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Libras no hospital: narrativas dos surdos

Ana Camila Rocha dos Santos

1. Introdução

Neste plano de trabalho nos preocupamos em discutir a temática da acessibilidade linguística


para a pessoa surda no contexto da saúde. Assim, fazemos uma discussão da Língua brasileira de
sinais – Libras -, do contexto social, mais precisamente no que diz respeito ao hospital, e,
sobretudo, centramos nas narrativas autobiográficas dos surdos sobre suas experiências nesse
espaço.
Sobre a representação e estrutura da Libras, Rocha e Fagundes (2019, p. 05), afirmam que
é:

[...] uma língua espaço visual, as pessoas, as coisas, os lugares, os sentimentos


entre outras coisas são representados através de sinais e não por palavras. Esses sinais não
são aleatórios, eles têm parâmetros de criação e uso, ressaltamos ainda que a Libras não é
uma representação do português, mas uma língua pertencente a cultura surda, com
gramática, escrita e estrutura própria.

Nessa perspectiva, pensar a Libras é pensar acessibilidade, cultura surda e autonomia


linguística, e não meramente uma reprodução mecânica de outra língua. No Brasil, em dia 24 de
abril de 2002, foi criada a Lei Federal n◦ 10.436, que assegura ao surdo o direito de sua língua
natural. Bem como, reconhece que todos os surdos têm o direito de aprender sem complexidade a
língua que lhe seja favorável para o desenvolvimento da linguagem adequadamente, que é essencial
para a vida em sociedade.

Para complementar a Lei 10.436, foi promulgado o Decreto n◦ 5.626/05 (BRASIL, 2005),
que, dentre outros aspectos foi impulsionado por movimentos sociais que conclamavam mudanças
significativas, a fim de promover de fato, uma política de educação especial na perspectiva da
educação inclusiva para a comunidade surda. O Decreto reafirma a Libras como a segunda língua
oficial do Brasil. Diante disso, indagamos: há uma utilização e respeito a Libras nos diferentes
espaços sociais do Brasil? A pessoa surda consegue ter uma plena comunicação em Libras em
diferentes ambientes sociais, dentre eles o hospital? Os serviços de saúde estão adaptados para
atender esses usuários de forma adequada?

Nossa pesquisa tenta esboçar respostas a tais perguntas a partir de narrativas de pacientes
surdos, sobre suas vivências no ambiente hospitalar. Esperamos que, por meio de suas histórias,
possamos compreender como se estabelecem as relações entre os surdos e os profissionais de saúde,
e também quais as percepções sobre os serviços oferecidos nas instituições de saúde. Há inclusão ou
exclusão social quando o surdo precisa de um atendimento médico-hospitalar?

Esse estudo situa-se no campo da educação especial em interface com a saúde.


Problematizamos a falta de acessibilidade linguística como uma barreira cultural, política e social,
que faz parte das raízes da exclusão, uma vez que a pessoa surda pode não ter condições de ser
compreendida e nem de se fazer compreender, quando mais estão vulneráveis: em situação de
adoecimento. Sofrem na fila de espera, na consulta pessoal com o médico, na ausência de
privacidade, com a insegurança de fazer uso de um medicamento de risco corretamente... sofrem
por não ter sua cidadania respeitada.

Nesse sentido, a presente pesquisa se justifica pelo seu caráter social e de produção de
conhecimento, pela visibilidade possibilitada pela narrativa a sujeitos historicamente excluídos, que
passam a ter suas histórias respeitadas e reverberadas cientificamente, a fim de melhorar as suas
condições de vida e inclusão social. Quem sabe, ao problematizarmos os retrocessos da autonomia
da pessoa surda, ao depender de familiares ou amigos para serem acompanhados nas consultas, a
falta de preparação do espaço hospitalar para o acolhimento e diminuição da negligência dos
direitos humanos do surdo.
O estudo busca, ainda, apontar as limitações dos serviços de saúde, que nem sempre estão
preparados para atender os surdos, mas, especialmente, apresentar proposições para a resolução de
possíveis problemas no atendimento à pessoa surda, considerando o que os próprios surdos
sugerem. Para tanto, retomamos Sassaki (2007, p. 20):
Reconhecer a perícia e a autoridade das pessoas com deficiência é muito importante. O
movimento das pessoas com deficiência se resume em falar por nós mesmos. Ele trata de
como é ser uma pessoa com deficiência. Ele trata de como é ter este ou aquele tipo de
deficiência. Ele trata de exigir que sejamos respeitados como os verdadeiros peritos a
respeito de deficiências. Ele se resume no lema Nada Sobre Nós, Sem Nós.

Parafraseando Sassaki, “nada para o surdo, sem o surdo”. Logo, se queremos entender como
se dá ou não a acessibilidade linguística da pessoa surda, devemos começar considerando que o que
essas pessoas têm a contar é relevante para a pesquisa científica e para compreender o meio social
em que estamos inseridos.
O objetivo é o de analisar as narrativas de surdos acerca de suas experiências no
atendimento médico-hospitalar.

Referências

BRASIL. Lei Federal 10.436 de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais -
Libras e dá outras providências.

______. Decreto 5.626 de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei n o 10.436, de 24 de abril


de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei no 10.098, de 19
de dezembro de 2000.

ROCHA, Simone Maria, Fagundes, Isabelle Pinheiro. “Minha língua, minha história, meu processo
de escolarização”: narrativas de si de docentes surdos. The Specialist. v 40, n. 3, p.20, 2019.
SASSAKI, Romeu Kazumi. Nada sobre nós, sem nós: Da integração à inclusão – Parte 2. Revista
Nacional de Reabilitação, ano X, n. 58, set./out. 2007, p.20-3

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