe decadência para São Paulo. Cessa o apresa-
mento e segue-se a dispersão pelas minas
Um outro, João Lopes Nunes, veio com algumasirmãs e o pai para o
Riode Janeiro. Consagrou-se à mercancia, estabelecendo-se depois em
Santos. Em 1608,junto com o governador Artur de Sá e Menezes, e
moradores, trataram sobre a construção de uma fortaleza na barra dao
vila. Em 1704 foi preso por ordem da Inquisição, e embarcado para
Reino. Estava com vinte é oito anos de idade'?s,
Sabe-se mais, que, não muito depois, veio residir em São Paulo,
casada, umairmã bastarda do famoso Manuel Nunes Viana, reinol, que
tanto mal causou aos paulistas, chefiando os emboabas. Poresse mesmo
tempo fazem-se referências, comosimpatizantes do judaismo, a alguns
descendentes dos LopesSiqueira, a João Pereira do Lagoe a sua irmã
Rosa, família de Manuel da Luz, aocapitão-morJosefde Gois e família,
ao sargento-morD. Francisco, à mulher às filhas do capitão Bartolo-
meu Pais, a José Pires Monteiro e a suas irmãs, à mulher do JoãoDias
de Carvalho, Inácio de Almeida Lara, a Josef Luís, o Cuiabá, é à outras
pessoas!%, todos gente de projeção. Em Taubaté localiza-se o cristão-
novo Pantaleão Duarte, denunciado em 1711 ao Sto. Ofício e que su-
pomos seja descendente de Panteleão Duarte Velho, do Rio de Ja-
neiro!37, Os Lopes de Siqueira, não obstante a fama, tinham ainda
“grande influência na vida religiosa, pois diversos eramsacerdotes, e
Manoel Lopes de Siqueira, mestre de capela na matriz de $. Paulo'.
Muitos foram os prováveisindivíduos da linhagem hebréia que vive-
ram ma capitania de S. Vicente, como: Frutuoso da Costa, que veio

152
degsedado para o Espírito Santo e depois mudou-se para S. Paulo, onde
casou e foi escrivão da Câmara, em 1573; Belchior da Costa, tabelião e
senro de Lopo Dias; os Fernandes Pinto, aparentados com o fintador
Gaspar Gomes; os quatro irmãos, Afonso, Manoel, Domingos e Pascoal
Afonso,de Gaia; osirmãos, Manuel é FranciscoJoão Branco; Belchiorda
VeigaeJerônimo daVeiga: Luís Fernandes Folgado, que foirendeiro dos.
dízimos; João Lopes de Ledesma, concunhado do hebreu Francisco Vaz
Coelho; Lucas Rodrigues de Cordova, que foi ouvidor em 1610; o
mercador Francisco Rodrigues Sarzedas; o tabelião Antônio Pardo; os
Baldaia; Diogo Rodrigues Salamanca; o sertanista Domingos Cardoso
Coutinho; o mercador André Rodrigues de Matos; os advogados Bet-
chior Ordas de Leão e Diogo de Medina, e tantos mais. Como, porém, a
história é documento,aí fica a suposição, baseada em nossa experiência,
adquirida em leituras, noestudo é na pesquisa da atuação dos cristãos-
-novos sefarditas :
c
CRISTÃOS-NOVOS RADICADOS NO RIO DEJANEIRO
O estabelecimento dos franceses na Guanabara, onde se fam fortale-
cendo acada dia, obrigou regenteDaCatarinaa tomarprovidênciaspara
expulsá-los. Já antes ogovernador-geral do Brasil advertira a Metrópole
contra O perigo que os entreloposconstituíam, pois vinham ali a carregar
pimenta é madeiras corantes,tendoorganizado feitorias e deixadointér-
pretes para lhes facilicarem O escambocom os indígenas, cuja amizade
haviam granjeado!3S, Tratava-se de uma região pertencente à Coroa de
Portugal, embora ainda desabitada por seus sádicos, « que, por isso
mesmo,deveria ser defendida. Por ela a dentro talvez se encontrassem
inérios preciosos, e quando não,poderia servir de amparo às capitanias
inhas em caso de necessidade. Era mister, então, povoá-la, colonizáa,
E a tanto se entregou Mem de Sá durante à profícua administração do
País.
Na mesma ocasião alguns fatos notáveis agitaram a coletividade
hebreu-porruguesa do Reino. Em 1549 tinha obtido ela direito de
saber quem eram os seus acusadores, face aos processos inquisitoriais,
mas, 23 dejaneiro de 1560, Pio IV, orevogoupelo breveDuducum,de
modo que ficavam os réus de novo mercé dos usos anteriormente.
adotados pelo Santo Ofício. Porém,no ínterim, uma porta de escape se
lhes entreabriu, ensejando a oportunidade para buscarem lugares mais
seguros. É que a lei de 1547 expirara no lustre seguinte, e não fora

153
prorrogada, facultando,assim, saída de quem até ali estivera coibido de
fazê-lo!%0, Eis porque muitos da progênie teriam passadoao Brasil,
engajando-se nas expedições libertadoras do Rio de Janeiro, em 1560 €
1565. Sabemosque tomaram parte numa ou noutra, pelo menos, o
físico-mor, mestre Afonso Mendes, o escrivão Antônio Serrão, Cristó-
vãoDinis, já referidos por nós, e mais os Correia de Sá, Manuel Veloso
deEspinha e Antônio de Sampaio. À seguir, não muito depois, quandoas
terras ao redorjá se mostravam isentas do perigoindígena e podiam ser
aproveitadas, outros foram chegando. À Francisco Mendes,filho daquele
Mendes, tabelião, que se passou a São Vicente, juntaram-se as irmãs e o
cunhadoFernão Roiz, mestre deaçúcares,o qual pareceestar ligado à
noviça monocultura canavieira dacapitania. Era mais um elo a aproximar
as duas donatárias, nascidas ambas do mesmo parto e predestinadas a
viverem múuainterdependência. Mas, aengrossar esse núcleo desabro-
chante, é preciso reunir o nomede Vitória da Costa Freire e os de seus
familiares, porquanto a referida senhora influiu profundamente sobre
alguns destacadoscidadãos, quetais foram,pelo menos, Salvador Correia
de Sá e Martim Correia de Sá. Tudoisso, então,assume caríter deveras
significativo, uma vez que as bases do povoamento e da formaçãosócio
cultural é econômica foram lançadas aí. Sendo tão poucosos indivíduos
da emia cristá-velha, à dos hebreus, naturalmente, não deixaria de
sobressaie-se,
Esclareçamos, ademais,que os Correia de Sá procediam de linhagem
cristá-nova por suas avósFilipa de Sá e Maria Roiz (ou Ramires), aquela,
dos Ramires, de Barcelos, e esta dos Rodrigues, cristãos-novos de Vila
Conde, mas, ao que cremos, parentes uma da outra, pois ambas as
famílias se entrelaçaram. Assira, Gonçalo Correia de Sá teve de Filipa de
Sá, sua primeira mulher, a Salvador Correia de Sá, e da segunda, Maria
Roiz,a quem recebeu depois de viúvo e lhe legitimouos filhos, mais os
seguintes: Manuel Correia, Duarte Correia Vasqueanes e Isabel Correia,
todos, obviamente, meios-irmãos do primeiro governador doRio de
Janeiro *4% Esses dois,juntamente com Salvador, fixando-se na capitania
desde as origens, tornaram-se figurasde relevo porsuas afinidades com o
prestigioso Mem de Sá, bem como pela atuação que desenvolveram.
Salvador casou por três vezes. Entretanto só deixou filhos da judia
Vitória da Costa Freire, sua amante, e à qual desposou mais tarde. Ela
viera para o RiodeJaneiro ances de 1575 com omarido,certopiloto de
sobrenomeVale. Ospais chamavam-se Fernão Martins Freire c Branca
Freire da Costa, mas, ao que parece, apenas a mãe à acompanhou paracá,

154
sendo viuva. É provável que o destino também tivesse reduzido Vitóriaa
estamesma condição, jovemaindae empaís de poucos recursos. O certo
é quedo seu conúbio gerou a Martim Correia de Sá, sobre cuja etnia c
legitimidadejá nos pronunciamos.
De igual modoSalvador e Vitória tiveram um segundo filho. Em.
homenagem ao avô paterno batizaram-no com o nome de Gonçalo. Éo
nosso bem conhecido Gonçalo Correia da Costa, figura aruante nas
capitanias do Sul. Casou em São Vicente com a jovem senhora D
Esperança, filha de Francisco Machado,neto do cristão-novo Martim da
Costa, originário de Barcelos. E deste enlace nasceu à menina Vitória,
futura consorte do governador paraguaio, D. Luís de Céspedes y Xeria
(1628), fato que devemoslevar em conta ao considerar o bandeicismo
paulista.
Quanto aos dois outros filhos dovelho Gonçalo, ousejam, Manuel e
Duarte, dos quais já dissemos que ambos também se fixaram no Rio,
lembramos que o primeiro convolou matrimônio com Maria de Mariz,
sobrinha do padre Antônio de Mariz Loureiro, administrador - eclesiá-
ico da Repareição do Sul desde 1634 e sobre cujos ombroscaia todaa
responsabilidade religiosa nestas plagas. Aí estaria umadas razões da
tolerância que se dispensava aos hebreus.
O enlace de Duarte concorreria, outrossim,paraisto,pois casou com
Maria Borges, que era cristã-nova. Tiveram três filhos: Martim Correia.
Vasqueanes, que foi sargento-mor no Rio de Janeiro; Salvador, que foi
dono de engenho e brioso militar; Manuel, o qual exerceu importantes
cargos na capitania, assim como fizera o pai é os demais parentes. Em
17160sreferidosirmãosforamarrolados noprocesso inquisitorial deum
conterrâneo e nele aparecem como simpatizantes do judaísmo « porta
dores de sangue hebreu pelo vínculo materno!*?,
Aos Correia de Sá muito deveu a Coroa, não só quanto à defesa « à
administração da capitania, mas também quanto aos descobrimentos
mineralógicos e aos serviços prestados noutras regiões da conquista
portuguesa, pelo que, merecidamente, os reis lhes concederam títulos
honorífico, não obstante alinhagem érnica impeditiva de que participa-
vam,e às vezes reativada por novos enlaces.
Dentre os companheiros de Salvador Correiade Sáque se fixaramno
Rio, destaquemos por ora o cristão-novo Manuel Veloso de Espinha,
residente até há pouco na capitania de Ilhéus. Atendendo ao apelo do
terceiro governador-geral para o socorro à Guanabara, colocou à sua
disposição o navio que possuía,os escravos ea si próprio. Comoestivesse

155
solteiro, dirigiu-se a São Vicente após a expulsão dos franceses ali
contraiu matrimônio com Jerônima Cubas. Voltando para junco dos
camaradas, obteve chãos norocio da novel cidade, neles edificando à
moradia, além de outras áreas com vistas ? lavoura. Teve do seu enlace os
seguintes filhos: 1) - Manuel Veloso de Espinha (ou Cubas), O qual
casou com Isabel de Bitencourt, da Bahia, e da mesma deixou descen-
dentes. Umadas filhas, por nomeLuísa da Fonseca Dória, casou com o
capitão Luís Vicira de Mendanha, naturai de Almada, próximoa Lisboa,
Foi senhor de engenho e provedor da Misericórdia. 2) — Jerônimo
Veloso Cubas. Este obteveterras em Guaratiba e nelas ergueu uma
capela votadaa N.º $r%, do Desterro,quetransferiu depois aos carmeli-
tas mediante a obrigação de ali sepultarem os doadorese de rezarem
missas por suas almas. Já era falecido em 1633, tendo sido casado com
Beatriz Álvares Gago,filha de Estevão de Araújo, que rambém supomos
de linhagem cristã-nova. 3) - Catarina Cubas (na dúvida). 4) - Prudência
Veloso que casou com Baltazar Borges, dessa emia, segundo se infere
das evidênciasta,
Outro contemporâneo dosSá, foi Antônio de Sampaio, que veio ao
posto de capitão €, igualmente, preferiu estabelecese no Rio, tornando-
se pessoa das mais gradas. À falta de mulheres solteizas no lugas, imitou
ospatrícios e foi casar em São Vicente, onde tomoupor esposa a Maria
Coclho,filha de André Pires, Um do» dois, ou ambos, deviam ser da
Progênie israelita, porquanto o sobrenome Sam Payo ou Sampaio carac-
terizava certas famílias sefardins de Portugal, França e Países-Baixos.
Acontece, outrossim, que à confirmá-la, existem os faros seguintes,
baseados todos em documentos por nós compulsados. Um seu descen-
dente, Antáio Pinto Homem,jamais conseguiu habilitar-se à Ordem de
Crisco por causa dalinhagem impeditiva que lhe asribulam,a qual enfo-
cava nos Sampaio. Por sua vez um primo deste fora penitenciado pelo
Santo Ofício, e um outro, certo Pedro Garcia de Barros nunca póde
filiar-se na Misericórdia porque a mulher pertencia à referida família.
Ainda um terceiro, chamado José Dutra, porigual motivo foi preterido
nas mercês das ordens militares honoríficas. Também as filhas de Helena
de Oliveira Sampaio não conseguiram ingressar na Ordem de São Fran-
cisco, embora o irmão consaguíneo, João de Oliveira já fosse padre"
Lembraríamos, em adendo, que o neto, homônimo doprimeiro Antônio
de Sampaio, casou com uma das netas do hebreu paulistano Francisco
Vaz Coelho,e dela deixouseis filhos,alguns dos quais ingressaram na
vida religiosa, ao passo que um destes, Miguel de Sampaio c Almeida

156
convolou matrimônio na parentela do cristão-novo José Correia Xime-
nes'*5, Porondese vê que seivaisraelita correu abundante na capitania,
sem com isso tolheraoutros rebentos daárvoregenealógica o acesso aos.
cargos públicos locais, à recepção de sesmarias e de comendas honoríf-
cas!46 e o ingresso nas ordens eclesiásticas.
Nem todos oscristãos-novos permaneceram na encantadoraGuana-
bara quando se findaram as lutas contra Osfranceses e os tamoios, seus
aliados. Diversos tinham as famílias, osbense os interesses nas capitanias.
dondehaviam acorrido ao apelo das autoridadese para lá voltaram.
Assim se passou com o vicenrino Cristovão Dinis e mais tarde com
Francisco Mendes e suas irmãs, Outros regressaram às donatárias de
cima. Os primeiros tempos eram difíceis, Tudo estava porfazer, Falta-
vam alimentos, munições e abrigos seguros. A incipiente administração
precisava de valer-se dos elementos humanos mais capazes. O braço
indígena predominava então nos trabalhosrústicos.
Aos poucos as roças foram surgindo. Canaviais despontaramaqui:
imprimindo ao cenário um novo matiz. O tráfego tornou-se menosraro.
O progresso iniciava a sua marcha rumo ao futuro, não obstante a
distância que se inrerpunha desde acapitania à Metrópole. O próprio rei
se interessara de modo especial pela região fazendo com que a donatária
voltasse 20 domínio da Coroa, assim como sucedera antes à Bahia de
“Todos os Santos. O Estado assumiaa responsabilidade peladefesae pela
administração de ambas, custeando os presídios, as forças militares e o
funcionalismo. Grande parte dos recursos levantados “in loco” eram
“gastos aqui mesmo pela Fazenda, benefício que São Vicente, Espírito
Santoe outras não contavam. Por isso, aquelas duas exerecriam bons
incentivosà imigração.
Sucede, outrossim, que os primeiros cristãos-novos chegados à Gua-
nabara gozaram da estima geral e jam prosperando na capitania A
identificá-los com os demais camaradas, concorria o fato de que juntos.
enfrentavam idênticas vicissitudes « todos,lado a lado,contribuiam para
o bem comum.O meio não permitia a ninguém levar a sério qualquer
discriminação racista.
Eis que, porém, em seguida ao desembarque do padre Bartolomeu
da Prelazia
Simões Pereira (1578), nomeado administrador-eclesiásticoo primeiro im-
do Sul recentemente, sofrem os da progênic hebréiaentre quem
pacto!t?. Além de serem já numerosos, não faltava muitoeles aborrecia
tudo,
continuasse a praticar as crenças mosaicas, o que, à sombra das perse-
espírito antijudaico do ilustre sacerdote, forjado

157
Euições ora em fermentação no Reino. O fato é que extravazando into.
lerância e descaridade, conforme acentua Silva Lisboa, levantou-se
Contra os mesmos,os quais, aliás, juntamente com a população toda
estavam sob o acicate de uma peste calamitosa. As arbitrariedades, por
fim, alcançaram aos da própria emia cristã, que, saturados dos excessos
cometidos, obrigaram o prelado refugiar-se no Espírito Santo (1591),
onde acabou os dias com suspeitas de envenenamento.
Narealidade, o ambiente social da capitania foi-se tornando menos
homogêneo à medida que se adentrava o século XVIL. Ao substrato
indígena, renovadode tempos em tempos pelos bandeirantes pauliscas,
através dos escravos amarelos que lhe traziaa vender, juntou-se um novo
elemento érnico-cultural representado pelo negro africano, de pigmen-
tação e costumes bem diferentes. Ao seu lado, contudo,desenvolvia-se
cada vez mais o aporte de brancos europeus, adeptos do catolicismo e
eristãos-novos nem sempre fiéis aos dogmas tradiçõesdaIgreja. E daia
vigilância a que os administradores-eclesiásticos eram constragidos a
exercer para coibir abusos de uns e outros, missão nadafácil, particular-
mente quantoaos judeus, visto irem crescendo em número, em prestígio
e serem mui cautelososnocultivo das crenças mosaicas. Diversos, por
simples formalidade,prestavam honras aos santos, mas no íntimo criam e
pensavam de maneira diversa, ou então,faziam aínda pior, quandoao se
mostrarem cristãos em pleno ato do culto, nos templos « capelas,reve
renciavam realmente alguma personagem do judaísmo. Tal, por
exemplo,se descobriu um dia a propósito das reuniões devocionais que
se eferuavam na conceituada ermida de Nº Srã da Ajuda O caso
tornou-se memorável e se comentava quatro ou cinco décadas mais
tarde, que as honças tributadas ali pelos hebreus tinham poralvo não a
padroeira, e sim uma certa Maria de Judá. A encabeçá-los nisto figurava
“o marrano Antônio Rodrigues Flores,certamente rabi ou mentor espiri-
tual do grupo **3. Segue-se que, de então em diante, os católicos deixa-
ram de afluir ao sagrado lugar, dando oportunidadepara que a confraria
caísse sob o domínio dos criprojudeus, um dos quais, presidi-la em
meados do século foi o dogmarizame e mercador Miguel Cardoso!sº,
Não podia, ipvo fato, o cristão sincero ver com bons olhos influência
crescente dessa classe e nem os preladosdelhe vigiar o procedimento.
Ademais, exclusivismos de parte a parte alargavam a brecha entre ambas.
as etnias, muito embora houvesse numerosas exceções.
Destes catequistas e dogmatizantes do judaísmo o Rio de Janeiro
conheceu diversos até princípios do século XVIII, data em que o
Santo Ofício desmantelou a comunidade sefardim local. Cautelosa-

158
mente eles se esmeravam por reconduzir osda etnia às ou crenças mo-
saícas, das quais sctinha mafasta do pelo batismocr istão devido a
outros fatores, e quando as circunstâncias permitiam procuravam
fazer prosélitosentre os católicos e até mesmo esitre os escravos do-
mésticos. Bem antes, portanto, de Antóvio Rodrigues Flores, essa de-
obra foi realizada por um indivíduo portador de regular cultura, ava na ci-
nominado Erancisco Lopes. Este, em 1578,já se encontr
dade com a família e ali exercia o cargo de escrivã o do judicial , se-
gundo testemunho que noslegou Fernão Rodriguespais, da Paz que
também nela residiu com o mano Bento Teixeir a e os no mo-
mento em apreço, e lhe frequen tava lar. Ignoram osquan do fale
ceu, mas sabemo s quedeix ou os seguint es filhos: Apoliná rio Lopes,
que se radicou no Espírito Santo; Antônio Lopese, 40 -novo que supomos,
Catarina Lopes, que casou em 1612 com o cristão Antônio
Dias. 8! Fra mais um lar que se formava , ao lado de tantos já existent es.
Verificamos, pois, que a emigraçãopara cá entrou a desenvolver-se
nas décadas fihais do XVI, graças a um conjunto encadeado de motivos.
Em Portugal dá-se a investidura do cardeal-inquisidor no trono,faro esse
que só podia inquietar aos hebreusestabelecidos na Metrópole. Temos,
logomais,a penosa desavença entre prior doCrato e Filipe II, cujo
resultadofoi a uniãodas córoas, mal encarada também poraqueles, visto
as inclinações que nutriam pelo partido de D. Antônio. Muitos, em
consegiência, aproveitando-se das embarcações que se dirigiam ao Bra-
sil e ao Rio da Prata transportam-se para o nosso País. Uns vãoficando
em Pernambuco, outros em Ilhéus, Bahia, Espírito Santo ou em São
Vicente e noRiode Janeiro. A Visitação pelo Santo Ofício, em 1591,
afugenca mais judaizantespara o Sul. Ao passo que, simultancamente, as
investidas de corsários estrangeiros aolitoral vicentino acruínam os
engenhos em funcionamento naregião, a indústria açucareira da
nia acima recebe novoimpulso,
Angola!sê
Obviamente, norol dos portugueses recém-chegados, Crispim contam-se
diversos cristãos-novos, tanto casados comosolteiras, a saber: da.
Cunha Tenreiro, que era natural de Évora, e que, ao radicar-se no Rio,
desempenhoualguns cargos'S; os parentes de Diogocá,Cristóvão, prove-
níentes do Porto, os quais o acompanharam para ou sejam, pelo
menos filha Maria de Azevedo, quecontraiu matrimônio com Álvaro
Fernandes Teixeira, ilhéu da Terceira, e um Manuel Gomes da Costa,
primo coirmão da mesma senhora. O casal viveu a princípio da lavoura

159
canavieira e anos depois também do comércio exportador.
Conhecemos.he três filhos: Diogo Teixe ira de Azevedo, que também
sededicouso tráficoe foi preso pelo Santo Ofício, em Lisbo s, no de
1619, por judaizar, Antônio de Andrade, e Isabel Teixeira, a qualano casou
por duas vezes, E quanto a Manuel Gomes da Costa, estamos infor ma.
dos de que já se encontrava na Guanabara em fins de 1588, vizinhando
com o vigário da Sé, D. Inocêncio
intimidava a ir à igreja, porquanto craFerrci
judeu
ra, fato que, todavia, não O
convicto e assim se mam.
teve pela vida afora. Manuel em sociedade com
Comprou terras na capitania e nelas ergueram umDiogo engen
de Montarroio
gue O primeiro ano mais tarde transferiu para a filha como hodotededeaçúcar
casa
,
mentotst Outros contemporâneos: um Manuel de Braga, denunciado
do Visitador na Bahia, em 1592; a mulher de Diogo
court, nascida na vila de São Vicente; Duarte Nunesd'Avil e
a de Biten-
Franc isco de
Lemos" com os de suas casas. Diversos elementos, igualmente , da
“gens” Lucena, originária da Espanha, de onde passou a Portugal e então
a Pernambuco e ao Rio de Janeiro.
Duarte Nunes antes de mudar-se para o Rio deJaneiro morava com
95 seusem Porto Seguro,famosoancoradouro onde
à armada de Cabral. Ali mourejava ele no amanho daprime iro se acolhem
terra,
filho Domingos exercia o cargo de meisinho e um genro,por enqua nome
nto o
Pero
Neto, o de escrivão. À realçar a atuação do grupo de judaizantes,
sobressaíaa figura do capitão-mor Gaspa
O referido Duarte, chefiava a comunidader,Curad
E,
o, que, juntamente com
quer
Para o cultivo da lei mosaica, ou porque afrontasseporqu
m as
e se reunissem
praxe
desavieram-se com o vigário local. Corria o ano de 1585. sAdaceleu Igreja,
ma
tomou corpo e foi necessário invocar o auxílio do ouvidor da vara
eclesiástica, padre Gaspar Dias, o qual, sem mais delongas excomungou
Os quatro marranos. Não sabemos o que suced depois, mas descobei-
mos que a arma produziu efeito, pois obrigou euDuart e a locomover-se
Som a família para a capitania sulina. Nesta, pouco demo rou a receber
algumas leiras de chão noJaguaré (8-8-1592) e o genro outra
Macacu (1595, 1597), embora os forais proibissem a regalia asquem tantas no
não
fosse cristão. sê
Já se havia estabelecido aqui esse tempo o congênere Francisco
de Lemos de Azevedo, conformeporo deno minam os docum
Parece, contudo, que ainda vivia do arrendamento de terrasentos alheia
locais.
s, pois
em julho de 1602, alegando “ser casado na terra e ter filhos”, solicitou
recebeu uma sesmaria entre os rios Jaguaré e Soroi, próxima,e

160
à de Duarte Nunes. Ambos, sem dúvida alguma, entregaram-se
ao cultivo de cana, principal fonte da economia ora em ascensão. De
fato, maistarde, Francisco aparece negociando um “partido” de canas.
Tendo-se casado em Porto Seguro, ou na Guanabara, com uma das f-
lhas de Ruí Dias Bravo, aparentou-se com Miguel Gomes Bravo, que,
segundo vimos, mnfrivse do Espíio Santo,para a vizinha caprania
de baixo. Erancisco « Branca deixaram geração".
As fontes inquisicoriaisquinhentista1%, sempre valiosas, nos reve-
lam a ientidade de uns poucos cristãos-novos que se fixaram no Rio
durance a década de 1590, além dos já mencionados. Por uma ou outra
maneiraeles andavam relacionados com o Santo Ofício. Como diríamos
hoje,tinham culpa no cartório. Vamos referir-nos a Baltazar Coutinho e
família, primeiro, « em seguidaao judeu Diogo Lopes de Cádlis e aos
parentes. Aquele já a 19 de abril de 1593 entrava na posse de uma
sesmaria, ainda solteiro e contando apenas 23 anos deidade,pois sabe-
mos que casou porvolta de 1600, em Portugal, com a jovem Maria
Ferreira, icmã do mercador Pero de Baeça, burguês espanhol muito
conhecido na Península por sua aruação econômico-financeira. Baltazar
retorna à Guanabara logo após o matrimônio, enquanto a mulher vem
meses depois trazendo a sobrinhaMariade Araújo e omarido,Francisco
Martins, piloto de navios. Esta!sº, que também é de linhagem israelica, e
se filia ao rol de quantos aparentavam ser cristãos, cometeu um aro
considerado sacrítego, quando, ao tomar a eucaristia, tirou hóstia da
boca e aescondeu no lenço. Ogesto foi presenciado e cla denunciada ao
administrador-eclesiástico, padre Mateus da Costa Aborim
Que fazer, em razão do acontecido? Sucede que o vozerio se alastra na
cidade, despertando comentários. Há quem insinue que à relapsa pre-
tende fugir. Ademais, os tios desfrutam de boa posição e têm aqui bons
amigos. Então o preladoiníciauma devassa e mandaprender a é, aqual,
porém, é deixada sob liberdade vigiada, respondendo pela mesma o
refesido Baltazar e um certo Álvaro Barreto, até que Inquisição de
Lisboa decidisse melhor. Apesar de tudo, no entanto, a família continoua
observar o judaísmo durante gerações!êo.
O mercador Diogo Lopes de Cádis não teve nem ao menos parca
felicidade da suacongênere, Maria de Araújo. Havia-se ele mudadopara
Rio deJaneiro recentemente com propósito de negociar com o Peru,
quando,em setembro de 1594,foipresoporordem do Santo Ofício, sob
a cuipa de ser apóstata e judaizante. Acabava de chegar de Pornugal com
um carregamento de mercadorias, parre das quais já tinha vendido ou

161
permutado em Pernambuco e na Bahia, mas pretendia continuar aré às.
regiões andinas. Em rápidos instantes tudo lhe foi confiscado. Seis anos
“permaneceu nos estaus emLisboa, e dali o enviaram a cumpriro resto da
penalidade nas galés, É curioso, todavia, que ao falecer, três lustres de-
Pois, tenha deixado bens em Portugal na Espanhaa duas irmãs, e no Rio
de Janeiro ao licenciado Rui Vaz Pinheiro a Baltazar da Costa, ambos,
sem dúvida, parentes seus,tanto que os dois, a 10 de abril de 1612,
enviaram uma procuração àquelas fim delhes receberem osquinhões a
que faziam jus.'5!
Esse Baltazar, provavelmente,foi o que veio com ogovernador-geral
em 1567 e que durante largosanosexerceu diversas escrivanias no Rio
de Janeiro. Do seu enlace com Andrezade Sousa, filha deJoão Pereira de
Sousa, o mesmo que deu nome à praia do Botafogo,teve cinco filhose
numerosos descendentes. Um dosbisnetos, capitão José Barreto de
Faria, é referido como portador de linhagem cristâ-nova no processo de
um amigo,talvez em alusão àquele ancestral'2. E quanto ao licenciado
Rui Vaz podemosacrescentar que advogou na cidade por algumtempo e
nelateve casas próprias,as quais, ao falecer em 1618, mais ou menos,
legou à ismá Isabel de Mendonça. Por conseguinte, também esta aqui
vivia e era casada com Manuel Antunes, de quem ficouviúva em 1648,
ou antes.
Vê-se pois, que a lista referente aos cristãos-novos já é bem
significativa no último quarrel do século, estando-se apenas a alguns
passosdolançamento histórico dacidade. Mas a relação cresce à medida
que nosaprofundamos em pesquisas. Às vezes o motivo queos compeliu
a vir resume-se a um serviço público transitório. Ao desempenhá-lo,
porém,fazem amigos, criam raízesna terra, descortinam possibilidades
financeiras e, porisso, acham conveniente ir ficando. Oscasos repecem-
se de tempos em tempos. Um destes, agora, centraliza-se na pessoa de
Francisco Álvares da Fonseca, que julgamos ter morado entes em Salva-
“dor com a família, ou pelo menostinha parentes lá, assim como em
Pernambuco. Sabe-se quefoi casado com a cristã-nova Paula Rodrigues,
irmã da mulher de Manuel do Conto, é ambas coafins muito próximas de
Marquesa “arrevessa toucinho”autuada naVisitação ao Nordeste pelo
lic. Furtado de Mendonça.Francisco, ao solicitar terras no Rio, em 1603,
alegoujá estar residindo aqui há vinte « três anos, isto é, desde 1580.
“Apuramos, igualmente, quealguns dos filhos eram moços então e, quiçá,
nascidos fora da capitaoia. Entre esses cumpre destacar futuro padre
Manuel da Nóbrega e o irmão Francisco,os quais, em 1602, requerem

162
chãos para lavrar, pois andam nos estudos e precisam de meios a fim de
custeá-los. Aquele, de fato, chegou à formar-se em 1625 e o rei Filipe
nomeou-ovigário daigreja matriz e nesta qualidade recebeu mais tarde
(1643) a mercê de cavaleiro da Ordem deCristo, embora jamais conse-
guisseevitar a fama de cristão-novo. Tantoele, quanto os irmãos e o pai
foram elementos relevantes na vida local. O progenitor exerceuo cargo
de” escrivão da Ouvidoria por uns quarenta anos. Umafilha, Ana da
Nóbrega,após enviuvar de Gregório MacielSalgado casou com o capitão
Gonçalo Teixeira Tibao. Uma neta,filha de Diogo da Fonseca, desposou.
osargento-morDiogo Cardosode Mesquita. Houve,também, na famí-
lia, diversossacerdotes!
Mal findara à Visitação nas Capitanias de Cima quando um novo
motivo se apresentou a sustentar à corrente migratória para as do Sul
Desta vez tratava-se do surto mineralógico incrementadoporD. Fran-
cisco de Sousa, com o qual o Rio e São Vicente ganharam certavitalidade.
Em umadas entradas que promoveu noano de 1596sob a chefia de
Martim Correia de Sá, incorporou-se o jovem Manuel Caldeira, ávido
porriqueza fácil e rápida, como tantos outrosdo seu tempo. O que,
porém,lhe proporcionou melhorfortuna foi o comércio a que se atirou.
com o Reino. Açores, Madeira e costas do Brasil, graças, talvez, a algum
ourocolhido naquele empreendimento. Assim,ao morrer, em1646,era
homem dos maisabastadosda Guanabara, materialmente, e de numerosa.
prole. Tendo-se unido com Ana da Costa,deixou onze filhos, dentre de os.
quais doisinfluentessacerdotes, e Úrsula, mulher do capitão Mateus
Moura Fogaça, casal este, que, por sua vez,se entrelaçou coma respeirá-
vel família docapitão Manuel Barcelos Machadoatravésde novo enlace
matrimonial 155
Em conexão ainda com o entabulamento das minas deparamos com
alguns colaboradores doambicioso D. Erancisco, todos de ascendência
israelita. Lembremo-nosdo sevilhaho Bartolomeu de Quadrosque, ao
depois, se fixou em São Paulo, enquanto o Dr. José Serrão, genro de
Fernão DiasPais, transferiu-se do planalto para o Rio com a esposa, €
nesta cidade viveram cerca de um lustre ou mais. Sucedeu,pois, um surto
demográfico muisignificativo em decorrência daquele evento,carreando
para asduas capitanias, conformeadiantamos, gente da Alemanha, da
Flandres, da Península e de regiões do Brasil
Deveriam, por conseguinte, os filhos de Israel, no Rio de Janeiro,
somar um número bem maior nesta época do que o revelado pela
documentação ao nosso alcance. Judeus acobertados ou cristãos-novos.

163
sinceros entregavam-se às mais diversas atividades, desdesimples artíf-
ces a auxiliares da alta administração. Unindo-se entre si e com os
vizinhos europeus, e ainda com oafricano e o indígena, embora excep-
cionalmente, constituíam importante elemento na formação étmico-
social da capitania.
Uma das primeiras preocupações que lhes acode à mente, até pelo
menos adquirirem fortuna, é a de obter chãos para levantar moradia,
fazer sementeiras ou fornecer cana aos engenhos próximos. Tanto
quanto possível buscam uma sesmaria acurtadistânciadacidade, fim de
poderem desfrutar do comércio que se opera na praça local. E assim,
certos indivíduos que principiam nalavoura, acabam notratomercantil, e
outros que haviam sidomercadores passamasenhores deengenho, ou se
dedicam às duas atividades.
A família Cardoso é a tal respeito um bom exemplo no começo do
Século XVIL. Formavam-na, inicialmente, Baltazar Roiz (ou Rodrigues)
Cardoso e sua mulher Brites Cardoso "88, Talvez ele tivesse vindoantes,
solteiro, coisa que se não deve estranhar e nem mesmo a aquisição de
terras, face amuitos outroscasos semelhantes. Contudo, encontramo-los
depois, em 1602, com algunsfilhos nascidos no Reino e já possuindo
chãos próximo à praia, navárzea de N.a Senhora, onde, no ano seguinte,
Manuel da Nóbrega e o irmão obtiveram sesmarias. É certo,igualmente,
que a referida senhora D.*Brites, enquanto viveu em Portugal havia
passado pelos ergástulos do Santo Ofício. A amarga experiência, porém,
não a demovera do judaismo,visto que o incutiu aosdoseu lar, a ponto
de os descendentesvirem a padecer o mesmo destino, contando-se
lavradores, donos de engenho, advogados,o sacerdote BentoCardosoe
o dramamirgo Antônio José da Silva, além de outros. O casaltronco
soltaca muitos ramos através dos seis filhos vivos: Antônio Cardoso,
Manuel, Miguel, Inácio, Esperança e Isabel. Apenas um, ou seja, o
primeiro, não deixou geração!8?.
De todos os filhos, o mais notável, foi, semdúvida, o de nomeMiguel
Cardoso, quer pela atuação religiosa que desempenhou à frente da
comunidadeisraelitacomoguiaespiritual, querporsuainfluêncianavida
comercial e na sociedade, pois além de destacado negociante, com rela-
ções no Velho Mundo,exerceu o cargo deavaliador nas causas cíveis. Por
duasvezes a Inquisição o apanhou, denunciadoque foracomo fervoroso
judaizante, aprimeira antes de 1627 e à última quase trintaanos decor-
tidos. Agora, ao sairpenitenciado no auto de fé (4 de abril de 1666) em
Lisboa, achava-se doente é envelhecido, devido ao que, certamente,

164
pouco tempo mais teve de vida. Estava longe de ser aquele jovem cheio
deviço e de entusiasmo, que se casaraporvolta de 1621 coma senhorita.
Francisca Coutinho, sobrinha materna de Pero de Baeça, o mercador a
quem haveremos de tecer comentários noutras ocasiões. Do enlace
ficaram-lhe seis filhos, um dosquais, chamado também Baltazar Rodri-
Eues Coutinho, veio a tornar-se sogro do ilustre advogado Dr. João
Mendesda Silva, e a lhe dar oito netos, além dos bastardos. Igualmente,
um segundo filho, ou seja »-padre Bento Cardoso, lhe ampliou rol
acrescentando diversos naturais, de danado coito, conforme se dizia'es,
Se quisermos, porém, escolher uma família caractecisticamente de
negociantes, optaremos pela dos Mendes de Cea ou pelados Ramires, as
quais, aliás, se entrelaçaram. A primeira remonta a Gregório Mendes de
Cea, natural de Aveiro e de cuja alfindega foi contratador. Em Sas do
XVÍ veio para o Rio, trazendo a mulher e duas meninas aíndacrianças.
Aqui lhes nasceu uma terceira. Os anos se passaram! Tudo lhes correu
bem!O velho prosperou e elas, poz firm, contraíram matrimônio com
homens do craro, asaber. Messia Barbosa, com Paulo Roiz, queviajava ao
Prata é à outroslugares; Isabel Mendes, com Luís Peres, de Viana,
ex-barbeiro,easeguir mercador; BeatrizdaCosta, naturaldaGuanabara,
e que casou com Duarte Ramires de Leão, da família Benveniste'os,
Este último casal teve uma prole numerosa. Nada menos que dez
filhos, cumprindosalientar três deles. O primeiro é conhecido pelos
nomes de Gregório Mendes de Cea, ou de Leão, ou ainda Arão Benve-
niste, que é o correspondente judaico. Nascido no Rio, e ali batizado em
fevereiro de 1620, ao chegar à mocidade iniciou-se no comércio. Acom-
panhou os parentes nas viagens que realizavam. Homem feito, assumiu a
direção dos seus próprios negócios, e neste sentido vamos encontrá-lo
em Amsterdã nos anos de 1656 e 1657 juntamente com um sobrinho de
Miguel Cardoso e com outros da capitania brasileira. Findaram-se as lutas
no Nordeste e na Holanda se discutiam os termosda paz. Novas €
melhores perspectivas se abriam para oscristãos-novosportugueses nas
Províncias Unidas. Estes, comunicam-se ali com os da ernia, empreen-
dem transações mercantis e,ao mesmo tempo,revivem crenças c amiza-
des. Láeles podem freqitentar impunimentesinagoga e procedercomo
verdadeiros judeus, fato que certos colegas católicos notaram e na pri-
meira oportunidade denunciaram ao Santo Ofício em Lisboa. De modo
que, assim, também os nomes daqueles habitantes do Rio ficaram regis-
trados no Tribunal e quais as práticas a que se entregavam. Quanto, por
exemplo, a Miguel Cardoso,informou-se que as reuniões tinham lugar

165
na cidade, em casa do mesmo,e isso foi um dos motivos de sua prisão
mais tarde"?
Gregório Mendes de Cea aportou depois a Lisboa, onde viviam
algunsparentes, e então seguiu para a terra natal. As andanças constantes
nãolhe tinham dado ensejo para casar-se. Já estava quarentão, quando,
por volta de 1660, convolou matrimônio com Inês de Lima, e do enlace
lhes nasceram seis filhos, pelo menos. Viu-os crescer e se encaminharem
navida. Ao falecer,no Rio,estavarealizado, embora contasse 65 anos de
idade”
irmão Domingos Rodrigues Ramires seguiu, igualmente, a trilha
do comércio, ao ladodeseu cunhadoe sogro, Manuel do Vale daSilveira,
mercador dos mais atuantes na capitania, e de outro cunhado, Gaspar
Dias de Mesquita, quea todos superouno tráfego do Adântico Sul, em
riqueza material e nas relações com el-rei D.João IV.Este, após morar no
Rio unsseis para sete anos(1637 a 1643),retirou-se com amulhere com
os quatrofilhosque lhesnasceram aqui, para Lisboa, de onde prosseguiu
e slargou osnegócios!?2
Ia, pois em aumento contínuo a população hebréia no eerritório fumi-
nense,acrescentando-seaos quenele jáviviam,os que chegavam de novoe
osfilhos quelhes vinham despontando. A demografia imigrarória juncava-
se a vegetativa, Mas, de par com a mesma, eles cresciam também em
poderio e em influência, pelos bens que reuniam e por sua infiliraçãona
administração pública, naturalmente despertandoreações ancagônicas. O
caso não era tanto de caráter émico. Assim, no começo do século XVII,
diversos da estirpe exerciamimportantesfunções: Martim Correia de Sá
governava a capitania; Gonçalo Homem de Almeida era o ouvidor, é
Manuel do Couto contadore inquiridor. Enquanto,porém,o primeiro e o
último são benquistos, ao Dr. Gonçalo a Câmara suspende do cargo e o
envia preso era a cidade do Salvador. Em abono deste ato asbitrário
alegaram os edis queele era judeu, esquecendo-se que o magistradojá se
encontrava noposto há mais de ano e meio e que outros da estirpe viviam
na dependência da Fazenda Real ou em serviços oficias. O que,na verdade
sucedeu, foi que se tinham ressentido porcausa de certas decisões julgadas
contrárias às suas, Afinal oilustre homem recorreu às autoridadessuperio-
res, ajudado, outrossim, por intercessões de amigos, sendo reposto no
cargo. Então voltou ao Rio,mas cerca detrês anosdepois fixou morada na
Bahia, dedicando-se à advocacia e à agricultura!??,
O contador Manuel do Couto chegou solteiro. Era um rapaz de
talento. Ao desembarcar trazia no baúa cópia da provisão real que a de

166
outubro de 1604 o nomeava para exercer delicadas funções na justiça.
Todas as contas afetas ao foro local e bem assim as testemunhas que
tivessem de ser inquiridas sobre qualquer caso, eram de sua estrita
competência. Custas de processos, avaliações, inventários, vinham der-
lhe às mãos. Nosinterrogatários tomava ciência de questõesindividuais e
de familiares. Ao fim de algum tempo estava a par de inúmeros proble-
mas na capitania, Conhecia muita gente boae 20 seio desta foi buscar a
companheira. Casou por volta de 1609 com Domingas da Costa, tia
maternado futuro padre Manuel da Nóbrega. Tiveram diversosfilhos,
aosquais procuraram dar a melhor educação. Um desses veio a ser o
padre Manuel do Couto,vigário de Cananéia e visitador-eclasiástico da
Adminiscração do Sul; outro seguiu à carreira militar e foi o brioso e
atuante alferes Lucas do Couto,o qual, porsua vez,teve umfilho e alguns
genros que lhe imitaram opasso, alcançandoparentes queiam decapitão
a tenente-coronel. Imagine-se, pois, quão notável seria a influência de
apenas essa família e a dos colateraist?a,
A Relação do Brasil, escrita pelo rev. Jácome Monteiro, nos revela
dadosinteressantes para o momento acima. EmL61O a população branca
quase dabrara,atingindo a casa dos 2.000,e o número de engenhos,que
era de 3 em 1585, passaraa 14. Colhia-se muitoarroze sefabricavacerta
quantia deboa farinha de mandioca”?s. Mas, a julgar pelos informes que
possuímos, os moradores deorigem sefarditaainda restavam em minoria.
Estes, a princípio, foram-se localizandonoIrajá, e,então, no bairro das
Laranjeiras e noutros em quelhes permitissem obter chãos. Assim
aceicrou-se o desenvolvimento da capitania,e com ele ocuidado militara
que obrigou. Mercadores, senhores de engenho,funcionários públicos,
militares, profissionais liberais, são figuras que despontam na ribaltaa
cada passo, de ora emdiante. Dentre os da primeira categoriafixaram-se
aqui nolapsode 1610 a 1612 os cristãos-novos Paulo Roiz é os Ramires,
aos quais já nos referimos, os irmãos Antônio GomesVitória e Francisco
Ramires Vitória!*8, ocasal Pedro Fernandesde Melo e também o advo-
gadoJorge Fernandesda Fonseca.
Antônio Gomes Vitória aparece no Rio em 1610,transitoriamente,
pois residia na cidade de Lisboa, mas, três anosapós, fala-se acerca de
chãos que tinhampertencido. Há referências, igualmente, ao seu
sogro, de nome Gastão Franco, ex-proprietário na capitania e cujos
terrenospassaram àquele e ao casal Álvaro Fernandes Teixeira, eviden-
ciandocerto graudeparentesco entresi. Carecendodispor dos mesmos,
ambosconsentiram emvendê-los. A afinidade procederia, no caso, da

167
mulher de Álvaro, a qual era cristi-nova. Quanto a Antônio, sabemos
que exerceu profissão de mercador, primeiro, é mais tarde, simulta.
neamente, a de boticário. Por último foi senhor de engenho e desempe-
nhou destacada posição no seio dos confrades. Entretanto, apresentava
falhas imperdoáveis na conduta, além de ser inveterado seguidor do
fudaísmo, motivos pelos quais o denunciaram ao Santo Ofício em duas
ocasiões. Faleceu antes de 163717.
O contemporâneo Pedro Fernandes de Melo era natural dailha de
São Miguele se casaracom Ana Garcia, castelhana, da velha ernia. A sua.
presença no Rio é atestada por uma procuração em que o mercadorJoão
da Silva o designa para lhe cuidar dos negócios enquanto estivesse
ausente, viajando. Como os interesses eram muitos, e, ao que presumi-
mos, também o colega costumasse andar fora, nomeia a Outros para
fazer-lhe as vezes!?8, À 5 de maio, do mesmo anode 1612,registra-se no
cartório local mais um fato curioso, envolvendotrês irmãs de Pedro. Este
concede à Luís Pires (ou Peres) um dote de casamento, mediante a
condição de escolheraqualquer delas,e, então, opretendente ao enface,
autoriza de igual modo O progenitor, o tio, ou um dosseus próprios
irmãos a receber-lhe a eleita como esposa, no Reino. Enfim, um ajuste
bem peculiar à gence de nação hebréia.
Todavia, Pedro e a mulher não demoraram longos anos na Guana-
bara. Certa feita, enquanto persistiam as tréguas com a Holanda, dei-
xandoa família na cidade ou em lugar que ignoramos, dirigiu-se a
negócios aos Países-Baixos, andou pela Flandres e se deteve por algum
tempo em Lisboa. E então,eis que por volta de 1621 ambos regressamao
«io de Janeiro com o fito de tomarém posse da herança que um irmão
dele, recentemente falecido, lhe legara. Quis, porém, o destino que Ana
Garciaficasse viúva e logo mais contraísse matrimônio com Baltazar de
Seixas Rabelo, cambém viúvo e aqui morador"?
Os documentos nosrevelam ainda, no terceiro lustre do século,
os nomesde Franciscoe de Diogo Lopes Franco, de Baltazar Rodri-
gues Mendes, de Rodrigo Fernandes, todos mercadores, e de dois
ilustres militares, os capitães Diogo Rodrigues de Faria e Gregório
Mendes da Silva. Ao passo, no entanto, que os três primeiros, findos
Os interesses comerciais aqui, tomam outros rumos, e Rodrigo Fer-
nandes se interna com os sertanistas de São Paulo à cata de índios, os
“últimos se radicam no Rio de Janeiro. Gregório só o deixa em 1652
para assumir O cargo de provedor-mor do Brasil, a que fizera jus
graças aos serviços prestados à Coroa em diversas partes, não obs-

168
tante haver-se dividido desde há algum tempoentre a ocupação das
asmas e a do comércio!tº. O colega, chegara antes, em 1613, mais ou
menos. O Rio, por sua importância estratégica e crescente progresso
econômico estava a exigis a presença de soldados e de oficiais gra-
duados. E,de fato, muitos vieram e chegaram a galgar carreira, como,
também,a estabelecer numerosa descendência, a exemplo deste mili-
tas. Cansado de andar por terras e mares, sem cer família para lhe
embargar os passos, resolve construir, agora, um lar € estabilizar-se .
Vai à casa do cidadão Álvaro Barreto c lhe pedea filha, Maria, cem
casamento. Do feliz enlace brotam alguns rebentos, dentre os quais o
futuro capitão Francisco Barreto de Faria, pessoa bem conhecida na
terra porsua atuação, embora fosse cristão-novo ou quando não a
mulher com que se unira pelo vínculo do sacramento. Tiveram dez
filhos. Um deles, José Barreto de Faria, seguiu na trilhado avô e do
pai, e se tornoucapitão do presídio local. Não tanto os imitou, porém,
apenas nisso, mas também nas crenças religiosas, que G denun-
ciaram ao Santo Ofício comoadep to da lei mosaica'ê!,
Comonotamos, perfilaram no seio das forças armadas do Rio, e o
seria de igual modo noutras capitanias, desde simples soldadosa mili-nos
tares de alta prente, indivíduos de linhagem sefardica'8?, sem con-
esquecermos, contudo, de alguns médicos cuja tarefa principal
sistia em velar pela saúde de todos. Mas, certamente, foram os ho-
mens do comércio e os da lavoura que os excederam na proporção
quantitariva.
Os lavradores tinham certa estabilidade, carecente, via de regra
aos demais em virtude das respectivas ocupações. Aliás, era tal a mo-
bilidade das famílias israelitas e a sua dispersão, que, nem sempre é
possível localizar-lhes os membros. Sirva de exemplo a dos Bravo,
naturais do Porto, no Reino. Enquanto uns viviam em Portugal, ou-
tros emigraram para as nações do Norte e para osterritórios do ul.
tramar. Um deles, Rui Dias Bravo, veioresidir em Porto Seguro, no
Brasil, com os de sua casa. Mas, dali, posteriormente, o filho Miguel
se fixou no Espírito Santo e,a seguir, no Rio de Janeiro, pasa onde,
também, se transferiu a irmã Branca do Porto, e nela deixaram nu-
merosa descendência. Vejamos, sobretudo,a do segundo.
Miguel Gomes Bravo ao mudar-se para o Rio de Janeiro deveria
té-o feito por motivos comerciais, em estrita ligação com outros pa-
rentes, pois era essa atividade principal a que se dedicavam e, para
tanto, os diversos elementos da família se distribuíam. pela orla do

169
Atlântico Sul. Praticamente quase todas as capitanias tinham repre-
sentantesseus. Na Bahia achavam-se Pascoal e Dinis Bravo, senhores
de engenho, os quais, além disto, se dedicavam aotrato, ocupados
em negócios de açúicar e de escravos negros. Nem é por causa muito
diversa que Ruí Gomes Bravo, também da mesma cepa se encon-
trava residindo em Angola, de onde, mais tarde passou à Guanabara,
em que veio à falecer",
Miguel estabelece-se de umavez para sempre na cidade Aumi-
nense. Aofalecer, no ano de 1636, é detentor de razoável fortunae
gozade bom prestígio, tendo o seu nomeincluído nos pelouros da
vereança. Foi casado com Isabel Pedrosa, daqual, segundo supomos,
era parente. Tiveram, conhecidos,dez filhos, cumprindo salientar os
seguintes: 1) - Antônia Pedrosa (de Gouveia), que contraiu matrimônio
por volta de 1615 com Belchior de Azevedo Coutinho, do Espírito
Santo, e deixaram renomada descendência; 2) - Rui Dias Bravo,nascido
cerca de 1597. Casou com Maria de Oliveira e também deixaram filhos
e bens. Em janeiro de 1669, já no estado de viúva é de tutora de um
neto, homônimo do avô, recebeu alguns escravos em lugar do
mesmo?*é, Entre os seus descendentes condenados pelo Santo Ofício,
no século XVIII, conta-se a neta Cordula Gomes. 3) - Maria Pedrosa,
nascida por volta de 1600. Convolou matrimônio por duas vezes, mas
teve apenas uma filha. 4) - Cordula Gomes, que casou com João do
Couto de Carnide « dele teve descendência. 5) - Úrsula de Gouveia
Pedrosa, a qual, enviuvando, casou com o mercador Marcos da Costa
Manuel, também viúvo, e, ao tempo, um dos mais destacados negocian-
tes no Rio de Janeiro. Ao se firmar a escrirura do dote de casamento,
entrou a referida senhora com o engenho,terras é escravos que lhe
vieram parte do progenitor e parte, certamente, do falecido esposo.
Reunidos, agora (3 de setembro de 1662), aos bens de Marcos, permid-
ram maior volume nos negócios que ele dirigia.!8º 6) - O último dos
filhos do velho Miguel, o décimo,aliás, foi Manucl Gomes Bravo, que
faleceu em São Gonçalo, com geração. Por onde se conclui que os
Bravo se cspalharam pela capitania e nela frutificaram amplamente,
sendo possível acompanhar-lhes ospassos no decurso de dois séculos ou
ainda mais,
O movimento do Cartório do 1.º Oficio é um termômetro atra-
vês do qual se pode avaliar a vida na capitania em razão dos fatos que
registra. Ele nos mostra complexidade cada vez maior quanto à
compra e à venda de escravos, questões de terras, de heranças, de

170
empréstimos a dinheiro, de fretamentosde navios, de débitos em
atraso, € até de honsa ofendida, À justiça local via-se, pois, a b
ços, com muitos casos difíceis, o que explica, também, presença no
segundo decênio e nos vindouros de uma série de advogados
atuandono foro guanabarino. Homensde escola, comumente, e não
simples rábulas. Um desses foi o Dr. Jorge Fernandes da Fonseca,
natural da Figueira de Foz, cidade bem próxima a Coimbra, cuja uni-
versidade teria cursado. Era cri novo, masos dotesintelecruais e
a nobrezade caráter sobrepujaram o irrisório defeito sanguíneo, de
sorte que não demorou a casar com uma irmã do reverendo Pedro
Homem de Albernaz, administrador da Repartição do Sul em diver.
sas interinidades. Assim, do enlace com Beatriz (ouBrites) da Costa
Homem, teve seis filhos, dentre osquais: 1) - Dr. Francisco da Fon
seca Dinis, médico, por alcunha de “o Guedelha”. Casou coro uma
filha de Baltazar de Abreu, a qual lhe deu outros dez rebentos,
incluindo-se três frades. 2) - Capitães Jorge da Fonseca « Gregório
Nazianzeno da Fonseca, militares ilustres, é o padre Manuel da Foa-
seca Homem. Um sobrinho, Baltazar de Abreu Cardoso,alcançou
maior projeçãoainda doqueesses, porquantochegou a coronel, c,
não obstante, nunca pôde receber o hábito da Ordem de Cristo,
simplesmente por causa da linhagem impeditiva, exigência absurda.
já se vê. Haveria coerência nisso, quando tantos eclesiásticos produ.
aita a mesma cepa?'88, Seria justo negar a comenda a excelentes
servidores porque o avô ou O trisavô fora da cenia sefardicas Na
verdade, excluia-se a uns, masbeneficiava-se a outros quandocon-
vinha.
Nesse mesmo decênio de 1610 fixaram moradia, noRio, Diogo
Lopes Ramos e família, os Varela, os Madureira e os Gusmão?”
Aquele residiu primeiro na Bahia, de onde, por volta de 1617 passou
à Guanabara. Aqui, sendo viúvo, casou comFrancisca Cardoso, da
vila de Santos, e de ambos os matrimônios deixou filhos, um dos
quais, seu homônimo, foi maridode Maria de Galegos, igualmente
da estirpe hebréia. Este, ou o progenitor, exerceu durante anos o
cargo de escrivão da ouvidoria!tê, Os Varela provinham delinha
gem moura entrecruzadacom israelita, em Portugal. Do ramobrasi-
Ieiro, constituído por João Varela e Bárbara Damim, nasccu uma
menina, que, anos depois, casouno Rio de Janeiro com ocapitão
José Correia Ximenes, cristão-novo, origem, por suavez, de nume-
rosas famílias, vinculadas quase todas à progênie sefardica. Uma se-

17
gunda filha, por nome Leonor, tornou-se esposa de Jordão Machado,
e deles, também, floresceu extensa geração. Entretanco, para infelici.
dade geral, quer descendentes dos Varela, quer dos Ximenes, cairam
nas malhas da Inquisição e tiveram os bens confiscadosi8s, a
exemplo de outros destacados moradores.
Era comum, então, que os judeus ibéricos se locomovessem da
Península para o Brasil, ou de uma capitania para outra, induzidos, a
seu ver, por óbvias razões sociais, religiosas ou econômicas. Logo
que se adentra O terceiro decênio vemos chegar do Espírito Santo o
cristão-novo Manuel de Paredes; da Bahia ou do Reino o congêne-
re Manuel de Galegos,e do Nordeste o distinto Belchior Roiz, por-
tador de uma larga folha de relevantes serviços prestados aos
governadores-gerais desdefins do século XV].
Manuel de Paredes da Costa segue no rastro
Miguel Gomes Bravo. Traz a mulher os filhos.doEmcolega e amigo
a nova terra
encontrou casal um ambiente muito propício, de modo que a famí-
lia adquiriu riqueza e galgou posição social. Dois dos filhos, Rodrigo
Mendes de Paredes e Agostinho de Paredes, tornaram-se senhores
de engenho, ao passo que filha, Brites de Paredes, se uniu por
matrimônio à gens Lucena, através do enlace com o ilustre Dr. Se-
bastião de Lucena, e mais tarde, tendoeste falecido, casou com o
operoso Luís Fernandes Crato, cunhado de André de Barros de Mi
sanda. Um quarto filho, que também viveu da lavoura, ou seja, Luis
de Paredes, não constituiu família regular, mas, da concubina negra,
deixou fruto, dentre o qual se salientou o padre Francisco de Pare.
des, apesar de ser bastardo e de mostrar visivelmente as característi-
cas somáticas legadas pela genitora!S
Quanto a Manuel de Galegos, iniciamos pos idencificá-lo com o
“mancebo” denunciado ao Visitador na Bahia, em 1618, e entãofa
zendo parte da família de um Pero de Galegos, mercador natural de
Lisboa. Quer, porém, fosse o pai, ou não, 9 certo é que o referido
Manuel era filho doscristãos-novos Pedro de Galegos e de Apolónia
Ximenes. Chegando solteiro ao Rio, enamorou-se
gas Rodrigues, filha do relojoeiro Simão Rodrigues,daejovem
com a
Domia-
formou um novo lar. Foram os sogros de Diogo Lopes Ramos.mesma Tive-
ram nada menos que oito netos e o bisneto Dr. José da Silva Soares
Brandão, bacharel em 1740 pela Universidade de Coimbra'?t,
A forma de atividade a que Belchior Roiz se consagrou
assemelhou-se à dealguns congêneres já nossos conhecidos. Esco-

172
lheu o ganhapão doserviço público oficial. Dotado de razoável ins-
trução, ingressou na cacrira como secretário do governados D.
Francisco de Sousa, simpatizante manifesto da profícua gente he-
bréia. Agora vinha ele para desempenhar no Rio de Janeiro o cargo
de almoxarife da Fazenda, tal a confiança de que se fizera merecedor.
Sucedendo falecer-Jhe a mulher enquanto ainda residiam, no Norte,
casou depois com Maria de Azeredo,natural da Bahia, « que lhe deu ao
menos uma filha. Desempenho u o novo posto por uns dez anos com
muita eficiência e já se preparava em Lisboa para o de provedor da
capitania quando a morte traiçocira lhe cortou os passos.a filha Guiomar
Ficou-lhe, por conseguinte, do primeiro enlace,
Roiz, a qual consraiu matrimônio com o indivíduo Gregório de
Barros, sujeito dotado de bons conhecimentos e de alguns recursos
materiais. Por isso substituiu o sogro aré 1642 no almoxarifado“Co- . A
seguir voltou-se paca a lavoura e se tornou proprictário da fazenda
vanca”. Teve, ao que sabemos, seis filhos, mas apenas chamaremos a
atenção para três deles: 1) - Dr. Antônio de Barros que se bacharelou
em leis pela Univ. de Coimbra e veio a ser procurador da Câmara do
Rio de Janeiro, em cuja cidade também constituiu família, unindo-se
face à Igreja com a prendada senhorita Beatriz de Lucena, filha do Dr.
Sebastião de Lucena Montarroio. Deixaram notável geração. 2) Cara-
tina de Barros, cujo marido, o cristão-novo Antonio Rodrigues de Leão,
foi mercador e contratante de rendas. 3) - Padre Manucl de Barros, do
hábito de São Pedro.
Do segundoenlace de Belchior ficaram mais três herdeiros, que
foram: 1) Tomás Roiz,o qual viveu por algum tempo no Espíritose
Santo aí se casou com Lucrécia Barreto. No Rio, para onde
transferiram, nasceram-lhes os descendentes. 2) - Agostinho Roiz,
que foi lavrador de canas. 3) - Um anônimo, que faleceu solteiro.
“Acrescensemos, por fim, que diversos descendentes de ambos os
ramos do velho Belchior caíram nas garras do Santo Ofício, numa
demonstração insofismável de que entre cles as tradições judaicas se
mantiveram acesas ao longo dos anos'º2
Agora pode-se compreender porque frei Diogo do Espírito Santo
escreveu alarmado aos inquisidores do Reino em princípios da ter.
ceira década. Os judaizantes eram numerosos e ocupavam cargos dee
importância na capitania. Em seu poder encontravam-se boas terras
engenhos. Gozavam de tanta liberdade que se aventuravam à come-
cer desmandos e afrontas, sem haver à isso cobro algum. O abuso

173
chegara ao ponto de afixarem legendas ofensivasà religião cristã em
suas moradias. Dois deles eram tidos em má conta, um por ser
adúltero!S c o outro, porque além de vir sambenitado do Reino,
praticara o sacrilégiode batizar uma parelha de cabritose os banque-
teara em seguida com as pessoas amigas 13%. O pior constava a
respeito de certa mulher casada com um cirurgião hebreu, da qual se
dizia que em pleno ato do culto divino chamara o pregadorde ve-
lhaco, mentiroso e “filhode uma tal e qual”. E coisas mais atrozes
aconteciam cada passo, desde que ninguém ousava punir os culpa-
dos, protegidos que andavam pelo dinheiro, pela posição ou pela in-
fluência de parentes. A menos que o SantoOfício desse um pulinho
até cá, o dano manter-se-ia infrene,pois os próprios católicos, como
sabemos, viviam mais ou menos à solta, dando rédeas aos apetites
inferiores, mercê do espíritoliberal predominante no país, da here-
rogeneidade social «da ausência de um clero impoluto éracialmente
homogêneo. Casoinclusive, se quisesse organizar uma junta para au-
xiliar o órgão policiadorda fé, haveria dificuldade, porquanto desta-
cados membros das OrdensReligiosas carregavam sangue hebreu nas
veias. No Rio de Janeiro era assim c também noutras partes'*s.
Ademais, aqui, os moradores afrontavamos jesuítas e os prelados
por causa do escravismo indígena, queestes combatiam,e aqueles,
movidos sempre pelos bandeirantes de São Paulo, defendiam com
energia.
Oapelo de frei Diogo aosdirigentes doSanto Ofício provavel.
mente encontrou guarida, a deduzir do envio tempos depois de um
visitadorcredenciado. A interinidadese explicaria pela delicada ba-
talha que se travara no Reino, em Espanha e em Romaentre à Inquis-
ção e os representantes dos hebreus pormuguesesinteressados em conse-
guir um perdão-geral e a mudança nos esúlos do referido cribunal, obje-
tivos que muito lhes valeriam, embora a peso de largas somas em di
nheiro. Afinal, as demarches ainda prosseguiam, quandoo lic. Pires da
Veiga foi comissionado para realizar a empresa. Em agosto de 1627,
após umaestada em Angola, desembarcou ele no Rio de Janeiro, €
então deu início ao cometimento. Instalada a Mesa, recebeu denúncias
contra Antônio Gomes Vitória, contra Miguel Cardoso e um filho e
tambémcontra certo boticário já ausente em Lisboa, e que supomos ser
Manuel de Castro, conhecido inimigo do Dr. Belchior Bibentão, meio
cirstão-novo, agora clinicando na cidade. Sabe-se, em consegiiência da
mesma Visitação,que o delegado inquisitorial remeteu presas para Lis.

174
boa umaviúva que tinha sido degredada para cá pelo Santo Ofício e
Isabel Mendes, filha da terra, onde vivia casada com o mercador Luís
Peres, de Viana!Ss. E é quase tudo quantose conhece da improficua
diligência de Piresda Veiga na Guanabara, porque,na verdade, estava
mais empenhado em extorquir dinheiro dos hebreus do que em
remetê-lospara os estaus. Se quisesse, poderia assenhorear-se de Scbas-
tiana Vogada (cu Vozada), do Dr. Leitão, e de tantos mais que se reu-
niam secretamente na casa deste último para o cultivo das tradições
judaicas, fatoque não lhe seria estranho em vista das confissões de uma
das réstt,
Sucede, outrossim, que entre a missiva de frei Diogo a Visita-
ção, nada menosque meia dúzia de novas famílias de linhagemcabeças. sefar-
dita tinha emigradopara a capitania ou aí se constituíd o. Scus
são representados por algunsdosindivíduos acima referidos, e mais
pelos Drs. Manuel e Jerônimo Leitão, por Mateus de Moura Fogaça,
o qual, ainda que católico, contraiu matrimônio na família do judeu
ManuelCaldeira. Hebreu, igualmente, seria O capitão Simão Car-
doso Pissarro, dos Pissarro nordestinos'*s
Entretanto, de 1628 em diante a vinda para o Rio de tais clemen-
tos se ativou em decorrência daaçãoconfiada ao inquisidor Antônio
Rosado,que, por esse tempo,agiu em Pernambuco. A presençade
um comissário especial era sempre motivo para apreensões, sobre
tudo quando incitadopela cobiça, como se constatavaaqui. Mal aca
bara, porém, a Visitação, deram os holandeses sobre a capitania, lan
çandootemor entre os moradores « produzindo verdadeirodesiqui-
líbrio nas finanças locais. Contudo, na ex-donatária doSul os aconte-
cimentos decorria de maneira bem diversa, pois a sua ccono:
estavaintacta e se respirava em clima deinvejável tolerância. O am.
biente muito favorecia aosda nação hebréia, Os quais participavam
agora da cobertura que lhes dava ovigário-geral, padro Manuel da
Nóbrega, ferrenho adversário doprelado Mateusda Gosta Aborim.
pois pretendera impedir-lhe a investidura, e daí atribuíram-lhe mais
tarde a culpa pelo envenenamento deste. O sucessor na administra-
ção eclesiástica, Dr. Lourenço de Mendonça, também logo se incom-
patibilizou com os hebreus e comos paroquianosda velha ecaia, por
condenar o tráfico indígena e por mover perseguição aos marranos,
tendo mesmoremetido presos ao Santo Ofícioa diversos que conhe- eo
cera no Peru. De uma feita quis expulsar da capital fluminens grupo
cirurgião Francisco Rodrigues, no que foi obstado por certo

175
de pessoas encabeçado por Nóbrega é pelo irmão. Não satisfeitos
ainda, elaboraram um processo com a ajuda de outros elementos e
“o encaminharam ao bispo na Bahia porintermédio do ouvidor
Diogo d'Ávila Bitencourt, o qual, já antes disto, se erguera contra a
venda das bulas da Cruzada. Por fim, tantos foram os ultrages que
o ilustre prelado sofreu, que se viu na contingência de seguir para o
Reino « queixar-se a S. Majestade'S?, Tal era o espírito que vice-
java na capitania, não de desordem, naturalmente, mas de repulsa a
tado quanto se opunha aosinteresses dos habitantes, recorrendo eles
força em determinadas ocasiões.
Ascondiçõeslocais ensejavam, portanto, a chegada à Guanabara
de novoselementos em corrente mais ou menos contínua, atraídos
não só pelo ambiente social comopelos incentivos da indústria açu-
Careira e do comércio. É assim que entendemoso desembarque dos
irmãos Álvaro e Diogo da Costa, naturais de Lisboa, o de Pero Roiz
Funchal, talvez ilhéu, o dos mercadores Antônio Dias Garcia, que
em 1637 contratou arrendamento dos dízimos, a vinda de Salvador
Pessoa, futuro consorte de Isabel Cardosa, cristá-nova, além da fixa-
ção aqui do militar João Roiz Bravo, do médico Gaspar Gomesda
Costa e de outros da estirpe. .
Por detrás dos causas que se desenvolviam simultaneamente nas.
Capitanias do Sul e nas de cima, outras de natureza adversa se conju-
gavam em Portugal compelindo-os a deixar a mãe-pátria. Basta lem-
brar que após a lei subscrita em meadosde novembro de 1629, con-
Siderada uma grande vitória pelos da nação, porquanto lhes dava li-
berdade para venderem os bens é para se passarem com os mesmos
às terras das conquistas € à India, ressurgiu a perseguição no ano
seguinte em vista do caso de Santa Engrácia, tornando-lhes insupor-
tável a permanência em Lisboa e em mais partes do Reino. E assim
foi que vieram para o Rio de Janeiro,pelo menos, em 1631, Álvaro
da Costa, e o irmão Diogo um lustre depois; Pero Roiz Funchal já
antesto!; o capitão Roiz Bravo, em 1634, e talvez o médico atrás
referido, bem como o casalJerônimo Fernandes. Chegaram solteiros,
conforme soía acontecer, à exceção dos dois últimos???
Álvaro casou com Esperança Cardoso, filha do seu congênere
Baltazar Rodrigues Coutinho, e desta maneira tornou-se cunhado de
Miguele deInácio Cardoso, é concunhado de Gunçalo Cardoso, que
havia chegado porvolta de 1621. Ele e a mulher foram os genitores,
dentre outros, dos seguintes; 1) - Ana, a qual casou com o mercador

176
Gaspar Pereira, nascido em Paris, na França. Do Rio, onde viviam
dosnegócios, transferiram-se para Lisboa, e nesta a apanhou a Inqui-
sição em 1674, confinando-a nos catres durante um decênio, entre.
meado de tormentosfísicos. Deixaram descendentestos. — 2) - Fran-
cisca da Costa, que convolou núpcias com Antônio de Azeredo Cou-
tinho, do Espírito Santo, em cuja parentela já era notávela infiltração
daseiva abraâmica. Também, igualmente, tiveram sucessores.
E quanto a Diogo, podemos dizer que após demorar-se no Rio
por uns dez anos, regressou a Lisboa, e de novo, cerca de 1662,
voltou à Guanabara. Aqui entregou-se fregentemente a atividades
mercantis, mas, por diversas vezes, desempenhou funções públicas
nacapitania, em vista das amizades que tinha c da experiência resul.
tante dos contaeros que travara na Espanha, nas ilhas de Cabo Verde,
em Portugal, partesdo Brasil € noutras terras por onde estivera Ao
ser preso pelo Santo Ofício, em 1665, conhecia todos esses lugares
e, evidentemente, havia conservado relações com alguns deles, pois
as suas viagens não se fizeram por simples diletantismo, mesmo por-
que constituíra família no Rio de Janeiro. A mulher, de nomeLucré-
cia Barreto, era cristá-nova, filha de Manuel de Paredes. Faleceram
sem descendentes204,
A figura de João Raiz Bravo está identificada com o socorro um en-
viado ao Riode Janeiro em 1634, quando as autoridadeso previam
possível ataque holandês à cidade. No ano seguinte governador de São
solicitou a el-rei conservá-lo no posto de capitão da fortalezao empenho
Bento, construída pelo próprio à sua custa. Os gastos c
em retê-lo aqui, demonstram, de umlado, o desejo de continuar naà
«erra, e do outro, o fato de O considerarem pessoapoisindispensável na
tranaiilidade pública, Na verdade, assim sucedeu,da Silvaradicou-se
Corutelo, e
bela Guanabara, casando com umafilha de Felix
não obstante osencargos militares e os doJar, ainda supria as respon-
sabilidades financeiras da família entregando-se a negócios mercantis.
Em 1637, por exemplo, foi um dos concorrentes ao arrendamento
dos dízimos da capitania local?os,
É provável que o lic. Gaspar Gomes da Costa também tivesse
vindo com o mesmo socorro, porque, em novembro de 1657, na
qualidade de médico do presídio citadino, pede reforma daprovisão
que o nomeara para tanto. Não era o único esculápio hebreu a exes-
cer o encargo, quer no Rio, quer nas demais possessões do ultramar.
O comércio é arte de curar acabaram por envolver a muitos da

177
estirpe, condicionados aútes por compulsões do meio do que por
tendências naturais. Gasparjá era falecido em 1674, deixou desua
mulher, Antônia de Jesus, umafilha, pelo menos,a qual, nessa data,
pediu licença ao Conselho Ultramarinopara vender as casas que lhe
ficaram por herança?'s.
São Sebastião do Rio de Janeiro já é, então,à terceira cidade no
país, além de Salvador e de Recife. Oseucrescimento fora rápido,
mas,igualmente, danosodo pontode vista moral, de vez quea popu-
laçãoesa heterogênea, sem a devida consistência, desde há algum
tempoalimentadapor elementos fugidos à sanha do Santo Ofício ou
degredados pelo Tribunal e autoridadescivis?º?, Para essa situação os
judaizances tinham contribuído de certo modo e ela lhes convinha,
pois ihes facultava o gozoda liberdade que nãousufruiam no Reino e
servia de atrativo para o concurso de novos confrades. Porisso,
quandoopadre Montoia aportou à cidade, em 1638, observou estu-
pefacto que os habitantes de origem sefardita, os judeus,enfim,
Savam largamente o quadro énico-social?'8, Seria um exagero, po-
rém, admitir que os mausfossem tão numerosos a ponto de perver-
ter a vida cotidiana. Osréus da Inquisição, por exemplo, eram co-
mumente indivíduos firmes emsuas convicções religiosas, no caso
dos criptojudeus, nada mais havendopara desaboná-los, senão fato
de destoarem das crenças eclesiásticas. Existia, sem dúvida, entre eles,
muita gente boa, honesta e prestimosa, dotada de talento e capaz de
contribuir positivamente a favor da obra colonizadora em anda-
mento.
próprio SantoOfícioestimulou a fuga de cristãos-novospara o
Brasil, Holandae outras partes, Dosquese evadiram para 0nosso
país, uns se exilaram nas Capitanias de Cima e tantos mais nas do Sul.
Asvezesa sua estada foi curta, visando a desnortear osinquisidores
nas buscas que lhes moviam. Assim, vemos passarem pelo Rio de
Janeiro, de maneira fugaz, um certo Silvestre da Fonseca, em 1641,
Afonso Munhoz, em 1646, c mais ou menos na mesmaocasião, Se-
bastião e Jorge Nunes Neto. Houve, também, os que preferiram
ficar na capitania depois de cumprida a sentença condenatória, ou os
que, uma vez libertos doscatres, emigraram paracá. Diversostive-
ram parentes já penitenciadospelo Tribunal e, porisso, sentindo-se
envolvidos, acharam melhorescapar em tempo. Parece que foi o que
se passou com Manuel Gomes Mourão,filho de um ourives, homô-
nimo, preso inicialmente no Limoeiro por causa donegócio de Santa

78
Engrácia, e depois nos estaus, de onde só saiu em abril de 1634. No
Rio, em 1641, já pessoa decerto destaque, pois nessa data partici-
pou de uma reunião do povo, mercadores e homens do mar. Sua
atividade está devotada ao comércio, em paridade com o sogro, o
bem conhecido judeu Miguel Cardoso. Pelo enlace com Isabel deu
origem a uma plêiade de homens ilustres, cumprindo salientar os
netos, Dr. Guilherme Gomes Mourão, advogado, oDr. Miguel de
Castro € Lara, também advogado, ambos com brilhante atuação no
forolocal; Catarina, que casou com o Dr. Francisco de Siqueira Ma-
chado, médico, cristão-novo; o alferes Nuno Álvares de Miranda, e
outros?º8, Esclareça-se, por último, que uma boa parte dos Mourão,
filhos, netos e bisnetos, padeceu duras penas nas enxovias inquisico-
riais, sem excluir adolescentes, como Branca Rodrigues, de apenas
dezessete anos. Quem não perdeu à vida ou os bens, voltou ao seio da
família combalido na saúde?"o
SantoOfício acorrentara-se à missão para que ohaviam criado
Instrumento policiador da fé e dos costumes, precisava, para sc mao-
ter, de uma onerosa engrenagem, desde as peças basilaces às mais
ínfimas. A obra, de qualquer modo, deveria ter continuidade. A má-
quina jamais poderia descansar, mas semo combustível, que eia re
presentado pelo dinheiro, principalmente o dos judeus, estes nunca
conseguiram viver em paz. Pois nãoeram eles os detentores da vil
pecúnia? A fortuna dosricos cobriria as despesas de manutenção
com osencarceradospobres, e com isso, a um só tempo, se salva-
“guardava a unidade religiosa em todoo Reino.
Entretanto, os hebreus safarditas, achavamque os inquisidoresque-
riam antes de tudoe acima de tudo,osbens delese não obem de cada
qual. O consenso dir-se-ia ser-lhes comum,ou peculiar à maioria. Em
Portugal, na Índia, na Bahia, no Nordeste « no Riode Janeiroostestemu-
nhos saltam à vista. Neste último o tom é dado porLuís de Castro,após o
de outros, muitoantes. Em 1669 denunciou-oaotribunal lisboense frei
Luís Lamberto, porque certafeita dissera que “o Santo Oficio era suma
irapassa para tirar os bensdos cristãos-novos”. E nãose tratava de umtolo.
Referia-se ao filho docapirãoAlexandre de Castro, brioso militar se-
diado na Guanabara desde 1639, pelo menos. O fato sobe de importância
se levarmosemconta quea mãe, Da. Filipa de Sá, pertencia àinfluente
família dos Sás,há tanto dirigindo a capitania. É curioso, outrossim, que,
apesar do criptojudaismodo referido oficial, devotouele dois dos oito
filhos à vida religiosa?"

179
Mais um cristão-novode Lisboa a fixar moradia no Rio, por volta
de 1640, foi Manuel do Vale da Silveira. A princípio viveu ora do
comércio, ora da lavoura, até granjear recursos para adquirir um co-
genho de açúcar. No ínterim comou para legítima esposa a jovem
senhora Isabel Gomes da Costa, filha do rico mercador Duarte Ra-
mires. Foi um matrimônio fecundo, pois dele nasceram nada menos
que onze rebentos, os quais, por seu turno, deram origem à novos
ramos,salvo, talvez, o filho José Ramires do Vale, que se formou em
medicina e morreu solteiro em Angola. As moças casaram quase
todas com homens de negócio, mais tarde convertidos em senhores
de engenho. Foram seis, aliás. A primogênita, Heleua do Vale,
tornou-se a mulher do viajado mercador cristão-novo Antônio do
Vale de Mesquita, e ambos, em 1710, já avançados em idade, caíram
nas malhas da Inquisição, bem comodiversos da parentela. A irmá,
Branca Ramires, não gozou da mesma fomuna que as acima, por.
quanto o marido, Francisco de Campos da Silveira, quiçá da linhagem
do seu progenitor, foi apenas lavrador de canas, e neste caso sc utili.
zava das moendas dos cunhados, Os restantes irmãos, Duarte Rami-
res e João Roiz do Vale, dedicaram-se respectivamente ao comércio
e à indústria açucareira. Aquele, mudou-se,afinal, para uma das na-
sões do Norte, ao passo que o segundo radicou-se em definitivo no
Rio de Janeiro pelo entace com Leonor Guterres da Costa. Tiveram
estes a bela soma de setefilhos, e dessa forma vieram a ser 0s sogros
do médico, Dr. João Nunes Viseu, « dosagricultores Diogo Lopes
Flores e Manuel Gomes Pereira, todoscristãos-novos. Cremos, por-
tanto, haver um entrelaçamento de natureza mercantil envolvendo as
praças do Atlântico afro-brasileiro, as de Lisboa € as da Holanda,
com a participação direta dos cunhados Antônio do Vale de Mes-
quita, na Guanabara, Duarte ou José Ramires, em Angola, Gaspar
Dias de Mesquita, em Lisboa, « Duarte, ao depois, nas Províncias
Unidas. Nas transações com o Ocidente europeu açúcar entrava de
maneira inequívoca?"
O tronco dos Correia de Sousa, no Rio, é contemporâneo dos
Silveira, acima. Seus componentes, porém, eram do Douro, ou se-
jam,o alferes Gonçalo Correia de Sousa e a mulher Francisca Henti-
ques, ambos do Porto. A fama de que pertenciam à etnia hebréia
vingou até ao ingresso de dois netós na Ordem de São Bento. Tam-
bém procederam do casal: Antônia, que casou com O cirurgião Ma-
nuel Jorge Feijão (ou Feio?) Maria Henriques, mulher de André

180
Mendes da Silva; Francisco, que foi pintor e casou três vezes e João
Correia de Sousa.
De João Correia de Sousa disse um dia, a propósito de certa in-
quirição sobre ele, o pe. Bartolomeu de França, velho morador na
cidade, que, quando o referido, quis ingressar na ordem de São
Bento os prelados se opuseram,até que alguém de grande valia in-
tercedeu a seu favor e os mesmos, por fim, também reconheceram que
possuía dons para conduzir as demandas do convento. E foi assim que
se tornou frade, e abriu caminho para outros parentes à vida religiosa?"
A família Mendes da Silva é mais conhecida, graças no interesse
que despertou a biografia de um dos seus membros, ou seja o deama-
turgo Antônio José, por alcunha o “judeu”. Parece que o casal
tronco, formado por André Mendes da Silva e Isabel Fernandes, na-
turais do Crato, removeu-se para o Rio em 1645 mais ou menos.
Dos sete filhos que possuíam, apenas dois não os acompanharam:
Maria, casada na terra natal, € um segundo, que era sacerdote. Os
restantes, são, como segue: 1. André, que casou com Maria Henri-
ques, filha de Gonçalo Correia de Sousa. Exerceu a mercancia.
Foram os progenitores: a) - do ilustre advogado Dr. João Mendes da
Silva, o qual também cultivou as letras e a lavoura canavieira. De sua
união com Lourença, filha de Baltazar Rodrigues Coutinho, nasceram
«és rebentos, sendo que um deles foi o conhecido Antônio José. b)-
Luís, capitão de ordenança. c) - André, o qual morreu durante o
ataque dos franceses à cidade. d) - O padre Francisco Mendes da
Silva. e) - Ana, que casou com Francisco de Andrade, mercador e
tesoureiro da Câmara £) - Isabel, futura consorte do sargento-mor
Felix Correia de Castro. Ao todo, somaram doze os netos dessepri-
meiro ramo.
2. Luís FernandesCrato, irmão de André, 2.º. Já em 1646 estava no
Rio de Janeiro, quando o encontramos gerenciar os negócios do lis-
boera Manuelda Gama de Pádua. Foi escrivão da Câmara de São Paulo,
mas, depois regressou àquela capitania, onde casou com Brites de Pare-
des. Tiveram: a) - lic. Manuel de Paredes, cujos esponsais com a prima
tem 3.º grau) Catarina Marques, em 1694, serviram de base para que
muitos dos convidados fossem denunciados à Inquisição?!b) - Isabel
de Paredes, segunda mulher do mercador Josef Gomes da Silva. c)-
Guiomar de Paredes, mulher do partidista Manuel Tavares Roldão. 3.

181
Inês Aires. Ela e o marido, André de Barros de Miranda, viveram por
alguns anos em São Paulo, de cuja Câmara foi escrivão. Ele já aparece
no cenário carioca em 1648, porém solteiro ainda. Tiveram diversos
filhose netos. No seular praticava-se o judaísmo. Por esta razãoInês
veioa falecer nos catres do Santo Ofício, contando muita idade. 4. O
seu irmão Manuel Rodrigues Crato dedicou-se primeiro ao comércio.
Residiu por algum tempo no Maranhão e depois no Rio de Janeiro,
onde finalmente voltou-se para a agricultura. 5. Brites. Casou com Luís
Rodrigues de Andrade e se transferiram para a vila de São Paulo. Aqui
a mesma acabou os dias.
Quase todos os membros dessa brilhante família tiveram a desven-
tura de se haverem com o Santo Ofício?"
Os Mendes Caldeira, juntamente com o mercador Fernão Vaz
Pereira e Belchior Moreira chegaram também na ocasião dos Mendesda
Silva. Aqueles remontavam ao reino de Castela através da progenitora,
Madalena Peres da Fonseca, natural de, Lucar, é a Portugal por meio de
Fernão MendesCaldeira, nascido em Évora Deste casal procedem os
dois filhos que emigraram para o Rio de Janeiro: Silvestre Mendes
Caldeira e Antônio PeresCaldeira. Ambosforam homensdo trato. Não
se casaram, mas deixaram descendentesde suas amantes “pardas”. Um.
destes foi o padre João Peres Caldeira, filho de Antônio e de Maria
Gomes. Seguiram-no, outrossim, para cá, a irmã Paula Peres, a qual
contraiu matrimônio com o mercador cristão-novo DiogoJácome Gra-
macho,parente sem dúvida daqueles que negociavam desde a Península
com as Índias de Castela, Bahia e Angola. Todos unidos porinte
comerciaisats.
Osdois outros contemporâneos,Vaz Pereira e Belchior Moreira
revelaram-se menos expressivos. Enquanto o primeiroatuou no trato
mercantil, o segundo devotou-se à lavoura na área do Irajá. Sabemos que
este, em 1647, tinha comovizinhosali, os congêneres Manuel do Vale,
Pantaleão Duarte, Manuel de Paredes, D.* Maria Correia, Antôniode
Sumpaio é outros?”
OsCorreia Ximenes foram gente de projeção. Jgnoramos se José c a
irmã Isabel chegaram juntos ou se ela o precedeu, conformeparece. O
fato é que ambos surgem na Guanabara logo após a reconquista de
Angola aos holandeses, onde aquele se ilustrouno posto de capitão.
Também é curioso observar que outro capitão,e este nascido noRio de
Janeiro, por nome Luís Machado Homem, aoregressar da colôni

182
convolou núpcias com essa irmã do companheiro de armas. Afinidades
proficionais simplesmente?
Fixando-se nosolo fluminense, José manteve-se no posto militar,
mas à partir de 1666 desempenhou-o comulativamente com o ofício de
tabelião,até que, anos depois, o transferiu mediante licença aofilhoJoão
Correia Ximenes?! sempre em caráter temporário, porque a indivíduo
solteiro não se concedia o pleno direito. Todavia a verdade era outra O
pretendente andava amaziadocom a mulata Bernarda Figueira e dela já
lhe tinham nascido filhos.
Foi somenteporvolta de 1692 que este nosso biografado se casou.
Não com a Bernarda, e sim com a senhora Brites de Paredes, filha das
famílias deste sobrenome e dos Azeredo Coutinho. Era, agora, umdos
homens de maiores posses no lugar, pois além da herança paterna, e do
que granjeara nocartório, reunira odote da noiva À boaresidência na
cidade, somou uma chácara no sítio da Carioca € um engenho em São
João de Meriti, os quais o SantoOfícioconfiscou em 1712, apóslançar o
dono em seuscatrest!s
crise reinante no decênio de 1640não intimidou,obviamente, os
cristãos-novos a se deslocarem do Reino para o Rio de Janeiro. Aliás, a
capitania fluminense era um dos melhores lugares para se viver, con-
soante testemunhosda época?2?. Tinhaclima bem tolerável, boa indús-
tria açucareira e comércio animado. À sua populaçãocrescia de anopara
ano, ainda que entravada pela queda de Angola. À provadissoencontra-
se noestabelecimento dos ativos mercadores Estêvão Luís da Costa e
Manvel Gomes Inigo(ou Inhigo) na cidade dofuncionário Pedro da
Costa, todos da progênie sefardim. Já aíresidiam em 1646. O primeiro
negociava em sociedade com o sobrinho-genro, Henrique da Paz Pinto,
Oqual dirigia a firma na capital portuguesa. Cremos queo marido de
Brites da Paz, sediado igualmente na Guanabara,fazia parte do mesmo
consórcio. Até que, por volta de 1654, Estêvão regressa a Portugal, de
onde alarga as transações a diversos países. Entretanto, decorridos mais
dois anos, firma padece um grave abalo, porque Henriquee a prima
Brites são presos pelo Santo Ofício. E então, face o acontecido,o tio
emigra para Amsterdã, prossegue na mercancia e se converte num dos
mentores da comunidade sefardim2=t
Manuel Gomes Inigo era natural de Lisboa Vivia doofício de
ourivesantes de embarcar paraa capitania. Em 1635 estivera noscárceres
da Inquisição. Mas a experiência não lhe arrefeceu oapego à ei mosaica,
tantoque,noRio, continuou a praticá-la, contandocom o estímulo do

183
sogro, ou seja, do judaizante Miguel Cardoso. Ao ladodesseslaços em
comum,ambos se entregam atividade mercantif22,
Havia, por conseguinte, adeptos do mosaísmo em todos osescalões,
incluindo forças militares e serviçospúblicos. É notório o nome de Pedro
da Costa, escrivão das execuções e da ouvidoria. Era ele que avisava sos
confrades a data das reuniões, saindo pela cidade com um lenço na mão,
atrás das costas, muito disfarçadamemente222, Assim alimentavam a
velha crença entre si e, na medida do possível, empenhavam-se por
seconduzir à grei aos que se haviam desgarrado, Nisto, cram referenda-
dos, às vezes, por aqueles que passavam fugindo à sanha inquisicorial, a
exemplodos irmãosJorge e Sebastião Nunes Neto e deAfonsoManhoz.
A liberdade que os hebreus desfrucavam aqui era ampla, porém
vigiada pelos administradores-eclesiásticos, pelos familiares do Santo
Ofício e pelosinimigos, sobretudo em razão do seu crescentepoderio em
número e influência. Se muitos professavam o catolicismo, faziam-no
apenas pró forma, a fim de despistar, conforme Diogo da Costa, mora-
dor na Guanabara, disse aos inquisidores em Lisboa quando esteve
presso22s. Na realidade,a capitânia tornara-se um foco ardoroso do ju-
daísmo.
O ambientegeral, em taiscircunstâncias, não podia serdos melhores,
dada a heterogencidade étnica, social e cultural. Ameríndios, escravos
negros, cristãos-velhos e semitas laboravam lado a lado. Costumes e
crenças se entrecruzavam. Já por volta de 1652 um frade beneditino
lamentava a situação e atribuía a culpa aos maus políticos da cidade, aos
que zombavam dareligião e aos “cavilosos israelitas”229, Quem,pois,se
aventuraria a conter a onda,se tantos e tão enleados eram os comprome-
tidos?
Flá nesta fase uma pletora de judeus porcugueses chegando ao Rio,
explicável à luz de problemas na Metrópole, das más condições no
Nordeste brasileiro e da reconquista de Angola. Os documentos nos
fornecem os nomes dos Fonseca Dória, dos Mendanha, dos mercadores
Antônio Roiz da Veiga e Manuel Vaz de Leão, de Francisco Pacheco de
“Azeredo,do militar Lucas da Silva Tavares, do advogado João Álvares
de Figueiró, dos Rondon, do lic. Dr. Jerônimo de Burgos, cxilado da
Bahia para o Rio, e os de tantos mais.
Conheçamo-los um pouco melhor.
Os Mendanha e os Dória provinham delinhagens hebréias. Aqui as
duas se enlaçaram pelo casamento de Luis Vieira de Mendanha, que era
natural de Almada, com Luisa da Fonseca Dória, em cujas veias corria o
sangue cristão-novo dos Veloso Cubas. Desse matrimônio nasceram

184
nove filhos, denere os quais vamos destacar apenas três: 1) Antônio de
Mendanha Soutomaior, ex-alunodosjesuítas. Os condiscipulosna escola
e muitas outras pessoas na cidade o consideravam descendente de judeus
Poristo, bem mais tarde, em 1699, não pôde habilitar-sc à Ordem de
Cristo. Todavia, depois de viúvo, ingressou noclero e foi párocoda vila
do Principe; nas Minas Gerais. 2) - Capitão Luis Vieira de Mendanha,
brioso militar na praça do Rio. 3) Luísa, mulher de Baltazar de Moura
Fogaça,igualmente da estirpe, assimcomo também as esposas dos ante-
riores. 4) - Mariana, que casou com o insigne militar Antônio Carvalhode
Lucena. Todosdeixaram geração?”
O beirão Manuel Vaz, acima, instalou-se na Guanabara com à mu-
her, Leonor Camela,cristã-velha, em meados do século. Tiveram uma
filha, Tereza de Leão,a qual veio a casar como mercadorcristão-novo,
FernãoLopes,irmão de André da Veiga. Ficando viúva, Leonor contraiu
segundo matrimônio com ManucldaSilvaTeixeira, homem de negócios
e, ão que parece, também de linhagem hebréia, a deduzir-se do auto
inquisitorial de sua filha Isabel daSilva. Esta, que foi mulher rica e
formosa, casou com Luís Pais de Paredese dele deixou filhos???
O primeiro Pacheco de Azeredo que aportou noRiotinha o nome de
Francisco e era natural de Lisboa. Devia tratar-se de sujeito dotadode
boas condições, pois uniu-se à família deLuís de Aguiar,procurador da
Coroa nesta capitania. O filho primogênito, José Pacheco de Azeredo,
tornou-se dono de engenho nobairro do Irajá. Teve, porém,a infelici-
dade de, aossessenta e dois anos, ir parar nas enxovias da Inquisição, por
ser judaizante e de linhagem cristã-nova. Estava casado com Maria de
Abreu Rangel, descendente de antigos povoadores. Deixaram gera-
cão,
Lucas Mendesda Silva, seuconterrâneo,chegoubafejado pela fama
de excelente militar,tanto que el-rei lhe concedeu a mercê do hábito de
Cristo e a tença de 20$000. Contraiu matrimôniologo depois com à
jovem senhora Maria Coutinho de Azeredo « Melo, bisneta do hebreu
Miguel GomesBravo, e dela lhe nasceram cincofilhos. Preso por causa
do motim de 1660,de quefora um dos cabeças, conseguiua absolvição.
Permaneceu, contudo,em Lisboa, onde passou à ocupar o cargode vedor
das obrasda cidade, o qual os ancestrais vinham exercendo desde o
bisavõães
Outro indivíduo insignefoi o Dr. João Álvares Figueiró, descen-
dente dos Nunes e Espinoza, cristãos-novos da Bahia. Estudou na U:
versidade de Coimbra e, a seguir, veio advogar na Guanabara. Então

185
convolou o enlace com uma das filhas do conhecido judeu, Miguel
Cardoso, Foi um dos raras marrimônios entre os casais da estirpe que se
findou sem deixar continuadores2%
A restauração de Angola, pela qual os moradores muito se interessa-
zam, trouxe benefíciosaos cariocas, porqueseus engenhoscontinuaram a
produzir, ao passo que os do Nordeste sofreram prejuízos e não se
recompuzeram imediatamente. Ademais tentava-se a reabertura do
tráfico com a cidade de Buenos Aires, de capital importância para a
economia portuguesa. É compreensivo, então,que o surto imigrazório se
mantivesse mais ou menos constante. Nointerim radicaram-se na capita-
nia algumas famílias mui distintas, tais como as dos irmãos Mendes
Simões, a dos Siqueira, a dos Godinho Leite, a dos Rodrigues de An-
drade, à dos Dique e outras.
Os Simões já se encontravam aqui por volta de 1655. Parece que
Diogo vivia da agricultura, ao passo que Francisco era mercador e costa-
mava fazer viagens à Angola. Aquele teve três filhos, a saber: 1 - Fran-
cisco Mendes Simões, o qual foi capitão de navios e mestre-escola.
Deixou um casal de filhos legítimos,além de outros, de uma crioula. 2 -
Margarida, mulher do lavrador cristão-velho Antônio Pires Moreira.
Deixaram geração.3 - Pedro Mendes Simões, que se passou à China. A
família também pagou o seu tributo de sacrifício à Inquisição no século
seguinte?3!, « bem assim a dos Godinho Leite, entrecruzadacom a outra,
porquanto Francisco Mendes Simões (sobrinho) casara-se com Tereza
Pais de Jesus,filha destes.
Os Siqueira são-nos conhecidos em paste. Um deles, por nome
Francisco, contraíra matrimônio em Pormugal com a senhorinha Brites da
Paz, filha de Jerônimo da Paz Guterres e de Isabel, sua mulher. Eram
judaizantes, pelo que, em 1656, aquela foi presa « conduzida a Lisboa,
onde o primo Henrique aguardava julgamento por igual razão. O casal
“gerou uma menina, futura consorte do português Josef Fernandes de
Miranda, participante na revolta de 1660. É destes que descendem o
ilustre médico Francisco de Siqueira Machado,clínico na cidade nara, e
pai de numerosos herdeiros; a irmã Catarina, que casou com o judeu
espanhol, Francisco Antônio Henriques, mercador; Leonor, que convo-
lou núpcias com Alexandre Soares Pereira, cristão-novo « senhor de
engenho; José Fernandes, o qual cursou medicina em Coimbra,
Deu começo à família Andrade no Rio de Janeiro,o cristão-novo
Simão Roiz de Andrade, narural de Lisboa. Deixara para trás a mulher €
uma filha, « fim de, sozinho, enfrentar o novo ambiente. Arranjou,

186
todavia, uma concubina para lhe suavizar às agruras « destagerou alguas
bastardos, dos quais nunca se esqueceu. Foram, dentre eles: João Rodri-
gues de Andrade, que se tornoulavrador de canas, e Maria Hensiques,
futura esposa de João Henriques de Castro, meio cristão-novo. Legít-
mos, Maria, que casou em São Gonçalo, no Rio, com o congênere Diogo
Bernal da Fonseca: Duarte Roiz de Andrade, que se uniu por matrimó-
nio à família dosVale daSilveiras Bento,que faleceu solteiro. À exceção
doúltimo,todos deixaram descendência”.
Os Dique e osRodriguesda Veigatinham-se apareerado em Portugal
através de laços conjugais. Vieram em meados do século e aqui
entregaram-se ao comércio. Um destes, Diogo Duarte de Souza, casado
com Catarina Dique, recebia mercadorias poratacado, remetidas da
Península. Ao falecer, em 1656, ou antes, os bens « demais créditos
foram confiados 2 Antônio Rodrigues da Veiga e ao irmão, pois a viúva
encontrava-se no Reino com os filhos. Todavia, anos depois,João Dique
de Sousa, talvez seu primogênito, veio residir em São Gonçalo, onde
muitos cristãos-novos iam adquirindo propriedades. Em 1672 casoucom
Isabel, sua parente, dos Veiga, e passaram a morar na cidade. Tiveram
filhos filhas, algumas das quais abraçaram a vidareligiosa. Por estranho
que seja, o velhoJoão Dique e parte dos seus foram sentenciados pelo
egrégio Tribunal. Seria mesmo o interesse do Santo Ofício apenas reli-
gjosoit,
O ato de el-rei D. João, em 1652,assistindopessoalmente ao julga-
mento público pelo Santo Ofício de seus dois grandes colaboradores,
ambos ceistãos-novos, Manuel FernandesVila Real e Duarte da Silva?'s,
levou os hebreus a perderem a confiança no próprio monarca. Quem
poderia ter segurança se os válidos de el-rei não escapavam à sanha
inquisitorial? Mas, após à sua morte as coisas pioraram muito, embora
aqueles tivessem alguns amigos influentes na Corte, a exemplo do con-
gêncre Manuci da Gama de Pádua À pressão dos rivais a tudo se
contrapunha. Garantias dadas anteriormente foram abolidas. À lei que
lhes isentava os bensdos confiscos perdeu a validade. A boa estrela do
padre Vieira principiara a declinar. Fugirpara osterritóriosde Castela na
Península « na América não convinha mais. O Rio deJaneiro é aínda o
lugar que atrai a muitos daestirpe.
prova disso vislumbra-se em duas cartas que a Câmarafocal enviou
a. Majestade em janeiro e maio de 1658. Através das mesmas dizem
que à maioria da população é construída de cristãos-novos, muitos dos
quais foram enviados pelo Santo Ofício a fim de cumprirem as penalida-

187
des aqui??8, O que sucedia, então,era que praticavam desaforos de todaa
sorte e não havia quem os repeimisse, pois à frente da vigararia-geral
estava um clérigo sem letras e de linhagem israelita?”
Por conseguinte, o crescimento demográfico entre os sefardins flu-
minenses, continuou a operar-se. Evidentemente, osfilhos « os netos
das primeiras gerações deram origem à novas famílias, enlaçando-se uns
com os outros ou recorrendo mesmo a casamentos mistos, e também
ensejando oportunidades conjugais aos que chegavam solteiros à capita.
aia. Assira, a multiplicação da grei hebraica causava apreensõess. Aliás,
no decénio de 1660 o fluxo se reativou graças a ação inquisitorial no
Reino, pois os anos de 1662 a 1670,assistiram a numerosos autos de fé,
com degredos para o nosso país
Documentos da época nos dão conta, agora, de algunsjudaizantes a
respeito dos quais pouco se sabe.João Gomes Aranha morava na capita.
nia e era casado. Iguslmente Francisco Rodrigues Pereira, mas este
ocupava-se em atividades mercantis. Certo Diogo Tomás, sobrinho de
Fernão Rodrigues Pinheiro, vivia solteiro. Outros, porém, são melhor
conhecidos. João da Fonseca Coutinho, posto que cavaleiro-fidalgo, era
proprietário da escrivania das execuções e se dedicava à lavoura Em
1660 colaborou no levante dos moradores. Casou com D.* Maria Cou-
tinho, do Espírito Santo, e através dela deixou geração mui distinguida.
O filho homónimo herdou-fhe o cargo e um neto, Sebastião da Fonseca
Coutinho, foi ree. cel. da cavalaria e senhor de engenho. Mais dois ad-
ventícios que se uniram a famílias da terra e aí se radicaram, nós os
identificamos pelos nomes de Antônio e de Manuel Rodrigues de
1eãoêto, O primeiro entregava-se à mercancia e o segundoa funções
públicas, às quais concorreu, pelo menos. Tiveram descendentes?*!, Um
quarto, ou seja, Francisco Rotrigues Calassa, chegou com a mulher e o
filho João. No Rio nasceram-lhes mais cinco e todos deram ocigem a
novas famílias. O primogênito foi homem próspero. O seu engenho em
Trabuna c a moradia na cidade figuravam entre os melhores da capitania
quandoa Inquisição os confiscou na segundadécada doséculo XVIIL
O mano Diogo cambém vivia da agricultura, ao passo que Manvel
tornou-se mercador. Às irmãs, Madalena e Isabel, unitam-se, por sua
vez, a dois homens do trato, amboscirstãos-novos. F. Rodrigues de
Andrade e Lopo de Mezastt2, 1
O Rio de Janeiro sempre ofereceu boas perspectivas aos negociantes
hebreus, mesmo nos períodos de crise. Era a única das capitanias na
parte: mais meridional do Atlântico a produzir açúcar e, neste caso, em

188
condições de fornecê-o às regiões do Prata. À concorrência antilhana
ainda não lhe abalara a economia de maneira significativa. À aliança de
Portugal com Inglaterra (1654) e com a Holanda(1661) amenizaram a
situação. Pelo que, de fato, assistimos ao deslocamento para cá de ou-
tros mercadores vindos do Reino e já experimentados em transações
“comerciais. Figuram no rol osirmãos Veiga, O colega Luís de Matos
Coutinho e, posteriormente, os Gomes da Silva.
OsVeiga, André e Fernão Lopes, eram nacurais de Elvas, de onde,
quanto sabemos, aquele passou à Lisboa e depois duas ao Rio. Negócios
importantes vieram a cair-lhe nas mãos. Casou por vezes, sendo
que,pelo segundo enlace, tornou-se cunhado do alferes Luis de Castro e
sobrinho do Dr. André Mendes da Silva. Diversos dos seus herdeiros
foram condenados pela Inquisição?es. .
A descendência de FernãoLopes daVeiga revelabem a sisuaçãoa que
este subira. Ele se consorciata no Rio com uma das filhas do mercador
cristão-novo Manuel Vaz de Leão. O enlace permitiralhe juntar sua
experiência e recursos aos do sogro. Dos nove rebentos que lhe nasce-
ram, dois, Pedro e Antônio, seguiram-lheas pegadas no comércio;João
estudou leis na Universidade de Coimbra José fez-se militar; e Ana
contraiu matrimónio com o futuro provedor da Casa da Moeda, João da
Costa de Matostsá
Luis de Matos Coutinho « amulher, porocasião doseu casamento em
Portugal, fizeram planos com vistas a um possivel estabelecimento de
ambos na Guanabara. Ajuntaram os recursos e foram a Angola. Aqui
venderam as mercadorias que traziam c compraram escravos. À seguir
“embarcaram com destino àquelacapitania, onde transacionaram de novo,
dispondo de outras mercadorias « parte dos escravos. Então adquiriram
um engenho e se entregaram à faina açucarcira. Mas a aventura durou
pouco. Sabedores de que os familiares em Lisboa tinham sido presos,
Luís vendeu os imóveis por menos, transformou o que pôde em dinheiro.
amoedado e se foram ocultar noEspírito Santo, pensando que encontra-
riam ali paz e segurança. Qual nada! A Inquisição dentro em brevelhes
bateu às portas. Oito Jongos anos retiveram a Luís nos cáreereslisboetas.
Quando saiu, achava-se na mais extrema penúria?s.
A semelhante desgraça estava predestinado Josef Gomes da Silva,
membro de uma numerosa família do Crato. Aos dezenove anos tivera
que haver-se com o Santo Oficio, o qual lhe dera licença para aguardar
em liberdade o julgamento. Mas, 0 ousado moço ludibria osinquisidores
foge pasa o longinquo Rio de Janeiro. Aqui já residiam os parentes

189
Pedro Sanches da Fonseca, homem de negócios, marido de suasobrinha
Beatriz Henriques, e o mercador Henrique Gomes Soares. Eles, na
cerea, lhe dariam ajuda « proteção. E,de faro, com o transcorrer dos dias,
Josefprosperou social e financeiramente, não obstante denunciadaa sua
“presença à Inquisição em 1673. Foi, por fim, senhor de engenho e
arrendacáriodaFazendaReal. Aoserpreso, em 1710,tevea felicidadede
escapulir da cadeia e de encontrar refúgio no meio do invasorfrancês.
Tinha, na época, oito filhos, dos seusdois enlaces, contraídos ambos na
família dos Fernandes Crato, velhos amigos e congêneres?
Nointerim seguira-o para a mesmacapitania sulina o irmão Pedro
Mendes Henciques, ainda jovem. O rapaz adestrou-se no tráfico e nele
“granjeou bom dinheiro. Então, a exemplo de tantos outros da estirpe,
convergiu para a indústria açucareira,e nela acabou sendo proprietário
de um engenho. Casou com Catarina Mendes de Leão,filha do Dr.
Cristóvão Gonçalves”.
Uma nova fase de imigração processou-se no lustre de 1665 a 1670,
motivadaespecialmente pelos tratadosde paz com a França(1667) e com
a Espanha (1668)os quais propiciaram melhores condições ao tráfico no
Alântico Sul. Simultaneamente sucede aqueda de Afonso VI em Pormu-
gal ea subidaao trono do cegente D. Pedro. O Santo Ofício,por suavez,
é fortalecido. O padre Vieira, que até então havia sido partidário do
infeliz herdeiro de el-rei D.João, e amigo dos hebreus,cai sob o poder
dos inquisidores. O cenário pátrio agrava-se, consegientemente, paraos
da etnia sefardim. Em 1668 as Cortes chegam ao ponto desolicitar a
expulsão detodos. A intolerância ganha novas forças. Osautos se suce-
dem. Contudo,no Brasi, reina a paz. O comércio promete reativar-se.
Já antes disso um ou outro francês e espanhol vão aparecendo por
estas bandas. Sabe-se, por exemplo, que em São Paulo militouporalgum
tempo determinado cirurgião judaizante daquela nacionalidade. NoRio,
igualmente, fixou-se o sevilhanoJoão Tomás Brum, o qual, ao depois, no
ano de 1667, contraiu matrimônio com a cristâ-nova Branca Rodrigues
Coutinho, da família Cardoso. O casal teve geração mui ilustre,
destacando-se em particular o filho advogado, Dr. Miguel de Castro
Lara e o neto médico, Dr. João Tomás de Castro?*8.
Mais uma família que trouxeincentivos à vida fluminense, foi a dos
Mezas alentejanos?*º. Eram elementos devotados ao comércio. Um
deles, Diogo Roiz Meza, assentou banca na Guanabara e nesta se enrai-
zou de vez pelo marrimônio. Outro,ou seja, Lopo de Mezas, veio com
os tios Manuel de Lopo e a irmã Maria, ainda solteira Esse casou com

190
Isabel, filha de Francisco Rodrigues Calassa, e tiveram pelo menos o
pequerrucho de nome Pedro, que, posteriormente, foi lavrador e salvo
engano, rendeiro dos dízimos sob a designação de Pedro Rodrigues de
Abreu, com que, na verdade cle próprio se assinava. À tia casou com
Josef Carvalho, e também aqui se fixaramês,
“As famílias hebréias portuguesas, consoante frisamos, mudavam fre-
De modo que encontra-
quentemente desítio, sobretudo na Peninsula.
mos irmãos nascidos em distintos lugareseAssim,, às vezes, usando nomes €
apelidos que em nada os assemelha m. os dois irmãos Soares
Pereira, Alexandre eJoão, eram, respectiva mente o primeiro, de Lisbos,
e os demais do Algarve. Aportaram à capitania por volta de 1670. A
princípio consagraram-se à vida mercantil, mas logo que às finanças lhes
permitiram crocar ceativida de, adquiriram um engenho cadaqua l. Além
cem 1673
disso, o seguado obreve o contrato dos dizimos por três anos,
comprou um sobrado na futura rua do Ouvidor. Casouna família Vale da
Silveira e foi pai de dois filhos e uma filha, os quais, por seu turno,
convolaram núpcias no seio damesma cenia. Um destes, Alexandre, teve
meio
engenhona Pavuna e -ompadre de Manuel Correia Vasques,
cristão novoêst,
Os Nunes, porseus talentos profissionais, deveriam ter ganho um
lugar de nomeadaentre os da comunidade. Eles eram aparentados mu-
tuamente. Isto é, Manuel NunesIdanha e Manuel Nunes Vizeu. Todos
procediam do distrito de Castelo Branco. O primeiro chegou ur pouco
antes, Trouxea família consigo e mais os sobrinhos Damião Rodrigues
Moeda, advogado, é Diogo Roiz Moeda, ambos já casados.emAquele não
muito depois, comprou fazendano Piraquá e se conver teu senhor de
filho João à
engenho. Como homem de recursos enviou o o advogado acima, e estudar
medicina cin Coimbra. À filha, Ana, casou com
Helena com o médico Dr. Manuel NunesIdanha. Enlaces,via de regra,
entre parentes?S?.
Vê-se, pois, que os hebreus não cultivaram apenas a mercancia e nem
devotaram à
só determinadas profissões liberais. Muitos foram os que seetivos
agricultura dacanasacaróide, embora, naverdad e, comobj comer-
ciais. À lista, podemos adicionar o nomede João Henrique s de Castro
fou Crasto), o qual arribou ainda solteiro à Guanabara . Entretant o
enamorou-se pela filha de um parrício e aqui ficou em virtude docasa-
smento. Algum tempo depois perdeu a companheira e, então, sucessão contraiu
novo enlace nafamília de Simão Rodrigues de Andrade. Deixou

191
apenas deste. Nos últimosanos passara a viver da lavoura, tendo um
partídode canas em São Gonçalo?s$
Bem antes de findar-se o século, desde mais ou menosa fundação da
colônia do Sacramento, o Rio vê sua população tomar outro impulso. A
crise econômica vai serenandoaos poucos. Medidas oficiais adotadas pela
Coroa começam a dar resultados positivos. Nas Capitanias do Sul
reacendem-se as buscas mineralógicas, aliás muito alviçareiras, Logo mais
os boatos se converteriam emfanrástica realidade, Enquanto isso o Santo
Ofício prosseguia nos seusobjetivos sancadores emPortugal. Umadas
conseqúências de tudo, reflete-se na clevação da secular cidade de 5.
Sebastião doRio deJaneiro, sede episcopal.
Conhecem-se muitos dos novos imigrados. A maioria é de homens
dotrato. Também chegam diversos outros profissionais. Aqui desem-
barcaa família Tavares Roldão, um de cujos membros, chamado Manuel,
casa com Guiomar deParedes; o congênere José Pinheiro de Macedo,
une-se pela mesmaformaà casa dos Ximenes; outro,certo DiogoPereira
vem solteiro,ao que parece, mas, de uma mulher de cor, gera o mulato
Teodoro Pereira da Costa, futuro médico na cidade. Aos Dique já
tecemosreferências. As filhas de Luis Gomes Pereira, residente em
Santos, casam-se com homens do trato e se passampara o Rio, onde,
afinal, à Inquisição vem apanhá-las e a descendentes seus. De uma delas
nasceram o Dr. Francisco GomesDinis, advogado, por Coimbra, e o
milicar SimãoFarto Dinistst
Aindaoutros que se radicaramna capitania poresse tempo, foram,
Pedro Dias Henriques, futero genro de Manuel da Silveira; os três
irmãos Bernal da Fonseca, dois dos quais, João é Diogo, também se
uniram à família Rodrigues de Andrade e trocarama mercancia pelavida
agrícola?sS, os dois irmãos espanhóis, Francisco Antônio Henriquese
Tomás Pissarro, ambos mercadores(cerca de1683), e logo após, João
Maio GramachoeLuís Rodrigues de Andrade. Porvolta de 1695, o
mercador Manuel Lopes Nunes € família?ss, Diogo « Agostinho Lopes
Flores, primosum do outro, sendoqueoprimeiro entregou-se à lavoura
eosegundoàatividade mercantil, Ambos se casaram aqui, optandopor
uniões dentroda sua própr etnias”.
Conhecem-se mais, oilustre médico, Dr. Manuel Roiz Ramalho, o
qual clinicou durante anos na cidade, « dela somente se retirou após o
deschlace da esposa. Todavia, veio sucedêlo tempos depois o neto
Antônio JoaquimRamalho, no exercício da mesmaprofissão?s8, Desfi-
Jam ainda, pela ribalta guanabarina, os dois filhos de Diogo Mendes de

192
Castro, saber: Miguel Teles da Costa, que desempenha sucessivas vezes
ocargode capitão-mor da Ilha Grande, de Itanhaém de Parati, e, por
último, Francisco Mendes de Castro, mercador, sediado nesta última.
Ambos tiveram que ajustar contas com o Santo Ofícios. Era assim
mesmo!Bastava que um amigo ou parente fosse colhidopelo Tribunal e
logo os mais afins lhe fariam companhia no infortúnio.

Noras

Mais adiante nos reportaremos a esses indivíduos « aos documentos que os


identificam. Ver-se-à, com fundamento nestes, que afirmativa segundo a qual
inexistiram cristão-novos em São Paulo noséculo XVI nãotem apoio histó-
2 - Silva Lisboa Op. p. 28,
3 O vigário doRio de Janeiro tinha essaincumbência por provisio do bispoD.
Pedro Leião, datada de 5 de agosto de 1564, « quanto à do vigário de São
Vicente ela cranspasece no processo de João de Bolês e nas cartas jesuíicas
“ABNRJ. vol 25
Serafim Lite, Cartas das Primeiros Jesítasdo Brasi, vol, Il, pp-175 é segs
= A. Dist Fed, vol. 19, 9.99
- Mons, Pirarro. Opte, vol. 1.bP. 53 e segs
- Medina La Img ene! Rio de a Plata, pp. 246
tg de Lisboa, proc. NISSO.
= Idem, proc. nº 5206.
= Da. Pio, 1594 asim
Do. Bb, 1591, pastim, Quanto à autoriada Prospopéia, atribuída a Beato Tei-
xeira, consulte-se oestudo de José Antônio Gonsalves de Melo em
Pernambucano e o de Rubeos Borba de Morais na Revista Comentário, 1
mestre, 1964, pp. 78 e segs
= Ing. de Lesbos, proc. 3206.
= Dm. Pés, pp. LIT, 122 e segs, 142, 145
8 Ing. de Lisboa, proc. 5206
= Da. Pis, pp. 105, 11], 143, 14d,
9 = Img de Lina, Dm Pig, 1593, pp. LT e 143; proc. 2506.

193
10 - Parece-nos que a sua ascendência remonta 4 Herman Gonzales Bravo, o qual
habitou em Sevilha e aí desfrurou da condição de fidalgo. Um filho, por nome
Juan Alonso Bravo. recebeu igual mercê das mãos dos Reis Católicos Um
outro descendente, que foi D. Juan Bravo de Sobremonte y Navimuel, sustem.
tou pleito judicial com a Casa de Arce porque um destos o charmara “caballero
pardo, descendiente de judios” — D, Matco Escagedo Salmõo, Solares Monta-
es, Santona, 1925, vol. 1, pp. 266 e segs.
TI = Pod List. Op. sis,v0l. 1, p. 305, rodapé
= AABH, Lisboa, Tl série, vol. 1, 1946, p. 296,
12 - Dm. Bb, 1591
= CY Bb. 1618.
- Jaboatão. Ca. Gemalígico
= JF. Almeida Prado, À Conquista da Paraíha
13 - Cf Bb, pp. 77, 162. Repeitada a ortografiaoriginal
tá - AU. Esp. Santo, Cx. 1, doc. de 15 de abril de 1585.
15 - Cf Bb 1591, pp 75277
- DmBb, 1597, passóm.
» Taques. Nobiliarguia, vol. 1, 24 ed., pp. 261 e 262
= Ing.de Liboa,, proc. 5436.
16 = Ing. de Lisboa, procs 5206 e 9430
= CÍ Bb, 159%,p. 77.
17 - Dm Pos, p.áB1
= Cf Bb, 1591 pp. 75 a 78,32, 128,
- Dn. BÊ., 1591, pp. 471, 443, 464, 515, 570, 571,
= AU. Esp. Santo, Cx 1
= Res ANRJ. vol KXXIX
18 - AHU. — Esp. Santo, Cx. 1, diversos
= ABAjuda, SI-N-T1, novo, pp. 190 a 191
- Silva Leme, Gemealgia, vol. VIT, 447, 480
“AH, Bahia, não-catal, Cx. 1
= Ainda outro Pedro Dias Sanches foi companheiro dos irmãos Azeredo no des-
cobrimento das minas. Seria filho do primeiro?
19 - AMU. . Esp Santo, Cx 1
- AU, Baia, Ce !, Calor.
- AMU, «Códice 278, bp. 55 vs, e segs
= Ing. de Lisaa. proc. 8132.
= Amas. é Tests de São Paulo, vol, VI, Pp. 307 e segs
20 - Re.LHG. B, vol 61
= Img. de Lisina, proes. 11071, 9978,exe
= AHU.— Esp Sanco, Cx. |
2 = Ing de Lisbou, procs. 1765 e 4950.
= Dr.Bb., 1594, pp. 390, 428.
22 - DnPio, 1595, pp. 451 e 452
= Rheingance. Op ct,vol 1, p. 502.

194
23 = Ing, de Lisboa, proc. 6346.
24 - Idem, Cad. do Promoso, 0.0 24, pp. 511 e segs,
25 - Ing. de Lisboa; proc. 4786.
26 - Ing. de Libra, proc. 7394,
27 - Inquisição de Lisboa, proc. 4786.
28 - AHU, Cod 278,pp. S5us. e segs.
29 - Inquisição de Lisbos, proc. cit.
= AHU, Cod, 275, pp. 307, 307ys
30 - Diogo Dorta « Manuel da Costa Moreno foram denunciados à Inquisição, em
1646, como fiéis seguidores das crenças judaicas
- AMU. Esp. Santo. ex.1, doc. de 1626,
= Do. Bê. 1591, passim CF Bh. 1591, pass
31 - AH, Espírico Santo, ex. 1, diversos.
= Idem, Bh,cx. 4, doc. de 1655.
32 » Ing. de Lisboa, proc. 7594,
= dna, pro. TIS.
33 = Ing. de Liboo, proc. 7978
34 438 - AHU, Esp. Santo, ex 1, diversos.
39 - Alão de Morais. Pd, Lusitana, conf. t. L, vol LeeIlvol. 1
2 A. Baião. Episódios Dramático, TI, 107 e segs.
40 - Rheinganer, Primeiras Famíliasdo Riode Janeiro, vols. Le
- 3.G.Salvador. Op.
= Ing. de Libra, proc. 10.101, exe.
41 * Tal núcleo, ou feitoria, foi elevado à categoria de vila « sede da copitania por
Marcio À. de Sousa em 1557.
= Diária de Pera Lopes de Sousa, p. TL vol. IL. pp. 60 « segs.
- Malheiro Dias. His, de Col. Port. de Brassl,de Santos, vol. 1, pp. 35 e segs.
À Francisco Marcos dos Santos, História
40 —de Cl o, vob vol. 1, pp. 150 e seus o
- Varahagem. His, Brasil, São Paulo, Capital Genráfica do Bras.
| Ju Cortesão. À Pandação de pp. 57 e ses.
45 - João Lúcio de Azevedo. Opait,por exemplo, fora seu professor e com ele con-à
44 - O cosmógrafo Pedeo Nunes,
Servou acesa a amizade, Outro amigo, o Dr. Garcia da Orey, acompanhow-o
Índia em 1534. mais tarde lhe dedicou a obra Cológuias dos Simples « Drogar, e
Contas Modicinais da Índio.
= Grande Ene, Pers. é Brasileiro, passim,
= Ene é DicInternacional, vol. 14, pp. 8207. 8208.biográficos
5 - Jaboatão, Santa Maria, Varahagem, sobre dados
= Miss, da Cal. Portuqueta do Brasil, vol. 1, pp. 98 e segs
46 — Frei Gaspar, Memórias. p- 143.
47 - ANT. Tombo. Chanc de D. Manuel, lv. 51, É 75.
= Paulistânia, amo 1950, nº 32, p. 58.
É Silva Leite. Cartas dos Primeires Jsuítos, vol. 1, p. 461

195
48 - Frei Gaspar. Opuit, pp. 143, 183.
“Re, LHGSP. vol VI, p. 297.
Serafim, Leite, Cartas dos Primeiris Jets, vo. 1 p. 463,
49 - Dr. Bh, 1591, p. 314,
30 -RGCSP. vol 1.p. 42
51 - 1.6. Salvador Op, pp. 138, 139,
52 - ACM. Porto, liv. das Vereações, 1439, fs 1 172
- ACB. Basto. O: Judeus nó Velho Mundo, p. 108
A. Miser. Porto, D, Bco. 8, nº 3, 175.
= Idem, B, 3, 0.26, 2º cad. ( 62.
= Adem, E. Bco, 1onº 4, (49; Beo 1,0. 1,€20
LAS Z EIS
s- o, Pero Vaz de Caminha, p, 59,
- A. Magalhães Besto. À História da Santo Caso de Misericórdia do Port
54 Re. LEGS.P, ano1939, n.º 6, Pp. 359 e segs
- Ped, Lusitana, t. 11, vol. IL,
- Res, Braúlia, ano 1943, vol. pp.2, 322 e segs
pp. 266 € segs
- ACE Basto. Op.
55 JP. Leite, “Brás Cubas e a Capitania de S Vicente”. Anais do IVComp, do
Hiuóia, vol. X, pp. 409 e segs
RGCSP. vol 1, p, 484,
Re LHGSP., vol XLVIL
Pedro Taques, Noiliarquia Paulistana, vol. 1
iva Leme. Genealogia, vol. 6
56 Brei Gaspar. Op.it, p. 125
Melo Morais. Cor, Histórica, pp. 181, 240, 308,
Essasterras decamnome à barra do rio São Vicente, cf. Gabriel Sonces. Tra-
tado Destino, 1% parte. cap. LIX.
57 Examine-se para maioresdetalhes o quese acha escrito em Cr Vavo, Jesuítas
+ Ingucicção, cf, Índice, p, 220,
58 Veja-se o quadro genealógico no Apêndice. À luz de uma série de documen.
tos, corrigimos alguns esros de nossos geneslogistas
59 RGCSP, vol XLVI, p. 593,
60 = Dm Pro, 1593, pe 82.
- Ara, doCaemo, Santos, doc, de 1589,
Roque Leme, Opit, p. UI, árvore 51
Silva Leme, vol. 11, pp. 428, e segs
Uma das denunciantes foi 4 mameluca Esperança Tourinha de Lemos, natural
da capitania de S. Vicente. Outra certa Beatriz de Lemos, que estivera no
mesma por volta de 1564, c£ A.N.T, Tombo. Ing. de Lisbne, proc, 13099.
= Dm. Pes, 1595, p. d82,
62 Estava em voga artibuir esse aucelópio aos judeus, nem sempre merecido. No
geral por simples suspeita, ou por malquerença,
63 - Sabemos que anvigáriolocal comperia zelar pela guarda da religião, é que, não
muro depois, à padre Luís da Grã prendeu o herege Jean do Bolés em nome
da Inquisição.

196
GA Da. Pau, 1595, p. 482; Dm, Bh 1591, pp. 314, 338, 477)
= Gritos Nome, Jesitas é Inquisição, pp- 3, 149.
65 - Visitação de 1591-1595, citados
“Re LHGSP. vol XLVIL pp. 4OL 402
- rei Gaspar, Memórias... p. 183, nox 1
66 Vithação de 1591 1595, citadas
À Re LHGSP, vol XLVIL p. 401
ADE. RJ, ano 1º, nº 1, 1894, p. 323.
= E de OliveiraBelchior, Conguistadores é Pescadores do Ria de Janeiro, p. 323,
“ABNRJ, vol 25, pp. 218 e segs
ACSP, vol. 1, pp. 139, 157, 165, 371
Ra LHGSP. vol. XLVIL, pp. 379 e 580.
68 Coritânenavos, Jesuitas Inguisição, pp. 89 e 90.
Carvalho Franco. Diionárie de Bandeirontes e Serntstas do Brasi, pp. 83, 204,
Tres. e Test, VOL pp. 496, 497
Felisbelo Escive, História do Rio de Janeiro, vol. 1, p. 383
Rev. Estudos Históricos, FECL, Marília, 1963, n.º1, p. 30
Pablo Pasreils EI Drscubr. da estrechode Magallones, Pre. segunda
69 - Arg, do Carmo, Santos, m. 18,n.ºs 12 € 13;m. 19, nº 14
70 De Bb. 1591, p. 331
“A NR. — Dica Históricas, vol 25, p. 81
1 - Vilitação de 1591-1595, citados
2 ABNRY. vol 25, p . 218 e segs
LHGBS lara 352, doc. 2, p. 6
Atas de é 16, 14
157, 446e segs; vol Lp. 192; vol DI, pp. 18, 12
vOL VIL, 425 segs; XI, 225 e segs
Silva Lemes, Opit. vol. 1, pp. 21, 34 € segse sems
LRGSP, vol. XLVIL pp. 346. 347. 317
73 A, de Magalhães Basto. Op.it, voL 1, pp. 474, 475,
74 - No Ocidente passou a nome « a sobrenome: Lopo, Lobo, Lopes, Lupo, Wolf,
cf. Guido Bedarida, em Ebrei Ditália p. 86
75 » Já provamos isto, anteriormente,citando um documento de habi
tida mercê,
76 - É ao processo de Bolés, em que serviu de testemunha, que se encontra a sua
identificação como cristão.movo. CF LHG.B., aa 35. pp 19e35.
= Anais do IV Gong, de Hit. Nacional, vol. X, p. 415
- ABNR Jor. vol. 25, p. 223.
= Erei Gaspar. Memórias. pe 160
Serafia Leino, Gartar dos Primeiras Jesuitas, pp. 176, 181
Consuite-se Silva Leme. Op.es.
Re LHGS., vol XLVIL, 349, 420, et
- Carvalho Franco. Dicionário
9 OsCamachoeramde Andaluzia. Um ramo passou a Portugal. Ao cempo deD.
Manuel um deles foi tabelião emSertã, Casoucom Iria Fecnandes. E caí, ta
ver, cs Fernandes Camacho. CE. Grande Enc, Portug. e Brasileira, vol. 5, p. 546

197
BO - ANTT. Tombo,ms. 1335, É 10.
= Ing.de Lisbns, proc. 8152.
- Re: LHG. B, vol. VIL, p. 85.
81 - Silva Leme. Opit, vol. 1, pp. 6, 7, 31, 48, 79,
82 - ABNRJ, vol LVII, 196200 o.
E5 - Em 1532 Marca Afonsode Sousa fundou ama vila no planalto, onde, mais ou
“menos, os jesultas se estabeleceram depois, mas esse núcleo embrionário se
dispersou.
84 - Des, Hústóricas, vol. IV. pp. 22,
85 - A N.T, Tombo, Leil das Bacharéis do Paço, maço 4Pe. nº 30,
- Mesa da Conso. e Ordens, li. 20 (1607-1614), p. 115.
86 = Ines, e Tests, voL 1, pp. 397 e segs.
- Silva Leme. Opcit, vol 1, pp. 179 e segs.; 182 e segs
- rei Gaspar. Memórias, pp. 155, 156.
87 - Sobre a linhagem cristinova dos Fernandes, recorde-se o que escrevemos
sobre Lopo Dias, « também sobre a mercê da Ordem de Cisco a Garcia Roiz
Pais. Mesmo Manuel Fernandes Ramos devia ser de linhagem sefardica.
88 - Ver Silva Leme. Op. ci.
= Ibid, Pedro Taques, Op.cis.
“CEMESP, proc1.5, nº 83,
89 - Azarola Gil, Las Macil em Ju Hittória de Plata, p. 29,
= Ibi. Cronicas y Limoges de le gobemacion dl Platop. 119,
- Silva Leme. Qo.ci.. VII, 150 e sega.
* Ing.de Lie, proc. 5206,
= Serafim Leire. Hist. de Companhia E. VIL,vol. 1, p.236
9O - Ates da Cm de S. Paulo, vol 1, 119, 192,193.
= Em 1590 a população da vila era de 150 fogos, somando uns 900 indivíduos,
entre brancos e mameluco, dos dois sexos. E sso, à luz dos elementos genes.
lógicos que possuímos, nos dá idéia de quão significativa seria a contribuição.
sanguínea dos hebreus sefardicas
91 - Sobre Mactim Tenório veja-se a resenha biográfica em Carvalho Pranco, Dici-
mário de Bandeirante, à p. 15.
92 - «Jemsobre Sebastião de Freitasà p. 167, e também na obra de Silva Leme,
vol. VIE, p. 169 é em Ing. de Lisboa, Ca do Promotor, ci.
95 = Em 1591 houve autos de fé nas inquisições de Évora, Coimbra e Lisbos, e no
mesmo ano teve início a Visitação à Babi, a qual afugentou a muitos sefardins
para às Caputaias do Sul e regiões do Prata
94 - Diogo Gonçalves Laço e sua mulher foram dois dos autuados por judaizarem,
conforme processo elaborado durante a Visiação de 1591
Isso, porém. não impediu que os netos, Diogo Bernardo, recebessem mais
tarde cercas meecês honoríficas.
95 - Há na ocasião animado intercurso com o Rio de Janeiro. Assim, enquanto cer.
tos indivíduos «e mudam para lá, a exemplo de José Serrão, outros, como

198
Pedio Taques é Bernardo de Quadros, vêm sesdir em São Paulo.
- Diogo Áries de Aguirre permaneceu na capitania até cerca de 1639, quando
faleceu. Poi capitão-mor, provedordas minas sertanista Cavou na família de
Antônio de Oliveira
96 - Ingde Lisboa. pros. 11076,
= Dm. Bh, 1591, p. 259
“ Melo Morais, Brasil Hitóri,«1, p. 70
-RGCSP, Ip. 87; VIp.iOL
Aja da Câm de SBauto, vo.
97 - Francisco Vaz Coelho foi dos que contribuiram para a “finca” dos judeus.
= Atas da Câm, de S. Ponto, vols. 1, p 60;IL,BL
- Sika Leme. Op.ci, vol. IV pp. 385 e segs.
98 - Lmes. e Tete, vol 11, pp. 6 e segs
= Isaac Grioberg, His. de Mogidas Cruzes, pp.18 e segs
99 - Eis at, pois, algumas uniões sanguíneas dos Taques que nos ajudarão a com
Precader 0 espisito da Nubilisequia Paalistama é o das Memórias, de Frei Gas-
par
- Dm. Bb. 1591, p. 419.
- Carvalho Franco. Dicionário de Bendeirants, pasvim,
- Ret, AMSP. vol IXV. pp. 53 e segs.
“ ACMSP, volIl pp. 173 e segs.
- Silva Leme. op.vol 1, pp. 442 « segs.
- Pedro Taques, Nobiliarquis, pars
100 - Manuel devia pertencer à família de Roque cf,Godim (ou Godis) Malafaia, casado
com a ceisc-nova Ana Correia, de Penaboa, Bivar Guerra, em Um Caderno de
Critân-mevar de Bares, pp.73, TÁ
101 - Já fizemos referências « Francisco Lopes Pinto, Eram seus sobrinhos, Gaspar,
Francisco e João Barreto, que se casaram em 5. Paulo e aí deixaram geração.
102 - CristaaeNovas, Jesuítas. Imguivição, veja o Índico.
= Imet. + Tests, VOL. IL,p 444
= Ing. Lisbos, proc. 5724.
103 - Anthoay Kaiver, inglês, foi prisioneiro de Martim Correia de Sá. Voltou à
Europa em 1607. Publicos uma obra sobre sua viagem ao Brasi, de que exis-
tem traduções em português.
= Em 1612 veio à lume a Argentina, obra de Rui Dias de Guseman.
104 - Atas da Câm de $. Paulo, vol 1. p. 336.
LOS = ba, pp 563, 364
106 = Atas da Câm, de 5, Paulo, vol. DI, pp. 81, 123, 131
107» Cr MESP, autos de habil, de gêmere
- Ing. de Lisbno, proc. 9973.
= davs. e Test, vols. VI, 15: VII, 11, exe.
- Silva Leme. Op.ct.past. vols. VI, VI, etc
- IG. Salvador. Op
108 - Sobre a família do padre Gusmão leia o que se encontra em Crissânr-moss,
Jeasas é Inquisição Jesulias e Inquisiçãop. 53,

199
109 - ANT. Tombo. Leis, dos Bacharói, 3 T, maço 3,les. T. n.º 44,
TO - Cr MS, Paulo, proc. do padre Ângelo de Siqueira.
- Pedro Taques. Opuit. vol. 1, p. 239.
Re. LHGSP. vol. XLVIL, p. 400,
= lmes, e Tests, vols. XVI, p. 75; IX. 463,
- Silva Leme. Op. cz, vol 1, pp. 10 e segs.
= Ines, e Tests. de S. Paulo vol. VII, pp. 241 e segs; XXXIV.p. 75.
Ing. de Lisboa, Cad. da Promotor, 8.º 6, pp. SS e segs,
- Admitimos que Diogo era parence de Gaspar Dias de Moura, cristão-novo,
com residência na Bahia em 1591, e que, antes, fora heemicão em uma outra
capitania,
Dr. Bb. p, 466,
212 ANB, Ajuda, 0.49-X- 10f 95 (antigo) - Frei Gaspar. Op. it
Jaime Cortesão pensou que a referência ao encarcecumento da mulher de Fer
“não fosse invencionice do rival deste, mas O processo dela ainda existe para
“comprovar a verdade. E nem Domingos de Freitas usaria de um recurso fácil
de ser desmascarado.
= No mesmoanode 1624 também saíram em auto de fé diversos cristãos-novos
de Bya, das famílias Gois, Ledesma, Raposo, Bocarroe outras. - BNL.. EG.
ms. 168-A4:36 (antigos) e Cal Moreire, ms. 869-BIÓ-19, p. 15
- Veja Raposo Tavares e a Formação Teriorial do Brasi, 5
“ AHYS, Vic. & 1, doe é,
113 Ing, de Lishao, proc. 11.992
No mesmoano de 1624 também saíram em auto de diversos cricãoa-novos de
Beja das famílias Gois, Ledesma, Raposo, Bocarro e outras, - BJN.L,, EG, ms.
168-4.4-36 (aneigos) e Cal Moreira, ms. B69-B16-19, p. 15
- Veja Raposo Tavares c a Pormação Territorial do Braci, p. 8.
LHS Img, de Lisboa, Cad. do Promote, n.º 24, Às, B14 é 315.
215 - Admiimos que Gaspar Gomes cesidiu antes noRio de Janciro, entregando-se
ali à mercância. Em 610 aparece na cidade e é considerado “estante e morador
nela”. Itoé, visja para fora, mas, no momento(10 de maio), encontra-se al
ANRJ, iv.º. 60, 1º Ofício, 68,
116 Inos. e Tess. de S. Paulo, vol. 1, p 293; X, p. 294; XI, 338 e 346; XV,274.
Cr MES.P. Litro de casamentos, paróquia de S6,1632-1767,p. 14
Silva Leme. Op. cit, vol. p. 45.
ANT Tombo. Cad de promotor, n.o 24
= Atosda Câm. de S. Paulo, vol. II,p. 81
17 - Arg His. Portupubs, 1906, vol. TV,pp. 426 a 438
“AH, Po, ex 5
= ANT, Tombo. Meia ds Comic. é Ordens. ivo 24 (1616, 17)
1187 - Baião Inquisição de Go, vol 1 p. 329.
9 = Arg. da Ajuda, livro 51 VI DF 86.
120 - Atas, vol. 11. pp. 363, 364
11 - RGCSP, vol. 1, pp.272 e 275,
- Jorge Neto Falcãofoi casado com Juliana de Sousa, filha de João Pereira de
Sousa, e dela teve geração.

200
122 - Do. Bh, 1591, pp. 518, 591
= Ines. e Te. vol, p. 247.
123 Res LHGSP, vol XXI p. 130.
= Reu, Arg. de Anglo, vol. TX, 35, 36
Re. AM. S. Pato, LX.
124 - Ines. Teto, vol. VI, pp. 426, 427.
RGCSP, vol 1, 480,48L
225 = Inges, é Teit. vols. EX, X, XI XV, XVI, pastim.
* Silva Leme. Op cit, vol VIR.
126 Ines, e Tot. vols. XI, pp. 212, 213; X. 202; XIV, 2915 XV. 200
- RGCSP, vol Hp 342
* AH, Rio de Janeiro, doc. 217.
- Silva Leme. Op. cit, vol. T pp. 41 e segs; VIL,pp. 168 e segs
* Carlos G. Rhcingantr, Primeiras Famélias do Rio de Janeiro, vol, p- 358,
127 - Cr MESP., Liv de Casamentos p. 33, m 291
Do. Po. pp. 563, 368, 385.
AJG. Melo Neto. No Tempo dos Elomengos, pp. 294, 510.
128 CÊ Bb. 1591, pp. 151, 132, 141, 156
- Does. Intereccentes, vol. LUI, p, 24
- ABNRJ. vol. XKXIX, pp. 147, 205, 209.
“Atas de Câm. do R. Jam. dee XVII, p. 186
129 - Cr MS, autos de habil. de Domingos da Rocha.
- Atas da Câm. S, Paulo, Vo p. 35.
130 - Cr Me SP, ess Lg 7,05 112
- Pedro Taques. Op. ct. vol 1. p. 121
Silva Leme, Op. is. vol. VI, pp. 527 e segs
131 - Ing. de Lisboa, proes. 11084, 9978 « 4440.
232 - Ing. de Lisboa, procs, 7558, 5527, etc
- Atas da Câm. de S, Poulo, de 1661 à 167
RGCSP, vol H, p. 452; vol HD pp. Á1, 42, 151
133 - Ing. de Lina, procs. B448, 2816.
154 Ing. de Lista, proc. 6515.
135 - Idem, proc. 2354
AHLU, Rio de Janeiro, docs. 2155 a 2157
136 - Img, de Lisboa, proc. 9973,
137 - Caros G. Rheinganes Op, ci, vol. 1. p- 538
138 - Res, de História, FFCL, USP 0.º 75, pp. Bá e segs
159 - À advertência parta do primeiro governador-geral, Tomé de Sousa. Os anos
transcorreram,até que Mem de Sá sucedendo-o postesiormeare (1156-1572)
lançou mãos à obra,auxiliado por elementos da Bahia, do Espírito Santo « de
São Vicente. Hirtóia de Col, Part, do Brasil, vol. IL, pp. 365 e 377
140 ]. Lucio de Azevedo. Op. pp. 1 6 e seg
141 - Alo de Morais. Pedusura Lusttano, t. IM, vol. 1, pp. 372 e segs
= Luísde Bivar Guerra. Um Caderno de Cristãos. notode Barcos. pp.39.67,68, 73
CarvalhoFranco. Dicionário de Bandeirante, pp. 341 « segs
= Ing. de Lisboa, proc. 2040.
Luís Noron. À Dimertia dos Sá, pass.

201
Alão de Morais, Op. cê, . UL vol IL, p. 372
143 - Ouros Espinha que viveram emUhéus eram da een, a exemplo do Dr, Joio
Álvares Figueiró, advogado, que rambém se mudou para O Rio de Janeiro
Sucede, ademais, que Antônio de Medanha Soto Major, descendente de Ma-
nuel, não póde habilitar-se à Ordem de Cristo porser da estirpe. Igualmente
osnetos de Prudência Velosa assim eram considerados.
Ing. de Lisboa, proc, 7538, et.
AN.T. Tombo, Hebil. da Ordem de Cri, let. A, maço 42, nº
144 ANT. Tombo. Habil de Ordem de Grito. lex. A, maço 4 , n.º À
Tás Uma das testemunhas no processoacima foi o Capitão Francisco Gomes Ri.
beira, antigo morador nacidade, « este declarou que Constantino Machado de
Sampaio oinformara que Manuel da Cunha de Sampaio, seu parente, era
146 - Sebastião e Lourenço de Sampaio, filhos do velho Antônio receberam sesma-
rias. Aquele foi vereador em 1607 e um neto seu em 1647 ganhou 4 comenda
de Avis, Manuel da Cunha de Sampaio exerceu o cargo de provedor da Fu
Zenda por diversas vezes,além de outros .
147 - Para maiores decalhes recorra-se à obra, Cristão. Nonas, Jeruítas é Inquisição
148 - Balcazer da Silva Lisbos, Apontamentos para a bistório lesiático do Rio deJar
neiro em LH,G.B. lata 2, ms, 19.
149 Visaido Coaracy. Memórias da Cidade do Rio de Jenéiro, p. 302,
150 - Ing, de Lisbos. Cad. do Promotor, n.º 36, pp. 59] « segs
- Mais adiante « emdiversaspartes desta obra daremos novas informações sobre
a armação de Migucl Cardoso, o quai, por duasvezes teve que se encender com
o Sanco Oficio em Portugal
ESI = Visit do Senes Ofício, Dm, Pro. pp 457 e 452,
Ing. de Libro, proc, S724
- Rheingamer.0p. cs, vol pp. 502, 504 e 515,
Elysio de Oliveira. Op ti, pp. 285 e 286
152 - Por volta de 1590 número de escravos negros somava, talvez, uns 700, ao
ado de mais ou menos 3.000índios catequisados e cerca de 800 portugueses,
consoanto lemos em Citas motáviz do Brasi, p. 11, e em Esquide Puro
do Barão doRio Branco.
153 - Crispim casou com Isabel, filha do provedor da Farenda, Antônio de Marir
Ele ou ambosseriam de linhagem hebréia, Em Portugal, os Matiz já se tinham
entrelaçados comos Tenreiro « estes com os Esparragosa,cristãos-novos, e na
capitania com os Ximenes, com os Gomes Bravo e outros, todos da estirpe
Finalmente diversos da parentela tiveram os bens confiscados pelo Sanco Of
cio no começo do século XVII. Pedat. Lasitens, £ L vol. 1, p. 484
154 - Manvel foi casado com Bearris de Tucena, da importante família desce sobre-
nome. Julgo-a irmã de Antônio de Lucena « de Inocência de Lucena, mulher
de Mateus de Freitas, padrinhos na crisma de Diogo Teixeira. Um seu filho €
homônimo também foi denunciado à Inquisição. Os Lucena, espaahóis, eram
cristios-novos. Diversos descendentes seus, do Rio de Janeiro,foram presos
peloTribunal no começo doséculo XVIII. — Processos de n.ºs 5724, 1340,
8690 é outros. — Dm. Babis, 1591,
155 Sobre Manuel de Braga « Francisco dep. 419. Lemos, proc. 13.099,

202
156 Filhos de Duarce: Maria Quaresma, casada com Pero Neto de Meio; Pedro,
Domingues « Domingos Nunes, casados; e Constantino Rabelo. — Rhei-
ganee Op. ci, vol Lp. 531 — Do. Bh, ISOL, assim. — AN.RJ, vol. 39. Re
LHGGSB, + LX, vol 101 —
157 Os Bravoeram do Porto, no Reiao, e tamos encontrá-los em diversas capita
aias, em Angola « nos Países Baixos. Outros informes sobre Prancisco de Le
mos, em AN.RJ., 1.º Oficio, lv. 1, doc. 3 ldem, Revista do Arquito, nº 39, p.
6 vs; Rheinganer, , 394
Francisco ainda vivia em 1650, data em que assinou à ogo numaescritura
lavrada pelo cartório do 1.º Oficio.
158 Esses documentos trazem à luz acontecimentos, genealogias, relações de beas
materiais dos judeus presos, costumes, atividades profissionais, eassim por
diante. São úteisa historiadores, a sociólogos e a muitos outros estudiosos,
159 Blysio de Oliveica. Op. ci. p. 140.
Lg de Lin, Cad, do Promotor, nº 3, . 532, 542 segs
160 Cem anos depois quase todaa família foiapanhada pela Inquisição
Baltazar e Maria tiveram,conhecidos: Francisca, que casou com 0 judeu Miguel
* Cardoso, é Joana que casou com Francisco Viana — Rieingaane. vol 1, p. 466
161 Mais informações em Cristãos. Novas Jeultas é Inquisição, p. 91
162 Naoconfundir este Baltazar com0 homónimo, mercador,que foiassassinadota
capitania em 1610.
ANRI, cód. 616, pp. 6 e segs.; 43 € segs. 415 « segs
Elysio de Oliveira Op, ot, pp. BL, 131, e 132
Ing. de Lisbna, proc. 2040.
15 ANRJ cód. 616, pp. 35 e segs; 69 e segs
Mello Morais, BrasilHistórico, 24 Série, 1867, tomo Il, p. 154
AHU. cód. 275, pp. 130 e 190 vs.
164 Que a família teve beas na Bahia, ou também parentes achegados, parece fora
de dúvida, pois emabril de 1613, juntamente com ox casais Jorge de Souza,
Baltazar de Seixas Rabelo, Francisco de Pina € Álvaro Barreto deram procura
ção dois conhecidos advogados hebreus de Salvadorpara lhes vendêrem lá as
propricdades— A NR. códs. GL6 7 9, passim,
Ret ANRJ, vol XKXIX, pp. 27, 47 e 56
- ANT. Tombo. Habil. da Ordem de Cristo, 1. E. maço 38, n.º 31
Idem. Chant. da Ordem de Cristo, le, 12, n.º 51,1 188; iv 25., 19.
AN.B. Ajuda, Chanc. de Felipe il, lv. 9. 257
165 Um neto caiu nas malhas da Inquisição, « do seu processo é que devemos a
identidade eristã-nova do velho Manuel Caldeira. —proc. de Lisbns, proc, 2040.
Os Fogaça eram crisãos-velhos de origem castelhana, mas a lei mosaica preva-
leceu amavés da linha femíni, pois as mães convivendo meis tempocom os
filhos, lhes fam moldando o pensamento.
Anehony Kniver, Vária Fortune, penim.
Rheingance. Op. cr. vol. 1, p. 284,
166 Em 1573 residia nasimediações da chamada lagoa do Boqueirão, na várzea da
cidade, um Baltazar Cardoso. Seria, por ventura, o mesmo que também apa
rece comopossuidor de chãos na várzea? — Elysio de Oliveira Op. it, JT]

203
167 - ANRJ, cód. 779,0, 331.55,
= Ing, de Lib, procs. 5411, 5436, 11084 e outros.
- É um erro de alguns genealogistas pensar que os eclesiásticos provinham
sempre de familias genuinamente cristis, — Veja-se Cristên-Nonos,Jesaitas é
168 — Miguel era nacural de Torre de Moncorvo, mas recebeu toda a sua formação no
Rio de Janeiro, Quando esteve preso pela última vez, submeteu-se
Sangrias, Osinquisidores cobraram-lhe 2 carceragem,os tracumentos,a adiversas
mam
tenção e tudo mais,pois o consideravam homem ri,
= Ing,de Lisboa, Cad. do Promotor, n.º 24, 9, 313 é segs
- BNL, FG.250563, p. 75
- Veja no Apêndice a sua irvore genealógica,
169 = Era, por conseguinte, sobrinho de frei Vitória, bispo de Tucumã,iniciador do
“sáfico emtre aquela província e o Brasi, conforme se verá em nosso próximo
erabalho.
170 - Um denunciante do Rio, por nome Domingos Pimentel, que fora sequestrado
Pelos holandeses quando a caminho de Lisbos,esclareceu mais que à festa de
NA Sr& da Ajuda era dedicada à rainha Ester, segundo se dizia — Ing. de
Lisbna, Cad, do Promotor, 36, Bs. 327 e segs; e 59L
171 - Rheinganer. Ob. cit, vol. 1, p. 586
172 - Veia no Apêndice a árvore genealógica dos Mendes de Gea.
173 - O Dr. Gonçaio era irmão do inolvidável canonista Dr. Antônio Homem, quei-
mado em 1624 pelo Santo Ofício, Descendiam do fisico e mercador judeu
Moses Boino.
= Ao regressar em definitivo para a Bahia, com a mulher, a cristâ-nova Maria de”
Sá, o Dr.Goncalo levou também filho Miguel, nascido no Rjo, e batizado na
Sé a 5 de ourubro de 1616. — Rhcingante, Ip. 354.
- Melo Morais. Brasil Histórico, 24 Série, 1867, t IL. p. 154,
174 - ANT, Tombo, Chan. de Filipe 1. lv. 17,8 34 95,
- Idem. Fabi. da Ordem de Cristo,lex. E, maço 38, 0.º 3].
= Eelsbeio Fere Op. it, vol 1, p, 334, nota L
- Rheinganca. 0). ci, vol, 1, pp- 469 e segs,
175 - Apud Serafim Leice, Hist. da Companhia de Jesus no Brasi, vol. VIII, pp. 398
e 399,
176 - Voltaremos a tratar de Francisco quando gos promunciarmos sobre as acivida-
des comerciais que desenvolveu no Rio de Janeiro,
177 - ANRIJ, cód. Ól6,pascin.
= Ing. de Lisboa, Cad. do Promotor, 009, p, 341; idem n.º 24, 8 313,
178 = João da Siva era judeu, natural de Lisboa,
com família A.8.N.R.J, vol. 49, p, 36. e em 1618 ainda morava no Rio
179 - Um outro judeu, por nome Pedro Fernandes Rafae] viveu com a famíla ao Rio
anteriormente a LÓL8, mas a filha,chamada Isabelde Araújo, aí continuou, e
sabemos quefoi casada. — 4.8.N.RJ. vol. 49,fr o
- Pedro e Ana Garcia tiveram um filho, pelo menos: Domingos Garcia de Meto,
O aual casou na Bahia com Mariade Aragão e foram pais do futuro sacerdote,
Pedro Garcia de Meio.
= Ing. de Lisboa, proc, 5456.
- ANRJ. cód. 616, pp. 52, 53, 58, 59.

204
380 pa homem de poses. Ingressoa Compata Geral doComérciodo Brasi
= dOREDuy ssdies
CUM TA, po, 49«380
7
v81 |“ng Casado
Rings: Etnco,
06 ti Nobtái
v0Lo. Clni,p
221 e 141+ 5
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ALR de Eis,Japredoa2060540, 879 é oo
182 Net ao calfaremos sefrênis de quando em quando cs
toldo no Ride amei e
arc, GE GI dm Bos Teiaa
ToSr ido à Potoga, 1 rende, vio pre o judiaad E
3 pe Bose losà
aosade outSono Vistação doSsaoOo à Batiem 1618 fem se
186 So lh do Gas: — Núguo Gomes qude tracada
Bravo,de Gota, be
casocomcomo carão
EcssGoi 168,1)nabo
Ds do Fier: Prosa
“Gorda Gott, a menelonada qua ft
acimaade Janio
CEpa Eca Omds oraçãoRR
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Go do SE,
11
Riga00 pasto 48 pps 5 256 Ofcs apesar 6dsREGTES,Teo
pesepçõeo reias
185 Maex nacrl de Eh, Elo do Marcos daCata Maul e de Tel
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RingOp onbecão, E dd
ARES fi e gg 2 o vgapp 150 e e
106 - Rheingato 0 v0.1 PP. Gede Cole seg . que
DANI Tombo. Hb de Ordm é Bom
dos Gusto, mas sbemos
a a no eva doe Meia
eEramcondenados pojudaismo, conf, processos da
Se sc a, por Ga boa em Ami do Ride Jomar,
Inquisição e do
392,
188 - Da. Bh, 1591, pp. 518 e 391, além de outras fontes
pp. 390 e segs
189 - Alão de Morais. Podes, Lasttana, IL. UI,mp. voi479 1,e segs
- Rheingance, Op. ci. vol. 1 , 410:
- Silva Lisboa. Op. ct, vol. p. 374
190 - A família produziu diversos advogados, Iavouea sustentando a todos as Univ. de
Coimbra graças ses recursos auferidos da « do comércio. Finalmente
alguns dos netos e dus bisnetos foram joeirados pela Inquisição. conf. procs
494, 5447, 8690, ecuteos
191 - Sobre os Galegos. meccadores por excelência, trataremos na obra destinada à
parte comercial
= Rheinganez Op tt, vol. 11,22
Ing, de Litboa, proc. 10101
= AMia, vol, XVII, pp. 365 e 510.
192 - Livro Primeiro do Gusto do Brasil. doe, 152

205
Enero 05 membros da família que foram autuados pelo Santo Ofício, contam-se
Josef Barreto, Belchior Roix Bravo e Salvador País Barreto, filhos de Tomás
Roiz,conf. procs. 4950, 1765 2223,
Sobre a descendência de Gregório c de Guiomar Roiz, veja-se a obra de
Rhcingante, vol. 1, pp. 233, e 234, embora os dados sejam incompletos.
298 Outros documentosaludem a Antônio Gomes Vitória.
194 O referido sambenitado é o judeu Miguel Cardoso, pois o fato vem mencio
nado em diversas fonves
195 = Ing. de Lisbna, Cod, do Promotor, n.º 9,PP: 341 e seg
Frei Diogo e ior do convento do Carmo, noRio, Ali Chegara
a primeiravez, e mais tarde em 1616, A cartaé de abril de 2629, Ouem1623,1596,
196 Ing, de Lisboa, Cad, do Promotor, n.º 24, pp. 311 ésegs
ldem, proc. 5436, « Dm, Peo., 1593-95, p. 165,
197 OD Bibentão era filhodoinglés Tomás Bibentão « da judia Maria de Peres,
moradores em Pernambuco.
198 - Jaboução, Ce. Gencalígico, emRev, do 1.G.H.Bh., nº 61, pp. 341 e segs
199 - LHGB, Súplica do Dr. Lnsrenço de Mendonça... tata 218,doc. 6410,
Diogo d'Ávila de Bitencour era casadocom uma das netas do judeu
Mendes, tabelião em São Vicente. É impossível dizer até que pontoa Tristão
fumíla
da mulher exerceu inflvência sobre ele, e também a geração que deixaram
200 - Refecimo-nos ao roubodas hóstia nesseigreja, asribuído falsamente a Simão
Pires Solis. Em consequência deu-se a prísio de muitos suspeitos. Simão foi
queimadoanos depois, numa tarde fardica
201 Pero Roiz Funchal pleiseou o arrendamentodedo16:engenho seqtsiado no Espi
fito Sanro a Marcos Fernandes Monsanto, Declarou que há quarentaanos vívia
sas partes do Brasi), mais, com certeza, no Rio. — Conf. AJH.U.. cód, 278,8
55 vs. e segs,
202 O casal chegou antes de 1636. No Rio lhe nasceram filhos. Um destes, padre
Inácio Fernandes, foi denunciado à Inquisição, em 1669, pos (ici Lamberto.
como judaizanre.
203 - Ing. de Lisboa, proc. 5411
208 Ing. de Lisboa, proc. 2075.
205 Rheingamee. Op. cit, £. DV, vol Lp. 103
205 Alãode Morais, Op. cit £ IV, vol 1, p, 167,
ABNRI. vol, 39, does, 109 11, £ 5
“ABNRJ, 6x 1 nio-cual, doc, de 97/1634
206 Idem, ibidom, doc. de 163
A BNB. vol. 39, docs. 1239 « 1240.
Rheinganer, o. it, vol. Il, p. 258
207 AHU. Rjan, ex. 1. nãocartogados
208 Apuê CR Boxar. Saliador de Sá ond the Straggte for Brasil. po 3,
O Dr. Guilherme Gomes Mourão cursou leisnas universidades de Coimbrae
de Salamanca. Casou no Rio comBranca de Morais €, dentre outros, foram
pais docausídico dr. Manuel Lopes de Morais,
PO Ing de Lisa, Índice dos reconcfiado, li. 73, p. 512 8
Idom, Cad. do Promotor, 0.º 12, p. 508,
Idem, proes, EDá, 947, 696, 1321, e outros
7 ldem, Cad do Prom

206
Roeinsent, Op. it, vol. E, pp. 326 e segs
212 - Além dos Vale de Mesquita, dos Roiz do Vale, dos Roiz de Andrade e de
outros, catos houve em que até os bisnetos do veiho Manuel da Silveira foram
apanhados pela Inquisição, Conf. procs. 1179, 1191, 1196, erc
Ing. de Lina, proc. 5327.
- Rheinganer, Op. cit, vol. Lp. 406 e segs
214 - Um dos convidados fora Cararina Soares Brandõa, atredia do judaismo. Como
gesto,precenderam os da progênie erarê-la de volta às crenças dos ancestrais
Na festa conheceu a muitos dos assistentes « os denunciou em Lisboa, mais
tarde, quando temeu ser coredada ao Santo Oficio.
215 - Ing. de Lisboa, procs. 1538, 5006, 5327, e outros
“ ABNRJ. vol. XKKDX, pass.
-RGCSP, t MM, pp. 12, 41e42
Rheingansr. Op. cit, 1.p. 23% Th, p. 595.
216 - À família Mendes Caldeira foi, cambém,jocirada pela Inquisição, conf. proc
7893 « outros,
- AHU.R Jan. doce 25, 619 e 879.
217 * Belchior descendia pelolado materno dos judeus Isac Ofem Rabi e de sua
mulher Oraboa. À mie, Prancisca Mortira, casara com Frutuoso Roir Ta
aoeiro, de Barcelos. Outro filho, padre Baltarar Moreira, também veio para o
Brasil — Bivar Guerra, sp. ct, pp. 60, 61, 79, 86, exe
- BPMPio. ms. nº 82, p. 171
218 - ANT. Tombo, Cane” de D. Afinto VI fi. 22,8, TU,
ARUR Jan, diveros
219 Nas suas confissões, João Correia Ximenes procurou salvar à pele por todasas
maneiras, Disse que era ristão-velho « membroda Misericórdia, mas, acima
Julião, em
de tudo, que possuía um tio sacerdotede missa oaigreja de S, procs.
Lisboa, Porém, os inquisidores sabiam « verdade. — Ing. de Lib, 956,
7262e outros Te.
220 Além dos conceitos já emitidos, evocamoso informe do padre Manuel do Brasil
mudo, por volta de 1632. Segundo este as trêscidades principais
eram: Babia (Salvador), Pernambuco (Olinda)e Rio de Janeiro. Cad, do Promo
tr, nO 15, p. 5
221 - Idem, Cadernode n.º 37, p. 659 € 0º 45,9. 78,
— Idem, proes, 10651 e 4786
222 - Idem, bro. citado
= Idem, Cad. do Promotor, n.º 12, p. 508)
225 = Idem, ibidem, n.º 36, pp 593 vs
- Supomos tratar-se de Pedro da Costa casado com Maria Faleira. Veja Rhein-
game, 1, p. 434
= Idem, proc 2075
ABPMPio. cód 1155, p. 6.
= Ing. de Lsbna, proes. 5340, 4089 e outros
2 ANT, Tombo. Habil, Ordem de Cristo, 1. A mm. 42 0927.
Alão de Morais. Pidetare, + Il, vol. 1, p. 237
= Ing. do Liboa, proes. d9, 952, 7895 e outros
Moreira de Azevedo. O Rio de Janeiro, vol Lp. 159)
= Silva Lisboa. Op. eis, vol. V, po 392

207
228 - Rheinganee. Op cit, vol, 1, p. 6
= Ing. de Lina, proc, TIG83,
229 + V. Coaracy. O Rio noSéculo XVII, pp. 123 e 124.
- Cardoso de Miranda. O Ciclodas Gerações, pp.241 é segs
= Silva Lisboa. Op. et. volIV, patsém.
230 - Jaboatão. Op. ci. pp. 249 e Segs.
= Ing,de Lisboa, procs. 3411, 7538e outros,
281 - Francisco e Tereza focam dexidos pelo Santo Ofício.Ela padeceu a queima nas
chamas da fogueira. Uma sobrinha, filha de Margarida, também foi penicen-
ciada.
« Ing de Lisboo, procs. 2219, 679, 1378 e outros,
= Para informes genalógicos mais detalhados, veja-se a obra de Recingante, vol
1,266, 1, 445 e d46.
232 - Or. Siqueira casou por duas veres e de ambos deixou geração,
Srinde pasto dessa digna Família foicolhida pelo Santo Ofício. Peoes. 972,
5327 contos,
233 = É de presumir-se 0 seu parentesco com Luís Rodrigues de Andrade,genro de
“André de Barros de Miranda.
Esses dois bastardos também foram autuados pela Inquisição de Lisboa —
Procs. 995,3792, 4157 e outros.
234 — Igual desdita sofreram os Dique. Na ocasiáo-os senrenciados no Rossio soma-
sam 56 pessoas, das quais 2? esam mulheres, 4 maioria, do Rio de Janeiro,
Pross. 10139, 4058, 7893 e ousros
255 - Manuel Fecoandes foi condenado à pena capital e Duarte 4 perstências e exiio,
mas esta he comutaram depois.
236 - Isto,precisamente,era o que muitos desejavam, porquanto a medida os favo-
recia no iaruiro de emigrar para o Brasi
237 = Iafere-se das missivas que à referido vigário ra 0 padtê Manuel de Araujo,
filho de uma senhora judia
= AU Jan, cx d, não-caralogados.
238 - Em Porvugal dizia-se que os hebreuscresciam comoas areias do mar « que um
dia poderiam revoltarse à semelhança dos mouriscos. No Brasil temis-se,so-
bretado, o seu poderio socioeconômico.
259 - Houve autos emCoimbra nos anos de 1662 e 1667; em Evora, de 1665 4
1670; um Lisboa, 1666 e 1669. Afora os casos resolvidos pelas respectivas
mesas, internamente,
240 - Antônio casou com uma descendente de Miguel Gomes Bravo.
2! - Descendentes seus também figuram nos autos de fé, no começo do século
XVIII, — Proc. 17815 e outros.
242 - Foiigual o mau fado destes Calassa Prots. 953, 7910, exe
245 - Ing. de Libre. procs. 8190,1476, 4970,
= Como se vê, também divervos membros da família foram penitenciados pelo
Santo Ofício.
- Mais dados penealógicos em Rhcinganee, Op. cit, vol Lp. 406 e segs
244 - Igualmente estes pagaram o seu tributo à Inquisição.
= Rheinganer, Op cit. vol. tl. p. 474

208
2ás = Luís, foca antes, soldado « mercador, Estivera na Bahia, Angoia, Riode Janeiro
é Pecnambuco. — Proc. 7394,
m6 = Quase coda família caiu nas malhas da Inquisição, inctesive o garoto Luís Fdes.
Crato, de quinzeanos.
= Ing. de Lisa, pros. 5459, 5339, 1342 e outros
247 - Pedro foi preso pela Inquisição duas vezes, Daúlima saiu no auto de fé a 9 de
julho de 1713,
Temos notícia, ourrossiro, de que a 26 de fevereiro de 1669, achando-se à
porta de sua casa,foialvo de um atentado, da parte de cesto João Pinheiro
248 = OsBrum, Castro, e Cardoso, foram outros dos que pagaram teiburo de sangue à
Inquisição,conforme processos de números 5327, 960, 1363 e outros.
249 = dem, Pros. 10651, TIO « outros
= dom. Cad da Promotor. n.º 48, p. 42.
250 - Rheinganee. Op. eis, vol. 1, p. 603.
25t “ Os processos inquisioriais Seguintes,são à prova de sua passagem pelos escans
lisbonenses: 9678, 1480, 6004 outros
“Re 1HGB. +91 vol 145, p. 698.
as * João. após à formatura, veio clinicar na terra Auminease. E desta, já casado,
passou às Minas.
= Essa foi mais uma família a desfilar pelos corredores do Santo Ofício e a ser
penitenciada ap Rossio, Conforme autos de números 955, 2141, 882, 822 e
253 = De semelhante modo, também esta família ceve que penar nos cárceres do
Teibunal. — Proes. 7893, 6525 e outros.
254 - Consultese para maiores detalhes à obea Critãor-Nowa Jenvita é Inquisição
Idem, pross, 11048. 2978 « outros
E = A origem dos Bernal da Fonseca remonta à Espanha, de onde us progenitores.
passaram a Celorico, em Portugal, e 4o Brasil. Em princípios do século XVII a
Inquisição véio apanhá-os aeui. — Proes. 6525, 6670 e outros
256 = Manuel cinha irmãos em Alagoas e Laguna. Um Blho, por nome João. merca-
dar em Santos, foi preso pelo Santo Ofício em 1704, como praticante do ju-
daísmmo. ng, de Linbne, proc. 2354.
27 = Idem, também os Lopes Flores — Procs. 6004, 3773, etc.
258 - idem, proc. 5001 e outros,
259 - dem, proc, 6515 é outros.

209
CAPÍTULO SÉTIMO

A CONTRIBUIÇÃO CULTURA DOS CRISTÃOS.


NOVOS À SOCIEDADE LUSO-BRASILEIRA

A busca do saber é tradicional entre os hebreus. Segundo as leis


de Moisés os pais tinham a obrigação de conhecer os preceitosdivi-
nos + de enculçá-losaos filhos. No Deuteronômiose declara que os
mandamentos, estatutos e juízos do Senhor consticuem uma ordem
para.que “tu, é oteu filho, e o filho doteu filho, os observeis por
toda a vida”, devendoser, assim, a preocupação constante de cada
qual e por todas as gerações". As sinagogas, surgidas bem antesda
era cristã, vieram enaltecer ainda mais o valor da tradição judaica,
sobretudo nos países da diáspora, porque, tomando Olugar do
templo,congregavam aosda etnia, fortaleciam a língua, encorajavam
a endogamia, alimentavam-lhesa fé e os esclareciam acerca dosensi-
nosregistradosnas Escrituras é no Talmude, A sinagoga completava
à obra iniciadano lar.
Onde, por conseguinte, houvesse gueto ou judiaria, ali existia a
sinagoga, e caso as autoridades lhes negassem O consentimento,fa-
ziam as reuniões secretamente no recesso dos lares, a exemplo do
que tantas vezes se verificou no Brasil. As principais vilas e cidades
de Portugal tiveram aljamas até o tempode D. Manuel, quando per-
deram seu caráter como tal, e, deigual forma, as sinagogas; mas O
povo hebreu, nem posisso, abandonou “in totum” suas crenças,ritos
€ costumes, apesar das perseguições, das discriminaçõescivis e do
procedimento inquisitorial, levantadoscontra a progênie. Osjudeus
is por mais dedois séculos.

21
AOS progenitores competia também ensino de umaprofissão
aos filhos,a qual, comumente já vinha desde os avós. Ela lhes garao-
tia o pão cotidianoe lhes assegurava o futuro. O trabalho, mesmo
que manual, jamais foi considerado humilhante ou um castigo, como
julgavam os católicos. Oexemplo se achava na Bíblia. O Gênesis
mostra a Jeová atuandona criação do Universoc o primeiro casal a
cultivar o Éden, ainda antes da introdução do pecado. O Eclesiastes
ensina a trabalhar comas mãos enquanto é tempo, porque na sepul-
tura tudocessa. O escritor de Provérbios, por seu cunho, recomenda
imitar o labor e a previdência da formiga. E nosgrandes vultos do
passado encontravam-se paradigmas nas mais diversas atividades.
Moisés, Davi e Amós foram pastores, Cristo e Saulo de Tarso se-
guindo a mesma tradição,foram, respectivamente, carpinteiroe fa-
bricante de tendas.
Na Península Ibérica o fato se reproduziu, havendo judeus em
quase todas as profissões, desde a lavoura e o art anato, motivo esse
que lhes facilitou ingresso nas Índias de Castela, porque os espa-
nhóis desdenhavamefetuar certas obras. Muitos encontraramfacili-
dade emassalariar-se comocarpinteiros e calafates de naviose cá se
deixaram ficar. Outroso faziam na qualidade de criados. Sapateiros,
alfaiates, tecelões, fundidores, armeiros, ourives, tainbém os houve
emgrande número, e com eles muitos cristãos-velhos teriam apren-
dido o ofício. Até as judias prestarama s ja contribuição neste sentido
emnosso país?.
É compreensiva, em vista do exposto, a posição queos israelitas
usufruíram nas nações ibéricas durante a Idade Média, sobretudo
quando asletras se restringiam aos mosteiros e a nobreza descurava o
seu cultivo. Ler, escrever c devorar-se à ciência constituíam o privilé-
gio de reduzida minoria, e esta, no geral, formada por judeus. Em
seu rol perfilavam médicos,físicos, cirurgiões, boti ios, astrólogos,
astrônomos, matemáticos, geógrafos, financistas, artesãos especiali-
zados, e outros profissionais, todos percebendo vantagens compen-
sadoras da atividade que exerciam. Tempos houve, até, em que a
alta administração lhes esteve confiada, bem comoos negócios € a
saúde de algumas famílias da nobreza. Pelo que, também, iniciados
os descobrimentos marítimos, couberam-lhes importantes funções.
Mas, naturalmente, em virtude da sua capacidade e inteligência, da
posição que desfrutavam por isso mesmo, e dosabusos queàs vezes
cometiam, incentivaram a antipatia dos cristãos contra si, a qual con-
tou, outrossim, com os estímulos advindos da Reconquista e dofor-
talecimento do Santo Ofício.
O movimento renascentista que deveria ser uma bênção para as
duas nações, deixou muito a desejdr, visto que oscristãos continua-
ram presos ao medievalismo, e a Inquisição, inspirada em decisões
do Concílio Tridentino, impediu o florescimento de certas tendên-
cias. Medidas e precauções tomadas antes contra ossemitas, objeti-
vandoa unidade político-religiosa, ganharam nova amplitude com o
aparecimento do Protestantismo. A imprensa tão bem aceita Pe-
núnsula, € da qual os judeus foram vanguardeiros ao adotála, em
breve se viu cerceada As restrições começaram, precisamente, no
início do século XVI, no momento em que a América recebeu os
primeiros contingentes europeus. À $ de julho de 1502, osreis Fer-
nando Isabel, subscreveram uma pragmática proibindoa impre
de livros em “latim ou romance”, sem o exame e a aprovação de
quem de direito,c inclusive a venda das obras que viessem de fora?.
Nesse mesmoano, o rei D. Manuel, de Portugal, ao conceder um
privilégio ao impressor alemão, ValentimFernandes,estipulou entre
as condiçõesa da “fidelidade à fé católica”. Em 1521, recebendo ins-
truçõesdo papa Leão X,foram mandadosqueimar os livros de Lu-
teroe de seus sequazes na Espanha, à semelhança do que Carlos V
ordenara na Flandres, no ano anterior. Como,porém, persistisse a
infiltração dessa literatura e de outras, em 1546 oimperador solici-
tou à Universidade de Lovaina uma lista de livros considerados heré-
ticos. Levada para a Espanha, os inquisidores acrescentaram-lhe mais
alguns, dandoorigem, assim, ao primeiro índice expurgatórioespa
nhol. Em 1558 o rei Filipe reforçava o cerceamentoe a vigilância
pela pragmática de 7 de setembro.
Estava, pois, lançada a maudestino a vida cultural da nação e de
suas conquistas noultramar. Portugal seguiu o exemploda Espanha.
Em 1564 imprimiu o próprio Índice, o qual, depois, foi revisto pe
riodicamente a fim de ser atualizado. Então, O Santo Ofício e o rei
baixaram ordens visando aoseu cumprimento, porque as relações
comerciais com nações protestantes, inclusive, redundavam noia-
gresso de livrosindesejáveis. Em 1623, por exemplo, um alvará
proibia a venda dos que fossem impressosfora do Reino,incorrendo
na penade cem cruzadoso transgressor, que seria também degre
jo para Angola. E assim foi durante séculos, comose vê de outro

213
alvará assinado pela rainha em 1791, acerca dos livrosconsiderados
perniciosost.
Desde a adoção de tais prescrições as livrarias tornaram-se objeto
de vistorias e queimadas em praça pública as obras apreendidas. Os
manuscritosantes de iremà impressão tinham quepassar pelo crivo
doscensores, de sorte que nada saía a lumesem o beneplácito do
Santo Ofício e da Mesa da Consciência, ou ainda da Academia das
Ciências. Os pontos de passagem nas fronteiras eramfiscalizados e
nos portos se fazia o mesmo, impedindo-se entrada da perniciosa
mercadoria.
Também o que saía para a América era só O permitido e nos
moldes da filosofia político-religiosa entãoreinante. Tudo bitolado,
em reduzida quantidade e à altos preços. E,se, por ventura, conse-
guissem embarcá-los no Reino, mediante licença oucontrabandea-
dos, assim quechegassem ao porto do destinocorriam perigodo
segúestro. pelos visitadores locais. Os vigários, os prelados e os bis-
pos tinham por obrigação tomar essas providências, registrando-se,
por vezes, conflitos com as autoridades aduaneiras porque se davam
casos de exorbitância, subindo aqueles aos navios primeiro do que
estas, oudeterminando quefugia à sua alçada. NoRiode Janeiro a
desavença chegoua tal ponto que 0 sei precisou intervir para sanar a
mútua desinteligência, ordenando aos visitadores que não se emis-
cuissem nas inspeções alfandegárias*.
Comumente havia nos portos um comissário designadopelo
Santo Ofício, clérigo de bons conhecimentos, teólogo ou canonista,
segundose vê de um aviso aos inquisidores, em maiode 1642, da
Bahia, porquanto o padre Soto Maior não preenchia tais condições e
era inclinado contra os do governo, masele, todavia, foi mantido no
cargo durante muitos anos”. Quando os deputados do Tribunal visi-
tavam as conquistas, conforme se passou em 1591, incumbência era
sua, e nessas ocasiões recebiam também denúncias contra as pessoas
que possuíam algum livro “defeso”, exercendo, desse modo, uma
dupla ação, preventiva e repressiva. Temia-se, particularmente,a lite-
ratura proveniente da Flandres, onde residiam numerosos hebreus
portugueses, judeus e protestantes. Em 1611, constatou-se, por
exemplo, queos navios dos Países-Baixos vindos a Setúbal pars bus-
car sal, conseguiam desembarcar livros proibidos. Ora, sabemos que
por esse tempo, mais ou menos, lá aportou o holandês de São Vi
cente,no Brasil, Cornélio de Arzão, com um barco desua proprie-

214
dade. Mais tarde, ainda, chegaram novos informesà Inquisição de
Lisboa,dizendoque,da Holanda, os pormguesescontinuavam a re-
meter clandestinamente literatura para a Península e para oBrasil?
Porconseguinte, a fase de ocupação do Nordeste pela Companhia
das Índias Ocidentais exigiu maiorvigilância das autoridadesa im de
evitar o contágio da heresia protestante, visto que até “cartilhas feitas
pelos hereges” cinham sido adotadas nas escolas de Pernambuco!
assim se criaram embaraços de variada sorte ao desenvolvimento
dacultura lusitana, com reflexos inomináveis sobre os povoadores do
Brasil. Aosindivíduos foi vedado pensarem livremente. O tipo delitera-
tura lhes era delimitado. Raros incentivos se faziam à instrução,salvo a
que as ordensreligiosas promoviam. Não é, pois, para admirar que
entre os cristãos houvesse tantos analfabetos, com prejuízos, inclusive,
para a administraçãono ultramar.
Mas, surpreendemente, em tais condições a Península aínda
gozou dias de esplendor, graças a outros fatores, e para tanto, os
hebreus deram a sua contribuição. A Portugal estão vinculados, por
exemplo, os nomes de Francisco Rodrigues Lobo, de Diogo do
Couto, de Antônio Bocarro, de Garciada Orta, de Pedro Nunes, de
Manuel Bocarro Francês e de outros. Lembraríamos, igualmente,
que, apesar de tudo,sobressairam-se no terreno das lecras nos pj
mórdios do Brasil, Bento Teixeira, Ambrósio Fernandes Brandão,
José de Anchieta, Francisco de Brito Freire e Jacó Lagarto, todos de
linhagem sefardita, permitindo-nos vislumbrar, assim, o que seria o
grau de cultura da grei israelita com relação aos restantes povoado-
res. Além disso, fala altissonante o lugar que tiveram em nossavida
pública e administrativa, por força das circunstâncias"?
Aoscristãos-novos e aos judeus estava reservado, então, papel
dos mais importantes na vida de nosso país, por serem eles os deten-
toresquase que únicos dainstrução entre oscivis, e por motivo do
vulto imigratório, cujas raízes remontam às feitorias criadas por Fer-
não de Noronha, € ao enviopara cá de degredadospela Inquisição.
Estes homens eram pessoas de convicção religiosa, que preferiam
submeter-se ao exílio a agir contra a consciência, e se na Península
cultivavam as crenças e os ritos de sua religião, continuavam praticá-
los aqui a ensiná-los sempre que possível. Quiçá, no contato com
Os indígenas, lhes transmitiriam idéias que estes absorvesam, dando
novo colorido às mesmas, comoseria o caso dodilúvio e da conta
gem do tempo pelas luas usado no antigo calendário judaico. É pro-

215
vável, igualmente, que certas palavras do hebraico tenham penetrado
por essa forma novocabulário tupi, bem como por intermédio de
alguns influentes inacianosde linhagemsafardita, a exemplo dos pa-
dres Leonardo Nunes, de Inácio de Tolosa e de Anchieta'?. Muitos
de tais vocábulos seriam incorporados depois ao português do Brasil
Kahanno estudo denominado Judeidade apresenta com minúcias
a hipótese da penetração de hebraísmos na “língua geral” faladapelo
indígena do litoral, citando exemplos interessantes, como o da pa
lavra “tesoura”, cujo objeto desconheciam antes da chegadados eu-
ropeus e que passaram a denominar “pirame”, originada, segundo
supõe, do hebraico “piram”. De igual modo, ao tupi “abá”, homem,
corresponderia o hebraico “ab-abê”, pai, chefe, e de “kecuw”, bom,
viria “Catu”, e assim por diante'?,
Tal semelhança, conforme lembra o autor, ja havia sido notada
por Ambrósio Fdes. Brandão, pois este registra no Diálogo das Gran.
dezas do Brasil, obra escrita em 1618, 0 fato que "ainda hoje em dia se
acha ensre eles muitas palavras é nomes promunciados na língua hebrea e
da mesma maneira, costumes como é tomarem suas sobrinhas por suas ver.
dadeiras mulheres, que nem uma coisa nem outra faziam se os não honves
sem aprendido de quem us sabia. Pelo que concluo queos teriam recebido
daqueles israelitas que navegaram primeiro por seus mares”"8, recuandoa
uma época anterior à chegada dos ibéricos à América, quando, sem
dúvida, o mais lógico seria arribuir a influência aosenviados de Fer-
não de Noronhae aos que os sucederam. E o mesmo poderia dar-se
com respeito à toponímia geográfica, batizandocertos lugares ou aci-
dentes com termos hebraicos!s, Nem se ignore que entre os
cristãos-novos havia muitos e bons intérpretes, falando O tupi com
relativa facilidade. É crível, porisso, a sua contribuição.
Esta influência cultural fez-se sentir sobre os demais povoadores,
em particular nocampodas idéias. O cristão-novo, era nofundo o
judeu encoberto, crendo apenas emum Deus indivisível, absoluto e
eterno,e dessa ênfase ao monoteísmo resultavaa sua aversãoà idola.
sia, Em país, habitado por silvícolas de baixo nível cultural, de imi-
grantes semi-analfabetos « de crescente número de escravos negros,
à presença do judaísmorevelou-se benéfica, se bem que, de outro
lado,tenha concorrido para desenvolver 0 sincretismo religioso e re-
tardado a aculturação, até certo ponto. Um exemplo de tal sincre.
sismo está patente no antigilíssimo costume litárgico de lavar os de-
funtos e cortar-lhes as unhas, observado ainda hoje emalgumas regi-

216
des do Brasil. Outro, é o da resistência ao uso da carne deporco,
responsável em grande parte pelo consumo do azeite de oliva nos
tempos coloniais, Em São Paulo, de uma feira, o procurador da Cã-
mara reclamou porque osretalhistas do verde'S vendiam o artigo na
sexta-feira, quandoo certo seria no sábado, talvez em alusão ao dia
de guardados judeus, que descansavam neste último"”. Naverdade,
o contrato para o fornecimentoda carne andou pordiversas vezes
em mãos de rente “da nação”, sendo notório o nomede Gaspar Gomes
e de alguasafins.
Há marcas também de outras influências, pois os judeus se van-
gloriavam de suas crenças e as ensinavam pelo menos aosíntimose
aos da etnia. Adotavam certas orações da liturgia católica, mas se
recusavam a concluí-las em nomeda Trindade,c, de igual modo, os
Salmos.
Por diversas maneiras eles cultivavam a lei de Moisés, embora já
bastante simplificada por meio de conversas: a sós, ou em pequenos
grupos; nas confrarias religiosas; nas capelas « no recesso dos lares.
Os mercadores, indo e vindo, ajudavam a mantera fé entre os da
progênie, Estes, por sua vez, penetraram em quase todas as associa-
ções religiosas, usando-as para encobrir outras finalidades. É possível
que esses elementos, perseguidos pela Inquisição e vigiados por toda
a parte, não só cultivassem nelas as crenças tradicionais, mas também
as idéias de liberdade, exatamente como se passou nas lojas maçõ-
nicas. Ainda não se estudou 0 papel que exerceram em nossas revolu-
sÕ€s, sendo inegável que os irmãos Beckman « Manuel NunesViana
foram parte “sine qua non” em duas delas. Recorde-se, outrossim,
que Os engenhos deaçúcar tinham capelas; que muitos dos proprie-
tários eram judeus e que o clero do Brasil contava numerosospadres
em seu meio!s. Tais engenhos, localizados fora de vilas € cidades,
favoreciam prática do judaísmo € o cultivo de outras idéias. Ali
raramente os visitadores punham os pés. Nem o ambicote geral no
país permitia rigores extremos, sendo tantos e tão influentes os “da
nação”, enormes as distâncias « imensas as necessidades.
O clero cristão-novo chegou a causar alarme, pois se dizia com
justas razões, que a maioria das igrejas estavam supridas poreles e
que muitos não levavam sério a vocação"?. Algunsaté favoreciam 0
judaísmb « outros tantos desencorajavam ação das autoridades, ao
mesmo tempo que promoviam a tolerância « o espírito de liberdade.
Nessa época, quando tão poucos eram os letrados, serviram de lumi-

217
nares para o povo, guiando a juventude e auxiliando as farnílias em
seus problemas. Coadjuvando os jesuítas nesta missão, prestaram
bons serviços ao país. Nem todos, porém, exerceram obra dignifi-
cante, pois no meio do trigo havia o joio, € do piorêº.
Ao ladodos mercadores e do clero, merecem destaquesos mem-
bros de outras profissões. O mestre de fazer açúcares, responsável
pelas técnicas empregadas em nossa primeira indústria, geralmente
em mãosde sefarditas. O físico-mor, que além de assistir às autori-
dades, prestava serviços aos moradores e examinava oshabilitandos
arte de curar, fornecedado-lhes os respectivos atestados. Quase
todos os facultativos pertenciam à gente da estirpe hebréia nos pei
meiros séculos da colonização, e bem assim os barbeiros e os boticá-
rios. Muitos destes não passavam de “práticos”, mas isto era melhor
do que o curandeirismo. No Reino quiseram vedar-lhes tais profis.
ções, temendo envenenassem propositalmente os desafetos,cristãos.
velhos, mas jamais conseguiram alijálos, nem mesmo da Universi
dade de Coimbra, centro do ensino médico. À arte parece ter.lhes
penctrado no sangue.
Escrevendo acerca da medicina, alinhou Bedarida as expressões
que se seguem:
“Nom é superbia affermar che gli Ebrei,in proporzione al mumero foro,
acceliono ella pratiza del] are medica, Fra le molte ragiomi a spiegare il
“fenomeno. sta quelia che ad exsê fu sempre lasciata facoltã. e appunto in
considerazione delle abilitá loro, di esercitar tale arte... E cosi era medici di
padre éfiglior
Reis, príncipes e até papas recorreram aos seus serviços, sem
levar em conta as disposições canônicas em contrário. Os exemplos
podem sertirados de todas as cortes européias, « quanto aos sumo-
pontífices, lembraríamos apenas que José Mantino foi médico de
Paulo 1e de Júlio IN. Em Portugal é no Brasil os cargos de
cirurgião-mor e de físico-mor andaram muitas vezes nas mãos de
cristãos-novos, sendo bem conhecidos, com relação nosso país, os
nomesdo lic. Jorge Fernandes, aqui chegado ao tempo do governa-
dor Duarte da Costa; o de mestre Afonso Mendes que veio no go-
verno de Mem de Sá; o de José Serrão que acompanhou D. Eran-
cisco de Sousa em 1591; o do Dr. André Rodrigues Franco que, não
obstante, condenado a degredo para o Brasil, recebeu nomeação of
cial para atuar aqui como cirurgião-mor anos depois, estando a residir

218
na Bahia. Em 1664,seu contemporâneona cidadee, igualmente ju-
deu, Fernão Rodrigues Vassalo,foi provido noexercício de cirurgião
desta mesma capitania ainda que tivesse a oposição do vice-rei conde
de Óbidos, pois além da linhagem andara preso por judaizar??.
Em uma lista confeccionada por nós, de médicos queexerceram à
profissão no Rio de Janeiro entre 1600 e 1700, conseguimos arrolar
o total de dezessete, dos quais treze eram crisrãos-novos, saber: Dr.
José Serrão, de 1600, mais ou menos, em diante; Dr. Belchior Biben-
tão, por volta de 1627; Dr. Manuel Leitão, idem. O cirurgião Fran-
cisco Rodrigues, mais ou menos em 1635. Foi um dos apaniguados
do pe. Nóbrega, 0 “atrevessa toucinho”, contra 0 administrador ecle-
siástico. O físico Gaspar Gomes da Costa, atuante nacidadejá antes
de 1637. Faleceu antes de 1674, ano em que sua filhaIsabel de Jesus.
solicitou licença para vender umas casas que ele lhe deixara Dr.
Lopo da Costa da Fonseca, filho de Marcos da Costa Manuel, o qual
exerceu a profissão nacapitania entre 1642 e 1666. Dr. Francisco da
Fonseca Dinis — atuante desde 1643, mais ou menos. Manuel Jorge
Feio (Feijó ou Feijão), desde cerca de 1653. Foi casado com Antônia
Correia de Souza, de linhagem sefardita Gregório Dias Pinheiro,
cerca de 1675 em diante. Luís Machado (filho de Antônio Correia
Ximenes), depois de 1683. Francisco de Figueiredo Machado (filho
de José Fdes. de Miranda), depois de 1682. André de Barros de
eira (filho de Rodrigo Coelho Bonsucesso), depois de 1696. Os
Des, José Ramires Joaquim Antônio Ramalho.
Os demais não sabemos, porém, Manuel Jorge Feio era casado
com mulher desangue hebreu e tinha muitos parentes desta etnia na
família. Gregório Dias Pinheiro era concunhado do lic. Rodrigo Dias
de Figueiredo, advogado, de linhagem crist-nova. Em conclusão: a
quase totalidade dos médicos do Rio de Janeiro pertencia à gente da
nação hebréia, ou dela descendia. Quatro eram naturais da própcia
capitania, os doutores Dinis, Luís Machado,Francisco de Figueiredo e
André de Barros.
Há a acrescentar também a presença de um barbeiro: o conhe-
cido Luís Peres, por volta de 1627, esposo de Isabel Mendes. Deve
tratar-se de indivíduo que eferuava sangrias e outras funções correla-
tas
Aparece ainda, na mesma ocasião, o boticário Manucl de Castro,
possuidor de uma loja em que vendia não só drogas, mas artigos os.
mais diversos. Foi denunciado ao visitador, em 1628, pela prática do

219
judaísmo, e também Antônio da Paz Gutérres o qual fora para Lisboa
a fim deaprender 0 ofício de boticário?, No Rio de Janeiro, a Cá-
mara, em sessão a & de junho de 1649 resolveu mandar “o boticário
fechar a borica, sob pena de multa de quinhentos cruzados”, Os mo-
tivos não estão explícitos. Sabemos que usava 0 sobrenome Costa,
supondo nós referir-se a Marcos da Costa Manuel, que depois cele-
brou um contrato com Manuel do Vale da Silveira sobre certo negó-
cio, Marcos ainda exercia a profissão em 1661, ou assim era qra-
tado
Os advogados, entretanto, perfazem número bem maior. Narela-
ção que levantamos, incompleta, certamente,assim como a de outros
profissionais, computamos cincoenta e sete, abrangendo apenas o sé-
culo dezessete. Incluimos na mesma alguns rábulas que aruavam no
foro guanabarino e os estudantes dacapitania que cursavam Cânones,
em Coimbra, até por volta de 1700, Excluímos, contudo,oslicencia-
dos que foram ouvidores como o hebreu Dr. Gonçalo Homem de
Almeida, os sindicantes enviados do Reino e outros deiguais encar-
gos. Segue-se, pois,a lista doscristãos-novos por ordem cronológica.
O lic. Jorge Fdes, da Fonseca antes de 1612 já estava no Rio de
Janeiro. Seguem-no os licenciados Rui Vaz (1612); pc. Manuel da
Nóbrega (1613); pe. Manuel do Couto (c. 1635); pe. Francisco de
Moura Fogaça (Cân. Coimbra, 1651) Antônio de Barros (ibid
1652-1657); João Alves de Figueiró (ou Figucira, da Bahia), em
exercício no Rio de Janeiro desde 1655, mais ou menos; Rodrigo
Dias de Figueiredo, cerca de 1670 em diante; Agostinho de Paredes
(Cân. Coimbra, 1675-1682); Guilherme Gomes Mourão (ibid.
1671-1677); João de Paredes (sbid, 1675), pe. João Peres Caldeira
(ibid. 1680-1686); Luís Machado Homem (ibid 1683-1690); João
Mendesda Silva (ibid, 1685-1691); Sebastião de Lucena Montarroio
tibid, 1688-1695)Josué de Castro Couto (ibid. 1690-1694) Miguel
de Castro (ibid 1690-1693); João Alves de Figueiró (nat. do Rio,
ibidl, 1693-1696); Antônio de Andrade Soares (ibid. 1693.1699); pe.
Francisco de Paredes (ibid, 1693-1700%, Inácio Cardoso (ibid. 1694.
1700); Manuel de Paredesda Costa (ibid. 1694-1698); Martim Cor.
reia de Sá (ibid, 1694-1700); Manuel Correia Vasques (ibid. 1695-
1701); Francisco Machado(id. 1698-1704%, Manuel Lopes de Mo-
raís (ibid. 1698-1704); Luís Machado Homem (ibid. 1699-17003;
Francisco Gomes Dinis tibid. 1700-1707).
Destes cincoenta e sete, vinte é oito eram de comprovadalinha

220
gem hebréia, ou seja, cincoenta por cento do total, o que é bastante
significativo. Mas houve mais um pequenogrupo defilhos da capita-
nia, estudantes exi Coimbra, cujos cursos não pudemos especificar e
nem se Os progenitores pertenciam à gente sefardita. Comparando,
entretanto, o número de médicos com o de advogados, nota-se que
os discípulos de Hipócrates somavam pouco mais de metade dos pro-
fissionais do Direito
Semelhante fato vem revela o quanto se apreciava este ramo do
saber, mesmoexigindo muitos anos de preparo, conforme atestam as
datas que inserimos. Além disto, devia o Rio de Janeiro, por sua vida
relativamente complexa, apresentar uma nuança variada de proble-
mas, de modo a fornecer-lhes campopara suas atividades, sc bem
que nem todos os causídicosse tenham dedicado exclusivamente à
tarefa do Direito. Houve, por exemplo, advogados que foram sacer-
dotes, concomitantemente, e outros que possuíam engenhos de açú-
car ou serviam nacarreira das armas, ou se ocupavam também do
comércio,
É interessante, outrossim, observar que osfilhos do Rio de Ja-
neiro começaram a buscar a Universidade de Coimbra de modo assi-
duo e continuo à partir de 1651 quando a indústria açucareira se
encontrava organizada e criada a Companhia Geral do Comércio. De
1675 em diante a maioria é de filhos de cristãos-novos, sinal de que a
vida lhes corria bem. Ainda depois da fase cruciante das perseguições
pelo Santo Ofício, um ou outro se matriculou na renomada escola, a
exemplo de Antônio Coelho de Oliveira, filho de Rodrigo Coelho;
de Simão Rodrigues de Andrade,filho de João Henriquesde Castro;
de Manucl Lopes de Mendanha Soutomaior; de Guilherme Gomes
Mourão; de José Henriquesde Siqueira; de Baltazar Rodrigues Cou-
tinho; de João Tomás de Castro e de outros.
De 1608 a 1651 o Rio de Janeiro só enviou três de seus filhos à
escola superior, mas, depois disto, houve anos em que chegou à passar
Pernambuco e a Bahia. Assim, em 1694, todos os quatro do Brasil, que
ingressaram na Universidade, cram do Rio, como reflexo da simuação
econômica. Em 1697, quatro eram do Rio, dois da Bahia e um de Per-
nambuco. Em 1698: oito do Rio, três da Bahia e seis de Pernambuco.
Em 1699, respectivamente, dois, um e um. Em 1700, seis,seis e
cincoês,
A aobre arte de curar não contou com os serviços de pessoas
habilitadas durante muito tempo na capitania de São Vicente. Os

221
moradores recorriam ao uso de plantas medicinais, cujas virrudes
lhes ensinaram os naturais da terra e, desde a chegada dos jesuítas, a
remédios quetinham em sua farmácia, vindos de além-mar. Tam-
bém, fregientemente, se valiam de sangrias, efetuadas por algum
inaciano ou por outro indivíduo. Somente por volta de 1591 é que
São Paulo teve a felicidade de conhecer o barbeiro Antônio Rodri-
gues, elemento bem experiente no ofício e que o desempenhou por
mais de trinta anos. Outrosque se dedicaram à mesma tarefa, se, por
ventura, não receberam deie 0 ensino, como João da Costa (e, 1623)
e Mateus Leme (c. 1628), submereram-se, pelo menos,ao seu
exame, porque a Câmara, em 1597, designou-o juiz do ofício, visto
que “Antônio Roiz, barbeiro, era experimentado e examinado;era
bom fazê-lo juiz do ofício « que sem sua ordem e sem seu visto tudo
que assim curar não possa fazer nem usar da dita Cura é Sangrias sem
sua licença e carta de examinação"8,
Um dos que primeiro deviam tes aprendido a matéria com Antô-
nio Rodrigues foi o enteado do cristão-novo Martim Rodrigues, Da-
mião Simões, filho de Susana Rodrigues, pois em 1591 achava-se em
São Vicente, onde residia então o barbeiro e ao qual encarregaram
casinar O jovenzinho de treze anos.Seguiu à carreira? Nenhumaio-
formação ficou na documentação paulista que o comprove. Faleceu
em 16327.
Em 1596, encontramos uma figura desconhecida até agora na his-
tória de São Paulo. Trata-se do físico Diogo Dinis, que acompanhou
a bandeira de João Pereira de Sousa ao sertão, revelando-nos um
novoaspecto dessa entrada da suaorganização?
Aparece depois, pelos anos de 1631-1635, o charlarão Custódio
de Sousa Tavares, que em breve cedeu lugar a quem.de fato, melhor
o merecia, médicos, e aos barbeiros André Saraiva (1644), genro de
Pedro de Morais Dantas, e Gaspar Teixeira (1652)%.
Densre os cirurgiões, são conhecidos, o Dr. José Serrão, que se
tornou genro de Fernão Dias Pais. Clinicou aqui algum tempo, mas
transferiu-se a seguir para O Rio de Janeiro. O De, Antônio Vieira
Bocarroesteve em São Paulo em dezembro de 1633, quando solici-
tou chãos aos camaristas, pois aguardava a chegadada família, da Ba-
hia, "e queria viver nesta terra com seu ofício para bem comum de
todos os moradores”. Foj arendido, com a condição de pagar todos os
anos “um vintém de foro”, e “por se tratar de pessoa benemérita e
necessária para a tesra. 30,

222
O Dr. Vicira não chegou a estabelecer-se em São Paulo?! e nem
o colega Paulo Rodrigues Brandão, que também aqui esteve em
1633, desde, pelo menos, o mês de março até maio. Nos dias 9 de
abeil € 12 de maio passou certificados de seus serviços referentes à
cura de Pedro, filho de João de Sousa, cendorecebido pelo azougue
que lhe ministrara e pelos demais cuidados, a quantia de dez para-
castê
Tinham razão, por isso, os moradores de São Paulo,para se dir.
girem ao sei em maio de 1638, suplicando amargamente enviar-lhe
um médico, porque, dizem, “não há quem oscure e muitos morriam
por falta de remédios. Não havendo quem queira vir voluntaria
mente, obrigue S. Majestade a quem tenha “menos embaraço', pois
aqui os ditos vassalos lhe farão grande partido"33, Mas ninguém veio,
certamente, porque logo a revolução baniu o Habsburgo do trono
lusitano, e os documentos silienciam nesse sentido.
Quem surge em São Paulo, mais tarde, é o Dr. João de Mongelos
Garcez, de linhagem semita, provavelmente, como deviam ser os an-
teriores. Era espanhol, natural de Navarra licenciado pela Univ. de
Alcalá de Henares, Embarcou na Península, em 1649, com o al.
Salvador Correia de Sá c Benevides, na qualidade de professor de
castelhano do filho, João. Como, porém,este desistisse dosestudos,
o Dr. Garcez pediu licença ao progenitor do moço a fim de mudar-se
para São Paulo, visto sentir-se doente e constar existir clima propício
naquela vila. Assim fez o médico. Aqui contraiu núpcias com uma
filha do cap. Domingos da Rocha, mas, depois de muitos anos, pas.
sou ão Paraguai com a mulher € os filhos, fixando moradaali?*.
Logo após, andou também por São Paulo à estranhafigura de um
cirurgião francês, de nome Domingos de Afonseca que, à nosso ver,
não passava de judeu sefardita, descendente de emigrados. O in-
forme nos vem através de uma denúncia de frei João da Graça, ao
Santo Ofício, a 9 de agosto de 1662, e na qual, entre outras coisas,
conta queno navio em quese dirigiam para Lisboa, ia “um francês
que fora cirurgião em São Paulo”, o qual lhe dissera “quea lei de
Moisés permanecia”38,
Ainda outros: Francisco Rodrigues Brandão,filho de Paulo Rod
Brandão, ou sobrinho, viveu muitos anos na capitania. Em 1671 co
brou 88000 pela cura de um negro do falecido cap. Bento Pires Ri.
beiro. Nesse ano recebeu do espólio deFrancisco Ribeiro de Morais

223
a soma de 28000, quantia restante dotratamento queaplicara em um
tapanhuno da famílias. Por volta de 1676 um Salvador Fernandes
também realizou curas no planalto?
Depois, afora o Dr. João Rodrigues de Abreu,
colônia do Sacramento na qualidade de médico assistenenviad o para a
tedas forças
lá acampadas, vamos encontrar 0 físico Domingos Pereira da Gama,
que deu combare à febre amarela em 1690, em Santos. O Dr, Fran.
cisco Lourençoaparece na penúltima década dosécu
cirurgião-mor dopresídio de Santos, Foi o progenitorlo, designado
do padre Bar-
tolomeuc de Alexandre de Gusmãote
O governador Antônio Pais de Sande no relatório que por esse
tempo mandou para o Reino acerca dos descobrimentos das minas,
no trechoreferente a São Paulo, declara que 0 seu clima é excelente
e que, por isso, não houve médico algum ali até aquela datas.
Eis aqui, por conseguinte, na fama já tradicional do clima, uma
das razões porque a capitania de São Vicente, e mais particularmente
« vila de São Paulo, conheceu tão insignificante número de facultaci-
vos no decorrer derodo o século, relativamente ao Rio deJanciro.
Deveria pesar também, na preferência, o modas virendr existente nas
duas, porque, se é verdade que a cidade guanabarina estava sujeita
mais frequentemente a enfermidades, contudo oferecia melhores
condições econômicas «- ambiente social mais diversificado. Em São
Paulo 0 número de habitantes sempre foi pequeno pelo fato de viver a
maioria nas fazendas e sírios ao redor. Além disco costumavam
mens até os juvenis passar em andanças pelo sertão. Não seriaostam- ho-
bém muito conveniente para os clínicos esperar seus proventos da mul-
tivariada agricultura do planalto, e receber em espécie, se bem que, no
Rio, onde predominava a monocultura, visando a exportação, nem
sempre corresse à dinheiro amoedacio. De mais a mais, quando se apre-
sentasse enfermidade crônica ou grave, podiam os vicentinos ir à cidade
de São Sebastião em busca de facultativo.
Igual pobreza experimentou a capitania de São Vicente quanto à
juristas. Os formados por universidade somariam meia dúzia, se
tanto, compurando-se todos que atuaram cm suas vilas nos dois sécu-
los. No levantamento que fizemos dos estudantes de Coimbra, cor
contramos um Sebastião Dias, talvez de linhagem cristã-nova. Parece,
outrossim, que foi esse o primeiro nascido no Brasil a ingressar na
referida escola, Estudou Cânones. Na mesmaocasião, ou seja, desde

224
14 de novembro de 1582, seu conterrâneo Jorge de Vasconcelos
também se matriculou para seguir idêntico curso. Era sobrinho de
Jerônimo Leitão. Mas, depois, há um lapso até 1628, quando outro
Santista, João Ferreira de Arouca, estuda medicina ali durante um
ano mais ou menos. O tempo decorre novamente «, então, em 1675,
surgem na universidade coimbrã os primeiros filhos de São Paulo
para cursar leis: Alexandre da Silva Correia, filho de Manuel Dias da
Silva e neto maternode JoãoPires; € Antônio da Silva de Medeiros,
filho de Manuel da Silva. Seguem-se depois: Sebastião Fernandes
Correia (1676)e Gaspar Gonçalves de Araujo (1683), filhosde Gas-
par Goncalves de Araujo; Sebastião Fernandes Correia (1680), filho
de Gonçalo Fernandes de Araujo. Em 1691, José de Melo Homem
da Costa, natural de São Paulo e filho de Domingos Homem Alber-
nar,
É estranho, porém, que seus nomes não estejam ligados à história
forense da capitania, salvo, talvez, o de Sebastião Dias € o de um dos
Sebastião Fernandes Correia. Os demais exerceram profissão fosa
daqui, como o Dr. Alexandre da Silva Correia, que tomou o capelo
em Coimbra, onde foi lente por muitos anos, e o Dr. Gaspar de
Araujo, que Se tornou eclesiástico e ocupoua vigararia das vilas do
Sul, mudando-se em 1706 para à Bahia, dedicando-se ali à advoca-
ciadr
quase totalidade dosadvogados vicentinosnão passava de rábu-
Jas, a exemplo de Antônio Camacho,a quem D. Francisco de Sousa a
22 de fevereiro de 1601 nomeou para trabalhar no foro local, con-
formereza o respectivo registro:
“Hei por bem em nome de Sua Majestade que o suplicante possa
na Vila de São Paulo em todosas causas cíveis e crimes em que as.
partes o quizerem ocupar em juízo € fora dele na mesma formacrime ordi-
nária em qualquer auditório assim no juízo dos órfãos como no
ecivere,
Realmente, Antônio Camacho viveu em São Paulo muitos anos
entregue aos afazeres de advogado e de procurador da Câmara. Mas,
antes que se retirasse da profissão, outros vieram secundá-lo, sendo
bem lembrados os nomes de Manuel Guodis Malafaia (c. 1605 a.€
16203; do lic. Gaspar Manuel Salvago (e. 1615 ac. 1650) do fic.pe.
Manoel Soares Lagarto, vigário de Santos (1609 - 1618) de Geraldo de
Medina (1621 a c. 1630), talvez cristãos-novos, € outros. Em 1632
diz-se que faltam “letrados”, significando que08 serviços forenses esta-

225
vam nas mãos de leigos. Em 1638, por não existir nenhum advogado na
terra, Custódio NunesPinto foi contratado para defenderosdireitos de
Madalena Dias, mulher de Genes de Proença, sobrinho bastardo de
Francisco Vaz Coelhos. Cinco anos depois surgem os nomes doslicea-
ciados Bento de Alvarenga e pe. Sebastião de Freitas, cristão-novo,
atuando em inventário que transcorria na vilatt. Em 1671 encontramos
no foro paulistano o lic. Belchior de Andrade de Araujo e noano se-
guinte os rábulas Luíz Fernandes Francêse Francisco Correia de Oli-
veirafs, E noutras ocasiões: Geraldo da Silva (1646, 1664, etc), de Ii
nhagem cristã-nova; Calisto da Mota, igualmente da estirpe; Diogo de
Cubas de Mendonça, etc, Enumerar, porém, quantos pertenciam à ernia
hebréia, é impossível, porfalta de meios para identificá-los. A nosso ver
seriam Antônio Camacho; o lic. Salvago; Geraldo de Medina; lic. Bel-
chior de Araujo e Luíz Fernandes Francês.
circulo de ação dos advogadosda capitania de São Vicente era
limitado quase que exclusivamente às suas vilas, pois não podiam
competir com os do Rio e nem as posses dos moradores bastavam
para sustentar pleitos na longíqua Bahia. É o que se depreende do
procedimento de Baltazar de Godói que, transportando-se para a ci-
dade de S. Sebastião do Rio deJaneiro, a 19 de abril de 1613, passou
procuração à Manuel e à Francisco Godinho a fim delhe defenderem
seus interesses aí, e na capital do Brasil a Jorge Lopes da Costa, ao
lie. Francisco Lopes Brandão « aosolicitador Antônio Baldaia, judeus
todos os três. Aliás, diversos moradores do Rio de Janeiro, por esse
tempo, é ainda nos anos futuros, valeram-se dos serviços desses e de
seus congêneres Gonçalo Homem de Almeida e do filho, Antônio
Homem de Almeida, e de outros, na cidade do Salvador's.
Existiam famílias na capitania de São Vicente que dispunham de
recursos aqui, e de amizades na Península, capazes de lhes permitir a
manutenção de algum filho da Universidade, Mas o que vemos, em
contraste com o Rio de Janeiro, é o maior desinteresse pelo cultivo
das ciências e das letras, mesmo tratando-se de hebreus. Andava
nisto não apenas O fator econômico, como 0 modis vivendi, a menta
lidade formada, condições geográficas € o grau de comércio em cada
uma das capitanias, com reflexo sobre os respectivos moradores.
Os sistemas devida no Rio na vizinha, de baixo, diferiam con-
sideravelmente no século XVII, porque naquela predominava, con-
forme dissemos, a monocultura, base da indústria açucareira, ao

226
passo que na segunda era a policultura. Numa, à força motriz, por
excelência, era o braço negro,importado, enquanto que na outra era
Oindígena trazido do sertão das reduções. No Rio de Janeiro o
habitante punha os olhos no Atlântico, ao passo que o de São Vi.
cente voltava-os para o “hinterland” e se dedicava ao sertanismo.
Nesta, os jovens desde cedo se preocupavam em dar caça ao silvi-
cula ou se congregavam com os adultos na busca da “auris sacra fa-
mis”, raramente descendoa ver o mar; no Rio, não só o oceano os
desafiava a pensar noutras terras, como recebiampelos navios que
constantemente chegavam ao porto notícias de países longínquos e
toda sortede novidades. Há de computar-se a influência de militares
experimentados, de profissionais liberais os mais diversos, de gente,
enfim, que lhe dava um tom cultural muito mais elevado do que o
encontradona capitania martim-afonsina. As vilas de serra acima,
particularmente, achavam-se confinadas pela mata atlântica e pela in-
gremeParanapiacaba, queas isolavam emlarga escala do litoral. As-
sim, São Paulo vivia voltada para si e para O sertão e muito menos
para o mundo exterior. Que interesse, então, poderia ter a sua gente
pela cultura intelectual, pela formaçãode profissionais do Direito ou
da Medicina, ou pelas letras, simplesmente? Todavia convém não
levar à questãoa extremos, porquea vida cultural no Reino e nos seus
domínios bem comonos de Espanha, não frutificou tanto quanto podia
emvirtude, sobretudo, do controle exercido pela Inquisição.
ORio de Janeiro produziu uma pléiade deilustres escritores pa-
tenteada na família sefardita dos Mendes. Um deles foi ojurista João
Mendes da Silva, autor devárias obras em prosa e em poesia. Não se
sabe se foram perdidas ou se o Santo Ofício as inutilizou. A Biblioteca
Lusitana nosdá notícias de: Christiados, vida de Christo Senhornosso
poema lírico; Oficio da Cruz de Chrisin, traduzido em verso pora-
guês; Hino de Santa Bárbara, traduzido em português; Fábula de Bro é
Leandro, oitava rima. No processo a que respondeu perante a Inqui-
sição, o Dr. João Mendes fes-lhesreferência, esclarecendo, outros-
sim, que às precesrituais por ele craduzidas eram usadas em latimna
Igreja, não devendoser recriminado poristo, pois mostrava ser bom
cristãoe, de igual modo, a vida de Christo que escrevera. Mas o
Santo Ofício tinha arrolado provas em contrário. O insigne João Ri-
beironos presenteia com alguns dos versos feitospor João Mendes,
na prisão, que começam assim:

227
“Passarinho que cantais
Nesse raminho de flores,
Camai vós chorarei cu,
Queassim faz quem tem amores,
A última décadada glosa, conclui:
Sem dúvida, de outra ave
Namorada estais, que amante
A Festejais cada instante
Com melodia suave.
Pobre de quem neste grave
Tormento, sente rigores!
Cantais vôs de amor favores!
Que eu chorarci meus azares,
Queassim faz quem tem pesares,
Que assim faz quem tem amores",
O Dr. João Mendes da Silva cransmiciu ão filho, o bem conhecido
Antonio José da Silva, a veia literária, Muitas foram as composições
literárias deste, sobretudo peças teatrais, Não as enumeremos,pois
são do conhecimento geral, tanto quanto a biografia do maifadado
“Judeu”, cujos dias se findaram nas chamas da fogueira inquisitorial a
13 de outubro de 1739.
Outro elemento da família foi o Dr. Miguel de Castro € Lara.
Jemosa se toda a sua produçãoliterária, além de um magnífico soneto
dedicado ao pe. Bartolomeu de Gusmão, o Voador, « cuja divulga-
ção se deve ao Marquês de Faria. O padre e o advogado-pocta foram
bons amigos, havendo mesmo quem encontrasse neste fato a causa
primária da perseguição ao famoso sacerdote pelo Santo Ofícioff.
A produçãoliterária dos paulistas, pelas razões já expostas,
revela-se precarissima, Excluindo-se o poema elegíaco de autoria de
Domingos Cardoso Coutinho, no qual enaltece a vida c as ações de
Fernão Dias Pais, à quem acompanhou na entrada ao Sabaráboçó.
nada mais cesta, As obras do pe. Ângelo de Siqueira pertencem ao
século XVITES,
Não devemos estranhar, por conseguinte, a pequena quantidade
de liveos com que nos brindam os espólios de São Paulo e de mais
algumas vilas, mesmo porque são falhos. Ao todo umas cincoenta
cinco obras €, na maioria, de natureza religiosa, No de Martim Ro-e

228
drigues Tenório aparecem O Retábulo da Vida de Cristo, à Instrução de
Confessores, O livro Mistérios da Paixão, é o panegísico de Gonçalo de
Córdova Crônica do Grâ-CupirãoS0. Noutros inventários encontram
se vários exemplares de Horas de Rezar em Linguagem, um Livro de São
José, livros de Sermões, os Ditames do Padre Ensébio, o Despertador Cris-
são, 0 Floro Cristiano, as vidas de São Bento e de Senta Rosa, à Imagem
da Vida Cristã, de Heitor Pinto: o Comtentis Mundi, etc. O que bem
demonstra qual o tipo de literatura meis em voga na capitania.
literatura restante, noticiada pelos inventários resume-se à um
volume do autor cristão-novo Fernão MendesPinto,talvez as Pere-
grinações; O Fralsantonio. de Vilhegas; um exemplar de “La divina.”
no espólio de Manuel Vandale; é no de Mateus Lemeos Segredos da
Natureza. Em IGIG ao efemmar-se o inventário de Pedro de Araujo,
no sertão de Paraupava, aproveita-se uma folha manuscrita dos Lu-
sóadas. Das obras jurídicas conhece-se apenas umaOrdenação de Sua
Majestade, Os didáticos somam meia dúzia e neles incluímos: Car-
tilha Pastoril, O Tratado Prático de Aritmética, o Epitome Historial, o
Floro Histórico, a Prosúdia, O Repertório. Mas, parece fora de dúvida,
que seria maior a quantidade, pois nem todos os escritosresistiriam à
ação do tempo ou à incúria dos donos. Sabemos cambéim de dois
livros que não aparecem nos testamentos, mas vêm mencionados cm
documentosda Inquisiçãocom referência a João Pereira de Sousa e
ao cap. Sebastião de Freitas, seus possuidores. Respectivamente um
romance « uma biografia alusiva à Virgem Maria,
Erracia, então, quem visse na gente paulistasimplesmente rudera,
bronquice e ignorância, por viver semi isolada no planalto, buscando
seu “remédio”no gentio dos ínvios sertões, sem tempo para ler ou
sem condições para alfaberizar-se, Convém lembrar que desde há
anos O colégiodos jesuítas abrira suas aulas para quantos pudessem
frequentá-las. É verdade que as relações entre àscolonos é os padres
se arrefeceram por mais de uma vez, com prejuizo, certamente, para
os rapazinhos, mas, para suprir o mal, surgia de quando em quando
na povoação quem podia ensinar a ler e a escrever, Os documentos
nosrevelam os nomesde três desses mestres: Gregório Ferreira, à
quem Henrique da Cunha, em 1623, mandou pagar pelo ensino dos
filhos, assim que acabasse o acordo feito entec ambosS?; Antônio Pe-
reira da Costa, estante na vila de 1659 a 1662, ensinou a trêsfilhos
daviúva Ana Tenório, à razão de meia pataca por mês, perfazendo à
conta a soma de cinco mil réisS?. dois sobrinhos de Fernão Dias Pais,

229
filhos de sua irmã Sebastiana, receberam instruções através do
mestre Diogo Mendes Rodrigues, ao preço conjunto de oitocentos
réis por três meses, em 167084, Ora, como nogeral, osde linhagem
hebréia se dedicavam também a esta profissão,é nos permitidosupor
que este último,pelo menos, o fosse, NoRio deJaneiro alguns dos
que conhecemos exerciam-na, de que são prova FranciscoLopes,
escrivão tabelião, desde 1583; Francisco Mendes Simões,quefora
capitão de navio, tornou-se “mestre de meninos” em idade mais
avançada, e assim é chamadonos autos do SantoOfício'S. Bento
Teixeira e o irmão Fernão Rodrigues da Paz, que, quando meninos
viveram aqui, também se dedicaram mais tarde 0ensino.
Temos ciência, outrossim, de que na segunda década doséculo
XVII funcionava uma escola particular na cidade do Rio, talvez con-
duzida por um judeu ou por alguém figadal inimigo da Inquisição,
porque, quando ali aportou certa feita umVisitados, osalunos ajuda-
ram a apedrejá-lo, ainda que abraçadoaocrucifixo. O fato é contado
pelo administrador eclesiástico pe. Lourenço de Mendonça na Suplica
a 5. Majestade
A Ordenação do Reino em 1.88.15 e 16 impunha aos tutores O
dever de olharem pelos órfãos, desviando-os do mal,
encaminhando-osno bem, doutrinando-osnareligião e “ensinando or
machos a ler,
he escrever eco e as fómeas a coser e lavar e fazer renda é
todos 04 mais misteres que as mulheres por suas mãos secam, é à todos os
bons costumes
Os juízes, por sua vez, ao investirem os responsáveis pelos ór-
fãos, como curadores ou tutores, tomavam-lhes esse compromisso sob
juramento aos Evangelhos, e de quando em quandochamavam-nos à
prestar conta Assim, por exemplo, João Moreira, aos [1 de julho
de 1639 foi presença do juiz ordinário edos órfãos, de Paulo,
para dar conta de seu encargo, declarando, entre outrascoi
órfãos andavam na escola"s”, Se, no entanto, os ger
viviam, empenhavam-se eles próprios em promover-lhes à instrução,
apesar da limitação de recursos oudas condições do meio. Às vezes
até os filhos bastardos eram tidos em consideração. Martim Rodri-
gues Tenório solicita no testamento, ao genro, Clemente Álvares,
que se por acaso Susana Rodriguesse recusar a doutrinar os garotos
que deixava, é a mandar ensinar-lhesa lere escrever e também
aprendero ofício de ferreiro, o fizesse ele e mais “algunsoutros
ofícios quelhe parecer bem"sS, Ao enteado, filho de Damião Si.

230
mões, já bem antes, enviara para São Vicente a fim de adestrar-se no
ofício de barbeiro com Antônio Rodrigues.
Tal cuidado pela aquisição de um ofício sempre acompanhou a
gente hebréia mesmoque não fosse usado posteriormente, Em oca-
sião de necessidade sempre poderiam socorrer-se deie.
Em exame à quem procedemos nos livros de Registro Geral da
Câmara de São Paulo. correspondentes aos séculos KVI e XVII, veri-
ficamos que poucos indivíduosassinaram o nome em cruz, embo-
ra isto nem sempre constiwua prova de analfabetismo. Do primeiro
volumedosIntentários e Testamentos asrolamos duzentos e quarenta
nomes, desde o ano de 1578 ao de 1633, incluindo aqueles que apa-
receram ao término do inventário de modo mais ou menosesporá-
dico. Desse toral, apenas treze assinaram em cruz mas, um deles,
Pero Fernandes, ou O seu homônimo, em 1618 escreveu-o todo.
Outro que assinou em cruz foi Braz Esteves, mas também encontra-
mos O respectivo nome sem o dito sinal, por diversas vezes. O
mesmose passou com DomingosLuís, o carvoeiro; com Jaques Felix.
e com Baltazar Gonçalvess?. Em abono do fato de que grande aú-
mero de moradores tinha alguma noção da arte de ler e escrever está
revelado nos documentos supra, importando levar em conta que nu-
merosos testamentos foram redigidos por indivíduos da população,
ou se quisermos, por leigos.
Porincrível que pareça, pois o costume na época impedia ao sexo
feminino a alfabetização, encontramos, todavia, elementos do belo
sexo assinando o respectivo nome. Uma, foi Lionor de Siqueira, mu-
her de Luis Pedroso de Barros; outra, Madalena Holsquor,viúva de
Manuel Vandale. No Rio de Janeiro, lembramos a judia Ana Henri-
ques, filha de André Mendes daSilvas
Se formos julgar a educação dos paulistas por alguns costumes,
talvez perdoemos as críticas que se divulgaram à seu respeito. O cal-
cado, por exemplo, é uma prova de civilidade, Poder-se-iam julgar
exroncamente os habitantes em fins do século XVI, tomando por
modelo o conhecido Afonso Sardinha que se desculpou não ir à reu-
nião da Câmara por lhe faltas sapatos, sendo homem de posses, e, no
entanto, viviam do ofício de fabricá-los, em São Paulo em 1578,
Damião Simões. Domingos Dias e Braz Fernandes(ainda muitos
anos depois”! Nosinventários encontram-se referências constan-
tes ao calçado,tanto masculino como feminino; também ao uso gene.
ralizado de toalhas de mesa e de guardanapos especialmente no século

231
XVII. Por exemplo, no inventário de Maria Gonçalves, mulher de
Clemente Álvares, iniciado em 1599, foram arrolados umatoalha de
Flandres e quatro guardanapos, ocorrendofato semelhante no de Fer-
não Dias Pais, em 1605, no qual, além dos guardanapos, se inclui uma
toalha de Flandres; no de Belchior Carneiro, em 1609, e em tantos
mais*?, Pelo menos em ocasiões especiais, quando recepcionavam al-
“&guma pessoa merecedora da melhoracolhida, os paulistas não se limita-
vam a apresentar-lhe a “bacia de água às mãos”, e nem a simples toalha
de algodão, mas também os higiênicos e cômodos guardanapos «, às
vezes, mesmo talheres, objetos estes que, até no Velho Mundo, muita
gente fina dispensava, preferindo valer-se dos dedos.
Poucotemos a dizer sobre a capitania do Espírito Santo, à falta de
documentos. Apenas dois profissionais vieram ao nosso conheci
mento: o licenciado Gonçalo Nunes d'Ávila,aí moradorpor volta de
1628, cujo irmão Aires Nunes d'Ávila foi apresentar-se ao inquisidos
Luís Pires da Veiga, por ter queimado uma cruzSº. O outro profis-
sional foi o cirurgião holandês, Teodoro Xavier, que residia na vila
de Vitória desde cerca de 1664 e ainda sessenta anos depois nela se
encontravast, Um médico, provavelmente, bastaria para toda a
população,que não era numerosa.
Nos casosde enfermidades graves ou crônicas é provável que os
moradoresse dirigissem ao Rio de Janeiro, como fariam os de São
Paulo, ou ainda à Cidadedo Salvador, em que residia o físico-mordo
Brasil e clinicavam alguns médicos, no geral hebreus.

Noras

1 Densenmmio, cap, (12


2.05 documentos da Inquisição nos felam de algumas que, para se manterem,
ensinavam as imaças alheias “a costurar e à cozinhar”, influindo,assim, sobre a
deu culinária, quando não sobre a moda de vestic No Espírito Santo, Cataeina
Álvarespara lá degsedada por volta de 1570 lançou mão desse recurso, achando-
se o marido a servinas galês,
5 - Isto eles fizeram em atenção a uma bula do papa Alexandre VI,
= 16, Salvador. "A lui de imprenca e do comércio de Los, de Elipe 1º cm Ros
de História, da PEC da USP, nº 47, ano de 1961, pp. 91e segs,
42 ANT Tombo, FG. Calição Moreira. N63-B-16-13, pp, 21 es; 27 vs; 40; eee
“HG Lao 78doc Lp8,
5 - O Santo Ofício impusera a multade cincoenta cruzados do oficial alfandegário

232
que encobisse a entrada de livros proibidos, Quem acusasse a transgressão
deceberia o equivalente a um terço da mercadoria sequestrada. AG.AL, sol
28-5, da alfândega de Setubal,pp. 49. 49 vs
Entretanto, « colaboração harmoniosa das justiças secularessetembro com as religiosas
vinha de longe, pois focaestabelecida pelo alvaráde 12abril de de 1564,
sendorenovada posteriormente, e D. João 27 de 77 de-79, 1647lataltornou a
Dreserevê la — LHG:B., Ord. Vicent. Vol 2, ie, 2, pp. 6 9 , doc.
Ing. de Lise, Cad. do Promotor, n.º 25,pp. 160 e segs
AGAL, vol 283, pp. 49 € 49 vs
ing. de Libnd, Cad, de Promotor, anos de 1639 « 1648,
Tal lie a, escrita em castelhano,eta remetida por “marranos”, segundo
conscatou M. Barailion, Ersiro Y Espero. É verdade, igualmente, que também
ja Suíça, inclusive em tam.
im dos primeiras atos dos holandeses quandotomaramS alvador, na Babi,
Ipuição de literatura, Relatório do pe. Manuel Temudo,
Cad, do Promator, nº15, A 46
Temos em preparoum longo trabalhosobre esta questão.
1.6. Salvador. Cristáoenena.., op. ci. pass.
Moysés Kabao. Judeidade, 2º edição, 1968,pp. 11 e segs.
Op. po tá,
Seria 1 caso de Cananéia, nome de uma cidade ou vila na terca de Cansan,
Palestina? Oudevia o batismo ao fato de ses chada no dia em que 0 evangelho.
se tefere mulher de Cananéia?
Assim se denominaram oe magarefes, ou vendedores da carne de vaca.
as de Câmera, vol. VI, p. 61.
1G. Salvador. Crisr-moro., pass.
seníliasisraelitas dedicaram filhos à vida eclesiástica; umas, porque
convertido aa cristianismo: outras, para se acobertarem contra per-
Sesuições. O clero gozavamuitos privilégios,além de cultura regular e depos
cão social
ia Op. ci, pp. 182 e 184
O De. Franco saiu penitenciado no auto que se realizou em Lisboa a 15 de
dezembrm de1658,
ing, Lisboa, proc. 8836,
A HU, Bh, 2019.
ANTT Doo de Inquisição
Em Pocrugal, as Cortes reunidas em Lisboa, noavo de 1562, pediram ao rei
proibir dos cristãos-novos a aprendizagem deste ofício ou a servir embocas
Atendeu-as S Majestade pelo alvará de 9 de outubro de 1565, mas eles jamais.
» Fortunato de Almeida, Hist de Purtupal, t M1, pp. 325 e 326,
Inquisição de Litboa, proc. 5436,
AHU, RJ, ox 2, does. 735 « 736
2 Com Gado es Re. Braslio, vo. 1W, Supro, ao vol. IV, pp 11 e segs.
ã IAtas
% Mp2
nes. e Tete, 1, p. 16
E Ing, de Lsbua, proc. 16902.

233
= bes, vol XIV, p 291
Reg. Geral, 1, p, 480 e 481
ODr. PauloRodrigues Brandão recirou-se para Angola, om e integrou no
serviço público, assistindo àforças governamentais. Rev. Arquivo: de Angala
2 = Joss. e Test, vol VII, pp. 426 e 427
- Conformecarta datada de 4 de maio de 1638,
- AHU. SP. cx 1, doc 7
- Carvalho Franco. Dicionário dt
55 ANTT, Does da Inquisição deBandeiranto.
Lista
pp. 1 segs
5% Tone. e Test. vol. XVIL, po 347
3 Idem, vol XVI, p, 490,
58 “AM Pra. vol, VII
5 AU. OR, doe, 1857
ão - Res, Brasilia, pp. cit. Pp. e
a - Azevedo Marques. Apontemntossegs. Hlstérics.
= Atas, vol. , pp. 234.237 — Reg, Ger. vol. V.vol. 1, pp. 4! e 42
5 = dmsle Tests XI, p, 458,
Ibid, XIV, p, 25
4 = Itid, XVII, pp. 195 e segs. 273 e segs,
46 ANA. cod: 616, pp. 35, 39, 43, 60, 80, 104, 114, 148, cre
Um destes foi Felipe Tomás de Mirancts, criscão-novo, à qual, em razão de
denúncias, foi preso por ordem da inquisilor Marcos Teixeira, em 1619. Nas
suas declarações disse que várias pessoasdo Rio de Janeiro e da Espírito Santo
tinham vigas para consigo.
= Ing. de Lisbna, pro, 7467.
- Diogo Barboss Machado, Diranário
A da, Pra VT
4
Amais de IVComa. de Hit, Nacional, vol. IX
= dn de Liboa, proc. 16902, Idem, Cad. do Promotor,
2 = Ines. e Tests, vol 1 pp. 214, 314; XIT, pp. 5 e segs, n.º 24
Ibid vol XH, p. 495
id, vol XVI, p. 347
- Cont. informações anteriores
- LHGB, ixta218, doe 6410
= Ines é Tests, vol. KI, p. 342 vol. XIV, p. 405,
Ibid, vol. 1, p. 25; vol. Lp. 16,
= Ing. de Libra, proc.
= Ines. e Tests vol XV. p; 441; VII, pp. 72 é 7
Eneç, é Ter. vol, 1, PPS e 7
= Ames. Tests, vols. 1. pp. 187 e 406: IT, p. 119. Pos exemplo, na França, o
guardanapo só paulatinamente conquistou sociedade. Consta Oseu apareci-
mentono reinado de Carlos VI, mas noséculo XVI nem toda gente lhe co
nhecia o emprego,
OVisitador detivera-se na vila quandode viagempara a Bahia — ANTT.
Cad, do Promotor, nº 24, p. 516,
li proc, nº 4656,
o
8
CAPÍTULO PRIMEIRO

OS PRIMÓRDIOS DA OCUPAÇÃO
DO SOLO

Descoberto o Brasil', D. Manuel não lhe pôde dar a atenção que


vinham merecendo as outras possessões na África c no Oriente, Nessa
empresa concentrava capitais « recursos humanos, ao passo que 0 novo
paísera escassamente conhecido, bem comoo indigenanele encontrado.
O máximo a que se prestaria no momentoseria o de servir para daros
aguada à navegação da Índia e mais segurança à rota?, e receber
degredados do Reino. Porém, sabendo-se logo depois da ento existência de
de arrendam
pass-brasi, firmou S. Majestade um contrato s, O qual vigorou da terra
com oceistão-novo Fernãod e Loronha e associado até
1513, mais ou menos, e entre cujas obrigaçõe s figurava m a de descobrir
300 lésguas de costa cada anoe à de levantar uma fortaleza, no ntínimo?;
evidência de que orei desejava se conhecesse a extensão dolitoral e se
salvaguardassem os direitos da Coroasobre o tersitório. O cerro é que,daí
emdiante, foram sendolevantadas feitorias em diversos pontose das quais
futuramente, resultaram vilas ou cidades, À primeira foi nas proximidades
de PortoSeguro, onde, nocomeço, ficaramvinte é quarro homenscom
armas, munições e alimentos para seis meses. Umasegunda já existia em
1511 na região deCabo Frio, pois nesse anoali esteve a nau Bretis a
carvegar pau-brasil. À terceira «criasurgido por voltade 1512 ouantes,em
Pernambuco, dela encarregou D. Manuel à certo Diogo Ribeiro, a
quem osíndios matarampor instigação ou com Oacentimento de Pero
Salego, degredado ou núufrago, ali residente*, Uma quarta, e ao que
parece, poriniciativa da Coroa, já vencidoocontratoe aproveitando o
núcleo existente, formou-se no Porto das Naus, junto ao lugar onde
Martim Afonsocriou depois a vila de São VicenteS, Eram pontos bem

237
distantes e sem a possibilidade de os componentes de um grupo socorre-
rem os dooutro. Cremosque osimples acasonão fosse o determinante das
localizações, e sim o desejo de custodiar a extensa faixa litorânea. Em todo
caso, o povoamento logrou vingar exatamente nessas áreas.
Pode-se vistumbrar, outrossim, em cláusulas do regimento da Bresõa,
opropósito de conservar relações amistosas com05 indígenas, objeti-
vando,alémdomais, a obtenção deartigosdestinadosao comércio,o pau
de tinturaria,especialmente. Assim ficavam os da feitoria proibidos, sob
penalidades, de causarem qualquer mal ou dano aos silvicolass, É a
política que o bomsenso e a necessidade ditará porlongosanas, porque o
brancoconstitue a minoria e pode ser tragado de um momento para
outro, E ele osabia, « porque osabia, procurava capras a confiançado
amerindio mimoscando-ocompresentes e adotando certos modosde
vida peculiares ao mesmo. Emmuitos casos tal aproximação levoua
uniões conjugais, odutoras dos primeiros mamelucos. E issotudo
afigura-se suraimportância para ofuturo da colonização, porque os
ádvenas, emaqui chegando, contornavammais facilmente as dificulda-
des, quer de contatos, quer de adaptação ao meio, querde subsistência,
raças aosrefer idosel mentos e à parentela, a exemplode Diogo Cor-
a Bahia, e de João Ramalho, em SãoVicente, Lembrariamos,a
propósito, que algumas de suas filhas se casaram com hebreus, Nessas
duas áreas, em decorrência, foi onde menores choquesse produziram e a
colonização prosperou sem graves entreveros.
Essa situação derelariva paz começou, porém, a modificar-se no
decorrer dosanos. Em 1516 D. Manuel encetou medidas visandoao
elhor aproveitamentodopaís, com base naplantação decanas e fabrico
deaçúcar, Por um alvará ordenou aosoficiais da Casa da Índia dessem
ferramentas “às pessoas quefussem a posar Brasil”, € por outro, que se
elegesse umhomem práticoe capaz para “darprincipio a um engembo de
açúcar”, Pretendia, assim, el-rei, incentivar a colonização. Aocsistão-
velho,o Brasil poucointeresse causava no momento, enquantoque para.
Ojudeu acenava com vantagens, mesmo porque,desde há anos,a indús-
tria açucareira era uma de suas ocupações em S. Tomé e Madeira. Por
isso, supomos tenham sido dos primeirosa sc valerem da oferta, Pelo
menos, em1526, chegou a Portugal algum açúcar procedente de Per-
nambuco « de Tamaracá?,
Evidentemente os indígenas passarama desconfiar dos adventícios
portugueses, visto irem-se tornandocada vez mais numerosose organi-
zados, criandovilas, cultivandoa terra, erguendo engenhose escravi-

238
zandoa muitos. E dessa desconfiança se aproveitou ofrancês,incitandoa
animosidade para com o colono. De sorte que, quanto maioresporções
de tesra se faziam necessárias para as lavouras, mais à luta se agravavaÀ
Sem elas não se desenvolveria o povoamento e nem a colonização.
vitória, porém,seria domais forte, culturalmente, ou seja, do português.
Aospoucos e com sacrifícios, este conseguiu impor-se, alijando osilv
aindaassim, consoante diria frei Vicente
cola mais para O interior, mas, obrigado
doSalvador, aqueloutro ses restringir-se à faixa liori ea.
nela se “arrastando como carangueios” e não só pela conveniência de
sransacionar com o Velho Mundo. À luta, por isso mesmo, trava-se de
Norte à Sul, irmanados cristãos-novos e cristão-velhos, porque ambos
falam o linguajar português, ambos sofrem idêncicas vicissitudes, os dois
têm igual interesse. Outriunfam juntos,ou sossobram juntos. O destino
de um é o do outro. À presença dosjesuítas desde 1549 se, por umo
lado,suaviza o embate, de outro,revigora-o, sobrerudo nas áreas onde
braço indígena é imprescindível ao trabalho ou quando, nas do açúcar,
escasseia o negro da Guiné, em virtude da proteção quedispen sam ao
primeiro.
A luta ferir-se-á nosentido deafastar o gentio. aorlalitorânea, que é.
novo
no momento, a faixa que interessa ao povoador, o qual recebe
incentivo com instituição das capitanias hereditárias.

Notas

1 diialmente, Ilha de saSanta Cruz, Terra de Santa Cruz, ilha da Cruz, ce


É Higr da Co. Portugue do Brasil, p. 165)
3 idem, vol. 1, pp. 255, 278, 325,
* Idem, vol), pp- e segs
= Al exerceu capitania por determinação real, Po o Capico, cendo-se findadoo
seua temp em 1526.
6 Alem. vol, pp 343 e segs
7 Varmhagen, Hist. Geral de Brosil, + 1 06, 107.
ldem, ibidom, p. 12 .
DuarteGott Solis, er sua Alegacién em Fatorde la Conpariio de la India
Oriental cs ou a opinião de que seus congéneres da casca hebeéia foram dos]
primeiros a passar Bessl é os que melhor reconheceram prodigalidade
ra recém descoberta, Os quais, em vista disso, izeram levantar engenhos
meia, Penaé le depois, tantos tenham idopara a Holanda.

239
PARTE B

A PRESENÇA DOS CRISTÃOS-NOVOS


NA CONQUISTA DO
SOLO BRASILEIRO
CAPÍTULO SEG

A COLONIZAÇÃO SISTEMÁTICA DO BRASIL

A Coroa tomainteresse especial pelo Brasil no governo de D. João HI,


receosa. quanto às vantagens que os franceses vinham obtendo com o
tsáfico de pau-brasil, e informadasobre boatos relativos à existência de
riquezas minerais no Sul do país. Era preciso defendera terra contra o
entrelopo usurpador e assentar os marcos divisórios com Castela nas
Regiões do Rio da Prara. E daí asdecisões que el-rei adotou, mandando
Martim Afonso de Souza, em fins de 1530, com uma esquadra a percor-
rer a costa até aogrande curso dágua, a expulsar 0inimigo estrangeiro,
caso o encontrasse, e a estabelecer pelo menos uma vila onde mais
conveniente lhe parecesse nas proximidades do domínio espanhol?
Dá-se, pois,com a sua vinda, início à colonização, porque D. João lhe
concedia o direito dedistribuir terras aos companheiros que quisessem
ficar,e, ao quese presume,sementes e ferramentas. Háquem diga cenha,
igualmente, trazido mulheres.
Regressando, então, do Sul, Martim Afonso detem-se junto ao po-
voadode São Vicente e o eleva a vila,criandooscargosindispensáveis à
vida civil organizada?. Nessa região já se haviam estabelecidoantes os
seguintes indivíduos, de ernia suspeita: o bacharel mestre Cosme Fer-
randes, Melchior Ramirez, Henrique Montes e Francisco de Chaves, É
certo quevieram alguns hebreus comoilustre capitão-mor, radicando-se
aquiconforme dissemos,
Pero Lopes, ismão de Martim, diz em seu diário, referindo-se à
escolha do local propício à obra colonizadora:

241
«a todos masparece tão bem esta terra que 0 capitão-mordeterminou
deapornare deu a sodos as homens terras parafazerem fazendas e fez uma vila
ma ilha de São Vicente. '3
Oquese deve entender é que ochefe da expedição, apóspercorrer o
litoral é tendo consultado os companheiros mais achegados, conviu ser
esse o pontoideal paraincrementar o povoamentoe dar início, de faro,à
colonização. ALjá existia umafortaleza e umnúcleode portugueses com
dez ou doze casas, vivendomais ou menos em segurança c realizando até
umcomérciolucrativo com as naus que fam ao Rio da Pratat
Não se deu por satisfeito Martim Afonso e subiu ao campo de
Piratininga, no planalto, onde criou também uma vila, a primeira, afas-
tada do litoralS. O fim em vista, erigindo-a na boca do sertão, enquadra:
se-fa no planogeral que trouxerado Reino; assegurar o domínio porcu-
Euês nas regiões sulinas e obter informações acerca das prováveis rique-
zas em ouroé prata queAleixo Garcia alcançara em 1523, subindopelo
Paraná « Paraguais. Da vila planaltina viriaauxíio para a dolitoral por
meio de JoaoRa noentreas duas secferuariamas transa-
ções ao seu alcance. A segunda, porém, teve curta duração, porque os
moradores se dispersaram pelas adjacências, mas a idéia foi retomada
mais arde pelos jesuítas Leonardo Nunes e Manuel da Nóbrega.
Entrementes, resolvera S. Majestade dar maior amplitude ao
plano de defesa de colonizaçãodoimenso território, dividindo-o em
capitanias hereditárias. Aos irmãos Martim Afonso e Pero Lopesde
Sousa doou D.João IT a parte meridional, a começar nas alturas de Cabo
Frio, emlotesalternados, dois para cada um, depois de informar-se sobre
as possibilidades econômicas que oferecia a região. Queria, pois, el-rei
premiar osseusfiéisservidorescom o que de melhor havia, noconceito
de entendidos. Era animadora, então, à fama que em Portugal corria
sobre estas plagas,incentivando,por certo,a vindade novospovoadores.
Os donatários, em númerode doze, receberam poderese vantagens
extraordinários, exarados nos documentos de outorga, ou sejam, a Carta
de Daação é o Foral, porque sem essas compensações jamais se disporiam.
ao sacrifício,às renúncias é gastos exigídospelo bom aproveitamento dos
lotes doados. Deoutra maneira, também nãoconseguiriam quem os
acompanhasse, caso, porseu turno, regateassem mercês. O Oriente ainda
absorvia o interesse docristão-velho. Restava, no entanto, uma classe de
gente operosa, senhora de recursos, ambiciosa, mas perseguida, e que
podia ser aproveitada: era à dos conversos judeus. Se muitos já tinham
passado para cá, degredados ou porespírito de aventura, melhorseria se a
outrosse oferecessem oportunidades,
Enueosprivilégios que os donatários poderiam subestabelecer,
enumeram-se as nomeações para determinados cargos,o arrendamento
das passagens dos rios, as licenças para a construção de engenhos,a
distribuição de sesmarias, e tudosem à interferência do rei ou de qual
quer ministro.
A concessãode sesmarias importava muito ao povoamento,porque
através dela 0 imigrante se fixa na terra « faz produzir. A condição de
proprietário lhe confere prestígio. Hão de ser porções grandes, fim de
permitir o funcionamento de engenhose a criação de gado. Elas estão
isentas de foros oudireitos e podem ser repartidas pelo agraciado novos
povoadores. A agricultura é livre e cada qual pode vender os produtos a
quemquiser.
A distribuição de sesmarias era uma das maneiras ao alcance da Coroa
para compensar os serviços prestadospelo vassalos, sem precisar de
recorrer aoErário, e estimulá-los a novos empreendimentos. Aliás um
bom negócio para ela, porque os agraciados se sentiamno dever de
povoar, defender e cultivar a terra à própria custa, advindo múltiplos.
resultados: a fixação defamílias, a produção de artigos para o comércio, o
pagamento dedízimas « de taxas, beneficiando,inclusive, ao donatário,
ao funtionalismo e aoclero. Porisso importava conceder as sesmarias a
quemtivesse condições para explorá-las, e ninguém as possuia melhor
que os“da nação”, afugentadosdoReino peloSanto Ofícioe dispondode
capirais”
As sesmarias distribuídas aos conquistadores, bem como asdoadas
posteriormente,deviamser utilizadas no prazo de até cinco anos, porque
não osendo,tornavam-se devolutas e podiam passar a novos donos. Mas,
no casoafirmativo, sucedendo falecer o proprietário, eram divididas
entre osherdeiros. Onde,entretanto, vingou o sistema econômico ba
seadonofabrico de açúcar, o latifúndio manteve-se longamente emrazão
da exigência doscanaviais. No Sul,a capitania de São Vicente tornou-se
uma exceção,porse desenvolvernoplanalto a sua principal fonte de vida,
ou seja, a policultura, que em breve determinou o esfacelamentodas
primeiras sesmarias. De embasamentos tãodiferentes, tinham, natural.
mente,que surgir meios sociais diferentes,e assim aconteceu. Aqui, as
glebas,já próximas umas das outras,iam sendorepartidas a número cada
vez maiorde famílias, quase todas no mesmopé de igualdade material c
cultural. Aqui era maiora vizinhança,e daí o espírito de democracia que

243
aflorou. Nas demais capitanias,dominadas pela monocultura canavieira,
Os“status” sociais eranspareciam claramente, Todas, apesar docontraste,
assemelhavam-se em umacoisa: à residência comum dos proprietários,
era fora da vila ou cidade. O homem da lavoura vivia na roça
Nas capitanias hereditárias, os donatáriospadeciam certas restrições
quanto si própriose aos parentes afins, senda bem definidas as porções
de terra a que faziam jus, 40 passoque, nas chamadas capitanias reais,
parece que 08 representantes da Coroa gozavam de maior Jargueza, à
deduzir-se das extensas gicbas que os Correia de Sá, por exemplo,
desfrutavam no Rio de Janeiro.
Dois problemas, contudo,se erguiam. O primeiro dizia respeito à
concessão das sesmarias, porque, segundo as Ordenações e O Foral, só
podiamser dadas acristãos, objetivando, comisso,favorecê-los nosenho-
rio das terras e a afastarquaisquer outrospretendentes. Ohebreu, que
antesdisso fora movidopelas circunstâncias a voltar-se para a medicina é
para o comércio, estava impedidoassim, teoricamente pelo menos, de
consagrar-se à agricultura, atividade “sine qua non” paraa colonização,
ainda mais quandoentreguea parriculares.
O segundoproblemarelacionava-se com asterras adstritas às sesma
rias, uma vez que elas teriam queser conquistadas aosseus ocupantes, os.
indígenas, donos naturais das mesmas.
Apesar de tudo, o texto da lei possibilitavaa concessão de terras aos
conversos, poisdizia apenas que o beneficiado devia ser cristão. Entre.
tanto, após o batismo exigido por D. Manuel, os da nação hebréia
passaram a confundir-se com os da cena velha, embora, aoíntimo,
tantos continuassem fieis lei de Moisés. Outrosfaziam questão absoluta
de ser considerados cristãos, porque,na realidade o eram. Alei, por
conseguinte, visava confundir as duas ecnias « nãodivorciá-las, dar uni-
dade social e religiosa e não acentuar divergências, atrair osjudeus e não
afastá-los. Aoinvés de estorvo, a regulamentação se constituía emforça
aglutinadora.
Conscientes das necessidades mais prementes que envolviam opaís,
donatários, capitães-mores e demais governantes, procuravam atrair
povoadores € recursos, raramente se importandoquantoà linh:
hebréia que, porventura, cárregassem, pois até muitos deles a possuíam.
Bastaria, então, apresentar um motivo justo para receber os chãossolici-
tados, principalmente o de ser conquistador.
Em São Vicente, sendo propíciasas condiçõeslocais, Martim Afonso
não encontroudificuldades nodistribuí-las, mas noutras regiões os dona-
&
BR
9
tários ou os seusJoco-tenentes precisaram cercar-se da ajuda dos novos
moradores e recorrerem força, valendo-se mais dopoderio das armas
do que do número de cobatentes. É compreensivo, então, que onde os
franceses se aliaram com os silvícolas, ossacrifícios se revelaram enor-
mes, comosucedeu no Rio de Janeiro, Paraíba, Maranhão e noutras
áreas do país.
Era coisa notável o engajar-se em empreendimento dessa natureza,
dadoo seu caráter,a escassez de gente e cs perigos a defrontar. O nome
do participante adquiria certo respeito e merecimento,osquais reverte.
riam em benefício do próprio ou no de algum parente. Oscristãos-novos
invocá-los-íam para solicitar um cargo ou um hábito honorífico. Não ia
no engajamento apenas o desejode servir ao rei ou ao donatário, mas
também o de tirar proveito, imediato ou futuro. Noprimeiro caso,
poderia ser uma sesmaria, « no segundo,o mais ambicionado galardão,
representado pelo hábito da Ordem de Cristo. Dessa maneira
tornavam-se obsoletas certas prescrições, como a que excluía os não-
cristãos da mercê de uma sesmaria. lei e a prática divergiam comu-
Assim,quanto a Pernambuco,quefoi uma dascapitanias pioneirasna
colonização, informafrei Vicente que ao tempo de Duarte Coelho,2.º
donatário, muita gente começou a vir para ela a fim de povoá-la, mas as
terras eram poucas, porqueas melhores e maisférteis estavamocupadas
pelos“gentios inimigos”. Então, esclarece o autor, que se organizaram
seis companhiaspara consquistar-lhas, sendo umachefiada por Bento
Dias de Santiago, cristão-novo bem conhecido, mercadore senhorde
engenho, posto à frente dos naturais do Porto,e dosde Lisboa, Gonçalo
MendesdElvas, mercador, que também cremosser da ernia hebréia. Os
indígenas vendo que lhesera inútil resistir, submeteram-se pacifica-
mente após algumas escaramuças, 0 que permitiu a Duarte Coelho
repartiras terras “porpessoas que ascomeçaramlogo a lavrar, afazercanaviais
eemgenhos”, Mas a conquista dosertão,propriamente”,só se efetivou após
as entradas exploradoras que o percorreram.
Dentro do mesmo espírito se enquadraram as expedições que alarga-
ram a colonização para o Norte, para o Oeste € para o Sul, nelas
participandode algum modo cristãos-novos e marranos. À conquista do
Rio Grandeteria sido quase impossível sem as mercadorias que o gover-
nador D. Francisco deSousa tomou por empréstimo a Diogo Dias
Querido,novalor de 30.000 cruzados, retirando-as de uma nau que
arribou à Bahia, indo para a Índia!?, É conhecida também a participação
de elementosda progênie na conquista do Rio deJaneiro, da Paraíba, de
Sergipe e do Maranhão. Eles formavam ao lado dos pioneiros, nas horas
mais difíceis.
Havia outros processos para alguém obter uma sesmaria ou chãos,
mesmo sem ter participado das lutas, não sendo da ecnia cristã. Consistia
um deles, em convolar matrimáio com filha ou neta de conquistador,
espécie de heroi nacional, cujos feitos o dignificavam aos olhos das
gerações; ou alegar que descendia do mesmo em grau próximo. Tais
argumentos usavam-se frequentemente também nas regiões americanas.
de Castela. Pelo que, sendo um doscônjugescristão-novo, os filhos,
herdavam os bens, e muitos foram esses casos. Ou podiaalvitrarainda, que
estavaa residir há anosna localidade e tinha família para sustentar.
A instituição de um Governo Geral veiocomplementar o sistemadas.
donatárias, visto oferecer ajuda aos capitães-mores na defesa do solo
contrao entrelopo; auxiliando também na pacificação dosindígenas, e
contribuindo, enfim, para o fortalecimento da unidade e da justiça. O
regimento dadoa Toméde Sousa nesse sentido não só ratificaas dispo-
sições referentes às sesmarias, mas procura torná-las mais eficazes. Re-
gula as relações entre as capitanias e o procedimentopara com osindi-
genas, preceiruando o uso de benignidade e de tolerância, mas, princi-
palmente, o dever de trabalhar por sua conversão. Daí o empenhodos
“governadores em expulsar os franceses doRiode Janeiro, do Maranhão
e de outras áreas, bem comoo interesse pela obra da Companhia de
Jesus e das outras ordens religiosas. A conquista da terra é da coloniza-
São dependeriam de todasas forças conjugadas, porquanto tarefa seria.
longa € exigiria sacrifícios. O Norte, o Sul e o interior do país jaziam
quase incólumes. Sobretudoas “entradas” as “bandeiras” desempenha-
riam papel de grande alcance, devassando sertões, reduzindo ossilvíco-
Jas ou afastando-os mais para 0interior, abrindo caminhos, descobrindo
minérios € lançando as sementes de futuras vilas e cidades,

Noras
His, da Col. Pors. do Brasil, UM, pp. 97 e segs
2 - Martim permaneceu em São Vicente cerca de aao é meio, aré meados de 1533.
3 - Pero Lopes de Sousa. Diário da Navegação, p, 71
d = Hit, da Col. Pors. de Brasil, MM, p. 226,
5 - Idem, Diário da Navegação, pp. 71, 72
Carasdas Primeiros Jesuitasmo Brasil, 1, pp. 107 c 284

246
6 - Jaime Cortesão. Fundação de Sêo Paulo, Capital Guog, do Braci,
7 - Concadídaa sesmaria, o Cartório lavrata a respectiva esceitara, ca qual inseria
os nomes do outorgante « do beneficiado, as medidas, os limites, as condições.
a que se obrigava o outorgado, ete. Estas se resumiam a “peemitira abertura de”
caminhos é a pagar os dízimos, « tudo para benefício da Fazenda de 5. Majes.
cade”
8 Ordenações, Liv. TV, ar. 67
= His, da Col. Port. do Brasil, 1, 174 e segs
= Des, Históricos, vol. XI, 137 é segs
9 Frei Vicente. Op cit. pp. 186 e segs
de que os brancos se
- A alegação de que os gentios eram inimigos foiopretextoescravizá-lo»
valeram para fazer-Jhes guerra, face às leis que proibia
10 - Frei Vicente, Op. cit pp, 284, 298
- Varnhagen, Hist. Geral di Brasil, M, pp. 52 é 53, nous

247
CAPÍTULO TERCEIRO

O POVOAMENTO DAS CAPITANIAS MERIDIONAIS


E OS CRISTÃOS-NOVOS

Martim Afonso, que regressara ao Reino dar conta da missão em


que o investira S. Majestade, valeu-se da oportunidade paralevar adianve
odesenvolvimento da capitania de São Vicente. Um de seus primeiros
atosfoi o de promover a vinda de emigrantese de quem quisesse inves
cabedais na montagem de engenhos, oferecendo-lhes, certamente, as
glebas de que carecessem,inclusive a cristãos-novos. Um delesfoi Estê
vão Gomesda Costa, maridode sua filha natural,Isabel,o qual, no ano de
1536, recebeu por escritura lavrada no cartório da vila, certa porção de
terras em Guaíbe(ilha de Santo Amaro),defronte à atual Pontada Praia,
para nelas “viger efazer roças de cana e algodies, eo quea terra der”. A posse
lhe foiconfirmadaporoutraa 26 de setembro de1566,sinal de que ainda.
asestava cultivando. Defato,a fazenda queformou ali vem registradaem
um Roteiro doséculo XVI, cuja reprodução anexamos a esta obra!
Também Fernão de Morais, Martim Gomes da Costa e Cristóvam Dinis
figuram norol dos mais antigoslavradores da baixada santista, bem
asssim os prováveis cristãos-novos Diogo Dias, Jácome Lopese Diogo
Ramires, todos agraciados com sesmarias?, sem contar os Vales e os
Mendes.
Ao mesmo tempo, a algumas léguas dedistância, no altiplano de
Piratininga, vai tomandocorpo infiltração portuguesa, com o advento
dosjesuítas. Chegadosà Bahia, já no ano seguinte o provincial deslocava
para São Vicente o padre Leonardo Nunes, cristão-novo,quenesta
fundou escola e igreja da Companhia, e logo subia ao planalto. Aqui
encontrou dispersos algunsbrancose os induziu a erguerem umaher-
mida e a formarem povoaçãojunto à mesma. Seria esse, comose julga,o
despontar da vila de Santo André da Borda do Campos, a cuja frente o

249
envernador-geral, Tomé de Sousa, colocaria o velho João Ramalho,
quando de sua visita às plagas sulinas, em 1553. Mas 4 obra do padre
Leonardo tem maior profundidade. Já na primeira viagem travara rela.
ões com os indígenas que viviam nestas bandas e dele teria partido a idéia
de instalar na colina, entre o Tamanduateí e o Anhangaba, a Casa e o
Colégio da Companhia, que Manuel da Nóbrega converteu em reali.
dade, inaugurando em 1554 a povoação de São Paulo. Em 1560, por
causa dos silvicolas inimigos e exiguidade dos dois núcicos, a vila de
Santo André foi anexada à de São Paulo. Mas,aindaassim, esta continuou
tropegante por largos anos, afrontandoperigos e quase isolada de suas
irmãslitorâneas. À custicidade e atraso que a cercavam, não impediram o
enraizamento aí de Lopo Dias, de Manuel Fernandes Ramos€ de um
número sempre crescente de povoadores cristãos-novos, e nem a pre-
sençados jesuítas lhes causou estorvo. Na própria Ordem havia muitos
da estirpe, de sorte que as relações entre cristãos-novose inacianos
permaneceram amistosas, no gerals.
A instalação da capital do Brasil, na Bahia, é um exemplo, também,
desse relacionamento. O governador Tomé de Sousa, em cuja compa-
nhia veio Leonardo Nunes, o provincial Manuel de Nóbrega e outros, ão
chegarem à terraei fins de março de 1549 foram alojar-se na povoação
fundaia pelo ex-donatário há alguns anos, e no local “para ondese há de
estender a Cidade perto dos cbristãos asi velhos como novos”. Al os jesuítas
levantaram o seu colégios,segundocarra dopadre Nóbrega datada dodia
de agosto. Entre esses cristãos-novosachava-se Francisco Rodrigues, o
quala 1º de janeiro de 1552, casou com Catarina Dias Adorno, neta do
Caramuru, tendoo governador servido de paraningo, prova de que a
união contou com o seu beneplácito”. Nem isto deve causar espécie,
porquanto Garcia d'Avila, colaborador dos mais íntimos, era casado com
israelita Mecia Roiz?. À este, concedeu Tomé de Sousa largueza de
chãos nointerior, ondeinstalou os famosos“currais” de gado,verdadei-
ras pontas de lança rumo ão sertão. Acompanhavam, outrossim, ao
“governador, o físico Jorge de Valadares e o boticário Diogo de Castro.
Também poresse tempo,a insistências de Tomé, Eilipe de Guilhem sai
de Ilhéus e vem ajudá-lo na administração. Nem se julgue que O nosso
primeiro governador-geral alimentava preconceitos contra os cristãos-
novos, pois ele próprio, e muitos dos Sousa, afins, não se podiam
vangloriar de sua etnia, procedente de bastardias e de sangue semira.
Se o conceder sesmarias era prerrogativa dos capicães-mores, nas
vilas é cidadesa questão assumia outro caráter, pois às Câmaras pertencia

250
S. VICENTEE S, AMARO NO SÉCULO XVI
Observem-se as três vilasde São Vicente, Santos e Sento Amaro; o caminho
para o sertão; as fortalezes entrada da barra é a fazanda de Estêvão ds Costa,
além de outras no continente
Mapa reproduzido do Roteiro de todosas Sinais, Conhecimentos, Fundos,
Baixos, Alturas é Darrotas que há no Costa do Braci, desce o Cabo de Santo
“Agostinho até o Estreito ce Magalhãos, códico do século XVI que se guarda na
Biblioteca da Ajuda, em Lisboa. Publicado pelo Instituto Nacionai do Livro
(Rio de Janeiro, 1968)
distribuir os “chãos”, estando vagos ainda, ou devolutos. As razões do
pericionário eram, mais ou menos, as mesmas invocadas no caso das.
sesmarias.
Em São Paulo as áreas circunvizinhas, já se achavam ocupadas pelos
colonos nos primórdios do século XVII e isso levou a edilidade a
promover depois a fundação de outra vila: a de Mogi das Cruzes. À
própria Câmara viu a necessidade de alastrar o povoamento, sob a
alegação de “estarmos mesta vila muito juntos e para que fiquemos mais
largos”, no que concordouo capitão-mor, Gaspar Conqueiro?,É que,
como aniquilamentodosengenhos nabaixadalitorâneae osurto minera-
lógico instaurado por D. Francisco de Sousa no planalto, a população
de São Paulo se desdobrara. Diversos dos seus colaboradores
resolveram permaneceraqui é foi necessário encontrar chãos “para terem
de onde comere onde fazericasa”. Algunsdos referidos indivíduosperten.
ciam estirpe hebréia. Gaspar Gomes Muacho pediu à Câmara as terras
que partem “do ribeiro Anhanguavaipelo caminho de Diogo Fernandes, até à
morada deste'?. Bernardo de Quadros e outros, seguiram o exemplo. O
capitão Sebastião de Freitas,já acostumado ao sertão, preferiu localizar-se
noJuqueri, abrindo a mara e nelaorganizando uma fazenda. Pedro Vaz de
Barros,além do sítio Itacoatiara, estabeleceu-se com fazenda em Pinhei-
ros, e maistarde fundou uma segunda no rio Pequeno para à criação de
gado, tomando-se, dessa maneira, o maior dos potentados na capitania"!,
Martim Rodrigues Tenório, sertanista e mescador, seu contemporâneo,
também adquiriu várias datas de terra. Até o protestante Comélio de
Areão obteve chãos no Anhangabaú para montagem de um engenho de
«tigo??, E assim por diante. O senhorio de áreas para as atividades agropas-
torisincrementouabuscade indígenas no sertão e aabertura decaminhos,
tomando o “hinterland” mais é mais conhecido e menos perigoso. O
sistema das sesmarias, em $, Paulo, representou no princípio, um mal, de
certo modo, porque meia dúzia de proprietários dominava grandes espa-
sos, mas, de outro lado, promoveu a expansão e o povoamento pela
demanda de terras incultas na direção dos vales do Paraíba e do Tietê
abaixo.
Mogi foi aldeamento de índios selvagens, os“pés largos". Em 1594
uma “entrada”, da qual era imediato o capitão Sebastião de Freitas,
tentou desalojá-los dali. AVila, porém, surge apenas tempos depois com
aconcessão de terras a Gaspar Vaz, a Francisco Vaz Coelhoea outros. À
17 de agosto de 16LL o governador Luís de Sousa despacha uma petição
encabeçada pelos dois, erigindo a vila, e assim dando-lhe o direito a
pelourinho e a organizar 4 Câmara'?, Estava, portanto,criada a segunda

252
vila nointerior, à s portasdo vale do Paraíba, e já livre dosindígenas que
bitavam a região, de onde também costumavam atacar São Paulo. O
povoamento,bastante moroso, tinha à entravá-lo,a dificuldade de co-
maunicações com a sua vizinha e com o litoral. Os moradoresse obriga-
vam a umaespécie deexílio voluntário, porqueas vantagens econômicas
seriam mínimas, a menos que se viessema confirmar os boatossobre a
existência de ouro.
Queteria, pois, levado a um homem da capacidade de Francisco Vaz
Coelho a confinar-se aí até 1624, ano de sua morte? Documentos assina
dosporele revelam-nopessoa de excelente redação, prova de que
manejava à pena com frequência, devendo, outrossim, possuir bons
conhecimentos. Queera casadono seio de família da maior projeção,
dissemo-lo por mais de uma vez. O espírito de aventura, aliado, certa-
mente, à amizade que nutria por Gaspar Vaz,seriam as causas de sua
mudança para lugartão inóspito. Isto ocorreu depois de1604. O ano em
que recebeua sesmariafoi o de 1609. Nela, avizinhando-se com oamigo,
formou umsítio, conhecido posteriormentepela designação de “Co-
coera”, palavra indígena, sinônima de capoeira, ou seja, o lugar onde
cresceram arbustosapós o corte domarovirgem"
Aopovoamento de Mogi, cujainiciativa se atribui « D. Francisco de
Sousa, devem ligar-se mais duas entradas efetuadas anteriormente. Uma,
em 1560, chefiada por Brás Cubas, que, passando por aí, atingiu o rio
Paraíba, depois, galgando a serra da Mantiqueira, foi dar no S. Fran-
cisco, e no regressotrouxe amostras de ouro. À segundafaz parte de um
planoelaboradopelo governador, e cujo fim era o dealcançar as nascen-
tes do mesmoS, Francisco, atravessando o vale doParaíba. À expedição
saíu de Parati,no litoral, em 1596, sob o comando de Martim Correia de
Sá, é dela fizeram parte o cristão-novo Manuel Caldeira, Anthony Kniver
e outros. Em mais que uma paragem encontraram ouro e pedrarias
Parece,assim, que a fundação de Mogi objetivava os descobrimentos
mineralógicos. Em todo caso, essa expedição e as duas correlatas, de
Diogo Martins Cão e de João Pereira de Sousa, tornaram osertão mais
conhecido « limpode aborígenas,
Parati, de outro lado,foi-se povoandoaospoucos e se tornou oelo
eme. o Rio de Janeiro « as povoações que surgiramno vale do Paraíba
depois. Em 1633, Miguel Aires Maldonadoaosolicitar uma sesmaria
detrás daserra de Angra dos Reis,referiu-se a um caminho antigo sobre a
serra já mencionada e doqual ainda se serviam os guaianás para irem ao
rio deParati e por onde passou Martim de Sá Em 1660 0 capitão-mor de

253
São Vicente, Jorge Fernandes da Fonseca elevou Parati a vila, sendo
provisão confirmada em 1667'S,É, então,só apósas circunstâncias atrása
Expressas, que se eferuaa colonização do vale paraibano, acrescid
pela bondade desuas terras e pelos boatos que se ouviam as,aliás ,
sobre à
presença ali de minas auriferas. O povoamento se processa em rápida
sucessão 2 partir de 1630, quando surgem uma após outra, Taubaté,
Guaratinguetá, Jacareí e tantas mais, arrastandopara lá gente de outras
vilas, inclusive cristãos-novos. Na primeira fixam-se descendentesde
Martim Rodrigues Tenório, de Francisco Vaz Coelho, de Pantaleão
Duarte (do Rio de Janeiro) « de outros
Em 1628 cogita-se de devassar esta área, quando o capitão
de Moura Fogaça em nome dacondessa de Vimieiro doa terras-morJo ão
aJaques
Felix a dois filhos. Mas o povoamento só começou uns oito anos depois.
Em 1643, Taubaté já é vila. Em 1645 Duarte Correia Vasquea nes, no
governointerino do Rio de Janeiro, manda explorar o vale médio do rio
Paraíba, em busca de minas de ouro!8, Poresse tempo é que se dá a
viagem de Manuel João Branco ao Reino. É aquele
contam que ofereceu ao senhor D. João um cacho dedebananas
quem os farasistas
em ouro,
ao qual $. Majestade, em reconhecimento, teria dito que pedisse
quisesse. Então, o afortunadorespondeu: “eu vim para dar e nãoo para que
receber”. Na verdade, Manuel João, ambicioso mercadorde São Paulo,
esteve na Corte e solicitou uma sesmaria na região de Guaratinguetá,
sonhando,talvez, em encontrar alío precioso metal, e que
plausível, pois seu filho Francisco João Lemeanos mais elearec
tarde
ebeu é
sugere
eh-rei desviar para aquelas bandas o caminho que conduz às minas jáa
descobertas além da Mantiqueira””. É digno de nota,igualmente, que em
1651, o encarregadode levantar o pelourinho, é DomingosDias Leme,
por designação do loco-tentente da capitania , Dionísio da Costa, que
a governava.
O povoamento deJacareí é anterior a 1653, porque
capitão-mor, aos21 de abril a elevou à categoria devila,neste ano o
dando-lhe
pelourinho em nome de S. Majestade. À frente dos pericionários
encontrava-se O cap. Diogo de Fontes, que outro não era, segund
cremos, senão o filho doantigo cobrador das “finas”, Gaspar Gomes'ê, o
Estavam, pois, abertos os caminhos que, do litoral, conduziam às
Minas Gerais nas últimas décadas do seiscentismoe desbrav ado todo o
vale médio doParaíba.
Outro ramo do povoamento dirigiu-se rio Anhembi (Tietê) abaixo,
conformeadiantamos. À localização de São Paulo, no planalto, induzia o

254
moradora caroinhar em sentido oposto' ao do litoral, acompanhando os
cursos dágua, os quais descem para o interior,facilitando a penetração.
Desde cedo a imensa área que se estende até ao Paraguai é palmilhada.
por caçadores de silvículas e por indivíduos que sobem ao Peru. Para
estes lados há abundância de terras e osindígenas do Anhembi são
jugulados pelas bandeiras docapitão-mor JeronimoLeitão. A primeiraa
em 1581e as demais nosanos seguintes. Uma vez, pois, que a roça é
fonte da subsistência, os habitantes, muitos dos quais são mamelucos
identificados com o sertão, volvem-se para estas bandas, também. As
famílias se multiplicam, e o desejo de garantir aos filhos um pedaço de
terra, leva-as a procurarem novos sítios. E, assim, o “hinterland” ganha
mais povoações, sementes de outras tantas vilas e cidades.
Um dosmais antigos moradores de São Pauloa fixar-se no sertão do
Anhembi,a sete ou oito léguas da vila, foi o português ManuelFernandes
Ramos, por volta de 1580,levando a família depois. Em 1620 o filho,
André e a mãe,já viúva, edificaram aí uma igrejinha, em homenagem à
senhora Sant'Ana do Parnaíba. Era essa uma tradição que provinha dos
romanos,qual a detomas possedecerto lugar ou de povoá-lo,invocando
proteção de alguma divindade. Os cristãos-novos do Brasil fiziam o
mesmo em seus engenhos ou propriedadesrurais, uns porque seguiam a
fé católica, outros para darem mostra de cristãos ou para cultivarem
secretamente as tradições mosaicas.
SantAna
Não tardou muito e outros moradores se transferiram paradescenden-
do Parnaíba ouvizinhanças: De São Paulo e de Mogi vieram Pires, Taques,
tes de Cristóvão Dinis,de Francisco Vaz Coelho, dos Bartolomeu de
Barros, etc. Do Paraguai vieram Gabriel Ponce de Leão,
Os
Torales, Barnabé de Contreras e suas famílias.casamento filhos de Manuel
Fernandes tornaram-se moços e contraram nesse meio.
Havia por certo, além dos laços de amizade, outros vínculos, pois, os
ancestrais de alguns procediam delinhagem sefardita. Em 1625, Parnaíba.
foielevadaa vila, e anosdepois, o padre Francisco Fernandes de Oliveira,
filho do grande bandeirante André Fernandes e neto do fundador, veio à
ser o vigário local. Tudoisso, portanto, é de suma importância, porque
Parnaíba se converteu na primeira etapa para o Oeste,esteio do bandei-
rismo,porta de acesso ao Paraguai é regiões doe Prata , c mãe de outras
vilasinterioranas. Dela se originaram Sorocabá Itu. Na verdade. a área
de Sorocaba, embora palmilhada antes de findar-se o século XVI,foi
coma ereção da capela de N.Sº da Ponte, porBaltazar Fernandes, que sc
povoou e foi elevada a vila muitos anos decorridos, a 3 de março de

255
166179, À sua vizinha,Itu, fora antes conhecida por Uru-Guassu, nome
indígena que significa grande queda dágua. O povoamento se deve,
porém, a Domingos Fernandes e a seu genro Cristóvão Dinis, o moço,
apósa fundação de umacapela em1610, por aquele, como se costumava.
Itu, só ganhou foros de vila em 165720, É essa a razão porque os
Fernandessão denominados “povoadores”
As três vilas, acima, formamum triângulo, em cujo centro se encon-
travam glebas do poderoso e rico Pedro Vaz de Barros, deonde, talvez,
se proviade carnes para suas viagens preadoras, Após sua morteasterras
passaram aos doisfilhos, FernãoPais de Barros é Pedro Vaz de Barros, o
Guassu, os quais edificaram nos respectivos quinhões as capelas consa-
gradas à Santo Antônio e à São Roque, origem dos núcleos que se
transformaram nas vilas de Araçariguama « São Roque do Carambei?!
Osdois, além de muito ticos, destacaram-se como sertanistas, junca-
mente com omano Sebastião Pais de Barros,
Toda esta região,caracterizada pela situaçãogeográfica, facilidade em
relacionar-se com o Paraguai, e em obter mão de obra servil, mesmo
recursos agropastoris, entrou a concorrer comSão Pauloa partir das
bandeiras ao Guairá, ou seja, na primeira vintena do século XVIL. Dali,
mais tarde, se demandon Sule também os sertões de Goiás, e de Mato
Grosso. Sorocaba, noséculo XVIII tornou-se 2 passagem obrigatória
para es tropas de equinosprocedentes dos campossulinos a caminhodas
Minas Gerais. Foram célebres nesse tempoasfeiras realizadas na vila,
“quandoinúmeras cabeças eram postas à venda.
Contudo,as terras que margeiam o Rio da Prata, só tardiamente
passaram ao domínio de Portugal, por se acharem além da linha de
Tordesilhas. O povoamento haveria de processar-se, antes, na faixa
incontestada, mediando com as vilas da capitania de São Vicente
No Rio de Janeiro a colonização se assemelha à de São Vicente
apenas no começo,divergindo completamente no séculoXV. Primeiro
foi necessário expulsar os franceses e, em seguida, dominar os tamoios,
seus aliados. Mas, assim mesmo,as serrasque acompanham O litoral a
curta distância, e mais além a Mantiqueira, confinaram o povoamentoà
faixa ribeirinha. De outro lado, tornara-se perigoso ocupar ovale médio
Paraíba, em vista da presença nele de remanescentesdos tupiniquins
voios após as derrotasquesofreram no século XVI.
Nesta primeira fase, encetada sob a direção do governador Mem de
coadjuvado por alguns parentes e por elementos dediversas capita-
ias,acabaram porradicar-se na Guanabara, Manuel Veloso de Espinha,

256
Antonio de Sampaio, além de outros já mencionados. Era interesse da
Coroa não só atendê-los, mas dever,atentando para o fato dea servirem
com suas vidas e bens. Isto, realmente, foi o que invocou o referido
Manuel Veloso ao solicitar uma sesmaria, dizendo ter ajudado “em fadas
ascouzasnecessárias bra. bem epovoaçãododito Rioassim nas guerras q'sempre
tiuerão comtémacas comêra as Tamoios e Eranceses, como en afortificação da dita
Cide, sercas e baluartes. .”. E mais, que auxiliara ao capitão-mor Jerônimo
Leitão aconquistar o Cabo Frio. Ora, Salvador Correia de Sá Jerônimo
Leitão, governadores do Rio e de São Vicente, sabiam queexpressava a
verdade, e, por isso, lhe concederam sesmarias em 1579, na capitania
martim-afonsina, c em 1580, oa barra do Rio Grande, bahia da Guana-
bara??, F, de igual modo, foram contemplados diversos companheiros.
“Antônio de Sampaio fo”. os primeirosa receberterras. À 28 de março de
1573 obteve umasesmaria naTapera do Gato,nolugar chamado Parana-
“guape, e outras depois, nas imediações do rio Macacu e junto à sesmaria
da Companhia de Jesus. Como, porém, osfilhos se casassem, a redistri-
buição por eles lhes diminuiu os lotes, motivo que os levou solicitar
“mais terras ao governador, porque a atividade agropastoril em desenvol-
vimento na capitania o reclamava. Os habitantes, de modo geral, sc
“entregam daí por diante ao cultivo da cana, que exige sempre grandes
árcas, À princípio os canaviais se formam nas proximidades do rocio da.
cidade ou em lugares de fácil acesso, como as ilhas fronteiriças, mas o
desdobramento das famílias e achegada de novos imigrantes, obrigou a
avançar as lavouras e campos de criação para as zonas livres c onde os
engenhosdispociam de lenhas.
Entre os mais aquinhoados estão, necessariamente, os Correios de
Sá, pelo desempenho que tiveram na conquista e no governoda capita-
nia. Radicados aí, jamais alguém prestoucantos e maioresserviços. Mas,a
verdade, também nos induz a dizer que souberam aproveitar a situação
como poucos.
Salvador Correia de Sá alguns anos depois de fundada a cidade, já
possuía sesmaria na várzea de Nossa Senhora. Mais tarde ergueu na ilha
de Paranapuã?S um engenho de açúcar, quetrabalhou por muito tempo.
Salvador sabia harmonizar as atividades econômicas com agovernança, à
qualexerceupor três vezes. Em 1582 foiao sertão darcombate aogentio
inimigo e nos anos futuros se ocupou também do descobrimento de
minérios preciosos. O filho, Martim, e o neto Salvador de Benevides
excederam-no ainda mais em realizações, na fama e na aquisição de
riquezas. Martim pertence ao rol dos grandes sercanistas do Brasil,

257
sobressaindo-se nesse sentido a bandeira de 1596 com quedescortinou o
caminho de Parati ao vale do Paraíba. Repeliu da Guanabara e costasdo
Brasil, por mais de umaocasião, corsáriosfranceses e holandeses. Numa
delas capturou, entre outros, Francisco Duchs, o qual, regressandode-
pois à Holanda, participou do ataque 2 Salvador, na Bahia. Martim e o
irmão Gonçaloforam dos maiores latifundiários noRio deJaneiro,tendo
recebido em1594, uma faixa de terras que se estendia da Tijuca a
Guaratiba, pela orla marítima. Daparte que lhe coube, note-se bem,
Gonçalo doou certa porção à filha Vitória, comopresente de casamento
com D.Luís de Cespedes, governador do Paraguai, sujeito esse que se
mancomunoucom os bandeirantes na destruição das “reduções” jesuiti-
cas do Guairá. Ademais, Gonçaloe 0 tio Manuel Correiae cinco outros
pioneiros, conseguiram“as terras despesoadas de Macaé, ao longo do lisoral
é 40 cabo de São Tom, é pelo sertão até o cume da serra”, as quais foram
transformadas em camposde criação no princípioe, afinal em vilas e
cidades, Assim a colonização se estendia querpara o Norte da capitania,
quer parao Sul. Em meados do século XVII Salvador de Sá e Benevides
adquire chãos noatual Estado de Santa Catarina, e a capitania de São
Tomé, em vista dafalta de cabedais dos donatários,cuja posse mais tarde
“ansfere ao visconde de Asseca, Martim Correia de Sáº*, Fortuna, títulos
de nobreza, tudo lhes acrescentaram os anos,osserviços e as opormunida-
des inteligentemente aproveitados.
Quemquer que, de algum modo,fosse conveniente ao bem e pro-
gresso da capitania fluminense, mesmo sendo cristão-novo, obteria chãos
para fazer a moradia ou,também,para lavrar, Porvolta de 1578 vem para
cácom família, Francisco Lopes. Segundo a praxe, deviaresidir no lugar
pelo menos, há, três anos, a fim de requerer terras. E, no entanto, a 4
de abril do ano seguinte já é aquinhoado com uma língua de terras em
Maryhoy. Francisco não pertencia à seiva cristã, nem era conquistador
ou casado com filha de conquistador, mas trarava-se de pessoa útil aos
moradores, visto exercer o ofício de escravidão do judicial?e isso ex-
plica a mercê
A mesma facilidade não contou O xará e congênere Francisco de
Lemos de Azevedo. Hátrês anos que reside na capitania,vivendosabe
Deuscomo, ou para quem. Decide então, mudar de vida, voltando-se
para a terra dadivosa e amiga, pelo que solicita umasesmaria entre osrios
Jaguaré e Soroy, e alega o tempo de moradia e ter mulher e filhospara
sustentar. A sesmaria lhe é concedida a 29 de julho de 1602. Em 1610
vamos encontrá-lo registrando um contrato de partido de canas,sinal de
que se interessara pelo seu cultivo e industrializaçá

258
Inúmeras propriedades, em virtude de casamentos mistos, passaram
às mãos de elementos portadores de sangue hebreu já no início da
colonização fluminense. Por exemplo, Álvaro Fernandes Teixeira, ca
sado com Maria de Azevedo, cristã-nova, obteve sesmaria na região do
io Iguaçu e nela montou engenho,e os filhos, naturalmente, lhe herdo-
ram todososdireitos. Como o engenho carecesse de certas águas perten-
centes à Companhia deJesus, os padres cederam-nas mediante a condi-
ção de dar ao Colégio4% do açúcar que fabricasse e mais,que,das canas
cultivadas por eles, lhes fizesse cadaano quarenta tarefas, no mínimo?”. A
Ordem possuia terras e nelas lavrava para o consumo,e do querestasse
mandava para fora.
Caso semelhante é o de Francisco Alvares da Fonseca, concunhado
do hebreu Manuel do Couto. A 15 de dezembro de 1597 foi-lhe passada
uma escritura de terras, mas posteriormente recebeu outras. Em 1602
entrou noexercício de escrivão da Ouvidoria,fato esse que contribuiu no
sentido de o governador Martim de Sádoar sesmarias adois filhos no ano
seguinte, embora simples estudantes e meio cristãos-novos: o fururo
padre Manuel da Nóbrega e o irmão Francisco. Ficavam essas terras na
várzea de Nossa Senhora. Manueljá em 1602 fora aquinhoado com uma
sesmaria, e em 1618 recebeu portestamento um legado de casas e
terrenosdecerta Inês Gomes??. Sacerdotee licenciado aindase ocupava
com interesses seculares.
Sucede, outrossim, queindivíduos parcialmente de umadas etnias, a
exemplo dos mencionados, contraíam matrimônio compessoa daetnia
hebréia e, não raro, judaizantes, comosabemos. É o caso dos filhos do
capitão Mateus de Moura Fogaçae de Úrsula Caldeira, um dosquais,
Mateus, tornou-se dono de engenho,e também o deum neto por nome
Manuelque além dafazenda Covanca, em São Gonçalo, teve engenho?º.
Às vezes, as terras são adquiridas porcompra, de terceiros, conforme
osfins em vista, e,se o capital for insuficiente, dois-ou mais sujeitos se
associam no empreend imento. É o quese passa com Manuel Gomes,
Diogo de Montarroio e Gonçalo de Aguiar. Descjando construir um en-
genho movido a água, procuram o local adequado « ali compram meta
légua de terras, consultando previamente o governador. ação tantosa
Atosegui do,
22 de novembro de 1602, Martim de Sá, em cuja administr Todavia,
Sefarditas se estabeleceram no Rio, confirmou-lhes a transação.
anos depois, Manuel Gomesfica sozinho com a propriedade, a qual, por
fim,transfere à filha em dote de casamento??.
“Aos poucos, por conseguinte, através de mercês, de enlaces, de
heranças e de compras, a gente “de nação”p assou a concentra r em suas

259
mãos vultosa riqueza, constituída porresidências na cidade, campos de
cultura e de criação, engenhos e escravaria. Entre os de maior formna,
excluídos os Correia de Sá, contam-se os descendentes dolic. Jorge
Fernandes da Fonseca, os de Miguel Gomes Bravo, os de Manuel do
Couro,os dos Gomes Mourão,os dos Vale, dos Cardoso Coutinho,dos
Fogaça, dos Ximenes e de rantos mais. Até nos encargos públicos era
notória a sua projeção. Havia, pois,certa inquietude na capitania quanto
aos destinos deia, em particular durante a ocupação do Nordeste pelos
holandeses, constando que os cristãos-novos mantinham relações com
eles, senão com os da progênie residentes nos Países-Baixos. Por isso,
muitos eram olhados com suspeita. Assim,pelo fato de Gaspar Dias de
“Mesquita dispordos bens que possuia no Rio deJaneiro e embarcar às
pressas para oReino,originaram-se boatos alarmistas, devido a inferir-se
que o inimigo viriaatacar a cidade. Supunha-se que Gaspar recebera
aviso do sogro, agora residente na Holanda, a fim de por-se a salvo,e
nisso calvez houvesse algum fundamento?!
Da riqueza, bem comoda importância dos cristãos-novos nacoloni-
zação do Rio, falam alto os confiscos de suas propriedades no começo do
século XVIII. NoIrajá 1 ha sítio o padre Francisco de Paredes, enge-
nhos Manuel de Paredes da Costa, o Dr. Agostinho de Paredesc José
Correia Ximenes; em $.João de Meritilocalizavam-se os de D. Brites
Cardoso « deJoão Correia Ximenes; emJacarepaguá o daviúva Catarina
Marques. Em São Gonçalo tinham partidos decana os irmãos Bernal,
Diogo e João: também Domingos Ramires eJoão Henriques de Castro.
“Afestavao engenhodeJoão Rodrigues Calassa, o sítio do tre. cel.João de
Abreu Percirac a fazendade Manuel de Moura Fogaça; emJacutinga, o
engenho docap. Manuel de Mariz Brito,o sítio de Baltazar Rodrigues
Coutinho,o engenhodaviúva de Bento de Lucena e o davitivade Diogo
de Montarroio, as chácaras de D3 Apolônia de Sousa e de Ana Henri-
ques; e também a do cap. Luís Vieira de Mendanha,a de Pedro Mendes
Henriques, a de Pedro Homem da Costa. Além, naturalmente, das
propriedades na cidade e nas redondezas, que outros possuíam?
Nos sítios fazendas predomina, obviamente,a lavoura açucareira,
base da economia geral do Rio deJaneiro, cujo solo,clima e abundância
de águas lhe são favoráveis. É a ocupação de grande parte dos moradores,
até de quem exerce cargos públicosouprofissõesliberais. É, igualmente,
como temos revelado,a de numerosos cristãos-novos. Nesta capitania c
nas que exploraram esse tipo de monocultura, eles se sobressaem,
desempenhando toda sorte de atividades, desde mestres de açúcares a
senhores de engenho.Tal indústria é sedentária por natureza, porque

260
retém o homem junto de si o ano quase todo, através de uma sério de
obrigações, à começar pelo preparo dos canaviais e a findar pela venda.
do produto,ou no embarquedele. É atividade que nãogeradevassadores
de sertões, mesmo porque o trabalho braçal é executado precipua-
mente porescravos negros, e se estesfaltam,a carência é remediada por
indígenas fornecidospelos paulistas. Isso, outrossim, explica porque os
hebreus portugueses tão bem se adaptaram à agricultura sacarina, aliás,
naépoca, à mais sedutora, Presa tal gente ao licoral, assim como os
restantes moradores, o “hinterland” não exerce nenhum fascínio. Os
olhos detodosestão voltadosna direção do Atlântico. É somente após o
descobrimento das lavras nas Gerais e a consequente abertura do ca-
minho novo por Garcia Rodrigues Pais, que a marcha da colonização no
sentido oposto se acelera: “concorrendo então o Povo a estabslecerfszendas
Por tuda extensão das terras patenteadas, cujos habitantes avultaram com
cxoberância em pouca tempos,
Até há poucoviajava-se do Rio até Parati por via marítima, e dali às
Minas pela serra do Falcão,escalando a seguir no vale do Paraíba. Porém,
o caminho novo,cortando a serra dos Orgãos,encurtava muitoas distân-
cias, barateava o custo dostransportese evitava os riscos a que O antigo
expunha. À própria Coroa reconheceu-lhe as vantagens e se dispôs a
nobilitar Garcia Roiz Pais pelos excelentes serviços prestados, mas, para
desdita do agraciado, um resíduo insignificante de sangue cristão-novo
impediu-o de receber a mercê.
O povoamento da região meridional, iniciado no segundo decênio
do seiscentismo, descavolveu-se mui lentamente, em virtudedadistân-
cia que a separavam doRio deJaneiro e das vilas planaltinas. O interesse
econômico queelas tinham pela mesma limitava-se ao descimento de
escravos e à busca de minérios preciosos.

Notas
1 - Frei Gaspar, Memória. 34 ed. p. 125.
= Mello Morais. Chyroz, Histórica. pp. 181, 240.
- Formou-se um povoado asrilha, mas cerca de 1576 acabou arrasado pelos bu-
gres,
2 - ABSP. Sesmarias,vol 1
3 - 16. Salvador, Criltza-aove... pp. 136 e segs.
4 - Capistrano de Abreu. Correspondência, vol. 1, p. 307.
= Serafim Leite, SJ, Certas des PrimeirosJetta, vOL 1, pp. 37, 207, 210.

261
3- 1.6. Salvador Op.
6 Cartas dor PrimeirosJerata, 1p. 126
7 - Cf Bb, 1591-1592,pp. 164,165
“ Ra. LGHB, nº Gp. 221
8 - Inácio Accioli Cerqueira da Silva, Memórias Hlitricas « Políticos da Batbis, 1
425,
- Do. Bh, 1591,pasim
9 - D. Dusre Leopoldo Silva, jotas de História Edlniânica, p. 55 e segs
10 - Reg. Gr, vol Epp. 67.88.
4 Carvalho Branco. Dicionário. pp. 167, 39.
12 ACMSP. -vol 1, p 375
13 - Isa Grinborg. Hintória de Mogi ds Cruz, pp. 16 e segs
14 - O nome “Cocoera”nãoderiva de “Co-co-eho”, conforme nosdisse fefi Timó-
teo Von Der Brock,admitindo que Eco. Vaz Coelho fosse gago
15 - Azevedo Marques. Apontementes.. Hp. 145
16 - Sergio B. de Holanda. Caminhos do Serão,ce. 98 ses
17 - A.N.B. Ajuda, e Roque Leme, em Árvores Genealógica
18 - ESP, Bultim, vol H, 1942, pp. 19 e segs
19 - Aluísio de Almeida. História de Sorocoha, vo. 1
20 - Mons. Paulo F.S. Camargo. À Igrja naHistória de São Paulo, 1, 239
2 - Re LHGSP, vol. 34,p 259; IV, p. 264
= Re. SPHAN, 6.º 1, 1937, p. 119e segás 00 5, 1941,p. 115 e sega
Rio Branco. Efoméidas, vol 2.º,p. 90
22 - E. O. Belchior. Op. it, pp. 174 e sega
23 = Porisso,passou a chamar-se de "ilha do Governador”
2á “ EO. Belchior Op. ci, pass.
“ Piruso e Araújo. Op it, pas
*- Carvalho Franco. Dicionário, pas
Tais Norton. Op cit, pasim.
“ ABNRJ, vol 39.
25 - Re. LHGB, t LXI, vol. 101
26 - Parcdiscas e mecitos são figuras mui frequentesnos meios canaváeiros, pois
não tendo cogenho próprio, culvam para terceiros
Res ANRJ., vol XKXIX,Às, 6 vs
ANR, Cartório do 1º Oficio,lv. 1, doe 3.
27 - EO, Belehior. Op. cit, p. 472
28 - ANRI, códs. 616 e 7)9.
“ Res ANRJ, vol, KKXIX,pp. 27 e 47
29 = Ing. de Lsbo, proc. 2040. .
= ANRJ. - Carório do 1.º Ofic, lv. 1, fi. 22 vs. e 23
30 - Com acerto já dissera alguém no Reino, à propósico de tais enlaces, que os
hebreus compravam gearos cristãos-velhosa preçode ouro,para, dese modo,
desviarem as suspeitas do Santo Oficio, melhor poderem negociar e ascender
socialmente. - Apud JL. Azevedo. Op. city p. IS
ing. de Lisboa, proc 5734
31 - AHU.-RJ. ox 3, não - cata, documentode 5-7-1647.
32 Silva Lisboa. Anair do Rio deJaneiro, vol V, pp. 371 e segs
33 - Pixasro e Araújo. Op it, voL IV, p. 103

262
CAPÍTULO QUARTO

OS CRISTÃOS-NOVOSE A
EXPLORAÇÃO DOSSERTÕES

O desejo de desvendar o Brasil assinala-se a partir de Cabral. Estabe-


lecidos os primeiros contatos com osindígenas, entenderam os navegan-
tes portugueses que existia ouro em a nova terra porsinais que lhes
deram os silvículas. Resolvem à vista disso deixar aqui dois degredadosa
fim de que aprendam a língua dos nativos e obtenham todas as infor-
mações possíveis. Para o Reino é destacado um navio sob o comandode
Gaspar de Lemos, à quem se incumbe também de explorar a parte do
litoral ag Norte de Porto Seguro, enquanto a armada faria o mesmo para
o Sul antesde singrar os mares a caminhodaÍndia. Ignora-se até onde a
frota chegou, mas o chamado“piloto anônimo”, em sua Relação indica
quea distância percorrida foi extensa, pois declara: “a terra é grande”,
fazendosupor quese tratava de “terra firme”, ou seja, continente, E
Domenico Pisani, escrevendode Lisboapara Veneza, a 27 de julho de
1501, após a chegada do navio Anunciada, que acompanhava os de
Cabral à Índia!, é mais explícito, ao afirmar que a armada “correrapela
costa 2.000 milhas e mais, e não lhe encontrarem o fim"? Embora não
tivesse alcançado a boca do Rio da Prata, ficou-se sabendo, pelo menos,
quea terra de Santa Cruz excedia a uma simples ilha. As expedições
que se seguiram nos anos vindouros completariam eaprofunda
aquelas primeiras nações?. A elas, comumente, estavam ligados
csistãos-novos, fato que concorreu para levar aos da progênie informes
sobre o país, suas condições e possibilidades.
A vastidão daterra, cuja grandeza muito cedo se entreviu, natural-
mente chamou de pronto a atenção para oshabitantes e para as riquezas
por ventura jacentes na mesma. O novo achado bastaria só por si para
despertar a curiosidade, além da imaginação ardente do lusitano, que
vivia uma épocade aventuras por terras e mares. Em breve, fantasiase

263
mitos transmitidos porindígenas, lhe açularam o espírito. Muito antesda
chegada dos espanhóis ao império dos Incas, tomara conhecimento da
existência de fabulosos tesouros no altiplano andino, veiculadosna re-
gião sul, abaixo de Cananéia. Em consegiência, o avenmreiro Aleixo
Garcia dirigiu-se aos Andes por volta de 1526, tendo conseguido, ao
fim de longa jornada comprovar a verdade, é só não chegou a regressar
à costa brasileira com a preciosa carga que trazia, porque os índios lhe
tiraram a vida. Anos depois fala-se na Bahia da abundância de ouro,
prata é esmeraldas no interior de nosso país, coisa tida como certa,
mesmo porque se julgava, e ainda bem mais tarde, que o Peru confinava
com o Brasil a poucas léguas. Era mister, por conseguinte, palmilhar o
“hinverland” e descerrar o véu que o cobria. O adventício dia a dia
sentia-se incitado a penetrar 0 sertão.
floresta virgem e imensa, misteriosa e cheia de perigos, se anto-
lhava ao português como o oceano aterrador que o desafiara até ali,
oqual, no entanto,ia dominando pouco apouco. Agora, com mais razão,
ensijecidopelaobragigantescarealizada, animado pelas vitórias obtidas e
pela experiênciaacumulada, via-se compelido amaisestaaventura, como
que sob o encanto de Nereidas sedutoras. E quando nos referimos ao
português, englobamos no termoo cristão-novo,porque durante séculos
esteve ligado às contingências da nação peninsular, absorveu muito do
seu espírito e com elase identificou, participando de suas lutas evitórias.
Juntos, os das duas etnias singraram os oceanos, e, de igual modo,
descortinariam juntos os verdes mares agrestes de Santa Cruz.
Ambosestes empreendimentosexigiam mobilidadeconstante, maso
hebreu estava plenamente talhadopara engajar-se neles, Nenhum povo
jamais se locomovera tanto. À sua história está revestidade nomadismo;
. à princípio, em virtude de se entregar 30 pastoreio de ovelhas, e mais
tarde, ao comércio também, viajando em caravanas, de cá para lá. De
Abrão a Moisés a peregrinação é a característica. NO século sexto (586
A.C) dá-se 0 cativeiro babilônico e o regresso à Pátria setenta anos
depois. Ao tempo de Alexandre, milhares se deslocam parao Egito, e no
domínio romano a diáspora se acentua. Na Idade Média existem judeus
em quase toda a Europa, mas, sobrerudo, na Peninsula Ibérica. Eles
mercadejam pelo Mediterrâneo e até no Oriente, Com os porrugueses
tomamparte nos descobrimentos. São judeus que fornecem aoinfante D.
Henrique certas informações acerca da África e da possibilidade de
atingir a Índia bordejando o continente negro pela costa atlântica.
Quando, afinal, Vasco da Gama chega a Calicur, lá encontra um judeu

264
polonês que lhefoi utilíssimo,e, posteriormente,a Pedto Álvares Cabralo
e a Américo Vespício. É o conhecido Gaspar da Gama, à quem o
almirante levou consigo para Portugal. Outro andarilho famoso, foi
amtordas Peregrinações, Fernão MendesPinto,presuntivo descobridor do
Japão para os ocidentais. E quem desconhecerá o nome de Afonso Garcia da
'Orta, médico natural de Elvas, companhe iro de Martim na
viagem à Índia, ondeestudouas virtudes de suas planas e minérios,
fazendoverdadeira obra de pioneiro nesse sentido? Famílias inteiras se
transladaram para oultramar português, mas, ao instalar-se no Reino o
Tribunal doSanto Ofício o nomadismorecrudeceu, não só para fugir à
Inquisição, comopara buscar novos meios de subsistênc ia. Depois disso
toma-se difícil acompanh as-lhes Os passos, porque, ora estão n França,
ora na Holanda, oranaItália, ou naTurquia, África, América ou nasilhas
Mesmojovens, semexperiência e desacompanhados dos pais, viajam
pelo mundoafora, aventurando-se ao desconhecido e dispostos ao que
dere vier. É o exemplo deIsaac de Castro Tartas que, contando apenas
dezesseis anos, emigraparao Brasil, vindo residir primeiro em Recife ca
seguir na Bahia, de onde pretendia descer ao Rio de Janeiro para recon.
duzir os parentes aojudaísmo, quandofoipreso e enviado aos inquisido-
res no Reino*. É ocaso,outrossim,deJoão Rodrigues Estela, rapazola de
quinze anos, a quem vamos encontrar Rio deJaneiro, em 1628,tendo
impusera em Lisboa o
fugidopara cá após cumpriras penitências que lhevimos,
Santo Ofícios. O nosso Bento Teixeira, como fornece também
um exemplo dessa mobilidade espantosa nas mais
Em decorrência de tal mobilidade, mutrida durante séculose eenconcr ar
diversas circunstâncias, o hebreu preciso u sofrer impacto s
soluções. Quando possivel adaprava-se ao meio, ou respond ia harmoni -
zando sua cultura com dopais hospedeiro, ou criava algo novo, ou
então, emigrava para onde melhorlhe conviesse. É isso quelhe permite
ainda hoje viver tanto no Sul da Europa, comonosPaíses-Baixo s, em
Angola, como no México, nos Andes, em Pernam buco, no Rio de
Janeiro ou nas regiões do Prata, na zonafria , como na tempera da ou na
«eopical, naplaníc iecomon oplanal to. O cristão -novo e oportug uêsda
ernia velha tinham nisso muito de semelhante,pense e daí os encontramos
caminhando juntos tantas vezes. Mas não se que O condiciona
mentoimposto por climas, altirudes, culturas é meios de sobrevivência,
fosse cransposto facilmente,senão,no geral, à custa de trabalhoasárduose
de sacrifícios, e oisraelita está vinculado,tradicionalmente um povo
sofrido.

265
Sem a compreensãodoespírito que norteoua vida dojudeu portu
guês nesses tempos,falharemos emavaliar o papel que desempenhouno
desbravamento « nacolonização do Brasil. Autoreshá que vêem nele
apenas o argentário, o mercador, ofisico ou o senhor de engenho, amante
do comodismo e mais afeitoa padecer asinjúrias dos homens do que a
sispídez da Natureza.
O devassamento do “hinterland” é obra de pioneiros, de
indômita, valente e corajosa, sem receio a distâncias e semtemogenter do
perigo. Foi o espírito que caracterizou os descobrimentos marítimose o
seria, também no descortínio dos sertões brasileiros. Tinha-o oibérico
quinhentista e com ele o seu patrício hebreu. Já em 1492, na armadade
Colombo,se destacaramos cristãos-novos espanhóis Alonso de la Calle,
Rodrigo Sanches, o médicoMestre Bernal, RodrigodeTriana, que foio
primeiro a avistarterra, eLuis Torres, o interprete da expedição, o qual
depois se passou à Nova Espanha seguido por outros da linhagems.
Escreve J. Toribio Medina que a América tornou-se desde 0 início da
conquista uma tentação para os hebreus, embora proibidos por Isabel à
Católica de entrarem nopais. Morta, porém, o rei Fernandolhes facultou
Oingresso mediante composição pecuniária, segundoparece. De sorte
que, quandoCarlos V anulou a permissãodada pelo avô,jáa América se
estava enchendo deles, e o afluxoprosseguiu por mais de século e meio,
em que pese a criação de tribunais do Santo Oficio, aqui”. Vigiadas
portas de acesso, noNorte, passaram aservir-se das que se abriram noas
Sul, por São Pauloe Buenos Aires. A uniãodas coroas em 1580facilitou
sobremodo essa penetração. Outro daqueles pioneiros foi certo Her-
nando Alonso,ferreiro e carpinteiro, que acompanhou Hernán Cortés
ao México e aindavivia em 1528, quando o autuou o inquisidor frei
Vicente de Santa Maria, por judaizarê, Umsegundo caso, notável por
suas caracteristicas, é o dojudeu português, d. Luís de Carvalhal, da vila
de Mogadouro. Depois de ter vivido em Portugal, nas ilhas de Cabo
Verdee na Espanha, veio para a Nova Espanha, onde prestou bons
serviçosao vice-rei, Em 1566 ou 1567 combateu oscorsários de Haw-
Kias. Em 1576 por ordem dessa autoridade adentrou oterritório
fururo Novo Reino de Leão, do qual, em 1579,foi nomeado povoadordoe
governador, sendo-lhe concedido, também, O privilégio de trazer da
Espanha cem “vizinhos”, sem a exigência daprova de sangue. Realizou
obra estupenda, descrita por Medina, «nãoobstante, em 1589, OSanto
Oficio o confinou em seus cárceres, e a alguns da família. Assim se
percebe que Luís encarnou em si 0 andarilho, o mercador, o sertanista,
º Povoador, ofazendeiro, o descobridor de minas, tal a nuança de

266
atividades que exerceu, à exemplo do que se passou com ontros da etnia
noVelho e no Novo Mundo?. Narra também um articulista que: dois
judeus acompanharam a Diego de Almagro na conquista do Chile c aos
mesmos atribui o descobrimento das minas de ouro encontradas ali'º,
O desejo de enriquecer a curto prazo, empolgouprocur os ibéricos,
ctistãos-velho s é cristão s-novos . Portod o o contine nte se ou o El
Dorado, oculto em alguma parte. Para o portugu ês, serrae xplendo rosa,
ou Sabatáb oçá, equival ente do mito que se divulgo u entre 05 espanho is,
cedo o atraiu para os ntios sertões. À ela se devem muitas das entrada s
empreendidas desde meados do século XVI, cabend o ao hebreu Filipe
de Guilhem difusão da lenda arespeito. À 22 de julhode lhe 1550, escreveu
à eltei, da cidadedo Salvador, oa Bahia, comuni cando- o informe
colhido em Porto Seguro de “uas índios que vivem junto de certo rio, a
cujo local vão ter pedaço s de ouro que se despre ndem de uma serra
resplandecente situada nos sertõe s”",O govern oentão, diretam ente, ou
por iniciati va de seus represe ntantes no Brasi, animou daí por diante os
descobrimentos mineralógicos,tanto mais quanto o erário de Castela se
locupleravacom asextrações de Potosi, ao passo queàÍndiamuit o pouco
beneficiava ao de Portugal. A esperznça de encontrar jazidas nunca, por
isso, se arrefeceu, até converter-se em realidade.
As diligências de Martim Afonso e de Duarte Coelho, juntaram-se as
do governador Tomé de Sousa. A 5 de novembro do ano de 1550 fez
partir uma entrada, mas esta naufragou na desembocadura do rio São
Francisco. Convidou, então, à Guilhem para chefiar a segunda, que, no
entanto. pordificuldades de ordempessoal, recusou!?, Foiescolhido, em
conseciiência, para comandá-la, um outro castelhano. Francisco Bruza
Espinoza,israelita egresso do Peru e grande conhecedor da lingua tupi
“guarani, predicado importante para os contatos a manter com os aboríge-
nast. Em meados de 1553 partia de Porto Seguro em demanda do
sertão, acompanhado por doze brancos vários índios auxiliares. Na
qualidade decapelãoseguia o padre jesuitaJoão de Azpicuelta (navarro),
aum atestado cloqilente das relações amistosas dos inacianos com Espi-
noza, que o confrade Antonio Blasquez confirmou em missiva datada
de 1557, da Babia. Foi essa, sem dúvida, a primeira entradaao sertão
nordestino digna de apreço. Segundocálculos, percorreu cerca de tre-
zentas « cinquenta léguas, jornadeando atravésdas bacias e das várzeas
de algunsrios, desde o das Caravelas ao de São Francisco ao de São
Mateus, ou Cricaré, permitindo, à falta de outros resultados “um: comi
cimento vago dosseusferozes habitantes e da natureza da regiãopercorridaa

267
Atentemos, todavia, para os clementos humanos que integraram a
entrada, porque elesserão constantes no sertanismo dosséculos 1 eII, de
nossa História: o branco, cristão-velho ou novo, no comando; O indi.
“gena, comoauxiliar,e depois também o mameluco,e o sacerdote. Nas.
entradase bandeiras cujo objetivo fosse o desbravamento geográfico ou
a busca de minérios, o jesuíta se incorporava sempre que possível, mas
nãonas de preamento de silvicolss, por ser contrário a semelhante
atividade. O clérigo dava assistência espiritual ao grupo, promovia o
convívio harmoniosoentre todos e impunha respeito, ou melhor, temor,
inclusive, aos indígenas dastribos com que contactavam,a cujos olhos
parecia uma espécie de pagé.
O índio tornou-se parte “sine qua non” em tais empresas, porque erao
morador natural daterra; dele partiram as notícias primeiras; sabia como
andarpelosertão desconhecido, vadeando outrafegandopelos rios, como
obter alimentos, comoguerrear na floresta. Era capaz de viajar meses e
anosatravés de campos, matase serras, sem perecer de fome e coma maior
segurança voltar ao ponto de partida. De dia ou de noite podia calcular
onde se achava. assim muitocontribuiuno sentido de enriquecer os
conhecimentos do adventício, ajudando-o a contornar as imposições do
meiogeográfico e a devassar mais facilmente a terra. Na capitania de
Vicente, emquea influência indígena tantose distinguiu, o bandeirismo,
por isso mesmo, tomou caráter “sui generis”, graças à fusão éenico-culcural
de elementospeculiares às duas raças. Obranco aprendeu com o amerin-
dio à cultivar o milho,o feijão, a mandioca e o amendoim,fáceis de serem
obtidos até no sertão, e a utilizar-se dos produtos derivados de alguns
destes, a exemploda canjica, do biju, do mingau,e da farinha de guerra.
Nas longas jornadas podiam recorrer a inúmeras frutas silvestres, 20
pinhão da araucária, à caça, ao peixe, e repousar numa rede, atando-lhe as
extremidades em dois paus. O cruzamentodosrios conseguiria confeccio-
nandorapidamente uma canoa da casca de certas árvores, ou escavando o
tronco com ajudade fogo.
Era, assim, relativamente fácil para os “portugueses de São Paulo”
adentrarem longas distâncias com a ajuda desilvícolas amigos. Porsua vez,
o mameluco, fruto desta aproximação étmicae cultural, herdou qualidades,
traços é conhecimentos de ambos quefizeramdele também um precioso
colaborador nas entradas e nas bandeiras dos primeiros séculos, quando
não noposto de chefia. Só O negro esteve ausente, por carecer das
qualificaçõesdonossosilvícola, por andar confinado à outras formas de

268
atividade, « porque, no planalto, era dispensável. Mesmo nas entradas e
bandeiras de preação, O indígena era o colaborador por excelência.
Às entradas de Espinoza de Vasco Rodrigues Caldas, seguiram-se
diversas outras no governo de Memde Sá, partidas de São Vicente « de
Porto Seguro, todas objetivando alcançar as cabeceiras dorio SãoFran-
cisco, onde diziam haver ouro. Isso concorrerá para devassar a região,
escorraçar osindígenas e permitir relaçõesno futuro entre ascapitanias de
São Vicente e a Bahiaatravés dointerior. Em 1562 Luís Martins descobriu
ouro noJaraguá, próximoàvila de São Paulo, e segundo tradição dara de
1570 o primeiro ouroachado em Paranaguá, noSul'S. Por esse tempo,
havendoguerra contra os gentios de Ceregipe, formou-se uma entrada
para ir ao “resgate”, levandocomo “língua”, isto é, comointérprete, o
ctistão-novo DomingosRibeiro, criado de Mem de Sá. Ainda vivia em
1591,quando foi denunciado Visitação é preso!S.
O governode Luís de Brito e Almeida (1573-1578) caracterizou-se
por umasériê de entradas com vistas aodomíniodaterra à submissãodos.
indígenas, à expulsão dos francesese à procura de minérios. À primeira
consistiu em despejar os gentios do rio Real, sendoencarregado do
respectivopovoamento Garcia d'Avila, que possuia fazenda e currais a
algumas léguas. Outras tomaram o rumo do cio São Francisco e da
Paraiba”. Nelas destacaram-se o “lingua” Diogo de Castro e Luis Álvares
Espinha, que supomos de linhagem sefardita, e sobretudo o meio-
cristão-novo Duarte de Sá, cuja mãe, Isabel Dias de Sá, era neta do
hebreu Santo Fidalgo, antigo morador de Barcelos'*, Duarte acompa-
nhou o governador numa dessas expedições, comoalferes, tanto se
distinguiu queele o armou cavalgiro, em 1576, passando, então, a fazer
parte da elite da terra's.
Simultaneamente, ou seja, em 1574, a fim de comprovar os cesulta-
dos da entradaconduzidaantes por Sebastião FernandesTourinho,a qual
atingira, segundose presume,a região de Diamantina,e ali encontrara.
pedras de bom aspecto mineralógico,uma segunda foi confiada a Antô-
nio Dias Adorno,neto do Caramuru. Levava dois padresjesuítas,e entre
os demais componentes o meio-cristão-novo Paulo Adorno, sobrinho
daquele,e filho do português Francisco Rodrigues, e então,ligado por
sangue também aos Adorno, genoveses da capitania de São Vicente.
Depois de percorrer terras do Espirito Santo e da furara Minas Gerais,
voltou com amostras de minerais preciosos e com 7.000 selvagens redu-

269
zidos à cativeiro??. As consequências dela prolongam-se nas dosirmãos
oão Coelho de Sousa e Gabriel Soares deSousa, pois acredita-se que
Antônio Dias Adorno contara 4 João Coelho, em cujo engenho se
hospedara, as felizes expectativas da sua memorável excursão. O em-
tomado, mas João perece aocabo de três anos de
ontinuas é inúteis porfias, recomendando,porém, a Gabriel, fosse
impetrar o auxílio dosoberano, contandoa S. Majestade queas riquezas
vistas no“hinterland” bastariam para tornara coroaibérica a mais rica do
mundo. Gabriel aceita o alvitre e parte para a Europa em agosto de 1584,
Retorna eufórico em 1590,trazendoajuda material e a promessa das
cobiçadas honras e mercês. Em maio de 1592 a expedição póe-se a
caminho dosertão,seguindoa rota deixada porJoão CoelhodeSousa.
Junto com Gabriel e sua leva de índios, mamelucos e brancos, vão os
cristãos-novos Antônio Mendes?! e Sebastião de Freitas, e é provável
gue muitos outros, cumprindo lembrar queovisitador doSanto Ofício,
lic, Heitor Furtadode Mendonçaestava agindo na Bahia. Fato idêntico
teria ocorrido quando,um pouco antes, Domingos Fernandes Nobre, o
Tomacauna, fora ao sertão de Pernambuco “para descer o gentio”
Acompanharam-no, além de Diogo Martins Cão, que depois tam-
bém se mudou para São Paulo, os seguintes entradistas da etnia hebreia:
conio Roiz de Andrade, Diogo Marúnsde Leão, Manoel de Crasto e
Pero Cardoso, e mais o mameluco Cristóvão de Bulhões, natural da
capitania deSãoVicente??, Note-se, outrossim, que O sertão atrás refe-
ridoéodorio São Francisco,cada vez mais conhecidoe menosarriscado.
Anos depois, umparente de Gabriel, chamado Belchior Dias, continua-
ria as pesquisas dos seusantecessores
À Bahia aportara na ocasião 0novo governador D. Francisco de
Sousa, o qual, logo depois soube da morte de Gabriel, acometidode
impaludismo. EmLisboahavia-se encontradocom ele,e, provavelmente,
ouvira-lhe narrar comocoisa certa o achamento de minériospor Je
Coelho. Umavez empossado no governo, a fim decumprir ordens
superiores, deu aquele ajuda necessária e aguardouansioso os resulta
dos dabandeira, a qual, segundoconsta, foi organizada em moldes
s. Nesa, após muitos dias deespinhosa viagem e mais de cem
léguas de interiorização, tendo já fundado duas fortalezas, morteu o
denodadoseranista. Tomou-lhe olugar o mestrede campo,JuliãoCosta,
que prontamente enviou notícias a DD. Francisco. Este, assim que as
recebeu ordenou que os remanescentes retornassem à Bahia c enviou ao
encalço dos mesmos ocristão-novo Diogo Lopes Ulhoa, o qual foi

270
buscá-los em Cachoeira, os hospedou em seu engenho, donde os enca-
minhou ao governador. Andavam, assim, como se vê, bem identificados
com o empreendimento, os “da nação”, ques nas capitanias doNordeste,
quer nas do Sul,ávidos, como todos os demais portugueses por riqueza
rápida e por mercês honoríficas. E então apodera-se o ambicioso D.
Francisco doroteiro traçadopelosirmãos Sousa,e, ato contínuo,dirige-
se a S. Majestade, solicitando “os mesmos privilégios e concessões
outorgados a Gabriel Soares, e ainda outros mais", D. Francisco estava
no fime propósito de procurar para si a glória e os benefícios que
ainguém até ali conseguira auferir, Enquanto isso, um sobrinho de
Gabriel, por nome BernardoRibeiro,filho de Maria de Argolo,e de
certo fulano Ribeiro, talvez cristão-novo, mandou buscar-lhe os ossos
para lhes dar o merecido sepultamento.
Dois anos após o falecimento de Gabriel outro bandeirante se dispôsa
a continuar a malfadada empresa dos irmãos Sousa. Referimo-nos
Belchior Dias Moréia, neto do Caramuru e primo daquele, ou de ambos.
Estava residindo à margem do rioReal, onde possuia fazendade criação,
« tomara conhecimento das pesquisas efetuadas pelos dois parentes.
Organizada a expedição, internou-se até a serra de Jacobina e dali os
contrafortes da Chapada-Diamantina e depois a Itabaiana, donde se
recolheu 40 ponto de partida em 1604. Foi então a Côrte, objetivando
alcançar mercês, mas nada conseguiu. Prometeu favorece-lo o novo
obter-lhe de el-rei
governador, D. Luís de Sousa ( 1617-1621), garantindo
às praças pretendidas, o que parece ter alcançado. De modo que, em
o gover-
1618, Belchior lidera uma segundaentrada, na qual se engajam
nador, e além de outros, Martim Correia de Sá e o filho, Salvador, que
regressavam do Reino a caminho do Rio de Janeiro. Achando-se na
Bahia, D. Luísinsistiu para queos acompanhassem, confiado na experiên-
cia sertanista do colega sulino. Ora, ao que se diz, Belchior das sentiu-se
ludibriado eao chegarà Itabaiana, negou-se revelar o segredo minas
de prata, pelo que ficou preso durante dois anos € o obrigaram a pagar
nove mil cruzados, tendo-o aconselhado àquela atitude “o velho Pero
Garcia e outros parentes escandalizados do mau tratamento que lhe haviam
feito... "28. E isto constitue mais uma evidência do relacionamento da
“gente hebréia com os descendentes do Caramuru e Percebe-se,com os Soaresde
Sousa é à participação dela nas empresas sertanistas. outros-
sim,que elementos do Sul, ou vindos para o Sul, adquirem alguma
ciência do interior Centro-Leste, já paimilhando tantas vezes, o que
facultará sem dúvida relações mais fáceis entre as Capitanias de Cima e as

271
de Baixo ao tempo dos ataques às “reduções” e no século XYIII após as
descobertas de ouro nas Minas.
Enquanto sucediam aqueles fatos, a extração de ouro no Jaraguá,
iniciadapor Brás Cubas eJerônimo Leitão,tinham prosseguimento com
os Afonso Sardinha, paí e filho, auxiliados por Clemente Álvares.
Tratava-se de ouro em póe foi em razão doseu entabulamento que os
corsáriosingleses de Edward Fenton, em 1583, e os de Thomas Caven-
dish, em 1588, 1591 e 1592, atacaram as vilas do litoral paulista?s,
“Através de uma carta dirigida por John Whithall a amigos de Londres,
souberam dos descobrimentos de ouro e prata na capitania de São
Vicente?”, e daí as investidas dos piratas, na opinião de frei Vicente do
Salvador?s. Delas, decorreriam, 4 nosso ver, o sigilo que se procurou
estabelecer em torno da verdadeira finalidade de certas entradas e ban-
deiras, é bem assim quanto aos minérios por ventura encontrados, por.
que as explorações do “hinterland” se efetuaram ao depois com maior
amplitude. O período que se segue é deintensaatividade preadora de
indios e de pesquisas mineralógicas, sôbretudo nas Capitanias do Sul,
Referindo-se a essas pesquisas escreveu o primeiro historiador do Brasil
que há muitos anos voava a fama de haver miaas de ouro e de ouuos
metais em terras de Martim Afonso de Sousa,e já por algumas partes
voava com asas douradas, existindo até amostras de ouro?8. É provável
que próprio D. Francisco, por ordem da Metrópole, mandasse averiguar
o que havia de concreto acerca dos jazimentos no planalto. Embora se
pretendaqueaentradade 1594,da qual foidirigenteo capitão-morJorge
Correia e imediato o judeu Sebastião de Freitas, visasse ao gentio hostil
do Paraiba, certo é que os dois tinham chegado há pouco da Bahia, e
nessa direção se efetuaram em seguidaas bandeiras comandadas porJoão
Pereirade Sousae porMartim Correia de Sá em 1596,pelos mosivos que
apontamos noutro luar.
Hoje sabe-se um pouco mais sobre a expedição chefiada por João
Pereira de Sousa'?, o qual, obedecendo a planos do governador-geral,
reuniu um corpo de bandeirantesgente já poresse tempo famosa como
sertanista. No mês de outubro deixam a vila rumo às cabeceiras do São
Francisco, ao passo que do Rio deJaneiro partia a leva de Martim Correia
de Sá, do Espírito Santo à de Diogo Martins Cam. O fio, por conse-
guince,crao dealcançarporestas bandasa incógnita serrade Sabaráboçã.
Tudofora bem planejadopara a bandeira deJoão Pereira de Souza.
Levava o físico, Dr Diogo Dinis para cuidar da saúde da tropae para a
assistência religiosa o pe. Lourenço Dias Machado. Íam, também, o

272
capitão Sebastião de Freitas, Vasco da Mota, cunhado doreferido coo
mandante, os espanháis Diogo de Unhate e João de Santana, o imediat
Francisco Pereira, Manoel Soeiro, Diogo Ramires c muitos outros.
Achava-se todo o grupono longínq uo sertão, quando, em abril de 1597,
estoura inesperadament e um levante porarti mant.s do capelão, João
Pereira de Sousa é presoe conduzido algemadopara São Vicente, onde o
entrega m ao vigário da capitania ,para que, daqui, o envie à Inquisiç ão. O
capelão e o capitão-mor andavam às turras entre si, e, além disso, Joãoe
Pereira de Sousa era homem blasfemo, cético, sem temor à religião
irreverente para com ossacerdotes,dandopéssimo exemploaos compa-
nheiros. Dele diria o provincial da Companhia de Jesus, numa carta aos
inquisidores, que o réu tinha língua tão maldicente que seria capaz de
arruinar as Capitanias deBaixo?”. Tal era, então, oespírito dos antigos
sertanistas de São Paulo?
Para as bandeiras em apreço, para as que se formaram daí por
diante, foi relativamente fácil angariar participantes em virtudeda imi-
ração no Rio de Janeiro e São Paulo, motivada de um lado pela presença
despersiva de um inquisidor na Bahia e capitanias próximas, e do outro
pela força aglutinante das buscas mincralógicas no Sul, comopelo desejo
de granjear fortuna rápida ou as mercêsde el-rei. Neste sentido recebeu
D. Francisco de Sousa oprivilégio de armar cavaleirosfidalgos, quando
ainda governador-geral (1591-1601), sendoque um deles foi, precisa-
mente,o cap. Sebastião de Ereitas. Entretanto, ao regressar do Reino em
1608, trouxe alvarás que lhe concediam, agora, maiores favores e direi-
tos, destacando-se o de governar em separado as Capitanias do Sul, o de
aomear serventuáriosda Justiça e da Fazenda, o de administrar as “minas
descobertas e por descobrir”, o de fazer mercê de 18 hábitos da Ordem
de Cristo, 100 de Cavaleiro Fidalgo da Casa Real, 100 de Moçoda
Câmara de el-rei, ao passo que, para si ficara otítulo de Marquêsda s
Minas??, Ao concedertais honrarias, a Coroa,influenciadapela filosofia
econômica daépoca e por uma série de fatores de igual natureza, alme-
java que O ouro e a prata corressem abundantes para à sua arca.
Fracassadas as tentativas de encontrar os minérios pelas bandas do
Norte, e certo de que já haviam sido descobertos no Sul, que
Francisco se traslada para SãoPaulo. Antes, porém, envia pessoas de sua
confiança para o respectivo entabulamento e uma força militar sob o
comando de Diogo Gonçalves Laço a fim de manter a ordem e acudir ao
litoral caso os corsários 0 atacassem de novo. Diversos cristãos-novos
comodissemos, faziamparte da comitiva.

273
Umavez no planalto, D. Francisco não mediu esforços e nem despesas
visandoaconcretização doseuambiciosoideal. Visitouas explorações do
Jaraguá, de Araçoiaba, de Bacaetava e de São Roque e fundou duas vilas
que não chegaram a vingar. Logo a seguir enviou duas bandeiras ao
sertão, uma em 1601, rumoàs nascentes do São Francisco, pelo vale do
Paraíba e escala em Mantiqueira. Dela participou o mineiro holandês
WilhelmJost ten Glimmer, que forneceu aJoão de Laet posteriormente
um roteiro da jornada. A segunda, em 1602,tinha por alvo o Peru pela
via do Tietê abaixo, mas não foi além do Guairá, de onde voltou com
indios apresados. Sabe-se que um dos participantes foi o espanhol
Marta Rodrigues Tenório.
Os resultados mineralógicos dessas e das anteriores mostraram-se
parcos, mas eficientes noutros aspectos: 0 vale do Paraíba ficou devas-
sado; uma via terrestre foi aberta para Mogi iniciado o caminho de São
Paulo rumo ao território das Gerais; aprofundamento na diretriz
parano-paraguaia, e conhecimento das regiões percorridas. E o que
também importa: as entradas, até então mal organizadas e sem roteiros
prefestabelecidos, tomaram O caráter de bandeiras disciplinadas, com
estandarte, feitio militar, ouvidores do campo, escrivães e capelania.
Acentua-se a divergência entre os moradores € Os jesuítas, porque O
overnador necessitando da colaboração dos habitantes, fechou osolhos
ao apresamento de indígenas, coisa proibida por lei em 1595.
Em meadosde 1609 estava em São Paulo, de novo, o ambicioso
fidalgo, quando firmou sociedade com Diogo de Quadros e Francisco
Lopes Pinto para exploração de um engenhode ferro. Persistiu porém
na faina mineralógica, tentandodescobrir ainda a Sabaráboçá,mas fale-
ceu em junho deIGI1,envenenado,segundocerta versão, porque os
paulistas não descjavam o entabulamentodas lavras planaltinas. Salvador
Correia de Sá e Benevides num depoimento que deu em 1677,
reportando-se à ação de D. Francisco, acrescenta que na mesma ocasião
morrera um mineiro que o governador levara consigo às minas, o qual,
segundose dizia, afirmaraque do ouro existente faria uma fundição como
a cabeça de um cavalo?*Mas teriam elas existido realmente? Embora se
tenha pretendido escondê-as, parece quealgo deverdadeiro havia.
Então, por morte do ex-governador, confiou $. Majestade a direção
mineralógica ao velho Salvador Correia de Sá, a quem, com os descen-
dentes, caberia com justiça a honra de serem os mais abnegados «
contumazes pesquisadores em todo o meio século XVIIS, No regi-

274
mento passado âquele, a 4 de novembro de 1613, relativo às minas da
capitania de São Vicente, declarava el-rei estar informadode que nela as
havia de ouro e de outras espécies,e porisso achava por bemencarrez
lo de averiguar a verdade, dando-lhe, para tanto, jurisdição sobr
autoridades cívis, militares e câmaras, e mais o polpudo ordenadode
6008000, o direito de servir-se dos índios que fossemnecessários e de
valer-se de todo o rendimentopertencente à Fazenda. À sua alçada, por
conseguinte, era bastante ampla, devendo agir conformelhe aconse-
lhasse prudência. Mas, de tudo quanto ocorresse, exigia Filipe Tl “me
dvisareis mui particularmente, e miudamente'8, Istoé, S. Majestade dese
java ser avisadodireta « sigilosamente a curtos intervalos.
Em fins de junhode 1616 Salvadordeve ter chegado a São Paulo,
acompanhado pelo irmão Duarte Correia Vasqueanes, pelosfilhos Mar-
tim e Gonçalo Correia de Sá e por muitas outras pessoas das vilas
litorâneas é do RiodeJaneiro. Sucedeu, pois, um novo surto populacio-
nal, ralvez poucoinferior ao do tempo de D. Francisco. Pelo qu
encarregou aJorge Neto Falcão fornecer aos dacomitiva a imprescin.
vel alimentação. E dias depois escreviaa el-rei dizendo quese encontrava
nas roinas, as quais, de fato, tinham ouro. À 10 de outubro Salvador
regressava ao Rio com o filho Martim, deixando o posto à Duarte
Correia Vasqueanes, por algum tempo. Em 1620 o lugar passa « Martim
que, agora, acumula tambémoutroscargos de importância para as €
tanias do Sul, revelando-se em todos um bom servidor da Coroa. Mas,
nesse período, pouco se realizou sobre ointento, mesmo quandoos
sucedeu nadireção das minas Manuel João Branco, sujeito ativoe até
suspeito, e no ano de 1639 certo Antão Lopes da Hora”.
Nisto sobrevém restauração de Portugal, que propícia à Câmara de
São Paulo a oportunidade paraenviar deputados a D. João IV,sendo
Belchior de Borba Gato um dos escolhidos. Aonovosoberanodeclaram
que Os sertões da capitania são ricos de outo « prata, estandoos
paulistasdispostosa aquinhoar a Coroacom outro Potosi nesta parte da
América?8. E de fato, já se extraia ouro de lavagemao longoda costa
meridional, de Cananéia a Curitiba. As atenções, aí, se tinham voltado.
igualmente para osaldeamentos jesuítas do Guairá. Em 1664D. Afonso
Vi animaos paulistase novas expedições. Assim, em consonância com os
desejos de S. Majestade umaleva de expedicionáriosde São Paulo, de
que fazem parte Brás Rodrigues de Arzão e Fernão Pais de Barros,
acompanha em1665 a Agostinho Barbalhode Bezerra aos sertõesdo
Espírito Santo, em demanda da Sabaráboçú. Anos depois, ou seja, em

275
1671, outra expedição segue para o Nordeste, dividindo-se calvez em
duas, O certo é quenesse anoum grupo de paulistas se encontra no
recôncavo baiano combatendo oinimigo indigena, cuja presença era
danosa colonização. Eerre os integrantes estavam Brás Rodrigues de
Areão. O outrogrupoouleva, também sai em 1671 e é comandada por
Sebastião Pais de Barros « FernãoPais de Barro, notáveis sertanistas,
filhos do antigo capitão-mor. Após varar O interior, vai deter-se mas
cabeceiras dos rios Tocantins e Grão-Pará. Gente de fibra, essa, que
percorre léguas e léguas,a prear índios ou descobrirminerais preciosos,
ligando o Sul ao Norte pelo “hinterland” e abrindo caminhos. Sabe-se
que os integrantesdemoraramali umtempo mais ou menoslongo,pois
quando a notícia chegou à Corte, el-rei enviou ao seu encontro o padre
Antônio Raposo, em 1674, para queeste averiguasse se tinham achado
algum mineral, como se propalava. Não os viu, porém, O sacerdote,
constando que a bandeira fora desbaratada pelosíndios. Ora, é bom que
se esclareça que o pe. Raposo era paulista também,filho dohebreu de
igual nome e de Inês da Mota,e vigário de São Vicente até há pouco, e
que, porisso, conhecia os referidos sertanistas?º.
Aotempoem que o padre Rapososaía ao encalço dosirmãosPais de
Barros, um parente destes, ou seja o famoso Fernão Dias Pais,apesar de
velho, lagava deSão Paulo à procura das esmeraldas, levando em sua
companhia, alémde outros paulistas e grande número deíndios, o filho
Garcia Rodrigues Pais e o gento Manoel de Borba Gato. Isto a 21 de
julho de 1674. Andaram pelosertão durante anos, parando aquie ali,
para O plantio de roças, que, posteriormente, deram origem a alguns
povoados. Chegaram até ao Serro Frio, no âmago do Brasil, local exato da
Sabaráboçu tão decantada No regresso, à margem do rio das Velhas,
junto ao Sumidouro, atacado de maleitas, morreu o denodado varão
(1681) sob o delirio de supostas riquezas, julgando que as pedras verdes
que trazia fossem esmeraldas verdadeiras.
Fernão Dias realizava um velho sonho, há tanto almejadopor dezenas
de corajosos sertanistas, e abria o caminhoda fortunapara as gerações
seguintes, Bem merecera o “caçador de esmeraldas”os versos inspirados
do grande Olavo Bilac, quando disse
“Cada passada tua era um caminhoaberto!
Cada pouso mudado, uma nova conquista!
E, quandojas, sonhandoo teu sonho egoista,
Teupé, como o de um deus,fecundava o deserto!”

276
Entretanto, apesar do seu aparente fracasso, a expedição conduziu a
futurosresultados de estupendas consegiiências. “O governador das
esmeraldas” desenvolveu o caminho trilhado em 1601 por André de
Leão, demarcando-o com as roças plantadas noslocais de maior demora,
de sorte que as bandeiras posteriores encontratam nessas escalas exce-
lentespontosde referência. Graças a estes pontosfoi possível a Garcia
Pais retornar à Sabaráboçu,explorar a região e descobrirourodelavagem
nos ribeiros que por ali correm. Logo após seguem-lhe o exemplo
Manoel de Borba Gato e tantos mais, porque chegadas a São Paulo as
novas sobre o descobrimento das esmeraldas, prepararam-se outras en-
tradas. À 19 de março de 1681 para lá seguia o administrador das minas,
D. Rodrigo deCastelo Branco, que, todavia, meses depois era assassi-
nado por Borba Gato juntoao Sumidouro, e uma tradição afirma que o
motivo consistia em não se lhe querer revelar o segredo”.
É curioso, porém, silêncio reinante até 1693, parecendo queos
paulistas e a Coroa se houvessem desinteressado das boas novas. Não
seria o caso de aquelestirarem proveito para si, secretamente, antesde
exibirem o fulvo metal conforme preceituavam os regimentos de el-rei?
Devem levar-se em conta outrosfatos que se passavam no momento,
capazes de, porsi, desviarem inteiramente as atenções para o Sul. No
ínterim prossegue em Cananéia, Iguape « Paranaguá colheita de ouro, e
em 1680pretende-se mais uma vez explorar jazidas em Sorocaba. Na
mesmaocasião, numerosopessoal de São Paulo e demais vilas se
contra ocupado no estabelecimento da Colônia do Sacramento. Dois
anos após, ou seja, em 1682, o Principe pede a Guilherme Pompeu de
Almeida, à PedroVaz de Barros,a Antônio de Godoi Moreirae a outros
para que,juntos com fr. Pedro de Sousa, averiguem a verdade acerca das.
minas de Sorocaba "novamente descobertas!!, Neste mesmo anodá-se
umarevolta dospaulistas, porquelhes querem desviar os indigenas para
interesses que não são os seus?2, Isso pode explicar porque só em 1693 se
tomaconhecimento de uma provável entradaaosertão do rio da Casca,
chefiada por Antônio Rodrigues deArzão3, onde teria achado cascalhos
auriferostt, É daí em diante que se renovam as buscas,aliás felizes,
porquanto elementos de São Paulo, de Taubaté de Lorena, descobrem
o precioso metal em diversas partes doterritório que tomou o nome de
Minas Gerais. O auspicioso acontecimento coincidiu com a gestão do
governador AntônioPaísde Sande,o qual pouco realizou,impedido por
enfermidade apoplética, cerca de ano e meio após a investidura. Em tal
circunstância assistiram-no dois médicos cristãos-novos do Riode Ja-
neiro, AntônioCorreia Ximenese Francisco de Siqueira Machado,que,
sem dúvida, além das questões administrativas, se inteiraram do queja
pelas minass
Osdescobrimentos auríferos, quer os de lavagem, quer os de beta,
sobretudoos das Gerais, produziram efeitos extraordinários, comreper-
cussão até noVelho Mundo. Vamos destacar apenas alguns.
1. Os pautístas, que tinhamsido grandes caçadores de indigenas,
consagraram-seà mineração, recorrendo agora mais ao escravoafricano.
2. Asárcas de exploraçãoforam-se povoandorapidamentea tal ponto
que o “rush” produzidoabalou de modosensível à vida social, adminis-
trativa « econômica das vilas sulinas
3. Oacúmulo de genre nas Minascausouafome e a consegiiente
carestia nos preços de muitos artigos. Mas,de outrolado,obrigou a
dispersões na busca de meios de subsistência, dando origem assim, a
novos núcleosde povoação.
4. O aumentoda população nas Minas, a criação de vilas, asimpli-
cações decorrentes do novo“status”, levaramao estabelecimento de
5. A administraçãopública noRiode Janeiro, por ser a cidade real
mais próxima dos entabulamentos, necessitou de maiores cuidados
6, O comérciost intensificou nesta última, tornando-a mais próspera
ainda. Resultandodai dois fatos importantes: a abertura de caminhos
mais rápidose seguros para as Minas, oprimeiro dos quais se deveu à
Garcia Roiz Pais. O segundo fato é relacionado com osataques dos
franceses em 1710 e 1711, e parece que também em 1709,ávidos por
riquezas.
7. À ligação da Bahia-Minas com o aproveitamento de antigasvias de
penetração, inclusive o rio São Francisco.
8. A deslocação de numerososindividuos da progênie sefardita para
as Minas, com diluiçãode crença « de sangue.
9. O surgimento das lutas entre paulistas e “emboabas”, cuja respon-
sabilidade se deve a Manoel Nunes Viana, hebreu português. Viu-se,
ementos da mesmaestirpe lutandoao lado das duas facções. O
cabeça dos paulistas era o cap. JerônimoPedrosode Barros.
As Minas haviam atraído numerososindivíduos, muitosdos quais
eram portugueses, apelidados de "emboabas” (por andarem calçados à
semelhança de certas aves que tinham os pés cobertosde penas). Não
cardaram a surgir desavenças com os paulistas, que, por serem os desco-
bridores, gozavamde privilégios. Manuel Nunes Viana, à princípio
buscou acalmar os ânimos. Ante novos conflitos, os patrícios e forasteiros
o aclamaram governador das Minas; mas os paulistas recusaram-se a
reconhecê-lo. Emfevereiro de 1708,o sargento-mor Bento do Amaral
Coutinho, enviado por Viana, derrotou-os no lugar chamado Capão da
Traição, ondeuns trezentos foram cruelmente trucidados. Documentos
Oficiais atribuem aos dois a culpa por esses acontecimentos, devendo
ambosser condenados à morte. Todavia, Amaral Coutinho falecia meses
depois, lutando no RiodeJaneiro contra osfranceses, e Viana, por ser
homem riquissimo,obreve as boas graças do governador-geral e do
Soberano.
10. A ação rigorosa do Santo Oficio noRio de Janeiso,a partir de
1705, fazendo prendera sua clientela de cristãos-novos,talvez se ligue ao
referido surto sócio-econômico. Eles constituíam elevado indice na po-
pulação; muitos eram senhores de engenho,mercadores ou funcionários
públicos. Até nas Minas os foram apanhar.

Notas

1+ À Anunciada fora armada por conta de D. Álvaro de Bragança e de Barho.


lomeu Marchione, futuro consócio de Loconha no arrendamento do Brasil.
2- Apud Jaime Conesão, A Carta de Pers Vaz dk Caminha, pestim.
3- Estão nesse rol, a de Vespúcio em 1502, as do consórcio de Noronha, e outras
quer antes quer após « expedição que veio ao Brasil sob o comando de Martim
Afonso de Sousa.
4 = Img. de Losbna, proe. 11.550.
5 - 1.6. Salvador Op. cit, p, 145.
$ - Teto Medina fit. DM Teunal Del Sama OfDe La Ing cu St
7 = Eram eeibunais aucónomos e, portanto, sem rejação com os da Espanha. O pri-
merofo criado
= ldem, ibid, era 1519,
8 o ldem, ibidem,
9 = Idem, pp. 97 ep.95,
segs.
20 - Rev. Judiica, B. Aires, n.º 166, ano de 1948,pp. 134 « 135
11 - Carvalho Branco. Dicionário, p. 198,
12 = Guilhem tomou parse depois na encrada de Vasco Rodrigues Caldas em 1560,
determinada por Mem de Sá para pesquisa de migas de our,
= Idem, ibid

279
13 = O contato dosisraelitas cor diferentes povos desenvolveuneles o dompara as
línguas, pelo que foram excelentes intérpretes
1á - Idem, p. 142. Serafim Leite, Cartas, vol. 1, pp. 171, 175.
15 - Basfio Magalhães, Expanião Geográfica do Brasil Colmial, 2d. é pp.78 é
segs
16 - Domingos Ribeiro ainda vivia em 1591, quando foi denunciado à visitação,
Porque, contratiando as leis, dera uma espingarda a troco de uma escrava.
Dr. Bb.. pp. 269 « 297.
17 Frei Vicente do Salvador. Op. et, pp. 196 e segs
18 - Alão de Morais. Op. cr.
Dm. Bb, 1591, p. 568,
= Luísde Bivar Guerra. Um Caderno de Cristãns-nons de Barcls
19 - Carvalho Franco. Op, p. 341
20 - Bastio de Magalhães. Op. ci. pp. 43 e segs.
21 - Dm Bh, 1591, p, 560.
22 Img. de Lisbna, proc. 10.776.
= CF Bb, 1591, p. 104 e segs.
- Varmbagem, Op. cz. vol. 1, pp. 40 e segs.
- Erei Vicente, Op. ci. pp. 284 e 285,
= Basílio de Magalhães. Op. cit, pp. p. cit, 48 segs
Anthony Kaivet. Op. ct, pp. 21 e segs
John era negociante aqui, « segundo consta, foca casado com uma filha de
Jerônimo Leitão. Também «e exploravam na ocasião as prováveis jazidas aurife
ras de Paranaguá.
28 - Frei Vicente do Salvador. Ob. ct. 1. DX. cap. 1
29 Idem, bidem, p. 300,
30 João Pereira de Sousa, nasceu em Tuí,na Galízia Nunca usou o sobrenome de
“Botafogo”, Casou em São Vicente por voltade 1589 com Ceríia de Oliveira,
descendente de Martim Afonso de Sousa € dos Gomes da Costa (ou Mota)
tudo em contrário do que escreveu Pedro Taques.
- Vejase o nossoartigo iatitulado "João Pereira de Sousa”, em O Estado de São
Paula de 8.871, nº 732, p.2.
31 = Ing. de Litbua, procs. 6.098 16.902
32 - O sobrenome Soeiro era comumentre 05 judeus ibéricos, cf. Den. da Babia e
de Pernambuco, e também proc, do pe, Manoel de Morais, idem No Tempo das
Flamengos, de José A, Gonsalves de Melo.
Por João Pereira de Sousa € por seu companheiro Sebastião deFreitas se
podem julgar os demais, pois tinham alguma cultura e desfrutavam de boa
Posição social. Desee último que romou parte naentrada de Manuel Soeiro aos
casijós (1595) e noutras posteriormente, se fez denúnciaao visitador Pires da
Veiga, porque negara a virgindade de N* Senhora proferindo biasfêmias.
cd du Promotor 0.º 26, p, 14
33 Varmbagem. Op. cit. vol. 1, pp. 140 e segs
34 - Varahagen. Op. cit. vol 1, cf. Indice
- Mello Morais. Op. ci
= Carvalho Franco. Ditimmário. pp. 393 e segs.
- Basílio de Magalhães. Op, ci, pp. 85 e segs
- BNRJ. Anais, vol. 39, p. 199.
“Re 1HGB. XUL pre. 14,9.

280
Salvador reunia, além da experiência, 0 conhecimento da arte de minerar, que
aprendera em Potosi, antes de 1601, conforme revelou 6 neto num relatório
em 1677.
36 - Varahageo. Op, cit, pp. 153 e segs
37 Varnhagen. Op. cit, vol. 11, pp- 138, 153 e segs,
- Carvalho Franco. Op. cit. peu
Basílio de Magalhães. Op. cit. 90 e segs,
38 - Pedro Taques. Informação sobre as minas de São Pauls, 14,
39 HG, ms. n.º205
1G. Salvador. Op. ci. «£ Índice, p 220.
= De volta ao Reino, 0 padre cafu nas mãos de piratas turcos, que 0 levaram para
Argel, e de cujo catiseiro o resgatou 0 regente D. Pedro
ldem, ibid
- Em 1681 D. Pedroo apresentou na abadia de Sta. Maria Madalena de Cha-
40 AH, -SP. cx 1, doe 40,
Faro semelhante se teria passado com D. Francisco de Sousa, talvez envene.
nado, cf. BNRJ. Aneir, vol 39, p. 199.
AHU. cod. 223, p. 31
- Efemirides Paulistas, em Rev do LH GS
Acrão era neto do cristio-novo Martim Rodrigues Tenório e do protestante
Cormélio de Arrão.
44 - Basíio de Magalhães. Op. ct. pp. 155 e156,
45 - BNRJ, Docs, Históricos, vol. XI, 1929, pp. 203, 204,
É fato inegável que, também, desde essa ocasião muitos hebreus passaram às
Minas. Documentos do Santo Ofício e de outras fontes comprovam-no sufi-
Viana tendochegado à Bahia em fins do século XVII, por volta de 1703 foi
normcado mestro de campo do rio $. Erancisco, entregando-se em consonância
à pecuária. Passou, então, a contrabandear gado e ontras mercadorias para as
Minas, e ouro, no regresso. Não satisfeito, associou-se com o primo Manuel
Rodrigues Soares, na exploração de minas na regido do Caetê. Apesar dos
abusos, anos depois recebeu O hábito da Ordem de Cristo e a tença de
100090 rs
Carvalho Franco. Dicionário de Bandeirantes - Ing. de Lithia, proc. 9.973,
AP ese

281
CAPÍTULO QUINTO

O RECUO DA LINHA DE
TORDESILHAS E OS CRISTÃOS-NOVOS

O tratadode Tordesilhas foi o produto de dificeis negociações entre


D.João II, dePortugal,e os Reis Católicos,porqueo primeiro,estribado
em diversas bulas papais, admitia que as terras descobertas por Colombo
pertenciam à Ordem de Cristo, da qual erao administrador,e, porisso,as
reivindicou. Recorrendo também a semelhante lógica, se opôs à bula em
que Alexandre VI concedia 20s Reis Católicos as que estivessem situadas.
ao ocidente de um meridiano afastado cem léguas das ilhas dos Açores e
Cabo Verde". Portugal chegou a aprestar-se para a guerra que, no
entanto,foi evitada, quando a diplomacia da nação vizinha interviu com
propostas amistosas. Os plenipotenciários dos dois lados, porfim,redigi-
ram o célebre tratado, que os reis de ambas subscreveram? a 370
Pelo acordo ficava estipulado que o novo meridiano passava
léguas do arquipélago de Cabo Verde,e não a 100,beneficiando em270
o monarca português. Foi, sem dúvida, uma grande vitória, que,todavia,
parecenão ter agradado plenamente a D. João II, no momento, certo,
talvez, de existirem outras terras além do meridiano. Quer, porém, vi-
sasse apenas assegurar tal possibilidade, ou não, bem cedo se procurou
estender ao máximoo domínio pormguês, adaptandoa linha divisória
aos conhecimentos alcançados, desde quando se atingiu-o estuário do
Prata e a foz do Amazonas. Esclarece professor Jaime Cortesão que O
mapa de Lopo Homem, traçado em 1519, já estabelecia como +raço
demarcatório uma linha vertical ligando aqueles dois pontos, e que O
mesmo serviu de padrão cartografia pormguesa dos séculos XVI e
XVI. E mais, que esses pontos estão marcados por bandeiras porugue-
sas, comosinal deque a Coroa reivindicava todo o espaço intermédio?

283
Noinícioointeressevoltou-se especialmente para o Sul, de sorte que
a região de Santa Catarina (ou Viaçã) até ao Rio da Prata, tornou-se uma
área de liúgio, embora englobadapordireitonoquinhão deCastêla. O
problema se afervorou à medida que cresciam as notíciasacerca de
riquezas nos Andes. A entrada de Aleixo Garcia demonstrou que se
poderia alcançaro altiplano,viajandodesde a regiãodos Patos, unindo
caminhosterrestres e fluviais. Tambémse sabia que remontando o Prata
se adentrava o continente até paragens ainda ignoras. A armada de
Martim Afonsorecebeu ordens, semdúvida, para explorar oestuário e
fundar povoações daí para cima, na costa atlântica, visando a posse da
terra. À escolha de SãoVicente, um poucomais ão norte, para sede da
primeira vila, obedeceua esse planoe a fimdeevitar os melindresda
Espanha. Aose fazera divisãodoterritório em capitanias seguiu-se este
critério, de modo que, tanto no Norte comonoSul os limites foram
fixadosteoricamente conforme o acordo de Tordesilhas. É sintomático,
porém, que o cosmógrafo oficial da coroa portuguesa, Dr. Pedro Nunes,
amigo íncimo de Martim Afonso e com quem se entrevistou após o
regresso a Lisboa, dava à costa brasileira a extensão de 1050 léguas, ou
seja, 700 léguas a mais doque possue agora. E que essa crençase
generalizoufora dos meios palacianos,revelam os nossosautores colo-
niais. Gabriel Soares de Sousa, cuja obra data de 15848, referindo-se às
demarcações do Brasil, considerouválida a opiniãodaquele sábio,o qual
mesta arte atinoumelhor que todo os do seu tempo”, e daí terem-lhe segui.
do aspegadas também osfabricantes de mapas “como pelas cartas se bode
ver”, diz o mesmoGabriel. Assim, a costa do Brasilcomeçava além do
rio das Amazonas, a umas quinze léguas, e se prolongava para o Sul até
45º mais ou menos, à altura da baía de São Matias, muito abaixo do
estuário platino*. O exagero é evidente, para ambas as direções, porque
os portugueses davam a cada grau o valor de dezessete léguas e meia, €
os espanhóis um pouco menos, sendo esta uma das causas da confusão
existentes quanto à profundidade alcançada pelo meridiano. Alémde
nossolitoral ser bastante irregular, ignorava-se a distância exata entre a
mais ocidental das ilhas de Cabo Verde, que era a de Santo Antão, e a
costa brasileira. De qualquer modo, em fins doséculo XVI,já se admitira
que os limites naturais dopaís eram o Amazonas c Praca, Ambrósio
Fernandes Brandão endoçou nos Diálogos à tese de que as terras do
Brasil tinham oseu princípio norio das Amazonas?, e frei Vicente do
Salvador, que escreveu em 1627, também a aceitava, estribado nofa
moso Dr. Pedro Nunes, e secundandoo autor da Notícia do Brasil. O

284
historiador franciscano mantinha a teoria de que O limite meridional vai
além da baía de SãoMatia s, mas, do ponto de vista prático “é não che-
gas o Brasil mais que até o rio da Prata”.
Desde mais ou menosa expedição de Martim Afonso,as duas coroas
têm os olhos postos na região medianeira de Cananéia o estuário
platino. À corte espanhola alarmou-se quando,porisso, obteve notícias
acerca dos feitos realizados pelo referido capitão-mor, e de não menos
estremecida quando em 1534 uma armada sob o comando Pero do
Campo se dirigiu para o Brasilev ando unsseisce ntos homens,s endo que
muitos acompanh adosdas respectiv as mulheres. O objetivoe ra a coloni-
zação e, provavelmente, o destino seria São Vicente, Então, pela cédula
real de 3 de março de 1535, ordenou ao embaixador Luís Sarmento, em
Lisboa, averiguar se oalvo da expedição crao BrasildaouEspanhao Rio da Praca(8)
Umacoisa é certa: no ano seguinte a rainha esteve no
propósito de firmar diversos documentos à favor de Gregório de Pes
quera Rosa autorizando-o colonizara área de Cananéia ao rio Mas, de Santa
Catarina, certamente para se contrapor aos planos de D. João LIL. por
motivos desconhecidos, declarou nula a document ação e mandoura sgá-
1º. A causadistotalvezse prendesse àarmada quea 24 deagosto de 1535
partira de Sanlúcar de Barrameda a povoar o Prata. À capitulação outor-o
gada a D. Pedrode Mendoza, a tal respeito, dava-lhe alçada sobre
território compreendido entre os paralelos de 25º e 36º, e, portanto,
sobre aquela área também. Ássim, igualmente, a fundaçãoplatino porele da
primeira Buenos Aires objetivou assegurar a posse do vale paraa
Espanha e abrir caminho para as riquezas andinas e paraguaias !o. O
fracasso que se seguiu, resultou em ganho para ossúditos portugueses,
pois deixava-or livres para o tráfico de indígenas qué começar am a fazer
nos Patos, mais ou menospor esse tempo. Nem a expediçã o comandad a.
por Alvar Nuhes Cabeza de Vaca (1541-1542),ligan do Santa Catarina ao
Paraguai, por terra, veio a produzir maiores embaraço s mesmo sendo a
rota prefexida, antes que a do Rio daPrata
A coroa espanhola pensouentão, que, para atalhar ingresso dos
porugueses nos limites da demarcação, e obter comunica ções mais
rápidas com o Paraguai e o Peru, convinha fundar umapo voação na costa,
e confiouacarefa a Hernando de Trejo, que,de fato,em 1552, acriou sob
o nome de São Francisco. E de novo, ao cabo de pouco tempo, tudo
sossobrou, porfalta de auxílio da pátria,possíveis ataques dos portugue -
ses de São Vicente e de corsários, como também em razão da longa
distância quea separava do Paraguai. Umquingúênio depois confiava-se

285
ao governador de Assunção obra semelhante, conforme a cédula real de
26-11 de 1557,mas osseusrecursos mareriais e humanos eram escassos,
e além disso, importava povoar colonizar O próprio território para-
“guaio. De faro,de 1556 a 1570 surgiram ali Ciudad Real e Vila Rica del
Espíricu Santo, ao passo que a imensa região de Tucumã, intermediária
com os Andes, também mal começara à povoar-se!. Eneretanto, os
moradores da capitania vicentina renovavam de ano para anoas entradas
ao Sul em demanda de “peças” para as suas lavouras. À princípio vão
caçá-las próximoaolitoral e dentro da área circunscrita pelo meridiano
de Tordesilhas, porém, à medida que os silvícolas se refugiam terras a
dentro, saem-lhes no encalço. O rumo é não só o do Paraguai, mas,
sobretudo o dos Patos, na última parte do século,fazendo-se a viagem
por mar ou porterra. O caminho corresponde em seustraços gerais ao
antigo “peabirá”, ou caminho de São Tomé,trilha batidapelos indígenas.
Emcertoponto ele se entroncavacom o quedosPatosiadarao Paraguai
Um dos primeirosa resgatar nas partes de Santa Catarina, foi Pascoal
Fernandes, morador em Santos, e que nesse comércio chegou a empre-
gar um navio!?. Em 1550 por lá andoutambém, em catequese,o padre
jesuíta Leonardo Nunes,cristão-novo, e três anosapós o governador
Tomé de Sousa o incumbiu de voltar ao rio dos Patos, a fim de trazerpara
São Vicente os remanescentes da armada de Juan de Salazar que se
encontravam desamparados e sem recursos. Mas, o objetivo do socorro,
não seria outro senão o de impedir 0 repovoamento do vilarejo de São
Francisco por espanhóis's,
O interesse dos portugueses por toda a região Sul acentua-se ainda
mais à partir desta época, porque ao Brasil haviam chegado notícias
seguras sobre a abundância de ouro e de prata no Peru, e do sertão
vicentino — paraguaio se dizia o mesmo4, Em consegiência/ Tomé de
Sousa determina fechar o caminho de acesso ao Paraguai, com o que
tolhe o seu comércio de escravos indígenas, e desse modo obriga a
açá-los nas terras do Viaçá. Iniciam-se pouco depois, também,as buscas
de metais preciosos ao longo das capitanias meridionais, em Cananéiano
vale do Ribeira, e se acredita que noutros locais. Assim, as próprias
entradas para o Sul assumem dupla finalidade: o apresamento e a desco-
berta de minérios!
Toda região vai sendo descortinadae passandoao domínio dos
portugueses, coisa que autoridades castelhanas na América não ignoram
e procuram evitar. Um destes ensaios deve-se ao tesoureiro Montalvo, o
qual, em 1579, propôs à sua Coroa a formação detrês governações,

286
abrangendo a primeira a área desde Cananéia ao Rio da Prata; a segunda,
estendendo-se do Estreito de Magalhães e cordilheira do Peru até à boca
do Paraguai; e a terceira,as terras do Paraguai ao Amazonas's. Noutras
palavras, os castelhanos pretendiam confinar acolonização lusa dentro dos.
limites estabelecidos pelo acordo de Tordesilhas, conforme o interpreta-
vam. À medida não se concretizou por múlciplas razões, sobressaindo-se
dentre elas a da união das coroas em 1580, porque desta se souberam
aproveitar os portugueses de São Paulo,identificados com idéia de que
todo o sertão vicentino-paraguaio até ao Rio da Prata pertencia ao
domínio luso. Tanto isto é verdade, que Tomé de Sousa, logo depois da
viagem que fez a S. Vicente, escreve à D. João III, em de junho de
1553, e o avisa de quea cidade de Assunção “parece-nos a todos queestá na
demarcação de Vossa Alteza; e, se Castela ysto negar, malpode provar que o
Maluco seu ”, é solicita orientação régia"?. O padre Nóbrega, achando-
se em São Vicente esposava a mesmaopinião, e quinze dias depois da
cartadeste,escrevia também dali,a 30 de junho,o capitãoJuan de Salazar
ao ConselhodasÍndias, dizendo, a propósito de umadiscussão que
sustentara com Antônio deOliveira, loco-tenente do donatário,e com
Brás Cubas, queeles lhe responderam “que no conecen otro Rey né Seiior
simo al suyo y que el Rão dela Prata el Paraguay es delRey de Portugal
evidente, por conseguinte, quea concepção herdadade Martim Afonsoe
do Dr. Pedro Nunes, passou aos colonos e se ampliou abrangendonela o
território doParaguai, como viria incluir o Amazonas. Cristãos-velhos,
csistãos-novos e jesuítas portugueses estavam, pois, de acordo neste
ponto. Apenas uma coisa distinguia osdois primeirosdosinacianos: à
escravização dos indígenas. Para aqueles era tão natural caçar índios
como pesquisar minérios, ainda mais dentroda jurisdição de Portugal,
comosupunham.
Acontece que osindígenas daregião sulina, designados pelo cog-
nome de “carijós”, pareciam ser dos mais pacíficos, tornando-se porisso
calvo preferido pela gente de São Paulo. Atacados poreles, noprincípio,
os paulistas limitaram-se à defensiva, mas, assim que adquiriram força,
foram dar-lhes caça. Há já algumas décadas tinham aprendido a guer
los. Osjesuítas obtêmleisem 1570 e1575 que protegem osseus pupilos,
mas osescravistas sabem contorná-las. Assim, sob O pretexto de que
eram inimigos, porque em 1531 haviam trucidado a expedição de Pi-
nheiro Lobo, organizou-se em 1585 uma bandeira, cujo comandofoi
entregue ao capitão-mor JerônimoLeitão, e dela fizeram parte, dentre
outros, Manoel Fernandes Ramos, Simão Machado, genro de Martim

287
Gomes da Costa,o padre Sebastião de Paiva, Salvador Pires e outros.
Chegando a Paranaguá, internaram-se pelo sertão, via Curitiba, donde
volveram à capitania em julho do anoseguinte com numerosa presa!
Então, oconflito com os jesuítas, mais ou menos velado, vem à tona,
agora. Em 1591 o capitão-mor chefia nova bandeira para dar guerra ao
gentio, e comodaquela vez, só tinham ficado para trás, mulheres e
crianças?o. Tempos depois é Martim Rodrigues Tenório que segue para o
Sul, ao que parece, chefiando umaentrada preadora.E,assim,diversas
outras. Em 1595 sai nova lei tratandodo problema escravista, a qual,
todavia,o agrava por permitir a guerra justa, pois sempre se encontrariam
razões paraisto, É curioso queMartim Correia de Sá, considerado amigo
dos jesuítas, exploroua região dos Patos desde fins do século XVI, com
certa regularidade, dirigindo expedições de resgate. Comosertanista e
preadordeíndios no médio e noalto Paraíba, distinguiu-se em seguida na
caça aoscarijós de Santa Catarina, por onde já em 1584 andara um dos
tios, Duarte ou Manuel Correia. Martim, aoque se admite, comandou
umaenerada paraai em 1590, e outrassucessivamente, em 1605, 1GI8,
1620e 1628. A finalidade era, também, de combater naviosestrangeiros
que costumavam surgir na região, interessados nas minas que se dizia
haver nela, obter informes sobre 0 “hinverland”, ou interceptar a praca
que descia dos Andes, Alvarás de 1618 concediam a Marcim faculdade
de reduzir à écristã o gentio carijó,com o quese evitaria, ;pyofaso,o seu
trato com osestrangeiros. Nas bandeiras de 1620e 1628 levou como
capelão, respectivamente, os padresjesuítas Francisco de Morais e Frad-
cisco Carneiro, e numerosos foram osíndios apresados. Em decorrência
dos referidos alvarás, fundou diversas aldeias na capitania do Rio de
Janeiro, mas, o proveito que tirou para si, revela-se na exiguidade do
número de aldeados, excluindo-se, evidentemente, osque cativouantes
isso!
Por alguns anos, à região sulina permaneceu em relativo sossego,
porqueos paulistas, “Segadores de Satanaz”, conforme os chamavam os
inacianos, voltaram osolhospara Guairá. Mas depois, quandoestes
removeram para o Tape?as “peças” que lhes sobejaram, a gente de São
Paulo Já as foi atacar.
Em 1636 o extraordinário Antônio Raposo Tavares é compa-
nheiros investem contra as “reduções” e as ocupam. De 1637 a 1641
dão-se novas investidas, sucedendo que a Província do Uruguai caí em
poderdosde São Paulo. Contudo, no interim, tendo os missionári os
amadoos indígenas, conseguem deter a onda avassaladora. Àúltima
dessas bandeiras leva àsuafrente Manuel Pires,sogro deTavares, e como

288
adjunto Jerônimo Pedroso de Barros,filho do antigo capitão-mor. As-
sim, a região sossegou por dez anos, ocupando-se os paulistas em socor-
rer o Nordeste. Porém,noano de 1651, aproveitando-se da guerra entre
Portugal e Espanha, os paulistas, capitaneados agora por Domingos
Calheiros e Brás Rodrigues de Aszão,tentam destruir as novas reduções,
mas sofrem uma derrota. Apesar disso as regiões do Tape e do Guairá
restavam devassadas, abertos os caminhose a colonização em avançona
retaguarda mediterrânea. Assim, por volta de 1614, Gabricl de Lara
emigra de São Pauloe funda Curitiba. Outros vão fixar-se nas proximida-
des de Pararaguá, a qual, em1653, é elevada a vila??, Os moradores se
entregam à criação de gado, atividade comparável à desenvolvida um
século antes no Nordeste e mais tarde noalto São Francisco, onde os
currais desempenharam importante papel. Por sta época tambémse
extraia ouro na região de Paranaguá e ainda nas vésperas da fundação da
Colônia doSacramento, de que seria um dos motivos,além de se querer
definir para sempre oslimites do Brasil nas barrancas do grande Rio da
Prata, considerando-se que oterritório caía dentro da capitania de São
Vicente?8, Já antes, ao ser criada a diocese episcopal do Sul, a Coroa
incluiu na respectivajurisdiçãotoda à área até aoreferido curso dágua,
porquanto Poreugal jamais abrira mão desse anhelo.
A colonização de Sacramento veioconcretizar uma obradehá muito
enscjada, sendo a tarefa confiada a d. Manuei Lobo?S. À expedição
juntaram-se elementos do Rio deJaneiroe de São Paulo,inclusive da
ernia hebréia. O papel desempenhadopelos paulistasfoi mesmo dos mais
notáveis, visto conhecerem a região « teremcontribuído para o em-
preendimento com toda sorte de recursos. Pedro Taques salienta, à
propósito, a ajudaimprescindíveldossertanistas FernãoPais de Barros e
de Fernão Dias País,já conhecidos no Reino, caquem oprincipe regente
escrevera solicitandoajudassem a D. Manuel Lobo. Este,dirigiu-se então
a São Paulo, onde se hospedou nacasa do primeiro, o qual lhe providen-
ciou onecessário para a viagemao-Sul, deu-lhe 1008000em dinheiro e
pos disposição da Câmara 40 arrobasde prata em baixelas, para, com o
produto,se atender ao planoa que vinha o governador do Rio deJaneiro.
posteriormente, enviou para a nova Colônia 150arrobas de carne de
porco, e 1.000 como donativo pessoal?
Gente da melhor aderiu à causa. Dosportadores de linhagem sefar-
dita contam-se osirmãos D. José Rendom de Quevedo e D. Luís, Vasco
Pires da Motae Brás Rodcigues de Arzão.Este já tinha seguido nafrente,
comandando uma força, em rharço de 1679, com o fim, dizia-se, de
descobrir ouro e prata, mas, na realidade,para preparar o terreno, não se

289
devendoignorar que nessas bandas estavam pesquisandoos mineradores
enviados pelo castelhano D. Rodrigo e se fazia mister desviar a atenção
dos espanhóis
Ao lado de D. Manuel acham-se nos postos de responsabilidade
diversas pessoas do Riode Janeiro. Umadelas é o general joão Tavares
Roldão, de linhagem cristá-nova por sua mãe Guiomar de Paredes, ao
qual, cambém, acompanhavam diversos parentes?”, Iniciadas, aodepois,
as lutas entre os luso-brasileiros e os súditos de Castela,vem a sucumbir na
refrega O capitão Simão Farto Diniz?s.
Porfim, em 1681 Portugal e Espanha firmam um tratado,pelo qual o
domínio sobre a região é reconhecido ao primeiro. Segue-se em conse-
giiência, um períodode paz e de progressoaté 1705, quando muitos da
etnia hebréia se deslocampara a novel Colônia, e, poe estranho que
pareça, é nomeado tesoureiro da Fazenda Real para lhe geriras finanças,
o cristão-novo fluminense Diogo Bernal da Fonseca?” É amais uma
prova dequea gente de nação estava identificada com a vida pública nas.
Capitanias doSul e nelas pontificava
O avanço para o Sul dopaís realizara-se simultaneamente com o que
se efetuou na direção do Sudoeste, rumo ao Paraguai, embora este
começasse um pouco depois. A história de ambos tem muito em comum,
concorrendopara issoa proximidade geográfica entre as duas regiõesc
com as Capitanias do Sul, e o fato de que todas eram consideradas
domínio de Portugal. As causas que determinaram a sua conquista foram
praticamente as mesmas, bem comoos autores da façanha, ou sejam, os
portuguesesde São Paulo. Se as bandeiras que se dirigiram para o Sul
deram fama aospaulistas, as outras ainda mais. O bandeirismo erauno em
seu caráter, Pode-se dizer que foi o sistema de vida dos habitantes do
planalto no século XVIL. Asraízes estavam no anterior, mas noseiscen-
tismo que tomou a forma predominante. Começandopelo simples
apresamento de indígenas, evolui até ao tipo de organização que des-
mantelou as reduções jesuíticas do Paraguai, apresentando-se, com hierar-
quia e disciplina de feição militar.
A bandeira era uma unidade, confiada a um chefe-superior, o qual,
por sua vez, executava os objetivos delineados, através de companhias
emtregues a oficiais de patentes menores. O sistema enquadrava-se nos
moldes da infantaria, em vista da distânciaa percorrere dossuprimentos,
da topografia do terreno da necessidadede, às vezes, subir ou descer
rios. À bandeira, porisso mesmo, e pela dificuldade em manter-se nos.
sertões, compunha-se de pouca gente, ainda porque a população branca
noplanaltoera escassa. Em 1606 São Pauló contava apenas 190 fogos,

290
perfazendo uns 950 moradores'?. E, não obstante, com tão poucos,
realizou verdadeiros prodígios.
O paulista, comodizia um jesuíta espanhol, fazia-se bandeirante
desde menino, aprendendo com os pais e com os índios da casa a arte do
sertanismo. Não fora, outrossim, a participação destes últimosnessas
empresas e sudo redundaria em fracasso. À proporção de indígenas
sobressaía sempre; cerca de 1000 para 100 brancos? E aquicomo está uma
provade que os moradores tinham certa consideração para eles,
pois eram o seu “remédio”. Os testadores deixaram também oseu valioso
testemunho, recomendando aos herdeiros que tratassem bem os “servi-
ços” ou “peças”; que separassem os casais nem os filhos dos seus
progenitores. De André Fernandes, quefoi um dosmaiores sertanistas,
disse a viuva que muitos índiostinham acompanhado o marido por livre
expontânea vontade??. Os Vaz de Barros € Antônio Raposo Tavares
possuíram centenassob sua tutela. Nenhum morador talvez houvesse
sem ao menosl um índio de “serviço”, e quem chegasse de novo à terra,
eratava logo de obtê-lo por arrendamento ou por compra, ou indo
buscá-lo quando possível nos sertões.
As primeiras entradas, preadoras ou de mineração, foram conduzi-
das, conforme salientamos,poribéricos, inclusive cristãos-novos. Anos
depois, vê-se um ou outro mameluco a tomaro comando sobre si, mas,via
de regra, é ainda o pormguês genuíno oufilhos da segunda € terceira
gerações queassumem direção. À este cabe a ascendência moral, como
filho direto da mãe-pátria, como portador davelha cultura, como con-
quistador e colonizador. Para cá trouxera igualmente aquele espírito
ousado,corajoso, aventureiroe rijo dos antepassados, que aprimorou
aqui. Foram de semelhante têmpera Gabriel Soares de Sousa e o irmão, o
velho Salvador Correia de Sá, Jerônimo Leitão, Pedro Vaz de Barros,
Antônio Raposo Tavares, e tantos mais. Esses homensnão conheciam
distâncias, nem temiam infortúnios. Comofilhos de uma nação pródiga
em miscigenações, souberam caldear-se com indígena, adicionando
assim novos elementos à cultura adventícia. Mamelucos e não-
mamelucos deram-se as mãos é juntos bateram os sertões em prol da
mesma causa. Nem O reinol se recusava a acompanhar a um António
Rodrigues Adorno, a um Belchior Dias Carneiro, ou a um André Fer-
nandes, portadores de sangue ameríndio, porquelhes reconheciam a
capacidade.
A bandeira, porconseguinte, qualquer que fosse o objetivo a perseguir
constituíra-se em fator de aproximação entre pessoas, e no velho São

291
Paulo, onde somente osanciãos, as crianças e as mulheres deixavam de
engajar-se, desempenhou papel social de suma importância. Em ne-
nhuma parte o entrelaçamento foi tão grande. A bandeira era, de certo
modo, à empresa de umasó família, porque todos estavam aparentados
entre si. Ocasiões houve em queas justiças daterra deixaram de funcio-
nar porque tinham ido ao sertão com os demais moradores. Em São Paulo
toda gente andava comprometida com o bandeirismo,incluindo os
cristãos-novos. Asautoridades por isso, viram-se frequentemente em
palpos de aranha para fazer cumprir as leis inibitórias do escravismo
indígena. Algumas delas, às vezes portaram-se com venalidade, tirando
proveito para si, quer governadores gerais, quer ouvidores, de nada
valendo as queixas dos jesuítas nem a detraficantesnegreiros. Mas havia,
também,uma série de outras razõesque as induzia a serem complacen-
tes, quandonão incentivadoras do bandeirismo, pois este se justificava
sobdeterminados pretextos.
O bandeirismo tornara-se para opaulista um hábito indispensável; uma
espécie de segunda natureza, Melhor diríamos, um sistema devida.
Tendo começado como simplestraficante de escravos, adquiridos por
meio de resgates e para fins de comércio, logo os foi utilizando nas
lavouras que surgiram no planalto é noutros misteres. O porcuguês
comotodo o ibérico, era pouco dadoa certas formas de trabalho,
considerando-as desonroso, pelo quepreferia recorrer ao braço servil,
indo apanhá-lo nos sertões agrestes.
O ameríndio tornou-se a mola mestre da economia local, depen-
dendo dele toda a produção agropecuária,visto que a população branca
sempre foi diminuta. Daí os moradores chamarem-node o seu “remé-
dio”, e, como tal, defenderem perante as autoridades os descimentos ou
entradas. A 13 de janeiro de 1606, por exemplo,os camaristas de São
Paulo, respondendo a uma carta do donatário, Lopo de Sousa,
informaram-no que a cera é fertil e tem muitos minérios, mas carece de
braços para crabalha-la. Sugerem que se permitam as entradas, pois
existem muitas tribos vivendo "àlei de brutos animais”, quando, aoinvés
disto, podem sercristãos e tornar-se de grandeproveito, sobretudo “o
gentio Carijá queestá oitenta leguas daqui pormareporterra eseafirma que
poderão ser duzentos mil homens de ascosss. Mas, O fato é que não só os
empregam nas lavouras e nos descobrimentos, como fazem comércio
deles, vendendo-os para a Bahia, Pernambucoe até para fora dopaís.
Realmente, asatividades exercidas na capitania estavam muito aquém do
número de indígenas apresados. Noplanalto eram uns 1.500 em média.

292
OSul do Brasil foi, então, um manancial do escravismo bandeirante.
Contudo, antes quese esgotasse, os paulistas voltaram os olhos para as
reduções jesuíticas do Guairá, na margem direita do médio Paraná,
defronte ao Paraguai. Dessa região já tinham vindo desde 1553, pelo
menos,escravosindígenas, e de Piratining a também tinham idoparalá O
caminho era conhecido de há muito, e relações comerciai s com Assunção
chegaram a existir em meadosdo século XVI e posteriormente3t. Bem
cedo o Anhembi (rio Tietê) passoua ser utilizado nas comunica ções com.
o Guairá, talvez mesmoan tes da fundação de Ontiveros sobre o Paraná,
em 1554º, Entretanto, como vimos, o governador Tomé de Sousa
proibiuas relações entre os colonos de $. Vicente e os do Paraguai
Porém, em fins de novembro doano de 1603, sendo capitão-macolheram or Pedro
Vaz de Barros,este, juntamente com os edis de São Paulo,
satisfeitos os emissários mandados por D. Antônio de Afasco e?decidi
ram reabrir o caminho, com o que ointercâmbio se acenou
Já poreste tempo osjesuítas haviam iniciado a sua obra no Paraguai,
graças à contribuição de José de Anchieta, provincial da Sociedade de
Jesus, no Brasil, o qual, atendendo ao apelo do bispo de Tucumã, frei
Erancisco Vitória, cristão-novo português, enviou-lhe em 1584 alguns
padres da Companhia,ligando, assim, as duas obras histórica e pessoal.«
mentes”. Fora pensamento dos jesuítas portugueses, Leonardo Nunes
pe. Manuel da Nóbrega alargar a missão já começada, pelo interior
adentro. O primeiro destes, escrevendo ao provincial, em junho de 1552,
revelavadhe o seu propósito, dizendo ter recebido boas informações “de
caqueles gentils... que som las carijós, 3 la dispasicióm que tienem de ser bsemos
cristianos”
É, pois, Leonardo Nunes quem adverte o padre Nóbrega acercada s, têm o
messeque a Companhia podia colher. Os carijós são numeroso o caminho é
coração aberto para o Evangelho , muitos já estão batizados,
conhecido e a viagem relativam ente curta. Naida gasta-se mês é meio e
na vinda cerca detrês “por ser rios arriba”, isto é, pelas vias fluviais do
Paraná e do Anhembi. Residem lá uns oitocentos brancos e dez sacerdo-
tes, mas todos vivendo em concubinato'e
Nóbrega aceita o alvitre, de sorte que,não tendo Leonardo podidoir,
decide levar o plano avante. A 12 de fevereiro de 1552,escrevede São
Vicente,informando ao padre Simão Rodrigues que se está aparelhando
“para assentardaqui a 100 léguas”, pois o objetivo é o de “extendermasporla
tierra adentro...” uma vez que nas demais capitanias “se harápoco queà
enseriar nijas'sS. O intento de Nóbrega fa além de trazer os gentios

293
religião-cristã, mas “com ayadadelSeiorhazerentre llos una ciudad "49,isto
é, aldcá-los e colonizar por meio deles. Algo, portanto, semelhante ao
que Os jesuítas espanhóis fariam,criando as reduções. E, demais a mais,
Nóbrega admitia, bem como o governador e os moradores de São
Vicente, que as terras do Paraguai pertenciam 20 tei de Porrugal.
Se Nóbrega não executou.o plano,foi porque Tomé de Sousafechou
Ocaminho,em razão de notícias ou boatos que corriam sobre haver nessa
terraouro ouprata,evitando um “rush”danoso àcolonização e àeconomia.
de São Vicente*!, Mas, desse faro,ficaria o incentivo para futuras encra-
das ao sertão e o consequente desbravamento e posse do território.
“Apesar de tudo, parece que os portugueses vicentinos, como os
paulistas mais tarde, continuaram a frequentar o Paraguai em busca de
escravos ou de minérios preciosos, dando motivo para sérias apreensões
ao governador espanhol. A região toma-se causa de disputa, como era
iguaimente a do Sul. É porisso que Garcia Rodrigues de Vergara,
obedecendoàs ordensde Irala, fundaem 1554 vila deOntiseros sobreo
Paraná, e Rui Dias de Melgarejo aCiudadReal, no Salto Grande, junco à
foz do Pequiri, em 1557. Depreende-se da obra de Gusman que O
governador do Paraguai visava, assim, prevenir os danos que os portu-
gueses faziam na província, levando índios e talvez sacando minérioss?,
Seriam essas no conjunto, algumas das razões porque os jesuítas espa-
nhóis procuraram eransformar em realidade o sonho de Nóbrega, e daí o
conflito com os bandeirantes, porque as reduções constituíam para estes
um sério desafio.
No ano de 1588 os padres Tomás Fields,irlandês, e Manuel Ortega,
português, cedidos por Anchieta, já missionavam no Guairá. Em 16040
geral da Ordem, padre Aquaviva decreta a fundação da Província do
Paraguai, confiando-a ao padre Diogo Torres, o qual, por sua vez, após.
incrementar a obra,cria em 1610 as primeiras reduções às margens do
Paranapanema: Santo Inácio é Loreto, e de 1623 a 1630 mais onze,
formando todas a Província do Guairá. No ínterim surgiram a Província
do Paraná, com sete reduções, e a do Uruguai, que, de 1632 a 1634
reuniuseis povos. Fora rápidaa expansão jesuítica, razendo ao seu
controle milhares de índios, graças, de um lado,às condições que lhes.
proporcionavam, e do outro, à boa índole dos mesmos indígenas. A
Companhia ocupara áreas extensas, em regiões disputadas, e se conver-
tera geográfica, econômica e politicamente num entraveaos planos da
gente de São Paulo. Há mesmo quem defenda a tese segundo a qual os
inacianos pretendiam formar uma república teocrática.

294
A ascensão de Filipe 11 ao tronode Portugal, apenas ligeiramente
melhorou asrelações entre portugueses « espanhois na América. As duas
nações conservaram osseus respecsvosestatutos, foros e privilégios, que
os habsburgos procuraram respeitar, à exceçãode Filipe IV. É verdade
que, ocasionalmente, se permitiram espanhóis em algunsencargosdo
Reino e no Brasi, mas os casos foram poucos*º. Era mais fácil, porém,
transpor as terras de uma ou da outra coroa, mas, via de regra, os
espanhóis mostravam-se muito ciososde suas fronteiras. Na América,
portodos oslados, os pormgueses sofriam impedimentose os considera-
vam estrangeiros « suspeitos de judaísmo. Comércio com as terras de
Castela, só excepcionalmente. Mais de uma vez as autoridades pretende-
ram criar 0 Santo Ofício nas províncias do Prata para cascigá-los.
É preciso lembrar as circunstâncias em que Filipe subiuaotronode
Portugal para se compreendera situação geral que se originou do seu ato.
De todosospretendentes, apenas três chegaram à boca das urnas, como
se diria hoje: Filipe1], da Espanha, o prior do Crato e D. Catarina,
duquesa de Bragança, netos de el-rei D.Manuel pordiferentes costados,
Acontece queas vias de sucessão favoreciam olado masculino, segundoa
lei sálica, de modo que Filipe e oprior obtiveram a primazia, mas a
duquesa defendeu acirradamente os própriosdireitos, porque o candi
dato habsburgo era estrangeiro e D. Antônio passava por filho bastardo e
meio-cristão-novo. Este, porém, apresentou o comprovante do casa-
mento de seu pai, infante D. Luís, com D. Violante Gomes,a pelicana,o
qual as autoridades rejeitaram, devido, sobretudo,à pressões do sobe.
rano espanhol. Filipe,fez mais, ainda, aparelhou um exércitopara invadir
Portugal, coisa que realmente aconteceu e comproua peso de ouro à
consciência de quantos lhe poderiam obstar os passos. Assim, con-
quistou a Coroa, mas, nunca o coraçãoda maioria portuguesa. Filipe e os
sucessoresforam incapazesde lhe granjear a simpatia, e essa animadver-
são, embora raramente viesse à tona, aumentou de ano para ano,porque,
à medida que otempoia passando,os novos súditos colhiam os maus
frutos daunião: a inimizade de outras nações comque Portugal vivera
bem anteriormente,as possessões no ultramar rornaram-se oalvo predi-
leto desses inimigos; a marinha, de tantos e gloriososfeitos,entrou em
colapsodesde a pseudoInvencível Armada de 1588. À nutrir a ancipatia
desenvolvera-se simultaneamente o mito sebastianista, de inteiro gosto
judaico, e amparadopor jesuítas e cristãos-novos,segundo o qual orei D.
Sebastião,o Encoberto,voltaria dentro em breve para reassumir o trono.
A mística daíoriginadaimpediu«assimilação dePortugal pela Espanha'*,

295
Os habsburgos sabiam disso, porquetinham servidores em todo o
domínio, osquais exerciam conjuntamente à espionagem, ou a ela se
dedicavam apenas, e inclusive cristãos-novos. Acredita-se que Manuel
João Brancotenha desempenhadoesse papel nas Capitanias do Sul.&º
Umacoisaestá positivada: osFilipes desconfiavam dossúditos portugue-
ses, temendoquese revoltassem e que também favorecessem osinimi-
gos, ajudando-osa se apoderarem do riquíssimo Peru. As autoridades,
consegientemente, exerciam ampla vigilância sobretodos,e de modo mui
particular sobre os da nação hebréia,porsuas relações com osholandeses.
Naverdade,era tãopatente aaversão ao domínio espanhol, quecerto
Juan Andrea Moerbeceg, bom conhecedordo Nordeste brasileiro, no
panfleto dedicado ao “conde Maurício e aos deputados dos Rebeldes de
Holanda”, enumera entre os motivosporque devem conquistar aquela
região, o desafeto dos portugueses, e mais especificamente o dos
cristãos-novos para com os reis espanhóis*”. O hebreuaparece af idencifi-
cado com o nacionalismo português, como, igualmente, aparece nas
demais terras da coroaenoestrangeiro. Ele se vangloriava de ter nascido
no Porto, emLisboa,Viaua, Évora, Setubal, ou noutra povoação, como
provamosseussobrenomes e a língua pátria que conservaram noexílio
para ondeos afugentou à Inquisição. Portugal se ilustrara nos mares.
Camões lhe enalteceraosfeitos. Seuimpérioquase que rivalizava com ode
Carlos V. Em suas mãos estava o comércio mundial. À nação atravessava
dias de esplendor. Era uma honra, pois, ser português,
NoBrasil, em consequência do mesmo espírito antagônico,afloram
vagasidéias de independência. São os germes da liberdade que brotam,
relacionados, talvez, com causa malograda doprior doCraro. Existem
evidências de que D. Antônio fornecera cartas a ingleses e a franceses,
abrindo-lheso contato com os portugueses do ultramar. No Rio deJaneiro
umgrupode gauleses chegaralá comessa pretensão, mas Salvador Correia
de Sá repeliu-os, supondo tratar-se de corsáriosts, No Nordeste algo de
semelhante deve ter ocorrido, porque S. Majestade escreve ao
“governador-geral e lhe recomenda vigiar o capitão Francisco Ribeiro,
judeu portuguêsresidente na Paraíba, queé pessoainfluence e se corres
ponde com os parentes da Holanda, onde também se encontra D. Manuel,
filho do prior do Crato atual pretendenteà coroa de Portugal*?. E em
Paulo esse eco ressoa mais forte aindae com melhoresrazões.
Ambrósio FernandesBrandãoparece esposar a hipótese, ainda que
vagamente, da independência do Brasil oude algumas de suas capitanias,

296
em vistada oportunidade econômica que oferecem. Pelo menos o Brasu
poderia vir a converter-se em alicerce do resgate da Metrópole. A
independência desta estaria vinculada aquele, comono futuro se pensou
por mais de uma vez,e D. João VI chegoua concretizarso. Mas Brandô-
nio seria apenas um, dentre muitos dos que dissentiam do domínio
castelhano, preterindo até o dos holandeses. E que isso é verdade,
provam-no as adesões que receberam ao se estabelecerem em Pernam-
buco e capitanias vizinhas, tanto de cristãos-novos como de velhos, de
jesuítas « de religiosos de outras ordens.
Em São Paulo animosidade levantou-se ainda antes e permancecu
acesa porlonga data, havendo para tanto suficientes motivos. À contigui-
dade das regiões platina e vicentina ensejaram conflitos entre os súditos
das duas coroas já nas primeiras décadas. Desde os primórdios do desco-
brimento os pormugueses estavam proibidos de ingressar nas terras de
Castela, e a prescrição foi mantida no governo filipino. É certo que,
mesmo assim, inúmeros se passaram para lá mas eram antipatizados e
submetidos a vigilância. O lic. pe. Lourenço de Mendonça, que foi
comissário inquisidor em Potosi, queixou-se a S. Majestade que os
portugueses eram alí malcratados?!. Por sua vez a Inquisição de Limacas
congêneres, de quandoem quandocondenavam algum sob o pretexto
falso ou verdadeiro de que era judeu. Em 1639, no chamado autogrande
que se celebrou na referida cidade mais de trinta foram penitenciados,
sendo onze à pena de mortes?, Ora, os paulistas, acostumados a ir ao
Peru, sentiam os vexames que eles próprios « os patrícios sofriam ,
certamente,revidavam na mesmamoeda aos espanhóis que viviam junco
a si no planalto. Uma prova da incompatibilidade está na longa pendên-
cia entre osPires « os Camargos,os quais lideravam, respectivamente, os
dois partidos ou facções. Quando o ouvidorJoão Velho de Azevedoveio
examinar “in loco” problema, verificou que envolvia certo “fermento
estrangeiro"? Outra manifestação desse espírito está parente na fracas-
sada aclamação de Amador Bueno pelos espanhóis, os quais pretendiam
fazê-lo rei de São Paulo e impedir a do senhor de Bragança. Uma devas-
sa efetuada anos depois revelou que Manuel Gil, genro de Fernão de
Camargo,dissera palavras de baixocalão contra o novo rei de Portugal. É
provável que neste episódio os hebreus sefarditas estivessem divididos,à
semelhança do que sucedeu em 1580 e em 1640, colocando-se os
portugueses aoladodoprior do Craroe de D.JoãoIV. O nacionalismoe
outros interesses sobrépondo-se, evidentemente, à identidade érnica.
Para se entendero espisito anti-habsburgodos paulistas, mais do que
de aversão aos espanhóis, convém refletir acerca de algunsfatos de

297
naturezapolítica. Quando após amorte do cardeal D. Henrique feriu-se a
disputa entre Filipe e o prior do Crato, os paulistas aderiram à causa do
pretendente português, não só porque o habsburgo era estrangeiro, mas
também pela maneira desonrosa com que se apossara do trono e, em
seguida, cevarao ódiocontra família do conde de Vimioso,D. Francisco
de Faro, um dos poucos que não se venderam ao ambicioso filho de
Carlos V. O nobre D. Francisco colocara a pessoa, osbens e tudo que
possuía à serviço do senhor D. Antônio. Tudo, porém, inútil, porque
Filipe, apoiado na força e no dinheiro, entrou em Portugal quase sem
resistência, e por espírito de vingança mandou encerrar na torre de
Torcadoamãe e sete irmãs donzelas do conde de Vimioso'*, Afinal,este
sucumbiu sob os ferimentos que lhe produziram nos Açores os soldados
do exército invasor.
Ora, tais acontecimentos haveriam de repercutir no ânimo do ex
suditos da gloriosa Casa de Avis, por todo o Reino e Conquistas. E assim
sucedeu! Em parte algumao domínio filipinogozou da simpatiageral dos
portugueses, e acapitaniade São Vicente não ficouisenta. Note-se, além.
do mais, que a Casa de Bragança, através de D. Catarina, era lídima
concorrente ao trono, e aquela jamais abriu mão do seu direito. Nem se
esqueça queessa família da nobreza enfocava na dos Sousa, cujoelo
estava em Vasco Martim de Sousa, do-trisavô dos donatários Martim.
Afonso de Sousa e Pero Lopes de Sousa, ligando de certa forma as
capitanias meridionais àqueles acontecimentos. Mas, além disso, havia
uma afinidade ainda maior entre a casa de Vimioso e os herdeiros do
capitão-mor de São Vicente ao tempo em que Filipe assumiu o trono
português, porque um homônimo do condede Vimioso (D, Francisco de
Faro) casara-se com a condessa de Vimieiro, D. Mariana de Sousa da
Guerra, à qual veio a herdar à capirania em 1611, por desistência de um
filho ilegítimo de seu irmão Lopo deSousasS. Aindaestava bem viva à
chaga aberta no peito dos Vimioso, unidos por laços de sangue aos
Vimieiro, quandonovo golpe atingiu o conde de Monsanto, D. Luísde
Castro, descendente dos Sousa e da rainha D.Inês. Considerando que,
por ser o senhor da vila de Cascais, lhe pertenciam os direitos das
mercadorias que fossem descarregadas ali, pleiteou-os. O caso, afinal,
subiu ao rei e . Majestade não só lhos negou, mas decerminouque o
conde silenciasse de uma vez para sempre sobre àprecensãoS. É verdade
que, embora no litígio iniciado na ocasião contra sua parenta, a condessa
de Vimieiro, para haver a capitania de Santo Amaro, à justiça lhe desse
“ganhode causa, em 1615, nunca as relações dos Monsantoe dos Vimioso

298
comos Filipes foram boas. A tendência era no sentido dese agravarem,à
vista de novosfatos. Assim,logo apósa tomadada Bahia pelos holandeses,
em 1624, e dos ataquessucessivos à outras capitanias,firmou-se em
Madri a opinião de quea defesa incumbia principalmente aos donatários.
A tomadade Recife noanode 1630 levouFilipe II a exigir amedidacom
maior rigor, e caso os donatários se eximissem de mandar socorros,
deviam as despesas ser-lhes cobradas e as capitanias providas em outras
pessoas, Dentre os mais atingidos estavam O conde de Monsanto cD.
Fernando de Faro, marquês de Porto Seguro”. O que S. Majestade
desejava era evitar ônus para os enfraquecidos cofres reais, debilitar a
economia das capitanias « abolir antigos privilégios que usufruíam os
donatários. A reação destes haveria de dar-se. O conde de Monsanto,
usando dosigilo necessário, procurou tirar proveito em benefício da sua.
capitania, facultando as bandeiras,ou favorecendo-as mesmo. A casa dos
Vimicio-Vimioso também assim procedias?
No ínterim, Fernão Vieira Tavares, que fora procurador da con-
dessa de Vimieiro até setembrode 1622, desentendeu-se com cla e foi
substruído. Em tal situação vai ao Reino, onde a mulher, Maria da Costa,
há mais de três anos curtia horas amargas rias enxoviasdoSanto Ofício.
Entra em contato, ao que secrê, com oconde de Monsanto, a cuja causa
passa a servir, e,talvez por influência do mesmo, obtém a nomeação de
provedorda Fazenda, da sua donatária. Ao se efetuarem meses depois as
demarcações entre as duas capitanias,de Santo Amaroe de SãVicente,
adjudicou àquela as vilas de São Paulo, SãoVicente é Santos, em desa-
bono da condessass, O móvel do liígio não se prendia tão somente à
encorporação de algumas léguas de chão, e sim porqueas minas doJaraguí,
de Sorocaba eos caminhos de Mogi das Cruzes caíam nessafaixa,ao passo
que,por São Paulo, mais facilmentese atingiria o Paraguai. Em consonán
cia,lembre-se, por último, queFernão VieiraTavares tinha em suacompa-
nhiao filho Antônio Raposo Tavares, o qual sabe dosfatosacima,e que.a
seguir, passa a distinguir-se no bandeirismo paulista.
Então, à vista do exposto, é possível compreender umasérie de
acontecimentos relacionados com a gente de São Paulo no decorrer do
seiscentismo. Ela, que não reconhecera o domínio espanhol antes de
1580sobrea região de Cananéia ao Prata, na direção Sul, e até ao
Paraguai, noSudoeste, nãoo aceitaria depois. Nenhum motivo restava
para alterara velha opinião,e tanto é assim que, no apogeu do ataque às
reduções, quando interrogados pelos jesuítas, respondiam “los dichos
Portugueses deSam Pablo que esta conquista lespertence y cas em la demarcacion

299
de sus serras", ou seja, no domínio de Portugal, exatamente como
pensavam ao tempo de Tomé de Sousa. Não estavam, pois, dispostos
muitos deles a ceder à Castela o que julgavam pertencer à mãe-párria,
embora o mesmo rei governasse a todos. Aliás, isto é um modo de
expressar, porque os paulistas nunca se deixaram subjugar pelos habs-
burgos. Aceitaram-nos mental « teoricamente, mas não de faro. O seu
espírito de rebeldia se manteve contumaz durante os sessenta anos da.
união peninsular.Tinha certa razão o padre Nicolas Duran, provincial da
Companhia de Jesus no Paraguai, quando, em 1627, escreve ao padre
Francisco Crepo, procurador-geral da Ordem, e lhe solicita que fale
pessoalmente a S. Majestade, ao conde deOlivares, seu ministro, e aos.
senhores do Conselho de Portugal para que ponham fim às entradas dos
paulistas, pois “esta gente no teme descomuniones mi obedece cedulas rea
tes'S", Comoportugueses as suas inclinaçõesse tinham voltado para o
prior do Crato e para filho, o senhor D.Manuel, e disto encontramos
evidências em documentos jesuíticos do Paraguai, demonstrando a
persistênciacom que continuaram avessos aoregimefilipino e desejavam
alibertação de sua tutela. Supõem-se mesmo queera objetivo proclamar
reia D. Manuel, razendo-o para o Brasil. Isto, pelo menos, ouvira o
Superior das reduções, padre Antônio Ruís, dos lábios de alguns compa-
nheiros de Antônio Raposo Tavares, conforme relatou em 1631
Perguntando-lhes em nome de quem faziam esta “guerra”,responderam.
“que por mandado do rei que tinham no Brasil. Tal resposta deixou
apreensivo o padre inaciano, porqueatravés de outro portuguêssoubera.
ser intento dos do Brasil trazerem de Holandapara cá o filho de D.
Antônio e levantá-lo por rei, mas presumia fossem “hablas de judios y
confesos y ereges"S?,
Diga-se que estas “hablas”, na verdade, tinham razões plausíveis
Havia judeus nas bandeiras e o próprio D. Antônio estavaidentificado
com a raça hebréia desde o cordão umbilical. A mãe, como se sabe,
pertencia àestirpe, o que, em parte,o prejudicou na sucessãoao trono. O
pai, infante D. Luís,simparizava-se sobremodo poressagente, chegando
propor que o deixassem organizar uma comunidade no Brasil. D.
Antônio, pelo visto, tornou-se alvo da estima desse mesmo povo, espe-
rançoso,talvez, de o ver no trono e, quiçá, de se livrar dos sofrimentos
queleisinjustas e o Santo Ofício lhe causavam. Em 1578 D. Antônio cai
prisionciro em Alcácerquibir e quem lhe paga o resgate é o judeu Abrão
Gibre?. A demandapela Coroa já iníciada quando aportou ao Reino,
apanhou-o destituído de recursos, pois gastara muito com os preparati-

300
vos para acompanhar D. Sebastião à África e ficara endividado com o
resgate. Agora quem o socorre são os amigos,inclusive da eenia hebréia
Estes figuram aolado do conde de Vimioso e dobispo da Guarda entre os
mais entusiastas partidários, apoiando-os sobretudocom dinheiro, crédito
alimentos. Admite-se que 20s cristãos-novosse deva odecreto peloqual
opapa Gregório XIII aoulavao docardeal-tei, D. Henrique, que negaraao
pretensor o direitoà sucessão dos Avis. Ajudaram, outrossim, ao prior, em
Poreugal, algunsfranciscanos e dominicanosinvejosos da posição que
desfrutavam osjesuítas na Corre e,além disso, porqueos inacianospreferi-
ram ferrenho católico D. Filipe por julgarem ofilho do príncipe D. Luís
um joguete de cabala internacional**. Nãoerraríamos supondoque tam-
bém os cristãos-novos do ultramar,incluindo São Paulo, deram apoio ao
candidato português, « que a oposiçãoaos jesuítas refletia algo do mesmo
espírito. Acresce ainda que D. Luís era duque de Beja,terra de origem dos
Raposo Tavares e de outros paulistas
Em consonância, a idealogia sebastianista conservara-se viva e ganha-
ra terreno,alastrando-sequal gota de óleo, Portugal afora. O curioso é que
o movimento espoca exatamente na antevéspera da revolta restaura-
dora, denotandoque o ambienteestava sendo trabalhado. Sabe-se que,
na Bahia, por este tempo, cultivava a filosofia do advento liberticida o
curada Sé,padre AntônioViegas, cristão-novosS. Nãoseriadiferente nas
Capitanias do Sul. Em São Paulono mês de abril de 1639, houve uma
explosão popular de natureza sebastianista, Alguém, misteriosamente,
espalhoucartaspela vila, anunciando a vinda do Encoberto por aqueles
dias, é, como, sói acontecer, andaram de mão em mão e foram ui
comentadasss, Assim, afinal, por quase todo o Reino e ultramar D,
Joãotornou-se orei Desejado. Em tais circunstâncias, Amador Bueno
jamaisseria bem recebido pelosluso-brasileiros de São Paulo, porque este
cidadão e os seus partidários eram de origem espanhola.
Frei Manuel de Santa Maria, que assistiu à aclamação doduquede
Bragança navila bandeirante e pregouo sermãogratulatório, numa carta
crita da Bahia,a 15 de janeirode1642, a S. Majestade, informou-ode
tudoe que “alguns moradores de São Paulo disseram que se 0 rei espanhol
auisessebudir comd João IV, eles lhe tirariam 0 serro de Potosi, parte do qual
ficava na coroa de Portugal, conforme dizia um gramde sertanista"S7. AS está,
bem vivo,oespírito de fidelidadeàquele que vinha continuar a obra de
el-rei D. Sebastião. A( o inconformismo com o acordo de Tavares? Tordesilhas.
Mas, quemseria 0 incógnito “grande sertanista”? Raposo Se-

301
bastião de Freitas? André Fernandes? Não importa, porque essas opini-
des foram aceitas por muitos outros moradores.
NoEspírito Santo, como noutras partes houve, naturalmente, vozes
dissonantes. Nesta capitania morava há tempos O influente ceistão-novo,
judaizante, de nome Antônio Dorta, porém filocastelhano a exemplo de
alguns congêneres, sobretudoos deorigem espanhola Unidadepolítica,
filosófica ou religiosa, nem sempre existia entre os da progênie. Em
chegando a Vitória a notícia da aclamação,o referido indivíduo
ressentiu-se e zombou donovorei, chamando-o pejorarivamente de “rei
de copas”. Abriu-se devassa! Incurso na pena de lesa-majestade foi
remetidopreso para o Rio deJaneiro, maslivrou-se não muito depois,e
se comentava que comprara as boas graças do ouvidorS8
E quanto ao RiodeJaneiro,cujo governo se achava nas mãosde outro
filocastelhano, Salvador Correia deSá e Benevides,sabe-se que,a prin-
cípio, titubeou em reconhecer D. João, até que, induzido por conve-
niências, mudou deidéia.
A expansão paulista enquadrava-se, consoante frisamos,na velha
opinião de que áreas além do meridiano de Tordesilhas pertenciam às
capitanias dos irmãos Sousae, de igual modo, a Portugal. Ão se entrega-
rem às conquistas, estavam certos os bandeirantesde que lutavam por
uma causa legítima, de sorte que,quando osloco-tenenteslhes embarga-
vam os passos, protestavam. Assim, em 1606, na carta ao donatário,
reclamaram dizendoque estes “não vinham a aumentar à terraque sr
Martim Afonso de Sousa ganhou”, pois impediam-nosde ir à busca de
indígenas, com que haveriamdelavrara terra,ainda que se encontrassem.
a dezenasde léguas no“hinterland”. Por esses motivos,é provável que os.
donatáriohajam deixado os moradores agirem impunemente,na espe-
rança de verem prósperas e engrandecidas assuas capitanias. O Conselho
de Portugal talvez pensassetambém assim. Acrescente-se, em consonán-
cia, que a simpatiadaalta nobrezae do clero superiorpara com Filipe IL
de Portugal), decresceu paulatinamente, comoé historicamente percep-
tível. Os portugueses sentiam que Pátria se enfraquecia « que osreis
babsburgosprocuravam tirar o máximo proveito das colônias de além-
mar. Por isso, as autoridades em Lisboa e na Bahia fechavam os olhos às
bandeiras preadoras organizadas pelos moradores de São Paulo?6, e
quandoFelipe IH! (1de Portugal) insistiu que se organizasse otribunal
do Santo Ofício no Brasi, o inquisidor-mor e as autoridades do Reino
recalcisraram sempre. D. Fernão Martins de Mascarenhas, que dirigia a

302
Inquisição porcuguesa (1616 a 1628), nunca atendeu às ordensde Filipe
para criar o referido órgão. Por simpatia para com os cristãos-novos, ou
calvez porsubserviência e interesse do Estado, adiou sempre a medida?”
Sabiam muito bem, D. Fernão e os governadores do Reino que, se
atendessem a el-rei, inúmeros hebreusdeixariam o país, o comércio e à
indústria açucareira declinariam,cessariam os descobrimentos mineralógi-
cos e a expansão territorial. É sintomático, portasto, que semelhantes aros
«enham acontecido em pleno domínio filipino, quando o oposto seria o
esperado. pre-
As bandeiras paulistas às reduções jesuíticas estão,na verdade,
as carências
nhes definalidades econômicas , porque supriam de braços
do planalto,e, decerto modo,as dos engenhosespalhados pelacosta até so
Nordeste, sobretudo no Rio deJaneiro « Bahia. Muitos dos que tomaram
parte nelas faziam-no somente porisso, mas não restadúvida que outros
conduziram-se por motivos geopolíticos. A princípio discordando do
acordo de Tordesilhas, como ainda em 1641 dizia “um grande sertanista”
de São Paulo, aoafirmar que tratadofora impostoa Portugal por Caros
V, e daí recusarem eles o respectivo meridiano/?, E ainda mais tarde, por
admitirem que o domínio pormuguês englobava nãosó as desembocaduras
do Amazonas e do Prata, visaram tambémas terras embraçadas pelos dois
rios, como que a formar uma ilha imensa. Cedo entenderam os luso-
brasileiros que a rede sulina se conjugava com a do Norte e que ambas
constituíamas fronteiras natarais do país, ao invés da imaginária linha de
Tordesilhas, Eles pensaram e agiram nosentido de transformar emreati-
dade a simplesideação. Era a opinião do navegance Fleckoo, em 1648. E
tese tão bem desenvolvida porJaime Cortesãoe confirmada pela evidência
histórico-geográfica?”,
Secundariamente as bandeiras que se dirigiam ao Paraguaic:p:
tavam-se à outros fins. Após abertura sub-reptícia do caminho
avila de São Paulo e Assunção,por conluio de portugueses e castelha nos
em 1603, no governo do capitão -mor Pedro Vaz de Barros, às comui-
cações se mantiveram até a Restauração, pelo menos. O intercâmbio de
Através de
mercadorias pela via do planalto, em breve atingiu o Peru.sobremud
Porto Belo era dificil, devidoà presença do Santo Ofício, o, em 1606,ono
referente aoscristãos-novos. Na carta da Câmara ao donatári
declaravam os edis que os caudilhos de São Paulo, fazendo-seSãoacompa-
Paulo,
nhar deíndios, passavam por terra facilmente ao Peru. Em de Godoi se
segundo adiantamos, os filhos do castelha no Baltazar
encasregavam de conduzir essa genteaté ao Paraguai. Em 1616 0 gover-

303
nador do Rio da Prata, Hernandarias de Saavedra, em carta a 5. Majes-
tade, dá notícias das entradas escravistas dos portugueses do Brasil, e
recomenda que para acabar com tantos males “el medio mejor es que se
despueble san pablo”, com o que também cessará a escala de passageiros
para o Peru “como lo an hecho los aãos passados”?4. Não era, de agora,
então, que muitos subiam às regiões andianas por ali. Mas, foram as ban-
deiras, o maior instrumento para essas viagens, especialmente quando
coincidiam com as visitações do Santo Ofício ao Brasil. Por exemplo, a
bandeira de Manuel Preto em 1619, seguiu-se à visitação de Marcos
Teixeira. Documentos de origem sul-americana, dão conta do ingresso
de muitos judeus nas regiões do Prata nesse momento. Em Buenos Aires
funcionava um comissário do Santo Oficio e Manuel de Erias (1619)
nas vésperas de assumir o governo do Paraguai pedia o estabelecimento
do órgão inquisidor na cidade portenha devido ao afluxo de judeus. A
bandeira de 1628, comotalvez nenhuma outra, antes, facultou a ida ao
Peru de muitos. As referências a esse fato são numerosas,
implicado o governador D.Luís de Céspedes y Xeria, quelhesachando-se
dava livre
trânsito?S. Anos depois, o padre Lourenço de Mendonça no seu já
conhecido memorial el-rei, ao pleitear a elevação da Prelavia do Sul à
diocese, dácomorazões, o longo caminho deSão Pauloaté ao Paraguai; o
númerode habitantes e de engenhos;a distância que oscandidaros àvida
eclesiástica percorrem para ir tomar ordens sacras no Rio da Prata,
Paraguai ouTucuma, de preferência à Bahia,ou na falta do antiste:e, por
fim, como recurso para impedir o ingresso aquelas regiões?º, De faro,
acompanhando as bandeiras alguns foram ordenar-se porlá, recebendo a
sagração por meio dos bispos espanhóis,tal caso de Francisco Fernan-
des de Oliveira, filho do notável sertanista André Fernandes, em 1628.
“As bandeiras ao Paraguaiacencuaram-se desde o primeirogoverno de
D. Francisco de Sousa. Não constano seu tempo nenhumacom objetivos.
de resgate, mas logo após a sua administração, sendo capitão-mor Pedro
Vaz de Barros, efetuaram-se diversas sob o fundamento de que havia
falta de “peças de serviço” para o beneficiamento das minas e fabricação
de ferro nos fornos de Araçoiaba e Ibisapuera?”, De sorte que, estribado
em uma provisão dogovernador-geral, Diogo de Quadros sob a capa de
descobertas mineralógicas e como provedor das minas, mandou ao ser-
são, em 1607, Belchior Dias Carneiro: em 1608, Martim Rodrigues
Tenório; em 1611 a Pedro Vaz de Barros e a BaltazarGonçalves, sendo
que esta se efetuou por comissão de D. Luís de Sousa, governador
interino da capitania. Foi a primeira ceifa dos paulistas nas áreas do

304
Guairá,juntoàs reduções. Já estavam deregresso quando o governador
D. Antônio de Afiasco, veio apanhá-losrio acima, a umas trintaléguase já
no território de São Paulo, talvez próximo ao salto de Avanhandava
Fere-se a contenda, e D. Antônio conseguequelhelarguem a indiada, a
qual seguia para São Paulo porlivre assentimento, conduzida por alguns.
caciquesseus parentes que a vieram buscar?S. Mas o caminhotornava-se
melhorconhecido. Pedro Vaz de Barros descortinara um novo manancial.
presa eraconvidativa! O apetite dosescravistas se aguça. Em 1612, não
obstante 0 insucesso de Pedro Vaz de Barros, percorrea mesma zona à
prearíndios, Sebastião Preto. Noanoseguinte o próprio Diogo de Qua-
dros, levando a André Fernandes como cabo, e a Baltazar, irmão deste,
conduzem uma bandeira até ossertões goianos doParaúpava, que admit-
ram ser afluente do Maranhão, ou Grão-Pará, conforme a Informação de
Pero Domingues, esceivão doarraial. Desse modo tinham alcançado pelo
“hinterland” oslimitesdo vale amazônico, com oque as perspectivas da
ligação Prata- Amazonas se fam positivando,
Até aoanode 1615 numerosososíndios que chegam a SãoPaulo,
trazidosde várias procedências, sendonecessário separá-los para evitar
escaramuças entre eles, porque de nações inimigas,cais comooscarijós e
os pé-largos. É possível quese tivesse realizadouma bandeira ao Sul, por
esse tempo, pois oitenta moradores receberam “peças”, variandode 4 2 20
para cada um. Figuravam norol dosaquinhoados, Pedro Vaz de Barros e
Francisco Vaz Coelho, participantes, certamente, desta bandeira”*, E, no
entanto,em janeiro de 1614, viera a São Paulo para uma correição, o
desembargador Manuel Jacome Bravo,coisa que nuncase fizera antes
Face à sua presença O povo se alvoroça, porque todos se consideram
comprometidos. Como advertência, alguém atira-lheuma Rexada à ja-
nela. Os camaristas, por sua vez, lhe apresentam as provisões de D.
Francisco e de D. Luís facultando-lhesa descida de índios, « assim, sem
mais, o desembargador se retirou,
Multiplicaram-se, desde então, as arremetidas dos bandeirantes
contraasreduções. Osíndioscatequisados eramnumerosos,mais pac
adestrados em certo afazeres; a distância para ir buscá-los,
relativamente curta « o caminho bem conhecido. A maior dificuldade,
agora,era a de precisar recorrer força, porque os jesuítas se opunham
ardorosamente. Mas, em contrapartida, as bandeiras tinham boaorgani-
zação € seus componentes haviam granjcado melhorexperiência. Os
resultados, porisso revelaram-se fecundos?.

305
“Até ao primeiro quarto doséculonenhumavantagem prática havaim
colhido osjesuítas, quer os do Brasil, quer os do Paraguai, no sentido de
embargar os passos à gente de SãoPaulo. As multas a queestavam
sujeitos os preadores, foram anuladas a 4 de novembro de 1624 por ato
do governador-geral. Em Assunçãoos moradoresse queixavam de que
os jesuítas, retendoos indígenas,prejudicavam a coleta dahervamateco
comércioque faziam dela, vendendo-a para Buenos Aires, Tucumã e
regiões andinas?!. Verifica-se assim, que a obra dos inacianos espanhóis
encontrava inimigos mesmo entre oscivis seus patrícios, pois estes
acostumaram-se a recolher para si os fugitivos escapos aos paulistas.
Dentre 0s mais destacados colaboradores paraguaios dos bandeizantes
enumeram-se o beneditino frei Francisco Valadares, o carmelita frei
Antônio de Santo Estêvãoe opadre Juan de Campo y Medina cura de
Guairá. Doscivis, aparece implicado desdea entrada de Sebastião Preto
(1612), e senão antes,oloco-tenente de Ciudad Real, Bartolomeu de
Totales, que se uniu aos Fernandes povoadores por laços de sangue. Um
outroelemento dafamília, ouseja, CristóvãoDinis, residente emSan-
tana de Parnaíba, aliara-se notrato escravista comopadre Juan Merinoe
com o capitão Francisco Benites,peloqueeste acabousendoprocessado
em 1631, Aquele avisava-osaoorganizar a entradae eles lhe davam
cobertura, e se acontecia tomar-lhesalguma “peça” por engano,
devolvia-a logo? O maior colaborador dos bandeirantes, nesse mo-
mento,foi, porém, o governador D. Luís de Cespedes y Xeria, de quem.
trataremos.
Por volta de 1627 expansão jesuíticaalcançara notável progresso.
Àsreduções existentes, o padreMontoia acrescera nesse ano a de São
Paulo, próximo de Vila Rica, e a dos Sete Arcanjos mais ao Sul, e na
primeira metade de 1628 dava começo a outras, visando subtrair a
população indigena à sanha dos bandeirantes e a dar ao empreendimento
autosuficiência. Quepaulistas e guairenhosencararam fato com maus
olhos, é óbvio.
Asatas da Câmara deSão Paulo deixam transparecera situação. Em
fins de setembro de 1627 Antônio Raposo Tavares « Paulo do Amaral
“amotinaram” o povo para ir com eles ao sertão. À expressão “amorinar”,
aí empregada, é bem significativa, revelando o descontentamento que
havia por alguma ra2ã0 grave, e o propósio de combatê-la. À causa nos é
esclarecida na seguinte, quando o procucador requereu fossem avisa-
dosoficialmente ocapitão-more ogovernador-geral de queos espanhóis
se estavam instalando nas terras da coroade Pormagal e descendo ogentio

306
para seus repartimentos e serviços, com grande danopara esta capita
niaf3, É a animosidadeluso-castelhana queimpera, oproblemageopolí
tico queagita osespíritos,a ambição econômica de parte a parte, mas, ne
caso em foco, eram os jesuítas os principais visados. O aumento no
número de reduçõessignificava mais território ocupado, maior poderio da
Companhia, menos escravos disponíveis, embaraçospara se alcançar o
Paraguai e o Peru. Assim, a Câmara de São Paulo, que antes parecia
contrária ao intento de Raposo Tavares, o apóia afinal. Talvez, porém,
apenas reduzido grupo de moradores otivesse acompanhado,porque
pairava a ameaça de assaltos holandeses aolitoral. Daí, outrossim, à razão
de osjesuítas lhes infligirem uma derrotadeprimente, capturando “mui
buenas presas cn los tupis” seus companheiros?*.
Barão do Rio Branco assegura que a derrota dos paulistas foi obra
do cacique Tauobá em aliança com os espanhóis, embora se saiba que os
índios das reduções utilizaram armas de fogo. Um bilhetede Cristóvão
Dinis lança alguma luz sobre esse acontecimento, do qual parece que
participou. O capitão Beniteslhe solicitara por carta que não enviasse à
essa parte osseus“negros” ele responde, dizendo: não fizemos desde
que viemosde toyaoba que oderradeirosalto foi então..."85. Toyaoba era
umdostrês grandes caciques da região do Guairá.
Voltando vencidos e humilhados a São Paulo, os tupis e seus
aliadosardiam em sede de vingança, prometendo a si própriostirarem a
desforra. Raposo Tavares, em particular, contando menosdetrintaanos,
cheio de viço e de orgulho, dofa-se do agravosofrido, e sem demora se
pôs à organizar uma nova bandeira. Em fins do primeiro semestre de
1628já estava tudo pronto para a largada
Por uma feliz coincidência havia desembarcado no Rio de Janeiro o
recém nomeado capitão-general do Paraguai, D. Luís de Céspedes y
Xceria, fidalgo espanhol que já servira no Chile. Martim Correia de Sá,
governava pela terceira vez a capitania, e sendo casado coma sra. dt
Maria, filha do nobre D. Manuel de Benevides, alcaide da cidade de
Cádis, recebeu cordialmente aoadventício, e desta aproximaçãoresultou
o enlace do mesmocom D.AVitória de Sá, filha de Gonçalo Correia de Sá
da cristi-novadê Esperança da Costa, natural de São Vicente. E então,
aconselhado, quiçá, pelos mais achegados, resolveu dirigir-se ao Paraguai
pela via mediterrânea, em virtudeda presença de holandeses no mar. À
18 de junhochegava a Santos e depois a São Paulo, onde se demorou
cerca de um mês gozando aqui, igualmente,das boas atenções dos
moradores, o que, tudo, tem sentido. O sintomático, porém, é que D.

307
Luís tanto no logradouro praiano como na vila planaltina, requer às
autoridadespara que não consintam a passagem às terras da coroa de
Castela a nenhumapessoa. E assim, munido dos respectivos certificados
desce ao Paraguai levando em sua companhia muita gente forasteira,
eclesiárica e secular, que prossegue viagem para o Peru com o seu
assentimento. À fim de guiá-lo,vai junto o capitão Manuel Prexo, cabeça
das bandeiras apresadoras nos últimos anos. E não é só. Ao chegarem ao
Guairá, D. Luís ordena aos oficiais reais que examinem a sua própria
bagagem c lhe passem umacertidão, exigência a que ele governador
não estava sujeito. Evidentemente D. Luís tomava precauções para se
defender nofuturo em caso de eventual “juízo de residência”, pois os
fatos mostram quefavoreceu os bandeirantes nos seus ataques às
reduções com proveito para si também.
“Tudoindica um plano preestabelecido com a conivência de D. Luís
Em São Pauloassistiracle aospreparativosparanova entrada de Raposo
Tavares, mas não interviu a fim de detê-la e nem quando chegou ao
Paraguai. Constava, tempos depois, que havia recebido 200 índios das
reduções, dos quais merade enviarapara0 Rio deJaneiro porintermédio
de Benites para sesvizem no engenho deD.º Vicóriafs, Acresce, ainda,
que esta senhora ao dirigir-se em 1631 ao encontro do marido escolheu
exatamente via terrestre, por São Paulo, e se fez acompanhar pelo
primo Salvador Correia de Sá e Benevides e do “famoso corsário do
sertão”, André Fernandes, que foium doscapitãesda bandeirade 1628, e
a quem D. Luiz presenteou com muito gado e muares, Para a Corte,
Xeria clogiava a obra dos jesuítas, mas aqui travava com os paulistas a
extinção das reduções, Diga-se, finalmente, que os paulistas causaram
tantos estragos nas reduções, pilhando-as e destruindo-as, que os clamo-
res dosjesuítas encontraram eco junto ao vice-rei do Peru?”. D. Luís foi
submetido processo, e não obstante os documentos que reunira de
antemão, a justiça julgou-o culpado. Paulistas « Auminenses tinham
sabido valer-se dele em benefício próprio « no da Coroa de Portugal,
acenando-lhe provavelmente com polpudas vantagens marciais
Em agosto de 1628 saía a bandeira de São Paulo na mais perfeita
ordem. Diz o pe. Nicolau dei Trecho em sua História que cla se com-
punhade noventa homens, mamelucos na maioria, e dois mil e duzentos
Índios, seusaliados. Nela figuravam dois juízesordinários, dois vereado-
res, o procurador da Conselho,diversas pessoas da família do ouvidor
Amador Bueno e 9 tabelião Manuel Mourato Coelho, além de outros
elementos de escol, À semelhança das milícias, estava dividida em com-

308
panhias, entregues, respectivamente, a Antônio Raposo Tavares, a Brás
Leme e a André Fernandes, de Parnaíba. À vanguarda era dirigida por
“Antônio Pedroso de Barros e a retaguarda por Salvador Pires de Men-
donça, De uma relação organizada pelos padres das reduções atingidas,
tem-se os nomes de sessenta e nove, figurando nela o de Pascoal,
meio-irmão de Antônio Raposo, o sogro Manuel Pires e diversos
outros da família, os Bicudos, aparentados com estes, Salvador de
Lima, primo de Antônio Raposo Tavares e parente de Antônio Pe-
droso de Barros, Sebastião de Freitas, diversos dos Motas, os Melo
Coutinho, Amador Bueno, filho do ouvidor da capitania, e assim por
diante, numa demonstração insofismável do entrelaçamento étnico-
social na capitania e da conjugação deinteresses, inexistente nas de-
mais partes da América. Note-se também, que à frente da bandeira
estão portugueses naturais do Reino, como os Tavares é os Vaz de
Barros,luso-brasileiros com sangue indígena como André Fernandes
e Salvador Pires, e um tupi que comanda seus irmãos de raça E O
que é mais: alguns desses chefes são da eenia cristi-nova já conhe-
cidos pelo Santo Ofício, cumprindo lembrar os nomes de Antônio
Pedroso de Barros e de Sebastião de Freitas, ao passo que Antônio
Raposo Tavares talvez fosse da mesmaestirpe, por sua falecida mãe
Maria Pinheiro da Costa Bravo.
Em setembro do referido ano de 1628 a vanguarda já se encontrava
nas vizinhanças do aldeamento da Encarnação,onde levantou uma pali-
cada,e ali permaneceu sem praticar qualquerviolência durante quatro
meses, recorrendo,talvez, a medidas diplomáticas, ou aguardandorefor-
ços, ou à procura de algum pretexto.Este,de fato,surgiu, espontâneo ou
provocado, quando o cacique Tataurana, da leva de Simão Álvares
Martins,fugiu para à sedução próxima, chamada Santo Antônio. Recu-
sada a sua devolução pelos padres « dado o aviso a Antônio Raposo
Tavares, chefe de toda a expedição, mandouele atacaro reduro inaciano.
E desse modo caíram sucessivamente mais seis reduções é, em conse-
aúência, foram aprisionados milhares de indigenasse
Conta-se que ao tempo doataque à redução deJesus Maria, tendo o
pe. Cristóvão de Mendonça perguntado a RaposoTavares porque permi-
tia aos seus subordinados agirem portal forma, respondeu: “Temos que
expulsarvos de uma terra que massa e não de Castela”. E de outra feita
interrogando-o acerca do título em que se estribava para lhes mover
guerra, declarou que “pelo título que Deus Úbes dava nos livros de Moisés”.
Raposo Tavares era o chefe supremo e à sua mentalidade e atuação

309
devem ser levados em conta. AO Superiordas reduções, pe. Ansonio Ruis,
retrucaram Antônio Pedroso e D. Francisco Rondon,que 4 faziam por
mandado do rei que tinham no Brasil, referindo-se, quem sabe, ao filho
do senhor D. Antônio ou mesmo ãoconde de Monsanto, evitando
cité-los abertamente*?, Jaime Cortesão levanta a hipótese de que O
donatário teria sugerido ou mandadoorganizar a bandeira, pois a Câmara
quase em peso nela se engajou e o capitão-mor não lhe criou entraves?
Em todo o caso percebe-se oespírito de independência dos paulistas, que
recusavam o domínio espanhol
Osbandeirantes chegaram de regresso a São Paulo em maio de 1629,
e logo organizaram novas expedições ao Guairá, as quais acabaram
arrasando não só as reduções existentes no território, mas ainda as vilas
de Ciudad Real é Vila Rica, numa afirmativa clara de que o objetivo (a
alémde apresar índios. Com os remanescentesos jesuítascriaram novas
reduções na região do Tape e em área do baixo Mato Grosso, mas
também elas foram atacadas em ocasiões diversas conforme vimospági
nas acrás. Assim, no ano de 1648 Antônio Raposo Tavares e André
Fernandes invadiram o Itatim e destruíram as suas reduções. Nessa
ocasiãoopadre Barnabé Bonilha comunicou o fatoao governadosdo
Paraguai, e entre outros informesescreveu: “dizem que o duque de Bre-
gança criou mestre de campo a Antônio Raposo Tavares, para conquistar estas
terras e fazer caminho para o Pera...8! O certo é queos luso-brasileiros
estavam conquistando,agora, o Centro-Oeste. Dali 0 insigne bandei-
rante alcançou Peru, deonde, descendo o Amazonas, foi ter aoPará,
apos trêsanosde internamento pelossertões, dando mostrasde bercólea
força de vontade. O Sul e o Norte foram ligados bem comoo Peru ao
Astântico. em termos
Os padres da Companhia, naturalmente, recriminaram cometendo
acércimos os paulistas; porque lhes invadiram as igrejas,
sacrilégios, usurpando-lhe os índios, Taisé,ainda por cima, destruindo
tudoque encontraram nas reduções. delitos, diziam, eram mais
próprios de judeus e de hereges do que de cristãos. O padre Francisco
Crespo no seu Memorial ao rei declara mesmo“Que muchos dellos son
bristiamos nuevos y se ham becho yndomitos sim conocer a la divina
7 Vana Vuestra Magessad"sa
Não resta, pois, dúvida, à luz do que sabemos, que muitos dos
bandeirantes eram cristãos-novos, permitindo-lhes as andanças pelo ser-
tão uma vida livre e sem oportunidades para o cultivo da fé católicas?
Não faltariam aqueles que tinham recebido o batismo só pro- forma,
comoconstataram osjesuítas do Guairá. Nem o sertanistase podia darao

310
luxo é a práticas cavalheirescas, vivendoem meiotãorústico. É pro
quealguns, além disso, exteriorizassem nos sacrilégios que praticavam, o
ódio votado ao Santo Ofício, pelos males que causava à grei,
sequestrando-lhe os bens « conduzindo a tantos da progênie à fogueira
inclemente. Se istose faziaem nomeda religiãoe poraqueles que deviam
exemplificar a miscricórida, por queestranhar o procedimentode judeus
hereges em pleno sertão? De mais à mais, o espírito do século era
caracterizado por antagonismos de toda sorte. Findas as lutas sanguino-
Jentas entre católicos « protestantes na Europa, eis que surge aGuerra dos
Trinta Anos, e mal esta se iniciara, atiram-se as nações do Norte contra os
domíniosibéricos no ultramar. Na América do Norte cvitam-se os
católicos, c naluso-espanhola osprotestantes. No Brasil os moradores
combatem os holandeses da religião reformada. Em São Paulo, os
habitantes renegam os jesuítas portugueses, porque O interesse cco-
nômico de ambos se contrapõe, ao passo que, aos do Guairá, Tape e
Itatim movem guerra levados por razões econômicas e geopolíticas.
Nãocombatem a Companhia, propriamente, mas reivindicam cão só
direito de servir-se dos índios e ode defender regiões que julgam
pertencer à coroa de Portugal. Em tais circunstâncias devem, pois,
ter cometido mil desatinos, mas também é cereo que osdiscípulosde
Santo Inácio exageraram em suas diatribes, esperando ser ouvidos,
porquanto até aí tinham pregado no deserto, sem ressonância al-
guma. O que,todavia, conta o pe. Lourenço de Mendonça na Suplica
“5. Majestade, aotratar sobrea criação da diocese doRiodeJaneiro
é de estarrecer: vigora amplamente otráfico de escravos tiradosdas
reduções, dando-seo fato de que muitos são encontrados mortosnas
praias e outros deixados emestadolastimável
Desde 1612 o Conselho das Índias e orei vinham recebendo
cartas é memoriais enviados por jesuítas « autoridades civis sul
americanas denunciando as entradas sertanistas da gente de São Paulo e
solicitando providências. Naquele ano,logoapós a entrada de Pedro Var
de Barros ao Guairá, Diego Marin Negron,governador do Prata, dirige
sea $. Majestade, notificando-o quantoà desordem que os portugueses
causaramnareferida província, e recomenda para atalhar o mal, duas
coisas: que o governador do Brasil impeça as entradas; que O Paraguai
seja separado do Prata,a fm de ser melhorcuidado. Esta últimasugestão
foiaceita, sendo nomeado o próprio Negron. Em 1614 a Audiência de
Charcas repete a el-rei que os paulistas continuam avir ão Paraguai e a
levar índios escravisados. À mesma em 1616, sugere como medida p:
acabar a um só tempocom os danos das entradas « comSãoPaulo como
escala para o Peru que S. Majestade mande despovoar esta vila. No
ano de 1620 os inquisidores de Lima escrevem ao Conselho do Tri-
bunal e pedem se crie um tribunal autônomo em Buenos Aires e
Paraguai. Nunca porém, se atendeu, em vista do Ônus e das aperturas
do Erário, bastando manter ali um comissário, Nãocessaram, por
conseguinte, nemas entradas e nem as viagens ao Peru. Mas, à partir
da bandeira de Raposo Tavares em 1627, as denúncias se sucedem a
curto prazo, porqueas investidas são mais frequentes, maiores os
danos€ aversão ao domínio espanhol. Assim, a 24 de setembro de
1627 escrevia do Paraguaio padre Nicolas Duran ao procurador da
Companhia em Buenos Aires, padre Francisco Crespo, dizendo-lhe
que se entendesse comas autoridades de Porcugal e de Madri a
fim de porem paradeiro às correrias dos paulistas, pois não fazem
caso de nada. A menos que se arrase a vila de São Paulo, nãose porá
termo a essas tiranias e crucldades, conclui ele, Atendeu-o de ime-
diato o procurador €, quase um anoapós, o Conselho das Índias, a 31
de agosto, em consultaa Filipe II, repetia pareceres anteriores,isto
é, que $. Majestade mandasse ao Conselho de Portugal tomar provi-
as, e ao governador do Rio da Prata deter os delinguentes e
los. Contudo,nem aquele se importou e nem este possuía
condições para isso. Sucede, outrossim, que em taís circunstâncias
assumiu a direção do Paraguai o venal D. Luiz de Céspedes. Ao
mesmo tempo reclamavam os jesuítas pessoalmente, por meio de
emissários seus, aos representantes da coroa lusa na capitania de São
Vicente e na Bahia, mas, conforme testemunharam, nada tinham à
esperar. Então, no anode1631, chovem as queixas. O padre Crespo
escreve ao Conselho novamente, usgindopor medidas eficazes. A 4
deabril o bispo do Paraguai, D. Mateo de Espinosa, denuncia aorei
Osatos praticados por D. Luís e as consequências danosas resultantes
deles?s. Já nessa ocasião havia o Conselhosugeridoao Soberano à
designação de uma junta paratratar do problema, porém ela nem
sequer chegou à reunir-se, Em Lima concluíra-se a devassa contra D.
Luís, oque levou o vice-rei, conde de Chinchona informar tudoao
tei, por carta de de maio de 1631, sugerindo,a propósito, que se
fizesse à compra de São Paulo, reconhecendo,certamente, que
destruí-la era coisa impossível. Faltava quem pusesse o guiso no pes-
coço àogato.
Aburocracia espanhola era tãovagarosa ócua, que acabou dando
tempo aos bandeirantes no sentidode destr irem muitas das reduções

312
restantes. Novas € lastimosas missivas chegam à core madrilena. O
Conselho por duas vezes adverte o rei no decorrer de 1638,e mais uma
vez nada resulta de prático. A 29 de março do anoseguinte os conselhei-
ros voltam à carga, apresentando-lhe uma consulta englobando 26 pon-
tos. Nela se resumem todas às queixas chegadas «o seu conhecimento
desde 1614, Os paulistas são criticados acerbamente. Em síntese, diziam
que as razias efetuadas nas reduções eram próprias de cristãos e
nem de vassalos obedientes a S. Majestade, E comose explica isso? É
que entre eles havia numerosos estrangeiros, e sobretudojudeus, tanto
que aos índios escravisados “les ponem nombros del Testamiento
Viejo..
Propõe o Conselho à vista de tudo, uma série de medidas drásticas
mandar ao Santo Ofício, os governadores da Bahia e Rio de Janeiro,
prender 0s culpados, e mais especificamente a Antônio Raposo Tavares,
a Frederico de Melo e a diversos eclesiásticos de São Paulo e do
Paraguai, a fim de serem julgados pela Inquisição;criar a diocese do Rio
de Janeiro, devendo o novo bispo ser assistido por um comissário do
Santo Ofício,e se os ouvidores e outras justiças se recusarem dar cum-
primento aos decretos sobre as entradas, sejam depostos dos cargose
processados com o confisco dos bens. À devolução dos indígenas aos
seus lugares de origem esa matéria indiscutível. O rei, afinal, subscreveu
“ia limine”a consulta, transformando-a em resolução.
Comosevê os jesuítas obtiveram uma vitória estrondosa, tanto mais
significativa porque o papa Urbano VIII também lhesdera ganho,repri-
mindo otráfico vermelhopor meio de uma bula. Contudo, reação no
Rio e em São Paulo foi imediata, havendoagitações contra os referidos
padres e expulsão deles desta vila. É dificil prever outras consequências,
pois em vista da aclamação de D. João IV, o quadro se alterou por
completo. Para os paulistas não poderiater acontecido melhor reviravolta,
porquantoficavam livres do domínio habsburgo e dos castigos a que
estavam condenados. A Inquisição, queainda há pouco condenara aume-
rosos portugueses em Lima, nãoatingiria osde SãoPaulo. Por outro ladoa
fidelidade que juraram ao novo rei, conscicuía motivo de satisfação e de
segurança.
É verdadeque o bandeirismo de apresamento retrocedea pardr
desse tempo, mas as causas são múltiplas. Decaíra sensivelmente o
númerodeíndios nas reduções; Angola, supridoradeescravos negros fora
reconquistada; o Nordeste, apósalgum tempo,havia começadoa produzir
açúcar. Não demorará a aparecer nos mercados o produto das Anilhas e

313
das Guianas. Os paulistas, por seu turno,irão entregar-se a ourras ativida-
des,
Todavia, o bandeirismo paulista produziu frutos notáveis. Como
sistema de vida que foi, envolveu praticamente a todos os moradores,
brancos, índios e mamelucos, cristãos-velhose cristãos-novos, impri-
mindoà sociedade planaltina um caráter todo particular. Houve aqui, um
congraçamento admirável, que permite aos brancos,sendotão poucos,
realizarem uma obra gigantesca, graças, outrossim, à adoção em grande
parte da cultura indígena. Daí, também, o espírito de liberdade e de
democracia que se desenvolveu na Paulicéia, com reflexosna vida polí-
tica local, de que a Câmara é um exemplo.
Economicamente o bandeirismofoi a salvação do planalto, porque
recorrendo ao escravoindígena desenvolveu um tipo de lavoura que
correspondia às imposições do meio e cujos excedentes, quer de produ-
tos, quer de braços, exportava para as zonas açucareiras é até para outras
partes, Issosignifica, também, queos cristãos-novos encontraram nessa
anvidade um estímulo para seu espírito de aventura e de lucro. É
possível dizer-se mesmo que o bandeirismo se constituiu numaindústria
bem organizada.
Masas consegiiências mais duráveis e profundas foram de natureza
geopolítica. Primeiro, compeliram os índios pasa ossertões, obrigando-
Os 2 se interiorizarem, e depois indo ao seu encalce, e, então, aos das
reduções, Nesse sentido os paulistas devassaram sertões, abriram cami-
nhos é prepararam O terreno para os descobrimentos mineralógicos do
fim do século e parte do XVIII, bem como para o povoamento, mas
reduziram consideravelmente a população indígena e arruinaram & sua
aculturação. Entretanto, sem as bandeiras jamais o Brasil seria geografi-
camente o gigante que é. Graças a elas o nosso território ganhou milha-
tes de quilômetros. Ao tempo de Restauração, o meridiano de Tordes
lhas já fora anulado pela gente de São Paulo, e D.João que lhe conhecia
bem ovalor, mostrou-se sempre avesso a qualquer ato que a molestasse
A delimitação das aruais fronteiras foi traçada a grosso modo até fins do
século XVHI,quando cessaram as bandeiras. Elas deram razão ao direito
de “utis possidetis”. Vale a pena transcreveraqui a opinião de Gandia
com respeito aos bandeirantes e à obra por eles empreendida: “Ellos
fueron, indiscutiblemente los causantes má directos de la ruina de las
misiones juesuíticas; pero también es cierto que con essas cacerias de
indios em plena selva — actos injustamente censurados — ilevaban la
civiización a lugares donde de otro modo nunca habria legado: se fun-

314
daban ciudades y el comercio corria desde la costa del Adântico hastacl
corazón del continente através de bosques que hasta aquellos momento:
habían sído impenerrables”. E mais adiante acrescenta, como que nur
verdadeiro elogio,as seguintes expressões: “Los terribles bandeirantes,
cuyosólo nombre infudia pavor en las misiones jesuíticas y en los po-
bladores del Paraguay, fueron los hacedores de una gran nación. Sólo à
ellos les debe el Brasil la amplitud enorme de suas fronteras, y solo
ellos, cuandonadic pensaba levantar colonias en las selvas virgines, con-
vertian Ja soledad seivage de las llanuras en magníficos jssenios de azó-
car y en esplendidos hierbales?”.

Notas

1 - Bula “Inter Caetera”, de 4 de maio de 1493,


2- Foi essinado 7 de junho de 1494, e ratificado a 2 de julho pelo governo
poruguês e 5 de setembro pelo espanhol vol. 1, pp. L68 e 169.
3 - Jaime Cortesão. Introdução à História dar Bandeiras
& = "A obra tomou variados títulos posteriomente, cf. Introdução à Netíio do Bra
“sl, e dela circularam algunas cópias,cf. pp. 3 e segs
5 - GabrielSoares, Natcia do Brasil pp. 65, 67 e 71
6 - Ambrósio Femandes Brandão, Dialhgo dos Grandezas da Bravl, p 49.
7 - Frei Vicente do Salvador. História, p. 44
8 Earique de Gandia, Anticidenter diplomática da las expediciones de Juam Diaz
Salir, Sebasrian Caboto 3 Dom Pudro de Menábza, pp. 73, 107, 162 e 163
BuenosAires, 1935.
9 - Idem. Gregório de Pruquera - Um Drogetoiqnerado de governacidm em la costa de
Bretil (1336). Buenos Aires, 1935.
10 - JM Rubio. Exploración y Conquista de Ria dela Plata, pp. 101 e segs.
21 Idem pari
12 - Carvalho Eranco. Op. cit, pp. 134, 155.
13 - Rio Branco. Efemérides Brasileiras, pp. 587, 588.
= JM. Rubio. Op. cit. patrim,
S. Leite. Cartas dos Primeiros Jesattas, 1, pp. 431 e 502.
24 - S. Leite. Op. cit, pp. 451, 492, 495. Eob
15 É É admissível que uma levatenha de sertanistas sob o comandode Heliodoro
nos, do Rio de Janeiro, encontrado ouro em Paranaguí nos idos de
2570, ou depois. - Basílio de Magalhães, Op. ct, p. 80.
16 - Efraim Cardozo. E! Paraguay Colonial, p. 163.
17 - 5, Leite. Op. cit, 1, pp. 484 e segs
7 Se a linha fosse cecuada, as ilhas Molucasficariam de fora é a Espanha não podia
reivindicálas,
18 JP, Leite “Documentos quinhentistas espanhóis referentes à Capit. de 5. Vi-
cento” Io Ret LHGS.P. 9.º 46, p. 305

315
19 - Carvalho Franco. Op, ci, p. 204
20 - Efemérides Paulistas, vol. 1, pp. 5 e 253; voL 11, pp. 154 é 199,
21 Carvalho Franco. Op. et. pp. 345 e segs.
22 - O Tape correspondia ao centro do atual EstadodoRio Grande do Sul
23 - Azevedo Marques. Apontementas 11, 145.
- Res. A MSP, vol. LV, 1940, p. 17
24 - ANB, Ajuda, 1. 50--36 6. 51, 53 (antigo)
= O fim comercial não se deve perder de vista Dele rataremos amplamente em
aosse próxima obra
25 - Sobre a linhagem crisá-nova de D, Manuel Lobo, consule-se a Pelos. Lusi-
tana, 2.1, vol. 1, p. 39; vol. 1, p. 41
26 - BNIL, Livra do Bratil, 2.º 33, pp. Ó2 e segs
27 JoãoTavares Roldão e a mãe foram presos por ordem do Santo Ofício, Faleceu
na prisão comdoitros, quando os franceses invadiram cidade, conforme diz
Francisco KI. Werneck na Hi, e Genéal, Elaminmie, p. 90.
28 - Efemérides Brasileiras, p. 366. Um homônimo, que supomos parente,foi preso
porordem da Inquisiçãoem 1713,
20 - Efemérida Paulistas, vol. IL, 9.95,
30 » Reg. Geral (CM.S.B), vol. VII, pp. 109 a 114,
31 - À bandeira de Jerônimo Pedroso de Barros à Imbororé, em 1641, se com-
punha de 400 brancos, 600 mamelucos e cerca de 2.500 índios tupis
32» mos. e Tests, vol. VN, p. 311
33 CMS.P, Reg, Geral, vol. 1. p. 109 a 114
Em1552, Uírico Schmidl,palmilhando urnaerlhade índios,veio parar em São
E

Vicente, é depois dele, muitos outros O seguiram, espanhóis € portugueses


35 - A. E Taunay menciona estas relações ne sua monumental Hit. Geral das Bandeira
vol Lp. 17] e segs
CMSP. Atas, ano de 1603,
57 16. Salvador. Op. cit, pp. 13 a 15.
38 - S, Leite. Cartas das Primeiros Jesuítas. 1, pp. 336 e segs.
39 = Idem, ibidem, p. 421
dO - Idem, pp. 432, 450.
4? = Idem, ibidem, pp. 450, 451
42 - Abud Jaime Cortesão, Intrad. à História des Bandeiras, vol, , pp. 234 e segs
48 - Por exemplo, Gaspar Conquero foi capitão-mor de São Vicente por diversas
vezes, de 1607 a 1612.
44 Rebelo da Sika Op. vol. IL
- Mario Bransão. Coimbra e D. Antoni, Rei de Portugal.
45 - O sebustianiamo acentavasuas ríres no messiaismo hebreu. Na Bíblia inspirou-se o
Bandarra pars escrever as Tsmsar em que previo 2 derrota de Aleicer Quibir e a
recuperação da pátria Manuol Bocareoalimentou depois o mesmo espirito. Os sof
dos judeusaruardavam, por seu turno, umareviravolta a seu favor
= O sebastianiomonão foi 0 único a contribuipara à Restauração. Desem
penharam também papel de relevância a literatura que eontecia os feitos de
Portugal,à siruação econômicado Reino,o espírito de nacionalidade, e outros
46 - Jaime Coreesão. Reparo Tavares... pp. 186, 187, 188.
47 BNL, Me do Brasil, vol. 140, p. 106
48 Frei Vicente do Salvador. Op. ic, p. 253.

316
49. Car. Meggs. Bros, p. 177, 0.º OA, M, Pre, € TH, p.
E Diálogodas Grandezas. Op. cit, cf. pp. 16. 186 exc
s J. Toríbio Medina. História del Tribunal dela Inquis. de Lima, vo. , p. 304,
2 Tem, idem, vol.pp. 236 e segs. O
AHU, - Auto de devassa e inquisição mandado eferuar pelo ouvidor geral
João Velho de Azevedo na vila de São Paulo em 1654.
sá Rebelo da Silva, Hit, de Portugal nos Skclas XVI é XVEL é. HI,caps. Le
5 Em 1618 quem responde pela capitania é exacamente o conde de Vimioso, não
havendo sobre issoa menor dúvida. Veja-se, a propósito, a carta a governador
D Luisde Sousa, em A.M. Pia. II, p. 65.
O despacho tem à data de 29 de novembro de 1611, conf. AG-AL, 115 A,À.
3 A.162.Mis, vol. 1, pp. 140 a 145, 149, 150, 171172,213.
58 Na biblioteca do conde de Vimioso existia a “Relação do Descobrimento das
Esmeraldas que prosseguiu D. Francisco de Sousa”, evidenciando que acompa-
nhava os esforços mineralógicos,
Sobre essa intrincada questão, consultem-se ostrabalhos a respeito, de Benja-
min Calixto, de Pedro Taques, de Carvalho Francoe de outros.
AM. Pia, 1, p. 319.
AMPia, t 1, pp. 170, 171.
- AM Pio, £ IL pp. 515 e 314
- Rebelo da Silva. Op. ci.
NV. Thomas Walsh, Felipe11, p. 55.
“Thomas Walsh. Felipe II, pestim
JG. Salvador. Op. ci.
Monsenhor Camargo. Hi. Edeidisiza do Brasi, p. 160.
CMSP Asas
- ARU, Bh-cx 1, canjog
A HU. - Esp. Santo, cx. 1, doc. de 1-X-1655,
Atas log ci
D. Luís de Céspedes y Xeria, em 1628, é os jesuítas do Paraguai também
verificaram ixo.
- 1. G. Salvador. Op. ci
Em um curioso documento, é acusado de proteger aquela gente, recebendo
dinheiro atravésdo secretário, pelo que passou cartas de familiares a muitos, €
à Sebastião Cesar, da etnia, nomeou para o tribunal de Coimbra, e para o de
Évora,a Marcos Teixeira, crstão-novo, que depois veio em visitação ao Brasil
Apud AJ, Saraiva em Impuisição é CristãosNovus, p. 171
2 AHU, Bahia, c
3 Jaime Cortesão. Introdução à Hitípia das Bandeiras
ldem. Rapéso Tanare é a Formação Territorial do Brasil
AM Pi, p9.
Idem, ibidem, pp. 12 e segs
Idem, ibidem, pp. 275 e segs
Estes fornos pertenciam a Diogo de Quadros « ao cunhado, Francisco Lopes
Pino, dosquais Se associaram posteriormente,num ou noutro, Mactim Rodri-
“ses Tenório e D. Luísde Sousa, filho de D. Francisco.
Casca de D. Antônio de Ajasco, em AM. Pie, t 1, p. 153 e segs

317
79 -RGCSP, vol VIE
80 - Foge 20 nosso objetivo bistoriar o movimento bandeirante, mas, apenas, men-
cionar a participação nele de alguns ceistãos-novos mais conhecidos.
81 - AM Pio, t. 1, 184; 1, 289, 301
82 - AM. Pia. t 1, pp. 319 e segs
83 - Atas é ML, pp. 281 a 283.
84 A um destes, muito estimado pelos tupis e pelos pormugueses,o pe. Cristóvão
de Mendonça mandou açoitar. a tal ponto que veio a morrer, segundo o in-
forenedo pe. Montoia naánua de 1626
= Col. De Ages Jeitias é Bandeirante no Guairi, pp. 299 98
85 “AM Pla, e 1.p. 319,
86 Um documento afirmaque ele se gabava de ter mandado 2000 índios. No
paraguai ulizou à muitos nos hervais de mae.
“AM. Pia. TI, 264 e segs. 283 e segs
87 AM Pro. pp. 15 e segs
88 Calculase ototal em 20.000, alguns dos quais focam dados ao capitão-mor de
São Vicente e ao governador-geral oa Bahia.
89 AM Pre, e. Tp 315.
9O - Rapaso Tavares e 4 Formação territorial, p, 179.
9? Col De Angelis, vol. 1. Tita * Bandeirantes... p. 91
92 AM Pia: 1, P. 285.
93 - Deles disseram os jesuítas que, nesse tempo, não ouviram missa, não guarda.
ram osdias taneificados e nem os mandamentosda Igrejae que comeram carne
na Semana Sana
94 AM Pie, 1, pp. 169, 79,
95 AM Pia. € 1, pp. 270 € seg; 283 e segs
96 Em junhode 1674 0secretário do Conselho Ultramarino em Inforaação a 5.
Masescade falava sobre a situação da capitania é clogiava 0% terviços prestados
pelos paulistas dizendoentre outras coisas que cles haviam cortado os sertões e
abertocaminhos às suas Custas, ensejando melhores condições para os desco.
brimentos. - AH.U., RJ, doc. 1218.
97 Enrique Gandia Lar Misiones Jesaíica: y las Bandeirantes Paulistas, pp. B4 e 85
Escapa do nosso objetivo entrar em maior profundidade na história do bandei-
sismo. Os leitores poderão, para tanto, tecorrer às obras já citadas de AE,
Taunay, de Jaime Cortesão, de Basílio do Magalhães, Alfredo Ellis Jr. Aurélio
Porto, Carvalho Franco,não esquecendo inclusive as obras de autores estran-

318
CAPITULO SEXTO

O DOMÍNIO ESTRANGEIRO
E OS CRISTÃOS-NOVOS

Portugal gozou de boas relações com o Ocidente até ascensão de


Elipe IT ao tronoda ex-Casa de Avis. Navios de diversas procedências
vinham eransacionar em seus portose algunas vezes ao Brasil. Porissoo
nossolitoral raramente sofreuincursõesdeestrangeiros na maior parte
do século XVI, salvo daFrança. Mas a união das coroas alterou à situa-
ção de maneira impressionante. Filipe granjeara à inimizade da França,
da Inglaterra e dos Estados Gerais neerlandeses, mais por modvos polí
ticos do que religiosos, embora no caso destas últimas nações, ambas
protestantes, esse fator tivesse exercido ponderável influência. Ne-
nhuma das três se conformava com o imperialismo espanhol. Efeito
idêntico causou no ânimo dos cristãos-novos portugueses, é mais parti-
cularmente no dos exparmados, o de o rei habsburgo ser um impretérito
defensor do carolicismoe da Inquisição, e daí o papel que desempenha-
ram, via de regra, fora de Portugal e nas conquistas. Muitos deles se
haviam transferido para essas nações e lá se colocaram aolado doprior
do Crato,ajudando-o com recursos em dinheiro e por outras formas. O
apoio que as referidas nações deram a D. Antônio resultou, em part,
de relações que tinham nas cortes, Em 1581 chegou-se a planejar em
Pais, pasa onde fugira, a conquista do Brasil e a instalação aqui de um
“governo chefiado pelo presuntivorei português. Asincursões ao litoral
porfranceses, ingleses e holandeses, também se enquadram dentro da
mesma filosofia.
so posto, vejamos o que se passou com respeito ao Brasil
2 = Ingleses no Brasil é cristáos-movos.
A atuaçãodos ingleses foi mínima e pacífica até então. William
Hawkins visitou as costasbrasileiras de 1530 a 1532,e ainda posterior

319
mente, revelando assim ter conhecimento de certas rotas e ser vantajoso
9 trato. Levava no regresso pau-brasil e ocasionalmente dentes de ele.
fante carregados na Guiné. Por volta de 1540, outros negociantes, de
Southampton e de Londres realizaram viagens ao Brasil. Em 1542 um
certo Pudseyesteve na Bahia de Todos os Santos, ondetraficou com os
índios da região,e ao que parece nãofoi o único. Pau-brasil, algodão
papagaios eram os artigosdo escambo. O corso, porém, embaraçou as
relações entre Portugal e Inglaterra, pelo que Maria Tuddor proibiu aos
seusvassalos irem às conquistas, mas cles continuaram. Onegócio era
lucrativo, e não queriam Jargá-lo. Ogoverno português reclamou, sem
resultado. Sucederam-serepresálias até 1576, quandoum tratado de paz
lhes abriu os portosde Portugal, Madeira e Açores. Em 1580,com Filipe,
tudo mudou.
Ao tempo darainha Isabel voltou a renovar-seo interesse pelo Brasil,
considerado ponto de escala para os mares do Sul, o pau-brasil existia em
Jarga extensão da costa, à indústria açucareira estava em desenvolvimento
€ se dizia haver minas deouro e de prara na capitania de São Vicente.
Esta, sobretudo, merecia especial atenção. Em 1581, demorou-se em
Santos o navio Minion, trocando mercadorias européias por açúcar. Mas
embarcações queaqui aportaram em seguida, como as deEdward
Fenton, em 1583, e Th. Cavendish, em 1591, tiveram poucoa vercom os
planos do prior do Crato e com grupode negociantes ingleses, do qual
faziam parte alguns marranos expatriados.
Havia naInglaterra por esse tempo uma comunidade de hebreus,
englobandode sessenta a noventa pessoas, a maioria nascida em Portu-
gal!, Uns tinham ido para Já, diretamente, escapando ação do Santo
Oficio;outros tinham vivido antes nosPaíses-Baixos, até que CarlosVem
1549, determinouquese retirassem. Muitos, depois disso,abrigaram-se
à sombra do protestantismo, aceitando-o leal ou ficticiamente. Tendo-
se identificado assim com essa doutrina, não lhes foi dificil achar aco-
Ibida no país da rainha Isabel?. A semelhança do judaísmo com o lutera-
aismo, mais do que com o catolicismo, dava-lhes, intimamente, certa
tranqúilidade, embora tivessem que agir publicamente comoprotestantes,
O desenvolvimento marítimo e comercial da nação era também um atra-
tivo para cles. Sendo portugueses, no entanto, diversos mantinham re-
lações com Portugal, onde haviam deixado parentes ou conservavam
representantes. Sabe-se que ocrisão-novo, Gregório Luís, comensal do
infante D, Luís, pai doprior, tinha-os na Inglaterra, e que, um dia, lá os
foi visitar, mas, como soi acontecer, nem todos se sobressaíam, e por

320
isso permaneceram olvidados. Conhecem-se, potém, duas famílias cuja
atuação marcou época:a dos Ades é a dos Freire, entrelaçadas com ou-
trasê, Os Afies se estabeleceram em Londrespor volta de 1521 ali
prosperaram material e socialmente. Gonçalo Aães, denominado tam-
bém Benjamin Jorge, Gonzalvo George e Dunstan Afes enveredou
pelo comércio, tornando-se um dos mais eficientes negociantes no ar-
quipélago,pois importava produtos das Índias e de várias procedências.
E,além disso, associado aos congêneres Dr. Hector Nunes e Jerônimo
Pardo, transacionava com as praças de Lisboa e Madri. Em 1580 provi-
denciou embarcações para prior, 2 fim de que este pudesse enfrentar
as forças de Filipe. O filho, Jacó, na mesmaocasião ajudou à D. Antônio
em Lisboa. Um outro, por nome Guilherme, foi enviado em missão
secreta a Portugal no ano de 1581, e no ano seguinte, com o irmão
primogênito, Benjamin, e já obtida a colaboração da rainha Isabel,
rumoupara os Açores objetivando o desembarque ali da expedição de
Drake?. A tomada deste arquipélago era de suma importância para D.
Antônio, porquanto, banido de Portugal, à sua cabeça andava a preço de
80000 coroas. De uma das ilhas podia saquear as frotas do ouro e da
prata € reconquistar novas terras. Todavia, pouco durou o sonho do
prior, porque o concursode Drakefalhou, por injunções da política, e
Filipe mandou uma grande esquadra contra O rival português e seus
aliados franceses. Ferido o combate,nele pereceu oconde de Vimioso,
fil amigo em todas as horas.
Umadas filhas de Gonzalo Aães, de nome Sara, casara-se com o Dr.
RodrigoLópez, hebreu convertido ao calvinismo, após sua mudança de
Anvers para Londres. Nesta já o havia precedido oDx. Hector Nunes.
que lhe abriu o caminho
médico natural de Évora,e foi este, sem dúvida,é que
dosucesso, pois era notável cirurgião. O certo o Dr. Rodrigo veio à
ser médico do conde de Leicester, favorito de Isabel, e desde 1586 da
própria rainha. Assim, ceria sido o Dr.Rodrigo ou osogro, ou ambos, que
estabeleceram os primeiros contatos do conde de Vimioso e do prior do
Crato com Walsingham c Cecil, ministros do Governo,e depois com a
rainha. Na casa de Rodrigo hospedou-se o rei iransfuga c o velho Aes
foi quem Jhe deu cobertura aos gastos. Já antes, quando precisou retirar-
se de Portugal para a capital francesa, refugiou-se na casa de outro
influente judeu, chamado Álvaro Mendes, o qual, segundo consta, jun-
tamente com o conde de Vimioso, procurou interessar Henrique IIe
Catarina de Médicisa favordoseu nobre hóspede, embora sem caráter
oficial, De Paris, seguiu D. Antônio para Londres, recomendado ao Dr.
w
RodrigopelocunhadoÁlvaro Mendes. Foram ainda elementosligadosa
essas famílias que em 1585 levaram informesà rainhasobre ospreparari-
vos que sub-repticiamente se processavam na Península para a invasão
das ilhas britânicas. Bernardo Luís, residente em Madri, mandou-os em
cartas cifradas ao primoJerônimo Pardo, em Lisboa, que porsua vez, as
entregou aoDr. Hector Nunes, em Londres,e este a Walsingham, se-
cretário do Governo. Existia, pelo visto, umarede de espias judeus à
serviçodo nacionalismo português, espalhada por todo o mundo, e que
se emiscuía até na vidapolítica, visando reduzir o imperialismo da Es-
panha católicas. Nesse mesmo sentido está a influência de José Mendes
(ou Nasi), cunhadodeAlvaro Mendes, na Corte dosultão da Turquia,
auxiliado pelo embaixador Barton,a investir contra Filipe, de modo a
obrigí-lo a desviar forças para o Mediterrâneo, o que, em parte, conse-
guem. Então Filipe se apressou a fizer pazes com o sultão, cedendo-lhe
a Algéria emtroca, e evitando,assim, maiores danos*.
A Inglaterra e a França, que vinham apoiando mais ou menosvelada
mente à causa do monarca português, receosas dopoderio deFilipe, em
1585 adotam posição oficial. As Províncias Unidas, por sua vez,
comprometem-se a não permitir a exportação de armas e munições
pelos portos holandeses para a Espanha e Portugal. É, pois, em tais
circunstâncias, que nesse ano o capitão Francis Drake,perigoso na guerra
de corso, investe contrao podernaval da Espanha,saqueando-Jhe frotas e
possessões. Em 1585, comandando nova expedição,dirige-se a Cádis €
destrói a armada que se organizava ali. No anoseguinte dá-se a heca-
tombe da Invencível, O poderio de Isabel se fortalece, em contrapartida,
de sorte que, no ano de 1587, Drake e John Norris surgemno porto da
Corunha e repetem a ação de Cádis. Na volta desembarcam em Peniche
com à intençãode restaurarem a D. Antônio, no trono, mas a saúde dos
soldados e a carência de munições não lho permitiram?
É a luz desse quadro geral que se devem observar as excursões dos
corsários estrangeiros ao Brasil a partir da união dinástica. Asregiões
meridionais lhes despertam a atenção e em particular São Vicente, pelas
condições queoferece: de escala para as regiões doPrata e Mares do Sul;
de ponto de reabastecimento, e também porqueenseja po ibilidades
comerciais. É perfeitamente crível que o seu objetivo envolvia, em
adendo,estabelecer contatos a favor de D. Antônio, que bem sabiam
achar-se soba proteção de Isabel, tendoambos lhes passado cartas de
8S
Pos mais de uma feita esses navegantes se aproximaram das popula-
ções litorâneas com gestos pacíficos, embora, no geral, repelidos porà
desconfiança. A presença do navio Mirim ex Santos, de fevereiro
junhode 1581, é disto belo exemplo, sugerindo orelacionamento com
os eventos políticos da época e com o grupode comerciantes residentes
naInglaterra com os quais Joha Withall se comunicou. Parece que a
atitudede Edward Fenton, em 1583,foi semelhante, e só não realizou
o seu intento devido à chegada da esquadra espanhola de Diogo Flores
Valdez, que lhe deu combate. Já o mesmo não se podeafirmar de outras,
a exemplo da expedição de Tomas Cavendish em fins de 1591, que
pilhou Santos desbragadamente?
A causado senhor D. Antônio estacionouao cabo de umasérie de
contratempos. As dividas subiram e ele não tinha com que saná-las. A
última expedição de Drake fora onerosa para a rainha, confiada em
promessas de privilégios que seriam concedidos à Inglaterra quando
restaurado ao trono de Portugal, objetivo principal da empresa. O fra-
casso, entretanto, levou ao desinteresse quase total por semelhantes
expedientes. Mas súdicos porugueses, por livre vontade, ou feitos pri-
sioneiros, continuaram a serviço daquela nação. Em 1605 0 comércio
entre as duas ficou organizado através de uma sociedade com sede em
Londres, e daqual evidentemente participavam judeusibéricos?. Pao
bastante significativo ocorre em 1615, quando encontramosdois
sujeitos de São Vicente engajados no contrabandodepau-brasil com a
Inglaterra, para onde realizavam viagens, numademonstração de que à
capitania mantinha contatos com o VelhoMundo. Eram elesJoão Gago
irmão Manuel de Oliveira, ambos de linhagem cristã-nova, em parte,
descendentes do capitão-mor Antônio de Oliveira e aparentados, assim,
com os Leitãoe com os Fernandes povoadores pormeio do casamento de
Angela Fernandes, filha de Manuel Fernandes Ramos!?. Nessas
transações os dois vicentinos se entendiam com osingleses por meio do
consócio Gaspar Ribeiro, que sabia língua, ao passo que, no Brasil,o
rato com osíndios fornecedores do pau-brasil se eferuava através de
João e de Manuel. Há um outroelementoe esse na Inglaterra, também
português, que é o receptor das mercadorias. Aliás, supômo-lo ser, pelo
que vimos anteriormente, o mentor da organização, agindo, provavel
mente, em nome de terceiros. Trata-sede Paulo Freire, membro daquela
família de judeus que fora tão útil a D. Antônio eà rainha'?, Comose
relacionara com os dois traficantes de São Vicente, não sabemos. É
possível admitir um encontro em Lisboa ou noutro logradouro de Portu-

323
gal. Nem se sabe desde quando ésseintercâmbio vinha sucedendo. É
uma prova, outrossim, de que a gente de São Paulo estava inteirada do
que se passara com D. Antônio e de como fam as coisas no Mundo
Ocidental
Tal intercâmbio acabou sendo descobertoe se procurou desfazê-lo.
Ele seafigurava danoso, porque os ingleses fam.se identificando com os
índios e com as costas do Brasil e podiam fincar pé em algum ponto do
território, sendo mais visada a área entre o Espírito Santo e O Rio de
Janeiro. Então o representante de Elie,na Inglaterra, conseguiu demo-
ver os brasileiros, reembolsando-lhes prejuízos e prometendo-lhes o
perdão de S, Majestade e outrosfavores!2, E isto explica também porque
osgovernadoresdo Rio de Janeiro fortificaram aquele ponto,especial-
mente Martim de Sá, que estabeleceu algumas aldeias com índios trazi-
dos do Sul. Emdecorrência, osingleses procuram localizar-se nas proxi-
midades do estuário amazônico junto aosfranceses e aos holandeses. A
luta que os portugueses travaram para expulsá-los,foi um dospassospara
concretizar a idéia de que a região pertencia à mãe-pátria.
2-5 franceses é a conquista do solo brasileiro.
Os franceses constituíram o maior perigo para o Brasil. Contac-
tandocoma terra desde 1504, ou antes, jamais deixaram de excursio-
nar poraqui. Opau de tingir, quese vendia na Europa com facilidadee a
preços vantajosos, despertara neles a cobiça. Podiam achá-lo em extensa
faixa da costa litorâneaaté Cabo Frio, praticamente inabitada pelos
descobridores. As feitorias levantadasao tempo do contrato de Loronha,
e outras mais arde,nãotinham condições para embargar os interlopos. O
embaixador de Portugal, em França, reclama, sem obter o devidoefeito.
Osgauleses também se julgavamcom direito ao Novo Mundo,negando,
neste sentido, que ochefe da Igrejativesse poder para dividir as regiões
do ultramar entre portugueses e espanhóis tão somente!4, Por isso, ao
invés de atender às queixas de D. João HI, o sei da França apoiou a ação
dos corsários, que,cada vez mais, passaram a carregaro valioso madeiro e
atéa crguer certos núcleosno Brasil. Foi preciso enviar para cá uma
armada guarda-costa, em 1527,cujos resultados, porém,foram deficien-
tes em vista das distâncias a policiar.
Daí resolver o monarca adotar o sistema das capitanias hereditárias,
de modoquecada donatário se obrigava a defenderea colonizaraporção
de terras comque S. Majestade o contemplara. Nem todos,vieram,no
entanto, ou os recursos de que dispunham eram poucos. Os proble-

324
mas de ordem interna se agigantavam e, além disso, não só osfranceses,
mas, igualmente, ingleses € holandeses passaram a frequentar o nosso
litoral, sirando bom partido do trato com os naturais da terra. Surgiu,
assim,a conveniênciada criação de um Governo-Geral e, por último,o da
volta à Coroa de algumas das capitanias doadas, o que, todavia, não
impediu os gauleses de tentarem, inclusive, o estabelecimento definitivo
em determinadas áreas do país
É provável que, a exemplo do que sucedia na Holandae na Inglaterra,
judeus portugueses andassem metidos com os entrelopos, porquanto
eram eles numerosos nas principais cidades da França. Henrique [1, em
1550,deraprivilégiosa diversos, a fim de que,assim, pudessem exercicar
atividades comerciais!S. Em 1566 achavam-se a serviço dessa nação os
marranosLuís deCastro, GasparCaldeira e Francisco Dias, conhecido
pelo apodode “Mimoso”. O primeiro eferuavaas transações porinter-
médio de um irmão residente em Lisbos, ao paso que Gaspar, como
piloto queera, mantinha o intercâmbio com à Inglaterra, juntamente
com Antão Luís e André Homem. Francisco Dias Mimoso na qualidade
de consócio de alguns da eia, contratava certos pilotos portugueses
para servirem aosinteresses do grupo velejando para o além-mar. Os
seus negócios abrangiam uma extensa áreageográfica, envolvendo outras
redes de negociantes. Ora,se tal sucedia antes de Filipe assumir o trono
de Portugal, é fácil imaginar oqueaconteceria depois'*,
NoBrasil osfranceses houveram-se muito bem com osindígenas em
todas as partes, ganhando-lhes a confiança e a amizade. Alguns
aprenderam a língua nativa, outrosforam mais longe, passandoa viver
maritalmente com as filhas deles e a gerar mamelucos de miscigenação
diversa da produzidapelos ibéricos. E foi essa inter-relaçãoque dificultou
aosportugueses a rotal conquista unificação da faixa litorânea, e bem
assim,a interiorização, pelo menos noséculo XVI. Em determinados
pontos,só à custa de penosossacrifícios « perdas de vidas se conseguiu
desalojá-los, a exemplo do RiodeJaneiro. Aliando-se aos tamoios,aqui,
escolheram a Guanabara, ainda despovoada, para sede de uma colônia à
que chamaram França Antártica Corria o ano de 1555. Destafei-
(a somavam centenas e traziam por chefe o experimentado cavalheiro
Nicolas Durand de Villegagnon"?. O governador-geral, Mem de Sá,
assim que lhe permitiram as circunstâncias, decidiu acacá-los no seu
reduto, instaladonailha de Serigipe e, para tanto, arregimentou forças
nas capitanias de cima, sem excluir judeuse cristãos-novos, porque além
de portugueses e súditos do mesmo rei, dispunham de recursos, que

325
algunsofereceram espontaneamente. À ação destes já nos referimose a
quantos pudemos identificar. Apenas desejamos relembrar o nome de
Manuel Velozo de Espinha, que arriscou na expedição o seu navio,
escravos, criados e bens. Mais tarde invocaria tais serviços ao solicitar
uma sesmaria ali, dizendo haver ajudado “e todas as couzas necessárias
para bem e povoação do dito Rio assim nas guerras q' sempre icerãocontinuas
contra os Tamoios e Prancezes, como en a fortificação da dita Cide, sercas é
baluartes"8, quem lhe poderia negar a mercê? Já no ano anterior, ou
seja, em 1579, recebera em São Vicente uma semaria, pois também
acompanhara ao capitão-mor Jerônimo Leitão na conquista de Cabo
Frio. E, deigual forma, procederam os companheiros que se radicaram
nesta ounaquela capitania. Assegurada a posse da terra, procedeu-se à
ereção da cidade e se promoveua colonização, agora possível e necessá-
ria
A conquista do Rio de Janeiro tornou-se um paradigmadaí por
diante, ondese fisesse mister obra semelhante. Cristãos-novos €
cristãos-velhos aparecem juntos, comumente, em defesada terra. Assim os
encontramos em Pernambuco enfrentando o “gendo inimigo”, como
velos-emosna Paraíba e noutras regiões a lançar fora os gauleses « os
aborígines seus aliados.
Esta capitania, limítrofe com a de Pernambuco, precisou logo depois
da atençãodas autoridades. Noseu interior existia abundância de pau
brasil e suas terras figuravam entre as melhores, Os frarceses tiravam
dali carregamentos sucessivos do valioso lenho,graças à amizade com os
potigvares. Fra forçoso desalojá-los. Mas, durante anos,todos os recur-
sos enviados fracassaram, até que,afinal, o ouvidor Martim Leitão com
novossocorros pôde vencê-los, dando início nesse mesmo ano de 1585
ao povoamento e colonização. Tinham participado da arrojada cam-
panha, o judeuJoão Nunes, com oscréditos necessários??, e de maneira
pessoal,na qualidade de capitães dos mercadores, Ambrósio Fernandes
Brandãoe FernãoSoares?" e o capitão dos cavalarianos Cristovão Pais
«Altero??. Contudo, a obra devia ser solidificada após a conquista e um
dosque se salientaram nisso foi o poderoso Duarte Gomes da Silveira,
rico em capitais??,
A conquista de Sergipe preade-s da Paraíba, porque osaimorés
temerosos do que lhes poderia suceder, fingiram querer vir para a Bahia
solicitaram ao governador o envio de soldados a fim de protegê-los no
caminho. Mas à intenção era outra, pois traíram a palavra, marando a
Antônio Cardoso de Barros e aos que o acompanhavam. A represália

326
seguiu-se de pronto,reunindo gente da Bahia e de Pernambuco,cristãos
da velha e da ernia nova, mamelucos e índios tapuias. Os hebreus estavam
representados por Diogo Lopes Ulhoa; os mamelucos por Rodrigo Mar.
cins e Álvaro Rodrigues, netos do Caramuru, e Domingos Fernandes
Nobre que depoisse transferiu para São Paulo. Na qualidade decapitão da.
retaguardafoi Sebastião de Faria, donode engenho em Matoim, e casado
com Beatriz Antunes, filha dos judeus Heitor Antunes e Ana Rodrigues
antigos moradores da Bahia
Então, alcançada a vitória, Cristóvão de Barrosque a todos coman-
dava, armoucavaleiros a alguns, € repasiuos índios cativos € as terras
disponíveis aosque as mereceram. E assim,fez ele uma grande fazenda
de currais de gadopara si, noque outroso imitaram, a tal pontoque os
engenhos e açougues da Bahia e de Pernambuco se proviam dessaárca?.
A campanha produziu conseglências notáveis, porque além de sub-
meter o gentioe de expulsar os franceses, estendeuealargou a faixa de
terrasque ocolonovinha ocupandoe facultou 9 seu aproveitamento.
Entre Os que receberam sesmarias conta-se Diogo Lopes Ulhoa, agra-
do, ali, juntamente com outros?s, pois certo que aslutas em
comumirmanam os homens. A ocupação da terra, porsua vez, tornou
maisfáceis as relações com as capitaniasvizinhas e com a sede doGoverno
Geral Criou condições também parafuturas penerrações rumo ao sertão.
Expulsosdo Sule do Leste osfranceses não desistiram de fixar-se no
país. Resolveram, por conseguinte, alojar-se no Maranhão, no litoral
Norteês, Não foi uma obra premeditada,inicialmente, e sim o resultado
donaufrágio do corsárioJacques Riffaut em 1594, quandoporlá andava
em comércio com osindígenas, Mandadas informações à França, a Corte,
desejosa de ver realizado o seu velho sonho de uma colônia no Brasil,
despachou o senhor de La Ravardiêre, Daniel de La Touche, a realizar
explorações. Assim, decorridos alguns anos mais, fundava ele, com o
auxílio da regente, DD? Maria de Médici, a França Equinocial. Souberam-
nologoas autoridades noReino é na Espanha e agiram sem cardança,
enviandoordens ao governador-geral, Gaspar de Sousa. À 28 de outubro
de 1614, uma força luso-brasileira sob o comando do sargento-mor
Diogo de Campos de Jerônimo de Albuquerque Ihes deu combate,
arruinandoa colônia quase por completo. Finalmente, à 3 de novembro
de 1615, La Ravardiêre capitulava de modo irrevogável?”
Concluíra-se a conquista do Maranhão. A jornada fora umaverda.
deira epopéia, embora o nome de muitos dos expedicionários tenha
caído no olvido. Um destes, porém, conseguimos desentranhar,qual seja

327
odocristão-novo Belchior Ruiz, cuja folhadeserviços nunca recebeu a
merecida recompensa. Vindo ao tempodo7.º governador, amou como
seu secretário e dos sucessores até cerca de 1622, daia em quese
transferiu para o Rio de Janeiro com a família. No interregno tomou.
parte em diversas sindicâncias « devassas. Faleceu no ano de1633 ou
1634 em Portugal, quando pleiteava oc