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JOSÉ LIN S DO RÊG O

O VULCÃO E A FONTE

Apresentação de
LÊDO IVO

EDIÇÕES O CRUZEIRO
Ê ste ljv r o f o i co m p o sto e im p r e s s o n a s o f i c i n a »
da E m p rêsa G r á fic a O CRUZEIRO S . A., e m
S etem b ro d e 1958, 0 CRUZEIRO,
p a ra a s E d iç õ e s
Rua do L iv r a m e n to , 189/203, Rio d e J a n e i r o .

Capa de
AMÍLCAR DE CASTRO

D ir e ito s a u to r a is a d q u ir id o s p e la E m p rêsa
G r á fic a 0 CRUZEIRO S. A., que se resek va
a p r o p r ie d a d e lite r á r ia da p resen te e d iç ã o .
Alguns meses antes de morrer, José Lins do Rêgo
confiou às Edições “ O Cruzeiro99 os textos que com­
põem êste volume de crônicas, ensaios e notas de via­
gem. Era seu desejo que o livro, a que deu o título,
então provisório, de 0 Vulcão e a Fonte, fôsse prece­
dido de um ensaio de seu amigo Lêdo Ivo sôbre algum
aspecto de sua personalidade literária, o que se fêz.
O ENSAÍSTA JOSÉ LINS DO RÊGO

1 — 0 TESOURO ESCONDIDO

A o iniciar sua vida literária, no espaço de tem­


po que vai desde a época estudantil, no Recife, de
1920 até 1929, ano em que, integrado em sua fase
alagoana, escreve Menino de Engenho com o sim­
ples propósito de elaborar apenas um livro de me­
mórias da infância, José Lins do R êgo não pensava
em tornar-se um romancista.
Desde o comêço, ainda em sua quadra estudan­
til, adquirira êle a prática do artigo de jornal, há­
bito literário a que permaneceria fiel a vida inteira
— tão fiel que foi no seu leito de hospital, poucas
semanas antes de sua morte, que ditou a quem ora
o evoca o último de seus artigos, sôbre a ficção in-
glêsa e a lição de uma prosa que “ é mais poética do
que lógica e nisto reside o segrêdo de sua eterni-
dade” .
Assim, praticando o panfleto político, no se­
manário “ Dom Casmurro” , ao lado de Osório Bor­
ba, e escrevendo crônicas e pequenos ensaios, José
Lins do R êgo assume, nos umbrais de sua vida li­
terária, uma atitude que é mais judicativa do que
criadora.
10 J o sé L in s do R êgo

A o longo de sua carreira, êle publicou vários


livros de ensaios e crônicas: Gordos e Magros
(1942), que reuniu trabalhos até de 1926, Pedro
Américo (1944), Conferências no Prata (1946),
Poesia e Vida (1946), Homens, Sêres e Coisas
(1952), A Casa e o Homem (1954) e O Nordeste na
Literatura Brasileira ( 1956), sem falar em dois li­
vros de viagens, Bota de Sete Léguas (1952) e Gre­
gos e Troianos (1956).
Êstes livros que reúnem a literatura de jornal
e suplemento de José Lins do R êgo comprovam
que o grande romancista brasileiro não possuía ape­
nas uma admirável natureza criadora, graças à qual
êle pôde gerar um dos maiores tesouros da nossa
ficção. Dispunha também de uma natureza en-
saística, era um homem que não se limitava a exer­
cer o ato da criação literária — também meditava
sôbre êle, também se voltava para a Esfinge das
Letras tentando decifrá-la.
D e início, é preciso que se saliente, com a
maior ênfase e talvez alguma impertinência, que a
pequena constelação de livros de ensaios e crôni­
cas de José Lins do R êgo é um aparelho literário
indispensável à total compreensão de sua persona­
lidade de criador. Aqui, nesta área de impressões,
julgamentos, conceitos, lembranças, cotejos, defi­
nições e polêmicas, não se acha um Lins do R êgo
residual, não estão as sobras do grande romancista.
Diariamente, êle escrevia artigos de jornal,
que freqüentavam os assuntos mais vários: livros,
conversas com amigos, fatos da realidade urbana
0 V ulcão e a F onte 11

ou rural, a vibração e a densidade da atualidade po­


lítica nacional ou internacional, todo êsse comple­
xo de acontecimentos que formam o pecúlio huma­
no e ideológico de cada dia. Assim, os leitores de
sua obra de ensaísta e cronista são conduzidos a
um mundo vivaz, dinâmico, que prima pela seduto­
ra diversidade de seus temas e que se inicia num
gabinete de trabalho para terminar num estádio
ululante. José Lins do R êgo foi uma criatura de
diálogo — fora da ficção, êle conversa interminã-
velmente com o leitor, contando-lhe casos, abrindo
seu coração com uma espantosa sinceridade.
Todos êsses volumes de ensaios e crônicas
têm, portanto, um papel importantíssimo no con­
junto de sua obra. Constituem o melhor roteiro ao
alcance do leitor desinteressado ou do crítico para
a compreensão de sua totalidade criadora, inclusi­
ve a área autobiográfica, confessional. Os livros
que êle leu, as pessoas com quem conversou no ca­
minho entre a casa e a porta da livraria, suas preo­
cupações estéticas predominantes e atitude diante
das outras artes, notadamente a Pintura, que tanto
o atraía, tudo isto, que é motivo de indagação, vi­
bra nas páginas transbordantes e generosas dêsse
grande prosador que não tinha papas na língua —
para usar aqui uma expressão que, estou certo, se­
ria de seu agrado.
Em suma, o que José Lins do R êgo praticou, no
terreno do ensaio e da crônica, da confissão jorna­
lística e do artigo de jornal, pode ser considerado
como o seu Diário de Escritor, apesar de sua ime­
12 J o sé L in s do R êgo

diata destinação pública. D os seus anos de ho­


mem de letras, na Paraíba, no R ecife e em Maceió,
até o fim de sua vida, êle produziu um grande diá­
rio de sua existência de escritor e cidadão, um jor­
nal onde fixou, preferentemente, a biografia inte­
lectual, a história de sua inteligência, “ ce fagotage
de tant de diverses pièces” que se entranha na pró­
pria biografia individual.
Os que, por desatenção ou hábito, têm de José
Lins do R êgo apenas uma visão uniforme, a do
grande criador desprovido de espírito crítico, dei­
tado no berço esplêndido de seu entusiasmo, de­
vem ser advertidos de que cultivam uma imagem
falsa. Confundem um sistema de criação com uma
atitude do espírito.
Para acentuar que, como poucos no elenco de
nossa história literária, José Lins do R êgo dispu­
nha de um dos mais eficazes apareihamentos críti­
cos de que temos notícia, basta lembrar que a cria­
ção, nêle, obedecia a um cadenciado ritmo de elabo­
ração intelectual, a um desfile de mentações orde­
nadas. Dir-se-ia que, nas profundezas de seu es­
pírito, nessa praça íntima onde as memórias vitais
ficam hospedadas à espera dos apelos da consciên­
cia, cumpria-se o cerimonial de uma ceva que não
admitia pressas nem chamamentos antecipados.
A êsse propósito, bastará evocar dois títulos
que jamais figurarão na lista das obras do nosso
clássico José Lins do R êg o: Cêrca Viva, o romance
que seria desenrolado no interior fluminense, tal­
vez em Vassouras (tema de excelentes ensaios in­
O V u lcão e a F onte 13

cluídos em Gordos e Magros), e que contaria a his­


tória de um homem cativo de uma obsessão amo­
rosa; e O Menino e o Carneiro, romance que se des­
tinaria simultaneamente a todos os seus leitores,
os adultos e as crianças, e seria uma espécie de
suma poética de sua vida e de sua obra.
Apesar dos aparentes ócios de José Lins do
R êgo — dos ócios dêsse homem que tanto traba­
lhou, escravo e senhor da memória e da imagina­
ção —, êsses romances não foram escritos, são es­
tréias que faltam em seu firmamento. E essa au­
sência, na relação das obras completas, mostra que
o grande criador sabia obedecer às leis de sua cria­
ção, sabia esperar pelo momento em que as vivên-
ciás de sua infância e da experiência viril, final­
mente mudadas em figuras e episódios, apontassem
na tona de sua consciência, como a ponta fina de
um “ iceberg” .
Conclusivamente, a produção ensaística de
Lins do R êgo ocupa, em sua obra total, o espaço re­
servado aos diários íntimos, aos “ n o t e b o o k s D e s ­
tinam-se, portanto, a uma missão da maior impor­
tância, que é a de iluminar, pela informação e exe­
gese, as regiões ainda obscuras da personalidade
do autor, tanto em face das questões imediatas
como dos problemas eternos.
É mais do que possível obter, pela leitura de
tantos textos variegados, uma imagem coerente e
viva do romancista de Bangüê, dêles extraindo con­
clusões de extrema validade, como o interêsse de
Lins do R êgo pelo problema da expressão literá­
14 J o sê L in s do R êg o

ria, seu amor à poesia, sua atração pela Pintura,


suas preocupações com o destino do Homem e da
Sociedade.

2 — O CALOR DA CRATERA

D e uma importância iundamental para a com­


preensão da figura criadora de José Lins do R êgo
é a sua fase alagoana, quando, nç auge de seu en­
tusiasmo de leitor e devorador de livros, colaborava
êle, intensamente, na imprensa provinciana. Eis
suas palavras, a respeito da atitude intelectual que,
então, nêle despontava: “ Começava a sentir aquêle
desejo de que fala Ramón Fernández, “ un désir
d’introduire le jugement dans son univers inté-
rieur” . Daí a necessidade de escrever sôbre os ou­
tros, de pretender criticar, de discorrer sôbre a cria­
ção. Nunca imaginava que fôsse capaz de fazer
um romance. Debati o modernismo. Fui muitas
vêzes injusto com os autores do movimento. Acer­
tei em muitos lances” .
Êste pequeno texto é um testemunho evidente
da inclinação e do propósito judicativos de Lins do
Rêgo, generosamente impulsionado pelo desejo de
falar dos outros, debruçar-se sôbre o alheio exem ­
plo. E revela ainda o participante da atualidade
literária, discutindo o problema do modernismo e,
com admirável lucidez, antecipando-se ao meio li­
terário da M etrópole na abordagem de certas ques­
tões artísticas. Nesta linha, basta evocar o que o
ensaísta de vinte e cinco anos de idade escreveu sô­
bre Mareei Proust, que lera, em 1925, um ano atrás,
0 V ulcão e a F o nte 15

quando promotor público na cidade mineira de Ma-


nhuaçu. E salientar que foi graças a muitas de
suas leituras de assinante de “La Nouvelle Revue
Française” e a sua influência renovadora que Jor­
g e de Lima, seu amigo de convívio diário em Ma­
ceió, recebeu estímulo para quebrar as grilhetas
parnasianas e surgir como o grande cantor do Nor­
deste, de suas terras moles e verdes, de suas pai­
sagens atravessadas pelos trens da Great W estern,
de suas molecas tomando banho de rio, das iaiás
suadas, das lavadeiras, dos bangüês, dos bandolei­
ros, das comidas apimentadas e também da Bahia
( “ Tu, como tôda mulher, tens os lugares sombrios
mais gostosos” ). E dizer ainda que coube a Lins
do R êgo fornecer a Jorge de Lima o tema de “ Essa
Nêga Fulô” , como uma espécie de contrapartida
nordestina ao “ Côco do Major”, de Mário de An­
drade, um dos poemas que o nosso romancista mais
amava.
A o reportar-se aos seus dias de ensaísta pro­
vinciano, José Lins do R êgo adianta uma confidên­
cia que possui raro poder de iluminação de sua con­
duta interior: “ Uma coisa continua firme no ho­
mem de quarenta anos: continuo a acreditar na li­
teratura como em coisa substancial à vida e essen­
cial para a grandeza do homem. Aquêle dar forma
poética ao real de Goethe é o que salva o homem de
ser somente um monstro de escuridão” .
Dar forma poética ao real — êsse postulado
goetheano explica, com uma felicidade rara, a se­
creta intenção criadora de José Lins do Rêgo. O
16 J o sé L in s do R êgo

grande escritor brasileiro, que tinha em As Afinida­


des Eletivas um dos seus livros preteridos, passou
tôda a vida literária, de Menino de Engenho a Meus
Verdes Anos, empenhado na tareia de dar iorma
poética ao real, isto é, em criar.
Foi José Lins do R êgo um iniatigável usuá­
rio de poetas, tanto na esfera da convivência hu­
mana ( e em verdade era um dos nossos) como no
plano do texto e do verso. Quem quer que percor­
ra suas páginas de ensaios e crônicas notará a ri­
queza de suas vistas diante do problema poético,
suas críticas à rigidez parnasiana, seu entusiasmo
pela efusão romântica, a vigilância e o interêsse
com que seguiu as várias etapas do nosso modernis­
mo poético, de 1922 à geração de 45. E, como uma
decorrência natural, essa abordagem do tema se ir­
radiava para outros territórios da criação artística,
uma vez que Lins do R êgo nela incluía tôdas as fa­
ces da invenção e expressão estéticas — pintores,
romancistas, músicos, dramaturgos, escultores,
poetas, todos eram figurantes de uma mesma peça
criadora, dançavam juntos no baile das quatro
artes.
Quer em face do problema da poesia, quer dian­
te de outras matérias de sua intimidade de leitor
ou de articulista, Lins do R êgo esparzia sôbre suas
páginas alguns comentários que nem sempre solu­
cionavam as contradições íntimas ou até ostensi­
vas. Isto não importa, porém, em qualquer des-
merecimento mental; ao contrário, êsses entrecho-
ques de idéias, essa fervilhação interior compro­
O V ulcão e a F onte 17

vam a densidade do ser de diálogo que foi o autor


de Pedra Bonita — o ser de comunicação, de per­
guntas e respostas, a criatura de conversa, até de
conversa fiada e de conversa de lotação.
Freqüentador assíduo dos poetas, José Lins
do R êgo — que foi antes e principalmente um poe­
ta, o rapsodo que cantou em grandes blocos sonoros
o declínio da aristocracia rural do Nordeste — sem­
pre viveu próximo da poesia, a ela se achegou como
quem se acerca da bôca de um vulcão, para sentir
o calor de inominadas profundezas, o fogo que vem
do centro da Terra e do centro de tudo.
D e início, êle atribui ao poeta, no catálogo das
confrarias literárias, uma missão privilegiada, de
criatura que é da copa e cozinha de Deus. Repele
uma criação poética baseada apenas na lucidez e
na técnica, e basta êsse postulado, tão sujeito às
confusões do verdadeiro sentido de lucidez e com­
posição poéticas, para se ter uma idéia de que, ao
longo de sua vida, da adolescência ao último ins­
tante de sua existência, êle pregou um ideal ro­
mântico de poesia.
Inspirando-se numa composição de Shelley,
evidentemente colhida na famosa obra do abade
Urómond, La Poésie Pure, Lins do R êgo concebe o
poeta como um inspirado, a receber visitas da Di­
vindade. Em muitos passos de sua atividade de
ensaísta e cronista, destaca-se sua defesa dos ro­
mânticos, que representariam o fogo sagrado, a
energia criadora, o exemplo supremo de liberdade
artística, em contraposição com a medida, a ordem
18 J o sé L in s do R êg o

e a disciplina dos clássicos. E, em seus exageros,


êle chega a sustentar que o senso de medida de
certos clássicos de bitolh estreita terminou contri­
buindo para a implantação de ditaduras, como se
estas, pendulares, também não se nutrissem do san­
gue romântico.
Admitindo a eficácia dos clássicos que são
como românticos domados, segundo a fórmula já
incorporada ao repertório dos lugares-comuns lite­
rários, José Lins do R êgo, como decorrência de seu
generoso instintivismo, via na disciplina poética
uma espécie de obstáculo à plena criação, um estrei­
to molde parnasiano, uma forma de cativeiro em
lugar de uma forma de libertação. Incorria em
êrro. Isto porque a recíproca dessa concepção se­
ria mais verdadeira ainda com a representação de
um universo poético onde o preço da liberdade fôs­
se a eterna disciplina, onde tôda a retórica disponí­
vel, tradicional ou íntima, existisse para fornecer
ao poeta um calendário de formas eficazes. Pois
a verdade é que os poetas, que andam só com a
Inspiração, andam sempre mal acompanhados. Há
que convidar para o passeio a outra môça, chamada
Forma, irmã gêmea da primeira, se é que ambas,
Inspiração e Forma, não são a mesma criatura.
Seu ensaio sôbre a conversão de Jorge de Lima
ao modernismo é outro dado fundamental de sua
coerência em relação ao problema da poesia. N es­
se trabalho, datado de 1927, o autor confere singu­
lar ênfase à liberdade de expressão e k'contribuição
nativa do poeta, atacando a correção gramatical e
O V u lcão e a F onte 19

o cativeiro parnasiano de que escapara o cantor de


“ Essa Nêga Fulô” .
Pitorescamente, diz Lins do R êg o: “ Jorge de
Lima passou dez anos fazendo sonetos de chave de
ouro. É o mesmo que afirmar que tirou dez anos
de prisão celular” . A êsse propósito, poder-se-ia
evocar que, na plenitude de seus dons poéticos, o
grande poeta, depois de ter percorrido os mais vá­
rios caminhos da criação lírica, de teor nativista e
religioso, sentimental e metafísico, acabaria produ­
zindo, talvez saudoso daquela doce prisão de sua
juventude, um Livro de Sonetos que é a densa rein-
venção de um molde antigo.

3 — 0 CAM INHO DOS BÚFALOS

“Para nós do Recife, essa Semana de A rte M o­


derna não existiu” , diz José Lins do R êgo, peremp-
tòriamente, numa das páginas de Gordos e Magros,
historiando sua atitude face ao movimento de 1922
e acentuando que, naquela época, em convívio com
o sociólogo Gilberto Freyre, então chegado da Eu-
ropn c dos Estados Unidos, se inclinou por um re-
gionalismo que escassas ligações poderiam man­
ter com n fornada dc pesquisa estética e de reinven-
{;íio fornutl omproondida pelos modernistas.
Saliente se, todavia, que Mário de Andrade e
seus companheiros (Ir rebelião pregavam um novo
ideal estéticO', isto é, formulavam um convite para
o estudo de uma arte de fazer, enquanto que o Sr.
Gilberto Freyre, por fôrça da natureza de sua espe­
20 J o s é L in s do R êgo

cialização, propugnava a adoção de uma substân­


cia regionalista, de uma nova consciência ética.
D e qualquer modo, com os paulistas da Semana
de A rte Moderna, Lins do R êgo ostenta, no início
de sua vida literária, um ponto de contato: a incon-
iormação diante dos padrões artísticos da época.
Seus ataques aos parnasianos e a atitude polêmica
iace à literatura oficial ligam-no ao grupo de S.
Paulo na mesma intenção demolidora, o que não
impede que, apesar da similaridade dessa posição
inicial, êle exiba um conjunto de idéias e visões que
culminariam, por assim dizer, numa réplica ao mo­
dernismo. Assim é que o romance Menino de Enge­
nho, pela sua intenção regionalista, tradicionalista,
memorialista e antiexperimentalista, pela sua fres­
ca linguagem de transmissão vital e não de aquisi­
ção livresca, surge como uma reação contra a li­
teratura experimental da Semana de A rte Moder­
na, opõe-se ao empenho construtivista dos escrito­
res de S. Paulo.
Era um novo surto, que se generalizaria numa
geração diferente: a de Rachel de Queiroz, de Jorge
Amado, de Graciliano Ramos, de uma pujante lite­
ratura que trazia a dupla novidade da linguagem
comunal e da denúncia social reveladora de um
mundo de miséria, fom e, canícula, êxodos, da mais
desbragada exploração do homem pelo homem. E
diante dessa avalancha de sólidos criadores que
também tinham descoberto o Brasil, mas não ape­
nas a paisagem ou o pitoresco, e sim também o ho­
mem que a animava, Oswald de Andrade, sensível à
O V ulcão b a F o nte 21

nova e poderosa realidade histórico-literária, os


chamou de búfalos do Nordeste.
“ O movimento literário que se irradia do Nor­
deste muito pouco teria que ver com o modernismo
do Sul. Nem mesmo em relação à língua. A lín­
gua de Mário de Andrade em Macunaíma nos pare­
ceu tão arrevesada quanto a dos sonetos de Alberto
de Oliveira. A língua que Mário de Andrade quis
introduzir com o seu livro é uma língua de fabri­
cação; mais um arranjo de filólogo erudito do que
um instrumento de comunicação oral ou escrito.”
E completa: “ Êste livro de Mário de Andrade é um
repositório do folclore, o livro mais cerebral que
já se escreveu entre nós. Se não fôsse o autor um
grande poeta, seria o Macunaíma uma coisa morta,
fôlha sêca, mais um fichário de erudição folclórica
do que um romance” .
Êstes conceitos de Lins do R êgo são num ar­
tigo em que defende a excelência do romance nor­
destino de censuras do crítico Sérgio Milliet, o
qual sustentava a primazia da Semana de A rte Mo­
derna. N o mesmo trabalho, o autor de Pedra Bo­
nita atribui a realização da Semana de A rte M o­
derna à “ meia dúzia de rapazes inteligentes e lidos
vm francês" c, na agitação modernista, vê “ uma
velharin, um desfrute que o gênio de Oswald de
Andrade inventara para divertir os seus ócios de
milionário
Estas linhas são extremamente curiosas por­
que mostram como Lins do R êgo tinha a noção exa­
ta das diferenças que o separavam dos modernis­
r

22 J o s é L in s d o R ê g o

tas. À língua pesquisada e inventada de Mário de


Andrade, êle opunha a sua língua geopolítica, jun-
cada pelas dicções das negras da cozinha do Enge­
nho Corredor, das cantigas dos cegos cantadores e
dos trabalhadores do eito, verdadeira melodia, do­
ce como uma ilor de açúcar e que, pela sua especí­
fica espontaneidade, está ifos antípodas da escrita
artística, de reinvenção vocabular e sintática, dos
modernistas ortodoxos. À língua de fabricação
pessoal de Mário de Andrade, êle replicava com a
língua de fabricação do povo.
Noutro passo de sua prosa ensaística, Lins do
R êgo chega a levar na troça o “ dinamismo cósmi­
co” de Graça Aranha. Todavia, os próprios mo­
dernistas de S. Paulo não tinham atitude diferente,
encarando o autor de Canaã como se êle fôsse uma
espécie de elefante branco. Assim, englobando
Graça Aranha e os escritores de S. Paulo no mesmo
foco de apreciação, Lins do R êgo mostrava não ter
compreendido, talvez por falta de informação, as
curiosas matizações estéticas do movimento.
Embora reconhecendo ter sido Mário de An­
drade — que não seria apenas seu grande amigo,
mas também um dos mais impressionantemente lú­
cidos críticos de sua obra — a maior figura da jor­
nada modernista, Lins do R êgo se revela melhor
identificado com Antônio de Alcântara Machado,
cuja língua deliciosa e intenção criadora de fixa­
dor de gentes e hábitos paulistas êle festeja, ao de­
plorar-lhe a morte prematura.
0 V ulcão e a F onte 23

A s restrições que êle faz ao sistema de compo­


sição poética de Mário de Andrade não o impedi­
ram de solicitar a seu amigo Jorge de Lima que
produzisse uma réplica nordestina ao “ Coco do Ma­
jor” , dando, assim, origem a “Essa Nêga Fulô” , e
evidenciando sua sensibilidade ao que o movimen­
to de 22 podia gerar de construtivo, de entranhada-
mente popular.
O espírito aristocrático, citadino, experimen­
tal, internacionalista e de supremacia formal do
modernismo da Semana de A rte Moderna, seu ca­
ráter polêmico e destrutivo como atitude básica
para a implantação de um novo sistema de criação
brasileiro colidiam, frontalmente, com o espírito
popularesco, rural, tradicionalista, regionalista e de
primazia da substância e mensagem dos chamados
búfalos do Nordeste.
É preciso, porém, reconhecer que foi o moder­
nismo, através de seus postulados de liberdade da
pesquisa e da criação artística, e valorização de um
critério de expressão antiacadêmico, que desbra­
vou o caminho pelo qual passariam os búfalos. . .
José Lins do Rêgo, para cavar mais fundo no
terreno da independência do grupo do Nordeste,
face aos modernistas de S. Paulo, acentua que o
poema “ Evocação do R ecife” , de Manuel Bandei­
ra, resultou de uma encomenda do sociólogo Gilber­
to Freyre para a edição do centenário do “ Diário de
Pernambuco” , em 1925. Saliente-se, porém, que
Manuel Bandeira já criara o verso livre brasileiro
desde 1913, ano em que produziu “ Carinho Triste” ;
24 J o sé L in s do R êgo

publicara Carnaval (1919) e ainda no ano anterior


à encomenda, isto é, em 1924, a “ Revista da Língua
Portuguêsa" lançara O Ritmo Dissoluto, onde, ao
lado do já citado “ Carinho Triste” , figuram “ Meni­
nos Carvoeiros” e “Na Rua do Sabão” . Conclusi­
vamente, o brasileirismo bandeiriano não eclodiu
ao sôpro da brisa regionalista do Recife, bastando
referir que o próprio Mário de Andrade considera o
Carnaval como um elo precursor do movimento, da­
do o seu verso-librismo.

4 — A FORM A NA SELVA

Escrevendo sôbre Fialho de Almeida, observa


José Lins do R êg o: “ O que êle foi como nenhum
escritor português foi o homem da terra portuguê­
sa, do campo, da terra como matriz de tudo. É o
mais telúrico dos homens de sua língua. Em Por­
tugal, a terra portuguêsa não tivera quem a situasse
com a fôrça dêle” . E, depois de acentuar que nem
mesmo Eça dispunha do aparelhamento nativo do
prosador de O País das Uvas, assim termina o nos­
so ensaísta: “ No Fialho dos ceifeiros, o português
r ú s tic o d e coração grande, a terra fecunda, o sol,
as árvores, as flôres aparecem na sua prosa como
elementos que são mais da vida do que da compo­
sição” .
O texto, com o seu entusiasmo pela terra ma­
ternal e a dissociação entre o elemento vital e a
construção artística, como se fôssem elementos an­
tagônicos e não estruturas que se fundem na obra
de arte, é típico da visão criadora e crítica de José
O V ulcão e a F onte 25

Lins do R êgo e denuncia uma constante de seu dis-


corrímento de ensaísta — o próprio título do seu
primeiro livro de ensaios, Gordos e Magros, é um
símbolo de tal vigilância diante do modo de expri-
mir-se dos escritores. Apreciando a divisão feita
por Azorín, sugere que essa diferença estilística se
opere não entre escritores ricos e pobres, mas gor­
dos e magros, caso gastem palavras como nababos
ou sejam secos e precisos e poupados.
Doutra feita, socorrendo-se em Montaigne, o
padroeiro dos ensaístas, diz: “ L e parler que j’aime
c ’est un parler simple et naif, tel sur le papier qu’á
la bouche” . E acentua preferir êsse falar ingênuo
e simples à correção acadêmica.
Contudo, é preciso salientar que, nesta obser­
vação, o autor de Pedra Bonita simplifica demasia­
damente o problema do estilo literário. Pois não
existem apenas a língua literária calcada nas for­
mas populares, rorejante das dicções coletivas, com
a sua seiva e pujança, e uma língua acadêmica rí­
gida e pobre, desvitalizada e descolorida. O pro­
blema do estilo não se reduz a um choque entre os
escritores dotados de uma energia popular, como
é o caso de José Lins do R êgo, e os escritores que
obedecem aos cânones da gramática normativa. Em
verdade, cada escritor cria sua? língua.
Leitor de Mareei Proust nos ócios de sua pro-
motoria pública, em Manhuaçu, José Lins do R êgo
há de se ter debruçado, mais de uma vez, diante de
um universo estilístico que, sem traduzir uma filia­
ção direta do artista à expressão tribal, nem por
26 J o sé L in s do R êgo

isso acusa qualquer debilidade acadêmica ou ser­


vidão gramatical. Êsse mundo dos artistas quey
como Henry James (em sua opinião o criador de
uma forma perfeita) ou Mareei Proust, encararam
o estilo como uma visão, uma maneira de surpreen­
der e fixar as criaturas, as paisagens e os objetos,
é uma réplica soberana à sua generalização.
Aliás, é preciso salientar que a Lins do R êgo,
noutros lugares de sua prosa ensaística, não esca­
pou essa concepção do estilo do escritor como uma
maneira de ver as coisas e os homens, o mundo e
o tempo. Quando Lima Barreto morreu, êle escre­
veu a frase que haveria de fazer fortuna: “ Os gran­
des escritores têm a sua língua; os medíocres, a
sua gramática” . E no trabalho “ A rte e Vida” , de
A Casa e o Homem, cita, a propósito de Tolstoi,
uma observação de Edmond Jaloux, segundo a qual
a sabedoria do estilo está em fazer-se “ uma escolha
com os materiais que a vida nos dá e submetê-los a
um certo ritmo que está em nós e que acompanha
nossa visão do mundo” . Em suma, avançando e
recuando, Lins do R êgo, apesar de algumas genera­
lizações, vê habitualmente no estilo o espelho de
uma cosmovisão.
Defendendo o postulado romântico como fun­
damental à expansão das literaturas jovens, plenas
de elementos telúricos, em constante intercâmbio
com a paisagem, o povo, os rios, as águas e as ter­
ras, José Lins do R êgo chega a afirmar que “ ainda
estamos em plena selva” . Todavia, mais uma vez
o grande escritor brasileiro incorreu em graciosa
0 V u lcão e a F onte 27

generalização, pois em tal selva Machado de Assis


escreveu as Memórias Póstumas de Brás Cubas,
Quincas Borba e Dom Casmurro, e Raul Pompéia
produziu O Ateneu. E nessa selva êle mesmo
criou uma obra-prima como Fogo Morto.
A meu ver, José Lins do Rêgo, amorosamente
agarrado a uma concepção telúrica da arte, não
compreendeu, com a lucidez necessária, o quanto a
literatura brasileira, pelo espetáculo da língua
transplantada da Península Ibérica e aqui tornada
a dòce língua de Alencar ( e também sua doce lín­
gua), e pelo sistema da cultura emigrada, é um dos
mais prodigiosos resultados de transplantação exis­
tentes no mundo. Isto porque não será apenas a
exploração dos elementos telúricos que fará o gran­
de escritor. O próprio Lins do R êgo, leitor infati­
gável do patrimônio cultural europeu, que nos ro­
mances de D. H. Lawrence e Thomas Hardy —
principalmente em Filhos e Amantes, do primeiro,
e Judas, O Obscuro, do segundo — tanto aprendeu
da arte do romance rural, jamais dispensou, talvez
num só dia de sua vida, as luzes que, através dos
livros, vinham da Europa iluminar-lhe as leituras
e as meditações de antigo menino de Engenho da
Várzea da Paraíba. O prosador que incluía os ce­
gos cantadores de feira da Paraíba e Pernambuco
entre os mestres de sua formação cultural, que lhe
tinham ensinado a contar histórias, assinava “ La
Nouvelle Revue Française” , encontrou num texto
de Mistral a inspiração para as páginas iniciais de
Menino de Engenho, freqüentava Stendhal e Rous-
28 J o sé L in s do R êgo

seau, Proust e Gide, Baudelaire e Balzac, os russos


e os espanhóis. E basta o exemplo de suas pági­
nas sôbre Veneza, Paris e Nápoles e o contexto de
seus livros de viagens, Bota de Sete Léguas e Gre­
gos e Troianos, para documentar, amplamente, que
o telúrico e o instintivo, o homem que sabia “ os se­
gredos da mata, os perigos dos bichos, as asperezas
da terra” , era um bom ocidental, que não se nutria
apenas das histórias da velha Totônia, alimentan­
do-se também da mitologia grega.
Num dos numerosos artigos em que se mani­
festa sôbre Mário de Andrade, êle classifica o au­
tor de Macunaíma: “ É assim um clássico, no senti­
do de ser um romântico que se mede, um românti­
co que não teme as fúrias da d e s o r d e m N e s s a
observação utiliza-se de conceitos que constituem
verdadeiro ritornelo em seu exercício crítico, bebi­
dos indisfarçàvelmente numa reflexão de Gide. E
acrescenta que o poeta que queria brincar com a for­
ma, “ é da forma, é íntimo da verdadeira forma, sem
a qual não haveria criação, arte” .
Vê-se, portanto, que, apesar dos entrechoques
e contradições, Lins do R êgo reconhece a falsidade
do postulado que confere antagonismo à vida e à
composição. A existência de uma forma verda­
deira, e não de uma enganadora forma acadêmica, é
reconhecida por êsse feudal patrono dos telúricos,
como uma condição insubstituível para a fatura de
arte. E é curioso que, escrevendo certa vez sôbre
um escritor como o norte-americano Thornton
Wilder, chegou a condicionar a madureza e a gran­
O V ulcão e a F onte 29

deza da literatura brasileira ao surto de livros como


A Ponte de São Luís Rei.
A o longo da prosa ensaistica de Lins do R êgo
existe, portanto, uma preocupação construtivista
que, coincidindo com a evolução formal de sua cria­
ção romanesca, testemunha uma intimidade cres­
cente do artista com a verdadeira forma — aquela
que êle viu em Mário de Andrade e que Mário de
Andrade viu nêle.

5 — 0 C A N A V IA L NA CONCHA

Para Lins do R êgo, a missão da poesia é ser


uma arte a serviço do homem e da vida. A o con­
siderar Manuel Bandeira, seu poeta brasileiro pre­
ferido, ,(um mestre da vida, no grande sentido da
expressão” , o autor de Gordos e Magros mostra ser
a lição humana o que êle procura, preferentemente,
nos livros de poemas. E a poesia, como o sol de
um sistema literário, é a base de sua concepção
criadora, de tal modo que, no sociólogo Gilberto
Freyre, seu amigo desde 1923, êle aponta o poeta
convizinho do estudioso de ciências sociais para
melhor explicá-lo. E, pronunciando-se sôbre o
gaúcho Simões Lopes N eto, o rapsodo do “ Negri-
nho do Pastoreio” , êle diz: “Ê ste era poeta, tinha
poderes nativos, fôrça de criador
Em pintores como Portinari, Cícero Dias e
Pancetti, o ensaísta festeja a sugestão poética dos
quadros e salienta um cosmovisão que se nutre das
coisas mais ligadas à experiência vital, à terra nati­
va, à parafernália da infância existida. E em seu
30 J o sé L in s do R êgo

último artigo, ditado quando o grande criador já


estava diante da morte e a enfrentava, a essa inimi­
ga desde a infância, com uma nobreza e coragem
extraordinárias, êle falou “ naquilo que é o mais im­
portante do homem, que é a sua elaboração poéti-
ca” . Basta essa frase para definir-lhe todo o siste­
ma criador, e os leitores, que vieram seguindo, nas
várzeas destas prosas, o itinerário ensaistico de
Lins do R êgo, devem guardá-la como o sussurro do
mar (o mar de canaviais) no silêncio de uma
concha.
Tendo escrito sôbre poetas românticos, como
é o caso de Fagundes Varela e Junqueira Freire, pá­
ginas cheias de ricas observações, José Lins do R ê­
go sempre defenderá, em seu jornalismo literário,
o criador que, visitado pelas divindades — ou talvez
pela criadagem das divindades, no caso de estas se
encontrarem assoberbadas de afazeres celestiais — ,
se sobrepõe à ordem e à polícia formal, mesmo
quando essa maravilhosa desordem fôr um carac­
terístico tribal, compartido das postulações de uma
escola.
Recorrendo aqui a um poeta que mais de uma
vez surgiu, sombra clara, na galeria que cercava
José Lins do R êgo como uma diáfana coorte de an­
jos, recorrendo a Shelley, que definiu a poesia como
“ the expression of the imagination” , direi que nes­
se sentido ela cobria tôda a existência literária e
humana do autor de Fogo Morto. Êle poderia aco­
lher, em tôda a sua plenitude, a frase de A Defence
of Poetry segundo a qual “ a poem is the very image
0 V ulcão e a F onte 31

o i liie expressed in its eternal truth” . E não é sem


motivo que um de seus livros de ensaios se intitula
precisamente Poesia e Vida — união de duas pala­
vras, dos dois reinos da imaginação e da realidade,
da criação e da existência, que êle jamais imaginou
separados ou antagônicos.
Tendo assumido uma atitude libertária e in­
transigente diante das formulações estéticas que, a
seu ver, espartilhavam a efusão criadora, êsse par­
tidário infatigável de uma “ poesia que é substância
de álma, mais do que recurso de técnica” , investiu
também contra o método.
Êle que, apesar de sua aparente desordem, foi
um grande metódico, tanto assim que tinha horas
certas para escrever (sempre de manhã, pois acor­
dava cedo, quando os passarinhos tiravam suas
alvoradas) e posição exata de ler (sempre estendi­
do na cama), ao glosar uma frase do critico norte-
americano Mencken, segundo a qual não há méto­
do possível no romance, chega a amplificá-la e exa­
gerá-la de tal modo, que acentua: “Não há método
para fazer-se romance, como não existiu método
para a criação do mundo. Deus não teve sistema
para o seu trabalho, como não tivera Tolstoi para
compor o Guerra e Paz. Ambos trabalharam como
agentes fecundadores, pela fôrça do grande instin­
to criador” .
Tão incisivas sustentações merecem um co­
mentário. Evidentemente, ao negar a existência
de um método no ato de compor um romance, Lins
do R êgo queria dizer que essa criação, constituindo
32 J o s é L in s d o R êgo

um acontecimento individual, sujeito a leis espe­


ciais do espirito, não dispõe de receitas eficazes.
Pois há um método de escrever romances — um
método pessoal, íntimo — e o próprio José Lins do
R êgo, noutros passos de sua prosa de ensaio e crô­
nica, defende a existência do romance como um g ê­
nero nitidamente demarcado, com a sua legislação
formal, suas personagens e sua história.
E Deus, ao contrário do que supôs o romancis­
ta nessa ousada ponderação terrestre, teve um mé­
todo, decerto o mais excelente de todos, para a
criação do mundo, como o comprova a grande or­
dem sideral.

6 — SALINA D E P A P E L
\

Obedecendo aos próprios ditames do ensaio,


êsse gênero literário que é fronteiriço da crônica, e,
coerente com o seu teor montaigneano e humanísti-
co, se nutre de tudo, atraindo a diversidade dos as­
suntos como um ímã vigilante, José Lins do R êgo
não se manifestou, em sua prosa distanciada da fic­
ção, apenas sôbre problemas estéticos.
IJm dos melhores trabalhos que produziu, nes­
sa grande seara, é A Casa e o Homem, no qual estu­
da a evolução da Arquitetura no Brasil, a criação de
um tipo de casa à medida do homem brasileiro e
destinada a solucionar os problemas e a atender às
exigências de uma civilização equatorial. “ O ho­
mem para bem viver não pode ser conduzido contra
a paisagem. Êle não deve ser nunca um assassino
de paisagens. Para ser mais humano tem que con­
0 V ulcão e a F onte 33

fundir-se com a Natureza para amá-la como aman­


te e fecundá-la como gênio procriador.”
Quem quer que percorra a bagagem do ensaís­
ta José Lins do R êgo haverá de apreciar a extrema
variação de seus temas, o nomadismo temático que
o faz percorrer desde o íato-diverso policial ou es­
portivo ao tema político ou econômico. Do comen­
tário literário ao depoimento humano, tudo é moti­
vo para glosa e meditação, pretexto para que o pro­
sador visite fagueiramente as mais diferentes pro­
víncias dos assuntos, da música de Mozart a uma
iniciativa urbanística. D e vez em quando, pode
chocar o leitor o exagêro ou desproporção com que
se manifesta sôbre figuras de sua “ entourage” pes­
soal. É que o grande romancista, com a sua natu­
reza pletórica, seu instintivismo às vêzes mal doma­
do, preferia pecar pela generosidade, daí a presen­
ça, em sua obra judie ativa, de tantas manifestações
residuais de amizade.
Em Gordos e Magros, há dois ensaios sôbre
Cabo Frio que o são no melhor sentido inglês do
gênero. Notas sôbre o homem, a paisagem, as sa­
linas, as lagoas, os cata-ventos, a água-mãe, “ o mar
bem perto, um mar que é de um verde das praias
nordestinas” , tudo na reconstituição clara e comovi­
da daquele pequeno universo de cal, peixe e sal, po­
de ser considerado como a origem do romance
Água-Mãe.
Também as páginas de Lins do R êgo sôbre
Vassouras, testemunho de suas andanças pelo inte­
rior fluminense, Rio Grande do Sul, e outros luga­
34 José L in s d o R ê g o

res, acentuam a presença de um homem que sabia


olhar as coisas, que dispunha de certa maneira de
ver sem a qual não é possível a nenhum artista exis­
tir. E sabia ver com muita clareza e lucidez, tanto
assim que mais de uma vez revela sua inconforma-
ção diante da visão de Euclides da Cunha, o qual, a
seu juízo, tinha o ôlho de Goya, e, com a sua magia
de artista barroco, deformava o que via, principal­
mente o homem do litoral, tão maltratado em Os
Sertões e chamado de mestiços neurastênicos do li­
toral, sofrente de raquitismo exaustivo.
Nas suas notas sôbre a Paraíba, essa visão dos
humanos, dos bichos, da terra verde e úmida ou
cinzenta e canicular, dos rios e da organização agrí­
cola, dos engenhos e usinai, surge dotada de par­
ticular densidade, na fusão da memória e da obser­
vação, da lembrança e da reflexão. E aos que, por
uma deformação profissional ou desatentos diante
da complexidade inventiva de Lins do Rêgo, se ha­
bituaram a ver em sua obra, de preferência, a face
sociológica, como se êle fôsse apenas o extraordiná­
rio executor de um sistema ecológico, nada mais re­
comendável do que apreciá-lo numa posição exata­
mente inversa, isto é, como um homem dotado de
uma visão criadora, que ensinou a ver em lugar de
ser ensinado, autônomo e soberano na construção
de um mundo que funde, num compacto bloco ver­
bal, a memória e a imaginação e onde tudo o que foi
vivido e experimentado retorna à luz do dia, revi­
talizado pela metamorfose da invenção.
O V ulcão e a F onte 35

A essa visão das coisas e dos sêres, José Lins


do R êgo soube dar o indispensável rendimento cria­
dor, em suas várias matizações, fôsse uma cheia do
Paraíba ou um templo numa colina ateniense. Bo­
ta de Sete Léguas e Gregos e Troianos, marcados
pelo teor do monólogo andejo, dada a condição de
livros de viagens, participam também da natureza
ensaística, tal como a narrativa que Montaigne fêz
de sua viagem à Itália ou à Suíça, ou as deambula-
ÇÕes dos inglêses em geral.
Êles iluminam a mais larga etapa de cultura de
José Lins do Rêgo, para quem as viagens eram li­
ções, ciclos de aprendizagem, labor humanístico, e
mostram como êsse espírito “ terrien” dispunha de
uma sensibilidade porosa ao repertório estrangeiro.
Seu espólio de prosa ensaística não guarda ape­
nas as operações de um crítico de matérias literá­
rias. Fiel à sua ação pública de escritor, coerente
com o jaez de um gênero que é, em última análise,
a atitude de uma inteligência ciosa de sua mobili­
dade e disponibilidade, o ensaísta José Lins do
Rêgo foi um crítico da vida.
“ Eu não tenho feito outra coisa, na vida, que
tirar partido das coisas vividas. Inventar tudo,
não é o meu forte. Eu sempre considerei o mundo
da realidade mais genial que o meu próprio gênio.,p
Estas palavras de Goethe, que êle cita em Homens,
Sêres e Coisas, dão uma medida exata de sua per­
sonalidade. D e Menino de Engenho a Usina, de
Pureza a Fogo Morto, a Cangaceiros e a Meus Ver­
des Anos, elas cadenciam o ritmo das ficções de
36 J o s é L in s do R êg o

Lins do R êgo como um postulado e uma modula­


ção, testemunhando a reflexão do criador sôbre sua
própria criação, evidenciando o autojulgamento e
comprovando que êle, ensaiando-se sempre, com
uma pertinácia extraordinária, realizou, ao lado de
sua poderosa obra de imaginação, um texto crítico
que permite uma abordagem mais lúcida ao seu Ro­
mance.

LÊDO IV O
NOTAS DE UMA VIAGEM
R EALID AD E GREGA

Situada na fronteira do Oriente, persistem na


Grécia festejos de velhas culturas mais antigas que
a de sua história mergulhada na lenda. O grego é
a raiz do mundo ocidental, ao mesmo tempo que se
situam nos confins da Ásia as suas origens de raça.
Por isto tudo, sente-se aqui o Oriente Médio no po­
vo da rua. Não foi a dominação turca que marcou
o grego do fatalismo islâmico. Antes de Maomé
já havia na vida dos helenos a marca dos medas,
das invasões persas, do comércio fenício. Os mer­
cadores do Oriente lhes ensinaram a ciência náuti­
ca. Quando o ocidental, que aprendeu a discutir
os problemas do homem nos filósofos da Ática, se
aproxima do grego, espanta-se da conduta que êste
mantém em relação à vida. A hora exata não é
para êles uma amarra aos acontecimentos. Pode
um grego da rua ter um compromisso marcado, mas
se lhe aparece um amigo para uma conversa, êle
se esquece de tudo para satisfazer a sua alegria.
Não se lembra mais da hora e tudo passa a ser da­
quele instante. Sendo um país de sem-trabalho,
aqui ninguém se importa de perder um emprego.
40 J o sé L in s do R êgo

O grego não tem mêdo do dia de amanhã. Como


dizia o seu grande poeta Palma, na Grécia vive-se
de esperança. É um povo de coragem de leão e,
no entanto, pode um grupo passar uma noite em
tôm o de uma mesa de café a se descompor sem que
do bate-bôca saia um crime de morte. São os ho­
mens mais intransigentes em convicções políticas,
e quando saem à rua para se bater não perdoam aos
inimigos. Vem destas contradições violentas a
realidade grega de hoje.

TA R D E GREGA

Dizia o Marquês De Custine que os maus mo­


mentos da vida do homem ^que corre o mundo são
aquêles em que êle sente que a curiosidade lhe fal­
ta. A curiosidade é o espírito*, o sôpro, a alma do
viajante. É como o vento para um navio. Sem
curiosidade todo viajante se transforma num men­
tiroso, hipócrita da sensibilidade. Será um pro­
feta sem caridade. Sentia-se neste estado o Mar­
quês De Custine depois de suas viagens à Ingla­
terra ^ à Rússia. Faltava-lhe ânimo para desco­
brir, reduzido ao triste papel de poeta obrigado a
rimar, sem que o fogo da inspiração lhe abrasasse
o coração. Um Don Juan obrigado a amar sem
amor.
*

Às vêzes todos nós passamos por fases seme­


lhantes. A sensibilidade se entorpece e o espírito
O V u l c Xo e a F onte 41

se entrega às angustiosas crises de indiferença.


Mas, de repente, uma réstia de luz sôbre uma pedra,,
um canto de pássaro na madrugada, a Lua solitária
no céu, o cheiro das flôres, as pequenas coisas da
terra nos arrancam do túnel, aquele terrível túnel
a que se refere o amigo Hamilton Nogueira, e tudo
se cobre de ressurreição. O coração bate mais for­
te, a alma se alivia de pesos de chumbo e a poesia
humilde adeja outra vez como as abelhas e o ho­
mem volta a ser o que era. O mestre Rousseau
muito falava destas quedas de vitalidade e era para
o retiro de suas tendas de recolhimento que êle se
voltava confiando no milagre da Natureza. Agora
mesmo o sol das seis horas faiscava sôbre o Hime-
to. As pedras que deram lajes para as colunas dos
templos pareciam uma caieira de encostas pegando
fogo. E com pouco mais, com o instante de cinco
minutos, tudo se cobria de mantos, de paramentos
de semana santa. Um roxo desmaiado se combi­
nava com aquêle purpurino de que Ovídio falava
num poema de amor. O purpúreo do Himeto das
vestes cardinalícias, das litúrgicas côres da Igreja.
Mais para longe o Pentélico era todo de safira. A
luz que o castigara o dia inteiro caía sôbre êle com
temuras femininas. Fiquei uma hora inteira a
olhar êste jôgo fabuloso de côres. As cerâmicas
áticas, as colunas dóricas, o sorriso misterioso de
Vênus Afrodite vinham daqueles repentes maravi­
lhosos da natureza. O sol se punha devagar, dei­
xando sôbre as pedras da Acrópole as suas manchas
de sangue. O mármore do Partenon bebia aquelas
42 J o sé L in s do R êgo

golfadas para resplandecer como corpo humano.


Era todo êle de carne.
*
Fôra-se a minha melancolia de vesânico. E
só me ficava a tarde grega que eu via de um terra­
ço coberto de jasmineiros. O vento enfunava outra
vez as velas de minha imaginação.

PIOS DE CORUJA

Um homem dos fins do século X V III olhava


o mundo que a Revolução imaginara edificar, para a
eternidade, e se lastimava com a melancolia dos que
como nós estamos a medir os perigos que corremos
pela vitória dos princípios de nova filosofia de vida.
Agora se opera pela raiz o que se fizera pelos ga­
lhos. O que a grande Revolução aluíra não fôra
a essência de uma conduta do homem perante Deus.
Apenas se visava a parte exterior do Cristianismo.
A idéia da Providência permanecia intata como
fôrça que os homens haviam abastardado. Deus
não era o ópio do povo, mas o Supremo Arquiteto
que comandava o Universo. Nos dias de hoje Deus
não é outra coisa que a guarda de interêsse da clas­
se dominante. E, por conseguinte, um inimigo do
homem. Mas vale a pena voltar aos começos do
século X IX e ouvir um nobre dotado de gênio a
falar de uma situação que lhe parecia no fim.
*
É o Marquês De Custine quem fala. “ Por
tôda parte sinto a terra tremer, o mundo antigo me
0 V ulcão e a F o nte 43

parece destroçado. E acho que os arquitetos de-


molidores não me dão a certeza de que o palácio do
futuro possa valer o meu templo do passado. O as­
pecto das sociedades mais modernas não dissipa a
minha desconfiança. Aí está a enfadonha Améri­
ca com as suas inquietudes mercantis, sua indife­
rença religiosa e o seu estreito puritanismo que ti-
raniza os espíritos em nome da libertação do pen­
samento. Nada disto pode valer a decomposição
de Itália tal qual a construíra a Idade Média ou a
ruína da velha Espanha. Os que nos falam da
prosperidade material dos Estados Unidos são
sempre homens de grandes teorias e de vistas cur­
tas; copistas dos filantropos. Êstes são os revolu­
cionários que procuram substituir a ordem aristo­
crática. Em nome da pureza da vida se fixam em
mudanças superficiais. Fazem-nos lembrar o tu­
tor que pregava a um jovem apaixonado a chorar
a morte da bem-amada: meu filho, eu sei que ela
era bela, mas olha esta outra que eu te trago para
substituí-la; que boa saúde, que filhos ela te dará.”
*

Escrevia o Marquês, rapaz da melhor socieda­


de, amigo de Madame Recamier e discípulo de Cha-
teaubriand do A tala, justamente quando as cor­
tes européias se aburguesavam, com os parlamen­
tos liberais tomando conta do absolutismo derrota­
do em 1879. O nobre não se conformava com a no­
va sociedade que as guerras de Napoleão fecunda­
ram com o espêsso sangue popular. A vida para
44 J o sé L i n s do R êgo

êle se recolhia nos salões mundanos onde ainda era


possível luzir como diamante. A sociedade perde­
ra a sua finura e os homens se voltavam para a pros­
peridade material com fervor. A América que
Tocqueville apontava como a vitória legítima da
Democracia exasperava o requinte do Marquês sa­
turado de esnobismo. O gênio literário salvou-o
do saudosismo mesquinho. De Custine escrevia
como Saint-Simon, com a acuidade de ver no fun­
do da alma. Apenas não tinha fôrças para o mun­
do que aparecia em sua frente. Piava como coruja
em igreja velha.

OS GREGOS

O que restaria dos gregos dos velhos tempos?


Para muita gente, que olha as coisas pela superfí­
cie, nada. Mas se nos detivermos a olhar os ho­
mens como criaturas, haveremos de chegar a outra
conclusão. Os gregos antigos persistem, apesar de
a língua, a religião e os costumes se terem modifi­
cado radicalmente. Os quatrocentos anos de
ocupação turca não destruíram as raízes milenárias.
Se a especulação filosófica desapareceu, não desa­
pareceram certos caracteres que, ainda hoje, nos
identificam com o povo volúvel das épocas herói­
cas. Quando foi da resistência nas montanhas, na
última guerra, gregos se comportaram com a bra­
vura dos personagens de Homero. Fizeram êles
o jôgo com a morte tal qual um Ajax. Só lhes fal­
taram os deuses, mas a presença dos ícones valiam
pelos grandes do Olimpo. A Grécia de hoje é po­
0 V ulcão e a F o nte 45

bre como nos tempos de Péricles. A erosão conti­


nua a desnudar as montanhas, a labuta do campo é
penosa, os rebanhos se fixam em carneiros. Mas
o que formava o caráter do povo marítimo não se
diluiu. As maiores frotas de navegação mercantil
do mundo estão em mãos de gregos. Não perde­
ram os gregos a ambição de Ulisses. A viagem
como especulação, riqueza conquistada, é a sua
maior fôrça.

Os Niarchos e os Onássis concentram, em suas


mãos, para mais de nove milhões de toneladas de
barcos mercantes. Os maiores petroleiros são dos
gregos que fazem os fretes do Oriente Próximo e
da Venezuela. Onássis tem usado tôda a solércia
de Ulisses para dominar o Mediterrâneo. Hoje em
dia é o banqueiro de Monte Cario. E não faz mui­
to tempo que evitou o escândalo no “ Banco dos Me­
tais” que outro grego havia fomentado. Niarchos
engendra sociedades fantásticas, na América do
Norte, levando em suas rêdes até homens de Esta­
do como Stettinius. Êstes são os gregos de fama
universal. Há, porém, o homem da rua. E aí nós
vamos encontrar, bem vivos, aquêles mesmos que
fizeram as cidades ruidosas. O grego gosta da
rua e não é dado à usura. Se ganha muito, gasta
sempre mais do que ganha. As festas de famílias
modestas consomem ordenados de um mês. Para
o grego, o nascimento, o batizado, o casamento são
acontecimentos para dias de regozijo. É preciso
46 José L in s d o R ê g o

gastar para mostrar que está vivo. Come-se e be­


be-se pela glória de Deus e felicidade dos homens.
Apesar de pobre, o camponês grego não tem o gos­
to da poupança como o da França.
*
|
O dinheiro não é o sangue do grego, mas a sua
oportunidade de mostrar que está vivo, de agradar
os amigos. Os romanos temiam a esperteza dos
gregos e há até um verso de Virgílio que diz que se
devia temer até os seus presentes. É que os roma­
nos amavam o dinheiro e faziam do ouro um deus
onipotente. César mandou que colocassem cabos
de ouro nas lanças de seus soldados para que, quan­
do fugissem, não deixassem ias armas cair no chão.
O grego de hoje enche as mesas das praças para
beber café e sorver um copo de água. Ainda não
vi um bêbedo nas ruas de Atenas. A conversa ain­
da é a razão de ser de grupos que debatem com elo­
qüência os fatos do dia. A procura de jornais é fei­
ta com avidez. Desde que não há mais trabalho, o
grego procura as praias ou flana pelas ruas. Para
êle andar à toa não é perder tempo. É um exerci-
cio para a imaginação. Os gregos não estão con­
tando os dias como quantidades sem denominador
comum. O tempo dá-lhes a consciência da Eter­
nidade.

C IV ILIZA Ç Ã O GREGA

O conflito que se estabeleceu entre o pensa­


mento filosófico e a vida social, na Grécia, nos pa­
0 V u lcão e a F onte 47

rece a luta entre duas naturezas opostas. Os gre­


gos que criavam as idéias, os mestres que coman­
davam em suas escolas davam a impressão de que
pregavam no deserto, tão rudimentar era a vida dos
gregos, em sociedade. Para um Platão, que foi a
maior concepção humana do homem diante da di­
vindade, havia o grupo social mais primitivo. A
vida de família, os contatos do homem com as pe­
quenas coisas do cotidiano não revelam finura de
espécie alguma. Eram os gregos do tempo de Pé-
ricles tão primitivos em higiene e asseio do corpo
como qualquer sertanejo de 1904. Não tomavam
banho, limpavam as mãos sujas nos cabelos,
cuspiam no chão. O banho não era bem visto na
Grécia. Tanto que as termas, em Atenas, e os ba­
nheiros em casas particulares foram proibidos. Un-
tavam os homens, como os índios, o corpo de óleo,
e as mulheres tomavam banhos de essências so­
mente para evitar o mau cheiro.

Mestres em arte (Fídias pode ser considerado


uma síntese da beleza plástica), ginastas, homens
de corpos belos e, no entanto, inimigos de uma du­
cha, de uma banheira. As autoridades, em histó­
ria antiga, dizem que, para um grego que ia a Ágora
deitar sabedoria, lavar os dedos ao sair de casa era
o supremo esforço. O que defendia o grego dos pe­
rigos das doenças era a sobriedade no comer. An­
davam muito e comiam pouco. É verdade que, de
quando em vez, ao som de flauta e citara, faziam as
48 J o s é L in s d o R ê g o

suas farras que iam até à aurora de dedos de rosas.


Comiam e bebiam como loucos. Mas passada a
festa voltavam às azeitonas e ao pedaço de pão. Os
gregos gordos eram raros. Anacreonte fala de ve­
lhos que dançavam como meninos. É que o pouco
comer não permitia os gotosos. Sem as termas que
queimavam gorduras, os romanos estourariam
pelos ventres rotundos. Os gregos amavam o Sol
e os concursos intermináveis das ágoras. Às vêzes
bebiam, como Sócrates, dois litros de vinho e cor­
riam para o Mar Egeu para lavar mais a alma do
que o corpo.
*

No tempo de Aristóteles, Alexandre matou


tôda a população de Tebas. Até meninos foram
assados como leitão para a gula dos macedônios
furiosos. O progresso intelectual nada tinha que
ver com a moral do tempo. E o tal progresso ma­
terial, tampouco. No tempo de Shakespeare co­
mia-se com as mãos e bebia-se água em copo de
couro. O que vale é que ao lado de Alexandre ha­
via um Apeles. A Grécia não vale pelos crimes
monstruosos de seus homens e deuses, mas pelas
sementes de civilização que plantou. O progresso
é outra história. Ainda hoje há turista americano
que não compreende tanto barulho pelas pedras da
Acrópole. E, se um hotel do interior do país não
se apresenta com água fria e quente, o turista re­
clama da Agência. E é por isto que o turismo caro
ainda não vingou totalmente na Grécia. A civili­
O V ulcão e a F onte 49

zação é mais alguma coisa que um encanamento


perfeito. Civilização é mais Platão do que a Gene­
ral Electric.

POÇO DA PAN ELA E O HIM ETO

Na manhã de domingo, saímos para fugir do


calor à procura da montanha. O sol espalhava-se
com tôda a vontade, reduzindo as coisas a uma só
gradação de luz. Até a sombra parecia um cober­
tor de lã. Então apelamos para o refúgio dos pi­
nheiros que crescem pelas encostas das pedreiras
de mármore. As abelhas do Himeto não são so­
mente imagens poéticas. Até hoje trabalham
para o homem como no tempo de Anacreonte. O
mel do Himeto vem de cortiços que se alinham
pelas brechas das crateras e bosques. Quando che­
ga a primavera as vespas operárias saem de suas
moradias de caixão para o ofício de maravilhosa
química.
*

Agora só nos interessava a brandura de recan­


to onde pudéssemos respirar melhor. Aos poucos
as coisas foram mudando. Soprava um vento mais
leve. E, quando paramos em Kaisarini, um bos­
que de pinheiro gemia ao vento como os coqueiros
das praias paraibanas. Havia gente em derredor
da fonte que corria em murmúrio de bica da mata..
Môças espichadas na grama e meninos a correr em
revoadas de libertos. As águas de Kaisarini têm
poderes contra a esterilidade. As mulheres mani-
50 J o sé L in s do R êgo

nhas aqui chegavam para beber o líquido que lhes


aviva as entranhas. Conta-se que, antes do Cris­
tianismo, Afrodite tivera ali um templo ao amor
fecundo. Hoje, à antiguidade sucedeu o culto da
virgem. Na velha igreja do século IX há afrescos
onde aparece a virgem cercada dos arcanjos Miguel
e Gabriel. O convento de origem católica viveu
da fonte de águas lustrais. A água milagrosa ven­
dia-se em Atenas em bilhas e ânforas. Uma vez
por ano os atenienses subiam o Himeto para as fes­
tas misturadas de paganismo e ardores cristãos. O
porteiro do velho convento nos mostra o banho dos
frades cavado no subsolo, onde a água cristalina era
aquecida em forno. Os frades não queriam perder
as virtudes curativas da fonte. Mas tínhamos que
subir até ao pico mais alto do Himeto, a quase 1.200
metros.

O sol da montanha queimava de fato. A ven­


tania sem mormaço nos enganava. O carro arras­
tava-se sôbre as pedras do càminho rude. Depois
pegamos um trecho de asfalto até o “ plateau” . Pu­
demos olhar lá de cima todos os lados de Atenas.
Só o Pentélico nos barrava a vista. A cidade, po­
rém, mostrava-se inteira. O casario branco e o mar
distante no azul-claro de manto de Nossa Senhora.
Paramos uns dez minutos para gozar uma natureza
que está nos livros eternos. Dali avistava-se a
Acrópole, bem nítida nas suas colunas, a Agora, os
recantos por onde pisaram homens que sugaram a
0 V ulcão e a F o nte 51

beleza e a sabedoria dos deuses. As abelhas de


Anacreonte não davam sinal de vida, mas canta­
vam as cigarras escondidas no verde dos pinheiros,
sem luxos de camarins de prima-donas. Lembrei-
me do amigo Olegário Mariano no meio daquelas
boêmias mais cantadeiras que as suas irmãs do Po­
ço da Panela. Milagres que só os poetas conse­
gu em naquelas aproximações de dois mundos: Poço
da Panela e o Himeto.

SAFO DE LESBOS

André Bounard fala de Safo de Lesbos como


de um país estranho, cheio de maravilhas. O que
caracteriza Safo é que com ela o lirismo começou
a viver ligado à carne. Os poetas antigos, mesmo
Eurípedes, falavam do amor com outra língua. O
poeta colocava-se acima das paixões e não era êle
mesmo o instrumento que vibrava ao sopro das fú­
rias. O poeta doutrinava sôbre o amor, ao invés
de padecer como os mortais. Os amôres de Safo
não eram dos deuses nem dos heróis. Era amor,
carne de gente, coração partido de desejos. A vio­
lência dos versos pedia correspondência humana.
Safo queria sentir-se uma folha no turbilhão. Por
isso, a sua poesia foi única na Grécia. Quando can­
tava, a sua carne vibrava como harpa. Ela dizia
ao seu amor: “ A minha língua está sêca, um fogo
sutil queima a minha pele, os meus olhos não vêem
mais nada, os meus ouvidos estão surdos, um suor
52 J o sé L in s do R êgo

de febre me banha as partes, treme o meu corpo, fi-


co verde como a erva. Eu vou morrer. É o amor” .
*
Tudo isto está bem distante das odes de Pín-
daro, dos cânticos heróicos de Homero. Agora é o
fato pessoal que comanda. A poesia passa a ser
fisiológica. O desejo encontra a sua expressão.
Não há adjetivos nos versos de Safo, mas verbos e
nomes. Os poetas idílicos falam de amor como de
um combate. Andrômaca dirige-se a Heitor em
tom de escrava. Em Safo quem manda é o amor
que chega ao desespêro do ciúme que é mais car­
nal do que em Shakespeare. Desde que lhe foge a
criatura amada, Safo se aniquila. As imagens que
lhe dão vida provêm da sua natureza insidiosa e
brutal. Mandam as forças cegas do mundo físico.
Safo não se esconde da bêsta. Tôdas as paixões
têm um objeto: a criatura amada. Safo não brin­
ca com o amor. Antes o desafia para dominá-lo ou
deixar-se vencer. Ela ama o sol, as alegrias da ju­
ventude, o noturno das noites perfumadas. Mas
que tijdo lhe seja a representação dos seus desejos.
Flôres do campo, cantar dos pássaros, perfumes
das essências, só têm vida quando ligados à carne
do amor. Safo de Lesbos criou a poesia dos que
morrem de amor.

V ID A DU RA

A vida aqui na Europa é dura, em qualquer país


ou região. Tome-se a Suíça do cartão-postal e dos
0 V ulcão e a F onte 53

lagos ridentes e encontramos o natural da terra


trabalhando, dia e noite, para o arranjo de um es­
tado que lhe garanta as suas restrições para uma
economia modesta. Vestuários que duram de pai
a filho, as batatas cozidas e carne de fumeiro para
os tempos terríveis do inverno. À margem dos la­
gos labuta uma agricultura que aproveita até os de­
tritos humanos. Guarda-se tudo para que possa o
feno crescer e a lavoura de frutos servir-se de es-
trumeira gorda. Arrastam-se pelas chácaras os bar­
ris com furos, por onde se derrama a matéria fétida
que ajuda a terra na fecundação. O cartão-postal
borra-se de adubos ricos e o suíço, que nós costuma­
mos ver nos trajos de Guilherme Tell, ajuda o ca­
valo a puxar a carga malcheirosa. Nas noites de
inverno os estábulos acolhem sêres humanos que
vão servir-se do calor dos animais.

As vacas que dão leite também esquentam o


pastor que ronca a seus pés. A servidão ao traba­
lho somente se quebra nas festas de domingo, nas
cantorias e bailados que são como exibições de nú­
meros de folclore. O vinho ou a cerveja anima os
festejos. O cartão-postal se concentra nas fábri­
cas como em casa de formigas. É o trabalho em
peças de relógios, em teares, em laboratórios de
medicamentos. O povo mais feliz da Europa, o
que não conheceu as desgraças de duas guerras
mundiais, é o mais apegado ao dinheiro que lhe
custa o suor da cara.
54 J o sé L in s do R êgo

Não há povos boêmios na Europa. Até os ci­


ganos trabalham em ofícios de caldeireiros. Os
gregos, que na antiguidade manejaram o cérebro
mas que não souberam domar os instintos, tanto
que atribuíam aos deuses rivalidades humanas, nos
dias de hoje se matam no trabalho marítimo. Mais
de quinze mil gregos servem em barcos de bandei­
ras estrangeiras. Mas que são barcos gregos no
serviço de despistamento das leis fiscais. A frota
mercante helena é a quarta do mundo. Os que aqui
permanecem se entregam à lavoura em terras tórri­
das. O que arranca do solo o trabalho grego é de
espantar. A terra que possuem já não lhes chega.
E emigram. Só no Egito existem duzentos mil
gregos. A América é, no entanto, o constante so­
nho dêstes Ulisses que enchem os transatlânticos
de gente morena que quer fazer nova vida. Tôda
a Europa é assim, uma central de energia humana
a expandir-se. Porque viver como pobre, por aqui,
é de matar.

A GRÉCIA E GOBINEAU

O' Conde de Gobineau, em sua mocidade, an­


dou pela Grécia e de lá mandou para a “ Revue des
Deux Mondes” uma correspondência curiosa por­
que nos mostra o ardente arianista da idade madu­
ra inteiramente cheio de entusiasmo pela mestiça­
gem helênica. Para Gobineau aos gregos estava
reservada uma missão importante nas ligações en­
tre o Oriente e Ocidente, justamente em vista da
variedade de raças que se agrupavam na formação
0 V ulcão e a F onte 55

do povo que podia muito bem se entender com os


mistérios da Ásia Menor, e mesmo do Extremo
Oriente.
*

Eram os gregos navegadores de todos os ma­


res. O gênio de Ulisses não parara no canto épico.
Os marujos helenos se faziam aos ventos como
mestres de navegação. Quando começou a luta en­
tre turcos e gregos havia 500 navios mercantes saí­
dos de estaleiros helenos. As ligações com Vene­
za deram aos gregos a oportunidade de, sob ban­
deira estrangeira, demandar recantos misteriosos
do mundo. Venezianos e gregos levavam e tra­
ziam riquezas de mundos a mundos. A sabedoria
milenar dêstes muito ensinou aos venezianos. Des­
de que os turcos mandavam nos mares Jônio e Egeu
e fecharam o Mediterrâneo, os gregos se escapuli­
ram em barcos genoveses. Foram os mais sagazes
pilotos na piratagem, os mais arrojados nas abor­
dagens arriscadas. Já Péricles compreendera que
o destino da Grécia era marítimo, desde que a po­
breza do solo não lhe permitia uma agricultura fá­
cil. A lavoura ali é mesmo alimentada a suor do
rosto. As elevações são áridas e a erosão deu con­
ta das encostas por onde dormiram e amaram os
deuses. O Conde de Gobineau encontrou no des­
tino marítimo dos gregos a sua função essencial de
agente de ligação. A fôrça inquebrantável diante
dos perigos e a fabulosa mistura de sangue e senti­
mentos morais faziam dêles os homens providen­
56 J o s é L in s d o R ê g o

ciais do Ocidente para o diálogo entre os dois


mundos.
*

Um grego sabe, mais que qualquer outra pes­


soa, falar com os homens de religião e sangue que
seriam incompreensíveis a qualquer ocidental.
Mesmo o seu cristianismo se aproxima de ori­
gens que não poderíamos entender. Há qualquer
coisa de oriente, de paganismo no seu rito. São
as suas ligações com os ortodoxos russos, um cris­
tianismo de fundo popular e primitivo. O conde
francês que, mais tarde, tanta questão faria de cas­
ta de branquidade, compreendeu admiràvelmente
as razões das mestiçagens dos helenos. E as lou­
vou, como elemento fundamental do equilíbrio da
Europa. A Grécia de Ulisses e dos asiáticos de
Alexandre, a serviço da unidade ocidental. É pena
que êste livro de Gobineau não tenha uma nova edi­
ção. As lutas atuais pelo domínio do Mediterrâ­
neo oriental encontrariam ali ótimo subsídio.

ÓSTIA

Os italianos que não podem tomar banho na


Ligúria, os que não se espalham pelo Adriático, os
que não viajam pelas ilhas atrás de luz e de brisa
se acomodam mesmo pelos barracos de Óstia e se
regalam dos gelados que se derretem ao sol. Ós­
tia é uma feira de corpos nus, onde a boa classe mé­
dia das repartições e das lojas confraternizam-se
em cima da areia escura, das pedras afiadas, no gô-
0 V ulcão e a F o nte 57

zo das ondas que se quebram de leve, sem barulho,


no azul do mar que tudo reduz ao doce ritmo medi­
terrâneo. Esta é a Óstia dos romanos de hoje. A
outra que morreu e que agora se entregou aos ar­
queólogos, esta começa a viver sem mêdo do impa­
ludismo que os canais entupidos haviam provocado.
Podemos assim atravessar as ruínas e localizar o
luxo dos imperadores.

A gente romana do tempo dos Césares sabia


viver à grande, procurando o conforto e o requinte
em casas que nos enchem de admiração. O gôsto,
em Óstia, já não é aquela réplica dos gregos à so­
briedade dórica dos mármores. Óstia se arredon­
dou no luxo que muito tem de rococó. A vaidade
dos conquistadores não se satisfazia com a digni­
dade das linhas puras. Era preciso dizer que era
rico e superar os que tiveram a humildade de se
contentar com a outra riqueza que se restringia aos
princípios da arte sem ostentação. As figuras de
mármores de Pompéia que estão no museu de Ná­
poles falam daquilo que depois chamaram de divi­
na proporção. Isto é, da arte na sua maior fôrça
interior. Óstia seria o Mônaco dos Imperadores.
Ali estava, na sua mais evidente exibição, aquilo
que em Monte Cario chamamos de “ arts-nouveaux” ,
o pequeno do século, a doença do tempo gordo.

Subi uma das ruínas que fôra antigamente o


palácio de um grande. Paredes e chão tudo toma­
58 J o s é L in s do R êgo

do de azulejos que, pela abundância, perdiam a sua


expressão. Somente muito dinheiro, riqueza do
Império que era o mundo. Óstia, o balneário dos
ricos que trouxeram dos quatro cantos do Universo
o ouro, as pedrarias, os tecidos dos povos conquis­
tados. Depois de mais de três horas pelas suas
ruas da antiga cidade do prazer saí para ver a cam­
panha romana. Cantavam cigarras e os campos de
trigo balançavam ao vento. Um pastor tangia ove­
lhas e de uma casa velha rompia uma cantiga de
mulher. Terra fecunda, ruínas que falavam de ro­
manos gordos, e a voz sonora que vinha diretamente
ao coração de nós todos. Boa Itália, que sabe do­
minar as suas ruínas e ligar o passado morto à vida
de todos os dias.

RA VO N A

Quando estive em Roma em 1954, Sérgio Buar­


que de Holanda, depois de um almôço no “ Alfre­
do” , convidou-me para um passeio em carro de ca­
valos. Vimos os restos da cidade dos Césares, os­
sos de grandes defuntos expostos ao sol da tarde
fria. Paramos na Praça Ravona e Sérgio me disse:
“Aqui o barroco atingiu a sua grandeza maior. Ber-
nini conseguiu o máximo de sua inquietude plásti­
ca nas figuras destas fontes” . Por mais duas vê­
zes voltei ao palco que o louco idealizou com os
seus monstros que não conhecem as proporções
nem os cálculos de resistências. Ali, Bernini rom­
peu com as simetrias, com a rigidez das linhas,
para ficar com a harmonia de sua imaginação des­
O V ulcão e a F onte 59

vairada. Mas não é só Bemini que faz a Ravona.


Tudo o que cerca o logradouro vive de uma paixão
que não conhece limites. Ravona é uma época da
humanidade. Os velhos palácios se grudam uns
aos outros numa intimidade de varandas e janelas
floridas. As pedras sujas desabrocham em vasos
que se cobrem de colorido vegetal. O que é velho
se humaniza na alegria dos gerânios e papoulas.
Mas a vida da praça está no povo que se aglomera
pelos bancos. Crianças brincam de corda e mulhe­
res gordas conversam efusivamente” .

Roma, a velha Roma dos Papas, se apresenta


na humildade de sua classe média que faz hora para
o “ minestrone” e as massas do jantar. Os meninos
cantam e grupos de môças discutem as belezas de
Lollobrigida. Passam soldados chegados das pro­
víncias e param diante dos palácios. Lá de cima
de uma água-furtada duas môças se debruçam para
olhar a agitação dos turistas que vão chegando
para os restaurantes com barracas de pano estam­
pado. Agora, àquela hora, a Ravona é um centro
internacional. As romanas deixam os bancos e os
meninos já não cantam. Passam padres em passo
lento e os sinos da igreja de Santa Inês dobram as
ave-marias. A praça perde a sua fisionomia ro­
mana. Os carros de turistas despejam fregueses
para as casas de pasto. Os palácios se iluminam
da luz do sol posto.
60 J o s é L in s do R êgo

E as fontes de Bernini continuam a derramar


pelas bôcas dos monstros água e mais água. Ravo-
na permanece como a marca de um tempo. Do
tempo em que a arte quis superar as leis eternas da
proporção. E transformar os homens em máqui­
nas de mágicos aloucados. Homens e pedras vi­
ram coelhos e fitas, que Bernini vai arrancando de
sua cartola infernal.

PARIS

Começam a aparecer os primeiros amarelos do


outono nas árvores verdes da Praça da Concórdia,
como em cabeleira viçosa os fios brancos indiscre­
tos. Paris, de 20 graus à sombra, sorri sem chuva,
de sol camarada, um pouco agitada com as notícias
de Suez. As vitrinas de modas não se dão por
achadas. Brilham as joalharias da Rua Royal e
os “ bateaux-mouches” atravessam o Sena com os
turistas basbaques.
*

À tarde, fico na esplanada das Tulherias para


ver a cidade cobrir-se de luz. A Praça com o obe­
lisco pilhado no Egito se ilumina de gás, os palá-
■* cios do Crillon e do Ministério da Marinha banham-
se de luminosidade aquosa. Os velhos jardins que
sofreram a fúria da Comuna de 1870 estão mergu­
lhados na escuridão. Casais de mãos dadas mer­
gulham no parque atrás do amor. Apenas se es­
cuta o murmúrio das fontes. O amor pode servir-
se muito bem da noite dionisíaca. Lá em cima,
O Vul Ão e a F o nte 61

uma lua partida ao meio vaga pelo céu atrás das nu­
vens que se acotovelam na imensidão. Sobra-me
tempo para umas vagas meditações sôbre aquêle re­
canto da terra onde as criaturas, apesar de tantas
servidões, ainda continuam a viver das grandezas
de um passado que não morre. Aqui o espírito re­
siste como na Acrópole aos desgastes do tempo.
Roma tem a vida de uma província que é capital de
um mundo. Mas Paris é uma terra de todos, é
mais universal, é mais católica, no sentido etimoló-
gico, que qualquer outra cidade. Londres é do in­
glês, embora fôsse a cidade do maior império da
História.

Em Paris, o branco e o negro sentem-se em


casa. Há mesmo uma linguagem que é anterior à
Tôrre de Babel, nas ligações desta cidade com os
mortais. Não é como Roma ou Delfos um centro
de comunicações dos homens com os deuses. Paris
é tôda da terra, tôda impregnada da criatura hu­
mana. Escuto agora os rumores dos pneumáticos
sôbre o chão de cimento. Mais para longe as luzes
do Arco do Triunfo parecem boiar sôbre um mar
de gente. Paris não se entrega ao desespêro dos
jornais da tarde. Argélia, Suez, Marrocos, lem­
branças que fazem dor no coração do francês. A
cidade de Paris não toma conhecimento das dores
do mundo. Ela vive e respira. Foram-se os tem­
pos das barricadas, das terríveis tempestades de re­
voluções sangrentas. Agora, Paris quer somente
62 J o sé L in s d o R ê g o

encantar o mundo com a sua beleza e deslumbrar


com o seu espírito. Como a Acrópole que é um
testemunho da época do cérebro sôbre os instintos
bestiais, Paris é a última flor de uma civilização que
ameaça mergulhar no infinito oceano da barbaria
atômica.

O T Ú M U L O D E V A N GOGH

No domingo quente de Paris, trinta graus à


sombra, saímos para uma volta pelo campo todo
verde, radiante de seiva depois do inverno mortal
dêste ano. Estradas cheias e piscinas repletas da
boa classe média que não tem posses para as delí­
cias da Côte d’Azur, para os que não podem gozar
os prazeres do Mediterrâneo, onde vadiam prínci­
pes e “estrelas” de cinema. Domingo quente,
campo cheio. Desde o Bois até Villenes fomos en­
contrando o francês despojado de roupa escura, em
idílios como se estivesse na ilha de Paulo e Virgí­
nia. Beijos e beijos de casais garridos e até de ve­
lhos chibantes. íamos almoçár no Éden, um
ponto “chic”, espécie de Hotel Copacabana cer­
cado de árvores e de piscina, onde nem cabia um al-
finête. Os parisienses vingavam-se do calor nas
águas azuis do lago de louça colorida. Não havia
um lugar para o almôço e deixamos a alegria esfu-
ziante pela paz bucólica de uma casa de pasto à bei­
ra do Sena. Corriam pelo rio barcos de tôdas as
qualidades. De vez em quando os batelões carre­
gados de óleos que demandavam para viagens lon­
gas, de canal a canal, rompendo a França inteira
0 V u lcão e a F onte 63

como caminhos interiores. Canoas a remo, à ma­


neira dos índios, com a felicidade de jovens que se
abraçavam a cada instante. Uma velha de cabelos
vermelhos queria se mostrar na exuberância dos
dentes postiços e ria-se para os ribeirinhos com a
alegria de quem não sabia ainda o que era o reuma­
tismo dos dias negros de dezembro. Podíamos co­
mer tranqüilos o peixe fresco do rio e gozar a doce
viração que começava a soprar.
*

Depois começamos a nossa peregrinação ao tú­


mulo de Van Gogh. Lá no alto estava Villenes,
dominando o vale semeado de trigo. Ali tivera sua
casa de campo Zola rico, depois do sucesso. A pro­
priedade do gigante diz muito bem do seu mau-
gôsto, tão acentuado pelo amigo Cézanne. Hoje,
o que foi o solar do romancista é uma creche. Vêem-
se as crianças ao sol, enquanto uma enorme cabeça
do romancista enche o jardim de sua presença. Lá
por cima corre o trem que êle, em suas noites de vi­
gília, ouvia apitar. A bêsta humana devia rondar
por aquêles ermos, e bem que o gênio conhecia os
seus passos, no silêncio das noites solitárias.
*

Tínhamos que ver o túmulo de Van Gogh.


Cícero Dias fazia questão de mostrar. Rodamos
pelas margens do Oise. Atravessamos o leito em
balsa e o vilarejo que se espalhava pelas ribeiras
parecia um pôrto de batelões onde moravam famí­
lias inteiras. Mulheres preparavam o jantar e ou­
64 J o sé L in s d o R êg o

tras lavavam roupas por cima das embarcações.


Ainda tínhamos quinze minutos para chegar à ci­
dade que fôra das preferências dos impressionistas.
E quando chegamos a Anvers-sur-Oise já o calor
não existia mais. Havia na cidade apenas a colo­
ração domingueira. Os mais belos vestidos e os
mais próprios fatos de homens que ficavam à por­
ta dos cafés no gôzo estivai da tarde. O cemitério
estava a dois passos, montado numa colina, sim­
ples, de muros limpos, todo aberto ao campo como
se fôsse a sua continuidade. E lá num canto hu­
milde, em cova rasa, apenas com pedra na cabecei­
ra, o último refúgio do maior pintor de seu tempo:
o desgraçado Vicente. Somente os números de sua
vida, ao lado do irmão que o acompanhou na morte
um ano após. Em cima da relva, desconhecidos
haviam colocado ramos de trigo. Era a única ho­
menagem dos humanos ao que fôra o mais huma­
no de todos. Lá fora havia um imenso trigal que
se perdia de vista. Era a maior homenagem que se
podia prestar ao que dera a .humildes coisas do
campo, como São Francisco aos humildes animais,
uma fala eterna, a fala da poesia. Soprava agora
o vento que fazia cama na massa verde. Com pou­
co mais tudo estaria com as côres que somente os
olhos de Van Gogh souberam revelar.

A G R A N D E A T R IZ

Na noite calmosa, sem vento frio, para mais


de dez mil pessoas, uma grande artista dava o seu
grande espetáculo. De nada valiam os seus com­
0 V u lcão e a F onte 65

parsas. Cavalos arreados como nos tempos de


Joana d’Arc, declamadores, vestuários de efeitos
magníficos, figuras humanas com responsabilida­
des de condutores do drama, tudo ficava num pla­
no secundário diante da figura majestosa da Se­
nhora dos acontecimentos. O que valia era a Ca­
tedral, com o mistério de suas pedras. Bem razão
tivera Rodin para tomar as catedrais de França
como mestres de desenho. A s pedras sagradas en­
sinam aos homens não só os caminhos da fé; en­
sinam a amar a vida nas suas manifestações supe­
riores.
*

Milhares de pessoas se aglomeravam nas ar­


quibancadas de ferro e nas cadeiras forradas de es­
tofos para ouvir os atos da vida e paixão de Cristo.
A música dos trovadores medievais soava através
do órgão da Notre-Dame. Os clarins dos guardas
montados enchiam a praça de uma ordem de guer­
ra. Era o poder da terra que queria se mostrar bem
vivo ao jovem profeta que trazia uma mensagem de
Deus aos homens. Aos poucos tudo passava a vi­
ver da Catedral. Nada daquela brutal imagem de
Hugo, descobrindo ojdisforme para engrandecer o
feio. A presença d ^Igreja de Paris se fixava na
multidão elevando-a aos supremos anseios de amor.
Via-se a Catedral tal um mundo onde coubesse tôda
a Humanidade em seu seio amantíssimo. E, en­
quanto os pequenos atôres falavam, ela se ilumina­
va. A s suas pedras adquiriam uma linguagem que
66 J o s é L in s d o R êgo

era mais expressiva que a dos homens. Anjos e


demônios se digladiavam no patamar, e a grande
artista absorvia as lutas pequenas dos comparsas
e passava a agir com tôda a fôrça da sua lingua­
gem. Gritava de um lado Lúcifer, belo e soberbo;
do outro, lá de cima do campanário, um anjo de-
sembainhava a espada refulgente e impunha a re­
velação da verdade aos homens. E a Catedral pu­
nha-se a agitar, através das pedras e das rosáceas
que se cobriam de reflexos que vinham das profun­
dezas. O órgão gemia tal qual as vozes secretas de
Deus e os sinos dobravam para o Rei que nada que­
ria do mundo em que pisava.

A figura de Cristo era como se tivesse brotado


do colosso de pedras. Os seus* gestos e as suas fa­
las eram falas e gestos da massa escultural que se
grudava às tôrres rendilhadas. A atriz do auto sa­
grado passava a comandar as ações. Tudo vinha
de sua formação levantada sôbre a história da Fran­
ça. Arte e história numa linguagem única. Quan­
do a luz se expandia pelas pedras de mil anos, sen­
tíamos no coração e na alma que o Filho Primogê­
nito da Igreja tinha mais que falar que os atôres cá
debaixo. As pedras falavam aos nossos ouvidos e
aos nossos olhos. O Cristo padecia as dores da
paixão. Pilatos lavava as suas mãos carnudas de
romano pelo crime monstruoso contra a inocência.
Tudo, porém, estava escrito. A profecia era aque­
la na narrativa pungente. A Catedral absorvia tu-
0 V ulcão e a F onte 67

do, tudo estava gravado nas suas pedras e ela podia


ser a síntese de tudo. Quando o drama chegou ao
fim, a escuridão se fêz na maravilhosa casa de Deus.
Nem a luz, nem a sonoridade do órgão e dos sinos.
Só o silêncio que era o fim. A grande artista reco­
lhia-se à noite para sentir o mistério da Criação, no
faiscar das estréias.

SEGREDOS DE TO LE D O

Maurice Barrès descobriu a África em Toledo.


Apesar de todos os séculos de catolicismo de espa­
da à cinta, ainda ficaram na alma ressequida do
povo os contos dos árabes, os lamentos rouquenhos
dos judeus. Ásia e África nos “ Malaguenos” , es­
pécie de canção mais lânguida do que os fados de
Portugal. Aquilo era como se fôsse um sôpro das
brisas da Andaluzia por cima das pedras da cidade
macerada. Mas se o observador atento reparar
bem há de descobrir, por debaixo das sete capas da
devoção, restos do sensualismo oriental que não se
acabou de todo. Toledo esconde as suas volúpias,
não quer que o Cardeal saiba que ela ama também
o sol, que ela ama a vida da terra. Tudo fizeram
para arrancar de sua alma primitiva as marcas sen­
suais dos árabes. Tôda j l Idade Média, todos os
cardeais, todos os reis católicos não conseguiram
dominar as fôrças que o sexo carrega. Toledo não
se fêz de Abelardo, e quando se escuta de dentro
de uma casa uma “malaguena” , é como se ouvísse­
mos as mágoas de amor escondido. Escorre da
cantiga um fio de água de fonte espremida entre pe­
68 J osé L in s do R êgo

dras. Apesar das espadas, dos inquisidores, Tole­


do canta como os gazéis de um Hofiz acorrentado.
Em cima de um balcão há flôres a desabrochar,
flores que cheiram até cá embaixo na rua estreita
de lajes enormes. Escuto o canto dolorido de alma
arranhada, sinto o cheiro das flôres do alto, e fico
sabendo que Toledo não é rua velha de tempos aca­
bados. A cidade mística engana o Cardeal, que é
o seu rei, com os poetas das tendas do deserto.

LISBOA

O outono chegou a Lisboa ainda com as fôlhas


das árvores da Avenida da Liberdade bem verdes,
como as deixei em junho. Mas as chuvas copiosas
são de outono. Lá pelo Norte, as vindimas sen­
tem a pressão do tempo e já se fala em prejuízo nas
colheitas. Não será um ano bom de vinho. Uvas
e melões aparecem nas mesas, doces e macios, des­
fazendo as gorduras de mariscos e carnes de fritu-
ras. E os jornais se enchem de júbilo com as pri­
meiras toneladas de petróleo dà Angola. Beatriz
Costa reaparece no teatro de revista e o Villaret
comanda uma “ troupe” de comediantes em espetá­
culo de variedades. Lisboa prepara-se para os seus
dias de inverno sem que Goa lhe traga maiores com­
plicações. A índia se enfeita com as penas da
pomba da paz, nas disputas de Suez, a ponto de se
esquecer das suas misérias e das suas tiradas de­
magógicas. Portugal, no seu canto de ocidental
praia, pode concentrar-se nas suas glórias de an­
tigamente e firmar-se muito bem nos dias de hoje.
0 V ulcão e a F onte 69

O escudo não vacila, os sobreiros dão cortiça, os


veleiros trazem sardinhas e salmões, as quintas es­
premem as suas uvas e tudo marcha conforme a
Europa permite.
*

Lisboa, porém, continua a mesma cidade de


júbilo. Rua do Ouro, Rua da Prata, Rua Augusta
e o Terreiro do Paço no equilíbrio de praça sóbria,
sem as pedrarias de São Marcos, mas bela e clara
como a queria o gênio de Pombal. Tôda Lisboa é
um equilíbrio entre a luz e a pedra. Aqui o barro­
co não se soltou como em Roma. Havia, depois
do terremoto, um homem de gênio prático que que­
ria restabelecer as energias consumidas do povo de
descobridores. Pombal queria uma Lisboa que fôs­
se a cidade ancoradouro do Império, e não a cida­
de aventureira dos descobridores. Por isto lhe deu
a proporção humana, sem a loucura dos grandes
de Espanha. O Escoriai era o sonho de um domí­
nio do mundo. Pombal, depois do cataclismo, me­
ditou em têrmos de homem de juízo. E assim fêz
uma Lisboa sem as arrogâncias de mulher-vampi-
ro, mas de dona-de-casa pacatona. Nada diz me­
lhor do espírito sensato do português que a sua ci­
dade capital. Nada para espanto, para quebrar
os limites das coisas; tudo feito para servir, para
garantir ao homem a sua melhor tranqüilidade.
*

Lisboa não é uma perdição como Paris. Aqui


não se fabricam estimulantes para assanhar a bês-
70 J o sé L in s do R ego

ta humana. A cidade se comporta bem, não se


paganizou em satumais. Os próprios cabarés são
adegas onde se canta o fado com mulheres e ho­
mens que nos fazem dolentes. Há uma tristeza
boa nas cantigas lusas. O fado não é música para
bailarinos. É música para arrasar o coração. Às
vêzes, uma cantiga de adega nos provoca fúrias dio­
nisíacas. Uma Amália Rodrigues tem acentos gre­
gos de bacante na voz que vai ao profundo de nos­
sas ansiedades. Quase sempre, porém, o fado se
consome em mágoa que sangra. Assim é Lisboa
noturna, a que se acerca do vinho para ouvir as suas
musas de xale e voz de contralto. Em Atenas,
tudo se resolve em dança como de terreiro de xan­
gô. O grego faz da música apenas o pretexto para
agitar-se em baile que parece um rito religioso. Em
Lisboa canta-se para espalhar os males. É verda­
de que os males não têm mêdo das cantorias. O
amor contrariado continua nos corações que são
ninhos quentes. Lisboa dorme. A cidade não se
amedronta com os seus complexos. As grandezas
da antiguidade são do passado. O que vale para
ela é o dia de hoje.

FUNCH AL, CIDADE M ACIA

Aquilo não era um barco. Mas pedaço de ter­


ra agarrada ao cais. Os alto-falantes gritavam
para que abandonassem o navio. E era um falar
para surdos. Os portuguêses do Rio ali estavam
no seu Portugal, queriam beber o último copo de
vinho-verde. Ali, no “ Vera Cruz” , estava a terri-
0 V ulcão e a F onte 71

nha bem-amada e todos fincavam o pé em coisa que


era a continuidade das aldeias distantes. Cada
pedaço de madeira fazia lembrar a pátria que não
lhes saía da cabeça e do coração. Até que chegou
o momento das últimas despedidas com lágrimas
nos olhos. A palavra saudade passava a sangrar
nas almas que ficavam e que partiam. Dias e dias
em mar de rosas, até que começamos a ver os ro­
chedos de São Vicente. Pedras nuas e, mais tar­
de, a ternura dos amigos de Cabo Verde. Já que a
terra era sáfara, fecundos, de seivas abundantes,
eram os corações dos amigos da cidade que os ven­
tos despojaram de tudo. Pedras assim como as do
nosso Pão-de-Açúcar cercando a povoação como
monstros antediluvianos. Porém, mais longe do
que aquela agressividade da natureza, valiam os ho­
mens que não se deixaram vencer pela inclemência.
*

Todos falam um português que canta como o


dos nordestinos e as violas gemem como as do Pa-
jeú. Depois, Deus quis que existisse, no meio do
mar, uma imagem do seu paraíso terrestre, e plan­
tou a Madeira, como dádiva de suas bondades. Fun­
chal não é uma cidade, mas um jardim que se en­
cheu de gente. Sobem os automóveis as ladeiras
floridas. Vilinos de gente rica não esmagam as
casas humildes do povo. As flôres ligam os po­
bres e os ricos. Por debaixo de árvores fruteiras
mulheres sbordam. Há um século que a Madeira
trabalha os riscos de suas obras-primas para o lus­
72 J o sé L in s do R êgo

tre das mesas e camas dos príncipes e rainhas. De­


dos de fada manobram agulhas como se fizessem
poemas no linho. Lá para cima os homens robus­
tos da terra carregam, em rêdes, os turistas que se
exibem na subida do monte, onde Nossa Senhora
sorri para o mundo inteiro.
*

Na Madeira os santos sorriem. Deus não der­


rama o seu sangue como em Toledo; Deus é pai, em
dia de festa em casa, onde sobra o vinho nos copos
e arroz-doce nos pratos. O Deus da Madeira só
falta usar aquele chapéu de palha dos carreiros que
nos carregam em carruagens sem rodas. As flores
tocaram de tal maneira o coração de Deus que êle
nada tem do rubro coração de Jesus padecido de
dores. Tudo é macio em Funchal. No terraço
dos cafés, rapazes fumam cachimbo e tomam chá
como faziam os inglêses que ali chegavam para os
desfrutes da libra-ouro. Hoje em dia, há menos
inglêses, mas ficaram os seus hábitos de descansa­
dos, de ociosos dos bons tempos da bela época. Os
homens da Madeira não têm pressa. Nunca vi
gente sem angústia de tempo como aquela. O co­
mércio é calmo, sem aquela algaravia dos sírios de
Las Palmas.
Compra-se em Funchal como em Oxford-
Street. Os próprios vendilhões que vão a bordo
não nos agarram nem nos agridem com ofertas.
*“ Tudo macio. Cidade macia, podia-se chamar Fun­
chal. Agora a noite se aproxima. Já o céu se co­
O V ulcão e a F o nte 73

bre dos últimos lampejos do sol. Sôbre o mar pa­


rado, manchas de óleo e meninos a mergulhar atrás
de moedas. Mais para longe uma ilha, despida
como São Vicente, parece tôda de zinco. O sol se
expande sôbre o rochedo em colorido maravilhoso.
Tudo se prepara para o noturno em alto estilo em
Funchal. E quando chega a noite a Madeira é um
tremeluzir de estrelas. Tôdas as estréias do céu
descem à Terra e vão cobrir de luz aquela alegria
de Deus.

\
UM POUCO DE POLÍTICA
DORES D A FR A N Ç A

Todos quiseram dar o seu depoimento. Houve


os que viram a França cair e contaram tudo. Con­
taram coisas íntimas, revelaram segredos, infide­
lidades, uma triste lavagem de roupa suja. E hou­
ve os que, tomados da ira sagrada, não tiveram pena
de apontar criminosos. E nomes de políticos e de
generais eram nomes que nos soavam aos ouvidos
como de traidores. Tinham entregue a pátria aos
abutres, eram monstros, verdadeiros monstros que
as idades vindouras cobririam de labéu. A Fran­
ça fôra trucidada pelos próprios filhos. E todo o
mundo começou a ver o caso da França como um
tema para se debater.
Vítima dos políticos, uma imagem da demo­
cracia apodrecida na corrução. O gênio latino es­
taria morto se não fôsse a Itália, que dera ao mun­
do o regime da salvação. Sob as dores da França
o fascismo tirava as suas conclusões. Govêrno do
povo que entregara o povo aos seus inimigos. E
Govêrno da nação que dava vida, que conduzia às
vitórias. A França pagava pelos seus pecados con­
tra a hierarquia, contra o Príncipe. Mas a França
que êles viam morta, que êles imaginavam, para
sempre, liquidada, não estava morta. Os alemães
78 J o s é L in s d o R ê g o

tinham-lhe arrebatado a terra, as cidades, os exér­


citos. Tudo caíra, materialmente. Ruíram linhas
de fortificações. Fizeram um govêm o valetudiná-
rio, deram-lhe fantoches para chefes. Tudo estaria
acabado, tudo bem morto se o homem francês não
fôsse a natureza rica de inteligência e arrebatamen-
to que dera Montaigne e Joana d’Arc. O gênio
que criara os ensaios e a menina que levantou um
povo não podiam desaparecer somente porque uma
derrota temporária os obrigara a uma paz de ver­
gonha. Êste povo sairá desta vergonha com fôr­
ça de decidir a grandeza da paz futura.
Para um Bernanos que tem acentos de um Rei
Lear no meio da batalha, há êste maravilhoso An-
toine de Saint-Exupéry, que, pilôto de guerra, nos
conta, de um jeito que lembra a grandeza e a servi­
dão militar de Alfredo de Vigny, a sua história, a
épica história de uma equipe que a França entregou
ao sacrifício. A grande derrota caminhara pelas
estradas. Era um povo fugindo e um exército par­
tido em mil pedaços. Saint-Exupéry voara por ci­
ma da derrota. As dores da França doeram na sua
substância de homem. Doeram-lhe mais na alma
que êle descobrira, que na carne que desprezara.
De dentro das nuvens, por cima da cidade ocupada
pelo inimigo, chegou-lhe a imagem da França como
devia ser amada e compreendida. Não havia mais
o Ministro, o Estado-Maior, o Govêrno mutilado.
Havia a França doendo, a França que êle sabia ser
uma comunhão de homens que valia mais que to­
dos os erros, tôdas as vergonhas. “ Naquela ma­
O V u lcão e a F o nte 79

nhã era a França um exército esfacelado e uma po­


pulação caótica. Mas se numa população assim
houver uma só consciência animada do senso da
responsabilidade, o caos desaparece.” Esta cons­
ciência das dores de sua pátria deu ao mestre Saint-
Exupéry aquela vontade de S. Paulo de salvar a luz
que a escuridão poderia tragar. “ Amanhã, nós da
França, estaremos na noite da derrota. Possa meu
país ainda existir quando raiar de novo o sol. Que
devemos fazer para salvar o país?” O grito do pi­
loto abafa os ruídos dos motores do avião. É o
grito da consciência que venceu o mêdo de perecer.
“ Mais não quero saber dos lógicos. Quero que meu
país exista tanto em carne como em espírito quan­
do de novo raiar o sol. Por isso tenho de lançar
todo o pêso do meu amor nessa direção. Não há
passagem que o mar não abra, se bater com todo
o seu pêso.” Saint-Exupéry quer abrir passagem
para a pátria subjugada. Êle quer que o povo da
França seja um mar com um só bater contra os ro­
chedos. “ Desde que sou uno com o povo da Fran­
ça não repelirei meu povo, seja lá o que êle fôr. Não
pregarei contra êle aos ouvidos estranhos. Se meu
povo me cobrir de vergonha, fecharei a vergonha
em meu coração e silenciarei.”
É porque Saint-Exupéry sabe que as dores da
França purgarão as vergonhas da França.

B E RTRA N D RUSSELL

O Bertrand Russell que, aos setentn c muito»


anos, sofreu um grave desastre de avião, foi, em
80 José L in s do R êgo

todos os sentidos, um típico homem da Inglaterra.


Filho de nobres, não foi o primeiro filho de nobre
inglês que se fêz de revolucionário, de agente da
dissolução da sua própria classe.
Bertrand foi menino-prodígio, pois quase crian­
ça já era matemático. Fêz-se de crítico de tôda a
geometria euclideana, considerando mais alguma
coisa de real nas matemáticas que os axiomas, por­
que, mais do que tudo, as matemáticas deviam ser
consideradas como um conhecimento vital.
O Professor Bertrand sofreu a guerra de 1914,
êle mesmo confessou, como a presença de um Me-
fistófeles em sua vida. A guerra transformou o
matemático em filósofo. Para muitos o filósofo
Bertrand Russell não vai muito longe, embora to­
dos sejam unânimes em reconhecer, na sua sabe­
doria abstrata, a fôrça de verdadeiro renovador.
Bertrand se transforma em socialista, a sonhar
com o seu govêrno internacional, como em concep­
ção de utopia. Eliminado o problema da pobreza,
os homens poderiam dedicar-se às artes construti­
vas da civilização, ao progresso da ciência, à dimi­
nuição da doença, à postergação da morte e à liber­
tação dos impulsos que contribuem para a alegria.
Bertrand pretendia, assim, apenas transformar
a natureza humana que êle mesmo considerava a
natureza mais agressiva da espécie animal. Por
isto, em política, seria um inimigo declarado da di­
tadura. O fascismo e o comunismo para êle eram
psicologicamente similares. Temiam ideologias
diferentes. Porém, para Russell, uma ideologia
0 V ulcão e a F onte 81

não é mais que a arma de um político, como o fuzil


para o soldado. A técnica dos partidos é a mes­
ma. Em primeiro lugar, precisam do ódio para in­
cendiar uma minoria de adeptos, depois conduzir
esta minoria ao poder militar; e, finalmente, estabe­
lecer uma tirania. Foi Cromwell quem deu ao
mundo moderno o melhor modelo de ditador.
A utopia de Bertrand Russell chega à condi­
ção tanto do fascismo como do comunismo. A sua
forma de govêmo seria um sistema de paz eterna.
O homem e o govêmo como camaradas, nacionalis-
mos extintos, tudo como um recanto do Paraíso de
Dante. Música de alaúde, cantos de amor e a feli­
cidade geral dos filhos de Deus.

ROSAS E A CIDADE

No seu livro Las Neurosis de Los Hombres


Célebres en La Historia Argentina, Ramos Mejía
estuda, com acuidade de clínico de loucos, a vida e
a obra de Rosas. Há um capítulo sôbre a cidade de
Buenos Aires, ao tempo da tirania, que é um mag­
nífico estudo em tômo da patologia das multidões.
Mejía foi menino acalentado pelos distúrbios tre­
mendos que agitaram a Argentina na sua infância.
Hão de ter ficado, na sua memória, as histórias ter­
ríveis de uma época de crimes monstruosos.
Rosas dominou o povo com a fúria sangrenta
de um verdugo asiático. A lei que impôs à nação
foi a do flagelo, da violência sem limites, do casti­
go impiedoso. Cobriu-se de vermelho para confun­
dir-se com cTsangue que derramou. Mas foi ado­
82 J o sé L in s d o R êgo

rado pelo povo que assim afligiu. Fizeram de Ro­


sas não só o chefe temporal, mas até o pai espiri­
tual do país. A cidade de Buenos Aires pintou-se
de encarnado, nas bandeiras que desfraldava, na
pintura das casas, nos trajos do povo. É o que nos
diz Mejía: “A doença atacou tôdas as classes so­
ciais, contaminou todos os grêmios. Até o clero
deixou-se possuir de um rosismo deletério. Um fu­
ror homicida apoderou-se dos curas. Subiam êles
aos púlpitos para pregar a morte dos inimigos do
ditador. Um cônego foi ao púlpito de sua igreja
matriz para dizer somente isto: que sete virtudes
adornavam o pai de Buenos Aires — as virtudes do
homem santo. E, arrebatado, conduziu êle próprio
o retrato do ditador e o colocou no altar ao lado de
Deus. Os sermões do Padre Juan A. Gonzales,
cura de São Nicolau de Bari, não escondiam a du­
reza do seu coração, quando gritou numa novena:
“ Êstes braços que vêdes se ensoparão no imundo
sangue dos unitários” . Outro padre de Gaete ju­
rava pelas três santas: “ Santa Federação, Santa
Verga y la santa cochilla” . E as mulheres que se
confessavam com êle teriam que se persignar di­
zendo: “ Por la senal de la santa Federación” .
E é o mestre Mejía, nascido em 1849 e morto
em 1914, contemporâneo assim da época tirânica,
quem nos fala: “ No meio desta vida de enervamen-
to moral e de decadência, é evidente que o resto da
população se encontrava impossibilitada para rea­
gir contra as turbas enraivecidas. Esta queda brus­
ca da personalidade humana, êste obscurecimento
0 V ulcão e a F onte 83

horrível da razão e do sentimento, manifestando-se,


nuns pela excitação, e noutros pela depressão, são
o que realmente caracterizam a epidemia. Foi uma
etapa patológica da vida argentina, um sofrimento
de todo o corpo da nação seviciada. Época de de­
solação para a cidade de Buenos Aires, o momento
mais crítico de sua vida: foram as convulsões pró­
prias de uma infância difícil e mórbida” .

T R IST E ZA S À B E IR A-M A R

Volto às reflexões amargas sôbre os dias de


1950 e não me sinto animado a alimentar ilusões
sôbre o que vem por aí, com as mais terríveis amea­
ças. Aos nossos olhos se desenha o quadro sinis­
tro de uma guerra que os entendidos julgam inevi­
tável. Os Governos só falam em medida? de emer­
gência, em atividades de preparação bélica. Os
arsenais estão com todos os fogos acesos. Os la­
boratórios só cuidam de pesquisar sôbre os melho­
res processos de se acabar com a vida. E, mais
do que os laboratórios, o homem é que está possuí­
do do mais virulento instinto destruidor. Lembro-
me da guerra civil da Espanha, para ver nestas ba­
talhas da Coréia uma repetição monstruosa de
acontecimento idêntico. Na carne do povo que
nos deu o Quixote foram experimentadas as armas
que os fascistas haviam fabricado para a conquis­
ta do mundo. Quando leio o noticiário dos com­
bates nos céus do Oriente, de caças a jacto, vêm-
me à cabeça fatos semelhantes de doze anos atrás,
com os “ tanlss” alemães esmagando a viril resistên­
84 J o sé L in s do R êgo

cia dos republicanos. Perdeu a Espanha, para que


chegassem à conclusão certa sôbre estas máquinas,
mais de um milhão de criaturas. A melhor gente
da Europa, os admiráveis ibéricos que descobriram
mundos e deram à Civilização poetas e santos, ape­
nas reduzidos a cobaias, a matéria ínfima em mãos
de agentes monstruosos da guerra. Pois bem, os
“ tanks” que pisaram por cima de tantos séculos de
grandeza não semearam coisa nenhuma. As má­
quinas criadas para a destruição encontraram ou­
tras máquinas. E tudo continuou no mesmo esta­
do de expectativa para o maior crime. E o maior
crime há de chegar, numa avalancha de apocalipse,
com as suas bombas atômicas e os seus foguetes
diabólicos cruzando os céus como a bêsta das pro­
fecias. Há os que falavam em luta de classes com
o mesmo furor homicida dos que falavam em luta
de religião. Há os que falavam em defender a ci­
vilização cristã, mas que só defendem as suas mar­
cas de fábrica. Há os que querem libertar as mas­
sas, mas que só libertam as suas voracidades.
E o que há para o pobre homem derrotado é um
viver entre o Diabo e a caldeirinha, é a certeza da
derrota. Estas são as minhas tristezas à beira-
mar.

D l C A VA LC A N TI E O “ REALISM O SO CIAL”

Outro dia ouvi o grande Di Cavalcanti encher


a bôca de “ realismo social” em fala pela televisão.
O mestre de um colorido carnal que é dono de ad­
mirável sensibilidade artística sempre que tem que
0 V ulcão e a F onte 85

doutrinar sôbre pintura ou sôbre qualquer assunto,


nos dá a impressão de peixe fora dágua. Di Caval­
canti o que, no mais largo sentido, é pintor. Fora
daí navega sem leme pelos sete mares. Não é pro­
priamente um cabeça de vento porque ninguém
mais inteligente do que êle, mas homem perdido
no cipoal das teorias. Di é o menos teórico dos
homens e a mais humana das criaturas. As suas
verdadeiras ligações são só com o povo e o bairro
de São Cristóvão. Sangue de carioca como foi o
O vale e é o Villa Lobos. Por isto é que não me
agrada o Di que quer se fazer de homem de idéias
e princípios. Prefiro o Di de carne e osso que é o
autêntico. Quando se fala de “realismo social”
entra verdadeiramente na conversa fiada. Não
acredito na legitimidade do tal “realismo social” .
Acredito no realismo como condição legítima do
artista se comunicar com o seu mundo. Mas quan­
do aparece o tal social, chega com aparato de in-
terêsse partidário, para envolver participações que
não são verdadeiramente da arte. Todos nós sa­
bemos, e é Herbert Read que nos confirma, que, em
certas épocas, a sociedade converte o artista em ex­
poente das emanações morais e ideais do homem, e
assim a arte se põe a serviço da religião, da mora­
lidade ou da ideologia social. Por êsse modo a ar­
te sofre em substância porque a sua mensagem po­
lítica ou religiosa superará a significação real do
que tem o artista para exprimir. As idéias e tôda
a superestrutura podem ser conduzidas pelos ins­
trumentos do pensamento e da ciência. Mas as
86 J o sé L in s do R êgo

intuições mais profundas da mente que não são ra­


cionais e nem econômicas só são acessíveis ao mís­
tico e ao artista. A arte conduzida para se trans­
formar em instrumento de uma tendência pode ter
o sucesso de um dia. Sucesso fugaz que não re­
siste ao desgaste dos interêsses secundários. As­
sim é o tal “ realismo social” que é manejo de polí­
ticos. A arte, que se submete aos valores venais,
perde a sua fôrça e cai no convencional das obras de
carregação. Pode o Di Cavalcanti falar de todos os
realismos sociais. É fala dos dentes para fora. Lá
por dentro, nas profundezas do artista, se escondem
as suas reservas fecundas. As tarefas de secundá­
rio auxiliar de linhas partidárias não significam o
mínimo para o artista. Prefiro o Di dos mulatos
que tem sangue e sexo nos seus quadros ao Di a fa­
lar de fôrças econômicas, a conduzir a sua imagi­
nação. Não há palavra de ordem que subjugue as
fôrças imaginativas do nosso Di. A sua arte não
tem ligações com as suas fuleiragens políticas.
Mais do que o Di demagogo há o Di poderoso artis­
ta. Os interêsses de um mundo que se acaba hão
de sobreviver no ritmo de sua pintura que é um des­
lumbramento.

PO L ÍT IC A E LINGUAGEM

Muitas vêzes nos espantamos com a lingua­


gem de certos jornais, pela violência de acusações
e intemperança de frases que são verdadeiros áci­
dos corrosivos. As afirmativas sôbre fatos e sôbre
pessoas situam os acontecimentos em noticiário de
0 V ulcão e a F onte 87

crônica policial. Os adversários trazem na alma e


nas ações torpezas sôbre torpezas. Essas autori­
dades aparecem em crimes de peculato com tôdas
as invectivas contra as suas condutas de homens
públicos. Pelo que dizem não são homens públi­
cos, mas malfeitores públicos. Tôdas essas des­
cargas de apodos nos conduzem a ter medo do Bra­
sil. Pelo que se diz, com tôdas as letras, não pas­
samos de uma corja. Os que nos governam não
passam de violadores das leis penais. Ora, tudo
isto nos coloca em posição perigosa. Os nossos
homens públicos são apresentados em circunstân­
cias de constante vexame. Lembro-me de Epitá-
cio Pessoa reduzido a aproveitador de baixa condi­
ção. Todos sabemos que Epitácio Pessoa fôra a
probidade extrema. E, no entanto, envolviam o
seu nome em maroteiras. Afinal de contas, o Bra­
sil, que ofendia por êsse modo a seus chefes, não
poderia nunca selecionar valores que fôssem capa­
zes de impor dignidade aos postos de direção. Se­
ria um País perdido, País que escolhia para car­
gos de tamanha responsabilidade homens tão mar­
cados pela voracidade contra o patrimônio nacio­
nal. A afoiteza de denegrir não tem limites.
Há pouco, porém, me detive a examinar uma
coleção de jornais da Paraíba e lá encontrei a mes­
ma linguagem dos nossos dias. Um articulista
conservador se dirigia a pessoa importante do Par­
tido Liberal nos seguintes termos: mentecapto, ma-
zelento, mequetrefe, mentiroso, macho-fêmea, mo­
leque, marvolheiro, malandro.
88 J o sé L in s do R êgo

E para terminar: “ A gente desta laia, homem


que se preza não responde” . Não se diga que se
trata de pasquim. O “Jornal da Paraíba” era ór­
gão oficial do Partido Conservador, orientado pelos
grandes da província. E há, ainda, a parte rima­
da em mote, como êsse:
“A minha côr é de trevas
Negro tenho o coração”.

Depois vem a glosa:


“Por berço, só tive selvas,
E nelas fui
Em servil tanga gerado
A minha côr de trevas
Tenho vivido nas selvas
Das feras tomei lição
Não instinto e perversão
São do meu ser a essência
Sujo como indecência
Negro tenho o coração”.

A agressão ao adversário político não conhe­


cia termos. O inimigo quando não era ladrão te­
ria que ser assassino, ou mesmo portador de taras
sexuais. Era assim a pacata cidade da Paraíba. A
política exacerbava os ânimos aos mais terríveis de­
saforos. O fato é que ainda continuamos como em
1881.

14 DE JULHO E O R EI D A V ID

A manhã está fria e de umidade de doer nos


ossos. O nordestino acorda de madrugada e a ca­
neta do ofício duro pesa-lhe na mão perra. Abre
0 V ulcão e a F o nte 89

a janela e, sôbre a Lagoa e os morros, cai uma ne­


blina impertinente e o chamado astro-rei não lhe
dá sinal de vida.
E tem que escrever.
Em cima da mesa a folhinha indica-lhe o cami­
nho. E não seria o santo do dia, um São Devoto
qualquer, quem o conduzisse ao papel branco para
a crônica de obrigação. A data está ali aos seus
olhos à procura da tinta azul e a letra miúda e sem
forma de letra.
14 de Julho. Lembro-me de que fôra feriado
nacional e de que o meu colégio de padres não res­
peitava. Lembro-me das minhas aulas de Histó­
ria Universal, com todos os agravos aos assassinos,
aos matadores de rei, aos bandidos das ruas de
Paris.
Mas aos poucos os fatos foram-se revelando
ao mínimo conduzidos pelas diatribes do compên­
dio dos F. T. D. E a Bastilha apareceu ao menino
doutrinado como uma libertação do homem.
E, assim, o 14 de Julho do ódio, reacionário dos
bons padres-mestres, já não seria, para êle, uma
data negra, só de vinganças, de sangue derramado,
de povo sôlto como bêstas-feras.
Nada disto. O verdadeiro 14 de Julho de
1789 ficaria no seu calendário como o dia do
homem.
A revolução que começava a destruição da for­
taleza do Rei Carlos não era mais que quatro pa­
redes de sólida alvenaria a servir de cárcere aos
inimigos do jpoder absoluto. Mas o que significou
90 J o sé L i n s do R êgo

a sua destruição pelas próprias mãos do povo fôra


muito mais que uma violência de insurreição das
massas famintas, que já não se detinham com os fo­
gos de artifício da rainha austríaca.
A Bastilha, por terra, era o homem a mandar
no próprio destino, era a vontade do povo a preva­
lecer no capítulo, era o direito que assumia o povo
de poder enforcar o rei que se constituísse em ini­
migo da liberdade.
O homem não era mais do que coisa para o re-
galismo que mandava até em Deus. E se homem
levantava a cabeça para mostrar que era homem,
haveria sempre uma Bastilha, uma Tôrre dos
Chumbos, uma Tôrre de Londres, a serviço do po­
der das tiranias operantes.
O Rei David, em salmo ao mestre do canto can­
tara assim a dignidade do homem:

“Vós o fizestes pouco inferior dos anjos;


De honra e de glória o coroastes;
Destes-lhe poder sôbre as obras de vossas mãos;
Tôdas as coisas lhe submetestes aos pés”.

Mas depois do Rei David os reis dêste mundo


mudaram de opinião. E transformaram o reinar
sôbre os homens, num reinar sôbre bichos.
No dia 14 de julho de 1789, o povo de Paris
saiu às ruas com as armas do castigo nas mãos trê­
mulas de fome e cólera para dizer ao Rei Luís que
o homem desta terra era ainda aquele do salmo do
Rei David, com poder sôbre as obras de Deus, sô­
bre “ as ovelhas e bois, todos juntos, e ainda os ani­
0 V u lcão e a F onte 91

mais do campo, as aves do céu e os peixes do mar.


E sôbre tudo que se move pelos caminhos do mar” .
E, a 14 de julho, o homem voltava a ser o filho
de Deus.
Os padres-mestres dos compêndios não tinham
razão. Quem tinha razão era o Rei David, com a
sua harpa.

RUSSELL E OS PA R TID O S POLÍTICOS

Chega Bertrand Russell à conclusão de que o


fascismo e o comunismo, analisados, psicologica­
mente, são extremamente parecidos. Ambos não
passam de credos pelos quais os políticos ambicio­
sos procuram o poder que antes estava em mãos
do capitalismo. Têm, no entanto, ideologias dife­
rentes. Mas uma ideologia não é mais que a arma
do político; é para o político o que o fuzil é para o
soldado. A técnica dêsses partidos é a mesma:
primeiro, convencer uma minoria através de uma
doutrina de ódio; depois, graças a alguma mentira,
reduzir esta minoria a poder militar; e, finalmente,
estabelecer uma tirania. O método, embora exer­
ça tanta atração ao mundo moderno, foi inventado
por Cromwell. Os defeitos dêste método são ób­
vios. Como faz apêlo ao ódio conduz, no íntimo, à
crueldade e a supressão de tôda índole de liberda­
de, e, no exterior, a uma veemente reação de ter­
ror e de preparação para a guerra. Em vista da sua
técnica, o seu triunfo, que vem de análogos movi­
mentos religiosos do passado, só pode ser tempo­
ral. Porque„o entusiasmo pela ideologia cede lu­
92 J o sé L in s do R êgo

gar à corrução e o impulso pela causa degenera em


atividades de espiões e delatores. O governante,
tomado pelo terror do assassinato e das revoluções
palacianas, fica prisioneiro do seu próprio serviço
secreto. E todos os governados se convencem de
que o melhor caminho para subir é denunciar pa­
rentes e amigos.
Nada de novo há em tudo isto. Já acontecera
nas páginas de Tácito.

SÔBRE A LIBERDADE

Lia, na manhã de hoje, um livro de Francisco


De Sanctis sôbre história da literatura italiana,
quando me chegaram os jornais. Paro no capítu­
lo sôbre Torquato Tasso, justamente no trecho em
que o mestre tratava do problema da liberdade. E,
logo em seguida, leio um telegrama do Sr. Octávio
Mangabeira onde êste político acusa a Liga Eleito­
ral Católica, ou os padres da Bahia, de ter tomado
partido na eleição de sua terra pela candidatura
Dutra.
Volto a De Sanctis nesta úmida manhã de chu­
va e continuo a tratar da liberdade entre os antigos
e os modernos.
Para os antigos, liberdade era a participação
dos cidadãos no Govêrno. Para os modernos, além
desta liberdade política, devia existir a liberdade
intelectual ou a liberdade de consciência, liberda­
de de pensar, de escrever, de falar, de reunir-se, de
discutir, de ter uma opinião e divulgá-la ou ensiná-
la. Esta seria a liberdade substancial do indiví­
0 V ulcão e a F onte 93

duo, direito natural do homem independente do


Estado e da Igreja. E, assim, o homem tem como
base de sua vida interior o poder de interpretar e
divulgar a verdade. Não haverá privilégio do sa­
cerdote ou do poder político para os negócios da
inteligência. Contra esta concepção da liberdade
estariam os conceitos fundados na onipotência da
Igreja e do Estado, o direito divino, a teocracia, o
cesarismo, a absorção do indivíduo no ser coletivo,
chame-se a isto Igreja, Estado, Papa ou Impe­
rador.
O Concilio de Trento santificara a Monarquia.
Papa e rei uniram-se. O rei dava ao Papa o braço
secular e o Papa dava aos reis os inquisitores, os
poderes religiosos. Trono e altar seriam matéria
fora de discussão. E se transforma em delito de
opinião pensar livremente. Dêsse modo, a Reli­
gião se converteu em instrumento político. E mui­
tas vêzes o despotismo político era o mesmo que o
despotismo religioso.
Termino a leitura de De Sanctis e volto ao te­
legrama do Senhor Mangabeira. Os padres baia­
nos se puseram ao lado de uma candidatura, dan­
do preferência entre dois católicos.
Sinto a mágoa do político, católico prático êle
mesmo, que sofre êste ato de parcialidade dos sa­
cerdotes de sua Igreja como um golpe de morte.
Mais uma vez eu acredito que não andaram
bem os nossos dirigentes católicos. Porque, pon-
do-se tão na-terra, tão na intimidade das paixões
J o sé L in s do R êgo

dos homens, êles confundiram a fé em Deus com os


miseráveis interêsses do século.

O SUICÍDIO DE DRIEU LA ROCHELLE

Um crítico quis ligar o desgraçado Drieu La


Rochelle a Charles Maurras e fazer do cubismo o
responsável pela degradação política de Vichy. Em
primeiro lugar, Maurras fôra, em tôda a sua vida
literária, o inimigo mais radical de todo movimen­
to de libertação artística, sendo um anti-românti-
co. E, depois, Drieu La Rochelle vinha de uma
geração de homens dilacerada pela guerra de 1918,
de uma geração de negadores mórbidos. O seu li­
vro Mesure de La France, de ensaios políticos e so­
ciais, e não romance, é o modêlo do pessimismo
francês de 1920. Ali se encontra a história de sua
vida intelectual. É um Drieu que não acreditara
na vitória, que fugia, pela porta da negação, da rea­
lidade do seu tempo. É o homem triste que diz:
“ II n’y a plus de partis dans les classes, plus de clas­
ses dans les nations, et demain il n’y aura plus de
nations” . O rapaz que saíra das trincheiras não
acreditava em nada. É êle mesmo quem confes­
sa: “ II n*y a plus de conservateurs, parce qu?il n’y
a plus à conserver. Religion, famille, aristocratie,
toutes les anciennes incarnations du príncipe d’au-
torité, ce n’est que ruine et prendre” . Era êste o
Drieu de seu tempo inquieto. Nada mais longe de
Maurras, que acreditava na família, na aristocracia,
nos princípios da autoridade.
O V ulcão e a F onte 95

O que havia no pobre Drieu foi mais uma disso­


lução da alma. Não teve fôrça para sofrer o seu
mundo de transição e começou a procurar realida­
des que não lhe deram estabilidade moral. O seu
livro de ideologia política, Genève ou Moscou, não
diz nada, não resolve a sua crise. O incrédulo co­
meça a acreditar em fantasmas, em soluções que
eram remédios de curandeiros. E terminaria em
traidor da França, daquela França que êle preten­
dera medir e salvar. Não teve fôrça para medi-la
e nem vida para salvá-la. A sua aliança com a Ale­
manha, a sua degradação moral levaram o homem
de letras fracassado ao suicídio.
Há outros mais infames do que Drieu La Ro-
chelle que não se matam. Pelo contrário, que ma­
tam, que querem sobreviver ao fascismo que ali­
mentaram e a que serviram pelo crime, pelo assas­
sínio, pela corrução.

A VOZ DE PARIS

Outro dia, enquanto o Padre Ducattillon fala­


va sôbre a importância da libertação de Paris para
o mundo, eu me recordava de Paul Valéry, que no
seu último livro, publicado no Canadá, tomara a
sua cidade para tema de um de seus “regards sur
le monde actuel” .
E nos diz o mestre, com a sua precisão de pa­
lavras, que êle quer falar da cidade mais completa
que existe no universo, onde a diversidade de ocupa­
ções, de produtos, de indústrias e das idéias é sem­
pre mais ricer e mais em mistura que em qualquer
96 J o sé L in s do R êgo

parte. Ali se formou uma concentração humana,


que se fêz de capital política, literária, financeira,
comercial e voluptuária, e, mesmo, suntuária, de um
grande país. Existem outras cidades com a sua
marca particular. Uma se orgulha de ser o mer­
cado de todo o diamante da terra; outra controla
o algodão; outra é o pôrto do café, do trigo, das se­
das; uma fixa o preço das peles e dos metais. Há
cidades que cheiram a couro. Paris faz um pou­
co de tudo. Não que ela não tenha a sua especia­
lidade e a sua fisionomia particular. Paris é de
uma ordem mais sutil, e a função que exerce é mais
difícil de definir que de outras cidades. Paris “ fait
songer à je ne sais quel grossissement d’un organe
de resprit” . E, de fato, é ali onde as idéias pare­
cem tomar forma. A cidade tem um caráter que
se firmou através de longa experiência, de terríveis
vicissitudes históricas. No espaço de dois ou três
séculos foi cabeça da Europa e, em trezentos anos,
seria conquistada três vêzes pelo inimigo. Em Pa­
ris se geraram uma dúzia de revoluções políticas,
em Paris se fizeram renomes de fama mundial, e
em Paris se destruíram quantidades de tolices que
pareciam verdades eternas. E esta liga de raças e
tendências é, em todos os sentidos, a metrópole de
tôdas as liberdades, a capital da sociabilidade hu­
mana.
Esta capital da sociabilidade humana não po­
dia se transformar em cidade morta, em centro de
guerreiros em férias. A função de Paris teria que
se exercer, com a sua fôrça de séculos. Livre, en­
O V u l c ío e a F onte 97

tregue ao povo, a cidade que tem sentidos para go­


zar, mas que conserva uma consciência de recepti­
vidade agudíssima para tudo que se refere às liber­
dades do homem, volta a gerar vontades indomá­
veis. Já se escuta a voz do povo de Paris. Esta
voz de tremendas palavras acusatórias, de gritos
pela liberdade e de doces ternuras sabe derrubar as
Bastilhas armadas em fortalezas. O povo de Pa­
ris já está tendo voz no capítulo. É então sinal de
que o mundo não está tão perdido como se diz.

A LU Z DE GOETH E

Grandes figuras do mundo se reuniram no


W aldorf Astoria, de New York, para uma home­
nagem a Thomas Mann, símbolo da inteligência
européia, que o nazismo quis destruir em vão.
Mann seria para os fascistas o tipo do escritor
pernicioso, porque era, em todos os sentidos, um
homem livre. O militarismo prussiano não pode­
ria suportar o contato de um criador da categoria
goetheana, de um poeta ou de um romancista que
colocava a vida interior, as grandezas do espírito,
acima do delírio de concepções nefandas. Mann
tinha tudo para repugnar aos monstros pardos, sen­
do um alemão de consciência democrática, de liga­
ção com o universo, mestre de um humanismo que
é o outro lado da fôrça bestial de bárbaros que ma­
nejavam a química, as ciências naturais, as má­
quinas, com a fúria de loucos. A importância ma­
terial da Alemanha não lhe dera a civilização. O
que era a civilização alemã seria um Thomas Mann,
98 J o sé L in s do R êgo

que os donos de sua pátria correram de sua terra,


como se fôsse êle um criminoso comum.
Agora que o nazismo apodreceu, Mann poderá
aparecer ao mundo como o alemão que sobreviverá,
como aquêle que existe para continuar a vida inte­
rior que não se corrompeu com a tirania. Goethe
não era herói do nacional-socialismo. A vida de
sua poesia não servia para as paradas, para os es­
petáculos de assombro, de um povo embriagado
pelo sangue da humanidade. O crime que o nazis­
mo tomou como ponto de partida do sucesso polí­
tico era, na literatura de Goethe, o lado negro do
homem. A luz goetheana vinha dos horizontes
mediterrâneos. E é por isto que a sua fôrça não se
perdeu nas abstrações, nas teorias de fanático, nos
arrancos da fera acuada. Tudo que era as noites
da Floresta Negra a luz goetheana vencia, atraves­
sava com a sua claridade de aurora. O gélido, o
terrível frio da alma germânica, a poesia de Goe­
the aqueceu com o térmico de sua imaginação fe­
cunda. O homem da tragédia de Caim, o irmão
terrível que é o complexo germânico, fôra domina­
do pela paixão humaníssima de Goethe. E para
esta luz quente que não se apagou de uma vez para
sempre, da Alemanha, é que se voltam os homens
que, em New York, se reúnem em tôrno de Mann.
Porque Mann, como nenhum outro, é esta luz de
Goethe que não se apagou.
A M INH A Q U A R T A -FE IR A DE CIN ZAS!
Escrevo esta crônica numa Quarta-Feira de
Cinzas, com alma cansada, não pelas extravagân­
0 V u lcão e a F onte 99

cias do entrudo, que não fiz, mas pelas noticias do


mundo, que são de desespero.
O discurso do velho Churchill, num tom da­
queles de sangue, suor e lágrimas, o caso da Espa­
nha, as vantagens de Perón na Argentina, a Mand-
chúria, o Irã, a Itália, a Grécia, tudo isto dá à paz
com que sonhávamos um caráter de beligerância
e de catástrofe.
As divergências de classes, a ganância de todos
os imperialismos se chocam, a cada instante, num
aumentar de atritos que bem mostram que a tal
máquina das Nações Unidas não funciona, não an­
da. Tudo como na pobre e desgraçada Liga das
Nações. A história se repete, em grande estilo, e,
se não vemos a pobre figura do Negus a pedir jus­
tiça, há outras figuras de pobres vítimas, como a
dêste “ prémier” do Irã, a correr para Moscou atrás
de uma concordata. No entanto, o petróleo da Pér­
sia queima nas entranhas da terra como se fôsse
um presente do Diabo. A imagem do pomo da dis­
córdia se realiza em poços, a jorrar óleo.
E o fato é que a luta se estabelece, como em
1914, em 1939, em têrmos mesquinhos de maté­
rias-primas e de mercados.
A guerra, que consumiu cinqüenta milhões de
criaturas e transformou a Europa numa imensa fo­
me, não resolveu nada, em definitivo. Há, por tôda
parte, uma vontade doentia de mando, como se a
carnificina, que terminou em 1945, houvesse exa­
cerbado ainda mais certos instintos perversos do
homem. Não há uma grande palavra como aque­
100 J o sé L in s do R êgo

la de Wilson, em 1918. Há, e sem nenhum respei­


to pela humanidade, com um descaramento de doer,
a mais vil cobiça pelos restos de um mundo.
Uma vez, antes desta guerra, um escritor bra­
sileiro, que andava pela Europa, à volta escreveu
um livro a que deu o título de Ossos do Mundo. O
que êle vira, por êsse tempo, ainda era bem carne,
comparado ao que hoje existe.
Os ossos da Europa brilham, ao sol e à neve,
como os ossos de um gigantesco cemitério, a des­
coberto.
Mas tudo isto não é nada para os inventarian-
tes, para os abutres, para os imperialismos de tô­
das as côres, que pretendem dividir a Terra em pe­
daços de influências.
Esta Quarta-Feira de Cinzas deixa na alma
do pobre cronista desprevenido e ingênuo um mêdo
de morte geral, de acontecimentos que vão além de
tudo quanto imaginou o aterrado poeta João, do
A pocalipse.

A DAN ÇA DO DIN H EIRO

A desvalorização da libra foi como se a viga


de um edifício ruísse. A casa não chegou a cair,
mas os cuidados tomados para manter de pé a cons­
trução ocupam os homens entendidos. A emoção
do acidente alarmou os moradores e vizinhos. E
há um côro geral dos que temem o desastre e dos
que não acreditam na queda definitiva da moeda
que governou o mundo, até bem pouco tempo.
0 V u lcão e a F o nte 101

São as vacilações do dinheiro, na sua corrida,


de um lado para o outro, provocando pânico, acele­
rando a vida, arrastando à morte.
Os mestres de finanças e economia, as cabeças
que funcionam com o rigor das máquinas de cal­
cular puseram os dados na mesa, mediram, pesa­
ram e, depois de tôda a manobra, depois de pene­
trarem os segredos, chegaram às medidas radicais.
A libra passou de rainha a vassala, de senhora a
quase escrava da moeda que esmaga o mundo, como
a maior necessidade de todos os mercados.
Mais uma vez se repete a história do Império
Romano, mais uma vez todos os progressos terão
que se descobrir ao triunfador que passa de cima
do seu orgulho.
A história da libra se conta como amanhã se
contará a do dólar. Será a história de todo o es­
plendor e de tôda a miséria, de tôda a fôrça em as­
censão e de tôda a fraqueza.
O drama é que nos emociona, mesmo quando
se sabe que a realidade, o fato concreto, já era mais
que evidente. Os jornais se encheram de cabe­
çalhos para registar um acontecimento que os pró­
prios leigos nas ciências econômicas tinham como
certo. Não havia outro jeito ao velho dono que re­
conhecer que outro dono mandava nos seus domí­
nios. A cidadela do ouro mudara-se de Londres
para outra cidade de mais conforto e mais seguran­
ça ao metal precioso. E desde que a libra reconhe­
ceu-se incapaz de manter o seu estadão de vida, os
satélites abriram a bôca no mundo e começam a
102 J o sé L in s do R êgo

sua choradeira de pequenos. Choram os florins, os


francos, as coroas, as pesetas. Há um chôro de
cortar coração de moedas que se reconhecem me­
nores e mais ínfimas do que pareciam.
Enquanto isto, o dólar, do alto de suas torres
de comando, manda nos seus domínios como um
soberano de poder absoluto.
Eu não sou Cassandra atrás de misérias a anun­
ciar, mas que a podridão do reino da Dinamarca é
hoje uma podridão do mundo inteiro não me pare­
ce exagero. Os dólares e libras que se ajustam,
agitam-se em passos de macabra dança de São
Guido. Não é um baile de festa o que dão, é uma
doença das entranhas que não podem conter.

A R T E E PO LÍT IC A

Há pouco tempo um crítico marxista se mos­


trou exasperado com a arte que não fôsse a ma­
nifestação do homem contra o meio hostil.
Um artista, para êste crítico, não passava de
porta-bandeira de idéia em marcha. O poeta e o
pintor carregariam aos ombros responsabilidades
de políticos disfarçados. Se houvesse um homem
padecendo, não podia o poeta olhar para as flôres
do campo. Se assim fizesse, estaria traindo o seu
destino. A poesia só podia falar para protestar
contra a injustiça. Se assim não fizesse, o poeta
não passaria do instrumento de classe dominante.
O tal crítico não fazia mais do que reproduzir
as ordens emanadas do “ realismo social” que era
a filosofia vitoriosa na crítica de arte soviética.
O V ulcão e a F o nte 103

Tudo isto estaria definitivamente estabelecido, se


o russo não fôsse um dos homens mais artistas da
terra. Depois das tremendas lutas políticas sôbre
a função sólida do artista, com a intervenção de
Radek e Bukharin, a arte na Rússia havia chegado
ao mais triste formalismo que é o “ realismo social” .
Stalin passou a ser modelo geral para os pintores e
escultores. A poesia e o romance teriam que lou­
var as fábricas e as fazendas coletivas. Devia-se
sacrificar a arte ao bem coletivo. Muito mais valia
o propósito dogmático do que o impulso criador.
Dizia Bukharin com a sua ponta de ironia: “ Pode o
“realismo social” sonhar, mas que os seus sonhos
sejam fiscalizados e devem fundar-se sôbre as ver­
dadeiras tendências do desenvolvimento social” . O
grande crítico debateu-se contra a antítese entre o
romantismo e o “ realismo social” . A intransigên­
cia de Bukharin custou-lhe a cabeça. Depois foi
o triunfo oficial do socialismo que se propagou
pelo mundo, embora um Picasso, o homem da bom­
ba da paz, não se entregasse aos seus rigores dou­
trinários.
Tudo isso passou. A Rússia compreendeu que
estava matando o artista. A cabeça de Bukharin
não foi o bastante para consolidar a doutrina que
certos basbaques imaginaram ser a última palavra.
E o povo russo, através de líderes mais esclareci­
dos, voltou à liberdade do artista.
Venceu o poder criador contra as posturas de
censores burocráticos. No último congresso de ar­
tistas de Mescou ficou estabelecido que um nu po­
104 J o sé L in s do R êg o

de exprimir beleza artística. E há mesmo uma


procura crescente dos romances menos doutriná­
rios de Tolstoi. É que o russo é povo dotado de
sensibilidade artística. Um Dostoievski não bro­
taria de um rochedo. Enquanto isto, aqui no Bra­
sil, os críticos, que são vocações de moço de reca­
do, continuam a confundir o artista e a sua função
política. O que nos salva, é que, os tais críticos es­
crevem como toupeiras.

O INGLÊS E A V ID A

Não acredito na agonia da Inglaterra, como


muitos acreditam. Não acredito que tenha pere­
cido o espírito inglês, e que só reste do grande Im­
pério o nome pomposo, para uma boa lição de His­
tória Universal.
Pelo contrário, estou certo de que, ainda des­
ta vez, poderão os anglos dar ao mundo a ordem
que lhe falta, o equilíbrio que ameaça, a cada ins­
tante, se partir.
Ontem, em conversa de livraria, ouvi que se
decretava a morte do Império Britânico, que se fa­
lava em imperialismo moribundo, um povo acossa­
do pela crise, a roer as pedras de seus rochedos, com
a sua moeda em nada, com as suas cidades geladas
de frio, sem carvão. O tom das carpideiras era de
júbilo. Até que enfim a orgulhosa Álbion baixa­
ra a cabeça para uma escola.
Confesso que me impressionara a farsa dos
meus amigos, e que ao ver o magro Magalhães, com
as suas cifras mortuárias, chegara a imaginar um
0 V ulcão e a F o nte 105

rei da Inglaterra sem orçamento para manter o


seu estado de vida.
No entanto, as carpideiras brincavam com a
realidade. Sempre há, em conversas de livraria,
um homem que sabe tudo, e um grupo que arregala
os olhos, e concorda, e concorda demais.
O homem que sabe tudo tinha decretado uma
morte que já lhe passara "bito velho. Não havia
mais Inglaterra. O que havia era uma ilha a ca­
recer de pão para a bôca, como uma esmola, de por­
ta de banquete.
O pessimismo alegre dos meus amigos não era
mais do que uma festa antes do tempo. Porque a
Inglaterra não estava tão ruinzinha assim, tão fra­
ca, tão anêmica, tão sem esquadra, homens e es­
pírito. \
Há pouco, em Paris, André Malraux falava de
um discurso de Churchill, para lembrar aquela fra­
se que ficara na história, como um marco de nosso
tempo e onde o grande inglês dizia: “ Nunca, depois
das Termópilas, tão pequeno número de homens
salvou a liberdade do mundo” . E nos adianta Mal­
raux: “ Pois bem! Mesmo se — o que não creio —
o Império Britânico devesse morrer, desejaríamos
a todos os impérios que combateram conosco que
tivessem uma morte tão bela. O dia em que se
pôde falar nas Termópilas, sem cair no ridículo,
não era precisamente o momento para se crer na
morte; não é nesses momentos que se morre em
geral” .
106 J o s é L in s d o R êgo

Por tudo, não acredito em vocês, meus queri­


dos amigos de livraria. Vocês sabem demais, mas
quem sabe viver, e viver com sabedoria, é a gran­
de Inglaterra.

A R E A L ID A D E DE CHU RCH ILL

“ O Globo” começa a publicar as memórias do


inglês Winston Leonard Spencer Churchill, filho
de lorde, neto de duque, chefe de partido e, sobre­
tudo, homem, somente um homem.
O Churchill, da bôca do povo, é um guerreiro,
como fôra o velho avô dos tempos do Rei Luís. E
se não foi general, é que quis ser escritor, fazer cur­
so em Oxford, em vez de curso de academia mili­
tar. Mas o que há de predominante no tempera­
mento Churchill é o sangue do terrível duque que
andou pela França, no século do Rei Sol, como se­
nhor das batalhas. Se, porém, não brandiu a es­
pada, armou-se do poderoso instrumento da pena
para vencer. O correspondente na guerra dos
bôers era apenas a experiência do escritor de for­
mação vitoriana, que daria, à língua inglêsa, sono­
ridade de metal de têmpera.
Churchill entra na política dos tóris, para ser
um conservador tempestuoso. A sua forma de
agir, de dizer, de fazer, não tem nada de conven­
cional. É um filho de lorde que nada quer com
a Câmara dos Lordes. Churchill é dos Comuns,
da fôrça da palavra, no uso violento de suas ver­
dades.
0 V ulcão e a F onte 107

Em começos de 1940, chega Gilberto Freyre da


Europa e me diz: o homem da Inglaterra será Chur-
chill. Por êste tempo Chamberlain pretendia de­
fender o Império armado com o pano de seu guar­
da-chuva de velho burguês.
E Churchill não foi só o homem da Inglaterra,
como do mundo inteiro.
Lá do outro lado do mar estava o amigo Roose-
velt. Londres se transforma numa cidade de des­
troços. Mas ao leão Churchill sobra tempo para
mandar ao amigo distante um poema de Milton. E
Roosevelt lhe responde com outro poema de Long-
fellow. Aos poemas sucedem o aço das fábricas,
os homens da América, os pássaros de fogo.
Depois vem a invasão da Rússia. O discurso
de Churchill decide da sorte d í União Soviética.
Hitler jogara errado, ao imaginar que os interêsses
de classe prevaleceriam no tóri, de sangue de duque.
Êste é o grande homem que nos vai contar a
sua vida.
Sempre os inglêses são homens nus em suas
memórias para o público. Os homens mais reser­
vados, mais compostos, se despem, como humildes
filhos de Deus, para que sejam vistos na sua rea­
lidade.
Vamos ver Churchill, na sua imensa realidade
de inglês de mil anos.

UMA C A R T A DE A R RU D A CÂM ARA

O primeiro número da “ Revista da Academia


Paraibana de Letras” está cheio de boa literatura,
108 J o sé L in s do R êgo

de um esplêndido entusiasmo pelas coisas do espí­


rito e com a colaboração de homens a quem a paz
provinciana deu-lhes tempo para trabalhar, sem
pressa e com capricho. Lá está o magnífico estu­
do de José Florindo da Nóbrega, sôbre Augusto dos
Anjos, crítica de clara e aguda interpretação de
uma poesia que é um problema dos mais comple­
xos de nossa história literária.
E é da monografia do acadêmico Oscar de Cas­
tro, sôbre o botânico Arruda Câmara, vasta avalia­
ção de uma prodigiosa vida de sábio e patriota, de
que me sirvo, agora, para reproduzir alguns tre­
chos de uma carta-testamento do mestre colonial
ao seu amigo o Padre João Ribeiro, discípulo e lu-
gar-tenente do prodigioso cientista.
Estava Arruda Câmara em 1910, em Itamara-
cá, às portas da morte. A sua obra de preparação
política se fizera através do Areópago de Itambé,
centro de conspiração que se disfarçava em núcleo
cultural. Sem esperanças de ver o dia da liberta­
ção, toma da pena e escreve ao rapaz amigo a car­
ta que é um documento de enorme significação ao
estudo de sua personalidade, tão pouco conhecida
no Brasil.
Como José Bonifácio, Arruda Câmara via o
Brasil do futuro e, por isto, sentia os perigos e as
necessidades de sua formação social. A colônia,
nos começos do século, era uma nação a brotar. Mas
ao sábio, que não escapava à flora tropical que pos­
suía como naturalista de gênio, doía a vida de sua
pátria reduzida à escravidão política e à desordem
0 V ulcão e a F o nte 109

social. A carta que escreveu ao amigo do peito


reflete os temores de quem morria longe do pôrto.
E, a olhar a terra que não pisará com os seus
pés, o capitão se volta para as esperanças que lhe
estão no peito:
“ Como assim acabem com o atraso da gente de
côr, isto deve cessar para que logo que seja necessá­
rio se chamar aos lugares públicos haver homens
para isto, porque jamais pode progredir o Brasil
sem êles intervierem coletivamente em seus negó­
cios, não se importem com essa acanalhada e absur­
da aristocracia cabunda, que há de sempre apresen­
tar fatais obstáculos. Com monarquia ou sem ela,
deve ela, gente de côr, ter ingresso na prosperida­
de do Brasil” .
Aí está a visão do estadista, no conselho do
homem que, acima dos preconceitos de sua época,
sabia ver o seu País, na sua realidade. O terrível
mal da escravidão, que seria a doença grave da
nossa sociedade, tivera do botânico, criado na En­
ciclopédia, o mesmo tratamento que, anos mais tar­
de, José Bonifácio preconizara para o fundamento
do nosso progresso.
Mas o Brasil nunca deu ouvidos aos seus gran­
des homens.
Sempre é melhor escutar os medíocres que não
nos ameaçam os negros que nos lavram a terra, e
não nos fazem mêdo com idéias perigosas.
E por não ouvir a homens como Arruda Câma­
ra, José Bonifácio, Tavares Bastos é que hoje nos
encontramos em atoleiros de tôdas as espécies.
110 J o s é L in s d o R êgo

T R IS T E Z A S DO N A T A L

Aproxima-se o fim do ano de 1950 e podemos


dizer que, se não foi um ano decisivo para a Huma­
nidade, carregou nas suas entranhas os germes da
catástrofe que se aproxima. A guerra, que todos
não querem mas que todos admitem com o a única
solução para o conflito de classes e de interesses
que roem a paz do mundo, está aí. A bomba da
paz, da criação de Picasso, não é mais do que a su­
gestão sinistra da máquina de matar, cada vez mais
terrível. Os discos-voadores, que a imaginação do
homem com mêdo vê pelos céus, rutilando, não
com aquêle brilho da estrêla do pastor, mas com o
uma raiva do homem, uma luz que é um raio infer­
nal, atravessam os céus com o se conduzissem men­
sagens mortais. T odos falam de paz, e não há paz
nos corações, e não há paz nem nos desejos nem
nas intenções.
Êste foi o ano de crise de 1950, meio de século
com duas guerras universais, metade de um tempo
de progresso vertiginoso e de maquinações mons­
truosas. Em 1945, muita gente alimentou a ilusão
de que tinha sido morto, com o nazismo, o instinto
homicida de conquista, de anseio pelo domínio do
mundo. Mas, qual. Terminara somente um ca­
pítulo da novela policial. Somente uma das patas
do dragão havia sido esmagada. O dragão conti­
nuava vivo, sem que a lança do santo tivesse atra­
vessado o seu coração, mais duro do que pedra. O
nazismo era apenas uma das doenças do tempo; ou­
O V ulcão e a F onte 111

tras existiam, tão malignas, com a mesma virulên­


cia capaz de matar, sem que agissem sôbre elas as
bondades dos que eram possuídos das melhores in­
tenções. Dentro do corpo escondiam-se todos os
germes assassinos. O reino era mesmo do jovem
Caim furioso.
E aí está a guerra preparada, cuidada, ames­
trada, dona de todos os sistemas de matar e de to­
dos os processos secretos de extinção da espécie.
O chamado gênero humano enfrenta as perspecti­
vas de massacres gigantescos. Morte a grande,
a grosso, a granel, morte nos campos de batalha,
dentro de casa, nas cavernas, ao clarão da lua, ao
brilhar do sol, nos campos floridos, nas igrejas sa­
gradas, nos ofícios, no trabalho, na cama do doente,
nos atos de amor, no silêncio dos sepulcros. Morte
pelos instrumentos mais precisos de matar, pela
ciência mais pura, pelas descobertas dos maiores
segredos. Mas a morte em primeiro lugar, a morte
acima de tudo. E desde que se estabelecem as ofi­
cinas da morte, os laboratórios da morte, passa o
homem a se concentrar para, através de perfura­
ções profundas nos segredos de Deus, usar êstes
poderes, que eram só de Deus, na aventura diabóli­
ca. Vencem os mistérios para colocar a serviço do
jovem Caim as mais perfeitas armas. E, assim,
não há quem possa com o crime, que foi às origens
da vida para poder destruí-la radicalmente.
Êste Natal de 1950 não deu a menor ilusão da
fraternidade cristã, daquela paz entre os homens de
boa vontade da palavra dos Evangelhos. Deu-me
112 J o s é L in s do R êgo

a impressão dolorosa de que, nas consoadas que co­


míamos, havia o amargo das horas trágicas que se
aproximam com a velocidade do raio.

AS NOSSAS INSTITUIÇÕES POLÍTICAS

O Sr. Oliveira Viana, no seu último livro Ins­


tituições Políticas Brasileiras, analisa magistral­
mente a nossa capacidade para a cópia de fórmulas,
a nossa tendência às reformas de caráter político,
partindo de cima para baixo, e nas quais os códigos
e as constituições se elaboram e se geram “ sem a
menor indagação, da parte dos seus elaboradores,
das condições culturais do povo, sem se preocupa­
rem com êle” .
As nossas revoluções e reformas se fizeram
sempre em nome do povo, mas, quando vitoriosas,
o que menos interessa aos chefes é a qualidade do
povo, a sua realidade, as suas condições de vida.
Feita a revolução, como em 1889, 1922 e 1930, tra­
balham os juristas as cartas que serão adotadas e
convencidos ficam os legisladores que deram ao
País tudo o que lhe faltava. Rui Barbosa, com a
Primeira República, pretendeu a Federação e tudo
foi feito nas medidas americanas, embora a reali­
dade brasileira entrasse nas leis como apenas um
material para o brilho do jurista de extraordinária
erudição constitucional. O grande corpo da Na­
ção, as heranças coloniais, enfim, o que mais inte­
ressava corrigir ou preservar foi pôsto à margem.
Havia a certeza de que, posta em execução a lei bá­
sica, a Nação inteira criaria outra vida, tudo se
O V ulcão e a F onte 113

transformaria, o que era doença interna, males e


misérias do povo, não resistiria ao poder milagroso
da lei no papel.
Mas nós sabemos que todos êstes esforços têm
dado em equívocos trágicos. E, como nos diz o
Sr. Oliveira Viana, desta ânsia de imitar surgem
“ os desconformismos e a contradição dos compor­
tamentos com a ideologia das suas Chartas e Có­
digos” .
E as leis vão por um canto e os homens por ou­
tro. E é esta contradição que provoca no povo um
pessimismo, quase mórbido, em relação aos homens
públicos. As leis pedem homens que as executem
à altura de sua grandeza. E os homens permane­
cem como realmente são, criaturas de sua realidade,
longe da utopia dos textos. É o mesmo que, a pro­
pósito do Pensamento Político Chinês, registra L.
T. Chen, da citação de Marcus Cheke: “ Quando
uma instituição, cujas raízes não se encontram no
povo, é introduzida superficialmente, é tal qual que
arrancar as flôres do jardim de um vizinho para en­
feitar os galhos secos da nossa árvore: não pode
haver vida, e a reconstrução do pensamento de uma
nação não pode ser conseguida por uma transplan­
tação, em grosso, do pensamento de uma outra so­
ciedade; ela deve seguir o desenvolvimento natu­
ral e tem de começar com a devida retenção de ele­
mentos da velha presença social” .
Os nossos jardineiros políticos vêm, quase
sempre, adotando a técnica de enfeitar fôlhas sêcas
com flôres de jetórica.
114 J o sé L in s do R êgo

AS BELAS PA L A V R A S

Um jovem de Pernambuco se mos£ra~ alarma­


do com a sedução que certas palavras estão exer­
cendo sôbre a mocidade de seu tempo. São as
belas palavras culpadas do inconformismo de uma
geração que se mostra sôfrega pelas reivindicações
do povo, ambiciosa de liberdade, pronta a morrer
pelas suas idéias.
O rapaz lastima tamanha imprevidência e la­
menta que a juventude se perca assim, quando po­
dia estar ao serviço dos poderosos do dia, dos que
têm fôrças nas mãos e empregos a dar.
A í está uma confissão que é de doer pela sua
crua e triste sinceridade. Um jovem acusa os seus
colegas de correrem atrás de belas palavras. Mas
quais são, afinal de contas, essas belas palavras?
Em primeiro lugar, teríamos que tomar a pa­
lavra liberdade, uma bela palavra, das mais belas
dêste mundo. Os jovens de Pernambuco morrem
pela liberdade. Aliás, sempre se morreu pela li­
berdade em Pernambuco. Se êste jovem adepto
da tirania quisesse olhar para o passado de sua
província encontraria muito sangue pernambuca­
no vertido pela liberdade. Demócrito de Souza Fi­
lho não foi um caso de espanto na história de sua
terra. O amor de Pernambuco pela liberdade está
nas raízes de sua formação social. Ali vive povo
que não teme as aberrações do poder e nem os seus
crimes.
0 V ulcão e a F onte 115

Outra palavra que arrebata os jovens de Recife


é a palavra democracia. Aliás, palavra que é filha
legítima da outra palavra liberdade.
A república é forma de governo ligada à cons­
ciência dos nordestinos. Desde o Senado de Olin­
da, de 1710, até o comício de 3 de março de 1945, que
pernambucanos se insurgem contra o poder tirâni­
co, venha donde vier, de um rei ou de um soba. As
belas palavras não corrompem a mocidade. A mo­
cidade se corrompe na adulação, na subserviência,
na ganância, na covardia perante os fatos consu­
mados.
Podemos nós, os homens maduros, sentir ver­
dadeiro orgulho por uma geração que não teme a
morte porque ama as belas palavras que são as que
salvam o mundo e iluminam os homens.
O rapaz que tem nojo das belas palavras, que
se atrele ao carro da tirania, mas que não fale, que
silencie a sua desgraça. Porque uma bela palavra
que se chama tolerância poderá salvá-lo de suas
fraquezas.

UM L IV R O T E R R ÍV E L

Jean Dutourd acaba de publicar um livro ca­


paz de provocar um estado de choque na França de
1956. Chama-se êste grito de afirmação profunda,
crítica impiedosa das últimas gerações: L es Taxis
de la Marme, o último episódio heróico da coragem
francesa. Quando os exércitos alemães ameaça­
vam Paris, em 1914, Joffre e Galliani opuseram à
desordem a bravura dos gauleses em perigo de vida.
116 J o s é L in s do R êgo

A guerra foi ganha pelos gênios das batalhas. Mas


para Dutourd a França de agora se acomodara com
a derrota, a ponto de parecer uma pobre velha com
mêdo de morrer na miséria. A energia que fêz de
Napoleão a Águia de Austerlitz se transformara na
paciência de “ concierges” malcriadas. A França
tinha até vergonha do passado, dos gestos impávi­
dos dos seus campeadores. O melhor era confiar
nos políticos que não acreditavam em nada, nos
cépticos de gabinetes que faziam discursos com os
lugares-comuns da retórica republicana.
*

Os tais radicais-socialistas só acreditavam na


paz que lhes assegurava o juro dos investimentos.
O exército de Foch se deleitava com os teoremas
de um estado-maior de mestres de matemática. A
guerra de 1914 fizera do exército viril de Verdun
uma massa de homens sem fé na farda. A crítica
de Dutourd vai às origens da desordem moral da
França. Há, para êle, uma ordem nos espíritos que
é uma evidência de satisfação com o que existe de
péssimo. Os políticos manobram as camadas de
opinião como pastores de rebanho. O próprio Par­
tido Comunista se acomoda com os fatos, e quando
se rebela contra êles é para satisfazer a Moscou. O
melhor é ler em casa a “ Humanité” e pescar aos do­
mingos e satisfazer-se com a paz doméstica. Não
há espírito heróico nem nos que têm a obrigação de
morrer por qualquer coisa. O comunista francês
não é mais o homem da Comuna de 1871. É um
0 V ulcão e a F o nte 117

francês como qualquer radical-socialista. O que


mantém a França é ainda o que lhe resta da vida
de um passado que ainda é alimento.

A derrota, que não faz vergonha a uma maio­


ria, dói em franceses da categoria de Bernanos, de
homens que ainda podem levantar uma nação. E
êstes existem. Acha Dutourd que De Gaulle é um
dêstes. Sem a inteligência do comum dos france­
ses, êle tem o gênio que faz os chefes verdadeiros.
Contra De Gaulle há a média geral da França. O
mêdo de seu povo é o maior inimigo do General.
Dutourd descobre a anarquia na ordem de uma so­
ciedade que não quer mover uma palha. A fôrça
de caráter, a grande alma, a idéia de um povo acima
de suas debilidades podem ainda libertar a França
de sua decadência. A França não pode sucumbir
como um fim de civilização. Ela precisa superar
a França da “ belle époque” , reagir contra o tal es­
pírito de “ finesse” e ser o que foi nos seus grandes
dias, uma pátria de homens que podem matar e
morrer.
Chega-se ao fim do livro de Jean Dutourd como
se se tivesse tido uma conversa com Cassandra.
Mas o seu pessimismo tem raízes no solo que deu
uma Joana d’Arc, a energia da terra acima do de-
sespêro e do m£do.
118 J o sé L in s do R ego

NÃO VENCERAM A REPÚBLICA

Jean Guehenno nos conta que, no dia 13 de ju­


nho de 1940, encontrara um velho professor de His­
tória, e, alarmado com a “ débâcle” , quisera saber
do mestre a razão daquela catástrofe tão violenta.
A França vencida como uma nação senvhomens, o
solo da pátria pisado como terra de ninguém. En­
tão o que sabia a História e conhecia a fôrça dos
fatos disse para o escritor possuído de dor pro­
funda :
“ Ah!, meu caro, teremos que procurar a razão
de tudo isto não na história dos nossos dias, mas
na história de dias distantes. O que se passa, ago­
ra, é o fim de um drama que dura cem anos. Eis aí
ao que nos conduziu a frase do Monsieur Guizot:
“ Enriquecei-vos” . Não é para sorrir. O espírito
da burguesia matou a democracia. E êste mesmo
espírito contaminou os camponeses, os operários.
A virtude republicana perdeu. Michelet previra
esta desgraça. Lembrai-vos dos grandes livros de
educação cívica, do esforço de Hércules que êste
nosso mestre recomendava aos homens. O gran­
de Michelet não se enganara. Bem que êle denun­
ciara o mercantilismo, o industrialismo, o capitalis­
mo, todos êstes sistemas que dão mais importân­
cia à administração das coisas do que à formação
da pessoa humana. E tudo chegou a esta situação
deprimente onde os homens foram substituídos
pelas massas. E foi assim, meu caro, que morreu
a República” .
0 V ulcão e a F onte 119

Guehenno não se fiou na amargura céptica do


professor e resolveu não acreditar na morte da Re­
pública. Justamente, o que morrera, na França,
fôra o espírito burguês, como condutor da sua vida
política. O que vivia, apesar da “ débâcle” , era a
República, que o dinheiro e a demagogia não con­
seguiram vencer.
A França que se ergueria da derrota seria a
França de uma república purificada.

T A L L E Y R A N D E O 14 DE JULHO

Duff Cooper não pretende transformar o Bis­


po de Antun em homem da revolução. O que fixa
muito bem no eclesiástico de bom sangue, de moral
pobre, de inteligência cínica é justamente o reacio­
nário que sempre quisera salvar o govêrno monár­
quico. Em 1789, Talleyrand já era homem de 35
anos, nobre de nascimento, com relações e vigoro­
sa inteligência estimulada por uma elevada ambi­
ção que não conhecia escrúpulos. Havia no padre,
que nem sabia celebrar, a rigor, uma missa, os pla­
nos para se fazer um grande estadista eclesiástico,
como fôra Richelieu. O papel de Talleyrand na
revolução seria até certo ponto idêntico ao de Mi-
rabeau. Ambos queriam salvar a nau em perigo.
Conta-se que o solerte bispo ligara-se aos fatos
com intuitos de encontrar uma saída boa para o
regime a morrer. Antes do 14 de Julho, prevendo
a fúria do povo que se libertava, Talleyrand pro­
cura o Conde d’Artois para que êste irmão do rei
fôsse arrancat.de Luís X V I a dissolução dos Esta­
120 J o sé L in s do R êgo

dos-Gerais, ou pela autoridade ou pela fôrça. Luís


X V I não levou em consideração o conselho do bis­
po, pois, nos diz Cooper, não queria ouvir falar em
planos que implicassem derramamento de sangue.
Mais tarde os Bourbons chegaram à evidência de
que os conselhos de Talleyrand teriam salvo a M o­
narquia.
A o verificar que o regime morria Talleyrand
adere à revolução para prestar-lhe serviçoSÜe legis­
lador admirável. E já em outubro de 89 o Bispo de
Antun se volta contra os bens do clero, propondo
a transferência de tôdas as propriedades eclesiásti­
cas à nação. A Igreja era rica, dizia êle, e a na­
ção falida. E assim conquistara a Assembléia, sem
fazer um grande discurso. E iria muito mais fun­
do na vida da França com as suas propostas sôbre
a reforma financeira e a educação obrigatória. O
padre devasso se transforma em paladino da edu­
cação do povo. E chega a presidente da Assem­
bléia.
O reacionário perigoso, que se fingia de ami­
go do povo, caminharia até o fim da revolução como
um oportunista sem entranhas. Era pela Monar­
quia, e, no entanto, concebera a execução do Duque
de Enghien, como um golpe de mestre contra Bo-
naparte.
FIGURAS
FIALHO DE ALMEIDA E A SUA ÉPOCA

Fialho de Almeida não seria o escritor que a


minha geração lesse como um mestre. A influên­
cia de Eça de Queiroz era por demais forte nos nos­
sos entusiasmos literários para podermos nos en­
tregar a outra devoção que não fôsse Eça. Fialho,
nós o liamos sem que mesmo o tomássemos a sério.
Éramos todos de Eça, de sua prosa fluida, do seu
português sem os pedregulhos de Camilo, sem as
dificuldades de sintaxe e as palavras fora da vida.
Palavras que falamos e que, aproveitadas pelo má­
gico, se transformaram em língua poética, de ritmo
largo, de sonoridades que nos arrebatavam. Fia­
lho era mais da outra língua, do árido português
camiliano. A geração que dera os Vencidos da V i­
da, grande rebento de artistas e poetas, secara o
solo português como já sucedera com a floração de
Camões. A terra parecia estéril depois de uma
colheita que fôra de assombro. Um Antero, um
Oliveira Martins, um Ramalho, um Eça haviam
esgotado o solo, chupado tôda a seiva lusitana, ar­
rancado das entranhas tudo o que era possível
transformar em substância. Fôra uma geração de
último arranco, dando-nos a impressão que após
ela nada restaria de Portugal. No entanto, a coi­
124 J o sé L in s do R êgo

sa era outra. Era uma impressão falsa. Rebenta­


riam socas magníficas, viçosas. Cantaria Antô­
nio Nobre na sua voz de lusíada coitado, na mais
doce e pungente voz da poesia de seu tempo e como
um temporão, uma árvore que resistira às derru­
badas, como um pau-d’arco florido de dezembro,
todo roxo e esguio, aparecia Fialho de Almeida
para resistir aos ventos e espanejar desafiando
raios e tempestades.
Fialho chegara dez anos mais tarde que os
Vencidos da Vida. Quando o grupo de Coimbra le­
vantara o seu grito de guerra contra as velharias
podres, êle era menino. Ficara-lhe, então, tôda
a vida, uma espécie de despeito contra aquêles que,
antes dêle, fizeram e disseram o que êle queria di­
zer e fazer. Daí a sua ligação com Camilo, o seu
pegadio doentio com fórmulas e formas que não
desprezaria como que querendo com elas resistir
contra os outros que as destruíram. Era assim o
seu caso, era assim o seu feitio de homem. Um
oposicionista, dêsses que gostam de remar contra
a corrente, pelo gôsto de irritar as correntes. A
obra de Fialho aparecia após a rajada de metralha­
dora que foram A s Farpas, depois das sondagens
profundas de Oliveira Martins, depois do romance
de Eça de Queiroz, depois do grande Antero.
O homem de machado na mão chegara à flo­
resta e encontrava a derrubada feita. Êle queria
derrubar e tudo já tinha ido abaixo. Então, o le­
nhador se amargurou contra os que haviam feito
o trabalho. E olhou os paus no chão, os garran­
O V ulcão e a F o nte 125

chos velhos, e tomou-se de amores pelo que via por


terra. Havia, na certa, naturezas de monstros e
de cínicos nos outros que chegaram primeiro. Era
êle somente que devia ter feito a derrubada. Êle
queria madeira podre para enterrar o machado fa­
minto e, não encontrando os cedros que queria en­
frentar, Fialho ficou do outro lado. Pegou-se com
Camilo a vida inteira. E chegou a aparentar-se de
tal maneira com a língua do clássico que, apesar
de todos os seus galicismos, o que êle é é uma es­
pécie de clássico com raiva, um temperamento bar­
roco até os extremos, procurando fugir do seu tem­
po para ser muito mais infeliz. Tôda a sua histó­
ria vem dêsse despeito de filho mais môço, que se
desajustara da família. Viu êle os irmãos realizan­
do o que era de seu destino realizar e não se con­
formou com a antecipação. Sentiu-se roubado.
Queria que os irmãos tivessem cruzado os braços
à espera dêle, para que fôsse êle o homem capaz de
concluir a tarefa gigantesca. Por isto, Fialho não
seria nunca um companheiro da geração dos Ven­
cidos da Vida. E podia ter sido. Dez anos não
separam gerações. Eram da mesma época, do
mesmo fim de século, respiravam o mesmo ar de
um mundo que nascia, tinham a mesma fibra de
combatentes e amavam Portugal com o mesmo
amor. O que faz justamente uma geração é êste
contato com idéias, com sentimentos, com as pai­
xões. Às vêzes, muitos anos separam Gide de um
Green, um Lawrence de um Huxley, um Verlaine
de um Rimbaud, mas êles são, pelos caminhos sub-
126 J o sé L in s do R êgo

terrâneos da alma, da mesma geração, do mesmo


tempo, da mesma vida. Entre Fialho e o mais ve­
lho dos Vencidos da Vida havia a diferença de 20
anos. Ramalho Ortigão, de 1836. Fialho, de 1857.
E era justamente de Ramalho que êle mais se apro­
ximava, pela insistência de ver certas coisas, cer­
tas fraquezas, certas intimidades de Portugal. Fia­
lho, porém, queria estar longe de Ramalho. Para
êle alguns dos Vencidos da Vida, quando não eram
doentes como Eça, seriam diletantes como Rama­
lho, sem sinceridade, querendo fazer mais espetá­
culo que realizar coisa séria. E, no entanto, o que
Fialho desejaria fazer no romance foi o que Eça fi­
zera. Por mais que êle se voltasse contra o natu­
ralismo era dos mais românticos naturalistas nos
seus contos. A sua preocupação de ver doentes
por tôda a parte, a sua obsessão dos diagnósticos, a
insistência nas côres violentas eram bem tiques da
escola. Quando êle saía para ver Portugal dos
artistas, dos oleiros, das casas velhas, dos móveis,
da prataria, da arquitetura, dos guisados, do caldo
verde, erà como se fôsse Ramalho, com o mesmo
sentido, o mesmo gôsto. Nada mais que o outro.
Se Fialho se voltava contra os costumes políticos,
contra a mediocridade de gabinetes, contra a época
de figurões, de pobres homens, não era para des­
cobrir mais do que ^4s Farpas descobriram e nem
fixar mais ridículo do que Eça fixara.
Todos eram, em certo sentido, sebastianistas
e críticos desapiedados do seu Portugal, que tanto
já dera ao mundo. Queriam um Portugal com o
0 V u lc ã o e a F onte 12 7

sangue quente de 1500, com naus correndo os ma­


res, com ímpeto de conquistador, projetando-se
pelo mundo. Queriam uma nação de gigantes sem
terem o senso crítico para compreender que tudo
era do passado. O Portugal que êles queriam não
podia existir, a não ser como uma ficção quixotes­
ca. Os realistas, os homens de ciência, os clarifica­
dos, os homens do século da luz, eram uns arreba­
tados como qualquer ingênuo de província. A pai­
xão por um Portugal, que não podia existir mais,
fizera Ramalho, Eça, Oliveira Martins e Fialho de­
sertarem de seu ambiente natural e criarem homens
pequenos demais, os Acácios e os Pachecos, como
se fôssem especímenes exclusivos da terra lusa,
quando eram especímenes de todo o mundo. Fo­
ram pessimistas, foram críticos às vêzes de injus­
tiça cruel contra a realidade portuguêsa. O que
era mesquinho não era o português, era o homem
por tôda a parte. Ramalho parecia um homem de
saúde, de bom fígado, que sabia rir sem ricto dolo­
roso. Talvez que lhe animasse a vida uma peque­
na dose de “sense of humour”, coisa tão escassa na
literatura portuguêsa. Faltou a Fialho, portanto,
esta dose por menor que fôsse de “sense of hu­
mour”. O riso de Fialho é como uma pedrada, um
castigo corporal. Quando Ramalho generalizava
ou pretendia arranjar as coisas com a sua pobre
filosofia sem profundidade, tinha, de quando em
vez, um dito, uma palavra, uma situação que reve­
lavam o homem esportivo que êle procurou compor
para a sua figura simpática. De vez em quando,
128 J o sé L in s do R êg o

Ramalho ri-se de si mesmo e assim chega a nos con­


vencer, a nos tocar. Fialho está sempre muito aci­
ma de tudo, está sempre medindo, tomando o ta­
manho das coisas, pondo-se a cavaleiro das situa­
ções. Os homens seriam melhores se o ouvissem.
O mundo seria feliz se o escutasse. É trágico, é
doloroso, chega quase sempre às raias da loucura,
no ímpeto com que se sobrepõe a tudo.
É êste o Fialho que pretende escrever a crôni­
ca de uma sociedade, cortar, de chicote, os con­
temporâneos, reformar o seu grande país. Li
todos os seus livros de jornalismoj^vasto panorama
de uma vida que êle media pelo sistema decimal de
suas paixões. Êle sabia de tudo e para tudo tinha
a sua palavra de ordem. O Portugal que criticava
nos homens, no regime político, na vida de socieda­
de, na literatura, nas artes era um ser que êle mar-
tirizava sàdicamente, que êle fustigava com im­
piedade. Tudo lhe parecia morto e mistificado. O
rei era um manipanso, os romancistas uns doentes,
os poetas medíocres, as artes em decadência. Todo
um edifício ruindo. Era esta, aliás, a idéia centro
dos Vencidos da Vida. Portugal não descobrira o
Brasil, Portugal não tinha Albuquerques, império,
riquezas de colônias, e era por isto um Portugal se­
nil, fora da vida. Êles eram assim uns desajusta­
dos que nos deram grandes poemas e grandes li­
vros. Mas que Portugal vivia como podia viver
não tenhamos dúvidas. Tudo não era por lá tão
medíocre assim. A literatura do século X IX por­
tuguês foi, em verdade, uma grande literatura, ca-
O V ulcão e a F o nte 129

paz de sobrepor-se à pobre literatura dos últimos


séculos, sem grandes poetas (com exceção de Bo-
cage), sem grandes escritores, sem mesmo os gran­
des cronistas do quinhentismo e os frades ingênuos.
Um Antero valia por tôdas as Arcádias.
Era assim Fialho de Almeida, como os de sua
geração, um descrente dos contemporâneos. O
passado esmagava-o. Mas êle não acreditava em
Portugal. Nós de hoje acreditamos porque vemos
que êles próprios foram uma geração de gigantes.
O pessimismo de Fialho, porém, seria assim, mes­
mo que êle tivesse nascido no século das descober­
tas ou fôsse um inglês da Rainha Vitória. É um
pessimismo de sangue, de fundo da alma, da sua
natureza. O de Ramalho era uma maneira de ser
otimista, de acreditar. Fialho tinha mais do que
Ramalho o fogo da poesia devorando-lhe as entra­
nhas. O jornalista, o vergastador, o impiedoso crí­
tico de reis e ministros, era o mais romântico dos
escritores de sua época. Mais romântico do que
o próprio Oliveira Martins, do que Eça de Queiroz,
do que os próprios românticos da equipe Garrett.
Há um escritor no Brasil assim, com essa fôr­
ça romântica de Fialho, com êsse seu ímpeto bar­
roco na expressão. É Euclides da Cunha. Não sei
por que sinto em Euclides influência de Fialho.
Ambos gostavam de retorcer as coisas e os fatos,
de alongar a medida natural de tudo, de só ver prê-
to e vermelho, como se essas fôssem as únicas côres
da Terra. Euclides da Cunha tinha o poder da
palavra que era como uma explosão no silêncio.
130 J o s é L in s do R êgo

Como Fialho, a sua prosa não conhecia o remanso,


o correr plácido do arroio, o baixo das sinfonias.
Ambos viam com olhos de deformadores daltôni­
cos. É verdade que Fialho era mais poeta, mais
músico, mais sensível à arte do que Euclides. Pa­
reciam-se, no entanto, na maneira violenta de ver
e contar. Faltou a ambos o senso de humor. E
são, por isto, escritores profundamente tristes, ho­
mens de tragédia.
Reli agora Os Gatos, de Fialho, selecionando-os
para esta antologia e foi uma releitura que me dei­
xou a impressão de um Fialho maior do que ima­
ginava. Tendo-o lido na adolescência havia-me
ficado do escritor português uma^ lembrança sem
grandeza. Agora, mais perto dêie, senti-o gran­
de de verdade.
Portugal é o seu tema. Li um Fialho que que­
ria criticar, discernir, orientar. Um Fialho inteira­
mente dedicado à reforma de costumes, analista
da sociedade, vendo tudo acabado nos homens, tudo
findo nas instituições. Êle mesmo quando come­
çou o seu trabalho disse o que queria ser: um gato,
“achando a quase todos os deuses pés de barro,
ventre de jibóia a quase todos os homens e a quase
todos os tribunais portas travessas”. Foi êsse de­
sígnio derrotista que o arrastou a uma crítica de
homem estourado, a uma análise de necrotério.
Para Fialho, o grande Portugal era como se esti­
vesse pronto para uma dissecação de aula de Ana­
tomia. Era sôbre um cadáver que êle se debruça­
va. O gato que êle queria ser às vêzes tinha uivos
0 V ulcão e a F onte 131

de hiena. Achava êle que Deus fizera o homem


à Sua imagem e semelhança e fizera a crítica à se­
melhança do gato. Era assim reduzir por demais
a grandeza da crítica. Fazendo do crítico um ser
egoísta e cruel, Deus criaria uma espécie de danado,
coisa que não é da criação de Deus. Deus não com­
petiria com Lúcifer. E é aí que está o êrro essen­
cial de Fialho. Tudo para a sua crítica se reduzia
a um campo de experimentação monstruosa: “ Ho­
ras e horas à surtida de um rato pelos interstícios
de um tapume e pelando-se, uma vez caçada a prê-
sa, por fazer da agonia dela uma distração”.
Por fazer da agonia dela uma distração. Era
êsse o programa de crítica fialhiana. Mais um
programa de Marquês de Sade. Êle mesmo dizia:
“Atirando-a ao ar, recebendo-a entre os dentes, ro-
çando-se por ela e moendo-a, até a deixar num pi­
cado ou num frangalho”. Fialho se propunha à
destruição, a uma destruição pelo prazer maligno
de destruir.
Era tudo isto mais um jôgo de palavras. De
fato, a natureza de Fialho era de um poeta barroco.
Era a de um homem que crescera demais para as pa­
redes de seu quarto. O roçar do corpo pelos qua­
tro cantos de seu meio doía-lhe forte.
Havia uma sociedade impregnada de uma fe­
licidade construída em falso. Era todo o fim do
século X I X dormindo ao som das valsas de Viena,
deleitando-se nos cancãs de Paris, vendo Santos
Dumont alçar vôos para o céu. Os germes das
guerras infernais já germinavam dentro da terra;
132 J o sê L in s do R êgo

os homens tinham plantado as sementes diabóli­


cas. Portugal tinha rei constitucional, ministros,
pobres ministros. Os inglêses impunham-lhe regi­
mes de restrições. Fialho de Almeida então pro-
punha-se a dissecar êste mundo português como
se não f ôssem vícios do mundo inteiro os que anda­
vam por sua casa. O Rei D. Carlos seria uma de
suas vítimas favoritas, a casa de Bragança, os mi­
nistros, os poetas, os artistas, tudo enfim teria que
sofrer as suas arranhadas de gato. Por fazer da
agonia dela uma distração.
Mas o poeta Fialho era mais alguma/Coisa que
um gato cruel, era mais que o ronrom e a garra, a
língua espinhosa. Havia naquela natureza de ex­
trovertido um coração aberto à vida, à grandeza
da vida, às dores dos outros. Êle fingia de gato,
êle queria ser da “ jonglerie” , da crueldade ímpia.
Mas a natureza robusta do camponês o arrastava
para ver o sol, o rio, as manhãs do Tejo, os pobres
de Portugal, os campos de vinha, as casas brancas
das aldeias, a virgindade de vida das saloias. E
Fialho deixava a pele macia de gato, os passos fe­
linos, as manhas e cantava a terra com uma fôrça
de homem vivo, de homem simples. Tudo morria
com êstes arrebatamentos de improviso, morria a
língua áspera, as palavras feias, os despeitos bru­
tais. Fialho olhava a terra, os seus campos de
Alentejo, o sol nos penhascos, as manhãs quentes
de luz, a terra generosa, e era o homem Fialho,
manso, querendo somente falar da beleza, do que
era forte. Aí o escritor é um dos maiores de sua
O V u lcão e a F o nte 133

geração, no saber sentir a terra portuguêsa, o cam­


po português. A í êle chega a épico na abundân­
cia de alma, na fôrça descritiva, na espontaneidade
de falar. É um Fialho em pleno gôzo de seu tem­
peramento e de seu amor a Portugal. Os ceifei­
ros passam pela sua obra como os conquistadores
nos Lusíadas, como gigantes que a gente ama,
como comparsas de drama como o da criação.
É êste o Fialho que sobreviverá. O gato se
transforma em homem real, num homem com tôda
a substância daquele sôpro que Deus lhe transmiti­
ra. Êste Fialho que pisa na terra como um Anteu
não tem inveja, não tem despeito, não critica para
dizer mal, não grita impropérios como um doido
varrido. É o escritor da terra portuguêsa, dos
campos cobertos de trigo, de homens de peitos ca­
beludos como faunos e de almas cândidas de crian­
ça. Aí Fialho estava em casa, no ambiente onde o
seu temperamento de curioso se amansava na cria­
ção. Aí o panfletário se oxigenava no hálito que
lhe vinha de suas árvores, de seus campos cobertos
de flôres, semeados de trigo, batidos pelos ventos
de Alentejo. É êste o escritor eterno de sua raça,
o verdadeiro dono de um estilo, de uma forma de
ver e escutar as coisas.
O outro Fialho é menor. É mais dominado
por uma paixão que era mais um desespero dos sen­
tidos do que uma faculdade de crítico. O homem
que surrava os pequenos de seu tempo, os pobres
ministros sem nome, o rei gordo e bom, tão amigo
da liberdade, tão bom português no deixar ir das
134 J o s é L in s d o R ê g o

coisas, êste Fialho, que fazia profissão de fé de de-


molidor, chega às vêzes à vulgaridade, à triste me­
diocridade do jornalismo de sensação.
Não foi êste o homem que eu vi em Os Gatos,
não foi êste o escritor que procurei nos seis volumes
de prosa violenta e desigual. Fui antes atrás do
Fialho que tocava nas coisas eternas, do artista
exuberante que era êle, espécie de terra de aluvião,
grossa terra fecunda, abundante de impurezas e
rica de seiva. O aldeão contemplador que se per­
deu entre os homens da cidade, que leu os estetas,
os psiquiatras, os requintados e que queria reali­
zar a chamada prosa artística dos Goncourt, fôra
sempre um intuitivo puro, o criador de formas que
se guiava mais pelos impulsos que pelas normas
dos mestres. Fêz o possível para ser um êmulo de
Camilo e, no entanto, foi um Fialho. Quis ser um
miniaturista como os Goncourt, e foi, em tudo, um
homem de largas telas, de vastos painéis.
Os críticos, como Antônio Sardinha, procura­
ram responsabilizar o liberalismo pelos desencon­
tros de Fialho imaginando que os regimes políticos
pudessem fazer os homens de personalidade. Com
a monarquia ao tipo integralista de Sardinha teria
sido Fialho um acomodado, fazendo louvaminhas
ao seu rei. Não foi o liberalismo que fizera dêle,
como queria Sardinha, um inquieto, um impulsivo.
Fialho é que era assim, era a sua personalidade que
o conduzia e não causas outras que o criaram, que
o deformaram. Sem o liberalismo, El Greco defor­
ma os seus homens e os seus santos, com o mesmo
O V ulcão e a F onte 135

rancor contra o estabelecido. É inútil pretender


fazer de Fialho uma vítima do século, do chamado
século estúpido de Daudet. Êle era assim pela sua
natureza, em qualquer época, em qualquer regime.
A liberdade dera-lhe, pelo contrário, caminhos por
onde pudesse andar à vontade. Falou mal de reis,
ministros, expandiu-se com a sua fúria de louco
contra instituições e homens e libertou-se, assim, de
seus demônios interiores, de suas taras invencíveis.
Fôra-lhe até benéfico o liberalismo do seu tempo.
O crítico Castelo Branco Chaves chegou a falar no
seu satanismo, que poderia ser aparentado com
aquêle de Barbey d’Aurevilly. Barbey, apesar de
todo o seu fulgor de anjo rebelado, era uma natu­
reza de crítico, um crítico que julgava com febre,
mas que não se sentia alterado com a temperatura
em ascensão. Via sempre as coisas com a penetra­
ção aguda e, se vibrava nos entusiasmos e se es­
quentava no ódio, não perdia nunca a realidade
como ponto de partida de seu julgamento. Fialho
foi o oposto ao crítico, ao crítico criador como Bar­
bey. Êle era um visual, olhos que queriam se ban-
quetear, que queriam se fartar de ver. Daí o cará­
ter pictórico de todos os seus livros, de tudo o que
de melhor nos deixou. Querer levá-lo para o domí­
nio das idéias, da abstração, da análise, seria for­
çá-lo, seria procurar um Fialho que sempre fracas­
sou quando pretendeu fugir do seu temperamento.
Para a seleção das melhores páginas de Os
Gatos quase que não tive dificuldades. O bom Fia­
lho não se esconde como certos escritores que pe-
136 J o s é L in s do R êgo

dem muitas vêzes um faro muito sensível para des­


cobri-los. O bom e o mau Fialho nos aparecem a
ôlho nu. O mau é aquele que pretendia fugir da
sua natureza de poeta para arrojar-se contra os ho­
mens. Quando êle pretende fazer-se de censor, de
orientador de massas, falha. Foge de seu natural
para nos oferecer um triste espetáculo. Então,
Fialho de Almeida, o homem que não sabia rir, for­
ça uma gargalhada que não vem dêle mesmo. É
como se imitasse a alegria; não é alegria. O natu­
ral dêste panfletário é a sua tristeza de doente e de
tímido. O grito que solta, fora do lugar, fora do
tempo, dói nos nossos ouvidos, sendo palavrão, obs­
cenidade ou insolência desconcertante. A í a sua
expressão literária não é viva, não palpita de ner­
vos e de carne. É um grito de quem sente faltar-
lhe terra aos pés. O escritor que queria botar abai­
xo preconceitos, erros, homens fracos, artes de ar­
tifício não se move como homem, tem trejeitos de
macaco.
O outro, o que aparece nesta seleção, é bem o
Fialho dexAlmeida, o artista de alma quente, de
olhos e ouvidos abertos à Natureza, às côres, e à
música da vida. É um barroco de forma e de fun­
do, um romântico que, como os Vencidos da Vida,
amava o seu Portugal até os extremos. A grande­
za dessa geração está nesse amor desesperado. Êles
amavam tanto o seu Portugal, que sàdicamente o
maltratavam; mas faz gôsto vê-los como vemos
Fialho respirando os ares da terra, olhando as ár­
vores, procurando a população dos pobres campo­
0 V u lcão e a F onte 13 7

neses e dos homens de rua, apalpando a natureza


rica de sua gente, os simples portugueses da Mou-
raria e das aldeias. Portugal cresce para êle, Por­
tugal atinge tôdas as grandezas. Já não é um po­
bre país, uma choldra de vagabundos; é uma terra
que dá flôres e frutos, o país das uvas, de homens
e mulheres que sabem cantar e sofrer, que é sempre
mais alguma coisa que aquêle paraíso de Acácios
e Pachecos. Quando Fialho descreve o entêrro do
Rei D. Luís na noite escura, sentimos no descriti­
vo quente, na fôrça de dizer, que não é um rei mo-
fino aquêle que corta a escuridão com as tochas
acesas do acompanhamento, que não é um povo
morto aquêle que corre para a estrada para ver pas­
sar o cortejo trágico. Nunca li, em língua portu-
guêsa, nada mais intenso, mais parecido com a tra­
gédia grega do que algumas dessas cenas de Os
Gatos. Naquela noite, o povo, a nobreza, a terra
lusitana assumem um poder de eternidade. É o
Fialho no máximo de sua fôrça, que nos arrepia
com uma prosa onde côr e música se misturam num
arranjo de espanto. Neste trecho de sua obra êle
chega ao máximo do poder verbal; deu tudo, deu
todo o Fialho de Almeida que nós amamos.
Falam de uma obra que êle não realizou, do
fracasso de sua vida diante de sua impotência de
criador. Não sinto isto numa grande parte de sua
obra. Não nascera êle para fazer o que Eça fizera.
Fialho era de blocos, de arrancos, de intermitên-
cias. Era êste o seu temperamento e querer pedir
dêste temperamento o que êle não podia dar é o
138 J o sé L in s do R êgo

mesmo que se exigir de Eça que fizesse os sonetos


de Antero, ou de Ramalho Ortigão que escrevesse
A República Romana de Oliveira Martins. Muito
poderia ter sofrido Fialho em não ter podido rea­
lizar o romance do seu contemporâneo Eça. Mas
não fôra um impotente. Às vêzes, nos deu tudo
que êle poderia ter dado de melhor. É um grande
a seu feitio e de uma categoria de grandeza que
não podemos desprezar.
Procurando as suas melhores coisas em Os
Gatos, eu tomei o partido de apresentar tqn Fialho
de Almeida que não fôsse aquêle das pequenas coi­
sas, dos mexericos locais, das insignificâncias do
tempo, um Fialho que discutia ministros e preten­
dia entender de política. Êste está tão morto
quanto os ministros que combateu.
O Fialho dêsses trechos de Os Gatos é o me­
nos efêmero dos Fialhos. É aquêle que se debru­
çou sôbre os grandes temas, sôbre a vida e a morte.
É o que vê o Rei D. Luís morto e o que vê Bordalo
Pinheiro vivo.
\

O MENINO PAU LIN O JOSÉ DE SOUZA

A vida do Visconde do Uruguai, escrita por


José Antônio Soares de Souza, descendente do
grande do Império, é um livro dêstes que valem
pelo muito que dizem e pelo muito que sugerem.
A biografia romanceada é um melodrama a
que falta o sentido da vida e a que sobra a men­
tira a substituir o lastro de realidade.
0 V ulcão e a F o nte 139

A vida do Visconde do Uruguai está na Histó­


ria do Brasil como a de um diplomata que dera ao
Império grandes vitórias de gabinete. O senador,
o ministro de Estado, o chefe político, o conserva­
dor que fôra um esteio do partido, tudo isto estava
nos livros, nos comentários, nas referências. O que
nos faltava era o Visconde na sua vida de menino,
nos seus conflitos com a educação paterna, ou me­
lhor, com a influência materna.
Vinha o Visconde de gente de Paracatu, lá dos
sertões de Minas. Mas o pai, estudante em Paris,
casa-se com uma francesa, filha de um livreiro que
morre pelos girondinos contra a ditadura de Marat.
A mãe francesa quer um filho francês. Antoinette
Gabrielle Madaleine Gilbert faz versos, pinta, co­
nhece a literatura de sua pátria a fundo. E para
o primeiro filho que lhe nasce, em França, ela quer
que seja um francês absoluto. Chama-o de Paulin
Joseph e registra-o como francês.
Mas o Paulin Joseph chega ao Maranhão e, de
menino francês, com onze anos, começa a se trans­
formar no Paulino J osé. É aí que está o drama dos
começos da vida do estadista. O rapaz segue para
estudar em Coimbra, e, quando a mãe espera que
êle se esqueça do Brasil para ser todo da França, as
cartas de Paulino não chegam ao Maranhão. Pau­
lino José quando escreve é para reclamar uma me­
sada melhor e para falar de suas saudades do Ma­
ranhão.
A mãe pretende diminuir a vida do País, a ri­
dicularizar as rêdes, os jenipapos, as comidas, os
140 J o s é L in s do R êgo

negros. Faz versos para lhe incutir o amor à Fran­


ça, mas Paulino não se comove com o estro mater­
no. Paulin Joseph morrera. O que existia, o que
começava a viver, na verdade, era o homem da ter­
ra brasileira, aquêle que seria um dos fundadores
do nosso Império.

O C E N TEN ÁRIO DE “ O GU A RA N I”

Há cem anos um jovem do Ceará publicava, na


Côrte, um romance que criaria raízes no solo bra­
sileiro. Tinha José de Alencar 28 anos e era um
rapaz mirrado, de origem revolucionária. Pai e
mãe haviam sofrido pela libertação de sua Pátria.
A aparição de José de Alencar, na literatura, cau­
sara espanto. A sua maneira de riàrrâr ligava-se
à exuberância dos românticos. Em 1857, Vítor
Hugo usaria as fúrias de seu gênio no rochedo len­
dário e já Chateaubriand criara o clima passional
do homem, da Natureza. O jovem cearense era
Walter Scott e pretendeu arrancar de um episódio
a substância de seu romance. Não quis reproduzir
a paisagem tórrida de sua província e pôs as suas
figuras nas serras fluminenses, onde o Paquequer
corria de cascata em cascata. As personagens do
Guarani atravessam as florestas da Serra dos Ór­
gãos e se cercam dos esplendores de sua natureza
exuberante que não cansa a sensibilidade porque
se transmuda de aspectos e se cobre de um colori­
do de estampa. Pode-se fazer restrições ao conteú­
do psicológico de homens e mulheres que povoam
ambiente tão derramador de luxúria vegetal. Po­
O V ulcão e a F onte 141

de-se dizer que as árvores vivem mais que as cria­


turas humanas de Alencar. Mas estas são restri­
ções dos críticos. O público reagiu de outra ma­
neira e acreditou em Pery. E pôs nos filhos o no­
me do herói bom, do campeador valoroso que ven­
cia as feras e os homens. Quando a enchente ar­
rastou o índio e a branca bonita, os leitores de todo
o Brasil ficaram na expectativa do fim da história.
O que teria acontecido a Pery e como terminaria
Cecy? Essa é a história que viu a floresta pagã.
Mas há outra história que o Guarani encerra. O ro­
mance de Alencar marcava uma época na vida lite­
rária sul-americana. Alencar criava uma maneira
de ligar-se à terra brasileira. A língua de seu ro­
mance já não era prisioneira da sintaxe lusíada.
Escrevia Alencar com pronomes e seqüências que
vinham diretamente do povo. Por isto tudo é que
devemos considerar o centenário do Guarani com
mais importância do que a idade de um livro. Co­
meçamos com a sua publicação, em 1857, a escre­
ver na língua que era das nossas necessidades. O
português de 1857, do jovem cearense, trazia, para
a construção literária, aquela liberdade por que se
baterão, no terreno político, os cearenses do Crato.

V IO LÊN C IA E T E R N U R A EM GRIECO

A carreira literária de Agrippino Grieco não


se fêz de conveniências e tolerâncias em relação à
criação artística.
Há em Grieco, e até hoje permanece, o espírito
de irreverência contra o convencional e o medíocre.
142 J o s é L in s d o R êgo

O vigor da verve do abusado analista de homens e


coisas sempre se exerceu com violência de imagens
que valem como retratos. Foi aí que o instinto crí­
tico o salvou da caricatura.
Apesar de manifestar-se sôbre matéria huma­
na de fácil deformação, a verdade literária absor­
veu o seu gôsto pela galhofa. Em Agrippino o
gôsto salvou-o da pilhéria pela pilhéria.
Diante dos grandes, dos que são realmente
representativos, não se perdeu Grieco em trejeitos
e momices. A obra valiosa, os homens de valia
imprimem-lhe respeito. A admiração vence-lhe a
vontade de descobrir piolhos em juba de leão. O
crítico, que se debruça sôbre Machado de Assis
para fixar-lhe a realidade de uma-prosa, que é a
grandeza da língua, é o mesmo que se emociona
com o Paraíba de sua infância, que fala de suas ori­
gens italianas.
Lembro-me de meu primeiro contato com
Agrippino Grieco num bonde de Dois-Irmãos, no
Recife. Comprara um livro de poemas de Pereira
da Silva e lá estava, em apêndice, um ensaio de
autor de quem nunca ouvira falar: Agrippino Grie­
co. Ali se desenrolava o drama da poesia triste
do poeta paraibano. Mas o que me atraiu no en­
saio foram as ligações estabelecidas entre o poeta
e os simbolistas franceses. Falava Grieco de Ver-
laine, de Paul de Saint-Victor, da revolução de Rim-
baud, em têrmos como jamais lera em português.
O autor servia-se da imagem para identificar o fato
O V u lcão e a F onte 143

poético com a vida. E tudo isto numa língua de


ritmos, de sugestões musicais.
Nunca mais deixara de ler os rodapés de Grieco
no “ O Jornal”. Li, com Olívio Montenegro, as
suas anotações sôbre Lima Barreto e me lembro de
algumas restrições de Montenegro a certas opiniões
de Grieco a figuras de Machado de Assis, que o
crítico considerava descarnadas como fantasmas.
Mas havia o outro Grieco das leituras estran­
geiras. Havia o seu ensaio sôbre Thomas Hardy,
o romancista das nossas preferências.
Havia, em Hardy, aquêle pessimismo inglês
que se alimentava de um quase niilismo moral. As
figuras de Hardy, como aquêle Judas, O Obscuro,
carregavam na destruição de suas vidas a própria
destruição da Humanidade. Mas quando Hardy
fazia aquêle retorno ao nativo, o pedaço de terra de
seu condado era todo o mundo que voltava às suas
origens humanas. O pessimista, em sua música
de câmara, imaginava a ressurreição dos mortos.
Grieco falava dos estrangeiros e se fixava nos
que lhe trouxeram substância de vida, como Ante-
ro, Camilo, Eça, João Ribeiro. E não ficava nos
que já tinham posições incontestáveis.
O seu ensaio sôbre Paulo Barreto corrige, em
certos sentidos, a impressão fulgurante de Gilber­
to Amado. O homem estranho que foi João do
Rio, um autêntico homem de letras devorado pelo
jornal, ainda não teve um livro que pudesse regis­
trar-lhe a importância que a sua época contestou.
A figura de João do Rio, que desafiou as fúrias de
144 J o s é L in s do R êgo

Antônio Tôrres, hoje tem o seu lugar nas letras


brasileiras cada dia mais a crescer. Havia, no dis­
persivo, o gênio criador que fêz, da reportagem,
admirável literatura. Grieco resistiu às generali­
zações de seu tempo e, pela intuição, foi capaz de
descobrir em Paulo Barreto os fundamentos de um
novo falar brasileiro, apesar de tôdas as ligações
políticas de João do Rio com os portuguêses.
Chama-se O Sol dos Mortos o novo livro de
Agrippino Grieco. O que sobrou dos túmulos não
é o fogo fátuo das assombrações noturnas. Há,
nas saudades e nos retratos do livro de Agrippino, a
luz mediterrânea que é a modeladora de formas.
Quando êle fala da Itália, dos relevos da terra
florentina, de Veneza, das terras^ae seu pai, o co­
ração estremece e as palavras acompanham o en­
tusiasmo.
Há o Grieco das leituras de Arnold Bennett,
aquêle que, ao lado de todo o francesismo de sua
cultura, sabe ver, nos inglêses, os maiores coletores
de vida.
Mas o brabo Grieco, o terrível massacrador de
mediocridades, transforma-se no lírico quando es­
cuta o rapaz W olfgang Amadeus Mozart, o que foi
o “ poeta do amor, do amor-amor, quase sem ne­
nhum carnalismo” . É êle mesmo quem nos conta:
“ Estou num recanto de subúrbio a remexer nas cin­
zas do passado, à procura da brasa de uma lembran­
ça feliz. Deixo o livro, abro o rádio, mas do rádio
só me vêm vozes inarticuladas, onomatopéias zo­
ológicas. Quero afastar-me. Súbito, porém, a mi-
0 V ulcão e a F onte 145

nha vivenda resplandece. Que foi? Apenas isto:


começaram a transmitir uma sonata de Mozart” .
E o leão se transforma em cordeiro.

CONFERÊNCIA SÔBRE VERÍSSIM O

Ouvi, ontem, a conferência de Peregrino Jú­


nior sôbre o “ José Veríssimo homem de carne e
osso” . E da história do crítico me ficou a esta­
tura humana de um modesto cidadão de Óbidos,
de caráter feito e modelado pelo exemplo de um
pai de costumes rígidos e formação moral dos anti­
gos liberais. A meninice de Veríssimo se desen­
volveu no contato da natureza exuberante, ao sol e
à chuva de um trecho equatorial do País. Não
transcreve para a sua literatura essa abundância
regional. Veríssimo se comportou sempre como
um homem de medidas, a descobrir nos homens, e
suas obras, o que lhes marcava a originalidade ou
o defeito. As gerações novas viam, nos seus cui­
dados, sintomas de mediocridade. O que era so­
mente a precisão de ver e sentir resultados, toma­
ram como incapacidade para avaliar o que lhes pa­
recia o inédito e era somente o vulgar. Veríssimo
viveu entre os homens sem extremos de violência.
Foi um comedido até nas afeições. Fiel ao amigo,
confiante nos confrades, sempre procurou ligar-se
aos outros. Prova dessa atitude está na correspon­
dência que sempre manteve, desde os tempos da
província, ainda rapaz, com pessoas que somente
146 J o sé L in s do R êgo

conhecia pelas ligações epistolares. O homem que


parecia uma ilha se mostrava o maior continente
pela afeição e fidelidade. Foi assim com Machado
de Assis, Nabuco, Graça Aranha, Domício da Ga­
ma. Sempre o mesmo, embora não se levasse pelo
coração quando se sentia no ofício de criticar. Fal-
tar-lhe-ia, é certo, certa acuidade de sensibilidade.
A crítica não lhe era uma metamorfose como foi
para Saint-Beuve. Não se perdia nos personagens
que criticava. O que lhe faltava em poderes de
atravessar a natureza dos outros sobrava em fôrça
para caracterizar as situações. Veríssimo sabia,
como ninguém, onde estava a grandeza ou a fraque­
za dos outros. E não se escondia com mêdo da
verdade. Peregrino Júnior nos falou de José V e­
ríssimo na vida social. O pai, o marido, o filho, o
amigo. E nos revelou trechos de emoção do noivo
que dirigia a última carta à noiva e aquêle testa­
mento literário que é o documento precioso. O
grande Veríssimo sentiu a morte, e o patrimônio,
que legava à família, eram as próximas edições de
suas obras que lhes dariam 500 cruzeiros cada uma.
A conferência de Peregrino Júnior nos apresenta o
drama crucial do homem honesto que fôra amigo
de grandes como Rio Branco e que morria pobre no
ofício diário de professor, magistratura da crítica,
sempre firme e seguro em suas opiniões, incapaz de
transigir com os grandes desde que entrasse em
jôgo a sua integridade de julgar conforme os seus
sentimentos.
0 V ulcão e a F o nte 147

M EN ENDEZ PE L A Y O

Celso Cunha não é somente um erudito, um


mestre da língua portuguesa. A sua vocação para
os estudos de fôlego, de pesquisas de fidelidade aos
textos não o desviou para especialidade absorvente.
Há, em Celso Cunha, um ensaísta que é mais que o
filólogo, que é mais que o laborioso comentador dos
têrmos intrincados de nossa formação universitária.
A gramática que êle codifica tem muito daquela do
Dr. Johnson, é uma constante ligação das leis com
a vida. Filologia é assim para êle quase que fisio-
logia. Por isto, o espírito livre de Celso Cunha
para sondagens e verificações. Vi-o, em Paris,
num curso da Sorbonne, atraindo numerosa classe
de estudantes franceses para as suas lições de sá­
bio. Não é Celso Cunha um especialista que tudo
reduz à sua especialidade. A literatura vale mui­
to para êle. Geralmente os filólogos se transfor­
mam em blocos de pedra e se enterram na terra
como se imaginando marcos eternos. Cunha não
é filólogo de granito. A o contrário, a sua sensibi­
lidade geme ao vento como o caniço de Pascal.
Para êle a língua não se eterniza em bronze. Não
há leis eternas para os idiomas. Valhe-lhes o rit­
mo com a sua condição humana. Para registrar a
antiguidade de um verso de cancioneiro não é pre­
ciso imobilizar o falar do povo. O bom erudito
não cria a passividade da traça. É, ao contrário,
um homem agitado pela vida. E quando, por aca­
so, descobre um veio de poesia, que fôra utilizado
148 J o sé L in s d o R ê g o

pelos antigos, não faz dêsse veio a razão de ser de


tudo. Há eruditos que se transformam em escra­
vos de fósseis e passam a dormir como fantasmas
em lua de mel com os noivos de sepulcros. Há
pouco, publicou Celso Cunha uma bibliografia de
Menendez Pelayo para comemorar o centenário do
grande de Espanha. Fôra Dom Marcelino um eru­
dito da família de Celso Cunha. Homem sem
aquela impetuosidade castelhana, fôra Menendez
Pelayo uma virtuosidade da literatura e da idéia,
que estremecia de paixão pelo que nos comunicara.
Não via como Unamuno, um violento coração pes­
simista. Havia em Pelayo a sumidade de falar de
seus entusiasmos, sem violação da ordem. Em po­
lítica e religião, seria um espanhol como os outros.
Mas quando tocava às idéias, Dom Marcelino se
revestia da coragem das afirmativas e nunca traiu
a sua vocação de homem de letras. A crítica eu­
ropéia terá em Menendez Pelayo e De Sanctis dois
criadores da verdadeira história literária. A Bi­
blioteca Nacional, sob a orientação de Celso Cunha,
nos deu^ uma bibliografia de Menendez Pelayo
como a melhor homenagem que podíamos oficiar
ao grande de uma época. Ainda bem que tivemos
um Celso Cunha para a melhor exposição de sua
obra, que é patrimônio do mundo latino.

E ST U D O S P E R N A M B U C A N O S

Pode-se dizer de Aníbal Fernandes que é um


completo homem de imprensa. Ainda é do tem­
po em que o bom jornalista não era o dos furos, das
0 V u lcão e a F onte 149

notícias de sensação, mas do bom escrever, do bom


pensar, das boas leituras. A fôrça do escritor não
se separava dêsses homens que tomavam os assun­
tos para dar-lhes o comentário agudo, a palavra vi­
brante, a caracterização exata. Foi assim Aníbal
Fernandes desde os começos de sua vida de jor­
nalista. Ao lado da honestidade do homem públi­
co a honestidade de opinar. Amigo das letras, das
altas leituras, punha na sua ação de imprensa o
bom-gôsto do ensaísta clarividente. Conheçò-o
desde 1917, quando comentava no “ Diário de Per­
nambuco” os fatos da Grande Guerra. Sentia-se,
no jovem redator, as origens humanísticas, a finura
da frase, a claridade de pensamento. Depois cres­
ceu Aníbal Fernandes em admirável orientador de
opinião. A s suas lutas não se limitavam aos deba­
tes políticos. Foi êle quem iniciou, em Pernambu­
co, a defesa pelo patrimônio histórico do Recife.
A sua batalha contra o atentado à Catedral de Olin­
da foi infatigável. Seria vencido pela mediocrida­
de do seu tempo. Ninguém mais do que Aníbal
Fernandes fêz pela grandeza da imprensa brasilei­
ra. Alguns de seus editoriais do “ Diário” são pe­
ças fulgurantes pelo talento da exposição e cora­
gem de conduta. Com a pena na mão não temia
nada, embora, às vêzes, corresse perigo de vida.
Leio alguns de seus estudos, em volume, e vou des­
cobrindo nos capítulos do livro o homem de pen­
samento que soube ver em Nabuco e Oliveira Lima
o que havia de melhor nos dois grandes pernambu­
canos. Amigo íntimo de Oliveira Lima, não se dei-
150 J o sé L in s do R êg o

xou conduzir pelas injustiças do admirável gordo


de Pamamirim. O Nabuco de Aníbal é um ho­
mem tocado pela beleza, o artista de coração gene­
roso que sempre esteve a serviço de causas huma­
nas. As notas de Aníbal sôbre artes cívicas e ar­
tes religiosas em Pernambuco são magníficos rotei­
ros para os estudiosos do assunto. Mas Aníbal
Fernandes está sempre bem quando evoca mestres
e alunos do Ginásio, quando nos fala daquele ter­
rível Monsenhor Fabrísio, o modelador de tantas
gerações. O gôsto pelo retrato, a marcação dos
caracteres pelos fatos miúdos dão aos comentários
de Aníbal o relêvo de coisa viva. O escritor é de
primeira qualidade. As atividades do mestre per­
nambucano, apesar de sua aposentadoria, conti­
nuam na crônica diária e firmeza de suas convic­
ções. Aníbal seria um grande na imprensa de
França ou da Inglaterra. Assim nos convencem
os seus dotes e a penetração de sua prosa, que se
anima do espírito prático a qualquer movimento de
opinião.

A “ MIÜHA FORMAÇÃO” DE NABUCO

Há pouco o crítico João Gaspar Simões anota­


va a ausência de memórias em língua portuguêsa.
Herdou o brasileiro o costume. A coragem das
confissões não nos anima aos depoimentos diretos.
Preferimos o silêncio em tômo de nossas intimi-
dades. Mesmo as confissões de ordem intelectual
não nos servem de protesto a revelações signifi­
cativas. Somos, assim, espécies de caranguejos
0 V ulcão e a F onte 151

isolados a viver para dentro, como se devorásse­


mos as próprias entranhas. O caso de Nabuco, sob
a influência dos inglêses, foi raro. Nabuco contou
a história de sua vida, procurando as origens que
lhe deram a sua originalidade de político e pensa­
dor. A formação do admirável pernambucano não
se perturbou em conflitos sentimentais. Havia, no
homem Nabuco, a semente de um estadista que não
se realizou pela intervenção do tempo. A queda
da Monarquia cortou-lhe a carreira de chefe de ga­
binete. Êste era o Nabuco, filho do senador do Im­
pério. Havia, porém, outros Nabucos. Havia o
Nabuco homem de letras, o que procurava na Fran­
ça o seu Renan, o que se pregara à língua france­
sa para pensar e compor os seus versos. A litera­
tura era o mais forte em Nabuco. Quando êle pro­
curava os maciços franceses já trazia, em seu las­
tro de cultura, os grandes da Inglaterra. Mas a
sua tendência emocional era para a França. Os
inglêses lhe deram os fundamentos de seu pensa­
mento político, a monarquia constitucional, a for­
ça do parlamento como regra de ação. O inglês,
homem de equilíbrio e de um império, o prático, o
mestre da conduta racional, indicou-lhe o roteiro de
vida partidária. Em França, encontraria Nabuco
o que Portugal não lhe tinha para dar: o gôsto pelas
idéias gerais, a grandeza do século que já atraves­
sava a sua metade, com seus grandes no romance,
na poesia, na crítica. Renan havia eliminado do
romantismo a gordura verbal e permanecia, apesar
de tudo, romântico. A presença da Bretanha ume-
152 J o sé L in s do R êgo

decia de seiva o império de prosa que era sacudi­


do de vibrações de uma consciência sem paz. A
vida de Nabuco teria caído no esnobismo se não
fôsse a campanha pela libertação dos escravos. Aí
o pernambucano venceria o poeta em francês, a elo­
qüência maravilhosa levantaria o povo pela grande
causa. O Nabuco dos canaviais, o menino de Mas-
sangana, o tribuno do Teatro Santa Isabel se
amalgamaram em maravilhoso espécime de na­
tureza humana. Eis aí o Nabuco feito e realizado.
Já não há Renan que atravesse a sua alma como
lâmina sacrílega. Agora há o homem original, a
pessoa marcante, o que ficaria para sempre maior
que as suas esperanças de pensador social. Ha­
via Joaquim Nabuco, homem de letras eterno. A
vocação política se diluíra na biografia do pai, no
grande livro sôbre o Império. A o reler a Minha
Formação me ficou a certeza da verdadeira impor­
tância da literatura para fixar o tempo. O Nabu­
co que tivera a novidade de um diletante concre­
tizou, em sua vida, a realidade humana que é, sem
dúvida, uma sobrevivência do Brasil.

SÔBRE JOAO DO RIO

Manda-me perguntar Gilberto Amado que cor-


rigendas são as que faz Agrippino Grieco ao seu
retrato de João do Rio. Talvez que não tivesse me
expressado bem na notícia que dei sôbre o livro do
Grieco. Falo, ali, em fulgurações para pichar a
admirável página do mestre Gilberto Amado sôbre
Paulo Barreto. Diria melhor, em vez de corrigir,
O V ulcão e a F onte 153

somar. Estaria tudo assim no seu lugar. O que


realmente existe na figura traçada pelo Grieco é
mais ternura do que a verdade luminosa de Gilber­
to. O Paulo Barreto de um não destrói o do outro.
A o contrário, aumenta-lhe a importância. Em
Gilberto, nós vemos um retrato de mestre espanhol,
todo o realismo da natureza do homem que foi sem­
pre um agitado pelas contingências do seu tempo.
Em Agrippino, o Paulo Barreto que aparece tem
mais coração, é a visão do rapaz que o grande ho­
mem levou a sério.
Gilberto, apesar de muito mais môço, já tra­
tava o jornalista de igual para igual. Viu-o na pro­
fundeza de seu caráter, nas vacilações de seu tem­
peramento, nos grandes e pequenos dias. Nesse
sentido, a impressão de Gilberto é a do crítico de
olhar penetrante. Ao passo que o Paulo, de Grie­
co, é o homem generoso, de coração tocado de amor
pelos meninos, pela cantoria do povo, pela vaidade
dos homens. O Paulo, de Gilberto, nos faz me­
lancólicos; o Paulo, de Agrippino, nos encanta pela
generosidade. Ambos são verdadeiros. Por isto
é que não fui feliz em falar em corrigir quando de­
via falar em somar. Gilberto Amado age nas suas
deduções à fôrça de prodigioso poder de exprimir
o conteúdo das coisas. O quadro que levanta do
acontecimento ou do agente do acontecimento é
uma síntese que envolve tudo de realismo profun­
do. Grieco se faz mais de analista, de colorista, de
um fogo de superfície. Em Gilberto, o fogo chega
como um raio, atinge com o seu ímpeto de relâm-
154 J o s é L in s do R êgo

pago a realidade. Ambos chegam aonde querem


chegar. Somente que, em Grieco, tudo se passa em
extensão quando, em Gilberto, tudo se realiza em
profundidade. O que ficou vivo tanto em Gilber­
to como em Grieco foi o homem João do Rio, víti­
ma de uma época de transição, pioneiro de sistemas
de jornalismo, mas, acima de tudo, o artista que
não se realizou como podia. A natureza humana
de Paulo Barreto não chegou a conservar o seu tem­
po. O Brasil dos começos do século vivia das imi­
tações francesas sem a coragem de se deter na sua
condição social. Paulo Barreto foi arrastado no
torvelinho e devorado pelas suas ambições menores.
O artista que havia nêle não soube reagir ao suces­
so barato. E quase que se perdeu, se não fôsse
meia dúzia de livros que ainda não se difundiram
pelo público como merecem.

O D E L F IM JO A Q U IM N ABU CO

Joaquim Nabuco teve uma educação de del­


fim. O senador, homem de equilíbrio que sabia li­
gar o seu saber jurídico à boa política, procurou
realizar no filho o que o destino não lhe dera: a
chefia de gabinete, isto é, o Governo do País.
O filho Aurélio lhe pareceu o homem dotado
de tôdas as qualidades para assumir o poder. Era
um rapaz de boa moral, de inteligência lúcida e de
disposição para as grandes lutas.
Nabuco se fêz de humanista e de coração aber­
to às agitações do seu tempo. O jovem estudante
de Direito superou o romantismo piegas da moda.
O V u lcão e a F onte 155

Era êle um romântico mais pelo espírito do que


pelos sentimentos. A literatura francesa dera ao
homem a liberdade de escolher as suas paixões. Fô-
ra-se a rebelião de Hugo, e Renan punha em for­
ma, sem a pompa de Chateaubriand, os problemas
básicos do Cristianismo.
A viagem a Atenas iluminara suas ambições
metafísicas, apesar das nebulosidades da Bretanha.
Nabuco se fêz de renanista. A medida de seus ar-
rebatamentos continha-se em leituras clássicas.
E depois os inglêses apareceram como mestres
de vida. A s soluções políticas da Inglaterra não
eram conduzidas pelas barricadas de Paris. O in­
glês fazia a sua revolução na intimidade. O rapaz
Nabuco variava entre a sedução da arte e a estabi­
lidade política. Entre o poema em francês e o
gabinete, o regime parlamentar.
A s sementes de sua alma vinham de longe.
Não quis nunca improvisar as suas atividades. Tudo
nêle foi tomado como disciplina. A campanha abo­
licionista foi-lhe uma experiência de campo. O
seu ardor, a sua eloqüência, a sua coragem de afir­
mar se consolidaram em estudos sérios. Não foi,
como Patrocínio, um verbo vulcânico. Sempre
que teve que agir, agiu com lastro e documentos.
Daí a sua campanha valer tanto, porque não fala­
va êle somente para arrebatar; falava para edificar.
O seu livro que chamou de Abolicionismo é
ainda hoje um valioso documento social. E é as­
sim também a Minha Formação.
156 J o s é L in s d o R ê g o

Conta Joaquim Nabuco a sua vida sem quase


voltar à infância. Todo o seu livro é a história de
um pensamento. Não quis Nabuco entregar-se aos
incidentes pessoais que são muitas vêzes revela­
dores. O seu livro é todo composto para nos mos­
trar a sua grandeza de homem.
Não há um Nabuco lírico, possuído dos mo­
mentos patéticos.
Teve êle escrúpulos de se mostrar na simplici­
dade do homem em contato com o cotidiano. Às
vêzes podemos sentir no seu livro o homem de pu­
nhos de renda de Buffon. Está aí o menor Nabu­
co, o que chega quase ao convencional. Mas, des­
de logo, o grande homem se liberta do momento in­
feliz e assume a sua verdadeira grandeza. O Na­
buco que se agita com as crises de consciência, o
homem belo que quer humilhar-se perante Deus
não se perde em atalhos. A consciência do homem
que recobra a fé se revela sem panos. Não tem
Nabuco mêdo do desconhecido e se entrega à paz
de sua vida interior sem dramas.
Quando êle se encontra com Renan não sente
no ídolo de sua adolescência a segurança que espe­
rava. Renan era bem o caniço de Pascal. Os ven-
tos sopravam sôbre a sua sabedoria, estremecendo-
lhe as raízes.
A formação artística de Nabuco não seria, como
a de Castro Alves, o turbilhão das palavras que
eram maiores que o coração do poeta. Nabuco
trouxera do latim de seu mestre de Petrópolis a si­
metria, a claridade da oração. Por isto evitou o
0 V ulcão e a F onte 157

derrame verbal. Mesmo nos discursos, estabele­


ceu o cuidado de não se exceder nos sentimentos.
A s suas imagens ligavam-se à realidade para mais
precisar o fato.
A literatura inglêsa ajudou Nabuco a fixar a
sua posição de artista. Enquanto o seu colega Rui
Barbosa compunha uma eloqüência de titã da lín­
gua, Nabuco atingia a sua realidade de escritor sem
riqueza vocabular. Como Montaigne, exprimia-se
como falava.
É a terceira vez que leio o livro de Nabuco e
desta vez consegui melhor proveito de sua leitura.
O político que se fôra com a Monarquia chegara à
sua verdadeira vocação. O historiador da vida do
Senador nos deu, com o seu depoimento, o roteiro
de sua vida de grande homem.
Minha Formação é um livro capaz de salvar
uma geração de fim de regime.

U M A V ID A D E JÚLIO R IB E IR O

Orígenes Lessa leu, para um grupo de amigos,


alguns capítulos de uma biografia que está prepa­
rando do romancista Júlio Ribeiro.
E uma figura humaníssima ia surgindo, ali do
seu décimo andar da Avenida Atlântica: o menino
Júlio, com a mãe pobre, professora de primeiras le­
tras e o pai americano, artista de circo de cavali­
nhos, que enfeitiçara a mineirinha romântica, mas
qüe não se deixara vencer pelo matrimônio. Pro­
vinha Júlio Ribeiro dêstes contrastes da vida. De
uma mãe sedentária, da pacata e tímida tradição
158 J o s é L in s d o R ê g o

de família mineira, e de pai boêmio, com a sofregui-


dão agoniada de um homem que não parava em par­
te nenhuma, constantemente a fugir de si mesmo,
de sua gente, do seu povo, de sua família.
A infância de Júlio Ribeiro seria assim vivida
na agitação de um conflito de temperamentos. O
pai a querer sempre arribar, e a mãe a fixar-se, a
insistir pela paz burguesa da família rotineira. En­
quanto o artista de circo pretendia furar mundo, a
mãe mineira montava escola para ensinar meninos.
Até que enfim o pai some, mas já deixara, no
filho, as sementes de uma mágoa que não o deixa­
ria em paz.
Origines Lessa traça desta tragédia, sem gran­
des palavras, um quadro de pungente realidade. O
menino Júlio Ribeiro não adota o nome do pai, quer
fugir o mais que pode da imagem do aventureiro,
mas aquilo era mais forte do que a sua tenra von­
tade. Existe a mãe admirável, a trabalhar para
que o menino tenha colégio em Baependi, para que
não fôsse êle um rebento da boêmia que não dava
mais sinal de vida. Apesar de tudo, no fundo da
alma do rapaz, permanece, como uma tentação,
como uma dor, como saudade que êle não compre­
ende, a imagem do pai erradio. Acredito que nas
noites do internato, com o pêso dos estudos, com a
gramática latina e os nomes da geografia na cabe­
ça, a figura do pai teria seduzido o aluno de primei­
ra ordem. E aí a dor tomaria conta do visionário
e Júlio Ribeiro voltaria à influência da mãe sacri­
ficada.
I

0 V u lcão e a F onte 159

Fala Origines Lessa da tentativa de suicídio,


por esta época. Sem dúvida que a fibra do rapaz de
15 anos não podia suportar a tragédia da família
desfeita.
A consciência pura que mais tarde daria o gran­
de Júlio Ribeiro, irredento contra os preconceitos,
contra a própria idéia de Deus, já sofria naquele
tempo das terríveis agonias pela verdade.
Deixei a sala de livros de Origines Lessa com
a humanidade de Júlio Ribeiro a me abafar.
O homem era muito mais complexo do que o
gramático, do que o romancista.

N A BU CO V E N C E U AS C A R IC A T U R A S

A magnífica conferência de Aníbal Fernan­


des, no Instituto Histórico, deu-nos um Nabuco
pouco conhecido, o Nabuco perseguido pela cari­
catura, ferido pelas picuinhas partidárias, o rapaz
bonito pagando caro por esta proteção de Deus.
Ia êle disputar a sua primeira eleição pela provín­
cia de seu nascimento. Saíra da escola, bacharel
novo em fôlha, e, após a etapa diplomática, o pai
senador queria que êle fôsse deputado.
Nada mais natural, ninguém com mais cre­
denciais. Mas é que a província de Pernambuco
não quis levar em conta os brilhos do rapaz para
só descobrir uma imposição do pai poderoso. E
reagiu, violentamente, pela sátira, pelos apelidos,
pelas injúrias. O lente da Faculdade de Direito,
o Dr. J. J. Seabra, chegou até a insinuar, pela im­
prensa, que Nabuco vendera negros de herança para
160 J o sé L in s d o R ê g o

sua viagem à Europa. E os jornais humorísticos,


como o “Diabo a Quatro”, se excediam nas carica­
turas e versalhadas. Para o pernambucano, mes­
mo do Partido Liberal, Nabuco não passava de um
filhinho de papai que chegaria da Côrte para tomar
sua cadeira de deputado geral dos que realmente
mereciam, legitimamente, ocupá-la. E para mais
ainda castigar a pretensão do “dandy” vinham as
difamações. Nabuco não tinha nada na cabeça,
perfumava-se à francesa, tratava os bigodes a bri­
lhantina, usava pulseiras de senhoras nos pulsos.
Era êste manequim de figurino que o papai man­
dava para candidatar-se a uma cadeira no Congres­
so. E, como no seu manifesto aparecessem algu­
mas cacofonias, dizia-se que o rapaz não sabia gra­
mática.
E tanto procuraram cobrir Nabuco de ridículo,
que no Teatro Santa Isabel, numa festa de estu­
dantes, quando êle pediu a palavra para um discur­
so, foi interrompido por uma vaia.
Apesar de tudo, a eleição levou o rapaz à Câ­
mara. v O Barão da Vila Bela prometera elegê-lo,
e o fez com sobras.
Mas, desde que chegou ao Parlamento, Nabu­
co começou a destruir todas as caricaturas. Lutou
como um leão, debateu todos os problemas em dis­
cussão, foi um deputado admirável. O filhinho de
papai transformou-se no paladino dos escravos, o
“dandy”, o Quincas, o rapaz das pulseiras conquis­
tou, assim, a cidade que o vaiara.
0 V u lcão e a F onte 161

A conferência de Aníbal Fernandes deixou-nos


emocionados. Êle nos pôs na intimidade de um
amor que se iniciara pela desconfiança para termi­
nar numa paixão de corpo e alma. O amor de Na­
buco pelo Recife e o amor do Recife pelo belo e bom
Nabuco.
A s últimas palavras de Fernandes arrebataram
a assistência. Vi lágrimas nos olhos de homens
graves. E para que negar: por debaixo dos meus
óculos minaram as minhas gotinhas.
JÊfh

JOSÉ V IE IR A

Não era homem de brilho, de caixa alta, de


aparecer sempre, de mostrar-se a todo instante. Ao
contrário, era homem do meio-tom, do entrar e do
sair discretos, todo recolhido, voltado para a sua
vida interior. Não era um companheiro de garga­
lhadas, mas de sorriso que procurava esconder com
a mão que levava à bôca. Assim foi em vida, no
convívio dos amigos, o mestre José Vieira que on­
tem morreu.
Hoje, pela manhã, não encontro, nos grandes
diários, o seu retrato com o noticiário que êle mere­
ceu. Pálidas notícias para uma obra que vale mui­
to, necrológio cinzento para quem está em lugar
garantido na história de nossa literatura.
José Vieira nasceu em Mamanguape, cidade
que foi, em certos tempos da Paraíba, uma terra de
letrados, de farmácia com boticários eruditos, cen­
tro de cultura clássica, com advogados, médicos e
lojas maçônicas, com boas bibliotecas. Filho de
162 J o sé L in s d o R ê g o

gente pobre foi autodidata, bacharel às suas custas


e escritor de primeira ordem.
Era estudante quando li, no “Diário do Esta­
do” de Paraíba, um artigo de José Américo de A l­
meida sôbre um livro novo, Sol de Portugal, de au­
toria de José Vieira. Nada sabia do escritor, mas
o livro que José Américo me deu a ler convenceu-
me do entusiasmo do amigo. Era um admirável
paisagista aquêle que se embriagara com a côr e
a luz das terras de Nobre. Nunca lera, a não ser
em Eça de Queiroz, trechos mais vivos, mais colo­
ridos, sôbre as aldeias, os vinhedos, as praias de
Portugal. Tinha razão José Américo. Havia um
escritor magnífico em José Vieira.
Depois vieram os romances, as crônicas da
Cadeia Velha, o delicioso Livro de Tilda, romance
da serra, com as hortênsias, os rios, as doçuras de
Petrópolis.
O mestre José Vieira trabalhava uma prosa de
sabor brasileiro, embora de sintaxe lusíada. O en­
canto de sua literatura estava justamente neste
ajuste, sem ranço, de uma língua que era do nosso
cotidiano, mas que se compunha prêsa aos velhos
cânones. Não parecia nunca um esforço de erudi­
to pretendendo corrigir os outros. Era a própria
natureza do escritor no exercício da sua função de
criar. Aí está o seu Pedro Malazarte, o melhor de
seus livros, uma ótima liga da vida da terra parai­
bana, com a vida do homem José Vieira.
A verdade, porém, é que os contemporâneos
não deram a José Vieira o lugar que êle mereceu,
muito mais que tantos outros que andam por aí.
0 V u lc ã o e a F onte 163

O C A M IL O D AS P O LÊM IC AS

O jornalista Costa Rêgo reuniu, numa seleção,


algumas das polêmicas do grande Camilo Castelo
Branco, e, com um agudo prefácio, nos dá um li­
vro cheio de curiosidade, de vida, com todos os
arrancos do vigoroso temperamento de um lusita­
no bravo e de espantoso gênio literário.
Houve, em Camilo, um caso de doença da per­
sonalidade que se manifestava pelas palavras, em
intemperança verbal de fechar o comércio. A s tem­
pestades que êle criou, as brigas que procurou, as
descomposturas que passou são únicas em língua
portuguêsa. Há um Camilo que chorava em his­
tórias de amor de cortar coração, e há o outro Ca­
milo, homem de sangue quente, que manejava a
pena de pato como se fôsse um cacête de arreben­
tar ossos. Brigar com Camilo era arriscar demais,
era desafiar uma virulência que não tinha limites.
A sátira que êle usava se transformava em escár­
nio, e o seu riso de sarcasta não findava sem cuspe
na cara de suas vítimas. Contra um adversário
chamado Conceição ia até ao insulto à veneranda
mãe do homem que não lhe gostara dos roman­
ces: “Quanto à mãe, quer ela se macheasse com o
deus, quer com o burro, ninguém dá notícia de tal
“bêbeda”. Está aí o nosso Camilo no seu terrível
elemento. É capaz de tudo no ataque, na verrina,
no desabafo.
A Carlos de Laet, que lhe criticara uma cinca-
da no emprêgo do verbo haver, manda-lhe dizer
164 J o sé L in s d o R ê g o

Camilo: “ Os senhores escritores brasileiros, que


me enviam preleções de linguagem portuguesa, se
me quiserem obsequiar de um modo mais significa­
tivo e proveitoso, mandem-me um papagaio, uma
cutia e alguns frascos de pitanga. Quanto à lin­
guagem, muito obrigado, mas não se incomodem”.
Laet lhe replica: “ O Sr. Castelo Branco quer
que lhe mande uma cutia: pois tome a êste houve­
ram, que também é bicho bravio, e veja se o aclima
em São Miguel de Seide”.
Em São Miguel de Seide só havia um bicho
bravio, e êste nunca se aclimou em parte alguma
dêste mundo. Era o próprio Camilo Castelo Bran­
co, a quem fizeram visconde e a quem nunca aman-
saram, nem com mimos, nem com mesuras.

U M A C O N V E R S A SÔBRE C A STR O A L V E S

Ontem conversava com uma jovem romancis­


ta e um grande crítico sôbre Castro Alves. Para a
môça de verdes anos de adolescente, mas de idade
maior que a da identidade para avaliar as coisas,
esta história do centenário de Castro Alves estava
cansando.
Havia muito Castro Alves, por tôda a parte.
Os políticos, então, se excediam em palavras, de
quem queria cavar eleitorado com os poemas liber­
tários do Poeta. E o golpe da Avenida, que arran­
caram do senador gaúcho para dar de presente de
aniversário ao rapaz baiano, completava uma série
de atividades partidárias em torno do centenário
do bardo de Curralinhos.
0 V u lcão e a F onte 165

O crítico, e com tôda a razão, insurgia-se con­


tra o excesso de maior que ligavam, a todo o propó­
sito, a Castro Alves. Para tudo lá vinha o maior
poeta do Brasil, como uma classificação inapelável.
Para o crítico não havia tanto fundamento, intrin-
secamente poético, para fazer de Castro Alves o
maior poeta. Porque outros existiam de estro mais
rico, de fôrça mais realizada. E, no entanto, nem
parecia que nasceram para os críticos do centenário.
A jovem romancista atribuía tudo aos cem
anos. E nos dizia que ter cem anos dava direito a
tudo. Para ela a poesia de Castro Alves não lhe
falava à sua natureza introspectiva. O crítico nos
confessava que procurara reler o poeta, de verso a
verso, e não o conseguira, chegando à conclusão de
que encontrara, em Castro Alves, apenas uma vo­
cação estrangulada. E nos afirmou mesmo que
melhor lhe falava à alma o Álvares de Azevedo da
Lira dos Vinte Anos.
Nada quis adiantar à conversa, mas, se pudesse
vencer a minha timidez, eu teria dito ao crítico, que
considero um homem de real capacidade de inter­
pretar, ou à môça, que é uma verdadeira revelação
da novela, que havia, no rapaz da Bahia, um peda­
ço de aurora, destas de dia de sol, que é como uma
mocidade do tempo. Há versos de Castro Alves
que são manhãs de orvalho pingando do roseiral em
flor. E se a sua poesia não toca às raízes da dor,
se canta como um pássaro, um pé de mato, livre
e doce, em seus gorjeios, não será caso para aban­
doná-la. O poeta, que pretendeu ser o poeta dos
166 J osé L in s d o R ê g o

escravos, não terá abrandado, com a sua eloqüência


desvairada, um senhor sequer. Mas o outro, que
era o amor em ação, muitos corações de pedra terá
dominado, com os mais volutuosos cantos de amor
que já tivemos.

U M R E T R A T O D E P A D R E V IE IR A

Para as cartas do Padre Antônio Vieira, sele­


cionadas pela Livraria Sá da Costa, de Lisboa, es­
creveu o mestre Antônio Sérgio um notável ensaio
de interpretação do grande jesuíta. Sérgio usou,
na sua peça crítica, o seu poderoso engenho de aná­
lise, e nos deu assim do pregador, do mais autên­
tico gênio barroco da língua, um retrato do homem,
profundamente político, que foi o espírito santo de
orelha de D. João IV . As viagens de Vieira à Ho­
landa, onde procurou vender Pernambuco à Com­
panhia das índias, negócio que êle preparou como
uma cilada de comerciante esperto, esclarecem,
pelas cartas divulgadas, que as manobras de Vieira
estavam amparadas nos próprios judeus de Amster­
dã. E o próprio Vieira tinha chegado a encomen­
dar, em estaleiros holandeses, seis navios de guer­
ra para a armada de Portugal, com o fito de colo-
cá-los contra os batavos. A s secretas ligações do
negócio com as guerras aí estão como coisa mais
velha do que podemos imaginar.
Antônio Sérgio penetra na vida do pregador e,
mesmo de alguns de seus sermões, e muito mais
de suas cartas, extrai muita verdade sôbre a natu­
reza do homem extraordinário. Vieira, a serviço
0 V u lcão e a F onte 167

da Companhia, foi um dos criadores da introdução


do escravo negro no Brasil. A parte mais dramá­
tica da vida do gênio foi a luta contra a Inquisição
e a sua defesa dos cristãos novos. Luta essa que
o levou à desgraça nas Côrtes de Lisboa, mas que
lhe deu as glórias de Roma, com um breve de pro­
teção do Papa. O ensaio de Antônio Sérgio é mais
uma admirável contribuição dêste mestre para o
verdadeiro conhecimento do pensamento social e
político de Portugal.

O P A D R E V IE IR A E OS PO R TUG UÊSES

Acontece em Portugal, nas relações dos ho­


mens de gênio com o país natal, um constante estre­
mecimento de amizade, assim como que uma desa-
feição latente entre o grande homem e o povo. Daí
o grau elevado de pessimismo que aparece nos de­
poimentos daqueles que são, verdadeiramente, os
que podem falar, os que têm a dizer alguma coisa.
Camões, quase que morreu de fome, abandonado
cruelmente do povo que êle eternizara. Bocage
deixou o cárcere da Inquisição para terminar como
o mais pobre dos homens, tendo morrido na indi-
gência. Deram a Camilo um título de visconde,
mas a vida que êle arrastou foi a de um pária.
Que razões, que incompreensão poderão exis­
tir entre o povo português e os seus autênticos in­
térpretes? É um mistério, porque não há gente
mais mole de coração do que a lusitana, e com mais
capacidade para a amizade. O fato, porém, é que
os seus grandes homens, desde que passam a se
168 J o s é L in s do R ê go

confessar, não perdem oportunidade de dizer mal


da gente que é sua. Haja vista o Padre Antô­
nio Vieira, nas cartas que, agora, Antônio Sérgio
colecionou. É assim que o genial pregador se di­
rige a D. Rodrigo de Menezes e a Duarte Ribeiro
de Macedo: “ Só o esquecimento de Portugal nos
pode levar a Portugal” . “ Êstes padres não são
portugueses, e com isto digo que vivem entre êles
em quietação.” “ Depois de ter nascido em Portu­
gal, a maior felicidade fôra, ou não chegar a uso da
razão, ou tê-la perdido.”
Aí está um Vieira como um Ramalho Ortigão
das Farpas, ou um Eça de Queiroz do Crime do
Padre Amaro. É que no caso do Padre Vieira, mais
do que em qualquer outro, havia o político na com­
petição da Corte nas tricas palacianas. O portu­
guês de Vieira seria, no caso, os seus inimigos, os
conselheiros do Infante D. Pedro. Talvez que, ao
tempo de D. João IV, o português de suas referên­
cias fôsse bem outro.
POETAS E POEMAS
FOI EM GRANADA O CRIME

Se me perguntasse qual seria a melhor defini­


ção do fascismo eu não recorreria aos teóricos e
nem aos livros, eu diria somente que o fascismo
era o regime político que mandava fuzilar o poeta.
Lã está, no poema doloroso de Antônio Machado,
outra vítima dos abutres, o fato cru, o gesto bestial:

“ Se le vió, caminando entre fusiles


por una calle larga,
salir el campo frio,
aún con estrellas, de la madrugada.

Mataron a Federico
Cuando la luz asomaba.
El pelotón de verdugos
no osó mirarle la cara.
T odos cierran los ojos;
rezaron: j ni Dios le salva!
Muerto cayó Federico
— sangre en la frente y plomo en las entranas —
Que fué en Granada el crimen
sabed — jpobre Granada! en su G ranada...”

Em Granada, uma madrugada, arrancaram o


poeta de sua casa para matá-lo, sem processo, sem
culpa nenhuma. “Ni Dios le salva”, disseram-lhe
os verdugos. E, sôbre a terra úmida da manhã an-
172 J o s é L in s d o R êgo

daluza, correu o sangue e caiu o corpo do maior


poeta do seu tempo. Quem era Garcia Lorca para
merecer tamanho ódio, tão terrível sentença? Era
somente o poeta de Granada, da pobre vila de Fuen-
tevagueros, o filho de um lavrador, o rapaz more­
no que cantava como pássaro, o coração de tão for­
te bater, o que tinha sangue do povo a agitar-se
furiosamente em suas veias. Que fizera Garcia
Lorca para morrer como homem perigoso, arcabu-
zado? Cantara somente. Desde Gôngora, desde
Calderón, desde Lope de Vega que não se canta­
va assim em Espanha. Tôda a grandeza clássica
de Espanha se concentrava nêle, e, mais que a gran­
deza dos clássicos, havia, em Lorca, a grandeza do
povo. Que era o teatro de Lorca? É como o tea­
tro de Shakespeare, uma concentração de vida em
palavras que são imagens reveladoras. Em Sha­
kespeare a palavra não serve para encobrir o pen­
samento, serve para revelar o homem, para dizer
tudo que outros não dizem porque não sentem. O
poeta de gênio é aquêle que, como Lorca, sente o
que há de grande e o que há de pequeno na natu­
reza humana. O Lorca de Bodas de Sangre não
usa as palavras como instrumentos passivos. Ali
as palavras assumem uma fôrça de estranha pre­
sença ; e não a própria presença do poeta que sem­
pre quis cantar para não fugir da terra, mas para
mais prêso à terra ficar. A terra em Lorca é como
se fôsse a sua carne. Êle fala do vinho que sangra
da terra, êle fala da água que corre em ribeiro ou
torrente como para falar de suas intimidades. É
O V u lcão e a F onte 173

o poeta mais carnal, e é o poeta mais espiritual de


Espanha. Porque, por lá, corpo e alma são as mes­
mas essências poéticas.
E o que é o fascismo? O fascismo é a política
que mata o poeta.
Conta-se que, depois do crime, um soldado per­
guntou ao tenente que comandara o fuzilamento:
— Mi teniente. i Qué hacemos con el cadáver?
— Dejálo en la cuneta que sirva de pasto a los
cerdos.
Antes cantara assim o poeta que mais de perto
vira a morte:

“Tres golpes de sangre tuvo


y se murió de perfil
Viva moneda que nunca
se volverá a repetir.
Un ángel marchoso pone
su cabeza en un cojín”.

Foi em Granada o crime.

O P O E T A LÊDO

Os novíssimos poetas têm, no jovem Lêdo Ivo,


o seu grande poeta.
E sôbre isto não me resta a menor dúvida. Ain­
da a Ode ao Crepúsculo me deixara a impressão de
árvore de muitas fôlhas, embora, de quando em vez,
os instintos poéticos do alagoano botassem as man­
gas de fora e dessem mesmo o tamanho do estro,
verdadeiramente de surpreender.
174 J o s é L in s d o R êgo

O poeta de vinte e poucos anos, assim com


aquêle mesmo vigor do Vinícius de Morais da es­
tréia, supera, no entanto, o carioca, na fôrça com
que se cortam as palavras. O Lêdo Ivo da Ode
derrama-se, quer arrancar brilhos através de efei­
tos de imagens que sentimos de papel. Mas êste
que acabo de ler, no seu último livro Acontecimento
do Sonêto, é da categoria do mestre Manuel Ban­
deira, da tradução de Elizabeth Barrett Browning,
da melhor concepção do sonêto, do mais fecundo
equilíbrio estético. Êste Lêdo a gente encontra, si-
bilino, nanico de porte, todo protegido de suben­
tendidos, com um sorriso que se lhe fixou na sua
face, como um defeito físico, é poeta maior, verda­
deiro senhor de tesouro escondido, capaz de gran­
dezas para a nossa pobre língua portuguêsa, áspera
como terra de agreste. Os seus sonetos carregam
uma música que não é uma música sentimental
para efeitos de pouca duração. Mas música de pe­
netrar na alma para nos fecundar, para nos melho­
rar a vida, doce e substanciosa música de câmara.
Alegra ao quarentão o surgir nas letras de
quem pode mandar como grande.

C A R T A S D E F E R N A N D O PESSO A

É o uso da sensibilidade, e não a própria sen­


sibilidade, que vale em arte, dizia Fernando Pes­
soa, a propósito de um livro de Adolfo Rocha, a
João Gaspar Simões, em carta. Vinha esta con­
fissão do crítico em resposta às palavras duras de
Adolfo Rocha, ao comentário de Pessoa ao livro
O V ulcão e a F onte 175

Rampa. Adolfo Rocha seria mais tarde Miguel


Torga, o grande prosador português.
Mas nas palavras de Fernando Pessoa estava
tôda a sua teoria sôbre a arte. O uso da sensibili­
dade é o que faz a poesia como forma. Dizia V a­
léry que a obra do espírito só existe em ato, mas é
o próprio Valéry quem nos afirma que existe uma
prática detestável, que consiste em abusar das obras
muito bem trabalhadas para criar e desenvolver o
sentimento da poesia nos jovens. Esta prática ter­
mina em tratar o poema como modêlo a serviço da
composição, em entregá-lo às classes para ser de­
composto em aulas, recitado como prova de me­
mória, quase sempre abstraindo-se do seu essen­
cial, do que faz a sua verdadeira grandeza. Enfim,
é a execução do poema que é exatamente o poema.
É, como dizia Pessoa, o uso do sentimento. Reu­
niu João Gaspar Simões, em volume, as cartas que
recebeu de Fernando Pessoa. Geralmente, os poe­
tas não gostam de confissões epistolares. Pessoa,
que não era de rodas de amigos, abria-se em suas
confidências de artista com João Gaspar Simões.
O que caracteriza essa correspondência é a ad­
mirável capacidade de admirar de Pessoa. Para
êle os moços valiam-lhe como se fôssem contempo­
râneos. Muito teve de Pessoa o nosso Mário de
Andrade, natureza rica de arte, mas coração afeti­
vo aos extremos. Foram Mário como Pessoa fe-
cundadores de poetas, mestres que não pareciam
com os mestres, dispostos a sentir os valores, vies­
sem de onde viessem. É tocante a amizade de Fer­
176 J o sé L in s d o R ê g o

nando Pessoa pelo jovem Mário de Sá Carneiro.


Quando pensaram na publicação das obras comple­
tas do poeta morto, foi o próprio Pessoa quem se
pôs a copiar os poemas do amigo, a mandar suges­
tões sôbre a feitura dos livros aos seus organizado­
res. Pode-se dizer dêsse poeta que êle era maior
que o seu tempo; quis, no entanto, mostrar-se me­
nor do que era. O gôsto pelos heterônimos nos
mostra a sua capacidade de querer ser igual aos ou­
tros. Gaspar Simões era quase um menino quando
se fêz de seu amigo, através de cartas. Pessoa se
punha a ouvi-lo, atento às suas opiniões, êle que, já
naquela época, era, como Camões, o maior poeta
dramático da Língua. Áliás, Gaspar Simões, na
sua notável biografia, já nos dera um Fernando
Pessoa em corpo inteiro. Agora, a correspondên­
cia publicada nos serve para mostrar a linha espi­
ritual do poeta que não temia as palavras. O uso
da sensibilidade implica no fervor pela expressão.
Pode-se dizer de Fernando Pessoa que êle foi o
poeta da expressão autêntica, e nunca dos senti­
mentos soltos aos ventos.
V

A L B E R T O D E O L IV E IR A

Apresentou-nos Austregésilo de Athayde um


Alberto de Oliveira como realmente foi o poeta. Um
homem que regulava a sua vida pelas paixões de sua
arte. O homem arrebatado pelos acontecimentos
que o cercavam não existiu no poeta. E, se existiu,
o outro fê-lo calar. Para Alberto de Oliveira ha­
via um tempo essencial que era o de sua poesia. O
0 V u lc ã o e a F onte 177

outro tempo êle dominava como se fôsse secundá­


rio. O real estava contido no poema. Assim vi­
vem e assim morrem. Quando o mundo falava ti­
nha para êle a linguagem da natureza vegetal, do
mar, dos campos onde cantavam passarinhos e ge­
miam os bichos da noite. O grande poeta nunca
fugiu da sua contingência humana. O coração do
gigante bem estremecia pelo amor. Alberto de
Oliveira era de uma geração que acreditava na for­
ma. Os românticos acreditavam mais nos senti­
mentos exacerbados. E, por isto, chegaram até a
procurar a morte como noiva. Andou Fagundes
Varela pelas selvas em coração em ruínas. A gera­
ção de Alberto fêz tudo para levantar as forças dos
poetas que morriam ao crepúsculo. Os corações
doentes, os pulmões rotos, as desditas de amor se­
riam dominados pelo rapaz de ação viril. A poe­
sia do comêço do século chegou ao exagêro de usar
o martelo para trabalhar em pedra. O verso devia
ser um pedaço de mármore. Não chegou a tanto
o mestre Alberto de Oliveira. Nêle havia um co­
ração de romântico contido pela forma. Por isto
a sua obra poética ligou-se à natureza brasileira
como a realidade de substância. A s imagens an­
tigas não remaram a sua infância de Saquarema.
Permaneceu no poeta heráldico o menino das tardes
tristonhas, dos banhos de mar, das palmeiras sil­
vestres. Cantavam aos seus ouvidos os galos-de-
campina, os saudosos sabiás-gongá, os rumôres das
noites de escuro, os silêncios dos céus estrelados.
E o rio Paraíba, as águas bravias que desviam vio­
178 J o sé L in s d o R ê g o

lentas para o mar. O poeta Alberto de Oliveira


venceu os deuses do Olimpo, as águas de Castália,
os mármores pentélicos, com as saudades dos cam­
pos onde se aprofundam as raízes de sua alma. O
poeta Bilac arrebatou-se pelo anedótico de histó­
rias gregas e aventuras no sertão. Raimundo Cor­
rêa trazia, no fundo de sua alma, as dores do mun­
do; o mestre Alberto de Oliveira não fugiu da sua
mais carnal realidade. Amou a mulher e a terra
de seu País. E, se foi contido e meticuloso na sua
paixão, era porque nascera homem, senhor de seus
nervos. Não era de chorar como Casimiro, não era
de arrebatamentos líricos como Vicente de Carva­
lho e nem dos comícios como Castro Alves. Era o
poeta como o viu, admiràvelmente, o caro Austre-
gésilo de Athayde, o Apoio que, às vêzes, cedia aos
apoios de Dionísio. E assim humano, sem os re­
cursos verbais para esconder-se de sua contingên­
cia mortal. A sua poesia é que superava a sua fra­
gilidade de criatura para atravessar o tempo e so­
breviver como as cantigas eternas.

O OBSCURO

Quando a arte procura ser obscura para ser


sempre obscura perde a sua verdadeira fôrça de ex­
pressão. Uma vez Mallarmé respondendo a um
inquérito nos dizia que os parnasianos procuravam
definir e revelar as coisas, sem o mistério que é a
condição poética que envolve a realidade. Os poe­
tas da forma marmórea não ligavam a vida interior
das coisas. A música que decorre dos pombos e dos
0 V ulcão e a F onte 179

símbolos não chegava aos ouvidos de Leconte de


Lisle. A essas harmonias que se confundiam com
o gemer das esferas, permanecia insensível a poe­
sia neoclássica. Dar nome ao objeto seria para
Mallarmé suprimir o poder da forma, seria cobrir de
luz crua os sombrios misteriosos. Sugerir, eis a
questão, sugerir para melhor penetrar no mundo
órfico. Usar o mistério para melhor penetrar no
símbolo. A í surge a música das palavras. A poe­
sia passa a ser mais um canto que uma pintura. Os
simbolistas, como Lafargue, arrancaram, dos atri­
tos dos verbos, verdadeiras sinfonias. A poesia se
libertaria, assim, de obrigações rudes. Os parna­
sianos passaram a ser quase pintores de paredes,
com as suas alegorias desumanizadas. A poesia
tinha outra responsabilidade para ligar o homem ao
seu destino. Mallarmé chegou aos extremos e
atingiu ao preciosismo tão mortal à criação quan­
to a vulgaridade parnasiana. A obscuridade se ali­
mentava de um mistério sem mistério. A reação
contra a anedótica chegava ao gongorismo, uma
doença espanhola de fácil propagação. Os simbo­
listas secundários começaram a usar os símbolos
com a mesma insistência dos distintivos parnasia­
nos. A poesia, que se libertava das funções de cria­
da de quarto, se armava em fantasmas para meter
mêdo. O obscuro servia para cobrir mediocrida-
des. A preocupação em parecer estranho se difun­
diu na pintura, na música, na prosa. A essência
poética perdia-se no ar. Os gongóricos chegaram
até nós e provocaram a separação da poesia do po­
180 J o sé L in s d o R ê g o

vo. A pesquisa semântica tomou o lugar da espon­


taneidade com tamanha insistência que a crítica
passou a ser um aglomerado de gramáticos abutres.
Ora, poesia não é raiz de palavra. Poesia é um
jogo de palavras que revela a natureza humana.
Ser obscuro com o esforço braçal de sábios de labo­
ratório é reduzir o maior poder do homem à mera
contingência de esconder o que é a própria evidên­
cia. O difícil não é ser obscuro quando se quer: o
difícil é ser o obscuro, o mistério que nos envolve
no instante da criação. Tolstoi não percebeu o
mistério de Baudelaire porque o seu francês de esla­
vo não deu para tanto. Também já não percebera
o mistério de Shakespeare porque o seu gênio es­
tava sitiado pelas teorias morais. Era de um pri­
sioneiro da claridade do meio-dia que incendeia a
melhor visão das coisas.

P O E T A S E ANJOS

Encontro-me com o poeta Lêdo Ivo e êle me


pergunta, um tanto sibilino, se havia lido uma de­
claração do poeta Manuel Bandeira, a propósito de
poesia dos novos e de crítica. E, como não tivesse
tido conhecimento da entrevista do meu grande
poeta e mestre, adiantou-me o Lêdo: “Pois tenho
para mim que ali se responde ao seu ponto de vis­
ta sôbre a ausência de crítica em vista da ausência
de matéria-prima para os críticos”.
Depois me mostrou o jovem Lêdo o jornal com
as palavras do Poeta, e, de fato, havia no conteú­
0 V u lcão e a F onte 181

do da sua opinião uma resposta às minhas im­


pressões.
Dou ao mestre a minha mão à palmatória e
com gôsto volto à questão para uma revisão cui­
dada do assunto. Para Manuel Bandeira há gran­
des poetas na geração que desponta. E êle nos
fala de alguns que conheço de perto e que são,
na verdade, criaturas possuídas do dom miraculo­
so da expressão.
Mas poetas por poetas sejam lidos, talvez seja
o que caracteriza o gôsto pela abstração de certos
autores que, quanto mais aproximam a poesia da
música, mais se concentram na abstração, mais fo­
gem do concreto, mais se desumanizam, na procura
de um mundo que não é desta nossa Terra.
Há, assim, uma grande poesia que é quase mú­
sica de câmara, tôda trabalhada pelos pesquisado­
res de palavras, como se fôsse uma obra de labora­
tório. Os poetas se sublimam no verbo e chegam
a uma pureza tal que, como os cereais muito trata­
dos pelas máquinas, perdem as vitaminas. Em vez
de procurarem os nossos sentidos, as nossas facul­
dades, perdem-se num céu muito puro e somem
como um gás muito mais leve do que o ar, atrás da
coorte dos anjos.
Conversam com os anjos sôbre problemas que
não têm nada que ver com as nossas desgraças de
homem. E são, às vêzes, mais angélicos do que os
próprios anjos, como aquêle Gabriel que desceu à
Terra e falou, em hebraico, à Virgem, em língua
que era da Terra.
182 J osé L in s d o R êgo

O POETA CARLOS QUEIROZ

O poeta Carlos Queiroz vem das mesmas ori­


gens de Fernando Pessoa, aquele que deu à poe­
sia lusitana uma espécie de vida secreta, de mais
drama do que lirismo, ou melhor, de um lirismo
sem o cantar de água corrente de Antônio Nobre,
tão da tradição portuguesa.
É êle mesmo que assim nos define a qualidade
de sua poesia, mesmo da sua poética:

“Que trajetória complicada


Faz a água nas vísceras do monte,
Até sair purificada
Da fonte
E escoar-se no chão,
Como se não
Valesse nada!
Assim é a poesia
Que mereça êsse nome e a luz do dia”.

Pessoa deu ao seu lusíada a consciência de


uma dor que lhe vinha das entranhas da alma, uma
dor que não se consumia só com o cantar, mas que
persistia, que dormia no leito do poeta, como a es­
posa, que era a sua razão de viver. E poesia passa­
va a ser, como já tinha sido em Antero, um instru­
mento de tortura do pensamento. A alma maior
do que o corpo.
Carlos Queiroz, neste seu maravilhoso livro de
poemas que chamou de Breve Tratado da Não Ver-
siiicação chega a esta conclusão de pesquisador de
laboratório de mágico:
0 V ulcão e a F onte 183

“Ver só com os olhos


É fácil e vão:
Por dentro das coisas
É que as coisas são”.

E quando êle se encontra e quando êle desco­


bre o seu mundo, é a solidão que o envolve e o situa
na sua dolorosa contingência:
“Cercadas de abismos
Por todos os lados,
As almas são ilhas
Em nós sepultadas.
Ilhas solitárias
Sem pontes, sem túneis
Sem possível tráfego
De umas para outras
Ilhas assombradas
As almas parecem,
Deus se compadeça
Do nosso arquipélago!”

Esta terrível solidão aguça no homem Carlos


os seus instintos para descobrir os mais recônditos
fios de poesia, nos sêres e nas coisas. Passam-lhe
pelo sentidos os cheiros, os sons, as cores, e êle não
se contém. E o caramujo se transforma em pás­
saro de canto pungente, e a ilha se povoa de uma
música que vibra nas árvores, nos ventos, e huma­
niza tudo. O coração do poeta é uma harpa eólia.
“Maresia — viveiro
De mistérios sem fim...
Mas pergunto primeiro:
— Desde quando êste cheiro
Amadurece em mim?”
184 J o s é L in s do R êgo

O pequeno livro de poemas de Carlos Queiroz


me parece de importância maior, sendo todo êle
um roteiro de boa e fecunda poesia.

OS P O E M A S CR IO U LO S D E JORGE D E L IM A

Não acredito que fique bem a palavra negro


aos poemas de Jorge de Lima, agora em edição de
luxo, e com ilustrações magníficas de Segall. Eu
os chamaria antes de crioulos, não na acepção dos
franceses, bem melhor, na nossa concepção nor­
destina.
Quando estive em Minas Gerais e ouvia cha­
mar os negros puros de crioulos, espantava-me. O
crioulo para nós seria antes o mestiço, o homem de
meio sangue. Uma bela crioula, nós chamaríamos
a uma mulata, e nunca à negra retinta.
Os poemas de Jorge de Lima são todos de san­
gue cruzado. Nada de raça pura nas origens de
sua inspiração. Bem que os conheço de muito per­
to, a cada um dêles. Vi-os nascer, nos tempos de
nossa vida fraternal, em Maceió, quando vivia, com
o poeta, unja intimidade de estudantes, tidos e ha­
vidos, pela cidade boa e camarada, como dois doi­
dos varridos.
E por muito conhecer êstes poemas, nos seus
vagidos, no seu crescimento, na sua vida, é que não
os chamaria de negros porque não o são de todo.
O poeta que os compôs é, em todos os sentidos, um
grande criador de música e de imagens, um verda­
deiro rapsodo, que nem a sabedoria, a gramática, as
imposições dogmáticas conseguiram destruir.
O V ulcão e a F onte 185

Jorge de Lima é, como nenhum outro poeta do


Brasil, o homem telúrico, o homem da terra de Ala­
goas, do massapê do Mundahú, da Serra da Barriga,
das lagoas, dos levados, dos frutos, dos bichos, dos
peixes, da lua, dos pássaros e, sobretudo, da música
que brota dos quatro cantos da província mais mu­
sical do Brasil. O coco, criação alagoana, encheu
a alma do poeta Jorge de ritmos que foram e são a
magia do seu estro. Os poemas de sua grande fase,
de sua mancebia com a terra, são êstes que são os
mais originais, os mais liricamente luxuriosos, os
mais mestiços da nossa literatura.
Êste é o Jorge de Lima da “Nêga Fulô”, da
“Zefa”, do mormaço, da fabulosa luxúria dos trópi­
cos, de poesia onde há fome de sexo, como em Gar-
gântua atuado em Xangô.
Quando se fizer a história da nossa literatura
brasileira, haverá o capítulo Jorge de Lima como
uma grandeza à parte de tôdas as outras.

“ C Â N T IC O ”

O jovem poeta Ledo Ivo volta com um novo li­


vro de poemas, e mais forte e mais sensível ao mun­
do se revela. Aliás, a geração a que êle pertence
vive a debater-se contra os mestres que a fecun­
daram, numa tentativa de fugir da grandeza, mas
sem fôlego para criar outras grandezas. A pre­
sença dos grandes poetas contemporâneos é ainda
a presença de pais que não se libertaram das obri­
gações para com os filhos menores.
186 J o s é L in s do R êgo

Ledo Ivo, porém, pode falar grosso e montar


casa. É poeta com maioridade, de barba na cara.
Outros de sua geração andam por aí, com gemidos
de gata no cio, um miar de cortar coração. Não
impressionam, não fizeram nada além de sua me­
diania inocente. Se esbravejam, esbravejam no
vazio, sem mesmo a pungente loucura do magro
cavaleiro espanhol.
Em Lêdo a sua geração pode descansar e, pelo
menos, gabar-se de produto de primeira ordem. O
alagoano vale mesmo pelos meninos bem compor­
tados dos sonetos, de comportamento grau 10, os
herméticos mais claros que cal de parede, os pro­
fundos mais rasos que cacimba de beira de rio.
novo livro de poemas do poeta Lêdo avança
sôbre os anteriores. Já aparece, ali, um poeta mais
limpo de palavrório, mais íntimo da verdadeira me­
lodia.
Dou uma prova:

“O corpo branco
de matéria lúcida
seqüestra a noite
que o faz sonhar.

Será um anjo precipitado


na praça pública, será
a noite, o céu, o sol, o mar?

Será a dona em que se inspiraram


numa cantiga de carnaval?
Nada sei, mas o contemplo,
êle se inclina, sem me beijar”.
O V ulcão e a F onte 187

V A L É R Y E OS P O E T A S

Pouco tempo antes de morrer, Paul Valéry foi


procurado por um amigo, que lhe propôs, para uma
edição de luxo, a tradução das Bucólicas, de Virgí­
lio. O mestre do Cemitério Marinho achou difícil
a missão. O seu latim ainda era o de classe e Vir­
gílio pedia muito mais de um tradutor. Em todo
caso, não recusou. Leria outra vez o grande líri­
co e, conforme fôsse, poderia dar-lhe uma interpre­
tação à altura do francês. Para Valéry, o latim
lido agora na velhice pareceu-lhe uma língua mais
poética que a sua. A ausência do artigo, o pouco
de preposições compunham para o verso mais rit­
mo ; o que lhe compensava da falta de rimas. O la­
tim valorizava a palavra a ponto de transformar o
poema num ato vital, sem que o perturbasse a sen­
tença. O verso sem os hiatos, o verso ligação es­
treita entre o poeta e o leitor. Estava assim V a­
léry como peixe na água. E se pôs a traduzir Vir­
gílio como se fôsse o seu testamento literário. Mas
quis, antes de tudo, falar sôbre Virgílio, o rapaz das
Bucólicas. E nos deu um ensaio sôbre a poesia que
é uma maravilhosa síntese de suas convicções esté­
ticas. O Valéry do século X X se exprime com
a clareza e a penetração de La Fontaine. A pala­
vra em suas mãos é um cristal de rocha capaz de
comunicações com o abstrato da forma. Eupalinos
tem retortas para as mais puras decantações. Além
de falar de poesia, quis Valéry falar dos poetas. O
poeta, na Grécia, foi o rei dos homens. Alexandre
só perdoou, em Tebas, a casa de Píndaro. Os poe­
J o sé L in s do R êgo

tas foram mais que os códigos e a sabedoria dos fi­


lósofos. Depois de situar a poesia do Virgílio pro­
prietário de terras, passa Valéry a colocar o pro­
blema das relações do poeta com o poder. Apesar
de não dar importância à História, sugere êle aos
historiadores o capítulo que abarcasse os contatos
da poesia com os regimes ou governos.

La Fontaine poderia ter composto a fábula:


“ O Poeta e o Estado”. É verdade que, nos Evan­
gelhos, há o que é de Deus e o que é de César. Mas
a questão admite soluções conforme o humor e a
condição que cada um apresente. Há soluções eco­
nômicas, porque é preciso viver. Há as soluções
de ordem moral e as puramente afetivas. Tal re­
gime seduz pelas perfeições materiais ou brilho de
seus triunfos. Há governos que valem pelo gênio,
outros por um simples sorriso. Reagem as opo-
sições que se agitam pelo interêsse da causa públi­
ca. O homem de espírito se revolta e se recolhe
no trabalho. Podemos observar reações de tôdas
as espécies. Racine adora o seu rei. Chénier mal­
diz os tiranos. Hugo se exila. Comeille mendiga
com orgulho. Goethe prefere à desordem a injus­
tiça. A majestade deslumbra. A autoridade se
impõe. A liberdade embriaga. A anarquia faz
mêdo. O interêsse pessoal prevalece. A verdade
é que todo indivíduo que se distingue pelo talento
sente-se de uma aristocracia natural. Êste não se
pode confundir com a massa. Observa-se que a
O V u lcão e a F onte 189

democracia igualitária por essência não abre ex­


ceção para os poetas. Os poetas, apesar de todo o
nojo pela disputa partidária, terminam dominados
pela política e fazem fôrça para se intrometer na
direção dos negócios públicos. Há líricos que se
batem em praça pública; outros que morrem pela
pátria. É curioso que a mais pura das ocupações
entre os humanos, que é a de elevar os sêres pelo
canto, conduza aos desejos mais impuros. Orfeu
sopra a sua flauta mágica nos comícios.

Valéry compreende as quedas de Virgílio pelo


César amigo. O poeta não tolera a desordem e os
tributos do fisco. E desde que o doce lírico de
Mântua se sinta ameaçado, a proteção de Augusto
não lhe perturba a criação de seus poemas, à som­
bra dos álamos, no remanso da vivenda pacífica.
Orfeu quer um recanto para as delícias da vida.

“ O D E E Q U A T O R IA L ”

A o contrário do poeta Thiago de Mello, Lêdo


Ivo aparece, neste seu canto telúrico que chamou de
Ode Equatorial, como o mais carnal dos homens,
o homem ainda sujo do barro da criação, o homem
Adão, nos princípios do pecado, aquêle que desco­
briu na terra um ninho de serpentes de tentação. O
grande poeta nordestino chegou ao vale amazôni­
co e as águas rumorosas, o mar de água doce, com
tôdas as terras caídas e tôdas as selvas espêssas,
190 J o sé L in s do R êgo

assombraram o menino criado à beira da pacata


Manguaba, de Alagoas. A floresta absoluta, com
“ raízes enfiadas na areia com o cordas que amarram
terras de aluvião” , iria perturbar o lírico que se con­
duzia para a concisão do soneto elisabeteano. Lêdo
assombrou-se com o gigantismo de uma natureza de
pororocas, de águas que gemem como lontras, de
paisagens brutais, de um mundo de caudais, onde
nem o sol parece que é o rei dos astros, porque ali
o que é grande é grande sem metro, sem dimensões,
fora inteiramente das medidas reais.
Não há dúvida de que o poeta se assustou, como
já se assustara Raul Bopp. E se não viu a Cobra
Norato e o Bôto, com o o gaúcho, é porque na for­
mação do nordestino havia uma malícia maior. O
sangue nórdico de Bopp teria que se esquentar mais
que o do jovem Lêdo Ivo, um bocado com o aquêle
mestre Carlos que aprendeu sem se ensinar. E,
assim, mais do que o poema maravilhoso de Bopp,
a ode do poeta novo é um canto lírico, sem aquela
melopéia de narrativa homérica do descritivo da
Cobra Norato. A poesia de Lêdo Ivo nos comuni­
ca com a terra e não nos amedronta com os bichos
com metade de deuses. E chega, até, na intimi­
dade do mundo em que pisa, a perder o susto do pri­
meiro momento, e, com o autêntico seringueiro que
vai furar o bucho das árvores, atrás de leite, sente-
te dono da terra. O mêdo vira amor:

“Equador! Equador!
Vim perder-me em tuas somálias,
em tua carne que ainda não é noite fechada.”
O V ulcão b a F onte 191

E termina, chamando até de quintal profundo


a tôda aquela Hiléia.

“ IN V E N Ç Ã O D E O R F E U ”

Eis aí um homem que conheço há quase trinta


anos e que sempre é um homem novo e um homem
de espantosa fôrça, dotado de impulsos quase de
milagre para fazer tudo o que quer fazer e tudo o
que quer criar. Homem capaz de tôdas as liberda­
des, de todos os metros, de todos os exercícios, mas
em tudo o prodigioso poeta que é. Poeta em vá­
rios sentidos, em múltiplos caminhos, coração que
é do tamanho da inteligência que atravessa as pe­
dras, os granitos, os espaços, os limites. Quando
todo mundo dorme êle não dorme, ou, se dorme,
arranja sonhos que, no outro dia, põe no papel ou
passa para quadros ou grava em música. Êste ho­
mem que conheço, e mais conheço, admiro e quero,
é o mago Jorge de Lima, o quase hindu, o que ven­
ceu as precariedades da natureza e superou a preca­
riedade dos meios de produção. O tempo não exis­
te para êle. Êle pinta, compõe, escreve romances,
peças, ensaios e, mais do que tudo, êle faz poemas
com o se os seus dias fôssem enfestados, dias de 48
horas, horas de 120 minutos. É um milagre o que
êle consegue. Pela madrugada sai de casa para
os seus doentes e volta, à noite, para casa, e aí é que
as fôrças do mago recebem as visitações das suas
inspirações. Nascem os poemas em seu corpo
com o se fôssem uma floração submarina que bro­
tasse do fundo do mar e virasse um esplendor do
192 J o s é L i n s do R êgo

dia, do sol, da lua, das estrelas. À s vêzes chego a


imaginar que êste milagre esteja ligado a uma si­
mulação fabulosa, de peça infernal pregada a todos
nós. E que sua equipe de escravos trabalha acor­
rentada para Jorge de Lima, e que muitos Jorge de
Lima penam em masmorras como galés do verso,
das tintas, das palavras. Só um milagre é capaz de
explicar Jorge de Lima. Sei que, nos começos de
sua vida, nos princípios de sua função de clínico,
pelos sertões de Alagoas, os pobres corriam para
êle certos de que êle era capaz de curas atribuídas
a santos. Mandaram-lhe ex-votos, como se fôsse
um São Severino de Ramos. É que há, em Jorge de
Lima, alguma coisa que não é da medida comum.
É o seu espanto, é o seu genial poder de abarcar o
mundo com as pernas. A í está êste seu último li­
vro de poemas, uma obra que nos sugere não a ca­
pacidade de um homem, mas a fôrça de um gigan­
te, a magia de um mito. Chama-se Invenção de Or-
feu e é o canto de um homem visitado por um pro­
dígio. Imensa criação, uma máquina montada com
o sôpro dovgênio, onde os versos, os ritmos, as com­
posições, as palavras, a música entram numa figu­
ração nunca vista em nossa literatura. Nesse li­
vro há a mais lírica e a mais dramática história do
homem. A história do poeta que arranca sonori-
dades dos rochedos, que transforma rios, árvores,
montanhas e pântanos nas pedras de um jôgo que
é a própria vida transfigurada. Eu não quero ana­
lisar êste livro maravilhoso. Eu não me meto a
analisar as grandezas da Natureza, as ondas do mar
0 V u lcão e a F onte 193

e o resplendor das estrelas. Eu quero apenas di­


zer: amigos, é preciso parar e ter a coragem de con­
fessar alto: êste livro é maior do que todos nós.

U M B R A S IL E IR O EM PARIS

A experiência européia deu maior consistên­


cia à poesia de Lêdo Ivo. Deu-lhe o conhecimen­
to do mundo de suas visões, dos seus sonhos de ra­
paz. Daí uma certa redução na sua forma de ex-
primir-se. A fôrça equatorial conheceu os limites
do ritmo mediterrâneo. Os rios da medida huma­
na, o Sena, o Arno, o Loire, deram-lhe um poder
maior. O poeta perdeu as suas exuberâncias vege­
tais para se refugiar no mundo interior e cristali­
zar-se em realizações de homem feito. A poesia
já não lhe seria um arrebatamento, mas condição
de vida. E dela não mais poderia prescindir, como
de qualquer excrescência. A poesia teria que ser
a sua verdadeira vida. E é assim que chegou a uma
obra-prima, que é o seu poema “O Rei da Europa”,
uma superação de tudo o que já compusera. Não
só pela riqueza rítmica, como pelo conteúdo satíri­
co. O luminoso ao lado do cortante. O cristal de
ponta afiada como lâmina de Toledo. Nesta obra
conseguiu Lêdo Ivo concentrar todos os movimen­
tos na expressão lírica. O poeta canta e analisa.
É lírico e causticante. O que parece uma aliança
de contrários, mas que é da melhor tradição popu­
lar. Chama o poeta a sua obra de fábula. E fá­
bula que muito se assemelha a um cenário de “bal­
let”. Há mesmo nos versos que fingem alegria a
194 J o s é L in s do R êgo

maior tristeza do homem. “ O anel que tu lhe des­


tes, de brilhante, não quebrou, mas o amor que tu
lhe tinhas era pouco e acabou.” Tôda esta espé­
cie trágica de pantomima, como a dos gregos, refle­
te o estado de alma de quem sabe que o abismo não
é somente uma conversa. Mas antes que venha
a morte o rei se diverte. Espera-o o outro lado, a
outra margem do rio que caminha para o desenga­
no. “ Compacta, cais sôbre o mundo. No Céu, es­
curo se talha. Na Terra, todos costuram a sua pró­
pria mortalha.”

O P O E T A CA SSIAN O R ICAR DO

A história poética de Cassiano Ricardo é das


mais acidentadas do Brasil. O poeta paulista não
navegou sempre em mar de rosas para atingir aos
portos de suas criações. O seu barco andou sa­
cudido pelos ventos, agitado pelas ondas, sitiado
pelos furacões, tentado pelas sereias. A fôrça do
poeta está na firmeza das mãos no manejo do leme,
na argúcia a espreitar as estrelas, na coragem de
desafiar os monstros marinhos. Agora aparece o
mestre Cassiano com as suas poesias completas, es­
pécie de soma de sua sabedoria órfica. Desde os
começos do modernismo, embora ligado aos par­
nasianos, aliou-se o nosso poeta aos rebeldes. A
poesia não seria uma trégua nas lutas do homem
com o desconhecido. A estética parnasiana se re­
duzia ao gesto de assistir às coisas de camarote.
Ora, poesia é a maior luta do homem com a sua
consciência. Deixou Cassiano Ricardo a atitude
O V u lcã o e a F onte 195

de espectador para ser combatente. É o que nos


recordam os seus poemas que vêm do modernismo.
A princípio, o pitoresco entrou na sua concepção
com o tumulto de côres e de batucadas. Mas aí es­
tava o homem que queria mostrar que vivia. V i­
ver, eis aí a condição patética da arte. Desde que
há vida a poesia passa a ser um estado de vigilân­
cia contra a morte. Para Cassiano Ricardo o mun­
do interior começou a estremecer. O poeta não é
o que caça papagaios, mas o que se caça, aquêle que
tem garra para castigar a sua própria carne. Foi
nessa aventura que se fixou a fôrça de Cassiano Ri­
cardo. A luta contra o fácil, contra o efêmero é
a sua história. Assim fêz Rainer Maria Rilke que
arrancou de sua experiência o sangue da sua poe­
sia. Cassiano Ricardo tomou o exemplo do poeta
mártir contra a exuberância do poeta feliz. O poe­
ta que se amargura é o que sabe que o mundo é a
beleza que êle não pode atingir porque lhe falta a
alegria dos eufóricos. Se fôsse êle um príncipe dos
festivos não seria o rei da vida. Para atingir a su­
prema grandeza terá que se concentrar no secreto
das coisas. E é assim a poesia de Cassiano Ricar­
do : o secreto das coisas, um mistério que não se de­
cifra pelos sentidos de todos os homens, mas pelo
sentido das sublimes intuições. Poeta difícil mas
revelador do lado divino da criatura. Quando um
artista se aproxima, por essa forma, de Deus êle
supera-se pela integração num complexo que abar­
ca os sêres e as coisas. É o que se verifica na sua
ascensão poética. Os seus sentidos se afinam tan­
196 J o s é L i n s do R ê g o

to que quase se volatilizam. E penetram como luz


mágica através das paredes mais espessas. A poe­
sia se faz de um imponderável que se confunde com
o ar que respiramos. Chegamos, assim, a tomar o
poeta como uma criatura à parte, uma emanação de
um sobrenatural que se compõe de sonhos e dese­
jos impossíveis. O grande poeta Cassiano Ricar­
do aparece, nessa edição completa de sua obra,
como nau que aportasse a porto de salvamento.

AS P O E SIA S C O M P LE TA S

Os poetas modernos do Brasil estão em perío­


do de obras completas. Tivemos as do patriarca
Manuel Bandeira, do estranho Carlos Drummond
de Andrade, do numeroso Augusto Frederico Sch-
midt e, agora, do mestre Cassiano Ricardo. Anun­
cia-se também os poemas de Olegário Mariano. V i­
vemos, assim, um período de colheita, após as lon­
gas semeaduras. Para muitos, chegaram êsses
poetas ao fim da carreira e se puseram em estado de
recolhimento de todos os seus esforços. Acredito
que apenas se fixaram na vida, uma parada para
medir os acontecimentos. Todos ainda terão que
dar muita coisa. Bem vivos estão todos êles. A
erosão do tempo não atingiu o cerne de madeiras de
lei. Muito esperamos das viagens aos reinos de
Bandeira. Drummond tem, em tensão, as suas
energias criadoras, conserva, na sensibilidade, os
cantos alucinados do galo branco. Cassiano possui
o mesmo entusiasmo dos seus encontros passionais
com o mistério. Olegário Mariano não conseguiu
O V u lc ã o e a F onte 197

impor silêncio às cigarras de sua freguesia. A poe­


sia permanece atuante nos maduros escravos das
musas. E podemos tê-los, na estante, estuantes de
seiva, floridos de coração, em êxtases, como nos co-
meços dos seus amôres de rapaz. O editor José
Olympio procurou os poetas para sobreviver com
êles. Só a poesia dá eternidade às coisas simples.
Às vêzes, uma pedra no caminho encerra muito
mais coisa que o anedótico da frase. A sugestão
poética arranca das palavras o que não se toca mas
o que se esconde nas sombras. Quer o editor que
a sua casa seja uma tenda onde se tempera os me­
tais que não se fatigam, os metais que resistem ao
tempo, como se fôssem peças da manufatura de
Deus. Essas poesias completas nos dão a oportu­
nidade de verificar o que não se mareja em contato
com o cotidiano. A í estão o Bandeira das cinzas,
o Drummond das rosas de fogo, o Schmidt das an­
gústias, o Cassiano das aventuras de bandeirante,
o Olegário das saudades do Poço da Panela. E po­
demos ligá-los aos dias de hoje sem constrangê-los.
A s falsificações, os gestos simulados, as mentiras
da alma não os rebaixam à categoria de sêres infe­
riores. A oportunidade que nos oferece o editor é
a melhor possível. Podemos fazer uma avaliação
do que foi trabalhado e sentido por êsses poetas. O
que foi somente de palha se encontra com o que é
realmente grande. A poesia perturbada pelas cir­
cunstâncias resiste a essas miudezas e pode nos
oferecer um quadro representativo de naturezas pri­
vilegiadas. Chegaram os nossos poetas modernis­
198 J o s é L in s do R êgo

tas a um período de amadurecimento. Podemos lê-


los e relê-los para a conclusão definitiva. O editor
que os procurou para codificá-los em suas obras
presta, assim, um serviço aos críticos que se debru­
çarão sôbre os autores, encontrando-os de corpo in­
teiro, em edições magníficas.

SÔBRE P O E SIA

Otávio Paz estuda a linguagem e o poeta em


termos de um debate sôbre a criação. É êle que
nos diz que as legendas e os poemas épicos contri­
buíram com a sua oralidade para criar as nações da
Europa. Foram os poetas que deram consciência e
sentido profundo às nações. Pela poesia a lingua­
gem comum se transformou em imagens míticas
dotadas de valor real. Rolando, o Cid, Parsifal são
heróis modelos. O mesmo se pode dizer das cria­
ções épicas que coincidem com o nascimento da so­
ciedade burguesa: os romances. O que distingue
melhor a poesia moderna, em relação à posição so­
cial do poeta, é sua situação marginal. A poesia
é alimentovque a burguesia, como classe, tem sido
incapaz de digerir. Às vêzes tem a burguesia pro­
curado domesticar a criação poética. Porém, ape­
nas um poeta, ou um movimento, cede e aceita re­
gressar à ordem social, surge uma nova criação que
se constitui em crítica e escândalo. A poesia mo­
derna se fêz de alimento dos desterrados e dissi­
dentes do mundo burguês. A uma sociedade cin­
dida corresponde sempre uma poesia em rebelião.
Mas, mesmo nesse extremo, não se rompem as re­
O V ulcão e a F onte 199

lações que unem a linguagem social ao poema. A


linguagem do poeta é a da sua comunicação com o
mundo. Entre o poeta e a linguagem se estabelece
um jôgo recíproco de influências, um sistema de
vasos comunicantes. A linguagem de Mallarmé é
o idioma de iniciados. Os seus leitores se unem
pela cumplicidade e formam uma sociedade secre­
ta. A característica de nossos dias está na ruptu­
ra do equilíbrio precàriamente mantido no século
X I X entre os poetas e as classes dominantes. Essa
tensão tornou-se insuportável: a linguagem social
cada dia mais fica desagradável, degradando-se em
fórmulas sêcas de técnicos e jornalistas. E o poe­
ma se converte em suicídio da poesia. Muitos poe­
tas contemporâneos, para salvar a criação, procura­
ram o auditório perdido: o povo. Acontece que não
há mais povo, mas massa organizada. E assim ir
ao povo significa ocupar um lugar entre os organi­
zadores das massas. O poeta se converte em fun­
cionário e a poesia numa burocracia. Os poetas do
passado foram sacerdotes, rebeldes, profetas e bu-
fões. Agora o Estado dá ao poeta um lugar na so­
ciedade. E a poesia, para onde irá?

OS CO N C R E TO S

Os rapazes de 1956 chegaram ao plano da lite­


ratura para repétir, no Rio de Janeiro, o que já está
feito, há anos, em Paris. Mas chegamos munidos
de máquinas para destruir as imagens que as pala­
vras haviam elaborado com os seus ajustamentos
naturais. Os rapazes querem pegar as palavras e
200 J o sé L in s d o R ê g o

reduzi-las a pó. Pode ser que, desde já, possa


sair, como das pedras trituradas, um cimento ca­
paz de concretos perduráveis. O furor não é con­
tra o acadêmico e a sua facilidade retórica; o furor
é contra o que foi feito pela imaginação, o que foi
estabelecido pela necessidade da vida, o que existe
como realidade humana. A palavra que Deus en­
tregou ao homem como a sua maior dádiva, o ver­
bo que se transmitiu do Criador à criatura, seria ar­
rastado, como foi, ao matadouro. O essencial não
é o ritmo; o essencial é a dissolução dos valores, até
agora considerados como tal. O que fizeram com
o átomo querem fazer com o verbo. Os reatores se
preparam para a conquista de energia capaz de mo­
ver o mundo. E de posse dos poderes qUe Deus
nos oferecera para as necessidades vitais, os poetas
concretos vão abalar a escala das noções. O ho­
mem vai começar a urrar como nas cavernas. O có­
digo dos poetas volta aos gemidos antediluvianos.
O homem sente-se com fôrça para mudar o Gênesis,
e, possuído de fúria herética, não hesita em negar
as próprias origens. Agora é o momento da “re-
vanche” de Prometeu. Tudo isto me chega à cabe­
ça com a leitura dos programas concretos. Poesia
em pânico chamou o poeta às suas experiências sur­
realistas. No momento só existe mesmo o pânico,
a rebelião maior do que a de Lúcifer. O que que­
rem os concretos? Só querem o domínio absolu­
to sôbre a palavra. O que para mim parece a maior
tirania de todos os tempos. A criatura voltada
contra o Criador, com mais violência do que se re­
0 V u lc ã o e a F onte 201

vestiu o punhal de Brutus. A palavra não será ani­


quilada como César. Será reduzida a jôgo em
mãos de aprendizes de feiticeiros. Será uma pri­
sioneira usada e abusada como se estivesse num lu-
panar. Os poetas concretos planejam coisas mais
terríveis do que a bomba atômica. Felizmente que
essas experiências não passam de tentativas bem
iguais aos engendradores do moto-contínuo ou da
quadratura do círculo. Apenas teremos mais uma
aventura da mocidade. O que nos mostra, com
satisfação, que as nossas gerações estão bem mais
vivas do que supúnhamos.
VARIEDADES
O SUBÔRNO DA INTELIGÊNCIA

Mecenas Dourado, humanista de primeira or­


dem, tomou a história romana para o tema de um
magnífico ensaio sôbre a vida e a literatura. So­
bre o escritor e o seu destino. Sôbre a composi­
ção e a liberdade. Sôbre a independência e o su­
borno.
E é assim o seu magnífico livro um quadro pal­
pitante de uma época de decomposição da vida pú­
blica, da queda do homem na opressão tirânica, da
morte da República, o govêrno do povo.
A figura de Otávio, o diabólico corrutor de ho­
mens e regimes, aparece nas páginas de Mecenas
Dourado, como o pivô de tôda a história da degra­
dação romana.
O filho de César chegava ao poder de Augus­
to, de Imperador, sem os golpes de gênio ou a bra­
vura do pai adotivo. Nêle nada havia do César, a
não ser a ambição criminosa de ser o único homem
a mandar sôbre os homens. Mas o que em César
era o fulgor da paixão, a fôrça de um líder que car­
regava na alma lampejos do Olimpo, no outro, o
que havia de dominante era o rolar visguento da
serpente que podia vencer o mais bravo dos leões.
Mecenas Dourado tomou de Otávio o seu inte­
rêsse pela literatura, como meio de atingir à Eter-
206 J osé L in s do R êgo

nidade. E assim escolheu o secretário-geral do


Imperador para fixar os processos de corrução da
inteligência de um tempo de crimes. E chamou
de Mecenas ou o suborno da inteligência o siste­
ma de propaganda que o Império adotara para ven­
cer e perturbar os contemporâneos.
A influência que Mecenas, homem de letras,
de negócios, de mesa larga, de camas macias, exer­
cera sôbre os grandes espíritos do período em que
vivera fora tremenda. Horácio e Virgílio, os maio­
res poetas da latinidade clássica, não foram outra
coisa que agentes de publicidade, pagos a pêso de
ouro.
E é Mecenas Dourado que nos conta que Virgí­
lio, o doce cisne de Mântua, o lírico mais terno, o
mais angélico dos poetas, recebera do Estado para
mais de dois mil contos de réis. E que, por dois
versos apenas, Otávio lhe deu cinco contos. Ho­
rácio ganhou de Mecenas, isto é, do diretor do DIP,
do Império, a bela propriedade rural na Sabina, e
tudo o mais que desejou ganhar.
Ora, um Mecenas que conseguira comprar um
Virgílio, poeta que Paul Claudel aproxima dos san­
tos, pelo canto angélico, pela pureza da alma, só
poderia ser mesmo uma criatura de mágico poder
de sedução. E é dêle que fala, com os detalhes de
boa biografia, o humanista Mecenas Dourado.
Quem quiser conhecer as misérias da antigui­
dade clássica e os pontos contaminados dos cha­
mados Estados fortes, que leia o livro a que me
refiro.
O V ulcão e a F onte 207

Ali encontrará episódios e fatos que parecem


de nossos dias.

“ B A B B IT T ”

Sinclair Lewis morreu, relativamente maduro,


e já era como se fôsse um velho da literatura ame­
ricana. Como Dreiser, êle quis fazer uma obra
de crítica à vida do seu povo. Dreiser, pelo des­
critivo cruel do seu tempo, um levantamento de
fatos que só fôra possível em Balzac, e Sinclair
Lewis pela sátira, pela reprodução da vida em têr-
mos de irreverência próxima da deformação, che­
gando, por vêzes, à caricatura.
Mas será, por acaso, Babbitt, o tipo comum da
América, uma caricatura ou uma realíssima foto­
grafia?
A princípio os americanos acharam graça no
herói sem grandeza, espécie de produto em série de
uma civilização mecânica, da estagnação espiritual
de um povo, que, apesar de tôdas as velocidades, de
todos os movimentos, sofria de preguiça interior,
com mêdo de sair do que lhe parecia o normal.
Babbitt fez rir, para logo depois doer nos originais
que inspiraram o artista. É que Sinclair Lewis não
universalizou o seu tipo. Como Portinari, que só
é possível em Tarrascon, no sol da Provença, Bab­
bitt só é possível na América. É um padrão ame­
ricano, uma alma americana, a mediocridade ame­
ricana. E por não ser sua sátira uma alegoria,
mas um perfeito retrato do homem derrotado pelas
próprias vitórias, Babbitt não é um Homais, um
208 J o sé L in s d o R ê g o

Tartuffo, um Micawber, tipos que universalizaram


o particular. Babbitt continuou sempre o parti­
cular, a concentração de ridículo, de boa-fé, de
convencionalismo, de criaturas que só existiam
num canto da Terra. Mas a realidade de Babbitt
começou a superar a sátira quando passou a desa­
gradar os americanos. A í Sinclair Lewis passou a
ser o criador de um tipo. A sua literatura não terá
a grandeza de um Dreiser, mas não será a desprezí­
vel obra que a crítica contemporânea procurou re­
duzir a nada. Deram-lhe o Prêmio Nobel quando
já não valia muito para os seus compatriotas. Va­
lia, no entanto, para a Europa, que leu os seus li­
vros sem raiva, descobrindo em Arrowsmith, em
San Dodsworth, as qualidades fundamentais do ro­
mancista: o ritmo da vida. Poderão dizer que êle
não se renovou, que foi o mineiro de um único veio
aurífero. A s suas figuras conduziram sempre as
taras de Babbitt, aquela mediocridade de viver. Um
viver sem os estremecimentos da alma. Babbitt
seria assim mais vegetativo do que animal.
Sinclair Lewis fêz da sátira de Babbitt a tre­
menda crítica que arrasou com um sistema de vida.

O C A R Á T E R DO B R A SIL E IR O

A Copa do Mundo, que se acabou tão melancò-


licamente, deu-me uma experiência amarga, capaz
de completar as minhas observações sôbre o cará­
ter do nosso povo.
Vimos, no Estádio do Maracanã, uma multi­
dão como raramente se tem aglomerado, em mani-
O V ulcão e a F onte 209

festações coletivas, no Brasil. Vimos duzentas


mil pessoas comprimidas numa praça de esportes,
nas reações mais diversas, ora na gritaria das ova­
ções, no barulho das vaias ou no angustioso silên­
cio da expectativa de um fracasso.
Ali estava todo o povo brasileiro, uma média
de homens e mulheres de tôdas as classes sociais.
Não era o Brasil de um grupo, de uma região, de
uma classe. Não. Era o Brasil em corpo inteiro.
Para o observador social, para os que têm o po­
der de revelar o que há de particular nos povos, o
campo era o mais propício. Mas para mim as ob­
servações começaram antes dos jogos sensacionais.
Tive a oportunidade, como dirigente, de travar co­
nhecimento, mais íntimo, com os que procuravam
acomodações, com os que tinham parcela de man­
do, com os que se sentiam com o direito de crítica,-
e mais ainda, com a lama das sarjetas, que queria
passar pela água mais lustrai dêste mundo.
E me perguntará o leitor: Que impressão lhe
deixou o brasileiro? Boa ou má?
Eu diria, sem mêdo de cair no exagero: uma
boa impressão. Senti que havia povo na Nação —
nova gente com capacidade de se congregar para
uma causa, para uma obra, para os sofrimentos de
um fracasso. Fizemos um estádio ciclópico, em
menos de dois anos; organizamos um campeonato
mundial, o de mais ordem até hoje realizado; for­
mamos uma equipe quase perfeita de futebol. E,
quando o título nos fugiu das mãos, soubemos per-
210 J o sé L in s d o R êg o

der, dando aos turbulentos sul-americanos uma li­


ção de ética esportiva.
A í está o lado positivo e bom do caráter brasi­
leiro. Mas há os outros lados. Há os nossos de­
feitos, as nossas fraquezas, as nossas deficiências.
Sim, há o brasileiro que é um adorador da vi­
tória, o homem que não admite o fracasso. Ven­
cesse magnificamente a nossa equipe, e tudo esta­
ria no ápice. Subia-se a montanha de um fôlego
só. Nada havia melhor do que o Brasil. Seria­
mos, no mínimo, os maiores do mundo. Mas se,
numa luta de igual para igual, perdeu-se a batalha,
como aconteceu na última partida, então não sere­
mos mais os maiores do mundo, passaremos a ser
os piores. Cospe-se na cara dos heróis que, três
dias antes, tinha-se carregado aos ombros.
Em todo caso, passado êste insulto de abissi-
nismo, voltamos ao espírito de justiça e chegamos
a reconhecer a fraqueza que cometemos. Não per­
siste o brasileiro no êrro e fica à espera de outra
vitória para adorar.

"N . R. F.”

Os jornais noticiam a presença, no Rio, de


uma missão artística francesa. E , por acaso, vejo
agora mesmo, em cima da minha mesa de trabalho,
um número velho da “N . R. F.”, de 2 de novembro
de 1935. E a notícia e a revista me dão uma enor­
me saudade dos grandes dias de meus entusiasmos
literários. Para nós as novidades da França tra­
ziam uma extraordinária satisfação. Os prêmios
O V u lcão e a F onte 211

Goncourt marcavam épocas. E nada como a “N.


R. F .” para nos ligar com os mestres de nossas ten­
dências. Lá estavam Gide, Alain, Thibaudet, Ri-
vière, os homens que agiam com a maior liberdade
de pensar, embora estivessem em pontos opostos
de crença ou idéias.
Ali estava o número 266, do ano 24, da revista
ligada a Gallimard. E para matar saudades fui
folheando as suas páginas amareladas. Tinham 10
anos e me pareciam de outro tempo, de época re­
mota como de outro século. Vinha na primeira
página um capítulo do Le Livre d’Esther, de Clau-
del, naquela forma espasmódica do poeta tocar nos
mistérios da vida. E logo depois Paul Valéry,
numa dissecação sôbre a noção geral da arte. É
o Valéry, ao contrário de Claudel, obscuro na clari­
dade, enquanto que o outro nos parece de clarida­
de de raio na escuridão. Jules Romains fala do
universo de Edmond Maillecottin, capítulo de um
daqueles romances de idéias e tédio do autor de
Les Hommes de Bonne Volonté. Mas a melhor
coisa da revista vem de Gide, de um trecho de seu
jornal, onde êle fala das influências dos grandes ho­
mens. Diz-nos Gide que, geralmente, tomamos
dos mestres o que êles têm de menos durável. Na
Natureza, nos afirma Gide, a proliferação parasitá­
ria se desenvolve mais do lado da sombra do que do
sol.
Vêm depois Alain com as suas soluções críti­
cas, mistura de Pascal e Rousseau, e o grande Thi­
baudet, com agudas reflexões sôbre a literatura.
212 J o s é L in s d o R ê g o

As saudades a que me levaram estas lembran­


ças de tempos que são como mortos me animaram
a mexer em cinzas.
Por que quem saberá que não existirão brasas
de angico ali por debaixo do borralho?

M Ú SICA CAR IO C A

Escuto na bôca da noite quente, como forna­


lha, o gemer espichado de um bolero traduzido em
palavras de amor destroçado. O pobre queria ser
um vagabundo para rimar com mundo. Mas o
canto triste foi o bastante para me dar a impressão
de uma falência melancólica. A música de rua, a
picante e melodiosa música dos sambas, se degra­
dava na pífia imitação de vulgaridades sul-america­
nas. Passei, então, a me lembrar dos gênios mor­
tos, dos tangos de Nazareth, do nosso “ Sinhô”, da
triste música que brotava do coração brasileiro, dos
sambas que se geraram, das modinhas e dos maxi­
xes sacudidos. “ Sinhô” fecundara-se, sem saber,
de germes do passado e chegara a cantar de cora­
ção ferido, mas de espírito sadio. A música dos
mortos cariocas tinha a originalidade de um depoi­
mento pungente. Claudionor descia da favela para
carregar sacos de café no Cais do Pôrto. O amor
dava-lhe fôrça para muito mais. Mas amor não
era só a coragem de Claudionor. E, depois, a mú­
sica não ficava à espera das ordens das massas
para servi-las como criada. Era a música que fazia
a festa. O povo procurava os sambas e as marchas
para encher a alma e animar o corpo. A grandeza
0 V u lcão e a F onte 213

dionisíaca do Carnaval dirigia-se pelos ranchos,


pelos tamborins, pelos violões enlouquecidos. Ha­
via música carioca com o seu pegadio voluptuoso.
Agora a indústria do disco e as facilidades do rádio
liquidaram a mágica espontaneidade dos criadores.
Há uma verdadeira bôlsa de melodias e letras que
chegou à última degradação mercantil. E como a
criação artística não é um comércio de portas aber­
tas, o que vai aparecendo se abastarda nas imita­
ções confrangedoras. Os tais boleros, mistura de
melodia mexicana e italiana, abafaram a verdadeira
música dos morros. Muito se fala de Mangueira,
de barracos, de estrelas atravessando os telhados
de zinco. Tudo dos dentes para fora. O que exis­
te mesmo é a macaqueação dos boleros de “boites”,
é a monotonia de histórias de amor infeliz, tôda a
armação para iludir e esconder os furtos ostensivos.
A música de um Ary Barroso, de um Caymmi, de
um Noel Rosa, de um “ Sinhô”, de um Nazareth
não pode se confundir com êstes plágios que se
agarram aos microfones e nos martirizam os ou­
vidos.

U M A H IS T Ó R IA D E M A C A C O

O macaco e o papagaio serão os bichos mais


falados de nossa fauna. O macaco, pela sua argú­
cia, pelas suas artimanhas, pelo seu sistema de vida,
conquistaria fama de sabido. Sempre há um ma­
caco esperto para zombar da brabeza e violência de
uma onça.
214 J o sê L in s d o R ê g o

Eu mesmo, num conto para meninos, tive que


recorrer ao nosso folclore para transformar um ma­
caco em autêntico Orfeu, mágico a encantar pela
música as forças da Natureza.
Agora, porém, não se trata de macacos de his­
tória e de contos, mas de autênticos macacos da flo­
resta amazônica.
Conta o americano Neville B. Craig, no seu li­
vro sôbre a expedição de engenheiros à construção
da estrada de ferro Madeira-Mamoré, o seguinte
episódio que parece um lance de narrativa de ca­
çador de imaginação.
Falava Craig das castanhas-do-pará que a ex­
pedição faminta encontrara no meio da mata
virgem:
“Encontram-se as castanhas em árvores altas,
uma dúzia ou mais delas encerradas dentro de uma
casca do tamanho de um côco. Os macacos apre­
ciam muito as castanhas, mas, na impossibilidade
de partir a casca que as envolve, lançam mão de
um inteligente estratagema. Vários macacos ati­
ram ao chão os frutos que desejam partir e se es­
condem no topo das árvores até que os porcos do
mato surjam e rebentem a casca externa; então,
num abrir e fechar de olhos, os macacos atiram-se
sôbre êles, apanham tôdas as castanhas e retornam
aos seus esconderijos até que os queixadas reini­
ciem o trabalho”.
Como história de macaco é de primeira ordem.
Craig anotou uma manobra de mestre dos malan­
dros da mata.
0 V u lcão e a F onte 215

É verdade que a intervenção do porco do mato,


em história de macaco, não fôra anotada pelo nos­
so grande Sylvio Romero. A grande vítima dos
símios era sempre a onça, espécie de ditador da flo­
resta, a fôrça estúpida dominada por instintos san­
guinários.
O americano viu, no entanto, queixadas, em
serviço de copa, a descascar castanhas para maca­
cos trepados em árvores como senhores de engenho
em casas-grandes, com escravos no eito.

O PRÓDIGO

É um vira-lata sem coroa, modesto mas bom,


sem um ato sequer de agressão. Nunca mordeu
a ninguém. Apenas de muito latir aos estranhos,
embora logo depois chegue às boas. Não é arro­
gante, não faz barulho com o que não vê. Apenas
se irrita com os gatos que aparecem e com os ratos
que ousam botar a cabeça de fora. Bom amigo que
me agrada sem interêsse, amigo de todos da casa,
ligado, há mais de dez anos, a tôdas as nossas ale­
grias. Filho dêste pedaço de terra da Gávea, nun­
ca teve desgosto profundo. E morreu-lhe a mãe
e chorou. Em mãos da minha filha Cristina cres­
ceu pisando aquela beleza que se desfigurou com
o tempo. Em mãos de minha neta Cláudia seria
um brinquedo de carne e osso. Muita gente temia
aqueles seus uivos. Mas eram tristezas de solidão.
Quando se sentia só com a cozinha sem ninguém,
chorava como menino sem mãe. Bastava ouvir
uma voz da casa e passavam seus lamentos. Que­
216 J o s é L in s d o R ê g o

ria somente saber que havia gente na casa. En­


tão distraía-se para um canto e esperava a volta
dos conhecidos. É um intrometido, incapaz dos
silêncios compridos. Vi-o sempre bom, nunca ar­
riou-se com as donas de cachorros de coleira e prê­
mios. Várias vêzes nos abandonou. Eram suas
fugas de rapaz, as aventuras perigosas em terra de
automóveis que nem respeitam os humanos. Te­
mia pela sua vida e certa vez, após duas noites de
correrias, apareceu-me ferido, quase morto!
Pagara caro pelo gôsto de andar pelos lugares
ínvios atrás de amores duvidosos. Apareceu-me,
como pródigo, todo sujo de lama das sarjetas, de
olhos mortiços de febre, de pernas trôpegas. Re-
vi-o com a alegria de quem recuperava o amigo jul­
gado perdido. Pobre amigo que realiza, na carne
ardente, os marcos dos que não conheciam as suas
bondades. Aos poucos voltou ao que era. Seria
o mesmo que recebia a minha neta Cláudia como se
ela fôsse uma princesa da Inglaterra, todo efusivo
a saltar de alegria indomável. Desgraçadamente
se foi outra vez. Já não é um menino para êstes
folguedos de boêmio. Já não saberá correr com a
sua antiga agilidade. Os anos pesam em suas cos­
tas frágeis. Há três dias que não dá sinal de vida.
Deixo escancarado o portão, tenho os ouvidos aten­
tos a todos os latidos de cachorro. E não encon­
tro o seu latir que, há dez anos, me é uma espécie
de voz amiga. Pobre amigo, aonde te achas perdi­
do por êste mundo que não respeita nada?
O V u lcão e a F onte 217

És um vira-lata sem coroa, mas nós aqui no


General Garzon, 10, te amamos de verdade. Pron­
tos estamos para te perdoar tudo. Se voltares será
para nós uma festa geral. Porque não é preciso a
coroa e a raça apurada para tocares os nossos cora­
ções. Apenas queremos que venhas para o teu
lugar!
Será que nos darás essa imensa alegria?

B A L Z A C E O D IN H E IR O

Para Raymond Mortimer, Balzac foi como a


Monarquia de julho, o homem de um só apetite: o
apetite pelo dinheiro. O dinheiro era para êle o
símbolo do sucesso, a “peau de changrin” que tra­
zia o poder, o prestígio, o luxo e o amor. Não
amar o dinheiro, para Balzac, era o mesmo que não
amar a vida. E, por isto, êle sempre subestimou
tudo que não fôsse a capacidade para ganhar di­
nheiro. A preguiça de um Oblomof não seria pos­
sível num seu romance. Quase todos os seus per­
sonagens só são verdadeiramente agitados quando
procuram ganhar alguma coisa. Na sua própria
vida privada, Balzac vê tudo através de lentes de
aumento. Êle romantiza as duquesas, as cortesãs,
os artistas e os assassinos, os jornalistas, os notá-
rios, os médicos, os curas, os magistrados. Mas no
seu Les Paysans tôda a gente do campo não passa
de monstros, capazes de ensinar duplicidade a Ma-
quiavel, a ambição a Napoleão.
Balzac nunca teve ternura para ver a criança,
em todos os seus livros, como mais tarde faria Di-
218 J osé L in s d o R ê g o

ckens. Para êle o homem era sempre um adulto,


corpo e alma atacados pela ambição de vencer, de
qualquer maneira. É que ninguém foi menos poe­
ta do que êle. Grande como um monolito, mas
sêco como a pedra.

R E N O V A Ç Ã O E T E O R IA

Muito se fala de renovação da arte, mas em


têrmos de erudição, de sabedoria acumulada nos
livros. Para se falar de poesia concreta usam-se
dados e argumentos que se firmam em páginas de
tratados, em laboriosos estudos de gabinete. A
arte, ou a poesia, se apresenta em técnica e dedu­
ções teóricas. Um poeta concreto é mais um sá­
bio do que um artista. O que parece um jôgo não
é outra coisa que lucubração séria sôbre o destino
do verbo. São assim homens mais críticos do que
empíricos. A criação se alimenta da ciência da
linguagem a tal ponto em que o falar se transforma
em pesquisa constante. O poeta não come e não
bebe mas. se analisa com a penetração da sonda de
prospecção. Ora, chega-se, assim, a um estado de
indormida preocupação em sêco. O homem passa
à categoria de instrumento antinatural possuído de
fúria suicida. A s dores de Prometeu se poluem em
vício nefando. Tudo isto me faz voltar aos mes­
tres do pensamento, como Unamuno, que tomaram
êsses problemas de renovação como um movimento
natural do artista em relação à criação. Dizia o
mestre que muito acreditava na eficácia do bárba­
O V u lcão e a F onte 219

ro, isto é, na fôrça que cai em ambiente que lhe é


estranho. Renova uma ciência ou uma arte o que
nos chega de outra arte ou ciência. Lembrava
Unamuno a opinião de Tucídides que dizia que
para triunfar no teatro, para conseguir alguma coi­
sa de verdadeiramente dramático, a condição es­
sencial era se portar como um bárbaro, violentar a
tradição do ofício mesquinho. O bom pregador,
afirmava Unamuno, será aquêle que nunca ouviu
um sermão e ignore tôdas as recomendações dos
tratados de retórica. Assim como os homens mais
educados que Unamuno diz ter conhecido foram os
pastores de ovelha, cuja votiva delicadeza de espí­
rito não estava anotada nas regras do protocolo.
Enquanto os supostos civilizados aprendem a dis­
tinguir entre você e Vossa Excelência, aprendem a
ser grosseiros através do que se chama ironia de
boas maneiras.
Queria Dom Miguel de Unamuno colocar a
questão do velho e do novo em equação verdadei­
ra. A arte não pode ser produto de tratado ou de
compêndio. A arte não é uma fabricação de espe­
cialistas, mas uma paixão. Por isto Unamuno fala
do bárbaro como condição de vida. A barbaria
para o espanhol de gênio não é outra coisa que o
surto emocional que arrasta o artista à obra que é
a sua descoberta. Os concretos são por demais
sabidos para renovar. Uma teoria de arte não pas­
sa de teoria.
220 J o sé L in s d o R ê g o

T IC IA N O A 38 À SO M B R A

Ponho-me na pele de um viajante estrangeiro,


à cata de material para um livro de impressões, e
chego ali, no antigo Hospício, todo em rosa, com
os seus “flamboyants” se esvaindo em sangue nas
suas flores abertas. Chego e descubro um extra­
ordinário movimento de carros, de mulheres de
grandes chapéus, de homens vestidos em trajos de
cerimônia. Na porta da casa, uma tropa de solda­
dos em uniforme de grande gala. Soldados dos
fins do século X V II, todos admiravelmente vesti­
dos, de armas em punho. O calor abrasador me
obriga a procurar a sombra de uma árvore genero­
sa. Observo o movimento. Há toque de cornetas
e o barulho de armas em continência. Chega o
Chefe de Estado, em carro de luxo. O calor deve
fazer correr suor, em bica, nos rapazes esbeltos que
carregam indumentárias de tanto capricho. E,
pela janela do edifício, de linhas sóbrias, vejo se­
nhores e senhoras em conversa. E, como sentisse
curiosidade pelo espetáculo bonito, quis uma infor­
mação. E ' com êste intuito me dirigi para um se­
nhor magro e de muita idade, homem, porém, bas­
tante elegante, atrás de palavras esclarecedoras.
(Soube depois que aquêle cavalheiro tão requinta­
do era um grande da terra, sendo o donatário do
Livro do Mérito, instituição que consagrava os
maiores do país.) E o homem gentil me disse:
“Meu amigo, nós estamos aqui para festejar uma
tela de Ticiano” .
O V u lcão e a F onte 221

Parei sem compreender e, convidado pelo ho­


mem gentil, subi a escadaria de pedra. De fato, lá
em cima comprimia-se o grande mundo do país
para uma festa magnífica a uma tela de um pintor
veneziano do século X V I. Ouvi discursos e mais
do que discursos, as conversas de tôda a gente sôbre
o mestre. Pelas salas simples andavam homens e
mulheres abafados pelo calor. Uma senhora, com
um chapéu de plumas, parecia uma condenada ao
suplício de derreter-se em vida.
Depois procurei mais informações. E soube
que o quadro tinha sido doação de um homem rico
que não gostava de arte. Mais aturdido fiquei.
Não gostava de arte e tinha aquele gesto de duque
de Milão. Para as tantas fiquei sabendo de tudo.
Tôda aquela loucura era obra só de um louco, de um
chamado Francisco de Assis, que não era nenhum
santo, mas homem capaz de, em plena canícula tro­
pical, arrastar os homens mais importantes da ter­
ra para festejar uma tela de pintor de gênio. Lá
fora, ainda havia sol sôbre as águas espelhantes da
baía. E os “flamboyants” continuavam sangrando.
Voltei ao meu quarto de hotel ainda em tempo
de mudar a roupa molhada para cair num banho de
mar reparador. E, na delícia das águas do ocea­
no, fiquei a meditar naquele povo de amor tão pro­
fundo pela arte a ponto de vencer uma terrível tar­
de de 38 à sombra na contemplação de uma tela
de Ticiano. Nem mesmo os florentinos seriam ca­
pazes de tanto amor. Aquêle Francisco de Assis,
como o outro, tinha operado um milagre.
222 J o sé L in s d o R ê g o

OS CA N G AC E IR O S D A M O D A E OS R EA IS

Canta-se, por tôda a parte, a “Mulher Rendei­


ra” da melodia sertaneja. A doce e triste música
das caatingas chegou até aos ouvidos dos mestres
cineastas de Cannes. E muito gostaram da toada
maravilhosa. É que esta música envolve de poe­
sia o que há de brutal na vida dos bandoleiros. O
cangaceiro passa a ser aquilo que a imaginação do
povo deseja que êle seja: uma fôrça de rebelião,
qualquer coisa de romântico como os cossacos do
Don ou os terríveis “maffiosi” da Sicília. Entra a
funcionar o poder imaginativo do homem para fun­
dar-se uma galeria de heróis. Os poetas matutos,
os cantadores anônimos descobrem no homem que
não tem mêdo da morte, que mata sem dó nem
piedade, uma fôrça fora da natureza. Jesuíno Bri­
lhante tinha poderes de encantar-se para fugir das
tropas que o perseguiam. Contava-se que o canga­
ceiro cearense vinha por uma estrada e de repente
via-se cercado pela Polícia. Aí acontecia o mila­
gre. A tropa passava por êle, que era no momento
um pé-de-mato ou um jumento pastando. Para
pegar Lampião — dizia um cantador — nem um
frade de boa vida, nem uma mulher enxerida, nem
as prosas dos doutores, nem vinte governadores,
nem o bamba da Nação; para pegar Lampião, só
mesmo Nosso Senhor. A fôrça desembestada, o
ímpeto feroz para a luta absorvem as admirações
ingênuas. Outro cantador chegou a dizer: “Para
haver paz no sertão e as môças poder prosar e os
0 V u lcão e a F onte 223

rapazes poder casar e o povo poder se rir e os meni­


nos se divertir, é preciso uma eleição para fazer
Lampião governador do Brasil”. Dominando des­
ta maneira pelo terror, pela arrogância contra os
poderes constituídos, o cangaceiro conseguia ven­
cer as resistências morais dos sertanejos. Já não
há o Govêrno como único senhor de tudo; há tam­
bém um rei do cangaço que casa e descasa, capaz
de impor-se aos agentes do fisco, aos padres, aos
juizes. Então se cria o romanceiro, aparecem os
A. B. C. espécie de canção de Rolando das Caatin­
gas, vendidos nas feiras, a tostão. O povo, domi­
nado pelas coragens de fúria dos bandoleiros, refu­
gia-se na arte para acreditar em alguma coisa que
supere a crueldade das correrias e crimes. Todos
nós, meninos nordestinos, sabíamos de cor as his­
tórias que vinham nos folhetos de cordel. Todos
tínhamos, na memória, a luta de Antônio Silvino
com a onça, as brigas de Brilhante e Liberato. Mas
o outro lado dos cangaceiros, a vida bestial de ho­
mens tremendos, é o que nos assombra. O canga­
ceiro não é só a legenda de lutas; é muito mais a
sua vida sêca como pedra, é o seu vírus de cobra
pelo chão de pedra e espinhos. Neste sentido, te­
mos que tomá-lo como natureza humana que ex­
cede a tôda a normalidade. Para êle não há limi­
tes à resistência contra os elementos. Vence a fo­
me e a sêde como se fôsse feito de ferro. Assom­
bra-nos como uma espécie à parte de gente. Re­
trai-se, encolhe-se como serpente e quando sai do
seu covil tem mais força. Dobram-se-lhe os fuzis
224 J o s é L in s d o R ê g o

assassinos. E , quando saciado de sangue, de sexo,


de tudo, pára para descanso. Basta que um gemi­
do de viola quebre o silêncio para que caiam por
cima dos corações de pedra aquêles orvalhos da ma­
drugada das cantorias. Às vêzes de um rochedo
brota o vermelho ou o azul de uma flor de trepa­
deira. De manhã, poderá sair para matar um pai
honrado ou desgraçar uma donzela.

T A M A Y O E P IN T U R A

Rufino Tamayo escapou no México da pintura


demagógica. Enquanto grandes artistas da cate­
goria de Rivera se perdiam nas preocupações polí­
ticas, Tamayo se concentrava nos problemas da
pintura. Para êle o mundo valia como conteúdo
plástico. Nada de se orientar pelas questões de
ordem partidária. O político para êle não era o
principal, como queria Maurras. O político seria
apenas a sua condição de homem e nunca a sua or­
dem de artista. O homem Tamayo teria a sua opi­
nião definida, a sua convicção para se orientar na
luta pela boa sorte do seu país. Mas o pintor T a­
mayo tem responsabilidades estéticas a manter.
Por isso não se entregou ao manejo da pintura
como arma de combate. Há pouco, respondendo a
um inquérito sôbre o destino da arte, não escondeu
a sua opinião. Foi franco e claro a debater assun­
tos ligados à sua vida interior, isto é, à sua exis­
tência de criador. Para definir a arte de nossos
dias, diz-nos, com serenidade, que esta tem que re­
fletir as mudanças sofridas pela sociedade, pela
0 V ulcão e a F onte 225

ciência, pela concepção do mundo. O átomo, o ra­


dar, a velocidade supersônica são fatos que atingem
a arte. Nada mais da realidade que a condição ar­
tística. Por isso, o surrealismo, que se funda no
sonho, resulta ineficaz e se situa no vácuo. A pin­
tura tem que devolver aos elementos plásticos de
que se serve formas, côres, linhas que são valores
autênticos. Até bem pouco tempo, certos pintores
usaram os elementos plásticos para expressar
idéias. Acha Tamayo que os elementos plásticos
não são elementos retóricos. Antes de tudo deve­
mos levar em consideração a forma, o espaço, a cor,
em função do quadro e nunca das convicções do ar­
tista que procura provar alguma coisa. Em princí­
pio, não confundir pintura figurativa com realismo
e realismo seguido de algum qualificativo. Depois
não há incompatibilidade entre arte figurativa e
arte moderna. Tamayo ainda é mais seguro. A
arte não figurativa é só um aspecto da arte moder­
na. Tamayo ainda é mais seguro quando afirma
que a pintura não-periodismo não é literatura, não
é publicidade, não é demagogia. A pintura é a
união maravilhosa da pessoa que é a sua vida inte­
rior e as qualidades plásticas que são o veículo da
transmissão da eterna poesia.

E N T R E D. JA C IN T O E G A R C IA LO R C A

Alguns amigos me falaram da mágoa exprimi­


da por espanhóis de suas relações pelas minhas re­
ferências a gesto e atitude de Jacinto Benavente.
226 J o s é L in s d o R ê g o

Para êstes, atacar o escritor em trânsito era ferir


de cheio uma legítima glória da Espanha.
Respondi-lhes para confirmar os meus pontos
de vista e para mais ainda dizer-lhes que, apesar de
tôdas as suas notoriedades de Prêmio Nobel, Bena-
vente não representa o melhor de Espanha e nem
mesmo o melhor de sua geração. O teatro de Be-
navente procurou, para se tornar um sucesso, con­
tatos com o medíocre teatro chamado psicológico
da França, fugindo, assim, da tradição popular de
sua terra, de um Lope e de tôda a grande literatu­
ra espanhola. Quando um Góngora quis estabe­
lecer o primado culturalista, em reação às for­
ças naturais, chegara a se transformar num gêne­
ro de artifício, que não o levou ao fastidioso por
causa do seu legítimo gênio poético. Lope de
Vega, como Cervantes na novela, afunda-se no solo
ibérico e é eterno e vivo, enquanto o gongorismo
passou a ser uma deformação retórica.
Benavente é da geração de 1898, de um grupo
de homens que afirmou, em todos os sentidos, que
a Espanha não estava morta com a derrota militar.
Mas enquanto Unamuno, Azorín, Baroja se liga­
vam à terra para serem romancistas e filósofos nas
entranhas da pátria, Benavente apresentava-se com
as fórmulas realistas do teatro secundário dos fins
do século X I X , para compor uma literatura dra­
mática de segunda ordem. Para Lope, êle seria
como Dumas Filho fora para Racine. O seu tea­
tro é, assim, mais de maneiras, de moda do que de
seiva humana.
0 V u lcão e a F onte 227

D. Jacinto se transformara em espanhol de ex­


portação sem que fôsse um autêntico escritor es­
panhol.
Isto é o que penso sôbre D. Jacinto e a sua
obra.
Aos espanhóis que tanto se irritaram com as
minhas restrições eu lhes acrescentaria que o apoio
de um escritor a um Govêrno de tirania estúpida
representa uma miserável traição ao espírito e à
dignidade humana.
E lhes perguntaria se, por acaso, têm notícia
de outro teatrólogo de sua grande pátria que, com
uma imensa fôrça criadora, ultrapassara a geração
de 98 para chegar ao melhor da Espanha do século
de oiro. Quero referir-me a Garcia Lorca. Pois
bem, que fizeram os espanhóis melindrados com as
referências ao D. Jacinto, quando, em Granada, os
soldados de Franco fuzilaram o poeta?
Por êste tempo, êstes espanhóis daqui pouco se
deram com o atentado.
E entre verberar um gesto de D. Jacinto e as­
sassinar o gênio verdadeiro de Espanha vai muito.

M A U R O IS

O Herzog de família rica se transformou no


André Maurois de grande sucesso de livraria. O
rapaz, discípulo de filosofia de Alain, descobrira o
Coronel Bramble, oficial na guerra de 1914, e dos
silêncios do militar moralista compôs um roteiro
e uma conduta de vida.
228 J o s é L in s d o R ê g o

Começava assim para o herdeiro de fábricas


de tecidos a sua verdadeira história. O Herzog
não era mais Herzog, era somente o escritor Mau-
rois. A tradição clássica da prosa simples e do
compor sem filigranas, mas direto e forte, de Mon-
taigne, ia beber em fontes estrangeiras. Maurois
descobrira, como Mareei Schwob, a literatura inglê-
sa. E, com a literatura inglêsa, Lytton Strachey
e os caminhos da biografia que procurava mais a
alma dos indivíduos do que os fatos. Romain
Rolland fôra procurar homens que foram espécies
de crise da humanidade para biografias heróicas,
que eram mais sínteses do gênio, da teoria Rolland.
Maurois foi mais empírico, mais realista, mais hu­
mano do que o humanismo do criador de Jean
Christophe. É a novidade e o encanto do Ariel ou
La Vie de Shelley, livro que começaria em França
uma moda literária. E livro admiràvelmente es­
crito e sentido.
Maurois lera Boswell e descobrira no seu John­
son mais alguma coisa do que a ciência histórica
descobriria; descobriu, além das idéias gerais do P.
Johnson, a sua alma vigorosa, o quente e o frio de
sua alma prodigiosa.
O Shelley de Maurois não é uma abstração do
gênio, é a própria paixão do gênio na Terra. A
imagem do Ariel que êle imaginou não sobrevoa a
Terra. Os pés do símbolo alado são pés de um
homem que sofre a vida. Shelley é uma criatura
de carne e osso, e criatura que nem o orgulho de
0 V u lcão e a F onte 229

procurar competir com Deus libertou-o da condi­


ção humana.
O que Maurois descobriu em Shelley foi jus­
tamente a parte de homem que havia no seu ange-
lismo, o coração que batia, o amor que lhe dava fo­
go à imaginação. E a vida, a terrível vida do ser
que era do mesmo barro de nós todos.
Vem o sucesso de Maurois do seu tom natural
de contar, com a arte, o que a ciência histórica não
via, apesar de tôda a sua sabedoria. E é por isto
que existe um Shelley, um Byron, um Disraeli, de
Maurois, gente que o artista Maurois conseguiu
isolar, num de seus surtos de vida.
A arte do biógrafo consiste justamente na es­
colha — diz-nos Schwob. Não tem o biógrafo que
se preocupar em ser verdadeiro; êle deve arrancar
do caos traços humanos.
É verdade que do Ariel de Maurois saiu o de­
testável gênero das biografias romanceadas, uma
espécie de novo suplício inventado contra os gran­
des homens.

E N T R E A L A IN E K IP L IN G

Maurois era rapaz e estava na cidade de E l-


beuf, na fábrica do pai, exercitando-se para o ofí­
cio de comandar uma indústria. Mas não havia
em Maurois um capitão de indústria, um chefe para
comandar tecelões. O mestre Alain havia metido
na sua cabeça o seu radicalismo de professor de
liceu, a sua filosofia de pequeno burguês preguiço­
so. Alain trazia, no sangue, a raiva de um “sans-
J o sé L in s d o R ê g o

coulotte” inconformado. Mas o rapaz queria ser


mais alguma coisa do que um rapaz rico, queria ex­
por à vida os fantasmas que lhe tiravam o sono.
Em todo francês há um Julien Sorel que pre­
tende virar o mundo. Em Maurois havia também
um Fabrice tímido, herói de Stendhall, com a voca­
ção do Príncipe André, da Guerra e Paz, para a boa
disciplina, para o trabalho silencioso.
Mas é êle quem nos conta, em suas memórias,
apareceu-lhe na quietude da vida provinciana o
grande Kipling, que viria dar-lhe uma noção da
vida mais vigorosa do que lhe ensinara o mestre
filósofo de Ruão.
“Kipling”, me diz êle, “veio representar um
grande papel no meu dramazinho espiritual. Ao
radicalismo de Alain, cidadão erguido contra o Po­
der, e que acima de tudo detestava a tirania, opu­
nha Kipling a imagem duma hierarquia necessária.”
Alain dispunha da vida como se viver fôsse um
grito de rebeldia contra o seu tempo. E Kipling
queria viver para arrancar da sua vida uma lei, que
êle imporia aos outros como lei da floresta. Os
próprios bichos de Kipling têm os seus chefes.
Maurois se libertava do radicalismo doutriná­
rio pelos caminhos imperiais de Kipling. Era pre­
ciso viver para dominar os sonhos e os instintos.
Era preciso ser o chefe de seus próprios sentimen­
tos. E assim prevaleceu, para êle, uma hierarquia
constante.
E daí a sua procura de heróis, a sua busca pelos
grandes homens.
0 V u lcão e a F onte 231

E, assim, as suas biografias nada mais são do


que o seu encontro com os pontos altos de sua es­
cala de valores.

N IE T Z S C H E A N A

Publica o editor José Olympio, neste fim de


ano de crise generalizada em livro que é a maior
exaltação da vida, um livro de um gigante de von­
tade, de um criador de mundos: uma nietzscheana.
Quando Nietzsche escreveu o Zaratustra, dis­
se: “Não estou longe de pensar que seja êste meu
livro a obra mais profunda da língua alemã e tam­
bém a mais perfeita no que diz respeito ao estilo”.
E a filosofia do agitado rapaz doente ia ferir
de tal maneira a sensibilidade germânica que daria
ao povo alemão aquela consciência de povo eleito,
de raça predestinada. É que, pela primeira vez,
um autêntico poeta penetrava no pensamento filo­
sófico para desvairar as universidades e romper os
quadros severos de uma disciplina a serviço da gra­
vidade, dos temas profundos, das convenções de
escola.
Nietzsche falou no seu desabafo, na perfeição
de estilo. Aí está o comêço da sua revolução. Ao
tom solene dos professores, êle sobrepôs o tom lí­
rico do poeta. Ao frio da análise um brado de sín­
tese que estremeceu as cátedras. À agressividade,
o ímpeto de sua prosa, que, ao contrário de Goethe,
não se conteve, extravasando, como enchente. O
seu ritmo não levou em conta nenhum Duque de
Weimar e, assim, conseguiu o que sempre quis: ser,
M Q
mÊÍI mê J o s é L in s do R êgo

em todos os sentidos, uma novidade. Há o ritmo


nietzscheano, como há o ritmo goetheano. Isto é,
há o dionisíaco Nietzsche e há o apolíneo Goethe.
Mas se Goethe deu à Alemanha um roteiro de paz,
de continência, de economia moral, Nietzsche fa­
ria explodir todos os complexos de inferioridade de
um povo que não pudera assimilar a sabedoria cris­
tã. Os filhos de Goethe seriam homens de tôda a
humanidade, uma aliança natural do mundo antigo
e do mundo moderno. Os filhos de Nietzsche che­
gariam à categoria de monstros, aos Hitlers, ao na­
zismo, ao racismo. O poeta maravilhoso fecunda­
ria uma progênie de loucos morais, de criaturas que
aberraram da condição humana.
Êste, porém, foi o Nietzsche que atiçou as fú­
rias germânicas, as hordas bárbaras. No entanto,
êste criador de iras possuiu um instrumento de ar­
te poderoso. Se êle dizia, em carta, a um amigo
que estava prêso à língua alemã pelo mais entra-
nhado amor, pela familiaridade mais íntima e pelo
respeito mais profundo, queria com isto dizer que
as suas ligações com a massa, que procurou despre­
zar, eram mais fortes do que supôs. A sua filoso­
fia anti-socrática concebeu o homem como a maior
fôrça da Natureza. O homem-bêsta, o homem con­
dutor de tempestades é o seu herói. O seu Zara-
tustra, espécie de Átila raciocinador e angustiado,
falava de colunas de fogo como do prenúncio do
grande Meio-Dia.
O grande Meio-Dia, o esplendor de Zaratustra,
daria na escuridão tenebrosa dos massacres dos
O V u lcão e a F onte 233

campos de concentração. E então a voz prodigiosa


de Nietzsche, o seu canto de gênio, haveria de ter­
minar nos grunhidos raivosos de um Dr. Goebbels.
E Zaratustra, vencido pela paranóia, banhou-se no
mar de sangue de duas guerras universais.
A tradução e a escolha de trechos da obra in­
teira de Nietzche, feita pelo poeta Alberto Ramos,
pode-se considerar um trabalho de mestre.

A L ÍN G U A D E F R A N Ç A

Ao ler a notícia de que o francês havia sido ex­


cluído da Conferência de S. Francisco, como idio­
ma oficial, eu me lembrei de Rivarol e do seu en­
saio sôbre “L ’universalité de la langue française”.
Em 1783, dizia o grande epigramista: “Le
temps semble être venu de dire le monde français,
comme autrefois le monde romain” . E passa o
mestre a descobrir as razões para êste domínio da
França sôbre o mundo, a justificar “êste uniforme
e pacífico império das letras que se estendia sô­
bre a variedade dos povos, mais durável e mais for­
te do que o império das armas”. Havia para tanto
que considerar a posição política da França, a in­
fluência do seu clima, o gênio de seus escritores, o
caráter dos seus habitantes, tudo isto que se con­
centrou para “faire à cette langue une fortune si
prodigieuse” . Quando havia Luís X IV , viu-se o
pêso da autoridade real pondo as coisas nos seus
lugares; direitos e prazeres se exercitam ao ritmo
solar, os ouvidos afiados pedem pronúncia mais
doce, objetos novos carecem de expressões novas.
J o sé L in s do R êgo

B é aí que a língua francesa fornece substância


para tudo e estabelece a ordem na abundância. E
se transforma na língua da Europa. Através da
sua luminosidade os bárbaros do Norte se comuni­
cam com o mundo. Paris fixou as idéias flutuan­
tes da Europa, e o teatro francês educava a socie­
dade, sendo herdeiro do teatro grego. E os livros
da França tomam-se os livros de todos os países,
de todos os gostos, de tôdas as idades. A França
faz livros para educar os príncipes e livros que arra­
sariam os príncipes. A fôrça da língua francesa
estava na sua universalidade, como o latim dos ro­
manos. Agora, em S. Francisco, os políticos ex­
cluíram o francês. É triste que aconteça isto, jus­
tamente nesta América que tanto deve à sabedoria
dos mestres da França. E eu me lembro de Riva-
rol, que assim terminava o seu luminoso ensaio:
“ L ’histoire de TAmérique se réduit désormais a
trois époques: égorgée par 1’Espagne, oprimée par
1’Angleterre et sauvée par la France” .

LE ITU R A PARA RAPAZES


\ '

Escreve-me uma senhora, mãe de três filhos,


pedindo-me conselhos sôbre a leitura que poderia
dar aos seus-rapazes, e, ao mesmo tempo que me
pede conselho, sugere-me uma crítica aos livros que
andam por aí, em mãos juvenis.
“ Sinto-me incapaz de escolher os livros para os
meus rapazes. Algo que não fôsse tão infantil
como Monteiro Lobato, nem tão sórdido quanto
Emílio Zola. Não sei; talvez o gênero policial ou
0 V ulcão e a F onte 235

um pouco de educação sexual, através do livro do


Padre Negromonte.”
De fato, ao adolescente não chegam os livros
de Lobato a interessar, e nem tampouco Zola, que
não acho sórdido, é capaz de prestar serviço algum.
O infantil de Lobato e a crueza de Zola não seriam
alimento para a idade dos que entram na vida que­
rendo ver as coisas como homens, mudando o tom
da voz e de buço a crescer. Nem Lobato e nem
Zola. E nem tampouco esta história de educação
sexual que, apresentada como uma lição, poderá
pender para uma perigosa aventura com o instinto,
fôrça da natureza que precisa ser tratada como tal.
Eu, se tivesse um filho, não me meteria a che­
fiá-lo como se fôsse êle um soldado de chumbo.
Teria que lhe dar uma certa autonomia, para que
pudesse livremente escolher o seu clube de futebol,
procurar os seus livros, opinar na mesa, sem que
esta aparência de liberdade fôsse além dos limites.
Não queria que parecesse um ditador e nem tam­
pouco um escravo. Os meninos mandões e os me­
ninos passivos demais são duas deformações desa­
gradáveis.
A senhora que me mandou a carta teme pelos
livros dos seus filhos e quer orientá-los nas boas
leituras. Êstes cuidados matemos são os mais
justificáveis, mas, exercidos com autoridade exces­
siva, poderão, em vez de orientar, deformar, crian­
do na sensibilidade de seus filhos falhas lamen­
táveis.
J o sé L in s d o R ê g o

O mestre verdadeiro não é o que faz o discípulo


à sua imagem, mas o que sabe conservar no discí­
pulo a personalidade que êle tem. Se há, então,
um desvio patológico, aí entra mais o médico, que
é, no caso, um auxiliar precioso da natureza, nas
corrigendas e curas que opera.
Se me viesse um filho pedir livros para ler, eu
lhe indicaria os livros de aventura, como os de Ro-
bert-Louis Stevenson, livros que carregam, nas
suas narrativas, o que há de maior na natureza hu­
mana : a coragem de superar, pelo arrojo, pela von­
tade de viver, o que é a mesquinharia do cotidiano.
E lhe entregaria o D. Quixote e lhe diria: Meu fi­
lho, êste herói não queria descobrir uma mina de
ouro e nem conquistar uma cidade, apenas almeja­
va o direito de sonhar acordado. Você há de achar
graça no descompassado de suas maneiras. Pode
rir do Quixote. Não faz mal. O ridículo do he­
rói faz parte das loucuras fecundas da Humanidade.
Minha cara senhora, da Ilha do Governador, dê
aos seus rapazes que gostam de livros policiais o
D. Quixote, que nêle irão encontrar também ras­
gos tão fantásticos como os dos heróis dos qua­
drinhos.

G A B R IE L A M IS T R A L

O Prêmio Nobel de Literatura foi dado a uma


mulher da América do Sul. A grande Gabriela
Mistral mereceu a distinção, e nós todos sul-ame­
ricanos estamos de parabéns. Cada um de nós está
neste prêmio.
O V u lcão e a F onte 237

Pela primeira vez a língua falada aqui pelos


iberos transplantados chega a esta universalidade.
Gabriela Mistral não é um caso do Chile, é uma
voz americana. Uma vez ouvi-a defender, em al­
moço de embaixada, a sua mestiçagem. Um ami­
go de sua terra afirmava que era Gabriela uma es­
panhola cem por cento. E ela, com os dados da fa­
mília, repelia, com orgulho, a afirmação. E nos
lembrou o retrato de uma avó, com cara de índia,
e falou com aquela sua veemência magnífica de
seus antepassados. Gabriela não queria passar
pelo que não era. E, mesmo que fosse, tudo nela
estava tão ligado à tradição e ao vigor da terra
crioula, que já lhe dera uma expressão muito na­
tiva para poder esconder.
Falando ao repórter, que a procurou para saber
de suas impressões sôbre o prêmio, a grande e ex­
traordinária criatura humana, para bem fixar as coi­
sas, quis que ficasse bem claro que não era só a
língua espanhola que havia sido tocada pela consa­
gração universal, mas também a língua que ela cha­
mou de sul-americana, a crioula.
Aí está tôda a vida de Gabriela Mistral. Esta
mulher, que é uma sábia, que possui uma cultura
huninnística completa, não abandona o contato de
Muno origens, c, quando faz os seus versos ou com­
põe n lun prom, está ligada, profundamente, aos
campoi do Cliilo, Am planurai, às penedias da Cor­
dilheira. Ninguém è ninii a imagem de sua terra
do que ela, ninguém traduziu, até hoje, com mais
grandeza, a pungente trintexii du Cordilheira, do
J o s é L in s d o R ê g o

que a poderosa mulher que se fêz de mestra de me­


ninos para estar com o povo, para servir ao povo.
Gabriela não tem política, porque ela própria en­
carna tôdas as políticas que sejam do povo, tudo
que anime o homem a ser digno do sopro de Deus,
que lhe anda pela alma.

A F A Z E N D A DO G A V IÃ O

A anã barata “Ford”, de 20 anos, corria pelas


ladeiras da estrada. Pelos altos descampados o
capim-gordura floria um roxo sem tristeza. O ga­
do leiteiro, lá por cima, aprumava-se no pasto ra-
linho. Aquilo eram terras da opulência antiga.
E, em pouco, a opulência do mundo do café
morto apareceu-me, à vista, com verdadeiro dó de
peito. Era a casa-grande da Fazenda do Gavião,
sede do comando geral de tôdas as outras fazendas
do Conde de Nova Friburgo.
Não fica bem chamar-se de casa-grande ao pa­
lácio que nos surge, no alto, com as suas colunas,
como de templo romano, maciça construção de pe­
dra, com aquelas duas estátuas, no patamar, seve­
ra, arquitetura de linhas clássicas, sem o menor re­
levo barroco, ou sem o chão, o simples, o trivial das
casas portuguêsas.
A Fazenda do Gavião foi, como o Palácio do
Catete, um delírio de grandeza do Conde, possuído
de verdadeira loucura pelo fausto.
Os planos arquitetônicos de Nova Friburgo não
chegaram ao fim. Basta dizer-se que o Palácio do
0 V u lcão e a F onte 239

Catete atual nada mais era que uma ala do palácio


imaginado.
Na casa do Gavião os planos ficaram pela me­
tade. Lá estão as colunas de granito da planta
frustrada, umas ainda de pé, outras pelo chão, como
em ruína grega. Mas o que há de casa atual é ain­
da qualquer coisa de espanto. O palácio erguido
em cima da terra rude, a dominar as várzeas que se
enroscam pelo sopé dos morros, nos dá a impressão
de um sonho. Tudo se podia esperar daquela ter­
ra, menos que ali brotasse o que os nossos olhos
vêem, aquela forma estranha de outro mundo, tal
qual, se no gêlo polar, se erguesse uma casa de ca­
boclo.
O Conde de Nova Friburgo não era um homem
de imaginação, era um homem de fantasia arden­
te, capaz de sobrepor-se a tôdas as realidades para
satisfazer um sonho de megalomaníaco. Daí a sua
constante fuga da realidade, a sua preocupação de
construir sem levar em conta os meios, à procura
de gente de fora para os seus planos. O Palácio
do Gavião, como o Palácio das Águias, é dado para
o estudo de uma época que daria depois na jogati­
na do encilhamento.
Atravesso as salas imensas, os quartos gigan­
tes, vejo os móveis italianos, a cama onde dormiu
o Imperador, as paredes de pedras, a varanda que
é uma avenida. E após olhar para os vidros, as ri­
quezas, as colunas, olho a terra pobre dos altos e
imagino o Conde, no meio de tudo aquilo, como
240 J o sé L in s d o R ê g o

um Vautrin, a jogar, em desespero de causa, com


ouro que não era realmente ouro.

V i a tarde de maio, lá de cima da varanda do


Palácio do Gavião. Um céu róseo para o verde
geral da terra. Só o telheiro velho das dependên­
cias da fazenda dava uma côr suja ao quadro ma­
ciço de clorofilas. Mais para longe, a estrada rea­
lenga rasgava o morro, mostrando o vermelho do
barro.
A grandeza do Conde de Nova Friburgo se
concentrava naquele luxo de uma fazenda que não
era para produzir coisa nenhuma. No Gavião não
havia um pé de café, um curral de gado. Ali era
somente a residência do Conde. Trezentos alquei­
res para a sede de um ducado. Mas a crise do café
arruinou os planos nababescos do homem parente
próximo dos marajás. E tudo ficaria pela meta­
de. O pomar, que seria um parque com árvores
exóticas, não chegou a ser plantado. Só um pé de
tangerina amadurece os seus frutos, junto às qua­
tro colunas gregas de granito.
Depois que o Conde morreu, o Gavião caiu em
desgraça. O novo proprietário não quis continuar
a loucura. Os morcegos fizeram concentração
pelos telhados, os móveis se dispersaram, os vân­
dalos andaram destruindo o que puderam destruir.
A uma das estátuas imponentes arrancaram a cabe­
ça, porque se espalhara que por dentro delas havia
dinheiro de ouro.
O V u lc ã o e a F onte 241

Mas houve, para salvar a grandeza do Conde,


o bom-senso, a fibra, a coragem do filho do luso
que sucedera ao grão-senhor. O Dr. Pedro Pita
tomou conta do Gavião para restituir-lhe a impor­
tância, dar-lhe a vida que merece.
A í começa uma obra de reajustamento do pa­
lácio degradado ao seu meio. O jovem fazendeiro
teria que desprezar os excessos do Conde para co­
locar o palácio no seu verdadeiro destino. A terra
teria que produzir para merecer a imponência da­
quelas colunas, o esplendor daquelas salas, o luxo
daqueles móveis. O Gavião de hoje vende leite,
produz milho, feijão, já não é a ociosa fazenda da
pacholice do Conde.
Pedro Pita deu ao palácio de hoje uma reali­
dade fora de todo o bovarismo. A s salas de assoa­
lho espelhando, o piano de cauda, a maravilhosa
secretária do Conde, a cama de jacarandá, com in-
crustações de imbuia, o relógio de pêndulo, tudo
aquilo vive numa casa viva.
A s vacas holandesas, as várzeas plantadas, o
trator, que virá, são dados concretos para garantir
o palácio que ressurgiu das ruínas para mostrar que
o Brasil do luxo asiático da fantasia do Conde pode
ser maior ainda pelo trabalho, pelo esforço, pela te­
nacidade de homens que saibam valorizar os seus
autênticos valores. Lá está em Cantagalo o sonho
de um condado de conto de fada, reduzido a uma
realidade que não é a dos pomos de ouro, mas das
espigas de milho.
242 J o sé L in s d o R ê g o

M ONÓLOGO D E ÔNIBUS

Desta vez não haverá conversa de lotação,


mas um monólogo de ônibus. Por acaso, meu ca­
ro leitor já se sentiu um homem, como numa ilha
dentro de um ônibus cheio de gente? Por acaso
já se viu, único, como se estivesse no silêncio de um
deserto, na companhia incômoda de seus pensa­
mentos?
Pois foi o que aconteceu a êste seu amigo, em
viagem matutina de Cantagalo a Friburgo. A ter­
ra morta dos cafèzais, os altos carecas, a beleza ma­
ravilhosa do dia claro, e por tôda parte as marcas
de uma civilização que se acabou. Do meu canto
eu tomava nota de tudo. Há cinqüenta anos atrás
tudo aquilo eram fazendas de cem e mil arrobas de
café. O que os olhos viam, o que a vista alcança­
va era cafeeiro na floração, na madureza, nas co­
lheitas, na fortuna que a terra dava de mão beijada.
A s fazendas se agrupavam no casario de sobra­
do, dos terreiros, da grande vida, à larga, das car­
ruagens pelos caminhos tortos. Lá estava a Fa­
zenda da Tôrre. Um grande da terra mandou le­
vantar aquela tôrre grega, no pátio da casa senho-
rial, como um luxo de quem quisesse gastar o seu
dinheiro no bonito supérfluo. Agora a tôrre pare­
ce uma ruína secular, e a terra queimada, estorrica-
da, quando dá alguma coisa é um capim rasteiro
que nem chega para cobrir-lhe a nudez de mendiga.
Uma terra rôta e esfarrapada. Olho para os dois
lados e só vejo a desolação inclemente. Olho para
O V u lcão e a F onte 243

os campos e o gado que pasta lá por cima é de bois


que se esgueiram pelos precipícios, atrás da toucei-
ra ressequida do gordura mofino.
E tudo aquilo já foi uma riqueza de inveja. E
tudo aquilo não passa hoje de uma miséria que não
se disfarça.
O meu silêncio me convida a medir as coisas,
a tirar as minhas conclusões, a descobrir as origens,
a pesquisar as raízes da vida geológica.
Vejo as encostas dos morros raspados, com a
argila maninha. Tudo corroído e tudo impres­
tável.
É que o homem não tem a visão dos aconteci­
mentos. É que os capitães não cuidaram. É que
existe uma palavra, que se chama erosão e esta pa­
lavra dá o nome à doença maligna da terra.
Havia o cafèzal, e, por onde havia o cafèzal,
as chuvas foram correndo e foram raspando o hú­
mus, arrastando todos os detritos fecundantes, ca­
vando, até à argila, o leito das culturas. E depois
os ventos nas correrias cobrindo o mundo de poei­
ra, completando assim a obra sinistra dos agua­
ceiros.
E o homem não via nada, o homem não imagi­
nou nunca que a obra de Deus também era a fôrça
dos ventoa ou a fôrça dai úguuH. A s s i m , a erosão
liquidou um patrimônio que parecia eterno. Fêz-
se o deserto, na terra que tudo tinha de uma terra
de promissão.
244 J o s é L in s do R êgo

A fortuna em grãos de ouro se transformaria


na desgraça dos campos desolados. Tudo obra da
erosão.
O meu monólogo interior continuava a me doer
na alma. Olhava para fora e, lá distante, a ma­
jestade de um ipê se cobria de um amarelo ridente.
Os meus companheiros de ônibus falavam de
briga de galo. E as águas de uma cachoeira caíam,
lá de cima, como uma gravura de Rugendas. Mas
o meu pobre Brasil se acabava.

S A N T A SO F IA

Quando o trem parou em Silveira Lôbo tive


mêdo que a realidade não correspondesse ao sonho.
Mas desde que pus os pés na terra que tudo come­
çou a se mostrar tal qual imaginara. Aquela seria
a terra dos parentes de Minas, as fazendas tão fa­
ladas, tão descritas, tão louvadas pelos que dali
voltavam para nos contar tantas grandezas de pos­
ses e de gente.
E fui olhando os morros, a terra vermelha, as
águas que corriam pelas encostas. E, naquele dia
de fevereiro quente, o ar era puro e leve como uma
manhã de junho dos engenhos da várzea do Pa­
raíba.
Confesso que tinha o coração ansioso. O que
imaginara desde menino, o que compusera em re­
lação ao país de povo nosso, enraizado em monta­
nhas mineiras, se aproximava. Vi, da volta que
o caminho dava, as palmeiras imperiais, que su­
biam para o céu a indicar casa-grande por perto.
0 V u lcão e a F onte 245

E, de fato, a sede estava tão próxima que se des­


cobrira, tão bela, aos viajantes, como se tivessem
levantado um pano de bôca.
O grande portão do pomar dava entrada para
a casa-grande. E as senhoras antigas ali estavam
para a recepção aos parentes da Paraíba, já que o
chefe da família não se encontrava presente. Co­
nhecia-as pelos retratos, conhecia, uma por uma,
pelas referências, pelos louvores, pelo que delas
gabavam. Eram môças de muito saber, de muitas
prendas, de muito coração. Os seus nomes esta­
vam gravados na minha memória, e, nos álbuns de
família, viviam para nós, doces e carinhosos.
A grande casa de quatorze quartos ali estava,
com tôda a sua grandeza antiga. Os pianos de
cauda, os retratos na parede, a cara austera do
Conde de Prados e, por todos os recantos, o espí­
rito familiar, aquela bondade de séculos que o tem­
po não comera.
Aos poucos fui tomando pé na realidade. O
terreiro de café da velha fazenda de vinte mil arro­
bas, a aléia de assai do jardim, a conversa mansa
do primo Baltazar e a paz de um silêncio, que pare­
cia uma dádiva do céu, me prendiam às coisas que
a imaginação do menino concebera. E tudo era
verdade.
Aquela era a Santa Sofia, que a minha tia Ma­
ria conhecera e de que me falava com tanta minú­
cia. Os velhos troncos familiares pendiam da pa­
rede e se comprimiam nos álbuns de capa de ma­
drepérola. Os Lins que vieram da Paraíba se en­
246 J o sé L in s d o R ê g o

contraram ali, em Minas Gerais, com os Arnoude,


de Barbacena, para se fixarem em gente que é uma
autêntica flor da civilização brasileira.
Santa Sofia é tudo o que eu imaginava e que­
ria que fôsse.

U M A C ID A D E P A R A O H O M E M

Todos nós sabemos que Lúcio Costa é mais do


que um arquiteto. Há, na sua formação de técni­
co, um lastro de conhecimento que o aparenta aos
homens da categoria de Leonardo, isto é, uma fi­
losofia da vida que o liga à Humanidade. Daí a
sua concepção universal da arte não ser somente
sua especialidade.
Lúcio Costa se intromete nas soluções que de­
safiam a sabedoria dos mestres, como se fôsse ape­
nas um observador. E, no entanto, ninguém mais
mestre do que êle. A sua intervenção nos debates
sôbre arquitetura não carrega arrogância e suficiên­
cia. O técnico procura valer-se do homem e nunca
sobrepor-se ao homem. Por isto, em seus ensaios
sôbre arte, procura constantemente o lado humano
do problema.
Vencendo o concurso para os planos da cidade
de Brasília escreveu as mais agudas sugestões sô­
bre a conduta do homem em relação à cidade. Luís
Lúcio Costa estabeleceu as fronteiras entre a cida­
de e o homem. A experiência das cidades tenta-
culares, das cidades que crescem como monstros,
fora das medidas do homem, para esmagá-lo, levou-
o às meditações sôbre o destino da Sociedade. A
0 V u lcão e a F onte 247

superioridade de Lúcio Costa, sôbre a grande maio­


ria dos técnicos, está na sua coragem de colocar o
homem acima dos amontoados de material de cons­
trução.
A casa não deve ser feita para modelar a Na­
tureza, mas para defender, acolher, reunir os ho­
mens em grupos, sem constrangimentos. A cidade
transformada em hidra aniquila a vida e implanta
o terror. O homem, ao sair de casa, terá que se
defender da morte, a cada instante.
Os planos e riscos para a nova capital do Bra­
sil foram elaborados para uma cidade amiga do ho­
mem. Os mestres estrangeiros que examinaram
as sugestões de Lúcio Costa se maravilharam pela
concepção genial do brasileiro. Lúcio, que é um
humanista, procurou estabelecer as bases da nova
cidade em termos de homem simples. Êle mesmo
se diz um “maquis” da arquitetura, procurando des­
pojar-se de todos os preconceitos de uma profissão
que vai, depois do surto maravilhoso inicial, visan­
do uma rotina amadurecida antes do tempo. A ci­
dade planejada pelo seu gênio será um recanto do
mundo onde se poderá viver na intimidade da Na­
tureza. Homem e cidade não serão antagonismos
agressivos. Aí está o exemplo do Rio de Janeiro,
para se evitar. O Rio é uma cidade contra o ho­
mem. Os nossos urbanistas não descobriram ain­
da uma única solução capaz de nos salvar. O Rio
continua a entupir o mar e a derrubar morros. Lú­
cio Costa imaginou sua Brasília que seja o contrá­
rio do Rio. Para tanto, idealizou uma “civitas” ,
248 J o sé L in s do R êg o

uma cidade-capital política com a vida sem angús­


tias. Bem que disse Halford que a concepção de
Lúcio Costa “ tem espírito do século: é nova, é li­
vre e aberta, é disciplinada sem ser rígida” . Dis­
ciplina e rigidez. Disciplina como ritmo. E rigi­
dez como a dos mortos.

UM 1945

A jovem literatura de 1945 falou em São Pau­


lo, através do seu mais lúcido representante, e, pelo
que êle se disse e se confessou, sente-se que a ge­
ração dos novos está num beco sem saída.
Ou matar para viver, ou desistir da luta, para
os ócios de uma aposentadoria à qual não seriam
estranhas as poltronas da douta Academia de Le­
tras. Ou caminhar para o mestre Ataulfo de Pai­
va, ou desesperar-se numa noite de São Bartolomeu.
Os jovens querem beber sangue, mas não têm
vocação e nem fôrça para vampiros. São os mais
simpáticos rapazes, sem aquela louca impetuosida­
de de Oswald de Andrade, espécie de fogo corre­
dor das letras, sempre na flor da idade, sempre in­
dócil e indomável. Nem o velho Carlos Marx pôde
com o rapaz Oswald.
Os jovens, porém, nada querem com a insatis­
fação oswaldiana, atrás que está do manso lago
azul do poeta triste. É assim uma geração de sa­
bichões, de doutos, de cabeças frias, que não se dão
a aventura de espécie alguma. Muitos serão capa­
zes de grandes obras. Aí está o herói Lêdo Ivo,
poeta de fôlego comprido, com os seus vinte e pou-
0 V ulcão b a F onte 249

cos anos, mas de coração sem arrebatamentos de


donzel, exprimindo-se como se já fôsse homem
feito.
As palavras que este 1945 pronunciou, em São
Paulo, nos fazem lembrar aquelas palavras de Sér­
gio Buarque de Holanda e Prudente de Morais
Neto, nas páginas da revista “ Estética” , em 1926.

SÔBRE A CRÍTICA

Um crítico, aliás, escritor de primeira ordem,


manifesta-se radicalmente sôbre um autor. As pa­
lavras são de admiração rasgada. E, como usa o
meu nome no depoimento, pergunta-me Lúcio Car­
doso: “ Que diz você de tudo isto?” Respondo ao
romancista mineiro: “ Que poderei dizer, caro Lú­
cio?” Apenas que o crítico agiu com a sua liber­
dade de opinar. Para êle existe um fato novo na
literatura e, diante dêste fato, se abriu em entusias­
mo. É preciso acreditar na sinceridade dos críti­
cos e confiar em sua honestidade. O elogio sincero
ao escritor a propósito do que êle imagina que é um
acontecimento não pode merecer alguma restrição.
A literatura tomada de avaliação com seriedade e
valorização pelo espírito superior de análise entra
para a categoria das mais admiráveis atividades hu­
manas. Precisamos não alterar os nossos entu­
siasmos e descobrir mesquinharia onde existe gran­
deza. A crítica exercida com dignidade, com inte­
ligência, com boa-f é merece tôda a nossa admiração.
O escritor que diz o que sente, fora de certas cavi-
lações de indústria, é homem em função nobre. Co-
250 J o sé L in s d o R ê g o

nheço o escritor a que se refere Lúcio Cardoso e sei


que é homem sem inveja, acima de toda e qualquer
preocupação secundária. Se êle se manifestou em
termos sólidos de admiração é porque assim sentiu
a obra escolhida. Nada de fazer oposição pela sua
franqueza. Se não nos aprecia, está no seu direito.
Se lhe repugna o gosto a nossa literatura, não po­
demos tê-lo como adversário. A tolerância dos au­
tores, em relação aos críticos, é uma atitude pou­
co brasileira. Sempre andamos a descobrir ori­
gens suspeitas em preferências e restrições que nos
fazem. Pode ficar certo o amigo Lúcio de que não
me senti ofendido com o crítico ilustre. A s suas
palavras não me doeram porque sei que é homem
sem espécie alguma de recalque, temperamento li­
berto de prejuízos regionais. De críticas assim,
sem o menor sinal de despeito, carecemos, para que
a nossa literatura se mantenha esclarecida pelos
que têm luzes no espírito e coração imune de vene­
nos da inveja.

BO A C R ÍT IC A

Tenho para mim que a crítica literária deve


ser exercida em têrmos claros, sem a preocupação
erudita; mais intuitiva do que doutrinária. A crí­
tica, como sistema, pode se transformar em pri­
sioneira do sistema e conduzir tudo para as suas
demonstrações. Foi o que aconteceu com Taine,
um mestre da ciência histórica que pretendeu re­
duzir o gênio a um produto do meio físico. O bom
crítico é o que sente o livro como se êste fôsse uma
0 V u lcão e a F onte 251

criação de faculdades que superam os dados positi­


vos das teorias. Não podemos atrelar o ensaio a
determinados preconceitos em voga. É neste sen­
tido que os inglêses superam a outras literaturas.
O ensaio de um Potes, de um Lawb, mesmo de Car-
lyle, vive como unidade de pensamento, ligado à
vida dos autores sem procurar reduzi-la a simples
pretexto de lucubrações. Montaigne ligou-se mais
ao conteúdo moral dos acontecimentos, embora
desse aos fatos uma luminosidade que atravessava
os corpos. Quando me detenho a ler certos críti­
cos brasileiros me exaspera a arrogância de falar
como a última palavra. Falta mais alguns grãos
de modéstia aos que classificam e marcam as perso­
nalidades. Às vêzes, se enchem de citações como
baianas cobertas de balangandãs. A qualquer mo­
vimento tinem os metais inferiores e chegam a nós
indumentárias de arlequins de terça-feira gorda.
Passa o crítico a ser uma frisa de vaidades e o livro
criticado apenas o pretexto para o brilho do erudi­
to montado em citações. E o que podia ser avalia­
ção, o penetrar no segredo do autor, cresce em es­
petáculo. Ora, a boa crítica se faz para orientar
ou decifrar. E nunca para exibição ruidosa. En­
tre nós ainda há o crítico que se dirige pelo gôsto
venal da manifestação de segundas intenções. Co­
nheço um que vai até à moeda corrente do elogio a
trôco de favores. Crítica passa a ser ganhar qual­
quer coisa. Se lhe falha o golpe, então o negócio
provoca iras e restrições. O crítico que mantém a
sua banca cabala e mede favores. Essa é a crítica
252 J o s é L in s d o R ê g o

que não vê o autor e sim as possibilidades que ofe­


rece o autor em benefícios. Ainda prefiro o crítico
coberto de falsa erudição. O fato triste é que o pú­
blico não sabe o que acontece atrás dos bastidores e
se ilude com os que dominam colunas prestigiosas.
O que nos consola é que êstes intrujões não sobre­
vivem às suas mentiras e cavilações. O tempo de­
vora simuladores e velhacos. A criação não se pre­
judica com tamanhos impostores. Porque o que é
realmente grande terá o seu dia, enquanto os para­
sitas sucumbirão para sempre. Precisamos de boa
crítica, de homens sérios, de inteligências lúcidas,
de corações sensíveis.

SÔBRE O V E L H O E O N O V O

Julien Benda era o tipo de ensaísta que agita­


va uma casa de marimbondos. A sua vocação de re­
mar contra a maré deu-lhe, na crítica dos últimos
tempos, a posição de inconformado e irreverente.
Quando escreveu o seu terrível livro A Traição dos
Clérigos, contra êle se voltaram as fúrias dos ho­
mens de letras ligados à política. Maurras não o
perdoou e a França de 1927 arregimentou-se para
denunciar em Benda um pensionista das tôrres de
marfim. E não era êste o ponto de vista do crítico.
Apenas Benda queria que fôsse o homem de letras
um clérigo que não se passasse para o campo polí­
tico. Maurras falava de “politique d’abord”. E,
na insistência do reacionário que era uma máquina
de raciocínio, via Benda uma traição deslavada.
Mas não ficavam aí as atividades do ensaísta.
O V u lc ã o e a F onte 253

Achava que a sua época era um tempo de sofistas


de decadência, de ausência de verdadeiros criado­
res. E para chegar às suas conclusões atingia os
extremos. Para êle, em motivo de arte, o novo
sempre lhe parecia precário. Até adotava um cer­
to imobilismo para a Humanidade, pelo menos em
matéria de arte. Com efeito, dizia êle, por que fa­
zer nova música quando há Bach, Mozart, Beetho-
ven, Chopin, Schumann e Wagner? Nova poesia
quando há Homero, Virgílio, Shakespeare, Victor
Hugo, Baudelaire? O mesmo Benda dá resposta
às suas afirmativas. Se fôssemos pensar assim, não
teríamos Debussy, Balakirow, Strawinsky, Mallar-
mé, Claudel. Mas, do ponto de vista geral da ar­
te, nada temos perdido? Tenho a impressão de
que as formas de arte não são em número ilimita­
do, como acontece com a ciência. Os artistas do
nosso meio fazem música e poesia porque há ne­
cessidade do artigo no mercado. Isto nada tem a
ver com o fato de produzir qualquer coisa de artis­
ticamente importante. A propósito da atualidade
e do seu julgamento, apresenta-nos Benda o caso
da partitura da “A Africana” que fizera o deslum­
bramento da geração de 1855. Aos vinte anos Ben­
da considerava “A Africana” um fato artístico su­
perado. Era o tempo de Wagner. Para êle o que
existe é a arte fora do tempo, a arte que é o Virgílio,
ainda hoje capaz de comover, que é Homero a can­
tar feitos de gregos e troianos, mas que nos comu­
nica uma eternidade que é mais resistente que a
dos deuses do Olimpo. Para Benda mais vale o
254 J o s ê L ins do R éoo

ouro velho do que a lata nova. Às vêzes, a gene­


ralização do crítico chega a erros e absurdos. Po­
de persistir no clérigo o coração tocado de anos
pela humanidade. Os clérigos que só escutavam
os cânticos celestes podem empedernir o coração e
transformar-se em monstros. Em vez de trair a
clericatura, traem o próprio Deus que pensam
adorar.

P A L A V R A S D E T . S. E L IO T

Diz-nos T . S. Eliot que, em nossa época, lemos


por demais livros novos e nos oprime ainda a idéia
de outros livros que desejávamos ler. Lemos mui­
tos livros porque não podemos conhecer pessoas
que devíamos conhecer; não podemos conhecer a
todos aqueles que precisávamos conhecer. Por
conseguinte, se temos a facilidade de poder formar
palavras e vê-las impressas, terminamos escreven­
do livros. Com freqüência há escritores que so­
mos obrigados a conhecer e cujos livros podemos
ignorar. Quanto mais conhecemos certos escrito­
res, menos necessidade temos de lê-los. Não só
estamos coagidos pelo excesso de livros novos,
como molestados pela abundância de periódicos,
com informes abundantes e panfletos de circula­
ção privada. No desejo de estarmos bem informa­
dos sacrificamos as três razões permanentes para
a leitura: a aquisição de saber, o prazer da arte e o
gôsto pela diversão. É improvável, entre tôda
essa massa de papel impresso, que as obras mais
profundas e originais cheguem ao conhecimento,
0 V ulcão e a F onte 255

provoquem a atenção do público, ou mesmo de um


número considerável de leitores que estão em con­
dições de apreciá-las. A s idéias que adulam uma
tendência ou atitude emocional coerente são as que
chegam a se propagar; e outras serão falseadas
para adaptar-se ao que já está em voga. O resí­
duo que permanece do público dificilmente será a
destilação do melhor e do mais sábio. Quase sem­
pre representa prejuízos da maioria dos editores
e comutadores. Assim se formam as idéias fabri­
cadas, ou melhor, as palavras fabricadas. São as
que mais influem sôbre a massa dos leitores. É ne­
cessário contar essa história de papel impresso para
que o homem não se transforme em jôgo de pala­
vras. Verificamos, assim, que a consciência cul­
tural das próprias elites se destrói com o que pare­
ce a verdade definitiva. A mentalidade imposta
às maiorias não reflete um trabalho íntimo de co­
gitação. A s tais verdades nascem sem dor e po­
dem morrer com uma palavra de ordem. A cul­
tura verdadeira não será nunca esta planificação.
A cultura nunca pode ser inteiramente consciente;
supre, certo, mais do que entra no consciente. E
nunca poderá ser planificada porque é fruto in­
consciente de todos os nossos planos. O pensa­
mento de T . S. Eliot abrange o homem em tôdas
as suas atividades. Desde que haja crítica, ou
melhor, exame de consciência, o poeta e o cien­
tista não podem dizer: esta é a verdade que tenho
para os outros. A sua verdade em arte e ciência
terá que procurar o leito por onde corre a água da
256 J o sé L in s do R êgo

vida. Se o público aparece para ordenar os seus


princípios, tudo se reduz à precariedade de resolu­
ções partidárias. A arte, na sua origem olímpica,
é fôrça e voz dos deuses. Não será um político que
se julga com a verdade que há de dobrá-la como
escrava.

SÔBRE O CAJU

Nas manhãs de dezembro, no Nordeste, os ca­


minhos do litoral paraibano são como se atravessás­
semos um jardim silvestre. Os cajueiros floridos
espalham um perfume que nos envolve de um sabor
esquisito. O perfume tem tanto gosto que nos en­
che a bôca dágua. Assim operam as mangueiras
nos sítios e nos quintais. Mas o cheiro do cajueiro
é como se viesse também do fundo da terra. Você
não pode identificar de onde parte. É como o chei­
ro de corpo de uma mulher depois do banho. É
o estado geral de glândulas sadias que se expan­
dem por toda a parte. O cajueiro carregado de
flôres faz o ambiente desabrochar para o nosso en-
lêvo. Foi por isso que, depois da viagem de avião,
no percurso da estação para o centro da cidade,
com os cajueiros em dezembro, Assis Chateau-
briand dizia ao amigo que o acompanhava: “ Trago
um caju no coração” . O perfume do cajueiro não
nos deixa jamais. Sempre que sigo de João Pessoa
a Cabedelo na época da floração, sinto-me ligado à
Paraíba pelo corpo. Cheiram por ali os cajueiros
de Mandacaru, do Bessa, do Poço. O chão coberto
de fôlhas sêcas conserva o cheiro mágico e os res-
0 V ulcão e a F onte 257

tos, que penetram no automóvel, vêm saturados de


perfume inconfundível. No engenho do meu avô
havia uns aceiros demarcados pelos cajueiros que,
às primeiras chuvas, se cobriam de flôres. Nas
noites, a casa-grande recebia o banho das emana­
ções dos cajueiros. Dormia-se com perfume novo
que abafava o do jasmim-laranja das estacas do cer­
cado. Tenho, assim, a minha meninice ligada aos
cajueiros dos aceiros do canavial. Por isto tudo é
que o ensaio de Mauro Mota, editado pelo nosso
Simeão Leal, no Ministério de Educação, me tocou
de muito perto. A monografia me parece mais do
que um estudo de tese de concurso. Ali senti o lí­
rico Mauro Mota com um assunto maior do que o
da especialização. O poeta foi mais do que geógra­
fo. Apesar de tôda a sabedoria, o autor conseguiu
apresentar a imagem do cajueiro na sua presença
idílica. Árvore que não se conforma com a forma
rígida mas que se deita na terra, que se contorce
em variações imprevistas, mereceu do pernambu­
cano todos os cuidados de artista. Viu Mauro
Mota o cajueiro em tôdas as suas manifestações. O
cajueiro fermentando vinho, inspirando artistas,
dando paisagem àquela beleza que já impressionara
os holandeses de Maurício de Nassau. A monogra­
fia é completa. E mais do que monografia capri­
chou o poeta nas sugestões que a nós nordestinos
nos tocam profundamente. Bem que sabiam os ín­
dios cariris o que era o caju para por êle guerrearem
como os gregos pela sua Helena.
A V ID A D E U M A E S T R A D A D E FERRO

No seu livro História de Uma Estrada de Fer­


ro, o Sr. Estêvão Pinto faz uma completa biografia,
se assim se pode dizer, da nossa nordestina Great
Western. A s origens, os estudos, as áreas, as di­
ficuldades técnicas do nosso sistema ferroviário
aparecem no ensaio com abundância de pesquisas
originais.
O historiador caprichou nos números, na exa­
tidão cronológica, nos detalhes mais minudentes.
Tudo que é fato concreto, que é episódio, mesmo
secundário, está bem anotado na obra, sem que esta
preocupação pela veracidade nos atole no documen­
tário estafante.
Li o livro como nordestino, ligado que sou à
Great Western como a um dos grandes motivos
dos meus esportes de menino de engenho. A linha
de ferro nos comunicava um verdadeiro entusias­
mo, como se fôsse um poder fora da Natureza. Lem­
bro-me dos parentes da Cotinga ou de Itanhé, a ve­
lha prima Felismina, que conduzimos ao corte da
Paciméia, para que ela visse de perto, pela primei­
ra vez, o trem.
O pavor que se apoderou da velhinha foi para
nós meninos motivos para debique. Não podíamos
262 J o sé L in s d o R e g o

compreender o pânico daquela natureza acostuma­


da aos remansos da vida, diante daquela brutalida­
de de ferro que se movia a galopes.
Confesso que o primeiro grande herói de mi­
nha galeria não foi outra pessoa que o negro Chico
Diabo, maquinista, que ia ser, no comando da lo­
comotiva, de boné, magro, de pé, maior que o meu
avô José Lins, mandando no colosso, apitando, ca­
paz de matar, furando o mundo com a velocidade
do bicho que fumaçava.
Fala o Sr. Estêvão Pinto numa tentativa de re­
belião provocada pelos novos horários dos trens,
atribuindo a interesses de comerciantes da Paraí­
ba contra a absorção da praça do Recife. Sei mui­
to bem do fato, porque ouvia sempre dêle se falar,
pois o chefe de tudo fôra o meu padrinho e primo
Gilberto, filho de criação do meu avô. O caso se
prendia à mudança dos horários, e pelo que se dizia
nada teve que ver com comerciantes da capital do
Estado.
Apenas o conflito da estrada de ferro com o po­
der do senhor de engenho. O primo Gilberto era
um rapaz com sangue quente e quis dar uma lição
no inglês da estrada. Daí as depredações, os tri­
lhos arrancados, as pontes dinamitadas. A estra­
da de ferro, mais do que o próprio Govêmo, era um
poder que não respeitava o caciquismo rural. A
tropa de linha fêz intervenção pelos engenhos, hou­
ve prisões. Mas tudo terminaria bem. Os inglê-
ses foram-se adaptando à terra e aos homens e não
O V u lcão e a F onte 263

durou muito tempo que chegassem até a ligações


mais íntimas com a gente dos engenhos.
Houve uma môça, pobre filha de morador, que
se casou com um mecânico inglês das oficinas do
Engenho dos Reis, sem que levasse em conta o sú­
dito da Sua Majestade Britânica preconceito de ra­
ça. E não tardou que os “misters” se transformas­
sem em “ seus”. Os Seu Schmidt, Seu Clarck e
tantos outros.
Posso afirmar que a história da Great Western
não deixou de ser um bom capítulo dos inglêses
no Brasil.

“A P A R Ê N C IA DO RIO D E J A N E IR O ”

Gastão Cruls entra na vida íntima da cidade,


penetra fundo nos costumes dos antigos e chega a
nos mostrar um Rio de Janeiro nos começos da sua
urbanização, com a chegada da Côrte de Portugal,
com o comércio inglês de atacadistas, com os fran­
ceses das elegâncias.
O que havia para mostrar aos reinóis sibaritas
era um burgo quase atolado nos alagadiços. Os
vice-reis muito fizeram. Muniz Freire, com o seu
curto período de trinta anos, o Conde dos Arcos e
outros haviam-se esforçado para que a capital da
colônia fôsse mais alguma coisa do que o arruado
torto, com algumas igrejas bonitas. No mais, o
Rio de Janeiro nada tinha para mostrar. Os en­
saios de urbanismo de mestre Valentim não foram
além de alguns chafarizes e do arranjo do Passeio
Público.
264 J o s é L in s d o R ê g o

Quando o Príncipe D. João pisou em terra foi


logo, desde a Bahia, abrindo os portos da colônia
às nações amigas. A í começa a existir o Rio de
Janeiro como cidade. A gente da Côrte trouxera
o gôsto pelo luxo. E logo que as damas de Lisboa
apareceram com as novidades de além-mar, as bra­
sileiras acanhadas iniciaram-se na moda. É ver­
dade que não foram felizes, ao primeiro contato com
o figurino europeu. Tanto assim que nos conta
Gastão Cruls o seguinte episódio que tão bem ca­
racteriza a inocência das cariocas dos começos do
século X I X : “A s damas da Côrte, porque durante
a longa travessia se desenvolvesse a bordo uma ter­
rível praga de piolhos, para combatê-la, viram-se
na contingência de cortar rente os cabelos e aqui
ainda desembarcaram com uma estranha cabeça à
“garçonne”. E as brasileiras — zás! — , supondo
ser aquilo o último requinte de elegância, trataram
logo de pôr abaixo as lindas madeixas”.
Mas as bugrinhas, com pouco mais, se trans­
formavam. Entram em ação os franceses da Rua
do Ouvidor dando gôsto, ensinando a vestir, a ar­
rumar a casa. E logo a carioca podia enfrentar as
grã-finas de Lisboa. Aparecem os mestres em
penteados, as madamas com o “chic” de Paris, os
professores de dança. A Rua do Ouvidor civiliza
a brasileira.
Esta parte do livro de Gastão Cruls, Aparência
do Rio de Janeiro, nos põe em contato com as ori­
gens da carioca de hoje. A moreninha de Macedo
perde aquêle seu sabor agreste para se afinar atra­
0 V u lcão e a F onte 265

vés das medidas das costureiras, dos penteadores,


dos jornais de moda. E, assim, a Rua do Ouvidor
assume os ares de uma academia de bom-tom.

A L IT E R A T U R A NO B R A SIL

Afrânio Coutinho orienta e colabora na publi­


cação de uma história da literatura brasileira. O
trabalho para a escolha dos homens capazes da
obra obrigou-o a rigorosa seleção de valores. Os
ensaios obtidos para a confecção dos volumes já pu­
blicados nos dão a medida de admirável esforço crí­
tico. A s histórias de literatura precisam de certa
unidade de avaliação, senão se desgarram em várias
correntes que se perdem do grande leito. Procurou
o ensaísta e crítico Afrânio Coutinho um denomi-
nador-comum para coligir e ligar os ensaios que lhe
chegaram às mãos. Assim, nos deu um valioso re­
positório de idéias e apontamentos que dignificam
a vida mental brasileira. Se falta aos volumes o
calor da paixão individual, isto é, a unidade criado­
ra de um só autor, em visão geral, por outro lado, so­
bra aos capítulos a variedade de estilo que não se
contradiz em colcha de retalhos. Há o espírito do
livro em todos os colaboradores, o espírito de equi­
pe, que faz os grandes levantamentos das enciclo­
pédias. A ação unificadora de Afrânio Coutinho
merece a nossa admiração. Em vez de se abando­
nar aos seus companheiros, assumiu, com alto dis­
cernimento, o controle do barco. Não há atritos de
opinião e nem conflitos de idéias nos textos impres­
sos. Pode dizer-se muito bem que há a história de
J o s é L in s d o R ê g o

uma literatura, no conjunto de ensaios que foram


escolhidos. A vida mental brasileira, desde os co­
meços coloniais até o modernismo, aparece nos seus
relevos, nas suas saliências e depressões. Não fêz
uma história apologética, mas severamente crítica.
A princípio, temeu-se pelo sucesso do empreendi­
mento. Muitos achavam que uma obra dessa na­
tureza carecia de unidade mais evidente. Ficou
provado que o talento e o escrúpulo de Afrânio Cou-
tinho venceram os obstáculos. O livro ficará, acre­
dito eu, como um marco em nossa crítica literária.
Há ensaios de primeira ordem, mas a média dos tra­
balhos é bem elevada. O mestre Afrânio Couti-
nho nos dá a sua contribuição sôbre o barroco, em
magnífico estudo interpretativo. Enfim, chega­
mos ã conclusão de que no Brasil o trabalho mental
não se amofina apesar de tantas mesquinharias de
uma sociedade que se debilita na vulgar imitação
do que há de degradante no pobre e triste mundo
burguês.

“M EM Ó R IAS DO D IS T R IT O D IA M A N T IN O ”

O mineiro que se encontra no livro de Felício


dos Santos Memórias do Distrito Diamantino ago­
ra em edição “O Cruzeiro” é bem outro daquele
que Vasconcelos situa em Vila Rica. Ambos vie­
ram atrás de riquezas minerais, ambos se davam
às pesquisas das minas de ouro e de outras lavras.
Mas o homem do Distrito conseguiu forjar um
homem da natureza do Intendente Câmara, mais
um senhor do que um funcionário do Rei. O Dis­
O V u lcão e a F onte 267

trito Diamantino atraiu para os seus diamantes


gente de espírito de aventura, ao contrário de Vila
Rica que se ligava ao ouro como se fôsse bem de
raiz. O homem da sede da capitania imaginava
que as veias auríferas fôssem eternas e por isto
cercava as explorações de vaidades meticulosas.
Os diamantinenses andavam na faiscação sem ten­
dências gregárias. Chegavam e desapareciam sem
drama. O viver no Distrito não era uma rotina de
cidade, mas vida de acampamento. Os mineiros de
Vila Rica se tinham na conta de quase reinóis. Uma
Chica da Silva não seria possível por lá. Em Dia­
mantina, o homem não se prendia à rotina adminis­
trativa. Um Felisberto Caldeira Brant tem qual­
quer coisa dos florentinos, pela coragem, pela im­
petuosidade de ação. Na outra Minas, predomina
um certo gôsto pela lisura, a desconfiança dos que
amam o dinheiro e temem perdê-lo. No Distrito,
o diamante se transforma em agitação social pela
facilidade com que passa de mão em mão. João
Fernandes não se deixa dominar pela ganância de-
voradora. Faz de Chica da Silva, a mulata sem
beleza, uma rainha coberta de pedrarias. O minei­
ro em Vila Rica gasta na igreja com mêdo das pe­
nas do inferno. De todos os seus recalques brota
o gênio do Aleijadinho. Um Aleijadinho não se­
ria possível no Distrito onde os homens são liber­
tos e boêmios. A leitura de Joaquim Felício dos
Santos nos esclarece sôbre a vida venturosa dos ti-
jucanos. Nesse livro, escrito como crônica, apare­
cem figuras admiráveis como a do Intendente Câ­
268 J o sé L in s d o R Ê go

mara, valioso condutor que trazia para os sertões a


melhor ciência do seu tempo. Quando Lisboa se
arruinou com o terremoto, um Marquês muito se
serviu do Distrito para as suas obras de recupera­
ção. A s duras leis do Marquês temiam a rebeldia
dos nativos. E, por isto, o Govêrno não tinha pie­
dade para punir. O que se salvava era o humor dos
tijucanos que não armavam conspirações como em
Vila Rica. No Distrito fazia-se oposição às gaita­
das. O povo do Distrito não tinha mêdo do risco.
A fôrça do El-Rei não atemorizava os aventureiros.
O próprio Intendente Câmara se arrependeu de cas­
tigos inflingidos a contribuintes faltosos. Enquan­
to Vila Rica afiava, na escuridão, a lâmina de sua
espada, o Distrito falava mal de governadores e jui­
zes, de portas abertas. Podiam ouvir as suas críti­
cas e pouco se importavam êles.

C A R N E M A R A V IL H O S A

Jeannine Worms escreveu um romance que se


liga à tradição francesa dos analistas do amor.
Assim como Dominique, de Fromentin, a au­
tora de II Ne Faut Jamais Dite Fontaine. . . tirou
de uma criatura perversa a substância passional de
uma criatura que fêz do contato sexual a razão de
sua vida. A figura central da história, a Senhora
Du Pommier, sente-se fora do mundo porque os
seus anseios de mulher de carne quente não se con­
tentam com a rotina doméstica. Não será uma
Ema Bovary. Nesta, o amor é o condutor de sen­
sibilidade mórbida, o sonho de fugir da realidade
O V u l c ã o e a. F o n t e 269

provinciana pela imitação. Bovary não é um caso


de amor, mas um estado de espírito.
Do romance da Senhora Du Pommier, exalta-
se a carne na procura de pura satisfação sensorial.
A mulher criada por Jeannine Worms quer o amor
para seu jôgo. A idéia de jôgo não existe em Ema
Bovary, que era uma sentimental. O amor foi-lhe
somente uma carruagem para a evasão. Du Pom­
mier tem mais do Amaury de Sainte-Beuve, que era
um sexo à procura de se realizar.
Jeannine Worms, como os franceses do bom
romance psicológico, cava o mistério de sua perso­
nagem central com instrumentos afiados.
A história da bela Du Pommier situa-se no qua­
dro de uma Manon Lescaut sem Des Grieux. A
cabeça fria da heroína de II Ne Faut Jamais Dite
Fontaine. . . não resiste ao seu coração que termi­
nou como o de qualquer “midinette”. Os cálculos
sôbre o amor conduzido despedaçaram-se no pró­
prio amor de Safo abandonada. Du Pommier que­
ria servir-se do marido e do amante, ao gôsto de sua
volúpia. E a volúpia incendiou-lhe as carnes, a
bacante não teve fôrças para conter os seus desejos.
Marido e amante, em vez de seus instrumentos,
passaram a viver sem que ela lhes fôsse o essen­
cial. A í se dá a desgraça de Du Pommier. Não
se mata como Bovary, mas se aniquila, acinzenta-
se, foge-lhe o fulgor da carne de vulgívaga. Nem
lhe morre bêbedo o marido e nem lhe morre tísico
o amante, conforme a cantiga do poeta.
270 J o s é L in s d o R ê g o

Du Pommier é que se apaga, fica pobre luz de


fogo-fátuo. Luz que deixa de queimar, distante
clarão frio como os túmulos.
É assim a história do romance de Jeannine
Worms, dolorosa queda de uma carne maravilhosa
Du Pommier deixou-se sugar pelo vampiro do
amor.

B R ISA E M CAM PO F L O R ID O

Publica-se a segunda edição do livro de Auré­


lio Buarque de Hollanda (Dois Mundos, Edições
“O Cruzeiro”) e nunca é tarde para voltar às ori­
gens literárias do seu autor, homem dos mais sen­
síveis à poesia que conheço, mas todo entregue a
estudos de lingüística, a ponto de, às vêzes, como
aconteceu com João Ribeiro, deter-se mais sôbre as
palavras do que sôbre as imagens. Homem mais
da semântica do que de sua admirável vocação para
a criação.
Conheço Aurélio Buarque de Hollanda há trin­
ta anos, ainda êle menino e já professor de um co­
légio. Por êsse tempo, em Alagoas, formava num
grupo que daria brilhantes figuras às nossas letras
e política.
Buarque, de longos cabelos louros, refugiava-se
nos poetas e os sabia quase que de cor. Foram-se
os tempos e permaneceu o mesmo homem, embo­
ra lhe fôssem os cabelos.
Aqui no Rio, para viver, procurou o magisté­
rio e se fêz uma espécie de cabeleireiro de escrito­
res que lhe caíam às mãos para rever. O que, po­
O V u lc ã o e a F onte 271

rém, caracteriza as preocupações de língua, em


Buarque, não são empecilhos ao seu bom gôsto. E
aí estão êstes seus contos, alguns verdadeiras obras-
primas como “O Chapéu de Meu Pai”, qualquer
coisa na altura de Tchekov.
A poesia dos incidentes, das pequenas coisas,
dos gestos sem dramaticidade atravessa a prosa de
Buarque como brisa em campo florido. Sente-se,
em certos trechos de seus contos e novelas, um co­
ração ferido, a dor miúda que se evapora nos epi­
sódios narrados com a ternura de mãos de sêda.
Não há, na prosa de Aurélio Buarque de Hol-
landa, as côres cruas, os gritos e os lamentos que
fazem os passos da tragédia. A surdina do contis­
ta de Dois Mundos se envolve de música que nos
comove. Foi assim uma Katherine Mansfield.
Neste sentido, não há igual em nossas letras.
Mesmo o admirável Marques Rebelo é outra coisa.
Buarque narra em harmonia com os seus sentimen­
tos, fazendo de sua prosa uma tela impressionista,
com tôda aquela melancolia de Manet. Não é êle
um escritor para talhar pedras duras como Tolstoi.
É de material macio, assim como a pedra-sabão de
que se serve quase sempre.
Escapa dessa sua maneira a narração que nos
dá sôbre as cabeças dos cangaceiros, onde as pala­
vras furam a nossa sensibilidade como verruma de
marceneiro. O poeta Buarque se exasperou com
o crime brutal e castigou os homens com a seqüên­
cia sinistra de sua narrativa. Já disse certa vez
que, diante dêste livro, todos nós nos sentimos fur­
272 J o s é L in s d o R ê g o

tados. É que se verificou o lamentável de homem


tão dotado ser desviado para outros gêneros. Buar­
que é, de natureza, um escritor de novela ou de tea­
tro. Deixando-se desviar para outras atividades
violentou o seu destino. É como se Machado de
Assis fôsse somente um Mello Morais, fugindo da
vocação de seu gênio.
Buarque se entregou lamentavelmente. Quem
foi capaz dos contos de Dois Mundos está come­
tendo crime ao desviar-se para a erudição. O Au­
rélio Buarque de Hollanda que ama os poetas como
gente de seu sangue ausentou-se da literatura de
ficção com o sacrifício de nossas letras.
Disse uma ocasião: quem nasceu para rei não
pode amesquinhar-se em labor de lacaio.

O R O M A N C E D E H E R B E R T O SALE S

A consistência novel esca do romance vem so­


frendo, em dias de nosso século, a erosão do tempo.
A narrativa corrente, a história passional, os
fatos e os ambientes estão sendo atacados pelo con­
teúdo poético de autores que não mais levam em
consideração a rotina do gênero, a ponto de desfi-
gurá-lo. Muitas vêzes, os leitores não chegam à
conclusão exata sôbre o que estão lendo. Os ro­
mancistas se dão às grandes aventuras do espírito
onde mais valem as suas pesquisas sôbre êles pró­
prios que a vida de seus personagens.
Aí está o caso de Joyce, um homem de gênio
que, num romance desenrolado em vinte e quatro
horas, planejou revolver um mundo de sensações e
0 V u lcão e a F onte 273

ideais sôbre o homem, valendo muito mais no seu


Ulysses a meditação mórbida que os passos maravi­
lhosos da aventura do outro de ítaca. Mas em
Joyce o homem se condensou numa autocrítica que
é o fim de tudo. Depois de Joyce não há salvação.
Após essa tremenda destruição da alma, Louis
Ferdinand Celine fêz a sua viagem ao fundo da noi­
te. Vimos um Ulisses nas selvas, em contato ín­
timo com as febres e os calores equatoriais, o ho­
mem arrasado à procura de um clarão de sol que
não viria. A s viagens pelas águas azuis do Medi­
terrâneo seriam, agora, viagens ao fundo da noite
tenebrosa. Os deuses de Homero viraram caran-
tonhas de sabás na floresta virgem.
E, assim, o romance seria bem outra coisa que
fôra em Stendhal. O público, porém, não se con­
formou com a revolução. Ulysses é um livro para
meia dúzia, apesar de tôda a sua genialidade.
O público queria história e não decomposições
perversas da personalidade. Para que houvesse
um Joyce, necessário era que houvesse o homem de
gênio. E isto não é tão fácil assim. Romance
continuará a ser para os simples uma história.
Foi assim que operou Herberto Sales com os
dados de sua experiência de filho de Andaraí, lá
para as bandas do rio Paraguaçu. O seu romance
Cascalho não é uma ópera de espanto, montagem de
imagens, de artifícios e de complicações cênicas.
Sales sabe o que faz e deu à sua história a realida­
de de seus contatos e sonhos. Existe, no seu livro,
uma realidade filtrada pelo sonho. Para mim essa
274 J o s é L in s d o R ê g o

é que é a marca do romancista. Quando a realidade


pesa sôbre a imaginação, procurando abafá-la como
chumbo, aparece a sublimação do sonho e arranca
o romancista da morte.
Cascalho é um livro descritivo, mas livro de
artista, um romance que não quer mudar a face do
mundo, mas fixar o homem numa trama de agonia
e crime. Para muita gente o autor carregou na fi­
guração de criaturas que são desprezíveis, como o
Coronel Germano, o Quelèzinho, o Doutor Marco-
lino. É que nada se sabe da vida torpe da garim-
pagem.
O romance de Herberto Sales situa-se numa
vila baiana e nos descreve as relações de explorados
e exploradores da indústria rudimentar dos carbo-
natos. A s pesquisas pelas margens do Paraguaçu
têm, em certos momentos, acentos épicos. As
águas do rio nem sempre se portam como instru­
mentos moles nas mãos de Deus. O rio se insur­
ge contra o homem e o esmaga como a qualquer
arbusto de suas margens.
A narração de Sales nos empolga quando nos
põe à vista a energia dos mineradores diante da
pressão esmagadora da enchente. Ou então quan­
do nos apresenta os chefes a disporem da vida dos
pobres mineiros como de coisas. A morte daquele
negro Peixoto, determinada pelos grandes da vila,
é página que fica em nossa literatura. A cobiça
se enraíza nas terras dos carbonatos como erva da­
ninha. Não há em todo êsse livro um coração ge­
neroso. O próprio Promotor Oscar não passa de
0 V u lcão e a F onte 275

aventureiro à procura de boa colocação na carrei­


ra. Ao primeiro aceno da fôrça, foge da vila açoi­
tado pelo “ Mineiro Pau”, espécie de côco feito para
desmoralizar os que não convém serem passados
pelo trabuco.
Cascalho é um romance realizado sem violen­
tar a tradição do gênero. Pode o Sr. Herberto Sa­
les estar certo de que o seu sucesso não é fruto do
momento. Modestamente procurou êle dar corpo
às suas recordações de Andaraí. Os homens e as
coisas que lhe chegaram à memória superam a rea­
lidade ambiente, mas se eternizam porque quem os
tocou possui aquela fidelidade interior que escapa
às máquinas de precisão. O seu dom poético atin­
ge as profundidades onde não chegam as lentes de
laboratório.

SÔBRE O R O M A N C E

Acabo de ler um curioso ensaio de Armand Pier-


holl sôbre o destino do romance e lá encontro de­
batido o problema em têrmos de admirável com­
preensão. Para Pierholl muito contribui a pertur­
bar a discussão o querer classificar como novela
obras que têm muito pouco de romance. Por exem­
plo : os poemas em prosa. É bom repetir, para evi­
tar confusão, que a novela é um gênero. Pode ela
ser melhor ou pior escrita, mas as qualidades de um
estilo novelesco não são as mesmas de um ensaio,
da prosa poética ou do poema. A primeira quali­
dade de um estilo novelesco será o poder de evoca­
ção imediatista, ao extremo. O estilista pode ter
276 J o sé L in s d o R ê g o

a pretensão de criar uma língua pessoal, o novelis­


ta deve empregar, no possível, a língua de todo o
mundo e a sua primordial preocupação deve ser a
de ajustá-la, constantemente, à realidade. E deve,
para conseguir tal, empregar os meios mais simples
em aparência. Porque uma pessoa, demasiada­
mente rebuscada, corta os contatos com a fábula.
Por isto um bom estilo novelesco, direto sem flo­
reado, familiar sem vulgaridade, descritivo sem ser
carregado, preciso sem pedantismo, evocador, ele­
gante sem afetação é o mais raro. Assim foi Sten-
dhal. Balzac escrevia mal e os que sabem russo
falam da pobreza da língua de Dostoievski. Há
novelistas, mesmo entre os grandes, que preferem
se mostrar revolucionários do estilo do que tes­
temunhas do universo criado. É verdade que o es­
tilo de um ensaísta ou poeta pode ser estático. O
que no romance seria a sua morte. O romance é
que nos arrasta em sua página, obrigando-nos a se­
guir o caminho dos personagens. O poema pede
tempo para sua leitura, ao passo que o romance cor­
re como sangue nas veias. O novelista muito per­
de quando pretende ser estilista, porque assim atrai
a atenção sôbre si mesmo quando existem os seus
personagens. Paul Valéry, que era, essencialmen­
te, um poeta, nunca tentou o romance porque não
queria confundir-se com a Humanidade em geral.
Para êle escrever: “ O Marquês saiu às cinco horas”,
era humilhar a sua vocação de artista. Armand
Pierholl acha que a frase repelida por Valéry pode­
ria ser bastante trivial, mas que a arte do novelis­
0 V u lc ã o e a F onte 277

ta consiste em dar um sentido de eternidade ao tri­


vial do Marquês. É nisto que reside o gênio do no­
velista: em marcar de luz imortal palavras da vida
cotidiana. Ao estilista repugna a palavra comum.
A verdade é que o sôpro de vida pode animar o que
nos parece banal e conduzir o que é o mais simples
ao mais complexo. A pura água da montanha con­
duz em sua queda vertiginosa energias abandona­
das. Fazer um romance não é compor um poema
de beleza formal, com a eufonia que, às vêzes, é
mortal aos romancistas. Fazer um romance ainda
é, como queria Balzac, competir com registro civil.

U M A T R A D U Ç Ã O D E E D G A R POE

A Livraria do Globo, de Porto Alegre, acaba


de lançar, em edição de primeira ordem, as obras
completas de Edgar Poe. Trata-se de um magní­
fico esforço, que vem mostrar que os nossos edito­
res estão procurando usar mais alguma coisa que o
livro fácil. Ontem, era a Livraria José Olympio
Editora com as edições de Dostoievski, agora êste
Poe que se apresenta em três volumes e com tra­
dutores de categoria.

O desgraçado Poe foi, com os seus tradutores,


homem de sorte. Basta que se fale de Baudelaire,
gênio da poesia, que se tomara de paixão pela obra
do americano desconhecido, e dezessete anos con­
sumiu, de sua terrível vida, a passar para o francês
278 J o sé L in s d o R ê g o

as prosas e os versos do irmão de sonhos e essência


poéticos.
Apesar do “ Corvo” e das novelas extraordiná­
rias, Edgar Poe seria para a língua portuguêsa um
quase desconhecido. Pouco se passara para a nos­
sa língua de toda a grandeza de uma obra que ata­
cara, em profundidade, a alma humana. O Poe do
nosso conhecimento vulgar era só o poeta de um
poema. E poema que tivera o destino de certos
sonetos célebres de propagação fácil, traduzido e
falado de tôdas as maneiras.
Há bem pouco tempo, relendo uma tradução
para o francês de poesias de Poe lá vinha, em pre­
fácio de um inglês, a confissão de que havia mais,
naquele poeta, gênio de gaulês que de anglo-saxão.
E, de fato, não faz muito tempo que a literatura de
Poe não seria levada a sério entre os povos de lín­
gua inglêsa. Havia qualquer coisa na grandeza de
Poe que não se dava bem com a tradição de sua
gente. Era uma qualquer coisa que escapa aos
críticos.
E o que seria? Uma literatura que em França
contara com fanáticos como Baudelaire e Mallarmé,
não tocara a sensibilidade de povos que amavam,
que valorizavam a melhor e mais profunda poesia.
Às vêzes, tôdas estas incompreensões provêm de
detalhes que nos escapam. É verdade que, hoje em
dia, há uma voga de Poe, mas, mesmo assim, quan­
do se lê os grandes críticos inglêses e americanos
encontra-se sempre a restrição que parece um res­
sentimento.
0 V u lc ã o e a F onte 279

Para os americanos haveria, em Poe, uma es­


pécie de cabalística que não ia com a sua mocidade,
com o tom primitivo dos seus primeiros tempos.
Mas para a Inglaterra, o que seria a deficiência do
mestre de forma perfeita, de sabedoria requintada,
de ritmo tão próximo da língua, não nos dão conta
os descobridores de mistérios.

Em França, a voga de Poe nunca parou de


crescer. Admira-se o poeta, e homens, como Mal-
larmé, íntimo da língua inglêsa, não só lhe amam a
poesia como se apaixonam pelo vigoroso e sutil en­
saísta que existiu em Poe. A crítica do poeta tem
raízes filosóficas, atinge, quase sempre, os mais
fundos esconderijos do conhecimento. Aliás, o
próprio Edgar Poe, em confissões que ficaram cé­
lebres, fala de seus processos de composição, como
de um labor de difícil meditar. Neste sentido, se­
ria um precursor de Valéry, na busca, na procura
quase que doentia da palavra exata, do ritmo, da
forma que fôssem como entranhas da composição.
O teórico da arte, que existe em Poe, quase que
supera o grande poeta.
Em tudo, porém, o que existiu foi o caso Edgar
Poe, um estranho caso de, em terra nova, em povo
jovem, surgir a flor esquisita que é a sua obra intei­
ra. Tudo em Poe faz lembrar um passado, uma
velha ordem fundada em séculos. E é de um con­
tinente que espanta o mundo pelos seus dados ma­
teriais, e nos surge como um especulativo, uma pai­
280 J o sé L in s d o R ê g o

xão poética que nada tem a ver com o universo que


o cerca e o vence.
Não poderia sintonizar com a vida de seu tem­
po e nem de seu povo. Quando, no prefácio às suas
poesias, em 1845, há quase um século, êle dizia:
“Eu desejo que os meus versos circulem. Em de­
fesa de meu próprio renome afirmo que êste volu­
me nenhum valor terá para o público e nada para
mim trará de proveito”, fazia Poe a crítica do seu
tempo.
Morreu quase de fome, na terra que seria de
tão largas generosidades para todos os homens do
mundo. Mas Poe não era poeta da América. Era
de um outro planeta, como herói de um conto ex­
traordinário.

R E V E L A Ç Õ E S D E RIOSECO

Arturo Torres Rioseco é um homem de letras


chileno que esteve aqui no Rio a dar um curso de li­
teratura para a Casa do Estudante do Brasil. Ago­
ra publica a Editora E. B., em volume, e mesmo
sem o tom de lição, as palestras de Rioseco. O
mestre chileno, pela sua feição simples e sobretudo
pelo natural de sua cultura, é homem sem compli­
cações eruditas. Fala fácil e diz tudo o que quer
na melhor forma possível.
O que êle chama de expressão literária do Novo
Mundo é a presença de poetas e prosadores da cha­
mada América Latina. E, neste sentido, traça um
largo painel de uma cultura que se fixou no solo,
que criou raízes em terras selvagens, que se cruzou
0 V u lcão e a F onte 281

com outras culturas nativas para chegar a um Ru­


bem Dario, a um Martin Fierro, a um Pablo Neruda.
Um ponto de vista curioso do livro de Rioseco
me parece aquêle em que trata das influências. E
das reações que se operaram entre povos estranhos,
aqui na América. Para Rioseco a influência fran­
cesa dera às nossas literaturas um equilíbrio que
as libertaria do desmedido entusiasmo pelo folclóri­
co, pelo popular. Para êle seria um êrro de visão
acreditar que o estritamente popular fôsse o mais
americano. O popular e folclórico deviam valer
como fôrça de instinto a que a medida formal da­
ria número e regra. E, para chegar a realizações
verdadeiras, a boa literatura teria que se servir das
falas, dos cantos, das copias nativas através de in­
terpretações artísticas. Os casos de Hernandez,
de Güiraldes, de Gallegos, de Rivera dão, dêste pon­
to de vista, uma exata combinação de natureza e
de arte.
A França, para Rioseco, contribuíra de modo
decisivo para libertar as literaturas americanas de
seu primarismo pitoresco mas sem vigor artístico.
Pode-se contrariar a tese de Rioseco e dizer
que alguns poemas gauchescos superam a muito
sonêto de parnasianos ou a muita elegia de simbo-
listas de imitação que enchem antologias sul-ame­
ricanas.
Mas isto nada tem a ver com a tese do ensaís­
ta chileno e nem com a literatura francesa. O li­
vro de Rioseco está cheio de notas, de observações,
282 J o sé L in s d o R ê g o

de descobertas que, para nós, são de máxima uti­


lidade.
Porque a verdade é que todos nós, da América,
vivemos em ilhas, sem comunicações, ignorados uns
dos outros, indiferentes ao que existe de grande em
letras e artes de nossos vizinhos. A conversa de
um homem assim como Rioseco provoca e promo­
ve ligações reveladoras.

A S M E M Ó R IA S DE D A N IE L D E C A R V A L H O

Há uma verdadeira safra de memórias na lite­


ratura de nossos dias.
Estamos em fase de confissões, de depoimen­
tos, de recordações. Há os que se voltam para a
infância atrás de contatos que sejam capazes de dar
à sensibilidade o verdor que o tempo fizera seco.
O menino ressuscita no adulto o homem que se gas­
tara, que se puíra nos choques da vida. A s pro­
fundidades poéticas operam o milagre de conduzir
o autor às origens que estão no fundo da terra. O
solo revolvido fica em ponto de novas plantas vi­
çosas. Às vêzes, a fôrça órfica transforma a água
em vinho.^ E o que fôra apenas dias comuns cria
o relevo de um estado patético. Estas são as me­
mórias que se aproximam da ficção, dando-nos a
impressão de que o romance e a vida se confundem.
Foi o que aconteceu com Moore que, ao ter­
minar as suas confissões de artista, chegou a jul­
gar que a sua imaginação criara, em vez do seu
mundo, o mundo de personagens com os quais qui­
sera êle assemelhar-se. Essas são as memórias
0 V u lcão e a F onte 283

que se enchem das mentiras sublimes de Rousseau


e nos confundem com a sua mistura de realidade
e fantasia.
Mas existem os outros que só falam a verdade.
Que falam até demais do que aconteceu.
Daniel de Carvalho é um político que sempre
viveu bem com a sua consciência. O estudante
que gostava de cerveja foi, desde a adolescência, um
homem feito. O mineirinho do afago de Pinheiro
Machado foi estudante com as ruidosas traquina-
gens de Belo Horizonte, mas mesmo nesse período
de expansões gaiatas um homem disposto a se afir­
mar em atitudes normais. Tanto assim que, em
plena mocidade, vai ao Rio Grande meter-se contra
um comércio que queria fazer das tolerâncias da
fronteira normas fiscais. Era presidente do Esta­
do o autoritário Borges de Medeiros, político for­
rado de Augusto Comte e de disposições para o go-
vêrno pessoal. Daniel de Carvalho chega para re­
solver uma pendência grave entre o fisco e contri­
buintes afoitos. Estabelece-se a luta. Carvalho
atinge conclusões que não agradam ao Presidente.
E, dentro do palácio, Borges procura dobrar o mi­
neirinho com um gesto descortês. Carvalho en­
frenta o senhor absoluto e grita na sala de despa­
chos. Aparecem figurões da Côrte. O mineirinho
parece um galo de briga. Até que Borges de Me­
deiros reconhece o êrro e, diante dos fatos concre­
tos, dá razão ao fiscal zeloso. Tinha Daniel de
Carvalho vinte e cinco anos e já era um homem de
J o sé L in s d o R ego

princípios e coragem cívica, verdadeiro homem


público.
A parte mais curiosa do livro (Capítulos de
Memórias, Livraria José Olympio Editora) é a
que se refere aos homens públicos de Minas, #os
Afonso Pena, Wenceslau Braz, João Pinheiro.
Êste é o herói de Daniel de Carvalho. De fato,
João Pinheiro trazia para a política a fidelidade de
Francisco Sales e o arrôjo para iniciativas que não
eram da tradição mineira. Pinheiro possuía as
grandes qualidades para a reforma dos costumes de
sua terra. Homem de verdadeiro talento, estava
sempre ao lado das idéias renovadoras. Aquela
imagem de seu discurso, de que Minas é “um povo
que se levanta”, resumia a sua vontade de transfor­
mar a sua província em base firme de trabalho cons­
trutivo. Minas Gerais precisava sair da condição
de terra de pastores e de produtores de matéria-
prima e ser região com capacidade de industriali-
zar-se como S. Paulo.
João Pinheiro via a próxima decadência do
maior centro de população do Brasil pela exaustão
da terra. Minas caminhava para o pauperismo de­
solador.
O livro de Daniel de Carvalho nos dá retratos
e perfis dos homens que conheceu ainda nos gran­
des dias do P. R. M.
A figura de Francisco Sales aparece engrande­
cida em suas memórias. Sales não seria o pastor
de um rebanho de coronéis. Por mais uma vez es-
tivera ao lado dos renovadores. O próprio João
O V ulcão e a F onte 285

Pinheiro merecia-lhe absoluta confiança. O Fran­


cisco Sales da caricatura impiedosa de sua época é
reabilitado pelas memórias de Daniel de Carvalho.
Lê-se êsse livro de uma vez só. A forma sim­
ples e a coragem das afirmativas nos põem na in­
timidade de uma vida que é um padrão de serieda­
de, de ordem de pensar, de lealdade aos seus prin­
cípios.
Pode estar certo o Sr. Daniel de Carvalho de
que o seu livro será subsídio valioso para os que fi­
zerem o estudo de período tão controvertido de
nossa formação republicana.

“M O B Y D IC K ”, A B A L E IA BR A N C A

Publica a Livraria José Olympio Editora


uma edição completa de M oby Dick, de Melville,
com ilustrações de Rockwell Kent e do brasileiro
Poty. O esforço editorial honra as artes gráficas
do País e a tradução de Berenice Xavier é, em todos
os sentidos, uma admirável transposição para um
português escorreito e melódico, do romance fa­
moso.
Moby Dick é mais um romance de aventura,
ultrapassa as aventuras de Robert-Louis Stevenson
pela ligação que estabelece entre a história fantás­
tica e a realidade nua do homem. Melville é, as­
sim, um moralista assediado pelo Bem e o Mal, de
que falam as Escrituras.
Disse êle que a pesca da baleia lhe fôra a sua
Colúmbia, a sua Universidade, no sentido de ter en­
trado nas correrias marítimas como em escola de
J o s é L in s d o R ê g o

vida. O barco “Pequod” e o seu comandante, Acab,


são duas presenças infernais, embora se diga que
nêles se concentra o espírito puritano que se deba­
te com a maligna baleia branca.
Acab e Moby Dick são duas maneiras do demô­
nio. A s suas fúrias são diabólicas. Vaga o navio
“Pequod” igual a um instrumento infernal. Dois
demônios se debatem em competição aniquilàdora.
A loucura de Acab é um caminho de perdição. Por
entre as borrascas, o comandante só vê a baleia
branca, aquela que lhe é o único entrave à sua car­
reira de capitão.
Melville usa uma forma literária que muito
tem de Defoe: a prosa simples, direta, sem riquezas
de estilos. Há nêle, no entanto, outra riqueza,
veios que vêm de sua alma agitada. O que êste
homem viu nos silêncios dos oceanos, na convivên­
cia com homens de tôdas as naturezas, tem muito
de assombro. Vê e escuta Melville com os senti­
dos arrebatados pelo estranho. Em tudo, porém,
está o poeta, o que sabe distinguir os ângulos e re­
gistrar o ritmo. A grandeza do mar impregna o
livro de Melville como de maresia. Assim devia
sentir o Homero da Odisséia e o Camões de Os
Lusíadas.
É o mar que faz voar o “Pequod”, que se serve
dos ventos como de suas mãos, que atrai os pássa­
ros e enlouquece os homens e os peixes. O livro de
Melville sofre das influências das estréias, provém
de agente que se intromete no sangue dos marinhei­
ros e das águas através dos mistérios da lua. Os
O V u lcão e a F onte 287

homens que procuram Moby Dick estão todos pos­


suídos de fúrias tenebrosas.
Ali o homem não brinca com a morte, como nas
praças de touros. Ali o homem e a morte se gru­
dam num corpo-a-corpo que nada tem do “ballet”
dos espadas de Espanha. O homem e o cetáceo es­
tão no começo do mundo, são monstros antedilu-
vianos.
Por isso Moby Dick é um romance anterior ao
pecado original.
A loucura do comandante cobre-lhe a nature­
za humana e o liga à baleia branca, que é a natu­
reza anterior à palavra de Deus.
Livro pungente, livro que nos faz pensar no
homem atual da bomba atômica, no homem sem lei
e sem rei. Só um gênio poderia ter concebido a en­
grenagem dêste livro. Ulisses ainda ouvia as se­
reias do mar. Era homem que trazia da Grécia a
imagem formosa de Helena. Em M oby Dick não
há o outro mundo. Há o mar espumando, os jorros
que brotam da baleia desencadeada, a morte defi­
nitiva.
Quando Melville fala dos livros santos, das pa­
lavras de Job, é dêle que êle fala e não do mundo
de Moby Dick. Ismael salvou-se para poder falar
de um cataclismo, sôlto como Noé na barca soli­
tária. O Deus que o puritano imaginou para sal­
var a alma dos marinheiros do “Pequod” abando­
nou o navio ao seu destino. O Deus dos que se
salvam no último suspiro não aparece no momento
angustioso. Somente a fera marítima corta as
288 J o sê L in s d o R ê g o

águas e aniquila a vida dos homens, possuída da


fôrça invencível. Até Deus teme a fúria da baleia
branca.

U M L IV R O D E M E M Ó R IA S

Estas memórias do médico Otávio de Freitas


são mais a história de uma época do que a vida de
um homem. Ali não se encontra o derrame senti­
mental de um velho que volta ao passado para re­
ver as suas miudezas íntimas. Neste sentido fa­
lham as memórias. Às vêzes o leitor espera 'que o
narrador perca a cerimônia e nos conte histórias, e
traga fatos da sua economia doméstica, que apare­
ça em trajes menores. Não se encontra êste Otá­
vio de Freitas nas páginas de suas confidências. O
que aparece é o Recife e o tempo dos fins do sé­
culo X I X e do comêço de nossa época. A í o livro
assume o seu real valor e passa a ser de vivo inte-
rêsse e chega a nos ligar aos tempos mortos, como
se fôsse um álbum de fotografias de família.
O homem Otávio de Freitas representou em
Recife uma função de renovador. Êle vinha com
Pasteur, Claude Bernard, com o micróbio espantar
um meio médico rotineiro, todo ainda da botica,
sem acreditar na nova higiene, sem saber que ha­
via mosquitos que eram mais terríveis que os tão ca­
luniados miasmas, sem levar em conta o labora­
tório.
Otávio de Freitas fora a Paris e lá estivera em
contato com uma medicina que dava ao laborató­
rio a importância de um quase templo. Pasteur
0 V u l c ã o e a F onte 289

criara uma nova religião, que fazia da pesquisa a


sua liturgia. Freitas chega ao Recife e vai encon­
trar uma cidade sem hospitais, sem salas de opera­
ção, com um povo a morrer de varíola, de peste bu­
bônica. E nos conta a história de um governador
que acabara, por um decreto, uma epidemia de
peste, desde que considerou o mal como endêmico.
E, assim, ficaria livre da verba para o combate sis­
temático, tão bem iniciado pelos novos higienistas.
Mas o Recife de Freitas começava a sofrer as
influências do plano de saneamento de Saturnino
de Brito. A Medicina despe a sobrecasaca dos mé­
dicos de carro. E começam a aparecer os sinais
do tempo.
O primeiro aparelho de raio X surge importa­
do, não por um médico, mas trazido para o diverti­
mento de um homem rico que usava o aparelho
para fazer mêdo aos seus convivas.
E há páginas de primeira ordem no livro do
médico Otávio de Freitas, como aquela onde êle
narra uma operação, feita na sala de jantar, de um
ferido a bala, porque em Recife, naquele tempo, não
havia sala de hospital capaz de acolher uma pessoa
de posses. A simplicidade da narrativa nos arras­
ta ao interêsse real da vida e todo o tempo surge
nas referências, nos detalhes, na nota corriqueira.
A melhor impressão que nos deixa o livro do
médico Otávio de Freitas é que êle não gira todo
em redor de sua personalidade. É verdade que,
neste ponto, o livro sofre um pouco pela modéstia
do autor. Eu sou dos que acreditam que, nestes
290 J o s é L in s d o R ê g o

livros de memória, não faria mal um pouco mais de


primeira pessoa, de certa vontade de brilhar.
Para o historiador e sociólogo o depoimento do
médico Otávio de Freitas é valioso. Êle abrange
um período de transição, marca um fim de época
para caracterizar um Recife que marchava para as
obras do pôsto, para os serviços de Saturnino de
Brito, para o governo de Dantas Barreto.
O jovem higienista viera tocado de um idea­
lismo sanitarista colhido em fontes européias. O
campo de seu exercício era como se fôsse uma ci­
dade do Oriente. O Recife da febre amarela, das
bexigas, da bubônica vivia porque Deus queria. Os
homens nada tinham feito para que ela pudesse re­
sistir às suas desgraças. Freitas se entrega aos
seus trabalhos, promove uma agitação de revolucio­
nário, acredita na ciência, funda ligas contra a tu­
berculose. Hoje êle deve ter compreendido que
tudo não fôra em vão. O Recife de hoje está livre
da peste, da varíola, mas continua a ser a cidade
onde mais se morre no Brasil. Continua cidade
do Oriente pelas estatísticas tremendas. O velho
Otávio de Freitas, de hoje, há de sentir o drama do
quadro progressivo da tuberculose na cidade que
ajudou a viver, com a terrível mágoa do pai que as­
siste à ruína de sua própria família.
O jovem Freitas que conheceu de perto os Ni-
colle, os Widal, os Roux não terá a desventura de
sentir que tudo esteja perdido. Há a cidade que
êle pretendeu civilizar, com o mais triste índice
de mortalidade de seu País. Mas, por outro lado,
r

O V ulcão e a F onte 291

o Recife de hoje é um centro de ciência, com men­


talidade liberta, com mestres de Medicina que de­
ram um sentido novo a métodos de cura, como o
grande Ulisses Pernambucano.

N O T A S SÔBRE O L IV R O D E C R A W F O R D

Nas suas notas sôbre a cultura norte-america-


na Crawford se confessa de uma geração de críticos,
de homens que procuram compreender mais do que
sentir. É como crítico realista, de crítica exercida
sôbre a realidade, mais do que em tôrno de abs­
trações, que êle se debruça sôbre a vida de um país
para nos dizer que “quem ama a sua pátria, casti­
ga-a com as suas censuras”.
Por isto Crawford vê e vê, com penetração, as
fraquezas de uma literatura, para, por outro lado,
nos apresentar as grandezas de um Whitman, de
um Sandburg, como faces originais de uma nova
concepção do mundo. Pode haver uma vulgarida­
de americana no gôsto pelos livros sem vigor e sem
verdadeira humanidade, pode haver um jeito ame­
ricano de conseguir o sucesso pelo número mais
do que pela qualidade. Para uma população de
milhões de leitores há a criação, em série, de livros
que constatam um baixo nível mental. Mas Craw­
ford não procura esconder esta deformação operada
pelo sucesso e nos diz que talvez não tenha a lite­
ratura norte-americana contemporânea nenhum
vulto individual do tamanho de Proust, de Joyce,
de Mann. Acredita, entretanto, o crítico exprimir
a verdade quando afirma que esta literatura, em

L
J o sé L in s d o R êg o

conjunto, é a mais vital, a mais rica, a mais impor­


tante do mundo atual. Porque há, de fato, uma
extraordinária fôrça na poesia, no romance, no en­
saio, na música, na pintura que, nos últimos tempos,
florescem na Norte América. É mesmo uma coisa
nova o que se vê em poetas como Lindsay, Pound e
Eliot, em ensaísta como Santayana, filósofo de pro­
sa rica e melódica como a de Pater. A literatura,
que avançou para a vida com as garras dos nove­
listas como W olfe e Steinbeck, trouxe para a his­
tória da cultura um particular sistema de ver e con­
tar. A brutalidade e a ternura se ligam em roman­
ces que parecem rapsódia e noticiário cruel. E são,
em todos os sentidos, a alma telúrica, casta, vigoro­
sa e terrível do mundo novo.

O VULCÃO E A FO N TE

Recebo de E. M. Cioran o seu último livro pu­


blicado em Mônaco pela nova Editora Rocher.
Cioran é, hoje, um dos mais agudos ensaístas
em língua francesa, embora sejá* de origem ro­
mena. Mas no seu sistema de idéias se encontra
o mais doloroso pessimismo, a profunda mágoa de
um homem roubado pelos deuses.
Conheci-o em Paris, com o seu triste ar de clé-
rigo de muito orgulho, senhor de sua sabedoria, a
compreender que o mundo não daria atenção ao que
é profundamente verdadeiro nas suas penetrações
na natureza humana. Não é Cioran um cínico, mas
um trágico. E é aí que está a sua grandeza.
0 V u lc ã o e a F onte 293

Montaigne, que era sábio, sorria dos outros sem


que tivesse coragem de sorrir de si mesmo. Não
era. e nunca foi um trágico. Cioran é um trágico,
isto é, um homem que vê a decomposição geral do
homem em suas mais escondidas reservas de sonho.
Nada menos Cioran que Joseph de Maistre, que
foi, segundo suas palavras, um gênio de provocação
como Nietzsche e São Paulo. Gênios que conduzi­
ram os mais ínfimos problemas ao anátema mis­
turado de crueldade e fervor.
O prefácio que Cioran escreveu para o Joseph
de Maistre, que selecionou, é um dos melhores ca­
pítulos do crítico romeno.
De Maistre foi, nas suas manifestações ideoló­
gicas, o mais terrível inimigo da liberdade. Por
isso o liberalismo da Revolução foi-lhe sempre uma
descarga de estupidez. O autor de Les Soirées de
Saint-Pétersbourg possuía, no entanto, o tempera­
mento virulento de escritor que era maior do que o
seu assunto. Os seus ensaios quase sempre refle­
tiam misérias do coração. O Deus de Joseph de
Maistre tinha mais de carrasco do que de Cristo.
Por isso o Cristianismo, em sua pureza primitiva,
pareceu-lhe uma religião de párias.
Queria Joseph de Maistre o Cristianismo de
Roma, do Papa, do Vaticano. Os apóstolos sem­
pre lhe pareceram pobres homens, de humildade de
mendigos. Gostava êle dos profetas que anuncia­
vam tempestades, dos furores das palavras que
queimassem como chamas. Era dos que prefe­
riam os vulcões às fontes cantantes. A agressivi­
J o s é L in s d o R ê g o

dade é sempre a sua inspiração, senhor de hipér-


boles, de sua ciência impressa que muito tem da
sabedoria dos mágicos.
Diz-nos E. M. Cioran que êle é cristão mais
por persuasão que pelos sentimentos, estranho aos
personagens do Novo Testamento, mas obcecado
pela intolerância, pela vontade de matar o inimigo.
A guerra foi um fundamento ideológico de Jo-
seph de Maistre. Dominava-o a obsessão do san­
gue. Uma vez chegou êle a essa confissão: “Ne­
nhum homem hoje é punido como justo, mas como
homem. De sorte que é falso que a virtude sofra
no mundo; é a natureza humana que sofre e ela bem
o merece”.
O pecado original está sempre no princípio e
no fim da ideologia de Joseph de Maistre. Mas ao
lado dêsse fanático pela ordem monstruosa havia
um observador original da conduta do homem em
certas regiões.
As suas confidências sôbre a Rússia, onde per­
maneceu como embaixador, exprimem a segurança
de um observador agudo a penetrar nos segredos
de criaturas que nada tinham de semelhante com
a sua gente.
Cioran nos procurou apresentar um Joseph de
Maistre na sua originalidade de quase inquisidor.
E a crítica que faz das suas idéias ainda é qualquer
coisa daquela decomposição que êle fixou no mundo
moderno.
Joseph de Maistre foi um dos mestres da into­
lerância. A sua História Universal não estará

#
0 V u lcão e a F onte 295

nunca marcada, como a de Bossuet, pela predestina­


ção. A sua História pode muito bem passar sem
Cristo. Não passará sem o Deus dos profetas, o
Deus matador dos que podiam ser inocentes mas
que não eram os de sua preferência.
Joseph de Maistre foi o avô da bomba atômica.

V A M P IR O N A C ID A D E

Marcoré é um livro que conta a história de um


filho que devora os pais. História trágica, que nos
liga aos começos do drama grego, mas que nos opri­
me a alma como um fato diverso.
Cai sôbre uma família a certeza de um filho
temporão. E o que parecia ser a felicidade geral
se transforma numa desgraça que a tudo esmaga.
A mãe foge da vida pela fidelidade a uma pro­
messa lunática, o pai se aniquila no comportamento
de adultério, o avô, o bom Camilo, se acaba como
pau ôco, apesar de tôda a grandeza de seu cora­
ção, a avó materna ainda exaspera mais o seu tem­
peramento vesânico, enfim o mundo da família da
pobre cidade paulista se aniquila para que viva o
menino Marco Aurélio, o esperado que apareceu
para a destruição de todos.
O filho vampiro se cria no sangue de seu povo.
A mãe vai morrendo aos poucos e o pai morre de
todo, porque morre na alma, o que é mais pungente
que morrer no corpo. Quando Marcoré lhe confes­
sa seu ódio, os restos do pobre caem aos pedaços,
sem que nada mais contenha a sua dor última.
J osé L in s d o R êg o

Já não é homem, já não é gente, sombra é o


que é, triste imagem refletida na parede, o término
de tudo. O filho lhe sugara o sangue até a última
gôta. Nada mais lhe resta, a não ser os dedos ma­
cios da irmã, como se esta lhe fiasse a mortalha.
Tinha-se acabado a família. Restava o filho
que o odiava, restava-lhe uma maldição sôbre os
seus últimos dias.
Conta-nos essa tremenda história o Sr. Antô­
nio Olavo Pereira. A narração não é fácil, con­
centrada que é de intenções de forma límpida. A
maneira de escrever é sêca, sem abundância de des­
critivo, sem o colorido que nos enche a vista.
A seqüência dos fatos corre sem intermitên-
cias de anotações de análise complicada. Difícil e
dolorosa é a matéria tomada para o desenvolvimen­
to da ação. A s figuras selecionadas pelo romancis­
ta não são, em sua maioria, naturezas fáceis de co­
mando. As duas avós se distanciam em modo de
se exprimir, mas ambas carregam despeitos incon­
fessáveis. São criaturas cozidas em temperatura
alta, a nos dar a impressão de que não se comporta­
riam em estado normal. Mulheres de desespero,
mulheres em violência de temperamentos vul­
cânicos.
A avó Ema é uma fronteiriça, uma pobre na­
tureza sacudida pelos ventos da sandice. O meni­
no Marcoré cresce num vendaval de paixões miúdas
para os que estão de fora. Para os de dentro da
casa essas paixões são devoradoras, vorazes, morce­
gos noturnos.
0 V u lc ã o e a F onte 297

A s qualidades de romancista do escritor Antô­


nio Olavo correspondem ao jôgo dêsses estados
mórbidos. Não há, em seu estilo, a ambição do no­
vo para espantar. Há a forma em branco e prêto
que já se notara em sua novela anterior. A histó­
ria se gruda ao leitor e, embora lhe arranhe a sensi­
bilidade, não o deixa de absorver.
Ótimo romance escreveu o Sr. Antônio Olavo,
sobretudo em tempos de pequenos romances que
usam pernas de pau para parecer maiores do que
são.

B IL A C

Publica a Livraria Agir uma pequena antolo­


gia de Olavo Bilac com introdução crítica de Alceu
Amoroso Lima (Tristão de Ataíde).
A obra selecionada é das que nos seduzem pela
forma, pelo brilho, pelo esplendor verbal. Bilac
foi um poeta de vida exterior, um maravilhoso ór­
gão para as festas dos sentidos. A sua poesia, mui­
to bem cuidada, não seria de dor ou angústia. O
sol cantava nos seus versos. Aquela presença no­
turna da morte não se demorava em suas estrofes.
A morte seria o castigo para quem amava as ma­
nhãs gloriosas, os afagos da brisa, as solicitações
da carne.
Poeta antes da carne do que do espírito, os seus
trechos não chegavam a exprimir o que havia de
sombrio na natureza humana. Foi antes um báqui-
co, criatura das festas pagãs, o que queria a mu­
lher mais bela na hora mais feliz. Por isto tudo
J o sé L in s d o R e g o

poderíamos dizer que Deus não existiu para Bilac.


Existiram deuses, os que traziam para os seus de­
leites os vinhos quentes do amor. É verdade que,
sendo tão do corpo, não perdeu com o tempo a sua
vigorosa carnação. Muitos que se embriagaram
com os sumos da alegria, em cantos de alucinados,
perderam a vida e feneceram ràpidamente. Não
Bilac, que ainda nos parece um “flamboyant” de
verão, rubro de seiva, a nos deslumbrar a vista.
A sua poesia não se perdeu na fartura de rit­
mos. Diz-nos Alceu Amoroso Lima que foi o poe­
ta um homem que nos legou a mais bela lição de
amor à beleza. Neste sentido seria um sobreviven­
te das saturnais olímpicas, corpo e alma em harmo­
nia para o louvor ao transitório, coração a bater ao
compasso dos cantos que eram como os dos pás­
saros.
A Livraria Agir fêz muito bem em trazê-lo
em antologia para que nós pudéssemos deter-nos
na admiração ao que é, de fato, um espetáculo. Há
poetas espetáculos, maravilhosa parada para nos
encantar. Bilac é bem desta categoria. A sono­
ridade dosvmetais de seus versos soa como em mar­
cha de glória. O poeta nos faz felizes, dando-nos
palavras que nos ajudam a amar a vida. Bilac é
poeta, sem as dores de viver.
Dizia Antero de Quental que, prazeres, só os
gerava a fantasia. Para Bilac, não era verdade. A
sua poesia viveu em festas com todos os arrancos de
instintos despertos.
0 V u lc ã o e a F onte 299

U M A A N T O L O G IA D E CO N TO S E N O V E L A S

O critério para a formação de antologias não


pode seguir normas rígidas. Antes de tudo per­
manecerá, embora todos os disfarces, a personali­
dade do organizador. Às vêzes, a antologia regis­
tra, por demais, as particularidades de quem a diri­
giu. E em cada peça escolhida sente-se a marca
do autor que se entregara à tarefa.
Aí está uma seleção de contos e novelas bra­
sileiros que Graciliano Ramos organizou para a
Livraria Editora da Casa do Estudante. Há um
pouco de Graciliano Ramos nos contos apresenta­
dos, a triste nota de melancolia que é a caracterís­
tica pessoal do mestre. O homem ferido de com­
plexos, o homem ofendido e humilhado surge a cada
passo no grupo de histórias que nos são apresenta­
das. Até o bom França Júnior nos aparece com o
seu homem bom onde a bondade excessiva amarga
como fel.
No mais, o critério regional é dominado pelo
conteúdo moral da ação. A s novelas não nos
apresentam a Humanidade em seus dois lados. O
que nos aparece é o lado doloroso da criatura. Nes­
te sentido prevalece a pungente unidade no traba­
lho de Graciliano Ramos. Até o nosso Alberto
de Oliveira, o homem que acreditava na forma, sur­
ge com os “Brincos de Sara” em prosa irônica que
nos faz lembrar o melhor Machado de Assis.
A antologia de Graciliano Ramos, que quis ser
o espelho de tôdas as regiões do Brasil, do Brasil
300 J o sé L in s d o R êgo

do Norte, do Nordeste, do Leste, do Sul, do Centro-


Oeste, apenas reflete ambientes, sem muito se deter
no colorido da terra. Fica no exterior o regiona­
lismo procurado. O que nos toca e o que se afir­
ma na seleção é a tristeza da terra através de sua
gente. Não há um conto alegre, ou melhor, uma
expressão de felicidade, em todos os grupos toma­
dos para identificar pedaços do Brasil. O que sub­
siste quase sempre é a natureza de Graciliano Ra­
mos, o homem despojado de suas grandezas para se
mostrar na sua realidade dolorosa.
A o ouvir Gogol lendo as suas Almas Mortas,
Puchkin baixou a cabeça para chorar. E depois de­
sabafou para a roda de am igos: “ Meu Deus, como
a Rússia é triste!” Tem -se a mesma impressão ao
folhear a antologia da Livraria Editora da Casa do
Estudante. Por tôda parte há uma unidade de
tristeza que se firma no brasileiro de tôdas as re­
giões. Todos unidos pelo mesmo sentimento de
impotência. A nossa contingência de viver não
muda de condição, seja no Sul ou no Norte. O Bra­
sil permanece o mesmo. Quer com o “raté” de M a­
chado de Assis ou com aquêle Major Fausto de José
de Morais Rocha. A energia de vida que brota das
caatingas, dos planaltos, das cidades não viaja para
amadurecer em frutos. Quando muito, floresce,
pàlidamente, para fenecer aos primeiros golpes de
sol. A s criaturas estuantes de vida, os proletários
não se apresentam na antologia do grande Graci­
liano Ramos. O Brasil triste é o que se desdobra
pelos quatro cantos do País.
0 V ulcão e a F onte 301

C O N T O IN G L Ê S (*)

Já houve quem dissesse que a poesia inglesa


muito devia à Bíblia porque a grande tradução do
livro sagrado, em língua do povo, ensinara aos in-
glêses a melhor compreensão do ritmo e da har­
monia.
De fato, os poetas ingleses muito se aproxi­
mam da realidade, sem os constrangimentos e aber­
rações de formas extravagantes.
É uma poesia que brota diretamente do cora­
ção, sem perder os contatos viris do espírito.
O mesmo poderíamos dizer da prosa inglesa.
Não é ela mera arquitetura formal, mas qualquer
coisa que muito fica a dever a um certo empirismo,
a uma salutar ligação com o cotidiano.
Quando Daniel Defoe conseguiu libertar a li­
teratura da prosa, com os seus livros em língua di­
reta e simples, êle tinha realizado, como os gregos,
a melhor experiência entre o homem e as suas mais
elevadas atribuições. A narração de Defoe tem
muito daquela admirável elevação de Cervantes,
isto é, é uma prosa que, sem cair na banalidade dos
fatos, alcança o que os latinos chamam de sublime.
A antologia Maravilhas do Conto Inglês é uma
seleção magnífica do que há de mais pessoal e tí­
pico na narrativa. Os contistas inglêses não criam
mundos de artifícios, como aconteceu em Voltaire,
para chegar à sua verdadeira expressão.

(*) Êste é o último trabalho de autoria de José Lins do Rêgo, que


o ditou a Lêdo Ivo, algumas semanas antes de sua morte.
302 J o sé L in s d o R êg o

É assim que Dickens fala dos “snobs” com


aquela sua simplicidade derramada e o seu “sense
of humour” que atinge ao patético. De Dickens a
Katherine Mansfield, não se perde o fio da conti­
nuidade de um processo de criação que é como se
fôsse obra de Deus. Os ingleses não forçam os
acontecimentos nem se perturbam com os fatos
como se estivessem perdidos no mundo. Êles têm
bem os pés presos à terra, podendo, assim, deixar
que os sonhos e as aberrações da Natureza se cru­
zem em achados de espantos.
A verdade é que, às vêzes, um Bernard Shaw
brinca com as palavras, mas por outro lado as pala­
vras servem a Chesterton, como aos cancioneiros
da Idade Média, para o mais festivo amor a Deus.
Chesterton seria uma espécie de San Felippo Nery,
um jogral que, para agradar ao Céu, se fizesse de
palhaço da Terra.
Todos êstes contos reunidos nos dão uma me­
dida exata do poder criador dos inglêses naquilo
que é o mais importante no homem, que é a sua ela­
boração poética. Tôda a prosa inglêsa é mais poé­
tica do que lógica e nisto reside o segrêdo de sua
eternidade.^
OBRAS DE JOSÉ LINS DO RÊGO

MENINO DE ENGENHO (romance) Prêmio Fundação


Graça Aranha. Rio de Janeiro, Adersen Ed., 1932 —
2.a ed., Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Edi­
tora, 1934 — 3.a ed. 1939 — 4.a ed. 1943 — 5.a ed. 1947
— 6.a ed. 1956.

DOIDINHO (romance) Rio de Janeiro, Livraria José


Olympio Editora, 1933 — 2.a ed. 1936 — 3.a ed. 1937
— 4.a ed. 1943 — 5 a ed. 1947 — 6 a ed. 1956.

BANGÜÊ (romance) Rio de Janeiro, Livraria José Olym­


pio Editora, 1934 — 2 a ed. 1943 — 3 a ed. 1947 — 4 a
ed. 1956.

O MOLEQUE RICARDO (romance) Rio de Janeiro, Li­


vraria José Olympio Editora, 1935 — 2.a ed. 1936 —
3 a ed. 1940 — 4 a ed. 1949 — 5 a ed. 1956.

USINA (romance) Rio de Janeiro, Livraria José Olympio


Editora, 1936 — 2.a ed. 1940 — 3.a ed. 1949 — 4.a ed.
1956.

HISTÓRIAS DA VELHA TOTÔNIA (livro infantil ilus­


trado por Santa Rosa) Rio de Janeiro, Livraria José
Olympio Editora, 1936.

PUREZA (romance) Rio de Janeiro, Livraria José Olym­


pio Editora, 1937 — 2 a ed. 1940 — 3 a ed. 1943 — 4 a
ed. 1948 — 5 a ed. 1956.
304 J o s é L in s d o R e g o

PEDRA B O N ITA (romance) Rio de Janeiro, Livraria


José Olympio Editora, 1938 — 2.a ed. 1939 — 3.a ed.
1943 _ 4 a e(j. 1948 — 5.a ed. 1956.

RIACHO DOCE (romance) Rio de Janeiro, Livraria José


Olympio Editora, 1939 — 2 a ed. 1949 — 3 a ed. 1956.

ÁGUA-M ÂE (romance) Prêmio Felipe cPOJiveiip. Rio de


Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1941 — 2.a
ed. 1942 — 3.a ed. 1948 — 4.a ed. 1956.

GORDOS E MAGROS (ensaios) Rio de Janeiro, Casa do


Estudante do Brasil, 1942.

PEDRO AMÉRICO (conferência) Rio de Janeiro, Casa


do Estudante do Brasil, 1943.

FOGO MORTO (romance) Rio de Janeiro, Livraria José


Olympio Editora, 1943 — 2 .a ed. 1944 — 3.a ed. 1950
— 4.a ed. 1956.

POESIA E V ID A (crônicas) Rio de Janeiro, Editora


Universal, 1945.

CONFERÊNCIAS NO P R A T A (Tendências do Romance


Brasileiro. Raul Pompéia. Machado de Assis) Rio de
Janeiro. Casa do Estudante do Brasil, 1946.

EURÍDICE (romance) Prêmio Fábio Prado. Rio de Ja­


neiro, Livraria José Olympio Editora, 1947 — 2 .a ed.
1947 _ 3a ed. 1948 — 4 a ed. 1956.

B O T A DE SETE LÉGUAS (crônicas de viagem) Rio de


Janeiro, Editora A Noite, 1952.

HOMENS, SÊRES E COISAS (crônicas) Rio de Janeiro,


Ministério da Educação e Cultura, Serviço de Do­
cumentação, 1952.
0 V ulcão e a F onte 3 05

CANGACEIROS (romance) Rio de Janeiro, Livraria José


Olympio Editora, 1953 — 2.a ed. 1956.

A CASA E O HOMEM (ensaios literários) Rio de Ja­


neiro, Organização Simões, 1954.

ROTEIRO DE ISR A E L (crônicas de viagem) Rio de Ja­


neiro, Centro Cultural Brasil-Israel, 1955.

MEUS VERDES ANOS (memórias) Rio de Janeiro, Li­


vraria José Olmpio Editora, 1956 — 2.a ed. 1957.

PRESENÇA DO NORDESTE N A L IT E R A T U R A (en­


saios) Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cul­
tura, Serviço de Documentação, 1957.

GREGOS E TRO IANO S (crônicas) Rio de Janeiro, Bloch


Editôra-Livraria São José, 1957.
C R O N O LO G IA DE JOSÉ LINS D O R Ê G O

1901 — Nascimento, a 3 de junho, no Engenho Corredor,


em Pilar, Estado da Paraiba. Filho de João do
R êgo Cavalcanti e Amélia do R êgo Cavalcanti.
— M orte de sua mãe.
1911 — Interno numa escola de Itabaiana.
1912 — Transfere-se para a Paraíba (capital do Estado
atualmente João Pessoa), onde vai estudar no Co­
légio P io X , dos Irmãos Maristas.
1916 — Leitura de O A teneu, de Raul Pompéia.
1918 — Leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis.
— Publicação de seu primeiro artigo. Tem a: Rui Bar­
bosa. Torna-se amigo de O lívio Montenegro, que
lhe revela as obras de Stendhal e Rousseau.
1920 — Matricula-se na Faculdade de Direito do Recife.
— Torna-se amigo do José A m érico de Almeida.
1923 — Conhece Gilberto Freyre, chegado da Europa de­
pois de estudos universitários na América do
Norte.
—r Funda com Gilberto Freyre, Osório Borba e O lí­
vio Montenegro um semanário de crítica política
e literária, o “ Dom Casmurro” .
— Forma-se em Direito, no Recife.
1924 — Casa-se, em setembro, com Filomena (Naná)
Massa, filha do Senador Massa.
1925 — É nomeado promotor público de Manhuaçu (M i­
nas Gerais). Leitura de Hardy e Proust. Assina
“ La Nouvelle Revue Française” .
308 J o sé L in s d o R êg o

1926 Muda-se para Maceió, Alagoas, onde vai exercer


as funções de Fiscal de Bancos.
Conhece Jorge de Lima, a quem sugere o tema
para “Essa Nega Fulô”.
1929 Escreve Menino de Engenho.
1932 Lançamento de Menino de Engenho, no Rio.
Ganha o Prêmio de Romance da Fundação Graça
Aranha.
1933 Escreve e vê editado Doidinho, seu segundo ro­
mance.
1934 Conhece José Olympio.
Publicação de Bangüê.
1935 Mudança para o Rio.
Publicação dê O Moleque Ricardo.
1936 Publicação de Histórias da Velha Totônia, lite­
ratura infantil.
Com o aparecimento de Usina, encerra o seu Ciclo
da Cana-de-Açúcar.
1937 Publicação de Pureza.
1938 Lançamento de Pedra Bonita.
1939 É publicado Riacho Doce.
1941 Com o livro Água-Mãe, ganha o Prêmio Felipe de
Oliveira.
1943 Publicação de Gordos e Magros, livro de ensaios
e crônicas.
Volta ao antigo tema do Ciclo da Cana-de-Açúcar
com Fogo Morto.
1944 Visita o Uruguai e a Argentina em missão oficial.
Publica Pedro Américo (conferências).
1946 Saem Conferências do Prata e Poesia e Vida.
1947 Aparece o primeiro e único romance do escritor
desenrolado no Rio: Eurídice.
1950 Primeira viagem à Europa, a convite do Govêrno
da França.
1951 Vai à Europa, conhecendo a Suécia
Preside à Delegação de Futebol que
0 V u lcão e a F onte 309

1952 — Começa a publicar, em folhetim, na Revista “O


Cruzeiro’*, seu romance Cangaceiros, com ilustra­
ções de Portinari.
— Aparecem editados Homens, Sêres, Coisas (en­
saios e crônicas) e Bota de Sete Léguas, livro de
impressões de viagens.
1953 — Cangaceiros é publicado em volume.
— Publicação de A Casa e o Homem (ensaios e crô­
nicas).
1954 — Viagem à Europa, conhecendo a Finlândia.
1955 — Volta à Europa e vai conhecer a Grécia.
— É eleito para a Academia Brasileira de Letras,
na cadeira n.° 25, substituindo Ataulfo de Paiva.
1956 — Última viagem à Europa. Permanência de três me­
ses na Grécia.
— A 15 de dezembro, empossa-se na Academia Bra­
sileira de Letras com um discurso de excepcional
repercussão. Recebe-o Austregésilo de Athaíde.
1957 — Publicação de Gregos e Troianos, crônicas de via­
gens.
— Publicação de Presença do Nordeste na Literatura
pelos Cadernos de Cultura.
— Morre no dia 12 de setembro, às 1.15 horas no
Hospital dos Servidores do Estado. Seu corpo foi
exposto em câmara-ardente na Academia Brasi­
leira e sepultado no Cemitério de São João Ba­
tista.
ÍNDICE

APRESEN TAÇÃO — O Ensaísta José Lins do


R ê g o ............' ............................................................... 9

NOTAS DE UM A VIAG EM

Realidade Grega ..................................................... 39


Tarde Grega ............................................................. 40
Pios de Coruja ......................................................... 42
Os Gregos ................................................................ 44
Civilização Grega ................................................... 46
Poço da Panela e oH im eto ................................. 49
Safo de Lesbos ....................................................... 51
Vida Dura ................................................................. 52
A Grécia e Gobineau ........................................... 54
Óstia ........ .................................................................. 56
Ravona ....................................................................... 58
Paris ........................................................................... 60
O túmulo de VanGogh .......................................... 62
A Grande Atriz ....................................................... 64
Segredos de Toledo ............................................... 67
Lisboa ......................................................................... 68
Funchal, Cidade Macia ......................................... 70

UM POUCO DE POLÍTICA

Dores da França ..................................................... 77


Bertrand Russell ................................................... 79
Rosas e a Cidade ................................................... 81
Tristezas à Beira-Mar ........................................... 83
J o s é L in s d o R e g o

Di Cavalcanti e o “Realismo Social”


Política e Linguagem ......................
14 de Julho e o Rei D avid ................
Russell e os Partidos Políticos ___
Sôbre a Liberdade..............................
O Suicídio de Drieu La Rochele ..
A Voz de Paris ..................................
A Luz de G oethe................................
A Minha Quarta-feira de Cinzas! .
A Dança do Dinheiro........................
Arte e Política ..................................
O Inglês e a V i d a ............................
A Realidade de Churchill ............
Uma Carta de Arruda Câm ara____
Tristezas do Natal .............................
A s Nossas Instituições Políticas ..
A s Belas Palavras .............................
Um Livro Terrível ............................
Não Venceram a República............ .
Talleyrand e o 14 de J u lh o ................

FIGURAS

Fialho de Almeida e a sua Época


O Menino Paulino José de Souza ..
O Centenário de “O Guarani” _____
Violência e Ternura em Grieco
Conferência Sôbre V eríssim o........ .
Menendez Pelayo ..............................
Estudos Pernambucanos ..................
A “Minha Formação” de Nabuco ..
Sôbre João do R i o .............................
O Delfim Joaquim Nabuco.............. .
Uma Vida de Júlio Ribeiro .......... .
Nabuco Venceu as Caricaturas____
José Vieira ...........................................
O Camilo das Polêmicas .............. .
0 V u lcão e a F onte 31 3

Uma Conversa Sobre Castro A lv e s ...................... 164


Um Retrato de Padre Vieira ............................. 166
O Padre Vieira e os Portugueses ...................... 167

POETAS E POEMAS

Foi em Granada o C rim e....................................... 171


O Poeta Lêdo ......................................................... 173
Cartas de Fernando P esso a................................. 174
Alberto de Oliveira ............................................... 176
O Obscuro ............................................................... 178
Poetas e Anjos ....................................................... 180
O Poeta Carlos Queiroz ..................................... 182
Os Poemas Crioulos de Jorge de L im a ............ 184
“ Cântico” ................................................................... 185
Valéry e os Poetas ............................................... 187
“Ode Equatorial” ................................................... 189
“Invenção de Orfeu” ............................................. 191
Um Brasileiro em Paris ....................................... 193
O Poeta Cassiano Ricardo ................................. 194
A s Poesias Completas ........................................... 196
i
Sobre Poesia ............................................................ 198
Os Concretos ........................................................... 199

VAR IED AD ES

O Suborno da Inteligência ................................. 205


“Babbit” ..................................................................... 207
O Caráter do Brasileiro ...................................... 208
“N. R. F.” ................................................................. 210
Música Carioca ....................................................... 212
Uma História de Macaco ...................................... 213
O Pródigo ................................................................. 215
Balzac e o Dinheiro ................................................ 217
Renovação e T eo ria ................................................. 218
Ticiano a 38 à Sombra........................................... 220
J o sé L in s d o R êg o

Os Cangaceiros da Moda e os Reais .......... 222


Tamayo e a Pintura ......................................... 224
Entre D. Jacinto e Garcia L o rca .................... 225
Maurois ................................................................ 227
Entre Alain e Kipling ................................... 229
Nietzscheana ....................................................... 231
A Língua de França......................................... 233
Leitura para Rapazes ..................................... 234
Gabriela Mistral ............................................... 236
A Fazenda do G avião....................................... 238
Monólogo de ônibus ....................................... 242
Santa Sofia ................................... . ................... 244
Uma Cidade para o Homem .......................... 246
Um 1945 ............................................................... 248
Sôbre a C rítica................................................... 249
Boa Crítica ......................................................... 250
Sôbre o Velho e o Novo ............................... 252
Palavras de T. S. E l i o t .................................... 254
Sôbre o Caju ..................................................... 256

LEITURAS

A Vida de uma Estrada de Ferro .............. 261


“Aparência do Rio de Janeiro” ...................... 263
A Literatura no Brasil .................................... 265
“Memórias do Distrito Diamantino” .......... 266
Carne Maravilhosa ............................................ 268
Brisa em Campo Florido ............................... 270
O Romance de Herberto Sales ...................... 272
Sôbre o Romance ............................................. 275
Uma Tradução de Poe ................................... 277
Revelações de R ioseco...................................... 280
Memórias de Daniel de Carvalho ................ 282
“Moby Dick”, a Baleia Branca...................... 285
Um Livro de Memórias .................................. 288
Nota Sôbre o Livro de Crawford ................ 291
O V ulcão e a F onte

O Vulcão e a Fonte ........................................... 292


Vampiro na Cidade................................................. 295
Bilac ........................................................................... 297
Uma Antologia de Contos e N ovelas................ 299
Conto Inglês ............................................................. 301

Obras de José Lins do R ê g o ................................. 303


Cronologia de José Lins do Rêgo ................... 307