Você está na página 1de 12

PROGRAMA DA CHAPA

Texugo do Mel Antifa


Em Defesa das Reuniões Abertas à voz e voto

Membros da Chapa:

Camila Araújo (Primeiro ano)


Vitor Damilano (Primeiro ano)
Alef Antunes (Primeiro ano)
Pedro Henrique (Segundo ano)
Lis Macedo de Barros (Pós-graduação)
Danilo Augusto (Sexto ano)
Caio Olivette Pompeu (Primeiro ano)
Dido Borges (Segundo ano)
Renata Biagioni Wrobleski (Primeiro ano)

*O presente programa é fruto da contribuição de diversos estudantes do curso que


não estão na chapa e de alianças com outras entidades a partir de uma prática
política orgânica e está aberto à construção coletiva.

ELEIÇÕES CAF-USP 2020


1. A Hora do Mundo: historicidade da condição estudantil

Talvez, antes de nos perguntarmos “o que fazer?”, seria necessário balizarmos tal
interrogação a partir de uma outra, que a antecede: que horas são? Perguntarmos sobre
o tempo que vivemos é menos trivial do que parece: é um tempo que não se alcança
olhando tanto para o ponteiro do relógio, mas para o mundo que o alicerça, para o
“pulso” que o carrega. Se trata, assim, do tempo desse mundo: mundo social e
histórico, máquina social baseada numa dinâmica de relações sociais mediadas pelo
dinheiro e pela mercadoria que produz hierarquias e segregação, juntamente com
relações de gênero e raça. Perguntar por nosso tempo deve ser, aliás, feito aqui a partir
de um certo lugar: trata-se de analisar a inserção de estudantes no tempo desse mundo
a partir de suas condições materiais e da nossa posição política em relação a nossa
miséria.

O ser social “estudante” é miserável: ocupa no interior do sistema educacional e na


sociedade de modo geral uma posição infantilizada; seu trabalho, que não é
reconhecido enquanto tal, é mal pago, isso quando é pago: 400 reais no caso da
graduação, 1500 e 2200 no mestrado e doutorado respectivamente. Salários cujos
valores não são reajustados há mais de 10 anos e desvinculados de direitos trabalhistas
básicos. Além disso, xs estudantes, quando conseguem, moram mal e sofrem todo
tipo de assédio institucional por parte da Universidade (no caso, a USP) e da sua
assistência social que opera como uma verdadeira agente de “desassistência”,
negando moradia digna, transporte e realizando terrorismos psicológicos com
ameaças de expulsão e incentivo à delação. Além dessa miséria evidente, o estudante
não só se torna cada vez mais miserável, em decorrência da falta de reajuste das bolsas
e de seus cortes, falta de moradia digna etc, mas também se torna cada vez mais
disfuncional para a sociedade produtora de mercadorias: ele não é só miserável, mas
agora vive um devir-supérfluo.

Aqui se dá o giro do tempo do mundo em que vivemos: xs estudantes antes faziam


parte, primeiro, de uma Universidade que foi fundada para a formação de elites
políticas esclarecidas, depois de uma universidade cada vez mais orientada para
formação de mão de obra técnico-científica adequada às novas inovações tecnológicas
que determinavam o processo produtivo da sociedade. Agora, no momento de crise
permanente da sociedade mercantil e de transformação do governo dessa sociedade
num governo de “redução de custos” e “eficiência de gestão”, xs estudantes e boa
parte do corpo universitário é inscrito num cálculo econômico em relação ao qual eles
se tornam “custos” a serem reduzidos. A vida dxs estudantes é inscrita num cálculo
que a desvaloriza e a torna supérflua: o horizonte é cada vez mais o desemprego, a
falta de bolsas e o fim do fomento à pesquisa.

Assim, se a antiga hora do mundo - aquela do “progresso”, da promessa de pleno


emprego e bem-estar social, e das lutas sociais que viam a sociedade capitalista como
portadora de elementos que nos permitiriam alcançar um mundo de liberdade – dava
para xs estudantes a ilusão de fazerem parte de um processo social ascensional, hoje
é a própria dinâmica social que desmente as promessas e expectativas depositadas na
ordem social em crise: a crise da Universidade é resultado de uma crise muito maior
que é causada pela própria dinâmica dessa sociedade que se generaliza como um
câncer. Hoje não há jornal que não fale de um colapso iminente: econômico,
ambiental, político, administrativo. Não há Estado que não governe de maneira
emergencial, decretando leis e reformas que passam por cima da constituição à
maneira de um Soberano hobbesiano. Mesmo os programas que falam do futuro,
como o “ponte para o futuro” do Temer ou “future-se” de Bolsonaro, ou ainda o “USP
do futuro” do ex-reitor Zago, mostram que o futuro não é um tempo de dissolução das
desigualdades sociais ou um tempo novo, e que os sacrifícios sociais exigidos se
reduzem a isso: sacrifícios, e cada vez maiores. O futuro anunciado é simplesmente o
da gestão da crise.

Não pretendemos solucionar esses problemas, não por falta de interesse, mas de
poder. Contudo, sendo coerente com o ponto de partida, concebemos o CAF como
um espaço em que as misérias estudantis podem ser remediadas na medida em que
seja um espaço político, de auto-organização e de socialização no qual estudantes
possam se expressarem e atuarem politicamente, propondo e executando ações.
Assim, nosso ponto de vista é de baixo: enquanto estudantes que dependem da
permanência, sofrem com os mais variáveis tipos de opressão e que reconhecem não
só a sua miséria, mas a miséria generalizada, nos solidarizamos com os grupos sociais
mais vulneráveis e buscamos realizar uma luta conjunta e horizontal com eles.

2. Estrutura de organização: Valorização da democracia direta

A principal discordância entre os estudantes da filosofia interessados em compor o


Centro Acadêmico neste ano se referiu ao modo de estruturar a organização do CAF.
A gestão atual, cuja marca foi a horizontalidade e as reuniões abertas à voz e voto de
todos os presentes, foi criticada no que concerne à falta de estrutura formal na
organização, o que, em tese, facilitaria a desorganização do coletivo, o desinteresse
dos demais estudantes do curso, e dificultaria a execução das pautas aprovadas.
Pensando nisso, nós da chapa Texugo do Mel Antifa sugerimos um modelo de
organização que vise garantir a horizontalidade e a possibilidade de participação de
estudantes não membros da chapa nas decisões e ações do CAF, mas também
garantindo a transparência dos processos e o estabelecimento mais preciso da
organização do Centro Acadêmico.
A insistência em defendermos as reuniões abertas e valorizarmos a democracia
direta em contraposição à democracia representativa se dá por duas razões. 1) A
gestão por democracia direta permite um maior fluxo de participação de estudantes,
de maneira que as pessoas que participam inicialmente apenas pelas Assembleias de
Curso tenham a possibilidade de começar a se envolver e se engajar mais na
mobilização estudantil da filosofia, participando das reuniões ordinárias do CAF e se
engajando mais na construção cotidiana da gestão. Em contraposição ao modelo de
gestão por reunião fechada, no qual quem participa é apenas a chapa eleita e que
permite um aparelhamento do CAF, o modelo da democracia direta desfaz a separação
hierárquica entre “representados” e “representantes” a partir da qual os representantes
passariam a tomar as decisões das ações políticas do CAF no lugar de estudantes
representados, que passam, por sua vez, a ter uma posição passiva sobre pautas
políticas que os tocam diretamente e que são discutidas nas reuniões de gestão. A
separação, assim, vem acompanhada de uma inversão: os representantes, que são um
produto da decisão dos representados, decidem em seu nome. Desfeita a separação e
inversão interna ao regime da representação, é possível conceber uma prática política
não alienada em que estudantes auto-organizados e mobilizados sejam a causa
produtora e imanente, isto é, que não se separa do seu efeito: produtor e produto se
mantém, assim, idênticos: a política como auto-criação. 2) A gestão por democracia
direta, operando uma democratização radical de todas as instâncias de decisão da base
discente da filosofia, permite também um maior acolhimento do dissenso entre
estudante em torno de pautas comuns e da contingência que faz parte do fazer e pensar
político. O campo do política, ao nosso ver, não se define pela aplicação de modelos
ou programas fechados, reduzindo a prática política a um cálculo de meios para
realizar determinados fins pré-determinados por representantes, coletivos ou partidos
com seus programas e não passíveis de discussão e modificação. Ao contrário, o
campo do político é o da invenção e experimentação diante de situações contingentes
da nossa vida social e política. Foi o caso da luta em defesa da educação esse ano, que
demandou de nossa parte a invenção de ações políticas que não poderiam ser previstas
num programa fechado e que seu êxito ou efetividade cabe menos a uma gestão de
competentes eleitos do que à inventividade de estudantes mobilizados em torno dessa
pauta comum. Mesmo que fracassemos, pelos menos foi com nossas próprias mãos.
Assim, o modelo que iremos sugerir aqui não é para ser concebido com uma
estrutura de organização sacralizada, inquestionável, mas está no registro da
experimentação e inventividade política de mecanismos que busquem dar as bases
para uma organização horizontal em que qualquer estudante da filosofia possa
participar.
Círculos concêntricos no CAF
A proposta de organização horizontal e de democracia direta dos círculos
concêntricos tem como base dois princípios determinados. O primeiro consiste na
noção de que cabe ao coletivo saber aproveitar e gerir a disposição de contribuição de
todos os interessados, ainda que algumas sejam menores do que as de outros. O
segundo consiste na defesa de que todos devem ter voz e voto acerca daquilo que lhes
diz respeito, no contexto da ação e deliberação do coletivo. Tendo isso em mente, a
ideia de estabelecer a forma de organização dos círculos concêntricos visa estruturar
de maneira mais organizada e produtiva a gestão da horizontalidade no CAF.

Acreditamos que a estrutura organizativa interna do CAF deve ter ao menos duas
instâncias dentro da gestão. Uma delas, a qual chamaremos coordenação (CD), seria
formada, de início, pela chapa eleita. O critério de composição da coordenação é o
maior engajamento, tempo e disposição a coordenação do Centro Acadêmico,
podendo ser composta por pessoas que não são da chapa eleita.. A coordenação não
teria, entretanto, nenhuma hierarquia do ponto de vista da tomada de decisão política,
sendo que suas ações devem estar submetidas à segunda instância: as reuniões
abertas à voz e voto (RA). Assim, apesar da coordenação ser composta por pessoas
mais engajadas e com disposição, ela é a mais impotente do ponto de vista de poder
político. Cabe a coordenação atribuições como: elencar as pautas das reuniões; ter um
acúmulo sobre as discussões que estão sendo feitas no meio estudantil; ir em reuniões
convocadas de maneira extraordinária pela instituição da faculdade com os CA’s;
apresentar balanços financeiros; manter o CAF aberto etc. Mas ela não pode tomar
nenhuma decisão política que não seja a expressão da base estudantil presente nas
reuniões abertas e Assembleias. A outra instância, que é as reuniões abertas à voz e
voto, seria formada pelos demais estudantes interessados em contribuírem para as
ações do CAF, mas que não estão formalmente inseridos na chapa ou não pretendem
se engajar a ponto de participar da coordenação do CAF. A coordenação deve estar
submetida a essa instância, como condição de que a participação e mobilização
política na filosofia seja horizontal e capaz de dar espaço para a expressão e propostas
de qualquer estudante. Em suma, para nós o grau de engajamento político não legitima
hierarquia política. Além disso, reforçamos que a separação entre as duas instâncias
não é intransponível: se algum estudante que não forma a chapa demonstrar interesse
e envolvimento suficientes para entrar na instância da coordenação e assumir mais
responsabilidades, isso pode ser feito.

Aplicando tal organização à proposta dos círculos concêntricos, temos que a


coordenação (CD) seria representada por um círculo nuclear de pessoas que
frequentam mais e se responsabilizam por tarefas mais cotidianas, enquanto a
instância da participação pelas reuniões abertas à voz e voto (RA) seria representada
por um círculo maior em volta do primeiro. E ainda haveria a Assembleia de Curso
(AS) que seria o maior círculo de participação e com maior poder político. É
importante pontuar que um círculo não se sobrepõe a outro em questão de
importância, mas apenas em relação ao comprometimento para com a gestão.

Comissões Abertas (C): Propomos também a criação de algumas comissões


abertas. Essas comissões teriam caráter executivo de ações decididas pelas
Assembleias e pelas reuniões do CAF, perpassando todos os círculos. As comissões
seriam uma forma de estabelecer funções e dividir tarefas. Propomos algumas iniciais:
Comissão de Permanência; Comissão CAF-NELE; Comissão de Comunicação;
Comissão de relações públicas; Comissão de Manutenção.
Propostas:

1. Manter as reuniões ordinárias abertas à voz e voto para qualquer estudante da


filosofia que queira se expressar e atuar politicamente na construção da sua
entidade de base, que é o CAF.
2. Criar comissões abertas com caráter executivo: comissão de permanência;
comunicação; relações públicas; manutenção do espaço; CAF-NELE.
3. Aprimorar os mecanismos de comunicação, mantendo ativa a página do
Facebook, o uso dos e-mails institucionais, whatsapp e instagram; tentando
manter os boletins informativos quinzenais; mantendo o Calendário Semanal
de Mobilização para divulgar atos que compomos, reuniões, assembleias,
grupos de estudos, festas e outros eventos; reativando a página de RD’s da Filô,
para melhor divulgar as atas da congregação e do conselho departamental, bem
como o calendário de reuniões desses fóruns.
4. Iniciar uma discussão sobre a possibilidade de regularização do CNPJ do CAF,
que está irregular.
5. Avançar na digitalização de documentos do CAF, terminando, primeiro, a
digitalização dos documentos relativos ao espaço estudantil, que está incompleta
e, a partir disso, promover discussões sobre a autonomia dos espaços estudantis
(CAF, espaço verde etc) e sua situação atual.

3. Alianças Intensivas:

O CAF nos últimos anos, sobretudo esse ano, fez algo que achamos fundamental e
que deveria ser continuado: estabeleceu alianças com movimentos sociais fora da
USP.

a. Alianças no Campo da Educação: na luta pela educação, o CAF e


estudantes da filosofia mobilizados conseguiram se aproximar de secundaristas
autônomos que realizaram um ato no dia 13 de Junho contra a precarização da
educação pública que está ocorrendo tanto no nível superior quanto no básico:
corte orçamentário, corte de bolsas, corte de merendas, fechamento de escolas,
aumento da militarização das escolas com a criação de escolas cívico-militares,
com o projeto “Escola + Segura” do João Doria, fechamento de cursos das Etecs
e Fatecs, e a orientação cada vez maior da educação voltada para o mercado e
gerida de maneira empresarial a partir de parcerias público-privadas. Assim, junto
com secundaristas, a filosofia participou da construção desse ato. O que
possibilitou fazermos outras ações conjuntas de maneira independente as
entidades burocráticas como a UNE e a UEE: foi o caso do Ato e Aula pública que
a filosofia construiu no dia 6 de Junho no largo da batata, e que foi construído
conjuntamente com secundaristas, que estavam também presentes.

Além de se aproximar de secundaristas mobilizados de maneira autônoma,


o CAF também manteve contato com CA’s de Filosofia da Unicamp, da Unesp de
Marília, mantendo a construção da Frente Estadual de Filosofia criada em 2017,
e com entidades da UNIFESP, com as quais construímos o ato no dia 3 de Maio
em Defesa das Ciências Humanas. Esse ato foi realizado não só em São Paulo pela
filosofia, mas também em Marília por estudantes de filosofia de lá e com os quais
concebemos a própria proposta de fazer este ato. Assim, estas alianças
estabelecidas com estudantes fora da USP é fundamental no fortalecimento das
lutas em defesa da educação e para termos informações sobre as mobilizações que
ocorrem em outros meios estudantis.

b. Alianças na luta contra a repressão: no dia 14 de Junho, dia da Greve Geral,


trabalhadores e estudantes foram presos, incluindo dois da filosofia. Em
decorrência disso, se formou um Comitê Contra a Repressão, a Reforma da
Previdência e os Cortes na Educação. O CAF estava desde o início da
construção desse Comitê. Graças a luta desse comitê, conseguimos que, em 8 de
Novembro, as pessoas presas e que estavam respondendo em liberdade fossem
inocentadas É importante que o CAF continue se vinculando às mobilizações
contra as repressões que sofremos. Além dessa atuação interna na USP, é também
necessário que pensemos em atuações externas, nos solidarizando com a luta
contra o encarceramento em massa e o genocídio da população negra e pobre.
Nesse sentido, o CAF acompanhou desde o início a luta contra a arbitrariedade
policial na comunidade da São Remo, localizada ao lado da USP, participando dos
atos e das reuniões da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio. A
aproximação nossa de movimentos que estão na luta contra o encarceramento em
massa e o genocídio, como: rede 02 de Outubro, AMPARAR, Frente Pelo
Desencarceramento em Massa de SP etc, nos permite não só compreender
melhor o funcionamento da repressão social e quem ela afeta de maneira mais
violenta e mortífera, mas também estreitar alianças para a luta conjunta contra a
repressão.

Propostas:

1. Continuar estreitando laços com o movimento secundarista com vistas a termos


uma compreensão melhor do que está ocorrendo nas escolas secundárias e de
pensarmos em ações conjuntas na luta contra a precarização do sistema educacional.
Para isso, é importante também nos aproximarmos de estudantes da ETEC Cepam
que tem dentro da USP.
2. Manter a construção da Frente Estadual de Estudantes da Filosofia (UNESP,
UNICAMP e USP) criada a partir de uma reunião de CA’s de Filosofia das três
estaduais para pensarmos em ações conjuntas em defesa da educação e nos
informarmos do que está ocorrendo em cada universidade.
3. Buscar estabelecer laços com o CA da filosofia da UNIFESP para tentarmos
ampliar a Frente e torná-la uma frente federal.
4. Realizar uma Plenária dos três setores logo no início do semestre que vem em
conjunto com estudantes da pós-graduação, tendo como tema a continuidade da luta
em defesa da educação.
5. Continuar participando da luta contra a arbitrariedade policial na São Remo a partir
da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio que ali se formou;
6. Buscar aproximações com outros movimentos ligados à luta contra o Estado Penal
e fazer eventos de formação com essa temática;
7. Manter e ampliar os laços com outros grupos políticos internos da USP: SINTUSP;
AMORCRUSP (Associação de Moradores do CRUSP), OCA (Ocupação Creche
Aberta), Adusp, coletivos LGBTQIA+, coletivos feministas, coletivos do movimento
negro, Levante Indígena da USP, Cursinhos populares e com outros CA’s.

4. Permanência:

Arrisquemos uma definição do que é permanência: permanência é o conjunto de


condições materiais e simbólicas necessárias de serem realizadas para que estudantes
possam permanecer na Universidade. Essas condições possibilitam, portanto, a
reprodução social de estudantes e envolvem um conjunto daquilo que entendemos por
direitos sociais, sendo o primeiro deles o acesso à Universidade e, a partir dele, a
moradia digna, a creche, o hospital, a ausência de violências institucionais, como o
machismo e o racismo institucional, espaços de convivências (algo, aliás, fundamental
para a construção de laços afetivos, de convivência e para a saúde mental), acesso a
uma certa prática de leitura e de escrita que a instituição exige para que sejamos
socializados no ambiente acadêmico e conseguirmos cumprir com suas exigências
avaliativas, que são cada vez mais produtivistas.

Olhemos essa tabela adquirida pela Folha de São Paulo a partir da Lei de Acesso à
Informação:

Ano Inscritos Vagas concedidas


2015 2483 227

2016 3057 230

2017 3832 165

Essa tabela mostra a relação entre inscritos para as vagas de moradia e o número
de vagas de moradia concedidas. A primeira questão é: para onde vai a enorme
quantidade de estudantes que não conseguem moradia? Há uma indução institucional
à desistência por não realizar e negar sistematicamente o direito à permanência, o que
se torna ainda mais perverso num contexto em que a USP aprovou cotas sociais e
étnico-raciais, aumentando a demanda por políticas de permanência. A USP, que se
responsabilizou pelas políticas de permanência, criando uma Superintendência de
Assistência Social, destinando parte do orçamento para a permanência, não move um
dedo para solucionar o problema da falta de vaga na moradia, incitando, ao contrário,
uma concorrência entre estudantes, dividindo-os em moradorxs “regulares” e
“irregulares”, além de cortar o passe estudantil de moradorxs do CRUSP no início
deste ano e de não realizar as manutenções necessárias na moradia: não há máquinas
de lavar, não há internet, alguns blocos não possuem fogões utilizáveis e torneiras em
suas cozinhas, há prédios com infiltração, problemas na fiação elétrica e com
elevadores quebrados. Lembremos que a reitoria se nega a devolver dois blocos (K e
L) que pertencem à moradia, o que significa quase 400 vagas. A reitoria, portanto,
ocupa de maneira irregular os blocos K e L. Essa devolução seria uma forma parcial
e imediata de resolução da ausência de vagas. Ações contrárias à permanência, por
parte da reitoria, também foram e são feitas relativamente às creches e o Hospital
Universitário. Desde o dia 17 de janeiro de 2017 o prédio da Creche Oeste, que atendia
filhos de estudantes, funcionários, professores e da comunidade São Remo, se
encontra ocupada em decorrência do seu violento fechamento por parte da reitoria. A
Creche Central e da Saúde Pública, que ainda estão em funcionamento, também estão
sofrendo um constante processo de desmonte.

Assim, acreditamos que a filosofia por meio de seus espaços de deliberação


política: CAF e Assembleias, deve pautar a questão da permanência e compor a luta
pela sua efetivação tanto num nível mais geral quanto local, pois cabe lembrar: a
permanência não é um direito dado, mas conquistado com atos, ocupações, greves
etc.

Propostas gerais:

1. Continuar cobrando da congregação da FFLCH um posicionamento sobre a


devolução dos Blocos K e L como medida efetiva de ampliar a política de
permanência e a reabertura da Creche Oeste fechada pela reitoria a mais de dois
anos e meio. A congregação se recusou a inserir essa pauta proposta pela filosofia
mais de uma vez esse ano.
2. Continuar fortalecendo a luta pela Reabertura da Creche Oeste mantendo nossos
laços políticos com a OCA (Ocupação Creche Aberta), mantendo vivo o espaço
da ocupação, propondo eventos no espaço, frequentando, ajudando em tarefas de
manutenção e divulgando a luta.
3. Manter e aprofundar nossa aproximação com a AMOCRUSP (Associação de
Moradores do CRUSP), fortalecendo nos seus atos, eventos e na construção da
pauta pela permanência desde a calourada.

Propostas específicas na filosofia:

1. Manter as reuniões abertas de construção da calourada, tendo como foco o


acolhimento de estudantes ingressantes pelo SISU e por cotas que precisam de
permanência.
2. Garantir logo na calourada, conjuntamente com a AMORCRUSP (Associação de
Moradores do CRUSP) e a OCA (Ocupação Creche Aberta), moradia para
estudantes que precisam.
3. Orientar ingressantes, conjuntamente com a AMOCRUSP, sobre os processos
para terem garantido seu direito à permanência a partir do PAPFE (Programa de
Apoio à Permanência e Formação Estudantil).
4. Fazer atividades na calouradas, como o Cortejo pela Permanência, realizado este
ano, e que consistia em passar pelo CRUSP e ir até a Ocupação Creche Aberta,
contando a história da luta pela permanência na Universidade, com a presença da
AMORCRUSP e de pessoas da OCA.
5. Manter e ampliar a discussão sobre racismo institucional e transfobia/lgbtfobia,
começando já pela Semana de Calourada e mantendo com discussões e campanhas
ao longo do ano. Nesse sentido, visamos começar a pautar a necessidade da
implantação de cotas étnico-raciais para pessoas trans nos processos seletivos
internos da filosofia, tendo como referência a conquista de cotas para pessoas trans
na UFABC e da pós em antropologia da USP.
6. Fazer no início do ano os Estudos do CAF, que consiste em leituras coletivas de
textos que serão trabalhados no primeiro ano, fornecendo uma espécie de
“monitoria” como foi feito este ano, chamando estudantes que possuem mais
domínio em certos autores (Kant, Descartes etc).
7. Manter durante todo o próximo ano a campanha pela permanência que foi criada
esse ano, mas acrescentando a realização de reuniões periódicas durante todo o
ano, em conjunto com a AMOCRUSP, para acolher e dar orientações sobre
questões que tangem à permanência.
8. Manter a luta, conjuntamente com o NELE (Núcleo de Estudos e Línguas
Estrangeiras) por curso de línguas gratuito e institucional. Mantendo nosso laço
político com o NELE, continuando a construção do estatuto que firma o nosso
compromisso político e social, e nos disponibilizando em prestar apoio para
manter suas ações.
9. Continuação do WorkShop de leitura e escrita acadêmica no primeiro semestre,
que esse ano foi feito de maneira atropelada pelo departamento e descaracterizado
quanto a sua função formativa.
10. Avançar na discussão da pauta sobre a precarização da pró-aluno e pensar em
medidas efetivas para que a situação mude: exigindo da diretoria a aquisição de
mais uma impressora (possibilidade que foi dada pela administração numa reunião
de negociação das pautas específicas da filosofia na greve de 2018); buscar a
viabilidade de reuniões com monitores da pró-aluno, estudantes e CA’s para
discutir essa pauta conjuntamente.
11. Questionar o departamento de Filosofia sobre a mudança do sistema de impressão
da sala de pesquisa da filosofia, que impôs uma cota de 30 impressões.

5. Socialização:

Concebemos o CAF como um espaço de socialização cotidiana do qual xs


estudantes devem se apropriar e se sentir pertencentes. Valorizamos, assim, as
iniciativas autônomas de formação de grupos que fazem uso do CAF, é o caso de
grupos como: NELE (Núcleo de estudos e línguas estrangeiras), Minas da Filô,
Jornal Discurso sem Método, GAIA (Grupo Autônomo de Introdução ao
Anarquismo), e grupos de estudos formados por estudantes em torno de autores
estudados nos cursos. E de eventos como a Semana de Filosofia e Política. Quer
dizer, defendemos que o CAF seja aberto para o uso de estudantes organizados de
maneira independente da própria gestão e que possam se utilizar do CAF. Além desse
ponto, que amplia a concepção do CAF como um espaço aberto para o fazer político
além da sua instância de deliberação (as reuniões ordinárias abertas à voz e voto que
defendemos), é preciso compreender o CAF como um espaço de socialização lúdica,
onde os laços entre estudantes podem ser estreitados e um sentimento de
pertencimento a partir de uma convivência cotidiana possa ser criado. A dimensão da
socialização é um componente indissociável da proposta de fazer o CAF uma entidade
realmente da base, isto é, construída para e por estudantes a partir de uma participação
direta. É pela socialização que também se produz processos renovados de
subjetivação política que não se reduzem a reprodução mecânica de manuais e ações
pré-estabelecidas por organizações mais duras e burocratizadas. Assim, incorporamos
as críticas segundo as quais o CAF é um espaço que para muitas pessoas aparece como
não convidativo, e propomos fazer ações no sentido de mudar essa situação, além de
convidar o corpo discente da filosofia a fazer isso conjuntamente com a gente.

Propostas:

1. Manter o CAF aberto para a reunião de coletivos de estudantes como o Jornal


Discurso sem Método, Minas da filô, Grupos de Estudos, projetos de eventos
como a Semana de Filosofia e Política e outros que venham surgir. Essa proposta,
junto com as demais, tem a finalidade de produzir um sentimento de pertencimento
em relação ao CAF por parte de estudantes, já que a entidade deve ser da base
estudantil da filosofia.
2. Nos dispor a garantir reserva de salas casos os Grupos de Estudos precisem e
queiram se reunir fora do CAF.
3. Tornar o espaço mais agradável, mudando a decoração do CAF, adquirindo novos
móveis, tornando mais frequente a limpeza do espaço etc.
4. Construir atividades em conjunto com o PET (Programa de Educação Tutorial) da
Filosofia, como o encontro de pesquisa na graduação.
5. Manter o café de graça.
6. Fazer um censo do corpo discente da filosofia com base nos dados que foram
compilados sobre o perfil da filosofia nos últimos anos a partir do censo da fuvest
e do censo feito pelo CAF em 2017. Proposta que o CAF pretendeu realizar esse
ano, mas não conseguiu.
Retrospectiva do CAF:

Criação do Instagram do CAF, do calendário semanal de mobilização, e acesso ao email institucional.


Recepção dxs calourxs: garantiu moradia para estudantes ingressantes desde o primeiro contato.
Criação dos Estudos do CAF - monitoria para ingressantes.
18/02 à 22/02: Calourada
22/02: Exibição do filme “A Batalha da Maria Antônia”, na Maria Antônia.
20/03: Assembleia de Estudantes da Filosofia (1)
25/03: Reunião Ordinária do CAF
09/04: Debate sobre Cotas
10/04: Assembleia de Estudantes da Filosofia (2)
26/04: USP-UNESP: reunião da frente estadual da filosofia.
03/05: Ato em Defesa das Ciências Humanas
07/05: Reunião Aberta: Elaboração de ações em defesa da Universidade Pública.
10/05: Por que parar? Universidade em crise
14/05: Assembleia de Estudantes da Filosofia: Paralisar? (3)
20/05: Assembleia de Estudantes da Filosofia (4)
22/05: Palestina como Pólo de Resistência: de Bolsonaro a Netanyahu
23/05: Ato 23M: Bloco da Filô
27/05: Reunião Ordinária do CAF
29/05: Assembleia de Estudantes da Filosofia: Paralisação (5)
30/05: Ato 30M: Bloco da Filô
06/06: Aula Pública e Ato em defesa da educação com: Paulo Arantes, Vladimir Safatle e Helena Silvestre
10/06: Reunião Ordinária do CAF
12/06: Assembleia de Estudantes da Filosofia: GREVE (6)
13/06: Corujão pela Greve Geral no Verde
27/06: Contra a Repressão: pela liberdade e fim dos processos.
05/07: Karaokê Pós-Fim do Mundo.
15/07: Limpeza + Reunião do CAF
22/07: Início da participação do CAF na Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio na São Remo.
07/08: 1ª Reunião de Organização da Semana de Filosofia e Política
12/08: Assembleia de Estudantes da Filosofia: ato 13A (7)
13/08: Ato 13A: Bloco da Filô
19/08: Reunião Ordinária do CAF
02/09: Reunião Ordinária do CAF
09/09: Assembleia de Estudantes da Filosofia (8)
16/09 a 19/09: VI Semana de Filosofia e Política
23/09: Reunião Ordinária do CAF
30/09: Assembleia de Estudantes da Filosofia: Paralisação 02 e 03 de Out (9)
02/09: Participação no Ato pelo Passe Livre para cursinhos populares e no ato da Rede 02 de Outubro em
memória do massacre do Carandiru.
03/10: Ato 03 Out: Bloco da Filô
17/10: Limpeza do CAF
18/10: Beijos LGTQIA+ after Errática
30/10: Reunião Ampliada de Formação de Chapa
04/11: Assembleia de Estudantes da Filosofia (10).