Você está na página 1de 2

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Mutações da literatura no século XXI. – 1ª ed.

– São Paulo:
Companhia das Letras, 2016.

Quando se fala do fim da literatura, trata-se do fim de um tipo de literatura: aquela da alta
modernidade. (p. 25)

A literatura se tornou coisa do passado. Será? Nunca se publicou tanta ficção e tanta poesia
quanto agora. Nunca houve tantas feiras de livros, tantos prêmios, tantos eventos literários.
Nunca os escritores foram tão mediatizados, tão internacionalmente conhecidos e festejado.
(p. 25)

A literatura a que nos referimos é a que se manifesta em determinados textos, escritos numa
linguagem particular, textos que interrogam e desvendam o homem e o mundo de maneira
aprofundada, complexa, surpreendente. Na profusão de obras atualmente publicadas, quantas
correspondem ainda a essa definição? (p. 25)

E a literatura atual, em suas variadas vertentes, mostra que o cadáver está bem vivo. Seria o
caso de repetir, a respeito da literatura, a declaração de Mark Twain: “As notícias de minha
morte foram muito exageradas”. (p. 26)

Para Tynianov, toda definição de literatura que busque seus traços essenciais se choca com “o
fato literário vivo”. A evolução da literatura não é regular, mas ocorre por saltos, por
deslocamento e não por desenvolvimento. Um gênero considerado não literário numa época
passa a ser considerado literário em outra. (p. 28)

O que ainda é útil na teoria de Tynianov é considerar que a literatura é uma das “séries” da
cultura e que, assim como ela, está sujeita a mudanças históricas. (p. 29)

Essa prática, que felizmente ainda é a de vários escritores contemporâneos, se caracteriza por
alguns valores básicos: o exercício da linguagem de modo livre e consciente; a criação de um
mundo paralelo como desvendamento e crítica da realidade; a expressão de pensamentos e
sentimentos que não são apenas individuais, mas reconhecíveis por outros homens como
correspondentes mais exatos aos seus; a capacidade de formular perguntas relevantes, sem a
pretensão de possuir respostas definitivas. (p. 35)

A literatura é, assim, um dos poucos exercícios de liberdade que ainda nos restam. (p. 37)

A prosa tem sido o gênero preferencial dos escritores contemporâneos. Ao longo do século
passado, a ficção tentou libertar-se das convenções narrativas anteriores, como o “fluxo de
consciência” (Virginia Woolf), a criação de uma nova linguagem baseada em trocadilhos e
palavras-valise (Joce), o estilo telegráfico (Oswald de Andrade) e a representação neutra do
real ( o nouveau roman francês). Todas essas experiências foram assimiladas pelos escritores
contemporâneos, que ora lhes dão uma continuidade, ora as ignoram, praticando
tranquilamente qualquer tipo de estilo do passado. (p. 45)

Você também pode gostar