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Filosofia 10

Adília Maia Gaspar • António Manzarra

10.º ano • Ensino Secundário

Livro do professor

PARTE 3

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Índice

A. A Filosofia e a imagem 3
I – A imagem enquanto forma de representar a informação 3

II – Da imagem ao conceito. Análise e exploração de pintura 5


O conceito de Filosofia – A escola de Atenas, Rafael 5
O conceito de mal – As tentações de Santo Antão, J. Bosch 7
O conceito de belo – Um par de sapatos, Van Gogh 9
O conceito de arte como expressão – O absinto, Degas 11
O conceito de arte como manifestação sensível da ideia
– A Condição Humana, Magritte 13
O conceito de criação artística – Vertumnus, Arcimboldo 15
O conceito de “moralização pela arte” – Vanitas, Steenwyck 17
O conceito de “arte de massas” – Díptico de Marilyn, Warhol 19

III – O filme em sala de aula. Análise e exploração de filmes 21


Abordagem introdutória à Filosofia e ao filosofar
– Cidade Misteriosa, Alex Proyas 21
A ação humana | análise e compreensão do agir
– Quem quer ser bilionário, Danny Boyle 23
Os valores | análise e compreensão da experiência valorativa
– Billy Elliot, Stephen Daldry 25
 dimensão ético-política | análise e compreensão
A
da experiência convivencial
– Ensaio sobre a cegueira, Fernando Meirelles 27
 dimensão estética | análise e compreensão da experiência estética
A
– Amadeus, Milos Forman 30
A dimensão religiosa | análise e compreensão da experiência religiosa
– A paixão de Cristo, Mel Gibson 32

B. Sugestões de resposta às atividades do Manual 34


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Livro do professor A FILOSOFIA E A IMAGEM

A. A Filosofia e a imagem
I – A imagem enquanto forma de representar a informação
Há três modos de representar a informação que utilizamos espontânea e paralelamente quando apren-
demos, são eles: (1) o modo enativo ou representativo, (2) o icónico e (3) o simbólico.

– Pelo primeiro, manipulamos o objeto para dele extrair informação;


– Pelo segundo, captamos informação através da representação visual do objeto ou da situação;
– Pelo terceiro, a informação é representada através da palavra.

Fazer, ver e dizer são as expressões que identificam cada um destes modos de representar a informação.
Na vida corrente, embora deles não nos apercebamos, estão constantemente presentes: por exemplo, face a
um novo eletrodoméstico ou a uma nova aparelhagem que acabamos de adquirir, é frequente (1) virarmos e
revirarmos o objeto, (2) consultarmos as representações esquemáticas e imagens inseridas no folheto e (3)
lermos a literatura inclusa.
Na escola, todavia, sobretudo a partir do nível secundário, o modo de representar a informação, que é
nitidamente privilegiado, é o modo simbólico, descurando-se o enativo, muitas vezes por dificuldades óbvias
de falta de oportunidade, e o visual, provavelmente por alguma falta de sensibilidade relativamente às suas
potencialiddes. Ora, é precisamente quando aumenta o nível de complexidade dos conceitos a adquirir que
se torna mais necessário encontrar suportes para a abstração e, esses suportes, passam pela utilização de
imagens que ilustram os conceitos e funcionam como ponto de partida para a reflexão e conceptualização.
Há ainda, por parte de algumas pessoas, um preconceito em relação à imagem; considera­m que, dado viver-
mos na era do visual, o fluxo e a diversidade das imagens é inibidor e empobrecedor da capacidade para pensar e
refletir. Independentemente da discussão teórica acerca deste problema, ocorre lembrar que, se ensinarmos a extrair
informação das imagens e a fazer delas uma leitura crítica, isto é, se promovermos as competências de literacia
visual, as imagens não empobrecem nem inibem a reflexão, mas antes a estimulam e desenvolvem.

Para que a imagem seja estimulante, ela tem de entrar em diálogo com aquele que a observa e esse
diálogo faz sentido se a imagem estiver, direta ou indiretamente, relacionada com o modo simbólico de
apresentar a informação e se for oportuna e pertinente.
A preocupação com a seleção das imagens do nosso Manual respondeu precisamente à consciência que
temos da sua importância. As imagens escolhidas foram, muitas vezes, reproduções de obras de arte de
pintores conhecidos, mas também gravuras, fotografias e bandas desenhadas.
Pensamos que a partilha da reflexão que algumas destas imagens nos mereceram poderá ter algum
interesse para o trabalho a realizar com este Manual. É nesse contexto que fazem sentido as «leituras» que
propomos, com a ressalva de que se trata de «leituras pessoais» de obras abertas, compatível com interpreta-
ções diferentes ou até divergentes. Em relação às imagens que selecionámos, fazemos referência ao autor e
obra; justificamos a proposta, contextualizamos, construimos uma narrativa da imagem e propomos um
roteiro de leitura que deve ser apresentado a alunos/as para estimular e orientar a observação.
A leitura e exploração destas reproduções de obras de arte, para além de enriquecerem a nossa com-
preensão de alguns conceitos de índole filosófica estudados, permitem concluir sobre a natureza da obra de
arte, enquanto representação de natureza sensorial que provoca em nós o que se designa de experiência
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estética, misto de sentimentos vários que vão do prazer ao espanto.

Comecemos então por uma reflexão teórica sobre o que é uma imagem e sobre a natureza subjetiva da
leitura de imagens.

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A FILOSOFIA E A IMAGEM Livro do professor

Uma imagem é uma representação das coisas que é apreensível sensorialmente, constituindo, portanto,
uma aparência ou sequência de aparências. Em certo sentido, qualquer imagem, mesmo uma simples foto-
grafia, traz a marca da subjetividade do seu autor e corporiza o modo como ele viu a realidade, a perspetiva
em que se colocou, o ângulo do real que privilegiou e aqueles que negligenciou. Assim, através da imagem,
o registo da realidade nunca é nem mecânico nem passivo. Por outro lado, aquele que observa enriquece a
imagem com o seu contributo e a apreciação que dela faz depende da sua própria subjetividade.
O objetivo primeiro da imagem é representar algo que está ausente e nesse aspeto ela constitui um registo
privilegiado do passado, a que garante uma certa forma de sobrevivência. Mas, em arte, as imagens não são
mero registo, vivem por si mesmas e prestam-se à nossa apreciação na busca de sentidos que muitas vezes
parecem querer escapar-nos. A obra de arte é polissémica, não tem um sentido definido, não corresponde a
uma grafia linear e o leitor tem todo o direito de proceder à sua leitura com liberdade e de lhe “emprestar”
e nela colocar aquilo que consegue ver. Um leitor que conhece o contexto em que determinado obra foi
produzida, a época a que corresponde, as idiossincrasias do autor, terá outros instrumentos de análise e por
isso uma leitura diferente da obra.
De qualquer modo, para qualquer tipo de leitor, algumas instruções simples podem ajudar a promover
a sua capacidade de literacia visual, particularmente em relação a obras pictóricas.
Pode estabelecer-se uma analogia entre um texto literário e um texto visual, tanto um como o outro têm
uma figura central; no caso da imagem a figura central pode ser uma pessoa ou pessoas, um objeto, um edi-
fício, etc., o resto é o enquadramento, é o fundo, ou contexto.
Perante um quadro, uma das nossas primeiras preocupações deve ser a de procurar determinar o que é
a figura e o que é o fundo. Por exemplo, no quadro de Vieira da Silva, História Trágico-Marítima, a figura é
uma nau abarrotada de pessoas e o fundo, um mar revolto e encapelado. Esta primeira identificação permite
que percebamos o que é mais importante na imagem – obviamente a figura: o que atrai a atenção do espec-
tador, no caso, a nau com o número infindável de criaturas humanas que pereceram na saga marítima por-
tuguesa. O fundo constitui aquilo que podemos designar por contexto, enquadramento, no caso, o mar que
ousamos desafiar e que fez pagar a ousadia com a tremenda perda de vidas humanas.
Num segundo momento, devemos perguntar pela mensagem que está subjacente, o que é que o seu
autor quis comunicar, o que é que os objetos representados significam, qual foi a intenção do autor ao colocá-
-los ali, o que pretende transmitir; que relação tem uns com os outros. O que é que na imagem chama mais
a nossa atenção. Temos natural tendência a focar a atenção no centro da imagem por uma pura questão de
equilíbrio, mas por vezes o autor força-nos a olhar para outro ponto distante desse ponto central, devemos
perguntar-nos “Porquê?”. Identificar o foco ou focos da imagem que podem não estar no centro, pode ajudar
a perceber melhor o sentido da imagem e a intenção do autor.
A cor é um elemento fundamental e, por isso, a escolha das cores e dos tons pelo artista não foi com
certeza aleatória. Na História Trágico-Marítima, as cores dominantes servem o propósito da pintora de
chamar a atenção para a tragédia vivida pelos portugueses, não são cores alegres e leves, não são tons pastel
melancólicos, bem pelo contrário, são cores fortes mas simultaneamente sombrias e escuras.
Se um artista usa a repetição para atrair a atenção do espectador isso deve obedecer também a um pro-
pósito, por exemplo, porque é que Andy Warhol repete o retrato de Marilyn Monroe até à exaustão? O que
pretende? Com certeza, não é por falta de imaginação ou de habilidade artística; o que o move então?
Tudo o que num quadro nos parecer estranho deve ser objeto de reflexão; por exemplo, porque é que
Picasso, na Mulher Chorando, distorceu tão profundamente o rosto feminino? Haverá alguma intenção
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específica? Terá a ver com o que o autor quer significar com a imagem?
Feita esta breve reflexão, passemos agora à análise e exploração de algumas das imagens reproduzidas
no Manual.

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Livro do professor A FILOSOFIA E A IMAGEM

II – Da imagem ao conceito. Análise e exploração de pintura


Vejamos agora alguns exemplos de pinturas de diferentes épocas que, embora sejam representações
sensoriais da realidade, permitem que apreendamos conceitos – representações abstratas – para que elas de
alguma maneira remetem.

O conceito de Filosofia

Obra: A Escola de Atenas, 1510-1511, afresco do Palácio do Vaticano (stanza della Segnatura), Roma

Autor: Rafael (1483-1520), pintor italiano

Justificação da proposta
Pelo tema escolhido, A Escola de Atenas remete para o conceito de Filosofia – aquilo que os protagonis-
tas representados fazem. De facto, a obra é uma alegoria à Filosofia enquanto esforço racional para encon-
trar a verdade e a sabedoria.

Contextualização
Rafael foi pintor renascentista, numa época – Renascimento – que se caracterizou pela preocupação em
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conhecer e reabilitar a tradição cultural e filosófica greco-romana. Esta obra é um afresco de proporções
monumentais pintado numa das salas do Palácio de Vaticano, a stanza della Segnatura, fruto de uma enco-
menda do papa e mecenas Júlio II.

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A FILOSOFIA E A IMAGEM Livro do professor

Narrativa da imagem
A Escola de Atenas representa a Academia de Platão, enquanto lugar de encontro de filósofos e estudio-
sos de diferentes épocas e lugares. Num ambiente que sugere debate e reflexão, tudo gravita à volta de duas
figuras de vulto da cultura filosófica Ocidental: Platão e Aristóteles, que ocupam o centro do quadro.
Rafael pinta Platão segurando o Timeu – um dos diálogos que os renascentistas muito apreciavam – e
apontando para o céu, e pinta Aristóteles com a Ética a Nicómaco na mão esquerda, apontando na direção
da terra. Com este simples, magistral e criativo registo, Rafael resume numa imagem, concreta e particular,
o pensamento de cada um deles em domínios tão importantes como a teoria do conhecimento e a metafísica:
Platão valorizando o mundo inteligível das ideias e da razão, enquanto instrumento que permite alcançá-lo,
e Aristóteles, o mundo sensível e a experiência, enquanto fonte de conhecimento.
Para além desta centralidade, outras áreas do quadro representam outros filósofos e cientistas, Sócrates,
por exemplo, é representado dialogando com os discípulos – não esqueçamos que Sócrates nada escreveu e
desconfiava do registo escrito. Heraclito de Éfeso, que a tradição descreve como misantropo e solitário,
encontra-se isolado dos demais, encostado ao mármore do pórtico de entrada do lado esquerdo do quadro,
numa postura melancólica e introvertida (esta parte foi pintada por Miguel Ângelo). Nos degraus de acesso,
esparramado no chão e descontraído, está representado Diógenes, o cínico, que a tradição relata como vivendo
dentro de uma barrica, em coerência com o seu desprezo pelos bens materiais. Estes são alguns pormenores
de um quadro muito rico em referências.

Encontra-se um interessante vídeo sobre A Escola de Atenas em: http://blog.midiaseducacao.com/2012/10/


pinceladas-de-arte-rafael-escola-de.html (narrado em português do Brasil).

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Livro do professor A FILOSOFIA E A IMAGEM

O conceito de mal

Obra: As Tentações de Santo Antão, 1500, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Autor: Jerónimo Bosch (1450-1516), pintor holandês

Justificação da proposta
Escolhemos As Tentações de Santo Antão, da autoria do pintor holandês Jerónimo Bosch, para ilustrar
“A dimensão ética da ação”, onde se propõe a reflexão filosófica sobre o bem e sobre o mal. Pareceu-nos que
um tema e um pintor cujo objetivo é moralizar, no sentido de nos fazer repudiar o mal e seguir o bem, seria
apropriado, com a vantagem acrescida de nos obrigar a reflectir pois apresenta um conceito de mal que está,
hoje, longe de receber adesão unânime.

Contextualização
O protagonista de As Tentações… é Antão, um cristão do Egito, do século III, considerado o pai do
monasticismo. Antão decidiu retirar-se para viver num local ermo, desprovido das mínimas comodidades,
e assim fugir às tentações do mundo e aproximar-se de Deus. Mas, mesmo nessas circunstâncias, o diabo,
ou melhor, os diabos não se cansaram de o tentar a abandonar o seu propósito, convidando-o a entregar-se
àquilo que Antão e os cristãos da época consideravam o mal, nomeadamente os prazeres da carne, ligados
ao sexo – que apelidavam de luxúria – e os prazeres da mesa – que designavam de gula. Antão viveu numa
época em que o Cristianismo, ainda hostilizado pelos poderes instituídos, para se impor e destacar de outras
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fés religiosas, pregava o ascetismo, a abstinência e a pobreza.


As Tentações de Santo Antão, pintadas por volta de 1500, fim da época medieval e inícios da época
moderna, refletem ainda um período em que a religião, acolitada pelas profecias de juízo final e respetivas

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Livro do professor A FILOSOFIA E A IMAGEM

O conceito de belo

Obra: Um par de sapatos, 1886, Museu de Van Gogh, Amesterdão

Autor: Vincent van Gogh (1853-1890), pintor holandês

Justificação da proposta
O conceito de belo, central em estética, é dificilmente definível através de símbolos conceptuais. Por
isso, escolhemos para o ilustrar o quadro de Van Gogh a que o pintor deu o título “Um par de sapatos”; e
escolhemos esta obra precisamente porque a realidade concreta, aqui representada sensorialmente, está longe
de ser bonita, muito menos bela, mas, em contrapartida, a representação, essa sim, é bela, porque com ela o
pintor consegue dizer o indizível…
Van Gogh, como ele próprio afirma, numa carta ao irmão, “não quer pintar quadros, quer pintar a vida”,
e é a vida que ele pinta neste “par de sapatos”. De facto, o quadro representa um par de botas desgastadas
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pelo tempo e pela labuta diária do trabalhador que as usou. As botas estão muito longe de ser bonitas, mas
não podemos deixar de considerar que estamos perante um quadro belo que, enquanto tal, nos agrada e que,
como Kant diz, recebe aprazimento universal: “belo é o que agrada universalmente, sem conceito”.

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A FILOSOFIA E A IMAGEM Livro do professor

O quadro “agrada-nos” porque o pintor conseguiu, através de um meio concreto e sensível, exprimir a
“verdade” de uma vida. Foi precisamente esta a conclusão a que chegou o filósofo alemão Martin Heidegger
que também o analisou e defendeu que a arte consegue desvelar a verdade dos seres, sendo o artista, isto é,
o criador de arte, aquele que é capaz de trazer para a luz – revelar - o que se encontra oculto nos entes. Mais
do que representar o mundo, o quadro manifesta a verdade do mundo e fá-lo de uma maneira que não seria
conseguida pela simples perceção do mesmo par de botas.

Contextualização
Diz-se que Van Gogh, impossibilitado de pagar a modelos vivos, optou por naturezas mortas e que os
sapatos que serviram de modelo teriam sido comprados numa feira em Paris, molhados para ficarem com
aparência envelhecida e usados por algum tempo pelo próprio pintor. O facto é que há na obra de Van Gogh
vários quadros que reptem este tema, pintado em 1885, quando o pintor tinha apenas trinta e dois anos de
idade. Cinco anos mais tarde suicidou-se e é grande a tentação de supor que Um par de sapatos revela a pas-
sagem do pintor por uma vida breve, mas repleta de cansaço e angústia.

Narrativa da imagem
Para fazer a narrativa da imagem nada melhor do que as palavras de Martin Heidegger:

«Na obscura intimidade do côncavo dos sapatos está inscrita a fadiga dos passos do trabalhador. Na rude
e sólida espessura dos sapatos está firmada a lenta e obstinada caminhada através dos campos, o comprimento
dos passos sempre semelhantes, estendendo-se ao longe sob a brisa. O couro tem ainda as marcas da terra
espessa e húmida. Sob as solas estende-se a solidão do caminho campestre que se perde na tarde. Por estes
sapatos perpassa o apelo silencioso da terra, o seu dom tácito do trigo maduro, a sua recusa secreta nas ervas
áridas campo hibernal. Através deste objeto perpassa a muda inquietação pela segurança do pão, a alegria
silenciosa de sobreviver de novo à necessidade, a angústia do nascimento eminente, o tremor da ameaça da
morte.»
Heidegger, Chemins qui ne mènent nulle part, Gallimard

Sugerimos o seguinte roteiro de leitura:

Roteiro de leitura
•O
 que é que se representa?
• O que é que está para além da representação?
• Porque é que este “objeto” é belo?
• Distinga a sua reação perante este objeto estético da que teria perante a perceção de um autêntico par de botas.
• Faça a narrativa da imagem.
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O conceito de arte como expressão

Obra: O Absinto, 1876, Museu de Orsay, Paris

Autor: Edgar Degas (1834-1917), pintor francês

Justificação da proposta
Uma das teorias acerca da natureza da arte é a teoria da arte como expressão e pareceu-nos que este
quadro de Degas, pintor impressionista do final do século XIX, a ilustra perfeitamente, como teremos opor-
tunidade de mostrar a seguir.

Contextualização
O quadro foi pintado numa época em que o consumo do absinto se tinha intensificado em França, em
virtude de uma crise na produção vinícola. Dado o seu elevado teor alcoólico (cerca de 70%), era considerado
responsável por provocar distúrbios psíquicos que incluíam alucinações, insónias e convulsões; segundo
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alguns, Van Gogh, que se suicidou em 1890, teria sido uma das suas vítimas. Mas, temos igualmente notí-
cia de que muitos artistas recorriam a esta bebida na suposição de que ela estimularia a criatividade e daria
ocasião a novas experiências psíquicas.

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Narrativa da imagem
O Absinto representa artistas conhecidos da década de 70 do século XIX: o artista gravador em cobre
Marcellin Desboutin e a atriz Ellen Andrée. É referido com frequência como retratando o boémio e a pros-
tituta, destroçados por uma vida desregrada.
A postura relaxada do artista, sentado do lado direito do quadro, ombros descaídos, casaco aberto, olhos
no vazio, não dando qualquer atenção à companheira – que por sua vez parece estupidificada, é reforçada
pela predominância das cores castanhas e tons pastel dos vestuários e rostos, que conferem a todo o quadro
uma ambiência soturna e melancólica, apropriada ao tema: o absinto com as consequências muito negativas
a nível social do excesso de consumo.
Degas, através de meios pictóricos – símbolos imagéticos – mostra, sugere, os danos provocados pelo
consumo excessivo desta bebida. Através desta representação concreta e particular, exprime os sentimentos
que experimenta perante aquilo que lhe aparece como “miséria humana” – destruição de vidas humanas pelo
álcool – e através do uso de figuras, formas e cores, transmite essa emoção ao expectador que também a
experimenta. Temos assim todos os ingredientes da teoria da arte como expressão.

Sugerimos o seguinte roteiro de leitura:

Roteiro de leitura
•Q
 ue figuras estão representadas?
• Qual é o fundo e qual é o enquadramento?
• Quais são as cores utilizadas?
• Que sentimentos desperta no espectador?
• Que teoria ou teorias sobre a natureza da arte pode o quadro ilustrar?

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O conceito de arte como manifestação sensível da ideia

Obra: A Condição Humana, 1935, coleção privada

Autor: René Magritte (1898-1967), pintor belga

Justificação da proposta
É o conceito de arte como manifestação sensível da ideia, ligação entre o sensível e o inteligível, defen-
dido pelo filósofo alemão Hegel, que esta pintura ilustra exemplarmente; de facto, A Condição Humana é
uma de entre muitas outras obras do pintor belga Magritte, em que através da representação sensorial se
pode captar todo um conteúdo intelectual.
Aparentemente os quadros de Magritte são de leitura simples porque os elementos neles representados
são facilmente identificáveis e remetem para objetos ou situações do nosso quotidiano. Por outro lado a
representação que deles faz é académica, mesmo convencional, sem qualquer pretensão de originalidade, seja
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através de eventuais distorções ou de qualquer outro recurso o que também não coloca problemas de leitura.
Esta primeira impressão, todavia, é nitidamente ilusória porque a organização dos elementos e as com-
binações conseguidas apresentam um carater inusitado e são tudo menos banais, criando uma aura de mis-

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tério que sentimos a necessidade de decifrar. Os elementos figurativos representados remetem sempre para
outra coisa e o expectador não pode deixar de o sentir, não pode deixar de perguntar: o que é que ele está a
querer dizer-nos? Porque é que este quadro é misterioso?
Hegel dizia que a arte é a manifestação sensível da ideia e Magritte ilustra-o exemplarmente.
Este particular quadro, A Condição Humana, é uma autêntica lição de Filosofia. Representa, de forma
clara, um quadro dentro do quadro, quer dizer Magrite pintou um quadro de uma paisagem – em que o mar
insondável e aparentemente ilimitado é o elemento dominante – mas não se limitou a fazê-lo, pintou outro
quadro com o mesmo tema, dentro do próprio quadro, talvez para nos mostrar a dificuldade/impossibilidade
de se sair da representação, de se ultrapassar a barreira que se interpõe entre cada um de nós e o mundo; essa
é a condição humana, a condição de prisioneiro acorrentado à representação sem nunca poder saber se as
coisas são ou não como ele as vê; é para esse aspeto que o pormenor dissonante do quadro, a esfera escura,
parece querer chamar a nossa atenção; parece ser a representação do eterno grilhão que acorrenta o prisioneiro
e o impede de se libertar.

Contextualização
René Magritte, “um pintor de ideias, um pintor de pensamentos visíveis”, não está interessado em
representar o real, está interessado em chamar a atenção para o mistério que o real comporta. Por isso a obra
de Magritte não pinta coisas, pinta pensamentos.

A narrativa da imagem
Magritte pinta um quarto com uma janela que dá para uma praia e mar, mas dentro do quarto pinta um
cavalete com um outro quadro que reproduz a parte de mar que está precisamente a tapar. Representa, de
forma clara, um quadro dentro do quadro, quer dizer Magritte pintou um quadro de uma paisagem - em
que o mar insondável e aparentemente ilimitado é o elemento dominante - mas não se limitou a fazê-lo,
pintou outro quadro com o mesmo tema, dentro do próprio quadro, talvez para nos mostrar a dificuldade/
impossibilidade de se sair da representação, de se ultrapassar a barreira que se interpõe entre cada um de nós
e o mundo; essa é a condição humana, a condição de prisioneiro acorrentado à representação sem nunca
poder saber se as coisas são ou não como ele as vê; é para esse aspeto que o pormenor dissonante do quadro,
a esfera escura, parece querer chamar a nossa atenção; parece ser a representação do eterno grilhão que
acorrenta o prisioneiro e o impede de se libertar. Como escreve: “É assim que vemos o mundo: como se
existisse fora de nós próprios, embora tenhamos dele apenas a representação mental em nós.”

Sugerimos o seguinte roteiro de leitura:

Roteiro de leitura
•S
 ente alguma dificuldade em fazer a leitura linear deste quadro?
• O que é que se representa? Essa representação é problemática?
• Porque é que este quadro provoca estranheza?
• Há no quadro algum pormenor dissonante?
• Que significado lhe atribui?
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O conceito de criação artística

Obra: Vertumnus, 1590, Skoklosters slott, Estocolmo

Autor: Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), pintor italiano

Justificação da proposta
A criação artística é um fenómeno de difícil explicação mas de mais fácil reconhecimento. Pelo menos,
não parece oferecer controvérsia reconhecê-la na obra de Arcimboldo, que escolhemos para a ilustrar.

Contextualização
Arcimboldo, embora nascido em Milão, viveu boa parte da sua vida em Praga sob a proteção de grandes
mecenas da época, como Maximiliano II e Rudolfo II, num ambiente de considerável tolerância religiosa.
Um pintor renascentista de retratos – de pessoas de alta estirpe – devia supostamente representar as
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pessoas retratadas não só fielmente mas também favoravelmente a fim de as dar a conhecer a eventuais noi-
vos ou noivas, através dos respetivos dignitários e embaixadores. Mas Arcimboldo fugiu completamente a
este padrão e enveredou por um caminho completamente diferente.

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narrativas de fim do mundo, prenunciando a vinda do anticristo, atemorizava os fiéis, pintando-lhes em cores
tenebrosas os pavores que os esperavam se enveredassem pela via do pecado.

Narrativa da imagem
Neste tríptico, Bosch descreve os castigos e as penas do inferno, que esperam aqueles que não resistirem
às tentações; essa é a mensagem que quer transmitir. As tentações significam o mal, mas curiosamente, pelos
exemplos referidos no quadro – gula e luxúria – a conceção de mal encontra-se nitidamente contextualizada,
o que mostra bem que, embora os valores sejam perenes, o seu conteúdo não revela igual estabilidade.
O quadro, pintado em cores fortes e tons sombrios, é povoado de bizarras figuras antropomórficas,
peixes voadores, demónios à solta, locais em chamas, fumo negro cobrindo os céus. A salvação encontra-se
representada na parte central do tríptico onde se figura Jesus.
Aquilo que ainda hoje nos prende a esta representação é que Bosch, através do fantástico e do maravi-
lhoso, parece ter captado a natureza sedutora do mal; ficamos como que presos a este universo terrível e
inquietante, um cenário mágico, mas também macabro. Bosch captou esse espírito do mal e descreveu-o
representando no quadro um mundo grotesco e uma cena verdadeiramente apocalíptica.
As cores sombrias, as figuras estranhas que povoam o quadro, as visões de demónios vingativos refletem
o pânico criado pela imaginação popular da época, presa ainda da mentalidade medieval, malgrado o dealbar
da nova era.
No painel central, sobressai a figura do santo que calmamente se mostra impávido e inalterado perante
o mundo tenebroso e satânico que o rodeia como se acreditasse na salvação e na possibilidade de o bem sair
finalmente vitorioso sobre o mal.
Este quadro faz parte do acervo do Museu de Arte Antiga e no site do museu podemos ler o seguinte
sobre o tríptico:

“Através de uma escrita pictural de múltiplos signos, esta impressionante obra traduz o medo e a
inquietação que tocam a alma e a natureza humanas. Num espaço de vastidão que evolui desde os lugares
subterrâneos até às regiões aéreas, as tábuas do tríptico estabelecem a progressão do caminho de Santo Antão.
No centro da composição o santo olha para fora do quadro, olha para além do espaço de desordem que
materializou em pintura os seres fantásticos que o povoam com o mesmo ímpeto com que atormentam o
espírito. Recolhido no escuro e apontado pelo seu bordão, Cristo é o indelével sinal de uma luz redentora.
Poderosa súmula de pensamento que anuncia mudança, esta pintura organiza-se entre a obsessiva tra-
dição medieval do registo minucioso e a modernidade com que se constrói um espaço global que explode
em clarões e valores lumínicos que conferem unidade ao caos aparente. Aquém e além da linha do horizonte,
as figuras surreais movem-se e esvoaçam num mundo de tormenta que tem o seu contraponto no Jardim das
Delícias, outra obra máxima de Bosch que se encontra no Museu do Prado, em Madrid.”

Sugerimos o seguinte roteiro de leitura:

Roteiro de leitura
•Q
 ue tipo de emoção pretenderia o pintor transmitir à sua audiência?
• De que elementos se serviu, tanto em termos de formas e cores, como de conteúdo? Assinale alguns exemplos.
•Há nitidamente dois tipos de tentações representadas no tríptico. Que tentações? Que elementos as simbolizam?
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• É preciso conhecer o contexto para compreender este quadro?

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A FILOSOFIA E A IMAGEM Livro do professor

Neste contexto, pintou o imperador Rudolfo II com uma aparência completamente inusitada. Mas,
todavia, através de um conglomerado exótico de frutas e vegetais, não deixa de transmitir uma imagem de
força esplendor e vitalidade, tudo atributos positivos que um soberano não pode dispensar, provavelmente
este aspeto aliado a uma mentalidade tolerante por parte do mecenas do artista explicam porque Arcimboldo
não foi dispensado, obrigado a exilar-se ou a sofrer um destino ainda mais desesperante. De qualquer modo,
dada a sua riquíssima imaginação criativa, não se percebe bem por que razão caiu no esquecimento só tendo
sido resgatado na nossa época; mas talvez que a irreverência da arte de Arcimboldo e o desapego aos temas
religiosos e históricos que então ocupavam os pintores ditos “sérios” o tenham condenado ao ostracismo e
votado ao esquecimento.
Retratos de figuras humanas compostas por elementos vegetais; paisagens antropomorfas; utilização
recorrente da fauna e da flora caracterizam muitas das obras que nos legou que respiram um ambiente e uma
conceção otimista do mundo e da vida.

Narrativa da imagem
Vertumnus é o retrato de Rudolfo II, um retrato irreverente, é certo, mas poderoso de força e vitalidade
que provavelmente não teria desagradado ao monarca e protetor do pintor, revelador de fina ironia e de um
enorme talento criativo. Numa combinação improvável de elementos vegetais diversos, reconhecemos um
homem próspero e poderoso, representado, como o deus da vegetação luxuriante com que o verão nos pre-
senteia, por espigas de trigo, uvas, ameixas, peras, abóboras e flores deslumbrantes.

Sugerimos o seguinte roteiro de leitura:

Roteiro de leitura
•D
 escrever os aspetos que conferem um carácter peculiar a este retrato.
• Imaginar a possível intenção do autor.
• Identificar os sentimentos dominantes que a obra provoca no espectador.

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O conceito de “moralização pela arte”

Obra: Vanitas (Uma Alegoria da Vaidade da Vida Humana), c. 1640, National Gallery, Londres

Autor: Harmen Steenwyck (1612-1656), pintor holandês

Justificação da proposta
A propensão da arte para abordar temas que tem a ver com o ser humano enquanto ser moral, capaz de
uma conduta balizada por ideais morais, tem sido uma constante ao longo do processo histórico, tornando-
-se mais insistente numas épocas, menos em outras, mas sempre presente. Neste quadro, Harmen Steenwyck
pintor holandês de naturezas-mortas, traduz através de uma alegoria sob forma pictórica uma espécie de
sermão bíblico-religioso, alertando o ser humano para a vacuidade dos bens terrenos porque “vaidade das
vaidades tudo é vaidade”.

Contextualização
No século XVII, a sociedade holandesa era uma sociedade de fortes convicções religiosas, de influência
calvinista, e embora se encontrasse na vanguarda do desenvolvimento científico da época, constituía uma
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sociedade com padrões morais muito exigentes, como o quadro Harmen Steenwyck sugere.
Vanitas é uma alegoria à vaidade da vida humana, um autêntico sermão visual que nos exorta a não
darmos excessiva importância aos dons da fortuna ou talentos do espírito, aos prazeres da vida, ou mesmo
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A FILOSOFIA E A IMAGEM Livro do professor

ao conhecimento, porque no fim tudo acabará sempre da mesma maneira e essas “diversões” poderão cons-
tituir um obstáculo à salvação da única coisa que é realmente importante: a alma.

Narrativa da imagem
A pintura descreve uma seleção de objetos colocados sobre uma mesa, cada um dos quais contem um
significado simbólico.
A caveira – ponto focal do trabalho, sobre o qual incide a nossa atenção – simboliza a morte; o cronó-
metro remete para o conceito de tempo; a lamparina, prestes a extinguir-se, representa a brevidade da vida;
a concha é símbolo de riqueza; o livro de conhecimento, a espada e o tecido púrpura, de poder terreno, o
alaúde e o cornetim, de música – prazeres sensoriais; o vaso contendo óleo ou agua representa a sustentação
da vida.
A composição do quadro é organizada de modo a acentuar a inferioridade do terreno, corpóreo e mate-
rial em contraste com a superioridade do espiritual que não tem preenchimento concreto: se tirarmos as duas
diagonais do quadro – verificamos que o espaço preenchido é o inferir, sendo o superior um espaço vazio
apenas iluminado pela luz do espírito.
O objeto central, a caveira – símbolo da morte - contrasta com os outros objetos de um quotidiano
requintado para a época, ligados aos prazeres e à existência física. A luz, que costumamos associar à vida do
espírito, incide sobre a caveira e adensa ainda mais o contraste entre o espiritual e o físico, a morte e a vida.
Considerar este quadro um autêntico sermão visual faz todo o sentido, lembremos as palavras do Evan-
gelho:

»Não armazeneis para vós próprios tesouros na terra, onde a lama e a ferrugem os destruirão e onde os
ladrões os roubarão. Porque onde estiver o teu tesouro aí também estará o teu coração.»
Evangelho de S. Mateus, 6:18-21

Sugerimos o seguinte roteiro de leitura:

Roteiro de leitura
• I dentificar e descrever os diferentes objetos presentes no quadro.
• Identificar o objeto que centraliza a atenção do espectador.
• Identificar a simbologia dos diferentes objetos relacionando-os respetivamente com os conceitos de: conhecimento, diversão,
poder riqueza e finitude.
• Tirar as duas diagonais ao quadro e concluir sobre a organização da composição.
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Livro do professor A FILOSOFIA E A IMAGEM

O conceito de “arte de massas”

Obra: Díptico de Marilyn, 1962, Tate collection

Autor: Andy Warhol (1928-1987), artista plástico norte-americano

Justificação da proposta
Este quadro de Andy Warhol representa bem a situação da arte na era da reprodução mecânica da obra
de arte, que Walter Benjamim tinha intuído e caracterizado.
Andy Warhol apropriou-se das imagens da cultura de massas: garrafas de Coca-Cola, notas de dólar,
latas de sopa, caixas de detergente, ícones de artistas da cultura pop, como Marilyn, Elvis, Elizabeth Tay-
lor, Mao Zedong ou Jacqueline Kennedy. Não se deu ao trabalho de pintar esses objetos ou figuras,
limitou-se a reproduzir e a replicar as imagens já existentes, enfatizando-as através da utilização de cores
exageradamente vivas e garridas, tão ao gosto dos apreciadores da cultura de massas. Podemos dizer que
os trabalhos de Andy Warhol são sobre objetos consumíveis e também sobre figuras mediáticas igualmente
consumíveis.
As obras deste polémico artista só fazem sentido se percebermos que viveu numa época em que as
mudanças tecnológicas permitem a reprodução mecânica das imagens em larga escala e, desse modo, abrem
caminho à arte de massas. Em certo sentido, assim como Duchamp alertou energicamente para os perigos
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da estetização da arte – a exaltação das qualidades estéticas – também Warhol parece querer pôr em causa
a identidade da arte e mostrar através do concreto e do sensorial a ideia filosófica de Walter Benjamin: a
ideia do declínio da arte da pintura e da alteração da sua função social.

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Contextualização
Andy Warhol, figura de proa do movimento norte-americano conhecido por Pop Art, começou como
ilustrador comercial em revistas de modas, mas em breve se tornou conhecido pelas suas pinturas de Pop Art
nas quais “inscreveu” ícones da cultura de massas, bem como objetos da cultura de consumo norte-americana.
Figura controversa não só pela natureza da sua pintura que desafiava todos os cânones estéticos como tam-
bém pela sua vida sexual e pelas boutades que frequentemente publicitava.

Narrativa da imagem
Andy Warhol não se dá sequer ao trabalho de pintar o retrato de Marilyn Monroe, diva do cinema da
década de 50 do século XX; utiliza reproduções de uma fotografia da artista e limita-se a replicá-las, fazendo
com elas uma série, em que apenas se regista a alteração dos campos de cor. Não recria ou interpreta a ima-
gem da diva do cinema, apenas repete e replica uma imagem que, de tanto ser vista, se tornara convencional.

Sugerimos o seguinte roteiro de leitura:

Roteiro de leitura
•O
 que surpreende nesta obra?
• Em relação às imagens, que diferença encontra entre elas?
• Poderá haver alguma intenção especifica nas cores utilizadas?
• Que relação será possível estabelecer entre esta obra e a arte de massas?

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III – O filme em sala de aula. Análise e exploração de filmes

Abordagem introdutória à Filosofia e ao filosofar

Ficha técnica

CIDADE MISTERIOSA / DARK CITY


de Alex Proyas
EUA, 1998 – 98 minutos
com: Rufus Sewell, William Hurt,
Kiefer Sutherland, Jennifer Connelly
SINOPSE
Retrata a história de um indivíduo que procura saber quem é
numa cidade aparentemente organizada, mas onde nunca é dia,
as pessoas trocam de personagem constantemente sem se aper-
ceberem e as memórias não existem. John Murdock é uma exce-
ção e pretende descobrir por que razão é perseguido pela
polícia por violação e assassinato de vítimas que nunca contac-
tou, está casado com uma mulher que não conhece e não con-
segue encontrar um espaço que relembra da sua infância.
À medida que questiona e procura conhecer melhor, uma outra
questão mais profunda se torna presente: viverá ele numa rea-
lidade ilusória?

Objetivos gerais (do programa)


• Identificar a Filosofia como uma atividade de procura e gosto pelo conhecimento.
• Mostrar que a Filosofia vai mais além que o conhecimento do senso comum.
• Evidenciar o papel da dúvida e do pensamento no exercício filosófico.
• Caracterizar a atitude filosófica e sua especificidade.
• Refletir sobre a importância e o valor da Filosofia para a vida.
• Distinguir as questões filosóficas das questões não filosóficas.
• Caracterizar a dimensão discursiva da Filosofia.
• Ser capaz de refletir, analisar ideias e construir argumentos.

Relação do filme com a temática filosófica


O filme aborda a necessidade e a vontade de qualquer ser humano, neste caso John Murdock, de conhe-
cer. O facto de não compreender o que se está a passar à sua volta, nem ter uma memória clara do seu passado,
leva-o a questionar o sentido das coisas e a partir numa “aventura” à procura do conhecimento e da verdade.
John Murdock sente que a sua vida e a realidade podem ser ilusórias, dado que as explicações que lhe são
dadas pelos outros cidadãos e pelos próprios sentidos são inconsistentes, bem como o desenrolar dos acon-
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tecimentos, que não tem uma sequência normal – naquela cidade nunca é dia, e há lugares de que todos se
lembram com carinho, mas não sabem como lá chegar, ou pessoas que mudam de personagem sem disso
tomarem consciência.

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A FILOSOFIA E A IMAGEM Livro do professor

É este o tema fundamental de análise neste capítulo – não o questionar se a realidade é uma ilusão, mas
descrever o princípio fundamental da Filosofia: não aceitar passivamente tudo aquilo que nos é dado, sem
antes proceder a uma análise anterior. A Filosofia alimenta-se das próprias dúvidas e todo o filme parte de
dúvidas e de problemas que John Murdock quer ver respondidos: se a sua mulher é verdadeiramente a sua
mulher, se os familiares são verdadeiramente seus familiares ou se ele próprio é verdadeiramente John Mur-
dock. Para isso, vai procurar ligar todas as peças soltas que existem a fim de descobrir um sentido e a verdade,
pondo em risco a sua própria vida. Mas prefere isso a viver numa ilusão.

Conteúdos programáticos aplicados


• O conhecimento filosófico vs o conhecimento do senso comum
– a incapacidade de aceitar como verdade algo que é inconsistente para a compreensão;
– a passividade de todos aqueles que aceitam a condição em que vivem e o conhecimento adquirido;
– o questionar os dados fornecidos pelos sentidos, a memória e a própria experiência.

• A atitude filosófica
– a importância de duvidar e de procurar um fundamento válido para as questões;
– a utilização da dúvida como método e não apenas como uma forma de levantar problemas;
– a procura incessante pela verdade e por um sentido para a vida;
– a visão crítica a propósito da interpretação da realidade.

• As questões filosóficas


– todo o filme se desenrola a partir de problemas/questões – a cada resposta surge uma nova questão;
– a personagem coloca questões de vária índole: o sentido da existência, a relação entre o mal e o bem,
a capacidade e os limites do conhecimento, etc.

• O discurso filosófico
– a procura de argumentos que possam sustentar a tese;
– a exigência de um discurso organizado e fundamentado.

Propostas de exploração
• Relacionar a atitude filosófica com a atitude da personagem principal.
• Identificar, a partir de situações do filme, essa atitude.
• Mostrar a importância da dúvida no ato de conhecer.
• Distinguir o conhecimento filosófico do conhecimento do senso comum.
• Mostrar em que medida a personagem principal levantou questões filosóficas.
• Analisar o discurso/argumento das diferentes personagens no filme.
• Avaliar a importância da Filosofia para o ser humano.
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Livro do professor A FILOSOFIA E A IMAGEM

A ação humana | análise e compreensão do agir

Ficha técnica

QUEM QUER SER BILIONÁRIO? / SLUMDOG


MILLIONAIRE
de Danny Boyle
Reino Unido, 2008 – 120 minutos
com: Dev Patel, Freida Pinto,
Anil Kapoor, Irrfan Khan, Tanay Chheda
SINOPSE
Jamal Malik, um jovem oriundo dos bairros de lata de Mumbai
(Índia) decide concorrer ao programa televisivo Quem Quer Ser
Milionário? e está a uma pergunta de ganhar o prémio final.
No entanto, esta situação causa uma série de dúvidas e proble-
mas, nomeadamente o de saber como um jovem com poucos
conhecimentos, vindo de um bairro pobre, acertou até agora
todas as questões do concurso! Terá tido acesso às respostas,
provando a existência de fraude no concurso? Ou as perguntas
colocadas coincidem com experiências de vida que ele teve até
então?

Objetivos gerais (do programa)


• Caracterizar a ação humana.
• Mostrar que na base da ação existe uma intenção, um motivo, uma finalidade, etc.
• Evidenciar o papel da conceção e da deliberação no fenómeno do agir.
• Mostrar que a ação humana está condicionada de múltiplas formas.
• Distinguir livre arbítrio de determinismo.
• Analisar o problema e compatibilidade do livre-arbítrio e do determinismo na ação humana.

Relação do filme com a temática filosófica


O filme retrata os aspetos fundamentais a abordar nesta unidade temática sobre o fenómeno da ação
humana, nomeadamente a rede conceptual a partir dos conceitos de intenção, motivo, fim, deliberação etc.,
e também o problema do determinismo e do livre-arbítrio.
Jamal Malik decide concorrer ao concurso Quem quer ser milionário? e, apesar de vir de um bairro pobre
de Mumbai e de ter pouca cultura geral, as perguntas que lhe foram colocadas ao longo do concurso estão
diretamente relacionadas com experiências por que passou, permitindo-lhe responder com exatidão. Ou seja,
Jamal apenas respondeu acertadamente porque, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, essas
questões já lhe haviam surgido no passado. Aí surge o problema da liberdade e/ou determinismo da ação
humana, uma vez que poderemos perguntar se Jamal teve apenas sorte nas questões que lhe saíram, se estava
destinado a viver situações que posteriormente lhe haveriam de surgir num concurso televisivo, ou se toda a
ação realizada estava sujeita a uma relação causa-efeito sendo, por isso, inevitável?
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Conteúdos programáticos aplicados


• A rede conceptual da ação
– a distinção entre o agir, o fazer e o acontecer;
– a ação enquanto um ato intencional e voluntário;
– a importância da deliberação e dos motivos para a tomada de qualquer decisão;
– a angústia da decisão.

• Condicionantes da ação
– a presença de condicionantes da ação de vária índole;
– o efeito e a possibilidade de contornar essas condicionantes.

• O livre-arbítrio vs determinismo
– a constatação de factos que poderão defender as posições deterministas, indeterministas, libertaris-
tas ou compatibilistas acerca da ação humana;
– o problema do fatalismo.

Propostas de exploração
• Distinguir agir de fazer e acontecer.
• Mostrar a importância da rede conceptual da ação presente no filme.
• Evidenciar o papel da deliberação e decisão na realização de uma ação.
• Refletir sobre os efeitos de cada ação que tomamos.
• Indicar algumas condicionantes da ação presentes no filme e mostrar de que forma influenciaram o
agir humano.
• Confrontar os factos do filme com as diversas perspetivas acerca do problema do determinismo e livre-
-arbítrio.

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Livro do professor A FILOSOFIA E A IMAGEM

Os valores | análise e compreensão da experiência valorativa

Ficha técnica

BILLY ELLIOT
de Stephen Daldry
Inglaterra, 2000 – 111 minutos
com: Jamie Bell, Julie Walters,
Jamie Draven, Gary Lewis, Jean Heywood

SINOPSE
Retrata a história de um rapaz humilde de 11 anos, habitante numa
cidade mineira do norte de Inglaterra que, no conturbado ano de
1984, se apaixona pelo ballet em vez de seguir o percurso normal da
maioria dos rapazes da sua idade que é inscrever-se no boxe ou no
futebol. A sua escolha levanta o problema dos preconceitos e dos
critérios valorativos, dado o ballet ser visto como uma atividade para
raparigas; aí é questionada a orientação sexual de Billy. No entanto,
ele apenas tem o prazer de dançar.

Objetivos gerais (do programa)


• Constatar que a ação individual e a sociedade se movem por valores.
• Identificar diversos tipos de valores e critérios valorativos.
• Mostrar que as preferências e valores variam em função da pessoa, grupo social e, sobretudo, da cultura.
• Caracterizar as teorias que respondem ao problema da natureza dos valores
• Apontar problemas decorrentes da diversidade cultural.
• Refletir sobre a riqueza da diversidade dos valores e a necessidade de encontrar formas de superação
desses conflitos.

Relação do filme com a temática filosófica


O filme descreve o papel dos critérios valorativos e o problema social dos preconceitos. Sabendo que
todas as nossas escolhas são efetuadas a partir dos valores, cada indivíduo ao viver integrado numa sociedade
é também educado a seguir um conjunto de normas e valores que essa própria sociedade lhe impõe. É aqui
que surge um problema: Billy Elliot é um rapaz de 11 anos que, em vez de se dedicar ao boxe, como fazem
quase todos os rapazes da sua idade, sente vocação para o ballet, uma atividade habitualmente para as rapa-
rigas, colocando em causa os padrões culturais da sua família e de toda a comunidade local. Por que razão
não tem ele os mesmos valores que os outros rapazes?
Billy ao dedicar-se ao ballet vai colocar uma série de questões ao nível dos valores, nomeadamente o pro-
blema dos critérios valorativos – será a sociedade e a tradição que determinam as preferências e a ação dos
indivíduos? –, a objetividade e a subjetividade dos valores – existirão objetivamente gostos/atividades mascu-
linas e femininas? –, o contexto cultural e a sua diversidade, bem como a formulação de preconceitos em virtude
das escolhas tomadas. Além disso, Billy coloca também a sua família perante um dilema: apoiá-lo a seguir a
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sua vocação (para a qual tem um dom natural), contrariando os seus próprios desejos e motivações, ou pro­curar
convencê-lo a seguir a tradição da família e os costumes da terra, dedicando-se a atividades masculinas e ao
trabalho nas minas que desde sempre foi o principal sustento da sua família e de toda a comunidade local.

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A FILOSOFIA E A IMAGEM Livro do professor

Conteúdos programáticos aplicados


• Valores e valoração
– a importância dos valores no mundo e na ação do indivíduo;
– as diferentes atribuições de valores;
– os diversos tipos de valores e respetiva hierarquia.

• A natureza dos valores


– a distinção entre juízos de facto e juízos de valor;
– o objetivismo axiológico vs subjetivismo axiológico.

• Os critérios valorativos


– os valores atribuídos pela sociedade/tradição;
– a razão como critério valorativo.

• A diversidade cultural
– o etnocentrismo e o multiculturalismo;
– o choque de valores e o conflito geracional;
– os preconceitos e formas de superar o interculturalismo.

Propostas de exploração
• Identificar os diversos tipos de valores e valoração presentes no filme.
• Mostrar em que medida os valores são indispensáveis para a vida social e variam de pessoa para pessoa.
• Esclarecer se alguns juízos de valor têm por base preconceitos.
• Analisar o problema da subjetividade e objetividade dos valores.
• Questionar a objetividade e universalidade dos critérios valorativos.
• Mostrar em que medida o indivíduo está sujeito aos critérios valorativos da sociedade e tradições.
• Evidenciar o papel da cultura na escolha dos tipos de vida dos indivíduos.
• Mostrar em que medida o etnocentrismo pode ser gerador de conflitos.
• Avaliar a importância da diversidade cultural

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Livro do professor A FILOSOFIA E A IMAGEM

A dimensão ético-política | análise e compreensão da experiência


convivencial

Ficha técnica

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA / BLINDNESS


de Fernando Meirelles
Canadá/Brasil/Japão, 2008 – 121 minutos
com: Julianne Moore, Mark Ruffalo,
Danny Glover, Gael Garcia Bernal, Alice Braga
SINOPSE
Uma cidade é devastada por uma epidemia denominada “cegueira
branca” pela qual as pessoas infetadas ficam cegas instantanea-
mente. Para controlar este surto, os primeiros indivíduos são iso-
lados num hospital abandonado, deixados à sua mercê, tendo a
necessidade de se organizarem para sobreviver. No entanto, a cria-
ção desta sociedade de cegos entra em rutura quando um pequeno
grupo pretende assumir o poder e controlo de todo o hospital
pondo em causa os conceitos de bem, direito, justiça ou dignidade
humana.

Objetivos gerais (do programa)


• Explicar o papel do outro e das instituições na construção do sujeito moral.
• Mostrar porque é que o outro é imprescindível na construção do eu.
• Deduzir as consequências éticas da relação eu-outro e eu-instituições.
• Estabelecer relação entre ética, direito e política.
• Referir a importância da ética, do direito e da política no funcionamento da sociedade.
• Enunciar os deveres gerais do Estado para a construção de uma sociedade justa.
• Caracterizar o conceito de justiça como equidade.
• Analisar o problema da sociedade justa a partir da perspetiva de Rawls.

Relação do filme com a temática filosófica


O filme explora de forma interessante a formação, o funcionamento e a degradação de uma sociedade que,
criada em condições excecionais, tem a necessidade de se organizar para subsistir. O facto de as vítimas de cegueira
serem colocadas de quarentena num hospital abandonado, e de terem de se habituar a viver sem qualquer tipo de
visão, mostra a fragilidade do ser humano, a indissociabilidade do eu e do outro e a necessidade de um agir ético.
A inexistência de qualquer tipo de autoridade ou assistência por parte das instituições dentro das pare-
des do hospital, para além da distribuição dos mantimentos, faz com que um grupo de indivíduos assuma a
liderança a fim de coordenar as ações de toda a comunidade de uma forma disciplinada e igualitária. O problema
surge quando outros colocam em causa a autenticidade da autoridade daqueles que espontaneamente assu-
miram a liderança, as suas decisões e os direitos assegurados a todos os indivíduos.
Assim, decidem assumir o controlo de todo o hospital e, por intermédio da força, oprimir toda a comu-
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nidade e em vez de se preocuparem com a estabilidade da sociedade, o respeito pelos valores e as necessida-
des de todos, procuram acima de tudo assegurar os interesses próprios e pessoais, provocando inevitavelmente
a desigualdade.

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A FILOSOFIA E A IMAGEM Livro do professor

A partir daqui torna-se interessante verificar e analisar as noções e as diferentes aplicações do direito/
justiça, o uso e o abuso de poder, a gestão dos interesses universais e particulares bem como determinar os
limites da obediência humana e as condições que a enquadram. Até que ponto pode um pequeno grupo
oprimir e desrespeitar a dignidade dos outros seres humanos, contrariando os princípios da moralidade e até
que ponto está o ser humano disposto a aceitar a sua condição de oprimido ou a revoltar-se em nome da
justiça, de um ideal e da mudança de um regime político e social.

Conteúdos programáticos aplicados


• A relação entre o eu, o outro e as instituições
– a adaptação à condição de cego e a necessidade do outro para se orientar;
– o respeito pelas diferenças individuais e o facto de todos estarem cegos, serem todos “iguais”;
– o antagonismo entre o eu e o outro – quando se vê o outro como um oponente ou adversário;
– a relação/antagonismo entre o eu e as instituições:
 – o Estado, ao colocá-los de quarentena isolados num hospital, procura assegurar os direitos dos não
infetados, ou seja, controlar o surto;
 – mas será que trata com dignidade e respeito os infetados ao abandoná-los no hospital? Será isso
que eles esperavam das instituições?

• O egoísmo ético
– uma certa fação que se sobrepõe à restante “sociedade”, pensando apenas no seu bem.

• Ética, direito e política


– a necessidade da criação de um conjunto de regras que permitam o funcionamento e a harmonia da
sociedade (direito);
– a necessidade de existir um grupo de liderança para coordenar e gerir essas regras (política);
– a necessidade de garantir a igualdade, a justiça e o respeito pela dignidade humana para assegurar a
estabilidade social (ética-direito-política);
– a formação de uma sociedade e um “Estado” de direito (dentro do local de quarentena);
– o princípio da democracia e o problema da liderança;
– será que existe democracia quando a autoridade é imposta pela força, sem respeito pelos direitos de
todos os “cidadãos”;
– quem deve deter o poder? (um grupo que espontaneamente assume a liderança e outro que, por
intermédio da força, se impõe no poder?);
– a distribuição do poder político e a ambição/abuso de poder;
– os conceitos de igualdade, justiça e equidade (que não foram respeitados pelo grupo que se instalou,
por imposição, no poder);
– a origem dos conflitos sociais (neste caso surgem pela inexistência de uma “sociedade” justa.

Propostas de exploração
• Identificar elementos que mostrem a necessidade de um agir ético.
• Mostrar em que medida o “eu” necessita do “outro” e das instituições.
• Referir a importância do direito e da política na organização da sociedade.
• Definir os conceitos de justiça, igualdade e equidade.
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• Indicar de que forma esses conceitos foram ou não explorados no filme.


• Questionar o valor da força enquanto instrumento de estabilidade social.
• Esclarecer se no filme a teoria do contrato social foi posta em prática.

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Livro do professor A FILOSOFIA E A IMAGEM

• Mostrar de que forma os princípios da sociedade justa proposta por Rawls foram ou não cumpridos e,
se não foram, como o poderiam ser.
• Refletir sobre as consequências da gestão política da comunidade.
• Refletir sobre os limites da obediência e da dignidade humana.
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A FILOSOFIA E A IMAGEM Livro do professor

A dimensão estética | análise e compreensão da experiência estética

Ficha técnica

AMADEUS
de Milos Forman
EUA, 1984 – 161 minutos
com: F. Murray Abraham, Tom Hulce,
Elizabeth Berridge, Simon Callow, Roy Dotrice
SINOPSE
Retrata a vida do génio Wolfgang Amadeus Mozart visto por
António Salieri, compositor da corte do imperador José II, con-
siderado nesta história como o seu grande rival e ao mesmo
tempo amigo próximo. Salieri fica revoltado ao descobrir que um
jovem irreverente e perverso foi abençoado com o virtuosismo e
o dom musical que ele sempre desejou possuir. Admirador da sua
arte mas ao mesmo tempo louco de inveja, Salieri divide a sua
ação entre a fruição das peças criadas por Mozart e o planea-
mento da destruição de um dos maiores génios musicais de todos
os tempos.

Objetivos gerais (do programa)


• Distinguir a experiência comum da experiência estética.
• Distinguir os juízos estéticos dos juízos lógico-cognitivos.
• Apontar as diferenças entre o objetivismo e o subjetivismo estético.
• Caracterizar o fenómeno da criação artística.
• Apresentar alguns critérios que poderão definir um objeto como artístico.
• Identificar e distinguir diferentes teorias acerca da natureza da arte.
• Descrever a atividade artística.
• Refletir sobre o papel social e cognitivo da arte.
• Descrever as consequências decorrentes da revolução tecnológica no domínio da arte.
• Caracterizar o modo de comunicação artística.

Relação do filme com a temática filosófica


O filme descreve a relação pessoal e artística entre Salieri e Mozart, uma relação que mostra o misto de
respeito e admiração e de ciúme que Salieri sente em relação a Mozart, em virtude do génio que lhe reconhece
e de não conseguir ser tão talentoso, apesar da sua total dedicação à música.
No entanto, no filme poderemos ver alguns dos aspetos fundamentais desta unidade: a experiência
estética e a fruição pela arte, neste caso a música clássica, o ato da criação artística e o génio criador, expresso
de forma bem patente na última parte do filme, quando Mozart, incapaz de concluir a sua peça, tem a ajuda
de Salieri que consegue senti-la e transcrevê-la para a pauta apenas a partir de uma descrição teórica de
Mozart. Também a relação entre os diversos juízos estéticos, os critérios que poderão definir um objeto como
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artístico – de salientar que a música de Mozart era inovadora na época – ou ainda a arte enquanto expressão
social e transfiguradora do real, a partir do momento em que Mozart adquire um certo estatuto social que
lhe permitindo ter acesso a coisas que antes lhe estavam vedadas.

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Livro do professor A FILOSOFIA E A IMAGEM

Conteúdos programáticos aplicados


• A experiência e o juízo estéticos
– a estrutura da experiência estética na admiração da natureza e também da arte;
– os sentimentos trazidos pela experiência estética ou a fruição pela arte;
– os juízos estéticos e cognitivos e sua postura face aos objetos estéticos e artísticos;
– a preocupação estética que existia na época;
– o subjetivismo e objetivismo estético a partir da apreciação das obras de Mozart.

• A criação artística e a obra de arte


– o problema da natureza da arte;
– os critérios que definem um objeto como obra de arte – a música revolucionária de Mozart;
– a arte enquanto criação e imaginação – o génio de Mozart;
– a arte enquanto expressão e significação.

• A arte enquanto comunicação, consumo e expressão social


– a comunicabilidade da arte e a sua expressão social;
– a arte enquanto uma forma de comunicação de massas;
– a arte enquanto consumo e expressão de um estatuto social.

Propostas de exploração
• Identificar formas de expressão estética e diferenciá-las da experiência comum.
• Relacionar os juízos estéticos e os juízos de gosto sobre a arte presentes no filme.
• Mostrar de que forma a subjetividade e objetividade estéticas estão presentes no filme.
• Analisar o conceito clássico de arte e de que forma Mozart o desafia.
• Esclarecer, a partir dos critérios estudados, em que medida a música pode ser uma arte.
• Identificar formas de expressão de arte e do génio criador.
• Avaliar a importância da música clássica e ópera à luz da época.
• Caracterizar a arte no filme como expressão social.
• Verificar que tipo de extrato social “consome” a música clássica na época.
• Justificar o verdadeiro sentido arte.
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A FILOSOFIA E A IMAGEM Livro do professor

A dimensão religiosa | análise e compreensão da experiência religiosa

Ficha técnica

A PAIXÃO DE CRISTO / THE PASSION


OF THE CHRIST
de Mel Gibson
EUA/Itália, 2004 – 125 minutos
com: Jim Caviezel, Maia Morgenstern,
Monica Bellucci, Christo Jivkov, Francesco de Vito

SINOPSE
Retrato sobre as últimas doze horas da vida de Jesus Cristo, um car-
pinteiro judeu que começou a pregar em público e a proclamar, na
província romana da Palestina, a vinda de um “reino de Deus”, tor-
nando-se num perigoso instrumento de poder. O filme aborda a capa-
cidade da religião de mobilizar multidões por intermédio da fé e os
conflitos sociais e políticos que daí advêm.

Objetivos gerais (do programa)


• Constatar a condição existencial humana de fragilidade.
• Mostrar em que medida a religião surge como uma resposta à condição existencial humana.
• Definir religião e descrever o fenómeno religioso, bem como o significado da fé.
• Mostrar que a religião se expressa enquanto vivência e de uma forma espiritual no contacto com a
transcendência (Deus e o divino).
• Caracterizar as dimensões pessoal e social da religião.
• Apresentar diversos argumentos sobre a prova da existência de Deus.
• Evidenciar o papel da Filosofia na interpretação dos fenómenos religiosos e na análise da fé.
• Analisar o contributo das diferentes religiões e as formas de superar os respetivos conflitos.

Relação do filme com a temática filosófica


O filme, ao retratar as últimas doze horas da vida de Jesus Cristo, aquele que se intitulou filho de Deus
dando origem ao fenómeno do Cristianismo, permite analisar não apenas a sua vida e mensagem que pro-
curou deixar à humanidade, mas também uma série de elementos sobre a religião e o fenómeno religioso.
Nele, poderemos constatar a condição existencial do ser humano de fragilidade face a uma série de
circunstâncias em que se encontra inserido e o facto de ter aparecido alguém com um discurso novo eviden-
ciando o perdão e anunciando a existência de uma realidade para além da morte que estabelece sentido à
existência e na qual cada indivíduo se salvará e terá paz eterna, foi capaz de fazer renascer uma nova esperança
e mobilizar multidões conduzidas pela fé. Também é importante verificar as diversas formas de manifestação
do sagrado assentes num conjunto de símbolos, mitos e ritos e as dimensões pessoal e social das religiões
que, por um lado mostram a forma como cada um adere às convicções religiosas, por outro como elas se
expressam e desenvolvem na sociedade.
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Noutro domínio, o filme descreve também a capacidade que a religião tem em mobilizar pessoas, paixões/
ódios e ao mesmo tempo assumir-se como um instrumento de poder. Cristo não tinha essa ambição, mas
apenas transmitir a mensagem divina, no entanto, o seu sucesso levou-o à morte, permitindo-nos questionar

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Livro do professor A FILOSOFIA E A IMAGEM

o sentido, o valor e a própria mensagem religiosa, quando apela à paz, ao amor e ao perdão e depois se vê
envolvida em conflitos.

Conteúdos programáticos aplicados


• A condição existencial do ser humano
– a presença da morte, do mal e das injustiças sociais leva a população a desacreditar no sentido da
existência;
– a angústia e o desespero presente na mente humana capaz de realizar atos “inumanos”.

• A religião como resposta à condição existencial humana


– a palavra de Cristo que apela à fé e à necessidade de os Homens acreditarem em algo;
– a revelação de Deus e a existência de uma realidade para além da morte onde o indivíduo encontrará
a salvação e a paz eterna com base no perdão;
– a relação entre o sagrado e o profano;
– o culto e as hierofanias;
– a vivência religiosa e o contacto com Deus;
– o conceito de religião.

• As dimensões pessoal e social da religião


– a entrega do indivíduo à religião por intermédio da fé;
– a revelação de Deus aos crentes e a criação de comunidades;
– a identidade das diversas religiões;
– o s diferentes símbolos, mitos e ritos das religiões (Judaísmo, “Cristianismo” e mitologia romana);
– o conflito entre as diversas religiões que culminam com a morte de Cristo.

• Religião, razão e fé
– a relação e possível conflito entre razão e fé;
– a intervenção da religião na vida social e decisões políticas (quando Cristo se torna uma ameaça
política, por exemplo, ou coloca os pobres com o mesmo estatuto que os ricos);
– o conflito entre as diversas religiões;
– a procura de diálogo entre as diversas religiões.

Propostas de exploração
• Indiciar elementos no filme que mostrem a condição existencial do ser humano e a sua aproximação
à religião.
• Mostrar de que forma a religião se apresenta como uma forma de resposta à condição existencial
humana de fragilidade.
• Descrever em que consiste o fenómeno religioso e a própria fé.
• Analisar um conjunto de símbolos, mitos e ritos de várias religiões presentes no filme.
• Estabelecer uma relação de proximidade e afastamento entre as diversas religiões.
• Descrever as dimensões pessoal e social da religião.
• Refletir sobre o sentido das religiões e os conflitos presentes no filme.
• Estabelecer uma relação entre religião e poder.
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• Apresentar um distanciamento crítico sobre o papel das religiões e, neste caso Cristo, na vida humana
e social.

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SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL Livro do professor

B. Sugestões de resposta às atividades do Manual


Observação: Nas perguntas que pressupõem respos- método - que permite ao filósofo distanciar-se do real
tas com envolvimento pessoal, oscilamos entre sugerir e investigar com maior profundidade o fundamento
percurso de resposta e apresentar a que, eventual- dos problemas e questões do real na busca incessante
mente, daríamos. de verdade e conhecimento
4.1 Historicidade.
I.1. Abordagem introdutória à Filosofia
4.2 A Filosofia é inseparável do seu contexto pois se
e ao filosofar
é sua pretensão compreender o real, não se pode dis-
p. 15
sociar deste. A Filosofia procura responder aos pro-
1.1 Poderá apresentar várias situações desde que blemas e às preocupações da vida social de cada época
impliquem uma reflexão e uma problematização em nas mais diversas áreas, refletindo as ideias do seu
torno do Homem, a sua relação com o mundo, o tempo.
próprio real, etc. 4.3 A Filosofia desenvolve a autonomia do pensa-
1.2 A Filosofia é a disciplina que trata do conheci- mento ao promover a reflexão e a crítica. O desejo de
mento do Homem e do Mundo, procurando, a partir conhecer deve partir de cada um e deve ser cada um
do uso da razão (pensamento), apresentar argumen- a procurar por si responder aos problemas com que
tos válidos e fundamentados sobre o real a fim de o se depara fazendo uso da razão e do seu próprio espí-
compreender ou de lhe conferir um sentido. rito curioso. A partir daí não se deve deixar “levar”
2.1 As primeiras impressões que recebemos das coi- pelas opiniões e aparências, mas ser capaz de ele pró-
sas ou as opiniões dos outros são importantes pois prio, por si só, formular juízos sobre a realidade.
são a primeira forma de conhecimento que obtemos,
no entanto são insuficientes para a Filosofia pois a p. 19
Filosofia é uma atividade reflexiva e crítica, logo não 1.1 O autor estabelece separação entre a realidade e
aceita nada como verdadeiro sem antes proceder a a filosofia, na medida em que, segundo ele, a Filoso-
um exame racional. fia é desprovida de “conteúdo” suportando-se apenas
2.2 O conhecimento geral é aquele que é do domínio nas ideias. A realidade é uma vivência particular
comum, partilhado por todas as pessoas, sem grande sujeita a uma série de fatores e a Filosofia, ao tentar
análise ou fundamento racional. Admite-se como compreendê-la, fecha-se em si mesma, nas suas
verdade as aparências dos sentidos ou aquilo que nos ideias, tornando-se demasiado abstrata.
é dado a conhecer pelas diversas fontes de comuni- 1.2 Aqui deverá defender a sua posição utilizando
cação; geralmente denomina-se por senso comum. Já um conjunto de argumentos a favor ou contra a ideia
a Filosofia é um conhecimento reflexivo e crítico, ou do autor. A favor poderá dar como exemplo o facto
seja, promove a autonomia do pensamento e a radi- da realidade ser demasiado complexa e por isso ten-
calidade, na medida em que procura um fundamento tar compreendê-la é distanciar-se dela; contra, poderá
válido para as questões, isto é, a verdade, desvalori- dizer que apesar da Filosofia se suportar em ideias é
zando o domínio da mera opinião. a partir delas que conseguimos compreender o real.
3. A atitude filosófica é sobretudo uma atitude refle- 1.3 A Filosofia tem uma dimensão teórica e prática,
xiva e crítica na qual a dúvida assume um papel pre- teórica na medida em que está direcionada para o
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ponderante. Se porventura é o espanto que dá a conhecimento conceptual e para a verdade, apresen-


origem à Filosofia, na medida em que desperta em tando um conjunto de conceitos, teorias e reflexões;
nós a vontade de conhecer, é a dúvida – enquanto prática na medida em que está também direcionada

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Livro do professor SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL

para ação e para a aplicação de conceitos. c. Gnosiologia


2. Aqui pretende-se uma resposta de carácter pessoal, d. Ética
podendo por isso, o aluno apresentar qualquer uma e. Ontologia
das posições. Defendendo a utilidade da Filosofia f. Estética
poderá argumentar, por exemplo, que a Filosofia per- g. Cosmologia
mite uma melhor compreensão do real e, a partir daí, 4. A Filosofia contribui para os problemas da ética a
auxiliar o indivíduo a escolher e a agir melhor; con- partir de um conjunto de reflexões sobre os conceitos
trariando a utilidade da Filosofia, poderá argumentar, de bem/mal, pessoa ou dignidade humana permi-
por exemplo, que a Filosofia é demasiado teórica e tindo lançar o debate e a definição para a regulação
que levanta um conjunto de problemas não conse- das ações humanas. A partir da reflexão filosófica
guindo chegar a um fim a partir das diversas respos- sobre os problemas éticos e morais é possível estabe-
tas e então, de nada servem ao indivíduo senão para lecer melhor as fronteiras entre o bem e o mal bem
argumentar. como a relação entre os diversos indivíduos, as insti-
3.1 Aqui também se pretende uma resposta de carác- tuições e o respeito pela dignidade individual.
ter pessoal, sendo objeto de análise os argumentos
p. 39
utilizados para defender cada uma das posições. Ao
defender a ideia desta conceção de Filosofia prática, 1.1 O tema refere-se à passividade do ser humano e
poderá utilizar o argumento de que a Filosofia ao à inércia do pensamento crítico.
promover o espírito reflexivo permite que o indivíduo 1.2 O autor apresenta os seguintes argumentos:
possa compreender melhor o real, o Homem e a sua – a incapacidade das pessoas defenderem e apresen-
posição no mundo, logo terá maior discernimento tarem valores em relação aos diversos problemas
para agir. Se contrariar esta ideia poderá argumentar – o facto de muitas pessoas aceitarem tudo o que lhes
que esta conceção reduz a Filosofia à mera opinião é dado sem questionarem, apesar de se queixarem;
na medida em que deixa de procurar os verdadeiros – as pessoas aceitarem a sua condição de “infelici-
fundamentos que estão na base de todo o conheci- dade” sem procurarem alterar o rumo dos aconteci-
mento. mentos ou encontrar um fundamento verdadeiramente
3.2 O pensamento abstrato é deveras importante válido
para o ser humano dado permitir-lhe distanciar-se 1.3 Aqui pretende-se que o aluno interprete o texto
do real, do concreto e do objetivo, ter uma visão mais e os diversos argumentos apresentados pelo autor e
abrangente e, eventualmente, encontrar outras solu- os reforce através da apresentação de outros argu-
ções para a compreensão e resolução de diversos pro- mentos, ou então que refute a ideia defendida pelo
blemas. autor. Se optar pela defesa da tese, poderá acrescentar,
por exemplo, o facto de os indivíduos não contesta-
p. 30
rem os seus direitos ou aquilo que julgam ser seus
1. Filosófica: c., d., e., f., i.; Não filosófica: a., b., g., direitos, ou a cultura que se verifica atualmente, com-
h., j. pletamente alienada pela globalização, etc. Para refu-
2. As questões filosóficas são questões teoréticas, tar, poderá argumentar que apesar dessa aparente
abertas e de natureza problematizante, abordando os passividade o ser humano não deixa de sonhar, ou
problemas de uma forma geral e crítica com base na pode mesmo acreditar que está no melhor caminho,
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razão e numa fundamentação argumentativa. ou que pelo contrário, começa (ou continua) a mos-
3. a. Axiologia trar a sua irreverência a partir de movimentos ou
b. Metafísica ações contestatárias de defesa dos seus interesses.

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SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL Livro do professor

2. A afirmação não é verdadeira dado que a validade sermos nós que os fazemos, não constituem uma ação.
de um argumento nada tem a ver com a verdade da 3.1 O senhor Lopes não praticou uma ação, dado não
sua conclusão. A validade diz respeito à estrutura do ter consciência nem intenção de esquecer-se da baga-
raciocínio, ou seja, se ele foi ou não bem realizado, gem no local onde a deixou. O esquecimento é algo
daí não poder ser julgado pelo critério de verdade. inconsciente, pois de outra forma não seria esqueci-
Apenas as proposições poderão ser verdadeiras ou mento, ora, se ação diz respeito aos atos conscientes,
falsas: um argumento formalmente válido pode apre- intencionais e voluntários realizados pelo agente com
sentar uma conclusão falsa, pois o raciocínio pode ter um objetivo, logo, o senhor Lopes não praticou uma
sido bem feito, mas estar assente em premissas falsas. ação.
3. O discurso argumentativo, ao assentar em argu-
p. 61
mentos para defender uma tese, não depende de uma
demonstração científica, mas sim da forma como se 1.1 Pretende-se que o aluno tome uma posição e
defende uma ideia. Logo, se o discurso for pouco justifique a razão de uma das opções tomadas, perce-
claro, mal estruturado ou dúbio na aplicação dos con- bendo que nem sempre é fácil escolher. Os principais
ceitos, mais frágil se torna e suscetível de ser refutado, objetivos a atingir com esta pergunta são perceber
contra-argumentado ou mesmo desvalorizado. que toda a ação independentemente da sua finalidade
4. Aqui volta a ser avaliada a capacidade de o aluno tem também os seus motivos e que, por vezes, o pro-
defender uma posição. Poderá concordar ou discordar cesso de decisão é extremamente difícil (ver também
da afirmação, no entanto, deverá referir-se à impor- pergunta 1.3).
tância do discurso filosófico – que é um discurso de 1.2 Intenção – qualquer uma das opções; Finalidade
natureza argumentativa que procura apresentar/ – auxiliar a vítima, exceto a opção d.
defender uma ideia, permitindo olhar o mundo de 1.3 O processo de escolha e decisão é um processo
outra forma – e também à aplicabilidade da Filosofia, difícil pois toda a ação tem efeitos e respetivas con-
se é ou não importante refletir sobre as coisas, mesmo sequências. Logo, o agente, ao optar uma determi-
que não obtenhamos uma resposta universalmente nada ação, terá de responder por ela e, apesar de ter
válida. uma previsão daquilo que poderá vir a acontecer, não
tem certezas quanto ao seu resultado. Além disso
II.1. A ação humana | análise e compreensão existem situações em que os efeitos de qualquer ação
do agir possível serão sempre negativos e, por isso é de todo
indesejada, sem esquecer o problemas de, em alguns
p. 53 casos, não haver reversibilidade na decisão tomada,
1. Agir – a., d., f., h., j. como é o caso da situação descrita: retirar a vítima
Fazer – b., c., e. poderá salvá-la mas também provocar lesões, aban-
Acontecer – g., i. donar o local do acidente à procura de auxílio pres-
2. Todo o agir é um fazer pois o ser o humano ao agir, supõe uma boa intenção, mas ao regressar ao local ela
inevitavelmente faz qualquer coisa. No entanto nem poderá já estar morta, mas permanecer no local e não
tudo aquilo que faz, o faz consciente, intencional ou ter sucesso nessa decisão, certamente trará conse-
voluntariamente. A ação diz respeito apenas aos atos quências ao nível da consciência do sujeito que sen-
praticados por um agente de forma consciente e tirá que poderia ter feito outra ou mais qualquer
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intencional direcionados para a obtenção de um obje- coisa.


tivo. Logo, existem coisas que fazemos inconsciente- 2. A vontade exerce um papel fundamental na reali-
mente e sem intenção, e portanto esses atos, apesar de zação da ação. É ela que determina que uma ação seja

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Livro do professor SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL

livre, pois só assim ela poderá pertencer ao próprio que as ações são determinadas por causas anteriores,
sujeito e, consequentemente, ser-lhe atribuída res- no entanto em alguns momentos existe espaço para
ponsabilidade. a liberdade, nomeadamente quando as escolhas não
3. Não fazer nada poderá, em alguns casos, ser con- são constrangidas. Logo, o texto apresenta uma visão
siderado uma ação, quando o sujeito tem consciência, compatibilista ao reconhecer que “tudo no mundo é
intenção e um objetivo na opção tomada. Se esse “não determinado mas, apesar de tudo, algumas ações são
fazer nada” provir de uma escolha consciente, volun- livres.” quando “Não somos forçados a fazê-las.”
tária e deliberada, tendo em conta uma finalidade, 2.2 Sim, existe diferença e o próprio texto faz essa
estamos perante uma ação. referência. Enquanto o determinismo defende a ideia
de que tudo aquilo que acontece é uma resposta natu-
p. 70
ral a uma causa anterior, o constrangimento é uma
1.1 Condicionante histórico-cultural. “força” que inibe o sujeito de agir. No entanto este é
1.2 Viver no interior ou no litoral são em si condi- um problema complexo, dado não sabermos em que
cionantes de ordem natural-geográfica e histórico- medida todas as condicionantes da ação não são
-cultural, pois existem elementos que não permitem constrangimentos da ação, ou de que forma a exis-
ao agente agir de forma igual caso estivesse nos dois tência de causas anteriores não é também constran-
espaços. Os elementos culturais do litoral e interior gimento.
são diferentes, as acessibilidades, as atividades, o 3. Aqui pretende-se uma resposta pessoal acerca da
clima, etc são tudo elementos que irão influenciar as sua posição em relação às conceções do determinismo
aspirações e comportamentos de qualquer indivíduo. e fatalismo, logo os alunos serão avaliados em função
1.3 As decisões são sempre nossas quando partem de dos argumentos utilizados. Poderá defender o deter-
uma decisão livre do sujeito – é cada um a partir da minismo afirmando que o ser humano, ao estar con-
sua escolha que decide agir desta ou daquela forma, dicionado por um conjunto de fatores, ilude-se ao
independentemente de estar, porque o está sempre, achar que pensa em novas formas de agir, no entanto,
condicionado. O problema que se pode levantar é se elas apenas acontecem pois existe um obstáculo
é ele que decide verdadeiramente as suas ações e não (causa anterior); poderá defender o livre-arbítrio afir-
estará determinado a agir desta ou daquela forma. mando que apesar de tudo o ser humano é dotado de
Esta perspetiva de abordagem denomina-se deter- vontade, logo, pode agir de acordo com essa vontade.
minismo que afirma que as escolhas são ilusórias, 4.1 Uma das críticas apontadas ao determinismo per-
dado que todo o comportamento, inclusive o humano gunta que sentido teria condenarmos uma pessoa por
é determinado por uma causa anterior e, por isso, um ato moralmente repreensível, se esta não pudesse
inevitável. ter agido de outra maneira. Isto é, se aceitarmos o
determinismo (radical) a moralidade não tem sen-
p. 77
tido, pois apresenta-se como um conjunto de normas
1. O determinismo é a teoria que nega a existência sobre o “dever ser”, mas o ser humano não pode esco-
do livre-arbítrio. Segundo esta perspetiva, o ser lher, dado o seu comportamento estar regido por uma
humano está determinado pela relação causa-efeito, causalidade a que não pode fugir.
por isso, todas as suas escolhas são inevitáveis, ou seja, 4.2 A perspetiva indeterminista defende que o com-
surgem em função da causa anterior e não de uma portamento humano não é determinado, mas, pelo
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vontade livre do sujeito. A partir daí, nega radical- contrário, indeterminado, ou seja, é aleatório; por isso,
mente a existência do livre arbítrio. não é possível prevê-lo, dado que o indivíduo poderá
2.1 Compatibilismo. O compatibilismo reconhece agir de uma maneira ou de outra qualquer numa

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SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL Livro do professor

mesma situação sem uma explicação. Nesse sentido, que são esses bens que são apreciados pelo sujeito.
esta corrente também não responde ao problema do 2.1 É o problema da natureza dos valores que aqui
fundamento da moralidade pois se o indivíduo agisse está a ser aflorada; o problema de saber que tipo de
em função das normas morais, o seu comportamento existência têm os valores.
já não seria indeterminado. 2.2 Está a referir o subjetivismo axiológico que
defende que o valor depende do sujeito valorativo e
II.2. Os valores | análise e compreensão da por isso é sempre relativo.
experiência valorativa 2.3 Esta resposta esquece que a valoração, embora
dependente do sujeito, também depende de proprie-
p. 88 dades do objeto ou da situação, que são objetivas,
1. Atribuo valor à saúde e à amizade. A saúde repre- independentes do sujeito, embora este as aprecie.
senta a possibilidade de viver e de viver com quali- Consequentemente o subjetivismo não apreende cor-
dade e eu aprecio a vida. O amor para mim também retamente a natureza dos valores.
é um valor porque, como não posso viver sem os 3.1 O autor concede que os valores exigem alguém
outros, prefiro que as minhas relações interpessoais que os reconheça enquanto valores.
se pautem pelo amor já que o amor é também indis- 3.2 Mas também entende que há propriedades obje-
pensável à qualidade de vida. tivas no objeto ou na situação que desencadeiam a
2.1 O dinheiro é o protótipo do valor instrumental, apreciação do sujeito.
de uma coisa que não vale por si, que não tem valor
p. 101
intrínseco, mas que vale enquanto meio para obter-
mos outras coisas que podem valer por si. 1.1 A harmonia entre os seres humanos e a paz só
2.2 O avarento, precisamente porque é avarento, tem serão atingíveis se os seres humanos se entenderem
uma perceção diferente do dinheiro, percebe-o como na aceitação de valores universais, valores que valham
algo que tem valor intrínseco, que vale por si. para todos, que sejam apreciados por todos.
3.1 Saúde, inteligência, conhecimento, autonomia 2. O critério religioso apresenta duas limitações
pessoal. importantes. Por um lado, ignora que atualmente
3.2 Presidiu o critério de que estes valores são fun- muitas pessoas não se revêm nele dado não terem
damentais e com eles poderei mesmo atingir outros, convicções religiosas. Por outro, as religiões, dadas as
da lista, que considero desejáveis. rivalidades existentes, são frequentemente intoleran-
3.3 Numa ilha deserta, provavelmente manteria a tes em relação a valores que cada uma delas entende
saúde e a inteligência, mas iria valorizar também como fundamentais.
prioritariamente os alimentos. 3. Mesmo se aceitarmos a razão enquanto critério
valorativo, não podemos esquecer que frequente-
p. 95
mente se tem invocado a razão para justificar valores
1.1 o autor considera que os valores constituem um que estão longe de receber adesão racional, quer dizer,
domínio próprio, independente do “mundo dos bens é frequente utilizar-se ardilosamente a razão. Por isso
através dos quais se manifestam”; apresentam ordem precisamos de estar alerta e usar a razão com espirito
e hierarquia e não dependem de “modificações his- crítico vigilante.
tóricas”. 4.1 A saúde, nas suas diferentes dimensões, é um valor
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1.2 Afasta-se do subjetivismo porque para este os fundamental; o conhecimento é também um valor
valores dependem do sujeito valorativo e são mutá- fundamental porque dá aos seres humanos a possibi-
veis; não são independentes do mundo dos bens por- lidade de serem mais livres das contingências da vida.

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Livro do professor SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL

4.2 Mesmo relativamente a estes dois valores, apa- não serem usados para oprimir os indivíduos que
rentemente consensuais, encontramos diferenças integram o grupo, e por outro apenas visarem ao
significativas que os podem colocar em causa. Por estabelecimento de relações igualitárias entre as
exemplo, podem defender-se políticas de saúde diferentes comunidades culturais, protegendo o
reprodutiva que impeçam as mulheres de viverem grupo minoritário do grupo que é tendencialmente
uma vida mais realizada e livre, ou até mesmo de dominante.
viverem, se lhes forem recusadas intervenções médi- 2.4 Sim, penso que esse deve ser o caminho pois só
cas para tal imprescindíveis. Quanto ao conheci- ele garante coexistência pacífica e sobretudo real inte-
mento, se por exemplo, se entender que é suficiente gração, compatível com a manutenção de elementos
ensinar as pessoas a lerem para assim melhor deco- identitários.
rarem os versículos dos livros sagrados, está a limitar- 2.5 O multiculturalista em Roma não que ser
-se enormemente o potencial que este valor romano, pretende continuar a ser isto ou aquilo.
representa. 2.6 Procuraria integrar-me o melhor possível na cul-
tura de acolhimento, claro que poderia manter mar-
p. 113
cas identitárias da minha cultura de origem,
1.1 Sim. Procuraram impor o seu padrão cultural, partilhando essas marcas, que aprecio, com os meus
considerando que este implicava “civilizar” popula- novos amigos.
ções ainda primitivas. 3.1 Com apreensão, porque percebo que nem sempre
1.2 A atitude etnocêntrica repousa na convicção de as condições que podemos oferecer são as que pre-
que os valores do grupo dominante são preferíveis, servam objetivos de integração cultural.
de que o estádio em que se encontra é superior. 3.2 Sim, o interculturalismo defende uma perspetiva
1.3 Sim, de facto, eu considero que, em muitos aspe- que considero correta, embora difícil, pois implica
tos relevante, os valores da civilização Ocidental são partilha de valores, participação na vida comunitária
preferíveis. e na vida política.
1.4 Com certeza que estavam a ser etnocêntricos, 3.3 Defenderia medidas, sobretudo a nível de ensino
mas no caso estavam também a ser pouco inteligen- da língua e da cultura portuguesa, que criassem con-
tes, pois entender-se que o sistema democrático é dições de integração, e também medidas que contra-
preferível é incompatível com a ideia de que ele se riassem a discriminação.
pode exportar. São necessárias condições para que um 3.4 A perspetiva cultural tende ainda a diferenciar as
regime democrático se enraíze e consolide, não é algo pessoas em função da cultura em que foram educa-
que se possa exportar, como se pode exportar vinho das, a perspetiva civilizacional tende a aproximar as
ou qualquer outra mercadoria. pessoas em função da condição humana a que todas
2.1 O multiculturalismo foi a política defendida após pertencem.
a derrocada do colonialismo europeu, quando se fixa-
ram nos países do Ocidente comunidades provenien- II.3.1 A dimensão ético-política | análise e
tes das antigas colónias. compreensão da experiência convivencial
2.2 Criação de guetos culturais e dominância nas
p. 127
novas comunidades de líderes religiosos intolerantes
e hostis aos direitos do individuo. 1.1 Sim; o personagem é o protótipo daqueles que
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2.3 Essa tentativa consistiu no reconhecimento de preferem seguir as regras estabelecidas por uma auto-
direitos de grupo para o grupo minoritário, mas ridade em que confiam, sem nunca as colocarem em
apenas na condição de esses direitos, por um lado, questão.

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SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL Livro do professor

1.2 Não, precisamente porque não questiona as regras p. 145


que segue.
1.1 As ações a. e b. estão em conformidade com o
1.3 Sim; porque não pensa pela sua cabeça, demite-se dever.
de pensar; como dirá Kant, não “ousa saber”. 1.2 A ação c. é imoral.
1.4 Não é fácil responder; por um lado, procuro agir, 1.3 É a ação a.
refletindo e deliberando, mas por outro, percebo que, 1.4 Ação a.: cumprir o dever independentemente das
na minha idade, sou muito vulnerável à influência dos consequências; Ação b.: cumprir o dever quando
outros; de qualquer modo, procuro fazer um esforço disso se tira vantagem; Ação c.: não cumprir o dever
no sentido de me tornar um ser humano autónomo. quando não é conveniente.
1.5 O texto de Savater critica a pessoa que só procede 1.5 É a máxima da ação a.
de acordo com as normas morais estabelecidas por 2.1 Kant subscreveria a b. porque defende uma ética
medo do castigo; essa pessoa, tal como o personagem racionalista em que o dever se encontra inscrito na
da banda desenhada não goza de autonomia moral. razão humana.
p. 135 2.2 Hesito entre a correção expressa em b. e a que é
proposta em c. Por um lado, vejo-me como um ser
1.1 A construção da identidade pessoal em certo sen- racional, capaz de refletir sobre as suas ações e procurar
tido exige a intermediação do outro porque é perante os melhores caminhos; por outro, reconheço que foi a
o outro que me afirmo como um “eu”. Como se refere sociedade, através da educação e do processo de socia-
no texto: “ é contemplando-se no olhar que os outros lização, que incutiu em mim o sentido do dever, isto é,
lhe dirigem que uma pessoa constrói o seu “si não considero que ele seja inato à minha razão. Mas,
mesmo”. mesmo admitindo a influência da sociedade, penso que
1.2 Por exemplo, o sistema judicial é uma importante fica sempre uma margem de manobra para questionar
instituição pois é através dele que se regulariza a vida ou mesmo rejeitar princípios com os quais, após uma
social e que é possível limitar a margem de conflitos análise crítica e inserida num contexto, não concordo.
interpessoais e, no caso de surgirem, resolvê-los sem 2.3 Em minha opinião, a menos plausível é a a. por-
o recurso descontrolado a uma qualquer forma de que presume a existência de uma espécie de facul-
violência que ignore princípios de justiça. dade, o sentimento, que nos permitiria distinguir o
2. Por exemplo, a instituição escolar tem o dever de bem do mal e não julgo que tal faculdade exista.
transmitir informações, conhecimentos e valores, mas
os alunos tem o dever de corresponder ao esforço p. 150
feito para ajudar ao seu desenvolvimento e integra- 1. Em Kant, as normas éticas decorrem da observân-
ção. cia do imperativo categórico e este é um princípio a
3. A relação entre a pessoa e as instituições é ambi- priori da razão, está como que inscrito na razão
valente porque comporta duas dimensões, uma de humana, decorre do facto de sermos seres racionais
complementaridade em que ambas se suportam, por que têm de se comportar racionalmente. Para a ética
exemplo sem alunos não há escola, sem escola não há utilitarista, as normas morais foram aqueles princí-
alunos, mas também existe algum antagonismo, por- pios de conduta que a experiência mostrou serem os
que a integração não se faz sem reações e sem que melhores. Portanto, num caso temos uma perspetiva
seja necessário negociar, no sentido em que pessoa e racionalista, no outro, uma perspetiva empirista.
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instituição têm de fazer ajustamentos recíprocos. Os 2. É uma ética hedonista no sentido em que consi-
alunos de uma escola, por exemplo, têm a noção de dera que a felicidade é o supremo bem e é um valor
que as coisas se passam desta maneira. que vale por si.

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Livro do professor SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL

3. O imperativo categórico exprime-se, em termos 2. A teoria do contrato social defende que, por con-
de linguagem comum, no princípio: não faças aos trato, os governados delegam poder nos governantes,
outros o que não gostarias que te fizessem a ti; ora mas, em última análise, a soberania reside no povo.
para Singer a própria evolução humana levou os Os governantes têm o dever de defender os legítimos
seres humanos a aprenderem este princípio, ao veri- interesses dos governados. Todos são iguais perante
ficarem que se dariam mal se não o observassem e a lei e não há súbditos, simplesmente cidadãos.
que tinham mais hipóteses de sobrevivência dando- 3. Rawls tem um contributo inovador na medida em
-lhe atenção. que defende que a escolha dos princípios gerais que
4. Ignora que, embora as consequências sejam enquadram o contrato deve ser feita sob um véu de
importantes, elas não são tudo e por vezes, inde- ignorância para que se escolham princípios justos e
pendentemente da eventual bondade das conse- imparciais. As pessoas que escolhem esses princípios
quências há ações que são intrinsecamente más; têm de proceder como se não soubessem a que
por exemplo, sacrificar a vida de uma pessoa ino- extrato social pertencem, se são mulheres ou homens,
cente para salvar outras vidas, por mais respeitáveis negros ou brancos, velhos ou jovens, etc.
que estas sejam, é uma decisão de valor ético dis- 4. A situação I é injusta e o fundamento da injustiça
cutível. está explicitado na alínea c.
5. Em conformidade com a doutrina utilitarista, o A situação II é justa e o fundamento é explicitado na
serial killer deveria ser denunciado pois, se não o alínea d.
fosse, as consequências seriam terríveis. A situação III é injusta e o fundamento é explicitado
6. A ética utilitarista considera que são as consequên- na alínea a.
cias que permitem avaliar o valor ético da ação; a A situação IV é justa e o fundamento é explicitado
ética kantiana considera que as consequências são na alínea e.
irrelevantes. A situação V é justa e o fundamento é explicitado na
Para o utilitarismo, a lei moral tem origem empírica, alínea b.
em kant é um apriori da razão. II.3.2 A dimensão estética | análise e compreensão
Para o utilitarismo, o critério de moralidade é a maior da experiência estética
felicidade para o maior número de pessoas; para
Kant, é o cumprimento do dever por respeito ao pró- p. 184
prio dever. 1.1 “o juízo de valor sobre uma obra depende da
estrutura dessa obra”; “o valor é interno à obra”.
p.168
1.2 O valor… só aparece no momento em que esta
1. 1.º aspeto: diferentemente de Aristóteles que (a obra) é interrogada por um leitor”; “a leitura não é
considerou que a vida em sociedades politicamente apenas … mas também um processo de valorização
organizadas era inerente à condição humana, os e de valoração”.
contratualistas colocaram a hipótese de um estado 1.3 Alude-se à divisão entre o leitor por um lado e a
de natureza original que se caracterizaria pela obra por outro; esta divisão tem de ser ultrapassada
ausência de organização política. porque o juízo de valor supõe tanto o sujeito como o
2.º aspeto: Diferentemente de Aristóteles, que natu- objeto, como defende a conceção relacional dos valo-
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ralizava as desigualdades entre os seres humanos, os res.


contratualistas defendem que todos os seres humanos 1.4 Unidade, diversidade e complexidade.
nascem livres e iguais. 1.5 Desinteressada, empática e contemplativa.

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SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL Livro do professor

p. 192 2.1 Através da tecnologia conseguia reproduzir-se


massivamente imagens que anteriormente eram ori-
1.1 A criação divina teria partido do nada – criação
ginais e únicas e que por tal motivo adquiriam um
ex nihilo. A criação artística pressupõe sempre uma
matéria-prima e apoia-se no que outros, antes, cria- valor muito especial, uma espécie de aura que agora
ram. se perde.
1.2 Porque sem aquele particular artista/criador 2.2 A arte de massas, ligada ao mercado, acabou por
aquela obra nunca teria surgido. nivelar “por baixo” a produção artística e desse modo
não contribuiu para o aperfeiçoamento e desenvol-
p. 202 vimento dos consumidores, condenados em certa
1. Porque as novas técnicas, particularmente a técnica medida à mediocridade. Portanto, provavelmente
fotográfica, podiam fazer aquilo que a arte/imitação Benjamim não tinha razões para estar otimista.
se propunha fazer; a arte imitação tornava-se redun- 3. A obra de arte tem uma natureza polissémica no
dante. sentido em que é “aberta” a várias interpretações,
2. A teoria da arte como expressão considera que a assumindo assim vários sentidos.
função da arte é exprimir e transmitir sentimentos e 4. Sim. Embora o objetivo da arte não seja a trans-
emoções ao fruidor através da obra criada pelo artista, missão de conhecimentos, o facto é que ela abre
a tónica é posta no sentimento que a obra provoca. novos horizontes de compreensão e permite encon-
A teoria da arte como forma significante considera trar perspetivas em que anteriormente não se tinha
que a arte vive da forma que o artista consegue dar pensado.
ao trabalho artístico – reside no objeto; mas também
considera que o objetivo do trabalho é conseguido se, II.3.3 A dimensão religiosa | análise e
através dessa forma, a obra transmitir emoções esté- compreensão da experiência religiosa
ticas. A ênfase é posta no objeto estético.
p. 228
3. Se a arte e o que se entende por arte dependem
sempre do contexto, nomeadamente contexto histó- 1. Existem vários elementos tais como:
rico, então novos contextos darão origem a novos – a morte, que pode surgir a qualquer momento, sem
entendimentos sobre o que é arte e o conceito torna- explicação e anuncia o fim a vida;
-se indefinível porque não se pode encerrar numa – as doenças de que o ser humano padece sem uma
essência imutável. razão aparente e que podem atingir seres inocentes;
4. A teoria da arte como instituição faz depender o – a existência do mal, que nos leva questionar a sua
que é e o que não é arte da autoridade daqueles que razão de ser;
constituem o mundo da arte. O mínimo que se pode – a inexistência de uma explicação para o sentido da
dizer desta teoria é que as autoridades artísticas se existência.
têm enganado frequentemente sobre o que é arte. 2.1 O autor defende a tese de que a morte, enquanto
facto concreto e real, é a única certeza que o indiví-
p. 216 duo tem em relação à sua existência.
1. A teoria da arte como representação/imitação da 2.2 A morte desempenha um papel deveras impor-
realidade entrou em declínio. A fotografia podia tante na consciência do indivíduo dado ser uma rea-
representar com maior fidelidade a realidade e nesse lidade que qualquer ser humano não pode evitar, que
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aspeto a arte, particularmente a pintura, corria o risco poderá surgir a qualquer altura, sem aviso prévio e
de se tornar supérflua ou pelo menos irrelevante, se poderá apresentar-se como o fim de tudo. Assim, ela
mantivesse o propósito de representar/imitar. surge como uma ameaça constante com que todo o

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Livro do professor SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL

ser humano convive diariamente a partir da consta- 3.3 Aqui, mais uma vez, pede-se uma opinião pessoal,
tação de que outros seres humanos são vítimas dessa logo o aluno poderá dizer que sim, são situações
condição. absurdas, pois racionalmente não encontramos um
2.3 A morte põe em causa o sentido da existência argumento válido para considerar essa explicação
pois o ser humano, ao construir projetos e programar válida; por outro lado, a crença na existência da rea-
a sua vida a partir do uso da sua liberdade, pode ver lidade transcendente permite ao indivíduo com-
estes serem interrompidos a qualquer momento sem preender melhor a sua condição existencial e aceitar
nenhuma justificação. A partir daí o ser humano mais facilmente o mal, as tragédias e, sobretudo, a
poderá perguntar o porquê de alguns sacrifícios que morte.
faz em nome do bem, da justiça ou de um projeto p. 234
quando tudo poderá ser suspenso num instante pela
morte. 1.1 A religião é toda a experiência que, a partir do
2.4 Aqui pretende-se uma resposta pessoal acerca do ato de fé, põe o ser humano em contacto com o
sagrado, com uma realidade divina e perfeita, supor-
sentido ou não existência humana. O aluno poderá
tada na figura de Deus, que ilumina e protege o ser
utilizar os argumentos apresentados ao longo da
humano da sua condição. Logo, a religião implica o
exposição do manual afirmando que a vida não tem
contacto com o sagrado, essa realidade transcendente
sentido, pois o indivíduo está só no mundo e depende
superior que permite a ligação com o divino a partir
exclusivamente de si – logo procurar um sentido ou
da experiência espiritual.
uma explicação para as coisas e para realidade é um
1.2 As superstições espontâneas são formas de mani-
trabalho inútil, dado ele ser um ser contingente (Sar-
festação de religiosidade, na medida em que expres-
tre). Contrariando esta ideia, poderá afirmar que a
sam uma crença, no entanto não se podem comparar
vida tem sentido quando ele procura fora da sua rea-
à complexidade das religiões. Estas compreendem
lidade concreta para todos os problemas e questões
uma estrutura e fundamento mais consistente e
que coloca sobre o real. Aí, a religião a partir da fé,
assentam na figura de uma entidade máxima repre-
poderá apresentar-se como uma forma de responder
sentada por Deus.
ao problema do sentido da existência, dado que existe 2. Existem diversas formas de manifestação do
uma explicação para certos factos se verificarem sagrado desde o culto, a importância atribuída a sím-
(Kierkegaard). bolos, espaços, mitos ou narrativas que envolvem o
3.1 A crença em algo fora da existência concreta do divino, etc.
indivíduo poderá atribuir um sentido para a existên- 3. As hierofanias podem definir-se como o ato de
cia humana por diversos fatores: (1) o ser humano manifestação do sagrado. A partir do mundo profano,
deixa de se sentir só; (2) afinal a vida e todas as ações o ser humano encontra elementos que o poderão
não são em vão; (3) todos os factos aparentemente colocar em contacto e íntima relação com a realidade
sem explicação têm uma razão de ser e um sentido; divina e sagrada, daí esses elementos assumirem um
(4) a morte não é fim de tudo mas apenas uma pas- estatuto especial.
sagem para algo superior que garante a paz eterna. 4.1 Segundo o autor a verdadeira religiosidade é
3.2 Todos estes elementos indiciam a existência de aquela que é expressa por uma razão primitiva, ou
algo transcendente que interfere no normal decurso seja, que não envolve uma grande reflexão. A partir
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das coisas e a que, pelo facto de o ser humano não daqui o autor estabelece uma separação entre fé e
encontrar uma explicação, atribui um significado razão, ela é sobretudo uma vivência e não uma adesão
divino e superior. racional.

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SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL Livro do professor

4.2 A religião não suprime a angústia da morte mas, dimensão social. A criação de uma identidade e
ao atribuir-lhe um sentido, o ser humano poderá comunidade, a partilha de experiências, símbolos,
aceitá-la melhor. mitos e ritos tornam inevitável a indissociabilidade
5.1 Para Marx, a religião é uma criação ilusória da entre as dimensões pessoal e social da religião.
sociedade com o objetivo de controlar e dominar o 2. a. Crença – dimensão pessoal
povo. Ao acreditar na existência de Deus e da salva- b. Cerimónia fúnebre – dimensão social
ção, a pessoa aceita a sua condição de oprimida e c. Oração e recolhimento – dimensão pessoal
deixa-se alienar pelos interesses políticos e económi- d. Veneração a um determinado santo – dimensão
cos. social mas também pessoal
5.2 Aqui poderá apresentar uma série de argumentos e. Peregrinação a Fátima ou a Meca – dimensão
a favor ou contra a visão de Marx: A favor, o facto social
do ser humano não ter provas concretas da existência 3.1 Esta situação apresenta duas formas de aborda-
de Deus, logo entrega-se a algo que não sabe se gem à religião e como a fé/Deus é representada(o) de
existe; o facto de a própria religião fazer uso e pro- formas distintas em função dos contextos e situações.
veito para a prática de ações menos corretas ou a A primeira afirmação apresenta uma visão em que a
relação próxima que as entidades institucionais reli- origem do mal provém do abandono de Deus, origi-
giosas estabelecem com as instituições políticas e nando, a partir daí uma crise da fé, na medida em que
económica. Contra, o facto de o ser humano se sen- se questiona o que terá feito o indivíduo/sociedade
tir melhor consigo mesmo no mundo em que habita para Deus deixar isso acontecer? Na segunda afirma-
através da religião; o papel que a religião exerce na ção, a calamidade surge como uma fonte e necessi-
fundamentação moral, originado mais paz social a dade para mostrar uma maior determinação na fé.
partir da sua mensagem, tornando as pessoas mais Enquanto na primeira o indivíduo se sente abando-
dignas de felicidade, para além de um conjunto de nado por Deus, na segunda ele sente que terá ainda
acontecimentos e determinadas figuras históricas que de ter mais fé para mudar o rumo dos acontecimen-
anunciaram e deram a sua vida na defesa da existên- tos, expressando deste modo uma fé inabalável e em
cia de uma realidade transcendente e divina. sentido positivo.
6. A religião é importante pois, a partir da fé, o ser Inevitavelmente estas duas expressões são de carácter
humano sente-se mais protegido e com mais força pessoal, pois é a convicção de cada indivíduo que está
para “enfrentar” a sua condição existencial de fragili- em causa, no entanto a sociologia diz-nos que estas
dade e eventual ausência de sentido. Ao acreditar na posições diferentes têm sobretudo um carácter cul-
existência de uma realidade transcendente, superior tural e, por isso, a sua expressão é mais social. As
e eterna, assente na figura de Deus, a vertigem do culturas mais pobres e subdesenvolvidas, identificam-
nada e da morte tornam-se mais compreensíveis, -se mais com a primeira afirmação.
dado que tudo quilo que acontece tem um sentido 4. O símbolo é um elemento de extrema importância
final. no fenómeno religioso. Ele corporifica uma determi-
nada mensagem e significado e assume um determi-
p. 244
nado valor partilhado pelo indivíduo e por todos os
1. A religião contém uma dimensão pessoal, dado ser membros de uma comunidade religiosa. De entre um
o crente que, pela sua vontade e fé, adere a uma deter- conjunto de exemplos poderemos ver a cruz, símbolo
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minada religião; no entanto, uma vez que a religião do Cristianismo que representa a morte de Cristo
se encontra na sociedade e os seus reveladores se diri- cruxificado; a Lua crescente com estrela, símbolo do
gem a toda a comunidade, não pode separar-se da Islamismo, representando a paz e a frescura da Lua

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Livro do professor SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL

como consolo e encontro com o Deus Alah; a Estrela 2.2 O autor faz uso dessa afirmação para mostrar que
de David, símbolo do Judaísmo, formado a partir da os argumentos e fundamentos suportados na fé reli-
união dos triângulos da água e do fogo. giosa não têm uma solidez tão eficaz em termos de
5.1 O Natal, o batizado ou o casamento religioso são conhecimento por não fazerem um uso devido da razão
sobretudo eventos religiosos, dado que a sua partici- e uma análise suficientemente crítica. O argumento da
pação e mensagem tem um cariz próprio da religião fé pode ser suficiente para mostrar algo, mas, quando
e a sua vivência parte de uma instituição religiosa e questionado de uma forma racional e crítica, serão
da crença individual de cada ser humano. No entanto, encontradas explicações pouco sólidas e eventualmente
porque cada sociedade tem a sua expressão religiosa, incongruências, sendo por isso de natureza mais frágil.
é natural que estes exemplos assumam uma dimensão 2.3 Aqui o aluno poderá utilizar um conjunto de
social. Agora cabe a cada indivíduo debruçar-se sobre argumentos que se encontram descritos de uma
si próprio e questionar o que eles representam forma sucinta nas páginas 250 e 251 do Manual em
enquanto fenómeno religioso. que aborda a relação “histórica” entre fé e razão, desde
5.2 A resposta aqui poderá ser sim e não, depende os que consideram que razão é incompatível com fé,
da forma e posição que o aluno assumir. De facto, até aos que consideram que a razão deveria estar ao
vemos hoje uma série de fenómenos religiosos tra- serviço da fé (escolástica), entre outros.
duzirem-se mais em fenómenos sociais perdendo o 3.1 a. aproximação
seu impacto ou mesmo a mensagem religiosa deixar b. separação
de ter a sua importância. No entanto o este pro- c. separação
blema poderá não residir na religião propriamente d. separação
dita mas na forma como o crente vive a sua fé, e. separação
­deixando-se dominar pela inércia e pelos hábitos, f. separação
perdendo a sua vivência autêntica e o sentimento g. separação
religioso. h. aproximação

p. 252 p. 263
1. A religião enquanto vivência está intimamente 1. a. argumento teleológico
relacionada com a fé. Todo o sentimento religioso se b. argumento ontológico
baseia na fé e é a partir dela que o crente sente con- c. argumento cosmológico
fiança e adere ao fenómeno religioso. No entanto a d. argumento ontológico
fé não é desprovida de qualquer racionalidade, mas 2.1 Argumento teleológico. O texto procura provar
compreende também uma reflexão e análise crítica a existência de Deus defendendo que o mundo foi
sobre os fenómenos, caso contrário, tudo aquilo que criado com uma finalidade, um desígnio, fazendo
aparece à luz do ser humano como misterioso seria uma analogia entre as criações humanas que são pro-
uma mensagem do divino. Assim, fé e razão estão duzidas com um fim. Ora, o argumento teleológico
intimamente ligadas no fenómeno religioso embora utiliza justamente essa analogia para provar a exis-
nem sempre de forma pacífica, dado que em alguns tência de Deus – tal como as coisas criadas pelo
períodos da história se questionou “quem” deveria Homem foram criadas com um fim, o Universo tam-
estar ao serviço de quem ou mesmo se existiria com- bém deverá ter sido criado para um desígnio qualquer
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patibilidade entre fé e razão. e, não tendo sido o seu autor nem o Homem nem
2.1 Segundo o autor a relação entre fé e razão é de uma entidade presente no mundo, Deus terá de exis-
oposição. tir enquanto seu criador.

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SUGESTÕES DE RESPOSTA ÀS ATIVIDADES DO MANUAL Livro do professor

2.2 De um conjunto de críticas, eis as mais impor- – diferenças culturais entre as sociedades religiosas;
tantes: – pouco diálogo entre os líderes espirituais e os cren-
– De que forma o raciocínio por analogia é suficien- tes das respetivas religiões;
temente consistente para provar a existência de algo? – instrumentalização da religião como forma de
– Que garantias temos de que a complexidade da poder;
natureza e dos seres vivos se deve a um criador e não – interesses socioeconómicos instituídos;
a uma adaptação dos mesmos? – diferente importância social que as diversas reli-
– Se Deus é o criador e a finalidade absoluta do Uni- giões têm no seio da mesma sociedade;
verso, como explicar o sofrimento e todos os dramas – desvio fundamentalista;
que assolam a existência dos seres humanos? – fanatismo religioso.
3. Os conceitos de criacionismo e evolucionismo 1.2 Aqui poderão ser apresentadas duas posições,
entram em conflito no argumento do desígnio, pois importa analisar os argumentos utilizados. Os que
a teoria evolucionista afirma que a complexidade dos afirmam que sim, poderão argumentar que a religião,
seres vivos se deve a um processo evolutivo da própria ao criar comunidades, cria divisões entre a sociedade,
espécie e de seleção natural e não a partir de um ato na medida em que nem todos partilham a mesma
de criação. Logo, não foi o “relojoeiro” que os criou religião, o facto também de se envolver em questões
com esta complexidade, mas foram eles que evoluí- sociais e políticas – mesmo apesar de procurarem
ram para esse plano. promover a paz, o bem e a justiça – entre outros argu-
4.1 Kant defende a tese de que “é moralmente neces- mentos. Os que afirmam que não poderão argumen-
sário admitir a existência de Deus.” Se a razão nos tar que o problema dos conflitos não se encontra na
mostra que devemos procurar o soberano bem, seria religião mas na forma como os crentes vivem e inter-
irracional que este não existisse; ora só Deus pode ser pretam a religião.
o garante da existência do soberano bem; logo Deus 2.1 A tolerância diz respeito à aceitação ou respeito
tem de existir. Podemos destacar os seguintes que uma determinada pessoa ou comunidade
momentos no seu percurso argumentativo: assume perante outra com ideologias, valores ou
O soberano bem pressupõe uma causa suprema da princípios diferentes. A tolerância religiosa refere-se
natureza – Deus. a coexistência pacífica entre as diversas religiões e
A razão impõe-nos que procuremos o soberano bem; supõe que nenhum crente de uma religião seja dis-
Logo, o soberano bem tem de ser possível (de outro criminado apenas por ter uma orientação religiosa
modo seria irracional procurá-lo) diferente.
Logo, Deus tem de existir como garante da existên- 2.2 A intolerância surge quando pessoas com uma
cia do soberano bem. ideologia não aceitam nem compreendem a diferente
4.2 O termo postulado assume uma importância ideologia de outras; consideram as suas crenças e
determinante na teoria de Kant, na medida em que convicções as mais corretas e aquelas a partir das
é a partir deste conceito que Kant demonstra a exis- quais toda a humanidade ou grupo próximo se deve-
tência de Deus, ou seja, dado não ser possível provar ria orientar. Ora isso verifica-se não apenas entre os
a existência de Deus, ele terá de existir enquanto pos- crentes das diversas religiões, mas também entre os
tulado para garantir o fundamento da moralidade. indivíduos crentes e não crentes – os crentes por
vezes não compreendem nem aceitam que algumas
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pessoas possam viver sem se identificar com qualquer
1.1 – divergências em alguns princípios, ideais e prá- religião ou fenómeno religioso, da mesma forma
ticas religiosas; como alguns não crentes não compreendem nem

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aceitam as suas crenças e opções em termos de ideo- 4.2 A crença diz respeito àquilo em que cada indiví-
logia e vivência. duo acredita. Neste caso, refere-se à convicção e
3. Aqui poderá defender qualquer uma das posições. forma de aderir (e envolver) a um determinada ideo-
Poderá afirmar que concorda, dado que a religião tem logia ou religião. O fanatismo pode provir da crença,
como finalidade proporcionar ao ser humano o contacto mas diz respeito à rejeição de qualquer outra ideia ou
com a realidade divina e procurar assegurar a estabili- religião contrária à sua. Logo, a crença excessiva
dade do ser humano em relação ao sentido da existência, poderá conduzir ao fanatismo, no entanto são ele-
logo a sua ação desenvolve-se no campo espiritual. mentos diferentes.
Poderá contrariar, afirmando que, apesar da religião se 4.3 O diálogo inter-religioso é de extrema importân-
situar mais ao nível do espiritual, deverá sempre mani- cia a fim de todas as religiões poderem coexistir paci-
festar-se quando estão em causa os valores como o Bem, ficamente. Cada indivíduo é livre de aderir à religião
a justiça, vida ou dignidade humana, pois, apesar de em relação à qual sente maior proximidade ou maior
tudo, a religião não deixa de ter um fundamento ético. convicção. Daí ser importante saber respeitar essas
4.1 O texto levanta a questão dos limites da fé e em escolhas e essas diferenças pois cada um deverá
que medida uma fé extrema não poderá ter efeitos encontrar o seu caminho para se sentir bem na sua
negativos. A partir daí a resposta que poderia ser relação consigo mesmo, com o mundo e o sentido da
dada prende-se com o aspeto não da fé extremista existência.
mas com a ausência de tolerância em relação a outras Uma vez que as religiões têm uma estrutura assente
religiões ou ideologias. Uma fé radical ou absoluta em líderes religiosos, esse diálogo tem de vir também
não conduz ao desrespeito por outras formas de estar por parte dessa estrutura a fim de, primeiro, dar o
e acreditar. Esse problema diz respeito à tolerância, exemplo para todos os seus seguidores, segundo, para
quando o indivíduo não aceita mais nenhuma outra encontrar pontos em comum entre as diversas reli-
religião ou ideologias a não ser a sua. giões.
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O PROJETO

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1 Manual
• Manual do professor integrado
2 Caderno de atividades
• Dezenas de atividades para realização
– manual do aluno autónoma do aluno, sínteses e
com informação exclusiva para esquemas conceptuais dos conteúdos
o professor, que inclui notas programáticos e metodologias
metodológicas, sugestões de trabalho
de análise de textos
e imagens, entre outras

3 Preparar os testes
• Provas-tipo exame e propostas de correção
para melhor preparar os testes oferta ao aluno

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Livro do professor
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• Análise e exploração de imagens (pintura e filmes)


• Planificações anual e de subunidades
• Sugestões de correção das atividades, entre outros
• Análise e exploração de textos filosóficos recursos de apoio

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