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O futuro é hoje: os 16 hábitos da mente na educação

Publicado em : 16/08/2019
 

 
O futuro é hoje: os hábitos da mente na
educação
 
 
por Laura L. Fitzpatrick, Priscila Torres e Thamila Zaher*
Texto adaptado
 
Para acompanhar mudanças e ensinar os futuros profissionais prosperar em um mundo volátil,
incerto, complexo e ambíguo (do acrônimo em inglês VUCA) — além de cada dia mais conectado e, ao
mesmo tempo, fragmentado —, a educação precisa mudar. E ela já mudou. O conhecimento de
conteúdos acadêmicos ainda é e sempre será importante, mas as habilidades socioemocionais estão
hoje no centro da revolução que ocorre na educação.
Desde 2002, Ritchhart participa do projeto Thinking Routines, que busca criar situações de
aprendizagem e estimular hábitos de pensamento em ambientes escolares. A partir das ideias do
projeto, os autores Bena Kallick e Arthur L. Costa desenvolveram o conceito Hábitos da Mente, um
método em que crianças são estimuladas a abandonar uma forma de pensamento fixa e adotar uma
mentalidade de crescimento. A premissa básica da metodologia é a existência de uma série de
comportamentos que os humanos utilizam para a resolução de problemas. Os estudos da
neurociência a respeito de pensamentos inteligentes comprovam que existe uma constância de
comportamento e uma forma de pensar observadas em todas as pessoas, de cientistas e empresários
a comerciantes e artistas.
Assim, emerge uma nova proposta de currículo socioemocional, trabalhado com foco nos dezesseis
hábitos da mente e transformando escolas em comunidades de aprendizado.
 
Os dezesseis hábitos da mente podem ser assim descritos:
 
1. Persistir: aderir e colocar mãos à obra; seguir até a conclusão; e manter-se focado.
2. Gerenciar a impulsividade: pensar antes de falar ou agir; permanecer calmo quando forçado
ou desafiado; manter-se reflexivo e atencioso quanto aos outros; e prosseguir com atenção.
3. Escutar com compreensão e empatia: prestar atenção e não descartar pensamentos,
sentimentos e ideias alheias; procurar colocar-se na perspectiva da outra pessoa; dizer aos
outros quando puder fazer relações com o que estão expressando; e manter os próprios
pensamentos a distância, para respeitar o ponto de vista e os sentimentos dos outros.
4. Pensar de maneira flexível: ser capaz de mudar a perspectiva; considerar a sugestão de
outros; gerar alternativas; e pesar opções.
5. Pensar sobre o pensar (metacognição): estar ciente de seus próprios pensamentos,
sentimentos, intenções e ações; saber que o fazemos e dizemos afeta os outros; e considerar o
impacto de cada escolha em mim e nos outros.
6. Buscar a precisão: verificar se há erros; medir e analisar pelo menos duas vezes; e ter desejo
de exatidão, fidelidade e precisão.
7. Questionar e levantar problemas; perguntar-se: “como eu posso saber?”; desenvolver uma
atitude de questionamento; considerar quais informações são necessárias; escolher estratégias
para obter essas informações; e considerar os obstáculos necessários para resolver problemas.
8. Aplicar conhecimentos prévios para novas situações: usar o que é aprendido; considerar o
conhecimento e a experiência anteriores; e aplicar conhecimento além da situação em que foi
aprendido.
9. Pensar e comunicar-se com clareza e precisão: esforçar-se para ser claro e preciso ao falar
e escrever; e evitar generalizações, distorções, minimizações e exclusões ao falar e escrever.
10. Reunir dados por meio de todos os sentidos: parar para observar o que vê; escutar o que
ouve; tomar nota daquilo que cheira; provar o que come; e sentir o que toca.
11. Criar, imaginar, inovar: pensar sobre como algo pode ser feito de forma diferente do
habitual; propor novas ideias; esforçar-se pela originalidade; e considerar as novas sugestões
que outros podem fazer.
12. Responder com curiosidade e fascinação: intrigar-se pela beleza do mundo, o poder da
natureza e a vastidão do universo; levar em conta o que é inspirador e pode tocar o coração;
abrir-se às pequenas e grandes surpresas na vida; e ver os outros e a si mesmo.
13. Assumir riscos responsáveis: dispor-se a tentar algo novo e diferente; considerar fazer
coisas que são seguras e saudáveis, mesmo que novas; e encarar o medo de cometer erros e
não deixar isso impedir a ação.
14. Encontrar humor: rir adequadamente; procurar o inédito, o absurdo, o irônico e o inesperado
na vida; e rir de si mesmo quando puder.
15. Pensar interdependentemente: dispor-se a trabalhar com os outros e acolher suas
contribuições e perspectivas; cumprir com as decisões que o grupo de trabalho realiza, mesmo
que discorde um pouco; e dispor-se a aprender com outros em situações recíprocas.
16. Permanecer aberto ao aprendizado contínuo: abrir-se a novas experiências para aprender;
manter-se orgulhoso e humilde o suficiente para admitir quando não se sabe algo; e abrir-se a
novas informações sobre todos os assuntos.
 
Trabalhando com os dezesseis hábitos da mente é possível desenvolver pessoas mais reflexivas em
suas ações e reações, alterando desde pequenas atitudes até posturas instintivamente mais
enraizadas. Os estudantes aprendem a iniciar suas jornadas com reflexão, raciocínio e ação.
Está em curso a valorização de uma nova cultura dentro da escola, de um paradigma pedagógico
atualizado e dinâmico capaz de incentivar a criatividade e a curiosidade inerentes aos seres humanos,
especialmente às crianças. Escolas no Brasil já fomentam essa revolução, trabalhando com o que
Ritchhart elencou como oito poderosas forças culturais que definem a sala de aula inovadora: tempo,
oportunidades, rotinas, linguagem, modelagem, interações, ambiente físico e expectativas.
Basicamente, o foco muda do ensino para o aprendizado, das tarefas baseadas em conteúdos
estáticos para o desenvolvimento do conhecimento multidisciplinar e socioemocional. No plano
pedagógico, tal postura ajuda as crianças a trabalharem em equipe e a desenvolverem habilidades
como liderança, pensamento crítico, espírito empreendedor e criatividade. No aspecto social, os
alunos aprimoram a empatia e ganham autonomia para trilhar seus próprios caminhos na vida
pessoal e profissional.
Distante de arcaísmos como a memorização e a simples reprodução de conteúdos, as escolas com
mentalidade inovadora estão interessadas em ensinar os alunos a produzir conhecimento. O atributo
crítico dos seres humanos inteligentes não é apenas ter a informação, mas saber como agir em posse
dela. Com o hábito da mente adequado, uma criança de hoje poderá ter a capacidade e a
desenvoltura para se comportar inteligentemente quando confrontada com os problemas do amanhã.
No mundo, não faltam problemas, mas pessoas aptas a resolvê-los, sim.
 
 
*Laura L. Fitzpatrick é autora do livro Words Glow, Minds Grow e educadora da North Broward
Preparatory School, na Flórida.
Priscila Torres é diretora-geral e acadêmica das Escolas Concept e membro do Comitê de Educação do
Grupo SEB.
Thamila Zaher é diretora executiva do Grupo SEB Educação e membro do Comitê de Educação do
Grupo SEB.
 
Disponível em:<https://hbrbr.uol.com.br/futuro-habitos-mente-educacao>. Acesso em: 13 ago.
2019.