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O livro de Rute – imagens de mulher

Profa. Dra. Alessandra Castilho Ferreira da Costa


Tópicos Avançados em Linguística Teórica e Descritiva
Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem
Roteiro da Aula

Apresentação do artigo de Trible (1976)

TRIBLE, Phyllis. Two Women in a Man's World: A


Reading of the Book of Ruth. Soundings: An
Interdisciplinary Journal, vol. 59, No. 3 (outono de
1976), pp. 251-279

Análise e discussão de seus achados.

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Introdução
O livro de Rute apresenta a idosa Noemi e a jovem Rute
enquanto lutam pela sobrevivência em um ambiente
patriarcal.
Quatro cenas marcam os contornos desta história, que
formam um padrão circular em que a terceira e a quarta
retornam às preocupações da segunda e da primeira.
Variações desse desenho aparecem dentro de cada cena,
de modo que as partes moldam o todo e o todo molda as
partes.

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
“E sucedeu que, nos dias em que os juízes
julgavam, houve uma fome na terra; por isso um
homem de Belém de Judá saiu a peregrinar nos
campos de Moabe, ele e sua mulher, e seus dois
filhos;
E era o nome deste homem Elimeleque, e o de sua
mulher Noemi, e os de seus dois filhos Malom e
Quiliom, efrateus, de Belém de Judá; e chegaram
aos campos de Moabe, e ficaram ali.
E morreu Elimeleque, marido de Noemi; e ficou ela
com os seus dois filhos,
Os quais tomaram para si mulheres moabitas; e era
o nome de uma Orfa, e o da outra Rute; e ficaram
ali quase dez anos.
E morreram também ambos, Malom e Quiliom,
ficando assim a mulher desamparada dos seus
dois filhos e de seu marido.” Rute 1:1-5
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Cena 1: capítulo 1

Capítulo 1, versículos 1-5: a narração na terceira pessoa nomeia os


personagens, especifica seus relacionamentos e descreve sua
situação, mas não permite que surjam como seres humanos.
São sujeitos dos verbos, mas são objetos de discurso; não são eles
que falam, mas sobre eles é que se fala.
Eles oscilam entre a pessoa e a não-pessoa.
Essa tensão gramatical é sua tensão existencial. Confrontados com a
fome, quatro personagens oscilam entre a vida (pessoa) e a morte
(não-pessoa). Assim, a forma da introdução espelha o conteúdo e
seu conteúdo espelha a forma.
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Cena 1: capítulo 1 (continuação)
 Uma fome na terra de Judá motivou a
mudança para Moabe. Enquanto o solo nativo
oferece morte, o solo estrangeiro oferece vida.
 Elimeleque, o pai, lidera essa jornada.
Acompanhando-o estão Naomi e seus dois
filhos, Malom e Quilliom.
 No entanto, Elimeleque morre. Noemi fica viúva,
"com seus dois filhos". Além disso, os filhos
tomam esposas moabitas, Orpa e Rute.
 O conforto desta notícia dura pouco. Dez anos
se passam sem a chegada de uma terceira
geração. Malom e Quilliom morrem.
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Cena 1: capítulo 1 (continuação)

A morte novamente cancela a


vida e uma família inteira se
reduz a uma figura solitária.
Noemi está sozinha.
De esposa para viúva, de mãe
para não-mãe, essa mulher é
despojada de toda identidade.
A segurança do marido e dos
filhos, que uma cultura
dominada pelos homens
oferece às mulheres, não é
mais dela.
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Cena 1: capítulo 1 (continuação)

 Capítulo 1, versículos 6-7: Pela primeira vez,


Noemi se torna o sujeito de verbos ativos.
 Uma não-pessoa se aproxima da personalidade.
 Ainda assim, o narrador é cauteloso. Ela ou ele
continua a omitir o nome dessa mulher enquanto
fala sobre ela. É o pronome “ela” que "começou
com suas noras a voltar do país de Moabe". Foi
ela quem ouviu "que o Senhor visitou o seu povo
e deu-lhes comida". Foi ela quem então "saiu do
lugar onde estava".

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 A introdução começou com um êxodo
de Judá; agora fecha com o anúncio
de um retorno àquela terra.
 Começou com o problema da fome;
agora responde com a promessa de
comida;
 Começou com um homem
escolhendo um futuro para sua família;
agora termina com uma mulher - a
única sobrevivente daquela família -
escolhendo seu próprio futuro.
 Dentro desta estrutura de anel, os
temas de terra, comida e família se
entrecruzam enquanto alternam entre
a vida e a morte.
Cena 1: capítulo 1 (continuação)
 Os homens morrem; eles são não-pessoas; sua
presença na história cessa (embora sua ausência
continue).
 As mulheres vivem; elas são pessoas; sua presença na
história continua. Na verdade, a vida delas é a vida
da história.
 Capítulo 1, versículos 8-14: a narrativa em terceira
pessoa dá lugar ao diálogo.
 As mulheres assumem a história. Neste primeiro
episódio, nenhum homem está presente; só as
mulheres falam e agem.

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Marc Chagall, Naomi and
her daughters-in-law, 1960

Cena 1: capítulo 1 (continuação)


 Inesperada em uma cultura patriarcal é a frase "casa
da mãe".
 No entanto, as palavras são apropriadas aqui. Essa
frase enfatiza a que são mulheres sem homens.
Portanto, “à casa de sua mãe", cada jovem é
exortada a retornar.
 Noemi beija suas duas noras em um ato de
despedida. Elas levantam suas vozes e choram.
 A fala humana interpreta a atividade divina e essa
fala é ambivalente: "Que Deus te trate benignamente
- aquele Deus que me tratou severamente."

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Cena 1: capítulo 1 (continuação)
 Três vezes Noemi ordena que as mulheres voltem, e
sempre ela cita a necessidade de elas encontrarem
marido (1: 9, 11, 12-13). Para que suas vidas sejam
preenchidas, elas devem se casar novamente, porque
naquela sociedade estruturada por homens não existe
outra possibilidade.
 Noemi beija como despedida, mas seu beijo carece
desse poder: as jovens não são objetos sob seu
controle. Elas próprias escolhem suas respostas
individuais.
 Orfa não está obedecendo a sogra; ela própria decide.
 Rute não apenas decide: ela decide contrariamente às
ordens de Noemi.
 Orfa faz o esperado. Rute, o inesperado.
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Cena 1: capítulo 1 (continuação)
Capítulo 1, versículos 15-18: Noemi elogia a
decisão de Orfa e exorta Rute a imitá-la: “Eis
que voltou tua cunhada ao seu povo e aos seus
deuses; volta tu também após tua cunhada."
Orfa é um paradigma de sensatez; ela atua de
acordo com as estruturas e costumes da
sociedade. Sua decisão é sensata e segura.
No entanto, Orfa morre para a história.
Ironicamente, sua aliança com Noemi significa
separação da sogra.

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Cena 1: capítulo 1 (continuação)

O movimento da vida é com Rute e Noemi.


Se Noemi fica sozinha pela força das
circunstâncias, Rute fica sozinha pela força da
decisão.
A escolha dela não faz sentido. Abandona a
segurança da casa da mãe pela insegurança
num país estranho.
Ela perde a possível plenitude em Moabe por
certo vazio em Judá.
Ela troca o familiar pelo estranho.

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Cena 1: capítulo 1 (continuação)
Rute escolheu a morte ao invés da vida. Ela rejeitou a
solidariedade da família; ela abandonou a
identidade nacional e ela renunciou à filiação
religiosa.
Em toda a epopeia de Israel, apenas Abraão
corresponde a essa radicalidade.
Contudo, Abraão recebeu um chamado de Deus (Gn
12: 1-5). A promessa divina motivou e sustentou seu
salto de fé. Além disso, Abraão era um homem, com
uma esposa e outros bens para acompanhá-lo.

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
 Rute está sozinha; ela não possui nada.
Nenhum Deus a chamou; nenhuma
divindade prometeu sua bênção;
nenhum ser humano veio em seu auxílio.
Ela vive e escolhe sem um grupo de
apoio e sabe que o fruto de sua decisão
pode ser o vazio da rejeição, na
verdade, da morte. Nem mesmo o salto
de fé de Abraão supera esta decisão de
Rute.
 Rute não apenas rompeu com a família,
o país e a fé, mas também reverteu a
fidelidade sexual. Uma jovem
comprometeu-se mais com a vida de
uma idosa do que com a busca de um
marido.
 Uma mulher escolheu outra mulher em
um mundo onde a vida depende dos
homens. Não há decisão mais radical em
todas as memórias de Israel.
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Cena 1: capítulo
1 (continuação)
 Capítulo 1, versículos 19-21: Elas
chegam a Belém. “Não me
chameis de Noemi” (meiga),
ela diz; "chamai-me de Mara"
(amarga). Os opostos de vida e
morte estão presentes em uma
mesma pessoa.
 Para Noemi, a vida é um vazio
absoluto, total e completo - da
fome no nível físico à fome no
nível familiar, à fome no âmago
de seu ser. “Cheia parti, porém
vazia o Senhor me fez retornar”.
Noemi não reconhece que Rute
está com ela.
Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 1: capítulo 1 (continuação)
 Capítulo 1, versículo 22: Tendo dado a palavra às
mulheres após a introdução, o narrador a toma de
volta para a conclusão, que mitiga o vazio de
Noemi. Ela não está sozinha. "Rute, a moabita, sua
nora” está com ela.
 Rute é o nome da decisão radical e do
compromisso total com Noemi. Rute, a moabita,
escolheu Noemi, a judia. Rute, a nora, escolheu
Noemi como sogra.
 A cena 1 termina não com a profunda angústia de
Noemi, mas com um movimento cauteloso em
direção ao bem-estar. Rute e a colheita da cevada
são dois sinais de vida que se opõem às
declarações de morte de Noemi.
Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 2: Capítulo 2
 No início da cena 1, a família de Elimeleque foi equiparada à morte.
Elimeleque e seus dois filhos não falam nada e morrem rapidamente.
 A cena 2 começa por contraste. Noemi tem um parente, Boaz. Há na
família de Elimeleque um homem identificado com a vida. O
aparecimento de Boaz começa a restaurar o equilíbrio entre o feminino
e o masculino como criaturas vivas. Ao apresentá-lo prematuramente,
o narrador desperta interesse e sugere importância.
 Capítulo 2, versículos 2-22: Aqui Rute lidera. Ela informa Noemi de sua
decisão de “apanhar espigas atrás daquele em cujos olhos eu achar
graça". A jovem estrangeira vê uma oportunidade de sobrevivência e
age de acordo com ela. Rute vai então por sua própria escolha.

 Outra dimensão molda a ocasião: “caiu-lhe em sorte uma parte do


campo de Boaz, que era da família de Elimeleque”. É uma expressão
feliz "caiu-lhe em sorte”, relatando acaso e acidente, enquanto insinua
que o acaso é causado. Dentro da sorte humana está a
intencionalidade divina.
Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 2: Capítulo 2 (continuação)
 Boaz aparece, um homem de poder e prestígio. Ele
inspeciona a cena, falando amenidades divinas para seus
ceifeiros e avistando a mulher estranha. Ele não a conhece.
"De quem é esta moça?" ele pergunta.
 Uma pergunta verdadeiramente patriarcal. Afinal, uma
jovem deve pertencer a alguém; ela é posse, não pessoa.
Assim, Boaz não pergunta o nome dela, mas sim a
identidade de seu dono. Sua pergunta se encaixa em sua
cultura, mas não se encaixa nessa mulher, que está em
tensão com essa cultura.
 O servo não pode responder da maneira tradicional. Ele
não pode identificar Rute por um senhor (homem); ela não
tem nenhum. Portanto, o servo a descreve como a mulher
estrangeira "que voltou com Noemi dos campos de
Moabe". O nome dela ele não dá. Sua identidade, ele
deriva de ser estrangeira e de acompanhar outra mulher. Marc Chagall, Rencontre de
Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021 Ruth et de Booz, 1960
Cena 2: Capítulo 2 (continuação)
 Boaz, homem de poder, ajuda Rute, mulher pobre; o senhor
homem concede privilégios à mulher estrangeira; e o
homem mais velho protege a jovem. Ele aparece como um
adulto idoso, uma contraparte masculina de Noemi.
 A resposta de Rute é respeitosa: "Por que achei graça em
seus olhos, para que faças caso de mim, sendo eu uma
estrangeira?"
 É ironicamente sutil. Essa estrangeira inferior, agora falando
com um superior, realizou aqui o que se propôs a fazer. O
favor que Boaz lhe dá é o favor que ela mesma buscou.
Portanto, ela, não ele, está moldando seu destino.
 O fato de uma cultura patriarcal restringir suas opções torna
sua iniciativa ainda mais notável. Sua decisão de apanhar
espigas de trigo atrás de alguém em cujos olhos achar
graça" dá a ela independência como ser humano.
Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 2: Capítulo 2 (continuação)

 O próprio Boaz reconhece que Rute não é uma pessoa


comum.
 Ele a descreve como aquela que deixou seu pai, sua mãe e
sua terra natal para vir para um povo que ela não conhecia
(2:11).
 Esta descrição valida a analogia entre Abraão e Rute. Além
disso, Boaz adiciona um ingrediente que estava claramente
presente no chamado de Abraão e visivelmente ausente na
escolha de Rute - o ingrediente da bênção divina.
 Mas a diferença permanece: a própria Rute escolheu
abandonar o passado sem ter sido chamada diretamente
por Deus ou recebido promessa de bênção.

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 2: Capítulo 2 (continuação)
 Boaz, um homem poderoso, não se apressou em resgatar
uma mulher carente. Na verdade, as próprias palavras de
Boaz mostram que ele já conhecia a situação de Noemi e
Rute; no entanto, até agora, ele, parente de Noemi, nada
fez para ajudar essas mulheres.
 Embora ele tenha ouvido tudo o que Rute fez por Noemi,
ele nem mesmo conhece Rute quando a vê em seu
campo.
 A história não censura Boaz por negligência no dever, mas
o subordina às mulheres. Ele tem poder patriarcal, mas
não tem poder narrativo. Ele tem autoridade na história,
mas não tem controle sobre ela. A história pertence a Rute
e Noemi - e ao acaso, esse código para o divino.

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Marc Chagall, Ruth gleaning, 1960

Este episódio termina,


como começou, com
um relato narrativo:
“Foi, pois, e chegou, e
apanhava espigas no
campo após os
segadores” (2: 3); “e
esteve ela apanhando
naquele campo até à
tarde (2: 17). O que
Rute decidiu fazer, ela
fez.
Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 2: Capítulo 2 (continuação)
 À noite, Rute volta para sua sogra com comida. Noemi está ansiosa para
saber o que aconteceu. "E relatou à sua sogra com quem tinha trabalhado e
disse: O nome do homem com quem hoje trabalhei é Boaz.”
 Lentamente, a amargura de uma idosa vai se transformando. A resposta de
Noemi começa com uma bênção para Yahweh, “que ainda não tem
deixado a sua beneficência nem para com os vivos nem para com os mortos",
e termina com a notícia de que Boaz "é nosso parente chegado, e um dentre
os nossos remidores".
 No entanto, quão estranha é sua revelação. Noemi sabia que Boaz é um
parente próximo, mas não pediu sua ajuda. Por que não sabemos. Será que o
vazio a dominou tanto que ela esqueceu a existência dele? Ou será que a
calamidade paralisou sua vontade de agir? Ou Noemi é uma mulher de sua
cultura, que espera que o homem aja primeiro?
 Seja qual for o motivo, ela não procurou Boaz. Da mesma forma, Boaz não se
aproximou dela, embora soubesse de sua situação. Somente através da
escolha de Rute e do acaso, o parente masculino e o parente feminino se
reconheceram. Com este reconhecimento, Noemi agora inclui Rute na
família: “Este homem é nosso parente chegado, e um dentre os nossos
remidores".
Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 2: Capítulo 2 (continuação)
 Noemi deseja que Rute se case novamente, embora a
própria Rute não tenha mostrado um interesse
correspondente.

 As preocupações de Rute são lealdade a Noemi e comida


para as duas. Rute não comenta a fala de Noemi sobre Boaz
ser um remidor.

 Ela garante à sogra que, graças a Boaz, o alimento estará


disponível durante a colheita. Seu primeiro ato ao voltar para
casa à noite foi dar comida a Noemi (2:18); agora, suas
últimas palavras neste encontro voltam àquele ato (2:21).

 Rute é fiel a Noemi e pode sustentar as duas. Em outras


palavras, Rute não está procurando um marido.

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 2: Capítulo 2 (continuação)
 Noemi responde com palavras semelhantes às de Boaz:
“Melhor é, filha minha, que saias com as suas moças [de
Boaz], para que noutro campo não te encontrem" (2:22).
 Boaz e Noemi se unem como uma geração mais velha
preocupada com a segurança de uma jovem em um
ambiente de homens. Masculino e feminino mediam a vida e
a morte.
 As mulheres moldam sua história. Elas planejam (2: 2); elas
executam [2: 3-17); e elas avaliam (2: 18-22).
 No capítulo 1, Noemi se vê sozinha em amargura e tristeza.
Agora, ela começa a sair do desespero, porque Rute e Boaz a
alcançaram. Logo, Noemi sugere uma reinterpretação de seu
passado. Shaddai que trouxe a calamidade (1: 21) agora é
Yahweh "cuja bondade não abandonou os vivos nem os
mortos" (2:20).

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 3: Capítulo 3
 Na cena 2, as mulheres lutam para sobreviver fisicamente; na
cena 3, elas lutam para sobreviver culturalmente
 Na cena 3, desde o início, os personagens estão no comando.
 Ciente da bondade de Boaz, Noemi começa a agir. Ela não
espera que as coisas sigam seu curso ou que Deus intervenha
com um milagre.
 Na terra de Moabe, ela dissera às suas noras viúvas para
voltarem para a casa de sua mãe, na esperança de que cada
uma delas pudesse encontrar um lar na casa de um marido.
 Naquela ocasião, Noemi sabia de suas necessidades, conforme
ditadas por sua cultura, mas ela não tinha como ajudar. Agora
ela retorna a essa necessidade com a força de um plano:
"Minha filha, não hei de buscar um lar para ti, para que fiques
bem?".
 Esta pergunta retórica introduz um esquema ultrajante, perigoso
e delicado.

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 3: Capítulo 3 (continuação)
 Rute deve vestir suas melhores roupas e ir sozinha à noite para
a eira onde os homens comem e bebem em comemoração à
colheita.
 Depois que Boaz comer, beber e se deitar para dormir, Rute
deve se aproximar dele, descobrir a parte inferior de seu corpo
e se deitar.
 Exatamente quanto da parte inferior de seu corpo ela deve
descobrir permanece torturantemente incerto no texto.
 Que implicações sexuais estão presentes, no entanto, é certo.
“Quando você tiver feito isso”, conclui Noemi, “então o próprio
Boaz lhe dirá o que fazer” (3: 4). Certamente, neste ponto, o
homem assumirá o controle; isso é o mínimo que se espera.
 Rute concorda com o plano: "Tudo quanto me disseres, farei."

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 3: Capítulo 3 (continuação)
A disposição de Rute em obedecer Noemi
significa um segundo encontro entre ela e Boaz.
O primeiro encontro foi por acaso; o segundo é
por escolha.
O primeiro foi no campo; o segundo, na eira.
O primeiro foi público; o segundo, privado.
O primeiro era trabalho; o segundo, uma
jogada.
O primeiro foi de dia; o segundo, à noite.
No entanto, ambos têm potencial para a vida e
para a morte.
Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 3: Capítulo 3 (continuação)
 O narrador enfatiza a obediência de Rute relatando e
repetindo os eventos que Noemi previu.
 A repetição impede o progresso da história, pois aumenta
o suspense.
 Além disso, confirma e contradiz a precisão dos cálculos
de Naomi. Rute “ então foi para a eira, e fez conforme
tudo quanto sua sogra lhe tinha ordenado. Havendo, pois,
Boaz comido e bebido, e estando seu coração alegre,
veio deitar-se ao pé de um monte de grãos "(3: 6-7).
 “Ao pé de um monte de grãos”: um pequeno detalhe,
mas importante para a execução do plano. A frase
sugere uma área separada e acessível à mulher que
espera. Esse detalhe é outra pista daquela bendita
chance que ajuda essas mulheres em suas lutas pela
vida?
Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Marc Chagall, Ruth aux pieds de Booz, 1960
Cena 3: Capítulo 3
(continuação)

De qualquer forma, Rute


"veio de mansinho, e lhe
descobriu os pés, e se
deitou".

Como um patriarca de
Israel responderá a essa
ação ousada de uma
mulher de Moabe?

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 3: Capítulo 3 (continuação)
Chega a meia-noite. O homem descobre a
mulher deitada ao lado dele. "Quem és tu?" ele
pergunta.
Enquanto o primeiro encontro suscitou uma
pergunta de propriedade - "De quem é essa
moça?" – o segundo evoca uma questão de
identidade pessoal: "Quem és tu?"
Em ambos os casos, uma mulher surpreendeu
um homem; ela tomou a iniciativa de buscar a
vida sob ameaça de morte.

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 3: Capítulo 3 (continuação)
 Até agora, o roteiro para este segundo encontro
aconteceu como Noemi planejou. Na verdade, o
narrador já disse que Rute "fez conforme a tudo
quanto sua sogra lhe tinha ordenado”.
 Mas agora, quando Rute responde à pergunta de
Boaz, ela muda esse roteiro. “Sou Rute, tua serva",
ela responde. Nesse ponto, Noemi disse que Boaz
se encarregaria: "Ele te fará saber o que deves
fazer" (3: 4).
 Não é o caso, no entanto. Rute está no comando;
ela diz a Boaz o que fazer. “Estende tua capa sobre
a tua serva, porque tu és o remidor" (3: 9).

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 3: Capítulo 3 (continuação)

A declaração de Rute está de acordo com seu


retrato ao longo da história como a desafiadora
dos costumes, a tomadora de decisões e a
operadora da salvação. Isso a coloca em
tensão tanto com a sogra quanto com o
narrador.
Além disso, confirma a postura de Boaz como
alguém que reage à iniciativa dessa mulher.

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 3: Capítulo 3 (continuação)
 Boaz responde e suas palavras são caracteristicamente
graciosas, relembrando sua resposta anterior a Rute.
 Há o tema da bênção divina: "Bendita sejas tu do Senhor,
minha filha" (cf. 2, 12).
 Por comparação, existe o tema da bondade para com
Noemi: “melhor fizeste esta tua última benevolência do
que a primeira ..." (cf. 2,1).
 Há o tema dos jovens como contraste com Boaz: “pois
após nenhum dos jovens foste, quer pobre quer rico" (cf. 2:
9, 15).
 Por fim, há o tema da segurança e do elogio: “Agora,
pois, minha filha, não temas; tudo quanto disseste te farei,
pois toda a cidade sabe que és uma mulher valente" (cf.
2: 8, 9, 11, 12).
Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Valente ou virtuosa? A palavra hebraica
ha-yil e sua tradução em Rute 3:11

Toda a cidade do meu povo sabe que és


mulher virtuosa (ha-yil). ACF
Todos os meus concidadãos sabem que você é
mulher virtuosa (ha-yil). NVI
Toda a cidade do meu povo sabe que és
mulher virtuosa (ha-yil). ARC
Na cidade toda gente sabe que você é uma
mulher direita(ha-yil). NTLH
Todos em Belém sabem que és uma mulher
virtuosa (ha-yil). Bíblia Ave Maria

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Valente ou virtuosa? A palavra hebraica ha-yil e sua
tradução em Rute 3:11 (BUSHNELL, 1923)
“A seguir, consideraremos a palavra hebraica ha-yil, que ocorre 242 vezes no
Antigo Testamento. É traduzida como “exército” e “guerra” 58 vezes;
“exército” e “forças”, 43 vezes; “poder” 16 vezes; “bens”, “riquezas”,
“substância” e “riqueza”, 31 vezes; “bando de soldados”, “bando de
homens”, “companhia” e “treino”, uma vez cada; “atividade” uma vez;
“valor”, 28 vezes; “força”, 11 vezes: todas são formas substantivas.
A palavra é frequentemente traduzida como um adjetivo ou advérbio. É
traduzida como “valente” e “valentemente”, 35 vezes; “forte”, 6 vezes;
“capaz”, 4 vezes; “dignamente”, uma vez e “digno”, uma vez.
Agora demos a você a lista completa das várias traduções desta palavra,
exceto quatro casos em que a palavra é usada para descrever uma mulher.
Reveja a lista e tenha o uso da palavra claramente em mente antes de
prosseguir.” (BUSHNELL, 1923: 223-224 Trad. A.C.F.C.)
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Valente ou virtuosa? A palavra hebraica ha-yil e sua
tradução em Rute 3:11 (BUSHNELL, 1923)
“Agora examinaremos o primeiro dos quatro casos restantes, relativo às mulheres: Rute,
a moabita, era uma mulher de coragem e decisão de caráter. Em sua lealdade à mãe
de seu marido morto, ela se recusou a voltar e casar-se novamente em sua própria
terra, mas abandonou seu país e sua parentela para acompanhar sua sogra a uma
terra estrangeira, e ali se comprometeu a manter as duas morreram pelo trabalho de
suas mãos. Boaz, que depois se casou com ela, disse-lhe: “Toda a cidade do meu povo
sabe que és mulher de ha-yil” (Rute 3:11). Agora, considerando a coragem e devoção
da garota, como essa palavra deveria ser traduzida? Você tem a lista de significados
diante de você e é bastante competente para formar uma opinião. Seria “tu és uma
mulher virtuosa” ou “tu és uma mulher de coragem”? A Septuaginta grega diz: “Tu és
uma mulher de poder” (dynamis). [...] Dê uma olhada nos vários significados dados a
esta palavra em outro lugar. Nem uma vez tem referência a qualquer outra
característica moral que não a de força. Que coragem que esta moça estrangeira
demonstrou ao apoiar a sogra! ” (BUSHNELL, 1923: 224 Trad. A.C.F.C.)
Valente ou virtuosa? A palavra hebraica ha-yil e sua
tradução em Rute 3:11 (BUSHNELL, 1923)
“Mas”, um objetor dirá “virtuosa vem da palavra latina vir, que
significa homem, e por que não é a palavra apropriada para
usar aqui, no sentido de viril, forte? Porque virtude, embora
tenha este sentido literal, não é usado para descrever
masculinidade em inglês, mas moralidade em geral, entre os
homens: e quando usada para referir-se à mulher, entende-se
como se referindo à moralidade de um tipo, mais
particularmente [castidade][...] Se o tradutor tivesse pensado
que essa palavra virtude ou virtuosamente provavelmente seria
entendida em seu sentido literal por mulheres como viril, quem
acreditaria que ele empregaria essas palavras aqui? (BUSHNELL,
1923: 225 Trad. A.C.F.C.)
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Cena 3: Capítulo 3 (continuação)
 "Uma mulher valente": essa descrição corresponde
precisamente à descrição do narrador de Boaz como
"um homem valente" (2: 1).
E tinha Noemi um parente de seu marido, homem valente
(ha-yil) e poderoso, da família de Elimeleque; e era seu
nome Boaz”. Rute 2:1
Toda a cidade do meu povo sabe que és mulher valente
(ha-yil). Rute 3:11
 Feminino e masculino; estrangeiro e nativo; jovens e
idosos - pobres e ricos - todos esses opostos são
mediados pelo valor humano.
 O público dá um suspiro de alívio. Um esquema
perigoso e delicado por parte de duas mulheres
resultou na bondade e bênção de um homem.
 Boaz não profere nem uma palavra de censura.
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Significado dos nomes do VT (SIMONIS/GESENIUS, 1844)

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Significado dos nomes das
personagens no site Blue Letter Bible
Elimeleque: Meus Deus é Rei
Noemi: Agradável, Cheia
Orfa: Nuca, Parte de trás do pescoço,
Apostasia
Malom: Doença
Quilliom: Destruição, Morte, Aniquilação
Rute: Companhia, Amizade
Boaz: Rapidez, Força
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Cena 3: Capítulo 3 (continuação)
 Mas o patriarca não acabou de falar; o público relaxou
cedo demais. "E agora é verdade que sou remidor",
continua ele; “mas ainda outro remidor há mais
chegado do que eu” (3:12).
 Essa distinção na ordem dos remidores do sexo
masculino perturba o andamento da história. Ao
mesmo tempo, pode ser responsável pela omissão de
Boaz em agir até agora, visto que a responsabilidade
pertence a outro homem, e o costume decreta que a
ordem apropriada seja seguida.
 Agora que as mulheres forçaram a questão, no
entanto, Boaz responderá.
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Cena 3: Capítulo 3 (continuação)

A resposta de Boaz oscila entre a promessa e o


adiamento.
Suas palavras trazem de volta o suspense
conforme os opostos se pressionam e a tensão
aumenta.
Mulheres e homens - Rute, que está presente, e
Noemi, que está ausente; Boaz, que está
presente, e o remidor sem nome, que está
ausente - pairam entre a vida e a morte.

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Rembrandt, Boaz Casting Barley into Ruth´s Veil, 1643-1647
Cena 3: Capítulo
3 (continuação)
 Rute está ao lado de
Boaz, mas ela se
levanta antes do
amanhecer para que o
encontro permaneça
em segredo e na
privacidade das trevas.
 Quando ela sai, Boaz
enche sua capa com
cevada para garantir
mais uma vez a
plenitude contra a
fome.
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Cena 3: Capítulo 3 (continuação)
 As duas mulheres conversam sozinhas. Noemi pergunta: "Como
foi, minha filha?"
 A resposta esconde os atos extraordinários de Rute e destaca
os atos comuns de Boaz. Embora a pergunta de Noemi seja
explicitamente sobre Rute e apenas implicitamente sobre
Boaz, a reposta é explicitamente sobre Boaz e apenas
implicitamente sobre Rute.
 "E ela lhe contou tudo quanto aquele homem lhe fizera."
Omite-se qualquer relato do que Rute fez, especialmente de
suas instruções diretas a Boaz.
 Ao deixar de relatar especificamente, o narrador está
protegendo Ruth?
 Anteriormente, o narrador (ou narradora) afirmou que na eira
Rute "fez exatamente o que sua sogra lhe dissera" (v. 6),
quando na verdade ela fez mais do que sua sogra lhe havia
dito.
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Cena 3: Capítulo 3 (continuação)

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Cena 3: Capítulo 3 (continuação)

As últimas palavras de Noemi aconselham


Rute:

"Espere, minha filha, até que saibas como irá o


caso, porque aquele homem não descansará
até que conclua hoje este negócio" (3:18).

A história se move em direção à resolução.

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Cena 4: Capítulo 4

 A quarta cena começa com uma reunião pública no


portão da cidade onde acontecem os negócios e
transações legais.

 Esta reunião pública é um mundo inteiramente


masculino. Nenhuma mulher está presente, embora as
ações delas tenham tornado a ocasião obrigatória.

 Boaz assume o comando. No portão, ele encontra o


remidor e o convida a se sentar. Surpreendentemente,
Boaz não chama esse homem pelo nome: "Ó fulano, vem
cá, assenta-te aqui", diz ele.

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Cena 4: Capítulo 4 (continuação)
 Boaz está dando informações novas. Não sabíamos
que Noemi estava vendendo terras. Ora, estamos
surpresos por ela ter até um terreno para vender!
 Esse fato é em si uma incongruência de vida ou
morte. Os direitos sobre uma parcela de terra (vida)
pertencem a uma mulher do vazio (morte).
 Mais uma vez, a sugestão de comunicação direta
entre Boaz e Naomi é surpreendente, já que em
nenhum lugar esses dois se encontram e
conversam.
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Cena 4: Capítulo 4 (continuação)
 “Compra-a diante dos habitantes, e diante dos aciãos
do meu povo; se a hás de redimir, redime-a, e se não a
houveres de redimir, declara-mo, para que o saiba, pois
outro não há senão tu que a redima, e eu depois de ti”.
 A linguagem Eu-Tu destaca a tensão entre dois homens.
 A resposta é imediata e firme. "Eu a redimirei", diz o
anônimo.
 Só aí Boaz informa sobre a obrigação de casar com
Rute. Ao adiar essa informação, Boaz expõe o caráter
do outro remidor, que só queria remir por ganho
pessoal, aquisição de propriedade.
 Como ele se recusa a cumprir a obrigação de remidor,
o resultado está garantido para Rute e Boaz.

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Segue-se uma
antiga
cerimônia em
que dar uma
sandália
significa uma
transação de
resgate e troca.
Tão antigo é
esse costume
que o narrador
interrompe a
história para
explicá-lo
(4: 7-8).
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Cena 4: Capítulo 4 (continuação)
 Após a conclusão da cerimônia, o remidor desaparece da história.
Já que ele se recusou a "restaurar o nome dos mortos à sua
herança", ele mesmo não tem nome.
 O remidor aparece como o oposto de Elimeleque. Ao contrário de
Elimeleque, o remidor fala; ao contrário do remidor, Elimeleque tem
um nome. Como resultado, os dois homens oscilam entre a pessoa
(vida) e a não-pessoa (morte).
 Para Elimeleque, esse conflito é resolvido, por um lado, pela morte
física e, por outro, pela vida narrativa. Seu nome continua
aparecendo na história, de forma que sua ausência é presença,
sua morte é vida.
 Para o remidor, esse conflito se resolve, por um lado, pela vida
física e, por outro, pela morte narrativa. O remidor morre para a
história, a fim de viver para sua própria herança.
 Entre esses dois homens está Boaz com nome e fala. Ele fala com o
remidor e restaura o nome de Elimeleque. Ele é totalmente a vida
que os outros dois são parcialmente.
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Cena 4: Capítulo 4 (continuação)
 A reunião pública termina com a palavra do povo e dos
anciãos, enfatizando a fertilidade, a restauração de um
nome masculino e a continuação de uma linhagem
masculina tanto para os mortos quanto para os vivos.
 Boaz apresenta a situação dessas mulheres subordinando as
duas às prerrogativas masculinas - a compra de terras e a
restauração do nome dos mortos à sua herança. Ele fala
sobre manter aquela terra dentro da família de Elimeleque.
 “Para suscitar o nome do falecido sobre a sua herança."
Diante dos anciãos, Boaz cita isso como seu motivo para se
casar com Rute, embora sozinho com ela tenha prometido
casamento para "ser o remidor" por ela.
 Assim, em uma conversa privada com Rute, Boaz fez do
bem-estar dela seu único objeto de preocupação, mas em
uma discussão pública com os homens, ele fez de Rute o
meio para atingir um propósito masculino.
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Cena 4: Capítulo 4 (continuação)
 O silêncio das mulheres sobre a questão da
restauração do nome dos mortos sugere que elas
não compartilham dessa perspectiva masculina.
 Frequentemente, Naomi enfatiza a necessidade de
as jovens viúvas se casarem novamente, mas ela
nunca relaciona essa necessidade com o imperativo
de restaurar um nome masculino. Sua especulação
sobre um futuro marido e filhos para si mesma revela
preocupação com as noras, e não com o nome do
marido e dos filhos mortos.
 O esquema que Noemi propôs teve como objetivo
encontrar um lar para que Rute pudesse estar bem.
Em nenhum lugar, Noemi e Rute mencionam a
restauração de um nome masculino. Sua ênfase é a
vida para os vivos.
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Cena 4: Capítulo 4 (continuação)

Os eventos acontecem rapidamente. Após a


transação pública, segue-se imediatamente a
privacidade da relação sexual.
A Divindade intervém: “e o Senhor lhe fez
conceber“.
O dom da vida não reside nem no homem nem
na mulher; antes, é o transcendente presente
no imanente. Informados dessa perspectiva,
lemos a seguir que ela "deu à luz um filho ". A
relação sexual entre Rute e Boaz é em si uma
atividade divina.
Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 4: Capítulo 4 (continuação)
 Na celebração, só as mulheres estão presentes. O
advento de um neto transforma a morte em vida, o
vazio em plenitude. Mas a celebração é mais do que a
alegria de um menino. O significado dessa criança está
centrado em sua mãe, uma mulher estrangeira que
abandonou tudo para seguir Noemi.
 “Pois tua nora, que te ama, o deu à luz, e ela te é
melhor do que sete filhos”.
 O narrador (ou narradora) relata que Noemi pega a
criança, a abraça e se torna sua guardiã. A mulher do
vazio tornou-se a mulher da abundância. E Rute, a nora
fiel, é a mediadora dessa transformação para a vida.

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Cena 4: Capítulo 4 (continuação)

 As mulheres identificam o filho como filho de Noemi, em


vez de Elimeleque. Elas percebem que a criança
restaura a vida aos vivos, em vez de restaurar um nome
aos mortos. Elas falam de Rute em vez de Boaz.
 Essas mulheres se opõem aos anciãos. Cada grupo
interpretou os acontecimentos de acordo com seu
gênero.
 Uma história que começou no mais profundo desespero
abriu caminho para a integridade e o bem-estar. As
decisões corajosas e ousadas das mulheres incorporam
e realizam as bênçãos de Deus. Embora abençoador,
Deus não intervém com palavras ou milagres. A própria
luta humana é atividade divina.
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Conclusão
Essa história sugere uma interpretação teológica do
feminismo: mulheres trabalhando em sua própria salvação
com temor e tremor, pois é Deus quem opera nelas.
Noemi funciona como uma ponte entre tradição e
inovação. Ruth e as mulheres de Belém funcionam como
paradigmas para a radicalidade. Juntas, elas são
mulheres na cultura, mulheres contra a cultura e mulheres
transformadoras da cultura. O que eles refletem, elas
desafiam. E esse desafio é um legado de fé até hoje para
todos que têm ouvidos para ouvir as histórias das
mulheres no mundo dos homens.

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021
Referências
 Blue Letter Bible: Bible Search and Study Tools.
https://www.blueletterbible.org/

 BUSHNELL, Katharine Caroline. God’s Word To Women: 100 Bible Studies On


Woman’s Place In The Divine Economy. Oakland: University of California,
1923.

 SIMONIS, Johann; GESENIUS, Wilhelm. A List of the Proper Names ocurring in


the Old Testament with their interpretations, principally compiled from
Simonis and Gesenius. London: Longman, Brown, Green & Longmans,
Paternoster Row, 1844.

 TRIBLE, Phyllis. Two Women in a Man's World: A Reading of the Book of Ruth.
Soundings: An Interdisciplinary Journal, vol. 59, No. 3 (outono de 1976), pp.
251-279

Profa. Dra. Alessandra Castilho F. da Costa – Tópicos em Linguística Teórica e Descritiva – PPgEL/UFRN 2021