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A Prática do Estado de Direito Democrático em

Moçambique
Problematização

Em  Moçambique, o Estado nasce em 1975, com a Independência do


país e existência de um texto legal escrito, ou seja, a Constituição da República
Popular de Moçambique (CRPM). É, no entanto, na Constituição da República
de 1990 que se introduz o Estado de Direito Democrático, pela inclusão clara
no texto fundamental dos direitos, liberdades e garantias fundamentais dos
cidadãos. Porém, a prática do Estado de Direito Democrático em Moçambique,
é segundo nossa análise um desafio, visto que não há separação entre o
Estado e o Governo no poder. O presidente da República é de acordo com o
artigo 145º da Constituição, Chefe do Estado, Chefe do Governo, Comandante-
Chefe das forças da defesa e serviços de segurança, conforme o nº 04 do
artigo 262º, assim como, presidente do partido, que dirige o governo no poder.
Entendemos desta forma que  os agentes das forças da defesa e segurança do
Estado, que ao abrigo  da lei se subordinam-se ao Presidente da República, ao
invés de proteger os cidadãos, agem em defesa dos interesses do partido que,
ao mesmo tempo, é governo no poder e Estado. Conforme o nº 2 do artigo
225º da Constituição da República de Moçambique de 2004, revista em 2018,
as nomeações do Presidente e Vice-Presidente do Tribunal Supremo, assim
como, do Presidente do Tribunal Administrativo, segundo o nº 2 do artigo 228º;
do Presidente do Conselho Constitucional, segundo a alínea a) do artigo 241º e
do Procurador e Vice-Procurador da República de acordo com o nº 1 do artigo
238º, são feitas pelo presidente da República. Isto  em nosso entender faz com
que os Tribunais e a Procuradoria da República não sejam efetivamente
independentes, para agir contra os ilícitos praticados por membros, seja do
Estado, do Governo, ou do partido no poder, tendo em conta a forma como os
seus representantes são nomeados para o exercício da função. Assim, em
nossa análise a Constituição moçambicana e, em vigor, é contraditória no que
diz respeito a separação de poderes, pois embora esta tenha sido estatuída no
artigo 134º, é o Presidente da República que concentra todos os poderes,
inibindo assim a liberdade dos diferentes órgãos de exercer o seu poder com
independência. Portanto a Constituição de Moçambique e, em vigor, é mais
política, ou seja, defende mais os interesses políticos do partido e do governo
no poder, para além de absorver muito a cultura ocidental. Neste sentido,
entendemos que não representa a vontade do povo moçambicano (individual
ou coletivamente) ou seja, não reflete os elementos fundamentais do povo
moçambicano na sua diversidade cultural e outras tendências coletivas
fundamentais de que se servem os cidadãos para se conduzir e que podiam
servir de base para a elaboração da Constituição, para que o povo se sinta
refletida nela.  Em nossa análise o cidadão moçambicano não é submetido
a igual tratamento, perante a lei. A justiça moçambicana é forte para os
fracos e fraca para os fortes.
Este estudo pretende analisar a prática do Estado de Direito
Democrático em Moçambique, ou seja, o respeito aos direitos, liberdades e
garantias fundamentais preconizados na Constituição da República de
Moçambique, procurando conhecer a génese do Estado de direito democrático
no seu contexto geral, compreender os elementos característicos do Estado de
direito democrático, por forma a poder situar o Estado de Direito Democrático
na Constituição de Moçambique, analisar a aplicação prática destas matérias
inseridas na Constituição da República de Moçambique , nas leis ordinárias
moçambicanas, para o benefício dos cidadãos.

II. O Contexto histórico geral

A luta histórica por um Estado de Direito, que teve como percursores os


filósofos gregos, é considerada por alguns autores ter tido início em Roma com
a instituição da Lei de Doze Tábuas (Lex Duodecim Tabularum) de 450 a.C. e
que preconizava a eliminação das diferenças de classe. Este instrumento é
reconhecido como uma das mais antigas legislações, que deu origem ao direito
romano, visto que contribuiu para a consolidação do princípio da legalidade,
com vista a impedir o autoritarismo. No entanto muitos autores são unânimes
em afirmar que é na Inglaterra, onde os primeiros sinais de Estado de Direito
foram positivados, através da Carta Magna de 1215, promovida pelos barões
ingleses contra os monarcas e que culminou na limitação de alguns dos seus
poderes, pela instituição de alguns direitos e liberdades, a introdução e
modificação do habeas corpus que, permitiu o devido processo legal, positivou
o direito e todas as gerações de direitos de que se fala hoje. Segundo vários
analistas, os movimentos revolucionários ingleses, que incluem a Carta
Magna de 1215, a Petition of Rights de 1628, a Bill of Rights de 1689, a
Revolução Puritana de 1649 e Gloriosa de 1688 catapultaram outros povos da
Europa e América na luta pelos seus direitos.

A Revolução Americana de 1776 que três anos mais tarde possibilitou


a United States Bill of Rights “Declaração dos Direitos dos Estados Unidos
(1789-1791)  proibindo, assim, o Congresso de fazer leis que violem entre
outros: o direito à vida, à livre consciência, à liberdade, à propriedade; a
Revolução Francesa de 1789, não só limitou os poderes dos Estados, como
também proclamou direitos e liberdades do homem, que deixa a partir de
então, de ser um simples individuo passando a ser considerado cidadão, com
direitos e liberdades. Estes movimentos revolucionários   trouxeram uma nova
era no campo dos direitos, pois criaram a base angular para a instituição do
Estado de direito, uma vez que de acordo com a análise de deferentes autores,
foi a partir deles que o Estado passa a ser visto como uma entidade que serve
ao povo, com base na observância da lei sendo esta a expressão da vontade
geral. O órgão da vontade geral passa a ser a assembleia dos representantes
da nação. A base da organização assenta-se no individualismo não havendo,
para o liberalismo, limite para a riqueza, nem a interferência do governo no
campo do trabalho. Desaparecem desta forma as classes, corporações,
privilégios. ficando assim o homem considerado cidadão, sujeito aos direitos e
deveres na sociedade a que está inserido. Nestes movimentos o surgimento do
Estado liberal é marcado pelo reflorescimento do ideal constitucionalista e é
caracterizado pela necessidade de constituições escritas. Embora os direitos
reivindicados nas revoluções liberais fossem para uma minoria, não deixa de
ser o indicio da liberdade do homem de que, mais tarde, todos vieram
beneficiar.  

O Estado de direito democrático é desta forma um conceito que


procura melhorar a sua conceção inicial defendida pelo liberalismo, de proteção
dos direitos de propriedade, acautelando não só esses direitos como também
defendendo, através da lei outros direitos fundamentais que garantem o
principio da dignidade humana, que significa reconhecer o ser humano
igual a nós próprios e por isso, tratá-lo com o respeito que desejamos ser
dados.

Costa (2014) afirma que a Declaração dos Direitos do Homem de 1789,


da revolução francesa, constituída de 17 artigos e um preâmbulo é considerada
por vários autores como a fundadora dos direitos cívicos, pois assegura não só
aos franceses, mas a todos os homens do mundo, o direito à liberdade. Esta
liberdade abre uma nova era de direitos ao impedir o livre arbítrio do poder
político. Portanto assegura os direitos civis, estabelecendo também os limites
desses direitos que com os os horrores perpetrados pelo nazismo contra o ser
humano, durante a 2ª guerra mundial, despertaram o sentimento das nações
do mundo sobre a necessidade da criação de um instrumento que pudesse
defender os direitos e liberdade fundamentais do homem, de forma universal.
Surge assim a Declaração Universal dos Direitos do Homem assinada
inicialmente, por 51 países membros da ONU como resultado dessa reflexão,
inspirada nos valores defendidos pelas revoluções anteriores, da América e da
Europa. O documento é indiscutivelmente reconhecido como o marco histórico
mundial da humanização de direitos liberdades garantias e integrador do
Estado e do Estado de Direito Democrático, no mundo.

Dallari (2000) define o Estado como sendo “a ordem jurídica soberana


que tem por fim o bem comum de um povo situado em determinado território”.
No sentido de direito, o Estado de direito significa aquele em que a lei é sua
base para a atuação, portanto, vigora a lei. No sentido de democracia, o Estado
democrático significa que as pessoas que exercem as funções do Estado são
eleitas por voto secreto.

Para kelsen (2006) o Estado de direito   é o sujeito artificial pela qual se
manifesta o poder do povo, submetendo a todos em igualdade de
circunstâncias (tanto governados como governantes), na observância da lei.
Em Moçambique embora o  Estado  tenha ratificado  o Pacto Internacional dos
Direitos Civis e Políticos em vigor desde 1991, com vista à abolição da pena de
morte, e a  Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis
Desumanas ou Degradantes de 1984[1], observância  destes preceitos
juridicos internacionais continua sendo um desafio, segundo vários relatórios
divulgados por diferentes plataformas da sociedade civil (Amnistia
Internacional, Liga Moçambicana dos Direitos Humanos, Ordem dos
Advogados de Moçambique, Bureau of Democracy, Human Rights and Labor
Country, Centro de Integridade Pública, etc.). No contexto da administração da
justiça, o sistema de administração da Justiça, conforme  vários analistas, não
oferece garantias de que as violações dos direitos e liberdades fundamentais
dos cidadãos serão penalizadas para quem as comete, independentemente do
seu estatuto político ou condição social.

III. Metodologia

Para a determinação da Prática do Estado de Direito Democrático em


Moçambique o estudo faz uma análise da História do Direito Democrático no
seu contexto geral, a análise da Constituições moçambicanas tendo em conta
de que as três Constituições moçambicanas são fruto de conflitos armados e
foram elaboradas e revistas, para atender os interesses do Estado e de
partidos políticos. o Estudo faz ainda a análise de relatórios e debates de
diferentes plataformas da Sociedade civil, sobre a matéria em estudo. Serão
feitas mais pesquisas junto as instituições que lidam com a matéria, em
particular a Assembleia da República, o Ministério da Justiça, os Tribunais, a
procuradoria da República, o Instituto de Patrocínio e Assistência Jurídica, a
Comissão Nacional de Direitos humanos, a Liga Moçambicana dos Direitos
Humanos, a Ordem dos Advogados, etc. através de, ferramentas de recolha de
dados da pesquisa. O presente estudo vai ainda analisar demais legislação
nacional, e internacional sobre a matéria. O estudo tem como principais
atividades previstas, para pesquisa: localização, estudo e análise da
documentação, fontes de dados e informações relevantes; Elaboração das
ferramentas de levantamento de dados; Envio do questionário às instituições e
singulares previamente identificadas, acompanhamento à distância do
preenchimento do questionário; entrevistas personalizadas. 

IV. A vigência do Estado de Direito Democrático em Moçambique

                                                                      
Moçambique tornou-se independente em 1975, tendo entrado em vigor a
primeira Constituição da República, que durou 15 anos. Em 1990 entrou em
vigor uma nova Constituição que contribuiu na alteração da ordem política,
social e económica do país e que veio a ser melhorada com a Constituição de
2004, revista em 2018. 

Pretendemos analisar como os diferentes textos


constitucionais contribuíram na formalização e consolidação do Estado de
Direito Democrático do país.

 
4.1 Constituição da República Popular de Moçambique(CPRM) de
1975

Nos títulos I e II deste texto fundamental, constavam de forma dispersa


e limitada um conjunto de direitos individuais que contemplavam os seguintes
postulados:

Igualdade de direitos e deveres de homens e mulheres em todos os


domínios, segundo o nº artigo 17º e 29º); igualdade de todos perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza (artigo 26º); a inviolabilidade de domicilio e de
correspondência (artigo 33º) o direito á liberdade de consciência (artigo 35º), de
opinião, de associação e reunião (artigo 27º). o direito à defesa e do devido
processo legal (artigo 35º) direito de votar e de ser eleito (artigo 26º), direito de
propriedade(12º) direito a educação e trabalho (artigo 31º), direito de asilo
(artigo 25º). A Constituição não incluía, no entanto, os direitos individuais mais
básicos que justificam a existência de todos outros direitos:  o direito à vida, à
integridade física, o direito a não ser torturado, o direito a não ser submetido a
tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. Em nosso entender, esta não
inclusão dos direitos acima mencionados pode ter tido outra motivação mais
profunda do que  se possa imaginar, pois analisando pelos objetivos
fundamentais estatuídos no artigo 4º do Titulo I o facto da Constituição ter
surgido como um culminar da luta que visava o estabelecimento de um Estado
Independente, a questão da defesa do território, da unificação do povo na
diversidade, da eliminação do colonialismo e imperialismo, em nossa análise,
constituíam os elementos angulares de auto afirmação do Estado. O cidadão
na sua singularidade não foi tomado como questão de primeiro plano. O acento
estava posto na coletividade, razão pela qual o individuo entanto que singular,
não constava nas prioridades legais da I República podendo por isso ser
sacrificado até com atos de tortura e morte, porque a noção de dignidade
humana estava, até certo ponto, diluída com a própria guerra que levou a
Independência e a guerra civil que surgiu logo a seguir a Independência e que
teve como uma das consequências  a degeneração total do tecido humano,
com a  introdução nas leis ordinárias  de penas degradantes (de morte em
1979 e de chicotada em 1980). Os princípios básicos da dignidade humana,
que, conforme a interpretação do artigo 5º da Carta Africana (1991) significa
“o direito de não ser torturado, violentado, espancado chicoteado ou
vergastado”, não foram devidamente inseridos ou mesmo, observados na
Constituição da República Popular de 1975.

4.2. Análise da Constituição da República de 1990

A Constituição da República de 1990, que também surge numa


situação de luta armada, (guerra civil) introduziu o Estado de Direito
Democrático alicerçada na separação e interdependência de poderes e no
pluralismo político. Esta separação de poderes em nosso entender marcou o
principio de liberdade política, no país.

No dizer de Montesquieu (1993) “a liberdade política só existe nos


governos moderados. Esta liberdade significa o direito de fazer tudo o que a lei
permite e, existe quando não se verifica abuso de poder. Portanto, esta
afirmação do autor em nosso entender só se concretiza quando o poder limita o
poder, separando o poder de julgar, com o poder de executar e o de legislar,
pois quando numa mesma pessoa o poder legislativo está reunido no poder
executivo não existe liberdade, tão pouco existe liberdade se o poder de julgar
não for separado do poder legislativo e do executivo.  Na Constituição de
Moçambique  o poder foi limitado pela separação dos órgãos de soberania.
[1] O Título I da Constituição, define os princípios fundamentais que regem a
República de Moçambique. No Título II, a Constituição dedica 40 artigos, que
vão desde o artigo 66º a 106º, sobre os direitos e garantias fundamentais,
numa alusão clara de ampliação de declaração de direitos, já que na
Constituição de 1975, apenas constavam 10 artigos, sobre esta matéria. Na
nova Constituição em análise, portanto de 1990, há uma inovação no campo de
direitos dos cidadãos e dos direitos humanos no geral, visto que se demonstra
a partir dos direitos, liberdades e garantias estabelecidas, que o Estado existe
para servir ao homem e não o homem ao Estado circunscrevendo-se assim
legalmente num Estado de Direito. O texto constitucional apresenta um
conjunto de direitos e que foram enquadrados nos princípios fundamentais,
pertencentes ao Titulo I e II e subdivididos em várias subcategorias e capítulos.
Assim no Capitulo I do Titulo I referente aos Princípios Fundamentais é
indicada a forma do Governo que é a República, onde os artigos 1º e 2º
preconizam que a República de Moçambique é um Estado independente,
soberano, democrático e de justiça social; a soberania reside no povo que a
exerce segundo as formas fixadas na Constituição. O Capitulo III do Titulo I
preconiza o regime político democrático representativo, ao estabelecer nos
artigos 30º e 31º que o povo moçambicano exerce o poder político através do
sufrágio universal direto, secreto e periódico para a escolha dos seus
representantes, por referendo sobre grandes questões nacionais e pela
permanente participação democrática dos cidadãos na vida da Nação; os
partidos expressam o pluralismo politico, concorrem para a formação e
manifestação da vontade popular e são instrumento fundamental para
participação democrática dos cidadãos na vida da Nação[2]. O preceituado nos
artigos 30º e 31º da Constituição propiciou a realização das primeiras eleições
gerais democráticas em 1994, concretizando, assim o Estado moçambicano, a
um Estado Democrático. O Titulo II do texto constitucional sedimenta os
valores fundamentais da democracia preceituados no Capitulo III,
concretamente nos artigos 30º e 31º, ao estabelecer os direitos, deveres e
liberdades fundamentais. As liberdades também chamadas de direitos
individuais, foram subdivididas sob ponto de vista político cívico, social e
económico. Sob ponto de vista político através do voto, do sufrágio universal, o
cidadão  exerce o seu direito de soberania popular, estatuída no artigo 2º  e
pormenorizada nos artigos seguintes que  estabelecem que “os cidadãos
maiores de dezoito anos têm o direito de votar e de ser eleitos ; a eleição dos
órgãos representativos  do Estado, através do sufrágio  universal, direto,
secreto, pessoal e periódico”, abrindo desta forma espaço para a participação
popular na governação do país[3]. Sob ponto de vista cívico neste novo texto
fundamental o Estado introduz os direitos de dignidade pessoal e amplia os já
estabelecidos, garantindo desta forma: “o direito à vida, à integridade física,
proibição  da tortura, tratamentos cruéis  ou desumanos ; proibição  da pena de
morte; O direito à honra, ao bom nome, à reputação  da sua imagem pública e
à reserva da sua vida privada” [4].

Os direitos de liberdade que no anterior texto constitucional estavam


previstos num único artigo e limitados somente a liberdade de opinião,
associação e reunião, foram alargados e incorporados novas matérias tais
como: o Artigo 74º  que previa o pluralismo de informação, criando assim
condições para a elaboração e aprovação da Lei de imprensa, em 1991 e que
contribuiu bastante, para a abertura de canais de informação privados, com 
jornalistas independentes, assim como a o surgimento de massa crítica que
influenciou na  abertura das mentes dos cidadãos através de acesso à fontes  e
meios de  informação  diversificados e imparciais. A nosso ver, o direito à
liberdade de expressão, de imprensa e de informação, significou uma grande
conquista para os cidadãos, visto que criou condições para o acesso à
informação, possibilitando assim a diversidade de opiniões e
consequentemente melhores formas interventivas da sociedade, de articular de
forma eficaz ideias e desejos e de ser parte ativa, nas decisões que interessam
à coletividade. A liberdade de expressão foi reforçada em 1991 com a
assinatura da Declaração de Windhoek, (de 03 de Maio de 1991) que apela a
liberdade de imprensa, guiando-se pelo artigo 19º da Declaração Universal dos
Direitos Humanos, que preconiza o estabelecimento, manutenção e promoção
de uma imprensa livre, independente, pluralista e livre como a garantia para a
execução plena da democracia. Ao rol dos valores fundamentais da
democracia, a Constituição preconiza que:

Todos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos


mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, sem
distinção de cor, raça, sexo, origem étnica, lugar de nascimento,
religião, grau de instrução, posição social, estado civil dos pais,
profissão. O homem e a mulher são iguais perante a lei, em todos os
domínios da vida politica, económica, social e cultural[5].

Ao consagrar o principio da igualdade, atinge-se assim o preceito


universal de proibição de qualquer tipo de descriminação cumprindo desta
forma os valores supremos de igualdade para todos os homens preceituado na
Declaração Universal dos Direitos do Homem e em outros documentos
internacionais e regionais sobre direitos humanos.Sob ponto de vista social e
económico os valores democráticos foram consagrados e garantem
respetivamente: “O direito à propriedade, à herança, ao trabalho, à livre
escolha da profissão, a remuneração justa, à proteção e segurança no
trabalho, o direito de acesso à educação, assistência médica e sanitária, o
direito de assistência em caso de incapacidade e na velhice[6]”. O Estado, ao
garantir o direito à propriedade aos cidadãos, criou condições á estabilidade
social e fortalecimento das famílias, pela fixação definitiva em lugares optados
e no caso das famílias que se dedicam a agricultura, este preceituado,
contribuiu para a diminuição do êxodo rural, pela fixação definitiva em “sua”
terra, com a garantia de indemnização em caso de  desapropriação pelo
Estado, por necessidade ou utilidade pública. A consagração do direito à
herança completa o direito de propriedade, visto que a herança é um
património sucedário e configura-se como meio de complemento e subsistência
familiar. O acesso à educação como um direito social preconizado na
Constituição, trouxe uma mais valia aos cidadãos, ao garantir o acesso gratuito
a todos, ao ensino básico e a alfabetização, o que possibilitou a difusão da
cultura, permitindo a abertura das mentes dos cidadãos, para que sejam
capazes de julgar o que é melhor e desta forma evitar o risco de ser
doutrinados, por ideologias políticas ou propaganda enganosa. O direito ao
pluralismo político é enquadrado dentro dos direitos, deveres e liberdades
fundamentais, garantindo-se assim a criação, e adesão aos partidos políticos.
O pluralismo político criou condições para o surgimento de mais partidos
políticos com a possibilidade de emitir suas opiniões sobre os atos do governo
e da administração, assim como apresentar suas propostas alternativas de
governação e participar nas eleições democráticas. O Estado deixa assim de
ser monopartidária, com a entrada de mais partidos na cena politica do país. O
artigo 78º que previa o pluralismo religioso abriu espaço para a tolerância
religiosa contribuindo assim para o desenvolvimento da moral e da ética em
Moçambique. Portanto os direitos cívicos, políticos, económicos, sociais e
culturais foram, duma forma geral alargados abrindo assim espaço para a
promoção da cidadania no país.[7]  A  separação  de poderes do Estado
estatuída no artigo 109º,  concretiza aquilo que Montesquieu (1993) defende
em sua obra,” O Espirito das Leis” segundo a qual, a  liberdade política só
existe  quando não se verifica o abuso do poder”, ou seja, com a separação de
poderes capaz de limitar o poder de acção do outro poder.

Pinho e Nascimento (1991) afirmam que a teoria de Montesquieu,


embora em sua forma tradicional tenha sofrido alguma oposição, a essência
das suas ideias prevalece até aos dias de hoje, nas Constituições
democráticas.

4.3. Análise da Constituição da República de 2004, revista em


2018.

O preâmbulo do texto constitucional, dá indicações claras do


estabelecimento do Estado de Direito Democrático, iniciado com o texto legal
de 1990. O Titulo I, que estatui sobre os princípios fundamentais, reafirma no
artigo 1º os princípios democráticos preconizados na Constituição de 1990 e
ampliou a redação sobre os princípios do Estado de direito democrático, ao
dedicar os artigos 2º a 4º sobre a soberania e legalidade do Estado; Estado de
Direito democrático e pluralismo jurídico.  O artigo 11º, que preconiza sobre os
objetivos fundamentais do Estado, define nas alíneas e) e f) respetivamente “a
defesa e a promoção dos direitos humanos e da igualdade dos cidadãos
perante a lei; o reforço da democracia, da liberdade, da estabilidade social e da
harmonia social e individual”. O Titulo III que estabelece sobre os direitos,
deveres e liberdades fundamentais, ampliou estes conceitos distribuindo-os em
cinco capítulos, com um total de 59 artigos, portanto um acréscimo de mais 19
artigos que o texto legal anterior. A estatuição e ampliação destes direitos
cívicos,políticos económicos e sociais, conjugados com os princípios de
separação e interdependência de poderes preconizados no artigo 133º, da
atual lei mãe configuram, sem margem de dúvidas, os traços fundamentais do
regime de direito democrático do Estado moçambicano.

Conforme sustenta Gouveia (2015, p. 259):                                                                       


A caracterização de Moçambique como um Estado de Direito Democrático se
obtém, sem qualquer                          hesitação através da análise da prática
politica de todo este percurso da II República (…) desde então a                     
experiência democrática tem amadurecido não apenas com a multiplicação das
formações partidárias, como             também pelo alargamento do principio
eletivo as assembleias provinciais e aos órgãos autárquicos já com                 
diversas eleições efetuadas.

Segundo nosso entendimento os traços característicos do regime de


Direito Democrático  elencados na  Constituição em vigor são: Estado
democrático e de justiça social, significando que as ações do Estado devem
sempre ter em conta, o respeito e a satisfação dos interesses da coletividade; a
soberania que reside no povo e  que o faz através do voto, para a escolha dos
seus representantes; a subordinação do Estado à Constituição e a atuação dos
seus representantes com base  na legalidade; a Constituição considerada
como a lei suprema de todas as leis do país; a garantia dos direitos e
liberdades fundamentais aos cidadãos; o pluralismo politico e jurídico e a
separação e interdependência de poderes, Executivo, legislativo e judiciário.

Conclusão

A liberdade política e os direitos e liberdades fundamentais, são


elementos indissociáveis para a construção de uma sociedade que respeita os
direitos humanos e, portanto, de um Estado de direito democrático. Um Estado
que não respeita os direitos e liberdades fundamentais dos indivíduos, por mais
que formal e politicamente se defina como um Estado de Direito Democrático é
um Estado absolutista ou autoritário. Assim, da análise que se faz aos textos
constitucionais moçambicanos, em particular a Constituição em vigor, de 2004
revista em 2018, conclui-se que formalmente há elementos que configuram o
Estado de Direito Democrático em Moçambique. No entanto, sua prática ainda
é um desafio, visto que as instituições de defesa, segurança e justiça, por
estarem, por força da lei mãe, subordinadas ao Presidente da República, que
ao mesmo tempo é chefe do Estado e Presidente do partido no poder, no
nosso entendimento não são totalmente democráticas. Por isso, para a
efetivação do Estado de Direito democrático em Moçambique há necessidade
de  reformular os nºs 02 dos artigos 225º e 228º; nº 1 do artigo 238º; a alínea a)
do artigo 241º, que preconizam a nomeação de presidentes dos tribunais
Supremo, Administrativo e Presidente do Conselho Constitucional
respetivamente, pelo presidente da República, passando estes a ser
nomeados, como acontece em sociedades  que respeitam e observam  o
Estado de Direito, pelo Conselho colegial de juízes da magistratura judicial ou
outro órgão independente. Há também necessidade de reformular o nº 04 do
artigo 262º da Constituição que preconiza que o Presidente da República é o
Comandante Chefe das forças de defesa e serviços de segurança do Estado,
por este ser ao mesmo tempo presidente do partido no poder. Somos
favoráveis a inclusão no texto constitucional de elementos culturais
representativos de cada região, tendo em conta que o povo moçambicano é
constituído por várias nações (cultura, tradição, língua materna, etc.) distintas.

Bibliografia

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International Publications.  London.
2.  Costa Fernando Nogueira Da. Revolução Francesa: Liberdade,
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em: www.fernandonogueiracosta.wordpress.com.
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Estado. (21ª ed). São Paulo:  Saraiva Editora.
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Constitucional Brasileiro. Rio de Janeiro. Editora Forense.
5. Fuhrer, Maximilianus C.A.  MILARÉ, Edis (1993). Manual de Direito
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Editora.
6. Gouveia, Jorge Bacelar. (2015). Direito Constitucional de
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7. Montesquieu, Charles de Secondat Baron de (1993) O Espirito das
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9. Pinho, Ruy Rebello. NASCIMENTO Amauri Mascaro
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10. (17ª edição). São Paulo. Editora Atlas.
11. kelsen, Hans. (2006). Teoria Pura do Direito. 7ª.edição, Editora Martins
Fontes
12. REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE.  Constituição da República Popular
de Moçambique. 1975. Disponível em. www.portaldogoverno.gov.mz .
Acesso em 24/11/2019.
13. _______________________. Constituição da República de
Moçambique. 1990. Maputo. Boletim da Republica. 1ª série. nº 44, de
02 de Novembro.
14. _______________________. Constituição da República de
Moçambique 2018. Editora Escolar. Maputo.
 

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