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SwastikA

Um
Hermann sabia para onde estava sendo enviado, e não se podia dizer
que ele estava satisfeito. Evitara demonstrar sua insatisfação na frente de seus
superiores, mas a muito custo. Havia feito o máximo para manter impassível,
rosto sério e olhos firmes, acenando a cabeça em sinal de concordância às
ordens do comandante. Encarava o olhar deste, lembrava-se: Olhos claros, de
um azul-cinzento, severos. Olhos de um homem que não aceitaria um “Não”. E
de certo o novato não o daria.

Sim, sim, sem problema – iria à Washington, servir com um esquadrão.


Não havia problema nenhum, arrumaria suas malas e pegaria o avião – ou
seria um helicóptero? – e iria servir em outro país. Sim, sabia inglês. Talvez
não fosse totalmente fluente, não ainda, mas de certo sabia o bastante para
manter uma conversação decente. Não que fosse precisar do inglês com
freqüência – qualquer um com quem precisasse manter uma conversa mais
longa de certa seria versado o suficiente para falar alemão.

Agora que caminhava, de um lado para o outro, pensava neste encontro


com seu comandante. Não quisera deixar transparecer em sua fala o fato de
que não tinha a menor vontade de ir servir em Washington. Talvez houvesse
deixado uma nota de discordância passar por suas defesas, mas o
comandante parecia contente: Provavelmente não percebera nada. Ótimo.
Seria só arrumar suas coisas e partir de fato – talvez retornasse em breve,
coletando experiências do exterior para dividir com seus colegas. Talvez.

Não é como se não gostasse de viajar. Podia-se dizer – e muitos viriam


a dizer, de fato – que Herman Wahnsinn tinha um espírito aventureiro, ávido
por experiências. Um destemido, um caçador. E sim, eles estariam certos:
Hermann seria um caçador, e um caçador brutal. No futuro. Mas não àquela
altura, não naquele lugar. Era muito novo – completara vinte e dois anos havia
não muito tempo – e não tinha experiência o suficiente para se considerar um
caçador. Estava em sua zona de conforto. Preferia, sem sombra de dúvida,
servir em sua terra natal, aquela cujas cidades principais conhecia como cada
traço das palmas de suas mãos. Servir junto a seus colegas, que por lá
ficariam, mesmo que ele tivesse que partir. Servir à nação-mãe.

Servir ao Reich.

Mas não dessa vez, Hermann. Desta vez você vai ter de realizar um
pequeno trabalho em Washington. Sim, comandante.

Não havia muito tempo que havia ingressado nas fileiras da


Schutzstaffel. Não havia muito tempo que havia vestido o uniforme preto pela
primeira vez, colocado a braçadeira vermelha com a cruz-gamada no braço
esquerdo. O tinha feito com orgulho, contente por finalmente estar sendo útil ao
Reich, servir à imagem e ao ideal que a imagem do Führer representava.
Podia-se imaginar subindo nível a nível na hierarquia da SS, adicionando listras
à sua braçadeira, recebendo medalhas de seus superiores. Ascender até o
ponto no qual fosse superior a seus atuais comandantes, e o constataria com
desdém. Sonhos.

Sonhos e devaneios de um jovem militar.

Entretanto, nesses devaneios, o imaginava cumprindo cada uma dessas


metas enquanto em solo alemão. Na sua própria pátria, cuidando de seu
próprio povo, zelando pelos seus líderes. Não em uma terra estrangeira, do
outro lado do mundo. Nas Américas. Mas teria de partir, cuidar de uma nação
mista (ah, mas não por muito tempo, o Reich vai garantir que não!), conferir
todos os pormenores, protegê-los da ameaça vermelha que cada vez se
aproximava mais pelo oeste.

E Hermann não queria ter de fazer isso. Não ainda.

Mas ele concordara em partir - afinal, quem era ele para questionar a
decisão de seus líderes? Seria como questionar a decisão do próprio
Goebbels. E isso seria inadmissível, por mais frustrado que poderia estar. Teria
de fazer sua escalada nas terras de Washington.

Não importava, sua frustração teria de ficar em segundo plano – afinal


de contas, era para o bem do Reich.

E o Reich era o mais importante.

O Reich, oh, o absoluto Reich!

E logo estava pronto para partir, no dia seguinte a ter recebido tais
ordens de seus superiores. Caminhava pesarosamente, carregando malas
surpreendentemente pesadas: Uma em suas costas, uma mochila comum,
aonde carregava suprimentos normais; e outra levada nos braços, nos quais
agora os músculos gritavam em agonia, em cansaço. Para a felicidade do
alemão, entretanto, não precisara nem precisaria agüentar tal peso por muito
tempo. Sven o havia deixado o mais próximo a base do que lhe fora permitido,
lhe desejando “boa sorte na América, rapaz”. A isto Hermann apenas
respondeu com um sorriso e um agradecimento. Não se incomodou em
despedir-se: detestava despedidas, os únicos momentos em que acabava
fraquejando, abaixando suas defesas mentais.

Adentrara a base sem demorar-se, se identificando com os seguranças


postos à frente. Obviamente, deviam barrar a entrada de civis e pessoal não
autorizado, em geral. Enquanto caminhava na direção do posto do qual sairia
seu transporte, Hermann observava as instalações ao seu redor. A bandeira do
Reich estava hasteada, à alturas aonde poderia ser vista por qualquer pessoa
dentro da instalação. Aquela bandeira, vermelha com o típico símbolo que
representava a hegemonia ariana sobre qualquer parte do mundo: A cruz
gamada preta sobre o disco branco, na bandeira vermelha.

Oh, a suástica.

Sorriu ao ver a bandeira balançando alegremente sobre a ação do vento,


e continuara a caminhada, em direção ao hangar, olhando ocasionalmente
para o céu nublado. Esperava que não fossem enfrentar um vôo muito
complexo; não gostaria de uma desventura já antes de chegarem a
Washington. Hermann andava com dificuldade, passo após passo, respirando
pesado enquanto levava sua bagagem – e, oh meu Führer, quanta bagagem –
ao cargueiro que os levaria. Se algum de seus colegas passasse ao seu lado
naquele momento, tiraria sarro com a sua suposta fraqueza. A isto ele somente
responderia com o mais cordial dedo médio que conseguisse mostrar, rindo.

Mas não havia nenhum colega por perto, e certamente não haveria. Já
estava entrando no hangar, passando por suas portas metálicas e geladas, e
teve sua primeira visualização do avião.

O cargueiro encontrava-se parado no meio da plataforma, suas placas


de metal à mostra. Parecia já ter alguns anos, e anos longos. Não estava muito
bem cuidado, pela aparência externa, com alguns trechos mais escuros,
manchas do mal-cuido a mostra em seu casco. Seu motor, seja lá pelo que
fosse movido, fazia um barulho agonizante de turbinas. Se ficasse muito tempo
exposto aquele barulho, Hermann tinha certeza de que perderia pelo menos
dois terços de sua audição. Para sua satisfação, se conhecia bem os aviões –
e poderia afirmar isso, já havia lido muito a respeito de aeronáutica – no seu
interior o barulho seria amenizado.

Continuou caminhando, mochila nas costas, mala nos braços, passo


após passo, até chegar ao seu objetivo. Um homem alto, de cabelos grisalhos
e curtos, olhos claros emanando desprezo, esperava à porta do cargueiro. De
longe, podia ver o senhor tossindo esporadicamente, como se sofresse de um
resfriado. Ele trajava um uniforme escuro e cinzento – já fora preto antes. Havia
sido castigado pelo tempo e experiência, assim como o senhor de cabelos
grisalhos que agora observava Hermann se aproximar com a mesma
expressão de desprezo no rosto.

O novo agente se aproximou do senhor, e próximo a ele reparava nas


cicatrizes que levava consigo. Uma perto do olho esquerdo, uma atravessando
as bochechas. Outras no queixo, na região do pescoço. Provavelmente
encontraria uma ou mais marcas de bala no resto de seu corpo, se ele pudesse
examinar o resto do corpo do senhor. Não teria oportunidade para isso.
– Nome? – o senhor perguntou, sua voz grave e sua expressão severa.
Hermann soube, a partir do momento que o vira, que aquele não era um
homem com quem deve-se fazer brincadeiras e piadas.

– Wahnsinn, senhor. Hermann Wahnsinn. – apresentou-se, mantendo a


mesma expressão impassível que dera à frente de seu comandante. Se
falhasse com a expressão ali, ele pensou, aquele senhor provavelmente o
pegaria, ao contrário do outro.

– Entre. – disse o senhor, no tom desprovido de emoção ou sentimento


que parecia ser seu padrão.

O Sr. Wahnsinn concordou, com um aceno de cabeça, e subiu a rampa


do cargueiro. Pam, pam, pam, sons de passos contra o metal. Não gostava
daquele som, tinha um tipo de tique nervoso com aquele ruído em especial.
Metal contra metal, passos contra o metal – como se alguém arranhasse o
quadro-negro. Um arrepio, vontade de tampar os ouvidos.

O cargueiro era ligeiramente apertado. Conseguia ficar de pé


perfeitamente, mas não poderia dar-se ao luxo de espreguiçar-se enquanto lá
dentro, se estivesse de pé. Não que fosse muito alto, de qualquer jeito – àquela
altura da vida estava com um metro e oitenta centímetros. Conhecia gente
mais alta, conhecia gente mais baixa. Na média, sem problemas – era da etnia
certa, não importava a sua altura. Um alemão perfeitamente puro.

Colocou suas malas em um canto reservado para isto, aonde várias


outras malas e mochilas repousavam em silêncio. Ao fazê-lo, sentiu-se no
mínimo três vezes mais leve, como se tivesse acabado de sair de uma intensa
sessão de relaxamento, e aquele inexplicável sentimento de alegria que sentia-
se ao descansar o dominou. Sentiu vontade de se espreguiçar, mas o espaço
limitado não o deixaria – esticou os braços, portanto, estalando os ossos com
uma expressão satisfeita no rosto limpo.

Olhou ao redor para constatar a presença de um pequeno grupo de


homens o encarando, Todos estavam vestidos da mesma maneira, uniformes
pretos, imponentes. Típica vestimenta da Schutzstaffel, criada para impor
respeito e medo a qualquer civil que transitasse próximo a um deles. E este
medo não era infundado – não mexa com um agente da SS.

Não se quiser ter as feições do rosto bonitas o suficiente para um


casamento respeitável.

Assim como eles estavam vestindo os uniformes com seus adornos


prateados, tanto Hermann quanto o senhor que lhe esperara do lado de fora do
cargueiro usavam similares. O do senhor, entretanto, aparentava ser um
exemplar um pouco mais antigo, desbotado pela ação dos anos. Talvez viesse
a conseguir um novo não muito tempo depois, talvez.
Aqueles uniformes, novos ou velhos, eram muito bonitos, na opinião de
Hermann. Desde a época de Hitler, sempre que conseguia de relance ver
alguma foto ou filmagem de alguma coisa envolvendo os nazistas, procurava
encontrar um oficial ou dois da SS. Só para admirar o uniforme e seu
significado. O escuro, o forte escuro. “Temam”. Temam o poder do Reich.

Todos temem o poder do Reich. O Führer e o Reich tudo podem, tudo


puderam e tudo poderão.

O mundo é do Reich.

Hermann se aproximou dos outros oficiais. Alguns mantinham um


semblante sério, outros possuíam um tom debochado enquanto observavam o
novato se aproximar, tomando notas de sua aparência. Seus cabelos
castanhos e claros – quase louros – bem cortados, seus olhos claros e verdes.
Os agentes pareciam se conhecer, Hermann constatou. Estavam próximos uns
dos outros, posicionados como se fossem amigos havia tempos, trocavam
olhares de companheirismo.

Um deles sorriu para Hermann – um sorriso verdadeiramente sincero,


não como o sorriso debochado que alguns ainda mantinham – e apresentou
um a um, apontando para o novato seus novos colegas de batalhão. Heinrich,
Friedrich, Klaus, Wilhelm. Cada um deles escalado para realizar suas tarefas
em Washington, assim como Hermann. Ao contrário deste, entretanto, tinham
um diferencial: já eram de um mesmo grupo, um mesmo batalhão, ao contrário
do novato. Não que Hermann tivesse passado muito tempo em seu primeiro –
e até cinco minutos antes, único – grupo, mas sentiu-se um estranho no ninho
ao receber esta informação.

– E por que acha que teriam me escolhido para isso? –á perguntou o


novato, desorientado.

– Não sei, não entendo como pensam os oficiais lá de cima – disse


Friedrich, o simpático, rindo um pouco. Estava sorrindo na maior parte do
tempo, e ele viria a perceber isso, mas por enquanto apenas constatava com
admiração os dentes a mostra do oficial – Mas não vou fazer perguntas. Você
sabe que ultimamente a melhor coisa a se fazer é ficar de boca calada.

Hermann sabia disso, e concordou com um aceno melancólico de


cabeça. Não faça perguntas, apenas faça o que lhe é pedido.

O cargueiro começou a fazer barulhos, denotando a partida breve. Ele


olhou em direção à porta, para ver o homem de cabelos grisalhos entrando
para o interior do cargueiro. Friedrich comentou, sussurrando, que aqueles era
o novo comandante. E, pelo o que diziam as más línguas do baixo-escalão da
equipe, ele não era nem um pouco simpático.
Hermann engoliu em seco mentalmente, desviando o olhar do homem
com o rosto coberto de cicatrizes. Olhou por uma das poucas janelas do
cargueiro, sentado. Um pequeno tremor.

Movimento.

A subida.

Hermann continuava olhando pela janela, com um semblante


melancólico em sua face. Uma das últimas vezes que veria sua nação-mãe,
Alemanha, por um tempo razoavelmente longo. Um tempo bem longo, na
verdade. Sentiria saudades daquele lugar. Suas paisagens bonitas, seu
pessoal decente. Seus colegas, seus amigos, seus interesses amorosos.

Mas havia de esquecer aquilo e se concentrar em sua missão. Sua


missão na República Nacional-Socialista de Washington.

A noite estava gelada, mas isso não impedia o homem de permanecer


estático frente à bandeira. Os ventos cortavam toda a extensão do lugar,
batendo veloz por tudo que se colocava em seu caminho, fazendo um intenso
barulho que lembraria uma tempestade a um espectador menos atencioso. A
presença de neve era nítida; estava espalhada por todo o piso e asfalto
presente no parque, apesar de já ter parado de nevar havia oras. Não seria
logo que a neve viria a desaparecer – o clima era gelado, sensação reforçada
pela ventania.

Estas condições, no entanto, não impediam Nicholas Rush de


permanecer parado em seu lugar, olhando para cima e encarando a bandeira
hasteada no meio do parque. A bandeira representante de Washington. Não a
cidade, capital do Estado, como havia sido em tempos melhores. A bandeira
simbolizava a República Nacional-Socialista de Washington.

Um, dois, três, treze listras em branco em preto distribuídas


horizontalmente sobre o tecido, constatou Nicholas. “Pelo menos tiveram a
decência de manter o número de faixas” sussurrou, para si mesmo. Ao fazê-lo,
uma pequena nuvem de vapor condensado escapou de sua boca. Frio.

Porra, que frio.

Passou as mãos cobertas por luvas nos ombros, para tirar a neve que
começava a se acumular, resquícios da nevasca que tomara lugar não muito
tempo antes. Olhou para trás e para os lados, para constatar que estava
sozinho. A noite estava escura, suas únicas fontes de luz sendo os globos
luminosos cobertos de branco.
De qualquer modo, não havia ninguém próximo. Claro que não; que tipo
de cidadão estaria no meio do parque, em uma noite de nevasca, encarando a
bandeira de Washington?

Eu.

Melhor continuar andando. É. Caminhando, seguir seu caminho, voltar


para casa. Se um oficial ou patrulheiro o encontrasse ali, provavelmente teria
muito o que explicar. O olhariam com suspeita e pediriam os documentos,
talvez dessem uma surra nele e continuariam com a sua ronda. Não os culpava
por isso, na realidade – faria a mesma coisa. A situação na qual estava no
momento era de fato suspeita, e já não tinham cometido atentado à bandeira
no mês anterior?

Nicholas lembrava-se de ter visto alguma reportagem a respeito. E sabia


o que eles faziam contra quem pretendesse cometer atentados contra a nação
ou ao Reich. Talvez um interrogatório, por mera formalidade. E então,
execução. Por tentar queimar um pedaço de pano.

Não tentavam à toa, e Rush sabia disso. Quando os dois militantes –


provavelmente de esquerda, simpatizante dos vermelhos – atearam fogo à
bandeira em plena Washington capital, não visavam queimar a bandeira: mas o
que ela representava. Toda a opressão, toda a distorção do que um dia fora
uma pátria poderosa e influente. A bandeira modificada representava o país
modificado, e os nativos não podiam fazer nada se não odiar a situação. Claro,
poderiam formar facções de resistência, facções de esquerda ou neutras, mas
do que adiantava?

Até o momento, nada além de dar material para os noticiários de


Washington... ou mais desculpas para o Reich demonizar a URSS. De
qualquer jeito, nada que funcionasse em prol dos cidadãos. Talvez não
soubessem como agir, talvez estivessem apenas tentando atiçar a população.
E esperando, esperando por um momento de revolução.

Até lá, queimariam as bandeiras.

Pelo menos tiveram a decência de manter as treze listras da bandeira


original, apesar de terem modificado suas cores, outrora vermelhas e brancas.
E ao lado, suas estrelas, cinqüenta estrelas azuis sobre um azul celeste, um
azul livre, com cada uma do que um dia foram os estados. Todos trocados pelo
símbolo do Reich.

A merda do Reich.

Rush olhava para a bandeira, com uma expressão de amargo desprazer.


Afastou-se, em direção à neve. Para sua casa. A sua casa não atolada em
propagandas do Reich, sua casa aonde poderia ter um pouco de paz, longe da
realidade.

Já havia tomado tempo demais ali, parado. Fora pego em um momento


de distração, e imerso em pensamentos ao visualizar aquele símbolo que
representava toda a opressão vinham sofrendo já havia alguns anos. E os
cidadãos originais culpavam só aquilo, só aquele símbolo.

Ah, a suástica.