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O M E U V E S T IDO OR C

DO CÉU
T r a d u ç ã o de A. A U G U S T O DOS S A N T O S
2.A EDIÇÃO

EDITORA —LIVRARIA PROGREDIOR - PORTO

RESERVADOS TODOS OS DIREITOS DE TRADUÇÃO E PUBLICAÇÃO EM PORTUGAL E COLÔNIAS

NO original o título desta obra é

<MA ROBE COULEUR DU TEMPS>

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I

Numa manhã de Junho, entrou no meu quarto a senhora Barduzac, na


altura em que estava terminando uma das peças do meu enxoval. Sentou-
se na única poltrona que ali havia, e esta, que já não era nova, rangeu sob
o respeitável peso da esposa do meu tutor.
— Temos um convite bastante desagradável, Gillette.
— Que foi, minha senhora? — perguntei, num tom de indiferença.
— Os Samponi mandaram-nos convidar para uma festa que vão dar,
dentro de quinze dias.
— Os Samponi?... Que idéia!
A minha voz revestiu-se duma entoação irônica, acompanhada duma
leve expressão de menosprezo.
— Mas talvez tenham razão!... Talvez seja uma boa idéia para
tentarem casar as filhas!
Sabia há muito que a senhora Barduzac tinha um enorme prazer em me
contrariar sobre qualquer opinião, gosto ou antipatia que eu manifestasse.
Ela não via com bons olhos os Samponi, italianos de nascimento,
palradores, indiscretos e um tanto excêntricos; todavia, logo se lhe
tornaram simpáticos, quando notou o pouco interesse que manifestei pela
festa.
— Muito bem — respondi com calma. — Podem casá-las à vontade.
Desejo-lhes muitas felicidades, e para fazerem a festa não necessitam da
nossa presença.
A senhora Barduzac mordeu os lábios grossos, sombreados por uma
escura penugem.
— Ah! É assim que corresponde à sua gentileza?... As nossas relações
são tão cerimoniosas, que acho que foram muito amáveis, lembrando-se de
nós.
— É claro!... Quem é que não gosta de ter os seus salões cheios em
tais ocasiões?... Por mim, suponho que é bastante agradecermos-lhes o
convite com a mesma gentileza com que o fizeram.
A senhora Barduzac encolheu os largos ombros.
— Supõe que é o bastante? Temos que arranjar um pretexto aceitável,
para não ficarmos mal vistos.
— Então é arranjá-lo, minha senhora.
— Eu é que não vou arranjá-lo, porque não vejo razão para que não
queira ir à festa.
Fitei-a, surpreendida.
— Como?!... Então não foi a senhora que recusou todos os convites este
inverno?... Não foi a senhora que disse sempre que nada tinha a fazer
nessas festas, arranjando então pretexto para se desculpar em todas elas?
Nos seus olhos frios e encovados, devido à gordura descorada que os
cercava, notei aquela irritação que eu lhe conhecia há muito. O tom da sua
voz tornou-se mais rude e autoritário.
— Isso foi no inverno, quando há o perigo de se apanhar um resfriado,
ao sair dessas festas. Agora o caso é outro... Vou-lhes dizer que aceitamos
o convite.
— Não tenho um vestido apresentável, minha senhora.
— O vestido branco do ano passado!
— Está muito desbotado. Iria fazer uma triste figura, ao lado das suas
amigas Samponi, sempre bem vestidas.
Não percebeu a minha ironia... Reflectiu um instante, e concluiu,
esfregando os dedos gordos no seu penteador, de cor lilás:
— É preciso então mandar fazer um.
— Não posso fazer essa despesa.
— Há despesas inevitáveis.
Dizendo isto, olhou para o trabalho que estava fazendo, e acrescentou:
— Para quê, tanto luxo no enxoval?... Podia ser feito dum tecido mais
ordinário. Devemos fazer economias, quando temos apenas um pequenino
dote, que no fim de contas é insignificante para a quadra que
atravessamos.
— Paciência — respondi-lhe com frieza. — Prefiro privar-me doutras coisas
e fazer os meus vestidos e os meus chapéus por minhas próprias mãos;
além disso não ficam tão caros como aqueles que a senhora manda buscar
às grandes casas de Paris.
— Sim!... Já sei que é sempre a menina que está dentro da razão. Pobre
do felizardo que a escolher para esposa!...
Era sempre este, pouco mais ou menos, o prognóstico que me lançava
em rosto, no final de todas as nossas discussões, aliás bem freqüentes. Não
me impressionava já com isso e evitava até responder-lhe, para não
prolongar estas conversas pouco agradáveis, em que a senhora Barduzac
tinha sempre a última palavra.
Naquele dia, porém, estava tão irritada, que repliquei, sem bem saber o
que dizia:
—- Sim! Um felizardo!... Fique, no entanto a saber que não será o
primeiro que me apareça.
— Que quer dizer com isso?... Pretende talvez um príncipe ou um
milionário?
Com um sorriso irônico, respondi-lhe:
— Talvez! Quem sabe?... O que lhe posso garantir, é que não casarei
com o primeiro menino bonito que me queira impingir, como fizeram
àquela pobre Elisa Duteil, que hoje é tão infeliz. Prefiro ficar solteira toda a
vida, a aceitar um indivíduo que não conheça e que não ame ou possa vir a
amar.
A senhora Barduzac tomou uma expressão taciturna, o que a tornava
hilariante, com o seu rosto gordíssimo.
— Na verdade estas jovens de hoje são intoleráveis. Amar! Amar!... No
meu tempo essa palavra não existia no vocabulário duma menina bem
educada.
— Não existia para os outros; porém, no íntimo, quem é que o pode
garantir?...
Fingiu não perceber e prosseguiu num tom doutorai:
— Quando casei com o senhor Barduzac, tinha-o visto apenas duas
vezes; no entanto entendemo-nos muitíssimo bem.
— Não duvido. O senhor Barduzac era capaz de viver bem com o
próprio Satanás.
As raras sobrancelhas da senhora Barduzac fizeram menção de se
aproximarem.
— Queria saber o que é que pretende insinuar com isso. Ousa talvez
comparar-me ao demônio?
Tomei uma expressão inocente e respondi-lhe:
— Não, minha senhora! Quis apenas dizer-lhe que o meu tutor dá-se
bem com toda a gente, e que só não viveria bem com ele quem fosse
dotado dum gênio verdadeiramente infernal.
— Olhe que a mim não me tem faltado paciência para aturar os seus
defeitos, que também os tem.
Dizendo isto levantou-se, não sem esforço, e deitando um olhar
investigador a todo o quarto, deteve-se sobre umas rosas que ornavam um
velho vaso de Rouen.
— Já lhe disse, Gillette, que não é bom ter flores no quarto.
— Ponho-as ali fora, durante a noite, minha senhora.
— Tem sempre a mania das complicações. Para que são estas flores?...
Só para fazer perder tempo. Eu... não uso disto onde quer que seja.
- Cada um tem os seus gostos. Eu, por exemplo, não posso suportar as
flores artificiais que a senhora conserva com tanto mimo na sua sala de
visitas.
Barduzac teve um gesto de arrogante superioridade.
- Não tem nenhum gosto, Gillette!... Mesmo nenhum!... É demasiado
pretensiosa!... Tem pretensões com fartura!
Dizendo isto retirou-se e recomecei o meu trabalho; contudo a sua
visita deixou-me de tal modo mal disposta, que os pontos já não tinham a
necessária regularidade. Levantei-me, sacudi os pedaços de linha que
estavam agarrados à saia e fui encostar-me à janela, depois de ter dado
algumas voltas pelo quarto.
Diante de mim estendia-se o jardim dos Barduzac, sempre bem tratado,
com um canteiro redondo ao centro e estreitos alegretes ao longo da
parede, tendo no meio alguns arbustos e um castanheiro ainda novo. A
senhora Barduzac não gostava de árvores, e desta antipatia resultava que o
jardim tornava-se intolerável durante o verão, quase desde que o sol
nascia.
Por um dos estreitos arruados, cobertos de areia avermelhada,
passeava o senhor Barduzac, trazendo vestido um fato às riscas e na cabeça
um chapéu de panamá desabado. Arrastava um pouco a perna esquerda,
devido ao reumatismo, e parava a cada instante para contemplar as suas
flores.
Observava-lhe o duro perfil, de queixo saliente. Era um homem doente
e calmo, tão incapaz dum gesto de bondade como de maldade; podia-se
dizer que era um verdadeiro autômato nas mãos da senhora Barduzac, a
cujos maleáveis caprichos se submetia estúpidamente, para evitar qualquer
discussão. Sabia já que nunca encontraria nele nenhum auxílio, no caso da
omnipotente senhora pretender impor-me alguma descabida exigência.
Apesar do meu caracter enérgico, pouco dado à melancolia, não deixava
no entanto de sentir necessidade de afeição e confiança. Em certas
ocasiões sentia-me acabrunhada, dentro desta estranha casa, entre estes
dois seres, dos quais um me era hostil e o outro indiferente. Tinha a
certeza de que a senhora Barduzac me detestava. Porquê?... Inveja própria
de mulher que foi bonita? Sim, porque, segundo me parece, ela fora uma
mulher bonita!... Custava-me a acreditar em tal, pois revelava uns baixos
sentimentos!... Seria talvez a triste inveja duma estúpida burguesa, contra a
nobreza da minha origem? Talvez fosse possível. Porém, o que não havia
dúvidas, é que os nossos gênios se chocavam em todas as suas
manifestações. Exasperavam-na as minhas respostas incisivas, a minha
franqueza, o meu espírito independente... Vivíamos num contínuo estado
de guerra, desde que deixara, aos dezoito anos, e com que saudade, o
meu convento.
O meu pai, o capitão de Arbiers, morrera num reconhecimento em
Marrocos, de que resultou a saída da minha mãe para Tours, onde
tínhamos velhos amigos. Aí alugou um modesto andar, porque embora os
seus rendimentos lhe permitissem um certo conforto, resolveu fazer
economias para aumentar o meu dote. Vivia na mesma casa a família
Barduzac. O senhor Barduzac era juiz de paz. Ainda que fossem
considerados como gente honrada, nem por isso eram mais estimados na
vizinhança, em especial ela, que era tida como uma mulher autoritária,
pretensiosa e desgovernada.
A saúde da minha pobre mãe agravou-se desde a morte de meu pai. Um
dia teve uma síncope que assustou a nossa criada; esta, como primeiro
gesto, correu a casa da vizinha. Veio a senhora Barduzac, que prodigalizou a
minha mãe todos os cuidados necessários, voltando no dia seguinte e nos
subseqüentes. Não era discreta, como não compreendia nem as idéias nem
os gostos da minha mãe; esta, por outro lado, sentia-se tão só, tão fraca e
doente, que não podia prescindir dalguém que lhe prestasse os necessários
socorros. Nestas condições aceitou o oferecimento da senhora Barduzac.
Depois morreram-nos os velhos amigos, e ela viu-se ainda mais isolada,
numa cidade onde, entregue à solidão da sua viuvez, não tinha criado
relações. A saúde desaparecia--lhe dia a dia, enquanto que por outro lado
aumentava de mais em mais a influência da vizinha. Nesse tempo era eu uma
pequena esperta e afectuosa, e queria muito a minha mãe; começaram no
entanto as divergências entre mim e a senhora Barduzac, com grande
mágoa para a minha mãe.
Pobre mãe!... Morreu suavemente, num dia de inverno, na altura em
que eu completava catorze anos... Sempre que no meu pensamento
perpassam esses dias, sinto uma dor pungente ao recordar as horas
dolorosas que então passei!... Ela era a minha única afeição; tínhamos
apenas alguns parentes afastados, desconhecidos para mim. Não gostava
dos Barduzac; e todavia foi a eles que a minha mãe confiou o cuidado da
minha tutela. Foi sem entusiasmo que tal soube, e desde então o meu
maior desejo foi entrar para um convento, tal o desgosto que sentia ao
lembrar-me que ia ficar a viver com eles.
Durante os quatro anos do meu internato, apenas os via na época das
férias. Tendo resolvido um dia retirar-se para o campo, o senhor Barduzac
adquiriu uma casa em Largillais, pequena cidade da Touraine, onde vivia
um grande número de modestos capitalistas. Como possuíam apreciáveis
rendimentos, eram tratados com certa consideração, o que muito
lisonjeava a grande vaidade da senhora Barduzac. Além disso servia-se da
minha pessoa para subir mais alto no seu pedestal: "A pupila de meu
marido, uma órfã a quem dispensamos os nossos cuidados, e que é tratada
como nossa filha... A menina Gillette de Arbiers, nossa pupila, filha do
pobre conde de Arbiers, morto em Marrocos... Um herói, minha senhora!...
(ou meu caro senhor!)".
E chegada a este ponto começava uma comovente descrição da
expedição em que meu pai tomou parte e a qual lhe custou a vida. Esta
história, ouvida tantas vezes, parecia-me sempre muito bonita e comovia-
me. Quis, porém, a pouca sorte, que um certo dia, procurando nas estantes
do senhor Barduzac uma obra de Corneille, encontrasse um livro onde se
tratava das nossas conquistas em África. O volume abriu-se como que por
si mesmo, numa certa página, e o que leio?... A descrição exacta e literal
da expedição tantas vezes contada pela senhora Barduzac. A única
diferença consistia em que o herói, nesse relato, não se chamava capitão de
Arbiers.
Nada disse desta minha descoberta, mas dias depois, numa reunião em
casa da senhora Geolle, esposa do escrivão, fui apresentada a uma recém-
chegada: “Gillette de Arbiers, etc...”, e a senhora Barduzac começou a
contar a tão velha história. Esperei que chegasse quase ao fim; nessa altura,
aproveitando-me dum momento em que se calou, para poder respirar, e
enquanto se ouviam por toda a sala uns murmúrios de comiseração, disse
com toda a calma:
— A senhora não estará enganada?... Essa passagem refere-se à morte
do capitão X...
Enrubesceu e olhou-me um tanto de lado.
— Como?... Que significa essa estúpida idéia?
— Li-a no livro intitulado: As nossas conquistas em África. A páginas
quarenta e duas encontrará essa descrição tal como a acaba de contar.
Parece-me até que não lhe falta uma palavra.
O rubor tornou-se maior no rosto pálido da senhora Barduzac, que
emudeceu por instantes, depois dos quais continuou, evitando olhar-me:
— Pode ser que exista uma coincidência entre essas duas mortes. Porém
o que estou contando, ouvi-o à sua própria mãe.
Desde esta ocasião deixou de repetir o conto mentiroso; no entanto a
sua animosidade recrudesceu contra mim, a par da sua vaidade
intimamente ferida. Isso contudo não me incomodou. Até me senti
satisfeita por lhe ter mostrado como tinha descoberto a sua falsidade, pois
tenho uma arreigada aversão à mentira, e sentia-me irritada contra ela por
ter ludibriado assim a minha infantil ingenuidade.
Aos dezoito anos saí do colégio, com vários diplomas, mas bastante
desolada por ter de ir viver com o meu tutor. A Madre Superiora, minha
confidente, aconselhou-me: “Sê boa e paciente. Não te indisponhas com a
senhora Barduzac, seja por que motivo for; é preciso na vida ser-se
transigente, minha filha”. Desta forma, foi com a melhor das disposições
que cheguei à “Vila das Palmas”, assim chamada, com certeza, em honra
daquelas que o senhor Barduzac usava — e empreguei os melhores
esforços por as conservar o maior tempo possível. Não creio fazer a mim
própria imerecidos elogios, se disser que fui verdadeiramente angélica
durante quase um ano. Sucedeu porém que a senhora Barduzac, valendo-se
da minha paciência, tentou fazer de mim sua escrava. Era destas criaturas
que só cedem diante da brutalidade. Compreendi-o logo e por isso levantei
também a minha lança. Foi então declarada a guerra entre nós. A
existência tornou-se-me penosa, pelo que esperava ansiosamente a minha
maioridade, a fim de poder agradecer aos Barduzac todos os favores
dispensados e dizer-lhes adeus com todo o prazer. Tornava-se necessário
esperar por esse dia feliz, que apenas chegaria dentro de oito meses...
Para onde iria eu?
Não o sabia ainda. Naturalmente instalar-me-ia como pensionista
nalgum convento, até me casar — admitindo que encontrasse um marido a
meu gosto, pois não exagerei, quando disse à senhora Barduzac que não
seria qualquer um que me havia de servir.
Em última análise, se fosse necessário, ficaria solteira, procuraria alguma
ocupação que me agradasse e trataria de me tornar útil ao próximo.
Preferia, porém, muito mais o casamento — desde que o marido me
agradasse de facto.

II

Na tarde do dia em que a senhora Barduzac me deu conhecimento do


convite dos Samponi, saí a dar umas voltas. O tempo estava a ameaçar
chuva e eu caminhava vagarosamente, com o mesmo ar fatigado, segundo
me parecia, de todas as pessoas com quem me encontrava. Ao atravessar
uma rua, cumprimentou-me um jovem bem parecido, em quem reconheci
o doutor Borday, médico formado há pouco, que a senhora Geolle
apresentara à minha tutora, por ocasião da sua última reunião mensal.
Enquanto continuei a caminhar, fui relembrando algumas das palavras
amáveis que ele então me dirigiu, bem como as suas maneiras distintas e
a sua agradável apresentação. Naquele dia notei que me olhou um pouco
mais demorada-mente, talvez até mais do que devia ter feito, e eu desviara
os olhos com certo ar de dignidade. Só pelo facto de eu ser bonita, concluia-
se que já me podiam olhar assim?
Era na verdade bonita. Dizer o contrário seria, com certeza, uma falsa
modéstia. Talvez deixasse um pouco a desejar a regularidade dos meus
traços; mas a pele era delicada, os cabelos eram castanhos escuros,
ondulando ao vento, e os olhos grandes e pretos eram vivos e ternos.
Segundo me disse um dia a senhora Geolle, a minha fisionomia era muito
expressiva. Além disso era bastante magra, de talhe elegante, qualquer
roupa me ficando bem, e tendo nas mãos e na delicadeza dos meus
atractivos uma comprovação da minha origem aristocrática, no dizer da
senhora Geolle.
A existência destas qualidades não me tornaram vaidosa, como seria de
supor; ainda não conhecia a garridice. Se gostava de me apresentar sempre
bem vestida, não era para chamar a atenção dos rapazes, pelos quais, devo
confessá-lo, sentia a maior indiferença; nenhum dos cinco ou seis que até
então me tinham sido apresentados, entre as pessoas das relações da
senhora Geolle, conseguiu atrair a minha simpatia.
Pensando nisto, cheguei ao estabelecimento. “Os reis magos”, razão de
ser do meu passeio. Em frente ao correio encontrei-me com o senhor
Huchard, um antigo comerciante, amigo dos Barduzac, com os quais ia
jantar todos os domingos e jogar uma partidinha. Huchard passava já
muito além dos cinqüenta anos; tinha uma cabeleira escura, e apesar da
pouca atenção que eu lhe dispensava, dava-se à veleidade de me fazer a
corte. Desta vez ainda saudou-me com um largo cumprimento e parou
para se informar da saúde da senhora Barduzac, todo enfatuado no seu
casaco, confeccionado a capricho. Respondi--lhe lacònicamente e retirei-me
para entrar no estabelecimento.
Fiz as minhas pequenas compras, e demorei-me ainda uns instantes
examinando as prateleiras do estabelecimento. No balcão viam-se
desenroladas peças de tecidos de toda a espécie, oferecendo aos olhos
dos fregueses a atracção aliciante das suas diversas cores. Havia-os para
todos os gostos. O meu, porém, inclinou-se nesse mesmo instante para um
crepe azul claro — um azul suave, delicado, que recordava o dum céu
estivai, depois duma chuvada.
"É assim que quero o meu vestido para a festa dos Samponi" — pensei
comigo.
Logo um plano se delineou no meu espírito. A senhora Barduzac ia com
certeza indicar-me a sua costureira, mas ela trabalhava muito mal. Além
disso, ambas tentariam impor-me o seu gosto, que era sempre o contrário
do meu. E se eu comprasse este crepe Com a minha habilidade faria eu
própria o vestido!... Naturalmente a senhora Barduzac ia ficar furiosa, mas
teria de se conformar, visto já nada poder alterar, pois que no
estabelecimento não aceitavam a devolução de cortes de fazenda.
Um caixeiro veio atender-me. Depois de verificar que tinha o dinheiro
suficiente, mandei cortar os metros que precisava. Saí, levando o
embrulhinho da linda fazenda, satisfeita pela minha compra e antegozando o
dissabor que a senhora Barduzac ia sentir.
No momento em que entrava em casa, quis o acaso que ela atravessasse
o vestíbulo. O embruIhinho chamou-lhe logo a atenção.
— Que traz ai, Gillette?
— Um crepe azul claro, minha senhora, para fazer o meu vestido.
— Crepe... para o seu vestido? Então foi fazer compras sem mim e sem
pedir a opinião da menina Boitte?
— Não preciso da opinião da menina Boitte, porque eu própria farei este
vestido.
Soergueu os braços, soltando uma risada de troça:
— Deve ficar uma beleza!..., uma elegância!... O que eu não quero, é
tornar-me ridícula levando à casa dos Samponi uma caricatura.
— Fique sossegada, minha senhora — respondi-lhe. — Farei um vestido
inteiramente a meu gosto, e não irei torná-la ridícula, nem originar-lhe
qualquer vexame.
— Oh! As suas idéias são sempre admiráveis!... Deixe-me ver isso...
Abri o embrulho e estendi o tecido sobre a mesa da sala de jantar. A
luz clara do sol, que entrava livremente pela janela, o meu crepe ainda me
pareceu mais bonito.
Encolheu os ombros e torceu o nariz largo e curto.
— É um tecido muito fino, que não se pode usar. E azul!?... Depois de
o vestir umas três ou quatro vezes, vai ver em que estado fica o vestido!...
Os seus dedos grosseiros iam apalpando o crepe, enquanto sorria com
ironia:
— ...Esta compra foi uma tolice!... Foi o resultado de não me querer
consultar!...
Tive ímpetos de lhe responder: “Naturalmente!”, mas dominei-me.
—...Além disso, sabe que o azul claro é uma cor da minha antipatia...
Foi talvez por isso que a escolheu, não?
— Não, minha senhora! Era incapaz disso. Escolhi-a apenas porque
gosto dela.
Com um gesto desdenhoso afastou de si o tecido.
— Nunca há-de ser uma mulher ajuizada. Sempre disse isso a meu
marido, e ele agora vai certificar-se que eu tinha razão.
Dizendo isto levantou-se e saiu, encolhendo os ombros, gesto
freqüente nela, em especial no decorrer das nossas discussões. Por mim
embrulhei e guardei o crepe, que parecia uma estreita nesga do céu.
Devo dizer, com toda a sinceridade, que o meu vestido foi um dos
mais encantadores entre os muitos que enchiam as salas dos Samponi.
Tinha-o enfeitado com uns lindíssimos bordados brancos, que herdara de
minha mãe, os quais, e só eles, lhe davam um ar de elegância discreta,
visto que tinha escolhido um modelo, o mais simples. Olhei-me ao espelho
e verifiquei que me ficava muitíssimo bem, e que este azul-pálido ligava
admiravelmente com o tom da minha pele. A senhora Barduzac, no
entanto, achou maneira de me dizer num tom áspero e examinando-me da
cabeça aos pés, antes de sairmos:
— Este vestido não lhe fica nada bem. Está provado que a cor da sua
pele não liga bem com as cores claras. Mas isso pouco lhe importa, e
muito menos quando sejam conselhos de pessoas experientes.
Estas palavras não me impressionaram; pelo contrário, eram uma
evidente prova de que o meu vestido me ficava bem, e mais ainda me
convenci, devido às expressões lisonjeiras com que mo deram a entender
os meus companheiros de dança.
A tarde estava quente e bonita; em face disso era com prazer que as
visitas deixavam os salões e se espalhavam aos grupos pelo jardim, cheio
de sombra, onde tinham improvisado uma pequena barraca para bebidas.
Ao terminar uma dança qualquer, em que tinha sido meu par o doutor
Borday, este perguntou-me se lhe dava o prazer de aceitar uma taça de
champanhe. Aquiesci, e fomos para o jardim.
— Veja — disse-me ele a meia voz, mostrando-me uma nesga azul do
céu, que se via através dos ramos das velhas faias — o seu vestido é da
cor do céu...
O seu olhar dirigiu-se de novo para mim, o que me fez corar um pouco,
porque nele notei um vislumbre de admiração.
Sentamo-nos não longe das mesas da barraca, conversando, enquanto
bebíamos lentamente as nossas taças. Possuía um espírito delicado e uma
tal cultura intelectual, que se destacava entre todos os outros rapazes que
se encontravam nessa festa; o seu olhar era também agradável e um tanto
reflexivo.
Teria por outro lado encontrado este doutor Borday ainda muito mais
simpático, se não fosse um certo ar de fatuidade que lhe notei. Se há coisa
que eu deteste, acima de tudo, é a vaidade.
Ele no entanto parece que simpatizou bastante comigo, porque, mais
duma vez, me convidou para dançar, o que se tornou muito notado, no
dizer da senhora Barduzac.
— Sim, minha querida — declarou-me, peremptória, no regresso —, as
suas maneiras atraíram esse rapaz; toda a gente o notou.
Respondi-lhe friamente:
— Contudo, parece-me que o meu namoro foi quase nada, comparado
com o descaramento de Carlota Samponi.
— A Carlota procede com mais franqueza. A menina, aparentando
esses seus modos reservados, sabe muito bem fazer-se salientar. Mas não
se iluda; o doutor Borday não vai atrás de qualquer dote.
— Isso é com ele... e não vou chorar por isso.
Ao passarmos diante duma casa, modestamente mobilada, parei
alguns instantes, a cumprimentar uma senhora idosa, que eu socorria — o
que me valeu uma boa descompostura da senhora Barduzac, quando
consegui juntar-me a ela.

III

Após aquele dia, o sol não se deixou ver durante várias semanas. No
guarda-vestidos, o meu vestido cor do céu continuava à minha espera.
Vesti-o apenas duas ou três vezes ainda, durante aquele verão. Depois veio
o outono, e lá continuou fechado durante meses. Em casa dos Barduzac a
vida ia-se tornando cada vez mais difícil para mim. Por felicidade, em breve
surgiria a alvorada da minha maioridade, além do casamento, que já se
delineava no meu horizonte.
Desde a festa dos Samponi, eram freqüentes os meus encontros com o
doutor Borday; e eu não podia acreditar que tais encontros fossem
ocasionais. Em fins de Novembro a senhora Geolle veio preparar o terreno
para um pedido oficial. Passado o primeiro momento de comoção, respondi-
lhe que precisava reflectir, e que apenas daria a minha resposta no
princípio de Janeiro, época em que atingia a minha maioridade.
Neste meio tempo surgiram desagradáveis questões com a senhora
Barduzac:
—Então precisa de dois meses para resolver?... Eu, quando fui pedida
pelo senhor Barduzac, disse logo que sim.
— O que prova que a senhora não compreendeu a gravidade do acto
que ia realizar.
— Ora essa!... Tanta esquisitice para aceitar um belo rapaz, senhor
duma invejável posição e filho de pais abastados?
— Esse belo rapaz é para mim, no campo moral, quase um
desconhecido. Se o aceitar como noivo, é para viver com ele toda a minha
vida. O caso merece por isso que seja bem reflectido.
Soltou uma estridente gargalhada:
— Faça como quiser. Mas se lhe fugir, cansado de esperar, não se
queixe de ninguém!
— Fique descansada, minha senhora, que não lhe tornarei a culpa.
Costumo assumir sempre a responsabilidade dos meus actos.
Esta resposta foi para atingir tão arrogante criatura, que, quando
qualquer assunto tratado por ela, não corria bem, atribula sempre aos
outros o insucesso.
Sentia-me portanto bastante embaraçada cora o pedido do doutor
Borday. Era certo que não me desagradava. Sob o ponto de vista físico e
intelectual era dotado de grandes qualidades; porém o seu lado moral era
para mim ainda desconhecido. Como disse já, Borday parecia um tanto
envaidecido da sua pessoa. Sob esta estranha aparência, sob a doçura do
seu sorriso e do seu olhar podiam esconder-se muitos e graves defeitos.
Como sabê-lo? O assunto era bastante melindroso, e eu via aproximar-se o
dia em que devia dar a resposta, sem que me sentisse mais convencida ou
mais decidida, a menos que o amor não viesse tomar a sua parte.
Até aqui o meu coração não tinha sentida mais do que um leve
estremecimento. Por acaso esse normal pulsar iria aumentar dentro de
dois meses?... Então a minha decisão torna-se-ia mais rápida, se um
qualquer acontecimento não viesse contrariar as boas informações dadas
pela senhora Geolle.
Naquele ano o Natal apresentou-se todo branquinho. No nosso jardim,
coberto de neve, viam-se impressos os largos rastros da senhora Barduzac e
as pegadas mais delicadas do marido. Por mim não me cansava de
contemplar as árvores, adornadas daquele branco e gélido manto; depois
o meu pensamento concentrava-se no doutor Borday e na resposta que
devia dar-lhe dentro de oito dias. Fui à missa do galo, na companhia da
senhora Geolle. Pedi muito a Deus que me esclarecesse sobre o que devia
fazer, visto nada ainda ter resolvido. O pulsar do coração acentuava-se um
pouco mais, cada vez que me encontrava com o doutor, sempre amável e
visivelmente apaixonado, o que até certo ponto perturbava o meu coração
e lisonjeava o meu amor próprio. Parecia-me ser bom filho e os seus clientes
estimavam-no muito; por outro lado parecia-me também que era demasiado
amigo de pândegas, gostando bastante da vida fora de casa. Todavia,
quando tivesse casa e família, era talvez muito possível que estes hábitos e
estas tendências se transformassem — em especial se gostasse muito de
mim...
Nessa manhã de Natal, quando pensava neste assunto, com o rosto
apoiado ao vidro gelado da janela, ouvi a voz da senhora Barduzac:
- Gillette!... Venha cá a baixo!
Impressionou-me aquela voz, onde se notava um grito de triunfo. Com o
coração oprimido, pensei logo: "Alguma coisa desagradável está para
acontecer!... É talvez o doutor que se vai embora!..."
Desta impressão concluí que me era de todo indiferente, e que a minha
resposta não seria talvez afirmativa.
Desci devagar e encontrei a senhora Barduzac à porta do gabinete do
marido. Estava muito vermelha, tendo nos olhos a expressão de alegria
maldosa, que lhe conhecia há muito.
— Escute, Gillette. O seu tutor tem uma notícia muito grave para lhe dar,
uma notícia que vai transformar por completo a sua vida.
Senti um leve arrepio, mas consegui ficar impassível sob o olhar da senhora
Barduzac, que procurava avaliar a minha inquietação.
Entrei atrás dela no gabinete, pequeno compartimento bastante quente, que
cheirava demasiado a bafio, e diante de cuja secretária se encontrava sentado o
senhor Barduzac, alisando com a ponta dos dedos uma folha de papel estendida
diante dele. A grande preocupação que o domina, manifestava-se logo no boné,
posto muito a trás, e no cachimbo, que descansava sobre a pilha de livros. Como
de costume, estendi-lhe a mão:
— Bom dia, senhor Barduzac.
— Bom dia, Gillette. Como vai?...
Tossiu, passou a mão pelo bigode grisalho e olhou-me embaraçado:
— Sente-se... Recebi uma notícia muito agradável para si.
— O que foi, senhor Barduzac?
Sentei-me numa cadeira, junto dele, e a esposa sentou-se de maneira a ficar
na minha frente. O meu tutor mordeu os lábios, esticou o pescoço mais do que
costumava, e estendeu a mão sobre o papel desdobrado na sua frente.
— Acabo de saber que faliu o Banco do Loire, onde, conforme o desejo
da senhora de foi colocada a maior parte da sua fortuna, agora perdida,
absorvida pelas especulações aventurosas dos seus directores.
Foi nessa ocasião que avaliei a minha grande força de vontade, pois
consegui manter-me quase impassível, sob o olhar maldoso que me
observava.
— É na verdade uma grande desgraça — respondi, com serenidade. — Que
foi então que me ficou?
O senhor Barduzac fitou-me um instante, sem responder, com a boca aberta
e os olhos absortos:
— Mas..., no entanto..., parece não compreender a gravidade da sua
situação?
— Oh! Sim! Muito bem!... É o que se chama a ruína, não é verdade?
— Isso... exactamente; a ruína quase completa. Restam-lhe apenas vinte
mil francos e a sua quinta da Meulière.
— Ou seja uma renda total de...?
— Quatro mil francos pagos pelo caseiro e cerca de oitocentos francos
provenientes dos títulos, que são bons.
— Vai agora precisar de trabalhar...— concluiu a senhora Barduzac, cujos
lábios grossos se contraíram num ricto de ironia.
— ... Mas não vejo nada em que possa trabalhar. Apesar de todos os seus
diplomas, suponho que não está à altura de se dedicar ao magistério!... No
comércio também nada fará... Talvez encontre um lugar de dama de
companhia.
Foi com a mesma calma que respondi:
— Preciso reflectir; no entanto espero que dentro de oito dias já
estejam livres de mim, visto que a minha maioridade coincide com a
minha ruína.
O senhor Barduzac protestou com frieza:
— Não há pressa, Gillette!... A nossa casa...
A esposa interrompeu-o:
— Certamente; até lá pode-se deixar estar. Durante esse tempo
procurarei encontrar-lhe, entre as minhas amigas, um emprego
conveniente. Se não for muito exigente, encontraremos com facilidade.
Senti que rejubilava com a minha ruína, que esta era para ela uma
queda de posição, ela que estava habituada a considerar as pessoas
conforme a importância dos seus rendimentos. Isto, portanto, era mais
uma razão para que mantivesse uma atitude altiva e calma ante este rude
golpe, ainda mais doloroso devido ao ingrato abandono destes dois seres,
que me tinham conservado na sua companhia, em virtude do bom
rendimento que lhes proporcionava, pois que a despesa que faziam com a
minha manutenção era muito inferior ao que recebiam da minha pensão.
Levantei-me, declarando com voz firme:
— Tenho a dizer-lhe que não aceitarei qualquer emprego. Não irei
morrer de fome e poderei provisóriamente ir viver para a Meulière.
A senhora Barduzac informou com ar desdenhoso:
— Parece que a casa está a cair aos pedaços...
— Sempre terá um quarto para me abrigar, enquanto não surgir um
emprego conveniente. Em casos como este, sempre é bom agir com
calma.
— Quer dizer com isso que não vai aceitar os meus conselhos, como é
seu costume?... Fique certa de que isso nada lhe adiantará. Se há dois
meses tivesse aceitado o pedido do doutor Borday, como lhe disse, agora
estaria quase casada e ele seria obrigado a engolir a pílula. Hoje..., oh!
pobrezinha!..., creio que...
Senti o sangue subir-me às faces e interrompi-a com um tom brusco.
— Eu sei muito bem!... A partir de hoje pode considerar-se livre.
Respondo ao seu pedido com uma recusa, e está tudo terminado. É natural
que ninguém queira desposar uma jovem arruinada, mesmo quando se
está numa invejável posição como a do doutor Borday! Fique tranqüila,
minha senhora, que ainda sou bastante inteligente para o compreender.
— Saí do gabinete e regressei ao quarto. Uma ligeira febre me assaltava
as têmporas, e toda a minha coragem me abandonou por momentos,
quando me senti só, longe do olhar maldoso e inquiridor da senhora
Barduzac. Com um grande esforço conseguira ainda há pouco afrontar essa
mulher; porém agora a reacção começava e uma certa angústia oprimia-me
o coração.
Arruinada!..., estava arruinada!...
Tão amiga de ser independente, seria forçada a trabalhar na casa dos
outros!...
Fiquei imóvel, mergulhada numa poltrona. No meu cérebro os
pensamentos entrechocavam-se um pouco desordenadamente. Só passados
minutos dois deles se delinearam claramente: o meu supremo desprezo
pelos Barduzacs, que tanto tinham prometido à minha pobre mãe que me
tratariam sempre como filha, e a certeza de que, nas atuais circunstâncias,
o casamento seria de facto impossível para mim.
A senhora Barduzac afirmava quase todos os dias que, na sociedade a
que pertencíamos, não se desposavam pequenas pobres. E eu tinha quase
a certeza de que Marcos Borday não a deixaria mentir. É certo que lhe
agradava, porém com os meus trezentos mil francos de dote no cofre. E sem
contar ainda, conforme ele supunha, que os Barduzac, sem parentes
próximos, me deixariam toda a sua fortuna. Agora uma Gillette de Arbiers
quase pobre, era outro caso!...
Faltaria à verdade se não dissesse que sofri muito, ao ver evaporar-se este
pequeno sonho azul; e entretanto o jovem médico tinha feito bater, ainda que
ao de leve, o meu pobre coração, e eu supunha que precisaria ainda dalgum
tempo para o esquecer.
Os minutos iam passando e eu mantinha-me sempre na mesma posição,
procurando coordenar as minhas idéias; só me sobressaltei quando o relógio de
parede bateu onze e meia. Os Barduzac tinham alguns convidados para o
almoço. Precisava por isso mudar de roupa e descer como se nada se tivesse
passado.

IV

Vesti-me quase sem dar por isso, pensando no duro golpe que me atingira;
entretanto uma relativa calma começava a dominar o meu espírito, onde se
delineou um plano: abandonar esta casa logo que o meu tutor me prestasse as
suas contas e ir para a Meulière dentro de oito ou dez dias. Por pouco
confortável que pudesse ser a casa da Meulière, era-me muito mais
agradável do que esta, onde era detestada, onde todos procuravam
avidamente perscrutar nos meus olhos os menores vislumbres de
abatimento ou tristeza. Além disso estaria na minha própria casa, onde
encontraria, na intimidade, o afectuoso apoio da caseira, Catarina
Bardeaume; esta fora minha ama, e todos os anos, no primeiro dia de
Janeiro, me escrevia uma linda carta, perguntando-me, invariavelmente,
quando me resolvia a ir passar uns dias à Meulière, onde todos se sentiriam
felizes em me receber.
Tomada esta decisão senti-me menos abatida, e foi com toda a calma
que entrei no salão, onde já se encontrava o senhor Huchard, conversando
com os Barduzac.
O assunto da conversa devia ser com certeza a minha ruína, pois que,
ao cumprimentar-me, notei-lhe na fisionomia uma expressão de mágoa, a
que respondi com um leve sorriso de ironia. À mesa mostrei-me
despreocupada e alegre como de costume. O senhor Huchard, sentado à
minha direita, rodeava-me das suas atenções um tanto rudes, proferindo
pretensiosas frases, que só conseguiam causar-me tédio. Ao levantar-me da
mesa, tomou-me o braço e sussurrou-me ao ouvido:
— É muito corajosa!... Nada receie, porém, porque não ficará na
miséria.
— Voltei-me com calma e respondi-lhe friamente:
— Não ficarei na miséria, senhor, porque graças a Deus sou ainda nova e
tenho saúde bastante para poder trabalhar.
Chegados ao salão, deixei-o, e fui sentar-me junto da senhora Geolle, que não
me agradava também muito, mas que era preferível a esse amigo dos Barduzac.
Em seguida, logo que me foi possível, voltei ao meu quarto, a fim de escrever à
Catarina, enquanto a senhora Barduzac se vestia para visitar algumas das suas
boas amigas e contar-lhes a desgraça que me havia atingido, já do conhecimento
de todos os convidados do almoço, conforme pressenti, pelo que senti à minha
volta de sussurros e de olhares — uns de protectora piedade e outros de
maldosa satisfação.
Catarina Bardeaume respondeu-me logo no primeiro correio. Divagava em
longas e comovidas frases acerca da minha ruína, maldizendo todos os
banqueiros, e avisando-me de que me esperavam com a maior ansiedade e
satisfação.
"Previno-a, no entanto, de que a casa está em muito mau estado... Chove
na sala de visitas e em vários quartos, e as portas estão empenadas. Além
disso não tem móveis, visto que a humidade fez apodrecer os poucos que
restavam. O seu pobre pai deixava que as coisas corressem de qualquer
maneira, e quando morreu, já tudo necessitava de reparações. São
decorridos vinte anos, e entretanto a humidade continuou a sua devastação.
Talvez haja apenas um quarto habitável; é grande e bonito, voltado ao sul
e com frente para o jardim; o teto e as paredes não estão deterioradas
como as dos outros, e o soalho não custará a pôr-se lustroso, porque é de
óptimo carvalho. Porém não está convenientemente mobilado para a
menina. Se aceitasse, teria muito prazer em lhe oferecer um quarto aqui na
quinta, o da minha filha Angelina. Faço-o com a maior vontade e suponho
que deve ficar melhor aqui, apesar de tudo, do que sozinha na sua velha
casa».
Terminada a leitura da carta circunvaguei os olhos pelo quarto. Tinha ali o
mobiliário do quarto da minha mãe, os adornos que ela estimava, dois ou
três retratos de família e um lindo espelho antigo. Alguns móveis ainda,
muito bem conservados e dum certo valor, alguns objectos de arte e outros
retratos ornavam a sala de visitas da senhora Barduzac. Tudo isto
chegaria muitíssimo bem para mobilar a parte habitável da minha casa. E
apesar de reconhecida à Catarina, pelo seu oferecimento, resolvi logo
comigo manter toda a minha independência, por mais incômoda que fosse a
velha casa.
Enquanto assim pensava, entrou a senhora Barduzac. Deitou um olhar
disfarçado à carta que segurava nas mãos, e perguntou:
— É alguma carta da sua amiga Julieta?
— Julieta Mancel era uma das minhas antigas colegas de colégio, com quem
sempre me correspondi.
— Não, minha senhora. É da minha ama de leite, da Catarina Bardeaume,
que insiste comigo para que vá para a Meulière. Estou portanto disposta a ir
para lá, logo que o senhor Barduzac já não precise de mim para regularizar
as suas contas da tutela.
— Então sempre está resolvida a ir viver para a Meulière?
— Provisoriamente, estou.
— No entanto talvez fosse possível encontrar outra solução para o seu
caso.
— Outra solução?... Qual?
E de súbito, ante a sua hesitante expressão, pensei: «Estará o doutor Borday
disposto a manter a sua palavra, apesar de tudo?"
Senti de novo uma leve pulsação, e senti também que um leve rubor me
subia ao rosto.
— Sim, uma solução inesperada... Um óptimo casamento...
— Era na verdade o que eu pensava!... As pulsações tornaram-se-me
mais fortes...
— ... Está deveras apaixonado por si, o que é uma loucura, naquela
idade!...
Como?... Que dizia ela?... Marcos Borday tinha trinta anos e eu vinte e
um... Talvez que...
— ... Mas nada tenho com isso!... Agora pelo seu lado suponho que terá
a necessária compreensão para ser sempre a esposa digna dum homem
que lhe oferece uma bela fortuna...
Ao dizer isto tomou uma expressão grave, dilatou as flácidas faces,
examinou-me de alto a baixo, como quem diz: «Não merece tanto!»
— Mas a quem se refere a senhora? — exclamei eu.
— Ao pobre senhor Huchard, que, se a menina aceitar, faz a maior
tolice da sua vida...
O pulsar do coração parou de súbito e o rosado pálido das faces
tornou-se em vivo rubor de indignação.
A senhora Barduzac prosseguiu:
— ... Nada menos do que três milhões, minha querida, honestamente
ganhos no trabalho... Nunca mais volta a ter uma sorte como esta...
A sua voz tomou um tom de amarga ironia fina seus olhos rebrilhou a
cobiça. Interrompia-a, bruscamente:
— A senhora está a gracejar!... Como lhe pôde caber na imaginação que,
com a minha Idade, pudesse casar com um homem de cinqüenta e oito
anos?
— E por que não?... Continua a manter-se tão inacessível, ainda agora?...
Sem dote, não encontra já um marido a dizer com os seus vinte anos. Fique
certa disto.
— Sei-o muito bem e tentarei tirar desta situação o maior proveito; mas
nunca farei um casamento como aquele que a senhora pretende insinuar-me.
Encolheu os ombros.
— Já sei há muito que parece não ter o juízo todo; no entanto, Huchard é um
homem agradável, tem um caracter honesto e está ainda bem conservado...
— Não insista, minha senhora... Mesmo que fosse mais novo, o senhor
Huchard não me convinha, porque pertence a um meio que, por muito honrado
que seja, não é o da minha família, e a sua educação e os seus gostos são
muito diferentes dos meus.
Toquei justamente no ponto fraco da senhora Barduzac, invejosa da classe
social a que eu pertencia; logo que se fizesse qualquer alusão à sua origem
modesta ou às famílias das suas relações, ficava toda nervosa. Tornou-se
bastante vermelha e tentou fulminar-me com o olhar.
— Oh! Logo vi!... São esses miseráveis pergaminhos de amor-próprio
que prejudicam o pedido do nosso amigo!?... Um pedido com que devia até
sentir-se muito honrada, em face dos quatro centavos que lhe ficaram!...
Faça porém como quiser; é melhor morrer de fome na sua casa
desmantelada. Tenho a certeza de que, por mais duma vez, há-de lembrar-
se, com pesar, daquele que a quis fazer rica, porque os milhões, hoje,
valem muito mais do que os títulos de nobreza!...
A senhora Barduzac saiu furiosa, e eu sentei-me deveras pensativa e
com o coração oprimido. Assim, só porque estava arruinada, já se atreviam
a propor-me este casamento, como se fosse uma transacçâo!... Supunham
que ficaria muito feliz em encontrar esta maneira de sair dos meus
embaraços!... Que importava para elas que o pretendente fosse quase
sexagenário, sem nada que o recomendasse, e pretensiosa? Nessa altura
estava muito bem para Gillette de Arbiers!...
Senti os olhos cobrirem-se-me de lágrimas. Oh! Como a vida era
estúpida, quando olhada por certas faces!... E que tristeza o encontrar-me
só, totalmente só, para me defender contra os Laços que seriam armados
à minha mocidade!
Fui forçada a ficar ainda durante quinze dias em casa dos Barduzac, a
fim de regularizar pessoalmente os meus negócios. Durante esse tempo
mandei proceder ao engradamento e à expedição da minha mobília. Para
a senhora Barduzac foi um momento desagradável, quando lhe tiraram da
sala de visitas o pequeno sofá Luís XVI, tão bonito, as duas poltronas, a
linda secretária em pau-rosa, a mesa guarnecida de finas incrustações e os
retratos dos meus antepassados, que ela dispusera pelas paredes, bem à
vista. Parece-me que chegara a supor que estas damas antigas, de
anquinhas e vestidos de musselina, estes fidalgos envergando trajes
palacianos e uniformes militares, eram seus avós e não meus.
Um dia ouvia dizer à senhora Geolle:
— Com franqueza, minha amiga, não acha que, depois de tudo quanto
fiz pela Gillette, não era muito que ela me deixasse ficar estes velhos
móveis, e não me obrigasse a recompor assim a minha sala de visitas?
A senhora Geolle, sempre de igual opinião à da pessoa com quem
falava, respondeu:
— Sim, com certeza! Era até a sua obrigação!...
Oh! Sim, não esquecia que tinha olhado por mim, que me tinha tido na
sua casa!... Parecia-me no entanto, que lhe tinha pago régiamente a sua
interesseira hospitalidade. Nada lhe ficava a dever, pois nunca recebera dela
um pouco de afeição ou um pouco de simpatia.
Uma semana antes da minha partida comecei a fazer as minhas visitas
de despedida. Algumas pessoas, ao receberem-me, julgaram por bem dever
apresentar um certo ar de compaixão; porém o meu desembaraço e a
minha despreocupação deixavam-nas admiradas. Declarava-me encantada
por viver algum tempo no campo.
— Vai-se aborrecer!—prediziam-me algumas.
Era possível; mas de momento, sentia-me bastante satisfeita em deixar
os Barduzac e adquirir a minha liberdade.
Não ouvi mais falar do doutor Borday, a quem a senhora Goelle devia
ter transmitido a minha resposta. Na véspera da minha partida encontrei-o
na Rua Nova, ao regressar da igreja, Cumprimentou-me, desviando logo os
olhos. Corei um pouco, mas não senti mais do que uma ligeira comoção, um
leve constrangimento. Felizmente não chegara a ter tempo de amar este
desconhecido. Nestas condições a sua reserva não me fez sofrer. Concluí
apenas que este homem, filho de pais abastados, com a perspectiva dum
belo futuro, não tinha a necessária nobreza de espírito, para o belo gesto
de manter, apesar de tudo, a sua palavra!
Portanto, tudo quanto dissera, nunca fora um amor desinteressado.
Ao chegar a casa tratei de dobrar a minha roupa, arrumando-a na
mala. Ao ver o meu lindo vestido azul, lembrei-me dum belo dia de Junho,
e dum jovem médico muito atencioso e deveras enamorado. Encolhi os
ombros, murmurando:
— O meu pobre vestido cor do céu!... Ambos descemos um degrau,
depois daquele dia!

V
A pequena propriedade da Meulière, situada na Vendeia, tinha
pertencido a um velho tio de meu pai, o senhor de Sauriages, que fora o
meu padrinho, e que ma deixou no seu testamento. Quando poderia eu
pensar que ainda um dia devia tornar-se o meu único refúgio!... E nesse
dia de Janeiro, enquanto o comboio me levava ao termo da minha viagem,
senti uma leve apreensão apoderar-se de mim, no momento em que
chegava a esse lugar para mim desconhecido.
O tempo estava cinzento e melancólico. Os extremos do horizonte
estavam velados por escunas nuvens, que se estendiam lentamente pelos
primeiros planos. A atmosfera apresentava-se tão desoladora, como as
expressões carrancudas das minhas companheiras de viagem — duas
senhoras mais ou menos idosas, duas irmãs, segundo pareciam, que logo
que deixaram de cochichar, passaram a mimosear-se com palavras acres,
nada amáveis, devido a uma das suas criadas, que uma queria mandar
embora e a outra teimava em manter.
Refleti: "Se ao menos a minha boa Catarina estivesse na estação! Como
ficaria satisfeita se me viesse esperar!"
Por volta das quatro horas o comboio parou na pequena estação de S.
João da Bottellerie. Saltei, caindo quase aos braços duma mulher alta e
muito magra, que se encontrava mesmo em frente da minha carruagem. -
Oh! minha querida menina! - Oh! minha boa Catarina! — exclamei eu,
beijando-a nas duas faces.
Afastou-se um pouco, para melhor me observar, - Mas como está bonita!...
Como está bonita..
E dirigindo-se a um aldeão de blusa azul, que estava de pé, um pouco
atrás, com o chapéu na mão, perguntou, cheia de inocente orgulho:
— Hem?!... Não achas, Bardeaume, que está muito bonita a minha filha
de leite?...
Na sua fisionomia corada esboçou-se um sorriso, enquanto os pequenos
olhos do caseiro me analisaram com benevolência dos pés à cabeça.
— Está bonita, está!... Oh! minha senhora, como estamos contentes
em a vermos de novo na Meulière! A última vez que aqui esteve era ainda
muito pequena, mas já no entanto todos nós lhe queríamos muito.
Estendi-lhe a mão, que as suas mãos calosas apertaram.
— É uma grande alegria para mim ver-me de novo aqui. Recordo-me
muito bem da minha saudosa mãe me dizer muitas vezes: «Gillette, os
Bardeaume são das poucas pessoas que nos estimam e com quem se
pode contar».
Pelos olhos do caseiro passou um clarão de contentamento.
— A senhora de Arbiers não se enganava. A menina estará aqui como
na sua própria casa... Mas vamos indo, não?
Neste meio tempo Catarina pegou na minha maleta. Dei ao marido a
guia das minhas bagagens e acompanhei-os para a saída.
Atrás de mim ouvi uma voz masculina, dizendo:
— Deixou cair o lenço, minha senhora, Voltei-me. Um cavalheiro, duma
elegante estatura, novo e muito bem vestido, em traje de viagem,
descobria-se, apresentando-me o objecto em questão.
— Oh! muito obrigada, cavalheiro!
Catarina, que também se tinha voltado, disse respeitosamente:
— Boa tarde, senhor visconde.
E afastou-se, para o deixar passar. Respondeu-lhe com um certo ar de
dignidade:
— Boa tarde, senhora Bardeaume!
Quando se afastou um pouco, Catarina disse-me em voz baixa,
enquanto saíamos, por nossa vez:
— É o senhor visconde de Trézonnes, o dono da mais bela propriedade
de toda a Vendeia.
— Não parece ter um aspecto muito prazenteiro murmurei, pensando
na sua expressão altiva, dura, um tanto irônica, mas distinta, que mal
tivera tempo de observar.
— Não, menina!... Não é bem o que parece!... Gosta-se dele. O que é,
é um homem que só pensa em dominar os outros, e a quem nunca
ninguém conseguiu dominar.
Quando saímos da estação, vimos um automóvel que se afastava.
Avistei, dentro dele, a bela fisionomia do desconhecido. Bardeaume, que
seguiu a direcção do meu olhar, disse, com um riso que lhe sulcou ao de
leve as faces:
— Que pena, minha senhora, não termos um carro tão bom como aquele
para lhe oferecermos!... O da Meulière está ali...
Assim dizendo, indicava um velho carro, coberto com um toldo,
suspenso sobre arcos de madeira.
— ...Temos dentro dele uma pele de cabra e alguns cobertores... Espero
que não terá frio... Catarina, acompanha a senhora, enquanto eu vou
buscar a bagagem.
Quinze minutos depois seguíamos a caminho da Meulière. A bruma
estendia-se pelos campos, que me pareceram por isso muito melancólicos e
cinzentos. Com o cabo do chicote, Bardeaume indicou-me um vasto castelo,
com ameias, que se avistava vagamente à direita.
— È a Bottellerie, o castelo do senhor de Trézonnes — explicou ele.
— E vive aqui durante o inverno? - perguntei à Catarina, que seguia
sentada ao pé de mim.
— Sim, menina, o ano todo, salvo durante umas breves idas a Paris.
Quem não gosta muito disso é a senhora viscondessa, a madrasta, e a
menina Jaquelina, a irmã. Estas senhoras gostam mais da sociedade e da
vida de Paris. Porém o senhor visconde não lê por essa cartilha.
— Então não são senhoras de fazer o que lhes apetece?
— Não, menina... E onde iam arranjar o dinheiro para isso? É ele que
lhes dá uma mensalidade, com a condição de viverem na Bottellerie. Ele
defende-se, porque a senhora de Trézonnes é uma esbanjadora e os filhos
foram educados nos mesmos princípios.
— Tem muitos filhos?
— Três: um filho, que é oficial e comete toda a espécie de asneiras,
porque foi criado com muito mimo; uma filha, casada com um castelão dos
lados de Niort, o senhor da Bancelière, e a menina Jaquelina, que já tem
vinte e cinco anos e não encontra casamento. Também quem a há-de
querer!... Quando não se tem dote, e se é ainda pessoa pródiga, é de
fazer fugir os poucos pretendentes que apareçam.
— O senhor de Trézonnes é rico?
— Riquíssimo! Possui a fortuna de sua mãe, bastante aumentada, depois
das grandes melhorias que introduziu no domínio da Bottellerie.
— Sendo assim, é muito provável que dote a irmã!
— Oh! não creio muito nisso. O senhor visconde não é afectuoso com os
seus. É muito inteligente, muito enérgico, mas coração ninguém sabe
se ele o tem.
— É solteiro?
— É sim, menina, e já tem perto de trinta e dois anos. Com a sua
fortuna e bonito como é, basta-lhe apenas escolher...
— Parece-me que a sorte da futura viscondessa não será talvez muito
agradável, com um marido assim tão áspero..., e nada afectuoso.
— Assim deve ser... No entanto é um homem justo e correcto. Imagine
que, quando o pai lhe morreu, arruinado pelo jogo e pelos esbanjamentos
da sua segunda esposa, o senhor Gui tinha vinte e dois anos, e até então
nada mais tinha feito do que viajar e divertir-se. De repente tomou a
direcção da casa, veio instalar-se na Bottellerie, onde apenas aparecia na
época das caçadas, e começou a cuidar das suas terras, auxiliado por um
velho e sincero amigo, o senhor Rouchenne, proprietário da Sauvaie. Todos
diziam cá na aldeia: «O senhor visconde não percebe nada disto; acaba por
perder o pouco dinheiro que tem, em vez de ganhar». Ele porém estudou,
e seguiu o conselho das pessoas experientes. Depois, tem uma inteligência
privilegiada, e quando quer alguma coisa, consegue-a sempre, seja de que
maneira for. Assim, hoje, as terras da Bottellerie valem muito mais do que
há dez anos e produzem amplos rendimentos.
Bardeaume, que ouvia apenas a nossa conversa, atento à ladeira que o
animal ia subindo e que o havia obrigado a diminuir o passo, observou no
entanto:
— Além disso a terra é boa e toda junta. É uma linda propriedade!... E o
senhor visconde vai-a aumentando todos os dias. Qualquer dia fica senhor
de toda a região... A propósito, menina, podia fazer um bom negócio com
ele... A menina tem um prado, um belo prado, próximo do rio, e que ele
deseja comprar, por estar contíguo aos da sua propriedade. Eu, quando
ele me falou nisso, o ano passado, respondi-lhe que a menina de Arbiers ia
atingir em breve a maioridade e talvez lha quisesse vender em qualquer
ocasião.
— Se é um bom negócio, como diz, nada tenho a opor.
— Depende do preço que ele oferecer. Mas temos tempo de tratar
disso.
Neste momento, como terminasse a ladeira, o cavalo começou a trotar,
num passo certo, todavia. Estávamos porém perto. Em breve chegámos à
quinta da Meulière, toda cinzenta no meio da bruma. Ao estrépito do
cavalo, uma jovem abriu a porta e caminhou em direcção a nós.
- Angelina, a sua irmã de leite, menina Gillette - disse a Catarina.
Era uma moçoila alta e magra, de cabelos louros, com um vestido curto,
dum azul forte, e um pequeno avental. Cumprimentou-me com ar
pretensioso, a que respondi, estendendo-lhe a mão e dirigindo-lhe palavras
amáveis. Seguidas pelo olhar inquiridor da pequena, entrámos todos na
sala, onde nos esperava uma leve refeição.
Se a Catarina e o marido me pareceram óptimas pessoas, devo
confessar que o mesmo não podia dizer da filha, que me desagradou logo
desde o primeiro momento.
Nela tudo denotava afectação, desde a apresentação aos gestos, e até
à maneira de se exprimir. Como a boa da mãe me parecia mais digna e
mais bonita, na verdade, com o seu vestido asseado e simples de dona de
casa!
Como é que esta boa gente permitia que a filha se tornasse tão
diferente deles?... Esta pergunta fixou-se no meu espírito desde aquela noite,
quando vi o quarto de Angelina, onde devia ficar dois ou três dias, até que
o meu ficasse pronto. O dela era pequeno e claro, forrado a papel com
grandes flores garridas, guarnecido com móveis vulgares, com formas a
fingir arte moderna, e dois espelhos em frente um do outro. As paredes
estavam adornadas com quadros, de caixilhos dourados, e cujos motivos
me pareceram um tanto em desacordo com a idade da pequena. No
ambiente flutuava um perfume bastante forte, que me pareceu muito
desagradável.
Era a falsa elegância em todos os seus lamentáveis aspectos — desde as
meias demasiado finas, às botas de altos tacões, à espessa camada de pó
de arroz que cobria o rosto desta rapariga, cujo principal dever era ajudar a
mãe nos trabalhos da quinta.
A pobre Catarina mostrava-me tudo isto com tal expressão de vaidade,
que me incomodou. Então esta pobre mulher não via o perigoso caminho
que a filha ia seguindo, se não com o seu consentimento, pelo menos com o
tácito apoio da sua fraqueza maternal?
Ao jantar conheci o Tiago, o filho mais velho do casal, belo rapaz de
vinte e cinco anos, de fisionomia calma e bondosa. O mais novo, o
Francisco, estava cumprindo o serviço militar.
À mesa, cujo lugar de honra me coube, sentou-se também o criado,
entretanto que a Catarina é que nos servia. Quanto à Angelina, essa comia
com toda a calma, mas quase sem parar. E a sua figura empoada, de
cabelos curtos, onde tinham tentado fazer uma desajeitada ondulação; a
sua maneira desastrada de manejar o talher - em suma, toda a sua pretensão
rústica, pareceram-me a mais triste, a mais deplorável das notas, naquela
grande sala patriarcal, que amei desde logo, com as suas vigas
enfumaçadas, o seu grande fogão preto e os seus sólidos móveis de velha
nogueira polida, que tinham atravessado os séculos.
VI

No dia seguinte, logo pela manhã, fui ver a minha nova residência, em
companhia da Catarina» que me repetiu, com certeza para me evitar
qualquer desilusão:
— É muito velha aquela casa, menina. É uma casa muito triste.
Apesar desta prevenção, o meu coração sentiu-se oprimido quando vi as
paredes enegrecidas, marcadas com compridas listas esverdeadas, o
pavimento desconjuntado do terreiro, o velho alpendre coberto de musgo,
com a balaustrada destruída e quebrada em parte. Lamentável estréia,
tendo ainda a torná-la mais triste a chuva que caía...
Senti um arrepio de comoção ao penetrar no vestíbulo, que tresandava a
humidade e a bafio. Em todos os arruinados compartimentos que a Catarina
me mostrou, flutuava o mesmo cheiro, com excepção do quarto do primeiro
andar, que devia ser o meu, e onde a minha boa Catarina vinha fazendo
umas fogueiras há vários dias.
— Este é habitável — disse-me ela. — Quando há qualquer ponta de sol,
entra logo aqui; porém o resto da casa não vale nada.
O quarto era iluminado por duas janelas bastante largas. Aproximei-me
duma delas e abri-a. Ante os meus olhos estendia-se um grande jardim. Com
excepção dum canteiro em frente da casa, onde algumas árvores erguiam
os ramos sem folhas, o resto tinha sido transformado em horta.
— Foi o Bardeaume quem plantou esta horta, para aproveitar a terra —
explicou a caseira. — Os legumes dão-se aqui maravilhosamente; porém,
se não gostar, menina Gillette, pode-se modificar.
— Confesso que preferia ver um jardim cheio de flores; todavia os meus
minguadíssimos rendimentos não me permitem esse luxo, minha boa
Catarina, e suponho que será mais razoável deixar continuar aí os legumes.
— Isso é certo, menina; no entanto o Tiago, que gosta de jardinar,
arranjar-lhe-á da mesma maneira um jardinzinho. E depois, como verá,
existe na parede do quarto uma velha roseira, que dá as mais belas flores
de toda a região. É delas que todos os anos levo, ao senhor abade, um
ramo, por ocasião da festa do “Corpo de Deus”.
De pé, junto da janela, contemplava a chuva, lenta e fria, que caía
ininterruptamente, embebendo profundamente a terra escura, formando
diante da casa uma grande poça pardacenta, cuja superfície era agitada
pela queda de incessantes e numerosas gotas. A meu lado a Catarina
murmurou:
— Seja como for, a menina Gillette sempre está resolvida a ficar
aqui?... Não lhe parecerá muito triste?...
Voltei-me, observando-lhe a fisionomia amorável e inquieta.
— Nos primeiros dias, é provável; depois, como tudo, acostumar-me-ei.
Aliás, não pretendo ficar aqui por muito tempo. Já escrevi à superiora do
meu convento, pedindo-lhe para me arranjar um emprego, e qualquer dia
poderei ser chamada.
— Vai ser professora, ou qualquer coisa parecida, não, menina?
— Talvez, pois tenho de me sujeitar ao que vier; no entanto preferiria
outra coisa qualquer.
Catarina reflectiu em voz alta:
— É pena!... Uma menina tão bonita ir ensinar meninos mal educados, e
obedecer a pessoas que talvez nem lhe cheguem aos pés!...
Pus-me a rir, para esconder a minha melancólica comoção.
— É a sua afeição por mim que a faz pensar dessa forma, minha boa
Catarina. No fundo a minha sorte será igual à de tantas outras jovens da
minha idade e linhagem, que trabalham corajosa e dignamente... Bem, fica
resolvido; instalar-me-ei aqui o mais depressa possível, pois os meus
móveis já devem estar na estação.
— Vamos mandá-los buscar hoje, à tarde. O Bardeaume e o Tiago
arranjarão tudo da melhor maneira possível, e a Mayote virá dormir todas
as noites aqui... Lembra-se dela, menina?
— Sim, uma mulherzinha muito morena, a quem a senhora me confiava,
quando tinha de se ausentar.
— Exactamente. O marido morreu, já lá vão uns anos, e ela passa os
dias aqui e ali, para viver. Não conheço pessoa melhor, e ficará muito
satisfeita em poder prestar-lhe este serviço, muito fácil para ela, porque
vive perto daqui. Preparei-lhe uma cama num quartito, lá em baixo, visto a
menina estar resolvida a não querer ficar connosco...
— Não, não posso, minha boa Catarina. Como sabe, sou muito
independente. Fique certa, porém, de que isso não me impedirá de lhe fazer
muitas visitas.
— Oh! Cada visita será para mim um grande prazer, menina Gillette!...
Voltámos à quinta, atravessando o pomar, cheio de macieiras, única
parcela de terreno que a separava da minha casa. Na sala, a Angelina
varria preguiçosamente. Parecia desanimada, e respondeu com palavras
ásperas a uma observação da mãe. Perguntou-me depois, enquanto
observava o meu vestido cor-de-cinza, muito simples, mas bem feito:
— O quê?... Sempre lhe serve a casa, minha senhora?...
— Como não!... Estou até muito satisfeita, Angelina. O quarto é cômodo,
e o resto parecer-me-á mais alegre quando vier o sol.
— Parece-me que não deve ser nada agradável para quem já viveu na
cidade, como a senhora.
— Sim, um pouco, no começo. Porém pretendo trabalhar muito...
Em seguida, voltando-me para a Catarina, que começava a lidar, perto
do fogão, acrescentei:
— E a propósito, sabe a idéia que tive agora? Quero que me ensine os
trabalhos da cozinha, a fazer a manteiga e a cuidar das galinhas.
— A mulher olhou-me com um ar de espanto:
— O quê, menina?... Então pensa em tornar-se caseira?
— Quem sabe?... Não seria das piores idéias. Em todo o caso esses
conhecimentos são sempre úteis, além de que poderei ajudá-la um pouco.
— Oh! Por isso nunca, minha menina!
Aproximei-me dela e, passando-lhe o braço em volta do pescoço, beijei-
a.
— Não lhe estou a pedir a sua opinião. Sou como o senhor de
Trézonnes: quando quero alguma coisa, quero!
Catarina pôs-se a rir.
— Sempre queria ver, se estivesse em luta com ele, qual dos dois
ganharia!... Pela menina não ficava eu!... Porém com a sua ama, oh!
sim!...ganhava sempre. A menina é tão boa!... E depois, todos aqui lhe
querem muito, não é verdade, Angelina?
A minha irmã de leite respondeu com uma voz fraca:
— É sim, minha mãe...
E quase imediatamente acrescentou, com um riso irônico, que lhe fez
mostrar, entre os lábios grossos, uma fileira de dentes um tanto grandes,
mas muito brancos:
— Havia de ser muito engraçado, nós, nesta idade, tratarmos do
insuportável trabalho da quinta.
— Não me parece que seja pior que os outros!... Além disso é bom
para a saúde. A si não lhe agrada, Angelina?
— Não, minha senhora. Não nasci para esses trabalhos. E tanto assim,
que só casarei com um rapaz da cidade.
A mãe retorquiu, num tom de amorável censura:
— Ora, não penses em tolices!... É verdade que o campo dá trabalho,
mas vive-se melhor no campo do que na cidade, por muitos motivos.
— Não sou dessa opinião, e o que sei, é que não fui feita para viver
aqui.
Assim dizendo, começou de novo a manejar a vassoura e a levantar
poeira.
Catarina soltou um fundo suspiro, e depois murmurou:
— Ah! Estas meninas!... Não as podemos segurar em casa!... A
Angelina vive amofinada nesta casa!... É verdade que tem um certo ar de
menina da cidade!...
E o seu peito arfava de vaidade satisfeita. Triste vaidade materna, que
se orgulhava de ver a filha, educada com tão criminosa indulgência,
prestes a aumentar a dolorosa multidão das transviadas.
"Pobre Catarina!" — pensei eu. "Que dias de amargura estás
preparando!"
Desde o dia seguinte, à tarde, que fiquei instalada na minha casa.
Bardeaume e o filho tinham operado maravilhas em pouco tempo. O meu
quarto estava deveras encantador, com as cortinas de linho, com
desenhos à Luís XVI, a cama de bronze e a linda cômoda antiga. As
paredes estavam ornadas com um espelho e diversas fotografias. No
fogão, entre dois pequenos candelabros de porcelana de Saxe, coloquei o
relógio carrilhão, o mesmo que fora da minha mãe. Um grande tapete,
com folhagens, um tanto usado, mas ainda bastante conservado, cobria o
soalho, o que dava ao quarto um aspecto confortável.
Os outros móveis guardaram-se numa sala do rés-do-chão, aguardando
que o Tiago pusesse em ordem um pequeno quarto que dava para o jardim.
Faltava apenas refazer a pintura das madeiras que encobriam as paredes.
Feito isso, ficaria com uma espécie de salinha de visitas, muito agradável
para o verão, admitindo que ainda ali estivesse por ali.
Pronto o meu quarto, chamei a Catarina e a Angelina. A primeira
exclamou:
— Como está lindo, menina Gillette!... Isto ficou um verdadeiro
ninhozinho, onde dá gosto viver!
Angelina observou tudo com olhares inquiridores, dizendo por fim, num
tom um tanto irônico:
— Não está mal. Prefiro porém os móveis novos, a estas velharias.
Ironicamente, retorqui-lhe:
Cada um tem o seu gosto, e além disso os velhos móveis têm muito mais
valor.
Como são bonitos os móveis da Bottellerie! — exclamou Catarina, com
um acento de admiração. Oh! Se visse o salão, menina Gillette! Tudo aquilo
porém não serve para nada. Não é por que as senhoras não gostem de
receber, mas o senhor visconde não permite mais do que três ou quatro
recepções, por ocasião das caçadas. Então é que é magnífico! O senhor de
Trézonnes não olha a despesas naquelas ocasiões. Depois volta a calma, e
as senhoras têm de se contentar em fazer e receber visitas entre as famílias
dos arredores.
Tiago, que batia um prego para um quadro, exclamou do alto da escada:

— Isso deve mudar talvez quando o senhor visconde se casar.


Notei um leve estremecimento no rosto da Angelina, um rosto fresco,
mas destituído de encanto e de expressão, porque o olhar era sempre frio e
pretensioso. Aliás não dei nenhuma importância a este sintoma de comoção,
e continuei a fazer as honras do meu pequeno domínio, enquanto o Tiago,
deveras satisfeito com a sua obra, dava a última demão ao trabalho.. Feito
isto, fomos fazer a nossa festa para a sala da quinta, em homenagem à
minha instalação nesta casa isolada. Naquela noite dormi já na minha cama;
um levíssimo aroma a íris substituiu o perfume vulgar, tão do gosto da
Angelina, e os meus olhos, antes de se fecharem, pareceram admirar as
formas familiares dos móveis e dos objectos que tinham pertencido a minha
mãe.

VII
Por conselho da Catarina fui alguns dias depois fazer uma visita ao abade
da aldeia e a uma velha senhora, os quais, tanto um como a outra, tinham
conhecido o senhor de Sauriages, sendo òptímamente recebida pelos dois. A
senhora Mossette, uma velhinha quase cega, mas muito agradável, pediu-
me que a fosse ver algumas vezes. Falou-me dos meus pais, que vira
noutros tempos na Meulière, quando vinham passar alguns dias a casa do
tio.
— Tem a mesma voz de seu pai, minha menina; era uma voz tão
encantadora e expressiva, que logo nos dominava. Parece-se com ele no
físico?
— Parece que sim, minha senhora. Em especial nos olhos.
— Então devem ser muito bonitos. Os dele tinham um encanto
inesquecível Era também muito afectuoso e terno para com a esposa...
Pobre senhora de Arbiers! Fiquei deveras contristada quando soube da sua
desgraça...
Saí bastante reconfortada da pequena casinha, toda pintada de
cinzento, que a senhora Mossette habitava, à entrada da aldeia, e dirigi-me
para a igreja. As mulheres, quando eu passava, baixavam a cabeça,
olhando-me depois com mais benevolência do que curiosidade. Os homens
cumprimentavam-me, e as crianças diziam-me: “Bom dia, minha senhora!”.
Mantinham-se ainda, entre esta boa gente, estes gestos de delicadeza, hoje
tão menosprezados.
A igreja, misto do século XIV e dos primeiros alvores da Renascença,
tinha alguns lindos motivos esculturais, que logo pensei vir um dia admirar
com mais vagar. Entrei e ajoelhei-me ao fundo da nave escura. Do íntimo
da minha alma pedi a Deus para abençoar os meus passos nesta aldeia, e
comigo, os de todos aqueles que haviam acolhido com tanta bondade a
órfã arruinada.
Assim fiquei por longos minutos, na calma obscuridade da nave
deserta, na suave doçura daquele ambiente divino. Como precisava porém
de fazer a minha visita, dirigi-me para o presbitério, velha construção que
se erguia à direita da igreja. A irmã do abade fez-me entrar para uma sala
de espera, onde, pouco depois, apareceu um sacerdote, muito idoso,
baixinho e magro, e cuja fisionomia mantinha uma admirável vivacidade de
expressão. O abade mostrou-se muito bondoso, muito paternal, e falou-me
também de meus pais, mas sobre tudo do senhor de Sauriages.
— Era um bravo, mas muito original. Éramos muito amigos!... Mas
a sua casa está na verdade em condições de ser habitada, minha senhora?
— Um compartimento do primeiro andar está bastante razoável,
senhor abade. Já estou ali instalada e parece-me que fiquei bem.
— Oh! tanto melhor!... Pensa ficar algum tempo entre nós?...
Principiei por lhe explicar a minha situação. Abanou a cabeça e
reflectiu um momento:
— Oh! É pena!... É pena!... Se pudesse ficar aqui!... As nossas
jovens aldeãs apenas pensam em sair... Assim, seria um óptimo exemplo o
verem uma jovem da cidade fixar residência entre nós.
— Mas, senhor abade, preciso trabalhar para viver.
— Sim, tem razão; mas talvez se pudesse arranjar qualquer coisa
que lhe permitisse ficar aqui...
Respondi-lhe, sorrindo:
— Talvez seja possível fazer de mim uma lavradeira?... Já esta
manhã a Catarina me começou a ensinar como se faz a manteiga, e desde
anteontem tenho ido com ela ao galinheiro.
— Não seria assim muito mal pensado!
— O que acontecia, era eu ficar uma lavradeira sem quinta,
senhor abade. A Meulière está arrendada aos Bardeaumes. E, além disso,
antes que eu adquira alguma prática, ainda leva muito tempo.
— Não poderia tentar outro serviço qualquer, que lhe permitisse
ficar em casa?... Uns bordados, por exemplo?
— Bordo regularmente. O difícil será arranjar alguém que compre
os meus trabalhos por um preço razoável.
— Sim, é isso o pior da questão. Mas vou-me informar e falar com
a senhora Mossette, que tem umas sobrinhas em Paris. Seria uma grande
corsa se pudesse evitar o ir viver para casa dos outros.
Quando contei à Catarina esta conversa, exclamou:
— Também sou da opinião do senhor abade. Já que a menina se
conforma em viver na casa, no estado em que se encontra, seria muito
preferível que aqui ficasse. Os bordados é que estão de acordo com os seus
finos e brancos dedos.
— Os meus finos e brancos dedos!... Precisam calejar-se muito,
minha boa ama. Assim, dê-me alguma coisa da sua costura para terminar o
dia.
Catarina protestou, mas vendo a minha insistência teve de ceder.
Sentada junto à janela, pus-me a coser algumas camisas de pano grosso,
enquanto no outro lado da sala Angelina passava roupa, com toda a
indolência.
Sentia-me muito vacilante sobre a decisão a tomar. As palavras do
abade haviam arreigado em mim o intimo desejo de me instalar em
definitivo na minha velha casa, pois receava ter de ir viver, como
empregada, na casa dos outros. Que seria de mim? Por que desgostos não
teria eu de passar ainda? Por outro lado, com excepção do vestuário, estaria
livre de todas as despesas, o que me permitiria, todos os anos, guardar
alguma pequena economia para o futuro. Ora precisamente no dia seguinte,
recebi a resposta da superiora do meu convento, aconselhando-me também
a ficar na Meulière:
"Tem um feitio muito independente, minha filha" — acrescentava ela—,
"e por isso ficará muito melhor aí. Segundo depreendi das cartas que me
escreveu, noto que é sempre a mesma, muito impulsiva, muito franca, e
apenas se deixando levar por quem a estime. Creio que o lugar de
professora em casa duma família não seria muito aconselhável, e muito
menos ainda como dama de companhia. Com os seus pequenos
rendimentos, e estando já instalada, não poderá arranjar de forma a poder
viver no campo? Parece-me que sim. Acho esta solução a melhor para si,
minha filha. Inteligente como é, dum espírito clarividente e engenhoso,
encontrará sempre em que se ocupar. Talvez mesmo, auxiliada pelos seus
bons caseiros, possa conseguir algumas fontes de rendimento com os
produtos agrícolas, como sei de muitas senhoras de igual posição social.
Creio que estaria à altura de tal tarefa, visto que é activa e perseverante.
Enfim, pense bem. Se não estiver de acordo comigo, seja franca; procurar-
lhe-ei um emprego".
Esta carta pôs termo à minha indecisão. Resolvi seguir estes conselhos,
que estavam tão de acordo com os meus desejos. Ia arriscar-me, mas
estava sempre a tempo de seguir qualquer outro caminho, mais tarde, se o
julgasse conveniente. Para o momento, e feito o meu pequeno orçamento,
estava certa de poder viver modestamente na minha velha casa — pelo
menos enquanto ela se mantivesse de pé, visto que me era de todo
impossível proceder a quaisquer reparações, ainda as mais urgentes.
Enquanto estivesse direita e a chuva não invadisse o meu quarto, como
sucedia já nos outros compartimentos, teria ali um abrigo, estaria “na
minha casa”, palavras mágicas, que me fizeram preferir uma vida de
privações, a uma existência luxuosa "em casa dos outros".
Catarina exultou de alegria, quando lhe comuniquei a minha resolução.
Em seguida tratámos da minha pensão, que continuariam a mandar-me à
herdade, e que ela se obstinava em querer fornecer-ma de graça. Como
chegasse Bardeaume, enquanto conversávamos a tal respeito, foi
combinado que continuasse a vender, em seu proveito, os legumes do meu
jardim, afirmando ele que o negócio ia compensá-los largamente da
pequena despesa que iam ter comigo.
Quando dois dias depois, o abade veio agradecer-me a minha visita, ficou
muito satisfeito com as notícias que lhe dei, e disse-me que a senhora
Mossette, de perfeito acordo com ele, escrevera a uma das sobrinhas,
pedindo-lhe para se informar junto das pessoas conhecedoras do negócio,
sobre as probabilidades de venda dos meus trabalhos.
Todos pareciam muito satisfeitos com a minha resolução, excepto a
Angelina, segundo notei na sua fisionomia. Tinha a impressão de que a
nossa antipatia era recíproca; porém isso importava-me pouco, visto que
todos os outros, mesmo o criadito, eram óptimas pessoas, que me
rodeavam de atenções e se julgavam felizes por me terem junto deles.
Na semana seguinte voltei a visitar a senhora Mossette. Ainda não tinha
tido resposta da sobrinha. Li-lhe um bocado num livro do seu agrado e
prometi voltar mais amiudadas vezes. Tinha por ela já uma grande estima, e
o seu espírito, ainda vivo, e a sua cultura intelectual tornavam-na muitíssimo
interessante. Falou-me do castelo da Bottellerie, onde vivera na sua
mocidade, descrevendo-me, com lindas palavras, as caçadas com galgos
em que tinha tomado parte.
— Os Trézonnes foram sempre uns apaixonados caçadores — disse ela.
— O actual castelão mantém o costume tradicional, segundo creio.
Conheço-o pouco. Vem fazer-me uma visitinha de cinco minutos, uma vez
por ano — em Janeiro. É um homem elegante, dum andar aristocrático,
mas dum espírito bastante reservado, segundo parece. É temido e não
amado. No entanto conseguiu entre nós uma esplêndida situação. Não é
evidentemente uma inteligência vulgar, mas não queria por maneira
nenhuma ser sua mulher.
Lembrando-me da fisionomia que conseguira entrever, exclamei
também:
— Nem eu!
A senhora Mossette riu-se.
— No entanto ficar-lhe-ia muito bem o título de viscondessa, e além disso
riquíssima, como será a futura senhora de Trézonnes!
Ri-me também, respondendo:
— Só isso não me bastaria. Antes de tudo estará o marido. Ora o senhor
de Trézonnes é um espírito pouco acessível, segundo ouvi dizer. Afirmam
mesmo que não tem coração.
— Isso não sei; mas pode muito bem ser que o cérebro, tão
admiràvelmente equilibrado, o tenha absorvido. E seria uma grande
desventura para ele, porque o coração, é sempre o coração!...
O seu rosto enrugado pareceu iluminar-se, enquanto pensava, talvez,
em todas as afeições da sua vida, já desaparecidas, mas sempre vivas na
sua alma.

VIII

Estou convencida de que a Catarina supôs, de início, que não passasse


dum simples capricho passageiro o meu desejo de ser iniciada nos trabalhos
duma verdadeira aldeã; ao cabo porém de pouco tempo foi obrigada a
convencer-se de que a minha perseverança era sincera, e pasmou quando
me viu levar a cabo, com muita perfeição, todos os serviços que lhe
pareciam incompatíveis com a minha situação de “senhora”.
— Nunca vi tal!... Olhe que já está trabalhando melhor do que a
Angelina, menina Gillette! Será possível que num mês?... E não se
aborrece?
— Por maneira nenhuma!... Pelo contrário, até me sinto deveras
interessada.
— Que pena não ter a Angelina essas mesmas idéias!... Só pensa em ir
para a cidade, e por isso não tem gosto nenhum por estas coisas.
Brandamente, respondi-lhe:
— E porque lhe deixou adquirir esses hábitos e essas pretensões,
impróprias do seu meio? Considera-se naturalmente fora do seu ambiente, e
não aceita de bom grado estes serviços, que supõe muito pesados para
ela. Na sua imaginação julga-se superior a todos os seus, desprezando o
trabalho do campo, que foi o de todos os seus antepassados. É um grande
mal para ela e para si, minha boa Catarina.
—Foi educada com muito mimo, menina!... Agora já perdemos a força
moral. Às vezes, quando o pai quer zangar-se com ela, digo-lhe que a
culpa é nossa e não dela, visto que a deixámos crescer à vontade. No fundo,
não é má, como vê: mas é nova, não reflecte...
Angelina abusava largamente da fraqueza materna. De manhã levantava-
se tarde, aparecia mal penteada, vestida de qualquer maneira, com os pés
enfiados numas sujas chinelas. Depois de fingir que tinha trabalhado um
pouco, voltava para o quarto, arranjava os cabelos cortados à última moda,
empoava o rosto, vestia um vestido muito curto, de cor berrante, um
avental vistoso, uns sapatos elegantes, e em seguida dignava-se aparecer
na sala, a menos que não preferisse ficar a ler, junto da janela, algum
romance vulgar, como o que encontrei no seu quarto, e cujo título me
tinha chamado a atenção.
No entanto a mãe começava a ficar cansada; às vezes dizia, abanando
a cabeça: “Oh! bem se vê que já não estou nos meus vinte anos!”...
Contudo era corajosa para trabalhar e poucas vezes se queixava.
Sob a sua direcção iniciei-me nos diversos trabalhos domésticos.
Ajudava-a a tratar do galinheiro, a fazer a manteiga, a preparar as
refeições, a remendar e a passar a roupa. Uma tarde em que foi obrigada a
ir à aldeia, deixou-me só na sala, com dois ferros de brunir e uma boa pilha
de roupa, enquanto a Angelina se enfeitava no quarto.
Com as mangas arregaçadas e um avental branco diante de mim,
trabalhava com afinco. Na outra extremidade da sala, a porta entreaberta
deixava entrar o ar fresco dessa tarde de Fevereiro, que amenizava o calor
irradiado pela estufa. Por vezes ouvia lá fora o barulho do rodar dum carro,
ou o cacarejar duma galinha. A certa altura ouvi um maior tropel no chão
duro do quinteiro. Pensei: “Deve ser talvez Bardeaume, ou o filho, que
regressa do trabalho”.
Levantei a cabeça e o meu braço ficou imóvel, com o ferro no ar. No
rectângulo da porta surgiu uma alta silhueta masculina, que reconheci
logo ser o senhor de Trézonnes.
Senti um vivo rubor subir-me às faces, sem nenhuma razão. Ele parou
um instante, depois adiantou-se alguns passos, tirando o chapéu.
— Queira desculpar, minha senhora... Poderia dizer-me se está o senhor
Bardeaume?
— Não está. Saiu para Bressuire, esta manhã.
— Sinto muito. Precisava pedir-lhe umas informações. Quer ter a fineza de
lhe dizer para me ir procurar amanhã, de manhã cedo?
— Com todo o prazer. Logo que ele volte, dar-lhe-ei o recado.
— Fico-lhe muito agradecido.
Teve um gesto de quem se vai despedir, mas, reflectindo, perguntou-me
no mesmo tom de severa cortesia:
— Suponho ter a honra de falar à menina de Arbiers?
— Exactamente, senhor.
Continuava com o ferro suspenso, numa atitude de ridículo
acanhamento. Pela primeira vez pude ver de perto o castelão da Bottellerie;
até agora desconhecia o poder dominador do seu olhar, que se fixava em
mim, causando-me um sério mal estar. Era um lindo olhar, na verdade, mas
ao qual faltava, no entanto, um pouco de ternura.
O senhor de Trézonnes prosseguiu:
— Bardeaume já lhe falou, talvez, minha senhora, numa pretensão que
tenho e que há tempos lhe disse? Trata-se dum prado que é propriedade da
senhora, e que eu desejo adquirir por estar em continuação dos meus,
situados na margem do rio.
— Disse-me isso quando cheguei, mas não voltámos a falar em tal.
— Opor-se-ia a essa venda?
— Não senhor!... Mas conversarei primeiro com o Bardeaume, pois
ainda sou muito inexperiente para tratar desses assuntos. Terá por isso a
bondade de se dirigir a ele.
— Sim, para tratar com ele a questão monetária; porém, antes de lhe
falar, quis certificar-me se a senhora dava ou não o seu consentimento,
visto que com os nossos camponeses, sempre muito espertos, gosto de ir
logo ao fim.
Neste momento abriram uma porta ao fundo da sala e apareceu a
Angelina. Ao cumprimento pretensioso que dirigiu ao senhor de Trézonnes,
este correspondeu com um simples movimento de cabeça. Com um olhar,
ao mesmo tempo muito humilde e muito insistente, a minha irmã de leite
perguntou-lhe:
— O senhor visconde procurava alguém cá de casa?
— Sim, o senhor seu pai — respondeu o senhor de Trézonnes
secamente. — Acabo porém de saber, por esta senhora, que está ausente.
Esperá-lo-ei amanhã de manhã no castelo.
E voltando-se para mim, acrescentou:
— Falaremos também do seu campo, minha senhora, e tenho a certeza
de que havemos de nos entender.
— Assim o espero, senhor.
Inclinou-se com uma cortesia um tanto altiva, que parecia ser-lhe muito
habitual, e nessa altura pude ver-lhe ainda no olhar a mesma chama
dominadora. Depois saiu, acompanhado até à porta pela Angelina,
humilde e solícita como eu nunca a vira.
Ainda um tanto perturbada com o incidente, fui colocar o ferro na
estufa e peguei no outro. Ao voltar-me, encontrei-me face a face com a
minha irmã de leite. Chamou-me a atenção a chama de ódio que se
reflectia no seu olhar. Com as faces vermelhas, bastante agitada, falou-me
num tom um tanto áspero:
— Devia ter-me chamado para atender o senhor de Trézonnes, menina
Gillette. Isto não são assuntos da sua conta.
— Se estivesse aqui, no seu lugar — respondi prontamente —, o senhor
de Trézonnes não se teria dirigido a mim, do que teria dado graças a
Deus, porque, como bem diz, não é da minha conta.
Dizendo isto limpei o ferro e passeio sobre um avental estendido diante
de mim. Angelina soltou uma risada.
— Que boa empreitada!... Aí está um bonito divertimento para a gente
se cansar um pouco!...
— Para mim, felizmente, é um grande prazer contribuir para que a minha boa
Catarina descanse um pouco. Infelizmente estou vendo que é incapaz de
compreender ou tentar fazer isso.
Encolheu os ombros.
— Não me quero aborrecer. Prefiro antes fazer alguma coisa que seja
mais fácil...
— Que não lhe suje as mãos! — disse eu com ironia.
Envolveu-me num olhar mal humorado:
— Certamente que não as quero sujar!... Se não são tão delicadas como as
suas, pelo menos podem ser tão brancas... Olhe!...
E estendeu os dedos grossos, brancos e per fumados com qualquer "água
de colônia". Os seus braços, a descoberto até aos ombros devido às mangas
curtas, retesaram os músculos fortes sob a pele trigueira.
Aproximou-os depois dos meus, muito finos brancos e nacarados, e das
minhas mãos esguias e de contextura delicada. Retirou-os quase logo. O
clarão de triunfo que acabara de iluminar-lhe os olhos extinguiu-se, e afastou-
se, mordendo os lábios.
Num tom de calma censura, disse-lhe:
— Não tem o direito de ter umas mãos tão brancas, Angelina, quando as
da sua mãe se gastaram e deformaram no trabalho. E posso afirmar--lhe
que não é nisso que está a felicidade!
Afastou-se sem dizer palavra; concluí, porém, que me invejava e
detestava. Concluí também que esta pequena, toda vaidosa, muito
enfatuada da sua pessoa, que não dispensava a menor atenção à
companhia das outras pequenas do lugar, sabia mostrar-se deveras servil
para com as pessoas mais importantes da terra.
Estas descobertas não eram de molde a provocar no meu espírito uma
opinião mais favorável à Angelina, e concluí com mágoa, naquela tarde, que
a nossa mútua antipatia poderia ser, um dia qualquer, a causa, dum
conflito.

IX

No dia seguinte pela manhã, quando o Bardeaume se encaminhava para


a Bottellerie, resolvi ir ver o tal famoso prado que ainda não conhecia. Às
dez horas, mais ou menos, deixei a quinta e meti-me pelos atalhos estreitos,
entre sebes fechadas, que em breve a primavera viria reverdecer.
Enquanto caminhava, li uma carta da senhora Barduzac, trazida pelo
carteiro havia ainda poucos instantes. Não me apressara a abri-la, sabendo
de antemão quais as palavras ternas e os conselhos que ela devia conter.
De facto, a minha resolução de ficar na Meulière era considerada uma
loucura, predizendo-me que em breve me arrependeria.
“De resto, esta asneira da sua parte não me causa admiração” —
concluía a minha gentil tutora.
Voltei a dobrar a carta, meti-a no bolso, e ao cabo de alguns minutos já
não me lembrava dela. A manhã estava deliciosa, bastante fresca, mas
vibrando toda duma claridade que já não eram as claridades hibernais. Ao
longe estendiam-se raras brumas sobre os bosques, dentro em pouco
ressuscitados pelo sopro da primavera. Acabava de evaporar-se o orvalho
das sebes, das terras agricultadas, ainda fofas do recente labor, e da
grama rasteira dos prados, de que se viam os grandes espaços verdes,
entre os choupos, ao longo do rio. Bardeaume tinha-me dito: “O da menina,
é o primeiro, depois da nossa casa”, e por isso encontrei-o logo. Ficava em
declive suave para a corrente. Empurrei a cancela e entrei. A terra húmida
cedia debaixo dos meus pés, enquanto o sol me envolvia, me acariciava—
este sol de Fevereiro, que não conhece o obstáculo das folhagens, privando-
nos da doçura das penumbras. No prado podia espraiar-se à vontade, no
amplo espaço deserto, entre os claros troncos dos alamos, cujos ramos
altos, que a seiva percorria em haustos vigorosos para a festa da primavera,
um vento ligeiro brandamente agitava. Sentei-me à margem do rio, que
deslizava lentamente, cambiando a sua tonalidade de instante a instante, ou
melhor, ostentando todas as tonalidades ao mesmo tempo, ao sabor da luz,
da corrente, do ar que passava, agitando-a. Ora verde, como se nela se
reflectisse o campo que lhe ficava fronteiro; ora cinzenta, da cor de cinza da
ardósia, raiada de sol; ora surgia ainda dum azul celeste, com demoradas
reverberações de ouro, no marulhar das suas águas claras.
Fiquei demoradamente a contemplá-lo. As horas passaram, o dia
tornara-se mais escuro, porque uma nuvem tênue e muito comprida
flutuava diante do sol. Sobre o rio, sobre o prado, contornado por grossos e
belos muros, na outra margem, adelgaçavam-se as sombras. Senti um ligeiro
estremecimento, ao ouvir uma voz que me chamava:
— Olá, menina Gillette! É a hora do almoço!
Pus-me de pé e atravessei o prado. Bardeaume esperava-me junto da
cancela, com um amável sorriso nos lábios grossos.
— Veio procurar-me, Bardeaume?
— Não, menina. Venho da Bottellerie. Ao passar por aqui vi-a à beira do
rio e pela maneira como estava, pensei que se tivesse esquecido da hora.
— Era isso mesmo — respondi-lhe a sorrir. — Acho lindo este rio, e este
prado deve ser encantador na primavera. Pensando bem, tenho vontade de
ficar com ele, Bardeaume.
Teve um gesto de desaprovação.
— Não sou da sua opinião, menina. É um bom prado, é certo, mas que
não fará falta, porque o de lá de cima basta para a nossa criação. O
senhor de Trézonnes dará bom dinheiro por ele, porque está ligado com os
das suas propriedades. Já ofereceu três mil francos.
— E que tal?
— Óptimo, é certo que vale isso, porém não se encontraria tão grande
oferta em todo o lugar. O senhor visconde podia comprá-lo mais barato —
mesmo por dois mil e quinhentos francos tê-la-ia aconselhado a aceitar,
porque ainda era um bom negócio; mas ele estabeleceu logo o seu preço, e
assim não precisei discutir, o que é sempre desagradável com o senhor de
Trézonnes. Tem um jeito para embaraçar as pessoas!... Basta olhar para
elas!... E depois, quando diz uma coisa, está dita. É verdade!... É um
homem..., e um homem difícil de contrariar!
Caminhávamos, conversando, pela estrada que ladeava os campos.
Bardeaume estendeu o braço para a direita... e para a esquerda...
— Veja, menina Gillette; tudo isto é dele...-, lá em baixo... e além... e lá
ao longe...
Recordando-me de que, nos meus primeiros passeios, os meus amigos
me tinham mostrado soberbas terras pertencentes ao castelão da
Bottellerie, exclamei, rindo:
— Parece o marquês de Carabas, este senhor de Trézonnes!
— Quase, menina!... Possui quase toda a região... Suponho que
gostaria de comprar a Meulière.
— Já lho disse?
— Não, menina, mas disse-me um dos seus caseiros, Carbille, de Haie-
Blanche, que o ouviu um dia falar nisso.
— Não a venderei por coisa nenhuma!... Estou vendo que este senhor
quer tornar-se o rei de toda a região!
— Também assim penso!
Nesta altura metemos por um atalho. Um alto muro, à direita, estendia-
se ao longo dum jardim. De pé, junto duma pequena porta aberta, um
velho, de blusa azul, esperava um criado que vinha da estrumeira. Ao
ver-nos, tirou o pequeno barrete que lhe cobria a cabeça calva.
— Bom dia, senhor Rouchenne! — disse Bardeaume abrandando o
passo.
— Bom dia, meu rapaz... E bons dias também, menina de Arbiers.
Aproveito a ocasião para lhe apresentar os meus melhores votos de boas
vindas.
Parei para lhe responder e agradecer. Aos Bardeaumes tinha já ouvido
fazer, por mais duma vez, referências ao velho Rouchenne, proprietário da
Sauvaie, antigo solar escondido entre as árvores e as flores dum bonito
jardim. Na missa cantada do domingo anterior chamara-me já a atenção
este asseado velhinho, de barba escanhoada e calva luzidia, onde se viam
raros cabelos brancos. Ocupava sempre o mesmo lugar na igreja e
acompanhava os ofícios com recolhimento, sem afastar os olhos do altar ou
do seu livro de missa, em couro preto, com fechos de metal, bastante
grande e provavelmente pesado, porque o apoiava na beira do
genuflexório, inclinando para ele o rosto magro, duma tonalidade de terra
seca, todo sulcado por pequenas e profundas rugas, tal como um solo
seco há muito. Sabia que o velho Rouchenne pertencia a uma família de
revoltosos, célebre nos anais da Vendeia; o seu avô, com perigo da própria
vida, arrancara das mãos dos "azuis" o bisavô do senhor de Trézonnes, a
quem este tratava como amigo, como igual, apesar de descendente de
camponeses que haviam combatido com os senhores da Bottellerie em prol
da religião e da realeza; assim como não ignorava também que em toda a
região chamavam ao ancião da Sauvaie: “Um santo homem”.
Todas estas coisas tinham-me despertado a curiosidade de o conhecer
mais de perto e por isso apertei com prazer aquela mão que se estendeu
para mim com toda a cordialidade.
— Conheci muito bem o senhor de Sauriages, que era uma boa pessoa,
salvo quando discutia política. Então era terrível, minha senhora!... Nessas
ocasiões era capaz de matar todo o mundo!...
Um leve sorriso se lhe esboçou no rosto pensativo e deslizou-lhe pelas
pupilas cinzentas, cujo olhar sereno e profundo me envolveu.
—...E, de facto, era o melhor dos homens, muitíssimo sossegado. Porém a
senhora não o conheceu, e agora conhece apenas a sua velha casa, onde me
parece impossível que a menina possa viver.
— Estou acostumada a adaptar-me às circunstâncias, senhor Rouchenne.
E a verdade é que me sinto muito bem entre as ruínas da minha casa.
— A menina deve ser corajosa e alegre! — disse, olhando-me com mais
atenção.
— Alegre, sim; corajosa..., algumas vezes.
— Estou certo de que é sempre corajosa, e isso é muito bom, é muito
cristão...
Bardeaurne interveio:
— É inegável!... A menina Gillette é muito corajosa. Se visse, senhor
Rouchenne, como ela trabalha! Aprendeu já a fazer manteiga, ajuda a
minha mulher a tratar do galinheiro, etc. Oh! na verdade não é nenhuma
boa vida!
Vislumbrei nos olhos do velho um crescente interesse.
— Admirável!... admirável!... E isso interessa-lhe, menina Gillette?
— Muitíssimo.
Bardeaurne retorquiu, entusiástico:
— E além de tudo isto faz uns lindos bordados! A nossa menina é
completa!
— Ora, não exagere, Bardeaurne! — exclamei eu.
O senhor Rouchenne sorriu.
— Estou convencido de que não exagera e que as fadas lhe
concederam todos esses dons e mais ainda, o da bondade. E é essa a
razão por que um velho solitário se atreve a pedir-lhe para que venha
algumas vezes trazer-me a esmola da sua juventude e da sua alegria. Já
soube pela senhora Mossette que a menina gosta dos velhos, o que é um
predicado raro, mas deveras consolador para os nossos corações, já tão
próximos do túmulo.
Num impulso de comoção, disse:
— Sim, senhor, terei muito prazer em vir vê-lo. Não conheci os meus
antepassados, que ainda choro. Junto do senhor e da senhora Mossette
terei a impressão de os ter ao meu lado.
A sua mão trigueira, de veias salientes, estendeu-se para mim, e
envolveu-me com todo o seu olhar, cheio duma paternal doçura.
— Desejaria ser para a menina como um bom avôzinho, em quem tivesse
toda a confiança e de cuja experiência pudesse receber os devidos
conselhos. Não demore muito em vir ver-me. Mostrar-lhe-ei o meu jardim,
bem como os trabalhos da minha falecida esposa, que foi a mais hábil
bordadeira de toda a Vendeia.
No nosso regresso para a Meulière, Bardeaume disse-me:
— O senhor Rouchenne simpatizou muito com a menina para lhe fazer
tal convite!... Em geral não aprecia muito as pessoas novas.
— A simpatia foi mútua... Como é bondoso o seu olhar!... Que idade
tem ele, Bardeaume?
— Parece-me que tem oitenta e seis anos, minha senhora.
— Oitenta e seis anos!... Não lhe supunha tanta idade!
— Está bem conservado. Ainda há dois anos ia vigiar os criados pelo
campo, pela quinta, por toda a parte. Depois vendeu as terras ao senhor
de Trézonnes e agora trata apenas do jardim. No verão, às cinco da manhã,
já anda em volta das flores.
— Vive sozinho nesta casa?
— Não, menina. Tem um criado, mas não tem família. Os três filhos
morreram-lhe ainda novos, e a mulher faleceu já há muito tempo. Durante
toda a sua vida passou por grandes sofrimentos!... Já sofreu por todos! —
concluiu filosòficamente Bardeaume.

Quando fui visitar a senhora Mossette, no dia seguinte, domingo,


comunicou-me a resposta que tinha recebido da sobrinha. Na carta
indicava duas casas que podiam adquirir os meus trabalhos. Dizia ela:
“será inútil qualquer tentativa, se os trabalhos não forem impecáveis de
execução e não se distinguirem dos modelos em voga, por um cunho
pessoal, por qualquer cousa de inédito e original”.
Ao ler estas linhas lembrei-me duma frase dita a meu respeito pela
minha professora de bordados, no colégio: “Não se pode dizer, Gillette, que
imite quem quer que seja. Tudo quanto faz, mostra logo o seu traço
característico”.
Era muito possível que os trabalhos feitos, depois que deixei o colégio,
sobre desenhos da minha imaginação, pudessem ter a sorte de agradar a
esses comerciantes parisienses. Nesse caso seria um óptimo auxílio para os
meus modestos rendimentos.
Escolhi os que me pareceram melhores: lenços, pequenas toalhas e uma
roupinha de criança. Oh! que mimo!... E pus-me a fantasiar, diante daquela
leve musselina estendida nos meus joelhos. Pelos meus olhos passou a
imagem dum corpito frágil de criança, duns rechonchudos bracitos saindo
das mangas bordadas, dum rostozito rosado, emoldurado por uma golinha
quadrada, em volta da qual a minha agulha tinha bordado umas leves
grinaldas de minúsculas rosas, e uma vozita leve exclamar: “Mãe!” Os meus
lábios roçaram pela sua face tépida, macia como uma pétala de rosa, e
apertei contra o peito este pequenino ente delicado, que era uma parte de
mim mesma...
Tive um ligeiro estremecimento. Sem querer, num gesto rápido, afastei
o tênue vestidinho, que caiu. Em que estava eu pensando? Gillette de
Arbiers, tão pobre, como havia de se casar?... Nunca teria o prazer de ser
mãe. Já agora essa felicidade não lhe seria permitida...
Apanhei do chão o vestidinho e dobrei-o com cuidado, antes de o colocar
na caixa da embalagem. Estava de pé diante da janela e a luz do poente
iluminava-me em cheio, nesta hora silenciosa da tarde. Contudo eu não a
sentia e via apenas o meu coração, que se entristecera de súbito, e a vida
que me esperava, sem família e sem amor. Pelos meus olhos deslizou uma
lágrima, que foi humedecer uma das pequeninas rosas daquela vaporosa
musselina... “Vai, meu lindo vestidinho” — disse comigo. “Vai adornar algum
pequenino desconhecido. Nunca serás para aquele que eu teria amado
muito — para o meu filhinho”.
Na manhã do dia seguinte fui ao correio mandar a minha caixa. Feito
isso, voltei a passos lentos por um caminho de atalho, a fim de passar
perto da Bottellerie, que apenas tinha visto de longe. Uma estrada bem
conservada seguia ao longo do alto muro avermelhado, que cercava o
parque; segui por ela até ao grandioso portão, perto do qual se erguia a
casa do guarda. Por entre uma dupla fila de faias imponentes e seculares
seguia uma alameda, ao fim da qual se levantava um solar majestoso, de
cor cinzenta e um tanto ladeado por algumas pequenas torres. Depois de o
ter admirado, continuei o meu caminho, revendo na imaginação, enquanto
caminhava, as pessoas que nele viviam e que tinha visto na missa cantada
do dia anterior, a que assistira pela primeira vez. A senhora de Trézonnes
era uma mulher ainda forte, de cabelos louros e muito elegante. Em virtude
do sítio onde me encontrava, perto do estrado dos castelões, tinham-me
chamado a atenção os inúmeros bocejos embargados, que lhe faziam
encolher os ombros, sob a capa de veludo, guarnecida de peles. A filha tinha
com ela alguma semelhança, tanto quanto mo permitiu a minha observação.
Ambas pareciam bastante aborrecidas, como alunos atrapalhados ante o
olhar severo do mestre.
O mestre era, neste caso, o senhor de Trézonnes. A sua alta estatura,
duma elegância vigorosa, bem delineada, num sobretudo de fino corte,
erguia-se na extremidade do banco e parecia fazer desaparecer as duas
senhoras, que mais semelhavam bonecas, perto deste soberbo homem,
duma atitude correcta e de infundir respeito. Durante o sermão, nos
momentos em que se voltava para ouvir melhor, podia ver-se o seu perfil,
muitíssimo belo, e a sua boca voluntariosa e altiva, que nunca sorria, talvez,
segundo me parecia. Ao sair, perguntei aos Bardeaume:
— É um bom cristão, este senhor de Trézonnes?... Não me parece que
seja.
— Bom cristão, depende, menina Gillette. Não é um cristão praticante,
mas não falta à missa, mesmo no tempo da caça; diz ele que na vida todos
nós precisamos da religião, e que um Trézonnes deve sempre dar o
exemplo.
Não sei porquê, tinha feito do castelão da Bottellerie uma idéia muito
diferente; no entanto fiquei satisfeita em saber que, pelo menos, tinha uma
certa compreensão da sua responsabilidade, do seu dever de dar o
exemplo às pessoas que o rodeavam.
Caminhava, pensando assim nos habitantes do castelo, quando pela
estrada surgiu a silhueta dum cavaleiro, em quem reconheci o senhor de
Trézonnes. Vinha a passos curtos, bem montado num animal nervoso e
delgado, de pêlo escuro. Ao lado dele trotavam dois galgos de carreira,
destes grey hounds muito em voga.
Quando passou, a alguns passos de mira, cumprimentou-me com um gesto
elegante e discreto, inclinando a cabeça para lhe responder, tornei-me deveras
escarlate, tal como outro dia. Senti-me por isso muito vexada, até mesmo ante a
idéia de que me iria tomar por uma menina ingênua. Não era interessante pensar
como os ares desta região me punham tão nervosa e tão facilmente
impressionável?
Angelina passeava no pátio, quando cheguei à Meulière. Fitando-me com o
seu habitual olhar desconfiado, perguntou-me:
— Então já deu o seu passeio, minha senhora?.. E o tempo?... Parece
estar bom?
— Magnífico!... E tanto assim que, voltando despreocupada, passei pelo
castelo... Tem um aspecto imponente!
— E por dentro é muito bonito, segundo dizem!... O senhor de Trézonnes
parece que tem muito gosto e não olha a despesas quando uma coisa lhe
agrada.
— Acabo de o encontrar. O que ele monta, é admiravelmente.
— Sim!... Na verdade!...
Um fulgor intenso passou nos olhos azuis da Angelina e um vivo rubor lhe
coloriu as faces; apesar de muito empoadas. Depois acrescentou:
— Não tem rival na nossa região!
Da sala, Catarina chamou:
— Vamos, pequena!..., vem ajudar-me um pouco!
Afastou-se e eu dirigi-me para o meu quarto, pensando, admirada: “Será
possível que goste dele? Não!... Não são idéias que se possam ter!... No
entanto lembra-me agora da sua mal contida comoção, dos seus olhos
brilhantes, do seu servilismo, ao mesmo tempo humilde e ousado, no dia em
que ele veio à herdade! E cada vez que se fala dele na sua presença” —
lembrava-me agora também —, “os seus olhos tomam aquele mesmo
fulgor e quase chega a ficar bonita”.
Que loucura!... Que insânia!... Que diria a Catarina se soubesse a que
fantasias romanescas se entregava o espírito mal orientado da filha?... E
saberia ele desta paixão vulgar de que era objecto? Dar-lhe-ia importância,
ou fingiria ignorá-la com desdém?
Certa ocasião, quando falávamos, não sei a que propósito, do senhor
da Bottellerie, Bardeaume dissera:
— O senhor visconde é orgulhoso e inacessível; isso porém não impede
que todas as mulheres
se apaixonem por ele, desde as grandes senhoras de Paris até às nossas
jovens camponesas — talvez por causa dos seus olhos, que no fim de
contas são iguais aos de todos nós!...
Os seus olhos?... Tinha-os visto mal, e mal poderia dizer como eram.
Todavia, dessa visão rápida, tinha-me ficado a impressão dum olhar
deveras dominador. Este homem, se amasse, devia ser um senhor exigente,
inflexível — e bastante frio!...
Estremeci ao de leve, enquanto introduzia a chave na fechadura. Era
natural que compreendesse muito bem que este elegante e orgulhoso
senhor, aliás um magnífico modelo de homem, parecesse a estas humildes
camponesas uma espécie de semi-deus, que exaltava as suas infantis
imaginações. No entanto começava a pensar comigo, como poderia uma
mulher, com aquela educação, pensar em tornar-se sua esposa, isto é,
escrava duma vontade que devia ser insuportável, segundo a opinião
geral?
“Ah!... É muito rico! Isso é verdade! — pensei de repente. Há mulheres
que encontrariam nessa riqueza uma compensação para todas as
servidões. O que eu não sei é que coração é o dessas mulheres!... Como
seria desgraçada em semelhantes condições!... E creio que também teria
sofrido um pouco se tivesse desposado o doutor Borday, porque não teria
sido para mim mais do que um delicado companheiro.
“Um marido deve ser outra coisa. Deve ser um amigo muito bondoso,
muito terno, muito mais forte e mais pensador do que eu, e o qual se deve
tornar o meu confidente e o meu conselheiro ...”
Chegada a este ponto das minhas reflexões concluí que não passavam
de infantilidades, e por isso obriguei-as a desaparecer.
Um pouco antes do jantar instalei-me no meu quarto, para trabalhar.
Enquanto a minha agulha ia e vinha, lentamente, através do fino tecido,
pensava ainda em Angelina e na descoberta que acabava de fazer dos seus
sentimentos com respeito ao castelão. A mãe devia ignorá-los. Se o
senhor de Trézonnes não lhe ligasse importância, esta loucura terminaria
por ela própria e a lição seria proveitosa para a vaidade desta pobre
pequena. Mas se, pelo contrário, ele se divertisse com aquela tolice?...
Neste momento recordei o seu rosto frio e altivo, a sua boca orgulhosa
e a sua fisionomia cheia de distinção. Pensei comigo: “Não, este homem
nunca terá a idéia de baixar os olhos, um só instante que seja, para esta
vaidosa e pretensiosa camponesa. Não deve querer saber nunca duma
paixão que deve em absoluto desprezar”.

XI

Não me esqueci do convite feito pelo senhor Rouchenne e, na semana


seguinte, fui à Sauvaie. Era um velho solar de paredes escuras, sulcadas
pelo emaranhado, ainda adormecido, das plantas trepadeiras, que em
breve a primavera viria cobrir de folhas e flores. Algumas esculturas, em
parte deterioradas, formavam festões em volta da porta de entrada. O
senhor Rouchenne mostrou-mas, dizendo que representavam margaridas
e espigas de trigo, as quais faziam parte do brazão dos Trézonnes. De
facto a Sauvaie tinha sido, em tempos, a residência dos criados e guardas
da família. Após as guerras da Vendeia, o visconde Henrique de
Trézonnes tinha-a dado como presente, juntamente com as terras que lhe
pertenciam, a Pierre Rouchenne, que lhe salvara a vida.
Tudo isto ele me explicou, enquanto me mostrava o seu jardim, onde o
primeiro sol de Março já fazia surgir algumas esperanças de floração.
Caminhava devagar, e o vento fresco que vinha de leste arfava-lhe a
blusa azul, em volta do corpo magro e mexido.
Passeámos pelas pequenas alamedas cobertas de seixos alvos, que
escorregavam sob os nossos pés. Orlados de buxos, artisticamente
aparados, estendiam-se os canteiros, onde as pereiras bem podadas, mas
ainda esqueléticas, se erguiam a intervalos regulares. Ao fundo, perto da
horta, viam-se umas colmeias, pois o senhor Rouchenne era um apaixonado
apicultor.
Ora, enquanto me dava algumas explicações sobre a vida das abelhas,
tive de súbito uma idéia, que exprimi em voz alta:
— Senhor Rouchenne, será difícil instalar algumas colmeias no meu
jardim?
— Óptima idéia!. .. Seria uma ocupação ao mesmo tempo interessante
e lucrativa. Estou às
suas ordens para todos os conselhos de que precisar, minha senhora.
Sentámo-nos próximo dum pequeno caramanchão rústico, e troquei
impressões com o ancião sobre o assunto que começava a interessar-me,
pois pareceu-me que estava ali uma fonte de trabalho e dalguns
pequenos rendimentos. Deu-me todos os esclarecimentos e ofereceu-se
para me ir colocar as minhas primeiras colméias e orientar a minha
inexperiência.
Agradeci-lhe reconhecida este precioso auxílio, mas ele interrompeu-me:
—Nada tem que me agradecer, minha senhora. É sempre um prazer
quando se pode auxiliar uma jovem corajosa e boa como a senhora, as
quais é raro encontrarmos na vida. A Angelina de Bardeaume era incapaz
duma coisa dessas. Fico admirado, ao ver como se cria uma filha daquela
maneira! É uma preguiçosa, uma vadia. Quando a vejo com o rosto
enfarinhado e uns berloques de saltimbanco nas orelhas, fico arreliado
para todo o resto do dia. Fico mesmo mal disposto, minha senhora, ao
pensar que aquela jovem pertence a uma das melhores famílias aldeãs da
nossa região. Ah! Se a avó soubesse disto!
Falando assim, o senhor Rouchenne suspirou e levantou-se
lentamente.
— O tempo está a esfriar. Vamos entrar, minha senhora? Vou-lhe dar a
provar o meu licor de framboesas, e em seguida mostrar-lhe-ei os bordados
da minha falecida.
Segui-o para casa, que se apresentava um pouco ensombrada, porque
uma nuvem carregada começava a interceptar o sol. Um belo fogo crepitava
no fogão da sala grande, onde o velhote costumava habitualmente ficar.
Provei-lhe o licor e em seguida subimos ao quarto da falecida senhora
Rouchenne. O quarto, sempre fechado, cheirava a bafio. O senhor
Rouchenne abriu a janela, empurrando uma das meias portas; em seguida
dirigiu-se para uma cômoda de velha nogueira, e, curvando-se, introduziu a
chave na fechadura duma das gavetas, onde se viam rimas de roupa
branca, amarelecida pelo tempo.
—É tudo novo — murmurou o ancião. — Morreu com vinte e seis anos,
não teve tempo de a usar...
Os seus dedos, magros e calejados, deformados pelo trabalho da terra,
levantavam com cuidado as camisas de linho, as saias enfeitadas na barra
com pequeninos laços. Com o mesmo cuidado tirou do fundo da gaveta um
embrulho comprido, envolto em papel de seda.
— Estão aqui os seus últimos bordados, os que ela fez depois do nosso
casamento.
Ergueu-se, afastou de sobre a cômoda alguns dos objectos que nela se
encontravam e pousou o embrulho. Na sua fisionomia transparecia uma
expressão quase de triunfo; abriu o papel e disse:
— Veja, minha senhora.
Sim, aquela que tinha traçado estes originais desenhos sobre o fino
tecido de linho e tule, era de facto uma hábil bordadeira. As grinaldas
pareciam feitas de flores naturais, e os laços tinham a graça elegante dos
laços lançados por um artista. Sobre um pedaço de tule, as hastes das
fúcsias pareciam agitar-se e encher-se de seiva.
— Como isto é bonito! — exclamei eu.
E ele, numa meia voz, como se ela estivesse ainda ali, no seu amplo
leito de nogueira envernizada, no extremo do quarto, disse:
— Foi o seu último bordado; repare que ainda nem está acabado...
O tule tremia nos seus dedos. Na meia luz do ambiente notava-se um
ligeiro frêmito, no seu rosto envelhecido, e a mágoa do passado, que
enublava os seus olhos calmos. Não me atrevi a falar, para não perturbar
as pungentes e ternas recordações que este tule evocava àquele coração
angustiado. O meu olhar, cheio de comoção e simpatia, percorria o grande
quarto, de soalho luzidio, onde se alinhavam, de espaço a espaço, pequenos
tapetes de fundo vermelho, cobertos de flores e bordados com listas
escuras. Sobre o fogão, entre dois candelabros de bronze, estava um
relógio dourado, encimado por um globo; na cômoda, umas conchas
nacaradas cor-de-carne, estavam espalhadas por entre faianças rústicas,
fotografias, flores artificiais já velhas, encaixadas no musgo duma jardineira
de vime enegrecido. A cama estava coberta com uma colcha de seda verde,
e das galerias de nogueira caíam umas cortinas do mesmo tecido. Junto da
segunda janela, a que estava fechada, vi uma mesa de acajú, sobre a qual
estava uma delicada caixinha de pelúcia vermelha, com cantoneiras de prata
— uma destas caixinhas de costura, como ainda havia no tempo da minha
infância em todas as casas que tinham à venda objectos para presentes. A
pelúcia tinha tomado uma tonalidade arruivada e as cantoneiras haviam-
se tornado da cor do cobre. Seria pelo contacto das mãos?... Seria por
que ela não tivera tempo de a usar, ou o próprio tempo encarregara-se de
lhe roubar a frescura?
A voz do ancião, sempre lenta e grave, perguntou-me:
— Talvez lhe agradasse, minha senhora, copiar alguns destes desenhos?
— Agradava, sem dúvida, porque são na verdade bonitos. Porém não me
atreveria. São sempre gratas recordações...
— E bem gratas!... No entanto à menina permito-lhe isso... Gosto dos
seus olhos, olhos francos, onde transparece toda a sua alma. Escolha o que
desejar copiar; sentir-me-ei feliz se quiser aceitar, e tenho a certeza de que
isto agradará, no céu, à minha pobre Madalena, que foi sempre muito
prestável.
Conservava na mão o pedaço de tule, o trabalho incompleto, dum
soberbo relevo, pelo qual o meu olhar era involuntariamente atraído. Com
ternura, como se se desculpasse, acrescentou:
— Só tenho este, e teria pena em me separar dele, mesmo por
momentos; porém se quiser vir copiá-lo aqui?
— Não senhor, não me atreveria a vir incomodá-lo assim!
— Pelo contrário, dar-me-á um grande prazer — respondeu com
simplicidade.
Vi que era sincero, que havia simpatizado deveras comigo, e por isso
não protestei mais. Ficou combinado que voltaria, quando me conviesse,
para copiar alguns dos bordados de Madalena Rouchenne.
A senhora Mossette, a quem fui visitar no dia seguinte, felicitou-me por
ter conquistado a amizade do solitário da Sauvaie. O senhor Rouchenne vivia
em boa harmonia com todos os moradores da região, que o estimavam e
admiravam, mas vivia retirado, e não abria de muito boa vontade as suas
portas a quem quer que fosse, a não ser ao senhor abade, ao senhor de
Trézonnes, e a um velho amigo, que vinha vê-lo umas cinco ou seis vezes
no ano.
Reflecti em voz alta:
— Não posso compreender as relações do senhor de Trézonnes, sempre
tão altivo, com este bom senhor Rouchenne.
— No entanto visita-o muitas vezes. O visconde seguiu os seus
conselhos, quando começou ele próprio a administrar os seus domínios, e
não se esqueceu disto, o que mostra a existência dum bom predicado.
— Sem dúvida. O reconhecimento não é coisa tão vulgar, que não
tenhamos de o admirar quando o encontramos no nosso caminho. Isso
leva-me a ter uma certa estima pelo senhor de Trézonnes.
A senhora Mossette exclamou, num tom meio sério, meio alegre:
— Cuidado, minha querida menina!... Não vá entusiasmar-se muito
pelo nosso belo castelão, como todas as pequenas das redondezas!
Enrubesci — o que não pôde ser notado pelos pobres olhos da velha
senhora — e respondi, a sorrir:
— Oh! não tenha receio! Primeiro, porque não terei ocasião de o ver,
depois, porque não
sou assim tão impressionável como as nossas boas aldeãs — como a
Angelina, por exemplo.
E contei-lhe que supunha a minha irmã colaça apaixonada pelo
castelão.
A senhora Mossette encolheu os ombros: — Pobre tola!... Mas isso não
tem importância, ante a reserva desdenhosa do senhor de Trézonnes. E ela
consolar-se-á, desposando um operário qualquer da cidade, que talvez a
maltrate e a abandone. Sou capaz de crer que um rapaz sério não prestará
atenção àquela cabeça de vento.

XII

Na semana seguinte recebi uma carta da senhora Barduzac, em que me


comunicava, depois dalgumas considerações preliminares, o casamento do
doutor Borday com a filha dum viticultor charantês — “trezentos mil francos
de dote, outro tanto a receber mais tarde, muito bem dotada, muitíssimo
cativante e um tio bem relacionado. Foi um casamento perfeito sob todos
os pontos de vista. O doutor vive radiante”.
"Tanto melhor para ele" — pensei comigo, sem sentir o menor abalo.
"Digo com sinceridade que não o lamento. Falava muito bem, não era
mau rapaz, segundo me pareceu, dotado duma inteligência mediana e um
pouco culto—mas dum caracter banal, conforme revelou. Com certeza não
teria sido infeliz junto dele — mas talvez também não fosse muito feliz”.
Ao terminar a sua carta, a senhora Barduzac não deixava de me
criticar a respeito do pedido que noutros tempos recusara. Supunha,
talvez, que tinha trazido de Largillais uma ferida incurável, e,
“caridosamente”, vinha envenenar essa suposta ferida. Ficaria convencida
de que perdia o seu tempo, se me visse ler, sem o mais leve abalo, esta
carta, na sala da herdade, onde a Catarina se preparava para nos servir o
almoço.
A Angelina mostrava-se contrariada, conforme o seu habitual costume;
todavia, notei que o rosto se lhe iluminou, quando o pai pronunciou o nome
do senhor de Trézonnes, ao comunicar-me a realização da venda.
— A menina precisa ir qualquer dia destes ao notário, para assinar a
escritura — acrescentou ele.
— Está bem, Bardeaume... Em todo o caso tenho pena do meu lindo
prado, onde ainda ontem mesmo passei. Os rebentos verdes já começam a
aparecer nos ramos, e dentro de quinze dias aquilo será uma delícia.
— Nada a impede de lá ir, não só àquele, mas a qualquer outro, como
achar mais interessante. Terá apenas que abrir a cancela, e não
encontrará ninguém que a incomode.
— Sim, bem sei. Mas já não será “o meu prado” — disse eu, abanando
a cabeça.
— Mas, se quiser, menina Gillette, ainda é tempo. Nada foi assinado.
— Não, não, Bardeaume; não seria razoável, na situação em que me
encontro. O senhor diz que a venda é vantajosa, e quem sabe se encontrarei
amanhã, quando o quiser vender, quem me dê tanto por ele.
— É bem possível que não. Está muito bem pago, mesmo porque o
prado não é assim muito grande...
E com um risinho de ironia, acrescentou:
— ... Está-me parecendo que o senhor visconde não teria sido tão liberal
se o prado fosse do tio Bardeaume, em vez de pertencer a uma linda
menina da sua categoria.
A ironia espicaçou-me, e foi com uma pontinha de impaciência que
objectei:
— Segundo o que ouvi dizer do senhor visconde, não creio que ligue
importância a coisas desse gênero.
— Isso não sei... Tive esta idéia ao vê-lo oferecer-me aquele preço, que
eu nunca me atreveria a pedir-lhe.
A estas palavras notei que o olhar da Angelina me fitava um pouco de
lado, invejoso e desconfiado. Com uma certa ironia desviei o meu. Suporia,
talvez, que me preocupava, como ela, em ser notada pelo castelão?... Este
Bardeaume tinha às vezes idéias bem estranhas!
Aquela tarde fui de novo a casa do senhor Rouchenne. O frio era
penetrante e o tempo estava carregado; encontrei porém na sala um belo
fogo de carvalho. O senhor Rouchenne fez-me sentar numa poltrona,
aproximou de mim uma pequena mesa e foi buscar o bordado, cujo
desenho eu queria copiar. Enquanto trabalhava, iamos falando da
localidade e dos seus moradores. O senhor Rouchenne contou-me alguns
episódios das guerras da Vendeia, muitos dos quais tinham tido por cenário
S. João da Bottellerie e seus arredores. Sentia-me bem naquela velha sala
de teto enfurnado, de paredes cobertas duma pintura escura, saindo aos
bocados, e sobre a qual a luz forte do fogão projectava móveis claridades. À
meia luz do ambiente cintilavam os metais dum armário, o cano duma
espingarda, pendurada entre dois azouagues de caça, dispostos na panóplia,
e o cobre dum castiçal, a um canto. Diante do fogão dormia,
preguiçosamente, um gato cinzento, com listas escuras. Perto de mim,
sobre a mesinha, o senhor Rouchenne colocara uma pequena jarra de
faiança com as primeiras violetas do seu jardim, e cujo perfume discreto
se espalhava em volta de nós, no tépido ambiente da ampla sala,
ensombrada devido à luz indecisa da tarde.
Um retinir de campainha anunciou que alguém abria a cancela do jardim,
que precedia a casa. Um passo firme fez ranger os seixos do passeio. O
senhor Rouchenne inclinou a cabeça, escutou com atenção e disse com
calma:
— É o senhor de Trézonnes.
Senti um ligeiro estremecimento, e quase deixei cair o tule que tinha nas
mãos.
— O senhor de Trézonnes! — balbuciei. — Então vou deixá-lo, senhor
Rouchenne. Voltarei em qualquer outro dia.
— Que idéia, minha senhora! Não nos incomoda nada; o senhor
visconde vem apenas fazer-me uma visitinha, como de costume, e não
temos segredos a contar.
Levantou-se e encaminhou-se para a porta, que uma vigorosa mão
acabava de abrir, surgindo logo o senhor de Trézonnes. Ao ver-me, teve um
ligeiro movimento de surpresa; apertou a mão do senhor Rouchenne, com
um breve: “Bom dia, meu velho amigo”, e em seguida dirigiu-se para mim,
inclinando-se com aquela cortesia, um tanto altiva, que já lhe tinha notado.
Oh! desolação!... Logo o maldito rubor me subiu de novo às faces.
O ancião explicou com voz calma:
— A menina de Arbiers quis dar-me a honra de visitar um velho como eu.
Está copiando um bordado da minha falecida, como vê, senhor Gui.
— Estou vendo... E o desenho parece muito bonito...
Inclinou-se e segurou um dos cantos do tule. Notei-lhe as belas mãos,
compridas e nervosas, cujos movimentos deviam ser firmes, rápidos e
autoritários. Senti um levíssimo perfume, mais próximo e subtil que o das flores
que estavam na mesa. Em seguida o tule recaiu nos meus joelhos, e o senhor de
Trézonnes tomou a poltrona que o senhor Rouchenne lhe ofereceu, ao pé do
fogo, na minha frente.
— Agrada-lhe a nossa província, minha senhora?
— Muito, senhor visconde!
— Parece-me que se está tornando uma perfeita lavradeira?
Ri com certo embaraço e perguntei:
— Quem lho disse?
— O seu administrador e também o nosso amigo, aqui presente.
Permita-me que a felicite por essa iniciativa. É um belo exemplo para a
nossa mocidade feminina. Se elas vissem muitas senhoras da nossa
melhor sociedade deixar a cidade para se entregarem à vida do campo,
talvez reflectissem muito mais, antes de abandonarem a província.
O senhor Rouchenne abanou a cabeça:
— Talvez!... Talvez!... A cidade fascina-as, e os pais já não têm
autoridade para as segurar. Olhe os Bardeaumes como educaram a filha!
— Não os felicito por isso, coitados!... Além de tola, ainda atrevida — o
que já não é pouco.
As palavras sairam-lhe friamente dos lábios irônicos; compreendi que não
ignorava os sentimentos da Angelina, e que esta devia ter imaginado
qualquer ridículo e humilhante processo de galanteio para lhos dar a
entender. Senti, mais por ela, que não por mim, uma tão grande confusão,
que o rubor das minhas faces acentuou-se. Tentei desviar os meus olhos,
mas o olhar profundo e frio do visconde prendia-os. Enquanto o senhor
Rouchenne fazia o café, o senhor de Trézonnes falou dos progressos da
agricultura e dos melhoramentos que era necessário ainda introduzir.
Em seguida passou à história da Vendeia, abordando questões
literárias. A sua voz, apesar dumas notas breves, tinha inflexões
agradáveis, que se juntavam ao encanto da sua inteligente conversa,
despida de qualquer pedantismo. Notava-se nele a plenitude duma
inteligência bastante culta, cheia de reflexão e já de experiência. Quando
assim falava, o seu olhar animava-se, iluminado por uma espécie de
chama dominadora. E empolgava..., empolgava cada vez mais!...
Como?... Estaria eu louca?... Ou eram as tolas idéias de Bardeaume
que me voltavam ao espírito, e por isso me perturbavam, cada vez que se
fixavam em mim, aqueles olhos cuja cor ignorava... Castanhos? Verdes?
Escuros?... Não, não podia pronunciar-me. Havia neles, contudo, de
quando em quando, um como que clarão de vida concentrada, violenta,
profunda, e então supunha-os cheios duma fulva claridade, enquanto o
rosto, nervoso e viril, de lábios fortes, dum vermelho escuro, ficava frio,
duro e impassível.
Acedendo ao desejo expresso com cortesia pelo senhor de Trézonnes,
retomei o traçado do meu desenho, enquanto ia conversando. Contudo o
trabalho pouco se adiantava, visto as minhas mãos não manterem a
firmeza habitual, e portanto acabei por dizer:
— Se mo permite, senhor Rouchenne, voltarei outro dia para terminar.
Já está escurecendo bastante.
— Sim, o tempo está escuro... Volte quando lhe aprouver, minha
senhora, mas o mais breve possível. Sinto-me sempre muito feliz quando
a vejo.
Levantei-me e guardei o tule bordado. Os meus movimentos eram
nervosos, incertos, porque sentia que o senhor de Trézonnes me
observava. Tinha-se também levantado e encostara-se ao fogão, com os
braços cruzados sobre o peito. O senhor Rouchenne, com passos rápidos e
vivos, foi buscar o meu chapéu e o casaco, guardados na outra
extremidade da sala, perguntando-me, com paternal solicitude, se estava
bem agasalhada.
— Olhe que está fazendo um frio que penetra os ossos. E se tomasse
ainda uma chàvenazinha de café bem quente?
— Oh! Muito obrigada, senhor de Rouchenne!... Estou com bastante
calor, e vou caminhar depressa até à Meulière.
— Leve estas violetas. Hão-de recordar-lhe a primavera, pelo caminho,
e dar-lhe-ão a impressão de que estará vendo o sol. Espere, vou buscar
um lenço para lhes embrulhar os pés, porque ainda estão todos
molhados...
— É inútil incomodar-se; estão muito bem.
O senhor de Trézonnes, descruzando os braços, tirou do bolso pequeno
do casaco um lencinho de seda azul. Protestei logo:
— Obrigada, senhor. Vou levá-las como estão, envoltas neste papel.
Fazendo de conta que não me ouviu, foi para a mesa, tirou com
cuidado da jarra as violetas, e envolveu-lhes no lenço as hastes molhadas.
Feito isso, entregou-me o pequeno ramo, no qual peguei com mão
trêmula.
— Obrigada, senhor... Amanhã mando-lhe o lenço...
— Oh! Não se preocupe! Quando voltar aqui pode dá-lo ao senhor
Rouchenne, que mo entregará no nosso próximo encontro. Isso não tem a
menor importância.
Os dois, apesar dos meus protestos, fizeram questão em me
acompanharem até à cancela. Apertei ainda a mão ao senhor Rouchenne
e respondi ao cumprimento do senhor de Trézonnes, tomando o caminho
da Meulière, com um andar apressado.
Como estas violetas tinham um cheiro forte!.. A cada instante lhes
aspirava o perfume, sem saber bem ao certo se era o das flores, ou o
outro, o perfume discreto e subtil do lencinho azul. E pensava neste
encontro, nas palavras que trocámos, naquela fisionomia forte que
acabava de ter observado durante mais de meia hora, sentado na minha
frente — e que pudera desta vez examinar à minha vontade.
Compreendi então a sedução que o senhor de Trézonnes, mesmo sem
querer, exercia sobre as almas femininas... Eu mesma, se não tivesse sido
prevenida, talvez pudesse ter sucumbido...
Que perfume tão estranho? Era delicioso, mas um pouco inebriante...
Já evitava aspirá-lo, porque me subia ao cérebro...
Quando cheguei a casa, apressei-me a tirar as violetas do lenço, que
dobrei e guardei num canto do meu guarda-vestidos, fazendo tenção de
não me esquecer de o levar, por ocasião da minha próxima visita à
Sauvaie. Sentei-me depois à mesa de trabalho, mas o meu pensamento
estava obcecado, voltando a cada instante à sala escura, onde a chama
do fogão projectava largos raios de luz sobre um belo rosto de homem, de
olhos dominadores e duma energia serena, orgulhosa e concentrada. De
súbito apoiei a cabeça e perguntando com inquietude: “Mas, afinal, por
que foi que este homem me deitou um mau olhado, como dizem as nossas
camponesas?”

XIII

Junho chegara, e com ele toda a região se cobrira duma encantadora


verdura, daquela bela verdura do começo do verão, que o sol ainda não
tivera tempo de crestar. Nas paredes da casa desabrochavam as rosas,
enquanto nos canteiros, que Tiago Bardeaume tinha arranjado para minha
distracçâo, os lírios e os goivos se desfaziam em suaves perfumes, junto à
porta de vidro da minha pequenina sala de visitas. O bom rapaz, auxiliado
pelo irmão, que então se encontrava em gozo de licença, por ocasião da
Páscoa, tinha restaurado a pintura das paredes, encerado o soalho e
colocado um vidro quebrado. Foi ali que eu coloquei os móveis que não
couberam no meu quarto: uns aparadores, a secretária de pau-rosa, o
pequeno sofá e a mesa com incrustações de cobre. Da parede pendiam
fotografias dos meus antepassados. Com o auxílio do Tiago, prestável e
habilidoso, tinha colocado as cortinas de seda amarela, com umas riscas
azuis-claras, um tanto desbotadas, nas janelas, separadas por uma vidraça
que se tornara esverdeada, encaixada no forro de madeira da parede.
Assim, pois, tinha uma discreta e encantadora sala de visitas, onde me
instalei para trabalhar, desde que começou o verão.
Da casa de bordados, a quem tinham agradado os modelos enviados,
haviam-me chegado algumas encomendas. Procurava desenhos novos, e
para isso inspirava-me nas flores e nas folhagens que via à minha volta.
Este trabalho, no entanto, não me tomava todo o tempo; continuava a ir
junto da Catarina completar a minha educação de perfeita lavradeira e
dona de casa, tratava das colméias que o proprietário da Sauvaie tinha
vindo instalar no meu jardim, e, não poucas vezes também, ia passar as
tardes a casa da senhora Mossette ou do senhor Rouchenne. Em qualquer
das duas era sempre bem recebida e dispensavam-me uma afectuosa
simpatia. A minha predilecção, porém, era por ele, pelo meu velho amigo,
discreto e prestável, pela sua velha casa e pelo seu jardim florido, todo
embalsamado dos perfumes das tílias, dos jasmins, e agora das rosas.
Ia bordar para junto dele, sob um grande castanheiro, que estendia a sua
sombra diante da casa, ou então na sala fresca, onde, ao meio dia, o sol já
não dava. Palestrávamos sobre tudo, às vezes alegremente, pois o senhor
Rouchenne era bem disposto e tinha um espírito delicado, por vezes
brincalhão, apesar do seu caracter reflexivo, mas nunca mau ou irônico. “A
menina é uma flor na minha vida” — costumava ele dizer-me. ‘Quanto é bom
chegarmos ao fim da vida e termos junto de nós um belo sorriso de
juventude, o esplendor duns tão lindos olhos, que nos aquecem um pouco e
parecem interessar-se por um velho como eu!”
— Não parecem interessar-se, interessam-se de verdade — respondi-
lhe eu, apertando-lhe a mão enrugada, cor da terra cota. — Eu, senhor
Rouchenne, é que tenho a obrigação de lhe ser sempre reconhecida, por
ter acolhido com a sua paternal bondade uma órfã, que sente com
extrema mágoa o vácuo deixado pela ausência de qualquer afeição
familiar.
Assim, dia a dia, mais se estreitava esta amizade, que não
manifestávamos por palavras, mas que ambos sentíamos, confiante e
indestrutível, no fundo da nossa alma. Eu deixava-a transparecer nas
minhas atenções filiais para com ele; e ele, com a compreensão própria
duma verdadeira bondade, sabia mostrar-me, discretamente, que me
tornava cada vez mais querida ao seu coração, como se fosse sua própria
filha.
Encontrei o senhor de Trézonnes por quatro vezes, na Sauvaie, sempre
cortês e até mesmo amável, a dentro da sua frieza. As longas temporadas
no campo não lhe tinham prejudicado as suas maneiras de homem da
sociedade. Falando com ele sobre literatura, procurava tornar-me natural,
como se estivesse só com o senhor Rouchenne, e não deixar transparecer
o mal estar perturbador, a comoção receosa que sentia sempre na sua
presença e que, mesmo depois de deixar a Sauvaie, ainda me
acompanhava. Irritava-me com esta inquietação, prometendo a mim mesma
não ser tão ingênua para a próxima vez... Todavia, em cada uma delas
sofria uma igual influência daquele olhar dominador e muito belo, que um
raro sorriso por vezes iluminava, mas sem o tornar meigo.
O senhor de Trézonnes não era alegre; falava da vida e das suas
manifestações diversas com um cepticismo um tanto áspero, com a
amarga ironia de quem provou de tudo e só encontrou desilusões no seu
caminho.
O senhor Rouchenne dizia num tom de censura discreta:
— Nem tudo está perdido, senhor Gui; ainda há no mundo qualquer
coisa de bom, de bondoso e verdadeiro.
O castelão respondia:
— Sim, porque o senhor está no mundo.
Estes dois homens, tão diferentes na aparência, na educação e no feitio,
pareciam unidos por uma amizade indestrutível e muda, pois que, pelo
menos diante de mim, não se tinha mostrado expansiva; sentia-se porém
entre eles, via-se no olhar do velho, onde uma afeição circunspecta se
revelava cheia de respeito, e nas maneiras atentas e delicadas do
visconde, que vinha visitar este solitário, tratando-o como a um igual.
Um dia, quando me encontrava só com o senhor Rouchenne, após a
saída do castelão, perguntei-lhe:
— Gosta muito do senhor de Trézonnes?
— Sim, muito.
E depois dum breve momento de silêncio, acrescentou:
— É um homem que não conhecemos. A aparência nele nada revela.
— Parece-me bastante autoritário e áspero.
O velho meneou a cabeça, repetindo, pensativo:
— Ninguém o conhece.
O senhor Rouchenne falava muito pouco de quem quer que fosse, e
por isso não me admirei de que deixasse sem uma resposta mais
minuciosa a reflexão que acabava de lhe fazer. Todavia, concluí que talvez
não tivesse nenhuma objecção razoável a fazer.
A festa de S. João caiu naquele ano num domingo. Como a festa era a do
padroeiro da localidade, todos se prepararam com antecipação, e eu fui
convidada pelo abade para aumentar o coro das cantoras... Tendo depois
o bom abade verificado que a minha voz era agradável e bem timbrada, fui
quase forçada a aceitar a incumbência de cantar um solo na missa cantada
e nas vésperas.
Dois dias antes, em casa de cada lavrador, todos estavam atarefados
em fazer os doces para a festa. Catarina, algum tempo antes, ensinara-me a
fazer essa espécie de bolos folhados, um pouco grandes, mas deliciosos,
que ela fazia melhor do que nenhuma das outras lavradeiras das
redondezas. Como tivesse uma queimadura na mão e a Angelina estivesse
num dos seus períodos de mau humor — estado que se lhe tornou quase
normal —, ofereci-me para bater a massa; depois, seguindo as instruções da
Catarina, fiz muitos bolos de diversos tamanhos. Havia-os para os vizinhos,
para os amigos, e um deles era destinado ao castelo. Catarina, um tanto
orgulhosa, contou-me que o senhor de Trézonnes dissera certa vez: “No dia
de S. João não como outro bolo que não seja o da
Meulière; é muito superior a todos os que me mandam os meus caseiros".
Estava a acabar o meu serviço quando a filha do padeiro passou, para
levar os bolos para o forno. Entreguei-lhos e fui lavar as mãos enfarinhadas
numa vasilha cheia de água. De súbito tive uma exclamação:
— Perdi o meu anel!
Era um pequenino aro de ouro, ornado de pérolas e duma turquesa, jóia
bastante simples e a única que usava habitualmente. Estimava-a muito por
ter pertencido a minha mãe.
Após algumas buscas minuciosas na sala, tornou-se evidente que, tendo-
me esquecido de o tirar, como em geral costumava fazer nestes trabalhos
de cozinha, devia ter-me escorregado do dedo, um pouco magro, enquanto
batia a massa, e naturalmente encontrava-se num dos bolos levados pela
filha do padeiro.
— Que pena!— exclamou a Catarina. — Mas não se arrelie por causa
disso, menina Gillette. Se
foi nalgum bolo, facilmente se encontrará. Vou prevenir as casas onde levar
os bolos, e como são todos pessoas honestas, com certeza lho entregarão.
Quanto ao castelo, nada tem a recear. Os meus bolos vão para a mesa
dos fidalgos. Se o anel lá estiver, o senhor visconde manda-o cá.
— Em todo o caso será melhor avisar, Catarina. Pode-se dar o caso de
alguém quebrar um dente ou mesmo engulir o anel.
— Tem razão, menina. O Bardeaume, quando for levar o bolo, avisará
o mordomo.
Combinado isto, fui-me vestir e dirigi-me para a igreja, onde ia realizar-
se o penúltimo ensaio.
O coro, pela primeira vez, cantou regularmente. A menina Brunet, filha
do escrivão, atendeu às observações que lhe fez o organista e abrandou a
expressão da voz. Enfim, tudo correu bem, e o abade, que apareceu para
julgar do efeito, declarou, esfregando as mãos, que a festa ia ser muito
linda, graças a nós, as suas melhores auxiliares, e aos castelões, que
tinham mandado flores magníficas para a decoração da igreja.
O trabalho de limpar e ornar a igreja ficou igualmente a nosso cargo, no
dia seguinte. Cheguei tarde nesse dia e um tanto fatigada, devido ao calor da
tempestade, que ameaçava; a cabeça tornou-se-me pesada por ter
respirado o aroma de todas aquelas flores e escutado, durante duas horas,
as vozes e a música do pequeno órgão, a repetir as mesmas passagens, na
atmosfera penumbrosa da igreja.
Pela primeira vez, depois daquele célebre dia, voltei a vestir o meu
vestido azul claro. Olhando-me porém ao espelho, achei-me um tanto
diferente do ano anterior; contudo não podia dizer ao certo o que tinha
mudado na minha fisionomia. Com certa comoção, pensei: “Parece-me
que estou mais bonita”.
Catarina, quando entrei na sala onde me esperava, na companhia da
filha, exclamou, juntando as mãos:
— Como está bonita, menina Gillette! Nem é bom dizer! Esse vestido é
da cor do céu de hoje!... E como está bem feito!... Vês, não eras capaz de
fazer um assim, Angelina!... Imagine, menina, que tivemos de pagar oitenta
francos do feitio, na cidade, para lhe fazerem este vestido que tem no
corpo, que mais parece do carnaval!
Catarina referia-se ao vestido de seda corai que a filha trazia, e que
tão mal lhe ficava. Os cabelos louros — pelo menos o que deles restava,
depois de terem passado pelas tesouras do cabeleireiro—desapareciam por
completo sob uma espécie de chapéu de palha, de cor amarelo-gema, que
apenas lhe deixava ver o nariz, bastante empoado, e os lábios coloridos
com um pavoroso vermelho avinhado.
Um terrível olhar de ódio me fitou, enquanto a mãe prosseguia, um
tanto colérica:
— Estive quase para lhe dizer que me envergonhava de a ver com
aquela roupa, mas ela...
Angelina interrompeu-a com um gesto de concentrado furor:
— Está bem!... Saio já, se as incomodo!... Não preciso de ninguém.
Dizendo isto, saiu. O seu andar, bastante antipático, tornava-se
grotesco devido aos altos facões dos sapatos delgados, que lhe
comprimiam incòmodamente os pés e a obrigavam a dobrar os joelhos, ao
caminhar, pois com dificuldade podia manter o equilíbrio.
Catarina soluçou:
— Oh! "Será possível uma coisa destas?... Será possível!?... Que irão
dizer na aldeia?... Isto serão modos para uma jovem como a Angelina? O
pai ainda não a viu com estes enfeites, mas garanto-lhe que vai ficar
bastante aborrecido!
— E terá razão. Mas por que não lhe proibiu que se vestisse assim?
— Porque não adiantaria nada, menina! — murmurou a Catarina com os
olhos cheios de lágrimas. — Ainda se ri de mim, quando lhe digo qualquer
coisa. Agora já é muito tarde para a educar!... Já é muito tarde!..
Suspirou, enxugando as lágrimas. Pobre Catarina, que procurava colher
na alma da filha o que não tinha ali semeado!
Esta breve cena comoveu-me e entristeceu-me... Seria talvez por isso
que cantei com mais fervor naquela manhã, chegando a esquecer-me em
absoluto da assistência que enchia a igreja!... O canto é uma prece e eu
sentia necessidade de rezar pela Catarina, por essa infeliz Angelina, por
mim mesma, que me sentia por vezes perturbada, inquieta, sem conhecer a
razão destes estados de alma...
A família Trézonnes estava no seu banco, próximo do coro. Da pequena
tribuna, onde me encontrava com as companheiras, observava estas
senhoras sempre tão elegantes, e ao lado delas uma alta silhueta, de
espáduas fortes e cabeça altiva. Ao lado do castelão estava um outro
cavalheiro; muito baixo, que não conhecia.
Terminada a missa, desci do coro e fui ter com os Bardeaume, que
estavam ao pé da tribuna, saindo todos em grupo. De passagem, o senhor
Rouchenne apertou-me a mão, dizendo-me, comovido:
— Oh! Como cantou bem!... Vá amanhã ver-me, pois quero dar-lhe os
parabéns.
Outras pessoas vieram ter comigo para me apresentarem as suas
felicitações. Quando sai, o
pórtico da igreja, vi que o senhor de Trézonnes se destacou também do
seu grupo e veio ao meu encontro.
— Minha madrasta e minha irmã ficaram encantadas, minha senhora, e
por isso desejam conhecer a possuidora duma tão bela voz, que acabamos
de admirar. Quer dar-me a honra de a
apresentar?
Balbuciei um ligeiro agradecimento, enquanto a senhora Trézonnes e a
filha se dirijiam já para mim. Mostraram-se muito amáveis, apresentaram-
me os seus melhores cumprimentos, bem como os outros castelões da
vizinhança, que conversavam com elas, na ocasião em que eu saía da igreja.
A viscondessa apresentou-me o seu filho, Paulo de Trézonnes, oficial de
caçadores, em gozo de licença, para convalescer duma pneumonia. Era um
rapaz bastante simpático, mas todos os seus atractivos desapareciam ante
a forte e altiva beleza do irmão. Em compensação pareceu-me muitíssimo
menos orgulhoso, pois o seu olhar era meigo e as suas maneiras bastante
delicadas.
A menina de Trézonnes, que parecia satisfeita e entusiasmada,
exclamou num tom de súplica:
— Oh! minha senhora... Dar-me-ia o maior prazer se quisesse algumas
vezes cantar comigo!...
Tenho uma infinidade de lindos duetos. Seria tão interessante!
Procurei desculpar-me, mas a senhora de Trézonnes confirmou o pedido
da filha, consultando com um olhar respeitoso e tímido o enteado, perfilado
junto dela. Até então parecera estranho às palavras trocadas a seu lado;
tinha nos olhos uma expressão vaga, que já lhe havia notado na Sauvaie.
Neste momento voltou-os para mim, enquanto disse, respondendo assim à
muda interrogação da senhora de Trézonnes:
— Certamente. Ficaremos muito gratos e encantados se a senhora de
Arbiers quiser dar-nos
a honra de nos deliciar com a sua voz, na Bottellerie; porém não me atrevo
a insistir, porque sei
quanto está sempre ocupada e receio ser indiscreto.
A menina de Trézonnes disse com voz suplicante:
— Oh! Gui, peço-lhe que insista, mesmo assim!... A senhora de Arbiers
deve ter com certeza alguns minutos!... Promete ir algumas vezes?...
Uma vez na semana, por exemplo?
Como já não me era possível recusar, ficou combinado que iria na
quinta-feira seguinte passar uma parte da tarde à Bottellerie. Depois disso
despedi-me dos castelões e fui juntar-me aos Bardeaume, que me
esperavam mais adiante.
Estes bons amigos transmitiram-me todos os elogios que tinham ouvido
a meu respeito; pareciam visivelmente orgulhosos com isso, e creio que
passaram a considerar-me uma figura da mais alta importância, agora que
tinha sido notada por tanta gente e convidada a ir ao castelo.
— Belo, menina Gillette!... Está no seu elemento! — concluiu Catarina.
— A menina tem as maneiras duma princesinha, mesmo quando trabalha
como uma lavradeira. Estou certa de que não vai ficar embaraçada
naqueles belos salões.
— Assim mesmo vou sentir-me atrapalhada. Não conheço estas
senhoras e devemos ter gostos pouco comuns. Além disso tenho tanto
que fazer!...
— Isso vai descansá-la e distraí-la, menina Gillette. E depois irá conhecer
outras pessoas da sua classe, e talvez algum cavalheiro muito delicado que
a queira para esposa.
Encolhi os ombros com um risinho forçado.
— Não penso no impossível, minha boa Catarina. Na nossa terra as
jovens pobres não se casam.
— Algumas vezes, quando são bonitas.
— Nesses casos são sempre casamentos detestáveis. Dão a beleza em
troca da fortuna, e casam sem amor, por vezes sem amizade até. Espero em
Deus que não me suceda assim!
Catarina, continuando na sua obstinação, abanou a cabeça e disse
baixinho com ela: "A menina Gillette não é daquelas que têm de ficar para
tia".
Angelina tinha entrado antes de nós. Ao almoço não apareceu. Catarina
tinha os olhos vermelhos e Bardeaume procurava, mas sem o conseguir,
parecer alegre. Após o jantar, Catarina disse-me que o marido tinha
censurado a Angelina por causa do vestido e das suas maneiras. Ela
respondera-lhe com insolência, e como o pai lhe batesse, erguera também a
mão para ele. Então a Catarina colocara-se entre os dois e arrastara o marido
para fora do quarto.
— Estava como louca, minha senhora, e gritava-nos: "Verão! Verão se me
deixo dominar! Vestirei os vestidos que quiser e não têm nada com isso!"
Que desgraça!... Quem diria que a minha Angelina se tornaria assim tão má!
Procurei consolá-la, prometendo acalmar o Bardeaume, que dizia: "Se a
vejo de novo com a cara pintada, dou-lhe com uma correia, que lhe há-de
ficar de lembrança!"
Todas estas legítimas indignações tinham a desvantagem de surgirem
muito tarde. A fraqueza dos pais, a sua inconsciente vaidade por terem uma
filha que usava vestidos iguais às meninas elegantes da cidade, a sua queda
moral e o afrouxar das suas idéias religiosas produziam este triste resultado,
que hoje fazia desesperar os pobres Bardeaume, tão culpados como
infelizes.
Às três horas voltei para a igreja, a fim de cantar as vésperas. A
assistência era menos numerosa e não estava ninguém do castelo. A senhora
Mossette, â saída, levou-me para casa dela, a tomar um cálice de licor; em
seguida voltei com todos os vagares para o meu quarto. A quinta estava
deserta. Todos os Bardeaume — salvo a Angelina, que estava talvez metida
no quarto — tinham ido passar a tarde a casa dos amigos e o criado tinha
tido também licença para sair. Atravessei o pátio e dirigi-me para o pomar
das macieiras. Entre as árvores corria uma leve aragem. Ainda estava
quente, mas sentia-me bem, depois deste dia tempestuoso. Tirei o chapéu e
sentei-me num velho banco, entre duas macieiras. Estava fatigada, com
uma pequena dor de cabeça, e este breve descanso, naquela calmaria da
quinta, só me podia ser favorável.
Não havia dez minutos que ali estava, pensando na pobre Catarina, na
Angelina e na visita que devia fazer à Bottellerie, quando um cão ladrou no
quinteiro, fazendo ruído com a corrente.
Pensei: "A casa está fechada e a Angelina está lá. Que vá ver quem é".
E deixei-me ficar. Depois dum dia fatigante, era-me benéfica esta espécie de
bem estar que experimentava, na paz deliciosa deste fim de dia. Tinha a
impressão de que não poderia mais levantar-me, vencer a curta distância
que me separava do meu quarto...
Porém ouvi uns passos sobre a grama do canteiro, atrás de mim, visto
estar de costas voltadas para a entrada. Pensei de súbito: "Se é algum
vagabundo?" E assaltaram-me o espírito os contos terríveis que conhecia.
Levantei-me, voltei-me rápida e trêmula de medo, e lancei um olhar
inquieto sobre o recém-chegado. À luz do poente vi a altiva fisionomia do
senhor de Trézonnes e os seus olhos autoritários, que me observavam.
Descobriu-se, continuando a avançar. A tépida claridade incidia ainda sobre
os seus cabelos castanhos, que eram um pouco compridos e ondulavam ao
de leve. Passou entre as duas macieiras e parou na minha frente.
— Minha senhora, queira-me desculpar...
Mantinha-me de pé, atrás do banco, com os braços estendidos ao longo
do corpo. O meu coração continuava oprimido, devido ao susto do minuto
anterior, e o receio, como é natural, devia estar ainda reflectido nos meus
olhos, porque o senhor de Trézonnes interrompeu-se, dizendo com certa
vivacidade:
— Minha senhora, receio ter-lhe causado qualquer susto!
— Não..., isto é..., pensava nos vagabundos!... — murmurei, sem bem
pensar no que dizia.
— De facto é uma imprudência estar aqui sozinha. A quinta parece
deserta!
— Parece-me que está só a filha dos Bardeaume. Mas não sou
medrosa. Esta idéia surgiu-me de repente, quando ouvi passos atrás de
mim.
Procurava sorrir, mas um ligeiro estremecimento percorreu-me o corpo
— com certeza um efeito retrospectivo da comoção que acabava de ter
experimentado. E pensava: “Porque está ele aqui? Que virá aqui fazer?”
— Lamento ter sido a causa desse receio. Venho entregar-lhe um
objecto que me parece, lhe pertence...
Assim falando, meteu os dedos no pequeno bolso do casaco e tirou um
anel de ouro, que me apresentou.
Cheia de surpresa, exclamei:
— Oh! sim! é o meu anel!
— Então não me enganei... Parecia-me ter visto esta jóia nos seus
dedos; quando a encontrei no bolo da Meulière, pensei logo que a
senhora a tinha deixado cair na massa.
Estava escarlate e sentia uma terrível confusão invadir-me o espírito,
porque no olhar do senhor de Trézonnes pareceu-me ver cintilar uma
vislumbre de ironia, coisa que até então nunca lhe tinha notado.
Procurando conter o trêmulo da voz, repliquei-lhe:
— Realmente caiu-me do dedo, enquanto batia a massa, o que apenas
notei depois dos bolos estarem prontos; ignorava no entanto em qual
deles se encontrava e isto arreliou-me bastante. Os Bardeaume ficaram de
avisar em todas as casas onde mandassem os bolos, a fim de evitar qualquer
acidente. Não o fizeram na sua casa, senhor visconde?!
— É provável, mas o mordomo nada me disse.
— Lamento muito!... Na verdade foi uma coisa bem desagradável...
— Oh! minha senhora! Isso não tem a menor importância!... Mesmo
porque nem sequer o trinquei!
Sorriu — dizendo isto—, com aquele sorriso que não lhe tornava meigo
o olhar. Entre os seus lábios nacarados e grossos surgiram uns lindos
dentes, duma brancura de marfim.
Maquinalmente coloquei no dedo o pequeno anel. Encontrava-me
constrangida, muito incomodada com aquele olhar de expressão cambiante,
segundo me parecia, tornando-se um tanto langoroso, ao mesmo tempo que
se mantinha imperioso e levemente irônico.
Desviei os olhos. O sol poente incidia sobre nós, espalhando manchas de
luz pela superfície da grama. Nos meus cabelos parecia sentir um reflexo
dessa luminosidade crepuscular, bem como nas minhas mãos nervosas e
inquietas, e no anel que sem querer enfiara no dedo.
Um longo silêncio pairou entre nós, enquanto uma ligeira viração
agitava os ramos das macieiras e mudava de lugar as manchas luminosas
espalhadas pela grama.
A voz do senhor de Trézonnes fez-se ouvir, límpida e serena:
— É sempre agradável ouvir a história do "Peau-d´Anne", admirando um
vestido cor do céu.
Os nossos olhares encontraram-se de novo, e desta vez pude ver no
seu, com toda a nitidez, uma mal disfarçada ironia, sob o fulgor longínquo
do olhar.
Enrubesceram-se-me as faces com mais violência. Que queria dizer?...
Talvez!..., talvez tivesse imaginado que deixara cair o anel, de propósito,
no bolo destinado ao castelo, como na história do "Peau-d'Anne"?
Esta idéia perturbou-me com uma tal intensidade, que estive quase para
perder a fala.
Mas serenei logo e respondi-lhe com altivez, olhando-o bem de frente:
— Se este infeliz caso relembra de qualquer maneira o conto de
Perrault, quero adverti-lo, senhor visconde, de que então se torna para mim
ainda muito mais desagradável.
— Estou convencido disso, minha senhora — respondeu após alguns
segundos.
Depois acrescentou, inclinando-se:
— Queira-me desculpar por a vir incomodar.
Balbuciei não sei que palavras, talvez algum agradecimento. Pôs o
chapéu e afastou-se, desaparecendo na direcção do pátio.
Só então me voltei, apanhando com um gesto maquinai o pequeno
chapéu de palha branca, enfeitado com uma fitinha preta, que me caiu
dos joelhos, quando me levantei. O meu rosto queimava, e o coração
sentia-se oprimido, cheio duma tímida comoção e duma súbita surpresa.
Que significaria a expressão que acabava de notar na fisionomia do
castelão?... Essa expressão não
me era de todo desconhecida; vira-a já nos olhos de Marcos Borday,
quando me fitava. Todavia, como este olhar era tão diferente no senhor de
Trézonnes!... Como tinha de facto estremecido sob o seu domínio!...
Seria medo ou comoção o que me fizera palpitar tanto e me levara a
semi-cerrar os olhos? Não sabia. Procurava coordenar os meus
pensamentos, convencer-me de que estava louca, que tinha sonhado, que
nunca esse vislumbre de apaixonada admiração lhe tinha passado pelos
olhos, por aqueles lindos olhos, altivos e sonhadores.
Era de facto uma tola imaginação da minha parte. À força de viver
numa atmosfera onde se sentia o prestígio do senhor da Bottellerie,
também eu terminei por engendrar as mais ingênuas e romanescas
idéias. Agora já não me assistia tanto o direito de censurar a Angelina, pois
que também começava a ser ridícula, imaginando que o senhor de
Trézonnes...
Encolhi os ombros, num gesto de impaciência, censurando-me a mim
mesma, porque acabava de reconhecer, num relance, que este
desconhecido começava a chamar-me a atenção um pouco além do que
devia ser, há um certo tempo a esta parte. Mal o conhecia, mas havia nele
uma chama que me fascinava, que me dominava...
Absorvida nestes pensamentos, encaminhei-me lentamente para o meu
quarto, enquanto o sol desaparecia por trás da velha casa. Quando entrei
na sala de visitas, os seus raios iluminavam ainda as janelas abertas sobre
o jardim silencioso... Aproximei-me do peitoril duma delas e respirei o ar
quente, impregnado do aroma das tílias. As mãos contrairam-se-me sobre
o peito... Sofria, estava louca..., tinha não sei o quê!...
— Vamos lá, Gillette!... Em que estamos a pensar!— murmurei comigo.
Debrucei-me sobre o parapeito e pus-me a chorar, toda nervosa,
enquanto os reflexos do sol poente me acariciavam o rosto e os cabelos".
Baixei os olhos e notei que eles fitaram o crepe azul do meu vestido..., do
meu vestido cor do céu...
O senhor de Trézonnes tinha-me comparado à princesa do conto,
julgando que a imitara de caso pensado. A esta simples idéia enrubesci de
novo. Teria conseguido convencê-lo do seu erro?... Ignorava-o!... No
entanto desejava sabe-lo...
Uma abelha zumbiu junto de mim, passou-me pelos cabelos, voejando um
instante na claridade frouxa da tarde. Um sopro da brisa agitou as tílias e
vergou um pouco as hastes dos girassóis, no pequeno canteiro. Envolveu-
me o tão variado perfume dos campos, das flores e da terra... Encostei-me
ainda mais à velha parede. O meu pensamento instável e solitário, e o meu
coração triste e melancólico voaram para aquela que me deixara, para o
rosto amoroso, para os ternos olhos da minha mãe. E pensei comigo: "Que
triste solidão! Que falta ela me faz!"

XIV

Depois deste incidente mais contrariada fiquei em ter de ir à Bottellerie,


que já de início me tinha entusiasmado muito pouco. Receava encontrar o
senhor de Trézonnes, observar de novo o seu olhar... Todavia estávamos
destinados a encontrarmo-nos ali, ou onde quer que fosse. E como tinha
aceitado o convite dos fidalgos, já não era possível esquivar-me, sem um
pretexto plausível.
Na quinta-feira seguinte, portanto, dirigi-me para o castelo. A senhora de
Trézonnes e a filha receberam-me com as maiores atenções possíveis,
Jaquelina e eu tocámos e cantámos durante uma hora, acompanhando-nos
ao piano, Paulo de Trézonnes. Em seguida foi servido o chá no jardim, sob
os ramos das árvores seculares. Mostrei-me bastante alegre, sem
preconceitos. Uma palavra da viscondessa, no início da minha visita, dera-
me a perceber que o enteado sairá de automóvel e apenas voltaria para
jantar. Assim, pois, escusava de recear que ele aparecesse, e podia gozar
desta linda tarde sem a menor preocupação. A senhora de Trézonnes,
frívola e um pouco orgulhosa, não me agradou muito. O filho, igualmente
amável, muito alegre e muito solícito comigo, devia ser dotado dum
temperamento apático, leviano e dum medíocre valor moral. Jaquelina
parecia-me mais simpática. Pequena, feiosa, mas viva e agradável, possuía
umas maneiras muito graciosas, um olhar sempre afectuoso, às vezes
risonho até. Sendo dotada duma inteligência mediana, mas culta,
conversava com graça e sem afectação. Contudo, talvez por influência da
educação que recebera, muitas vezes pecava pela falta de sisudez e
reflexão.
Começava a inebriar-me aquela atmosfera de luxo discreto e de
elegante bem estar, a afabilidade dos castelões e a solicitude de Paulo de
Trézonnes para comigo. Quando Jaquelina me pediu que voltasse, não me
foi possível recusar, apesar das resoluções tomadas antes. Jaquelina
exclamou, jubilosa:
— Oh! como é boa!... Tenho a certeza de que seremos umas óptimas
amigas. É deliciosa ter-se assim uma vizinha tão amável! Isto vai levar-me
a fazer as pazes com a Bottellerie.
— Não se sente bem aqui? — perguntei.
— Nem sempre. A minha mãe e eu gostamos da sociedade, do
movimento. Aqui não se pode viver assim.
— Todavia é fácil arranjar aqui muitas ocupações úteis e interessantes.
— Sim, para si, que é muito corajosa. No entanto parece-me que deve
ser um trabalho bastante pesado!
Paulo de Trézonnes acrescentou:
— E violento para a sua idade!
— Posso garantir-lhes que não é, nem pesado nem violento. Os dias
passam sem que me sinta um só instante enfadada.
— É admirável!... Era assim que o meu irmão desejava que a Jaquelina
fosse!...
Ela murmurou, com uma leve expressão de arrufo:
— Oh! O Gui é muito exigente!... Hei-de continuar a ser como sou, pois
tenho a certeza de que nunca o contentarei.
— Tens muita razão! — concluiu Paulo de Trézonnes.
Não era essa a minha opinião. Parecia-me que nesta região, onde o
nome dos seus tinha tanto
prestígio, a menina de Trézonnes devia levar uma vida mais útil, dando o
exemplo da dedicação à região e ao trabalho. Neste particular achava que
o irmão mais velho tinha razão.
Ao acompanhar-me até ao portão, pouco depois, Jaquelina perguntou-
me:
— Porque não vestiu o seu lindo vestido azul?... Gosto tanto dele, e
fica-lhe tão bem!
— Foi o que calhou...
Como poderia dizer-lhe que não me atrevia a usá-lo, a esse pobre
vestido, tão simples, desde que fora comparado pelo visconde de
Trézonnes ao maravilhoso vestido da princesa do conto, e pela qual o
príncipe ficara apaixonado?
— Traga-o no próximo domingo, sim? O enfeite da gola é admirável e eu
desejava copiá-lo.
Prometi vesti-lo para a minha próxima visita. Depois de me ter despedido
deles, voltei para a Meulière, contente com os meus vizinhos e com a bela
tarde passada. Tudo correra muito bem e eu não encontrara o castelão.
Contudo, não sei que pontinha de mágoa se mantinha no fundo da minha
alma, que me perturbava a alegria sentida.
Ao jantar, perguntou-me Bardeaume:
— Então, minha senhora, como foi a visita à Bottellerie?
— Muito bem. As senhoras foram muito amáveis, e obrigaram-me a
prometer que voltaria domingo.
Catarina exclamou, satisfeita:
— Oh! tanto melhor!... Estas relações devem ser-lhe muito agradáveis,
menina Gillette.
Tiago, que estava cortando um bocado de presunto para o seu prato,
observou:
— O senhor visconde não devia lá estar, pois vi-o passar de carro em
direcção â Bohellière.
— Sim, estava só o irmão.
— O senhor Paulo não lhe chega nem aos calcanhares! — declarou
Bardeaume. — Não é mau rapaz, mas é frágil como um caniço, e curva-se
diante do senhor Gui, como toda a gente.
— Pareceu-me, na verdade, que a senhora Trézonnes e os filhos não
pareciam estar muito à vontade naquela casa. Tenho a impressão de que
se encontram sob uma influência omnipotente, que se mantém sobre eles,
mesmo à distância.
— É isso mesmo, minha senhora. A senhora viscondessa vive no castelo
como uma visita. A governanta recebe directamente as ordens do senhor
visconde, e ninguém se atreve a ordenar qualquer coisa de maior
importância sem o seu consentimento.
Reflecti em voz alta:
— A situação não deve ser das melhores para essas senhoras. E se fizer
o mesmo à esposa, quando casar, coitada dela!
Neste momento olhei por acaso para a Angelina, sentada na minha
frente; notei-lhe nos olhos a expressão de rancor e de maldade que já lhe
havia notado nos dias anteriores. Esta pequena detestava-me. Porquê?...
Ignorava-o, mas fazia tenções de lho perguntar na primeira ocasião
oportuna, pois que esta surda animosidade era-me deveras desagradável.
Tinha um vago receio de encontrar o senhor de Trézonnes na Sauvaie,
ao ir lá no dia seguinte, mas tal não se deu. Passei algumas horas em
companhia do meu velho amigo, a quem contei a minha visita à Bottellerie.
— É preciso ir lá mais vezes — disse-me ele. — A menina Jaquelina não
foi lá muito bem educada, mas é boa e amável. A companhia da menina
far-lhe-á muito bem; além disso, distrair--se-á também.
— Oh! distracções já eu tenho, e muitas, com os meus trabalhos.
— Mas não é a mesma coisa. É preciso pôr-se em contacto com a
sociedade a que pertence.
— E não receia que o luxo desse solar, a elegância dessas senhoras
exerçam sobre mim uma influência perniciosa?
Abanou a cabeça, olhando-me com um sorriso bondoso:
— Não, nada receio por esse lado.
— Talvez esteja enganado!
— Não o creio — replicou, sorrindo.
Quando cheguei à Bottellerie, no domingo seguinte, encontrei lá os
castelões da vizinhança, aos quais já fora apresentada à saída da missa do dia
de S. João. Lá estava também o senhor de Trézonnes, desta vez. Quando me
cumprimentou, tive de fazer um grande esforço para conter a comoção;
parece que senti tremer-me a mão ao estender-lha. No entanto, apenas senti
o seu olhar, fiquei logo mais à vontade. De resto, pouco se preocupou
comigo, limitando-se apenas a um breve cumprimento quando acabei de
cantar. Conversou demoradamente com uma senhora de bela aparência, a
senhora de Castellier, que era, segundo me informaram, uma escritora de
grande talento. Tinha uma tez pálida e uns belos olhos azuis, que pareciam
contemplar com carinho o seu interlocutor. Não gostei dela, por a achar
muito afectada.
Paulo de Trézonnes, em compensação, mostrou-se muito amável
comigo. Confesso que isso causou um certo orgulho ao meu amor-próprio,
porque compreendi que me achava bonita e que a minha palestra lhe
agradava; e então, cedendo à tentação dum demônio qualquer, comecei
também a falar num tom afectado como "a outra". Esta nova táctica
divertiu-me e por isso não a abandonei. Notava bem que Paulo de
Trézonnes estava dominado por mim, e compreendi então, como nunca o
tinha percebido, quão grande era o poder de que podia dispor. O coração
encheu-se-me duma orgulhosa satisfação. Fitando a senhora de Castellier,
pensei: "Tem mais de trinta anos, começa já a envelhecer, os seus olhos
vão-se tornando mortiços, quando eu tenho apenas vinte e os meus olhos
podem ainda reflectir a máxima vida!... "
Os convidados dos Trézonnes deviam jantar na Bottellerie aquela tarde.
As senhoras queriam que eu ficasse também, mas não aceitei, vendo que
o senhor de Trézonnes não apoiava muito o convite da mãe e da irmã.
Sentado junto da escritora, ouvia-a falar da Noruega, por onde tinha
viajado, e parecia-me indiferente à animada conversa que se travava do
outro lado da sala. Provavelmente a minha presença era-lhe desagradável.
Nesse caso não o forçaria a suportá-la por mais tempo!...
Recusei-me com amabilidade, opondo uma formal negativa às
instâncias de Paulo de Trézonnes, e despedi-me dos castelões e dos seus
amigos. O senhor de Trézonnes levantou-se, ao ver-me prestes a sair, e
adiantando-se, disse secamente ao irmão:
— Eu acompanharei a casa a senhora de Arbiers.
Balbuciei apenas:
— Por amor de Deus não se incomode, senhor visconde; não é preciso
incomodarem-se por minha causa...
Sem me atender, seguiu-me até ao vestíbulo. No limiar da porta quis
ainda dizer-lhe que não se incomodasse mais, mas ele interrompeu-me logo:
— Deixe-me, minha senhora, cumprir o meu dever de dono da casa. É
para mim um grande prazer.
Saimos do castelo. Diante de nós estendia-se uma alameda orlada de
faias, já um tanto sombria, porque o céu começava a escurecer.
Caminhamos calados durante uns instantes; o meu coração pulsava com
violência. Àquela hora, o meu maior desejo era encontrar-me a cem léguas
dali, e no entanto estava ao seu lado, toda trêmula de comoção, dominada
por uma vaga inquietação.
Perguntou-me:
— Vive sempre satisfeita como lavradeira, minha senhora?
— Sempre, senhor visconde.
— O meu velho amigo Rouchenne disse-me que a senhora se dá muito
bem com a criação de abelhas.
— Graças aos seus conselhos, é claro, e porque de facto me interesso
muito por esse estudo.
— Tem razão; é um trabalho são, inteligente. .., e até mesmo poético.
Vale muito mais que muitos outros, e em especial mais que os
divertimentos das nossas elegantes, como o namoro e as festas.
— Assim me parece — murmurei a custo. Sentia nas faces uma grande
sensação de calor, e comigo, pensei: "Dirá isto por mim?"
A minha consciência começava já a censurar-me as inocentes
brincadeiras da tarde, e estas palavras vieram a propósito para aumentar o
meu remorso. Tornaram maior também a minha confusão e o meu
sofrimento, ao pensar que me tomava agora por uma estouvada!
Estávamos perto do portão; parei, fitando-o resolutamente, ainda que um
leve arrepio me percorresse a pele.
— Tem razão, senhor visconde. Por mim estou resolvida a não trocar
nunca estas distracções tão inocentes para a alma e para o corpo pelos
prazeres da sociedade; elas, pelo menos, não deixam ressaibos de
arrependimentos e inquietações.
— Não quero dizer assim, por completo, minha senhora. E ser-nos-ia
agora de facto penoso o deixarmos de ouvir a sua voz deliciosa, com que
acabou de nos encantar.
Que poderosa sedução brilhava no seu olhar!... Não podia compreender
como conseguia, sem ternura, mas apenas com o poder duma vontade
íntima e concentrada, dominar-me o coração e o pensamento, lançar-me na
alma uma comoção desconhecida, onde se misturavam angústias e
delícias!...
O senhor de Trézonnes acrescentou:
— Precisamos aprender a viver na sociedade, sem nos viciarmos ao
seu contacto. É bastante difícil, mas não impossível, quando se tem uma
alma nobre e pura.
— Talvez a minha não tenha esses predicados — murmurei.
— Pelo contrário, parece-me que o é.
Dizendo isto, pegou-me na mão, que eu sem querer lhe estendi, e
apertou-a com uma pressão forte, mas sem excesso.
— Até sempre, minha senhora. Esperamo-la qualquer dia da semana,
como lhe pediu minha irmã. Hei-de-lhe emprestar uma obra
interessantíssima sobre as abelhas, de que já lhe falei, por ocasião do
nosso último encontro na Sauvaie.
Transpus o portão e tomei o caminho em direcção à Meulière.
Dum lado e doutro erguiam-se fechadas sebes, que terminavam, vinte
metros adiante, na curvado caminho, onde principiavam uns campos de
trigo.
De repente vi sair duma dessas sebes um vulto de mulher, que
desapareceu na curva da estrada. “Parece a Angelina!” — exclamei. Mas
eram tantas e tais as minhas comoções, que este facto não me preocupou
mais; no meu íntimo baralhavam-se os remorsos, o receio, a confusão, e
uma espécie de surda alegria.
No entanto, a impressão predominante era a que me tinha deixado no
final o senhor de Trézonnes. Este fidalgo podia ser áspero, intratável e
orgulhoso; podia ter outros defeitos que eu ignorava; tinha porém uma
alma nobre, era um homem leal e honesto.

XV

Passou-se uma semana sem que eu voltasse à Bottellerie. No desejo de


acalmar a minha imaginação e o meu pensamento, sempre sonhando com
o senhor de Trézonnes, entregava-me ao trabalho dia e noite, um pouco
febrilmente, sem um momento de descanso. Catarina estava maravilhada
com a minha actividade, e suspirava, comparando-me à Angelina, cuja
indolência e má vontade se iam tornando intoleráveis dia a dia. Nem as
censuras da mãe, nem as cóleras do pai, conseguiam arrancá-la à sua
insensibilidade. Ria-se deles e dizia-lhes:
— Quero viver à minha vontade; se me contrariam muito, vou para Paris,
e emprego-me.
Agora evitava falar-me; contudo encontrava muitas vezes o seu olhar
hostil e cheio de ódio, que parecia vigiar todos os meus gestos.
Quando chegou o sábado, fui visitar o senhor Rouchenne, que encontrei
um pouco fatigado e sonolento.
— O senhor de Trézonnes esteve ontem aqui — disse-me ele. — Trouxe
este livro e pediu-me que lho entregasse, receando não estar em casa
quando fosse visitar a menina Jaqueline.
Peguei no volume, encadernado em carneira cor-de-vinho, vendo-se
gravadas na lombada as iniciais e as armas do seu dono.
O velho olhava-me pensativo.
— Vou lê-lo o mais depressa possível — disse eu, folheando o livro
distraidamente—, e dar-lho-ei depois, para fazer o favor de o entregar ao
senhor de Trézonnes na sua próxima visita.
— Oh! o senhor Gui disse que não precisa dele, por isso não tem
necessidade de se apressar. Além disso ele pretende falar com a menina.
Contudo, quando o vi no dia seguinte no castelo, disse-me apenas umas
ligeiras palavras a tal respeito. Falando-me em especial de música, revelou-
se-me um espírito deveras artista, executando mesmo com leveza e
expressão. Acompanhou-me ao piano e deu me alguns conselhos claros e
breves. Executou, ante um meu tímido pedido, Les Adieuxt por ser essa
composição de Beethoven uma das minhas sonatas predilectas.
O senhor de Trézonnes pôs termo, apenas com um olhar, a uma
tentativa de namoro do irmão. A autoridade de mais velho, do chefe da
casa, não era para ele uma palavra vã. Não se podia negar que tinha uma
aparência dominadora, um caracter imperioso, e que, além de tudo, tinha
nas mãos a administração da casa, vigiando os gastos da madrasta e dos
dois filhos. Tudo isto explicava a razão por que cada um "passava de
mansinho" diante dele, como dizia Bardeaume.
Desta vez entrei em casa muito mais satisfeita do que no domingo
anterior. Não fui estouvada,
e o senhor de Trézonnes mostrou-se muito mais amável, quase atencioso.
Passeando comigo e a irmã, colheu umas lindas rosas, que eu tinha
admirado de passagem, e ofereceu-mas, dizendo-me com delicadeza:
— Serão as suas companheiras na solidão do seu quarto.
E, na verdade, quando me instalei de tarde junto da minha mesa de
trabalho, com um livro na mão, senti-me menos só, naquela casa silenciosa,
com estas rosas ainda vivas diante de mim. Pela janela aberta entrava o ar
fresco da noite, trazendo-me os odores do jardim e beijando ao de leve as
corolas rosadas, nacaradas ou amareladas. Em volta do candeeiro adejava
uma escura borboleta, e o surdo ruído do seu corpo, batendo no vidro,
vinha quebrar o silêncio. Inclinada diante da luz, tinha os olhos fitos nas
páginas do livro, mas nada lia: o meu pensamento estava muito longe
dali... O meu pensamento voava para a Bottellerie, para um compartimento
que eu não conhecia, mas que imaginava dum luxo sóbrio, muito
aristocrático. "Ele" tinha dito nesse dia que todas as noites lia, por muito
tempo, no seu gabinete de trabalho. A essa hora devia lá estar. Neste
meu pensamento via o seu belo e altivo perfil desenhar-se nas paredes do
gabinete, bem como o seu olhar resoluto e profundo, quando se
interrompia para reflectir...
Fiz um movimento brusco e involuntário, e o livro caiu-me das mãos;
senti o coração vibrar sob o afluxo duma estranha comoção e, cheia de
medo, pensei: "Que tenho?... Que será que tenho?..."
Fiquei toda trêmula, mas imóvel. A borboleta continuava, infatigável, a
debater-se em volta da luz. Todos os aromas dos arredores vinham
acariciar o meu olfacto, deliciando-me. E sentia medo e não ousava
interrogar-me,..
Seria possível que me tivesse prendido também o coração?... Seria
assim por acaso tão ingênua e tão fraca?
Dominada por estes tristes pensamentos, ocorreu-me um nome que
balbuciei com o coração-opresso:
— Minha mãe!... Minha mãe!...
Era o apelo instintivo que saía da minha solidão e da minha angústia.
Depois, juntando as mãos, que ardiam, acrescentei:
— Meu Deus!... Afastai do meu coração- esta idéia louca!
Ouvi um estalar de asas e em seguida um leve ruído. Era a borboleta
que acabava de queimar as asas na luz e vinha cair na mesa, junto de
mim.
Levantei-me, deitei fora o pequenino cadáver, e peguei de novo no livro
com mãos trêmulas. Não queria mais devanear; era forçoso que removesse,
que repelisse da minha imaginação este pensamento..., e depois o outro...,
e o que me falava da simpatia que havia inspirado a Gui de Trézonnes, que
naturalmente me amaria a seu modo — como um homem com o seu
caracter, isto é, sem ternura, mas com uma paixão concentrada, despótica,
aniquiladora.
Dirigi-me ao pequeno armário onde costumava guardar o livro que o
senhor de Trézonnes me emprestara. Tinha-me parecido, ainda há pouco,
que alguém mexera nas minhas gavetas; desta vez, porém, vi, sobre o
mármore cor-de-rosa do móvel, um papel, que até então me tinha passado
despercebido. Peguei nele e notei que havia qualquer coisa escrita, com
uma detestável caligrafia, visivelmente disfarçada:
"Sei muito bem porque vai à Bottellerie e com quem se encontra na
Sauvaie. Tome cuidado!... Em breve toda a gente o saberá na aldeia".
Fiquei imobilizada e aturdida por uns instantes; logo porém reagi e
senti-me indignada. Como?... Atreviam-se a imaginar que procedia com
reservadas intenções?... Atreviam-se a escrever-me isto?... Quem teria sido
o covarde autor deste miserável bilhete?... Quem seria que e detestava
tanto para...?
Angelina!
No meu pensamento desenhou-se logo este nome com letras de fogo!...
Sim! essa pequena odiava-me, eu bem o sabia. A sua paixão pelo castelão
inspirava-lhe esta odiosa inveja e levava-a a procurar todos os meios para
me desmoralizar. Devia ser ela que estava escondida na sebe, oito dias
antes, naturalmente a espiar-me, e devia ter-me visto ao portão da
Bottellerie a falar com o senhor de Trézonnes. A sua vista de lince devia ter
notado a minha comoção e daí concluir erroneamente em favor da sua
louca inveja.
Depois, que importavam a esta inconsciente pequena as mentiras e as
calúnias?... Tinha o pressentimento de que para ela todas as armas seriam
boas contra mim.
Naquela noite não dormi quase nada. Grandes inquietações me
oprimiam e me perturbavam o espírito. De manhã levantei-me, resolvida a ir
contar tudo ao abade e pedir-lhe um conselho. Às sete horas por isso já me
encontrava na igreja. No entanto, com grande surpresa minha, não houve
missa e o padre não apareceu. Dirigi-me à sacristia, onde me informaram
que o senhor abade estava doente e que receavam, fosse uma febre
infecciosa.
Voltei para a Meulière bastante contrariada; com muita pena, tinha de
aguardar o restabelecimento do velho sacerdote, a única pessoa a quem
podia fazer as minhas confidencias. O mais difícil para mim foi encontrar-me
com a Angelina à mesa. Quando nos sentamos, uma em frente da outra,
como de costume, fitei-a com altivez e desprezo; ela voltou-se, toda
vermelha, apesar da espessa camada de pó de arroz, e baixou os olhos. Se
já não estivesse em absoluto convencida da sua culpabilidade, esse instante
teria sido suficiente para mo provar.
Prometera à menina Jaquelina que iria passar uma hora com ela, na
quarta-feira seguinte, para tocarmos um bocado. Como não queria dar a
entender que havia ligado importância à carta anônima, não deixei de ir ao
castelo, onde, contudo, não vi o visconde nem o irmão, ambos ausentes
durante o dia todo. Esta ausência foi para mim um alívio. Agora, ai de
mim!..., que sabia qual era a natureza dos sentimentos do senhor de
Trézonnes a meu respeito, a idéia de me encontrar de novo na sua
presença, era-me deveras penosa.
E se ele adivinhasse! Esta lembrança bastava para aumentar a minha
comoção. Como precisava agora vigiar-me a mim mesma!... O seu olhar
parecia tão perspicaz!... A melhor solução, a que com certeza me iria
aconselhar o abade, seria evitar a todo o custo encontrar-me com ele.
Neste caso devia manter-me afastada da Bottellerie e da Sauvaie. Isto
porém tornava-se inteiramente impraticável, em especial agora, que, tanto
numa como noutra casa, era tratada como se fosse família.
"E eu que julgava encontrar aqui a tranqüilidade!"— pensava, com
tristeza. "Em vez disso, estou ante a perspectiva de ser obrigada a deixar
esta terra, que já estimo, estes bons amigos que se me tornaram todos tão
queridos. No entanto a Angelina, com as suas calúnias, poderá tornar-me a
vida insustentável... É tão fácil desvirtuar o acto mais inocente!... "
Às vezes um outro pensamento me assaltava o espírito: "E se ele me
ama? E se pensa em desposar-me?..." Logo me recordava porém das
palavras que proferira certa ocasião, parece-me que para a senhora
Mossette, a qual mas repetira uma vez, em que acidentalmente falámos dos
moradores da Bottellerie: "Só admito o casamento de conveniência. Outro
qualquer não passa duma quimera, seguida sempre da desilusão”.
Como se podia acreditar que o homem que assim falara, pensasse em
desposar uma jovem sem eira nem beira, apenas porque ela era bonita e
lhe agradava?... Seria isto um casamento de conveniência?...
De resto, admitindo mesmo por um instante a hipótese deste pedido,
como poderia eu responder, que não fosse com uma recusa, sabendo de
antemão que a esposa de Gui de Trézonnes devia submeter-se sem
reservas à imperiosa vontade do marido?
Não podia, nem por um instante, pensar na perspectiva dessa
escravidão. Não!... Mesmo com todo o amor que pudesse existir por ele no
meu coração, nunca podia suportar o jugo dum senhor absoluto, severo,
orgulhoso, friamente dominador, como ele devia ser. Todo o meu orgulho se
revoltava, só ao pensar em tal coisa. Procurava então rir-me de mim mesma,
das minhas loucuras, da minha doida imaginação. Procurava esquecer o
olhar que se tinha fixado em mim, aquele olhar reflectindo uma paixão
calma, mas contida, que havia tentado roubar-me o coração..., que talvez o
tivesse conseguido!... Não queria amar este Trézonnes!..., não era
possível!...
Alguns dias mais tarde, ao cair do crepúsculo, dirigi-me à Sauvaie. O
meu velho amigo devia estar pensando que já o tinha esquecido aquela
semana. O abalo moral que acabava porém de sofrer — e que seria talvez
apenas o começo dos aborrecimentos que teria de experimentar—,
modificara os meus hábitos. Receava sobretudo encontrar em sua casa Gui
de Trézonnes, que resolvi deixar de ver, se possível fosse, após a
descoberta que acabava de fazer sobre os seus sentimentos para comigo.
Assim, o meu espírito excitado acalmar-se-ia mais depressa. Queria ter a
certeza de que apenas a minha imaginação fora atingida, pois o coração
não podia estar seriamente apaixonado por esse homem que a
atemorizava.
Quando cheguei à pequena herdade, o sol já se ia escondendo. Passei
pelo vestíbulo, e na passagem deitei uma vista de olhos para a sala. Estava
deserta; o senhor Rouchenne devia estar no jardim.
Desci os dois degraus de pedra limosa que levavam até ele, mas de
súbito parei. O velho estava sentado à sombra do castanheiro e ao lado
dele estava aquele que eu queria evitar.
À minha aproximação, ambos se levantaram. O senhor de Trézonnes,
com o chapéu na mão, deu alguns passos na minha direcção. Adiantei-me
então, indecisa, e sem querer, estendi-lhe a mão.
— Julguei que me tinha esquecido, menina Gillette! — disse o senhor
Rouchenne, num tom de amigável censura.
— Oh! não! por maneira nenhuma!... Não pude. Tenho estado muito
ocupada...
— Trabalha muito — disse o velho, agarrando-me a mão paternalmente.
— Bem se vê pelo seu aspecto, não é assim, senhor Gui?
— Assim parece. Então não se dá bem com os ares do campo, minha
senhora?
— Creio que sim... Não sinto nada.
Por que seria que me olhava daquela forma, com uma insistência
perturbadora, como se quisesse penetrar até ao âmago da minha alma?
Voltei os olhos e sentei-me na cadeira que o senhor Rouchenne me
ofereceu.
— Está bem aí, minha senhora? Essa rèsteainha de sol não a incomoda?
— Nada! Estou muito bem.
— Vou deixá-los por um instante, enquanto vou buscar o licor de
cerejas.
Oh! céus!.. Ficar a sós com ele, no estado de perturbação em que me
encontrava!..
— Não vá! — exclamei. — Não posso tomar nada, agora... É muito tarde.
— Mas um licorzinho de cerejas...
O senhor de Trézonnes interrompeu-o:
— Fique, meu velho amigo. Bem sabe o que tenho a dizer à senhora de
Arbiers; é inútil que se afaste, como ia a fazer, por discrição.
Que teria ele a dizer-me?... O meu coração entrou a pulsar com
desespero, a bater loucamente ...
O visconde tinha-se sentado ao pé de mim. Em frente a nós colocou-se
o senhor Rouchenne, que parecia bastante comovido, e olhava-me com uma
expressão de avô feliz. Quanto a mim, não me atrevia a erguer os olhos
para o senhor de Trézonnes. Com as mãos cruzadas sobre a minha cesta de
costura, esperava ansiosa...
Com voz clara, que nenhuma comoção conseguia alterar, falou:
— Vim visitar o senhor Rouchenne para lhe pedir que me conseguisse,
em sua casa e na sua presença, uma entrevista com a senhora. Sei que é
órfã, sem família, é maior e vive isolada; pela minha parte não dependo de
ninguém; e não me agradaria, sendo bastante independente como sou, pedir
a mediação da minha madrasta, sempre considerada por mim como uma
estranha. Assim, julguei poder quebrar as regras protocolares dos nossos
costumes franceses, dirigindo-me directamente à senhora, para lhe
perguntar se me daria a honra de usar o meu nome.
As últimas claridades do poente infiltravam-se através dos castanheiros,
envolvendo-nos na sua doce tepidez. Havia levantado os olhos, e via junto
de mim esse rosto sereno e enérgico, onde apenas os lábios palpitavam um
pouco. Fiquei imóvel, emudecida, com um nó na garganta; as mãos
começaram-me a tremer sobre os fios de seda da minha pequena cesta.
Como responder?... No meu cérebro as idéias volteavam uma dança
fantástica; o que me tinha parecido loucura, quimera romanesca, tornava-se
uma realidade.
O senhor de Trézonnes parou alguns instantes e depois continuou:
— Sempre desejei encontrar uma companheira que pudesse auxiliar-me no
meu papel de proprietário agricultor, que quisesse viver na Bottellerie a
maior parte do ano, que fosse capaz de se interessar também pelos seus
deveres de castelã. A senhora parece gostar do campo, tem-se mostrado
corajosa, e não trepidou em se iniciar num trabalho, que outras mulheres,
de linhagem inferior à sua, teriam tolamente desprezado. Aí está porque
pensei que a senhora saberia cumprir dignamente a tarefa que lhe vai
competir, como viscondessa de Trézonnes.
Sob a doce claridade crepuscular zumbiam algumas abelhas, enquanto
uma leve aragem trazia até nós os perfumes dos heliotrópios, que se
dobravam, lânguidos e doces, castigados pelo calor do dia. Olhei para o
senhor Rouchenne, e o meu olhar devia ter perguntado: "Como deverei
responder?" Oprimiam-me, até ao sofrimento físico, o embaraço, a angústia,
uma comoção que era quase alegria. O velho, imóvel, com as mãos
cruzadas sobre a pequena mesa que tinha diante dele, mantinha fitos em
mim os seus olhos cheios de bondade, que pareciam encorajar-me, mas
nada disse. Julgava, e muito bem, que tudo devia decorrer entre mim e o
senhor de Trézonnes, sem mediação estranha.
Por fim, balbuciei:
— Agradeço-lhe, senhor, o bom conceito que faz de mim, mas não sei!...
Para lhe responder, precisarei reflectir...
— É natural!... Mas creia, minha senhora, que me consideraria muito
feliz se me concedesse uma resposta favorável.
Oh! Como era correcto e ao mesmo tempo reservado!.. Aí estava o
casamento de conveniência!... Contudo não ocultava as razões da sua
escolha. Eu gostava do campo, era pobre e órfã, tudo lhe ficaria devendo.
Excelentes condições para ser uma esposa que ele poderia dirigir a seu
belo prazer!... Devia ser esse o motivo primordial da sua orientação. No fim
de contas talvez também não lhe desagradasse o eu ser fisicamente bem
proporcionada e de espírito um tanto culto; isto, todavia, era uma questão
de segunda ordem, de que lhe parecia inútil dizer-me qualquer coisa.
Apenas passaram pelo meu espírito estas idéias, readquiri logo a minha
presença de espírito. Vendo-o tão calmo, tão... razoável, a minha grande
comoção desapareceu, e pude então falar-lhe, senhora de mim, ainda que
o meu coração palpitasse bastante forte:
— Espero, senhor, que não se iluda demasiado acerca das minhas
qualidades. É verdade que gosto do trabalho, que a vida agitada da
sociedade não me atrai; devo contudo esclarecê-lo que não sou dum
caracter muito... passivo. Aceitando a autoridade dum marido, no que
tem de legítimo, de acordo com a minha dignidade e os direitos da minha
consciência, desejaria não abdicar por completo de toda a minha vontade,
de todas as minhas opiniões, nem daquela parte de autoridade moral, que
me parece toda a mulher deve manter em sua casa.
Isto tinha de ser dito. Porém com que dificuldade as palavras me saíram
da boca, sob aquele olhar cuja expressão me parecia tão enigmática!
— Falando duma forma tão clara, quer dizer, minha senhora, que receia
encontrar em mim uma espécie de déspota, que pretende curvá-la sob o
jugo duma vontade prepotente?...
O senhor de Trézonnes manteve-se sempre calmo e sempre reservado;
nesta altura inclinou-se um pouco e mostrou nas comissuras dos lábios
uma leve expressão de ironia.
— ... Não ignoro que fazem de mim, ainda que gratuitamente, esse
amável conceito. Sempre me recusei contrariar as opiniões desse gênero.
Para com a senhora, porém, o caso é diferente. Compreendo que me fale
assim, que deseje ser esclarecida sobre esse ponto, visto encontrar-se em
jogo a sua dignidade de mulher. Fique tranqüila, minha senhora; não
procuro uma escrava, mas uma esposa, uma companheira tal como a
senhora a concebe, que terá no lar o lugar a que tem direito e cujas
opiniões serão acatadas, desde que sejam sensatas.
Calou-se um instante, e prosseguiu:
— O senhor Rouchenne poderá contar-lhe os meus numerosos defeitos;
mas dir-lhe-á também que sempre cumpro o que prometo.
O ancião aprovou com um gesto de cabeça.
Sobre a pequena cesta as minhas mãos cruzavam-se e descruzavam-se.
Olhava agora a direito, na minha frente, admirando a parte do jardim
ainda batida pelo sol. Com voz firme, mas um pouco irônica, perguntou de
repente:
— Disseram-lhe, não é verdade, que era um homem inflexível, dominando
sempre como senhor absoluto?
— Disseram, na verdade.
Deixou transcorrer um curto silêncio e depois prosseguiu:
— Sê-lo-ei, de facto. Contudo há diferentes maneiras de se interpretar
esta palavra. Espero que a senhora descobrirá a que for mais acertada.
Desta vez os meus olhos ergueram-se, procurando os dele, e
perguntando-Ihe timidamente: "Que quer dizer?..." Não encontraram
resposta no seu olhar, que se voltou rápido.
De novo pairou o silêncio. O senhor Rouchenne olhava-nos. De súbito
interveio:
— E agora, senhor Gui?... Posso ir buscar o licor de cerejas?
— Sim, mas não para mim. Tenho de me retirar.
— Nem para mim, senhor Rouchenne. Não tomo nada a esta hora —
acrescentei eu. — Não se incomode. Ficará para outro dia.
— Para quando estiverem noivos — disse ele, sorrindo.
O senhor de Trézonnes replicou com calma:
— Isso agora depende da senhora de Arbiers.
Dizendo estas palavras levantou-se. A sua alta estatura reflectiu-se,
elegante e vigorosa, na claridade da tarde. Nunca me pareceu tão alto e
tão bem constituído. Senti um leve arrepio percorrer-me a pele. O seu
aspecto enérgico atemorizou-me, porque me parecia o reflexo exterior duma
força íntima, duma vontade que procurava sempre dominar a fraqueza
feminina, por uma persuasão instintiva da sua superioridade, pensando,
talvez de boa fé, respeitar a independência do espírito da esposa.
— Muito bem, minha senhora. Então vai reflectir, não é verdade?...
Queira ter a bondade de comunicar a sua decisão ao nosso comum amigo,
senhor Rouchenne... Amanhã será muito cedo?
— Amanhã!... Oh! tão depressa!...
Contudo habituara-me a gostar das resoluções rápidas. De que me
serviria torturar o meu próprio espírito na indecisão de muitos dias? O
abade estava doente; restava-me apenas a senhora Mossette, a quem
poderia pedir alguns conselhos. Depois disso era necessário decidir-me de
qualquer maneira.
Tentando falar com a mesma naturalidade que ele, respondi:
— Amanhã dar-lhe-ei a minha resposta, senhor visconde.
— Agradeço-lhe imenso, minha senhora.
Inclinou-se, apertou a mão que eu lhe estendi, e afastou-se,
acompanhado do senhor Rouchenne.
Fiquei só por uns momentos. A esta hora da tarde pairavam no
ambiente todos os perfumes da natureza. Pareciam-me muito suaves e
um tanto embriagadores. Fechei os olhos, procurando ver se não tinha
sonhado; mas o meu coração continuava oprimido, não sei se de angústia,
se de alegria...
O senhor Rouchenne voltou e sentou-se perto de mim, no lugar ocupado
há pouco pelo senhor de Trézonnes. Sem quase erguer as pálpebras,
peguei-lhe nas mãos engelhadas e murmurei:
— Diga-me: isto não será um sonho?
— Oh! não, minha querida! É perfeitamente real; acaba de lhe pedir que
queira ser sua esposa.
—Sim, realmente é verdade!..., é verdade!... Mas que devo fazer?
Abri muito os olhos, fitando-os naquele querido rosto enrugado, de olhar
terno e profundo.
— O que deve fazer, minha senhora? Parece-me que... Enfim, nada
posso dizer!... Se o senhor Gui lhe agrada...
— Tenho um certo medo dele — disse eu a meia voz.
O senhor Rouchenne olhou-me por um instante, e depois perguntou-
me:
— Ama-o, no entanto?
Enrubesci, mas sustentei com franqueza o seu olhar e respondi:
— Sim..., parece-me.
— Então aceite, e nada receie. É um homem honrado e bom, muito bom.
Como já lhe disse, ninguém o conhece; a ninguém, nem mesmo a mim, dá
a conhecer os seus mais íntimos pensamentos. À força de o ver, no entanto,
cheguei a adivinhá-los algumas vezes. Suponho que lhos dirá, menina
Gillette, se souber despertar-lhe confiança, porque a ama loucamente.
— Não, não!... Não creio isso!... Viu-o ainda há pouco, quando me
fa la va ? . .. Nunca esteve tão frio!... Nem um vislumbre de comoção!.. Por
acaso seria assim, se gostasse de mim, como diz?
O ancião abanou levemente a cabeça, apertando-me os dedos, que
conservava entre os seus.
— Oh! a menina ainda não o conhece!... Mas conhecê-lo-á... É
preferível que o conheça por si mesma... Antes de responder, reflita bem,
até amanhã. Quanto a mim, só lhe posso dizer uma coisa: se fosse minha
filha, dá-la-ia de todo o coração ao senhor de Trézonnes.
Estas últimas palavras acabaram por me convencer. Sempre achei muito
judicioso o critério do senhor Rouchenne. Sabia-o bastante severo no que
dizia com respeito à moral e pouco habituado a transigir nos seus
compromissos de consciência. Se tinha em tal conta o senhor de
Trézonnes, a quem já conhecia há muitos anos, podia ter a certeza de que o
castelão merecia-o.
— Parece-me um tanto áspero para com a família... — observei ainda.
O velho exprimiu o seu desdém com um leve movimento dos lábios.
— A sua família! Pobre do senhor Gui, se fosse contar com ela para o
fazer feliz!... Tirando a menina Jaquelina, os outros nada valem. Se não
tivesse sido intransigente, e mesmo áspero, como diz, a sua fortuna já teria
desaparecido, como a do pai, para pagar as frivolidades da viscondessa e
as estroinices do senhor Paulo. Pode acreditar,
minha senhora: o senhor de Trézonnes merece ser louvado, por se ter
tornado um homem sério, ante a deficiente educação doméstica que
recebeu, devido ao exemplo do falecido visconde, que era, moralmente
falando, um caracter de lamentar. Esse homem dizia ao filho: "Diverte-te,
meu caro, tanto quanto puderes, porque a mocidade é um sopro, que
passa breve; aproveita-a bem, pelo menos". Felizmente o senhor Gui não o
ouviu por muito tempo. Preferiu uma vida útil, vindo viver para o campo,
para os seus domínios, para dar aos camponeses o exemplo do amor à sua
terra.. Pois muito bem: quando um jovem, que era rico e livre, tendo no
mundo todas as regalias que desejava, tem a energia de fazer o que ele
fez, e de nela se manter há mais de oito anos, é porque na verdade tem
qualquer coisa de grande e de nobre no coração. Que me diz a isto,
menina Gillette?
— Sim, tem razão... —respondi, convencida.
A minha inquietação e a minha incerteza acalmaram-se um pouco. Gui de
Trézonnes não era destes homens volúveis, que se deixam levar ao acaso
da vida; tinha uma grande concepção do dever, dentro do qual não transigia,
o que se tornava uma preciosa garantia para aquela que se tornasse sua
esposa. Esta alta qualidade sobrepunha-se a alguns inconvenientes de
caracter, a uma frieza um tanto excessiva, talvez, a uma vontade um tanto
prepotente..., a tudo quanto eu ignorasse dele. Despedi-me do ancião. O
sol, agora quase afogado no horizonte cor-de-malva, iluminava todo o
ambiente à minha volta, com as suas últimas claridades. Segui pelo estreito
caminho, marginando um campo de trigo, que devia levar-me mais depressa
à Meulière. À esquerda, perto dum cerrado, vi mover-se um vulto feminino,
que se encaminhou para mim. Era a Angelina. A boca mostrava um sorriso
maldoso, e os olhos brilhavam-lhe, ao fixarem-se em mim.
— Olá, menina Gillette! — exclamou ela com insolência. — Acabo de ter a
certeza das suas entrevistas com o senhor de Trézonnes, em casa do
Rouchenne... A menina sabe delinear bem a sua vida!... Vejam lá!...
Ergui o busto com altivez e medi-a de alto a lixo com indignação e
desprezo:
— Como se atreve a falar-me assim?... Não atribua aos outros os actos
de que era capaz, Angelina!... É uma filha má, indigna das óptimas
pessoas que são seus pais. Como se atreveu escrever-me aquela carta que
encontrei no meu quarto?... Que quer dizer com aquelas ameaças?... Fique
sabendo que não me deixarei caluniar. Ser-me-á fácil divulgar os motivos
da sua inveja, e todos na povoação virão a rir-se de si, e não acreditarão
nas suas mentiras.
— Os motivos da minha inveja?... Sabe-os muito bem!... Eu também o
amo!... E por que não?... Não lhe parece que tenho o mesmo direito?. .. E
agora fique sabendo que não preciso das suas lições!...
Como me insultava com arrogância, falei-lhe com desdenhosa calma:
— Sim, posso dar-lhe lições, porque entre nós há uma certa diferença:
eu posso tornar-me a esposa do senhor de Trézonnes, e a Angelina...
Soltou uma surda gargalhada.
— Sua esposa?... Muito bem!... E acha que ele irá casar com uma
pobretona como a menina?... Fique descansada que não é homem para
isso.
— Engana-se. A prova é que...
Interrompi-me durante alguns segundos. Que ia eu dizer?... Diante de
mim estava aquele rosto crispado, aqueles olhos cheios de ódio. Decidi-
me: ia pronunciar as únicas palavras que podiam tapar a boca a esta
pequena, prestes a conspurcar a minha reputação.
Com voz mal segura conclui:
—... acaba de me pedir em casamento. Sou a sua noiva.
Angelina teve um sobressalto; os lábios descerraram-se-lhe e balbuciou,
com os olhos muito abertos:
— É mentira...
— Seja. Tem a liberdade de acreditar ou não. O futuro lho dirá.
Dizendo isto voltei-lhe as costas e afastei-me a passos rápidos, agitando
ao de leve as hastes amareladas do trigo, quase imóveis na luminosa
quietude daquela tarde.
Afastava-me, apressada, desta infeliz, que tinha bebido o leite do
mesmo seio que eu bebi, e que me detestava, porque eu era bonita e de
boa família, porque trabalhava melhor do que ela, porque adivinhava o meu
íntimo desprezo — e em especial porque era amada pelo homem para o
qual, na sua vaidosa inconsciência, se tinha atrevido a erguer os olhos.
Mas acabava de me comprometer... A cartada estava jogada, pois
tinha dito: "Sou sua noiva". Seria uma resposta afirmativa aquela que eu
iria transmitir ao senhor Rouchenne.
O ar ainda estava quente e um tanto pesado, mas tive frio de repente e
pensei: "Será possível?... Tão depressa!... Nem sequer tive tempo de
reflectir!... Que marido será ele?"
Um marido leal, um marido honrado..., que talvez me estime. Porém
há tantas maneiras de amar!... E o amor de que eu tinha sede, na solidão
da minha alma, era o amor feito de confiança, de protectora meiguice, de
suave e terna intimidade.
Pensei, angustiada: "O dele não será assim. Neste casamento não
encontrarei a união profunda, a união de dois corações, tal como tenha
sonhado. Já foi por este motivo que vacilei em aceitar o pedido do doutor
Borday. Com esse porém não teria sido nem muito feliz, nem muito infeliz.
Com o senhor de Trézonnes tenho o pressentimento de que serei as duas
coisas.
"Depois, naturalmente..., ele não saberá compreender, não saberá
nunca o quanto o meu coração é ávido duma doce afeição, de domésticas
alegrias... Amar-me-á "loucamente", como disse o senhor Rouchenne, e eu
também o hei-de amar; porém estou certa de que, apesar de toda a paixão
do mundo, continuaremos a considerar-nos isolados, visto que as almas
não se unem..."
XVII
O meu casamento ficou oficialmente estabelecido. Participei-o aos
Bardeaume e à senhora Mossette. A admiração dos meus bons caseiros
transformou-se logo em alegria, e Catarina exclamou:
— A menina bem merece este bom casamento! Uma jovem tão
corajosa!... Deixe lá, que o senhor visconde não teve mau gosto!... Dará
uma linda castelã, não é verdade, Julião?...
— Sem dúvida!... O senhor Gui será mais feliz com a menina do que se
desposasse milhões, porque a menina é trabalhadeira, entende de tudo, e
além disso já é estimada em toda a região, onde é tão compassiva para
com os infelizes... Agora cumpre esperar que ele não seja tão altivo, única
coisa que é para recear...
Catarina deu-lhe um repelão no braço:
— Ora cala a boca!... Já estás a atemorizar a menina Gillette com as
tuas idéias!... Olha!... Já está pálida!... Ora vamos, minha boa menina, não
pense nisso. Estou segura e que a tornará muito feliz, porque a ama
muito.
Catarina procurava imprimir à sua expressão um cunho de convicção,
mas eu sabia bem que o caracter do senhor de Trézonnes lhe deixava
alguma dúvida acerca da minha felicidade. Estas mesmas dúvidas fui
encontrá-las na senhora Mossette. Quando perguntei à velha senhora se
podia precisar as suas duvidas a este respeito, respondeu-me:
— Como já lhe disse, vejo raras vezes o senhor de Trézonnes, e a
minha opinião é baseada no que ouço dizer a seu respeito cá na aldeia.
Sempre ouvi dizer, quando se falava do seu eventual casamento: «Não será
um marido muito meigo». No fundo, porém, ninguém sabe nada. O que se
sabe ao certo é que o senhor de Trézonnes tem óptimas qualidades. E
quanto ao seu caracter, que é a sua maior dúvida, fique certa, minha filha,
de que uma mulher inteligente, discreta e amável pode quase sempre
exercer sobre o marido uma influência muito grande e transformadora.
Nada disto me tranqüilizava o bastante; apenas as palavras do senhor
Rouchenne eram francamente animadoras. Convencia-me de que, melhor do
que ninguém, só ele conhecia o jovem castelão, e que não devia dar
demasiada atenção à opinião geral, que apenas preconizava desgraças
para a futura viscondessa de Trézonnes. Todavia ficava inquieta, partilhando
da angústia e da alegria tímida, quase medrosa, que me invadia. Foi nesta
disposição de espírito que recebi a primeira visita do meu noivo, no dia
seguinte á resposta por mim dada ao senhor Rouchenne.
O senhor de Trézonnes vinha acompanhado da madrasta e da irmã.
Depondo um beijo na minha mão, agradeceu-me em termos bastante
amáveis; a senhora de Trézonnes e Jaquelina abraçaram-me, confessando-se
encantadas com a escolha do seu enteado e irmão. Fomos para a pequena
sala de visitas, toda perfumada com o aroma das belas flores chegadas da
Bottellerie naquela manhã. Vestira o meu vestido azul, tendo na cinta uma
das minhas rosas, dum lindo vermelho escuro. A viscondessa e Jaquelina
falaram muito, felizmente, porque eu estava tão comovida, tão perturbada,
que não encontrava nenhum assunto para falar. O senhor de Trézonnes
também falou pouco; já tinha notado que não gostava de tomar parte na
conversa, quando provocada pela sua madrasta. Devo convir que na
verdade era pouco interessante e duma desagradável futilidade, o que me
permitia responder apenas com algumas frases curtas, por monossílabos
até, e dissimular o embaraço que sentia com a presença do senhor de
Trézonnes.
— Quer mostrar-nos o seu jardim, menina Gillette?... Estou ansiosa por
ver as suas colméias — disse Jaquelina.
O dia estava um tanto cinzento e brumoso; cercava-nos uma quente
humidade, enquanto marguiávamos os canteiros de legumes, tão bem
tratados pelo Bardeaume e pelo Tiago. À margem dos passeios
desfolhavam-se as anémonas sobre as couves, as quais impregnavam o ar
com o seu odor acre e pesado. A chuva da noite tinha humedecido a terra,
e os pés afundavam-se ao de leve no solo argiloso dos estreitos carreiros.
Íamos adiante, o senhor de Trézonnes e eu, e as senhoras um pouco atrás.
Ao voltar para casa, após termos visitado as colméias, encontrámo-nos,
pelo contrário, atrás delas.
— Já está de verdade bem acostumada a esta casa? — perguntou-me ele.
— Tanto quanto nos podemos habituar, quando se tem um caracter afeito à
solidão e à tristeza, como eu.
Abrandou o passo, e senti que o seu olhar pousava sobre mim.
— Um caracter como o seu?... Então como é?
Ergui os olhos e encontrei os dele, sempre enigmáticos. Com os lábios um
tanto trêmulos, murmurei:
— Precisa de afectos e de ternura familiar.
Passávamos perto duma cerejeira; um fruto bastante maduro caiu sobre as
costas de Gui de Trézonnes e esmagou-se no chão. O visconde observou:
— Já é tempo de colher as suas cerejas, minha senhora.
O seu olhar tinha-se afastado do meu, examinando atentamente as
árvores frutíferas. O meu coração sentiu uma opressão tal, que me pareceu
experimentar uma espécie de sofrimento físico. Demos alguns passos
calados. Observava a senhora de Trézonnes, que caminhava com cuidado,
nuns passos miúdos, para não sujar os seus pequeninos sapatos abertos; e
pus-me a imaginar o desdém que transbordava da sua alma pelo meu
pobre jardim!... Mas como tudo isso me importava pouco!... Se "ele"
tivesse sido outro!... Oh! Como poderia acreditar que me amava?...
Teria ele tido esta atitude e esta expressão?. ..
Parou sob as tílias e olhou as rosas vermelhas, que cobriam a fachada
quase em ruínas. Com um gesto nervoso eu ia desfolhando maquinalmente a
que trazia na cinta; o senhor de Trézonnes, porém, voltando-se para mim,
disse-me a meia voz:
— Deixe-a; ela forma um lindo contraste com o azul claro do seu
vestido.
De novo os nossos olhos se encontraram, e vi nos seus aquela claridade
de vida longínqua e concentrada, mas ardente, que já lhe tinha notado
algumas vezes, quando os seus olhos incidiam sobre os meus. Senti o
coração perturbar-se-me, e os meus olhos trêmulos baixaram-se um
pouco.
Com a mesma voz grave e calma o senhor de Trézonnes acrescentou:
— É encantador o seu vestido cor do céu. Posso-lhe pedir que o traga
muitas vezes durante o nosso noivado?...
Murmurei:
— Pois sim!.. Usá-lo-ei, se lhe agrada.
Na sala de visitas reunimo-nos às duas senhoras. Os visitantes então
despediram-se, ficando combinado que, como o senhor de Trézonnes não
podia vir a minha casa, devido à minha condição de isolamento, iria eu
mais vezes ao castelo. Acompanhei-os até ao portão enferrujado; em
seguida voltei lentamente e sentei-me perto da mesa. Embriagava-me o
perfume das flores de noiva; encostei a cabeça às mãos e fiquei por muito
tempo pensativa — tanto tempo, que o crepúsculo veio surpreender-me,
toda palpitante de receio e tristeza, porque pensava na minha mãe, na
minha triste solidão de órfã, no futuro e no meu noivo, a quem amava,
tremendo, receando que não fosse para mim o terno amigo idealizado, mas
unicamente o prepotente senhor.
No dia seguinte o senhor de Trézonnes partiu para Paris, a fim de
comprar o meu anel e o enxoval. O nosso casamento devia realizar-se três
semanas depois, visto que na minha situação um noivado muito prolongado
teria sido incômodo. Esteve ausente quarenta e oito horas; depois disso vi-
o quase todos os dias, quer no castelo, quer na Sauvaie. A sua atitude não
mudava: sempre cortês, sempre amável, muito reservado, e raras vezes
lhe notava nos olhos aquele brilho que tanto me perturbava. Procurava
libertar-me do embaraço que me dominava, sempre que estava perto
dele, mas era forçoso confessar que a sua atitude não me ajudava.
Quando estávamos perto do bom senhor Rouchenne, este envolvia-nos
num olhar de terna satisfação. O ancião não ocultava o prazer que este
casamento lhe proporcionava.
— Creia que o senhor Gui há-de dar um bom marido, menina. Vai ver
como será feliz!
Respondi-lhe, esforçando-me por sorrir:
— Não tenho muita esperança nisso! Veja como é reservado!...
— São as aparências, apenas. Vai ver, menina Gillette, quando se
conhecerem melhor!. ..
Na Meulière, ao contentamento tinha sucedido a inquietação. Catarina
envaidecia-se ao pensar que a "sua menina Gillette" ia tornar-se "castelã". E
que castelã!... Muito rica, senhora dum lindo castelo, e tendo um marido à
volta do qual andavam todas as mulheres!
— Ora veja, menina Gillette!... Ele queria a Meulière, e obteve-a.
Consegue tudo o que quer!
Por outro lado esta pobre gente vivia muito desconsolada. Angelina,
talvez para não se encontrar mais comigo, tinha partido para Niort, onde
vivia uma sua tia, que possuía uma pequena loja de miudezas. Esta tia há
muito que a andava convidando para a auxiliar no seu negócio; porém até
então os pais tinham-se oposto a que ela deixasse o campo. Desta vez, no
entanto, após uma séria questão, deixaram-na partir. Estava lá apenas há
oito dias e já a tia se queixava dos seus modos, da sua preguiça e das suas
vaidades. E os Bardeaume perguntavam, desesperados: "Que havemos de
fazer?"
As senhoras de Trézonnes continuavam a patentear-me as mais vivas
provas de amizade. Por parte da Jaquelina sabia que estas demonstrações
eram sinceras; o mesmo já não se dava com a mãe. Quando a conheci
mais intimamente, desvaneceu-se logo a pequenina simpatia que sentia por
ela, e assim compreendi melhor a atitude de Gui a seu respeito. A senhora
de Trézonnes era destas almas deveras frívolas, que nunca pensaram na
sua responsabilidade, e que em toda a sua vida apenas amaram os
prazeres, o luxo e as f utilidades. Nestas condições mostrava-se bajuladora
ante o jugo do enteado, pois que apenas este podia dispensar-lhe um
pouco daquele ouro que tinha dissipado outrora, e que hoje lhe fazia falta
para continuar a sua vida ociosa, elegante e frívola.
Uma tarde, oito dias antes da data fixada para o casamento, encontrei-a
só, na pequena sala de visitar, onde regra geral costumava estar. Fez-me
sentar perto dela, dizendo-me que a Jaquelina andava colhendo flores no
jardim e que o Gui me pedia desculpa pela ausência, devida a um pequeno
acidente ocorrido numa das suas quintas, e que o obrigara a sair de
automóvel logo depois do almoço.
— ...Deve estar aqui provavelmente às cinco horas, e a Jaquelina estará
de volta dentro dalguns minutos. Pobre pequena!... Estou convencida de
que saiu, mais para chorar um pouco, para se isolar uns instantes, do que
para apanhar flores. Abanou a cabeça com um ar de profunda mágoa.
— Chorar?... E que tem ela?... Algum desgosto?
— Sim, um grande desgosto. Posso confiar--lho, agora que vai fazer
parte da nossa família... Jaquelina ama o Luís de Subrennes, que também
lhe quer muito. Ele deseja desposá-la, mas o pai proibiu-lho
terminantemente, por achar muito insignificante o dote. O Gui não quer
dotar a irmã com mais de cem mil francos!...
Luís de Subrennes?... Já o tinha visto várias vezes na Bottellerie. Era um
belo rapaz, de olhar franco, simpático, e de maneiras distintas. Tal como o
senhor de Trézonnes, mas numa escala mais modesta, o pai e ele
administravam os seus domínios, situados a alguns quilômetros da
Bottellerie.
— Pobre Jaquelina!... — disse eu, compassiva. — Que pena!... Parece-
me que devia ser muito feliz com ele!... Mas quem sabe se o pai não
acabará por ceder?
— Duvido bastante. O senhor de Subrennes não muda facilmente de
idéias. E sobre esta, dou-lhe toda a razão. Cem mil francos?... De que
servem hoje em dia?... Com o seu nome e a sua bela fortuna, Luís pode
encontrar um melhor partido.
— Sim, mas se ele ama a Jaquelina?... Parece-me que em tais casos a
questão monetária deve
ficar em segundo plano.
A senhora de Trézonnes olhou-me com um sorriso de piedade:
— Oh! minha querida menina!... Como desconhece a vida!... Fique
sabendo que no casamento o dinheiro é a primeira condição!
— Nem sempre! — respondi eu. — Prova-o o senhor de Trézonnes, que
escolheu uma noiva pobre.
— É uma excepção, e isso da parte dele admirou-me muito. Supunha-o
mais interesseiro. Porém com a sua fortuna pode dar-se a esse luxo.
Imagine que não gasta nem metade das suas rendas!... Penso portanto
que podia dotar melhor a irmã, sem ter com isso nenhum prejuízo.
— Ele sabe que é apenas essa questão de dinheiro que impede a
felicidade da Jaquelina?
— Oh! É claro que não pode ignorá-lo!... Mas ficou impassível. E sei, por
experiência, que pedido directo não dá resultado.
A senhora de Trézonnes suspirou, passando pelo rosto o lenço
perfumado.
Fez-se um longo silêncio. Pensando em Jaquelina, deixei errar o meu
olhar ao acaso, admirando a luz que entrava pelas janelas abertas,
incidindo sobre os claros tapetes e sobre os móveis elegantes. Quebrou o
silêncio a voz da senhora de Trézonnes, que, pondo a mão no meu braço,
murmurou:
— Talvez que a menina pudesse fazer alguma coisa em nosso favor.
Voltei-me, fitando-a com surpresa.
— Eu, minha senhora?
— Sim!... Por muito reservado que seja, o Gui ama-a muito. Quando for
sua esposa, quando o conhecer melhor, parece-me que poderá tentar obter
dele que seja mais generoso, na parte que diz com respeito ao casamento
da irmã.
Fiz um instintivo movimento de protesto:
— Oh! minha senhora!... Que me está pedindo?... Pense no quanto esse
caso seria delicado para mim, a quem o senhor de Trézonnes vai desposar
sem dote!...
— Oh! não!... Seria muito natural. Ele não pode pretender que todos
tenham o seu desinteresse. Aliás, a menina escolherá o momento propício
para lhe fazer tal pedido. Como um homem como o Gui é preciso ter uma
infinita cautela e muita inteligência. Tenho porém a certeza de que neste
particular a menina tem os requisitos necessários, sem falar nos seus lindos
olhos, que evidentemente o encantaram, por mais insensível que seja.
Mantive-me calada. Não obstante, demonstrava o desgosto que me
causava tal pedido. Neste momento agravou-se a minha antipatia para com
a senhora de Trézonnes; pensava em retirar-me, pretextando ir ao encontro
da Jaquelina, quando esta apareceu. Trazia os olhos vermelhos e uma
expressão de profunda mágoa, que ao ver-me, procurou encobrir, sob um
forçado sorriso. Mostrei-me mais afectuosa para ela, lamentando com
sinceridade o não poder advogar junto do irmão a sua causa, para lhe
minorar a mágoa que a apoquentava. Mas era impossível. A minha posição
impunha-me a mais restrita delicadeza, e estava sentindo um certo ódio à
senhora de Trézonnes, por não o ter compreendido.
Gui chegou pouco depois das cinco horas; o acidente que motivara a
sua ausência não fora de gravidade. Ao voltar, tinha-se demorado uns
minutos na Sauvaie, onde encontrou o senhor Rouchenne um pouco
adoentado. Ficou de voltar no dia seguinte e demorar-se lá mais tempo.
— Irá também à Sauvaie? — perguntou-me, enquanto me acompanhava
até ao portão, como de costume.
— Vou, sim. Irei vê-lo à tarde e ficarei a trabalhar um pouco, junto dele.
— Ficará muito satisfeito, porque a ama sinceramente. Ainda há pouco
me disse: "o seu casamento com a menina Gillette é a minha última
alegria".
Murmurei com comoção:
— É um bom amigo!...
Tínhamos chegado perto do portão; estendi-lhe a mão:
— Então até amanhã, senhor visconde.
— Não acha que poderíamos suprimir este cerimonioso “senhor" e
“senhora”?
Respondi, corando:
— Sim, talvez...
Beijou-me as mãos, e murmurei:
— Até amanhã, Gui.
Transpus o portão num passo apressado; uma violenta comoção se
apoderara de mim. A mudança de tratamento acabava de me tornar mais
evidente a próxima transformação da minha vida, a intimidade que ia ter dali
para o futuro com este estranho. Até aqui custou-me a convencer que este
noivado não era um sonho; hoje, porém, compreendi com mais clareza que
já estava unida por um forte liame ao senhor de Trézonnes.
Em lugar de entrar directamente em casa, dei uma volta, supondo que o
caminhar e o ar livre poderiam acalmar os meus nervos um tanto
excitados; ao mesmo tempo fui saber duma pobre viúva doente, a quem ia
algumas vezes levar uma pequena esmola, que os meus modestos
rendimentos permitiam. Cheguei a casa da indigente, onde a encontrei
com os dois filhos. Demorei-me um pouco, e quando cheguei à Meulière o
sol já se tinha posto. De passagem, o carteiro entregou-me uma carta da
senhora Barduzac. Abri-a e percorri as suas linhas, enquanto entrava em
casa. A esposa do meu ex-tutor respondia à minha participação de
casamento com umas felicitações calorosas. Esta brilhante união
reconciliava-a por completo comigo. Já não era a "pobretona", que não
quiseram agasalhar na sua confortável "Vila das Palmas". Informava-me
também que o senhor Barduzac se sentiria muito feliz em me servir de
padrinho.
Dobrei a carta com um sorriso de desprezo: — Não, minha querida
senhora—murmurei—, não será pelo braço do senhor Barduzac que
entrarei na igreja. Outro substituirá mais dignamente o pai que não tenho.
Mudei de vestido distraidamente. O meu pensamento evolava-se para
essa cerimônia, já agora tão próxima. Seria uma grande festa para a
aldeia. Seria servido um almoço a todos os caseiros e seus criados, assim
como a todos os habitantes da aldeia, numa das grandes alamedas que
convergem para o castelo. Em seguida haveria um baile e todos deviam
ficar satisfeitos. Apenas a noiva, um tanto trêmula, se manteria
mergulhada na incerteza do seu destino.
E repetia comigo mesma: "Daqui a oito dias!... Dentro de oito dias!..."
Com o espírito perturbado, devido a estas preocupações, no meio das
quais procurava uma luzinha de esperança, dirigi-me para a quinta. Na sala,
agora mergulhada na indecisão do crepúsculo, estava o Bardeaume, de pé,
com os braços pendentes ao longo do corpo. Próximo do fogão, estava a
Catarina, sentada, a chorar, com o rosto entre as mãos.
— Que há? — exclamei, inquieta.
Foi o Bardeaume quem falou, com voz rouca:
— Acabamos de receber uma carta da minha cunhada. A Angelina
deixou-a, para se ir empregar em Paris. E sem nada nos dizer, compreende,
menina Gillette?
— Será possível que nos dê um tão grande desgosto? — gemeu a
Catarina. — Uma filha por quem tanto temos sofrido!... A Juliana diz que
com certeza se vai perder!...
A minha pobre ama causava-me pena. Tentei persuadi-la de que a
Angelina em breve sentiria remorsos e voltaria à casa paterna. Bardeaume
porém, abanando a cabeça, disse entre dentes:
— Nunca mais voltará. Os filhos de hoje não têm coração, menina... Só
pensam neles...
E filosofei com tristeza : “Porque não os ensinaram a pensar nos
outros!. .."

XVIII

Alguns dias depois o senhor de Trézonnes ofereceu-me o enxoval que


tinha comprado em Paris. A meu pedido não o mandou para minha casa,
pois não me parecia segura bastante para nela se guardarem objectos
como esses, que representavam uma verdadeira fortuna. O senhor de
Trézonnes tinha-se mostrado duma admirável generosidade. Na sala de
visitas, onde me levou, esses esplendores maravilharam-me, pois só os
havia contemplado em sonho. Um quente sol de verão, infiltrando-se pelas
janelas semi-abertas, vinha acariciar as peles e as rendas, fazia cintilar os
diamantes, as esmeraldas e os rubis muito bem trabalhados. Dois leques, um
antigo, outro em platina, com varetas adornadas de diamantes, estavam nos seus
estojos de cetim branco.
— Oh! Gui!... obrigada!...— murmurei. — Mas isto é muito, muitíssimo!...
Não estou habituada a ser assim mimoseada!
— É uma coisa a que facilmente nos habituamos. .. Então, tudo isto te
agrada?
— Oh! muitíssimo!
Ia duma coisa para a outra, exprimindo a minha admiração, e Gui seguia-
me com os olhos. Depois adiantou-se, pegou numa pele e chegou-a perto do
meu rosto.
— Fica-te muito bem, como eu pensava.
— O que é, Gui?
— Raposa prateada.
— Oh! mas é uma loucura!... Um vestuário assim!... Nunca me atreverei a
usá-lo!...
Exclamou com calma:
— Por quem poderia eu fazer loucuras, senão por ti?
Vendo-lhe de novo aquele olhar apaixonado, ocultei os meus olhos sob as
pálpebras frementes. Com um gesto maquinai pousei sobre uma mesa o estojo
que tinha na mão; Gui pousou a pele sobre uma poltrona e perguntou-me :
— Queres ver o meu gabinete de trabalho?.., É o lugar onde de
preferência me encontro
sempre.
Como eu concordasse, abriu uma porta e fez-me entrar numa ampla
sala de quatro janelas, cheia de tapeçarias antigas. Móveis da renascença,
marfins, esmaltes, maravilhas de velhos artistas e alguns quadros de
antigos mestres, faziam desta sala uma espécie de museu, dum gosto
sóbrio e magnífico.
— Oh! Como gosto disto! — exclamei com espontaneidade.
Fui até uma janela. Na minha frente estendia-se um terraço, donde se
descortinavam os jardins e o parque. O sol não iluminava já esta fachada, e
a sombra espalhava-se com tal doçura, tão perfumada e emoliente, que
murmurei a meia voz:
— Que delícia!
Estava perto de mim e tão inclinado, que sentia o seu hálito no meu rosto;
tive a impressão de que os seus lábios se aproximavam e me iam beijar;
não me atrevi a esquivar-me, e pensava, num misto de angústia e alegria :
"Já lhe assiste algum direito; dentro de três dias será meu marido".
Ele porém endireitou-se, sem que os seus lábios me tocassem.
— Esta parte do castelo é a mais agradável — disse ele com a mesma
voz tranqüila. — Lá em cima ficam os meus aposentos e também uma parte
dos teus.
— Ah! sim! — murmurei.
Não me tinha ainda refeito por completo da minha comoção, e todavia
estava sentindo no coração uma espécie de sofrimento, duma leve
decepção.
Voltei para a sala. O senhor de Trézonnes mostrou-me alguns objectos
mais preciosos, explicando-me as respectivas origens. Em cima da secretária
vi a fotografia de sua mãe ao lado da minha. Vendo que me inclinava para a
observar, pegou nela e apresentou-ma.
— Tem uma grande expressão de bondade e doçura!— pensei em voz
alta.
— Sim, era uma santa!... Quase não a conheci, mas a lembrança que
dela conservo é indelével e profunda.
Calou-se por um breve instante, depois do que prosseguiu, numa voz
que de súbito se tornou áspera:
— Há duas coisas que nunca pude perdoar a meu pai: foi o ter feito
sofrer minha mãe, e tê-la
substituído por essa boneca sem miolos da minha madrasta.
Teve um encolher de ombros, deu alguns passos pela sala, depois
voltou até junto de mim e inclinou-se para ver melhor o retrato.
— Vês que lindos eram os olhos da minha mãe?... Quase tão lindos
como os teus, Gillette.
Nas minhas mãos tremeu ao de leve o porta-retratos, com uma moldura
delicadamente trabalhada. Ainda uma vez mais as minhas faces
enrubesceram. O senhor de Trézonnes deixou escapar um sorriso um
tanto irônico:
— Permite que te felicite!... Como coras depressa, a qualquer coisa que
te digam. As jovens
de hoje não coram assim, fica sabendo, minha querida Gillette... E fico
imensamente satisfeito
que não sejas dessas!...
Estaria escarnecendo de mim, ou falaria sério? Coloquei o retrato sobre a
secretária e dei um passo para trás; ele porém susteve-me com um gesto.
— Queres dar-me um instante de atenção? Tenho uma pergunta a
fazer-te. Na situação em que já estamos, espero que te não irá parecer
muito indiscreta... Já estiveste noiva antes de me conhecer?
— Sim, em Largillais.
— Ah!... E recusaste?
Em breves palavras expliquei-lhe como se deu a minha ruína, antes da
minha resposta ao doutor Borday.
— Mas qual teria sido essa resposta?
— Naturalmente teria aceitado.
— Amava-lo?—perguntou-me, com uma espécie de aspereza.
Abanei a cabeça.
— Não. Só agora percebo que não o poda ter amado, pelo menos com
um amor profundo.
Era um espírito agradável, mas superficial. Não podia ser para mim um
guia, um conselheiro.
Calei-me, confusa, ante as palavras que acabava de pronunciar; porém
o senhor de Trézonnes parece que não o notou. Deu-me a impressão de
estar dominado por outra idéia.
— Nunca amaste? — perguntou-me no mesmo tom breve e áspero.
— Nunca.
— E a mim?... Amas-me?...
Desta vez foi uma verdadeira vermelhidão que me incendiou as faces.
Fiquei quieta e calada, sem me atrever a olhá-lo.
—Não, não me respondas!... Perguntar-te-ei isso mais tarde!... Agora
vem. Vamos dar um passeio pelo parque, antes do chá.
— Peço-te desculpa, mas estou um pouco fatigada — balbuciei eu.
—Nesse caso vamos sentar-nos ali fora. O dia está lindo e esta hora é
bastante agradável.
Segui-o e sentámo-nos num banco, perto do grande canteiro central,
donde se admirava, diante dos nossos olhos, toda a fachada do castelo.
Jaquelina, no limiar da porta, brincava com os galgos do irmão. Para
quebrar o silêncio, visto que o senhor de Trézonnes nada dizia, observei--
lhe:
— A Jaquelina parece que anda abatida há uns tempos para cá, não
achas?
— Parece que sim; mas isso há-de passar.
Ergui os olhos para ele. Talvez percebesse neles a censura que
intimamente formulava, porque perguntou:
— Achas-me severo para ela, Gillette?
— Sim, um pouco.
— Não tenho simpatia por ela, nem pelo irmão, nem pela irmã. Sempre
os tratei como estranhos, porque sabia que, a exemplo da mãe, só viam em
mim apenas o dinheiro, diante do qual se baixam aduladores. O ouro que
lhes dou, que lhes posso dar, é tudo quanto amam em mim.
Os lábios contrairam-se-lhe num rito de amargo desprezo.
— Não! — protestei eu. — Afirmo-te que a Jaquelina merece um melhor
conceito. Tem um grande fundo de bondade e um coração capaz duma
estima sincera. Se lho tivesses permitido, garanto-te que te teria dedicado
um certo afecto.
— A mãe encarregou-te de defender a sua causa junto de mim?
A pergunta, feita à queima-roupa, apanhou-me de surpresa; refiz-me
porém logo e, fixando-o bem de frente, repliquei:
— Quis na verdade encarregar-me disso, mas recusei. Não me competia,
a mim, que vou casar sem ter o mais pequeno dote, imiscuir-me em
questões dessa natureza. Tratei de o fazer ver à senhora de Trézonnes,
mas não creio tê-lo conseguido. Em todo o caso, Gui, não quero que vejas
nas minhas palavras mais do que um juízo sincero, e sem segunda
intenção, a respeito do teu coração, que eu muito admiro.
— Posso assegurar-te, Gillette, que não me molestarás, intervindo em
seu favor. Agrada-me a tua delicadeza, que para mim constitui mais um
dos teus encantos; porém quando estivermos casados, não me causes a
mágoa de me julgar um indivíduo vulgar, que lembrasse à esposa que o
dinheiro é dele, como se tudo não passasse a ser comum entre nós. E se,
por simpatia pela Jaquelina, desejas que lhe aumente o dote, diz-mo com
toda a confiança.
Um tanto surpreendida, murmurei :
— Oh! Gui, como ficaria satisfeita se tal fizesses!... Ela ama o senhor de
Subrennes, e sofre muito...
— Muito bem. Esse caso será solucionado logo após o nosso
casamento... Desde já podes dar qualquer esperança a minha irmã; isso
ajudá-la-á a aguardar com paciência.
— Oh! Gui! Como agradecer-te!... — murmurei, comovida. — A Jaquelina
ficar-te-á deveras satisfeita.
— Não o faço pela Jaquelina — faço-o por ti.
Estendi-lhe a mão, replicando:
— Agradeço-te por ela e por mim.
O senhor de Trézonnes inclinou-se e pousou os lábios nos meus dedos;
endireitando-se, falou com suavidade:
— Agora, Gillette, se te aprás, vamos tomar chá.

XIX

Chegou finalmente o grande dia. Estava de pé, no meio do quarto,


enquanto a Jaquelina e uma criada da Bottellerie andavam à minha volta,
arranjando-me o véu e a cauda do vestido nupcial. Pensava: "Em breve
estará tudo terminado!... Será um juramento para toda a vida!..." Olhava
com enternecimento para as paredes do quarto, para os móveis, para tudo
enfim quanto eu ia deixar para seguir a Gui de Trézonnes, com quem ia
compartilhar das alegrias e das tristezas da vida. Oh! era bem velha e bem
triste a minha pobre casa, "mas foi aqui que encontrei um refúgio para a
minha pobreza, foi aqui que passei em sossego estes curtos meses, e vou
trocá-la agora pelas incertezas do desconhecido.
No salão esperavam-me, o Gui, a senhora de Trézonnes e os filhos;
estava também o senhor Rouchenne, que devia levar-me ao altar, e alguns
amigos íntimos dos castelões. Levou-me à igreja um automóvel enfeitado a
flores brancas. O abade, apenas restabelecido dos seus violentos acessos
de febre, tinha-me servido de padrinho no civil. Um beneditino, primo de
Gui, pronunciou uma breve alocução, que me comoveu bastante. Prometi a
Deus, do fundo da minha alma, ser uma esposa dedicada e tentar sempre
bem cumprir os meus deveres. Oh! mas se ao menos o Gui fosse um
pouco menos enigmático. .. Às vezes parecia-me que me amava muito!...
Outras, tornava-se frio, reservado!..
Enfim, quem sabe se não faria felizes descobertas, depois de o conhecer
melhor?...
A assistência não coube na igreja: ficou por isso cá fora, espalhada
pelo adro; quando saí do templo, pelo braço de Gui, fui o alvo de todos
aqueles olhares; e ouvi então algumas opiniões elogiosas a nosso respeito.
Sorri, para agradecer a estes bons camponeses. O meu espelho e as
exclamações da Jaquelina já me tinham feito notar que o vestido branco
me ficava uma maravilha. Acabei de me convencer desta verdade, pelo
olhar com que me recebeu o senhor de Trézonnes, quando entrei no salão.
Logo que ficámos sós no carro que nos levou ao castelo, Gui pegou-me
nas mãos, olhando-me longamente, sem dizer palavra. Sentia-me
embaraçada e muito comovida, lançando uns vagos olhares para as flores
que se ostentavam diante de mim. Por fim disse-me, a meia voz:
— Obrigado, Gillette, por seres tão bonita.
Voltei a cabeça, olhando-o, a sorrir, timidamente.
— Não é a mim que deves agradecer, Gui, mas a Deus, que assim me
fez.
— Tens a vantagem de não te tornar feia, vestindo essas modas
descabidas, deveras extravagantes. Tens um gosto distinto.
— Agrada-te o meu vestido?
— Imenso. Mas em qualquer outra não alcançaria metade dessa
elegância, desse harmonioso conjunto. És muito linda, Gillette, e
infinitamente sedutora. Continua a não te envaidecer com essa beleza e faz
desses dons do céu o ornamento do teu lar...
E depois duma breve hesitação, concluiu:
— E a alegria do teu marido.
Estremeci ao de leve. Inebriava-me uma felicidade ainda velada dum
vago receio. Não podia desviar os meus olhos dos dele, tão ardentes eram,
que mos prendiam, ofuscando-os.
Pondo a mão nos meus ombros, murmurou:
— Gillette, gosto dos teus olhos.
Depois calou-se e ficou estático, admirando-me durante os poucos
minutos que decorreram, até o carro chegar à porta do castelo.
Foi então a grande recepção; o almoço, abundantemente servido, e o
baile dos caseiros, que eu e Gui abrimos. Foi apenas pelas seis horas que
os convidados deixaram a Bottellerie. Gui conduziu-me então até aos meus
aposentos, onde estava uma criada à minha disposição. Deixou-me ali,
dizendo:
— Espero-te no meu gabinete.
Só devíamos partir para a nossa viagem à Noruega no dia seguinte.
Esta tarde jantaríamos sós, nos aposentos de Gui.
— Que vestido deseja, minha senhora? — perguntou-me a criada.
Olhei para todos os vestidos que tinha mandado fazer em Niort. O
vestido branco era encantador; mas o outro, duma cor-de-malva esbatida,
tão delicado, era também bonito. Oh! se pudesse saber a preferência do
meu marido?... Parecia-me que devia gostar deste, de linhas elegantes e
com uns graciosos ornatos de renda...
— Vestirei o cor-de-malva, Júlia.
Um quarto de hora depois entrava no gabinete de Gui. A sala estava
deserta; dirigindo-me porém para a janela, vi o meu marido de pé, no
terraço. Não me tinha visto; e quando cheguei junto dele e lhe toquei ao
de leve no braço, teve um ligeiro estremecimento.
— Oh! desculpa!...
Olhou-me, calado, por muito tempo. Diante de nós estendiam-se os
jardins do castelo, na doce calma do dia que agonizava. A luz desvanecia-se
lentamente e o céu cobria-se duma clara tonalidade rosa-lilás. Gui
murmurou :
—O teu vestido tem ainda a tonalidade do céu.
— Fica-me bem? — perguntei, numa voz um pouco trêmula.
Não respondeu e voltou os olhos. Depois olhou-me, pegou-me
nas mãos e apertou-as contra os lábios.
— Gillette, compreendi um dia que tinhas medo de mim!... E eu...
tenho medo de ti!...
— Oh! Gui!
Com voz dolente, sem parecer ter-me ouvido, continuou, meio trêmulo:
— Amei-te desde o dia em que te vi na sala da Meulière... Estavas
encantadora, fazendo o teu trabalho de dona de casa; depois, tinhas tanta
franqueza, tanta expressão de pureza e coragem nos belos olhos!... Amei-
te cada vez mais, em cada um dos nossos encontros, e decidi um dia que
serias minha esposa. Mas sou um orgulhoso e... um sentimental. Nunca
imaginaste que eu fosse assim, não é verdade?... É que me revesti desta
frieza e desta aparente severidade, com receio dos dissabores da vida. Aí
está a razão por que tenho medo do que não conheço de ti, das desilusões
que poderás causar-me!... Sei que me amas. Há porém tantas maneiras
de amar!... Desejo que o teu amor seja todo feito de ternura e confiança, e
que nunca enfraqueça. Não ignoro que estou pedindo uma coisa quase
impossível; porém, se experimentasses, Gillette?... Se quisesses dar-me o
teu coração em toda a sua plenitude, como eu quero dar-te o meu? A meia
voz, numa expressão que a comoção sufocava, respondi:
— Oh! Gui!... Por que não me disseste isso antes?... Por que me
deixaste sofrer na incerteza, acerca dos teus sentimentos, a mim, que
apenas desejo uma coisa: amar e ser assim amada?
O seu braço enlaçou-me, aproximou-me dele, e a minha cabeça ficou
descansando nos seus ombros.
— Perdoa-me, meu amor!... Repito-te, sou um orgulhoso. Estas
palavras, que acabo de te dizer, pareciam-me bastante duras, porque
eram um atestado da minha fraqueza de homem ante o teu poder de
mulher. Obstinei-me por muito tempo, e quantas vezes as tive suspensas
dos lábios!... Contudo era preciso dizê-las, e hoje pareceu-me tão fácil de
fazer!
Que ternura ardente e profunda transparecia nos seus olhos!...
Embriagava-me uma indizível felicidade e já não sabia ao certo se estava
na vida real, ou se tudo aquilo era um sonho...
— Diz-me se tens confiança em mim, se já me não temes! — exclamou
ele.
— Oh! meu querido Gui, amo-te tanto!... tanto!
Gui beijou-me as pálpebras, murmurando:
— Leio nos teus olhos, nos teus lindos olhos negros!... Sim, amas-me,
Gillette!... Saberei tornar-te feliz, a mais feliz das mulheres...
E exclamei com voz abafada :
— Oh!... Como tinha razão o nosso velho amigo! Ninguém conhece a
tua alma!...

XX

A dor vive sempre ao lado da alegria... Na manhã seguinte, quando


estava a acabar de me aprontar, entrou Gui. A sua fisionomia entristecida
chamou-me logo a atenção.
— O criado da Sauvaie — disse-me ele — veio avisar-me de que o
pobre Rouchenne está muito doente, respirando a custo. Vou até lá um
instante.
— Oh! o nosso bom amigo!... Ontem estava na verdade muito
fatigado!... Talvez tivesse feito algum esforço demasiado, para não deixar
de me acompanhar ao altar? Quero ir contigo, Gui. Espera cinco minutos,
enquanto vou pôr o chapéu.
Um quarto de hora depois estávamos na Sauvaie, donde acabava de
sair o médico. A uma pergunta de Gui, respondeu:
— Chegou a sua hora. O coração vai deixá-lo.
O ancião estava estendido na sua pequena cama de ferro. O sol
chegava até ele, aquecendo-lhe as brancas mãos, que se juntavam,
ouvindo o abade falar-lhe a meia voz.
Ao ver-nos, os seus olhos calmos iluminaram-se, bem como a terna
face enrugada, um tanto pálida. O sacerdote retirou-se, e nós inclinámo-nos
para o enfermo.
— Aqui estamos, meu velho amigo! — disse Gui com doçura. — Viemos
para o tratar, para o curar.
— Não..., não para me curarem..., mas morro satisfeito, porque os vejo
casados...
A sua mão procurou a minha, e quando a teve entre as suas, voltou para
mim o seu triste olhar velado.
— É a mais linda das esposas... Verá como ele é bom... É preciso amá-
lo muito. Ninguém soube até agora amá-lo como ele queria.
— Soube-o o meu amigo! — exclamou Gui, comovido.
Um sorriso animou-lhe os lábios pálidos; o olhar de novo se iluminou
por alguns segundos, fixando-se em meu marido. O ancião quis falar ainda,
mas as palavras tornaram-se-lhe ininteligíveis. Calou-se. O padre
aproximou-se, e todos três, orando, assistimos à sua agonia calma,
silenciosa e cristã, como a própria vida que se extinguia.
Gui fechou-lhe os olhos e ambos depositámos na sua fronte o nosso
último beijo. Depois, enquanto o meu marido e o criado tratavam de o
vestir, fui colher todas as flores do seu jardim, para lhe adornar o leito
mortuário. Oh! Como as amava tanto, como quis tanto às suas flores, o
nosso querido amigo! Elas tinham sido uma das pequenas alegrias da sua
vida solitária, da sua vida simples e digna de homem honrado, de homem
valente, a quem toda a povoação prestou homenagem naquele dia e no
seguinte, desfilando ante os seus restos mortais.
O senhor Rouchenne já não tinha parentes. O caixão foi conduzido por
Gui e pelo prefeito de S. João. À tarde deixámos a Bottellerie para
iniciarmos a nossa viagem de núpcias. O tabelião tinha-nos informado antes
que o extinto legara a Gui, a Sauvaie, e a mim, os bordados da sua esposa.
Era a sua última lembrança, a última prova de afecto dum amigo dedicado
de meu marido e ao qual me liguei por uma estima profunda nestes poucos
meses.
Por mais duma vez, no decorrer da nossa viagem, no meio da nossa
felicidade, evocámos as suas feições amigas, os seus olhos ternos e
reflexivos. E dizíamos:
— Como será triste não o encontrarmos mais, quando voltarmos!
Por uma manhã de Fevereiro, um pouco mais de dois anos depois do
nosso casamento, acabava de escrever uma carta, numa sala da velha
casa dos Trézonnes, em Paris, quando um criado veio informar-me que
Catarina de Bardeaume estava perguntando por mim.
— Catarina! — exclamei eu. — Catarina em Paris!... Mande-a entrar,
Anselmo.
Levantei-me para ir ao encontro da minha visitante, mas abafei um grito
de espanto ao ver o seu rosto de amargura, quase irreconhecível.
— Que é isso, Catarina? Que te aconteceu?
E Catarina, no meio de dois soluços, tendo entre as minhas as mãos
que lhe tinha agarrado, disse:
-— É a Angelina!... Escreveu-me a dizer que está muito doente, no
hospital, e que talvez seja o seu fim!... Foi por isso que vim. O Bardeaume
não pôde, por causa dos rins. “Vai, aconselhou-me ele, procura o senhor
visconde e a senhora. Eles receber-te-ão certamente, e ajudar-te-ão, minha
pobre amiga”.
— Oh! Com certeza!... Sente-se, pobre Catarina!... Mas não fique tão
desconsolada. A Angelina há-de curar-se. Que tem ela?
— Diz que sofre do peito!... Ah! Se tivesse ficado em casa!... Mas não!...
Isso parecia-lhe impraticável. Imagine que já não nos escrevia há muito! E
pensarmos na vida que teria levado depois disso!...
Tinha sabido já alguma coisa a este respeito, acidentalmente, no ano
anterior, mas tive o cuidado de nada dizer à pobre mãe; a sua infelicidade
já era bastante grande, e eu só queria minorá-la, tanto quanto me fosse
possível.
Depois de ter informado meu marido sobre o caso, acompanhei a
Catarina ao hospital. Uma enfermeira, de andar apressado, indicou-nos a
cama onde a Angelina agonizava, já nos últimos momentos. Mal tive tempo
de procurar um sacerdote, enquanto a mãe, inclinada sobre a filha, gemia
baixinho:
— Oh! minha querida!... Diz que nos tens amado sempre!... que queres
voltar para a Meulière!
A Angelina estava ainda na plena posse dos seus sentidos, mas falava
com dificuldade, devido à terrível opressão que tinha no peito. Contudo
pôde dizer ainda:
— Minha mãe!... Como eu lamento tudo!.,. Fui uma infeliz!...
E logo depois:
— Porque me deixou fazer o que eu entendia?
Depois disso não falou mais. Os seus dedos apertavam o crucifixo que
lhe tinha posto entre as mãos, enquanto o seu olhar se fixava em mim, com
uma expressão de sofrimento e desespero. Estava com certeza a lembrar-
se da sua odiosa inveja, que talvez ainda não estivesse de todo extinta...
Então inclinei-me, pousei as mãos sobre a sua pobre cabeça emagrecida e
disse-lhe palavras de consolação, palavras que se repetem há tantos
séculos, que apagam os rancores, os remorsos e os sofrimentos. A
fisionomia gasta, onde já ninguém reconheceria aquela rosada Angelina da
Meulière, foi-se aclarando pouco a pouco, o olhar tornou-se mais suave, e
parecia dizer: "Tudo está acabado... Já não tenho mais ódio... Tudo se
acabou..." Angelina morreu assim, arrependida, calma e perdoada, nos
braços da sua mãe e daquela que tanto tinha detestado nos curtos dias da
sua existência.
Levei para minha casa a pobre Catarina, que repetia: "A culpa foi
nossa; nós é que a educámos mal" . Depois de a ter confiado aos cuidados
da minha criada, que era sua sobrinha, fui ter com o meu pequeno
Roberto, para lhe dar a sua refeição. Feito isso pus-me a trabalhar,
enquanto o pequeno adormecia junto de mim. Gui, ao regressar da rua,
pouco depois, ainda nos encontrou ali. Contei-lhe a minha visita ao hospital e
disse-me, comovido:
— Pobres Bardeaume!... Que lição!... Desde há muito que pensava que
os estouvamentos dessa pobre jovem a levariam para fora do seu bom
caminho.
Sentara-se perto de mim, e enquanto falava, fazia rodar um dos anéis
que ornavam os meus dedos. Pousando a cabeça nos seus ombros, disse:
— Fica sabendo, meu querido amigo, que sem esta pobre Angelina
talvez nunca fosse tua
esposa — a tua feliz esposa!
Contei-lhe então a breve discussão que tivemos, quando saí da Sauvaie,
depois dele me ter pedido em casamento.
— Se tivesse reflectido mais tempo, Gui, talvez não me tivesse decidido
a aceitar, apesar do
meu grande amor por ti, porque tinha receio!... E tantos outros tinham
receio: os Bardeaume, a senhora Mossette!... Oh! meu querido
Gui!...Parece-me que todos te supunham uma espécie de Barba-Azul!
Sorriu, com um lindo sorriso, que não lhe conhecia antes do nosso
casamento, e que era tão sedutor na sua nobre fisionomia.
— E agora, Gillette?
— Agora vejo que não sou infeliz, e que no fim de contas esse terrível
visconde de Trézonnes não é tão má pessoa como diziam...
Com um gesto suave, as suas mãos acariciaram-me demoradamente os
cabelos. Em volta de nós, na sala tépida e florida, o crepúsculo começava a
descer. A chuva, em pequenas bátegas, ia fustigando os vidros. Gui olhou o
meu vestido, observando:
— Na verdade, minha querida, gostas de te vestir sempre da cor do
céu...
— Sim, o meu vestido é cinzento como este céu hibernal — cinzento
como a vida!
— Às vezes também há um pouco de azul na vida, Gillette.
Encostei o meu rosto ao seu e disse-lhe baixinho :
— Sim, junto de ti...

FIM

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