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MINISTÉRIOS ECLESIAIS

(Na Igreja encarnada na Amazônia)


Pe. Ricardo Gonçalves Castro

Introdução
A consciência de uma Igreja ministerial na Amazônia é pontuada por marcos
históricos importantes da caminhada eclesial da América Latina e do Brasil. A
identidade eclesial da Ameríndia nasce com o Vaticano II e na sua imersão na
realidade pela Conferência de Medellin. As ondas de transformações e renovação da
vida eclesial só chegam na Amazônia com o Encontro de Santarém em 1972 que
define de uma vez o grande projeto de evangelização sintetizado na temática “Igreja
com rosto amazônico”. Para expressar o rosto amazônico no anúncio do Evangelho
de Jesus, a Igreja adota dois aspectos fundamentais: 1. Encarnação na realidade e 2.
Evangelização libertadora. Estas características se inserem nas diversas formas de
serviço pastoral: pastoral indígena, urbana, ribeirinha, formação do laicato,
comunidades e juventudes.
Ao assumir o projeto de Aparecida, a Igreja na Amazônia se torna discípula e
missionária, assumindo a formação de seus pastores e ministros e enviando-os em
missão ao mundo. Com a encíclica Laudato Sii do Papa Francisco e o anúncio do
Sínodo para a Amazônia, a Igreja acolhe o desafio de compreender e assumir em
todas as dimensões da vida eclesial a perspectiva da ecologia integral, como resposta
aos grandes problemas que afetam as comunidades cristãs.
Devido ao tempo e espaço limitado para um debate mais extenso sobre o tema,
seguiremos o seguinte procedimento. Primeiramente apontaremos alguns desafios
importantes da realidade eclesial, para a refletir sobre ministérios. Em seguida
apontaremos algumas propostas para responder aos desafios a vida ministerial da
Igreja neste contexto particular. Num terceiro passo, apontaremos alguns
fundamentos teológicos eclesiais para embasar nossas propostas.

1. Desafios à vida ministerial da Igreja na Amazônia


A Igreja no contexto atual da Amazônia sofre de limites, contradições e de um
escasso número de presbíteros. Apesar destas problemáticas, esta Igreja particular,
também se encontra num processo de amadurecimento de sua identidade eclesial.
Neste aspecto, em muitos contextos a Igreja assume uma autonomia criativa, com
uma forte e corresponsável participação dos leigos e leigas. Mulheres são as
principais agentes de pastoral assumindo diversos ministérios. O clero, devido uma
serie de dificuldades, não é o ator principal da estrutura pastoral, mas organizador,
facilitador e promotor de uma Igreja de comunhão e participação. Esta igreja com uma
forte participação dos leigos e leigas descobre um modo próprio de ser missionária,
de vivenciar a fé nos desafios constantes da vida na Amazônia. A Igreja da palha, do
“tapiri” procura em cada circunstâncias oferecer respostas criativas que podem
ensinar a igreja universal.
A partir de Santarém, a Igreja na Amazônia toma consciência de que sua ação
evangelizadora precisa levar em conta o desafio da pluralidade de culturas, etnias,
manifestações religiosas, biodiversidade, riquezas naturais, violência urbana, tráfico e
ameaça de destruição da natureza e da vida humana. Contudo, o projeto de
evangelização presente nos diversos documentos eclesiais, enfrenta problemáticas
desafiantes, como as grandes distancias, a falta de clero e a falta de formação
qualificada para leigos e leigas. É notório em muitas comunidades da Amazônia, a
falta de celebração eucarística. Muitas comunidades tanto no ambito urbano como
rural passam muito tempo sem a celebração eucarística, ponto de partida e de
chegada da missão.
O avanço das igrejas pentecostais é um fenômeno em toda a região Amazônica.
Historicamente, uma das mais importantes igrejas pentecostais se estabelece
primeiramente neste contexto, para depois se expandir para todo o Brasil. De alguma
forma, elas respondem a um vazio da presença mais eficaz da Igreja Católica. As
igrejas pentecostais, com estruturas mais leves, formação sucinta e rápida para as
lideranças locais, com uma narrativa bíblica que enfatiza milagres, cura de doenças,
oração em forma de êxtase e transe, transformam culturalmente e religiosamente a
identidade dos povos da Amazônia.
Ainda estamos por compreender mais profundamente os impactos que a
descatolização das comunidades rurais e urbanas, exercerá sobre as comunidades
indígenas, ribeirinhas, quilombolas, das estradas e da periferia dos grandes centros
urbanos. O que se percebe neste reavivamento espiritual, protagonizado também, por
certos setores pentecostais da igreja católica, é uma religiosidade de fortes
tendências metafísicas e agnóstica, onde prevalece o cuidado da alma, a ênfase
sobre o diabólico e o demoníaco, o poder miraculoso da oração, acompanhado de
exigência de uma vivência moralista que se centraliza na culpa e no pecado. Esta
vivência religiosa não favorece um compromisso com a transformação da realidade
sócio-política-econômica, fundada nos valores do evangelho, principalmente da
justiça e do amor ao próximo, elementos essenciais da evangelização. A vivência da
diakonia-serviço e de cuidado com a “casa comum” é substituída pelo “fuga mundis”
fundada pelo culto a líderes religiosos e políticos, cultos de transe e surtos catárticos.
A conquista por adeptos dessas igrejas gera uma realidade extremamente plural,
diversa e complexa que usa de estratégias e ferramentas sofisticadas de manipulação
de massa para convencer pessoas e grupos. Em muitos desses contextos religiosos
acontecem formas de violência e abusos principalmente contra mulheres e crianças.
A Igreja ministerial na Amazônia é desafiada a uma proximidade, presença e dinâmica
educativa que promova a participação mais ativa e responsável dos membros das
comunidades locais, conscientes do poder manipulativo de igrejas, religiões e meios
de comunicação, com uma profunda experiencia do Deus do Reino, anunciado por
Jesus Cristo, encarnado na história e na cultura dos povos, que escolheu os pobres e
é o cuidador da natureza.

2. Propostas Pastorais
Um aspecto fundamental para o serviço missionário na Igreja da Amazônia é a
formação teológica dos ministros ordenados e não ordenados. Que sejam mulheres e
homens á serviço da vida e não só do cuidado e manutenção institucional da Igreja.
Encarnados em seus territórios e em suas culturas para serem pontes e caminhos de
diálogo libertador, entre os desafios da realidade sofrida do povo, com a as
esperanças do Evangelho do Reino. Sejam mulheres e homens da escuta e do
diálogo, capazes de acolher as expressões de fé e os sinais do Reino de Deus
presente em cada povo que convida ao respeito e a descoberta do sagrado e da
Revelação do Deus de amor, presente também nas expressões de vida do mundo
natural e nos seres vivos.
A formação teológica de ministros e ministras será sempre um processo de
descoberta da manifestação de Deus presente na história e na criação (ecologia
integral), com a capacidade de usar da língua local, das conversas e dos fatos da vida
cotidiana para aprofundar e vivenciar a Palavra de Deus. Uma formação teológica que
discute poder – política nas diversas esferas da sociedade e também da
igreja/comunidade. Aberta aos ritos, rituais, símbolos e mitologias da Amazônia que
nos ajudem a ler e aprofundar a Revelação Cristã.
Os ministérios que devem se fazer presença nas comunidades da Amazônia precisam
ser ampliados e aprofundados. Ministérios principalmente relacionados com as
mulheres (Pastoral da Mulher) nas suas diversidades e necessidades e com a
ecologia integral. Como falar de ecologia integral e dos processos destruidores de um
sistema econômico e social que exclui e destrói a vida humana e natural e, ao mesmo
tempo, não incluirmos mulheres, indígenas e pessoas locais em nossa vida eclesial-
ministerial?
Nossas comunidades cristã católicas diversas clamam, pedem, exigem uma vida
sacramental satisfatória com os sacramentos essenciais para animar a vida, as lutas
e as resistências (batismo, eucaristia e matrimônio). A Igreja Universal e os nossos
padres sinodais precisam com urgência responder as exigências sacramentais do
povo de Deus na Amazônia, de modo criativo e inovador – abrindo espaço e
possibilidade para o que cada território e cultura da diversidade Amazônica viva a fé
de maneira significativa e encarnada neste chão.
Os ministérios da Igreja na Amazônia devem se imbuir de uma forte dimensão
profética principalmente contra todas as formas de violência presente em nossa
realidade que atinge principalmente as mulheres e a criação de Deus. Em unidade
com toda a Igreja da Ameríndia, os ministérios nas suas diversas expressões são o
modo mais concreto de manifestar a opção do Abbá de Jesus pelos pobres e do
cuidado com a criação.

3. Fundamentos Teológicos pastorais


Na Amazônia, a Igreja assume a partir do Concílio Vaticano II e do documento de
Santarém o desafio da encarnação do Evangelho, assumindo a perspectiva de uma
Igreja Povo de Deus, de comunhão e participação. A Igreja como sacramento, se
compõe das duas dimensões que se completam e se fundem, primeiramente a do
mistério da ação do Deus-Comunhão, e segundo das estruturas humanas e
históricas. Através da corporeidade eclesial dos seus membros e de suas estruturas,
a Igreja encarna e manifesta o mistério de Deus na história e nas culturas. É ao
mesmo tempo “koinonia” com Deus, com os irmãos e irmãs na comunidade, na
universalidade das Igrejas cristãs, no cuidado e na inclusão dos espaços de vida,
onde se vive a aventura humana e cristã.
Na tradição de Medellin e Puebla, os traços fundamentais da Igreja, que nasce do
próprio mistério de Deus é comunhão (koinonia, agape) e participação-serviço
(partilha e diakonia) tendo como meta a chegada do Reino e sua justiça. Os ministério
eclesiais manifestam concretamente essas dimensões da Igreja.
A Igreja na Amazônia tem vivenciado por um longo tempo os Ministérios da Palavra. A
Palavra que se faz carne na Amazônia se tornou o centro das celebrações dominicais,
das festas e da religiosidade do povo. A Palavra nas comunidades é escutada e
partilhada na Leitura Orante, Círculos Bíblicos, para discernir o projeto de Deus e
resistir contra os projetos destruidores da Criação. Em todas as celebrações há
sempre a necessidade de uma presidência litúrgica, na qual o Cristo é a presença
central, todas as ações celebrativas presididas por mulheres e homens de fé na
comunidade, o ministro (a) age in persona Christi. Precisamos avançar para uma
vivência mais profunda e engajada da Eucaristia, sacramento que promove a unidade
e a compreensão mais profunda da vida de serviço, libertação e luta por direitos
humanos, presentes na última ceia do Senhor.
A partir da encíclica Laudato sii e da convocação do Sínodo da Amazônia, a Igreja
tem como tarefa incluir em sua formação ao ministério a dimensão da ecologia
integral. Neste âmbito o cuidado com a natureza, territórios e povos são partes do
serviço diaconal das comunidades cristã. Ecologia integral e seus ministério devem se
preocupar de maneira contundente com a ecologia família (cuidado do ambiente
familiar principalmente de mulheres e crianças). Ministérios para uma ecologia integral
devem integrar na sua pauta de formação a ecoespiritualidade. Aprender a perceber a
presença de Deus na sua criação e no amor cuidadoso dos espaços de vida (nicho
ecológico) do qual fazem parte florestas, rios, plantas e animais. Mulheres são
cuidadoras da vida, a inclusão de sua percepção de vida, sabedorias e
espistemologias, são fundamentais para um ministério da ecologia integral.
Uma Igreja ministerial na Amazônia tem como base as culturas, tradições
religiosas e sabedorias indígenas. Para cuidar do jardim de vida Amazônico e
experimentar a presença de Deus na sua criação é necessário escutar e aprender
como ser povo de Deus na Amazônia

Bibliografia
CNBB, Discípulos Missionários na Amazônia, Brasília: CNBB, 2007.
REPAM, Documento Preparatório, Brasília: Repam, 2018.
PAPA FRANCISCO, Carta Encíclica ‘Laudato si’, São Paulo: Paulus & Loyola, 2015
CNBB, Igreja na Amazônia, memória e compromisso- Conclusões do Encontro de
Santarém 2012. In: CNBB, Desafios Missionário- Documento da Igreja na Amazônia-
Coletânea. Brasília: Edições CNBB, 2014.
CNBB, A Igreja se faz carne e arma sua tenda na Amazônia. In: GUIDOTTI,
Humberto; OLIVEIRA, José Aldemir (orgs), A Igreja Arma sua tenda na Amazônia,
Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 2000.
Compêndio do Vaticano II: Constituições, decretos e declarações, Rio de Janeiro:
Vozes, 2000.