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Jesus e as Mulheres 1

Profa. Dra. Alessandra Castilho Ferreira da Costa


Tópicos Avançados em Linguística Teórica e Descritiva
PPgEL/UFRN
Roteiro 2
1. Status das mulheres na Palestina na época de Jesus slides 3-6
2. Mulheres discípulas de Jesus slides 7-8
3. Mulheres como objetos sexuais slides 9-23
3.1 Mulher pecadora slides 10-13
3.2 Mulher adúltera slides 11-23
4. Mulher com fluxo de sangue slides 24-31
5. Mulher Samaritana slides 32-44
6. As irmãs Marta e Maria e a vida intelectual das mulheres slides 45-50
7. Outros aspectos abordados por Swindler (1971) slide 51
8. Conclusões slides 52-57
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Status das mulheres
na Palestina na época de Jesus (SWINDLER, 1971) 3
• As mulheres não tinham permissão para estudar
a Torá. Antes, as palavras da Torá deveriam ser
queimadas do que confiadas a uma mulher:
“Quem quer que ensine sua filha a Torá é como
quem ensina sua lascívia”. (Eliezer)
• É a mesma visão de mundo, atribuída ao
apóstolo Paulo, mas por ele citada em 1 Co. 14
vers. 35 (“é vergonhoso que as mulheres falem
na igreja”) e refutada no versículo 36.
• Essa tradição aparece no filme “Yentl”, em que
uma mulher judia, interpretada por Barbra
Streisand, resolve vestir-se como homem para
poder receber educação formal sobre o
Talmude.
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Status das mulheres
na Palestina na época de Jesus 4
(SWINDLER, 1971)(continuação)
• Tríplice ação de graças dos judeus:
“Louvado seja Deus por não ter me criado um gentio; bendito seja Deus por não ter me
criado uma mulher; louvado seja Deus por não ter me criado um homem ignorante”.
• Refutação por Paulo em Gálatas 3:28:
“Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um
em Cristo Jesus”.
• O termo “gentio” referia-se a todos que provinham de Jafé.
• No templo de Jerusalém, as mulheres foram restringidas a uma parte externa, o átrio
feminino, que ficava cinco degraus abaixo do átrio masculino. Nas sinagogas, as
mulheres eram separadas dos homens e, claro, não tinham permissão para ler em voz
alta ou assumir qualquer função de liderança.
[Comentário da Professora: Safrai (2002) contradiz Swindler a respeito da separação das
mulheres. Ver adiante]
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Status das mulheres
na Palestina na época de Jesus 5
(SWINDLER, 1971) (continuação)
• Um rabi considerava abaixo de sua dignidade falar com uma
mulher em público. A obra “Provérbios dos Pais” contém a
injunção: “Não fale com uma mulher”. A proibição incluía a
esposa, filha ou irmã.
• A função das mulheres era vista exclusivamente em termos de
procriação e educação das crianças.
• Estavam quase sempre sob a tutela de um homem, o pai ou
marido, ou, quando viúva, o irmão do marido morto.
• A poligamia era legal para homens judeus na época de Jesus, mas
as mulheres não tinham permissão para se divorciar de seus
maridos.

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Status das mulheres
na Palestina na época de Jesus 6
(SAFRAI, 20021) (continuação)
• Safrai (2002) contradiz afirmação de Swindler (1971) de que as mulheres eram
separadas dos homens no templo e nas sinagogas na época de Jesus.
• No templo, o átrio feminino era frequentado por homens, assim como o masculino, por
mulheres. No “Dia da Expiação”, o sacerdote lia a Torá para todo o povo no átrio das
mulheres e as mulheres passavam pelo átrio dos homens para oferecer sacrifício no
altar.
• Elas participavam das atividades religiosas no templo e na sinagoga, mas não podiam
ler a Torá publicamente.
• Após a leitura da Torá seguia-se um sermão, que não era bem sermão, mas uma sessão
de perguntas e respostas. A congregação era estimulada a fazer perguntas.
• Para Safrai (2002), o costume de separar homens e mulheres na sinagoga iniciou-se
aproximadamente a partir do século VII d.C., talvez por influência do Islã.
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Mulheres discípulas de Jesus
(SWINDLER, 1971) 7

• Jesus ensinava mulheres, violando a injunção rabínica de não falar com elas.

• Mulheres seguiam a Jesus como discípulas em suas viagens (Lucas 8:1-3).

• Três relatos de ressurreições nos evangelhos, todos envolvendo mulheres: a)


a filha de Jairo (Mateus 9: 18; Marcos 5: 22; Lucas 8: 41); b) o filho único da
viúva de Naim, por compaixão a ela (Lucas 7: 13); c) Lázaro, a pedido de
suas irmãs Marta e Maria (João 11: 43-44).

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Mulheres discípulas de Jesus
(SWINDLER, 1971) 8
• Apenas no caso da filha de Jairo, Jesus tocou no cadáver - o que o tornou
ritualmente impuro. No caso dos dois homens, Jesus não os tocou, mas apenas disse:
"Jovem, eu te digo, levante-se" ou "Lázaro, saia". Deve-se pelo menos perguntar por
que Jesus escolheu violar as leis da pureza ritual para ajudar uma mulher, mas não
um homem.

[Comentário da professora: Matthew Thiessen (2020) contradiz a afirmação de Swindler


(1971) de que Jesus violou as leis da pureza ritual. Para esse autor, Jesus tinha o poder
de purificar impuros sem se tornar impuro. O autor também afirma que Swindler não
compreende bem as regras de purificação. Sobre isso, mais adiante.]

• Na conversa de Jesus com Marta, Jesus declara ser a ressurreição ("Eu sou a
ressurreição e a vida."), a única vez que ele fez isso nos Evangelhos. Jesus revelou o
evento central, a mensagem central do Evangelho - a ressurreição, Sua ressurreição,
Ele sendo a ressurreição - para uma mulher.
Mulheres como objetos sexuais
(SWINDLER, 1971) 9

• A mulher pecadora (Lucas 7:36-50)

• A mulher flagrada em adultério (João 8:1-11)

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Jesus e a Mulher pecadora
Lucas 7:36-50
E rogou-lhe um dos fariseus que comesse com ele; e, entrando em casa do fariseu, assentou-se à
mesa. E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do
fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento; E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, 11
começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça; e beijava-
lhe os pés, e ungia-lhos com o ungüento. Quando isto viu o fariseu que o tinha convidado, falava
consigo, dizendo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma
pecadora.
E respondendo, Jesus disse-lhe:
—Simão, uma coisa tenho a dizer-te.
E ele disse:
—Dize-a, Mestre.
—Um certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos dinheiros, e outro cinqüenta. E,
não tendo eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais?
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E Simão, respondendo, disse:


—Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou.
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E ele lhe disse:
—Julgaste bem.
E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: 12
—Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta
regou-me os pés com lágrimas, e os enxugou com os cabelos de sua cabeça. Não me deste
ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a
cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com ungüento. Por isso te digo que os seus
muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é
perdoado pouco ama.
E disse-lhe a ela:
—Os teus pecados te são perdoados.
E os que estavam à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este, que até perdoa pecados?
E disse à mulher: Esta Foto de Autor Desconhecido está licenciado em CC BY

—A tua fé te salvou; vai-te em paz.


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A mulher pecadora (SWINDLER, 1971) 13
• Jesus foi convidado para jantar na casa de um fariseu cético e uma
mulher de má reputação entrou e lavou os pés de Jesus com suas
lágrimas, enxugou-os com seus cabelos e os ungiu.
• O fariseu a viu como uma criatura sexual maligna: “é uma pecadora”.
• Jesus repreendeu o fariseu e falou apenas das ações humanas e
espirituais da mulher: de seu amor, de seu não-amor, isto é, de seus
pecados, de seu perdão e de sua fé.
• Jesus então se dirigiu a ela como ser humano, como pessoa, quando
não era considerado adequado falar com mulheres em público,
especialmente mulheres de má reputação: "Seus pecados estão
perdoados. Sua fé te salvou; vá em paz.
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14

Jesus e a Mulher flagrada em adultério

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João 8:1-11
Jesus, porém, foi para o Monte das Oliveiras. E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo
o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava. E os escribas e fariseus trouxeram-lhe
uma mulher apanhada em adultério; e, pondo-a no meio, disseram-lhe: 15
—Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés
que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?
Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se,
escrevia com o dedo na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes:
—Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.
E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redarguidos da
consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a
mulher que estava no meio. E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher,
disse-lhe:
—Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?
E ela disse:
—Ninguém, Senhor. Esta Foto de Autor Desconhecido está licenciado em CC BY

E disse-lhe Jesus:
—Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.
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A mulher adúltera (João 8:1-11)
• Os escribas e fariseus queriam acusar Jesus de
alguma coisa e, para isso, usaram uma mulher,
arrastando-a até ele, fazendo-a ficar à vista de
todos, relatando que havia sido flagrada em
adultério e lembrando que Moisés determinara o
apedrejamento até a morte nesses casos
(Deuteronômio 22:22 fala da morte do homem e da
mulher, mas não de apedrejamento).
• Vários intérpretes explicam que, se Jesus
concordasse com o apedrejamento, estaria violando
a lei romana, que restringia a aplicação da pena de
morte ao seu governo; se discordasse, estaria
violando a lei mosaica. Nos dois casos, Jesus seria 16

condenado à morte.
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• A reação de Jesus é fazer a pedra que escribas e fariseus queriam atirar na
mulher voar contra eles próprios, ao ordenar que aquele que estivesse sem
17
pecado fosse o primeiro a atirá-la.

• Jesus estava seguindo • Bushnell (1923: 243)


Deuteronômio 17:7: a pessoa só defende que a decisão de
deveria acusar se tivesse Jesus se fundamentou no VT,
coragem de também aplicar a em Oséias 4:14:
sentença. No entender de João “Eu não castigarei vossas
Calvino, essa era uma medida filhas, quando se prostituem,
de prevenção a acusações nem vossas noras, quando
levianas. adulteram; porque eles
mesmos com as prostitutas se
desviam, e com as meretrizes
sacrificam”

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Rembrandt, The Woman Taken in Adultery, 1644

A mulher adúltera (João


8:1-11) (continuação)
• A autenticidade da pericope adultarae é
debatida na crítica textual.
• Ehrman (1988) argumenta que os
manuscritos mais antigos do evangelho de
João não contêm essa perícope.
• Wallace (2008) defende que o estilo não é
joanino.
• Todos os primeiros manuscritos do tipo de
texto alexandrino omitem a perícope,
enquanto a maioria dos manuscritos do
tipo de texto ocidental e bizantino a
incluem.
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A mulher adúltera (João 8:1-11)
(continuação) 19
• Heil (1991) afirma a autenticidade da perícope pelos seguintes motivos:
• Há ligações dessa perícope com outras passagens do evangelho de João.
• Em João 7:45 a 7:52, os fariseus rejeitam a Jesus e mandam servos para
prendê-lo, mas o servos não o fazem. Na perícope (8:1-11), as autoridades
religiosas procuram, então, ocasião para acusá-lo de algo e de novo não
conseguem. Em seguida, em 8:13, os fariseus interrogam Jesus sobre sua
identidade e autoridade. Sem a perícope, não se explica por que eles
interrogariam Jesus sobre sua autoridade.
• Em 7:1, as autoridades religiosas querem matar Jesus; em 7:11, procuram-
no; em 7:19, Jesus pergunta por que querem matá-lo; em 7:25, os
habitantes de Jerusalém falam que os fariseus querem matá-lo; em 7:30,
tentam prendê-lo. A perícope segue naturalmente como outra ação para
tentarem prendê-lo, depois de não terem conseguido.

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A mulher adúltera (João 8:1-11)
(continuação) 20
• Além disso, ao longo de João 7-8, Jesus é acusado repetidamente pelos fariseus de
ser um falso profeta (o que suscitaria ser preso e condenado). A perícope contribui
para esse fluxo narrativo, trazendo novamente um desafio das autoridades religiosas
com a intenção de desacreditar seus ensinos.
• Também há ligações entre formulações presentes na perícope e outras passagens do
evangelho de João (João 7:1-52, 7:53; 8:13-59). Uma delas é que tanto em João 8:6
quanto em João 6:6, encontramos um comentário sobre “testes”, escritos
praticamente com as mesmas palavras:
• 6:6 - τουτο δε ελεγεν πειραζον αυτόν
• Isto agora ele estava dizendo testando-o
• 8:6 - τουτο δε ελεγον πειραζοντες αυτον.
• Para Katharine Bushnell, a perícope é autêntica, mas a razão de ser questionada não
é em virtude evidências externas quanto a manuscritos:
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“A lição do incidente não era palatável [...] Giovanni Domenico Tiepolo, Le Christ
por causa das noções ascéticas da Igreja et la femme adultère, 1750-1753
primitiva, ensinando que até mesmo o
rosto da mulher mais casta era uma causa 21
de corrupção. Quanto mais a presença de
uma adúltera, trazida à lembrança de uma
congregação por discutir seu caso! Como
poderia a leniência do Senhor ser explicada
por homens que severamente afastaram de
seu meio as mais puras das mulheres como
uma fonte de contaminação de sua
imaginação? Então, fossem eles maridos ou
irmãos, não se importavam em ensinar que
a queda de uma mulher não era pior do que
a queda de um homem, especialmente
porque acreditavam que toda queda no
homem era devido a alguma mulher.”
(BUSHNELL, 1923: 243 Trad. A.C.F.C.)

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A mulher adúltera (João 8:1-11)
(continuação) 22
• Eu (Alessandra) concordo com Bushnell sobre o fato de a 1. Matthew Henry’s
lição não ser palatável em vista do sexismo dos intérpretes. Commentary
De 11 comentários consultados sobre essa passagem, apenas 2. John Calvin Commentary
1 (John Gill) menciona o texto de Oséias 4:14, que está 3. St Augustine Tractate
diretamente ligado à temática e determina a suspensão 4. Elicott’s Commentary
desse tipo de julgamento por causa do adultério dos 5. Benson Commentary
homens. 6. Barne’s notes on the Bible
• Muitos afirmam que Jesus não condenou a mulher, porque os 7. Jamieson-Faussett-Brown
requisitos da lei mosaica não tinham sido cumpridos; outros, Bible Commentary
que Jesus quebrou a lei mosaica ao não condenar a mulher. 8. Matthew Poole’s Commentary
9. Gill’s Exposition of the Entire
Em geral, o adultério dos homens não é mencionado.
Bible
• Contudo, Jesus não questiona a lei mosaica nem a culpa da
10. Pulpit Commentary
mulher, mas a hipocrisia dos acusadores, também culpados.
11. Meyer’s NT Commentary
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A mulher adúltera (João 8:1-11)
(continuação) 23
“ O adultério aumentou a tal ponto nessa época, que foram obrigados a abandonar o julgamento das
esposas suspeitas, porque seus maridos geralmente eram culpados da mesma forma; e as águas não
teriam nenhum efeito, se o marido também fosse criminoso: assim os judeus dizem,

‘quando os adúlteros aumentaram, as águas amargas cessaram; e Rabban Jochanan ben Zaccai (que
agora estava vivo) fez com que cessassem.’

Em defesa disso, ele citou a passagem em Oséias 4:14; e isso está de acordo com seu próprio relato
dos tempos do Messias, e seus sinais, entre os quais está este:

‘na época em que o filho de Davi vier, a casa da assembléia (a glosa interpreta o lugar onde os
discípulos dos sábios se reúnem para aprender a lei) se tornará" uma casa de bordel’.
(John Gill’s Commenatry of the Entire Bible)

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Jesus e a Mulher com fluxo de sangue
Marcos 5:25-34
E certa mulher que, havia doze anos, tinha um fluxo de sangue, e que havia padecido
muito com muitos médicos, e despendido tudo quanto tinha, nada lhe aproveitando 25isso,
antes indo a pior; ouvindo falar de Jesus, veio por detrás, entre a multidão, e tocou na sua
veste. Porque dizia: “Se tão-somente tocar nas suas vestes, sararei”.
E logo se lhe secou a fonte do seu sangue; e sentiu no seu corpo estar já curada daquele
mal. E logo Jesus, conhecendo que a virtude de si mesmo saíra, voltou-se para a
multidão, e disse:
—Quem tocou nas minhas vestes?
E disseram-lhe os seus discípulos:
—Vês que a multidão te aperta, e dizes: “Quem me tocou?”
E ele olhava em redor, para ver a que isto fizera. Então a mulher, que sabia o que lhe
tinha acontecido, temendo e tremendo, aproximou-se, e prostrou-se diante dele, e disse-
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lhe toda a verdade.


E ele lhe
Profa. disse:Castilho
Dra. Alessandra
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—Filha, a tua
Ferreira da Costa féemteLinguística
- Tópicos salvou; Avançadavai em
e Teórica 2021paz, e sê curada deste teu mal.
A mulher com um fluxo de sangue (Mateus
9:19-22; Marcos 5:25-34; Lucas 8:43-48) 26
• Contexto: O Levítico determinava que a emissão de fluidos
corporais no homem e na mulher os tornaria ritualmente impuros
e, por isso, deveriam se separar para purificação. Nessa condição,
não poderiam participar das atividades de adoração.
• Impureza ritual não significava pecado. Todas as pessoas se
tornavam ritualmente impuras, tocando em pessoas enfermas,
tendo contato com defuntos, entre outros. Tais regras estavam
ligadas ao ciclo humano de vida: nascimento, atividade sexual,
doença e morte.
• Para Matthew Thiessen (2020), a impureza ritual representava as
forças da morte.
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A mulher com um fluxo de sangue
(continuação) (BRANCH, 2013) 27

• A narrativa de Marcos traz uma mulher com um fluxo de sangue,


uma condição crônica que já durava 12 anos. Ela sofreu muito sob
os cuidados de muitos médicos e gastou tudo o que tinha. Em vez
de melhorar, sua condição piorou.
• O texto não faz menção de qualquer acompanhante, de nenhum
parente. Ela parece estar sozinha no mundo.
• Ela torna-se parte da multidão em um estado um tanto disfarçado:
suas roupas (por causa de sua condição) devem conter várias
camadas e ela pode tentar cobrir o rosto para não ser vista ou
reconhecida.
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A mulher com um fluxo de sangue
(continuação) (BRANCH, 2013) 28
• A descrição de Marcos permanece em silêncio sobre algo qualquer
outra mulher que ouve ou lê a história percebe: a vida da mulher é
uma rotina constante de lavar e secar trapos para estancar o fluxo de
seu sangue.
• Além disso, essa condição pode emitir um odor. Como tal, é
potencialmente muito embaraçosa. O público de Marcos
imediatamente sabe as ramificações de ‘um fluxo de sangue para doze
anos’: sua condição a exclui do culto e vida comunitária.
• Todas as roupas, lençóis, utensílios e móveis em que ela tocou, sentou
ou tinham que ser lavados (Levítico 15: 25-27). Da mesma forma
pessoas que nela tocassem teriam de cumprir um dia de purificação
(“até a noite”).

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A mulher com um fluxo de sangue
(continuação) (BRANCH, 2013) 29
• Marcos apresenta esta mulher como solitária, isolada, empobrecida,
muito provavelmente anêmica e possivelmente morrendo. A condição
dela parece sem esperança e ela está desesperada. A maioria
pensaria que, para ela, seria melhor morrer.
• Ela já tinha ouvido histórias de Jesus (Marcos 5:27).
• Antes desta narrativa, Marcos registra que Jesus ordenou a um
espírito maligno que deixasse um homem (1: 21- 28), curou a sogra
de Simão, pegando em sua mão (1:30), estendeu a mão e tocou um
leproso (1: 40-45), disse a um paralítico que seus pecados estavam
perdoados e ordenou-lhe que pegasse sua esteira e andasse (2: 1-12),
e ordenou a legião de espíritos no homem que vivia entre túmulos
para deixá-lo (5: 1-20).
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A mulher com um fluxo de sangue
(continuação) (BRANCH, 2013)
• É razoável supor que a mulher
ouviu essas ou outras histórias.
Com base nisso, ela se convence
de que se tocar nas roupas de
Jesus, ela será curada.
• A mulher usa o barulho e os
empurrões da multidão como
camuflagem. Ela planeja chegar
perto o suficiente de Jesus para
tocar sua roupa. 30

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A mulher com um fluxo de sangue
(continuação)

• A ação de Jesus de ouvir uma mulher vai


contra o protocolo, pois, na Lei Oral, um
rabino é alertado repetidamente a não falar
com uma mulher em público - nem mesmo
com sua esposa. Mas Jesus não só escuta esta
mulher, ele também a elogia. Ele recompensa
sua furtividade com cura, restaurando a
mulher dentro da comunidade.
• Para Thiessen (2020), a narrativa indica que o
corpo de Jesus funciona como uma força de
“contágio santo” que destrói a impureza, isto
é, as forças da morte, pois Jesus nem mesmo
decidiu curar a mulher – apenas sentiu que
saiu poder dele. 31

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Jesus e a Mulher Samaritana
João 4:3-29
Deixou a Judéia, e foi outra vez para a Galiléia. E era-lhe necessário passar por Samaria. Foi, pois, a uma
cidade de Samaria, chamada Sicar, junto da herdade que Jacó tinha dado a seu filho José. E estava ali a
fonte de Jacó. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte. Era isto quase à hora
sexta. Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus:
33
—Dá-me de beber.
Porque os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida. Disse-lhe, pois, a mulher samaritana:
—Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (porque os judeus não
se comunicam com os samaritanos).
Jesus respondeu, e disse-lhe:
—Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria
água viva.
Disse-lhe a mulher:
—Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva? És tu maior do
que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, bebendo ele próprio dele, e os seus filhos, e o seu gado?
Jesus respondeu, e disse-lhe:
—Qualquer que beber desta água
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Desconhecido está ter sede; em CC BY Mas aquele que beber da água que eu lhe der

nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida
eterna.
Disse-lhe a mulher:
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—Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la.
Disse-lhe Jesus:
—Vai, chama o teu marido, e vem cá.
A mulher respondeu, e disse:
—Não tenho marido. Disse-lhe Jesus: 34
—Disseste bem: Não tenho marido; Porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste
com verdade.
Disse-lhe a mulher:
—Senhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se
deve adorar.
Disse-lhe Jesus:
—Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que
não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os
verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.
Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.
A mulher disse-lhe:
—Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará tudo.
Jesus disse-lhe:
—Eu o sou, eu que falo contigo. Esta Foto de Autor Desconhecido está licenciado em CC BY
E nisto vieram os seus discípulos, e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher; todavia nenhum lhe
disse: Que perguntas? ou: Por que falas com ela? Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles
homens:
—Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?
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A mulher samaritana 35
• Judeus não entravam na terra dos samaritanos, pois os dois povos
odiavam-se profundamente. O desejo mais misericordioso dos
judeus para os samaritanos era que eles não tivessem parte na
ressurreição, mas fossem aniquilados (Clarke).
• Tal ódio tinha origem na seguinte situação: Quando os judeus
voltaram do exílio na Babilônia, encontraram em sua terra um
povo mestiço (meio judeu; meio gentio), os samaritanos, que
queriam juntar-se aos judeus numa só nação e reconstruir o
templo, o que os judeus recusaram de forma decidida (2 Reis
17:24).
• Em sua viagem da Galiléia a Judéia, Jesus quebra a regra e passa
justamente por Samaria, chegando a uma cidade chamada
Sichar/Siquém [que significa “mentira”].
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A mulher samaritana (continuação) 36
• Na proximidade dessa cidade está um campo, onde há
um poço. Enquanto os discípulos vão à cidade, Jesus se
senta perto do poço para descansar da viagem.
• Nesse ínterim, uma samaritana vem da cidade buscar
água do poço. Jesus pede que ela lhe dê água.
• A mulher fica atônita de ver um judeu falando com ela,
primeiro, porque judeus não falam com samaritanos;
segundo, porque rabis não falam com mulheres em
público, nem mesmo com suas esposas ou filhas.

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A mulher samaritana (continuação) 37
• Com esse pedido, Jesus
consegue a atenção da
mulher e muda a orientação Quem pede:
do diálogo, de modo que não Jesus
O quê?
é mais ele pedindo, mas Água
oferecendo água, e não mais
uma água do mundo natural,
mas uma água espiritual.
Quem pede:
a mulher
O quê?
Água
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(espiritual)
A mulher samaritana (continuação) 38
• Diversos intérpretes acusam a mulher samaritana de querer mudar
de assunto quando Jesus menciona seus 5 maridos, usando, para
tanto, da pergunta sobre o local certo de adoração.
• Eu (Alessandra) penso que essa é uma inferência não baseada em
pistas linguísticas no texto, mas na visão de mundo dos
intérpretes.
• Ao ler o Velho Testamento, percebe-se que há uma expectativa
crescente pela vinda do Messias.
• O texto em análise mostra que a mulher samaritana compartilhava
dessa expectativa. Vejamos alguns trechos em que isso se torna
mais claro:
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A mulher samaritana (continuação) 39
1. És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, bebendo ele próprio dele, e os seus filhos, e o seu
gado?
(Alguns intérpretes tomam a pergunta como um comentário irônico. É possível, pois há uma mudança de “tu”
(estilo informal) neste trecho para “senhor” (estilo respeitoso) em trechos posteriores. Todavia, em vista da
pergunta abaixo, a samaritana também pode estar considerando seriamente que Jesus tem poder para lhe dar
dessa água)
2. —Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la.
(Seu pedido de água revela que ela crê que Jesus não é um homem comum, mas tem um poder especial)
3. Senhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar
onde se deve adorar.
(Ela afirma explicitamente sua crença de que ele é profeta e vê a chance de saber quem está certo quanto ao
local de adoração a Deus: judeus ou samaritanos?)
4. Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará tudo.
(Ela considera se Jesus não é mais que um profeta, mas o Messias que ensinará corretamente a religião de Deus.
5. Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?
(Ela está convencida de ter encontrado o Messias e quer que outros saibam que ele chegou)
A mulher samaritana 40
• Exatamente no contexto em que explicita sua crença de que Jesus é
um profeta (“Senhor, vejo que tu és profeta”), ela pergunta sobre o
verdadeiro local de adoração (“Nossos pais adoraram neste monte, e
vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar”).
• Essa é, claro, uma oportunidade única. Finalmente, ela poderá saber a
verdade sobre quem tem razão.
• Se você tivesse certeza de falar com um profeta de verdade, não
aproveitaria para saber qual é a religião certa?
• Todavia, muitos intérpretes enxergam nessa pergunta da samaritana
uma artimanha para não falar de seus 5 maridos.

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• “É possível que isso fosse uma fonte genuína de confusão e um obstáculo para
ela, mas é mais provável que isso fosse simplesmente uma evasão, tentando
evitar o problema de seus muitos maridos anteriores e seu atual não marido”.
(David Guzik) 41
• “No instante em que percebeu que quem conversava com ela era um profeta,
feliz com a oportunidade e, talvez, também, desejando deslocar o discurso para
um assunto menos desagradável para ela, ela propõe o que considera a mais
importante de todas as questões [...]” (Benson Commentary)
• “A mulher agora discerne em Jesus o homem de Deus dotado de conhecimento
superior, um profeta, e, portanto, coloca a Ele - talvez também para não deixar
mais espaço para a menção desagradável das circunstâncias de sua vida que
foram assim reveladas - a questão religiosa nacional sempre em disputa [...]”
• “Acreditando que ele agora era um homem enviado por Deus, ela propôs a ele
uma pergunta a respeito do lugar apropriado de adoração. Esse ponto há muito
era uma questão de disputa entre os samaritanos e os judeus. Ela o submeteu
porque achava que ele poderia resolver a questão e talvez porque desejasse
desviar a conversa do assunto desagradável a respeito de seus maridos.” (Barne’s
Notes on the Bible)
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A mulher samaritana (continuação) 42
• Esses intérpretes não explicam por que a samaritana deixa imediatamente
seu cântaro no chão e dá publicidade a essa conversa, se desejava tanto
mudar de um assunto que lhe era desagradável:
“Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens:
— Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura
não é este o Cristo?” (João 4:28-29)
• Certamente, a samaritana sabia que as pessoas perguntariam “O que ele te
disse?”
• Tais intérpretes também não explicam como Jesus, tendo conhecimento
sobrenatural até sobre a intimidade da samaritana, não percebeu a
artimanha da mudança de assunto, deixando-se levar a uma conversa
teológica sobre o local certo de adoração.

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A mulher samaritana (continuação) 43
• Na verdade, a narrativa indica que a intenção de Jesus é a de se
revelar como Messias para a samaritana:
“Se tu conheceras o dom de Deus e quem é o que te diz [...] (João
4:10)
“Eu o sou [o Messias], eu que falo contigo”. (João 4:26)
• A menção aos 5 maridos aparece apenas como uma demonstração
por Jesus de seu conhecimento sobrenatural, de modo a confirmar
as suspeitas da samaritana, isto é, de que ele é profeta e o
Messias.
• Em João 1:43-51, Jesus usa essa estratégia com Nataniel e com o
mesmo propósito.

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A mulher samaritana (continuação) 44
“Mais de uma vez, Jesus aproveita a oportunidade, de
ensinar uma mulher [...] Ele não era apenas o
pedagogo do homem, mas também da mulher. É para
uma mulher, a samaritana no poço de Jacó, a quem
ele expande uma das mais profundas verdades
religiosas, um ensinamento sobre o ser de Deus e o
modo de sua adoração.”
(August Wünsche, Jesus in seiner Stellung zu den
Frauen, 1872. Trad. Alessandra Castilho F. da Costa)
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Andrea Vaccaro, Marta e Maria, 1670

Jesus, as irmãs Marta e Maria e


a vida intelectual das mulheres
Lucas 10:38-42
Caminhando Jesus e os seus discípulos, chegaram a um povoado onde
certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa. 46
Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo a sua
palavra.
Marta, porém, estava ocupada com muito serviço. E, aproximando-se
dele, perguntou:
—Senhor, não te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha
com o serviço? Dize-lhe que me ajude!
Respondeu o Senhor:
— Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas;
todavia apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e esta não
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lhe será tirada.


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Marta e Maria (Lucas 10:38-42) (BAILEY, 1998) 47
• Jesus está viajando com seus discípulos. Martha é claramente a chefe da
casa em que o grupo se hospeda. Incrivelmente, um rabino do primeiro
século (Jesus) está disposto a se hospedar, com seus discípulos, em uma casa
chefiada por uma mulher. A Mishná diz o seguinte:
• “Josef B. Joahanan de Jerusalém disse: Que tua casa seja amplamente
aberta e os necessitados sejam membros de tua casa; e não fale muito com
o gênero feminino.”
• Se isso valia para a própria esposa, quanto mais para a esposa dos outros.
Por isso em “Os Sábios”, lê-se o seguinte:
• “Aquele que fala muito com mulheres atrai o mal para si e negligencia o
estudo da Lei e no final herdará a Gehenna [inferno]” (M. Aboth, 1.5, Danby
446).

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Marta e Maria (Lucas 10:38-42) (BAILEY, 1998)
(continuação) 48
• Ao passar a noite sob o teto de Marta, Jesus deliberadamente escolheu
“falar muito com mulheres” – e solteiras.
• A reação de Maria a um rabino entrando em sua casa (com seus discípulos) é
juntar-se a eles. Ela “sentou-se aos pés do Senhor”. Esta mesma expressão
idiomática identifica Paulo como um discípulo de Gamaliel (Atos 22: 3).

• E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos
pés de Jesus (para tous podas tou Kyriou), ouvia a sua palavra. (Lucas
10:39)
• Quanto a mim, sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, e nesta cidade criado
aos pés de Gamaliel (para tous podas Gamaliēl) (Atos 22:3)

• Quer dizer, Maria se tornou (ou se torna) uma discípula de Jesus.

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Marta e Maria (Lucas 10:38-42) (BAILEY, 1998)
(continuação) 49
• Martha está naturalmente ocupada com a refeição da noite. Ao
mesmo tempo, ela está chateada e preocupada. O que ela
realmente está dizendo é:
• “Os outros rabinos não têm discípulas mulheres! O que está
acontecendo sob meu nariz é ultrajante e sem precedentes! O que
os vizinhos vão pensar e o que dirão os rabinos locais? Imagine -
minha irmã - uma discípula de um rabino! Quem vai se casar com
a garota depois disso? A reputação dela ficará arruinada! Ela
vai ouvir a você Jesus! Você deve dizer a ela que o lugar dela é
aqui na cozinha comigo!”

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Marta e Maria (Lucas 10:38-42) (BAILEY, 1998)
(continuação) 50

• Jesus sabia perfeitamente o quão radical era para ele, naquela


sociedade, incluir as mulheres entre seus discípulos.

• Contudo, ele defende intransigentemente o direito das mulheres


de serem levadas a sério como participantes plenas em seu grupo
de discípulos.

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Outros aspectos que Swindler (1971) aborda
que não teremos tempo de tratar 51
• Na época de Jesus, rabinos haviam estabelecido uma justificativa de divórcio
chamada “por qualquer motivo”. Usando dessa justificativa, o homem deixava,
assim, a mulher na penúria. Já as mulheres não tinham direito ao divórcio. Jesus
refutou o divórcio “por qualquer motivo”, dizendo que tanto o homem quanto a
mulher só podem se divorciar em caso de imoralidade sexual do cônjuge.
• Em suas parábolas, Jesus usou imagens femininas para representar a Deus. Um
exemplo é a parábola da mulher e a dracma perdida. Essa representação
também é uma com a qual ele próprio se identifica, já que ele se apresenta
como o bom pastor que busca o que estava perdido, assim como a mulher busca
sua dracma.
• Outros estudos empreendem análises mais detalhadas sobre as figuras femininas
usadas para representar a Deus no Velho e no Novo Testamento, como, por
exemplo, a Sabedoria no livro de Provérbios, ou a linguagem das dores de parto
divinas nos livros proféticos.
Minhas conclusões 52
As mulheres desempenham um papel decisivo nos eventos retratados nos
evangelhos, com consequências para uma visão igualitarista de homens e
mulheres.
1. A uma mulher, Maria, o nascimento de Jesus é anunciado e, da semente
da mulher e não da semente do homem, ele nasce.
2. Uma mulher, a profetisa Ana, anuncia NO TEMPLO a chegada do Messias
quando Jesus é ali apresentado pelos pais.
3. A uma mulher, a samaritana, Jesus se revela diretamente como o
Messias.
4. A uma mulher, Marta, Jesus se declara como a ressurreição, mensagem
central do evangelho.
5. É por causa da acusação a uma mulher (apanhada em adultério) que
Jesus expõe a hipocrisia dos homens.
Minhas conclusões
(continuação) 53
6. Em defesa da vida intelectual de uma mulher, Maria, Jesus se
opõe à ideia implícita de Marta de que lugar de mulher é na
cozinha
7. É a uma mulher pecadora que Jesus elogia por seu amor.
8. Uma mulher, Maria, irmã de Lázaro, unge Jesus antes de sua
crucificação.
9. É uma mulher, a esposa de Pilatos, que testemunha a inocência
de Jesus para o marido, que não tem coragem de se opor à
pressão.
10.São as mulheres que testemunham sua agonia na cruz, enquanto
os apóstolos o abandonam, com exceção de João.
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Minhas conclusões
(continuação) 54
11.As mulheres são testemunhas do sepultamento de Jesus.
12.Depois de seu sepultamento, mulheres, Maria Madalena, Maria,
mãe de Tiago e Salomé, compraram aromas para ungi-lo.
13.São elas que testemunham que a pedra do sepulcro havia sido
removida e recebem a notícia de um anjo de que Jesus
ressuscitou.
14.É para as mulheres (Maria Madalena e outras) que Jesus primeiro
aparece depois da ressureição.
15.É às mulheres que Jesus envia para falar de sua ressurreição às
maiores autoridades da igreja, AOS APÓSTOLOS.
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1.
8. ANTES DO
PRIMEIRO NASCIMENTO

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ANÚNCIO DA Maria 2.
55
RESSURREIÇ recebe DEPOIS DO
a notícia de
ÃO um anjo NASCIMENTO
Maria Profet. Ana
7. Madalena anuncia no
Maria templo
PRIMEIRASanunciam
TESTEMU-
NHAS 3.
UNÇÃO
RESSURREI-
ÇÃO JESUS Mulher
pecadora
Maria
Madalena unge
Maria
testemunha
m 6. 4. TESTEMU-
SEPULCRO NHA DA
Maria 5. INOCÊNCIA
Madalena CRUCIFICA-
Mulher de
Maria ÇÃO Pilatos
velam Maria
Madalena

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Maria, entre
outras,
acompanham
Minhas conclusões
(continuação) 56
• Percebe-se, nas narrativas de Mateus, Marcos, Lucas e João, que
Jesus buscou o contato com as mulheres, ensinou-as, amou-as
como amigas e discípulas, tratou-as dignamente, como seres
humanos com um intelecto e sentimentos. Ao mesmo tempo,
verifica-se que elas se sentiam atraídas por ele e, nos momentos
mais difíceis, permaneceram a seu lado.
• Complementaristas argumentam que Jesus escolheu apenas
homens para apóstolos, o que significaria que a liderança (na
igreja) é exclusivamente masculina e a mulher teria um papel
hierarquicamente inferior.
• Todavia, os eventos retratados nos evangelhos refutam essa noção.
(ver slide seguinte).
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Refutação de liderança
exclusivamente masculina 57
• Lugares argumentativos – topoi (Aristóteles)
• Lugar do mais e do menos.
• “Se tudo o que é AA é BB, então tudo o que é mais (menos) AA é mais
(menos) BB”
• Se mulheres (AA) foram comandadas por Jesus, o cabeça da igreja, a
falar da ressurreição, mensagem central do evangelho, aos apóstolos, as
maiores autoridades abaixo de Jesus (BB), então qualquer mulher (AA)
está autorizada por Jesus a falar a qualquer homem na igreja (BB).
• Se uma mulher, Ana, (AA) anunciou o nascimento do Messias, mensagem
do evangelho, publicamente no templo de Jerusalém (BB), então
qualquer mulher (AA) pode falar do evangelho em qualquer templo
religioso BB).
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Referências 58
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47, n. 1, p. 319-331, 2013.
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• EHRMAN, Bart “Jesus and the Adulteress,” New Testament Studies 34 (1988): 37 See also Ehrman Misquoting Jesus: The
Story Behind Who Changed the Bible and Why (New York: Harper Collins, 2005), 63-65.
• GENTRY, Thomas J.. 2021. "Could it be Reasonable to Conclude that Jesus Did it and John Wrote it Down? An Enquiry into
the Veracity of John 7:53-8:11, the Pericope Adulterae." Eleutheria 5, (1). HEIL, “The Story of Jesus and the Adulteress
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• SAFRAI, Shmuel. The Place of Women in First-century Synagogues. PRISCILLA PAPERS /Winter 2002, 16:1, p. 9-12.
• SWINDLER, Leonard. Jesus was a feminist. Catholic World, 1971.
• THIESSEN, Matthew. Jesus and the forces of death. Baker Academic, 2020.
• WALLACE, “My Favorite Passage That’s Not in the Bible,” Bible.org, June 24, 2008,
• WÜNSCHE, August. Jesus in seiner Stellung zu den Frauen. F. Henschel, 1872.