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Configuraçôes incontormiveis

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1.1
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,,
D esejo examinar varias facetas daquilo que vou charnar de a "id en-
1
tidade moderna". Uma boa prime ira abordagem do que isso signi-
fica seria dizer que a tarefa envolve 0 rastrearnento de varias ver- ,.,
tentes de nossa concepçâo moderna do que é ser um agente humano, uma
pessoa ou um self. Contudo, 0 processo dessa investigaçâo logo mostra que
nâo é possivel formar uma idéia muito clara disso sem alguma compreensâo
adicional de como nos sas representaçôes do bem evolufram. A indivi-
dualidade e 0 bem, ou, em outras palavras, a identidade e a moralidade,
apresentam-se como temas inextricavelmente entrelaçados_
Nesta primeira parte, quero dizer algo sobre essa ligaçâo, antes de, nas
Partes II-V, mergulhar na historia e anâlise da identidade moderna. Mas OUtrO
obstaculo aparece no caminho até mesmo dessa tarefa preliminar. Boa parte
da filosofia moral contemporânea, particularmente mas nâo apenas no mundo
de lingua inglesa, tem abordado a moralidade de maneira tâo estreita que
algumas das conexôes cruciais que desejo esboçar aqui sâo incompreensiveis
em seus termos. Essa filosofia moral tendeu a se concentrar mais no que é
certo lazer do que no que é bom ser, antes na definiçâo do conteudo da
obrigaçâo do que na natureza do bem viver; e nâo ha nela espaço conceitual

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16 A IDENTlDADE E 0 SE M CONFIGURAÇOES INCONTORNAVEIS 17
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para a noçao do bem como 0 objeto de nosso amor ou lealdade ou, como Iris ou errado, melhor ou pior, mais elevado ou menos elevado, que san validadas
Murdoch 0 retratou em sua obra, coma 0 foco privilegiado da atençao ou da
vontade' . Essa fiJosofia sancionou uma concepçao defeituosa e tnmcada da
moralidade num sentido estreito, bem como de toda a gama de quest6es
por nossos desejos, inclinaç6es ou escolhas, mas existem independente-
mente destes e oferecem padr6es pelos quais podem ser julgados. Assim,
embora possa naD ser julgado um lapso moral 0 fato de eu levar uma vida
-
envolvidas na tentativa de levar a melhor vida possivel, e isso nao so para que na verdade naD l'ale a pena nem traz realizaçao, descrever-me nesses
fiJosofos profissionais como para um publico mais amplo. termos é, de certo modo, condenar-me em nome de um padrao, independente
Assim, grande parte de meu esforço na Parte 1 sera dirigido à arnpliaçao de meus proprios gostos e desejos, que eu deveria reconhecer.
de nosso espectro de descriç6es morais legitimas e, em alguns casos, ao Talvez 0 mais urgente e poderoso conjunto de exigências que reconhe-
resgate de modos de pensarnento e descriçao erronearnente levados a parecer cemos como morais relira-se ao respeito à vida, à integridade, ao bem-
problematicos. Em particular, 0 que desejo apresentar e examinar san as -estar e mesmo à prosperidade dos outros. Essas sao as exigências que in-
linguagens subjacentes mais ricas em que assentamos os alicerces e 0 sentido fringimos quando malamos ou aleijanlOs alguém, roubarnos suas proprie-
das obrigaç6es morais que reconhecemos. Em termos mais gerais, quero dades, infundimos medo e tirarnos a paz ou mesmo deixarnos de prestar
examinar 0 pano de fundo de nossa natureza e situaçao espirituais, que esta ajuda em momentos de necessidade. Quase todos sentem essas exigências,
por tras de algumas das intuiç6es morais e espirituais de nos sos contempo- que foram e sao reconhecidas em todas as sociedades humanas. E clara
râneos. No curso desse empreendimento, também me esforçarei para esclarecer que 0 escopo da exigência varia notoriarnente: sociedades mais antigas, e
melhor 0 que é um pano de fundo e que papel ele desempenha em nossa vida. algumas atuais, restringem a classe de benelicianos a membros da tribo
E aqui entra um importante elemento de resgate, ,~sto que boa parte da ou raça excluindo pessoas de fora, que sao presa justa, ou mesmo condenarn
fiJosofia contemporânea tem ignorado por inteiro essa dimensao de nossa os maus a uma perda definitiva dessa condiçao. Mas todos sentem essas
consciência e crenças morais, chegando mesmo a dar a impressao de descarta.- - - - - · - - -lexigêncra13-unpostaoa-si-por-alguma-classe-de-pessoas (;, para-a-maioria- --~
-la coma algo confuso e irrelevante. Espero demonstrar, em oposiçao a essa de nossos contemporâneos, essa classe refere·se à raça humana (para
atitude, como essa dimensiio é crucial. quem acredita nos direitos animais, ela pode ter um alcance ainda mais
Falei no paragrafo anterior de nos sas intuiçôes "morais e espirituais". arnplo).

1
Corn efeito, quero considerar algumas concepç6es um pouco mais arnplas
do que aquilo que normalmente é descrito como a "moral". Além de nossas
noçôes e reaç6es relativas a topicos como justiça e respeito à vida, ao bem-
-estar e à dignidade das outras pessoas, desejo analisar nosso sentido do
estando arraigadas no instinto, em contraste corn outras reaçôes morais que
parecem mais uma conseqüência da criaçao e da educaçao. Parece haver uma
-
Estamos falando aqui de intuiçôes morais incomumente profundas, potentes
e universais. Étal sua profundidade, que somos tentados a pensar nelas como

que esta na base de nossa propria dignidade, ou quest6es acerca do que compunçao natural, inata, diante do infligir a morte ou ferimentos a alguém,
toma nossa vida significativa ou satisfatoria. Estas poderiarn ser classifi- uma inclinaçao de ir em socorro das pessoas feridas ou em perigo. A cultura
cadas coma questôes morais em alguma definiçao arnpla, porém algumas e a criaçao podern ajudar a definir as fronteiras dos "outros" relevantes, mas
estiio demasiado ligadas ao respeito proprio ou muito identificadas corn nao parecem criar a reaçao Msica em si. Eis por que pensadores do século
nossos ideais para ser classificadas como tal no léxico da maioria das XVIII, notadamente Rousseau, puderam acreditar numa suscellbilidade natural
pessoas. Referem-se antes ao que toma a vida digna de ser vivida. a sentir simpatia pelos outros.
o que elas têm em comum corn quest6es morais, e 0 que merece 0 As rafzes do respeito à vida e integridade parecem de fato ter toda
termo vago "espiritual", é 0 fato de todas envolverem 0 que denominei essa profundidade e estar talvez vinculadas à tendência quase universal
alhures "avaliaçao forte"', isto é, envolvem discriminaçôes acerca do certo entre outros animais de nao matar membros da mesma espécie. Todavia,
como tanta coisa na vida humana, esse "instinto" recebe na cultura, coma
1. Iris Murdoch , The Sovereignty of Good, Londre s, Routledge , 1970. vimos, formas variadas. E a forma que assume é inseparavel de uma
2. Ver meu texto WWhat 15 Human Agency?\ cm Charles Taylor, Human Agency and descriçao do que merece nosso respeito. A descriçao parece articular a
Language, Cambridge, Cambridge University Press, 1985. Um born teste do caniter "forte"
de uma avaliaçao no sentido que dou ao termo é verificar se ela pode ser a base de atitudes
intuiçao. Ela nos diz, por exemplo, que os seres humanos san criaturas de
de admiraçào e desprezo. Deus e feitos à sua imagem; ou que sao almas imortais; ou que sao todos

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18 A mENTmADE E 0 BEM CONFIGURAÇÔES INCONTORNÂVEIS 19

emanaç6es do fogo divino; ou que sao todos agentes racionais e, assim, de certa propriedade. Porém, num caso a propriedade marca 0 objeto como
têm uma dignidade que transcende qualquer outro ser; ou alguma outra merecedor dessa reaçao; no outro, a conexao entre os dois é apenas um fato
caracterizaçao desse tipo - e que , por conseguinte, devemos·lhes respeito. bruto. Assim, discutimos e refletimos sobre 0 que e quem é um objeto
As vanas clùturas que restringem esse respeito fazem·no negando a des· adequado para 0 respeito moral, ao passo que isso sequer parece possivel
criçao crucial aos que foram deixados de fora: julgam que estes nao têm para uma reaçào como a nausea. Naturalmente, podemos raciocinar que
alma, nao sao plenamente racionais ou talvez sejam destinados por Deus seria util ou conveniente alterar as fronteiras daquilo pelo que sentimos
a alguma posiçào inferior ou algo desse gênero. nausea; e poderiamos ter sucesso, corn treinamento, em fazê-lo. Mas 0 que
Portanto, nos sas reaç6es morais nesse dominio têm, por assim dizer, pare ce nao fazer sentido aqui é a suposiçao de que poderiamos articlÙar
duas facetas. De um lado, sao quase coma instintos, comparaveis a nosso uma descriçao do nauseante em termos de suas qualidades intrinsecas,
amor por doces, nossa aversao a substàncias nauseantes ou nosso medo argumentando depois, a partir disso, que certas coisas diante das quais de
de cair; do outro, parecem envolver afirmaç6es, implicitas ou e}:plicitas, fato reagimos dessa maneira nao sao na realidade objetos adequados de
sobre a natureza e condiçao dos seres humanos. Nesta segunda perspectiva, nausea. Parece nào haver outro critério para um conceito do nauseante
uma reaçao moral configura·se como uma aceitaçao, uma afirmaçao, de além de nossa reaçào efetiva de nausea às coisas a que se aplica 0 conceito.
dada ontologia do humano. Em contraposiçao ao primeiro tipo de resposta, vinculado a um objeto
Uma importante corrente da consciência naturalista modem a tentou apropriado, esta poderia ser considerada uma reaçao bruta.
afastar essa segunda perspectiva e declara·la dispensavel ou irrelevante A assimilaçào de nossas reaç6es morais a essas reaç6es viscerais signi-
para a mOriüidade. Sao multiplos os motivos: em parte, isso reslÙta da ficaria considerar completamente ilus6rio tudo que falamos sobre objetos
desconfiança diante de todas as explicaç6es ontologicas devido ao uso que adequados de resposta moraL A crença de que discriminamos propriedades
foi dado a algumas delas, por exemplo justificar restriç6es ou exclus6es de reais;-com-critérios independentes .
hereges ou de seres suposlamente inferiores. E essa desconfiança é for· sem fundamento. Este é 0 ônus da chamada "teoria do erro" dos valores
talecida quando reina um sentido primitivista de que a natureza humana morais que John Mackie defendeu' . Pode·se combina-la facilmente corn um
imaclÙada respeita a vida por instinto. Mas também deve·se em parte à ponto de vista sociobiol6gico, em que se reconhece que certas reaç6es morais
grande nuvem epistemologica sob a qual todas es sas explicaç6es se en· tiveram (e têm) um obvio valor de sobrevivência, e até propor que ajustemos
contram para aqueles que seguiram teorias empiristas ou racionalistas do e alteremos nos sas reaç6es de modo a aumentar esse valor, !al coma nos
conhecimento, inspiradas pela sucesso da ciência natural modema. imaginamos acima mudando as coisas que nos causam nausea. Mas isso nada
É grande a tentaçao de nos contentarmos corn 0 fato de que temos teria a ver corn a concepçào de que certas coisas, e nao outras, apenas em
reaç6es desse tipo e considerarmos a ontologia que lhes confere articlÙaçao virtude de sua natureza, fossem objetos adequados de respeito.
racional um mero palavreado, coisas sem sentido de uma época que passou. Ora, essa perspectiva sociobiologica ou exlerna é completamente distinta
Essa posiçao pode acompanhar·se de uma explicaçao sociobiologica para da maneira coma de fato discutimos, refletimos e deliberamos em nossa vida
o fato de termos essas reaç6es, 0 que pode ser julgado de obvia utili· moral. Agora, somos todos universalistas em termos do respeito à vida e à
dade evolutiva e ter de fatos anaJogos entre outras espécies, como ja foi integridade. Mas isso niio significa simplesmente que temos essas reaç6es por
mencionado. acaso ou que decidimos, à luz da atual situaçào da raça humana, que é Util
Porém , essa divisao tào nitida nao pode ser mantida. Explicaç6es ter essas reaç6es (embora alguns argumentem desta maneira, alertando-nos,
ontologicas oferecem-se como articulaç6es corretas de nos sas reaç6es ''1~s­ por exemplo, que é de nosso proprio interesse, num mundo cada vez menor,
cerais" de respeito. No tocante a isso, tratam essas reaç6es coma distintas levar em consideraçao a pobreza do Terceiro Mundo). Significa, em vez disso,
de outras respostas "viscerais", coma nosso gosto por doces ou nossa que acreditamos que seria profundamente errado e sem fundamento definir
nausea diante de certos odores ou objetos. Nao reconhecemos que haja fronteiras que nao incluissem toda a raça humana.
aqui algo a articular, ao contrario do que acontece no caso da moral. É
essa distinçao ilegitima? Uma invençao metafisica? Parece que tudo gira 3. J. L. Mackie, Ethics: Inuenting Right and Wrong, Hannondsworth, Penguin Books.
em tomo disto: em ambos os casos, nossa resposta é a um objeto dotado 1977.

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20 A lDENTIDADE E 0 BEM CON FI GURAÇà ES INCONTOR.~AvEIS 21

Se alguém se propusesse a fazer isso, perguntar-lhe-iamos imedia· As vàrias explicaçoes ontologicas atribuem predicados a seres humanoS
tamente 0 que distingue quem foi inc1uido dos que ficaram de fora. E nos _ como criaturas de Deus, emanaçôes do fogo divine ou agentes de escolha
agarrariamos a essa caracteristica distintiva a fim de mostrar que ela nada racional - que parecem deveras anâlogos aos predicados teoricos das
teve que ver com 0 merecimento de respeito. É isso que fazemos com os ciências naturais, visto que (a) sao bastante distantes de nos sas descriçôes
racistas. A cor da pele ou os traços fisicos nao têm nenhuma relaçao corn cotidianas, por meio das quais lidamos corn as pessoas que nos cercam e
as coisas em virtude das quais os seres humanos merecem nosso respeito. com nos mesmos, e (b) fazem referência à nos sa concepçao do universo e
Corn efeito, nenhuma explicaçao ontologica faz tal atribuiçao. Os racistas do lugar que nele ocupamos. De fato, remontando a épocas anteriores ao
têm de afirmar que deterrninadas propriedades ·morais cruciais dos seres periodo moderno e tomando, por exemplo, 0 pensamento de Platâo, fica
humanos sao geneticamente deterrninadas: que algumas raças sao menos claro que a explicaçao ontologica que estâ na base da moralidade do
inteligentes, menos capazes de ter uma consciência moral elevada etc. A tratamento juste era idêntica à sua teoria "cientilica" do universo. A teoria
logica do argumento obriga-os a fundamentar sua afirmaçao num terre no das Idéias subjazia tanto a uma como à outra.
em que eles se colocarn , empiricamente, em seu ponto mais fraco. As di- Parece natural supor que teriamos de estabelecer esses predicados
ferenças de cor da pele sao inegaveis. Mas todas as alegaçoes acerca de ontologicos de maneira anâloga a nossas explicaçoes fisicas basicas:
diferenças culturais inatas sao insustentâveis à luz da hist6ria humana. A partindo dos fatos identificados independentemente de nossas reaçoes a
16gica de todo esse debate leva a sério a descriçao intrinseca, isto é, des- eles, tentariamos mc:trar que uma explicaçao subjacente é melhor que as
criçoes dos objetos de nossas respostas morais cujos critérios sao inde- outras. Contudo, uma vez tendo·o feito, perdemos de vista 0 objeto de
pendentes de nossas reaçoes de facto. nossa discussao. As explicaçôes ontologicas têm 0 estatuto de articulaçoes
E poderia ser de outra maneira? Sentimos que a exigência é consistente de nossOS instintos morais. Elas articulam as afirmaçoes implicitas em
.__41,t______"""-".""~"o re-"ç_o.es _morais. _E-IIlesmo_os_fil6sofos_que_se propoem iguorar nos sas reaçoes. Nao mais podemos argumentar-sobre- elas-quando as:m-----~"i
as explicaçoes onto16gicas ainda assim submetem a escrutinio e criticam mimos uma instancia neutra e tentamos descrever os fatos tais como sao,
nossas intuiçoes morais por sua consistência ou falta de consistência. Mas independentemente dessas reaçôes, como fizemos nas ciências naturais
a questao da consistência pressupoe a descriçao intrinseca. Como poderia desde 0 século XVII. É claro que existe uma objetividade moral. A evoluçao
alguém ser acusado de ficar inconsistentemente nauseado? Sempre se da introvisao moral requer corn freqüência que neutralizemos algumas de
pode encontrar alguma descriçao que inc1ua todos os objetos diante dos nos sas reaçoes. Mas isso ocorre para que as outras possam ser identifica-
quais ele reage dessa maneira, mesmo que seja apenas a descriçao relativa das, percebidas e descobertas por meio de cilimes mesquinhos, egoismo ou
de que todos eles provocarn sua repugnancia. A questâo da consistência s6 outros sentimentos indiguos. Nunca se trata de prescindir por inteiro de
pode ser levantada quando a reaçao se vincula a alguma propriedade inde- nossas reaçoes.
pendente como seu objeto adequado. Argumentaçoes e exploraçôes morais so podem existir num mundo
Todo 0 modo pelo qual pensamos, refletimos, argumentamos e nos moldado por nos sas mais profundas respostas morais, tais como as de que
que stionamos sobre a moralidade supoe que nos sas reaçoes morais têm venho falando aqui; assim como as ciências naturais supoem que nos
esses dois lados: nao sao apenas sentimentos "viscerais", mas também concentremos num mundo em que todas as nos sas respostas foram
reconhecimentos implicitos de enunciados concernentes a seus objetos. As neutralizadas. Para discriminar corn maior discernimento 0 que M nos
vàrias explicaçoes onto16gicas tentam articular esses enunciados. As ten· seres humanos que os torna dignos de respeito, é precise lembrar 0 que
taçoes de negar isto, que advêm da epistemologia moderna, sao fortalecidas é sentir 0 peso do sofrimento humano, 0 que hà de repugnante na injustiça
pela ampla aceitaçao de um modelo profundamente erroneo de raciocînio ou 0 assombro que se sente diante do fato da vida humana. Nenhum
prâtico'. baseado em uma extrapolaçao ilegitima a partir do raciocinio das argumento pode levar alguém de uma posiçao de neutralidade corn relaçao
ciências naturais. ao mundo, quer adotada pelas exigências da "ciência", quer originada como
conseqüência de uma patologia, à introvisao da ontologia moral. Nao se
4. Ver a discussao a seguir na seçâo 3.2, bem como em meu texto "Explanation and
se gue disso, no entanto, que a ontologia moral seja pura ficçao, como
Practical Reasan". costumam supor os naturalistas. Deveriamos antes tratar nos sos mais
22 A IDENTIDADE E 0 BEM
CONFIGURAÇÔES INCONTORNAvEIS 23 -
profundos instintos morais, nosso senso inerradicavel de que a vida humana desenvolvimento separado mas igual, enquanto dissidentes soviéticos sao
deve ser respeitada, como nossa forma de acesso ao mundo em que as encarcerados sob vanas acusaç6es forjadas ou hospitalizados coma "doentes
afirmaçôes ontolégicas sâo discerniveis e podem ser discutidas e analisadas mentais", mantendo·se a ficçâo de que as massas elegem 0 regime. A
racionalmente. natureza teista ou secular dos fundamentos de uma pessoa é algo que
raramente transpira, exceto em detenninadas controvérsias muito especiais,
coma a que se trava sobre 0 aborto.
Portanto, em arnplas areas, os fundamentos tendem a manter·se inex·
1.2 plorados. Mas, além disso, pode até mesmo haver resistência à sua exploraçao.
Referi·me no começo ao exame do "pano de fundo" que subjaz a nossas Isto porque pode existir - e, desejo afinnar, muitas vezes ha - uma falta
intuiçôes :spirituais e morais. Poderia agora reformular isso e dizer que de adequaçâo entre 0 que as pessoas acreditam, por assim clizer, oficial e
meu alvo e a ontologla moral que articula essas intuiçôes. Que quadro de conscientemente, e de que até se orgulham de acreditar, e aquilo de que
nossa natureza e condiçâo espiritual da sentido a nossas respostas.? "Dar precisam para dotar de senMo alglunas de suas reaç6es morais. Dm hiato
sentido" aqui. significa articular aquilo que toma essas respostas apro· como esse surgiu na discussao acima, em que alguns naturalistas propôem
pnadas: ldentiflcar 0 que faz de algo nm objeto adequado para elas e, cor· que se tratem todas as ontologias morais coma histérias irrelevantes, sem
relativarnente, formular de maneira mais completa a natureza da resposta, validade, enquanto eles mesmos continuam a discutir como todos nés "·bre
aSSlm como explicltar 0 que tudo isso pressupôe sobre nés mesmos e sobre que objetos sao adequados e que reaçôes sao apropriadas. 0 que, de modo
geral, acontece neste caso é que a prépria explicaçâo redutiva, corn freqüência

--
nossa situaçâo no mundo. 0 que é articulado aqui é 0 fundamento que
pressupomos e ao qual recorremos em todas as reivindicaç6es de correçâo, de cunho sociobiolégico, que supostamente justifica essa exclusao assume ela
------.-- e parte·do-qual-precisamos-tornarexpIic"ita para deTëffilernossas respostas- -- mesma 0 papel de ·ontologia moral. Quer clizer, começa a oferecer a base para
como sendo as corretas. discriminaçôes acerca de objetos apropriados ou respostas validas. 0 que
principia no capitulo 1 como uma teoria cientifica tria para justificar uma
Essa ~culaçâo pode ser bem dificil e controversa. Nâo 0 digo apenas
teoria de erro da moralidade toma·se, na conclusao, a base para uma nova
no sentido ObVlO de que nossos contemporâneos nem sempre concordam
ética "cientifica" ou "evolutiva"s Aqui, é forçoso concluir, reina uma ilusao
entre si em matéria de ontologia moral. Isso é clara 0 suficiente: muitas
pessoas, casa lhes pedissemos que explicitassem 0 fundamento de suas
ideologicamente induzida sobre a natureza da ontologia moral em que os
pensadores envolvidos de fato se baseiam. Ha um trabalbo de articulaçâo
.-
"."
re~ç6es de respeito pela vida acima discutidas, apelariarn para a explicaçao
deveras controverso, porém muito importante, a ser feito aqui, a despeito das
telsta a que me referi e invocariam nossa condiçâo comum de criatnras de
pessoas envolvidas, que possa mostrar até que ponto a base espiritual real de
Dens; outras a rejeitariarn em favor de uma explicaçâo puramente secular
seus préprios juizos morais se desvia daquilo que é oficialmente admitido.
e talvez invocassem a dignidade da vida racional. Contudo, além disso a
articulaçâo dos fundarnentos de qualquer pessoa particular pode ser obj~to
Ha, a meu ver, muita supressao motivada de ontologia moral entre ~:
de controvérsia. 0 préprio agente nao é necessariamente a melhor auto· nos sos contemporâneos, em parte porque a natureza pluralista da sociedade
modema toma mais facil viver dessa maneira, mas também por causa do
ridade, ao menos nao no começo.
grande peso da epistemologia modema (como ocorre corn os naturalistas
Isto é assim, antes de tudo, porque a ontologia moral que esta na base acima mencionados) e, por tras disso, da perspectiva espiritual associada
das concepç6es de qualquer pessoa pode pennanecer em grande medida a essa epistemologia. Assim, 0 trabalbo a que me lancei aqui poderia ser
implicita. Corn efeito, é 0 que geralmente ocorre, exceto na presença de chamado em larga medida de ensaio de resgate. Terei de lutar por boa
algum desafio que force essa ontologia a passar ao primeiro piano. A parte do terreno, e por certo nao convencerei a todos.
pessoa comum precisa pensar muito pouco sobre as bases do respeito
uruversal, por exemplo, porque quase todos aceitam isto coma axioma em
nossos dias. Os maiores violadores ocultam ·se por tras de uma cortina de
fumaça de lllentiras e de alegaç6es especiais. Mesmo regimes racistas,
5. Para um barn exemplo disse, ver E. O. 'Wilson, On Human Nature, Cambridge, Mass.,
Harvard University Press, 1978 (em português, Da natureza huma na, Sâo Paulo, T. A.
-
como 0 da Africa do Sul, apresentam seus prograrnas na linguagem do Qu,iraz, 1981).
24 A IDENTIDADE E a BEM CONFIGURAÇOES lNCONTORNÂVEIS 2S

Entretanto, ao lado de nossas discordâncias e dé nossas tentaç6es de namos a percepçao de que os seres humanos merecem nosso respeito. De
supressao, essaarticulaçâo da ontologia moral serâ muito dilicil par uma terceira
rmo: a natureza indefinida, tateante, incerta de muitas de nossas crenças
uma forma ou de outra, isto parece ser um universal humano; isto é, em
todas as sociedades parece haver tal percepçao. A fronteira ao redor dos
-.,
marais. Muitos de nossos contemporâneos, embora nao se sintam atraidos pela seres inerecedores de réspeito pode ser traçada de forma mais restrita em
tentativa naturalista de negar por inteiro a ontologia e embora, pela contrârio, culturas anteriores, mas hâ sempre uma classe caracterizada dessa maneira.
reconheçam que suas reaçoes marais mostram estar eles comprometidos corn E, entre a que reconhecemos coma civilizaç6es superiores, sempre esm
alguma base adequada, ficam pel]llexos e indecisos quando chega a momento incluida toda a espécie humana.
de dizer que base é essa. Em nos sa exemplo acima, muitas pessoas, diante das o que hâ de peculiar ao Ocidente modemo entre essas civilizaçoes
ontologias teista e secular camo base para suas reaçoes de respeito, nao se superiores é a fato de sua formulaçao predileta desse principio do respeilo
sentiriam prontas para tomar uma decisao definitiva. Elas concordarn que, ter sida feita em termos de direitos. Issa se tomou central em nos sos
mediante suas crenças marais, reconhecem alguma base na natureza ou na sistemas legais - e, nesta forma, disseminou-se pela mundo. Mas, além
condiçâo humana que toma os seres humanos objetos adequados de respeito, disso, algo anâlogo tomou-se central em nosso pensamento moral.
parém confessam que nao podem aderir corn total convicçâo a nenhuma definiçâo A noçâo de um direito, também chamado de "direi!o subjetivo", ta!
particular, ao menos nao a alguma das oferecidas. Algo similar se manifesta como desenvolvida na tradiçao legal do Ocidente, é de um privilégio legal
para muitas delas no tocante à questâo do que toma a vida humana digna de
vista camo uma quase-posse do agente a quem é atribuido. Em principio,
ser vivida ou do que confere significado à sua vida individual. A maioria de nôs
esses direitos eram passes diferenciais: algumas pessoas tinham 0 direito
ainda estâ no processo de procurar respostas para isso. Ternas ai, coma tentarei
argumentar a seguir, uma condiçao essencialmente modema. de participar de certas assembléias, de dar conselhos ou de cobrar taxas
em dado rio e assim par diante. A revoluçao na teoria do direito natural
Quando isso acontece, a questâo da articulaçâo pode assurnir outra forma. .- lîo- século--xvri-col!s'lstiu em paIteem usar essa-liïignagem dos direitos- - '
Nao é a mera formulaçâo do que as-pessoas-jâ reconhecem de fdrmr1lllplicd:a:~---+--­
para exprirnir as normas morais universais. Começamos a falar de direitos
mas nao problemâtica, nem a demonstraçâo das coisas nas quais as pessoas
realmente se apôiam, a despeito de suas negaçoes ideolôgicas. Essa articulaçâo "naturais", aplicados agora a coisas camo a vida e a liberdade, que
sô poderia ser levada a efeito, em vez disso, pela demonstraçao de que uma supostarnente todos têm.
ou outra ontologia é na verdade a ûnica base adequada para nossas respastas De certo modo, falar de um direito universal e natural à vida nao parece
morais, quer a reconheçamos ou nao. Uma tese camo essa foi invocada por muita inovaçâo. A mudança parece ser uma questâo de forma. A maneira
Dostoiévski e discutida par Leszek Kolakowski numa obra recente': "Se Deus anterior de expressar a tema era que existe uma lei natural contra tirar vidas
nao existe, tudo é permitido". Mas esse nivel de argumentaçâo, que concerne inocentes. Ambas as formulaç6es parecem proibir as mesmas coisas. A dife-
àquilo a que se resumem de fato nossos compromissos, é ainda mais dilicil rença, porém, nao esm no que é proibido, mas no lugar do sujeito. A lei é
do que 0 anterior, que tenta mostrar, diante da supressao naturalista, 0 que aquilo a que devo obedecer. Ela pade me assegurar alguns beneficios, no casa
eles jâ sao. É provâvel que eu nao consiga me aventurar muito nesse terreno a imunidade de que também minha vida deve ser respeitada mas, fnndamen-
nas pâginas a seguir. Seria suficiente, e muito valioso, poder mostrar algo talmente, estou sob a lei. Em contraste, um direito subjetivo é alguma coisa
acerca dos compromis sos indefinidos, hesitantes e difusos em que nôs, mo- em relaçâo à qual 0 possuidor pode e deve agir para colocâ-la em vigor.
demos, nos baseamos de fato. 0 mapa de nosso mundo moral, par mais cheio Atribuir a alguém uma imunidade, antes dada pela lei natural, na forma de um
de lacunas, rasuras e borr6es, é por demais interessante. direito natural é dar-lhe um papel no estabelecimento e aplicaçâo dessa imu-
nidade_ Agora, sua participaçâo é necessma e seus graus de liberdade sao
1.3 correspandentemente maiores. No limite extremo destes, pade-se até renunciar
a um direito, derrotando assim a imunidade. Eis por que Locke, a fim de
o mundo moral dos modemos é significativamente distinto do de excluir essa possibilidade no casa de seus três direitos bâsicos, teve de in-
civilizaçoes precedentes. Isto se toma clara, par exemplo, quando exarni- troduzir a noçâo de "inalienabilidade". Nada semelhante a isso era necessârio
na formulaçâo da lei natural anterior, porque essa linguagem, por sua prôpria
6. Ver Leszek Kolakowski, Religion, Londres, Fontana, 1982. natureza exclui 0 poder de renlincia.
26 A IDENTlDADE E 0 BEM CONFIGURAÇÔES INCONTORNAVEIS 27

Falar de direitos humanos universais, naturais, é vinclùar 0 respeita bem mais sensiveis a este respeito do que nos sos ancestrais de alguns
--
'"'
pela vida e integridade humanas à noçào de autonomia. É con ce ber as SéClÙOS atras - coma poderemos perceber prontamente se considerarmos
pessoas coma colaboradores ativos no estabelecimento e garantia do respeito
que !hes é devido. E isso exprime uma caractenstica central de nossa
perspectiva moral ocidental moderna. Essa mudança de forma se faz acom
as Mrbaras (para nos) puniçoes que eles infligiam. Mais uma vez, 0 codigo
legal e suas praticas proporcionam uma janela para movimentos mais
amplos da clÙtura. Pensemos na terrificante descriçâo da tortura e execuçâo
-
panhar, naturalmente , de uma alteraçâo de conteudo, da concepçào do que de um homem que tentou 0 regicidio na França de meados do SéClÙO XVIII,
é respeitar alguém. A autonomia é agora central a isso. Assim, a lrindade que abre Vigiar e punir, de Michel FoucalÙt'. Nâo que horrores comparaveis
lockiana dos direitos naturais inclui 0 direito' à liberdade. E, para nos, nâo aconteçam no Ocidente do SéClÙO XX. Mas sâo agora considerados
respeitar a personalidade envolve coma elemento crucial respeitar a auto- aberraçoes chocantes que têm de ser oclÙtadas. Mesmo as execuçoes le-
nomia moral da pessoa. Corn 0 desenvolvimento da noçào pos·romântica de gais "limpas", nos lugares em que a pena de morte ainda esta em vigor,
diferença individual, isso se amplia até a exigência de darmos às pessoas ja nâo sâo feitas em publico, mas por tras dos tantos muros das prisoes.
a liberdade de desenvolver sua personalidade à sua propria maneira, por É corn arrepio que ficamos sabendo que pais costumavam levar os filhos
mais repugnante que seja para nos e mesmo para nosso sentido moral - pequenos para testemunhar tais eventos quando estes eram oferecidos
tese desenvolvida tâo persuasivamente por J. S. Mill. como espetaclÙos publicos antigamente. Somos bem mais sensiveis ao
É claro que nem todos concordam corn 0 principio de Mill, : seu pleno sofrimento, 0 que, claro, podemos traduzir em simplesmente nâo querer
impacto na legislaçào ocidental foi bem recente. Porém, todos em nossa ouvir falar dele, em vez de 0 expressarmos na tomada de alguma açâo
civilizaçào sentem a força desse apelo de que se conceda às pessoas a corretiva concreta. Mas a noçâo de que temos de reduzir 0 sofrimento a
liberdade de se desenvolver à sua propria maneira. A divergência é quanto um minimo é parte integrante daquilo que 0 respeito significa para nos !
à relaçâo de coisas coma a pornografia, ou vanas espécies de comportamento hoje - pormrusdesagradâvel- que isso"i'enha- sido- "ara unra- ell:rcrue-nte- - - -- ..;
sexual permissivo, ou representaçoes de violência, corn 0 desenvolvimento minoria, em particular para Nietzsche. .. .
legitimo. A proibiçào daquelas ameaça este Ultimo? Ninguém duvida que, Parte da rmo dessa mudança é negativa. Em comparaçâo, por exemplo,
se as sim for, isto constitui uma razâo, embora talvez nào totalmente decisiva, corn os executores de Damiens no SéClÙO XVIII, nâo vemos sentido em
para airouxar os controles sociais. reverter ritualmente 0 crime temvel corn uma puniçâo igualmente temve!.
Logo, a autonomia tem lugar central em nossa compreensâo do respeito. Toda a noçâo de ordem moral cosmica, que conferia sentido a es sa restau-
Muita coisa é aceita universalmente. Além disso h.i vanos quadros mais ricos raçâo, desapareceu para nos. A ênfase eI!' aliviar 0 sofrimento destacou-
da natureza humana e de nossa condiçâo, os quais oferecem razaes para essa se corn 0 declinio desse tipo de crença. E 0 que resta, 0 que assume im-
exigência. Inclui-se ai, por exemplo, a noçào de que somos sujeitos des- portância moral, depois que deixamos de ver os seres humanos coma tendo
prendidos, que se hbertam de uma sensaçâo confortâvel mas ilusoria de imersâo papel na ordem cosmica ou na historia divina mais amplas. Isso foi parte
na natureza e objetificam 0 mundo à volta; ou 0 quadro kantiano que nos mos· do implÙso negativo do Iluminismo utilitarista, que protestava contra 0
tra como puros agentes racionais; ou a visâo romântica que acabamos de men· sofrimento desnecessano e sem sentido infligido aos seres humanos em
cionar, na qual nos autocompreendemos segundo metâforas orgânicas e um nome dessas ordens ou dramas mais amplos.
conceito de auto·expressâo. Como é bem sabido, os partictanos dessas diIerentes Mas é clara que essa ênfase no bem-estar humano do tipo mais imediato
concepçôes estâo em intenso conflito entre si. Aqui, mais uma vez, um consenso também tem fontes religiosas. Vern do Novo Testamento e constitui um dos
moral generalizado gera controvérsia no nivel da explicaçào filosofica. temas centrais da espiritualidade cristâ. 0 utilitarismo moderne é uma de
Nâo sou de modo algo neutro nessa controvérsia, mas nâo me sinto, suas variantes secularizadas. E, nessa qualidade, vinclÙa·se a uma carac-
neste estagio, capaz de contribuir corn ela de maneira UW. Tentarei agora, tenstica mais fundamental da espiritualidade cristâ, que vern a receber
em vez disso, arrematar este quadro de nossa compreensào moderna do uma importância nova e sem precedentes no começo da era moderna e
respeito corn a mençâo a duas outras caractensticas relacionadas. também se tornou central à clÙtura moderna. Quero descrever isso como
A primeira é a importância que atribuimos a evitar 0 sofrimento. Isso
parece novamente ser peculiar às civilizaçoes superiores. Som os por certo 7. Michel FoucatÙt, Vigiar e punir, Petropolis, Vozes, 1995.

::eu; .
28 A IDENTlDADE E 0 BH! Co~mGuRAç6ES fNCONTOR.~AvEls 29

......
a afirmaçao da vida cotidiana. Este Ultimo termo pertence à arte e pretende,
em linhas gerais, designar a vida da produçao e da familia.
moral abrange precisamente nossas obrigaçôes para corn as outras pessoas.
Se, contudo, adotannos essa detiniçao, teremos de admitir que existem outras --
De acordo cOrn a ética aristotélica tradicional, trata-se de algo de impor-
tância meramente infra-estrutural. A "vida" era importante camo 0 pano de
questôes além da moral que sac de essencial importância para nos e pôem em
jogo uma avaliaçao forte. Ha questôes sobre coma vou levar minha vida que
remetem ao aspecto de que tipo de vida yale a pena ter ou que tipo de vida
-
~

fundo e apoio necessanos ao "hem viver" de contemplaçiïo e à açao das


pessoas coma cidadiios. Corn a Reforma, encontramos um senlido moderno, vai cumprir a promessa implicita em meus talentos particLÙares, nas exigên-
de inspiraçiïo crista, de que a vida cotidiana era, pela contrano, 0 proprio cias incidentes sobre alguém corn minha capacidade, ou do que constitui uma
centro do bem viver. A questio crucial era coma essa vida era levada, se em vida rica e significativa em contraposiçiïo uma vida voltada para questôes
atitude contrita e no temor a Deus ou nao. Mas a vida dos tementes a Deus secundàrias ou trivialidades. '!rata· se de interrogaçôes de avaliaçao forte,
era vivida no matrimôruo e em seu chamado. As formas "superiores" de vida visto que quem as faz nao tem dûvida de que se possa, ao seguir os proprios
precedentes foram, por assim dizer, destronadas. E, corn isso, vinha com anseios e desejos imediatos, dar um mau passo e, em conseqüência, fracassar
freqüência um ataque, velado ou aberto, às elites que haviam feita dessas na tarefa de levar mna vida plena. Para corn pre ender nosso mundo moral,
formas a sua provincia. temos de ver nao sa que idéias e quadros descritivos subjazem a nosso
sentido de respeito pelos outros, mas também aqueles que a1icerçam nossas
Creio que essa afirmaçao da vida cotidiana, embora nao incontestada e
noçôes c'" uma vida plena. E, coma veremos, essas nao sao duas ordens muito
corn freqüência aparecendo em forma secLÙarizada, tornou-se uma das idéias
distintas de idéias. Existe uma sobreposiçao substancial, ou melhor, uma
mais poderosas da civilizaçao moderna. Ela esti na base de nossa politica
relaçao complexa na qual algumas das mesmas noçôes b.isicas ressurgem de
"burguesa" atual, tio preocupada corn questôes de bem-estar, e ao mesmo
maneira nova. Isso acontece de modo particLÙar naquilo que cbamei acima de
tempo serve de combustivel à mais influente ideologia revolucionana de nosso
afirmaçao da vida cotidiana. . ..----- .-- - ..- - -....
SéCLÙO, '0 marxismo, com ' sUa 'àpoteose do· homem enquanto produtor. Esse
sentido da importância do cotidiano na vida humana, ao lado de seu corolano Em termos gerais, poder-se·ia tentar discernir três eixos daquilo que
referente à importância do sofrimento, colore toda a nossa compreensao do se pode denominar, no sentido mais amplo, pensamento moral. Assim coma
que é de fato respeitar a vida e a integridade humanas. Junto com 0 lugar os dois que acabamos de mencionar - nosso sentido de respeito pelos
central atribuido à autonomia, ele define uma versao dessa exigência que é outros e de obrigaçao perante eles e nossos modos de compreender 0 que
peculiar à nossa civilizaçao, 0 Ocidente moderno. constitui uma vida plena -, ha também a gama de noç6es relacionadas
com a dignidade . Com isso, reporto·me às caracteristicas mediante as
quais pensamos em nos mesmos coma merecedores (ou nao-merecedores)
1.4 do respeito das pessoas que nos cercam. Aqui, 0 termo "respeito" tem um
Até agora estive examinando apenas uma corrente de nossas intuiçôes significado ligeiramente distinto do que tinha acima. Nao me refiro agora
morais, se bem que extremamente importante. '!rata-se das crenças morais ao respeito a direitos, no sentido da nao-violaçao, que podemos denominar
que se agregam em torno do sentido de que a vida humana deve ser respeitada respeito "ativo", mas ao pensar bem de alguém, até mesmo admira-lo, que
e de que as proibiçôes e obtigaçâes que isso nos imp6e contam-se entre as é 0 que esta implicito quando dizemos na linguagem comum que alguém
mais ponderaveis e sérias de nossa vida Estive argumentando que ha um tem nosso respeito. (Chamemos esse tipo de respeito de "atitudinal".)
sentido peculiarmente moderne daquilo que 0 respeito envolve, que confere Nossa "dignidade", na acepçao particLÙar que emprego aqui, é nosso
lugar de destaque à liberdade e ao autocontrole, dB. elevada priotidade à sentido de merecer respeito (atitudinal). A questao de saber em que consiste
evitaçiïo do sofrimento e vê a atividade produtiva e a vida familiar como nossa dignidade nao é mais evitivel que a de saber por que deveriamos
essenciais para nosso bem-estar. Porém, esse agregado de intuiçôes morais respeitar os direitos alheios ou 0 que constitui uma vida pIe na, por mais
acompanha apenas um dos eixos de nossa vida moral. Ha outros para os quais que uma filosofia naturalista possa nos levar a pensar erroneamente russo
as noç6es morais que venho discutindo também sao relevantes. como mais um domiruo de meras reaç6es "viscerais", similares às dos
A "moralidade", com efeito, pode ser e corn freqüência é detinida tio· babuinos ao estabelecer sua hierarquia. E, nesse caso, seu carater inevitivel
·somente em termos do respeito aos outros. Considera-se que a categoria da deveria ser ainda mais obvio, visto estar nossa dignidade tao integrada a

~------------------------------~~-~-~-~"'~.~"~"~.~-~ ~~.
", .
30 A IDENTIDADE E a BEM CONFIGURAÇÔES meONTORNÀVEIS 31

nosso proprio comportamento. A maneira mesma coma andamos, nos e de poder'. E muitos elementos disso sobre\~vem no penado clàssico para
movemos, gesticulamos e falamos é moldada desde os primeiros momentos que Platao tenha apresentado !Una ética do poder e do auto-engrandecimento
par nossa consciência de estar na presença de outros, de nos encontrarmos coma !Una de suas principais metas, em figuras coma CAbeles e Trasimaco.
num espaço publico e de que esse espaça pode trazer potencialmente a res- Para nos, isto se aproxima do inconeebivel. Pareee ob\~o que 0 primeiro eixo
peito ou a desprezo, 0 orgulbo ou a vergoIÙ1a_ Nosso estilo de movimentaçao tem a primazia, seguido pelo segundo. Ligado a isso, prov2velmcnte teria sido
lisica exprime a maneira coma nos vemos gozando de respeito ou carentes incompreensivel para as pessoas desse penodo arcaico que 0 primeiro eixo
dele, coma merecendo-o ou deixando de merecê-Io. Algumas pessoas passam pudesse ser concebido em termos de mna ética de principios gerais, quanta
rapidamente pelo espaço publico camo se a evitassem; outras passam pre- mais fundada na rmo, em oposiçâo a mua ética baseada em proibiçoes
cipitadamente coma se esperassem fugir à questao da impressao que causam religiosas que nao toleravam discussâo.
nele pela propria deternrinaçao séria corn a qual transitam por ele; outras Uma das maneiras mais importantes pelas quais nossa época se destaca
l ainda passeiam corn segurança, saboreando seus momentos nesse âmbito; das anteriores refere-se ao segundo eixo. Sâo pertinentes para nos uma
e ha também os que assumem um ar superior, confiantes na maneira como série de interrogaçoes que giram em toma do sentido da \ida, as quais nao
sua presença marca a espaça publico: pensemos no modo cuidado·samente seriarn totalmente inteligiveis em épocas antecedentes. 0, modernos podem
vagaroso corn que a policial sai de sua viatura apos ter-nos feito parar por duvidar ansiosamente que a vida tenha sentido, ou ficE.! divagando sobre
excesso de velocidade, e no camiIÙlar lento e cadenciado corn que se qual seria esse sentido. Ainda que 05 filosolos po::am inclinar-se a atacar
aproxima para pedir nossa carteira de motorista'- essas formulaçoes coma vagas ou confusas, permanece 0 lato de que todos
o que, precisamente, julgamos constituir nossa dignidade? Pode ser temos um sentido imediato do tipo de preocupaçao que esli sendo articulado
nosso poder, nosso sentido de dominar 0 espaça publico; ou nossa vulnera- nessas palavras.
~. _- ~bilidade-diante- do-poder-;-ou-nossa-auto-, uficiência;· o fato -de rlossâVida lèY- Podemos talvez chegar ao âmago dessas questoes da seguintë ma.>ferra:
seu proprio centro; ou. a fat? de sermos queridos e admirados pelas outros, Questôes ao longo do segundo eixo podem surgir para pessoas de qualquer
um centra das atençoes. E, no entanto, muito comum que 0 sentido de cultura. Um membro de uma sociedade guerreira pode perguntar-se se seu
dignidade possa fundamentar-se em algumas das mesmas concepçoes morais historico de façanhas corajosas esta à altura da fama àe sua linhagem ou
que mencionei acima_ Par exemplo, minha visao de mim mesmo camo das exigências de sua posiçao. Pessoas de uma cultura religiosa perguntam- "!

chefe da casa, pai de familia, detentor de um emprego, provedor de meus -se muitas vezes se a exigência de piedade convencional é suficiente para
dependentes; tudo isso pode ser a base do meu sentido de dignidade. Do elas ou se nao sentem um chamado a uma vocaçao mais pura e dedicada.
mesmo modo como sua ausência pode ser catastrofica, capaz de abalà--Io Criaturas deste tipo fundaram a maioria das grandes ordens religiosas do
ao solapar por inteiro meu sentimento de valor pessoal_ Aqui, 0 sentido de cristianismo, por exemplo. Contudo, em cada um desses casos permanece
dignidade està envolvido nessa noçao moderna da importância da vida inquestionàvel alguma configmaçâo que ajuda a definir as exigências a
cotidiana, que reaparece outra vez neste eixo. partir das quais as pessoas julgam sua vida e medem, par assim dizer, sua
É provàvel que algo semelhante a esses três eixos exista em toda cultura. plenitude ou nulidade: a espaço da fama na memoria e no cântico da tribo,
Ha, contudo, grandes diferenças na maneira como sao concebidos e se re- a chamado de Deus tal coma explicitado na revelaçao ou. para tomar outra
lacionam entre si, bem camo em sua importância relativa. Para a ética guer- exemplo, a ordem hieràrquica do ser no universo.
reira e de honra que parece ter sido dominante entre os estratos dirigentes É hoje um lugar comum a idéia de que 0 mundo modemo tornou essas
da Grécia arcaica, cujas façanhas foram celebradas por Homero, este terceiro configmaçoes problematicas. No nivel da doutrina filosofica ou teologica
eixo parece ter sido proeminente, e parece até mesmo ter incorporado a el'plicita, isso é nitidamente evidente. Algumas configmaçoes tradicionais
segundo eixo sem dele deixar vestigios. 0 "agatMs" é a homem de dignidade cairam em descrédito ou foram relegadas à condiçao de preclileçoes pessoais,
como é a casa do espaça da fama. Outras deixaram por completa de ter
, 8. Ver Marcel Proust, A l'ombre des jeunes filles en fleur, Paris, Gallimard, 1954, p. 438
(A sombra das rapan"gas em floT, Rio de Janeiro, Globo, 1982), a respeito dessa percepçào 9. Ver A. W. H. Adkins, From the Many ta the One, Ithaca, Cornell University Press.
e preocupaçao inevitiveis corn nossa aparência no espaça publieo. 1970, pp. 9-10.

p _~ 2._. _ _ _ . tW13 . 2L ~._ •••• ~~. m&:i ... C h .'iif'Ji) ~iH _"3/JnCLttQ
32 A IDENTIDADE E 0 BEM CONFIGURAÇÔES INCONTORNÂVEIS 33

credibilidade em qualquer apresentaçâo que lembre sua forma original, como Corn essas pessoas que buscam, somos levados além do escopo de confi-
no caso da noçao platônica da ordem do ser. As formas da religiao revelada guraç6es tradicionalmente disponiveis. Elas nao apenas aceitam essas tradiçoes
continuam muito vivas, mas também altamente contestadas. Nenbuma delas condicionalmente, coma também costumarn desenvolver suas proprias versoes
plasma 0 horizonte de toda a sociedade no Ocidente modemo. delas, ou combinaçoes idiossincraticas, ou empréstimos, ou semi-invençoes
a termo "horizonte" é empregado freqüentemente para tratar deste dentro delas. E isso proporciona 0 contexto dentro do qual a questiio do sen-
tema. 0 que Weber denominou "desencanto", a dissipaçao de nosso sentido
do cosmo coma ordem significativa, supostamente destruiu os horizontes
tido tem seu lugar.
Na medida em que vemos a descoberta de uma configuraçao crivel
--
nos quais as pessoas antes levavam sua vida espiritual. Nietzsche usou 0 como 0 objeto de uma busca, nessa mesma medida toma· se inteligivelque
termo em sua celebrada passagem de "Deus esta morto"; "Como poderiamos a busca poderia fracassar. Isso poderia ocorrer por inadequaçao pessoal,
beber todo 0 mar? Quem nos deu a esponja corn que absorver todo 0 mas também poderia advir do fato de nao haver uma configuraçao crivel
horizonte?"" Talvez essa formulaçao atraia sobretudo os intelectuais, que definitiva. Por que falar disso em termos de uma perda de sentido? Em
impoem inumeras restriçoes às doutrinas explicitas que as pessoas seguem parte porque uma configuraçao é aquilo segundo 0 qual entendemos espiri-
e, de todo modo, tendem a nao ter crenças. Mas a perda de horizonte tualmente a nossa vida. Nao ter uma configuraçâo é cair numa vida espi·
descrita pelo tolo de Nietzsche sem duvida corresponde a algo amplamente ritualmente sem sentido. Logo, a busca é sem pre uma busca de sentido.
sentido em nossa cultura. Mas a invocaçao do sentido também decorre de nossa consciência de
Foi isso que tentei descrever corn a frase acima, que as configuraçoes quanto a busca envolve articulaçao. Descobrimos 0 sentido da vida articu-
sao hoje problematicas. Esse termo vago aponta para uma disjunçao rela· lando·o. E os modemos adquirirarn a consciência aguda de que 0 grau de
tivamente aberta de atitudes. 0 que ha de comum a todas elas é 0 sentido sentido que existe para nos de pende de nossos proprios poderes de expres-
______de _que nenbuma-configura,ao-é-paFtilhada-por- todos-;-nem-pode-serlida- - ---'----- sao. Aqucaescobiir depende de inventar, e ambos se entrelaçarn. Encontrar
por certa coma a configuraçâo tout court ou passar à posiçao fenomenologica um sentido para a vida depende de construir express6es significativas
de fato inquestionavel. Essa compreensao basica refrata-se variadarnente 1 adequadas. Ha, portanto, algo particularmente apropriado à nossa condiçao
nas posiçoes que as pessoas tomam. Para algumas, pode significar a 1 na polissemia da palavra "senlido"; vidas podem tê-Io ou carecer dele
sustentaçao de uma concepçao fechada tradicionalmente definida corn a quando têm ou carecem de um objetivo; ao mesmo tempo em que a palavra
percepçao autoconsciente de colocar-se contra uma grande parte de seus também se aplica à lingua e a outras formas de expressao. Nos, modemos,
compatriotas. Outras podem sustentar a concepçao, porém corn um sentido alcançamos cada vez mais 0 sentido na primeira acepçao, quando 0
pluralista de ser ela uma entre outras, certa para nos porém nao neces- conseguimos, mediante sua criaçao na segunda.
sariarnente vilida para os outros. Outras ainda identificam·se corn uma Por conseguinte, 0 problema do sentido da vida esta em nossa agenda,
concepçao, mas da maneira um tanto indefinida e semiprovisoria que des- por mais que possamos zombar dessa expressiio, quer na forma de uma perda
crevi acima, na seçao 1.2. Esta !hes parece proxima de formular aquilo em ameaçada de sentido, quer porque 0 encontro de sentido para nossa vida é 0
que acreditarn ou de dizer 0 que, para elas, pare ce ser a fonte espiritual objeto de uma busca. E aqueles cuja agenda espiritual deline-se principalmente
corn a qual podem conectar sua vida; todavia, estiio cientes de suas proprias dessa maneira estiio numa condiçâo existencial fundamentahnente distinta
incertezas, de quanto estiio longe de ser capazes de reconbecer uma for- daquela que dominou a maioria das culturas precedentes e ainda deline hoje
mulaçao definitiva corn confiança absoluta. Ha sempre algo de hesitante a vida de outras pessoas. Essa altemativa é uma condiçâo em que uma
em sua adesao, e essas pessoas podem ver a si mesmas coma estando, num configuraçâo inquestionavel apresenta exigências imperiosas que tememos
certo sentido, à procura. Elas estiio numa "busca", na expressao apropriada nao ser capazes de atender. Temos diante de nos a perspectiva de condenaçao
de Alasdair Macintyre l l irrevogavel ou exilio, de receber 0 estigma da desonra, de ser inapelavelmente
condenados à danaçâo, ou de ser relegados a uma ordem inferior ao longo de
10. Ver A gaia ciência, par. 125. incontaveis vidas futuras. A pressao é potencialmente imensa e inevitavel, e
Il. Ver Alasdair MacIntyre, After Vlrtue, Notre Dame, University of Notre Dame Press, podemos vergar sob 0 seu peso. A forma assumida pelo perigo aqui distingue-
1984, pp. 203·204. -se por completo daquela que ameaça a busca dos modemos, que é praticamente



- - ....... - - - j . 0'
-..,
34 A IDENTIDADE E 0 BEM
CONFIGURAÇOES INCONTORSÀVEIS 35
-
o oposto: 0 mundo perde de vez seu contorno espiritual, nada yale a pena ser cultura dessa "perda de horizonte", que uns poucos espiritos alertas previam
feito, 0 medo é de um vazio aterrorizante, uma espécie de vertigem, ou mesmo hâ um século ou mais.
uma fratura do nosso mundo e do nosso corpo·espaço.
Para ver 0 contraste, pense·se em Lutero, em sua angUstia e sofrimento 1.5
...,
intensos diante de seu momento libertador de percepçâo sobre a salvaçiio por
É clara que a mesma atitude naturalista que mencionei acima, a qual
meio da fé, sua sensaçao de condenaçao incontornavel, lançando·se
gostaria de dispensar quaisquer explicaçoes ontol6gicas e tratar apenas de
irrevogavelmente na danaçiio por meio dos proprios instrumentos de salvaçao,
reaçoes morais, vê com muitas suspeitas essa conversa de sentido e confi·
os sacramentos. Como quer que se queira descrever isso, nao se trata de uma
guraçoes. As pessoas com essa inclinaçao gostariam de qualificar essa
crise de sentido. Este termo nada significaria para Lutero em seu usa moderne
questao do sentido como uma pseudoquestao e rotular de invençoes gratuitas
que estou descrevendo aqui. 0 "sentido" da vida era demasiado inquestionavel
as varias configuraçoes nas quais ela encontra uma resposta. Alguns acham
para esse monge agostiniano, tal como 0 era para toda a sua época12 •
isso tentador por razoes epistemolôgicas: a ontologia despojada que exclui
A condiçiio existencial na qual se teme a condenaçiio é sobremodo diferente essas configuraçoes parece·lhes mais compativel com uma perspectiva cien·
daquela na qual se teme, sobretudo, a falta de sentido. 0 domo desta Ultima tffica. Mas também hâ razoes profundamente arraigadas numa certa pers·
talvez defina nossa época"- Mas, mesmo assim, aquela ainda existe para pectiva moral comum ao nosso tempo que impele as pessoas nessa direçao .
.mUltos, e 0 contraste pode ajudar·nos a compreender diferentes posiçoes Pretendo explicar isso mais claramente a seguir.
morais em nossa sociedade: 0 contraste entre a maioria moral de evangélicos
Mas !al como no caso das explicaçoes ontol6gicas acima, que estao na
neonatos no oeste e sul dos Estados Unidos contemporâneos, de um lado, e
seus compatriotas urbanos de classe média na Costa Leste, do outro.
De uma maneira-que-ainda-nao·podemos compreendenfdequailiiIDente, a
base de nosso respeito à vida, essa reduçao radical é insustentavel. Ver 0
---motivo-disso-é--compr.. ,nder-algo-importante sobre 0 lugar·dessas confi·
guraçoes em nossa vida.
-
transiçao entre essas duas condiçoes existenciais parece ter por contrapartida ......
uma recente mudança nos padr6es dominantes da psicopatologia. Os psicana-
o que venho chamando de configuraçao incorpora um conjunto crucial
de distinçoes qualitativas. Pensar, sentir, julgar no âmbito de !al coofigu·
listas assinalam muitas vezes que 0 periodo em que histéricos e pacientes
raçao é funcionar com a sensaçao de que alguma açao ou modo de vida ou
com fobias e fixaçoes formavam 0 grosso de sua clientela, a partir do periodo
modo de sentir é incomparavelmente superior aos outros que estao mais
clàssico com Freud, cedeu lugar hÉ. pouco tempo a um periodo em que as
principais queixas centram·se na "perda do ego", ou numa sensaçao de vazio,
de insipidez, futilidade, falta de prop6sito ou perda de auto·estimaH A relaçao
imediatamente a nosso alcance. Estou usando "superior" aqui em sentido
genérico. 0 sentido daquilo em que consiste a diferença pode assurnir dife·
rentes formas. Uma forma de vida pode ser \~sta como mais plena, outra
-
exata que hÉ. entre esses estilos de patologia e as condiçoes nao·patologicas
maneira de sentir e de agir pode ser julgada mais pura, um modo de sentir
que lhes fazem paralelo é bastante obscura. Para encetar ao menos uma
ou viver coma mais profundo, um estilo de vida como mais digno de admi·
tentativa séria de compreendê·la, teriamos de entender melhor as estruturas raçiio, uma dada exigência como sendo uma afirmaçao absoluta em oposiçao
do self, algo que desejo empreender adiante. Porém, a Priori parece avassa·
a outras meramente relativas etc.
ladoramente plausivel que haja uma relaçiio e que a mudança relativamente
Tentei exprimir 0 que todas essas distinçoes têm em comum mediante

-..
recente de estilo de patologia reflita a generalizaçiio e popularizaçiio em nossa
o termo "incomparavel". Em cada um dos casos, 0 sentido disso é que ha
fins ou bens que sac dignos ou desejaveis de uma maneira que nao pode
12. ,Ver a discussào perspicaz sobre essa crise de Lutera como 0 que nos modernos ser medida de acordo com os mesmos padroes que nossos fins, bens,
chamanamos de uma crise de "jdentidade n em Erik Erikson, Young Man Luther, Nova York,
Norton, J 958. desirabilia . Eles sac nao so mais desejaveis - no mesmo sentido, porém
13. Paul Tillich, em A coragem de ser, Rio de Janeiro, paz e Terra, 1991, descreveu a
diferença entre a épaca da Refonna e 0 nosso tempo em tennos semelhantes.
14. Ver Christopher Lasch, The Culture of NasCÎssism, Nova York, Norton, 1979, pp. 80-
num grau mais elevado - do que alguns desses bens comuns. Devido a
seu carater especial, merecem nossa reverência, respeito ou admiraçao.
E é esse 0 ponto em que a incomparabilidade vincula-se ao que deno·
-
81 (A cultura do narcisismo, Rio de Janeiro, Imago, 1983); e também Janet Malcolm, Psicandlise:
a profissào imposslvel, Rio de Janeiro, Zahar, 1983. minei "avaliaçao forte": 0 fato de que esses fins ou bens têm existência

36 A IDENTIDADE E 0 BEM CONFIGURAÇOES llICONTORNAVEIS 37

independente de nos sos desejos, inclinaçoes ou escollias, de que repre- configuraçëes, pode ser opcional formula-las ou nao_ Em outros casos, no
sentam padroes corn base nos quais sao julgados esses desejos e escollias. entanto, a natureza da configuraçiio requer uma formulaçiio, coma ocorre corn
Ha obviamente duas facetas interligadas do mesmo sentido de valor superior. Platiio, ou parece proibi-la, coma no casa da ética do guerreiro-cidadiio que ele
Os bens que merecem nossa reverência também têm de funcionar em atacava: esta, de fato, parece ser refratarla à formulaçiio teérica. Aqueles que
algum sentido coma padroes para nés. atribuem muita importiincia a este ûltimo tipo de configuraçiio tendem a
oexame de alguns exemplos comuns dessas configuraç6es vai nos ajudar diminuir ou a denegrir 0 papel e a força da teoria na vida humana .
<1


a pôr a discussao na devida perspectiva. Dm dos primeiros em nossa civilizaçiio, Mas desejo mencionar esta distinçao aqui em parte para evitar um
e ainda hoje vivo para algumas pessoas, é aquele associado à ética da houra. erra em que facilmente cafmos. Poderiamos concluir do fato de algumas
A vida do guerreiro, do cidadiio ou do cidadiio-soldado é considerada superior pessoas operarem sem uma configuraçao filosoficamente definida que elas,
à existência meramente privada, dedicada às artes da paz e ao bem-estar na verdade, nao contam corn configuraçao nenhuma. E isto seria totalmente
econômico. A vida superior é marcada pela aura de fama e de gléria que se falso (na realidade, afirmo que é sempre falso). Porque, tal como nos sos
vincula a ela, ou ao menos aos casos notaveis daqueles que encontram nela guerreiros inarticulados, a vida des sas pessoas pode estar totalmente
um sucesso brilliante. Estar na vida pûblica ou ser um guerreiro é, no minimo, estruturada por distinç6es qualitativas extremamente importantes em tomo
ser candidato à fama. Estar pronto a arriscar a prépria tranqililidade, a riqueza das quais elas literalmente vivem e morrem. Isso fica sobremodo evidente
"0
e até a vida em nome da gléria é a marca verdadeiro homem; e aqueles nas admoestaç6es que elas lançam a suas proprias açoes e às açoes alheias.
que nao conseguem dispor-se a isso sao julgados, corn desprezo, "efeminados" Pode, contudo, caber inteiramente a nos, observadores, historiadores, filo-
(essa perspectiva parece inerentemente sexista). sofos, antropologos, tentar formular de modo explicito quais bens, qualidades
Contra isso, temos a celebrada e influente contraposiçao apresentada ou fins sac aqui discriminados_ É esse nivel de inarticulaçao, no qual
por Platiio. A virtude ja nao esta na vida pùblica nem na excelência no -----~-costumamos-funcionar, que tento-descrever-ao-falar-do-"sentido" ue--unra-

âgon guerreiro. A vida superior é aquela regida pela razao, sendo a prépria distinçao qualitativa_
razao definida em termos de uma concepçao de ordem, no cosma e na A distinçao de Platiio coloca-se à frente de uma grande familia de ."
alma. A vida superior é aquela na qual a razao - pureza, ordem, limite, concepçoes que vêem 0 bem viver como um dominio do self que consiste na
o imutavel - govema os desejos e sua inclinaçao para 0 excesso, a insa- predominancia da razao sobre 0 desejo. Dma das variantes mais celebradas no
ciabilidade, a efemeridade, 0 conflito. mundo antigo foi 0 estoicismo. E, corn 0 desenvolvimento da moderna visao
Ja nessa transvaloraçiio de valores, foi alterado algo mais além do de mundo cientifica, surgiu uma variante especificamente modema. 'frata-se
conteûdo do bem viver, por mais ampla que ja seja essa mudança. A ética do ideal do self desprendido, capaz de objetificar nao sa 0 mundo circundante
de Platiio requer aquilo que hoje chamariamos de uma teoria, uma explicaçao coma também suas proprias emoçoes e inclinaçoes, medos e compulsoes, e de
ponderada do que é a vida humana e por que um modo de vida é superior atingir, por meio disso, uma espécie de distanciamento e autocontrole que llie
aos outros. Isto deriva inevitavelmente do novo estatuto moral da razao. permitem agir "racionalmente". Este ûltimo termo foi posto entre aspas porque,
Todavia, a configuraçao no âmbito da qual agimos e julgamos nao precisa coma é evidente, seu sentido mudou corn relaçiio ao sentido platônico. A razao
ser articulada teoricamente. E nao 0 é, em geral, pelos que vivem segundo ja MO é definida em termos de uma visao de ordem no cosmo, mas sim de
a ética do guerreiro. Eles compartilham alguns juizos: 0 que é honroso e forma processual, em termos de eficacia instrumental, de maximizaçiio dQ
desonroso, 0 que é admiravel, 0 que se faz e 0 que nao se faz. Tem-se valor buscado, ou de autocoerência.
observado corn freqüência que ser um cavalheiro é saber como se conduzir A configuraçiio do autodominio por meio da razao também desenvolveu
sem que ninguém !he ensine as regras. (E os "cavalheiros" aqui sao os variantes telstas no pensamento judeu e cristiio. Corn efeito, foi uma delas que
herdeiros da antiga nobreza do guerreiro.) gerou 0 ideal do desprendimento. Mas 0 casamento corn 0 platonismo, ou corn
Eis por que falei acima de agir no âmbito de uma configuraçiio coma a filosofia grega em geral, sempre foi problematico; e outro tema, especifica-
sendo funcionar corn um "sentido" de distinçiio qualitativa. Pode ser apenas mente cristiio, também foi muito influente em nossa civilizaçiio. 'Ifata-se do
isso, mas também pode ser expresso de maneira bastante explicita, numa entendimento da vida superior coma advinda de uma transformaçiio da vontade.
ontologia ou antropologia filosoficamente formulada. No casa de algumas Na concepçiio teologica original, essa mudança é obra da graça, mas ela
38 A IDENTIDADE E 0 EH! CONFIGURAÇOES lNCONTORN'\VEIS 39

também passou por algumas transposiçôes secularizantes. E variantes de tentada a negar liminarmente essas configuraçôes. Observamos isto nao s6
ambas as formas, teol6gica e secular, estruturam hoje a vida das pessoas. nos apaixonados pelas explicaçôes redutivas coma também, de outra manei·
Talvez a forma mais importante dessa ética hoje seja 0 ideal do altruismo. ra, no utilitarismo classico. A meta dessa filosofia era precisamente rejeitar
Com 0 declfnio da definiçao especificamente teol6gica da natureza de uma todas as distinçôes qualitativas e conceber todos os objetivos humanos coma
vontade transformada, uma formulaçao da distinçao crucial do superior e do estando em pé de igualdade, suscetiveis, por conseguinte, de quantificaçao
inferior em termos de altruismo e egoismo vem para 0 primeiro piano. Ocupa e calculo comum de acordo com alguma "moeda" comum. Minha tese aqui
agora um lugar dominante no pensamento e na sensibilidade modernos acerca é de que essa idéia é profundamente errônea. Porém, como afirmei acima,
do que é incomparavelmente superior na vida. A dedicaçao real aos outros ou ela mesma é motivada por razôes morais, e essas raziies formam uma parte
ao bem universal obtém nossa admiraçao e até, em casos marcantes, nossa essencial do quadro das configuraçôes corn base nas quais vivem as pessoas
reverência. A qualidade crucial que merece nosso respeito aqui é um certo em nossos dias.
direcionamento da vontade. '!rata·se de algo bem diferente do espirito de Isso tem a ver corn 0 que chamei na seçao 1.3 de a "afirmaçao da vida
autodominio platônico, em que a questiio gira em torno da hegemonia da cotidiana" . A noçao de que a vida de produçao e reproduçao, de trabalho e
razao, por mais que esse espirito possa coincidir na pratica com 0 altruismo da familia, é 0 principal locus do bem viver desafia de frente 0 que eram ori-
(e essa coincidência esta longe de completa). E apesar de todas as suas rmes ginalmente as distinçôes dominantes de nossa civilizaçao. Tanto para a ética
e\~dentes na espiritualidade cristii, e de sua peneita compatibilidade com guerreira como para a ética platônica, a vida cotidiana nesse sentido é parte
esta, a ética secular do altruismo descartou algo essencial à perspectiva do ruvel inferior, parte daquilo que contrasta corn 0 incomparavelmente superior.
cristii, uma vez que 0 amor de Deus nao mais desempenha nela um pareI. A afirmaçào da vida cotidiana envolve, portanto, uma posiçào polêrnica diante
Ao lado de éticas da fama, do dominio e do controle racionais, da trans· dessas concepçôes tradicionais e de seu elitismo implicito. Isso se aplicou às
iormaçao da vontade,.desenvolveu·se·nos-Ultimos dois séculos uma distinçao teologias da Reforma;'que--sào-a-principal fonte-do impulso ;noss<l-afirrnlaçiio- - --t:::::
baseada em visao e poder expressivo. Ha um conjunto de idéias e de intuiçôes, nos tempos modernos.
ainda inadequadamente entendido, que nos leva a admirar mais 0 artista e 0 É essa posiçao polêrnica, transportada e revestida corn uma roupagem
criador do que qualquer outra civilizaçao ja 0 fez; isso nos convence de que secular, que alimenta as concepçôes redutivas coma 0 utilitarismo, desejosas
uma vida dedicada à criaçao ou à interpretaçao artistica é eminentemente de denunciar todas as distinçôes qualitativas. Todas elas sao acusadas, tal
merit6ria. Esse complexo de idéias tem ele pr6prio rmes platônicas. Estamos como 0 foram antes a ética da honra ou a ética monastica da supererrogaçao,
tomando um lado serni·suprimido do pensamento de Platiio que emerge, por de degradar errônea e perversamente a vida cotidiana, de nào perceber que
exemplo, no Fedro, onde ele parece pensar no poeta, inspirado pela mania, nosso destino esta aqui na produçao e na reproduçao e nao em alguma
como alguém capaz de ver 0 que pessoas s6brias nao podem. A crença hoje esfera pretensamente superior, de ser cega à dignidade e ao valor da
disseminada de que 0 artista vê mais longe que as outras pessoas, atestada realizaçào e do desejo humanos corn unS.
por nossa disposiçao a encarar com seriedade as opiniôes sobre politica ex· Nesse aspecto, 0 naturalismo e 0 utilitarismo tocam um ponto nevralgico
pressadas por pintores ou cantores, ainda que eles possam nao ter mais da sensibilidade moderna, 0 que explica parte de sua força persuasiva.
conhecimento especifico das questôes publicas que qualquer outra pessoa, Minha posiçao aqui é que eles sao, nao obstante, profundamente confusos.
parece vir da mesma fonte. Entretanto, também ha algo quintessencialmente Porque a afirmaçao da vida cotidiana, embora denuncie necessariamente
moderne nessa perspectiva. Ela tem por base aquela idéia moderna, invocada certas distinçôes, equivale ela mesma a uma distinçao; se assim nao for,
na seçao precedente, de que 0 sentido existente para n6s depende em parte nao tera sentido algum. A noçao de que ha certa dignidade e valor nesta
dos nossos poderes de expressao, de que a descoberta de uma configuraçao vida requer um contraste; nao mais, evidentemente, entre esta vida e al·
esta interligada à invençao. guma atividade "superior" coma a contemplaçao, a guerra, a cidadania
Mas este breve esboço de algumas das mais importantes distinçôes que ativa ou 0 ascetismo her6ico, mas entre diferentes maneiras de viver a vida
estruturam a vida das pessoas hoje ficara ainda mais radicalmente incompleto de produçao e reproduçao. A noçao nunca é de que qualquer coisa que
se eu nao levar em conta 0 fato corn 0 quai iniciei esta seçao: de que existe fazemos é aceitavel. Isto seria ininteligîvel como base de uma noçao de
uma disposiçao disseminada, por miro chamada de "naturalista", que se vê dignidade. 0 ponto essencial é, em vez disso, que 0 superior deve ser
1
40 A IDENTIDADE E a BEM

encontrado nao fora da vida, mas coma uma maneira de viver a vida cotidiana.
Para os reformadores, essa maneira era definida teologicamente; para os
utilitaristas classicos, em termos de racionalidade (instrumental). Para os
marxistas, a elemento expressivista da livre autocriaçao é adicionado à
racionalidade do Iluminismo. Mas, em todos os casos, mantém-se alguma
distinçao entre a vida superior e admiravel e a vida inferior de indolência,
irracionalidade, escravidao ou alienaçao.
Entretanto, quando afastamos a ilusao naturalista, 0 que resta é um
fato extremamente importante acerca da consciência moral moderna: uma 2
tensao entre a afirmaçao da vida cotidiana, para a qual n6s modernos
somos fortemente atraidos, e algumas de nos sas mais importantes distin-
çàes marais. Com efeito, estamos simplificando as coisas ao falar de tensao.
Encontramo-nos em conflito, até em confusao, quanta ao que significa afir-
o self no espaço moral
mar a vida cotidiana. 0 que para alguns é a mais elevada afirmaçao cons-
titui para outras a negaçao mais absoluta. Pensemos no ataque utilitarista
ao cristianismo ortodoxo; e entao no ataque de Dostoiévski à engenbaria
ut6pica utilitarista. Para os que nao estao firmemente alinbados em ne-
nbuma das fileiras de uma bataJha ideol6gica, essa situaçao é fonte de
.___ ._-----Profunda.incerteza.-Temcc diante-do-heroismo-a-mesma ambivalência-que
exibimos em face do valor das metas cotidianas que ele sacrifica. Empe- 2.1
nbamo-nos par manter uma visao do incomparavelmente superior, ao mesmo

F
tempo em que permanecemos fiéis às introvisàes modernas centrais sobre alei no começo da seçao 1.5 que a reduçao naturalista, que excluiria li-
o valor da vida cotidiana. Simpatizamos tanto com 0 her6i como com 0 minarmente as configuraçàes de qualquer consideraçao, é insustenta-
anti-her6i; e sonbamos com um mundo em que se passa ser, num mesmo vel, e que ver a porquê disto é compreender uma coisa importante acerca do
ato, um e outro. Esta é a confusao em que finca rmes 0 naturalismo. lugar dessas configuraçôes em nossa vida. Tenda apresentado um pouco melhor
em que consistem essas configuraçêes, desejo agora dedicar-me a esse ponto.
Nas seçàes 1.4 e 1.5, estive falando des sas distinçàes qualitativas em
sua relaçao cam a questao do sentido da vida. Mas é evidente que distinçàes
desse gênera desempenbam um papel nas três dimensàes da avaliaçao
moral par mim identificadas acima. 0 sentido de que os seres humanos sao
capazes de algum tipo de vida superior é parte dos fundamentos de nossa
crença de que sao objetos adequados de respeito, de que sua vida e integri·
dade sac sagradas ou gozam de imunidade e nao devem ser atacadas. Em
conseqüência, podemos ver nossa concepçao daquilo em que consiste essa
imunidade evoluindo !ado a !ado corn a desenvolvimento de novas configura·
çàes. Logo, 0 lato de agora atribuinnos grande importancia aos poderes ex·
pressivos significa que nossas noçàes contemporàneas do que é a respeito à
integridade das pessoas incluem a proteçao à sua liberdade expressiva de
exprimir e desenvolver suas pr6prias opiniàes, definir suas proprias concepç6es
de vida, criar seus proprios planas de vida.

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