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“Os outros eu conheci por ocioso acaso. A ti vim encontrar porque era preciso.

” -
Guimarães Rosa

Capítulo 01 - O Encontro
Sabe quando acontece uma coisa louca e você não tem ideia
nenhuma do que aconteceu?

Eu sou um mero desconhecido, então meu nome não importa a


princípio, não vai fazer diferença. Minha idade tão pouco será relevante
nesse momento, mas uma hora eu conto.

O que vocês precisam saber é que ele apareceu de repente. Eu


tinha acabado de sair do trabalho e estava indo para o metrô, não
entendi direito. Eu estava de fone, então não ouvi a primeira coisa que
ele me falou. Achei totalmente estranho, pensei que ele tinha esbarrado
sem querer, mas ele realmente estava falando comigo.

Ele era alto, cabelos castanhos, musculoso, com dentes brancos


num belo sorriso que abre qualquer porta fechada e olhos cor de mel,
definitivamente, o homem mais lindo que eu já vi na minha vida.

O tipo dele era totalmente incompatível com o meu. Infelizmente


no meio gay, a aparência conta e eu era só mais um nerd, magrelo de
cabelos cacheados que usa óculos.

Quando eu tirei o fone ele repetiu o que eu não tinha ouvido por
causa da música e da distração.

- Eu te amo.

"..."

WTF!!!!!!

Meu cérebro não conseguiu compreender.

Que palhaçada era aquela? Sério, eu engasguei. Eu estava no


meio da Avenida Paulista, saindo depois de um dia de trabalho na
livraria e aquele cara louco e muito lindo estava dizendo que me
amava?
Depois de cinco segundos de hesitação e perplexidade consegui
indagar.

- O quê?! - E o que mais eu poderia falar?

- Cara... eu te amo.

- Você é louco. - Tentei me desviar dele, já meio puto, mas ele se


colocou no meu caminho.

- Por favor, não vá embora.

- O que é isso? Uma pegadinha? Estou sendo filmado? Pegadinha


do Sílvio?

- Não. Eu, realmente, te amo. Eu sei que não nos conhecemos,


mas não tenho dúvida de que te amo.

- Cara, você está me incomodando com esse papo, vou precisar


chamar a polícia? - O curioso é que ele sustentava um sorriso
constrangido. Ele em nenhum momento encostou em mim, mantinha
uma distância suficiente para mostrar que não queria invadir o meu
espaço, mas era a mesma distância que dizia querer se aproximar de
mim.

- Me chamo Felipe. Eu sei que parece loucura, por favor, só me


escute. Você deve achar que sou um psicopata, um maníaco, a gente
sempre pensa nas piores coisas possíveis. Ninguém nunca está
preparado para isso. O que eu estou fazendo fere todas as convenções
sociais. Eu sei, é um absurdo. Eu... - ele ofegou, aquilo estava
começando a ganhar peso para ele, e ninguém nunca olhou tão fundo
nos meus olhos como ele estava fazendo. Mas aquela tática de flerte era
a mais falível de todas. Ele empacou no 'eu' e não conseguiu continuar.

Eu balancei a cabeça, dei um passo para o lado e fui para o


metrô. Dei uma olhada para trás e ele estava triste ao me ver partir. Ele
era realmente lindo. Não deixava nada a desejar para nenhum dos
galãs da Globo, Hollywood ou qualquer padrão estereotipado pela
sociedade como ideal de beleza de deus grego. Olhei mais uma vez e ele
continuava lá.

Não olhei mais. Segui o meu caminho. Porém não consegui


pensar em mais nada. Apenas nele. Quando eu passei o bilhete único e
atravessei a catraca da estação Brigadeiro, já estava com um gostinho
de arrependimento.

Mas o que dá na cabeça de alguém como ele? Eu nunca fui


exatamente bonito ou bonito no padrão que a sociedade exige que
sejamos. Capa de revista. Eu sempre usei óculos por causa do
astigmatismo. Meus cabelos pretos cacheados até que são bonitos, mas
meu corpo, esse nem se fala. Eu não tomava sol, pálido, pálido, pálido.
E nunca adiantou tomar tanto Biotônico Fontoura, sempre estive
abaixo do peso exigido para a minha idade.

Por isso foi a coisa mais absurda do mundo aquele cara me


abordar. Se eu contasse para alguém, provavelmente, as pessoas ririam
de mim, diriam que eu estava ficando louco por acreditar que um
estranho me parou no meio da avenida Paulista para dizer que me
amava. Esse tipo de coisa não acontece.

No caminho todo para casa não consegui pensar em outra coisa,


fiquei tão desconcertado que nem conseguia discernir as músicas que
tocavam aleatórias na minha playlist do Spotify.

Quando eu cheguei em casa já era quase meia-noite. Eu divido o


quarto com a minha irmã gêmea, Bruna. Eu estava tão perturbado com
tudo o que aconteceu, que não falei com ela e só ouvi ela perguntar.

- 'Tá tudo bem, Lui?

Olhei para ela e simplesmente não sabia o que responder. Depois


de uma leve hesitação, encarando um ponto ao fundo na parede atrás
dela só consegui responder.

- Sim.

Eu acordei no dia seguinte e o meu primeiro pensamento foi no


Felipe e então veio aquele gosto agridoce, meu primeiro pensamento
nos últimos seis meses eram sempre meu ex-namorado, e isso aqui
será minha única nota de rodapé para aquele babaca, passamos três
anos e três meses juntos e eu ainda estava me recuperando de todo
aquele fim conturbado, mas aquele moço conseguiu puxar os holofotes
daquela manhã para ele.
Provavelmente estava sob efeito de alguma droga, nunca se sabe.
Ninguém em sã consciência faria o que ele fez e, definitivamente, eu
nunca mais o veria.

Após o trabalho, quando estava saindo da livraria, eu me assustei


e travei. Lá estava ele na calçada com dois copos de café da Starbucks,
um em cada mão. Usava uma camiseta vermelha que realçava os seus
músculos, uma calça jeans e tênis casual. Era impecável no jeito de se
vestir.

Quando ele me viu, abriu um sorriso, aquele sorriso faria


qualquer vendedor dar descontos de 50% ou uma porção extra de
batatas no BK. Mas para mim, ele era uma pessoa louca e eu já assisti
vários filmes para saber que, provavelmente, ele estava pagando uma
aposta idiota que havia perdido para os seus amigos babacas que
gostavam de zombar de qualquer um que não esteja no mesmo
patamar que eles.

Eu fechei a cara e passei direto. Olhei uma vez da entrada do


metrô antes de descer a escada e ele continuava lá, parado olhando
para mim.

Dessa vez eu estava puto da vida. Será que deveria fazer um


boletim de ocorrência? Com quem eu falaria o que estava acontecendo?
Provavelmente agora era a hora de contar pra Bruna ou não?

Durante o percurso até em casa fiquei olhando o tempo todo para


trás, mas ele não me seguiu.

No outro dia, ele estava lá, me esperando com dois copos de café
na mão, sorrindo ao me ver, e no quarto dia, no quinto. Ele era
persistente. Mas foi no nono dia que eu realmente me sensibilizei.
Todos os dias desde o segundo dia ele estava no mesmo lugar me
esperando sair com dois copos de café na mão. Porém, no nono dia, vê-
lo embaixo de uma chuva torrencial de derrubar árvores, levar
cachorros e arrancar telhados de casas, me sensibilizou ao vê-lo
encharcado na calçada segurando aqueles dois copos de café.

Fiquei olhando para ele, pelo que me pareceu ter sido uns vinte
minutos, mas acho que não se passaram nem trinta segundos, eu abri
meu guarda-chuva e fui até ele. O tempo todo ele sorria e eu senti o
calor que emanava do seu corpo.
Olhei nos seus olhos. Por quê? E por que não? Então, lhe dei o
aval de que pelo menos poderia tentar se explicar.

- Me chamo Luiz.

Oi pra você que chegou aqui, obrigado por


acreditar nessa história que escrevo.
Não é fácil ser escritor no Brasil, mas quero
proporcionar uma história inesquecível.
Enquanto esse livro não virar filme, você pode
me seguir no Instagram:
@denesfernandoescritor.

O próximo capítulo é ‘O Café’, espero que


você goste.

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