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N° 20 | Setembro de 2013 U rdimento

Ritornelo e
repetição-variação 1

Ariane Martinez2

A
repetição, gura literária de múl-
tiplas variantes (retomada de uma de algodão) tomam cuidado para retomar os
palavra, de uma frase, de uma ex- termos ou metáforas de seu interlocutor,
pressão, até mesmo de um frag- indicando por esse procedimento que res-
mento textual inteiro; no início ou no nal pondem um ao outro, apesar da extensão
de uma réplica...), pode funcionar como monológica de seus discursos.
uma baliza do diálogo dramático, um pon- Entretanto, quando levada ao exagero,
to de referência para o leitor-espectador. a “repetição-variação”5 não constitui mais
Às vezes, um personagem é caracteri- um marco dramatúrgico, uma gura que
zado por repetições, como no exemplo da- permite identicar personagens e cons-
quele homem que, para obter uma respos- truções retóricas. Ela se torna “processo
ta de sua mulher, volta incessantemente à de escrita que atribui à língua um ritmo,
mesma expressão: “Isso é lindo”: uma ressonância que excita os corpos”.6
Essa repetição-variação serial, que pode-
Ele. Isso é lindo, você não acha? ríamos denominar “ritornelo”, fazendo
Ela. (com hesitação). Sim... referência à terminologia de Gilles Deleu-
Ele. Você não acha isso lindo?3 ze e Félix Guattari retomada pelo poeta
Christophe Fiat, xao diálogo dramático
Quando a repetição não é realizadapor dentro de uma enunciação no presente, a
um único locutor, ela permite diferenciar da palavra ouvidaem cena. A atenção do
entre os outros e assegurar a constância de leitor-espectador se focaliza nas palavras
suas falas dentro do desdobramento das pronunciadas, mais do que naquele que as
trocas; dá as coordenadas para a constru- pronuncia ou na situação dentro da qual
ção do personagem. Quando, além disso, são pronunciadas. A intrusão doritornelo
um enunciador cita uma palavra, uma ex- no diálogo dramático possui a consequên-
pressão ou uma construção gramatical já cia de desenvolver uma temporalidade de
proferidas por outro, o “efeito-espelho” ou um uxo contínuo (quando as palavras são
“efeito-eco”4 garante o encadeamento das repetidas sem cessar7), ou ao contrário uma
réplicas e seu fechamento. Assim, o dealer temporalidade fragmentada (quando elas
e o cliente de Koltès (Na solidão dos campos retornam em intervalos) — esses dois tem-
pos têm em comum a rejeição de um ponto
1 Publicado sob o título “Ritournelle e Répetition-Variation”, in: Ryngaert, Jean-Pierre et de inícioou de término da troca verbal. Em
al. Nouveaux Territoires du Dialogue. Actes Sud Papiers/CNSAD 2005, p.46-
50. Tradução: Stephan Baumgärtel e José Ronaldo Faleiro.
Maison desmorts, de Philippe Minyana, as
2 Ariane Martinez é docente e pesquisadora da Universidade Stendhal em Grenoble.
frases “KI A TUÉ ANNE-CHRISTELLE”
Seus interesses de pesquisa abordam a relação do teatro com as outras artes cênicas, e “RE-CONS-TI-TU-TION” — pronun-
a história da encenação e as dramaturgias do século XIX até o século XXI.

3 Nathalie Sarraute. “C’est beau”, in Théâtre.Paris: Gallimard, 1978, p. 43.


5 “Repetição-variação”: é a reiteração de um elemento textual anterior, mas com uma
4 “Efeito-espelho (ou eco): efeito produzido por uma retomada — no interior de uma ré- diferença que pode estar na forma ou no sentido, ou em ambos. Ibidem, p. 904.
plica — de um elemento textual passado, próximo ou distante, podendo o conteúdo
6 Christophe Fiat. Le ritournelle, une anti-théorie. Paris: Léo Scheer, 2002, p.65.
semântico ser ou homogêneo ou heterogêneo.” In: Vinaver, Michel. Ecritures dra-
matiques. Essais d’analyse de textes de théâtre. Actes Sudes/ Actes Sud 7 Reprise en boucle remete à ideia de anel, vela, e circularidade. Ver a nota
Papiers, p. 903. sobre bouclage no texto O desencaixe, de Joseph Danan, incluído neste dossiê.

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RITORNELO E REPETIÇÃO-VARIAÇÃO: ARIANE MARTINEZ
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ciadas alternadamente por “a voz”, pelo sação e do acordo. [...] Tendo ouvido
os homens, eu dizia a mim mesmo
manequim,ou pela mulher policial — vêm
que eles não têm razão para temer a
pontuar e interromper, ao longo de todo repetição, desde que não busquem
o prólogo, os depoimentos contraditórios nela convencer por meio da persis-
dos acusados. Fazem perceber os impasses tência, mas busquem a prova de que
e as hesitações da investigação policial. Por um pensamento, ainda que proferido
meio do ritornelo, a progressão dramática de novo, não se repete, ou que a re-
não acontece mais no plano da ação, mas petição só faz entrar em sua diferença
no da enunciação: reformulações e novos essencial aquilo que se diz.8
agenciamentos enfatizam a polissemia dos
discursos, e fazem da língua uma matéria Se o ritornelo é frequente dentro do
a ser compartilhada. Por passar de boca diálogo teatral moderno, não é por tradu-
em boca, a palavra repetida assume uma zir o remoer solipsista do personagem ou
dimensão coral. Como a presença das indi- a incomunicabilidade entre os seres, mas
cações dêicticas de personagem (‘eu’ e ‘tu’) por pressupor ao mesmo tempo a oralida-
é malsucedida, o efeito produzido é uma de e o endereçamento. Como a sintaxe oral
desistência paradoxal do falar: a instância é livre de pontuação, a redundância nela
elocutória se esvai na qualidade de entida- constitui um elemento de ligação indispen-
de singular. Certos diálogos de Maeterlin- sável. Vale apontar que, além disso, nunca
ck, Stein ou Fosse também se assemelham há uma repetição exatamente igual à oral,
a esta conversação relatada por Maurice na medida em que a entonação sempre traz
Blanchot: consigo uma variação. O mesmo acontece
no interior do texto dramático. Quando o
[...] um dizia, por meio de uma frase ator pronuncia um grupo de palavras idên-
simples e profunda, alguma verdade ticas, sempre pode modular sua dicção,
que lhe fosse cara ao coração; outro para que seja ouvida uma diferença. Ora,
escutava silenciosamente, pois quan- essa diferença intrínseca à repetição oral
do a reflexão tinha feito seu trabalho, é indissociável do endereçamento. Como
exprimia por sua vez a mesma pro-
mostram os linguistas da enunciação, a
posição, às vezes quase nos mesmos
termos, embora com algumas dife-
reiteração e a reformulação de nossas pró-
renças (seja com mais rigor, seja com prias palavras (autocorreções correntes nos
mais soltura ou mais estranhamento); textos de Lagarce), até mesmo a repetição
esse desdobramento da mesma afir- de palavras do outro (dentro do fenôme-
mação constituía o mais forte dos no da ecolalia), visam a manter o contato
diálogos. Lá, nada se desenvolvera, com o interlocutor, a antecipar ou a levar
nada se opusera, nada se modificara; em consideração suas reações — em suma,
e claramente o primeiro interlocutor a buscar por um “vocabulário partilhado”.9
aprendia muito e até infinitamente Lê-se, portanto, no ritornelo, uma alterida-
com sua própria palavra repetida, não
de do dizer, um endereçamento implícito,
por causa do acordo e da adesão, mas,
ao contrário, pela diferença infinita; um diálogo embrionário.
pois aquilo que dissera como “eu” em
primeira pessoa era como se o tivesse
expresso novamente como “outro”, e
assim tivesse levado para dentro do
próprio desconhecido do pensamen-
to, aí onde este, sem alterar-se, se
transformaria em pensamento abso-
lutamente outro. 8 Maurice Blanchot. L’Entretien inni. Paris: Gallimard, 1969, p. 501.

— Pensamento trocado 9 Jacqueline Authier-Revuz. “Deux mots pour une chose: trajets de non-coïncidence”, in:
Répétition, altération, reformulation. Actes du colloque international de
— Ou melhor, pensamento que se es- Besançon, Juin 1998, vol. coordenado por P. Anderson, A. Chauvin-Vileno, M. Madi-
quiva da troca, quero dizer da tran- ni. Annales littéraires de l’Université de Besançon. Presses universitaires de Franche-
Comté, 2000, p. 44.

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