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Gênesis a Reis

Os livros de Gênesis a Reis podem ser A promessa de nacionalidade


corretamente vistos como fundamentos sobre Em Gênesis, Javé, o Senhor, promete a
os quais repousa todo o restante da Bíblia. Abraão que seus descendentes se tornariam
Esses livros, que correspondem a quase um uma grande nação na terra de Canaã (e.g.,
terço de todo o material bíblico, formam uma Gn 12.2; 15.1-21). Essa promessa é renovada
narrativa contínua que descreve eventos desde posteriormente ao filho de Abraão, Isaque,
a Criação do mundo até o século VI a.C. Os e a *Jacó, seu filho (cujo nome é mudado
eventos escolhidos para serem incluídos nessa para Israel). Contudo, antes da promessa se
narrativa focalizam quase exclusivamente a cumprir, a família de Jacó migra para o Egito,
história primitiva do povo hebreu. Embora o de onde, depois de um período de opressão,
conteúdo dos livros de Gênesis a Reis esteja é libertada miraculosamente por *Deus sob
longe de ser homogêneo, incorporando no a liderança de *Moisés (Êx 3— 15). Após o
todo diferentes tipos e estilos de material, a *êxodo do cativeiro no Egito, os israelitas são
coleção completa demonstra impressionante chamados para contraírem um relacionamento
coerência. de *aliança com o Senhor (Êx 19— 24). No
Há dois enredos principais, eles próprios centro desse acordo, há a exigência de que
intimamente relacionados, que unem Gênesis eles devem reconhecer, por meio do amor e
a Reis: 1) a promessa de *terra e 2) a promessa da *obediência, o senhorio exclusivo de Javé
do libertador régio. Enquanto a primeira como seu Deus.
é traçada a partir do chamado de *Abraão O estabelecimento formal dessa aliança
em Gênesis 12.1-3, seus antecedentes estão em entre Javé e os israelitas leva à construção da
Gênesis 1— 11, em que os temas da expulsão tenda “real”, ou tabernáculo, a qual se torna
e *exílio aparecem em vários episódios. o local da presença de Deus entre seu povo
Embora os capítulos iniciais de *Gênesis (Êx 2 5 — 3 1; 35— 40). Entretanto, há des­
sejam essenciais ao desenvolvimento de ambos dobramentos importantes para os israelitas.
enredos, daremos ênfase inicialmente em Novas estruturas e costumes devem ser orga­
como os livros de Gênesis a Reis traçam os nizados para o povo viver em união segura com
destinos da nação dos hebreus desde o tempo Javé. Essas estruturas e costumes são descritos
do patriarca Abraão até a libertação do rei de com detalhes no livro de Levítico. A *santidade
Judá, Joaquim, da prisão na Babilônia em é particularmente importante; os israelitas
561 a.C. deveríam se santificar e manter a condição

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apropriada de santidade para permanecerem na entrega aos sacerdotes e anciãos de Israel (cf
presença daquele que é Santo. Dt 31.9,24). Moisés ordena que leiam o livro
Enquanto os livros de *Êxodo e *Levítico ao povo regularmente para que as futuras ge­
enfatizam a transformação de *Israel em uma rações venham a “aprender a temer ao Senhor”
“nação santa”, isso se encontra em contraste (Dt 31.13).
com o fracasso do povo em corresponder às As seções finais de Deuteronômio, contudo,
obrigações da aliança. Embora o relato de predizem de diversas maneiras atos futuros
Israel no monte Sinai destaque o enorme de desobediência; veja, por exemplo, a longa
privilégio que Javé entregou aos israelitas na lista de maldições (Dt 2 8.15-68; cf. 27.15-
escolha deles como “tesouro pessoal” dentre 26) e o conteúdo da “canção de Moisés” (Dt
todas as nações (Êx 19.5), a história da jor­ 32.1-43).
nada dos israelitas do Egito à terra prometida Embora o último capítulo de Deutero­
contém uma lista extensa de fracassos. Na nômio termine com o sepultamento de Moisés,
verdade, o livro de *Números revela vivida- formando com os relatos de seu nascimento
mente que, de todos os israelitas adultos que e morte a estrutura dos livros de Êxodo a
experimentaram a libertação da escravidão do Deuteronômio, esperam-se desenvolvimentos
Egito concedida por Deus e testemunharam posteriores; os israelitas devem ainda ocupar a
a impressionante teofania no monte Sinai, terra de Canaã, evento previsto em boa parte
somente Josué e Calebe sobreviveram para do material de Gênesis a Deuteronômio.
entrar na terra prometida (cf. Nm 26.63-65). Diante disso, parece que os versículos iniciais
Até mesmo Moisés, o fiel servo do Senhor, foi de *Josué foram compostos deliberadamente
condenado a morrer fora da terra, depois de para dar continuidade ao relato. A designação
se esforçar em conduzir o povo por quarenta divina de Josué como sucessor de Moisés
anos no deserto. ressoa a descrição de Deuteronômio 31.1-8
Após a morte precoce daqueles que con­ (cf. Js 1.1-5), e o sucesso de Josué como líder
traíram relacionamento de aliança no monte dependerá de sua obediência ao “livro da Lei”
Sinai, Moisés convida a geração seguinte (Js 1.7,8).
dos israelitas a assumir um compromisso Enquanto o livro de Josué descreve como
semelhante com Javé. O livro de *Deutero- os israelitas foram bem-sucedidos na ocupação
nômio descreve com detalhes a renovação de boa parte da terra de Canaã, *Juízes, o livro
da aliança, dessa vez “no deserto, a leste do seguinte, apresenta uma sequência contras­
Jordão” (Dt 1.1). Aqui os israelitas estavam tante. A ocupação da terra não transcorre
no limiar da terra que Deus havia prometido tranquilamente. Pelo contrário, os israelitas
séculos antes a Abraão, Isaque e Jacó. se veem perdendo terreno para seus inimigos.
Em Deuteronômio, as obrigações da aliança Enquanto o sucesso deles sob a liderança de
são apresentadas por Moisés em vários longos Josué fora resultado da obediência ao Senhor,
discursos repletos de exortações que desafiam o fracasso subsequente foi resultado de
o povo a ser fiel a Javé. Ao terminar de falar, desobediência. Mesmo os “juizes” divinamente
Moisés registra em um livro essa *“Lei” — o estabelecidos e capacitados espiritualmente
termo hebraico to ra h seria mais bem traduzi­ foram corrompidos pelo *pecado do povo
do por “instrução” ou “ensinamento” — e o como um todo.

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O padrão dos eventos descritos em Juizes templo em Jerusalém para Javé. Como re­
continua nos capítulos iniciais de *Samuel, sultado, tem-se a impressão de que a promessa
chegando ao clímax na captura da arca da de formação de uma nação dada séculos antes
aliança pelos filisteus. Esse episódio simbo­ por Deus a Abraão finalmente se cumpre.
lizaria a total derrota do próprio Javé, não Contudo, o relato sobre a vida de Salomão
fosse o fato de ele mesmo ter permitido que termina em tom negativo destacando como
isso acontecesse. Quando a arca da aliança é suas muitas mulheres o levaram à idolatria. Por
introduzida como troféu de vitória no templo isso, após sua morte, Deus divide o reino entre
de Dagom em Asdode, o poder de Javé é o filho de Salomão, Roboão, e Jeroboão, um
demonstrado pela queda da imagem de pedra dos seus oficiais. Enquanto Roboão mantém
de Dagom (ISm 5.1-5). controle da região ao redor de Jerusalém,
Desenvolvimentos subsequentes levam conhecida como *“Judá”, Jeroboão se torna
a uma nova fase no trato de Deus com os rei da porção bem maior do reino de Salomão
israelitas envolvendo o estabelecimento da designada “Israel”.
monarquia. Enquanto a m aior parte de Os destinos de cada um dos dois reinos,
1 Samuel trata do estabelecimento de Saul principalmente as atividades dos reis, estão
como primeiro rei de Israel, ele é ofuscado pela registrados no restante de 1 e 2Reis. Enquanto
figura de *Davi, ungido pelo profeta Samuel
Israel, o Reino do Norte, é regido por uma
para substituir Saul como rei.
série de dinastias curtas, o controle do Reino
O livro de 2Samuel registra como, após a
do Sul permanece nas mãos dos descendentes
morte de Saul na batalha, Davi se torna rei
de Davi. Embora ambos os reinos sejam
sobre todo o Israel e estabelece *Jerusalém
retratados como não conseguindo permanecer
como sua capital. Para confirmar sua designação
fiéis a Javé, a apostasia de Israel é muito mais
divina como monarca, Davi transporta a arca
grave, resultando em sua queda pelas mãos
da aliança para Jerusalém. Logo em seguida,
dos assírios em 7 2 1 a.C. Ainda que Judá
quando ele expressa o desejo de construir um
tenha sobrevivido nessa ocasião, algo seme­
*templo para Javé em Jerusalém, o Senhor
intervém e adia o projeto. Contudo, em lhante acontece cerca de um século mais tarde
resposta ao desejo de Davi de construir uma quando os babilônios invadem o país, destroem
“casa” ou templo para Deus, o Senhor promete o templo e levam boa parte da população
que a “casa” ou dinastia de Davi seria esta­ para o exílio. Novamente, a culpa recai
belecida para sempre. A im portância de sobre o fracasso da monarquia e do povo em
Davi é sublinhada pelo fato de que 2Samuel permanecer fiel a Javé.
inteiro se dedica a descrever o período de Embora a narrativa de Gênesis a Reis
seu reinado. termine com Judá subjugada, há indicações
Nos prim eiros capítulos de l*Reis, a de que a história não tenha terminado. Os
atenção se volta para *Salomão, sucessor de capítulos finais de Deuteronômio preveem
seu pai, Davi, no trono. Pela dádiva divina o *juízo futuro de Deus sobre os israelitas,
de sabedoria, Salomão estende as fronteiras culm inando no exílio para fora do país.
do *reino e traz prosperidade, paz e justiça aos Entretanto, Deuteronômio 3 0 .1-10 também
israelitas. Então, ele constrói um magnífico descreve o retorno subsequente à terra. Esse

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tema é retomado mais tarde por Salomão em que Deus intervém e destrói com o Dilúvio
sua oração de dedicação do templo (IReis 8.46- todos os seres humanos, exceto Noé e seus
51). É digno de nota que o episódio final de fam iliares mais próxim os. Apesar disso,
Reis ressalta a libertação de Joaquim da prisão porém, a natureza pecaminosa da humanidade
na Babilônia e o tratamento complacente permanece essencialmente a mesma (Gn 8.21).
recebido do rei babilônico, Evil-Merodaque. As pessoas continuam provocando e rejeitando
A questão é se isso oferece vislumbre de a autoridade de Deus sobre elas.
*esperança para o futuro. Enquanto os acontecimentos de Gênesis
3— 11 destacam as consequências desastrosas
A promessa de um libertador régio de viver sob a maldição e desaprovação de
Observamos que os livros de Gênesis a Reis Deus, o chamado de Abraão traz esperança.
estão unidos pela promessa de Deus a Abraão Javé prom ete abençoar todos que aben­
de que seus descendentes se tornariam uma çoarem Abraão (Gn 12.3). Mais tarde, em
grande nação, ocupando a terra de Canaã. resposta à obediência de Abraão, essa promessa
Isso, contudo, é apenas uma parte do que é confirmada com um juram ento divino
Deus promete a Abraão e, talvez, nem seja a garantindo que a bênção de Deus alcançaria
mais importante. Junto com a promessa de se “todos os povos da terra” por meio dos des­
tornar nação, está a promessa de que Abraão se cendentes de Abraão (Gn 22.16-18).
tornaria uma fonte de *bênção para as *nações A garantia de bênção futura está relacionada
da terra. Esta promessa tem papel importante a uma *“semente” singular iniciada por Sete
não só na narrativa de Abraão e narrativas (cf. Gn 4.25) e levada adiante por meio de
subsequentes, mas também relaciona esse duas genealogias lineares até Abraão (Gn 5.T
material com os capítulos iniciais de Gênesis. 32; 11.10 -2 6 ). (É importante notar que o
A promessa divina de bênção por meio Senhor já havia anunciado que essa “semente”
de Abraão, introduzida em Gênesis 1 2 .1 - vencería a *“serpente” [Gn 3.15]). De Abraão,
3, está claramente inserida no contexto de a descendência continua, de Isaque até Jacó l
Gênesis 1— 11. Esses capítulos iniciam com Israel e até *José. Apesar dos atos de seus irmãos
a *criação da Terra e da humanidade. Todos contra ele, José é protegido por Deus e, de
os seres vivos são abençoados por Deus (Gn prisioneiro em uma prisão egípcia, é exaltado
1.22,28), e tudo é descrito como “muito bom” dramaticamente para se tornar o primeiro-
(Gn 1.31). Contudo, Gênesis 3 conclui com a -ministro do Egito. Nessa posição, ele se torna
expulsão do casal humano do jardim do Éden; fonte de bênção para muitas nações durante os
punição de Javé por terem desobedecido a suas sete anos de fome.
instruções. Várias maldições são relacionadas Apesar de Gênesis certamente valorizar o
em Gênesis 3 .14 -19 , cujo efeito é reverter, papel de José na linhagem de Abraão, a atenção
pelo menos em parte, as bênçãos proferidas se volta para Judá, principalmente em Gênesis
anteriorm ente por Deus. C o n fo rm e os 38. É notável a determinação de Tamar em dar
capítulos seguintes revelam, a *humanidade continuidade à “semente” (38.6-26), e o relato
separada de Deus luta para sobreviver em extraordinário do nascimento de gêmeos no
um mundo dominado pelo *mal. No fim, qual o mais jovem irrompe na frente do mais
o crescimento da maldade humana é tanto velho (38.27-30). Fica claro que o leitor deve

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refletir sobre o significado desse acontecimento da terra. Contudo, ainda que a maior parte
à luz de outros relatos de nascimento em do reinado de Salomão seja retratada positi­
Gênesis. Posteriormente, a bênção de Jacó vamente (por sua sabedoria, ele traz bênçãos
sobre Judá destaca a importância de seus aos israelitas e é admirado pelos estrangeiros),
descendentes, dando a entender que deles sairia suas muitas esposas, por fim, o conduzem à
uma linhagem real (49.8-12). idolatria. Por isso, Deus divide o reino entre
Embora haja evidências de que os descen­ o filho de Salomão, Roboão, e Jeroboão, um
dentes de Judá possam incluir uma dinastia real efraimita.
futura, a linhagem da “semente” é no início Apesar da designação de Jeroboão como rei
traçada a partir de José até Efraim, seu filho ter sido interpretada por alguns como anúncio
mais novo (cf. Gn 48.1-22). A bênção de Jacó da restauração da linhagem de José, o livro de
sobre Efraim antes da bênção sobre Manassés, Reis continua dando ênfase ao cumprimento
seu irmão mais velho, lem bra a própria das promessas de Deus a Davi. Enquanto
experiência de Jacó em relação a Esaú, seu várias dinastias vêm e vão em Israel, o Reino do
irmão gêmeo mais velho. Depois do êxodo dos Norte, os descendentes de Davi permanecem
israelitas do Egito sob a liderança de Moisés, no tron o em Jerusalém . E ntretanto, as
Josué, da tribo de Efraim, conduz com sucesso atividades pecaminosas de alguns dos descen­
o povo para dentro da terra prometida, esta­ dentes de Davi colocam a nação de Judá em
belecendo um santuário central em Silo, no risco, resultando no castigo pelas mãos dos
território entregue aos efraimitas (Js 18.1). babilônios.
Depois disso, contudo, os efraimitas vão Com a destruição do templo e a aparente
perdendo o controle da nação à medida que o extinção da dinastia de Davi, o livro de
povo abandona Javé por outros deuses. Deus Reis chega ao seu final. Em contraste com
age por meio de Samuel para estabelecer a a promessa sobre a formação da nação, a
monarquia em Israel, e isso, após o fracasso promessa de Deus para abençoar as nações da
de Saul como rei, leva à criação da dinastia terra por meio do descendente régio de Abraão
davídica da tribo de Judá. E interessante permanece sem cumprimento. Contudo, a
observar que a rejeição divina de Efraim libertação de Joaquim da prisão da Babilônia
coincide com a partida da arca da aliança de pode sugerir que a história ainda não se
Silo e a morte do sumo sacerdote Eli e seus encerrou.
filhos (cf. SI 78.56-72).
Embora Josué tivesse estabelecido Siló como A unidade literária de Gênesis a Reis
local para o santuário central de Israel, Davi A análise anterior oferece subsídio para
escolhe Jerusalém e começa a transportar para se acreditar que os livros de Gênesis a Reis
lá a arca da aliança. Apesar de ele se preparar formam uma composição literária unificada.
para a construção de um templo em Jerusalém, Isso não significa dizer que o estilo desses livros
a tarefa propriamente da construção é deixada é uniforme em seu todo; os livros particulares
para seu filho Salomão. Essas atividades con­ têm suas próprias características, e mesmo
firmam a escolha de Davi e seus descendentes dentro de cada um encontra-se material
por Deus como linhagem por meio da qual a diversificado. Para o leitor, isso representa um
bênção de Deus alcançaria todas as famílias desafio, pois é fácil perder a visão do todo.

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Mesmo assim, em todo o bloco, de Gênesis a contribuem para uma compreensão cristã da
Reis, uma grande variedade de componentes teologia bíblica.
foi combinada para produzir uma colagem Embora seja impossível ter certeza absoluta,
literária notável. é provável que os livros de Gênesis a Reis
Essas observações sobre a unidade literária chegaram à forma presente pouco antes de 561
de Gênesis a Reis têm implicações importantes a.C., data da libertação de Joaquim da prisão
para nossa compreensão desse material, e isso (2Rs 25.27). Apesar do processo pelo qual esses
pode ser resumidamente comparado com livros foram compostos continuar obscuro,
outras abordagens. Dentro do judaísmo, os eles foram provavelmente escritos para darem
livros sao tradicionalmente vistos em forma de esperança aos afligidos pela destruição de
dois blocos: aTorá (Gênesis a Deuteronômio) e Jerusalém e do templo, o fim da dinastia
os profetas anteriores (Josué a Reis). Entretanto, davídica, a deportação para a Babilônia de
como foi dada maior autoridade ao primeiro muitos cidadãos proeminentes de Judá e a fuga
bloco, criou-se uma divisão entre Deutero­ de outros para o Egito.
nômio e Josué. Com o desenvolvim ento Os livros de Gênesis a Reis não apenas
de abordagens críticas ao AT, os estudiosos oferecem explicação para esses acontecimentos
começaram a questionar seriamente a vantagem traumáticos ao enfatizar o fracasso da nação
de tratar Gênesis a D euteronôm io como quanto à *fidelidade a Javé, mas também
unidade. Ao observar que Deuteronômio sustentam a esperança de que Deus um dia
não possui relato sobre a ocupação da terra levantará um descendente de Davi por meio
prometida pelos israelitas, os estudiosos logo do qual abençoará todas as nações da terra.
incluíram o livro de Josué em discussões Um otimismo parecido se encontra em outros
relacionadas à composição do Pentateuco. escritos, alguns dos quais surgiram antes do
Isso representou uma mudança importante do exílio (e.g., Is 9.1-7; 11.1-5 ; Jr 23.5,6; 30.8,9;
pensamento sobre a existência de um Pentateuco Ez 17.22-24; 34.23,24; 37.24; Am 9.11,12).
para um Hexateuco. Um desenvolvimento Então, ainda que os livros de Gênesis a
posterior foi a introdução por Martin Noth do Reis narrem a história antiga do povo hebreu,
conceito de um historiador deuteronomista, eles estão claramente orientados para o futuro.
que teria composto os livros de Deuteronômio Ao traçar a “semente” de Sete a Joaquim, a
a Reis durante o período do exílio. Baseado narrativa destaca a contínua fidelidade de
na unidade desses livros, Noth desconsiderou Deus a suas promessas, apesar dos muitos
o conceito de Pentateuco, preferindo, em vez obstáculos ao cumprimento delas. Além disso,
disso, o conceito de Tetrateuco. Apesar das aos poucos se desenha a figura daquele que
propostas de Noth terem sido muito influentes, é esperado e passa-se ao leitor a expectativa
o processo pelo qual os livros de Gênesis a Reis de que ele será parecido com, e sobrepujará,
foram compostos continua sendo objeto de pessoas proeminentes de Gênesis a Reis.
intenso debate entre os estudiosos, e novas Assim como Abraão, ele confiará em Deus e
teorias sobre a sua composição continuam obedecerá a ele. Como José, salvará “a vida
surgindo. Contudo, isso não deve desviar de muitos” (Gn 50.20). Como Josué, ele fará
nossa atenção da reflexão de como todos tudo que está escrito no “livro da Lei”. Como
esses livros, vistos como unidade narrativa, Davi, será divinamente exaltado a partir de

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circunstâncias humildes. Como Salomão, rei­ uma restauração no máximo parcial das
nará com sabedoria. condições ideais existentes na terra antes da
A luz dessa expectativa, é fácil entender queda de Adão e Eva. Embora a construção
como *Jesus é retratado no NT como aquele do tabernáculo possibilite que o Senhor habite
que cumpre a Lei e os Profetas (e.g., M t 5.17; entre os israelitas, o acesso direto a ele ainda é
Lc 24.27,44; Jo 1.45; At 26.22,23; 28.23). Ele muito restrito, e muitas providências precisam
é o “descendente” prometido de Abraão e Davi ser tomadas para o povo reparar os constantes
(e.g., At 3.25,26; Rm 1.3; G1 3.16). Embora pecados. Além disso, como testemunham os
Gênesis a Reis contenham outros temas livros de Gênesis a Reis, essas providências por
importantes para a teologia bíblica, há uma si sós não resolvem a quebra do relacionamento
necessidade urgente de reconhecer novamente entre Deus e a humanidade. Elas, contudo, são
que esses livros apontam, sobretudo, para a um guia importante para os meios pelos quais
vinda daquele por meio de quem as nações da uma solução permanente será alcançada.
terra serão abençoadas. D iante das observações expostas, fica
evidente a importância dos livros de Gênesis
Conclusão a Reis para a teologia bíblica. Conforme
Até aqui, o objetivo principal foi mostrar que outros artigos deste dicionário demonstram
a narrativa de Gênesis a Reis é unida por dois en­ mais exaustivamente, esses livros introduzem
redos entrelaçados, centralizados nas promessas não apenas uma grande variedade de idéias
divinas sobre a nacionalidade e o libertador real. teológicas, mas também dão o fundamento
Contudo, no final de Reis esta última promessa sobre o qual tudo mais reside.
é no máximo parcialmente cumprida, criando,
portanto, a expectativa de que seu cumprimento Bibliografia
ainda está para acontecer. T. D. A lexander , F ro m P a ra d is e to th e
Em sintonia com essa expectativa, parece P ro m ise d L a n d : a n In tro d u c tio n to th e M a in
que outros elementos de Gênesis a Reis T hem es o f th e P e n ta te u c h (Carlisle e Grand
possuem função paradigmática, apontando Rapids, 1995,1998); idem, “Royal expectations
adiante e/ou prevendo eventos que ainda in Genesis to Kings: their importance for
acontecerão. Provavelmente, o elemento mais biblical theology”, T yn B A 9 ,1 9 9 8 , p. 191-212;
importante desses é o relato sobre a libertação D. N. F reedmann , “The earliest Bible”, in:
dos israelitas da escravidão do Egito e a posse da M . P. O C onnor & D. N. Freedmann (Eds.),
terra prometida. Esses acontecimentos, vistos B a c k g ro u n d fo r th e B ib le (Winona Lake, 1987);
à luz da expulsão de Adão e Eva do jardim J. G. M c C onville , G race in th e E n d : A S tu d y
do Éden, oferecem uma prévia da grande in D e u tero n o m ic T h eo lo gy (Carlisle e Grand
libertação que Deus planejou para toda a terra. Rapids, 1993); M . N oth , T h e D e u te ro n im istic
Assim, embora os israelitas tenham contraído H isto ry (TI, Sheffield, 1981); R. N. W hybray,
um relacionamento de aliança com o Senhor T he M a k in g o f the P e n ta te u c h : A M eth o d o lo g ical
no monte Sinai e, por causa disso, se distin- S tu d y (Sheffield, 1987).
guiram das demais nações por Deus estar
habitando no meio deles, eles desfrutam de T. D. A lexander

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