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A RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO DECORRENTE DE ERRO MÉDICO

COMETIDO NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO PÚBLICO DE SAÚDE

Gabriela Eduarda Marques Silva1

Júlia Gaioso Nascimento2

Thiago Eduardo Marques Silva3

INTRODUÇÃO

O recorte do trabalho é quanto à aplicação da responsabilidade civil do Estado


frente um dano derivado de erro médico em uma prestação do serviço público de
saúde, temática de grande relevância, visto que o Estado tem o dever constitucional de
prestar serviço público de qualidade, o que engloba o serviço de saúde. O método a
ser utilizado será o dedutivo, o qual corresponde à extração discursiva do
conhecimento a partir de premissas gerais aplicáveis a situações concretas.
É pacífico que a responsabilidade do médico, profissional liberal, é subjetiva, ou
seja, demonstrada a culpa deste profissional, este será responsabilizado se agiu de
forma ilícita, com culpa. Essa responsabilidade subjetiva do médico não é estendida a
pessoa jurídica a que presta o serviço, se tratando de pessoa jurídica, como hospital
prestador de serviço público de saúde, incide a responsabilidade objetiva, fundada no
risco da atividade prestada.
No entanto, é preciso distinguir se a responsabilidade objetiva do hospital
decorre de erro médico ou de prestação inadequada do serviço. O presente estudo
foca na hipótese de erro médico, caso em que é necessário demonstrar a culpa do
médico preposto.
É neste âmbito que o trabalho irá elucidar a incidência da responsabilidade
objetiva diferenciada que incide no caso de erro médico cometido na prestação de
serviço público de saúde. Por fim, o objetivo é determinar de quem é a
1
Bacharela em Direito, pela Universidade Estatual de Londrina (UEL), Londrina/PR. Pós-Graduanda em
direito da família e sucessões pela mesma instituição. Advogada. Vinculada ao projeto de pesquisa
“11742 – Do acesso à Justiça no Direito das Famílias”, do Departamento de Direito Privado do Centro de
Estudos Sociais Aplicados – CESA, da Universidade Estadual de Londrina. Endereço eletrônico:
gabrielamarquesadv@hotmail.com.
2
Bacharela em Direito, pela Universidade Estatual de Londrina (UEL), Londrina/PR. Pós-Graduanda em
direito civil e processo civil pela mesma instituição. Advogada. Vinculada ao projeto de pesquisa "11797
– Negócios Biojurídicos: as Tecnologias e o Direito Civil", do Departamento de Direito Privado do Centro
de Estudos Sociais Aplicados – CESA, da Universidade Estadual de Londrina, sob orientação da Profª. Drª.
Rita de Cássia Resquetti Tarifa Espolador. Endereço eletrônico: julia_gn_@hotmail.com
3
Especialista em Processo Civil pela Escola Paulista da Magistratura e pós-graduando em Processo Penal
pela Escola Paulista da Magistratura. Servidor Público do TJ/SP. Endereço eletrônico:
thiagoems@tjsp.jus.br
responsabilidade civil decorrente do erro médico que gerou dano em pacientes
sujeitos ao serviço público de saúde pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

1. RESPONSABILIDADE CIVIL DO MÉDICO

No Direito Romano houve a distinção entre pena e reparação do prejuízo


causado. Com isso, surgiu a separação entre delitos públicos, com pena imposta contra
o ofensor pelo Estado e privados, em que a reparação pecuniária cabia diretamente ao
ofendido. Portanto, a partir desta distinção de delito público e privado surge a
responsabilidade civil e penal. A responsabilidade civil pode ser conceituada como:

A responsabilidade civil é a aplicação de medidas que obriguem uma pessoa


a reparar o dano moral ou patrimonial causado a terceiros, em razão de ato
por ela mesma praticado, por pessoa por quem ela responde, por alguma
coisa a ela pertencente ou de simples imposição legal. (DINIZ, 2013, p.29)

O instituto “responsabilidade civil” está presente quando há a infração a uma


norma do direito privado, o que obriga o responsável pelo dano a repará-lo, através de
uma sanção restitutiva ou indenizatória. “A responsabilidade é, portanto, resultado da
ação pela qual o homem expressa o seu comportamento, em face desse dever ou
obrigação”. (DIAS, 2006, p.5)
É uma obrigação de reparar a vítima que sofreu um dano material ou moral, já
que o ofensor não observou o dever jurídico legal ou convencional. No artigo 186, do
Código Civil de 2002, temos que “Aquele que, por ação ou omissão voluntária,
negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito”.
A ilicitude se refere à desobediência de norma legal ou de um dever de conduta
que resulte em lesão a alguém, ainda desse artigo do Código Civil, extrai-se três
pressupostos básicos para se estabelecer a responsabilidade civil: a conduta humana
comissiva ou omissiva, o dano e o nexo de causalidade entre eles.
Tanto a conduta comissiva quanto a omissiva devem ser voluntárias, ou seja, o
sujeito deve ter consciência do ato praticado, o que se traduz na liberdade de suas
escolhas. “O núcleo fundamental, portanto, da noção de conduta humana é a
voluntariedade, que resulta exatamente da liberdade de escolha do agente imputável,
com discernimento necessário para ter consciência daquilo que faz”. (GAGLIANO;
PAMPLONA FILHO, 2017, p. 84)
O nexo causal é o liame, uma ligação lógica, entre a conduta comissiva ou
omissiva e o resultado produzido. É útil para determinar a extensão do dano e o
responsável por sua produção. Por fim, o pressuposto “dano” deve ser concreto, é o
prejuízo a um interesse jurídico, patrimonial ou não, derivado da ação ou omissão do
agente.
Uma classificação importante da responsabilidade civil é quanto ao
fundamento, tem- se a modalidade de responsabilidade subjetiva, se fundada na culpa
e objetiva, se ligada ao risco da atividade prestada.
O Código Civil adota, como regra, a teoria clássica da responsabilidade civil
subjetiva, em que a vítima deve demonstrar a existência da culpa, além dos
pressupostos gerais para se indenizar o prejuízo. Sendo a culpa lato sensu, que
abrange o dolo e a culpa em sentido estrito, se atuou com imperícia, imprudência ou
negligência, o que deriva da inobservância de um dever de conduta previamente
imposto pela ordem jurídica.
Maria Helena Diniz aduz que “a ação, fato gerador da responsabilidade, poderá
ser ilícita ou lícita. A responsabilidade decorrente de ato ilícito baseia-se na ideia de
culpa, e a responsabilidade sem culpa funda-se no risco, [...]”. ( DINIZ, 2013, p. 56)
Em hipóteses especificas previstas no artigo 37, §6º, da Constituição Federal de
1988; no artigo 927, parágrafo único, do Código Civil e no Código de Defesa do
Consumidor, está presente a responsabilidade civil objetiva, que não exige a
caracterização de culpa. “[...] cada um deve suportar os riscos da atividade a que se
dedica, devendo indenizar quando causar dano”. (VENOSA, 2013, p. 558) É a chamada
“teoria do risco”, são casos que, geralmente, o responsável pratica atividade que lhe
beneficia e sua natureza gera risco ao direito de terceiro.
O Código de Defesa do Consumidor, Lei 8.078/90, inseriu a responsabilidade
nas relações de consumo. O caput do art. 14, imputa ao prestador de serviços em
geral, a responsabilidade de reparar os danos causados pelos maus serviços prestados,
ao dispor:

Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da


existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores
por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações
insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. (BRASIL, 1990)

Considerando o contrato de prestação de serviços médico-hospitalar, o


consumidor é o paciente e o fornecedor, o hospital. Os estabelecimentos da área da
saúde, clínicas e equivalentes, são fornecedores de serviço, e, portanto, respondem
objetivamente pelos danos.
Deve-se averiguar é se o médico atua no hospital por meio de contrato de
prestação de serviços, sendo, nesta situação, considerado seu preposto. Então, neste
caso, incide a teoria da responsabilidade objetiva. Assim os médicos na prestação do
serviço público de saúde perdem a pessoalidade da prestação de serviços, são tidos
como fornecedores, sujeitando-se à responsabilidade objetiva.
Portanto, quando o consumidor busca os serviços de qualquer profissional
liberal, não o contratando pela sua própria pessoa, a responsabilidade pelos danos
causados ao consumidor é objetiva. Quanto ao médico que presta serviço em nome
próprio, sem subordinação, a responsabilidade será subjetiva.

1.1 Natureza da Prestação Médica

Antes do século XX, a relação médico-paciente era baseada na confiança, “o


dano advindo da atuação do médico era tido como inevitável. Raro, nestes casos,
buscar-se reparação”. (CURY, 2013, p. 111) Com o avanço da ciência, é cobrada uma
prática médica mais precisa.
Na relação médico-paciente, muitas vezes, haverá de fato um contrato tácito,
verbal ou mesmo escrito. Esse contrato celebrado entre as partes pode ter como
objeto obrigação de meio ou de resultado, o que se relaciona com o inadimplemento
da obrigação.

A obrigação do médico pode ser de meios, como geralmente é, mas


também pode ser de resultado, como quando faz um Raio X, um check up,
aplica ondas de calor, dá uma injeção, faz transfusão de sangue, procede a
determinada esterilização necessária ou, como já nos referimos, no caso da
cirurgia plástica estética.( STOCO, 2007, p. 556-557)

Assim, em regra, a modalidade atribuída à atividade do médico é a de meio,


pois ele tem o dever contratual de agir de certa forma, ou seja, com a prudência
necessária que o exercício da medicina exige. Na obrigação de resultado, cabe ao
paciente apenas comprovar que o resultado não foi alcançado, portanto a culpa será
presumida, cabendo ao médico provar o contrário.
Já na obrigação de meio, para ter direito à reparação, o paciente deve provar a
culpa do profissional, que não agiu da forma esperada, dado que o fato de não atingir
o resultado não se traduz em inadimplemento. O que deriva do próprio limite da
ciência médica, o ônus não pode ser suportado pelo médico, não cabe ao médico o
papel de garantidor universal da saúde.

O que é decisivo é o tipo de obrigação assumida no contrato. Se o


contratante assumiu a obrigação de alcançar um determinado resultado e
não conseguiu, haverá culpa presumida, ou, em alguns casos, até
responsabilidade objetiva; se a obrigação assumida no contrato foi de meio,
a responsabilidade, embora contratual, será fundada na culpa provada.
(CAVALIERI FILHO, 2007, p. 198)

Não há previsão legal específica a respeito do contrato médico-paciente no


ordenamento jurídico brasileiro, no entanto, há sobre o contrato de prestação de
serviços. Como fica evidente:
Essa espécie de contratação não encontra espaço particular na legislação
nacional ou como previsão consagrada pela autonomia, sendo, então, figura
atípica, inominada, mas nem por isso com menor tutela jurídica. Para
vigorar não necessita de forma especial, nem de definição exata quanto ao
objeto em suas minúcias, tampouco preço e condições de pagamento. A
forma, como visto, é absolutamente livre, sendo suficiente que se prove a
existência do liame das partes entre si, o que gerará os direitos e as
obrigações pertinentes. Por objeto do contrato não se deve entender uma
cirurgia, ou a ministração deste ou daquele medicamento, mas a atividade
médica globalmente considerada, isto é, a aplicação zelosa de todos os
meios que se fizerem necessários e estiverem razoavelmente disponíveis.
(MATIELO, 1998, p. 179-194)

O Código de Defesa do Consumidor considera o contrato médico um gênero de


contrato de prestação de serviços. Na verdade, o contrato da relação médico-paciente,
é sui generis, pois a prestação remunerada dos serviços médicos possui deveres
extrapatrimoniais, como os específicos de conduta, essenciais à obrigação.

1.2 O Erro Médico

Antes de conceituar o termo “erro médico”, é importante uma melhor análise


acerca do elemento “dano” da responsabilidade civil, pois este advém de um dano
imputado à um paciente. “Não haveria que se falar em indenização, nem em
ressarcimento, se não houvesse o dano” (CAVALIERI FILHO, 2007, p. 70).
Em uma análise doutrinária, os danos podem ser classificados em materiais ou
imateriais, de acordo com a natureza do bem jurídico afetado. O dano material
“envolve uma projeção direta e imediata nos interesses econômicos, materiais, da
vítima do dano e, por isso, torna-se facilmente referenciável em termos pecuniários”.
(CORREIA-LIMA 2012, p. 22.)
Já os danos imateriais são aqueles garantidos constitucionalmente, referentes
aos direitos da personalidade, como a intimidade, honra ou imagem. Mas é válido
ressaltar que o direito “não repara qualquer padecimento, dor ou aflição, mas aqueles
que forem decorrentes da privação de um bem jurídico sobre o qual a vítima teria
interesse reconhecido juridicamente”. (ZANNONI, 1993, p. 290 apud GONÇALVES,
2012, p. 353)
O essencial é o dano ser indenizável, ou seja, não possuir relação de causa e
efeito exclusiva com fenômenos naturais e ser possível repará-lo efetivamente. Para
isso, é preciso constatar que um interesse jurídico patrimonial ou extrapatrimonial de
uma pessoa física ou jurídica foi violado, que há certeza do dano.
O erro médico está presente quando há resultado diverso do pretendido,
advindo de uma ação ou omissão do médico, constatado por meio de imperícia,
imprudência e negligência. Então, o erro médico é um ato ilícito procedente de uma
conduta culposa do profissional, a partir de uma

conduta (omissiva ou comissiva) profissional atípica, irregular ou


inadequada, contra o paciente durante ou em face de exercício médico que
pode ser caracterizada como imperícia, imprudência ou negligência, mas
nunca como dolo. (LOPEZ, 2004, p. 49.)

O erro médico, para gerar dever de reparar, deve conter os pressupostos da


responsabilidade civil: conduta ilícita do médico; nexo causal desta com o dano
produzido; e a comprovação da conduta culposa, caracterizada por imperícia,
negligência ou imprudência. Sendo que o erro médico está amparado no contrato da
relação médico-paciente, no âmbito da jurisdição civil. Portanto, o erro médico é um
erro não justificável, sujeito a sanções no âmbito civil.

2. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO

Em meio ao século XIX, prevalecia a ideia de que o Estado não tinha o dever de
indenizar os danos derivados por seus agentes públicos. A justificativa para não
responsabilização era o Estado Absoluto, considerado incapaz de causar qualquer dano
a alguém.
A fase da irresponsabilidade civil do Estado vigorou de início em todos os
Estados, mas notabilizou-se nos absolutistas. Nestes, negava-se tivesse a
Administração Pública a obrigação de indenizar os prejuízos que seus
agentes, nessa qualidade, pudessem causar aos administrados. Seu
fundamento encontrava-se em outro princípio vetor do Estado absoluto ou
Estado de polícia, segundo o qual o Estado não podia causar males ou danos
a quem quer que fosse. (GASPARINI, 2011, p. 1111)

No entanto, mesmo diante dessa irresponsabilidade absoluta do Estado, havia


exceções em leis que especificavam casos concretos, como no caso de dano
decorrente de obras públicas. Essa teoria da irresponsabilidade do Estado foi extinta
sob influência da Revolução Francesa, na qual surgiu a possibilidade de responsabilizar
o Estado pelas lesões aos direitos dos cidadãos; com base nas teorias civilistas, passa a
ser possível responsabilizar o Estado. 
O Brasil adota essa teoria da responsabilidade do Estado baseada no Direito
Civil, com isso, aquele que causar dano a outrem deve ressarci-lo pelo prejuízo que
causou. Sendo que o Estado poderá causar danos a terceiros, seus administrados.

Na amplitude de suas atribuições, o Estado, ao atuar nas esferas legislativa,


executiva e judiciária, é suscetível de causar danos a terceiros, por
intermédio dos agentes públicos, hipótese em que se impõe a indenização
por força de disposição constitucional. (NADER, 2010, p. 317)

O governo, seja ele em esfera municipal, estadual ou federal, tem a obrigação


de implantar políticas públicas de saúde para oferecer aos cidadãos serviços de
qualidade. A saúde pública é competência comum a todos os entes federativos.
Uma das grandes políticas públicas hoje oferecidas no Brasil é o Sistema Único
de Saúde (SUS), serviço universal, integral e gratuito. Trata se de um serviço público,
“[…] prestado pela Administração ou por seus delegados, sob normas e controles
estatais, para satisfazer necessidades essenciais ou secundárias da coletividade ou
simples conveniências do Estado” (MEIRELLES, 2007, p. 330); por isso deve obedecer
aos princípios inerentes ao serviço público: generalidade, continuidade, modicidade,
cortesia e, sobretudo, o princípio da eficiência, prestando um serviço satisfatório.
Assim, o Poder Público tem o dever de regulamentar, fiscalizar e controlar as
ações da iniciativa privada na prestação dos serviços de saúde pública. Este dever
constitucional está expresso na Constituição Federal de 1988, em seu artigo 37, §6º:

As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de


serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa
qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o
responsável nos casos de dolo ou culpa. (BRASIL, 1988).

Portanto, sendo o Estado sujeito de direito e pessoa jurídica de direito público,


deve se submeter a legislação, ainda que por ele imposta. (MELLO, 2009, p. 986), além
disso, a responsabilidade do Estado está implícita na própria noção de Estado de
Direito, “a responsabilidade estatal é simples corolário da submissão do Poder Público
ao Direito”. (MELLO, 2009, p. 989)
De acordo com o direito administrativo brasileiro, a responsabilidade segue a
teoria do risco administrativo, assim existindo o dano, a conduta e o nexo de
causalidade entre ambos, e inexistindo causas de exclusão da responsabilidade, o
Estado deverá ser responsabilizado.
Nesse caso, o Estado será condenado a ressarcir o lesado, restando o direito à
ação regressiva contra ato do médico que atuou com culpa. Com base no art.37, § 6º,
da Constituição: “As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado
prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa
qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável
nos casos de dolo ou culpa”.
Como elucidado anteriormente, a responsabilidade civil do médico é subjetiva.
No entanto, no médico que atende pelo SUS, incide a responsabilidade objetiva. Já que
a prestação desse serviço público é patrocinada pelo Estado, caracteriza a
responsabilidade objetiva para o profissional.

3. A RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO EM VIRTUDE DE ERRO MÉDICO EM


PACIENTE ASSISTIDO PELO SUS
É preciso definir quem poderá ser responsabilizado nas ações de erro médico
em um atendimento prestado na qualidade de serviço público, através do SUS.
Questiona-se qual o ente federativo poderá ser acionado judicialmente pela vítima
como responsável.
Visto que não há uma clareza em relação a responsabilidade dos entes
federativos. Pois, com a finalidade de dividir o dever entre todos, o legislador não
definiu especificamente a quem caberia a responsabilidade nesse caso. De acordo com
o art. 196, da Constituição Federal:

[...] a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante


políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de
outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para
sua promoção, proteção e recuperação. (BRASIL,1988)

Com base em uma interpretação constitucional do artigo acima, “Estado” deve


ser compreendido como o conjunto dos entes federativos: União, Estados, Municípios
e Distrito Federal. Assim, todos os entes da federação são responsáveis pela saúde.
Com base no art. 198, inciso I, da Constituição, o SUS possui direção única,
exercida em cada esfera de governo por um órgão: no âmbito da União, pelo
Ministério da Saúde; nos Estados e no Distrito Federal, pelas respectivas Secretarias de
Saúde e nos Municípios, pela Secretaria de Saúde Municipal.
Como a Lei Orgânica da Saúde, 8.080/90, determina que é da competência da
União a direção em âmbito nacional do SUS, de forma a controlar e avaliar as ações e
os serviços de saúde, há jurisprudência que defende a legitimidade da União para
responder as ações de erro médico em hospital público. Como se observa no acórdão
do Tribunal Regional Federal da 4ª Região:

RESPONSABILIDADE CIVIL. NEGLIGÊNCIA MÉDICA. PARTO. SUS. NÃO


CONSTATAÇÃO DE FALTA DE ÂNUS NO BEBÊ. UNIÃO. LEGITIMIDADE
PASSIVA. 1.- A União possui legitimidade para figurar no pólo [sic] passivo de
demanda indenizatória por erro médico porque figura como ente
responsável pela Saúde (art. 196, CRFB); ademais, o pagamento de
indenização que venha a ser estipulada competirá, em última análise, à
União, que é o ente responsável pela distribuição de verbas direcionadas ao
SUS. [..] (TRF 4ª Região, Acórdão Classe: AC – Apelação cível, Processo:
2003.71.02.004079-3 UF: RS, Data da Decisão: 25/11/2008, Órgão Julgador:
Terceira Turma, Relatora: Maria Lúcia Luz Leiria)

No entanto há jurisprudências divergentes desse entendimento. Isso com base


no art. 30, VII, da Constituição Federal e o art. 18, da Lei 8.080/90, que atribui a
competência aos Municípios de fiscalizar os serviços prestados. Mesmo a União sendo
a principal gestora e financiadora do SUS, não tem entre suas atribuições a tarefa de
executar as atividades, o que a exclui da responsabilidade em caso de erro médico
cometido por médicos ou hospitais credenciado ao SUS. As decisões do Superior
Tribunal de Justiça têm seguido esse entendimento:

ILEGITIMIDADE. UNIÃO. ERRO MÉDICO. A União não possui legitimidade


para figurar no pólo [sic] passivo de ação em que se objetiva a indenização
por danos morais decorrentes de erro médico ocorrido em hospital da rede
privada, durante atendimento custeado pelo SUS. A Lei n. 8.080/1990, no
art. 18, I, II, V e XI, dispõe que compete aos municípios gerir e executar
serviços públicos de saúde, celebrar contratos e convênios com entidades
prestadoras de serviços privados de saúde, bem como controlar e avaliar
sua execução e controlar e fiscalizar os procedimentos dos serviços privados
de saúde. Assim, no caso, a Turma extinguiu a ação sem resolução do mérito
por ilegitimidade passiva da União. (Precedentes citados: REsp 513.660-RS,
DJ 19/12/2003, e REsp 873.126-RS, DJ 20/10/2006. REsp 717.800-RS, Rel.
Min. Denise Arruda, julgado em 25/3/2008.)

Assim, o entendimento do STJ, no caso de um hospital municipal, ou seja,


prestador de serviços públicos, ou um hospital privado credenciado no SUS, é de que a
União não tem legitimidade para figurar no polo passivo da ação e sim o Município. Na
verdade, frente aos entes possíveis de figurar no polo passivo, é a vítima que escolhe
quem acionará.

ADMINISTRATIVO. RECURSO ESPECIAL. RESPONSABILIDADE CIVIL POR ERRO


MÉDICO. HOSPITAL PRIVADO. ATENDIMENTO CUSTEADO PELO SUS.
RESPONSABILIDADE MUNICIPAL. LEGITIMIDADE PASSIVA DA UNIÃO. “1.
Considerando que o funcionamento do SUS é de responsabilidade solidária
da União, dos Estados e dos Municípios, é de se concluir que qualquer um
destes entes tem legitimidade ad causam para figurar no polo passivo de
quaisquer demandas que envolvam tal sistema, inclusive as relacionadas à
indenizatória por erro médico ocorrido em hospitais privados conveniados.”
(Resp. 1388822/RN, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA
TURMA, julgado em 16/06/2014, DJe 01/07/2014)

É importante destacar que mesmo quando a vítima escolhe acionar apenas o


Poder Público, a Administração deve por meio da ação regressiva, voltar-se contra o
profissional, pois do contrário,

[...] ao invés de desestimular o mau servidor a agir com dolo, negligência,


imprudência ou imperícia, estimula a proceder como bem queira, pois o
coloca a salvo das conseqüências [sic] de seus atos”. Condenar apenas o
Estado é injusto, sendo injustiça maior não apurar a falta do servidor, e
deixar que ele possa cometer novos “erros”. (MELLO, 2009, p.1031)

Conclui- se que os entes são solidários na responsabilidade, cabendo a cada um


a ação de regresso. Independente do ente escolhido pelo lesado para ser
responsabilizado, o importante é garantir o direito à saúde. A vítima não pode ser
impedida de pleitear seu direito à indenização por simples questões burocráticas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao mesmo passo que a Medicina avança, aumenta também o número de


demandas médicas. Vem ocorrendo uma judicialização em massa de ações na área da
saúde, o que evidencia o aumento de erro médico. O que é ainda mais preocupante na
esfera do SUS, pois a Constituição determinou que o Estado é responsável por garantir
a saúde. O Estado além de prestar assistência à saúde da população, deve prestá-la de
modo eficiente.
Desde a Lei de Talião, a regra é que o responsável por causar danos deverá
ressarcir o prejudicado. Portanto, o Estado também deve se submeter a esta regra,
ainda mais por se tratar de Estado de Direito, se o Estado causar alguma lesão para os
administrados deverá ser condenado a indenizar a pessoa que sofreu o dano. Visto que
é um mínimo que o Estado Democrático de Direito deve garantir.
Quanto ao erro médico cometido durante a prestação do serviço público de
saúde, há uma tese que atribui a legitimidade da União nos casos de erro médico no
SUS, porém a jurisprudência tende em maior parte para a exclusão da legitimidade da
União, visto que ela é apenas um órgão gestor do SUS e não executor como é o
Município.
É de extrema relevância analisar essas possibilidades de responsabilidade por
erro médico no SUS, pois, na verdade, há prejuízo em dobro neste caso. O prejuízo da
vítima que arca com o dano causado pelo erro do servidor público, além do prejuízo de
todos os cidadãos que irão suportar os custos dessa indenização, recurso este que
poderia ser utilizado em investimentos da própria saúde.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Emedas Constitucionais de


Revisão. Diário Oficial da União. Brasília, 05 out. 1988.

______. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da
União. Brasília, 10 jan. 2002.

______. Lei nº 8.078 de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do consumidor e


dá outras providências. Diário Oficial da União. Brasília, 11 set. 1990.

______. Lei n. 8080, de 19 set. 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção
e recuperação da saúde, da organização e funcionamento dos serviços correspondentes e
dá outras providências. Diário Oficial da União, 20 de setembro de 1990.

______, Recurso especial. Processual civil. Administrativo. Responsabilidade civil. Erro


médico. Hospital privado. Atendimento custeado pelo SUS. Responsabilidade do município.
Ofensa aos arts. 7º, IX, a, e 18, I, X e XI, da Lei 8.080/90. Ilegitimidade passiva da união.
Provimento parcial. Recurso Especial n. 992.265/RS, Relatora. Ministra Denise Arruda,
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Acesso em: 03 de set. de 2020.

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