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MATHEUS DE SOUZA SANTANA

A Relação Entre Crime e Vulnerabilidade Social

SALVADOR-BA
2020
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. p.03

2. VULNERABILIDADE SOCIA ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. .. p.04

2.1. CONCEITO ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. .. .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. . p.04

2.2. TEORIA DO ETIQUETAMENTO SOCIAL ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. p.05

2.3. FIM DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. . p.06

2.4. DESIGUALDADE SOCIAL E FAVELAS... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. . p.08

3. A RELAÇÃO ENTRE CRIME E VULNEBALIDADE SOCIAL . ... .... .. ... .. ... ... p.10

3.1. ESCOLA DE CHICAGO.. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. .. .. ... ... p.10

4. CULPABILIDADE .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. .. .. ... ...p.12

4.1. CONCEITO ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .... .. p.12

4.2. CO-CULPABIULIDADE .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. .. .. ... ... P.14

4.3. COCULPABILIDADE NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO.. .. p.16

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... p.18

6. REFERÊCIAS BIBLIOGRAFICAS ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. ... .. p.19

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1. INTRODUÇÃO

O presente artigo tem por finalidade analisar a relação entre crime e


vulnerabilidade social, definir a vulnerabilidade social, contextualizar a existência de
vulnerabilidade social no Brasil e o motivo pelo qual não se aplica teorias que visam
levar em consideração a vulnerabilidade social no direito penal brasileiro.
A vulnerabilidade social está, altamente, relacionada à desigualdade social,
notório que o problema da desigualdade social tem raízes profundas no Brasil, tal
questão tem seu princípio nas relações escravocratas que mesmo após 190 anos da
abolição da escravatura no Brasil, se mantém dominando as relações interpessoais,
ditando os moldes para as relações sociais, trabalhista, criminais, amorosas e
psicológicas.
Exemplo dessa notória vulnerabilidade é o fato de ter nome Brasil sempre
associado à pobreza, ora, quando se fala em Brasil, sempre se fala em “favelas”, da
pobreza, da desigualdade social, da corrupção e da violência que imperam no país,
ao analisar estes pontos, a pergunta que fica é: tais pontos tem relação ente si?
Veremos...
Ao falar da relação entre pobreza e vulnerabilidade social, importante
pontuar sobre a Escola de Chicago, precursora nos estudos dos centros urbanos,
fundada pelo historiador, Albion W. Small, tendo como integrantes desse grupo de
intelectuais, sob a influência da visão sociológica de Max Weber e George Simmel,
os sociólogos Robert Park, Ernest Burgess e Lovis Wirth, estes, criam um tipo de
microssociologia que tem por finalidade estudar os problemas sociais urbanos,
relacionando o aumento da pobreza ao aumento da criminalidade, superando a
ideia de que a criminalidade está relacionada à questões biológicas ou raciais.
O teórico do direito, Eugênio Raul Zaffaroni, ao tratar de direito penal do
inimigo, guerra suja, e da teoria da culpabilidade, pontua a vulnerabilidade social, a
culpa do Estado, criminalização do sujeito e a confusão ente inimigo e infrator.
A partir desses pontos, o presente artigo segue apontando, destrinchando e
elucidando sobre os temas que à cima foram indicados.

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2. VULNERABILIDADE SOCIAL

2.1 CONCEITO

O conceito de vulnerabilidade social traz o ponto de vista em que os sujeitos


que estão em uma situação socioeconômica onde há pouco recurso financeiro,
moradia precária, acesso insuficiente à educação, tanto como, relação familiar
precária, se tornam sujeitos vulneráveis, neste conceito, tais pontos cessam ou
limitam as oportunidades para que o sujeito exerça de forma plena a sua cidadania,
levando-o à exclusão social.
Dos fatores que levam à vulnerabilidade social, podem ser incluídas
questões históricas, como raça, gênero e orientação sexual, tais questão fazem com
que cidadãos sofram com a falta de representatividade e de oportunidades, levando-
os a uma situação de desequilíbrio, onde não gozam do mesmo acesso e
oportunidade que outros grupos sociais gozam.
A educação pode ser considerada um dos maiores fatores que impedem que
o sujeito consiga se esgueirar dessa situação de vulnerabilidade, a educação
precária alimenta um ciclo onde a vulnerabilidade é replicada por gerações, este
contexto é comum em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento que,
normalmente, enfrentam problemas políticos e socioeconômicos.
A situação de vulnerabilidade, embora tenha forte ligação, não remete
especificamente à pobreza, mas sim, a uma situação de fragilidade que determinado
grupo está sujeito.
Do início dos anos 2000 até 2014 o Brasil reduziu sua taxa de pobreza,
entretanto, por consequente da crise econômica que rondou o país, o crescimento
estagnou e o índice de vulnerabilidade no país voltou a crescer.
Outro fator, que atrelado à pobreza, falta de saneamento básico, e
educação, é relevante, e por consequência das relações interpessoais, acaba
encaixando o sujeito em uma situação de vulnerabilidade social, é a raça/etnia, que

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em virtude da escravidão, desencadeou pobreza e preconceito para um determinado
grupo social.

2.2 TEORIA DO ETIQUETAMENTO SOCIAL

A teoria do etiquetamento social é uma teoria criminológica, se funda na


ideia de que as noções de crime e criminoso são construídas socialmente, difundida
em especial por Erving Goffman, Edwin Lemert e Howard Becker, prevê
basicamente que as próprias instituições de controle social estigmatiza os
indivíduos, colocando-os perante a sociedade como criminoso, contribuindo,
consequentemente para que o indivíduo se torne, efetivamente um criminoso
habitual.
Sendo assim, a teoria do etiquetamento social, traz a ideia de que a
criminalidade não é um produto inerente da conduta humana, não é uma condição
na qual o indivíduo nasça inclinado ao cometimento de delitos, sendo o resultado de
um sistema seletivo que seleciona indivíduos por sua classe social e os rotula como
criminosos, pode-se dizer que há uma “etiqueta” atribuída a certos indivíduos,
entendidos pela sociedade como delinquentes.
Esse teoria substitui a ideia de que há suposta predisposição à realização de
crimes, como defendido por Cesare Lombroso, tanto como, a ideia de que existem
aspectos psicológicos específicos no agente, em face dessas ideias, nos deparamos
com uma análise profunda do sistema penal como forma de compreender o status
social do delinquente. A partir dessa nova concepção, a teoria se fundamenta na
análise da ação de forças policiais, penitenciárias, órgãos do Poder Judiciário e
outras instituições de controle social, tendo como finalidade, entender como os
rótulos estipulados pela sociedade e aplicados por essas instituições refletem
circunstâncias sociais, contribuindo para a criação de um estigma de “criminoso”
para certos grupos sociais, alterando a própria percepção individual daqueles
rotulados.
Os principais postulados da teoria do etiquetamento social:

1- Interacionismo simbólico e construtivismo social (o conceito que um


indivíduo tem de si mesmo, de sua sociedade e da situação que nela representa, é
ponto importante do significado genuíno da conduta criminal);

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2- Introspecção simpatizante como técnica de aproximação da realidade
criminal para compreendê-la a partir do mundo do desviado e captar o verdadeiro
sentido que ele atribui a sua conduta;
3- Natureza “definitorial” do delito (o caráter delitivo de uma conduta e de
seu autor depende de certos processos sociais de definição, que lhe atribuem tal
caráter, e de seleção, que etiquetaram o autor como delinquente);
4- Caráter constitutivo do controle social (a criminalidade é criada pelo
controle social);
5- Seletividade e discriminatoriedade do controle social (o controle social é
altamente discriminatório e seletivo);
6- Efeito criminógeno da pena (potencializa e perpetua a desviação,
consolidando o desviado em um status de delinquente, gerando estereótipos e
etiologias que se supõe que pretende evitar. O condenado assume uma nova
imagem de si mesmo, redefinindo sua personalidade em torno do papel de desviado,
desencadeando-se a denominada desviação secundária.
7- Paradigma de controle (processo de definição e seleção que atribui a
etiqueta de delinquente a um indivíduo).

Partindo desses pontos, a teoria do etiquetamento social, reforça a ideia de


que vivemos em uma cultura estigmatizante que considera como criminoso certos
indivíduos, tal estigma alimenta um círculo vicioso no qual classes sociais de baixa
renda são introduzidas nas práticas delituosas.
Da necessidade de criar mecanismos para a convivência harmoniosa em
sociedade, foram criadas as leis penais, a fim de regular esse convício social, sendo
assim, o fundamento do direito está na convivência humana, entretanto, nos dias
atuais, o que garante o Direito não é a ideia de alcançar a igualdade social, mas sim,
o poder, fazendo parte do aparato estatal, este serve como ideologia para
perpetuação da classe dominante, visando proteger o bem jurídico de maior
interesse para a classe dominante, em detrimento das outras classes sociais.

2.3 O FIM DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL

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A escravidão no continente americano, foi uma época de dor e sofrimento
para o povo africano, tanto como, para o povo indígena que já abrigava as américas,
o regime de escravidão já havia caído em decadência nos continentes Europeus, em
virtude dos valores religiosos, que permeavam a época, tornaram a escravidão por
dívida algo hediondo. Mesmo observado tais pontos, por consequência dos eventos,
conhecidos como descobrimento, os europeus viram uma possibilidade de
transformar terra em fortuna. Com essa finalidade capitalista, foi imposta a ideia de
que o negro e o nativo daquela terra, o novo continente, recém descoberto, não
possuía alma, não poderia ser considerado ser humano, era um bárbaro, o mais
próximo de um animal possível, e assim, este poderia ser escravizado, sem dívida,
mas apenas por ser considerado um animal irracional.
Após mais de 300 anos de escravidão legal, em meio às lutas entre
escravos, senhores de encravos e monarcas, a campanha que culminou com a
abolição da escravidão, em 13 de maio de 1888, houve a primeira manifestação
coletiva a mobilizar pessoas e a encontrar adeptos em todas as camadas sociais
brasileiras, no entanto, após a assinatura da Lei Áurea, não houve uma orientação
destinada a integrar os negros as novas regras de uma sociedade baseada no
trabalho assalariado.
Por consequente, os negros saem de uma situação de escravidão, e são
integrados a uma situação de miséria, onde não são considerados cidadãos, nem de
segunda classe, onde muitos voltam a viver uma situação de escravidão, a fim de se
alimentar.
uma das mais relevantes percepções sobre o descaso com a situação dos
negros no brasil, foi feita e 1964 pelo sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995).
Em um livro clássico, chamado A Integração do Negro na Sociedade de Classes:

“A desagregação do regime escravocrata e senhorial se operou, no Brasil, sem que


se cercasse a destituição dos antigos agentes de trabalho escravo de assistência e
garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os
senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos
libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumisse
encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de
organização da vida e do trabalho. (...) Essas facetas da situação (...) imprimiram à
Abolição o caráter de uma espoliação extrema e cruel”.

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No mesmo sentido, Darcy Ribeiro, reflete que:

“O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade


intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de
desigualdade, de descaso.”

Como se não bastasse o descaso com os negros libertos, afim de


embranquecer a sociedade há um movimento de embranquecimento da população
brasileira, que tem como método, embranquecer a cultura negra, e os cidadãos
brasileiro, com campanhas que importam mão de obra europeia, para substituir os
escravo, mas agora de forma assalariada, tem por finalidade movimenta a
economia, o poder público financia um sistema de imigração, destinada
principalmente para o sul e sudeste do país, esta campanha que por fim, viabilizou
que os negros fossem jogados à própria sorte.
Por tanto, o que se observa é que há uma ligação inegável, entre a forma
que se deu a abolição da escravidão com as relações de descaso e preconceito com
o povo brasileiro descendente desses escravos, a sociedade brasileira vem
encaixando esse povo, quase que automaticamente em uma situação de
vulnerabilidade perpetuada por séculos.

2.4 DESIGUALDADE SOCIAL E FAVELAS

Com o fim da escravidão, sem nenhuma assistência aos povos libertos,


nasce a necessidade de moradia, dessa necessidade, nasce as “favelas”, uma das
histórias que dão origem à nomenclatura é a de que, em um confronto na guerra dos
canudos, onde os soldados ficavam em um morro, onde o nome desse morro era
favela, afeiçoados pelo nome, e pela promessa de moradia, os soldados ao voltarem
para o Rio de Janeiro, ocupam em 1927, atualmente conhecido como Morro da
providência, e o denominam morro da favela, esse movimento em pró da

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disponibilização de moradia digna, faz com que os povos ocupem espaços
desocupados em torno das cidades, nos seus periféricos, fazendo com que cresça a
quantidade de “favelas” em todo o país.
O geógrafo, Milton Santos, explica a expansão das cidades, como o
surgimento de áreas precárias de habitação, as favelas, por um processo
denominado urbanização espairada. Esse processo dar-se principalmente, em
virtude da falta de reforma agraria no Brasil, e pela promessa de vida melhor e
emprego que a cidade grande oferecia em meados dos anos 80, que atraiu a
população pobre e rural, em grande parte negra e descendente dos escravos.
Por consequência da criminalização, do preconceito, e da falta de
assistência dada aos povos libertos após a lei áurea de 1888, estes e seus
descendente, serão os principais povos a ocuparem as “favelas”, na falta de
educação, saneamento básico, alto grau de preconceito, racismo e falta de moradia
digna, a população que ocupa esse ambiente, acaba sendo protagonista quando se
fala em vulnerabilidade socia.
As relações interpessoais que cerceiam tal ambiente, tem, em virtude de
uma realidade diferente, a normalização de algumas atitudes que, de maneira legal,
foram criminalizadas.
O tráfico de droga, ao passar do tempo, servindo como válvula de escape da
pobreza extrema, acaba se tornando algo comum aos jovens, uma forma de
sustento familiar, tratado como algo comum para quem foi inserido no ambiente
desde criança.
O ambiente ocupado por essas pessoas vem a ser um ambiente mais
violento do que o normal, se comparado ao ambiente ocupado pela população do
país que goza de maior poder financeiro, essas pessoas, de menor poder aquisitivo,
moradores de “favelas”, ao longo do tempo veio a se tornar protagonistas quando se
fala em crimes violentos.
O grau de escolaridade da população prisional brasileira é extremamente
baixo, na população brasileira segundo o IBGE (2010), cerca de 32% das pessoas
completou o ensino médio, mas apenas 8% da população prisional o concluiu. 8 a
cada 10 pessoas presas estudaram, no máximo, até o ensino fundamental, sendo
que a média nacional de pessoas que não frequentaram o ensino fundamental ou
tem incompleto é de 50%.

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Houve teorias que associavam violência à raça, tanto como a questões
genéticas. As teorias sociológicas inauguradas pela Escola de Chicago debateram e
superaram essas teorias racistas e genéticas, em estudos que apontam que a
violência está inteiramente ligada ao meio em que o sujeito é inserido, não tendo
relação a fatores raciais, ou genéticos.

3. A RELAÇÃO ENTRE CRIME E VULNEBILIDADE SOCIA

3.1 ESCOLA DE CHICAGO

Do ponto de vista organizacional, a Universidade de Chicago foi fundada em


1895 a partir de uma grande doação feita por Jhon D. Rockefeller, o milionário
americano que fez fortuna na indústria do petróleo ao fundar a Standard Oil. A
universidade se inicia com um pequeno número de professores, um deles Albion
Small, sendo o primeiro professor de sociologia e chefe do primeiro departamento de
Sociologia do Estados Unidos da América, daí se iniciam os grandes estudos
preponderantes em face das relações entre os sujeitos e a sociedade.
Um aspecto típico das pesquisas era a confecção de mapas, onde se
situavam os diferentes tipos de população, grupos étnicos, raças, espécies de
atividades: em que lugar da cidade, por exemplo, se concentravam as atividades
criminosas? Como explicar isso?
Tendo em vista o problema em que os Estados Unidos se deparava na
época, coma a pobreza, ainda hoje um dos principais problema, e a imigração, até o
presente considerado grande problema, observa-se que as mesmas áreas ocupadas
por imigrantes, onde havia maior grau de pobreza, havia maior grau de
criminalidade.
Baseado nas pesquisas sobre a cidade de Chicago, o seu problema central
era o crescimento populacional desenfreado, que tinha como consequência fatores
como pobreza, falta de educação, carência de atenção à saúde e isolamento dos
imigrantes, que eram malvistos pela sociedade.
Os pensadores dessa época fundaram o conceito de Ecologia Humana,
esse conceito foi elaborado pelos precursores dos estudos urbanos, Ernest Watson
Burgess, Robert Ezrar Park e Roderick Ducan Mckenzie, tendo por finalidade
sustentar teoricamente os estudos de sociologia urbana, esse conceito surge como
base para o estudo do comportamento humano, tendo como referência a posição
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dos indivíduos no meio social urbano, tem por finalidade questionar se o habitat
social, busca saber se este determina ou influencia o modo e o estilo de vida dos
indivíduos.
O centro desse estudo é saber em que grau os comportamento desviantes
são produtos do meio social em que o indivíduo está inserido.
Se trocarmos o termo imigrantes, por negros e pardos, observasse que,
apesar desse estudo se passar na cidade de Chicago, as características da
sociedade brasileira se assemelham perfeitamente, podendo considerar os mesmos
fatores que levaram aquele grupo de pessoas a um certo grau de delinquência,
influenciam na vida dos brasileiros desprivilegiados, minorias, residentes de espaços
periféricos, favelas. A partir destes pontos, observa-se a inegável ligação entre crime
e a vulnerabilidade social, cabe discutir, apenas, em que ponto os meios influenciam
o sujeito.
Nas palavras de Karl Marx:

“O homem é, em sua essência, produto do meio”

No mesmo sentido, Émile Drukheim:

“nosso egoísmo é, em grande parte, produto da sociedade”

Segundo Émile Durkheim, o homem é produto do meio, sendo que este,


compre à risca as regras impostas pela sociedade. O homem é mais influenciado
pelo meio do que o meio pelo homem.
Ao apontar em sua teoria, o “Funcionalista”, Émile Drukheim, constata que o
fato social é a realidade que já encontramos quando nascemos, tudo aquilo que
temos que cumprir por obrigação social ou porque a lei pode nos puni, o homem não
tem a capacidade de alterar o fato social, pois este é fruto do mesmo, o que as
pessoas pensam, sentem ou fazem não depende totalmente de suas vontades
individuais, pois esta conduta é instituída pela sociedade.
Do ponto de vista psicanalítico, Sigmund Freud, em 1923, no livro “O Ego e
o Id”, expôs um divisão da mente humana em três partes, o ego que se identifica
como a nossa consciência; o superego, que seria a nossa consciência moral, ou
seja, os princípios sociais e as proibições que nos são inculcadas nos primeiros

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anos de vida e que nos acompanham de forma inconsciente a vida inteira; e ao id,
impulsos múltiplos da libido, dirigidos sempre para o prazer. Partindo da teoria de
Sigmund Freud, o superego representa a força que o meio, ou a sociedade, tem
para com seus indivíduos, trazendo a ideia de que o sujeito é fruto do meio.
Neste mesmo sentido, Sigmund Freud, alimenta a ideia de que a sociedade
é dos maiores males de sua época:

“a nossa civilização é em grande parte responsável pelas desgraças.


Seriámos muito mais felizes, se a abandonássemos e retornássemos às condições
primitivas”
Deste modo, o que se observa é que, independente do campo das ciências
sociais que trata o assunto, o que se sabe é que o sujeito sofre severa doutrinação
ou influencia do meio em que este é inserido, limitando, assim, a reprovabilidade
pessoal pelas suas próprias ações.

4. CULPABILIDADE

4.1. CONCEITO

Importante ressaltar que o conceito de culpabilidade ainda não possui


concepção unívoca, sendo, portanto um conceito ainda em evolução, mesmo o
Código penal brasileiro, ainda não concebeu um conceito preciso para a
Culpabilidade, abrindo espaço para que a doutrina e jurisprudência caminha mais
livre mente quando necessário abordar o tema.
Segundo Ronaldo Amaral Junior, o conceito de culpabilidade sofre mutações
ao longo do tempo, não se abstendo apensa a um conceito jurídico, mas também a
um conceito social, tendo como base a vida social do indivíduo.

Ronaldo Amaral Junior:

A culpabilidade se apresenta como exigência da sociedade e da


comunidade jurídica, não é um fenômeno individual, mas social. É através do juízo
de culpabilidade que se examina a reprovação do indivíduo que não haja observado
as exigências gerais. O conceito de culpabilidade é um conceito social e jurídico,

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pois a sua construção se dá conforme os requisitos da vida social, dependendo,
muitas vezes, da situação econômica, dos fundamentos sócio-econômicos, enfim,
das mínimas exigências sociais de cada época. Se há transformações, certamente o
conteúdo da culpabilidade sofrerá alterações, denominando-se “a medida do juízo
de culpabilidade”
O direito Penal brasileiro adota a ideia de que, a culpabilidade se relaciona
com a ideia de censura pessoal, adotando-se a teoria tripartite é o terceiro elemento
do crime, esta palavra carrega uma carga axiológica negativa, refere-se a um juízo
de reprovação em face do autor do fato.
Algumas teorias buscam explicar a culpabilidade, destas o Código Penal
Brasileiro adota a teoria limitada da culpabilidade, essa teoria considera como
elemento da culpabilidade a imputabilidade, a potencial consciência da ilicitude e a
exigibilidade da conduta adversa.
A Imputabilidade Penal pode ser definida como a capacidade do agente de
entender o caráter ilícito da conduta;
A Potencial Consciência da ilicitude é a possibilidade de o agente, de acordo
com suas características pessoais conhecer o caráter ilícito do fato, quando o
agente não conhece a ilicitude de seus atos, este comete erro de proibição;
No que se refere a Exigibilidade de conduta adversa, para que haja
culpabilidade não basta que a conduta seja típica e ilícita, ainda é necessário que
existam condições do agente agir de forma diferente.

De acordo com a definição de Luiz Regis prado:

“A culpabilidade é a reprovabilidade pessoal pela realização de uma ação ou


omissão típica e ilícita. Assim, não há culpabilidade sem tipicidade e ilicitude,
embora possa existir ação típica e ilícita inculpável. Devem ser levados em
consideração, além de todos os elementos objetivos e subjetivos da conduta típica e
ilícita realizada, também, suas circunstâncias e aspectos relativos à autoria. ”

Seguindo o mesmo raciocínio, pontua Eugenio Zaffaroni (2004):

“A culpabilidade penal no estado de direito não pode ser a simples


culpabilidade pelo ato, também deve surgir da síntese desta (como limite máximo da

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reprovabilidade) e de outro conceito de culpabilidade que incorpore o dado real da
seletividade.”

Ressalta-se que culpabilidade é analisada a partir de um fato que necessita


ser típico e antijurídico, para Guilherme de Souza Nucci, ao se referir do crime:

“trata-se de uma conduta típica, antijurídica e culpável, vale dizer, uma ação
ou omissão ajustada a um modelo legal de conduta proibida (tipicidade), contrária ao
direito (antijuridicidade) e sujeita a um juízo de reprovação social incidente sobre o
fato e seu autor, desde que existam imputabilidade, consciência potencial de ilicitude
e exigibilidade e possibilidade de agir conforme o direito.”

4.2 CO-CULBABILIDADE

A teoria da coculpabilidade, atualmente vem sido empregada por meio de


princípio jurídico, essa teoria tem por finalidade levar em consideração, falácia de
que todos os homens são iguais perante a lei, sendo que na sociedade como um
todo, existem desigualdades sociais que propiciam uma desigualdade perante a lei.

Ao pontuar sobre a coculpabilidade, Espinoza, comentando o art.45 do


Código Penal peruano, exemplifica:
“O artigo 45 do Código Penal consagra o princípio Jus Poenali da
Coculpabilidade da sociedade e do Estado na perpetração do delito, como causa
eficiente ou condicionante das causas sociais, materiais e culturais da conduta
criminal dos homens; por isso, se prescreve que o julgador deverá ter em conta no
momento de fundamentar a culpa e determinar a pena, as carências sociais que
teriam afetado o agente. Nesta forma de sociedade e Estado, que toleram que
imperem as desigualdades econômicas, as injustiças sociais, politicas e culturais,
estariam reconhecendo que não brindam com iguais possibilidades de superação a
todos os homens, para lhes exigir um comportamento com adequação à lei os
interesses gerais coletivos da comunidade regulados pelo direito positivo; portanto,
se está aceitando uma responsabilidade da sociedade e do Estado, no que se refere
à conduta delitiva dos infratores penais, como mea-culpa, conceitua o artigo 45 do

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Código Penal em reconhecimento oficial do Estado, que a delinquência é gestada
nas condições sociais de injustiça que imperam na sociedade. Em atenção ao
estatuto, diminui ou desaparece a coculpabilidade na mesma medida em que o
delinquente tenha tido condições materiais, sociais e culturais para realizar-se como
ser humano honrado e se comportar os mandos e proibições normativas e normas
culturais de convivência social que requerem ao homem socialmente útil, o que
também conduz ao direito e a condutas éticas. Por “mea-culpa” que tem o efeito de
enfraquecer ou atenuar o direito de castigar (Jus Puniendi) que o Estado exerce em
nome da sociedade (tradução livre).”

Por tanto, a coculpabilidade trata-se de mea-culpa da sociedade, devendo


ser aplicada menor reprovabilidade quando o autor do fato delituoso se trata de
hipossuficiente, imputando inadimplência ao Estado, tendo este falhado em gerir e
oferecer as oportunidades para que esta parcela da sociedade se desenvolva
corretamente em virtude dos valores que dão vida à República, e que estão
presentes na Carta Magna.
Para Zaffaroni e Pierangeli:

“Todo sujeito age numa circunstância determinada e com um âmbito de


autodeterminação também determinado. Em sua própria personalidade há uma
contribuição para esse âmbito de autodeterminação, posto que a sociedade – por
melhor organizada que seja – nunca tem a possibilidade de brindar a todos os
homens com as mesmas oportunidades. Em conseqüência, há sujeitos que têm um
menor âmbito de autodeterminação, condicionado desta maneira por causas sociais.
Não será possível atribuir estas causas sociais ao sujeito e sobrecarregá-lo com
elas no momento de reprovação de culpabilidade. Costuma-se dizer que há, aqui,
uma ‘co-culpabilidade’, com a qual a própria sociedade deve arcar.”

No mesmo sentido, ainda, ressalta Nilo Batista:

“Trata-se de considerar, no juízo de reprovabilidade, que é a essência da


culpabilidade, a concreta experiência social dos réus, as oportunidades que se lhes
depararam e a assistência que lhes foi ministrada, correlacionando sua própria

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responsabilidade a uma responsabilidade geral do Estado que vai impor-lhe a pena;
em certa medida, a co-culpabilidade faz sentar no banco dos réus, ao lado dos
mesmos réus, a sociedade que os produziu”
Ressalta-se que, a teoria da coculpabilidade tem por virtude tornar mais
junto o sistema penal, que inegavelmente é seletivo, onde a parcela hipossuficiente
da sociedade sofre com a mão pesada do Estado, ideal é que sejam trados iguais os
iguais, tanto como, os desigual, desigualmente, na medida de sua desigualdade.

4.3 COCULPABILIDADE NO ORDENAMENTO JURÍDICO


BRASILEIRO

No ordenamento jurídico brasileiro, há elementos que propiciam a utilização


do princípio da coculpabilidade, dentre estes, o princípio da individualização da
pena, no qual pressupõe que a pena se adeque a cada caso concreto.
Tais elementos estão previstos no artigo 187, §1º, do Código de Processo
Penal, que possibilita a aplicação analisando no momento do interrogatório em juízo,
as oportunidades sociais que o indivíduo teve ao longo da vida.
“Art. 187. O interrogatório será constituído de duas partes: sobre a pessoa
do acusado e sobre os fatos.                      (Redação dada pela Lei nº 10.792,
de 1º.12.2003)

§ 1o Na primeira parte o interrogando será perguntado sobre a residência,


meios de vida ou profissão, oportunidades sociais, lugar onde exerce a sua
atividade, vida pregressa, notadamente se foi preso ou processado alguma vez e,
em caso afirmativo, qual o juízo do processo, se houve suspensão condicional ou
condenação, qual a pena imposta, se a cumpriu e outros dados familiares e
sociais.                        (Incluído pela Lei nº 10.792, de 1º.12.2003)”

No artigo 59 do Código Penal, ao aplicar a pena, o juiz atenderá à


culpabilidade do agente, devendo ser minorada por conta da correspondente estatal:

“Art. 59 - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta


social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e consequências
do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja

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necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime: (Redação dada pela
Lei nº 7.209, de 11.7.1984)”

Em substituição a estes, aplicar-se a denominada circunstância atenuante


inominada do artigo 66 do Código Penal, podendo ser adotada na segunda fase da
dosimetria da pena, no qual, consoante ao ensinamento de Greco (2017), “pode o
juiz considerar o fato de que o ambiente no qual o agente cresceu e se desenvolveu
psicologicamente o influenciou no cometimento do delito”.

“Art. 66 - A pena poderá ser ainda atenuada em razão de circunstância


relevante, anterior ou posterior ao crime, embora não prevista expressamente em
lei. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)”

Ou seja, há previsão legal que possibilite a aplicação da teoria da


coculpabilidade, porém, a jurisprudência pátria segue um caminho adverso, sendo
contrária majoritariamente à utilização do princípio da coculpabilidade, justificando
que este fere o princípio da igualdade, constituído como premissa máxima do art. 5º,
caput, da Constituição Federal.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Desde que os estudos sobre a sociedade se iniciaram, superaram aquela


ideia de que o sujeito é completamente livre para tomar a suas próprias decisões,
tanto como as teoria raciais e, onde a Escola de Chicago, por meio de seus estudos,
comprovou a relação entre espaço físico aliado às relações interpessoais, com ao
violência e fatos delituosos.
Esta mostra que, os sujeitos hipossuficientes, que são inseridos na borda do
civilização, onde lhes é negado, educação, saúde saneamento básico, moradia
digna, e que, inevitavelmente tem maior contato com outros sujeito já inseridos na
criminalidade, tem a maior probabilidade de seguir na pratica de atos delituosos.
Analisando as características da sociedade brasileira, em suma, o que se
observa é que, como um todo, as deficiência sociais, elencadas pela Escola de
Chicago, que influenciam o sujeito a praticar atos criminosos está presente em
grande parte da sociedade, principalmente nos círculos sociais de baixa renda,

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sendo que, em virtude do sistema de escravidão que dominou as relação
econômicas e socias do país por mais de 300 anos, torna, ainda mais suscetível à
vulnerabilidade social os descentes desse povo, que por conta da abolição da
escravatura de forma precária, sofre do preconceito e da pobreza.
Apesar da pobreza ser protagonista no Brasil, tendo em vista que é inegável
que há sujeitos que vivem em situações desfavoráveis se tornando vulneráveis
dentro da sociedade, o que se observa é o descaso com a condição dessa parcela
da sociedade, esse descaso se mostra inegável quando, apesar de ser conhecida a
relação entre vulnerabilidade social e crime, teorias que visam reconhecer a
culpabilidade do Estado, equilibrar a sanção penal, analisar o juízo de
reprovabilidade, a exigibilidade de conduta adversa, fazendo com que o Estado
sente junto ao sujeito no banco dos réus, são deixadas de lado.

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