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O M E U V E S T ID O C O C É U OR D T r a d u ç ã o de A. A U G U S T O DOS S A N T O S 2.A EDIÇÃO

EDITORA —LIVRARIA PROGREDIOR - PORTO

RESERVADOS

TODOS OS DIREITOS DE TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO

EM PORTUGAL

E COLÔNIAS

NO original o título desta obra é <MA ROBE COULEUR DU TEMPS>

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I Numa manhã de Junho, entrou no meu quarto a senhora Barduzac, na altura em que estava terminando uma das peças do meu enxoval. Sentouse na única poltrona que ali havia, e esta, que já não era nova, rangeu sob o respeitável peso da esposa do meu tutor. — Temos um convite bastante desagradável, Gillette. — Que foi, minha senhora? — perguntei, num tom de indiferença. — Os Samponi mandaram-nos convidar para uma festa que vão dar, dentro de quinze dias. — Os Samponi?... Que idéia! A minha voz revestiu-se duma entoação irônica, acompanhada duma leve expressão de menosprezo. — Mas talvez tenham razão!... Talvez seja uma boa idéia para tentarem casar as filhas! Sabia há muito que a senhora Barduzac tinha um enorme prazer em me contrariar sobre qualquer opinião, gosto ou antipatia que eu manifestasse. Ela não via com bons olhos os Samponi, italianos de nascimento, palradores, indiscretos e um tanto excêntricos; todavia, logo se lhe tornaram simpáticos, quando notou o pouco interesse que manifestei pela festa. — Muito bem — respondi com calma. — Podem casá-las à vontade. Desejo-lhes muitas felicidades, e para fazerem a festa não necessitam da nossa presença. A senhora Barduzac mordeu os lábios grossos, sombreados por uma escura penugem. — Ah! É assim que corresponde à sua gentileza?... As nossas relações são tão cerimoniosas, que acho que foram muito amáveis, lembrando-se de nós. — É claro!... Quem é que não gosta de ter os seus salões cheios em tais ocasiões?... Por mim, suponho que é bastante agradecermos-lhes o convite com a mesma gentileza com que o fizeram. A senhora Barduzac encolheu os largos ombros. — Supõe que é o bastante? Temos que arranjar um pretexto aceitável, para não ficarmos mal vistos. — Então é arranjá-lo, minha senhora. — Eu é que não vou arranjá-lo, porque não vejo razão para que não queira ir à festa. Fitei-a, surpreendida. — Como?!... Então não foi a senhora que recusou todos os convites este inverno?... Não foi a senhora que disse sempre que nada tinha a fazer nessas festas, arranjando então pretexto para se desculpar em todas elas? Nos seus olhos frios e encovados, devido à gordura descorada que os cercava, notei aquela irritação que eu lhe conhecia há muito. O tom da sua voz tornou-se mais rude e autoritário. — Isso foi no inverno, quando há o perigo de se apanhar um resfriado, ao sair dessas festas. Agora o caso é outro... Vou-lhes dizer que aceitamos

.. — Sim!. que no fim de contas é insignificante para a quadra que atravessamos. O que lhe posso garantir. Dizendo isto.. Fique. No meu tempo essa palavra não existia no vocabulário duma menina bem educada. Prefiro ficar solteira toda a vida.. Não me impressionava já com isso e evitava até responder-lhe. o prognóstico que me lançava em rosto. estava tão irritada. Devemos fazer economias.. sem bem saber o que dizia: —.Sim! Um felizardo!. para não prolongar estas conversas pouco agradáveis. porém... Era sempre este. aliás bem freqüentes.o convite. — Não existia para os outros. — Prefiro privar-me doutras coisas e fazer os meus vestidos e os meus chapéus por minhas próprias mãos. Iria fazer uma triste figura. Naquele dia. — Não tenho um vestido apresentável. Podia ser feito dum tecido mais ordinário... respondi-lhe: — Talvez! Quem sabe?. como fizeram àquela pobre Elisa Duteil.. A senhora Barduzac tomou uma expressão taciturna. — Não posso fazer essa despesa. ao lado das suas amigas Samponi.. a aceitar um indivíduo que não conheça e que não ame ou possa vir a amar. no entanto a saber que não será o primeiro que me apareça. o que a tornava hilariante.. — Há despesas inevitáveis. no final de todas as nossas discussões. — O vestido branco do ano passado! — Está muito desbotado. e acrescentou: — Para quê.. pouco mais ou menos. e concluiu.. no íntimo. Pretende talvez um príncipe ou um milionário? Com um sorriso irônico. que repliquei. além disso não ficam tão caros como aqueles que a senhora manda buscar às grandes casas de Paris. Pobre do felizardo que a escolher para esposa!. Amar! Amar!. minha senhora.. quando temos apenas um pequenino dote. de cor lilás: — É preciso então mandar fazer um. Não percebeu a minha ironia. com o seu rosto gordíssimo.. Reflectiu um instante... — Paciência — respondi-lhe com frieza. esfregando os dedos gordos no seu penteador. sempre bem vestidas. olhou para o trabalho que estava fazendo. Fingiu não perceber e prosseguiu num tom doutorai: . porém. tanto luxo no enxoval?. em que a senhora Barduzac tinha sempre a última palavra. Já sei que é sempre a menina que está dentro da razão. é que não casarei com o primeiro menino bonito que me queira impingir. que hoje é tão infeliz. — Que quer dizer com isso?. — Na verdade estas jovens de hoje são intoleráveis. quem é que o pode garantir?.

minha senhora. sacudi os pedaços de linha que estavam agarrados à saia e fui encostar-me à janela. . de queixo saliente. a — . e parava a cada instante para contemplar as suas flores.Quando casei com o senhor Barduzac.. Levantei-me. — Já lhe disse. e que só não viveria bem com ele quem fosse dotado dum gênio verdadeiramente infernal. quase desde que o sol nascia. que os pontos já não tinham a necessária regularidade. que também os tem. Gillette.. cobertos de areia avermelhada. deteve-se sobre umas rosas que ornavam um velho vaso de Rouen. depois de ter dado algumas voltas pelo quarto. que não é bom ter flores no quarto.Não tem nenhum gosto. Era um homem doente e calmo. podia-se dizer que era um verdadeiro autômato nas mãos da senhora Barduzac. Observava-lhe o duro perfil. Tem pretensões com fartura! Dizendo isto retirou-se e recomecei o meu trabalho. Gillette!. Barduzac teve um gesto de arrogante superioridade.. Eu.. não uso disto onde quer que seja. As raras sobrancelhas da senhora Barduzac fizeram menção de se aproximarem. Eu. É demasiado pretensiosa!. — Tem sempre a mania das complicações. durante a noite. tendo no meio alguns arbustos e um castanheiro ainda novo. contudo a sua visita deixou-me de tal modo mal disposta. devido ao reumatismo.. no entanto entendemo-nos muitíssimo bem. — Queria saber o que é que pretende insinuar com isso. — Não duvido. e desta antipatia resultava que o jardim tornava-se intolerável durante o verão. não posso suportar as flores artificiais que a senhora conserva com tanto mimo na sua sala de visitas..Cada um tem os seus gostos. com um canteiro redondo ao centro e estreitos alegretes ao longo da parede. sempre bem tratado. Por um dos estreitos arruados. Só para fazer perder tempo. A senhora Barduzac não gostava de árvores. Para que são estas flores?.. Ousa talvez comparar-me ao demônio? Tomei uma expressão inocente e respondi-lhe: — Não. Dizendo isto levantou-se. . trazendo vestido um fato às riscas e na cabeça um chapéu de panamá desabado. Arrastava um pouco a perna esquerda. tinha-o visto apenas duas vezes. O senhor Barduzac era capaz de viver bem com o próprio Satanás. Diante de mim estendia-se o jardim dos Barduzac. — Ponho-as ali fora. Mesmo nenhum!. — Olhe que a mim não me tem faltado paciência para aturar os seus defeitos. não sem esforço... minha senhora! Quis apenas dizer-lhe que o meu tutor dá-se bem com toda a gente. e deitando um olhar investigador a todo o quarto. passeava o senhor Barduzac. tão incapaz dum gesto de bondade como de maldade. por exemplo..

... Vivia na mesma casa a família Barduzac. Seria talvez a triste inveja duma estúpida burguesa. como primeiro gesto. esta.. Em certas ocasiões sentia-me acabrunhada. desconhecidos para mim. Apesar do meu caracter enérgico. para evitar qualquer discussão. a minha franqueza. Sempre que no meu pensamento perpassam esses dias.. Inveja própria de mulher que foi bonita? Sim. esta. sinto uma dor pungente ao recordar as horas dolorosas que então passei!. começaram no entanto as divergências entre mim e a senhora Barduzac. Pobre mãe!. entregue à solidão da sua viuvez. porque. Veio a senhora Barduzac. dentro desta estranha casa. desde que deixara. Vivíamos num contínuo estado de guerra. e queria muito a minha mãe. O senhor Barduzac era juiz de paz. o capitão de Arbiers. Tinha a certeza de que a senhora Barduzac me detestava. Sabia já que nunca encontraria nele nenhum auxílio. pretensiosa e desgovernada. e com que saudade. voltando no dia seguinte e nos subseqüentes. o que não havia dúvidas... nem por isso eram mais estimados na vizinhança. não tinha criado relações. Morreu suavemente.. tínhamos apenas alguns parentes afastados. no caso da omnipotente senhora pretender impor-me alguma descabida exigência. num dia de inverno. Ainda que fossem considerados como gente honrada. o meu espírito independente. correu a casa da vizinha. o meu convento. onde tínhamos velhos amigos. Nestas condições aceitou o oferecimento da senhora Barduzac. dos quais um me era hostil e o outro indiferente. que era tida como uma mulher autoritária.. Nesse tempo era eu uma pequena esperta e afectuosa.. enquanto que por outro lado aumentava de mais em mais a influência da vizinha. O meu pai. sentia-se tão só. A saúde da minha pobre mãe agravou-se desde a morte de meu pai. porque embora os seus rendimentos lhe permitissem um certo conforto. de que resultou a saída da minha mãe para Tours. em especial ela. aos dezoito anos. Custava-me a acreditar em tal. morrera num reconhecimento em Marrocos. resolveu fazer economias para aumentar o meu dote. A saúde desaparecia--lhe dia a dia. por outro lado. contra a nobreza da minha origem? Talvez fosse possível. numa cidade onde. como não compreendia nem as idéias nem os gostos da minha mãe. Porquê?. Depois morreram-nos os velhos amigos. Ela era a minha única afeição. segundo me parece.. Um dia teve uma síncope que assustou a nossa criada. Não era discreta. tão fraca e doente. que não podia prescindir dalguém que lhe prestasse os necessários socorros. e ela viu-se ainda mais isolada.. ela fora uma mulher bonita!. Exasperavam-na as minhas respostas incisivas.. na altura em que eu completava catorze anos. pouco dado à melancolia. Aí alugou um modesto andar. com grande mágoa para a minha mãe. não deixava no entanto de sentir necessidade de afeição e confiança.cujos maleáveis caprichos se submetia estúpidamente. Porém. Não gostava . que prodigalizou a minha mãe todos os cuidados necessários. pois revelava uns baixos sentimentos!.. é que os nossos gênios se chocavam em todas as suas manifestações. entre estes dois seres.

(ou meu caro senhor!)". Durante os quatro anos do meu internato. Desde esta ocasião deixou de repetir o conto mentiroso. procurando nas estantes do senhor Barduzac uma obra de Corneille. evitando olhar-me: — Pode ser que exista uma coincidência entre essas duas mortes... a par da sua vaidade intimamente ferida. ouvida tantas vezes. Porém o que estou contando. e desde então o meu maior desejo foi entrar para um convento. depois dos quais continuou. minha senhora!. morto em Marrocos. o que muito lisonjeava a grande vaidade da senhora Barduzac. Até me senti . nesse relato. e o que leio?. Além disso servia-se da minha pessoa para subir mais alto no seu pedestal: "A pupila de meu marido. pequena cidade da Touraine. e todavia foi a eles que a minha mãe confiou o cuidado da minha tutela. O volume abriu-se como que por si mesmo. para poder respirar. apenas os via na época das férias. Esperei que chegasse quase ao fim. E chegada a este ponto começava uma comovente descrição da expedição em que meu pai tomou parte e a qual lhe custou a vida.. porém. no entanto a sua animosidade recrudesceu contra mim. a pouca sorte. Isso contudo não me incomodou. e que é tratada como nossa filha. Esta história. disse com toda a calma: — A senhora não estará enganada?. o senhor Barduzac adquiriu uma casa em Largillais. ouvi-o à sua própria mãe... e enquanto se ouviam por toda a sala uns murmúrios de comiseração. filha do pobre conde de Arbiers. Nada disse desta minha descoberta.. eram tratados com certa consideração. tal o desgosto que sentia ao lembrar-me que ia ficar a viver com eles. onde vivia um grande número de modestos capitalistas. Que significa essa estúpida idéia? — Li-a no livro intitulado: As nossas conquistas em África. Tendo resolvido um dia retirar-se para o campo. esposa do escrivão.dos Barduzac. A menina Gillette de Arbiers. Enrubesceu e olhou-me um tanto de lado.. numa reunião em casa da senhora Geolle. A páginas quarenta e duas encontrará essa descrição tal como a acaba de contar. que um certo dia. Essa passagem refere-se à morte do capitão X.. A descrição exacta e literal da expedição tantas vezes contada pela senhora Barduzac. mas dias depois. e a senhora Barduzac começou a contar a tão velha história. Como possuíam apreciáveis rendimentos.. nessa altura.. Quis.. uma órfã a quem dispensamos os nossos cuidados. nossa pupila.”. Parece-me até que não lhe falta uma palavra. A única diferença consistia em que o herói. numa certa página. parecia-me sempre muito bonita e comoviame. O rubor tornou-se maior no rosto pálido da senhora Barduzac.. fui apresentada a uma recémchegada: “Gillette de Arbiers. Um herói.. não se chamava capitão de Arbiers.. aproveitando-me dum momento em que se calou. etc. que emudeceu por instantes. — Como?... encontrasse um livro onde se tratava das nossas conquistas em África. Foi sem entusiasmo que tal soube.

é preciso na vida ser-se transigente. assim chamada. com o mesmo ar fatigado. foi com a melhor das disposições que cheguei à “Vila das Palmas”. a fim de poder agradecer aos Barduzac todos os favores dispensados e dizer-lhes adeus com todo o prazer. em quem reconheci o doutor Borday. tentou fazer de mim sua escrava. Naturalmente instalar-me-ia como pensionista nalgum convento. minha confidente. Não creio fazer a mim própria imerecidos elogios. pelo que esperava ansiosamente a minha maioridade. bem como as suas maneiras distintas e a sua agradável apresentação. Dizer o contrário seria. Tornava-se necessário esperar por esse dia feliz. saí a dar umas voltas. Para onde iria eu? Não o sabia ainda. que apenas chegaria dentro de oito meses. fui relembrando algumas das palavras amáveis que ele então me dirigiu. Não te indisponhas com a senhora Barduzac. em honra daquelas que o senhor Barduzac usava — e empreguei os melhores esforços por as conservar o maior tempo possível.. A existência tornou-se-me penosa. O tempo estava a ameaçar chuva e eu caminhava vagarosamente. se disser que fui verdadeiramente angélica durante quase um ano. procuraria alguma ocupação que me agradasse e trataria de me tornar útil ao próximo. e eu desviara os olhos com certo ar de dignidade. com vários diplomas. valendo-se da minha paciência. médico formado há pouco. pois não exagerei. muito mais o casamento — desde que o marido me agradasse de facto. Compreendi-o logo e por isso levantei também a minha lança. e sentia-me irritada contra ela por ter ludibriado assim a minha infantil ingenuidade. Só pelo facto de eu ser bonita. concluiase que já me podiam olhar assim? Era na verdade bonita. talvez até mais do que devia ter feito. Desta forma. minha filha”. até me casar — admitindo que encontrasse um marido a meu gosto. seja por que motivo for. Em última análise. porém. ficaria solteira. com certeza. Era destas criaturas que só cedem diante da brutalidade. Foi então declarada a guerra entre nós. Ao atravessar uma rua. pois tenho uma arreigada aversão à mentira. aconselhou-me: “Sê boa e paciente. uma falsa . com certeza. Sucedeu porém que a senhora Barduzac. II Na tarde do dia em que a senhora Barduzac me deu conhecimento do convite dos Samponi.satisfeita por lhe ter mostrado como tinha descoberto a sua falsidade. A Madre Superiora. se fosse necessário. Naquele dia notei que me olhou um pouco mais demorada-mente. Enquanto continuei a caminhar. por ocasião da sua última reunião mensal. quando disse à senhora Barduzac que não seria qualquer um que me havia de servir. segundo me parecia. cumprimentou-me um jovem bem parecido. Aos dezoito anos saí do colégio. Preferia.. de todas as pessoas com quem me encontrava. que a senhora Geolle apresentara à minha tutora. mas bastante desolada por ter de ir viver com o meu tutor.

que recordava o dum céu estivai. e apesar da pouca atenção que eu lhe dispensava. levando o embrulhinho da linda fazenda. como seria de supor. Talvez deixasse um pouco a desejar a regularidade dos meus traços. tinha uma cabeleira escura. devo confessá-lo. entre as pessoas das relações da senhora Geolle. "É assim que quero o meu vestido para a festa dos Samponi" — pensei comigo. e os olhos grandes e pretos eram vivos e ternos. não era para chamar a atenção dos rapazes. “Os reis magos”.. cheguei ao estabelecimento. que era sempre o contrário do meu. todo enfatuado no seu casaco.modéstia. e tendo nas mãos e na delicadeza dos meus atractivos uma comprovação da minha origem aristocrática. os cabelos eram castanhos escuros. pois que no estabelecimento não aceitavam a devolução de cortes de fazenda. Desta vez ainda saudou-me com um largo cumprimento e parou para se informar da saúde da senhora Barduzac. Respondi--lhe lacònicamente e retirei-me para entrar no estabelecimento. mas a pele era delicada. No balcão viam-se desenroladas peças de tecidos de toda a espécie. Naturalmente a senhora Barduzac ia ficar furiosa. porém. O meu. ondulando ao vento. inclinou-se nesse mesmo instante para um crepe azul claro — um azul suave. dava-se à veleidade de me fazer a corte. Pensando nisto. Se gostava de me apresentar sempre bem vestida. A existência destas qualidades não me tornaram vaidosa. Depois de verificar que tinha o dinheiro suficiente. oferecendo aos olhos dos fregueses a atracção aliciante das suas diversas cores. razão de ser do meu passeio. a minha fisionomia era muito expressiva. nenhum dos cinco ou seis que até então me tinham sido apresentados. A senhora Barduzac ia com certeza indicar-me a sua costureira. um antigo comerciante. Em frente ao correio encontrei-me com o senhor Huchard. delicado. O embruIhinho chamou-lhe logo a atenção. depois duma chuvada. No momento em que entrava em casa. qualquer roupa me ficando bem. Saí. conseguiu atrair a minha simpatia. . Logo um plano se delineou no meu espírito. sentia a maior indiferença. visto já nada poder alterar. mandei cortar os metros que precisava. mas teria de se conformar. quis o acaso que ela atravessasse o vestíbulo. Além disso era bastante magra. confeccionado a capricho. no dizer da senhora Geolle. Segundo me disse um dia a senhora Geolle. amigo dos Barduzac. satisfeita pela minha compra e antegozando o dissabor que a senhora Barduzac ia sentir. ainda não conhecia a garridice. pelos quais. Huchard passava já muito além dos cinqüenta anos. de talhe elegante. com os quais ia jantar todos os domingos e jogar uma partidinha. Além disso. Havia-os para todos os gostos. Fiz as minhas pequenas compras. Um caixeiro veio atender-me. E se eu comprasse este crepe Com a minha habilidade faria eu própria o vestido!. e demorei-me ainda uns instantes examinando as prateleiras do estabelecimento. ambas tentariam impor-me o seu gosto.. mas ela trabalhava muito mal.

Por mim embrulhei e guardei o crepe. — É um tecido muito fino. A senhora Barduzac.. Sempre disse isso a meu marido. os quais. enquanto sorria com ironia: — . Com um gesto desdenhoso afastou de si o tecido.. gesto freqüente nela.... é tornar-me ridícula levando à casa dos Samponi uma caricatura. Gillette? — Um crepe azul claro.. Devo dizer. Foi o resultado de não me querer consultar!. encolhendo os ombros.. — Nunca há-de ser uma mulher ajuizada.. para o seu vestido? Então foi fazer compras sem mim e sem pedir a opinião da menina Boitte? — Não preciso da opinião da menina Boitte. o mais simples. vai ver em que estado fica o vestido!. lhe davam um ar de elegância discreta. no entanto... e ele agora vai certificar-se que eu tinha razão. o meu crepe ainda me pareceu mais bonito. uma elegância!.. minha senhora! Era incapaz disso. e muito menos quando sejam conselhos de pessoas experientes.. e que este azul-pálido ligava admiravelmente com o tom da minha pele. Olhei-me ao espelho e verifiquei que me ficava muitíssimo bem.. Abri o embrulho e estendi o tecido sobre a mesa da sala de jantar..— Que traz ai.Além disso. Foi talvez por isso que a escolheu.Esta compra foi uma tolice!. para fazer o meu vestido.. Soergueu os braços. nem originar-lhe qualquer vexame. minha senhora. . — Farei um vestido inteiramente a meu gosto. Depois de o vestir umas três ou quatro vezes. Tinha-o enfeitado com uns lindíssimos bordados brancos.. antes de sairmos: — Este vestido não lhe fica nada bem. — Oh! As suas idéias são sempre admiráveis!. — Crepe. — Fique sossegada.. visto que tinha escolhido um modelo. Encolheu os ombros e torceu o nariz largo e curto.. e não irei torná-la ridícula. sabe que o azul claro é uma cor da minha antipatia. Deixe-me ver isso.. Tive ímpetos de lhe responder: “Naturalmente!”. Está provado que a cor da sua pele não liga bem com as cores claras. Dizendo isto levantou-se e saiu. achou maneira de me dizer num tom áspero e examinando-me da cabeça aos pés... Mas isso pouco lhe importa.. que não se pode usar. Os seus dedos grosseiros iam apalpando o crepe. que o meu vestido foi um dos mais encantadores entre os muitos que enchiam as salas dos Samponi.. O que eu não quero. não? — Não. —. que entrava livremente pela janela.. e só eles. que herdara de minha mãe. Escolhi-a apenas porque gosto dela. em especial no decorrer das nossas discussões. minha senhora — respondi-lhe. E azul!?. com toda a sinceridade. soltando uma risada de troça: — Deve ficar uma beleza!. porque eu própria farei este vestido.. A luz clara do sol. que parecia uma estreita nesga do céu. mas dominei-me.

Sentamo-nos não longe das mesas da barraca. se não fosse um certo ar de fatuidade que lhe notei. quando consegui juntar-me a ela.. — Isso é com ele.Estas palavras não me impressionaram. devido às expressões lisonjeiras com que mo deram a entender os meus companheiros de dança. porque nele notei um vislumbre de admiração. comparado com o descaramento de Carlota Samponi. eram uma evidente prova de que o meu vestido me ficava bem.. sabe muito bem fazer-se salientar. toda a gente o notou. conversando. que eu socorria — o que me valeu uma boa descompostura da senhora Barduzac. é a vaidade. A tarde estava quente e bonita. III Após aquele dia. mais duma vez. enquanto bebíamos lentamente as nossas taças. — Veja — disse-me ele a meia voz. Vesti-o apenas duas ou três vezes ainda. o que me fez corar um pouco. que se via através dos ramos das velhas faias — o seu vestido é da cor do céu. Ao passarmos diante duma casa. porque. o que se tornou muito notado. modestamente mobilada. Aquiesci. Teria por outro lado encontrado este doutor Borday ainda muito mais simpático. o meu vestido cor do céu continuava à minha espera. no regresso —. acima de tudo. A menina. no dizer da senhora Barduzac. a cumprimentar uma senhora idosa. — Sim. este perguntou-me se lhe dava o prazer de aceitar uma taça de champanhe. peremptória. Depois veio o outono.. onde tinham improvisado uma pequena barraca para bebidas. — A Carlota procede com mais franqueza. me convidou para dançar. O seu olhar dirigiu-se de novo para mim. que se destacava entre todos os outros rapazes que se encontravam nessa festa. parece-me que o meu namoro foi quase nada. Em casa dos Barduzac a . Possuía um espírito delicado e uma tal cultura intelectual. as suas maneiras atraíram esse rapaz. parei alguns instantes. No guarda-vestidos. e mais ainda me convenci. e não vou chorar por isso. pelo contrário.. e fomos para o jardim. o doutor Borday não vai atrás de qualquer dote. durante aquele verão. Respondi-lhe friamente: — Contudo. e lá continuou fechado durante meses. minha querida — declarou-me. cheio de sombra. aparentando esses seus modos reservados. mostrando-me uma nesga azul do céu. em que tinha sido meu par o doutor Borday. Mas não se iluda. em face disso era com prazer que as visitas deixavam os salões e se espalhavam aos grupos pelo jardim. o seu olhar era também agradável e um tanto reflexivo. Ao terminar uma dança qualquer. Se há coisa que eu deteste. Ele no entanto parece que simpatizou bastante comigo. o sol não se deixou ver durante várias semanas.

Borday parecia um tanto envaidecido da sua pessoa. Em fins de Novembro a senhora Geolle veio preparar o terreno para um pedido oficial. viam-se impressos os largos rastros da senhora Barduzac e as pegadas mais delicadas do marido. Esta resposta foi para atingir tão arrogante criatura. Era certo que não me desagradava. coberto de neve. não se queixe de ninguém! — Fique descansada. adornadas daquele branco e gélido manto. Naquele ano o Natal apresentou-se todo branquinho. Desde a festa dos Samponi. não corria bem.. depois . Como sabê-lo? O assunto era bastante melindroso. no campo moral. é para viver com ele toda a minha vida. sem que me sentisse mais convencida ou mais decidida. Sob esta estranha aparência.. Se o aceitar como noivo. que. além do casamento.. Costumo assumir sempre a responsabilidade dos meus actos. respondilhe que precisava reflectir. Tanta esquisitice para aceitar um belo rapaz. Até aqui o meu coração não tinha sentida mais do que um leve estremecimento. No nosso jardim.vida ia-se tornando cada vez mais difícil para mim. época em que atingia a minha maioridade. Sentia-me portanto bastante embaraçada cora o pedido do doutor Borday. Como disse já. Por felicidade. se um qualquer acontecimento não viesse contrariar as boas informações dadas pela senhora Geolle. quando fui pedida pelo senhor Barduzac. que não lhe tornarei a culpa. Passado o primeiro momento de comoção. sob a doçura do seu sorriso e do seu olhar podiam esconder-se muitos e graves defeitos. e que apenas daria a minha resposta no princípio de Janeiro. porém o seu lado moral era para mim ainda desconhecido.. Mas se lhe fugir.. Eu. que já se delineava no meu horizonte. a menos que o amor não viesse tomar a sua parte. e eu via aproximar-se o dia em que devia dar a resposta. senhor duma invejável posição e filho de pais abastados? — Esse belo rapaz é para mim. Soltou uma estridente gargalhada: — Faça como quiser. e eu não podia acreditar que tais encontros fossem ocasionais. minha senhora. Por acaso esse normal pulsar iria aumentar dentro de dois meses?. quase um desconhecido. Então a minha decisão torna-se-ia mais rápida. quando qualquer assunto tratado por ela. em breve surgiria a alvorada da minha maioridade. — O que prova que a senhora não compreendeu a gravidade do acto que ia realizar. atribula sempre aos outros o insucesso. O caso merece por isso que seja bem reflectido. eram freqüentes os meus encontros com o doutor Borday. disse logo que sim.. cansado de esperar. Por mim não me cansava de contemplar as árvores. Neste meio tempo surgiram desagradáveis questões com a senhora Barduzac: —Então precisa de dois meses para resolver?. — Ora essa!. Sob o ponto de vista físico e intelectual era dotado de grandes qualidades.

O meu tutor mordeu os lábios.. uma notícia que vai transformar por completo a sua vida. Entrei atrás dela no gabinete.. onde se notava um grito de triunfo." Desta impressão concluí que me era de todo indiferente. Parecia-me ser bom filho e os seus clientes estimavam-no muito. Com o coração oprimido. — Acabo de saber que faliu o Banco do Loire... e diante de cuja secretária se encontrava sentado o senhor Barduzac. passou a mão pelo bigode grisalho e olhou-me embaraçado: — Sente-se. sob o olhar maldoso que me . Como vai?. Nessa manhã de Natal.. pequeno compartimento bastante quente. que procurava avaliar a minha inquietação. Recebi uma notícia muito agradável para si. Desci devagar e encontrei a senhora Barduzac à porta do gabinete do marido. junto dele. Gillette. Gillette. sempre amável e visivelmente apaixonado. Foi nessa ocasião que avaliei a minha grande força de vontade.Gillette!.. Todavia. conforme o desejo da senhora de foi colocada a maior parte da sua fortuna. o que até certo ponto perturbava o meu coração e lisonjeava o meu amor próprio. Como de costume. estendi-lhe a mão: — Bom dia. que cheirava demasiado a bafio. manifestava-se logo no boné. O pulsar do coração acentuava-se um pouco mais. que lhe conhecia há muito.o meu pensamento concentrava-se no doutor Borday e na resposta que devia dar-lhe dentro de oito dias. Estava muito vermelha. senhor Barduzac. mas consegui ficar impassível sob o olhar da senhora Barduzac. ouvi a voz da senhora Barduzac: . esticou o pescoço mais do que costumava. gostando bastante da vida fora de casa. e que a minha resposta não seria talvez afirmativa.. e a esposa sentou-se de maneira a ficar na minha frente. que descansava sobre a pilha de livros. O seu tutor tem uma notícia muito grave para lhe dar.. Venha cá a baixo! Impressionou-me aquela voz. por outro lado parecia-me também que era demasiado amigo de pândegas. pensei logo: "Alguma coisa desagradável está para acontecer!. visto nada ainda ter resolvido. senhor Barduzac? Sentei-me numa cadeira. com o rosto apoiado ao vidro gelado da janela. pois consegui manter-me quase impassível. quando pensava neste assunto.. quando tivesse casa e família. agora perdida. Senti um leve arrepio. Pedi muito a Deus que me esclarecesse sobre o que devia fazer. Tossiu.. — O que foi. tendo nos olhos a expressão de alegria maldosa. absorvida pelas especulações aventurosas dos seus directores. A grande preocupação que o domina. alisando com a ponta dos dedos uma folha de papel estendida diante dele. É talvez o doutor que se vai embora!.. na companhia da senhora Geolle. — Escute. — Bom dia.. posto muito a trás. e no cachimbo. Fui à missa do galo. era talvez muito possível que estes hábitos e estas tendências se transformassem — em especial se gostasse muito de mim. onde. e estendeu a mão sobre o papel desdobrado na sua frente. cada vez que me encontrava com o doutor.

em virtude do bom rendimento que lhes proporcionava. Mas não vejo nada em que possa trabalhar.. ela que estava habituada a considerar as pessoas conforme a importância dos seus rendimentos.. era mais uma razão para que mantivesse uma atitude altiva e calma ante este rude golpe.observava.. exactamente. ainda mais doloroso devido ao ingrato abandono destes dois seres. Foi com a mesma calma que respondi: — Preciso reflectir. com a boca aberta e os olhos absortos: — Mas. como é . sempre é bom agir com calma. no entanto espero que dentro de oito dias já estejam livres de mim. — Ou seja uma renda total de. — Que foi então que me ficou? O senhor Barduzac fitou-me um instante. suponho que não está à altura de se dedicar ao magistério!.... que são bons. A nossa casa. Talvez encontre um lugar de dama de companhia. Durante esse tempo procurarei encontrar-lhe.. Não irei morrer de fome e poderei provisóriamente ir viver para a Meulière.. No comércio também nada fará.. — É na verdade uma grande desgraça — respondi.. — Sempre terá um quarto para me abrigar.. que esta era para ela uma queda de posição.. enquanto não surgir um emprego conveniente. sem responder. A esposa interrompeu-o: — Certamente.. pois que a despesa que faziam com a minha manutenção era muito inferior ao que recebiam da minha pensão. Levantei-me. encontraremos com facilidade. Apesar de todos os seus diplomas. que me tinham conservado na sua companhia... entre as minhas amigas. Em casos como este. — Vai agora precisar de trabalhar.— concluiu a senhora Barduzac. cujos lábios grossos se contraíram num ricto de ironia. com serenidade. — . O senhor Barduzac protestou com frieza: — Não há pressa... Se não for muito exigente. Restam-lhe apenas vinte mil francos e a sua quinta da Meulière. até lá pode-se deixar estar... Isto... Gillette!. visto que a minha maioridade coincide com a minha ruína. portanto. declarando com voz firme: — Tenho a dizer-lhe que não aceitarei qualquer emprego.. — Quer dizer com isso que não vai aceitar os meus conselhos. no entanto. parece não compreender a gravidade da sua situação? — Oh! Sim! Muito bem!. a ruína quase completa. É o que se chama a ruína.. A senhora Barduzac informou com ar desdenhoso: — Parece que a casa está a cair aos pedaços. não é verdade? — Isso. um emprego conveniente.. Senti que rejubilava com a minha ruína.? — Quatro mil francos pagos pelo caseiro e cerca de oitocentos francos provenientes dos títulos...

Arruinada!. não se desposavam pequenas pobres. longe do olhar maldoso e inquiridor da senhora Barduzac... ao ver evaporar-se este pequeno sonho azul.. e eu supunha que precisaria ainda dalgum tempo para o esquecer. agora estaria quase casada e ele seria obrigado a engolir a pílula. só me sobressaltei quando o relógio de parede bateu onze e meia.. Uma ligeira febre me assaltava as têmporas. ainda que ao de leve. Os minutos iam passando e eu mantinha-me sempre na mesma posição.. É certo que lhe agradava. Os Barduzac tinham alguns convidados para o almoço.. na sociedade a que pertencíamos. o meu pobre coração. e toda a minha coragem me abandonou por momentos. porém com os meus trezentos mil francos de dote no cofre. conforme ele supunha. Só passados minutos dois deles se delinearam claramente: o meu supremo desprezo pelos Barduzacs. — Saí do gabinete e regressei ao quarto. seria forçada a trabalhar na casa dos outros!. creio que. procurando coordenar as minhas idéias. e a certeza de que. Com um grande esforço conseguira ainda há pouco afrontar essa mulher. porém agora a reacção começava e uma certa angústia oprimia-me o coração..seu costume?. nas atuais circunstâncias.. pensando no duro golpe que me atingira.. que tanto tinham prometido à minha pobre mãe que me tratariam sempre como filha. E eu tinha quase a certeza de que Marcos Borday não a deixaria mentir. estava arruinada!. — Eu sei muito bem!. No meu cérebro os pensamentos entrechocavam-se um pouco desordenadamente.. A senhora Barduzac afirmava quase todos os dias que. Tão amiga de ser independente. que ainda sou bastante inteligente para o compreender. Agora uma Gillette de Arbiers quase pobre. sem parentes próximos. E sem contar ainda. onde se delineou um plano: abandonar esta casa logo que o meu tutor me prestasse as . oh! pobrezinha!.. mergulhada numa poltrona. era outro caso!.. Se há dois meses tivesse aceitado o pedido do doutor Borday. me deixariam toda a sua fortuna.. Respondo ao seu pedido com uma recusa. Fique certa de que isso nada lhe adiantará. IV Vesti-me quase sem dar por isso.. e entretanto o jovem médico tinha feito bater. Fiquei imóvel. como lhe disse. Senti o sangue subir-me às faces e interrompi-a com um tom brusco. A partir de hoje pode considerar-se livre..... É natural que ninguém queira desposar uma jovem arruinada. que os Barduzac. quando me senti só... minha senhora. e está tudo terminado. mesmo quando se está numa invejável posição como a do doutor Borday! Fique tranqüila. o casamento seria de facto impossível para mim. Precisava por isso mudar de roupa e descer como se nada se tivesse passado. Faltaria à verdade se não dissesse que sofri muito. Hoje. entretanto uma relativa calma começava a dominar o meu espírito..

porque não ficará na miséria.. ao cumprimentar-me. na intimidade. O assunto da conversa devia ser com certeza a minha ruína. proferindo pretensiosas frases. a que respondi com um leve sorriso de ironia. que só conseguiam causar-me tédio. Além disso não tem móveis. era-me muito mais agradável do que esta. e todos os anos. São decorridos vinte anos. e avisando-me de que me esperavam com a maior ansiedade e satisfação. porque é de . invariavelmente. e foi com toda a calma que entrei no salão.. Tomada esta decisão senti-me menos abatida. de que a casa está em muito mau estado. senhor. onde já se encontrava o senhor Huchard. logo que me foi possível. À mesa mostrei-me despreocupada e alegre como de costume. perguntando-me. pelo que senti à minha volta de sussurros e de olhares — uns de protectora piedade e outros de maldosa satisfação. a fim de escrever à Catarina. conforme pressenti. onde todos se sentiriam felizes em me receber. Em seguida. Ao levantar-me da mesa. me escrevia uma linda carta. já tudo necessitava de reparações. Talvez haja apenas um quarto habitável. que não me agradava também muito. e quando morreu. O senhor Huchard. pois que. Catarina Bardeaume respondeu-me logo no primeiro correio. onde encontraria. e as portas estão empenadas. é grande e bonito. Divagava em longas e comovidas frases acerca da minha ruína. porém. no entanto. visto que a humidade fez apodrecer os poucos que restavam. "Previno-a. Nada receie. maldizendo todos os banqueiros. — Voltei-me com calma e respondi-lhe friamente: — Não ficarei na miséria. onde todos procuravam avidamente perscrutar nos meus olhos os menores vislumbres de abatimento ou tristeza. e fui sentar-me junto da senhora Geolle. onde era detestada. Além disso estaria na minha própria casa. esta fora minha ama. enquanto a senhora Barduzac se vestia para visitar algumas das suas boas amigas e contar-lhes a desgraça que me havia atingido. no primeiro dia de Janeiro. e o soalho não custará a pôr-se lustroso. mas que era preferível a esse amigo dos Barduzac. voltei ao meu quarto. notei-lhe na fisionomia uma expressão de mágoa. e entretanto a humidade continuou a sua devastação. o teto e as paredes não estão deterioradas como as dos outros. rodeava-me das suas atenções um tanto rudes. tomou-me o braço e sussurrou-me ao ouvido: — É muito corajosa!. conversando com os Barduzac. O seu pobre pai deixava que as coisas corressem de qualquer maneira. Catarina Bardeaume. voltado ao sul e com frente para o jardim.. já do conhecimento de todos os convidados do almoço. deixei-o..suas contas e ir para a Meulière dentro de oito ou dez dias. porque graças a Deus sou ainda nova e tenho saúde bastante para poder trabalhar. Chegados ao salão. Chove na sala de visitas e em vários quartos. o afectuoso apoio da caseira. sentado à minha direita. quando me resolvia a ir passar uns dias à Meulière. Por pouco confortável que pudesse ser a casa da Meulière.

e senti também que um leve rubor me subia ao rosto. — ... É da minha ama de leite.. estou.. por mais incômoda que fosse a velha casa. Ao dizer isto tomou uma expressão grave. resolvi logo comigo manter toda a minha independência. Se aceitasse... entrou a senhora Barduzac.. Mas nada tenho com isso!. o da minha filha Angelina. com quem sempre me correspondi. — Então sempre está resolvida a ir viver para a Meulière? — Provisoriamente.. — Não. teria muito prazer em lhe oferecer um quarto aqui na quinta. e perguntou: — É alguma carta da sua amiga Julieta? — Julieta Mancel era uma das minhas antigas colegas de colégio. Estou portanto disposta a ir para lá. muito bem conservados e dum certo valor. Porém não está convenientemente mobilado para a menina.. Enquanto assim pensava.óptimo carvalho.. do que sozinha na sua velha casa».. Agora pelo seu lado suponho que terá a necessária compreensão para ser sempre a esposa digna dum homem que lhe oferece uma bela fortuna. Marcos Borday tinha trinta anos e eu vinte e um.. da Catarina Bardeaume. alguns objectos de arte e outros retratos ornavam a sala de visitas da senhora Barduzac. Deitou um olhar disfarçado à carta que segurava nas mãos. uma solução inesperada.. Tudo isto chegaria muitíssimo bem para mobilar a parte habitável da minha casa. Está deveras apaixonado por si. ante a sua hesitante expressão.. Tinha ali o mobiliário do quarto da minha mãe.. que.. apesar de tudo. se a menina aceitar.. dilatou as flácidas faces. faz a maior . logo que o senhor Barduzac já não precise de mim para regularizar as suas contas da tutela. pensei: «Estará o doutor Borday disposto a manter a sua palavra. — Sim. — . — Ao pobre senhor Huchard. Um óptimo casamento. examinou-me de alto a baixo. pelo seu oferecimento. Qual? E de súbito. o que é uma loucura. naquela idade!... como quem diz: «Não merece tanto!» — Mas a quem se refere a senhora? — exclamei eu.. As pulsações tornaram-se-me mais fortes.. — Era na verdade o que eu pensava!..... E apesar de reconhecida à Catarina. Que dizia ela?... Como?. apesar de tudo?" Senti de novo uma leve pulsação. que insiste comigo para que vá para a Meulière. minha senhora. Talvez que. dois ou três retratos de família e um lindo espelho antigo. — No entanto talvez fosse possível encontrar outra solução para o seu caso. — Outra solução?. Faço-o com a maior vontade e suponho que deve ficar melhor aqui. Alguns móveis ainda. os adornos que ela estimava. Terminada a leitura da carta circunvaguei os olhos pelo quarto..

..... pudesse casar com um homem de cinqüenta e oito anos? — E por que não?. Faça porém como quiser.. minha querida. como se fosse uma transacçâo!. — Sei-o muito bem e tentarei tirar desta situação o maior proveito. Interrompia-a....tolice da sua vida. daquele que a quis fazer rica. bruscamente: — A senhora está a gracejar!. Huchard é um homem agradável.. Fique certa disto. valem muito mais do que os títulos de nobreza!. no entanto.. e pretensiosa? Nessa altura estava muito bem para Gillette de Arbiers!. por muito honrado que seja. Um pedido com que devia até sentir-se muito honrada.. E que tristeza o encontrar-me só. Senti os olhos cobrirem-se-me de lágrimas. honestamente ganhos no trabalho.. invejosa da classe social a que eu pertencia... só porque estava arruinada.. ainda agora?. porque os milhões. tem um caracter honesto e está ainda bem conservado.. hoje. Encolheu os ombros. minha senhora.. São esses miseráveis pergaminhos de amor-próprio que prejudicam o pedido do nosso amigo!?. com pesar. mas nunca farei um casamento como aquele que a senhora pretende insinuar-me.. O pulsar do coração parou de súbito e o rosado pálido das faces tornou-se em vivo rubor de indignação... Assim.. e eu sentei-me deveras pensativa e com o coração oprimido.. Sem dote. Supunham que ficaria muito feliz em encontrar esta maneira de sair dos meus embaraços!. sem nada que o recomendasse. a . com a minha Idade. — Não insista.. não encontra já um marido a dizer com os seus vinte anos... por mais duma vez. não é o da minha família. e a sua educação e os seus gostos são muito diferentes dos meus.... em face dos quatro centavos que lhe ficaram!.. Nunca mais volta a ter uma sorte como esta. porque pertence a um meio que. logo que se fizesse qualquer alusão à sua origem modesta ou às famílias das suas relações. Mesmo que fosse mais novo. quando olhada por certas faces!. o senhor Huchard não me convinha. Tornou-se bastante vermelha e tentou fulminar-me com o olhar.. A senhora Barduzac saiu furiosa. Que importava para elas que o pretendente fosse quase sexagenário. para me defender contra os Laços que seriam armados à minha mocidade! Fui forçada a ficar ainda durante quinze dias em casa dos Barduzac. já se atreviam a propor-me este casamento. — Já sei há muito que parece não ter o juízo todo. Como lhe pôde caber na imaginação que. Toquei justamente no ponto fraco da senhora Barduzac. há-de lembrarse. Tenho a certeza de que. é melhor morrer de fome na sua casa desmantelada. ficava toda nervosa. A sua voz tomou um tom de amarga ironia fina seus olhos rebrilhou a cobiça. Continua a manter-se tão inacessível. A senhora Barduzac prosseguiu: — . Nada menos do que três milhões... Oh! Como a vida era estúpida. — Oh! Logo vi!. totalmente só..

ao receberem-me. estes fidalgos envergando trajes palacianos e uniformes militares. depois de tudo quanto fiz pela Gillette. Ao ver o meu lindo vestido azul. Na véspera da minha partida encontrei-o na Rua Nova. arrumando-a na mala. Um dia ouvia dizer à senhora Geolle: — Com franqueza. minha amiga. Parecia-me no entanto. Era possível. não esquecia que tinha olhado por mim. pois nunca recebera dela um pouco de afeição ou um pouco de simpatia. ao regressar da igreja. quando lhe tiraram da sala de visitas o pequeno sofá Luís XVI. que ela dispusera pelas paredes. Declarava-me encantada por viver algum tempo no campo.. que lhe tinha pago régiamente a sua interesseira hospitalidade. Cumprimentou-me. Corei um pouco. Ao chegar a casa tratei de dobrar a minha roupa. Felizmente não chegara a ter tempo de amar este desconhecido. desviando logo os olhos. Não ouvi mais falar do doutor Borday. sempre de igual opinião à da pessoa com quem falava. e não me obrigasse a recompor assim a minha sala de visitas? A senhora Geolle. tudo quanto dissera. a quem a senhora Goelle devia ter transmitido a minha resposta. tão bonito.. Nada lhe ficava a dever. não era muito que ela me deixasse ficar estes velhos móveis. julgaram por bem dever apresentar um certo ar de compaixão.. um leve constrangimento. Parece-me que chegara a supor que estas damas antigas. Nestas condições a sua reserva não me fez sofrer. mas não senti mais do que uma ligeira comoção. Durante esse tempo mandei proceder ao engradamento e à expedição da minha mobília. a linda secretária em pau-rosa. não tinha a necessária nobreza de espírito.. nunca fora um amor desinteressado. depois daquele dia! V . Algumas pessoas. não acha que. a mesa guarnecida de finas incrustações e os retratos dos meus antepassados. Encolhi os ombros. eram seus avós e não meus. filho de pais abastados. e dum jovem médico muito atencioso e deveras enamorado. a sua palavra! Portanto. com certeza! Era até a sua obrigação!. com a perspectiva dum belo futuro. Uma semana antes da minha partida comecei a fazer as minhas visitas de despedida. porém o meu desembaraço e a minha despreocupação deixavam-nas admiradas. sentia-me bastante satisfeita em deixar os Barduzac e adquirir a minha liberdade. as duas poltronas. que me tinha tido na sua casa!.. respondeu: — Sim. de anquinhas e vestidos de musselina. bem à vista.fim de regularizar pessoalmente os meus negócios. lembrei-me dum belo dia de Junho. mas de momento. apesar de tudo. Ambos descemos um degrau. — Vai-se aborrecer!—prediziam-me algumas. para o belo gesto de manter. murmurando: — O meu pobre vestido cor do céu!. Para a senhora Barduzac foi um momento desagradável. Concluí apenas que este homem.. Oh! Sim.

um pouco atrás. cheia de inocente orgulho: — Hem?!.. E nesse dia de Janeiro. para melhor me observar. Refleti: "Se ao menos a minha boa Catarina estivesse na estação! Como ficaria satisfeita se me viesse esperar!" Por volta das quatro horas o comboio parou na pequena estação de S. Pelos olhos do caseiro passou um clarão de contentamento. em traje de viagem. o senhor de Sauriages. Na sua fisionomia corada esboçou-se um sorriso. e que ma deixou no seu testamento. como as expressões carrancudas das minhas companheiras de viagem — duas senhoras mais ou menos idosas. que as suas mãos calosas apertaram. novo e muito bem vestido. Estendi-lhe a mão. mas já no entanto todos nós lhe queríamos muito. A menina estará aqui como na sua própria casa. João da Bottellerie. está!. E dirigindo-se a um aldeão de blusa azul.A pequena propriedade da Meulière. — A senhora de Arbiers não se enganava. Os extremos do horizonte estavam velados por escunas nuvens.. dizendo: — Deixou cair o lenço. Afastou-se um pouco. Oh! minha senhora. Voltei-me. . .. Oh! minha querida menina! . tinha pertencido a um velho tio de meu pai. beijando-a nas duas faces. caindo quase aos braços duma mulher alta e muito magra.. Recordo-me muito bem da minha saudosa mãe me dizer muitas vezes: «Gillette.. Saltei. senti uma leve apreensão apoderar-se de mim. devido a uma das suas criadas.. que estava de pé.Oh! minha boa Catarina! — exclamei eu. duma elegante estatura. que logo que deixaram de cochichar. Bardeaume. enquanto o comboio me levava ao termo da minha viagem. com o chapéu na mão. no momento em que chegava a esse lugar para mim desconhecido. não? Neste meio tempo Catarina pegou na minha maleta..Mas como está bonita!.. situada na Vendeia. perguntou. enquanto os pequenos olhos do caseiro me analisaram com benevolência dos pés à cabeça.. minha senhora. os Bardeaume são das poucas pessoas que nos estimam e com quem se pode contar». segundo pareciam.. que se encontrava mesmo em frente da minha carruagem. Atrás de mim ouvi uma voz masculina. que está muito bonita a minha filha de leite?. que fora o meu padrinho. duas irmãs. — Está bonita.. que uma queria mandar embora e a outra teimava em manter. passaram a mimosear-se com palavras acres. Como está bonita. O tempo estava cinzento e melancólico. nada amáveis.. A atmosfera apresentava-se tão desoladora. Quando poderia eu pensar que ainda um dia devia tornar-se o meu único refúgio!. Mas vamos indo. Não achas.. como estamos contentes em a vermos de novo na Meulière! A última vez que aqui esteve era ainda muito pequena. — É uma grande alegria para mim ver-me de novo aqui. Um cavalheiro. Dei ao marido a guia das minhas bagagens e acompanhei-os para a saída. que se estendiam lentamente pelos primeiros planos.

Não é bem o que parece!. — E vive aqui durante o inverno? . disse.. acompanha a senhora. a madrasta. senhor visconde. — Então não são senhoras de fazer o que lhes apetece? — Não. Respondeu-lhe com um certo ar de dignidade: — Boa tarde... não termos um carro tão bom como aquele para lhe oferecermos!. com a condição de viverem na Bottellerie. . a bela fisionomia do desconhecido. salvo durante umas breves idas a Paris.. Assim dizendo. O que é.. Ele defende-se. mas distinta.. — . que se avistava vagamente à direita. o dono da mais bela propriedade de toda a Vendeia. Quando saímos da estação. — Tem muitos filhos? — Três: um filho. Avistei. pensando na sua expressão altiva. menina.. Quinze minutos depois seguíamos a caminho da Meulière. e a quem nunca ninguém conseguiu dominar... Com o cabo do chicote. Bardeaume indicou-me um vasto castelo. o ano todo. A bruma estendia-se pelos campos. Bardeaume...descobria-se.perguntei à Catarina. suspenso sobre arcos de madeira. a irmã.. enquanto eu vou buscar a bagagem. minha senhora. dura. vimos um automóvel que se afastava. com um riso que lhe sulcou ao de leve as faces: — Que pena. — Não parece ter um aspecto muito prazenteiro murmurei. Catarina. disse respeitosamente: — Boa tarde. enquanto saíamos. E afastou-se. para o deixar passar. que me pareceram por isso muito melancólicos e cinzentos.. — Não... Espero que não terá frio. Estas senhoras gostam mais da sociedade e da vida de Paris. Gosta-se dele. menina. que seguia sentada ao pé de mim. um tanto irônica. o castelo do senhor de Trézonnes — explicou ele. Catarina disse-me em voz baixa. menina!. que também se tinha voltado.. porque a senhora de Trézonnes é uma esbanjadora e os filhos foram educados nos mesmos princípios.Temos dentro dele uma pele de cabra e alguns cobertores. indicava um velho carro. — Oh! muito obrigada. é um homem que só pensa em dominar os outros. que mal tivera tempo de observar. por nossa vez: — É o senhor visconde de Trézonnes. e a menina Jaquelina. senhora Bardeaume! Quando se afastou um pouco. que é oficial e comete toda a espécie de asneiras. O da Meulière está ali. Quem não gosta muito disso é a senhora viscondessa. com ameias. Porém o senhor visconde não lê por essa cartilha. — È a Bottellerie. cavalheiro! Catarina. — Sim. dentro dele. apresentando-me o objecto em questão. que seguiu a direcção do meu olhar. E onde iam arranjar o dinheiro para isso? É ele que lhes dá uma mensalidade. coberto com um toldo.

por estar contíguo aos da sua propriedade. veio instalar-se na Bottellerie. — É solteiro? — É sim.. casada com um castelão dos lados de Niort. seja de que maneira for. num passo certo. muito enérgico. tem uma inteligência privilegiada. e já tem perto de trinta e dois anos.. basta-lhe apenas escolher. Mas temos tempo de tratar disso. Imagine que.. as terras da Bottellerie valem muito mais do que há dez anos e produzem amplos rendimentos. No entanto é um homem justo e correcto. é de fazer fugir os poucos pretendentes que apareçam. próximo do rio. nada tenho a opor. — Sendo assim. Neste momento. acaba por perder o pouco dinheiro que tem. e a menina Jaquelina. menina. todavia.. Qualquer dia fica senhor de toda a região. — Parece-me que a sorte da futura viscondessa não será talvez muito agradável. Assim. e que ele deseja comprar. uma filha.. quando ele me falou nisso. respondi-lhe que a menina de Arbiers ia atingir em breve a maioridade e talvez lha quisesse vender em qualquer ocasião. e se é ainda pessoa pródiga. E o senhor visconde vai-a aumentando todos os dias. e quando quer alguma coisa. A propósito. um belo prado. Estávamos porém perto.. o senhor Gui tinha vinte e dois anos. o senhor da Bancelière. É uma linda propriedade!. proprietário da Sauvaie. que já tem vinte e cinco anos e não encontra casamento. o cavalo começou a trotar.. consegue-a sempre. quando o pai lhe morreu. é muito provável que dote a irmã! — Oh! não creio muito nisso.. arruinado pelo jogo e pelos esbanjamentos da sua segunda esposa. que ouvia apenas a nossa conversa. auxiliado por um velho e sincero amigo. e nada afectuoso. e até então nada mais tinha feito do que viajar e divertir-se. Depois. A menina tem um prado. Eu. De repente tomou a direcção da casa.. observou no entanto: — Além disso a terra é boa e toda junta. como terminasse a ladeira. — Se é um bom negócio. — O senhor de Trézonnes é rico? — Riquíssimo! Possui a fortuna de sua mãe. bastante aumentada. É muito inteligente. — Depende do preço que ele oferecer.. e começou a cuidar das suas terras.. mas coração ninguém sabe se ele o tem. em vez de ganhar». Também quem a há-de querer!. Em breve chegámos à .. depois das grandes melhorias que introduziu no domínio da Bottellerie. com um marido assim tão áspero. O senhor visconde não é afectuoso com os seus.. e seguiu o conselho das pessoas experientes. Quando não se tem dote. Ele porém estudou. Com a sua fortuna e bonito como é. o senhor Rouchenne. onde apenas aparecia na época das caçadas. atento à ladeira que o animal ia subindo e que o havia obrigado a diminuir o passo. podia fazer um bom negócio com ele. — Assim deve ser. hoje. menina. Bardeaume... Todos diziam cá na aldeia: «O senhor visconde não percebe nada disto. o ano passado.porque foi criado com muito mimo. como diz.

na verdade. Quanto à Angelina. sentou-se também o criado. se não com o seu consentimento. menina Gillette .em suma.disse a Catarina. com as suas vigas enfumaçadas. à espessa camada de pó de arroz que cobria o rosto desta rapariga. devo confessar que o mesmo não podia dizer da filha. e um pequeno avental.. Ao estrépito do cavalo. com formas a fingir arte moderna. Nela tudo denotava afectação. onde nos esperava uma leve refeição. com um vestido curto. a mais deplorável das notas. até que o meu ficasse pronto. estava cumprindo o serviço militar. que me pareceu muito desagradável. dum azul forte. que me desagradou logo desde o primeiro momento. . Era uma moçoila alta e magra. de cabelos curtos. Se a Catarina e o marido me pareceram óptimas pessoas. a sua irmã de leite. toda a sua pretensão rústica. Seguidas pelo olhar inquiridor da pequena. O mais novo. e até à maneira de se exprimir. cujo principal dever era ajudar a mãe nos trabalhos da quinta. onde tinham tentado fazer uma desajeitada ondulação. Então esta pobre mulher não via o perigoso caminho que a filha ia seguindo. uma jovem abriu a porta e caminhou em direcção a nós. naquela grande sala patriarcal. o seu grande fogão preto e os seus sólidos móveis de velha nogueira polida. a sua maneira desastrada de manejar o talher . às botas de altos tacões. .. belo rapaz de vinte e cinco anos. que me incomodou. toda cinzenta no meio da bruma. e cujos motivos me pareceram um tanto em desacordo com a idade da pequena. a que respondi. onde devia ficar dois ou três dias.Angelina. entrámos todos na sala. que amei desde logo. estendendo-lhe a mão e dirigindo-lhe palavras amáveis. com o seu vestido asseado e simples de dona de casa! Como é que esta boa gente permitia que a filha se tornasse tão diferente deles?. guarnecido com móveis vulgares. À mesa. entretanto que a Catarina é que nos servia. que tinham atravessado os séculos. pareceram-me a mais triste. Cumprimentou-me com ar pretensioso. Como a boa da mãe me parecia mais digna e mais bonita. o filho mais velho do casal. A pobre Catarina mostrava-me tudo isto com tal expressão de vaidade. cujo lugar de honra me coube.quinta da Meulière. forrado a papel com grandes flores garridas. O dela era pequeno e claro. e dois espelhos em frente um do outro. pelo menos com o tácito apoio da sua fraqueza maternal? Ao jantar conheci o Tiago. de cabelos louros. Era a falsa elegância em todos os seus lamentáveis aspectos — desde as meias demasiado finas. No ambiente flutuava um perfume bastante forte. desde a apresentação aos gestos. o Francisco. essa comia com toda a calma. Esta pergunta fixou-se no meu espírito desde aquela noite. mas quase sem parar. E a sua figura empoada. de fisionomia calma e bondosa. de caixilhos dourados. As paredes estavam adornadas com quadros. quando vi o quarto de Angelina.

— Confesso que preferia ver um jardim cheio de flores. pedindo-lhe para me arranjar um emprego.. Não lhe parecerá muito triste?. acostumar-me-ei.. em companhia da Catarina» que me repetiu. Lamentável estréia. marcadas com compridas listas esverdeadas. menina? . — Vai ser professora. minha boa Catarina. a menina Gillette sempre está resolvida a ficar aqui?. — Os legumes dão-se aqui maravilhosamente.VI No dia seguinte. menina. De pé. Senti um arrepio de comoção ao penetrar no vestíbulo. é provável. É uma casa muito triste. porém.. fui ver a minha nova residência. tendo ainda a torná-la mais triste a chuva que caía. menina Gillette. junto da janela. para aproveitar a terra — explicou a caseira. formando diante da casa uma grande poça pardacenta. que gosta de jardinar. entra logo aqui.. que dá as mais belas flores de toda a região. ao senhor abade. menina. logo pela manhã. ou qualquer coisa parecida. — Nos primeiros dias. flutuava o mesmo cheiro. — Isso é certo. como tudo. — Este é habitável — disse-me ela. existe na parede do quarto uma velha roseira. cuja superfície era agitada pela queda de incessantes e numerosas gotas. e qualquer dia poderei ser chamada. Já escrevi à superiora do meu convento. E depois. O quarto era iluminado por duas janelas bastante largas. — Foi o Bardeaume quem plantou esta horta. Ante os meus olhos estendia-se um grande jardim. onde algumas árvores erguiam os ramos sem folhas. contemplava a chuva. no entanto o Tiago. pode-se modificar. lenta e fria. o resto tinha sido transformado em horta. não. Aliás. É delas que todos os anos levo. e onde a minha boa Catarina vinha fazendo umas fogueiras há vários dias. depois.. não pretendo ficar aqui por muito tempo. A meu lado a Catarina murmurou: — Seja como for. um ramo. Apesar desta prevenção. como verá. com excepção do quarto do primeiro andar. o meu coração sentiu-se oprimido quando vi as paredes enegrecidas. Em todos os arruinados compartimentos que a Catarina me mostrou. Voltei-me. todavia os meus minguadíssimos rendimentos não me permitem esse luxo. porém o resto da casa não vale nada. com certeza para me evitar qualquer desilusão: — É muito velha aquela casa.. que tresandava a humidade e a bafio. Com excepção dum canteiro em frente da casa. observando-lhe a fisionomia amorável e inquieta. embebendo profundamente a terra escura. o velho alpendre coberto de musgo. arranjar-lhe-á da mesma maneira um jardinzinho. se não gostar. — Quando há qualquer ponta de sol. Aproximei-me duma delas e abri-a. que devia ser o meu. por ocasião da festa do “Corpo de Deus”. com a balaustrada destruída e quebrada em parte. o pavimento desconjuntado do terreiro. que caía ininterruptamente. e suponho que será mais razoável deixar continuar aí os legumes.

a fazer a manteiga e a cuidar das galinhas. — É a sua afeição por mim que a faz pensar dessa forma.— Talvez. Perguntou-me depois. que começava a lidar. Preparei-lhe uma cama num quartito. Voltámos à quinta. de que isso não me impedirá de lhe fazer muitas visitas. e o resto parecer-me-á mais alegre quando vier o sol. minha menina! Aproximei-me dela e. não posso. minha boa Catarina. — Sim.. mas bem feito: — O quê?... Não conheço pessoa melhor.. para viver. um pouco.. para esconder a minha melancólica comoção. acrescentei: — E a propósito. O marido morreu. Bem. única parcela de terreno que a separava da minha casa. perto do fogão.. Como sabe. — A mulher olhou-me com um ar de espanto: — O quê. No fundo a minha sorte será igual à de tantas outras jovens da minha idade e linhagem. Pus-me a rir.. e ela passa os dias aqui e ali. a quem a senhora me confiava.. porque vive perto daqui. à tarde. sou muito independente. Uma menina tão bonita ir ensinar meninos mal educados. — Exactamente. minha senhora?. O Bardeaume e o Tiago arranjarão tudo da melhor maneira possível. cheio de macieiras.... pois os meus móveis já devem estar na estação. Na sala. e a Mayote virá dormir todas as noites aqui. porém. — Oh! Por isso nunca. quando tinha de se ausentar. Catarina reflectiu em voz alta: — É pena!. Então pensa em tornar-se caseira? — Quem sabe?. Em seguida. Lembra-se dela. Parecia desanimada. fica resolvido.. lá em baixo. enquanto observava o meu vestido cor-de-cinza. a Angelina varria preguiçosamente. visto a menina estar resolvida a não querer ficar connosco. beijei- . Angelina. além de que poderei ajudá-la um pouco. Porém pretendo trabalhar muito.. menina? — Sim.. que trabalham corajosa e dignamente. muito simples. Em todo o caso esses conhecimentos são sempre úteis. sabe a idéia que tive agora? Quero que me ensine os trabalhos da cozinha. e obedecer a pessoas que talvez nem lhe cheguem aos pés!.. — Como não!. Não seria das piores idéias. O quarto é cômodo... — Não. como a senhora.. menina?.. pois tenho de me sujeitar ao que vier. — Vamos mandá-los buscar hoje. já lá vão uns anos.. uma mulherzinha muito morena. muito fácil para ela. e respondeu com palavras ásperas a uma observação da mãe. passando-lhe o braço em volta do pescoço. Sempre lhe serve a casa. voltando-me para a Catarina.. e ficará muito satisfeita em poder prestar-lhe este serviço. no começo. menina Gillette!. Estou até muito satisfeita. atravessando o pomar. instalar-me-ei aqui o mais depressa possível. — Parece-me que não deve ser nada agradável para quem já viveu na cidade. — Oh! Cada visita será para mim um grande prazer. Fique certa. no entanto preferiria outra coisa qualquer.... minha boa Catarina.

— Sempre queria ver. mas muito brancos: — Havia de ser muito engraçado.. "Que dias de amargura estás preparando!" Desde o dia seguinte.. cobria o soalho.. tratarmos do insuportável trabalho da quinta. Catarina soltou um fundo suspiro. por muitos motivos. minha mãe. A mãe retorquiu.. com um riso irônico. Triste vaidade materna.. — Não lhe estou a pedir a sua opinião. entre dois pequenos candelabros de porcelana de Saxe. É verdade que o campo dá trabalho. com as cortinas de linho. o mesmo que fora da minha mãe. nesta idade. Porém com a sua ama.. — Não sou dessa opinião. A Angelina vive amofinada nesta casa!. não penses em tolices!. começou de novo a manejar a vassoura e a levantar poeira. A menina é tão boa!. que lhe fez mostrar. mas vive-se melhor no campo do que na cidade... Pela menina não ficava eu!. educada com tão criminosa indulgência. que se orgulhava de ver a filha. Não as podemos segurar em casa!.. o que dava ao quarto um aspecto confortável. num tom de amorável censura: — Ora. Além disso é bom para a saúde. uma fileira de dentes um tanto grandes. No fogão. que só casarei com um rapaz da cidade.. E o seu peito arfava de vaidade satisfeita. todos aqui lhe querem muito. nós. Assim dizendo. E quase imediatamente acrescentou. E tanto assim. Bardeaume e o filho tinham operado maravilhas em pouco tempo. — Não me parece que seja pior que os outros!. O meu quarto estava deveras encantador... quero! Catarina pôs-se a rir. prestes a aumentar a dolorosa multidão das transviadas.ganhava sempre. com desenhos à Luís XVI. que fiquei instalada na minha casa. Angelina? A minha irmã de leite respondeu com uma voz fraca: — É sim... e o que sei. E depois. Um grande tapete. É verdade que tem um certo ar de menina da cidade!... não é verdade. um tanto usado. a cama de bronze e a linda cômoda antiga. é que não fui feita para viver aqui. com folhagens. à tarde. "Pobre Catarina!" — pensei eu. . se estivesse em luta com ele. As paredes estavam ornadas com um espelho e diversas fotografias. Sou como o senhor de Trézonnes: quando quero alguma coisa. A si não lhe agrada. qual dos dois ganharia!. mas ainda bastante conservado.... minha senhora.a... Angelina? — Não. coloquei o relógio carrilhão. e depois murmurou: — Ah! Estas meninas!. entre os lábios grossos. Não nasci para esses trabalhos. oh! sim!..

em homenagem à minha instalação nesta casa isolada. enquanto o Tiago. deveras satisfeito com a sua obra. porque o olhar era sempre frio e pretensioso. exclamou do alto da escada: — Isso deve mudar talvez quando o senhor visconde se casar. Notei um leve estremecimento no rosto da Angelina. menina Gillette! Tudo aquilo porém não serve para nada. A primeira exclamou: — Como está lindo. onde dá gosto viver! Angelina observou tudo com olhares inquiridores.Os outros móveis guardaram-se numa sala do rés-do-chão. tão do gosto da Angelina. e os meus olhos. Pronto o meu quarto. num tom um tanto irônico: — Não está mal. por ocasião das caçadas. Não é por que as senhoras não gostem de receber. pareceram admirar as formas familiares dos móveis e dos objectos que tinham pertencido a minha mãe. fomos fazer a nossa festa para a sala da quinta. dava a última demão ao trabalho. mas destituído de encanto e de expressão. Naquela noite dormi já na minha cama. Isto ficou um verdadeiro ninhozinho. um levíssimo aroma a íris substituiu o perfume vulgar. retorqui-lhe: Cada um tem o seu gosto. Oh! Se visse o salão. aguardando que o Tiago pusesse em ordem um pequeno quarto que dava para o jardim.. Tiago. menina Gillette!.. mas o senhor visconde não permite mais do que três ou quatro recepções. e continuei a fazer as honras do meu pequeno domínio. admitindo que ainda ali estivesse por ali. e as senhoras têm de se contentar em fazer e receber visitas entre as famílias dos arredores. com um acento de admiração.. dizendo por fim. Como são bonitos os móveis da Bottellerie! — exclamou Catarina. antes de se fecharem. Prefiro porém os móveis novos. a estas velharias. Depois volta a calma. Então é que é magnífico! O senhor de Trézonnes não olha a despesas naquelas ocasiões. Feito isto. muito agradável para o verão. Faltava apenas refazer a pintura das madeiras que encobriam as paredes. chamei a Catarina e a Angelina. Ironicamente. Aliás não dei nenhuma importância a este sintoma de comoção. VII . que batia um prego para um quadro. e além disso os velhos móveis têm muito mais valor. Feito isso. ficaria com uma espécie de salinha de visitas. um rosto fresco.

e comigo. minha senhora? — Um compartimento do primeiro andar está bastante razoável.. . misto do século XIV e dos primeiros alvores da Renascença. velha construção que se erguia à direita da igreja. Abanou a cabeça e reflectiu um momento: — Oh! É pena!. os de todos aqueles que haviam acolhido com tanta bondade a órfã arruinada. minha senhora. Assim fiquei por longos minutos. tanto um como a outra. Mantinham-se ainda. era uma voz tão encantadora e expressiva. e dirigi-me para a igreja. Principiei por lhe explicar a minha situação.. entre esta boa gente. — Oh! tanto melhor!. estes gestos de delicadeza. As mulheres. sendo òptímamente recebida pelos dois. — Tem a mesma voz de seu pai. Mas a sua casa está na verdade em condições de ser habitada. Em especial nos olhos.. senhor abade. A irmã do abade fez-me entrar para uma sala de espera. olhando-me depois com mais benevolência do que curiosidade. O abade mostrou-se muito bondoso. mas muito agradável. à entrada da aldeia... que logo nos dominava. tinha alguns lindos motivos esculturais. e cuja fisionomia mantinha uma admirável vivacidade de expressão. e falou-me também de meus pais. Pensa ficar algum tempo entre nós?. muito idoso. os quais..... muito paternal.. toda pintada de cinzento. que vira noutros tempos na Meulière.Por conselho da Catarina fui alguns dias depois fazer uma visita ao abade da aldeia e a uma velha senhora. minha menina. Parece-se com ele no físico? — Parece que sim. Os dele tinham um encanto inesquecível Era também muito afectuoso e terno para com a esposa. É pena!. A senhora Mossette.. Os homens cumprimentavam-me. Falou-me dos meus pais. que a senhora Mossette habitava. As nossas jovens aldeãs apenas pensam em sair. baixavam a cabeça. e as crianças diziam-me: “Bom dia. pediume que a fosse ver algumas vezes. Entrei e ajoelhei-me ao fundo da nave escura. Como precisava porém de fazer a minha visita... tinham conhecido o senhor de Sauriages.. mas muito original.. — Então devem ser muito bonitos. dirigi-me para o presbitério. Assim. Já estou ali instalada e parece-me que fiquei bem. — Era um bravo. Saí bastante reconfortada da pequena casinha.. seria um óptimo exemplo o verem uma jovem da cidade fixar residência entre nós. mas sobre tudo do senhor de Sauriages. Éramos muito amigos!. na calma obscuridade da nave deserta. baixinho e magro.. Do íntimo da minha alma pedi a Deus para abençoar os meus passos nesta aldeia. na suave doçura daquele ambiente divino. Pobre senhora de Arbiers! Fiquei deveras contristada quando soube da sua desgraça. uma velhinha quase cega. onde. apareceu um sacerdote. pouco depois. A igreja. quando eu passava. minha senhora!”. Se pudesse ficar aqui!. hoje tão menosprezados. quando vinham passar alguns dias a casa do tio. que logo pensei vir um dia admirar com mais vagar..

Assim. é isso o pior da questão. O difícil será arranjar alguém que compre os meus trabalhos por um preço razoável. Seria uma grande corsa se pudesse evitar o ir viver para casa dos outros. Com os seus pequenos rendimentos. na casa dos outros. tem razão. — Não poderia tentar outro serviço qualquer. que lhe permitisse ficar em casa?. e apenas se deixando levar por quem a estime. não poderá arranjar de forma a poder . As palavras do abade haviam arreigado em mim o intimo desejo de me instalar em definitivo na minha velha casa. e estando já instalada. recebi a resposta da superiora do meu convento. com toda a indolência... preciso trabalhar para viver. Segundo depreendi das cartas que me escreveu. Catarina protestou.. Uns bordados. no estado em que se encontra. dê-me alguma coisa da sua costura para terminar o dia.. Mas vou-me informar e falar com a senhora Mossette. por exemplo? — Bordo regularmente. aconselhando-me também a ficar na Meulière: "Tem um feitio muito independente. pois receava ter de ir viver. era eu ficar uma lavradeira sem quinta. muito impulsiva. E. Sentada junto à janela. Precisam calejar-se muito.— Mas. enquanto no outro lado da sala Angelina passava roupa. todos os anos. A Meulière está arrendada aos Bardeaumes. Os bordados é que estão de acordo com os seus finos e brancos dedos. e muito menos ainda como dama de companhia. muito franca. e desde anteontem tenho ido com ela ao galinheiro.. pus-me a coser algumas camisas de pano grosso. antes que eu adquira alguma prática. ainda leva muito tempo. o que me permitiria.. minha filha" — acrescentava ela—. mas vendo a minha insistência teve de ceder. Já que a menina se conforma em viver na casa. Ora precisamente no dia seguinte. mas talvez se pudesse arranjar qualquer coisa que lhe permitisse ficar aqui. Respondi-lhe.. senhor abade. senhor abade.. além disso. sorrindo: — Talvez seja possível fazer de mim uma lavradeira?. Sentia-me muito vacilante sobre a decisão a tomar. Quando contei à Catarina esta conversa. seria muito preferível que aqui ficasse. guardar alguma pequena economia para o futuro. — Não seria assim muito mal pensado! — O que acontecia. — Sim. "e por isso ficará muito melhor aí. — Os meus finos e brancos dedos!. noto que é sempre a mesma. que tem umas sobrinhas em Paris. exclamou: — Também sou da opinião do senhor abade. — Sim. Creio que o lugar de professora em casa duma família não seria muito aconselhável. estaria livre de todas as despesas. como empregada. Já esta manhã a Catarina me começou a ensinar como se faz a manteiga. com excepção do vestuário. Que seria de mim? Por que desgostos não teria eu de passar ainda? Por outro lado. minha boa ama.

ainda vivo. seja franca. como sucedia já nos outros compartimentos.viver no campo? Parece-me que sim. Como chegasse Bardeaume. visto que me era de todo impossível proceder a quaisquer reparações. Talvez mesmo. se o julgasse conveniente. de perfeito acordo com ele. Em seguida tratámos da minha pensão. visto que é activa e perseverante. auxiliada pelos seus bons caseiros. Creio que estaria à altura de tal tarefa. afirmando ele que o negócio ia compensá-los largamente da pequena despesa que iam ter comigo. Conheço-o pouco. onde vivera na sua mocidade. escrevera a uma das sobrinhas. Quando dois dias depois. Enfim. Vem fazer-me uma visitinha de cinco minutos. com lindas palavras. estava certa de poder viver modestamente na minha velha casa — pelo menos enquanto ela se mantivesse de pé. eram óptimas pessoas. Tinha a impressão de que a nossa antipatia era recíproca. descrevendo-me. Esta carta pôs termo à minha indecisão. mesmo o criadito. palavras mágicas. excepto a Angelina. Para o momento. — O actual castelão mantém o costume tradicional. foi combinado que continuasse a vender. minha filha. que me fizeram preferir uma vida de privações. em seu proveito. Falou-me do castelo da Bottellerie. quando lhe comuniquei a minha resolução. Todos pareciam muito satisfeitos com a minha resolução. estaria “na minha casa”. Se não estiver de acordo comigo. segundo creio. como sei de muitas senhoras de igual posição social. segundo notei na sua fisionomia. Resolvi seguir estes conselhos. as caçadas com galgos em que tinha tomado parte. pense bem. ficou muito satisfeito com as notícias que lhe dei. e o seu espírito. Ainda não tinha tido resposta da sobrinha. uma vez . Tinha por ela já uma grande estima. mais tarde. Li-lhe um bocado num livro do seu agrado e prometi voltar mais amiudadas vezes. os legumes do meu jardim. sobre as probabilidades de venda dos meus trabalhos. ainda as mais urgentes. visto que todos os outros. porém isso importava-me pouco. e a sua cultura intelectual tornavam-na muitíssimo interessante. Na semana seguinte voltei a visitar a senhora Mossette. e feito o meu pequeno orçamento. dum espírito clarividente e engenhoso. mas estava sempre a tempo de seguir qualquer outro caminho. teria ali um abrigo. encontrará sempre em que se ocupar. possa conseguir algumas fontes de rendimento com os produtos agrícolas. que continuariam a mandar-me à herdade. Inteligente como é. que me rodeavam de atenções e se julgavam felizes por me terem junto deles. e que ela se obstinava em querer fornecer-ma de graça. Catarina exultou de alegria. Enquanto estivesse direita e a chuva não invadisse o meu quarto. que estavam tão de acordo com os meus desejos. Ia arriscar-me. enquanto conversávamos a tal respeito. Acho esta solução a melhor para si. a uma existência luxuosa "em casa dos outros". e disse-me que a senhora Mossette. — Os Trézonnes foram sempre uns apaixonados caçadores — disse ela. pedindo-lhe para se informar junto das pessoas conhecedoras do negócio. procurarlhe-ei um emprego". o abade veio agradecer-me a minha visita.

enquanto pensava. menina!.. É temido e não amado. VIII Estou convencida de que a Catarina supôs. — Que pena não ter a Angelina essas mesmas idéias!. tão admiràvelmente equilibrado. segundo parece. Lembrando-me da fisionomia que conseguira entrever. que foi o de todos os seus antepassados. E não se aborrece? — Por maneira nenhuma!. Antes de tudo estará o marido.. e por isso não tem gosto nenhum por estas coisas..... já desaparecidas. É um homem elegante. Na sua imaginação julga-se superior a todos os seus. impróprias do seu meio? Considera-se naturalmente fora do seu ambiente. Ora o senhor de Trézonnes é um espírito pouco acessível. o tenha absorvido. e não aceita de bom grado estes serviços. Pelo contrário... talvez. Não é evidentemente uma inteligência vulgar. —Foi educada com muito mimo. minha boa Catarina. e pasmou quando me viu levar a cabo. Brandamente. No entanto conseguiu entre nós uma esplêndida situação. desprezando o trabalho do campo. digo-lhe que a culpa é nossa e não dela. segundo ouvi dizer. em todas as afeições da sua vida. Afirmam mesmo que não tem coração. dum andar aristocrático. respondi-lhe: — E porque lhe deixou adquirir esses hábitos e essas pretensões. mas dum espírito bastante reservado. É um grande mal para ela e para si. mas pode muito bem ser que o cérebro.. mas não queria por maneira nenhuma ser sua mulher. porque o coração. que supõe muito pesados para ela. é sempre o coração!. Agora já perdemos a força moral. de início... como será a futura senhora de Trézonnes! Ri-me também. O seu rosto enrugado pareceu iluminar-se. exclamei também: — Nem eu! A senhora Mossette riu-se. com muita perfeição. — No entanto ficar-lhe-ia muito bem o título de viscondessa.. ao cabo porém de pouco tempo foi obrigada a convencer-se de que a minha perseverança era sincera. — Nunca vi tal!. Olhe que já está trabalhando melhor do que a Angelina. — Isso não sei. . que não passasse dum simples capricho passageiro o meu desejo de ser iniciada nos trabalhos duma verdadeira aldeã.por ano — em Janeiro. visto que a deixámos crescer à vontade. e além disso riquíssima. Só pensa em ir para a cidade. No fundo. menina Gillette! Será possível que num mês?. mas sempre vivas na sua alma. até me sinto deveras interessada. Às vezes. E seria uma grande desventura para ele. respondendo: — Só isso não me bastaria. todos os serviços que lhe pareciam incompatíveis com a minha situação de “senhora”. quando o pai quer zangar-se com ela.

que se fixava em mim. Uma tarde em que foi obrigada a ir à aldeia. Com as mangas arregaçadas e um avental branco diante de mim. Quer ter a fineza de lhe dizer para me ir procurar amanhã. numa atitude de ridículo acanhamento. Na outra extremidade da sala. Por vezes ouvia lá fora o barulho do rodar dum carro. um pouco de ternura. esta manhã. Levantei a cabeça e o meu braço ficou imóvel. Era um lindo olhar. no entanto. Sob a sua direcção iniciei-me nos diversos trabalhos domésticos. arranjava os cabelos cortados à última moda. abanando a cabeça: “Oh! bem se vê que já não estou nos meus vinte anos!”.. e em seguida dignava-se aparecer na sala. na verdade. algum romance vulgar. Angelina abusava largamente da fraqueza materna. — Sinto muito. — Fico-lhe muito agradecido. a fazer a manteiga. A certa altura ouvi um maior tropel no chão duro do quinteiro. empoava o rosto.. às vezes dizia. tirando o chapéu. até agora desconhecia o poder dominador do seu olhar. causando-me um sério mal estar. No entanto a mãe começava a ficar cansada. com dois ferros de brunir e uma boa pilha de roupa. a porta entreaberta deixava entrar o ar fresco dessa tarde de Fevereiro. ou o cacarejar duma galinha. mas. No rectângulo da porta surgiu uma alta silhueta masculina. voltava para o quarto. que regressa do trabalho”. Ajudava-a a tratar do galinheiro. aparecia mal penteada. Depois de fingir que tinha trabalhado um pouco. reflectindo. Logo que ele volte. não reflecte. Ele parou um instante. Pensei: “Deve ser talvez Bardeaume. uns sapatos elegantes. enquanto a Angelina se enfeitava no quarto. trabalhava com afinco. a remendar e a passar a roupa. que amenizava o calor irradiado pela estufa. Poderia dizer-me se está o senhor Bardeaume? — Não está. de cor berrante. junto da janela. senhor. Senti um vivo rubor subir-me às faces. perguntou-me no mesmo tom de severa cortesia: — Suponho ter a honra de falar à menina de Arbiers? — Exactamente. de manhã cedo? — Com todo o prazer. como o que encontrei no seu quarto. Teve um gesto de quem se vai despedir. com o ferro no ar. vestida de qualquer maneira. com os pés enfiados numas sujas chinelas. vestia um vestido muito curto. a preparar as refeições. mas ao qual faltava.. Saiu para Bressuire. sem nenhuma razão. deixou-me só na sala. e cujo título me tinha chamado a atenção.. minha senhora. Precisava pedir-lhe umas informações. Pela primeira vez pude ver de perto o castelão da Bottellerie. Contudo era corajosa para trabalhar e poucas vezes se queixava.não é má. Continuava com o ferro suspenso. que reconheci logo ser o senhor de Trézonnes. dar-lhe-ei o recado. como vê: mas é nova. um avental vistoso. ou o filho. — Queira desculpar. depois adiantou-se alguns passos.. a menos que não preferisse ficar a ler. De manhã levantavase tarde. ..

O senhor de Trézonnes prosseguiu: — Bardeaume já lhe falou, talvez, minha senhora, numa pretensão que tenho e que há tempos lhe disse? Trata-se dum prado que é propriedade da senhora, e que eu desejo adquirir por estar em continuação dos meus, situados na margem do rio. — Disse-me isso quando cheguei, mas não voltámos a falar em tal. — Opor-se-ia a essa venda? — Não senhor!... Mas conversarei primeiro com o Bardeaume, pois ainda sou muito inexperiente para tratar desses assuntos. Terá por isso a bondade de se dirigir a ele. — Sim, para tratar com ele a questão monetária; porém, antes de lhe falar, quis certificar-me se a senhora dava ou não o seu consentimento, visto que com os nossos camponeses, sempre muito espertos, gosto de ir logo ao fim. Neste momento abriram uma porta ao fundo da sala e apareceu a Angelina. Ao cumprimento pretensioso que dirigiu ao senhor de Trézonnes, este correspondeu com um simples movimento de cabeça. Com um olhar, ao mesmo tempo muito humilde e muito insistente, a minha irmã de leite perguntou-lhe: — O senhor visconde procurava alguém cá de casa? — Sim, o senhor seu pai — respondeu o senhor de Trézonnes secamente. — Acabo porém de saber, por esta senhora, que está ausente. Esperá-lo-ei amanhã de manhã no castelo. E voltando-se para mim, acrescentou: — Falaremos também do seu campo, minha senhora, e tenho a certeza de que havemos de nos entender. — Assim o espero, senhor. Inclinou-se com uma cortesia um tanto altiva, que parecia ser-lhe muito habitual, e nessa altura pude ver-lhe ainda no olhar a mesma chama dominadora. Depois saiu, acompanhado até à porta pela Angelina, humilde e solícita como eu nunca a vira. Ainda um tanto perturbada com o incidente, fui colocar o ferro na estufa e peguei no outro. Ao voltar-me, encontrei-me face a face com a minha irmã de leite. Chamou-me a atenção a chama de ódio que se reflectia no seu olhar. Com as faces vermelhas, bastante agitada, falou-me num tom um tanto áspero: — Devia ter-me chamado para atender o senhor de Trézonnes, menina Gillette. Isto não são assuntos da sua conta. — Se estivesse aqui, no seu lugar — respondi prontamente —, o senhor de Trézonnes não se teria dirigido a mim, do que teria dado graças a Deus, porque, como bem diz, não é da minha conta. Dizendo isto limpei o ferro e passeio sobre um avental estendido diante de mim. Angelina soltou uma risada. — Que boa empreitada!... Aí está um bonito divertimento para a gente se cansar um pouco!... — Para mim, felizmente, é um grande prazer contribuir para que a minha boa

Catarina descanse um pouco. Infelizmente estou vendo que é incapaz de compreender ou tentar fazer isso. Encolheu os ombros. — Não me quero aborrecer. Prefiro antes fazer alguma coisa que seja mais fácil... — Que não lhe suje as mãos! — disse eu com ironia. Envolveu-me num olhar mal humorado: — Certamente que não as quero sujar!... Se não são tão delicadas como as suas, pelo menos podem ser tão brancas... Olhe!... E estendeu os dedos grossos, brancos e per fumados com qualquer "água de colônia". Os seus braços, a descoberto até aos ombros devido às mangas curtas, retesaram os músculos fortes sob a pele trigueira. Aproximou-os depois dos meus, muito finos brancos e nacarados, e das minhas mãos esguias e de contextura delicada. Retirou-os quase logo. O clarão de triunfo que acabara de iluminar-lhe os olhos extinguiu-se, e afastouse, mordendo os lábios. Num tom de calma censura, disse-lhe: — Não tem o direito de ter umas mãos tão brancas, Angelina, quando as da sua mãe se gastaram e deformaram no trabalho. E posso afirmar--lhe que não é nisso que está a felicidade! Afastou-se sem dizer palavra; concluí, porém, que me invejava e detestava. Concluí também que esta pequena, toda vaidosa, muito enfatuada da sua pessoa, que não dispensava a menor atenção à companhia das outras pequenas do lugar, sabia mostrar-se deveras servil para com as pessoas mais importantes da terra. Estas descobertas não eram de molde a provocar no meu espírito uma opinião mais favorável à Angelina, e concluí com mágoa, naquela tarde, que a nossa mútua antipatia poderia ser, um dia qualquer, a causa, dum conflito.

IX No dia seguinte pela manhã, quando o Bardeaume se encaminhava para a Bottellerie, resolvi ir ver o tal famoso prado que ainda não conhecia. Às dez horas, mais ou menos, deixei a quinta e meti-me pelos atalhos estreitos, entre sebes fechadas, que em breve a primavera viria reverdecer. Enquanto caminhava, li uma carta da senhora Barduzac, trazida pelo carteiro havia ainda poucos instantes. Não me apressara a abri-la, sabendo de antemão quais as palavras ternas e os conselhos que ela devia conter. De facto, a minha resolução de ficar na Meulière era considerada uma loucura, predizendo-me que em breve me arrependeria. “De resto, esta asneira da sua parte não me causa admiração” — concluía a minha gentil tutora. Voltei a dobrar a carta, meti-a no bolso, e ao cabo de alguns minutos já

não me lembrava dela. A manhã estava deliciosa, bastante fresca, mas vibrando toda duma claridade que já não eram as claridades hibernais. Ao longe estendiam-se raras brumas sobre os bosques, dentro em pouco ressuscitados pelo sopro da primavera. Acabava de evaporar-se o orvalho das sebes, das terras agricultadas, ainda fofas do recente labor, e da grama rasteira dos prados, de que se viam os grandes espaços verdes, entre os choupos, ao longo do rio. Bardeaume tinha-me dito: “O da menina, é o primeiro, depois da nossa casa”, e por isso encontrei-o logo. Ficava em declive suave para a corrente. Empurrei a cancela e entrei. A terra húmida cedia debaixo dos meus pés, enquanto o sol me envolvia, me acariciava— este sol de Fevereiro, que não conhece o obstáculo das folhagens, privandonos da doçura das penumbras. No prado podia espraiar-se à vontade, no amplo espaço deserto, entre os claros troncos dos alamos, cujos ramos altos, que a seiva percorria em haustos vigorosos para a festa da primavera, um vento ligeiro brandamente agitava. Sentei-me à margem do rio, que deslizava lentamente, cambiando a sua tonalidade de instante a instante, ou melhor, ostentando todas as tonalidades ao mesmo tempo, ao sabor da luz, da corrente, do ar que passava, agitando-a. Ora verde, como se nela se reflectisse o campo que lhe ficava fronteiro; ora cinzenta, da cor de cinza da ardósia, raiada de sol; ora surgia ainda dum azul celeste, com demoradas reverberações de ouro, no marulhar das suas águas claras. Fiquei demoradamente a contemplá-lo. As horas passaram, o dia tornara-se mais escuro, porque uma nuvem tênue e muito comprida flutuava diante do sol. Sobre o rio, sobre o prado, contornado por grossos e belos muros, na outra margem, adelgaçavam-se as sombras. Senti um ligeiro estremecimento, ao ouvir uma voz que me chamava: — Olá, menina Gillette! É a hora do almoço! Pus-me de pé e atravessei o prado. Bardeaume esperava-me junto da cancela, com um amável sorriso nos lábios grossos. — Veio procurar-me, Bardeaume? — Não, menina. Venho da Bottellerie. Ao passar por aqui vi-a à beira do rio e pela maneira como estava, pensei que se tivesse esquecido da hora. — Era isso mesmo — respondi-lhe a sorrir. — Acho lindo este rio, e este prado deve ser encantador na primavera. Pensando bem, tenho vontade de ficar com ele, Bardeaume. Teve um gesto de desaprovação. — Não sou da sua opinião, menina. É um bom prado, é certo, mas que não fará falta, porque o de lá de cima basta para a nossa criação. O senhor de Trézonnes dará bom dinheiro por ele, porque está ligado com os das suas propriedades. Já ofereceu três mil francos. — E que tal? — Óptimo, é certo que vale isso, porém não se encontraria tão grande oferta em todo o lugar. O senhor visconde podia comprá-lo mais barato — mesmo por dois mil e quinhentos francos tê-la-ia aconselhado a aceitar, porque ainda era um bom negócio; mas ele estabeleceu logo o seu preço, e assim não precisei discutir, o que é sempre desagradável com o senhor de

Trézonnes. Tem um jeito para embaraçar as pessoas!... Basta olhar para elas!... E depois, quando diz uma coisa, está dita. É verdade!... É um homem..., e um homem difícil de contrariar! Caminhávamos, conversando, pela estrada que ladeava os campos. Bardeaume estendeu o braço para a direita... e para a esquerda... — Veja, menina Gillette; tudo isto é dele...-, lá em baixo... e além... e lá ao longe... Recordando-me de que, nos meus primeiros passeios, os meus amigos me tinham mostrado soberbas terras pertencentes ao castelão da Bottellerie, exclamei, rindo: — Parece o marquês de Carabas, este senhor de Trézonnes! — Quase, menina!... Possui quase toda a região... Suponho que gostaria de comprar a Meulière. — Já lho disse? — Não, menina, mas disse-me um dos seus caseiros, Carbille, de HaieBlanche, que o ouviu um dia falar nisso. — Não a venderei por coisa nenhuma!... Estou vendo que este senhor quer tornar-se o rei de toda a região! — Também assim penso! Nesta altura metemos por um atalho. Um alto muro, à direita, estendiase ao longo dum jardim. De pé, junto duma pequena porta aberta, um velho, de blusa azul, esperava um criado que vinha da estrumeira. Ao ver-nos, tirou o pequeno barrete que lhe cobria a cabeça calva. — Bom dia, senhor Rouchenne! — disse Bardeaume abrandando o passo. — Bom dia, meu rapaz... E bons dias também, menina de Arbiers. Aproveito a ocasião para lhe apresentar os meus melhores votos de boas vindas. Parei para lhe responder e agradecer. Aos Bardeaumes tinha já ouvido fazer, por mais duma vez, referências ao velho Rouchenne, proprietário da Sauvaie, antigo solar escondido entre as árvores e as flores dum bonito jardim. Na missa cantada do domingo anterior chamara-me já a atenção este asseado velhinho, de barba escanhoada e calva luzidia, onde se viam raros cabelos brancos. Ocupava sempre o mesmo lugar na igreja e acompanhava os ofícios com recolhimento, sem afastar os olhos do altar ou do seu livro de missa, em couro preto, com fechos de metal, bastante grande e provavelmente pesado, porque o apoiava na beira do genuflexório, inclinando para ele o rosto magro, duma tonalidade de terra seca, todo sulcado por pequenas e profundas rugas, tal como um solo seco há muito. Sabia que o velho Rouchenne pertencia a uma família de revoltosos, célebre nos anais da Vendeia; o seu avô, com perigo da própria vida, arrancara das mãos dos "azuis" o bisavô do senhor de Trézonnes, a quem este tratava como amigo, como igual, apesar de descendente de camponeses que haviam combatido com os senhores da Bottellerie em prol da religião e da realeza; assim como não ignorava também que em toda a região chamavam ao ancião da Sauvaie: “Um santo homem”.

Todas estas coisas tinham-me despertado a curiosidade de o conhecer mais de perto e por isso apertei com prazer aquela mão que se estendeu para mim com toda a cordialidade. — Conheci muito bem o senhor de Sauriages, que era uma boa pessoa, salvo quando discutia política. Então era terrível, minha senhora!... Nessas ocasiões era capaz de matar todo o mundo!... Um leve sorriso se lhe esboçou no rosto pensativo e deslizou-lhe pelas pupilas cinzentas, cujo olhar sereno e profundo me envolveu. —...E, de facto, era o melhor dos homens, muitíssimo sossegado. Porém a senhora não o conheceu, e agora conhece apenas a sua velha casa, onde me parece impossível que a menina possa viver. — Estou acostumada a adaptar-me às circunstâncias, senhor Rouchenne. E a verdade é que me sinto muito bem entre as ruínas da minha casa. — A menina deve ser corajosa e alegre! — disse, olhando-me com mais atenção. — Alegre, sim; corajosa..., algumas vezes. — Estou certo de que é sempre corajosa, e isso é muito bom, é muito cristão... Bardeaurne interveio: — É inegável!... A menina Gillette é muito corajosa. Se visse, senhor Rouchenne, como ela trabalha! Aprendeu já a fazer manteiga, ajuda a minha mulher a tratar do galinheiro, etc. Oh! na verdade não é nenhuma boa vida! Vislumbrei nos olhos do velho um crescente interesse. — Admirável!... admirável!... E isso interessa-lhe, menina Gillette? — Muitíssimo. Bardeaurne retorquiu, entusiástico: — E além de tudo isto faz uns lindos bordados! A nossa menina é completa! — Ora, não exagere, Bardeaurne! — exclamei eu. O senhor Rouchenne sorriu. — Estou convencido de que não exagera e que as fadas lhe concederam todos esses dons e mais ainda, o da bondade. E é essa a razão por que um velho solitário se atreve a pedir-lhe para que venha algumas vezes trazer-me a esmola da sua juventude e da sua alegria. Já soube pela senhora Mossette que a menina gosta dos velhos, o que é um predicado raro, mas deveras consolador para os nossos corações, já tão próximos do túmulo. Num impulso de comoção, disse: — Sim, senhor, terei muito prazer em vir vê-lo. Não conheci os meus antepassados, que ainda choro. Junto do senhor e da senhora Mossette terei a impressão de os ter ao meu lado. A sua mão trigueira, de veias salientes, estendeu-se para mim, e envolveu-me com todo o seu olhar, cheio duma paternal doçura. — Desejaria ser para a menina como um bom avôzinho, em quem tivesse toda a confiança e de cuja experiência pudesse receber os devidos

e apertei contra o peito este pequenino ente delicado. menina. Como é bondoso o seu olhar!. às cinco da manhã..conselhos.. se os trabalhos não forem impecáveis de execução e não se distinguirem dos modelos em voga.. — Oitenta e seis anos!. diante daquela leve musselina estendida nos meus joelhos. Não demore muito em vir ver-me. que foi a mais hábil bordadeira de toda a Vendeia. Não lhe supunha tanta idade! — Está bem conservado. no dia seguinte.. e uma vozita leve exclamar: “Mãe!” Os meus lábios roçaram pela sua face tépida. emoldurado por uma golinha quadrada. Escolhi os que me pareceram melhores: lenços.. bem como os trabalhos da minha falecida esposa. depois que deixei o colégio. no colégio: “Não se pode dizer. minha senhora. pudessem ter a sorte de agradar a esses comerciantes parisienses. macia como uma pétala de rosa. Já sofreu por todos! — concluiu filosòficamente Bardeaume. e a mulher faleceu já há muito tempo. Pelos meus olhos passou a imagem dum corpito frágil de criança. comunicou-me a resposta que tinha recebido da sobrinha. pequenas toalhas e uma roupinha de criança. mostra logo o seu traço característico”... Na carta indicava duas casas que podiam adquirir os meus trabalhos. sobre desenhos da minha imaginação. por qualquer cousa de inédito e original”. Depois vendeu as terras ao senhor de Trézonnes e agora trata apenas do jardim. Oh! que mimo!. Ainda há dois anos ia vigiar os criados pelo campo. Durante toda a sua vida passou por grandes sofrimentos!. — A simpatia foi mútua. No verão. pela quinta. domingo. que imite quem quer que seja. — Vive sozinho nesta casa? — Não. Tudo quanto faz. já anda em volta das flores. Ao ler estas linhas lembrei-me duma frase dita a meu respeito pela minha professora de bordados.. por toda a parte. por um cunho pessoal. duns rechonchudos bracitos saindo das mangas bordadas. Tem um criado. Em geral não aprecia muito as pessoas novas. Que idade tem ele. Gillette. Bardeaume disse-me: — O senhor Rouchenne simpatizou muito com a menina para lhe fazer tal convite!... Nesse caso seria um óptimo auxílio para os meus modestos rendimentos. Mostrar-lhe-ei o meu jardim. Os três filhos morreram-lhe ainda novos. em volta da qual a minha agulha tinha bordado umas leves grinaldas de minúsculas rosas. No nosso regresso para a Meulière. Bardeaume? — Parece-me que tem oitenta e seis anos. que era uma parte de .. X Quando fui visitar a senhora Mossette. Era muito possível que os trabalhos feitos. mas não tem família. Dizia ela: “será inútil qualquer tentativa.. dum rostozito rosado. E pus-me a fantasiar.

continuei o meu caminho. antes de o colocar na caixa da embalagem. segundo me parecia. de cor cinzenta e um tanto ladeado por algumas pequenas torres. A sua alta estatura. nos momentos em que se voltava para ouvir melhor. perguntei aos Bardeaume: — É um bom cristão. de cabelos louros e muito elegante. Em virtude do sítio onde me encontrava. num gesto rápido. erguia-se na extremidade do banco e parecia fazer desaparecer as duas senhoras.. a fim de passar perto da Bottellerie. voltei a passos lentos por um caminho de atalho. podia ver-se o seu perfil.. O mestre era. Na manhã do dia seguinte fui ao correio mandar a minha caixa. que apenas tinha visto de longe. menina Gillette. diz ele que na vida todos nós precisamos da religião. guarnecida de peles. Depois de o ter admirado. que caiu. talvez. Feito isso... ao fim da qual se levantava um solar majestoso. o senhor de Trézonnes. Não me parece que seja. mesmo no tempo da caça. A filha tinha com ela alguma semelhança. neste caso. afastei o tênue vestidinho. Nunca serás para aquele que eu teria amado muito — para o meu filhinho”. “Vai adornar algum pequenino desconhecido. perto deste soberbo homem. como alunos atrapalhados ante o olhar severo do mestre. Estava de pé diante da janela e a luz do poente iluminava-me em cheio. que se entristecera de súbito.. duma atitude correcta e de infundir respeito. que foi humedecer uma das pequeninas rosas daquela vaporosa musselina. A senhora de Trézonnes era uma mulher ainda forte. a que assistira pela primeira vez. e que um Trézonnes deve sempre dar o exemplo.. Contudo eu não a sentia e via apenas o meu coração. Nunca teria o prazer de ser mãe. — Bom cristão. Pelos meus olhos deslizou uma lágrima. sob a capa de veludo. mas não falta à missa. tinham-me chamado a atenção os inúmeros bocejos embargados. . como havia de se casar?. Uma estrada bem conservada seguia ao longo do alto muro avermelhado. as pessoas que nele viviam e que tinha visto na missa cantada do dia anterior. que cercava o parque. que nunca sorria. Durante o sermão. num sobretudo de fino corte.mim mesma.. Ambas pareciam bastante aborrecidas... que lhe faziam encolher os ombros. nesta hora silenciosa da tarde. enquanto caminhava. Não é um cristão praticante. Apanhei do chão o vestidinho e dobrei-o com cuidado. bem delineada. depende. meu lindo vestidinho” — disse comigo. Sem querer. e a vida que me esperava. muitíssimo belo. perto do estrado dos castelões. tanto quanto mo permitiu a minha observação. Tive um ligeiro estremecimento. perto do qual se erguia a casa do guarda. segui por ela até ao grandioso portão. sem família e sem amor. e a sua boca voluntariosa e altiva. tão pobre. duma elegância vigorosa. Por entre uma dupla fila de faias imponentes e seculares seguia uma alameda. Ao sair. Já agora essa felicidade não lhe seria permitida. revendo na imaginação. que mais semelhavam bonecas. Em que estava eu pensando? Gillette de Arbiers. “Vai. este senhor de Trézonnes?..

bem montado num animal nervoso e delgado.. tornei-me deveras escarlate. Um fulgor intenso passou nos olhos azuis da Angelina e um vivo rubor lhe coloriu as faces. Que diria a Catarina se soubesse a que fantasias romanescas se entregava o espírito mal orientado da filha?. minha senhora?. voltando despreocupada.. dos seus olhos brilhantes. quando falávamos... No entanto lembra-me agora da sua mal contida comoção. pensando assim nos habitantes do castelo. tinha uma certa compreensão da sua responsabilidade. a alguns passos de mira. do seu dever de dar o exemplo às pessoas que o rodeavam. E tanto assim que. até mesmo ante a idéia de que me iria tomar por uma menina ingênua. Parece estar bom? — Magnífico!. tal como outro dia. passei pelo castelo. Catarina chamou: — Vamos. Não são idéias que se possam ter!. cumprimentou-me com um gesto elegante e discreto... Quando passou.. no dia em que ele veio à herdade! E cada vez que se fala dele na sua presença” — lembrava-me agora também —. O senhor de Trézonnes parece que tem muito gosto e não olha a despesas quando uma coisa lhe agrada.. pensando.Não sei porquê. — Sim!... E o tempo?. Que loucura!. “os seus olhos tomam aquele mesmo fulgor e quase chega a ficar bonita”... Fitando-me com o seu habitual olhar desconfiado. quando pela estrada surgiu a silhueta dum cavaleiro. admirada: “Será possível que goste dele? Não!. Tem um aspecto imponente! — E por dentro é muito bonito. — Acabo de o encontrar.. Ao lado dele trotavam dois galgos de carreira.... não sei a que propósito. do senhor da Bottellerie. Não era interessante pensar como os ares desta região me punham tão nervosa e tão facilmente impressionável? Angelina passeava no pátio. vem ajudar-me um pouco! Afastou-se e eu dirigi-me para o meu quarto. tinha feito do castelão da Bottellerie uma idéia muito diferente... do seu servilismo.. é admiravelmente.... E saberia ele desta paixão vulgar de que era objecto? Dar-lhe-ia importância. ao mesmo tempo humilde e ousado. pequena!. destes grey hounds muito em voga.. apesar de muito empoadas. quando cheguei à Meulière. Vinha a passos curtos. segundo dizem!. Que insânia!. O que ele monta. Na verdade!. Depois acrescentou: — Não tem rival na nossa região! Da sala. inclinando a cabeça para lhe responder. em quem reconheci o senhor de Trézonnes. Caminhava... ou fingiria ignorá-la com desdém? Certa ocasião. de pêlo escuro. perguntou-me: — Então já deu o seu passeio.. Bardeaume dissera: — O senhor visconde é orgulhoso e inacessível. no entanto fiquei satisfeita em saber que. pelo menos. Senti-me por isso muito vexada. isso porém não impede que todas as mulheres .

enquanto introduzia a chave na fechadura.. Se o senhor de Trézonnes não lhe ligasse importância.. Mas se. muito terno. Pensei comigo: “Não. pensar em tornar-se sua esposa. O . Algumas esculturas.. devia ser um senhor exigente. aliás um magnífico modelo de homem. em parte deterioradas. tinha-me ficado a impressão dum olhar deveras dominador.. O que eu não sei é que coração é o dessas mulheres!. Deve ser um amigo muito bondoso. segundo a opinião geral? “Ah!. e o qual se deve tornar o meu confidente e o meu conselheiro . lentamente..se apaixonem por ele. ele se divertisse com aquela tolice?. Tinha-os visto mal.. escrava duma vontade que devia ser insuportável. esta loucura terminaria por ela própria e a lição seria proveitosa para a vaidade desta pobre pequena. para trabalhar. A mãe devia ignorá-los. É muito rico! Isso é verdade! — pensei de repente. E creio que também teria sofrido um pouco se tivesse desposado o doutor Borday. Neste momento recordei o seu rosto frio e altivo. ainda adormecido. que no fim de contas são iguais aos de todos nós!. que exaltava as suas infantis imaginações. Não deve querer saber nunca duma paixão que deve em absoluto desprezar”.. “Um marido deve ser outra coisa. este homem nunca terá a idéia de baixar os olhos.. Este homem. Há mulheres que encontrariam nessa riqueza uma compensação para todas as servidões.. Estremeci ao de leve. como poderia uma mulher.. Era um velho solar de paredes escuras. parecesse a estas humildes camponesas uma espécie de semi-deus.. Os seus olhos?. e mal poderia dizer como eram. fui à Sauvaie. Como seria desgraçada em semelhantes condições!. com aquela educação. sulcadas pelo emaranhado. a sua boca orgulhosa e a sua fisionomia cheia de distinção. das plantas trepadeiras. Enquanto a minha agulha ia e vinha. formavam festões em volta da porta de entrada. na semana seguinte. isto é.. pelo contrário. e por isso obriguei-as a desaparecer. Era natural que compreendesse muito bem que este elegante e orgulhoso senhor. muito mais forte e mais pensador do que eu. porque não teria sido para mim mais do que um delicado companheiro. dessa visão rápida.. desde as grandes senhoras de Paris até às nossas jovens camponesas — talvez por causa dos seus olhos.” Chegada a este ponto das minhas reflexões concluí que não passavam de infantilidades... pensava ainda em Angelina e na descoberta que acabava de fazer dos seus sentimentos com respeito ao castelão. que em breve a primavera viria cobrir de folhas e flores. inflexível — e bastante frio!.. um só instante que seja. se amasse. para esta vaidosa e pretensiosa camponesa. através do fino tecido. XI Não me esqueci do convite feito pelo senhor Rouchenne e. No entanto começava a pensar comigo. Todavia. Um pouco antes do jantar instalei-me no meu quarto.

É sempre um prazer quando se pode auxiliar uma jovem corajosa e boa como a senhora. Fico mesmo mal disposto. será difícil instalar algumas colmeias no meu jardim? — Óptima idéia!. onde o primeiro sol de Março já fazia surgir algumas esperanças de floração. minha senhora? Vou-lhe dar a provar o meu licor de framboesas. a Pierre Rouchenne. . em volta do corpo magro e mexido. que lhe salvara a vida. Ora. tive de súbito uma idéia. Orlados de buxos. Um belo fogo crepitava . as quais faziam parte do brazão dos Trézonnes. ao ver como se cria uma filha daquela maneira! É uma preguiçosa. estendiam-se os canteiros. Sentámo-nos próximo dum pequeno caramanchão rústico. minha senhora. Agradeci-lhe reconhecida este precioso auxílio. ao pensar que aquela jovem pertence a uma das melhores famílias aldeãs da nossa região. Vamos entrar. as quais é raro encontrarmos na vida. e em seguida mostrar-lhe-ei os bordados da minha falecida. artisticamente aparados. em tempos. minha senhora.senhor Rouchenne mostrou-mas. pois pareceu-me que estava ali uma fonte de trabalho e dalguns pequenos rendimentos. e troquei impressões com o ancião sobre o assunto que começava a interessar-me. — O tempo está a esfriar.. mas ainda esqueléticas. A Angelina de Bardeaume era incapaz duma coisa dessas. Após as guerras da Vendeia. Caminhava devagar. minha senhora. Passeámos pelas pequenas alamedas cobertas de seixos alvos. perto da horta. que se apresentava um pouco ensombrada. De facto a Sauvaie tinha sido. Segui-o para casa. uma vadia. pois o senhor Rouchenne era um apaixonado apicultor. Estou às suas ordens para todos os conselhos de que precisar. viam-se umas colmeias. Fico admirado. a residência dos criados e guardas da família. Quando a vejo com o rosto enfarinhado e uns berloques de saltimbanco nas orelhas. Ah! Se a avó soubesse disto! Falando assim. mas ele interrompeu-me: —Nada tem que me agradecer. porque uma nuvem carregada começava a interceptar o sol. Tudo isto ele me explicou. enquanto me mostrava o seu jardim. Ao fundo. que escorregavam sob os nossos pés. que exprimi em voz alta: — Senhor Rouchenne. Seria uma ocupação ao mesmo tempo interessante e lucrativa. fico arreliado para todo o resto do dia. juntamente com as terras que lhe pertenciam. e o vento fresco que vinha de leste arfava-lhe a blusa azul. enquanto me dava algumas explicações sobre a vida das abelhas. o visconde Henrique de Trézonnes tinha-a dado como presente. onde as pereiras bem podadas. Deu-me todos os esclarecimentos e ofereceu-se para me ir colocar as minhas primeiras colméias e orientar a minha inexperiência. se erguiam a intervalos regulares. o senhor Rouchenne suspirou e levantou-se lentamente. dizendo que representavam margaridas e espigas de trigo.

O quarto. estava um relógio dourado. sempre fechado. A cama estava coberta com uma colcha de seda verde. percorria o grande quarto. Provei-lhe o licor e em seguida subimos ao quarto da falecida senhora Rouchenne. estavam espalhadas por entre faianças rústicas. A pelúcia tinha tomado uma tonalidade arruivada e as cantoneiras haviam- . minha senhora. deformados pelo trabalho da terra. aquela que tinha traçado estes originais desenhos sobre o fino tecido de linho e tule. encaixadas no musgo duma jardineira de vime enegrecido. O tule tremia nos seus dedos. — Como isto é bonito! — exclamei eu. O meu olhar. onde se viam rimas de roupa branca. cheirava a bafio. umas conchas nacaradas cor-de-carne. com cantoneiras de prata — uma destas caixinhas de costura. era de facto uma hábil bordadeira.. Sobre um pedaço de tule. — Estão aqui os seus últimos bordados. na cômoda. como ainda havia no tempo da minha infância em todas as casas que tinham à venda objectos para presentes. afastou de sobre a cômoda alguns dos objectos que nela se encontravam e pousou o embrulho. Com o mesmo cuidado tirou do fundo da gaveta um embrulho comprido. E ele. Sim. onde se alinhavam. amarelecida pelo tempo. pequenos tapetes de fundo vermelho. sobre a qual estava uma delicada caixinha de pelúcia vermelha. como se ela estivesse ainda ali. vi uma mesa de acajú. que enublava os seus olhos calmos. levantavam com cuidado as camisas de linho. Na meia luz do ambiente notava-se um ligeiro frêmito. disse: — Foi o seu último bordado. O senhor Rouchenne abriu a janela. encimado por um globo. no seu amplo leito de nogueira envernizada. de soalho luzidio. no extremo do quarto. —É tudo novo — murmurou o ancião. entre dois candelabros de bronze. Junto da segunda janela. Na sua fisionomia transparecia uma expressão quase de triunfo.. as saias enfeitadas na barra com pequeninos laços. Os seus dedos. onde o velhote costumava habitualmente ficar. flores artificiais já velhas. a que estava fechada.no fogão da sala grande. Ergueu-se. Sobre o fogão. não teve tempo de a usar. e a mágoa do passado. cheio de comoção e simpatia. e os laços tinham a graça elegante dos laços lançados por um artista. envolto em papel de seda. empurrando uma das meias portas. e das galerias de nogueira caíam umas cortinas do mesmo tecido.. os que ela fez depois do nosso casamento. Não me atrevi a falar. para não perturbar as pungentes e ternas recordações que este tule evocava àquele coração angustiado. em seguida dirigiu-se para uma cômoda de velha nogueira. cobertos de flores e bordados com listas escuras. As grinaldas pareciam feitas de flores naturais. abriu o papel e disse: — Veja.. as hastes das fúcsias pareciam agitar-se e encher-se de seiva. — Morreu com vinte e seis anos. magros e calejados. e. repare que ainda nem está acabado. no seu rosto envelhecido. fotografias. numa meia voz. curvando-se. de espaço a espaço. introduziu a chave na fechadura duma das gavetas.

Seria pelo contacto das mãos?. a não ser ao senhor abade. que vinha vê-lo umas cinco ou seis vezes no ano. A senhora Mossette exclamou. onde transparece toda a sua alma. mesmo por momentos. como se se desculpasse. num tom meio sério. felicitou-me por ter conquistado a amizade do solitário da Sauvaie. com este bom senhor Rouchenne.. — Sem dúvida.. Escolha o que desejar copiar. dum soberbo relevo. porém se quiser vir copiá-lo aqui? — Não senhor. Não vá entusiasmar-se muito pelo nosso belo castelão. São sempre gratas recordações. Vi que era sincero. mas vivia retirado. Conservava na mão o pedaço de tule. pelo qual o meu olhar era involuntariamente atraído. não me atreveria a vir incomodá-lo assim! — Pelo contrário. ou o próprio tempo encarregara-se de lhe roubar a frescura? A voz do ancião. como todas as pequenas das redondezas! Enrubesci — o que não pôde ser notado pelos pobres olhos da velha senhora — e respondi.. porque não terei ocasião de o ver. O senhor Rouchenne vivia em boa harmonia com todos os moradores da região... no céu. porque são na verdade bonitos. Reflecti em voz alta: — Não posso compreender as relações do senhor de Trézonnes.. minha querida menina!. Ficou combinado que voltaria. Isso leva-me a ter uma certa estima pelo senhor de Trézonnes. ao senhor de Trézonnes. Com ternura. a quem fui visitar no dia seguinte. sentir-me-ei feliz se quiser aceitar. à minha pobre Madalena. que o estimavam e admiravam. minha senhora. e não abria de muito boa vontade as suas portas a quem quer que fosse. O reconhecimento não é coisa tão vulgar.se tornado da cor do cobre. — No entanto visita-o muitas vezes. que havia simpatizado deveras comigo. sem dúvida.. e a um velho amigo. e por isso não protestei mais. para copiar alguns dos bordados de Madalena Rouchenne. sempre tão altivo. O visconde seguiu os seus conselhos. e teria pena em me separar dele. que foi sempre muito prestável. a sorrir: — Oh! não tenha receio! Primeiro. olhos francos. quando começou ele próprio a administrar os seus domínios. Porém não me atreveria. A senhora Mossette.. acrescentou: — Só tenho este. depois. Gosto dos seus olhos. porque não . copiar alguns destes desenhos? — Agradava. que não tenhamos de o admirar quando o encontramos no nosso caminho. o trabalho incompleto. dar-me-á um grande prazer — respondeu com simplicidade. quando me conviesse.. — E bem gratas!. Seria por que ela não tivera tempo de a usar. e não se esqueceu disto. perguntou-me: — Talvez lhe agradasse.. meio alegre: — Cuidado. e tenho a certeza de que isto agradará. sempre lenta e grave. o que mostra a existência dum bom predicado. No entanto à menina permito-lhe isso.

ante a reserva desdenhosa do senhor de Trézonnes. Nada foi assinado. outro tanto a receber mais tarde. se me visse ler.. Bardeaume. vinha envenenar essa suposta ferida. A Angelina mostrava-se contrariada. Sou capaz de crer que um rapaz sério não prestará atenção àquela cabeça de vento. Terá apenas que abrir a cancela. notei que o rosto se lhe iluminou. que talvez a maltrate e a abandone. Em todo o caso tenho pena do meu lindo prado. por exemplo. Bardeaume. ainda é tempo. — Nada a impede de lá ir. e dentro de quinze dias aquilo será uma delícia.. Mas isso não tem importância. desposando um operário qualquer da cidade. depois dalgumas considerações preliminares. muito bem dotada.. menina Gillette. Falava muito bem. mas a qualquer outro. em que me comunicava. XII Na semana seguinte recebi uma carta da senhora Barduzac. e não encontrará ninguém que a incomode. não. talvez. — Não. na situação em que me . onde ainda ontem mesmo passei. esta carta. bem sei. não só àquele. Ao terminar a sua carta. onde a Catarina se preparava para nos servir o almoço. abanando a cabeça.. na sala da herdade. — Sim. O doutor vive radiante”. E contei-lhe que supunha a minha irmã colaça apaixonada pelo castelão. sem o mais leve abalo. como achar mais interessante. — Mas. e. conforme revelou. Ficaria convencida de que perdia o seu tempo.sou assim tão impressionável como as nossas boas aldeãs — como a Angelina. — Está bem. Supunha. A senhora Mossette encolheu os ombros: — Pobre tola!. “caridosamente”. ao comunicar-me a realização da venda. não seria razoável. Com certeza não teria sido infeliz junto dele — mas talvez também não fosse muito feliz”. dotado duma inteligência mediana e um pouco culto—mas dum caracter banal. Foi um casamento perfeito sob todos os pontos de vista. o casamento do doutor Borday com a filha dum viticultor charantês — “trezentos mil francos de dote. não era mau rapaz. todavia. — A menina precisa ir qualquer dia destes ao notário. Mas já não será “o meu prado” — disse eu. se quiser. que tinha trazido de Largillais uma ferida incurável. para assinar a escritura — acrescentou ele. Os rebentos verdes já começam a aparecer nos ramos. sem sentir o menor abalo. E ela consolar-se-á. a senhora Barduzac não deixava de me criticar a respeito do pedido que noutros tempos recusara. quando o pai pronunciou o nome do senhor de Trézonnes. muitíssimo cativante e um tio bem relacionado. "Digo com sinceridade que não o lamento. conforme o seu habitual costume. segundo me pareceu. "Tanto melhor para ele" — pensei comigo.

e o cobre dum castiçal. preguiçosamente. aproximou de mim uma pequena mesa e foi buscar o bordado. de paredes cobertas duma pintura escura. e sobre a qual a luz forte do fogão projectava móveis claridades. O senhor Rouchenne fez-me sentar numa poltrona. invejoso e desconfiado. dispostos na panóplia. Tive esta idéia ao vê-lo oferecer-me aquele preço.encontro. o senhor . e quem sabe se encontrarei amanhã. acrescentou: — . muitos dos quais tinham tido por cenário S. A estas palavras notei que o olhar da Angelina me fitava um pouco de lado. senhor Rouchenne. um gato cinzento. o cano duma espingarda. e cujo perfume discreto se espalhava em volta de nós. e quase deixei cair o tule que tinha nas mãos. Está muito bem pago.. O senhor diz que a venda é vantajosa. saindo aos bocados. A ironia espicaçou-me. quem me dê tanto por ele. — É bem possível que não. Este Bardeaume tinha às vezes idéias bem estranhas! Aquela tarde fui de novo a casa do senhor Rouchenne. no tépido ambiente da ampla sala.. talvez. Um retinir de campainha anunciou que alguém abria a cancela do jardim. Perto de mim. e foi com uma pontinha de impaciência que objectei: — Segundo o que ouvi dizer do senhor visconde.. minha senhora! Não nos incomoda nada. iamos falando da localidade e dos seus moradores. que eu nunca me atreveria a pedir-lhe. Diante do fogão dormia. O frio era penetrante e o tempo estava carregado. — O senhor de Trézonnes! — balbuciei. Suporia. sobre a mesinha. em ser notada pelo castelão?. Está-me parecendo que o senhor visconde não teria sido tão liberal se o prado fosse do tio Bardeaume. mesmo porque o prado não é assim muito grande. Senti um ligeiro estremecimento. o senhor Rouchenne colocara uma pequena jarra de faiança com as primeiras violetas do seu jardim. E com um risinho de ironia. Enquanto trabalhava. a um canto. encontrei porém na sala um belo fogo de carvalho. quando o quiser vender. Sentia-me bem naquela velha sala de teto enfurnado.. cujo desenho eu queria copiar... pendurada entre dois azouagues de caça. ensombrada devido à luz indecisa da tarde. em vez de pertencer a uma linda menina da sua categoria. com listas escuras.. Voltarei em qualquer outro dia. — Isso não sei. À meia luz do ambiente cintilavam os metais dum armário. O senhor Rouchenne contou-me alguns episódios das guerras da Vendeia.. João da Bottellerie e seus arredores. — Que idéia. que precedia a casa. O senhor Rouchenne inclinou a cabeça. não creio que ligue importância a coisas desse gênero. que me preocupava. — Então vou deixá-lo. Com uma certa ironia desviei o meu. Um passo firme fez ranger os seixos do passeio. como ela. escutou com atenção e disse com calma: — É o senhor de Trézonnes.

O senhor Rouchenne abanou a cabeça: — Talvez!. meu velho amigo”. o senhor de Trézonnes falou dos progressos da agricultura e dos melhoramentos que era necessário ainda introduzir. É um belo exemplo para a nossa mocidade feminina. Quando .. As palavras sairam-lhe friamente dos lábios irônicos. cujos movimentos deviam ser firmes. — Agrada-lhe a nossa província. que se juntavam ao encanto da sua inteligente conversa. Levantou-se e encaminhou-se para a porta. como de costume.. Está copiando um bordado da minha falecida. A sua voz. Notava-se nele a plenitude duma inteligência bastante culta. Inclinou-se e segurou um dos cantos do tule. compridas e nervosas. Talvez!. E o desenho parece muito bonito. surgindo logo o senhor de Trézonnes. antes de abandonarem a província. ainda atrevida — o que já não é pouco. como vê. apesar dumas notas breves. e o senhor de Trézonnes tomou a poltrona que o senhor Rouchenne lhe ofereceu. e os pais já não têm autoridade para as segurar. Oh! desolação!.. Além de tola.. que já lhe tinha notado. teve um ligeiro movimento de surpresa. um tanto altiva. coitados!.. que o rubor das minhas faces acentuou-se. mais por ela. com um breve: “Bom dia. que uma vigorosa mão acabava de abrir. Tentei desviar os meus olhos.visconde vem apenas fazer-me uma visitinha. inclinando-se com aquela cortesia. Olhe os Bardeaumes como educaram a filha! — Não os felicito por isso. abordando questões literárias. minha senhora? — Muito. cheia de reflexão e já de experiência. — Estou vendo. O ancião explicou com voz calma: — A menina de Arbiers quis dar-me a honra de visitar um velho como eu. Ao ver-me. aqui presente. Em seguida o tule recaiu nos meus joelhos. Senti. uma tão grande confusão... Notei-lhe as belas mãos. talvez reflectissem muito mais. Senti um levíssimo perfume. senhor Gui. e que esta devia ter imaginado qualquer ridículo e humilhante processo de galanteio para lhos dar a entender. mas o olhar profundo e frio do visconde prendia-os. e em seguida dirigiu-se para mim.. Logo o maldito rubor me subiu de novo às faces. Se elas vissem muitas senhoras da nossa melhor sociedade deixar a cidade para se entregarem à vida do campo. apertou a mão do senhor Rouchenne.. tinha inflexões agradáveis. senhor visconde! — Parece-me que se está tornando uma perfeita lavradeira? Ri com certo embaraço e perguntei: — Quem lho disse? — O seu administrador e também o nosso amigo. que não por mim. Enquanto o senhor Rouchenne fazia o café.. despida de qualquer pedantismo. compreendi que não ignorava os sentimentos da Angelina. Em seguida passou à história da Vendeia. A cidade fascina-as. Permita-me que a felicite por essa iniciativa.. ao pé do fogo. e não temos segredos a contar. mais próximo e subtil que o das flores que estavam na mesa. na minha frente.. rápidos e autoritários.

no qual peguei com mão trêmula... estão muito bem. aqueles olhos cuja cor ignorava. Como?. O senhor de Trézonnes.. Já está escurecendo bastante. e então supunha-os cheios duma fulva claridade. empolgava cada vez mais!.. senhor de Rouchenne!. tirou com cuidado da jarra as violetas. cada vez que se fixavam em mim.. não podia pronunciar-me. entregou-me o pequeno ramo. — Leve estas violetas. que mo entregará no nosso próximo encontro. Hão-de recordar-lhe a primavera. Acedendo ao desejo expresso com cortesia pelo senhor de Trézonnes... profunda. retomei o traçado do meu desenho. — Obrigada. Isso não tem a menor importância. e dar-lhe-ão a impressão de que estará vendo o sol. foi para a mesa. com passos rápidos e vivos. Fazendo de conta que não me ouviu. senhor.. e vou caminhar depressa até à Meulière. guardados na outra extremidade da sala. Contudo o trabalho pouco se adiantava. E empolgava. envoltas neste papel. dum vermelho escuro. descruzando os braços. duro e impassível. tirou do bolso pequeno do casaco um lencinho de seda azul. Tinha-se também levantado e encostara-se ao fogão.. enquanto ia conversando. . O senhor Rouchenne.. foi buscar o meu chapéu e o casaco. um como que clarão de vida concentrada. com os braços cruzados sobre o peito. e portanto acabei por dizer: — Se mo permite. — É inútil incomodar-se. — Olhe que está fazendo um frio que penetra os ossos. mas o mais breve possível. Amanhã mando-lhe o lenço. visto as minhas mãos não manterem a firmeza habitual. se estava bem agasalhada. — Oh! Não se preocupe! Quando voltar aqui pode dá-lo ao senhor Rouchenne. Castanhos? Verdes? Escuros?. com paternal solicitude. Vou levá-las como estão. Estou com bastante calor.... vou buscar um lenço para lhes embrulhar os pés.. e envolveu-lhes no lenço as hastes molhadas. porque ainda estão todos molhados. voltarei outro dia para terminar. Havia neles. E se tomasse ainda uma chàvenazinha de café bem quente? — Oh! Muito obrigada. e por isso me perturbavam. senhor Rouchenne.assim falava. iluminado por uma espécie de chama dominadora. — Sim. Protestei logo: — Obrigada. enquanto o rosto.. Feito isso. contudo. o tempo está escuro. ficava frio. de lábios fortes.. Volte quando lhe aprouver. Levantei-me e guardei o tule bordado. o seu olhar animava-se. minha senhora. senhor. Não. Espere. porque sentia que o senhor de Trézonnes me observava... perguntando-me. de quando em quando.. incertos. violenta.. Os meus movimentos eram nervosos.. Sinto-me sempre muito feliz quando a vejo. pelo caminho. Ou eram as tolas idéias de Bardeaume que me voltavam ao espírito. Estaria eu louca?. nervoso e viril...

que então se encontrava em gozo de licença. a secretária de pau-rosa. tomando o caminho da Meulière. Da parede pendiam fotografias dos meus antepassados. Foi ali que eu coloquei os móveis que não couberam no meu quarto: uns aparadores. tinha colocado as cortinas de seda amarela. naquela fisionomia forte que acabava de ter observado durante mais de meia hora. Já evitava aspirá-lo. com um andar apressado. Assim. Nas paredes da casa desabrochavam as rosas.. sem saber bem ao certo se era o das flores. exercia sobre as almas femininas. auxiliado pelo irmão. Que perfume tão estranho? Era delicioso. fizeram questão em me acompanharem até à cancela. Eu mesma. encaixada no forro de madeira da parede.. onde a chama do fogão projectava largos raios de luz sobre um belo rosto de homem. O bom rapaz. que Tiago Bardeaume tinha arranjado para minha distracçâo. os lírios e os goivos se desfaziam em suaves perfumes. apesar dos meus protestos. Apertei ainda a mão ao senhor Rouchenne e respondi ao cumprimento do senhor de Trézonnes. voltando a cada instante à sala escura. por ocasião da Páscoa.. junto à porta de vidro da minha pequenina sala de visitas. fazendo tenção de não me esquecer de o levar.Os dois. enquanto nos canteiros. nas janelas. de olhos dominadores e duma energia serena. Como estas violetas tinham um cheiro forte!. De súbito apoiei a cabeça e perguntando com inquietude: “Mas. talvez pudesse ter sucumbido. o pequeno sofá e a mesa com incrustações de cobre. por ocasião da minha próxima visita à Sauvaie. . orgulhosa e concentrada. e com ele toda a região se cobrira duma encantadora verdura. nas palavras que trocámos. um tanto desbotadas. daquela bela verdura do começo do verão.. desde que começou o verão. Com o auxílio do Tiago. apressei-me a tirar as violetas do lenço. A cada instante lhes aspirava o perfume. mesmo sem querer. onde me instalei para trabalhar.. Sentei-me depois à mesa de trabalho. afinal. que dobrei e guardei num canto do meu guarda-vestidos. que o sol ainda não tivera tempo de crestar. mas o meu pensamento estava obcecado.. sentado na minha frente — e que pudera desta vez examinar à minha vontade. Quando cheguei a casa. ou o outro.. separadas por uma vidraça que se tornara esverdeada. por que foi que este homem me deitou um mau olhado. Compreendi então a sedução que o senhor de Trézonnes. tinha uma discreta e encantadora sala de visitas. E pensava neste encontro. com umas riscas azuis-claras. o perfume discreto e subtil do lencinho azul. porque me subia ao cérebro. se não tivesse sido prevenida. tinha restaurado a pintura das paredes. prestável e habilidoso.. pois.. como dizem as nossas camponesas?” XIII Junho chegara. mas um pouco inebriante. encerado o soalho e colocado um vidro quebrado.

prometendo a mim mesma não ser tão ingênua para a próxima vez. sempre cortês e até mesmo amável. e não deixar transparecer o mal estar perturbador. tratava das colméias que o proprietário da Sauvaie tinha vindo instalar no meu jardim. — Eu. que sente com extrema mágoa o vácuo deixado pela ausência de qualquer afeição familiar. em cada uma delas sofria uma igual influência daquele olhar dominador e muito belo. ia passar as tardes a casa da senhora Mossette ou do senhor Rouchenne. ou então na sala fresca. mesmo depois de deixar a Sauvaie. não me tomava todo o tempo. a quem tinham agradado os modelos enviados. e ele. e para isso inspirava-me nas flores e nas folhagens que via à minha volta. que estendia a sua sombra diante da casa. Procurava desenhos novos. Eu deixava-a transparecer nas minhas atenções filiais para com ele. todo embalsamado dos perfumes das tílias. Todavia. mas nunca mau ou irônico. Este trabalho. sabia mostrar-me. que nos aquecem um pouco e parecem interessar-se por um velho como eu!” — Não parecem interessar-se. pela sua velha casa e pelo seu jardim florido. senhor Rouchenne. por ter acolhido com a sua paternal bondade uma órfã. ao meio dia. apesar do seu caracter reflexivo. pois o senhor Rouchenne era bem disposto e tinha um espírito delicado. confiante e indestrutível. na Sauvaie. onde. com a compreensão própria duma verdadeira bondade. Encontrei o senhor de Trézonnes por quatro vezes. mas sem o tornar meigo. haviam-me chegado algumas encomendas. continuava a ir junto da Catarina completar a minha educação de perfeita lavradeira e dona de casa. como se fosse sua própria filha. no fundo da nossa alma. discreto e prestável. o sol já não dava. ‘Quanto é bom chegarmos ao fim da vida e termos junto de nós um belo sorriso de juventude. porém. interessam-se de verdade — respondilhe eu. é que tenho a obrigação de lhe ser sempre reconhecida. não poucas vezes também. o esplendor duns tão lindos olhos. às vezes alegremente. cor da terra cota. Em qualquer das duas era sempre bem recebida e dispensavam-me uma afectuosa simpatia. ainda me acompanhava. As longas temporadas no campo não lhe tinham prejudicado as suas maneiras de homem da sociedade. como se estivesse só com o senhor Rouchenne. e. por vezes brincalhão. e agora das rosas. apertando-lhe a mão enrugada. no entanto. que não manifestávamos por palavras. O senhor de Trézonnes não era alegre. a comoção receosa que sentia sempre na sua presença e que. A minha predilecção. que um raro sorriso por vezes iluminava. Ia bordar para junto dele. discretamente.Da casa de bordados. Assim. dia a dia. Falando com ele sobre literatura. Irritava-me com esta inquietação. Palestrávamos sobre tudo. que me tornava cada vez mais querida ao seu coração. a dentro da sua frieza. era por ele. procurava tornar-me natural. “A menina é uma flor na minha vida” — costumava ele dizer-me.. mas que ambos sentíamos. mais se estreitava esta amizade.. pelo meu velho amigo. falava da vida e das suas . sob um grande castanheiro. dos jasmins.

sentia-se porém entre eles. para levar os bolos para o forno. que ela fazia melhor do que nenhuma das outras lavradeiras das redondezas. acrescentou: — É um homem que não conhecemos. pareciam unidos por uma amizade indestrutível e muda. Estava a acabar o meu serviço quando a filha do padeiro passou. depois. todos se prepararam com antecipação. após a saída do castelão. de bondoso e verdadeiro. João caiu naquele ano num domingo. quando me encontrava só com o senhor Rouchenne. não se tinha mostrado expansiva. com a amarga ironia de quem provou de tudo e só encontrou desilusões no seu caminho. Tendo depois o bom abade verificado que a minha voz era agradável e bem timbrada. tratando-o como a um igual. repetindo.. pelo menos diante de mim. muito. onde uma afeição circunspecta se revelava cheia de respeito. fui quase forçada a aceitar a incumbência de cantar um solo na missa cantada e nas vésperas. Catarina. A aparência nele nada revela. é muito superior a todos os que me mandam os meus caseiros". ensinara-me a fazer essa espécie de bolos folhados. ainda há no mundo qualquer coisa de bom. E depois dum breve momento de silêncio. em casa de cada lavrador. Um dia. e por isso não me admirei de que deixasse sem uma resposta mais minuciosa a reflexão que acabava de lhe fazer. O senhor Rouchenne dizia num tom de censura discreta: — Nem tudo está perdido. Todavia. A festa de S. um pouco grandes. todos estavam atarefados em fazer os doces para a festa. via-se no olhar do velho. porque o senhor está no mundo. — Parece-me bastante autoritário e áspero. mas deliciosos. e eu fui convidada pelo abade para aumentar o coro das cantoras. algum tempo antes. e nas maneiras atentas e delicadas do visconde. pensativo: — Ninguém o conhece. Estes dois homens. O senhor Rouchenne falava muito pouco de quem quer que fosse. ofereci-me para bater a massa. um tanto orgulhosa. Dois dias antes. na educação e no feitio. Como tivesse uma queimadura na mão e a Angelina estivesse num dos seus períodos de mau humor — estado que se lhe tornou quase normal —. concluí que talvez não tivesse nenhuma objecção razoável a fazer. fiz muitos bolos de diversos tamanhos. Havia-os para os vizinhos. O castelão respondia: — Sim. perguntei-lhe: — Gosta muito do senhor de Trézonnes? — Sim. que vinha visitar este solitário. pois que. João não como outro bolo que não seja o da Meulière.manifestações diversas com um cepticismo um tanto áspero. contou-me que o senhor de Trézonnes dissera certa vez: “No dia de S. Catarina. Como a festa era a do padroeiro da localidade. O velho meneou a cabeça. seguindo as instruções da Catarina. tão diferentes na aparência. Entreguei-lhos e fui lavar as mãos enfarinhadas . para os amigos.. e um deles era destinado ao castelo. senhor Gui.

— Que pena!— exclamou a Catarina. O coro. Pode-se dar o caso de alguém quebrar um dente ou mesmo engulir o anel. as vozes e a música do pequeno órgão. devido ao calor da tempestade. Catarina. nada tem a recear. enquanto batia a massa. com certeza lho entregarão. que ameaçava. Combinado isto... a repetir as mesmas passagens. e como são todos pessoas honestas. atendeu às observações que lhe fez o organista e abrandou a expressão da voz. devia ter-me escorregado do dedo. exclamou. na cidade. De súbito tive uma exclamação: — Perdi o meu anel! Era um pequenino aro de ouro. Catarina. não eras capaz de fazer um assim. pensei: “Parece-me que estou mais bonita”. durante duas horas. onde ia realizarse o penúltimo ensaio. Pela primeira vez. — Tem razão. tudo correu bem. na atmosfera penumbrosa da igreja.. Após algumas buscas minuciosas na sala. depois daquele célebre dia. Estimava-a muito por ter pertencido a minha mãe. O Bardeaume. facilmente se encontrará. e aos castelões. A menina Brunet.numa vasilha cheia de água. achei-me um tanto diferente do ano anterior. as suas melhores auxiliares. fui-me vestir e dirigi-me para a igreja. tendome esquecido de o tirar. um pouco magro. Se foi nalgum bolo. — Em todo o caso será melhor avisar. como em geral costumava fazer nestes trabalhos de cozinha. quando entrei na sala onde me esperava. Os meus bolos vão para a mesa dos fidalgos. para lhe fazerem este vestido que tem no corpo. esfregando as mãos. voltei a vestir o meu vestido azul claro. E como está bem feito!. Angelina!. tornou-se evidente que. filha do escrivão. e o abade. e que . Cheguei tarde nesse dia e um tanto fatigada.. declarou. avisará o mordomo. que mais parece do carnaval! Catarina referia-se ao vestido de seda corai que a filha trazia. que tivemos de pagar oitenta francos do feitio. Imagine. juntando as mãos: — Como está bonita. que tinham mandado flores magníficas para a decoração da igreja. pela primeira vez. que apareceu para julgar do efeito. menina Gillette. Quanto ao castelo. a cabeça tornou-se-me pesada por ter respirado o aroma de todas aquelas flores e escutado. — Mas não se arrelie por causa disso. Enfim. que a festa ia ser muito linda. no dia seguinte. Vou prevenir as casas onde levar os bolos. o senhor visconde manda-o cá. quando for levar o bolo. menina. O trabalho de limpar e ornar a igreja ficou igualmente a nosso cargo. contudo não podia dizer ao certo o que tinha mudado na minha fisionomia. graças a nós. Se o anel lá estiver. Olhando-me porém ao espelho. menina Gillette! Nem é bom dizer! Esse vestido é da cor do céu de hoje!. jóia bastante simples e a única que usava habitualmente... menina. na companhia da filha. Com certa comoção. Vês. e naturalmente encontrava-se num dos bolos levados pela filha do padeiro. ornado de pérolas e duma turquesa. cantou regularmente.

Suspirou. de cor amarelo-gema.. depois de terem passado pelas tesouras do cabeleireiro—desapareciam por completo sob uma espécie de chapéu de palha. De passagem. desci do coro e fui ter com os Bardeaume. quando lhe digo qualquer coisa. comovido: — Oh! Como cantou bem!.. minha senhora.. — Ainda se ri de mim. Saio já.. Seria talvez por isso que cantei com mais fervor naquela manhã. e . menina! — murmurou a Catarina com os olhos cheios de lágrimas. por essa infeliz Angelina. — Minha madrasta e minha irmã ficaram encantadas. Terminada a missa. saiu... saindo todos em grupo. Pobre Catarina. de espáduas fortes e cabeça altiva. um tanto colérica: — Estive quase para lhe dizer que me envergonhava de a ver com aquela roupa.tão mal lhe ficava. Agora já é muito tarde para a educar!.. Isto serão modos para uma jovem como a Angelina? O pai ainda não a viu com estes enfeites... que lhe comprimiam incòmodamente os pés e a obrigavam a dobrar os joelhos. Dizendo isto. Quando sai. Um terrível olhar de ódio me fitou.. onde me encontrava com as companheiras. que estavam ao pé da tribuna. Não preciso de ninguém.. ao caminhar. se as incomodo!. que não conhecia. Vá amanhã ver-me. dizendo-me. Mas por que não lhe proibiu que se vestisse assim? — Porque não adiantaria nada. Será possível!?.. Angelina interrompeu-a com um gesto de concentrado furor: — Está bem!. mas ela. vi que o senhor de Trézonnes se destacou também do seu grupo e veio ao meu encontro. que apenas lhe deixava ver o nariz.. O seu andar. próximo do coro.. muito baixo. pois quero dar-lhe os parabéns. Já é muito tarde!. e ao lado delas uma alta silhueta. sem conhecer a razão destes estados de alma.. Os cabelos louros — pelo menos o que deles restava. mas garanto-lhe que vai ficar bastante aborrecido! — E terá razão. e os lábios coloridos com um pavoroso vermelho avinhado.. Que irão dizer na aldeia?. o senhor Rouchenne apertou-me a mão. Outras pessoas vieram ter comigo para me apresentarem as suas felicitações.. que procurava colher na alma da filha o que não tinha ali semeado! Esta breve cena comoveu-me e entristeceu-me. tornava-se grotesco devido aos altos facões dos sapatos delgados.. O canto é uma prece e eu sentia necessidade de rezar pela Catarina. inquieta. enxugando as lágrimas.. A família Trézonnes estava no seu banco. o pórtico da igreja. enquanto a mãe prosseguia.. chegando a esquecer-me em absoluto da assistência que enchia a igreja!. por mim mesma. Catarina soluçou: — Oh! "Será possível uma coisa destas?. Da pequena tribuna. bastante antipático. Ao lado do castelão estava um outro cavalheiro. observava estas senhoras sempre tão elegantes. bastante empoado. que me sentia por vezes perturbada.. pois com dificuldade podia manter o equilíbrio...

que parecia satisfeita e entusiasmada. enquanto a senhora Trézonnes e a filha se dirijiam já para mim. Quer dar-me a honra de a apresentar? Balbuciei um ligeiro agradecimento.. A menina de Trézonnes. mas todos os seus atractivos desapareciam ante a forte e altiva beleza do irmão. agora que tinha sido notada por tanta gente e convidada a ir ao castelo.. bem como os outros castelões da vizinhança. Em compensação pareceu-me muitíssimo menos orgulhoso. peço-lhe que insista.. em gozo de licença.. Uma vez na semana. A menina de Trézonnes disse com voz suplicante: — Oh! Gui. Mostraram-se muito amáveis.. porque sei quanto está sempre ocupada e receio ser indiscreto. Paulo de Trézonnes. mesmo quando trabalha como uma lavradeira. que me esperavam mais adiante. Seria tão interessante! Procurei desculpar-me. mesmo assim!. pois o seu olhar era meigo e as suas maneiras bastante delicadas. que acabamos de admirar.. Dar-me-ia o maior prazer se quisesse algumas vezes cantar comigo!.. Estes bons amigos transmitiram-me todos os elogios que tinham ouvido a meu respeito. A viscondessa apresentou-me o seu filho. respondendo assim à muda interrogação da senhora de Trézonnes: — Certamente. Promete ir algumas vezes?. Além disso tenho tanto . para convalescer duma pneumonia. — Assim mesmo vou sentir-me atrapalhada. e creio que passaram a considerar-me uma figura da mais alta importância. consultando com um olhar respeitoso e tímido o enteado. por exemplo? Como já não me era possível recusar.. Tenho uma infinidade de lindos duetos. tinha nos olhos uma expressão vaga.. — Belo. Estou certa de que não vai ficar embaraçada naqueles belos salões. Não conheço estas senhoras e devemos ter gostos pouco comuns.. pareciam visivelmente orgulhosos com isso. na Bottellerie. exclamou num tom de súplica: — Oh! minha senhora. — A menina tem as maneiras duma princesinha. mas a senhora de Trézonnes confirmou o pedido da filha.por isso desejam conhecer a possuidora duma tão bela voz. porém não me atrevo a insistir. apresentaramme os seus melhores cumprimentos. Ficaremos muito gratos e encantados se a senhora de Arbiers quiser dar-nos a honra de nos deliciar com a sua voz. menina Gillette!. Era um rapaz bastante simpático. enquanto disse.. Está no seu elemento! — concluiu Catarina. oficial de caçadores. ficou combinado que iria na quinta-feira seguinte passar uma parte da tarde à Bottellerie. A senhora de Arbiers deve ter com certeza alguns minutos!. perfilado junto dela. Neste momento voltou-os para mim. que já lhe havia notado na Sauvaie. na ocasião em que eu saía da igreja. Depois disso despedi-me dos castelões e fui juntar-me aos Bardeaume. Até então parecera estranho às palavras trocadas a seu lado.. que conversavam com elas.

que lhe há-de ficar de lembrança!" Todas estas legítimas indignações tinham a desvantagem de surgirem muito tarde. A senhora Mossette. e este breve descanso. menina Gillette.. Catarina disse-me que o marido tinha censurado a Angelina por causa do vestido e das suas maneiras. a sua inconsciente vaidade por terem uma filha que usava vestidos iguais às meninas elegantes da cidade. e talvez algum cavalheiro muito delicado que a queira para esposa. depois deste dia tempestuoso. Após o jantar. Atravessei o pátio e dirigi-me para o pomar das macieiras. — Nesses casos são sempre casamentos detestáveis. continuando na sua obstinação. a fim de cantar as vésperas. abanou a cabeça e disse baixinho com ela: "A menina Gillette não é daquelas que têm de ficar para tia". A quinta estava deserta.. A assistência era menos numerosa e não estava ninguém do castelo. a sua queda moral e o afrouxar das suas idéias religiosas produziam este triste resultado. Quem diria que a minha Angelina se tornaria assim tão má! Procurei consolá-la. A fraqueza dos pais. Ainda estava quente. â saída. Às três horas voltei para a igreja. Estava fatigada. Encolhi os ombros com um risinho forçado.que fazer!. por vezes sem amizade até. — Não penso no impossível. Entre as árvores corria uma leve aragem. na Angelina e na visita que devia fazer à Bottellerie. a tomar um cálice de licor. mas sem o conseguir. entre duas macieiras. quando um cão ladrou no . dou-lhe com uma correia. Na nossa terra as jovens pobres não se casam. Espero em Deus que não me suceda assim! Catarina. naquela calmaria da quinta. minha senhora. Dão a beleza em troca da fortuna. que dizia: "Se a vejo de novo com a cara pintada. quando são bonitas. só me podia ser favorável.. Não havia dez minutos que ali estava. levou-me para casa dela. pensando na pobre Catarina. — Isso vai descansá-la e distraí-la. Então a Catarina colocara-se entre os dois e arrastara o marido para fora do quarto. Todos os Bardeaume — salvo a Angelina. prometendo acalmar o Bardeaume. E depois irá conhecer outras pessoas da sua classe. e gritava-nos: "Verão! Verão se me deixo dominar! Vestirei os vestidos que quiser e não têm nada com isso!" Que desgraça!. — Algumas vezes. que estava talvez metida no quarto — tinham ido passar a tarde a casa dos amigos e o criado tinha tido também licença para sair. minha boa Catarina. e como o pai lhe batesse. Ela respondera-lhe com insolência. em seguida voltei com todos os vagares para o meu quarto. Angelina tinha entrado antes de nós. tão culpados como infelizes. Catarina tinha os olhos vermelhos e Bardeaume procurava. erguera também a mão para ele. que hoje fazia desesperar os pobres Bardeaume. Ao almoço não apareceu. — Estava como louca. parecer alegre. mas sentia-me bem. e casam sem amor. com uma pequena dor de cabeça. Tirei o chapéu e sentei-me num velho banco..

visto estar de costas voltadas para a entrada. que me observavam. enquanto batia a massa. dizendo com certa vivacidade: — Minha senhora. exclamei: — Oh! sim! é o meu anel! — Então não me enganei.. Pensei de súbito: "Se é algum vagabundo?" E assaltaram-me o espírito os contos terríveis que conhecia. Tinha a impressão de que não poderia mais levantar-me. Parecia-me ter visto esta jóia nos seus dedos.. Pensei: "A casa está fechada e a Angelina está lá.. e lancei um olhar inquieto sobre o recém-chegado.. A tépida claridade incidia ainda sobre os seus cabelos castanhos.. na paz deliciosa deste fim de dia. Cheia de surpresa. Levantei-me. quando a encontrei no bolo da Meulière. meteu os dedos no pequeno bolso do casaco e tirou um anel de ouro. Mas não sou medrosa. como é natural. E deixei-me ficar. isto é. porque o senhor de Trézonnes interrompeu-se.. fazendo ruído com a corrente. vencer a curta distância que me separava do meu quarto. pensei logo que a senhora a tinha deixado cair na massa. — De facto é uma imprudência estar aqui sozinha. coisa que até então nunca lhe tinha notado. Porém ouvi uns passos sobre a grama do canteiro. sem bem pensar no que dizia. Depois dum dia fatigante. Estava escarlate e sentia uma terrível confusão invadir-me o espírito. — Minha senhora.. Que vá ver quem é". receio ter-lhe causado qualquer susto! — Não. continuando a avançar. porque no olhar do senhor de Trézonnes pareceu-me ver cintilar uma vislumbre de ironia. Mantinha-me de pé. Descobriu-se.quinteiro. que eram um pouco compridos e ondulavam ao de leve.. queira-me desculpar. atrás do banco. era-me benéfica esta espécie de bem estar que experimentava. atrás de mim. Venho entregar-lhe um objecto que me parece. repliquei-lhe: — Realmente caiu-me do dedo. com os braços estendidos ao longo do corpo. O meu coração continuava oprimido. Passou entre as duas macieiras e parou na minha frente. Procurando conter o trêmulo da voz... mas um ligeiro estremecimento percorreu-me o corpo — com certeza um efeito retrospectivo da comoção que acabava de ter experimentado. À luz do poente vi a altiva fisionomia do senhor de Trézonnes e os seus olhos autoritários. devido ao susto do minuto anterior.. E pensava: “Porque está ele aqui? Que virá aqui fazer?” — Lamento ter sido a causa desse receio.. quando ouvi passos atrás de mim. Esta idéia surgiu-me de repente... e o receio. ignorava no entanto em qual . — murmurei. devia estar ainda reflectido nos meus olhos.. o que apenas notei depois dos bolos estarem prontos. Assim falando. que me apresentou. lhe pertence.. Procurava sorrir. A quinta parece deserta! — Parece-me que está só a filha dos Bardeaume. pensava nos vagabundos!. voltei-me rápida e trêmula de medo.

Desviei os olhos.. Os nossos olhares encontraram-se de novo. O sol poente incidia sobre nós. Na verdade foi uma coisa bem desagradável. enquanto uma ligeira viração agitava os ramos das macieiras e mudava de lugar as manchas luminosas espalhadas pela grama.. quero adverti-lo. e desta vez pude ver no seu. com aquele sorriso que não lhe tornava meigo o olhar. Que significaria a expressão que acabava de notar na fisionomia do . e no anel que sem querer enfiara no dedo. a fim de evitar qualquer acidente. senhor visconde.. apanhando com um gesto maquinai o pequeno chapéu de palha branca. Maquinalmente coloquei no dedo o pequeno anel. de que então se torna para mim ainda muito mais desagradável.. muito incomodada com aquele olhar de expressão cambiante... — Lamento muito!. que me caiu dos joelhos. Pôs o chapéu e afastou-se.. Depois acrescentou. espalhando manchas de luz pela superfície da grama.. cheio duma tímida comoção e duma súbita surpresa. com toda a nitidez. como na história do "Peau-d'Anne"? Esta idéia perturbou-me com uma tal intensidade. Mas serenei logo e respondi-lhe com altivez. Só então me voltei. bem como nas minhas mãos nervosas e inquietas. Talvez!. senhor visconde?! — É provável. talvez algum agradecimento. Os Bardeaume ficaram de avisar em todas as casas onde mandassem os bolos. Que queria dizer?. — Estou convencido disso. de propósito. enfeitado com uma fitinha preta. Entre os seus lábios nacarados e grossos surgiram uns lindos dentes. uma mal disfarçada ironia. Balbuciei não sei que palavras. que estive quase para perder a fala.deles se encontrava e isto arreliou-me bastante. Não o fizeram na sua casa. mas o mordomo nada me disse. desaparecendo na direcção do pátio.. Mesmo porque nem sequer o trinquei! Sorriu — dizendo isto—. quando me levantei. no bolo destinado ao castelo. sob o fulgor longínquo do olhar.. olhando-o bem de frente: — Se este infeliz caso relembra de qualquer maneira o conto de Perrault. tornando-se um tanto langoroso. e o coração sentia-se oprimido. Um longo silêncio pairou entre nós. Encontrava-me constrangida. O meu rosto queimava. talvez tivesse imaginado que deixara cair o anel. Enrubesceram-se-me as faces com mais violência. Nos meus cabelos parecia sentir um reflexo dessa luminosidade crepuscular. A voz do senhor de Trézonnes fez-se ouvir.. segundo me parecia. límpida e serena: — É sempre agradável ouvir a história do "Peau-d´Anne". ao mesmo tempo que se mantinha imperioso e levemente irônico. inclinando-se: — Queira-me desculpar por a vir incomodar. minha senhora — respondeu após alguns segundos. — Oh! minha senhora! Isso não tem a menor importância!. admirando um vestido cor do céu. duma brancura de marfim.

Baixei os olhos e notei que eles fitaram o crepe azul do meu vestido.. Ignorava-o!... quando me fitava. No entanto desejava sabe-lo. Agora já não me assistia tanto o direito de censurar a Angelina.... num gesto de impaciência. enquanto o sol desaparecia por trás da velha casa.. como este olhar era tão diferente no senhor de Trézonnes!. censurando-me a mim mesma. Absorvida nestes pensamentos. que tinha sonhado. passou-me pelos cabelos.. impregnado do aroma das tílias. os seus raios iluminavam ainda as janelas abertas sobre o jardim silencioso. voejando um instante na claridade frouxa da tarde... Debrucei-me sobre o parapeito e pus-me a chorar. que este desconhecido começava a chamar-me a atenção um pouco além do que devia ser.. por aqueles lindos olhos... do meu vestido cor do céu. pois que também começava a ser ridícula.. toda nervosa. e o meu coração triste e melancólico voaram para aquela que me deixara.. Aproximei-me do peitoril duma delas e respirei o ar quente.. encaminhei-me lentamente para o meu quarto.. Seria medo ou comoção o que me fizera palpitar tanto e me levara a semi-cerrar os olhos? Não sabia. Uma abelha zumbiu junto de mim. — Vamos lá. vira-a já nos olhos de Marcos Borday. convencer-me de que estava louca. para os ternos olhos da minha mãe. também eu terminei por engendrar as mais ingênuas e romanescas idéias.. estava louca.. Como tinha de facto estremecido sob o seu domínio!. Mal o conhecia. E pensei comigo: "Que triste solidão! Que falta ela me faz!" XIV Depois deste incidente mais contrariada fiquei em ter de ir à Bottellerie.. Um sopro da brisa agitou as tílias e vergou um pouco as hastes dos girassóis. Todavia..... que nunca esse vislumbre de apaixonada admiração lhe tinha passado pelos olhos.. porque acabava de reconhecer. Procurava coordenar os meus pensamentos. tinha não sei o quê!. Teria conseguido convencê-lo do seu erro?. imaginando que o senhor de Trézonnes.. para o rosto amoroso... Essa expressão não me era de todo desconhecida. altivos e sonhadores. enquanto os reflexos do sol poente me acariciavam o rosto e os cabelos".. Era de facto uma tola imaginação da minha parte. mas havia nele uma chama que me fascinava. que me dominava. . Quando entrei na sala de visitas. O meu pensamento instável e solitário..castelão?. O senhor de Trézonnes tinha-me comparado à princesa do conto. A esta simples idéia enrubesci de novo. julgando que a imitara de caso pensado. num relance. das flores e da terra. Encostei-me ainda mais à velha parede. no pequeno canteiro. Em que estamos a pensar!— murmurei comigo. Gillette!. À força de viver numa atmosfera onde se sentia o prestígio do senhor da Bottellerie. Envolveume o tão variado perfume dos campos... Sofria. As mãos contrairam-se-me sobre o peito. Encolhi os ombros.. há um certo tempo a esta parte..

— Sim. feiosa. Jaquelina e eu tocámos e cantámos durante uma hora... Mostrei-me bastante alegre. Todavia estávamos destinados a encontrarmo-nos ali. Em seguida foi servido o chá no jardim. derame a perceber que o enteado sairá de automóvel e apenas voltaria para jantar. Paulo de Trézonnes.. Hei-de continuar a ser como sou. do movimento. um olhar sempre afectuoso. nem pesado nem violento.. sem um pretexto plausível.. A senhora de Trézonnes. no início da minha visita. muito alegre e muito solícito comigo. leviano e dum medíocre valor moral. já não era possível esquivar-me. A senhora de Trézonnes e a filha receberam-me com as maiores atenções possíveis. escusava de recear que ele aparecesse. — Não se sente bem aqui? — perguntei. sem preconceitos. acompanhando-nos ao piano. A minha mãe e eu gostamos da sociedade.. pois tenho a certeza de que nunca o contentarei. mas culta. Contudo. — Tens muita razão! — concluiu Paulo de Trézonnes. observar de novo o seu olhar. a afabilidade dos castelões e a solicitude de Paulo de Trézonnes para comigo. Aqui não se pode viver assim. igualmente amável. não me foi possível recusar. É deliciosa ter-se assim uma vizinha tão amável! Isto vai levar-me a fazer as pazes com a Bottellerie. Jaquelina parecia-me mais simpática. No entanto parece-me que deve ser um trabalho bastante pesado! Paulo de Trézonnes acrescentou: — E violento para a sua idade! — Posso garantir-lhes que não é. — É admirável!. Pequena.. pois. Uma palavra da viscondessa. — Todavia é fácil arranjar aqui muitas ocupações úteis e interessantes. devia ser dotado dum temperamento apático. Era assim que o meu irmão desejava que a Jaquelina fosse!. Os dias passam sem que me sinta um só instante enfadada.. Receava encontrar o senhor de Trézonnes. jubilosa: — Oh! como é boa!. E como tinha aceitado o convite dos fidalgos. sob os ramos das árvores seculares. Ela murmurou. que é muito corajosa. ou onde quer que fosse. Jaquelina exclamou. Quando Jaquelina me pediu que voltasse.. apesar das resoluções tomadas antes.. mas viva e agradável. não me agradou muito. — Nem sempre. portanto. para si. com uma leve expressão de arrufo: — Oh! O Gui é muito exigente!. Na quinta-feira seguinte. frívola e um pouco orgulhosa. talvez por influência da educação que recebera. muitas vezes pecava pela falta de sisudez e reflexão. dirigi-me para o castelo. possuía umas maneiras muito graciosas.que já de início me tinha entusiasmado muito pouco. Assim. Começava a inebriar-me aquela atmosfera de luxo discreto e de elegante bem estar. Sendo dotada duma inteligência mediana. . conversava com graça e sem afectação. e podia gozar desta linda tarde sem a menor preocupação. O filho. às vezes risonho até. Tenho a certeza de que seremos umas óptimas amigas.

a esse pobre vestido. que me perturbava a alegria sentida. satisfeita: — Oh! tanto melhor!. Tiago. contente com os meus vizinhos e com a bela tarde passada. perguntou-me Bardeaume: — Então. — O senhor Paulo não lhe chega nem aos calcanhares! — declarou Bardeaume. voltei para a Meulière. Tudo correra muito bem e eu não encontrara o castelão. menina Gillette. minha senhora. como toda a gente.. não sei que pontinha de mágoa se mantinha no fundo da minha alma.. Gosto tanto dele. Reflecti em voz alta: — A situação não deve ser das melhores para essas senhoras. — Sim. e obrigaram-me a prometer que voltaria domingo. quando casar. — É isso mesmo. Estas relações devem ser-lhe muito agradáveis. como foi a visita à Bottellerie? — Muito bem. onde o nome dos seus tinha tanto prestígio. estava só o irmão. E se fizer o mesmo à esposa.. As senhoras foram muito amáveis. a menina de Trézonnes devia levar uma vida mais útil. Como poderia dizer-lhe que não me atrevia a usá-lo. Ao acompanhar-me até ao portão. Ao jantar. coitada dela! . que estava cortando um bocado de presunto para o seu prato. na verdade. Neste particular achava que o irmão mais velho tinha razão. mas é frágil como um caniço. e curva-se diante do senhor Gui. que se mantém sobre eles.Não era essa a minha opinião... — Pareceu-me. Tenho a impressão de que se encontram sob uma influência omnipotente. pouco depois. Parecia-me que nesta região. pois vi-o passar de carro em direcção â Bohellière. e pela qual o príncipe ficara apaixonado? — Traga-o no próximo domingo. Catarina exclamou. Jaquelina perguntoume: — Porque não vestiu o seu lindo vestido azul?. A governanta recebe directamente as ordens do senhor visconde. dando o exemplo da dedicação à região e ao trabalho. sim? O enfeite da gola é admirável e eu desejava copiá-lo. — Não é mau rapaz. desde que fora comparado pelo visconde de Trézonnes ao maravilhoso vestido da princesa do conto. que a senhora Trézonnes e os filhos não pareciam estar muito à vontade naquela casa. mesmo à distância. Depois de me ter despedido deles. tão simples. Prometi vesti-lo para a minha próxima visita. minha senhora.. Contudo. e ninguém se atreve a ordenar qualquer coisa de maior importância sem o seu consentimento. e fica-lhe tão bem! — Foi o que calhou. observou: — O senhor visconde não devia lá estar. A senhora viscondessa vive no castelo como uma visita.

e compreendi então. pois que esta surda animosidade era-me deveras desagradável. parece que senti tremer-me a mão ao estender-lha. João.. . limitando-se apenas a um breve cumprimento quando acabei de cantar. porque compreendi que me achava bonita e que a minha palestra lhe agradava. com os meus trabalhos. segundo me informaram. como nunca o tinha percebido. Lá estava também o senhor de Trézonnes. sentada na minha frente. a quem contei a minha visita à Bottellerie. As senhoras queriam que eu ficasse também. notei-lhe nos olhos a expressão de rancor e de maldade que já lhe havia notado nos dias anteriores. comecei também a falar num tom afectado como "a outra". — E não receia que o luxo desse solar. — Talvez esteja enganado! — Não o creio — replicou. Porquê?. Passei algumas horas em companhia do meu velho amigo. Não gostei dela. — Oh! distracções já eu tenho. no domingo seguinte. É preciso pôr-se em contacto com a sociedade a que pertence. De resto. mas fazia tenções de lho perguntar na primeira ocasião oportuna. ao ir lá no dia seguinte... mas é boa e amável. os seus olhos vão-se tornando mortiços. Esta nova táctica divertiu-me e por isso não a abandonei. nada receio por esse lado. Conversou demoradamente com uma senhora de bela aparência. encontrei lá os castelões da vizinhança. O coração encheu-se-me duma orgulhosa satisfação. " Os convidados dos Trézonnes deviam jantar na Bottellerie aquela tarde. e muitas. Quando me cumprimentou. além disso. — A menina Jaquelina não foi lá muito bem educada. Notava bem que Paulo de Trézonnes estava dominado por mim. uma escritora de grande talento. tive de fazer um grande esforço para conter a comoção. desta vez. a elegância dessas senhoras exerçam sobre mim uma influência perniciosa? Abanou a cabeça. — É preciso ir lá mais vezes — disse-me ele. cedendo à tentação dum demônio qualquer. Tinha um vago receio de encontrar o senhor de Trézonnes na Sauvaie. quando eu tenho apenas vinte e os meus olhos podem ainda reflectir a máxima vida!. No entanto. fiquei logo mais à vontade. distrair--se-á também. Ignorava-o. vendo que o senhor de Trézonnes não apoiava muito o convite da mãe e da irmã. em compensação. Fitando a senhora de Castellier. A companhia da menina far-lhe-á muito bem. aos quais já fora apresentada à saída da missa do dia de S. mas tal não se deu. que era. e então. apenas senti o seu olhar. — Mas não é a mesma coisa.. Confesso que isso causou um certo orgulho ao meu amor-próprio. Esta pequena detestava-me.Neste momento olhei por acaso para a Angelina. mas não aceitei. pensei: "Tem mais de trinta anos. sorrindo. pouco se preocupou comigo. olhando-me com um sorriso bondoso: — Não. que pareciam contemplar com carinho o seu interlocutor. começa já a envelhecer. Paulo de Trézonnes. mostrou-se muito amável comigo. por a achar muito afectada. Quando cheguei à Bottellerie. quão grande era o poder de que podia dispor. a senhora de Castellier. Tinha uma tez pálida e uns belos olhos azuis.

e no entanto estava ao seu lado. ouvia-a falar da Noruega. dominada por uma vaga inquietação. — Não quero dizer assim. fitando-o resolutamente. Por mim estou resolvida a não trocar nunca estas distracções tão inocentes para a alma e para o corpo pelos prazeres da sociedade. Vale muito mais que muitos outros. Diante de nós estendia-se uma alameda orlada de faias. . E ser-nos-ia agora de facto penoso o deixarmos de ouvir a sua voz deliciosa. disse secamente ao irmão: — Eu acompanharei a casa a senhora de Arbiers. — Tem razão. elas. não deixam ressaibos de arrependimentos e inquietações. por onde tinha viajado. Tornaram maior também a minha confusão e o meu sofrimento. e parecia-me indiferente à animada conversa que se travava do outro lado da sala. — Assim me parece — murmurei a custo. não é preciso incomodarem-se por minha causa. pelo menos. o meu coração pulsava com violência. porque o céu começava a escurecer. Caminhamos calados durante uns instantes. No limiar da porta quis ainda dizer-lhe que não se incomodasse mais... . parei. já um tanto sombria. é um trabalho são.Sentado junto da escritora. senhor visconde. com que acabou de nos encantar. e adiantando-se. mas ele interrompeu-me logo: — Deixe-me.. É para mim um grande prazer. Sem me atender. e despedi-me dos castelões e dos seus amigos. O senhor de Trézonnes levantou-se. e comigo. como o namoro e as festas. por completo.. ao ver-me prestes a sair. Recusei-me com amabilidade. minha senhora? — Sempre. inteligente. toda trêmula de comoção. pensei: "Dirá isto por mim?" A minha consciência começava já a censurar-me as inocentes brincadeiras da tarde. cumprir o meu dever de dono da casa. Nesse caso não o forçaria a suportá-la por mais tempo!. seguiu-me até ao vestíbulo. — Graças aos seus conselhos. ainda que um leve arrepio me percorresse a pele. e em especial mais que os divertimentos das nossas elegantes. e porque de facto me interesso muito por esse estudo. Balbuciei apenas: — Por amor de Deus não se incomode.. e até mesmo poético. é claro.. Perguntou-me: — Vive sempre satisfeita como lavradeira. senhor visconde. opondo uma formal negativa às instâncias de Paulo de Trézonnes. o meu maior desejo era encontrar-me a cem léguas dali. Provavelmente a minha presença era-lhe desagradável. — O meu velho amigo Rouchenne disse-me que a senhora se dá muito bem com a criação de abelhas. Saimos do castelo. minha senhora. — Tem razão. Àquela hora. minha senhora. Sentia nas faces uma grande sensação de calor. senhor visconde. e estas palavras vieram a propósito para aumentar o meu remorso. ao pensar que me tomava agora por uma estouvada! Estávamos perto do portão.

comparando-me à Angelina. por ocasião do nosso último encontro na Sauvaie. sempre sonhando com o senhor de Trézonnes. e emprego-me. que terminavam. Agora evitava falar-me. e suspirava. “Parece a Angelina!” — exclamei. De repente vi sair duma dessas sebes um vulto de mulher. mas sem excesso. podia ter outros defeitos que eu ignorava. tinha porém uma alma nobre. Dum lado e doutro erguiam-se fechadas sebes. pegou-me na mão. entregava-me ao trabalho dia e noite. quando se tem uma alma nobre e pura. sem ternura. O senhor de Trézonnes acrescentou: — Precisamos aprender a viver na sociedade. Este fidalgo podia ser áspero. onde se misturavam angústias e delícias!. vou para Paris. fui visitar o senhor Rouchenne. — Até sempre. a confusão. Esperamo-la qualquer dia da semana. No entanto. na curvado caminho. É bastante difícil. que desapareceu na curva da estrada. e uma espécie de surda alegria. No desejo de acalmar a minha imaginação e o meu pensamento. e apertou-a com uma pressão forte. Quando chegou o sábado. minha senhora. cuja indolência e má vontade se iam tornando intoleráveis dia a dia. que parecia vigiar todos os meus gestos. se me contrariam muito.. sem nos viciarmos ao seu contacto. a impressão predominante era a que me tinha deixado no final o senhor de Trézonnes. — Pelo contrário. lançar-me na alma uma comoção desconhecida. vinte metros adiante. parece-me que o é.. que eu sem querer lhe estendi. onde principiavam uns campos de trigo. Não podia compreender como conseguia. nem as cóleras do pai. contudo encontrava muitas vezes o seu olhar hostil e cheio de ódio. de que já lhe falei.Que poderosa sedução brilhava no seu olhar!.. XV Passou-se uma semana sem que eu voltasse à Bottellerie. era um homem leal e honesto. Hei-de-lhe emprestar uma obra interessantíssima sobre as abelhas. intratável e orgulhoso.. como lhe pediu minha irmã. no meu íntimo baralhavam-se os remorsos. Dizendo isto. Transpus o portão e tomei o caminho em direcção à Meulière. Mas eram tantas e tais as minhas comoções. — Talvez a minha não tenha esses predicados — murmurei. sem um momento de descanso. que este facto não me preocupou mais. Nem as censuras da mãe. dominar-me o coração e o pensamento. que encontrei . Ria-se deles e dizia-lhes: — Quero viver à minha vontade. conseguiam arrancá-la à sua insensibilidade. o receio. mas não impossível. mas apenas com o poder duma vontade íntima e concentrada. um pouco febrilmente. Catarina estava maravilhada com a minha actividade.

receando não estar em casa quando fosse visitar a menina Jaqueline. E. nacaradas ou amareladas. como dizia Bardeaume. A essa hora devia lá estar. — Trouxe este livro e pediu-me que lho entregasse. naquela casa silenciosa. colheu umas lindas rosas. e o senhor de Trézonnes mostrou-se muito mais amável. do chefe da casa. Fiz um movimento brusco e involuntário. Falando-me em especial de música. encadernado em carneira cor-de-vinho. Além disso ele pretende falar com a menina. com um livro na mão. Em volta do candeeiro adejava uma escura borboleta. trazendo-me os odores do jardim e beijando ao de leve as corolas rosadas. — O senhor de Trézonnes esteve ontem aqui — disse-me ele. Neste meu pensamento via o seu belo e altivo perfil desenhar-se nas paredes do gabinete. mas que imaginava dum luxo sóbrio. por muito tempo. O velho olhava-me pensativo. — Vou lê-lo o mais depressa possível — disse eu. vigiando os gastos da madrasta e dos dois filhos. muito aristocrático. bem como o seu olhar resoluto e profundo. quase atencioso. quando me instalei de tarde junto da minha mesa de trabalho. Desta vez entrei em casa muito mais satisfeita do que no domingo anterior. e que. batendo no vidro. e dar-lho-ei depois. Inclinada diante da luz.. mas nada lia: o meu pensamento estava muito longe dali. revelouse-me um espírito deveras artista. disse-me apenas umas ligeiras palavras a tal respeito. O meu pensamento voava para a Bottellerie. por isso não tem necessidade de se apressar. e ofereceu-mas. para um compartimento que eu não conhecia. não era para ele uma palavra vã. Les Adieuxt por ser essa composição de Beethoven uma das minhas sonatas predilectas. "Ele" tinha dito nesse dia que todas as noites lia. dizendo-me com delicadeza: — Serão as suas companheiras na solidão do seu quarto. tinha os olhos fitos nas páginas do livro. Acompanhou-me ao piano e deu me alguns conselhos claros e breves. Pela janela aberta entrava o ar fresco da noite.um pouco fatigado e sonolento. a uma tentativa de namoro do irmão. Executou. . executando mesmo com leveza e expressão. quando o vi no dia seguinte no castelo. O senhor de Trézonnes pôs termo. senti-me menos só.. com estas rosas ainda vivas diante de mim. para fazer o favor de o entregar ao senhor de Trézonnes na sua próxima visita. A autoridade de mais velho. e o surdo ruído do seu corpo. na verdade. Peguei no volume. ante um meu tímido pedido. Não fui estouvada. no seu gabinete de trabalho. — Oh! o senhor Gui disse que não precisa dele. vinha quebrar o silêncio. vendo-se gravadas na lombada as iniciais e as armas do seu dono. um caracter imperioso. Não se podia negar que tinha uma aparência dominadora... Tudo isto explicava a razão por que cada um "passava de mansinho" diante dele. tinha nas mãos a administração da casa. além de tudo. Contudo. folheando o livro distraidamente—. apenas com um olhar. Passeando comigo e a irmã. que eu tinha admirado de passagem. e o livro caiu-me das mãos. quando se interrompia para reflectir.

aniquiladora. juntando as mãos. Depois.. acrescentei: — Meu Deus!. e depois o outro. sobre o mármore cor-de-rosa do móvel.. Devia ser ela que estava escondida na sebe.? Angelina! No meu pensamento desenhou-se logo este nome com letras de fogo!. despótica.esta idéia louca! Ouvi um estalar de asas e em seguida um leve ruído.... Não queria mais devanear. pensei: "Que tenho?. Quem seria que e detestava tanto para. Todos os aromas dos arredores vinham acariciar o meu olfacto. Sim! essa pequena odiava-me." Fiquei toda trêmula. a debater-se em volta da luz. visivelmente disfarçada: "Sei muito bem porque vai à Bottellerie e com quem se encontra na Sauvaie. A sua paixão pelo castelão inspirava-lhe esta odiosa inveja e levava-a a procurar todos os meios para me desmoralizar. e peguei de novo no livro com mãos trêmulas.. que importavam a esta inconsciente pequena as mentiras e as . Tome cuidado!. Era a borboleta que acabava de queimar as asas na luz e vinha cair na mesa. Era o apelo instintivo que saía da minha solidão e da minha angústia. isto é. com uma detestável caligrafia. era forçoso que removesse. mas com uma paixão concentrada. desta vez... Atreviam-se a imaginar que procedia com reservadas intenções?. mas imóvel. Fiquei imobilizada e aturdida por uns instantes.. deitei fora o pequenino cadáver.. que repelisse da minha imaginação este pensamento... Seria possível que me tivesse prendido também o coração?.. Afastai do meu coração. E sentia medo e não ousava interrogar-me. que até então me tinha passado despercebido.. sem ternura.senti o coração vibrar sob o afluxo duma estranha comoção e. Dirigi-me ao pequeno armário onde costumava guardar o livro que o senhor de Trézonnes me emprestara. junto de mim.. que naturalmente me amaria a seu modo — como um homem com o seu caracter. Levantei-me. oito dias antes.... eu bem o sabia. Seria assim por acaso tão ingênua e tão fraca? Dominada por estes tristes pensamentos.. Atreviam-se a escrever-me isto?. Como?. Em breve toda a gente o saberá na aldeia".. vi.. A borboleta continuava... porém.. um papel.. infatigável. deliciando-me... que ardiam. Minha mãe!... Que será que tenho?. ainda há pouco. e o que me falava da simpatia que havia inspirado a Gui de Trézonnes. ocorreu-me um nome que balbuciei com o coração-opresso: — Minha mãe!. que alguém mexera nas minhas gavetas. A sua vista de lince devia ter notado a minha comoção e daí concluir erroneamente em favor da sua louca inveja... e devia ter-me visto ao portão da Bottellerie a falar com o senhor de Trézonnes... Depois. Quem teria sido o covarde autor deste miserável bilhete?. Tinha-me parecido. cheia de medo.. Peguei nele e notei que havia qualquer coisa escrita. logo porém reagi e senti-me indignada. naturalmente a espiar-me.

. Quando nos sentamos. a idéia de me encontrar de novo na sua presença.. estou ante a perspectiva de ser obrigada a deixar esta terra.. fosse uma febre infecciosa. em especial agora. Como se podia acreditar que o homem que assim falara. Como não queria dar a entender que havia ligado importância à carta anônima. com as suas calúnias.. O seu olhar parecia tão perspicaz!. Esta ausência foi para mim um alívio. No entanto.. tanto numa como noutra casa.calúnias?. poderá tornar-me a vida insustentável. onde me informaram que o senhor abade estava doente e que receavam. apesar da espessa camada de pó de arroz. Naquela noite não dormi quase nada. tinha de aguardar o restabelecimento do velho sacerdote. " Às vezes um outro pensamento me assaltava o espírito: "E se ele me ama? E se pensa em desposar-me?. ela voltou-se. para tocarmos um bocado.. a única pessoa a quem podia fazer as minhas confidencias. seria evitar a todo o custo encontrar-me com ele. parece-me que para a senhora Mossette. "E eu que julgava encontrar aqui a tranqüilidade!"— pensava... não vi o visconde nem o irmão. E se ele adivinhasse! Esta lembrança bastava para aumentar a minha comoção.. apenas porque ela era bonita e lhe agradava?. ai de mim!. Grandes inquietações me oprimiam e me perturbavam o espírito. Como precisava agora vigiar-me a mim mesma!. era-me deveras penosa.. com muita pena. como de costume. O mais difícil para mim foi encontrar-me com a Angelina à mesa. É tão fácil desvirtuar o acto mais inocente!. "Em vez disso. que sabia qual era a natureza dos sentimentos do senhor de Trézonnes a meu respeito... Seria isto um casamento de conveniência?.. De resto. Dirigi-me à sacristia. a qual mas repetira uma vez. admitindo mesmo por um instante a hipótese deste pedido. contudo. De manhã levantei-me.. esse instante teria sido suficiente para mo provar. resolvida a ir contar tudo ao abade e pedir-lhe um conselho. que. Se já não estivesse em absoluto convencida da sua culpabilidade.. toda vermelha. com grande surpresa minha. Neste caso devia manter-me afastada da Bottellerie e da Sauvaie. estes bons amigos que se me tornaram todos tão queridos. Tinha o pressentimento de que para ela todas as armas seriam boas contra mim. Prometera à menina Jaquelina que iria passar uma hora com ela.. Agora.. na quarta-feira seguinte. não deixei de ir ao castelo. fitei-a com altivez e desprezo. que já estimo. No entanto a Angelina. Voltei para a Meulière bastante contrariada. onde. . a que com certeza me iria aconselhar o abade. seguida sempre da desilusão”." Logo me recordava porém das palavras que proferira certa ocasião. e baixou os olhos. com tristeza. pensasse em desposar uma jovem sem eira nem beira. Às sete horas por isso já me encontrava na igreja.. uma em frente da outra. era tratada como se fosse família. ambos ausentes durante o dia todo. Outro qualquer não passa duma quimera. A melhor solução. não houve missa e o padre não apareceu. Isto porém tornava-se inteiramente impraticável.. em que acidentalmente falámos dos moradores da Bottellerie: "Só admito o casamento de conveniência.

e sem querer. o meu espírito excitado acalmar-se-ia mais depressa. O meu velho amigo devia estar pensando que já o tinha esquecido aquela semana. Quando cheguei à pequena herdade. Passei pelo vestíbulo. num tom de amigável censura. aquele olhar reflectindo uma paixão calma. Assim. que talvez o tivesse conseguido!.. indecisa.como poderia eu responder. Estava deserta. Procurava então rir-me de mim mesma... senhor Gui? — Assim parece. — Julguei que me tinha esquecido... o senhor Rouchenne devia estar no jardim.. Então não se dá bem com os ares do campo.. deu alguns passos na minha direcção. Alguns dias mais tarde. Não queria amar este Trézonnes!.. mas contida.. após a descoberta que acabava de fazer sobre os seus sentimentos para comigo. não era possível!. não é assim. severo.. orgulhoso. minha senhora? — Creio que sim. Por que seria que me olhava daquela forma. com o chapéu na mão. Tenho estado muito ocupada. nunca podia suportar o jugo dum senhor absoluto. menina Gillette! — disse o senhor Rouchenne. Não sinto nada.. o sol já se ia escondendo.. que havia tentado roubar-me o coração. O velho estava sentado à sombra do castanheiro e ao lado dele estava aquele que eu queria evitar. O abalo moral que acabava porém de sofrer — e que seria talvez apenas o começo dos aborrecimentos que teria de experimentar—. — Bem se vê pelo seu aspecto. pois o coração não podia estar seriamente apaixonado por esse homem que a atemorizava. friamente dominador. agarrando-me a mão paternalmente.. como ele devia ser. ao cair do crepúsculo. Queria ter a certeza de que apenas a minha imaginação fora atingida. estendi-lhe a mão. Procurava esquecer o olhar que se tinha fixado em mim. que resolvi deixar de ver. que não fosse com uma recusa. se possível fosse. O senhor de Trézonnes... da minha doida imaginação. Todo o meu orgulho se revoltava. — Está bem aí. como se quisesse penetrar até ao âmago da minha alma? Voltei os olhos e sentei-me na cadeira que o senhor Rouchenne me ofereceu... ambos se levantaram. — Oh! não! por maneira nenhuma!. das minhas loucuras. Não pude. — Trabalha muito — disse o velho. sabendo de antemão que a esposa de Gui de Trézonnes devia submeter-se sem reservas à imperiosa vontade do marido? Não podia. com uma insistência perturbadora. modificara os meus hábitos. mas de súbito parei. dirigi-me à Sauvaie. Desci os dois degraus de pedra limosa que levavam até ele. pensar na perspectiva dessa escravidão. Não!. minha senhora? Essa rèsteainha de sol não a incomoda? . Adiantei-me então.. e na passagem deitei uma vista de olhos para a sala. só ao pensar em tal coisa. Mesmo com todo o amor que pudesse existir por ele no meu coração. nem por um instante. À minha aproximação. Receava sobretudo encontrar em sua casa Gui de Trézonnes.

. Fiquei imóvel. Com voz clara. enquanto vou buscar o licor de cerejas.— Nada! Estou muito bem.. e o meu olhar devia ter perguntado: "Como deverei . O senhor de Trézonnes interrompeu-o: — Fique. como viscondessa de Trézonnes. lânguidos e doces. pela minha parte não dependo de ninguém. falou: — Vim visitar o senhor Rouchenne para lhe pedir que me conseguisse... o que me tinha parecido loucura... que fosse capaz de se interessar também pelos seus deveres de castelã. é inútil que se afaste. envolvendo-nos na sua doce tepidez. as mãos começaram-me a tremer sobre os fios de seda da minha pequena cesta. — Não posso tomar nada. Havia levantado os olhos. Que teria ele a dizer-me?.. Sob a doce claridade crepuscular zumbiam algumas abelhas. esperava ansiosa. Sei que é órfã.. que nenhuma comoção conseguia alterar. A senhora parece gostar do campo.. é maior e vive isolada.. em sua casa e na sua presença. com um nó na garganta. O meu coração entrou a pulsar com desespero. O visconde tinha-se sentado ao pé de mim. agora. Ficar a sós com ele. O senhor de Trézonnes parou alguns instantes e depois continuou: — Sempre desejei encontrar uma companheira que pudesse auxiliar-me no meu papel de proprietário agricultor.. No meu cérebro as idéias volteavam uma dança fantástica. por discrição. castigados pelo calor do dia. meu velho amigo. que quisesse viver na Bottellerie a maior parte do ano. julguei poder quebrar as regras protocolares dos nossos costumes franceses. para lhe perguntar se me daria a honra de usar o meu nome. onde apenas os lábios palpitavam um pouco. de linhagem inferior à sua. não me atrevia a erguer os olhos para o senhor de Trézonnes.. emudecida. que se dobravam. e olhava-me com uma expressão de avô feliz. dirigindo-me directamente à senhora. e não trepidou em se iniciar num trabalho. Oh! céus!. sendo bastante independente como sou. — Vou deixá-los por um instante. As últimas claridades do poente infiltravam-se através dos castanheiros. pedir a mediação da minha madrasta. Com as mãos cruzadas sobre a minha cesta de costura. Aí está porque pensei que a senhora saberia cumprir dignamente a tarefa que lhe vai competir. que outras mulheres. enquanto uma leve aragem trazia até nós os perfumes dos heliotrópios. Em frente a nós colocou-se o senhor Rouchenne. quimera romanesca. tornava-se uma realidade. Olhei para o senhor Rouchenne. — Mas um licorzinho de cerejas. sempre considerada por mim como uma estranha. — Não vá! — exclamei.. Bem sabe o que tenho a dizer à senhora de Arbiers. Como responder?. e via junto de mim esse rosto sereno e enérgico. no estado de perturbação em que me encontrava!. Assim. e não me agradaria. a bater loucamente . É muito tarde. sem família. Quanto a mim. que parecia bastante comovido. teriam tolamente desprezado. como ia a fazer. uma entrevista com a senhora.. tem-se mostrado corajosa.

. que não se iluda demasiado acerca das minhas qualidades.. nem daquela parte de autoridade moral.. que me parece toda a mulher deve manter em sua casa. Eu gostava do campo... mas nada disse. que terá no lar o lugar a que tem direito e cujas opiniões serão acatadas. precisarei reflectir. minha senhora. a minha grande comoção desapareceu... devo contudo esclarecê-lo que não sou dum caracter muito.. Oh! Como era correcto e ao mesmo tempo reservado!. com as mãos cruzadas sobre a pequena mesa que tinha diante dele. senhora de mim. que pretende curvá-la sob o jugo duma vontade prepotente?. esse amável conceito. sob aquele olhar cuja expressão me parecia tão enigmática! — Falando duma forma tão clara. O velho. Excelentes condições para ser uma esposa que ele poderia dirigir a seu belo prazer!. desde que sejam sensatas. Aceitando a autoridade dum marido. mantinha fitos em mim os seus olhos cheios de bondade. que pareciam encorajar-me. Mas creia. imóvel. Devia ser esse o motivo primordial da sua orientação. tão.. que receia encontrar em mim uma espécie de déspota. Para com a senhora.. todavia. era pobre e órfã. Por fim. de todas as minhas opiniões. passivo. minha senhora. sem mediação estranha.. Julgava. Para lhe responder. não procuro uma escrava. o embaraço. e pude então falar-lhe.. desejaria não abdicar por completo de toda a minha vontade. de acordo com a minha dignidade e os direitos da minha consciência. balbuciei: — Agradeço-lhe. No fim de contas talvez também não lhe desagradasse o eu ser fisicamente bem proporcionada e de espírito um tanto culto.. Vendo-o tão calmo. que me consideraria muito feliz se me concedesse uma resposta favorável. de que lhe parecia inútil dizer-me qualquer coisa. que deseje ser esclarecida sobre esse ponto. — . Não ignoro que fazem de mim. era uma questão de segunda ordem. uma companheira tal como a senhora a concebe. minha senhora. nesta altura inclinou-se um pouco e mostrou nas comissuras dos lábios uma leve expressão de ironia. É verdade que gosto do trabalho. . que a vida agitada da sociedade não me atrai. ainda que gratuitamente.. porém. O senhor de Trézonnes manteve-se sempre calmo e sempre reservado. ainda que o meu coração palpitasse bastante forte: — Espero. readquiri logo a minha presença de espírito.. mas não sei!.. Isto tinha de ser dito. Porém com que dificuldade as palavras me saíram da boca.. Compreendo que me fale assim. isto. mas uma esposa. e muito bem. senhor. uma comoção que era quase alegria. o caso é diferente.. que tudo devia decorrer entre mim e o senhor de Trézonnes. Contudo não ocultava as razões da sua escolha. Aí estava o casamento de conveniência!. a angústia. Apenas passaram pelo meu espírito estas idéias. senhor. — É natural!.responder?" Oprimiam-me. o bom conceito que faz de mim.. razoável. visto encontrar-se em jogo a sua dignidade de mulher. até ao sofrimento físico. tudo lhe ficaria devendo. Sempre me recusei contrariar as opiniões desse gênero. Fique tranqüila. quer dizer. no que tem de legítimo.

senhor visconde. De que me serviria torturar o meu próprio espírito na indecisão de muitos dias? O abade estava doente. senhor Gui?.. minha senhora.. Deixou transcorrer um curto silêncio e depois prosseguiu: — Sê-lo-ei. O ancião aprovou com um gesto de cabeça. . na claridade da tarde.Calou-se um instante. — Nem para mim... respondi: — Amanhã dar-lhe-ei a minha resposta. O seu aspecto enérgico atemorizou-me. Amanhã será muito cedo? — Amanhã!. senhor Rouchenne... Contudo habituara-me a gostar das resoluções rápidas. Espero que a senhora descobrirá a que for mais acertada. Senti um leve arrepio percorrer-me a pele. não é verdade. Então vai reflectir. restava-me apenas a senhora Mossette. dominando sempre como senhor absoluto? — Disseram. talvez de boa fé. Olhava agora a direito." Não encontraram resposta no seu olhar. na verdade. Tentando falar com a mesma naturalidade que ele.. Contudo há diferentes maneiras de se interpretar esta palavra. — Para quando estiverem noivos — disse ele. O senhor de Trézonnes replicou com calma: — Isso agora depende da senhora de Arbiers.. e perguntando-Ihe timidamente: "Que quer dizer?. Dizendo estas palavras levantou-se. que era um homem inflexível. Não tomo nada a esta hora — acrescentei eu. Sobre a pequena cesta as minhas mãos cruzavam-se e descruzavam-se. respeitar a independência do espírito da esposa. Desta vez os meus olhos ergueram-se.. De súbito interveio: — E agora. Tenho de me retirar. Depois disso era necessário decidir-me de qualquer maneira. A sua alta estatura reflectiu-se. — Agradeço-lhe imenso. e prosseguiu: — O senhor Rouchenne poderá contar-lhe os meus numerosos defeitos. pensando. elegante e vigorosa.. Inclinou-se. e afastou-se. Queira ter a bondade de comunicar a sua decisão ao nosso comum amigo. O senhor Rouchenne olhava-nos. apertou a mão que eu lhe estendi. Oh! tão depressa!. admirando a parte do jardim ainda batida pelo sol. De novo pairou o silêncio.. Nunca me pareceu tão alto e tão bem constituído. — Muito bem. que se voltou rápido. mas não para mim. sorrindo. acompanhado do senhor Rouchenne. de facto. Com voz firme. mas um pouco irônica. por uma persuasão instintiva da sua superioridade. a quem poderia pedir alguns conselhos. procurando os dele. duma vontade que procurava sempre dominar a fraqueza feminina. na minha frente.. Posso ir buscar o licor de cerejas? — Sim. Ficará para outro dia. senhor Rouchenne. — Não se incomode. porque me parecia o reflexo exterior duma força íntima. não é verdade?. perguntou de repente: — Disseram-lhe. minha senhora. mas dir-lhe-á também que sempre cumpro o que prometo.

Como já lhe disse. reflita bem. À força de o ver. É preferível que o conheça por si mesma. Nunca esteve tão frio!.. Sabia-o bastante severo no que dizia com respeito à moral e pouco habituado a transigir nos seus compromissos de consciência. A esta hora da tarde pairavam no ambiente todos os perfumes da natureza. — Oh! a menina ainda não o conhece!. — Tenho um certo medo dele — disse eu a meia voz. É um homem honrado e bom. Enfim. O velho exprimiu o seu desdém com um leve movimento dos lábios. Pareciam-me muito suaves e um tanto embriagadores. Se o senhor Gui lhe agrada. O senhor Rouchenne olhou-me por um instante.. muito bom.... se gostasse de mim. Quanto a mim.Fiquei só por uns momentos. nem mesmo a mim.. que conservava entre os seus. .. Estas últimas palavras acabaram por me convencer. menina Gillette. nada posso dizer!. — O que deve fazer.... e mesmo áspero. minha senhora? Parece-me que. acaba de lhe pedir que queira ser sua esposa.. Se tinha em tal conta o senhor de Trézonnes. se de alegria. no entanto... Antes de responder. Fechei os olhos. no entanto? Enrubesci. e nada receie.. dá a conhecer os seus mais íntimos pensamentos.. a quem já conhecia há muitos anos. — Então aceite..... até amanhã.. — Não.. dá-la-ia de todo o coração ao senhor de Trézonnes. mas sustentei com franqueza o seu olhar e respondi: — Sim.. cheguei a adivinhá-los algumas vezes. Nem um vislumbre de comoção!. ninguém o conhece. Viu-o ainda há pouco.. —Sim. podia ter a certeza de que o castelão merecia-o. Não creio isso!. realmente é verdade!. como diz. não!. apertando-me os dedos. fitando-os naquele querido rosto enrugado.. e depois perguntoume: — Ama-o. a ninguém.. — Parece-me um tanto áspero para com a família. — A sua família! Pobre do senhor Gui.. só lhe posso dizer uma coisa: se fosse minha filha. não sei se de angústia. a sua fortuna já teria . minha querida! É perfeitamente real. Mas conhecê-lo-á.. quando me fa la va ? . os outros nada valem. como diz? O ancião abanou levemente a cabeça. parece-me.. Por acaso seria assim.. O senhor Rouchenne voltou e sentou-se perto de mim. Tirando a menina Jaquelina. Sem quase erguer as pálpebras. se souber despertar-lhe confiança. se fosse contar com ela para o fazer feliz!. — observei ainda. no lugar ocupado há pouco pelo senhor de Trézonnes. peguei-lhe nas mãos engelhadas e murmurei: — Diga-me: isto não será um sonho? — Oh! não.. Suponho que lhos dirá... de olhar terno e profundo. procurando ver se não tinha sonhado... Mas que devo fazer? Abri muito os olhos. Se não tivesse sido intransigente. porque a ama loucamente. Sempre achei muito judicioso o critério do senhor Rouchenne. é verdade!. mas o meu coração continuava oprimido.

Eu também o amo!.. que passa breve.. menina Gillette? — Sim... tinha uma grande concepção do dever. Não atribua aos outros os actos de que era capaz. com as suas últimas claridades. Esta alta qualidade sobrepunha-se a alguns inconvenientes de caracter. como a do pai. a uma frieza um tanto excessiva. para pagar as frivolidades da viscondessa e as estroinices do senhor Paulo. ao fixarem-se em mim. Era a Angelina. e os olhos brilhavam-lhe.. que era rico e livre.. Segui pelo estreito caminho. Pois muito bem: quando um jovem. e não acreditarão nas suas mentiras. Não lhe parece que tenho o mesmo direito?. aproveita-a bem. — Os motivos da minha inveja?. que se encaminhou para mim. E agora fique sabendo que não preciso das suas lições!. Como se atreveu escrever-me aquela carta que encontrei no meu quarto?. Pode acreditar. — Acabo de ter a certeza das suas entrevistas com o senhor de Trézonnes. e a Angelina. indigna das óptimas pessoas que são seus pais. e todos na povoação virão a rir-se de si. tendo no mundo todas as regalias que desejava. por se ter tornado um homem sério. É uma filha má. que se deixam levar ao acaso da vida. . A boca mostrava um sorriso maldoso. a uma vontade um tanto prepotente.. Que quer dizer com aquelas ameaças?... ante a deficiente educação doméstica que recebeu. posso dar-lhe lições. o que se tornava uma preciosa garantia para aquela que se tornasse sua esposa. Preferiu uma vida útil. Felizmente o senhor Gui não o ouviu por muito tempo. Despedi-me do ancião. Ser-me-á fácil divulgar os motivos da sua inveja. agora quase afogado no horizonte cor-de-malva. porque a mocidade é um sopro. porque entre nós há uma certa diferença: eu posso tornar-me a esposa do senhor de Trézonnes. Sabe-os muito bem!.. Fique sabendo que não me deixarei caluniar... que era.. . E por que não?. tem razão. moralmente falando.. falei-lhe com desdenhosa calma: — Sim. Vejam lá!. a tudo quanto eu ignorasse dele. para dar aos camponeses o exemplo do amor à sua terra. Gui de Trézonnes não era destes homens volúveis. um caracter de lamentar. A minha inquietação e a minha incerteza acalmaram-se um pouco. marginando um campo de trigo. convencida. e de nela se manter há mais de oito anos. meu caro. Ergui o busto com altivez e medi-a de alto a lixo com indignação e desprezo: — Como se atreve a falar-me assim?..desaparecido. iluminava todo o ambiente à minha volta. A menina sabe delinear bem a sua vida!. para os seus domínios.. Que me diz a isto.... Esse homem dizia ao filho: "Diverte-te.... que devia levar-me mais depressa à Meulière.. talvez. vindo viver para o campo..... dentro do qual não transigia.. pelo menos". devido ao exemplo do falecido visconde.. À esquerda. O sol. é porque na verdade tem qualquer coisa de grande e de nobre no coração. menina Gillette! — exclamou ela com insolência. — Olá. tem a energia de fazer o que ele fez.... minha senhora: o senhor de Trézonnes merece ser louvado. tanto quanto puderes. em casa do Rouchenne. —respondi. perto dum cerrado. Angelina!.. Como me insultava com arrogância. vi mover-se um vulto feminino.

não saberá nunca o quanto o meu coração é ávido duma doce afeição. Porém há tantas maneiras de amar!. Que marido será ele?" Um marido leal. e que me detestava. Afastava-me." . Dizendo isto voltei-lhe as costas e afastei-me a passos rápidos.. Muito bem!. — Sua esposa?. Mas acabava de me comprometer. Interrompi-me durante alguns segundos.. Com voz mal segura conclui: —. E o amor de que eu tinha sede. que tinha bebido o leite do mesmo seio que eu bebi.... — Engana-se. tal como tenha sonhado.. Nem sequer tive tempo de reflectir!. "Depois. os lábios descerraram-se-lhe e balbuciou. Seria uma resposta afirmativa aquela que eu iria transmitir ao senhor Rouchenne. O ar ainda estava quente e um tanto pesado.. Com esse porém não teria sido nem muito feliz. desta infeliz. se tinha atrevido a erguer os olhos.. visto que as almas não se unem. de domésticas alegrias. na sua vaidosa inconsciência. Neste casamento não encontrarei a união profunda. aqueles olhos cheios de ódio. porque adivinhava o meu íntimo desprezo — e em especial porque era amada pelo homem para o qual. Já foi por este motivo que vacilei em aceitar o pedido do doutor Borday. apressada.. porque eu era bonita e de boa família.. E acha que ele irá casar com uma pobretona como a menina?. angustiada: "O dele não será assim. nem muito infeliz. porque trabalhava melhor do que ela. A cartada estava jogada. agitando ao de leve as hastes amareladas do trigo.. com os olhos muito abertos: — É mentira. acaba de me pedir em casamento. como disse o senhor Rouchenne.. O futuro lho dirá. pois tinha dito: "Sou sua noiva". continuaremos a considerar-nos isolados. quase imóveis na luminosa quietude daquela tarde. apesar de toda a paixão do mundo. Fique descansada que não é homem para isso... — Seja.. A prova é que... Tão depressa!. que talvez me estime... prestes a conspurcar a minha reputação. Pensei.. Diante de mim estava aquele rosto crispado. Com o senhor de Trézonnes tenho o pressentimento de que serei as duas coisas.. um marido honrado... era o amor feito de confiança.Soltou uma surda gargalhada... de suave e terna intimidade.. Decidime: ia pronunciar as únicas palavras que podiam tapar a boca a esta pequena. a união de dois corações.. porém estou certa de que.. na solidão da minha alma. Sou a sua noiva. Tem a liberdade de acreditar ou não.... naturalmente. Que ia eu dizer?. de protectora meiguice. e eu também o hei-de amar. Angelina teve um sobressalto. ele não saberá compreender.. Amar-me-á "loucamente". mas tive frio de repente e pensei: "Será possível?...

O senhor Gui será mais feliz com a menina do que se desposasse milhões. não é verdade. respondeu-me: — Como já lhe disse..XVII O meu casamento ficou oficialmente estabelecido. Foi nesta disposição de espírito que recebi a primeira visita do meu noivo.. que apenas preconizava desgraças para a futura viscondessa de Trézonnes. Agora cumpre esperar que ele não seja tão altivo. Vestira o meu vestido azul. quando se falava do seu eventual casamento: «Não será um marido muito meigo». minha boa menina.. não pense nisso. só ele conhecia o jovem castelão. Participei-o aos Bardeaume e à senhora Mossette. quase medrosa. partilhando da angústia e da alegria tímida. Sempre ouvi dizer. Convencia-me de que. e a minha opinião é baseada no que ouço dizer a seu respeito cá na aldeia. fique certa. dum lindo vermelho escuro. Olha!...... minha filha. no dia seguinte á resposta por mim dada ao senhor Rouchenne.. A viscondessa e Jaquelina . entende de tudo. Dará uma linda castelã. Já estás a atemorizar a menina Gillette com as tuas idéias!. toda perfumada com o aroma das belas flores chegadas da Bottellerie naquela manhã. que me invadia. Já está pálida!. Estas mesmas dúvidas fui encontrá-las na senhora Mossette. confessando-se encantadas com a escolha do seu enteado e irmão. ninguém sabe nada. porém. apenas as palavras do senhor Rouchenne eram francamente animadoras.. e que não devia dar demasiada atenção à opinião geral. vejo raras vezes o senhor de Trézonnes. que é a sua maior dúvida. E quanto ao seu caracter. Catarina deu-lhe um repelão no braço: — Ora cala a boca!. porque a menina é trabalhadeira. que o senhor visconde não teve mau gosto!. No fundo. — Sem dúvida!... Quando perguntei à velha senhora se podia precisar as suas duvidas a este respeito. O que se sabe ao certo é que o senhor de Trézonnes tem óptimas qualidades. Julião?. de que uma mulher inteligente. onde é tão compassiva para com os infelizes. Estou segura e que a tornará muito feliz. Deixe lá. Ora vamos. a senhora de Trézonnes e Jaquelina abraçaram-me. e Catarina exclamou: — A menina bem merece este bom casamento! Uma jovem tão corajosa!.. agradeceu-me em termos bastante amáveis. Depondo um beijo na minha mão. mas eu sabia bem que o caracter do senhor de Trézonnes lhe deixava alguma dúvida acerca da minha felicidade.. e além disso já é estimada em toda a região. A admiração dos meus bons caseiros transformou-se logo em alegria. discreta e amável pode quase sempre exercer sobre o marido uma influência muito grande e transformadora.. porque a ama muito. Fomos para a pequena sala de visitas... Nada disto me tranqüilizava o bastante... única coisa que é para recear. Todavia ficava inquieta. Catarina procurava imprimir à sua expressão um cunho de convicção. melhor do que ninguém. tendo na cinta uma das minhas rosas.. O senhor de Trézonnes vinha acompanhado da madrasta e da irmã.

e senti que o seu olhar pousava sobre mim. menina Gillette?. e as senhoras um pouco atrás. . examinando atentamente as árvores frutíferas... já tinha notado que não gostava de tomar parte na conversa. — Quer mostrar-nos o seu jardim. Teria ele tido esta atitude e esta expressão?. que me pareceu experimentar uma espécie de sofrimento físico. quando provocada pela sua madrasta. que já lhe tinha notado . Então como é? Ergui os olhos e encontrei os dele. e pus-me a imaginar o desdém que transbordava da sua alma pelo meu pobre jardim!. Passávamos perto duma cerejeira. murmurei: — Precisa de afectos e de ternura familiar. e vi nos seus aquela claridade de vida longínqua e concentrada. Oh! Como poderia acreditar que me amava?. cercava-nos uma quente humidade. O dia estava um tanto cinzento e brumoso. e dissimular o embaraço que sentia com a presença do senhor de Trézonnes. voltando-se para mim... — Já está de verdade bem acostumada a esta casa? — perguntou-me ele.falaram muito. O visconde observou: — Já é tempo de colher as suas cerejas. Observava a senhora de Trézonnes. ela forma um lindo contraste com o azul claro do seu vestido. A chuva da noite tinha humedecido a terra. para não sujar os seus pequeninos sapatos abertos. felizmente. porque eu estava tão comovida. Demos alguns passos calados. que caminhava com cuidado... Parou sob as tílias e olhou as rosas vermelhas. Ao voltar para casa. o senhor de Trézonnes. como eu. Com os lábios um tanto trêmulos. O seu olhar tinha-se afastado do meu. pelo contrário.. — Um caracter como o seu?. enquanto marguiávamos os canteiros de legumes.. após termos visitado as colméias. O senhor de Trézonnes também falou pouco. — Tanto quanto nos podemos habituar. encontrámo-nos. um fruto bastante maduro caiu sobre as costas de Gui de Trézonnes e esmagou-se no chão. que cobriam a fachada quase em ruínas. disse-me a meia voz: — Deixe-a.. atrás delas. O meu coração sentiu uma opressão tal. o senhor de Trézonnes e eu. Com um gesto nervoso eu ia desfolhando maquinalmente a que trazia na cinta. tão perturbada. Se "ele" tivesse sido outro!. porém. nuns passos miúdos. Abrandou o passo. o que me permitia responder apenas com algumas frases curtas. Estou ansiosa por ver as suas colméias — disse Jaquelina. Devo convir que na verdade era pouco interessante e duma desagradável futilidade.. tão bem tratados pelo Bardeaume e pelo Tiago.. por monossílabos até. Íamos adiante. De novo os nossos olhos se encontraram. quando se tem um caracter afeito à solidão e à tristeza. sempre enigmáticos.. Mas como tudo isso me importava pouco!. mas ardente.. e os pés afundavam-se ao de leve no solo argiloso dos estreitos carreiros. minha senhora. as quais impregnavam o ar com o seu odor acre e pesado. que não encontrava nenhum assunto para falar. À margem dos passeios desfolhavam-se as anémonas sobre as couves.

que o crepúsculo veio surpreender-me. . encostei a cabeça às mãos e fiquei por muito tempo pensativa — tanto tempo. No dia seguinte o senhor de Trézonnes partiu para Paris. na minha triste solidão de órfã. talvez para não se encontrar mais comigo. Murmurei: — Pois sim!.. ficando combinado que. depois disso vio quase todos os dias. esforçando-me por sorrir: — Não tenho muita esperança nisso! Veja como é reservado!. receando que não fosse para mim o terno amigo idealizado. este envolvia-nos num olhar de terna satisfação. Vai ver. Na sala de visitas reunimo-nos às duas senhoras. Quando estávamos perto do bom senhor Rouchenne. quando os seus olhos incidiam sobre os meus. Procurava libertar-me do embaraço que me dominava. — São as aparências. e tendo um marido à volta do qual andavam todas as mulheres! — Ora veja. sempre que estava perto dele. e raras vezes lhe notava nos olhos aquele brilho que tanto me perturbava.. Com a mesma voz grave e calma o senhor de Trézonnes acrescentou: — É encantador o seu vestido cor do céu. Ele queria a Meulière. mas era forçoso confessar que a sua atitude não me ajudava. — Creia que o senhor Gui há-de dar um bom marido. menina Gillette!. visto que na minha situação um noivado muito prolongado teria sido incômodo. A sua atitude não mudava: sempre cortês. porque pensava na minha mãe. tinha partido para Niort. sempre amável. Consegue tudo o que quer! Por outro lado esta pobre gente vivia muito desconsolada. mas unicamente o prepotente senhor. ao contentamento tinha sucedido a inquietação. quer na Sauvaie. no futuro e no meu noivo. Muito rica. Senti o coração perturbar-se-me. Esta tia há muito que a andava convidando para a auxiliar no seu negócio. Usá-lo-ei. e os meus olhos trêmulos baixaram-se um pouco. toda palpitante de receio e tristeza. E que castelã!. Esteve ausente quarenta e oito horas. que possuía uma pequena loja de miudezas. se lhe agrada. devido à minha condição de isolamento..algumas vezes. a quem amava. quer no castelo. Acompanhei-os até ao portão enferrujado. O ancião não ocultava o prazer que este casamento lhe proporcionava. Embriagava-me o perfume das flores de noiva. onde vivia uma sua tia.. iria eu mais vezes ao castelo. O nosso casamento devia realizar-se três semanas depois. Os visitantes então despediram-se. apenas... menina.. em seguida voltei lentamente e sentei-me perto da mesa... Vai ver como será feliz! Respondi-lhe. Angelina. menina Gillette. quando se conhecerem melhor!.. Posso-lhe pedir que o traga muitas vezes durante o nosso noivado?. a fim de comprar o meu anel e o enxoval. como o senhor de Trézonnes não podia vir a minha casa. Catarina envaidecia-se ao pensar que a "sua menina Gillette" ia tornar-se "castelã". tremendo. muito reservado. senhora dum lindo castelo. Na Meulière. porém até . e obteve-a.

dizendo-me que a Jaquelina andava colhendo flores no jardim e que o Gui me pedia desculpa pela ausência. e que hoje lhe fazia falta para continuar a sua vida ociosa. Estava lá apenas há oito dias e já a tia se queixava dos seus modos. E sobre esta.. Abanou a cabeça com um ar de profunda mágoa. e a Jaquelina estará de volta dentro dalguns minutos. Mas quem sabe se o pai não acabará por ceder? — Duvido bastante. mas o pai proibiu-lho terminantemente. E que tem ela?. — Sim.. mais para chorar um pouco. mas se ele ama a Jaquelina?. Luís pode encontrar um melhor partido. O senhor de Subrennes não muda facilmente de idéias. um grande desgosto. Já o tinha visto várias vezes na Bottellerie... Cem mil francos?. devida a um pequeno acidente ocorrido numa das suas quintas.então os pais tinham-se oposto a que ela deixasse o campo. Pareceme que devia ser muito feliz com ele!. Luís de Subrennes?. para se isolar uns instantes. o mesmo já não se dava com a mãe. Desta vez. após uma séria questão. e assim compreendi melhor a atitude de Gui a seu respeito. Jaquelina ama o Luís de Subrennes.. — Que pena!... mas numa escala mais modesta.. Estou convencida de que saiu. e que o obrigara a sair de automóvel logo depois do almoço.. pois que apenas este podia dispensar-lhe um pouco daquele ouro que tinha dissipado outrora... — ..Deve estar aqui provavelmente às cinco horas.. por achar muito insignificante o dote. Tal como o senhor de Trézonnes. compassiva. Era um belo rapaz. do que para apanhar flores. que também lhe quer muito. O Gui não quer dotar a irmã com mais de cem mil francos!. — disse eu. Nestas condições mostrava-se bajuladora ante o jugo do enteado. Posso confiar--lho.. no entanto.. . simpático. Fez-me sentar perto dela.. na pequena sala de visitar.. Por parte da Jaquelina sabia que estas demonstrações eram sinceras.. que nunca pensaram na sua responsabilidade. o pai e ele administravam os seus domínios. De que servem hoje em dia?.. — Chorar?. desesperados: "Que havemos de fazer?" As senhoras de Trézonnes continuavam a patentear-me as mais vivas provas de amizade. de olhar franco. Parece-me que em tais casos a questão monetária deve ficar em segundo plano. Algum desgosto? — Sim. desvaneceu-se logo a pequenina simpatia que sentia por ela.. oito dias antes da data fixada para o casamento. e que em toda a sua vida apenas amaram os prazeres. Quando a conheci mais intimamente. A senhora de Trézonnes era destas almas deveras frívolas. elegante e frívola. o luxo e as f utilidades. deixaram-na partir. e de maneiras distintas... dou-lhe toda a razão. Com o seu nome e a sua bela fortuna.. agora que vai fazer parte da nossa família. encontrei-a só. E os Bardeaume perguntavam.. Uma tarde. onde regra geral costumava estar. da sua preguiça e das suas vaidades. Pobre pequena!. Ele deseja desposá-la. — Pobre Jaquelina!... situados a alguns quilômetros da Bottellerie.

Fiz um instintivo movimento de protesto: — Oh! minha senhora!. — Ele sabe que é apenas essa questão de dinheiro que impede a felicidade da Jaquelina? — Oh! É claro que não pode ignorá-lo!. na parte que diz com respeito ao casamento da irmã. Fez-se um longo silêncio. e isso da parte dele admirou-me muito. por experiência. admirando a luz que entrava pelas janelas abertas. e estava sentindo um certo ódio à senhora de Trézonnes. pensava em retirar-me.. a menina escolherá o momento propício para lhe fazer tal pedido. Por muito reservado que seja. passando pelo rosto o lenço perfumado. pondo a mão no meu braço. quando esta apareceu. — Oh! não!. Fique sabendo que no casamento o dinheiro é a primeira condição! — Nem sempre! — respondi eu. Seria muito natural. — É uma excepção... — Prova-o o senhor de Trézonnes. a quem o senhor de Trézonnes vai desposar sem dote!. incidindo sobre os claros tapetes e sobre os móveis elegantes..... Pensando em Jaquelina. Mostrei-me mais afectuosa para ela. Aliás. Como desconhece a vida!. A senhora de Trézonnes suspirou.... — Eu. Mantive-me calada. que evidentemente o encantaram. o Gui ama-a muito. Não obstante. pretextando ir ao encontro da Jaquelina. fitando-a com surpresa. Pense no quanto esse caso seria delicado para mim.. lamentando com sinceridade o não poder advogar junto do irmão a sua causa... que. A minha posição impunha-me a mais restrita delicadeza. Porém com a sua fortuna pode dar-se a esse luxo. procurou encobrir. Quando for sua esposa.A senhora de Trézonnes olhou-me com um sorriso de piedade: — Oh! minha querida menina!. . sem ter com isso nenhum prejuízo. Mas ficou impassível. Neste momento agravou-se a minha antipatia para com a senhora de Trézonnes. que escolheu uma noiva pobre. demonstrava o desgosto que me causava tal pedido. Penso portanto que podia dotar melhor a irmã.. Tenho porém a certeza de que neste particular a menina tem os requisitos necessários. para lhe minorar a mágoa que a apoquentava.. que ao ver-me. sob um forçado sorriso... por mais insensível que seja. que pedido directo não dá resultado. Trazia os olhos vermelhos e uma expressão de profunda mágoa. Quebrou o silêncio a voz da senhora de Trézonnes. Que me está pedindo?. Supunha-o mais interesseiro. Voltei-me. sem falar nos seus lindos olhos. Imagine que não gasta nem metade das suas rendas!. Mas era impossível. parece-me que poderá tentar obter dele que seja mais generoso. deixei errar o meu olhar ao acaso.. E sei. por não o ter compreendido. Ele não pode pretender que todos tenham o seu desinteresse. quando o conhecer melhor. minha senhora? — Sim!. Como um homem como o Gui é preciso ter uma infinita cautela e muita inteligência. murmurou: — Talvez que a menina pudesse fazer alguma coisa em nosso favor.

que não quiseram agasalhar na sua confortável "Vila das Palmas". — Irá também à Sauvaie? — perguntou-me. junto dele. A mudança de tratamento acabava de me tornar mais evidente a próxima transformação da minha vida. dei uma volta. a quem ia algumas vezes levar uma pequena esmola. enquanto me acompanhava até ao portão. Ainda há pouco me disse: "o seu casamento com a menina Gillette é a minha última alegria". corando: — Sim. Já não era a "pobretona". Seria servido um almoço a todos os caseiros e seus criados. Outro substituirá mais dignamente o pai que não tenho. já agora tão próxima. De passagem. porque a ama sinceramente. porém. tinha-se demorado uns minutos na Sauvaie. compreendi com mais clareza que já estava unida por um forte liame ao senhor de Trézonnes. Tínhamos chegado perto do portão. onde a encontrei com os dois filhos. Irei vê-lo à tarde e ficarei a trabalhar um pouco. supondo que o caminhar e o ar livre poderiam acalmar os meus nervos um tanto excitados. como de costume. — Vou. Ficou de voltar no dia seguinte e demorar-se lá mais tempo. Murmurei com comoção: — É um bom amigo!..Gui chegou pouco depois das cinco horas. Beijou-me as mãos... o acidente que motivara a sua ausência não fora de gravidade. O meu pensamento evolava-se para essa cerimônia. — Ficará muito satisfeito. Cheguei a casa da indigente. e murmurei: — Até amanhã. e quando cheguei à Meulière o sol já se tinha posto. assim como a todos os habitantes da aldeia. Ao voltar. onde encontrou o senhor Rouchenne um pouco adoentado. Mudei de vestido distraidamente. Esta brilhante união reconciliava-a por completo comigo. Gui. numa das grandes alamedas que . o carteiro entregou-me uma carta da senhora Barduzac. sim. Até aqui custou-me a convencer que este noivado não era um sonho. enquanto entrava em casa. senhor visconde. Transpus o portão num passo apressado.. estendi-lhe a mão: — Então até amanhã. uma violenta comoção se apoderara de mim. Abri-a e percorri as suas linhas. Em lugar de entrar directamente em casa. ao mesmo tempo fui saber duma pobre viúva doente. minha querida senhora—murmurei—. não será pelo braço do senhor Barduzac que entrarei na igreja. que os meus modestos rendimentos permitiam. — Não acha que poderíamos suprimir este cerimonioso “senhor" e “senhora”? Respondi. Demorei-me um pouco. hoje. A esposa do meu ex-tutor respondia à minha participação de casamento com umas felicitações calorosas. Dobrei a carta com um sorriso de desprezo: — Não. a intimidade que ia ter dali para o futuro com este estranho. Seria uma grande festa para a aldeia. Informava-me também que o senhor Barduzac se sentiria muito feliz em me servir de padrinho. talvez.

— Uma filha por quem tanto temos sofrido!.. Apenas a noiva. com o rosto entre as mãos.. A Juliana diz que com certeza se vai perder!. de pé.. O senhor de Trézonnes tinha-se mostrado duma admirável generosidade. um tanto trêmula. estava a Catarina.. muitíssimo!. vinha acariciar as peles e as rendas. com varetas adornadas de diamantes.. um antigo... Tentei persuadi-la de que a Angelina em breve sentiria remorsos e voltaria à casa paterna. a chorar. para se ir empregar em Paris. sentada.. Dois leques. Em seguida haveria um baile e todos deviam ficar satisfeitos. pois só os havia contemplado em sonho. compreende. — Fica-te muito bem. dirigi-me para a quinta.. agora mergulhada na indecisão do crepúsculo." XVIII Alguns dias depois o senhor de Trézonnes ofereceu-me o enxoval que tinha comprado em Paris... infiltrando-se pelas janelas semi-abertas.. estavam nos seus estojos de cetim branco.. devido a estas preocupações. Então. Os filhos de hoje não têm coração. . inquieta.. e Gui seguiame com os olhos.— murmurei. esses esplendores maravilharam-me. . Próximo do fogão. outro em platina.convergem para o castelo. . se manteria mergulhada na incerteza do seu destino. E repetia comigo mesma: "Daqui a oito dias!. Na sala.. com voz rouca: — Acabamos de receber uma carta da minha cunhada. Um quente sol de verão. — Oh! Gui!. Foi o Bardeaume quem falou. A Angelina deixou-a. onde me levou. abanando a cabeça. pois não me parecia segura bastante para nela se guardarem objectos como esses. com os braços pendentes ao longo do corpo. A meu pedido não o mandou para minha casa. E filosofei com tristeza : “Porque não os ensinaram a pensar nos outros!.. no meio das quais procurava uma luzinha de esperança. obrigada!.." Com o espírito perturbado. fazia cintilar os diamantes. as esmeraldas e os rubis muito bem trabalhados. exprimindo a minha admiração. Dentro de oito dias!. Na sala de visitas. — Que há? — exclamei. Depois adiantou-se. tudo isto te agrada? — Oh! muitíssimo! Ia duma coisa para a outra. que representavam uma verdadeira fortuna. — Mas isto é muito. como eu pensava.. Só pensam neles. E sem nada nos dizer. disse entre dentes: — Nunca mais voltará. A minha pobre ama causava-me pena. pegou numa pele e chegou-a perto do meu rosto. menina Gillette? — Será possível que nos dê um tão grande desgosto? — gemeu a Catarina. estava o Bardeaume. menina.. Bardeaume porém.. Não estou habituada a ser assim mimoseada! — É uma coisa a que facilmente nos habituamos.

Com um gesto maquinai pousei sobre uma mesa o estojo que tinha na mão. — Esta parte do castelo é a mais agradável — disse ele com a mesma voz tranqüila. Nunca me atreverei a usá-lo!. que sentia o seu hálito no meu rosto. — Lá em cima ficam os meus aposentos e também uma parte dos teus. tão perfumada e emoliente. senão por ti? Vendo-lhe de novo aquele olhar apaixonado.. — Ah! sim! — murmurei. Calou-se por um breve instante. e a sombra espalhava-se com tal doçura. Ele porém endireitou-se. Fui até uma janela. dentro de três dias será meu marido". e tê-la . O sol não iluminava já esta fachada. faziam desta sala uma espécie de museu. que murmurei a meia voz: — Que delícia! Estava perto de mim e tão inclinado. dum gosto sóbrio e magnífico. — Oh! mas é uma loucura!. — Sim. Como eu concordasse. duma leve decepção.. Não me tinha ainda refeito por completo da minha comoção.. Quase não a conheci. mas a lembrança que dela conservo é indelével e profunda. donde se descortinavam os jardins e o parque... Um vestuário assim!. abriu uma porta e fez-me entrar numa ampla sala de quatro janelas.. Gui? — Raposa prateada. e todavia estava sentindo no coração uma espécie de sofrimento. Em cima da secretária vi a fotografia de sua mãe ao lado da minha. depois do que prosseguiu. era uma santa!. O senhor de Trézonnes mostrou-me alguns objectos mais preciosos. tive a impressão de que os seus lábios se aproximavam e me iam beijar. cheia de tapeçarias antigas. Móveis da renascença. sem que os seus lábios me tocassem. num misto de angústia e alegria : "Já lhe assiste algum direito.. Exclamou com calma: — Por quem poderia eu fazer loucuras. ocultei os meus olhos sob as pálpebras frementes. e pensava.. Vendo que me inclinava para a observar.. esmaltes. explicando-me as respectivas origens. pegou nela e apresentou-ma. marfins. — Tem uma grande expressão de bondade e doçura!— pensei em voz alta. numa voz que de súbito se tornou áspera: — Há duas coisas que nunca pude perdoar a meu pai: foi o ter feito sofrer minha mãe.— O que é. Voltei para a sala. não me atrevi a esquivar-me. Gui pousou a pele sobre uma poltrona e perguntou-me : — Queres ver o meu gabinete de trabalho?.. maravilhas de velhos artistas e alguns quadros de antigos mestres. Na minha frente estendia-se um terraço. É o lugar onde de preferência me encontro sempre. — Oh! Como gosto disto! — exclamei com espontaneidade.

. — Nunca amaste? — perguntou-me no mesmo tom breve e áspero. minha querida Gillette. Perguntar-te-ei isso mais tarde!. Ainda uma vez mais as minhas faces enrubesceram. sem me atrever a olhá-lo. E recusaste? Em breves palavras expliquei-lhe como se deu a minha ruína. a qualquer coisa que te digam.. um conselheiro. Já estiveste noiva antes de me conhecer? — Sim. O senhor de Trézonnes deixou escapar um sorriso um tanto irônico: — Permite que te felicite!.substituído por essa boneca sem miolos da minha madrasta.. Quase tão lindos como os teus. deu alguns passos pela sala. — E a mim?. ele porém susteve-me com um gesto. espero que te não irá parecer muito indiscreta.. Era um espírito agradável. — Ah!. E fico imensamente satisfeito que não sejas dessas!. Não podia ser para mim um guia.. pelo menos com um amor profundo. —Não. Nas minhas mãos tremeu ao de leve o porta-retratos.. Teve um encolher de ombros. Agora vem. — Mas qual teria sido essa resposta? — Naturalmente teria aceitado. no limiar da porta. não me respondas!... Calei-me.. com uma espécie de aspereza. Segui-o e sentámo-nos num banco.. Amas-me?. depois voltou até junto de mim e inclinou-se para ver melhor o retrato. Para . ou falaria sério? Coloquei o retrato sobre a secretária e dei um passo para trás. — Peço-te desculpa. donde se admirava. — Nunca. confusa. —Nesse caso vamos sentar-nos ali fora.. diante dos nossos olhos. mas estou um pouco fatigada — balbuciei eu... Deu-me a impressão de estar dominado por outra idéia. mas superficial.. em Largillais. — Queres dar-me um instante de atenção? Tenho uma pergunta a fazer-te. brincava com os galgos do irmão.. Só agora percebo que não o poda ter amado. O dia está lindo e esta hora é bastante agradável. — Vês que lindos eram os olhos da minha mãe?.. As jovens de hoje não coram assim. Vamos dar um passeio pelo parque. perto do grande canteiro central. Como coras depressa... com uma moldura delicadamente trabalhada. Fiquei quieta e calada. ante as palavras que acabava de pronunciar. Estaria escarnecendo de mim. toda a fachada do castelo. antes da minha resposta ao doutor Borday. Jaquelina. — Não. Desta vez foi uma verdadeira vermelhidão que me incendiou as faces. fica sabendo. Abanei a cabeça. — Amava-lo?—perguntou-me. antes do chá. Gillette. Na situação em que já estamos... porém o senhor de Trézonnes parece que não o notou.

— Oh! Gui! Como agradecer-te!. Ela ama o senhor de Subrennes. porém quando estivermos casados. — Posso assegurar-te. não me causes a mágoa de me julgar um indivíduo vulgar. — Não tenho simpatia por ela. por simpatia pela Jaquelina. — Não! — protestei eu. Não me competia. porque sabia que.. feita à queima-roupa. Agrada-me a tua delicadeza.. garanto-te que te teria dedicado um certo afecto.. Tratei de o fazer ver à senhora de Trézonnes. Um tanto surpreendida. — Muito bem. um pouco. observei-lhe: — A Jaquelina parece que anda abatida há uns tempos para cá. E se. desejas que lhe aumente o dote. e sem segunda intenção. não achas? — Parece que sim. não quero que vejas nas minhas palavras mais do que um juízo sincero. Desde já podes dar qualquer esperança a minha irmã. a mim. diante do qual se baixam aduladores. Em todo o caso. Talvez percebesse neles a censura que intimamente formulava. diz-mo com toda a confiança. murmurei : — Oh! Gui. mas isso há-de passar. como ficaria satisfeita se tal fizesses!. Os lábios contrairam-se-lhe num rito de amargo desprezo.. — Afirmo-te que a Jaquelina merece um melhor conceito. a respeito do teu coração. O senhor de Trézonnes inclinou-se e pousou os lábios nos meus dedos. que para mim constitui mais um dos teus encantos. imiscuir-me em questões dessa natureza. Gui. comovida.. — A Jaquelina ficar-te-á deveras satisfeita. Estendi-lhe a mão. refiz-me porém logo e. Se lho tivesses permitido.quebrar o silêncio. a exemplo da mãe. mas recusei. Sempre os tratei como estranhos. que vou casar sem ter o mais pequeno dote. como se tudo não passasse a ser comum entre nós. mas não creio tê-lo conseguido. intervindo em seu favor.. e sofre muito. Tem um grande fundo de bondade e um coração capaz duma estima sincera. fixando-o bem de frente. replicando: — Agradeço-te por ela e por mim. visto que o senhor de Trézonnes nada dizia. . é tudo quanto amam em mim. Gillette? — Sim. que lembrasse à esposa que o dinheiro é dele. Esse caso será solucionado logo após o nosso casamento.. nem pelo irmão. que eu muito admiro. porque perguntou: — Achas-me severo para ela. só viam em mim apenas o dinheiro. nem pela irmã. que lhes posso dar. que não me molestarás. repliquei: — Quis na verdade encarregar-me disso. — murmurei. — Não o faço pela Jaquelina — faço-o por ti. — A mãe encarregou-te de defender a sua causa junto de mim? A pergunta. Gillette. isso ajudá-la-á a aguardar com paciência. O ouro que lhes dou.. Ergui os olhos para ele. apanhou-me de surpresa.

timidamente. para os móveis. que assim me fez.. Às vezes parecia-me que me amava muito!. "mas foi aqui que encontrei um refúgio para a minha pobreza. Levou-me à igreja um automóvel enfeitado a flores brancas. deveras extravagantes. falou com suavidade: — Agora. Outras. reservado!. Prometi a Deus. com quem ia compartilhar das alegrias e das tristezas da vida. que me comoveu bastante. O meu espelho e as exclamações da Jaquelina já me tinham feito notar que o vestido branco me ficava uma maravilha. pronunciou uma breve alocução. primo de Gui. pelo olhar com que me recebeu o senhor de Trézonnes." Olhava com enternecimento para as paredes do quarto. fui o alvo de todos aqueles olhares. tornava-se frio. vamos tomar chá. Gillette. no meio do quarto.. quando saí do templo. a senhora de Trézonnes e os filhos. olhando-me longamente. Por fim disse-me. — Não é a mim que deves agradecer. A assistência não coube na igreja: ficou por isso cá fora. a sorrir. O abade. por seres tão bonita. arranjando-me o véu e a cauda do vestido nupcial. Pensava: "Em breve estará tudo terminado!. mas a Deus. e ouvi então algumas opiniões elogiosas a nosso respeito. olhando-o. — Agrada-te o meu vestido? . o Gui. No salão esperavam-me.. Um beneditino. . — Tens a vantagem de não te tornar feia. que devia levar-me ao altar. Logo que ficámos sós no carro que nos levou ao castelo. para tudo enfim quanto eu ia deixar para seguir a Gui de Trézonnes. Sentia-me embaraçada e muito comovida. Acabei de me convencer desta verdade. e vou trocá-la agora pelas incertezas do desconhecido. para agradecer a estes bons camponeses. Oh! mas se ao menos o Gui fosse um pouco menos enigmático. se te aprás. vestindo essas modas descabidas. quem sabe se não faria felizes descobertas. Estava de pé. XIX Chegou finalmente o grande dia. quando entrei no salão. Enfim..endireitando-se. Gillette. Sorri. Voltei a cabeça.. a meia voz: — Obrigado. Tens um gosto distinto. Será um juramento para toda a vida!. enquanto a Jaquelina e uma criada da Bottellerie andavam à minha volta... sem dizer palavra. foi aqui que passei em sossego estes curtos meses. espalhada pelo adro. Gui. tinha-me servido de padrinho no civil. pelo braço de Gui. estava também o senhor Rouchenne. do fundo da minha alma. Oh! era bem velha e bem triste a minha pobre casa. Gui pegou-me nas mãos.. lançando uns vagos olhares para as flores que se ostentavam diante de mim. apenas restabelecido dos seus violentos acessos de febre. ser uma esposa dedicada e tentar sempre bem cumprir os meus deveres.. e alguns amigos íntimos dos castelões. depois de o conhecer melhor?..

. era também bonito. Diante de nós estendiam-se os jardins do castelo. e quando cheguei junto dele e lhe toquei ao de leve no braço. — Que vestido deseja. Um quarto de hora depois entrava no gabinete de Gui. sem parecer ter-me ouvido. gosto dos teus olhos. vi o meu marido de pé. admirando-me durante os poucos minutos que decorreram. Pondo a mão nos meus ombros. Olhei para todos os vestidos que tinha mandado fazer em Niort... Mas em qualquer outra não alcançaria metade dessa elegância. tão ardentes eram.. Continua a não te envaidecer com essa beleza e faz desses dons do céu o ornamento do teu lar. tenho medo de ti!. Foi então a grande recepção. na doce calma do dia que agonizava. continuou. tão delicado.Imenso. calado. que mos prendiam.. Deixou-me ali. abundantemente servido. até o carro chegar à porta do castelo. Gillette.. minha senhora? — perguntou-me a criada. E eu. concluiu: — E a alegria do teu marido. Júlia. e o baile dos caseiros. Gui conduziu-me então até aos meus aposentos. teve um ligeiro estremecimento. murmurou: — Gillette. Parecia-me que devia gostar deste.. Só devíamos partir para a nossa viagem à Noruega no dia seguinte. Foi apenas pelas seis horas que os convidados deixaram a Bottellerie. meio trêmulo: — Amei-te desde o dia em que te vi na sala da Meulière. És muito linda... numa voz um pouco trêmula. no terraço. Estavas encantadora. por muito tempo. fazendo o teu trabalho de dona de casa. — Oh! desculpa!. duma cor-de-malva esbatida. ofuscando-os. Oh! se pudesse saber a preferência do meu marido?. Olhou-me. Não me tinha visto.. — Gillette. depois. — Fica-me bem? — perguntei. A sala estava deserta. Estremeci ao de leve. Depois olhou-me.. e infinitamente sedutora... dizendo: — Espero-te no meu gabinete. Gui murmurou : —O teu vestido tem ainda a tonalidade do céu. desse harmonioso conjunto. onde estava uma criada à minha disposição.. Não podia desviar os meus olhos dos dele. O vestido branco era encantador. tinhas tanta — . Inebriava-me uma felicidade ainda velada dum vago receio. compreendi um dia que tinhas medo de mim!. — Oh! Gui! Com voz dolente. Esta tarde jantaríamos sós.. de linhas elegantes e com uns graciosos ornatos de renda. — Vestirei o cor-de-malva. Depois calou-se e ficou estático. o almoço. nos aposentos de Gui. mas o outro. Não respondeu e voltou os olhos. dirigindo-me porém para a janela.. E depois duma breve hesitação. pegou-me nas mãos e apertou-as contra os lábios. A luz desvanecia-se lentamente e o céu cobria-se duma clara tonalidade rosa-lilás. que eu e Gui abrimos.

. Ameite cada vez mais... Por que me deixaste sofrer na incerteza.. Obstinei-me por muito tempo. Espera cinco minutos. Na manhã seguinte. meu amor!. a mais feliz das mulheres.. Há porém tantas maneiras de amar!.. sou um orgulhoso. Contudo era preciso dizê-las.. numa expressão que a comoção sufocava. se já me não temes! — exclamou ele.. e hoje pareceu-me tão fácil de fazer! Que ternura ardente e profunda transparecia nos seus olhos!... Gui.. respirando a custo. que acabo de te dizer. Repito-te... Embriagava-me uma indizível felicidade e já não sabia ao certo se estava na vida real... ou se tudo aquilo era um sonho. para não deixar de me acompanhar ao altar? Quero ir contigo. aproximou-me dele... pareciam-me bastante duras. e quantas vezes as tive suspensas dos lábios!... murmurando: — Leio nos teus olhos.. tanto! Gui beijou-me as pálpebras..franqueza.. Desejo que o teu amor seja todo feito de ternura e confiança. Não ignoro que estou pedindo uma coisa quase impossível. como eu quero dar-te o meu? A meia voz.. Ontem estava na verdade muito fatigado!. — Diz-me se tens confiança em mim. em cada um dos nossos encontros. — Oh! meu querido Gui.. Gillette?.. Por que não me disseste isso antes?. porém. Estas palavras. entrou Gui.. Gillette!.. XX A dor vive sempre ao lado da alegria.. se experimentasses. porque eram um atestado da minha fraqueza de homem ante o teu poder de mulher. — Perdoa-me. Mas sou um orgulhoso e. Vou até lá um instante. Se quisesses dar-me o teu coração em toda a sua plenitude. respondi: — Oh! Gui!.. que apenas desejo uma coisa: amar e ser assim amada? O seu braço enlaçou-me.. e decidi um dia que serias minha esposa. — O criado da Sauvaie — disse-me ele — veio avisar-me de que o pobre Rouchenne está muito doente. quando estava a acabar de me aprontar... não é verdade?. A sua fisionomia entristecida chamou-me logo a atenção. e a minha cabeça ficou descansando nos seus ombros. . tanta expressão de pureza e coragem nos belos olhos!. Aí está a razão por que tenho medo do que não conheço de ti. a mim. acerca dos teus sentimentos. nos teus lindos olhos negros!. um sentimental. e que nunca enfraqueça.. com receio dos dissabores da vida. Talvez tivesse feito algum esforço demasiado. Sim. Sei que me amas. amo-te tanto!. das desilusões que poderás causar-me!... Nunca imaginaste que eu fosse assim... É que me revesti desta frieza e desta aparente severidade..... — Oh! o nosso bom amigo!. Como tinha razão o nosso velho amigo! Ninguém conhece a tua alma!. Saberei tornar-te feliz. E exclamei com voz abafada : — Oh!. amas-me..

e nós inclinámo-nos para o enfermo. O padre aproximou-se. — Não. o nosso querido amigo! Elas tinham sido uma das pequenas alegrias da sua vida solitária.. e quando a teve entre as suas. O caixão foi conduzido por Gui e pelo prefeito de S.. À tarde deixámos a Bottellerie para iniciarmos a nossa viagem de núpcias. como quis tanto às suas flores. no meio da nossa felicidade. para o curar. Ao ver-nos.. Verá como ele é bom. — Soube-o o meu amigo! — exclamou Gui. donde acabava de sair o médico. Oh! Como as amava tanto. um tanto pálida. para lhe adornar o leito mortuário. Calou-se. mas as palavras tornaram-se-lhe ininteligíveis. os seus olhos calmos iluminaram-se. fixando-se em meu marido.. numa sala da velha casa dos Trézonnes. e todos três.. — Aqui estamos. fui colher todas as flores do seu jardim. voltou para mim o seu triste olhar velado.. O coração vai deixá-lo. O tabelião tinha-nos informado antes que o extinto legara a Gui. O ancião estava estendido na sua pequena cama de ferro. Um sorriso animou-lhe os lábios pálidos.. Um quarto de hora depois estávamos na Sauvaie. meu velho amigo! — disse Gui com doçura. João. bem como a terna face enrugada. Gui fechou-lhe os olhos e ambos depositámos na sua fronte o nosso último beijo. e a mim. a quem toda a povoação prestou homenagem naquele dia e no seguinte. os bordados da sua esposa. Por mais duma vez. A uma pergunta de Gui. desfilando ante os seus restos mortais. que se juntavam. O sol chegava até ele.. orando. O ancião quis falar ainda. em Paris. não para me curarem. porque os vejo casados. ouvindo o abade falar-lhe a meia voz. da sua vida simples e digna de homem honrado. O sacerdote retirou-se. os seus olhos ternos e reflexivos.. A sua mão procurou a minha. É preciso amálo muito. de homem valente.. quando um criado veio informar-me que Catarina de Bardeaume estava perguntando por mim. aquecendo-lhe as brancas mãos. Ninguém soube até agora amá-lo como ele queria.. um pouco mais de dois anos depois do nosso casamento. quando voltarmos! Por uma manhã de Fevereiro.. enquanto o meu marido e o criado tratavam de o vestir. evocámos as suas feições amigas. — É a mais linda das esposas. — Viemos para o tratar.enquanto vou pôr o chapéu. acabava de escrever uma carta. E dizíamos: — Como será triste não o encontrarmos mais. respondeu: — Chegou a sua hora. no decorrer da nossa viagem. assistimos à sua agonia calma. mas morro satisfeito. como a própria vida que se extinguia. Depois. a Sauvaie. o olhar de novo se iluminou por alguns segundos. comovido. O senhor Rouchenne já não tinha parentes. . Era a sua última lembrança. a última prova de afecto dum amigo dedicado de meu marido e ao qual me liguei por uma estima profunda nestes poucos meses. silenciosa e cristã.

Imagine que já não nos escrevia há muito! E pensarmos na vida que teria levado depois disso!. Contudo pôde dizer ainda: — Minha mãe!. aconselhou-me ele. Mas não fique tão desconsolada." Angelina morreu assim... enquanto a mãe. — Oh! Com certeza!. Mal tive tempo de procurar um sacerdote... Mande-a entrar. pobre Catarina!. A Angelina há-de curar-se... Depois de ter informado meu marido sobre o caso.. de andar apressado. que apagam os rancores. Escreveu-me a dizer que está muito doente. tanto quanto me fosse possível...... — Catarina em Paris!. foi-se aclarando pouco a pouco. Eles receber-te-ão certamente. Levantei-me para ir ao encontro da minha visitante. mas tive o cuidado de nada dizer à pobre mãe.. a sua infelicidade já era bastante grande... nos braços da sua mãe e daquela que tanto tinha detestado nos curtos dias da sua existência. onde já ninguém reconheceria aquela rosada Angelina da Meulière... por causa dos rins. disse: -— É a Angelina!. no hospital. Ah! Se tivesse ficado em casa!. quase irreconhecível... já nos últimos momentos. que talvez ainda não estivesse de todo extinta. Os seus dedos apertavam o crucifixo que lhe tinha posto entre as mãos. Tudo se acabou. Como eu lamento tudo!.. E logo depois: — Porque me deixou fazer o que eu entendia? Depois disso não falou mais... no ano anterior.. Sente-se. Já não tenho mais ódio. mas abafei um grito de espanto ao ver o seu rosto de amargura. “Vai.. indicou-nos a cama onde a Angelina agonizava.. mas falava com dificuldade. no meio de dois soluços. calma e perdoada.. acompanhei a Catarina ao hospital. Então inclinei-me. Isso parecia-lhe impraticável. pousei as mãos sobre a sua pobre cabeça emagrecida e disse-lhe palavras de consolação.. o olhar tornou-se mais suave. A fisionomia gasta. com uma expressão de sofrimento e desespero... acidentalmente. procura o senhor visconde e a senhora.. devido à terrível opressão que tinha no peito. Estava com certeza a lembrarse da sua odiosa inveja. arrependida... e ajudar-te-ão. tendo entre as minhas as mãos que lhe tinha agarrado.— Catarina! — exclamei eu. e eu só queria minorá-la.. O Bardeaume não pôde. Que tem ela? — Diz que sofre do peito!. Tinha sabido já alguma coisa a este respeito. minha pobre amiga”.. Mas não!. Diz que nos tens amado sempre!. . que queres voltar para a Meulière! A Angelina estava ainda na plena posse dos seus sentidos. e parecia dizer: "Tudo está acabado.. Foi por isso que vim.. Anselmo. enquanto o seu olhar se fixava em mim. Catarina? Que te aconteceu? E Catarina. Uma enfermeira. e que talvez seja o seu fim!. os remorsos e os sofrimentos. inclinada sobre a filha. — Que é isso. palavras que se repetem há tantos séculos. gemia baixinho: — Oh! minha querida!. Fui uma infeliz!.

que era sua sobrinha.. que repetia: "A culpa foi nossa. Desde há muito que pensava que os estouvamentos dessa pobre jovem a levariam para fora do seu bom caminho.. — Sim.. Gui. as suas mãos acariciaram-me demoradamente os cabelos. FIM Esta obra é distribuída Gratuitamente pela Equipe Digital Source e Viciados em Livros para proporcionar o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler.. em pequenas bátegas. — E agora. e enquanto falava. Oh! meu querido Gui!. Em volta de nós.. Gui olhou o meu vestido. o crepúsculo começava a descer. fui ter com o meu pequeno Roberto. fazia rodar um dos anéis que ornavam os meus dedos. o meu vestido é cinzento como este céu hibernal — cinzento como a vida! — Às vezes também há um pouco de azul na vida. — Se tivesse reflectido mais tempo. minha querida. A chuva. gostas de te vestir sempre da cor do céu. Dessa forma. que sem esta pobre Angelina talvez nunca fosse tua esposa — a tua feliz esposa! Contei-lhe então a breve discussão que tivemos.Levei para minha casa a pobre Catarina.. ao regressar da rua. nós é que a educámos mal" . para lhe dar a sua refeição. .. portanto distribua este livro livremente. Gillette? — Agora vejo que não sou infeliz. que não lhe conhecia antes do nosso casamento. na sala tépida e florida. apesar do meu grande amor por ti.. Pousando a cabeça nos seus ombros. Feito isso pus-me a trabalhar. Depois de a ter confiado aos cuidados da minha criada. quando saí da Sauvaie.. Sentara-se perto de mim... observando: — Na verdade. Que lição!. Gui. Com um gesto suave. enquanto o pequeno adormecia junto de mim. depois dele me ter pedido em casamento. Encostei o meu rosto ao seu e disse-lhe baixinho : — Sim.. a senhora Mossette!. Contei-lhe a minha visita ao hospital e disse-me. porque tinha receio!. talvez não me tivesse decidido a aceitar.. E tantos outros tinham receio: os Bardeaume. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição. disse: — Fica sabendo. com um lindo sorriso. comovido: — Pobres Bardeaume!. ia fustigando os vidros. Gillette. pouco depois. ainda nos encontrou ali.. a venda deste e—book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância... junto de ti. e que no fim de contas esse terrível visconde de Trézonnes não é tão má pessoa como diziam.Parece-me que todos te supunham uma espécie de Barba-Azul! Sorriu. e que era tão sedutor na sua nobre fisionomia. meu querido amigo.

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