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Biblioteca Nacional — Catalogação na Publicação

Congresso Mundo Rural: Transformação e Resistência no século XX, Lisboa, 2000

Mundo rural : transformação e resistência na Península Ibérica (século XX) : actas / Congresso Mundo
Rural... ; coord. Dulce Freire, Inês Fonseca, Paula Godinho. — (Extra-colecção)

ISBN 972-772-473-6

I — Freire, Dulce, 1969-

II — Fonseca, Inês, 1971-

III — Godinho, Paula, 1960-

CDU 323.2(46)"19"

316.344(46)"19"

316.48(46)"19"

Título: Mundo Rural


Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX)

Coordenação: Dulce Freire, Inês Fonseca e Paula Godinho


Edição: Edições Colibri / Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa
Capa: Ricardo Moita e Carlos Vieira Reis

Fotografias da capa: Cedidas pelo Ministério da Agricultura,


Desenvolvimento Rural e das Pescas

Execução Gráfica: Colibri — Artes Gráficas


Depósito legal n.° 210 075/04

Tiragem: 1 000 exemplares

Lisboa, Julho de 2004


ÍNDICE

Apresentação ..................................................................... 9

Introdução
Espanha e Portugal, um século de questão agrária
Fernando Oliveira Baptista ........................................... 15

I PARTE — Os campos: permanências e mudanças

Innovacións e continuidades na política agrária do primeiro Franquismo


(1936-1951)
Juan Pan-Montojo……………………………………... 55

A bem da Nação! Modernização e resistência em meio rural


durante o Estado Novo
Inês Fonseca .................................................................... 71

II PARTE — Acção e ideologia nos campos

Movimentos sociais rurais: questões de teoria e métodos


Paula Godinho .................................................................. 89

O movimento operário e o problema rural na I República


João Freire ............................................................ 107

"Nas nossas terras o partido somos nós".


A rede do Partido Comunista Português nos campos
João Madeira ........................................................ 119

Mobilización campesiria, clientelismo político e emigración


de retorno na Galicia rural (Ourense, 1890-1936)
Raúl Soutelo Vázquez ................................................... 133
6 Índice

III PARTE — Resistência e conflito rurais

Os baldios da discórdia: as comunidades locais e o Estado


Dulce Freire ................................................................. 191

Politica forestal e conflictividade nas terras comunais de Galicia


durante o Franquismo (1939-1975)
David Soto Fernández e Lourenzo Fernández Prieto ......... 225

O movimento de ocupações no distrito de Beja


Constantino Piçarra ....................................................... 251

Conjunturas, contextos e estratégias


Margarida Fernandes .................................................... 277
APRESENTAÇÃO

Em finais de Outubro de 2000, a realização do colóquio Mundo rural: transformação e


resistência no século XX juntou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa cientistas sociais, engenheiros agrónomos e silvicultores da
Península Ibérica. Em comum existiu o interesse pelo estudo das mudanças nos campos e
dos movimentos sociais em contexto rural.

A organização do encontro teve como objectivos imediatos permitir a divulgação e o


debate, num âmbito mais alargado, dos dados e das questões levantados no decurso do projecto
Agitação e resistência no contexto rural português (1926-1974)1. A pertinência e novidade
das abordagens apresentadas nos dias 27 e 28 de Outubro de 2000, que geraram debates intensos
e a solicitação dos participantes (cerca de centena e meia, com diferentes formações
académicas e experiências profissionais, vindos de diversos pontos de Portugal e de
Espanha), levaram a comissão organizadora do colóquio a sugerir aos autores que
adaptassem as suas comunicações para a edição em livro. A profunda convicção de que os
artigos que se seguem trazem contributos necessários e oportunos levou-nos a insistir, em
vez de desistir, perante os inúmeros obstáculos que inviabilizaram a publicação deste livro
há mais tempo.

Mais do que publicar as actas do colóquio, encarou-se a edição como possibilidade de


dar a conhecer fontes, bibliografia, perspectivas e resultados inéditos de pesquisas recentes
ou ainda em curso. Daí que não seja seguida a organização dos painéis, tenha sido
acrescentada uma Introdução e, para melhor corresponder ao conteúdo, se tenha escolhido o
título Mundo rural: transformação e resistência na Península Ibérica (século XX).

Pedimos a Fernando Oliveira Baptista, que há muito acompanha os debates e a


produção bibliográfica no âmbito das ciências sociais e agronó-

1
Com financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (Proj. n.° Praxis/PCSH/P/ ANT/191/96), o projecto
decorreu no Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa e no Instituto de História Contemporânea, ambos da
FCSH/UNL, entre Setembro de 1997 e Agosto de 1999. A equipa que realizou a pesquisa, constituída por
Inês Fonseca, Dulce Freire e Paula Godinho, foi coorientada pelo antropólogo Jorge Crespo (orientador
responsável) e pelo historiador Fernando Rosas.

Mundo Rural Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições Colibri,

2004, pp. 9-14


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micas na Península Ibérica e que tem participado em inúmeros projectos interdisciplinares e


internacionais, a elaboração da Introdução deste livro. Logo no início Oliveira Baptista
apresenta-nos a conclusão, que justificará nas páginas seguintes: «A agricultura e a questão
da terra tiveram ao longo do último século, em Espanha e Portugal, percursos que, com
frequência, se aproximam e que nalguns pontos são mesmo coincidentes». Começa por
desenhar a trajectória da agricultura, tendo em conta a relevância da questão ambiental e
também o debate acerca do "atraso" agrícola, que tem vindo a ser desenvolvido pela
historiografia espanhola. Depois trata a forma como a questão da terra foi colocada em
quatro conjunturas políticas e sócio--económicas que atravessaram o século XX:
primeiras décadas do século XX; Franquismo e Estado Novo; reformas agrárias; União
Europeia.

Aos restantes convidados foi pedido que desenvolvessem os argumentos, que os


escassos minutos concedidos para a apresentação oral obrigaram a comprimir, e que
actualizassem a bibliografia (os desfasamentos que possam encontrar-se devem ser
atribuídos aos meses que mediaram entre a entrega das versões finais à comissão
organizadora e a data de publicação). Com os onze artigos entregues organizou-se esta obra
em três partes.

A primeira parte, intitulada Os campos: permanências e mudanças, é constituída por


dois artigos. Juan Pan-Montojo refuta algumas das premissas em que assentam as teses
dominantes na historiografia espanhola acerca da política de estruturas agrárias, do
regulamento de mercados e do enquadramento organizativo do campesinato, durante o
primeiro Franquismo (1936-1951). Contrariando as teorias dominantes, considera que a
grande propriedade não é a única referência social das políticas agrárias deste período.
Explica que a centralidade do campesinato nos discursos do Franquismo não foi um mero
artifício manipulador, como tende a interpretá-lo uma parte da historiografia, mas que teve
operacionalidade no momento de tomar decisões. Também refuta a ideia de que as políticas
agrárias tenham levado ao congelamento das relações socio-económicas no campo, em
benefício dos grandes proprietários. Defende que a instalação do Franquismo não pres-
supôs a restauração da sociedade rural anterior à República, mas que permitiu importantes
transformações, nem sempre no sentido desejado pelo Novo Estado.

A partir dos casos de emparcelamento e da instalação de colonatos, Inês Fonseca analisa as


acções e os discursos do estado e das comunidade locais subjacentes à concretização de
projectos para modernizar o mundo rural português. Enquadra as intenções e as medidas
protagonizadas pelo Estado Novo no âmbito das defendidas pelos estados modernos
ocidentais. Demonstra que as populações afectadas desenvolveram diversas formas de
resistência que afectaram a progressão e os resultados desses projectos. Essas reacções,
frequentemente apontadas como sinais de ignorância e atraso, são protestos contra
medidas que implicavam mudanças radicais nos
Apresentação 11

modos de vida dessas populações e que não permitiam a participação destas no processo de
implantação das mudanças.

A segunda parte, designada Acção e ideologias nos campos, começa com um artigo
de Paula Godinho dedicado às questões de teoria e método dos movimentos sociais rurais.
Passando em revista a produção bibliográfica acerca do tema, a autora precisa a definição de
actos de resistência e de conflito; acções individuais e acções colectivas. Salienta que a
complexidade do estudo dos movimentos sociais exige que se ultrapassem as fronteiras disci-
plinares e também a combinação de diversos métodos de pesquisa (levantamentos intensivos e
extensivos; recolha de fontes escritas e orais). Torna-se necessário fazer abordagens
longitudinais, em que a profundidade histórica permita captar, por exemplo, a relação entre
as formas de resistência e os ciclos de protesto. Simultaneamente, é necessário estar atento
às modalidades de disseminação das acções no espaço e às relações entre o local e
translocal.

João Freire procura identificar convergências entre o movimento operário e os


problemas do mundo rural durante a I República. Considera que até à queda da Monarquia
não há indícios de influência ou articulação do movimento operário com os movimentos
sociais rurais. Por isso, as lutas sociais ocorridas no Inverno de 1910/1911 no Ribatejo e
Alentejo foram uma surpresa para quase todos. A partir destes anos, o reconhecimento por
parte da elite dirigente do associativismo operário de similitudes entre os interesses dos
operários e os dos assalariados rurais, levou à organização de associações de classe de
trabalhadores rurais em diversos concelhos, principalmente na zona do Alto Alentejo.
Esta organização sindical, que irrompeu nos campos em 1911-1912, decai daí por diante,
mas, defende o autor, manteve uma considerável densidade e presença organizativa e
ideológica entre a planura do Tejo e a serra algarvia. E também há indícios desta influência
em Mirandela, Chaves e Vidago. Apesar das debilidades, durante a República e até à
consolidação do Estado Novo, a organização sindical dos rurais e outras iniciativas
desempenharam um papel significativo no Sul do país, certamente com importante papel no
movimento operário organizado, mas não houve aproximações entre reivindicações dos
assalariados rurais e expectativas do pequeno campesinato.

O Partido Comunista Português foi outra organização com implantação nos campos.
João Madeira descreve a construção da rede orgânica do partido no Ribatejo e Alentejo
entre a "reorganização" dos anos 40 e o 25 de Abril de 1974. Nestas zonas, a rede, baseada
em localidades com elevada densidade de trabalhadores rurais, permitiu a consolidação das
influências social e política do partido. Contudo, nem a malha estabelecida nem a eficácia
dos organismos partidários se revelaram suficientes para, perante a intensidade e
frequência da conflitualidade nestas regiões, desenvolver uma acção efectiva. Os
movimentos sociais nos campos do Sul ocorreram muito
12 Mundo Rural

para além dos limites orgânicos do PCP. Ainda que as populações pudessem tomar os
referenciais reivindicativos veiculados pela imprensa partidária ou por militantes de aldeias
próximas, verifica-se que os adaptavam localmente, dando-lhes por vezes uma relativa
autonomia face à organização partidária. O autor descreve também os problemas da
organização; os temas abordados nas reuniões; as formas de participação das mulheres; as
principais preocupações do partido para o mundo rural.

Durante o século XX, três fenómenos caracterizaram a Galiza rural: mobilização


agrarista do campesinato; caciquismo enquanto intermediário entre as comunidades locais e
o Estado; retorno dos emigrantes da América Latina. Centrando-se na província de Ourense,
Raúl Soutelo Vázquez analisa estes fenómenos a partir das interacções entre os principais
agregados (labregos, elites, americanos, organizações políticas) que actuavam na Galiza
rural nos cerca de 50 anos que antecederam o início da Guerra Civil. Apresenta casos que
confirmam que os americanos ou indianos conseguiram romper com o caciquismo
reinante e tiveram um papel essencial no financiamento de actividades produtivas e
culturais e também na difusão de ideias avançadas, que colidiram com os interesses das
elites locais estabelecidas. Apresenta também uma zona, o Ribeiro, onde não foi notória a
acção dos emigrantes retornados em prol da comunidade de origem. Apesar de excepções
como esta, os diversos estudos desenvolvidos nos últimos anos permitem demonstrar a
falsidade histórica do discurso galeguista, que condenava a emigração como factor
permanente que dificultava a mobilização sócio-política das classes subalternas.

Os artigos que constituem a última parte, intitulada Resistência e conflitos rurais, são
dominados por dois temas: a florestação das terras comunais em Portugal e na Galiza; a
reforma agrária que se seguiu ao 25 de Abril, no Alentejo.

Dulce Freire verifica que apenas nos anos 60 a "florestação dos baldios" começa a
merecer a atenção da elite intelectual e política que fazia oposição ao Estado Novo. A
partir dessa altura aumenta o interesse das oposições pelas formas de protesto, que as
populações serranas desenvolviam desde os anos 30, contra a apropriação e arborização,
protagonizadas pelos Serviços Florestais, das terras comuns que rodeavam as aldeias. Pri-
meiro dá conta das discussões subjacentes à política florestal, dos objectivos das medidas
postas em prática pelos organismos oficiais durante o Estado Novo e da importância destas
terras para as populações. Depois, recorrendo a fontes escritas e orais e a exemplos de
ocorrências em diversos distritos do Norte e Centro do país, analisa as motivações, os
mecanismos e os resultados dos actos de resistência e conflito. Considera que as inúmeras
acções de protesto não evitaram que o Estado se apropriasse dos baldios, não acabaram com
a florestação e também não são a causa directa da devolução dos baldios às comunidades,
em 1976. Mas os protestos das populações do
Apresentação 13

Norte e Centro, negligenciados pelas ciências sociais, levaram os organismos do Estado a


aceitar parte das exigências locais e a adaptar os seus procedimentos, contribuindo também
para que não fossem totalmente florestados os cerca de 500 mil hectares de baldios
identificados nos anos 30.

Em meados do século XX, as terras comunais (monte) ocupavam 2/3 da superfície da


Galiza. David Soto Fernández e Lourenzo Fernández Prieto começam por avaliar a
importância do monte no complexo agro-pecuário e no sistema de policultivo intensivo
locais. Nos séculos XIX e XX, estes espaços serviam sobretudo como fonte de adubo e
alimentação do gado. Os engenheiros sivicultores do Estado, que valorizavam a exploração
numa perspectiva exclusivamente florestal, consideravam tais formas de aproveitamento
irracional e antieconómico. Esta incompreensão é a chave para entender a política florestal
antes e depois da Guerra Civil e também as formas de oposição vicinal a esta política. Do
ponto de vista da concepção da reflorestação não há uma ruptura entre as concepções do
Franquismo e as anteriores, mas estas vão ser adaptadas à política económica geral, estabele-
cendo-se a produtividade e a rentabilidade económica como objectivos prioritários. Com as
medidas do Novo Estado, os vizinhos perdem não só a propriedade dos montes como a
possibilidade de os administrar e de os explorar economicamente. As comunidades
desenvolveram formas de protesto, muitas vezes violentas, contra esta usurpação. O peso
dos protestos contribuiu para que, a partir dos anos 60, o Estado promovesse a distribuição
pelos vizinhos de uma percentagem dos lucros da floresta e, na década seguinte, a devolução
dos montes às comunidades. Estas atitudes não implicaram uma mudança ideológica,
visavam antes permitir a continuação da florestação que os protestos da população estava a
pôr em causa. Os autores consideram que a resistência teve uma vitória amarga, já que
apesar de ter obtido o reconhecimento legal do monte como propriedade privada mas
colectiva (dos vizinhos), aquele espaço perdeu as funções que desempenhava dentro do
sistema agrário.

No Verão de 1974, no distrito de Beja, um dos distritos do Centro e Sul do país incluído
na ZIRA (Zona de Intervenção da Reforma Agrária), os trabalhadores ainda não pensavam
em ocupar terras, tanto que na época das ceifas e debulhas do trigo exigiam trabalho e
melhores salários, o mesmo que em anos anteriores. Para Constantino Piçarra a novidade
está no facto de a conjuntura política e social pós 25 de Abril de 1974 ter permitido aos tra-
balhadores recuperar um movimento reivindicativo que estava moribundo desde 1962 e,
organizados num sindicato, negociar com a associação que representava os proprietários. A
assinatura de contrato colectivo de trabalho, em finais de Outubro de 1974, encerra o
primeiro ciclo de lutas dos assalariados rurais, em que estes viram regulamentadas
exigências que orientavam os movimentos sociais desde os anos 50. Nos meses seguintes
multiplicam-se as ocupações de terras. O autor considera que, apesar de terem sido ocu-
14 Mundo Rural

pados mais de 300 mil hectares, a expropriação dos grandes proprietários não fazia parte
das reivindicações dos trabalhadores. As ocupações devem ser entendidas como o
prolongamento natural das lutas pelo emprego e por salários protagonizadas pelos
trabalhadores temporários e dirigidas pelo sindicato. Verifica-se que diversas entidades
com intervenção no distrito refrearam e controlaram as ocupações protagonizadas pelos
trabalhadores.

Margarida Fernandes, também analisa os movimentos sociais no Sul, particularmente a


reforma agrária em Baleizão, salientando a interdependência entre as dinâmicas locais e o
que está a decorrer no resto do Alentejo, nas outras regiões integradas na ZIRA, nos órgãos
de poder nacional e nos movimentos sociais que atravessam a sociedade portuguesa. Os
diferentes ritmos e intensidades das expropriações na zona da ZIRA correspondem às diversas
características da terra a explorar e também às diferentes vivências locais dos trabalhadores
agrícolas. Nesta aldeia da planície, onde o ambiente socio-económico era dominado pelo
latifúndio, a primeira manifestação foi a organização local de comissões de trabalhadores.
As ocupações de propriedades começaram em Agosto de 1975, o que revela um atraso da
população da aldeia em entrar neste processo, mas no início de Novembro já toda a terra das
grandes herdades da freguesia estava ocupada. A autora nota que os trabalhadores revelam,
por exemplo, dificuldades em lidar com os instrumentos de democracia formal, nomeadamente
em aceitar a organização das assembleias, em lidar com as novas regras e a burocracia, em
compreender a legislação. Constata também que as relações de produção, a proeminência
dada à manutenção dos postos de trabalho sobre a posse da terra e as práticas éticas de
trabalho não sofreram as transformações correspondentes à alteração da forma de
exploração da terra.

A comissão organizadora

Dulce Freire
Inês Fonseca
Paula Godinho
ESPANHA E PORTUGAL,
UM SÉCULO DE QUESTÃO AGRÁRIA*

Fernando Oliveira Baptista


Instituto Superior de Agronomia, Universidade
Técnica de Lisboa

A agricultura e a questão da terra tiveram ao longo do último século, em Espanha e


Portugal, percursos que, com frequência, se aproximam e que nalguns pontos são mesmo
coincidentes. Esta conclusão, que colocamos desde início, decorre seguramente da
preocupação com que se alinharam as notas de leitura — que são afinal este texto — ter
privilegiado mais as similitudes do que as diferenças. Contrariou-se assim uma das
orientações que tem sido predominante nos estudos de história agrária e de sociologia rural
onde, geralmente, se valoriza e enfatiza a diversidade.

As notas de leitura são mais de trabalhos de economia agrária e de sociologia rural


do que de história agrária. A esta entorse, associa-se ainda o facto de muitas das apreciações
feitas reflectirem maior proximidade com a Andaluzia, a Extremadura e a Galiza, do que com
outras regiões de Espanha.

O texto está dividido em duas partes: a agricultura e a questão da terra. Na primeira, a


agricultura, traça-se o percurso que esta seguiu nos dois países e, num segundo ponto,
refere-se a questão ambiental e dá-se notícia do debate sobre o "atraso" da agricultura, na
história agrária espanhola. A análise da questão da terra está subdividida em quatro
pontos: as primeiras décadas do século XX; o Franquismo e o Estado Novo; as reformas
agrárias e os anos da democracia e da União Europeia. Finalmente, na nota final, esboça-se
uma conclusão.

A agricultura
No último meio século assistiu-se a uma profunda transformação das agriculturas de
Espanha e de Portugal, tanto na articulação destas com as

* Agradeço a Eladio Aniarte Alegre, Lourenzo Fernández Prieto e Joaquim Cabral Rolo, os comentários e
sugestões que tornaram possível finalizar este texto.

Mundo Rural — Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições Colibri,
2004, pp. 15-51
16 Mundo Rural

respectivas economia e sociedade, como nas suas estruturas de produção. Esta


transformação, marca o declínio da designada agricultura tradicional. Como antes se
assinalou, pareceu também útil abordar dois outros temas: a questão ambiental nas suas
relações com a agricultura e o debate sobre o "atraso" da agricultura.

Um percurso

É frequente os economistas agrários designarem como tradicional a agricultura que,


tanto em Espanha como em Portugal, existia antes do grande êxodo agrícola e rural dos
anos sessenta. Arnalte (1985), depois de a acolher como uma herança do passado, caracteriza-
a: "Essa estrutura agrária tinha estabilizado em Espanha e perdurava ainda nos anos 50 graças
à (...) existência de abundante força de trabalho no campo, dado que até essa data não se
tinha produzido no país um verdadeiro crescimento industrial que absorvesse a população
rural. A pressão demográfica deprimia os salários agrícolas e era um freio para o
desenvolvimento tecnológico dado que não se tornava necessária a substituição de mão-
de-obra por capital. E este mesmo atraso técnico constituía a condição necessária para a
existência de pequenas e grandes explorações produzindo todas elas com técnicas seme-
lhantes e não aparecendo portanto economias de escala que diferenciassem os custos de
produção".

Este panorama é também válido para Portugal, onde Pereira e Estácio (1968)
demonstravam que, em 1960, "não tem sentido", em termos económicos, a substituição de
mão-de-obra por "tractores" sendo que, na análise efectuada, esta "variável traduz não
exclusivamente o nível de mecanização da agricultura mas também o conjunto dos capitais
de exploração com ele relacionados".

A ruptura desta situação veio a ocorrer com o êxodo agrícola e rural dos anos
sessenta, provocado pela possibilidade de emigrar para além-Pirinéus e pelas
oportunidades de encontrar trabalho na dinâmica criada pelos processos de urbanização e
de industrialização que entretanto se desenvolviam. A saída maciça da população das
pequenas unidades agrícolas familiares, abriu também novos horizontes aos que partiam e
aos que ainda ficavam. Como notou, logo em 1967, Naredo (num texto que assinou como
Naranco), "os pais já não representam o exemplo do que devem ser os filhos, bem pelo
contrário, representam o exemplo do que não devem ser. Os pais reconhecem que a
exploração familiar (...) não é um bom caminho a seguir pelos seus filhos". Os efeitos
directos do êxodo ao nível dos sistemas de produção, associaram-se a uma crescente
mercantilização e monetarização das economias agrícolas.

Verificou-se, assim, uma quebra na população activa agrícola simultaneamente com um


aumento dos consumos intermédios da agricultura (onde se englobam as despesas correntes
com produtos e serviços adquiridos no
Espanha e Portugal, um século de questão agrária 17

mercado, tais como sementes e plantas, alimentos para animais, adubos e correctivos,
produtos fitossanitários e pesticidas, energia, material e pequenos utensílios, manutenção e
reparação de máquinas e de outros equipamentos, e outros serviços). Registam-se alguns
números destas evoluções (Garcia Delgado e Roldan Lopez, 1973; Naredo, 1974; López
Iglesias, 1994; Abad e Naredo, 2002; Rolo, 1996 e Baptista, 1993). Em Espanha, de 1960
para 1970: a população activa agrícola diminuía de um quarto; os salários agrícolas reais
subiram 84% e, entre 1964 e 1970, o peso dos consumos intermédios na produção final
passou de 21,8% para 30,0%. Agora em Portugal: a população activa agrícola, também de
1960 para 1970, baixou 31%; ainda no mesmo período, os consumos intermédios foram
multiplicados três vezes (a preços de 1950) e a sua percentagem relativamente à produção
final da agricultura passou de 11,6% para 21,5%; de 1960 a 1972, os salários agrícolas
subiram 2,9 vezes enquanto o preço da motomecanização (tractor e alfaias) apenas cresceu 31%.
Resta acrescentar que estas transformações não originaram, antes pelo contrário, diminuição na
produção.

Como seria de esperar, estas transformações associaram-se a adaptações significativas nas


explorações agrícolas que, de um modo muito esquemático, se podem enquadrar em quatro
grandes percursos: as explorações equiparam-se, investiram de modo a promoverem uma
adequada e rentável substituição de trabalho (familiar ou assalariado) por capital; as famílias
agrícolas, através de actividades fora da exploração e geralmente também exteriores à
agricultura, diversificaram e aumentaram os seus rendimentos onde, com frequência, os da
unidade agrícola passaram a ser minoritários; com a difusão e a generalização da
previdência rural (em Portugal desde finais dos anos 60), os agricultores mais idosos
passaram a englobar nos seus rendimentos os montantes das pensões, o que lhes assegurou
um complemento monetário em relação às receitas da exploração; as unidades que não
puderam seguir uma destas vias, desapareceram ou, no caso das de maior dimensão,
extensificaram muito o aproveitamento.

Antes de se abordar a segunda grande transformação das agriculturas no último meio


século, convém introduzir dois apontamentos: um sobre a população activa agrícola e o outro
sobre a identidade dos agricultores que também trabalham fora da agricultura.
Relativamente ao primeiro destes pontos, verificou-se nalguns períodos, em ambos os
países, que o número total das explorações era superior ao total da população activa agrícola.
Este aparente paradoxo explica-se pelo facto de muitos dos que vivem ligados a uma
unidade agrícola, que nela trabalham mas que também exercem uma actividade noutro
sector da economia, declararem como profissão nos Recenseamentos da População a sua
actividade não agrícola. Esta circunstância explica ainda que quando se calcula, com base nos
Recenseamentos Agrícolas, o trabalho agrícola expresso em unidades de trabalho anuall, o

1
Definida uma unidade de trabalho anual, como uma pessoa com trabalho agrícola a tempo
46 Mundo Rural

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INNOVACIÓNS E CONTINUIDADES NA POLÍTICA AGRÁRIA DO
PRIMEIRO FRANQUISMO (1936-1951)

Juan Pan-Montojo
Universidad Autónoma de Madrid

Nos últimos anos a historiografia adicada ao análise do primeiro franquismo ten


coincidido en tres teses xerais sobre a política agraria do Nuevo

Estado:

* A primeira tese é que o triunfo do bando franquista supuxo a restauración das relacións
de propriedade e explotación anteriores á República de 1931-36, unha restauración
contrarrevolucionaria que desfixo a reforma agrária republicana e estivo acompariada da
promesa dunha reforma diferente, un programa nunca levado á práctica e trocado co tempo
por unha política de colonización vencellada aos regos.

* A segunda tese sosten que as fondas regulacións dos mercados agrários desde a
Guerra Civil e até 1951 foron a causa fundamental da queda da producción agrária e do
desenvolvimento dun amplo mercado negro de alimentos, matérias primas e médios de
producción. Non existe consenso sobre quén tirou benefícios da longa existéncia dese
mercado negro, pero unha gran parte da historiografia afirma que produciu unha
redistribución de renda a favor da grande propriedade.

* A terceira tese é a que defende que o encuadramento do campesiñado nunha


organización sindical úneca e oficial, acordado en 1941, tentou lograr e, en boa medida
conseguiu, a submisión do campesiriado a unha estrutura controlada desde o Estado e
defensora dos intereses de clase da grande propriedade (identificables coa própria política
agrária do Estado).

Estas tres teses non son apoiadas polos mesmos autores, pero unha determinada
história social fixo-as complementárias mediante a apresentación do Réxime franquista
como un réxime ao servicio da grande propiedade (xa que o seu obxetivo era "manter en paz
e en orde a preexistente estratifi-

Mundo Rural — Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições
Colibri, 2004, pp. 55-69
56 Mundo Rural

cación agrária"1), e que titla un elevado poder na sociedade rural baseado na utilización
sistemática do terror contra os inimigos políticos e contra cal-queira forma de protesta
social.

O meu propósito neste curto texto non é levar adiante unha revisión das tres teses mencionadas,
que están fundadas nun sério traballo de pescuda e sólidamente argumentadas en moitos dos seus
aspectos, polo que -ainda que en medida desigoal, como se verá- estou de acordo con elas.
Tampouco é o meu obxetivo refugar o carácter represivo dun Estado que -a diferencia de outros
sistemas políticos de vocación totalitária da época- naceu dunha Guerra Civil e foi durante
moitos anos e por riba de todo o Estado dos Vencedores2.

O que eu me proporio, de entrada, é matizar a teoria de que o réxime franquista na sua primeira
fase contruise as suas políticas agrárias coa úneca referéncia social da grande propriedade. En
segundo lugar, quero refugar a ideia de que o resultado das políticas agrárias do primeiro
franquismo fora conxelar as relacións socioeconómicas no campo en benefício dos grandes
proprietários.

Non se poden discutir os importantes vencellos políticos, sociais e ideolóxicas entre os fascismos
europeus e os "seriores da terra". Pero as políticas agrárias fascistas, e a franquista en concreto,
non foron nin podian ser alleas á centralidade do campeshlado nos seus discursos. Boa parte da
historiografia agrária tendeu a interpretar esa centralidade do campesifiado como un artificio
manipulador. Un dos sociólogos rurais de meirande prestixio no análise do franquismo, Gómez
Benito, apresenta así a operación:
"A ideoloxia apaixonadamente agrarista do pensamento social agrário do primeiro
franquismo acocha unha práctica política real claramente contrária ao pequeno campes:ti-lado,
especialmente polo que respecta aos traballadores agrícolas ou xornaleiros, arrendatários,
parceiros e outros colectivos non proprietários, así como aos pequenos campesifios
proprietarios [...] e a subordinación real da agricultura á indústria. A ideoloxia da soberania do
campesiflado, como elemento fundamental do pensamento social agrário do primeiro
franquismo, expresa o rexeitamento dos elementos asociados á República [...] e as suas
funcións son: a mobilización e activación ideolóxico-propagandística do campesifiado [...];
a restauración da orde social agrária tradicional e as relacións dominicais anteriores á
República e á Guerra Civil; favorecer a "volta ao campo" [...]; aportar o elemento retórico
seudopopulista necesário para a instrumentación da política agrária" 3

1
Sevilla Guzmán y Gonzáles de Molina (1986), p. 185. Unha tese similar foi apoiada por Castillo (1977).
2
Os níveis que a represión contra "os vencidos" alcanzou nas áreas rurais está retratado abondo nunha ampla
bibliografia: véxa-se, por exemplo, Lazo (1998), Juliá (1998), Cazorla (2000) e Mir (2000).
3
Gómez Benito (1985), p. 332.
Innovacións e continuidades na política agrária do primeiro franquismo 57

Perdoen a lonxitude da cita pero creo que condensa boa parte das visións predominantes
sobre o agrarismo do primeiro franquismo. Nelas está sempre resente a ideia de restauración de
relacións de propriedade anteriores a RepúPblica, de volta a 1931, antes polo tanto da
conxelación de rendas, do regulamento das relacións salariais no campo e da reforma agrária;
nembargantes, e como veremos, nun aspecto alomenos -e un dos mais relevantes desde o
ponto de vista das explotacions familiares, dun campesifiado ao que o franquismo apresentou
como cerne da "raza"- tal volta non se deu. E se é ás políticas agrárias sectors, ás regulacións
dos mercados, onde diriximos a nosa mirada, resulta evidente que o réxime franquista optou
por unha ruptura radical coa tradición liberal de protección alfandegária e libertade nos
mercados interiores -unha fórmula defendida até a 11 República polas grandes organizacións de
proprietários agrários- e resulta necesário explicar cómo se axeitaba esa ruptura aos intereses
da grande propriedade. Finalmente, as institucións organizativas e asociativas do campesiriado
non foron en ningún sentido restauradas: o franquismo creou unha estrutura corporativa rural
baseada nos proxectos da ditadura de Primo de Rivera de afiliación obrigatória, pero ainda con
mais radicalismo e eliminando calqueira autonomia dos diferentes grupos da sociedade rural.
As Hermandades de Labradores (os sindicatos agrários oficiais creados polo franquismo)
eliminaron o sindicalismo de clase, controlaron cal-queira indício de mobilización xornaleira e
outorgaron un papel predominante a quen compraba forza de traballo: pero a posición no seo do
sindicalismo do campesifiado -e recordo unha vez mais que por campesirios refiro-me aos agri-
cultores familiares, con terras de seu ou alleas-, non se deixa definir tan fácil-mente como a dos
traballadores sen terra, colocados nunha posición clara de subalternidade e submetidos a unha
forte vixilancia tras a dura represión da guerra e da primeira posguerra.

En sintese, o conxunto dos instrumentos de política agrária do primeiro franquismo era novo e
alicerzába-se en institucións mais ou menos inéditas. Farei polo tanto unha breve análise de cómo
incidiron esas novidades non na sociedade rural transformada pola II República, xa que o primeiro
paso do franquismo foi esmagar a reforma agrária republicana, senon na sociedade rural
construida baixo o liberalismo.

I. A política de estruturas
A rebelión militar de xullo de 1936, foi pensada por algúns dos seus líderes como algo mais que
un mero golpe militar: de feito, tras a experiéncia da ditadura de Primo de Rivera e na década de
1930, as masas no podian ser simplemente ignoradas. Iso explica a mobilización do campesifiado
carlista e católico nalgunhas zonas do país4, operación para a que a defensa da

4
Sen dúbida, a obra fundamental sobre o caso vasconavarro é a de Ugarte (1998), quen ten matinado de novo
sobre esta cuestión en Ugarte (2000). Verbo do movemento católico véxa-se a
Innovacións e continuidades na política agrária do primeiro franquismo 67

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A BEM DA NAÇÃO! MODERNIZAÇÃO E RESISTÊNCIA EM MEIO RURAL
DURANTE O ESTADO NOVO

Inês Fonseca
Investigadora do CEEP,
bolseira de Doutoramento da FCT
«Como é que se pode medir o Progresso

se não se sabe quanto é que ele custa e quem o pagou?»

(Arundhati Roy)

O presente texto dá conta de uma investigação multidisciplinar dedicada ao tema da


Resistência e agitação no contexto rural português (1926-1974)1. A pesquisa teve como um
dos seus objectivos a tentativa de compreensão relativamente às tensões sociais (mais ou
menos declaradas e com maior ou menor intensidade) que se verificaram ao longo de todo o
Estado Novo, nos meios rurais. Atribuímos, portanto, especial atenção ao movimento de moder-
nização agrícola que ocorreu no país, durante este período e, também, ao modo como as
populações rurais reagiram a essas transformações (nomeadamente, à tentativa de penetração
capitalista nos campos2).

Uma das conclusões a que chegámos relaciona-se com a ocorrência de conflitos sociais
abertos ou de baixa intensidade por todo o país, durante o Estado Novo. Simultaneamente,
verificámos existir uma distinção ao nível das formas e dos motivos de protesto e conflito,
consoante a área geográfica

1
Tratou-se de um projecto levado a cabo, entre 1997 e 1999, por uma equipa de investigadoras das áreas da
antropologia e da história, da qual fizemos parte (juntamente com Paula Godinho e Dulce Freire), no âmbito do
Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa e que foi financiado pela FCT-PRAXIS XXI.
2
Cf. Freire, Fonseca e Godinho (Novembro de 1999) Resistência e conflito no contexto rural português
(1926/1974); Lisboa, FCSH/UNL — Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa, dactilografado; p. 33: «As
medidas modernizantes projectadas pelo Estado Novo, que visavam transformar o sector primário e o sector
secundário, traduziram-se em diversos mecanismos de penetração das relações capitalistas nos campos e em
formas de consolidação do Estado e da ideologia que preconizava. As afirmações de poder político e
económico confundiram-se por vezes e passaram pelo controlo de todo o território e das populações que aí
residiam.».

Mundo Rural — Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições
Colibri, 2004, pp. 71-85
72 Mundo Rural

em que ocorrem os episódios por nós recenseados. Assim, existem: por um lado, as acções
reactivas do Norte, que se traduzem no esforço dos camponeses por manterem o seu modo
de vida, e os movimentos activos do Sul, cuja população (maioritariamente assalariada
rural) tentava modificar as condições da sua existência.

A metodologia de investigação seguida, consistiu numa combinação das técnicas de


pesquisa histórica (com o levantamento a nível nacional de documentos escritos, em arquivos
centrais e locais) com as técnicas antropológicas de recolha de relatos orais (neste caso,
complementando a recolha extensiva de informação com a recolha de carácter monográfico).
Esta multiplicidade de registos documentais (escritos e falados) e de fontes com diferentes
origens e propósitos, veio enriquecer a observação que se pretendia efectuar e assegurou em
grande medida a validade das informações recolhidas. Apenas desta forma, se tornou possível
o acesso a uma diversidade de discursos sobre as acções do estado levadas a cabo com vista
à transformação da agricultura tradicional. Pudemos observar (através da documentação
escrita) a versão apresentada pelos técnicos e os responsáveis políticos, bem como as atitudes
e comportamentos na época e os discursos actuais por parte de membros das comunidades
locais.

Um dos aspectos deste trabalho debruçou-se sobre as reacções das comunidades


rurais do Norte face à intervenção do estado, cujo propósito era introduzir na prática
agrícola destas populações uma lógica de mercado a par do desenvolvimento tecnológico.
Esta transformação da agricultura, pretendida por técnicos, responsáveis políticos e elites
locais, pressupunha a realização de uma verdadeira operação de engenharia social, uma vez
que implicava a mudança de práticas e costumes tradicionais, e era entendida como algo de
negativo pelas populações camponesas do Norte do país.

Estado Novo e resistência em meio rural


Algumas das medidas políticas preconizadas pelo Estado Novo foram concretizadas,
revelando maior ou menor sucesso, consoante os casos. Simultaneamente, os movimentos
que reagiram a estas medidas e transformações não podem ser apresentados categoricamente
como tendo sido um sucesso ou um fracasso. O balanço relativo às acções estatais levadas a
cabo durante o Estado Novo e aos movimentos de resistência com que tiveram de se
defrontar consiste, então, numa análise de múltiplos aspectos: os projectos inicialmente
previstos, a sua ideologia subjacente, o modo como foram concretizados, as dificuldades
encontradas e os resultados obtidos.

Nesta reflexão devemos, ainda, ter sempre presente uma questão fundamental: as
relações de poder — no seio das comunidades, entre as populações rurais e o estado, entre os
técnicos que executavam os projectos e as populações, etc.. Trata-se de processos não-
lineares e com ambiguidades: uma
A Bem da Nação! 73

Vez que, por exemplo, determinado projecto poderá ter sido concretizado tal como foi
delineado, mas não sem ter implicado atrasos e maiores custos do que previstos
originalmente, nem sem ter enfrentado a persistente resistência das populações que sempre
arranjaram maneira de o contornar, adulterando-o que foi o que aconteceu mais

frequentemente (como veremos).

Ao longo desta exposição, procuramos descrever a acção da Junta de Colonização


Interna, apresentando três casos concretos, com base no argumento de J.Scott (1998): o
projecto de emparcelamento e de regadio de Estorãos (que afectou as freguesias de
Estorãos, Moreira e São Pedro, do concelho de Ponte de Lima) e os projectos de criação de
colónias agrícolas no país com os casos dos colonatos de Montalegre e do colonato de Pegões
(concelho do Montij o).

Na sua obra Seing Like a State, J.Scott interroga-se sobre o falhanço de determinados
projectos desenvolvidos por parte dos estados e que tinham como um dos objectivos a
melhoria das condições de existência das populações. Em sua opinião, as realidades destes
planos ficaram aquém daquilo que foi projectado inicialmente por desconhecimento, da parte
de quem planeou, sobre as realidades que se pretendia transformar.

Trata-se, de tentativas de controlo por parte dos estados relativamente à sociedade,


considerada originalmente desorganizada e sem uma lógica perceptível. O modo como são
concretizados estes projectos, que constituem um exercício de poder sobre o meio-
ambiente e sobre as populações que dele usufruem, encontra-se condicionado por uma
combinação de quatro elementos: a) o ordenamento administrativo da natureza e da
sociedade; b) uma ideologia fortemente modernista, que faz a apologia do avanço científico e
tecnológico como algo de inevitável e indubitavelmente benéfico; c) um estado autoritário,
com capacidade para usar o seu poder coercivo para impôr os seus desígnios; d) uma
sociedade civil sem capacidade para resistir a estes planos. Concluindo, afirma o autor: «the
legibility of a society provides the capacity for large-scale social engineering, high-modernist
ideology provides the desire, the authoritarian state provides the determination to act on that
desire, and an incapacitated civil society provides the leveled social terrain on which to
build» (1998: 5). Os planos dos estados para a transformação social, são geralmente
esquemáticos e superficiais relativamente às realidades sobre as quais pretendem intervir,
dispensando o importante papel ocupado pelas práticas e os conhecimentos locais. É neste
aspecto, segundo Scott, que reside a principal razão do seu fracasso.
A ideologia modernista3, que tem o seu apogeu com a conjuntura da I

3
Alguns dos exemplos de que este autor se socorre para ilustrar a sua tese, referem-se a casos de transformação
nos estados pré-modernos (com a invenção da florestação científica na Prússia e na Saxónia, durante o século
XVIII), bem como a casos de estados autoritários (com o processo soviético de colectivização da sociedade e as
suas manifestações culturais) ou, ainda, a casos de estados enfraquecidos (com o processo de realojamento em
cidades das
A Bem da Nação! 85

que esta sofreu. Na década de 60, por exemplo, a maioria das «colónias» ficou quase
deserta, à semelhança de muitas aldeias do interior do país (devido aos efeitos do
movimento migratório que ocorreu). Esta situação vem comprovar a falsidade do
argumento que pretende provar o insucesso da experiência, afirmando que os colonatos (por
serem o resultado de manipulação social) não permitiam a formação de uma teia de
sociabilidades e o estabelecimento de uma comunidade. Verificámos, na nossa investigação,
que essa rede social existia e tinha influência no modo de vida dos colonos: se estes
integraram o fluxo migratório da década de 60, foi porque os seus vizinhos também o fizeram
(em busca de melhores condições de vida). Pelo contrário, nos casos em que isso não
aconteceu (como no colonato da Gafanha, no distrito de Aveiro) foi porque a região
permitiu aos indivíduos a sua permanência no local: a industrialização verificada teve
como efeito nesta população a sua passagem da actividade económica agrícola para a
industrial, produzindo não só a manutenção dos efectivos populacionais como o seu
aumento (com os filhos dos colonos a construirem casa nos terrenos dos seus pais).

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MOVIMENTOS SOCIAIS RURAIS: QUESTÕES DE
TEORIA E MÉTODOS

Paula Godinho
Departamento de Antropologia FCSH/UNL,
investigadora do CEEP

1. Os movimentos sociais rurais, cuja delimitação no tempo e no espaço está dificultada


pela sua natureza, levantam algumas questões teórico--metodológicas que se pretende
discutir. Aproveitando o momento político oportuno, iniciam-se frequentemente antes e
prolongam-se além da sua deflagração. Precedidos, acompanhados e continuados através de
fenómenos quotidianos de resistência (Scott, 1985) marcada pelo recurso ao «registo
escondido» (Scott, 1990), de baixo risco e, frequentemente, com benefícios imediatos, os
movimentos colectivos articulam redes sociais que os sustentam — a montante e a jusante —
e que elaboram e reforçam os sistemas ideológicos, grangeando as bases para a edificação de
uma identidade1.

Concebida a sociedade rural como «parcial» (Redfield, 1956), os movimentos aí


emergentes resultam da junção do local com o global, do paroquial com o cosmopolita (Fox e
Starn, 1997), que hibridizam — nos objectivos, nos meios, na ideologia, nos agentes, na
liderança, na estrutura (Landsberger, 1974) — os símbolos e as práticas da resistência. A
apropriação e transformação das formas discursivas e das imagens, incorporando e
redefinindo, é um fenómeno associado à produção de novos sistemas de sentido que dão
legibilidade à emergência de movimentos colectivos. Reflectindo a ligação a um espaço e a
uma estrutura fundiária, assumem um carácter activo ou reactivo, com reivindicações e
repertórios «avançados» ou destinados a combater a «desrotinização» (Wolf, 1971).
A articulação interdisciplinar, com uma opção intensiva-extensiva de abordagem, que
alia o levantamento em arquivos nacionais e locais com a

1
Sobre a discussão acerca do carácter dos movimentos sociais rurais em décadas recentes v. Marc Edelman
(1999), principalmente o capítulo introdutório. Questionando o conceito de «novos movimentos sociais»,
Edelman chama a atenção para o facto de que a maioria das lutas recentes, especialmente em países pobres,
interceptou quer as construções de classe, quer as edificações da identidade (Edelman, 1999:20).

Mundo Rural — Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições Colibri,
2004, pp. 89-105
90 Mundo Rural

permanência continuada num espaço, permite a abordagem das dinâmicas externas e


internas num movimento, a detecção das tensões que levam ao seu desencadeamento e as
condições que determinam o nível de satisfação dos objectivos. As narrações de vida,
através das quais é possível reconstituir acontecimentos, permitem compreender a maneira
como a História é transformada na cognição individual. Introduzem uma desejável polifonia, e
mostram como intervêm os acontecimentos públicos na vida privada e como as percepções
do mundo influenciam a acção.

2. Numa obra recente acerca de movimentos sociais, o sociólogo espanhol Enrique


Lararia (Lararia, 1999) encontra similitudes entre o debate teórico em torno desta temática e a
parábola indiana clássica dos seis cegos. Cada um destes, ao colocar a mão sobre uma parte
diferente do corpo de um elefante, descrevia um elemento distinto. Cada uma das
perspectivas, cega em relação ao todo, toma-o pela parte que toca, considerando a realidade
de uma forma restrita, limitada.

Com um objecto frequentemente de difícil demarcação, imbricado numa teia


ideológica que pode obnubilar aquilo que não é claramente delimitado, a investigação
centrada nos momentos de aceleração da história requer um debate em torno da própria
categoria de objecto, pois estamos perante agentes activos da mudança social. Entre a
resistência rotineira, classificada por James Scott no nível infrapolítico, e a revolução de
massas — a primeira enquadrada nas vivências diárias, a segunda que conduz a uma alteração
simultânea das vidas de múltiplos agentes sociais — existe uma zona intermédia onde
emergem protestos que não visam ou não conseguem uma alteração completa da ordem
social, mas que constituem instantes com repercussões em níveis que excedem o local ou a
região em que emergem. Segundo Richard Fox e Orin Starn (1997:7) estas lutas têm
importantes reflexos nos sentidos culturais partilhados pelos grupos e pelas comunidades, e
concatenam vontade pessoal, iniciativa local e inventividade. Também estes protestos, que
emergem num âmbito localizado, ainda que estendam metástases, servem para pensarmos
aqui quer a relação entre o local e o que o transcende, quer a abrangência da noção de
comunidade, quer a importância da construção de uma classe. Num movimento que dir-se-ia
contrariar a ênfase hoje colocada na transcendência do nível de pequena escala, local,
salienta-se a conexão continuada do mundo em termos de mercadorias, de pessoas e de
ideias, legível em patamares localizados de relação aprofundada entre os indivíduos.

Numa extensão da acepção de sociedade parcial que Kroeber atribuiu em 1948 ao


campesinato, poderemos dizer que os movimentos que emergem neste nível intermédio
reflectem esse carácter de «uma parte da sociedade com uma parte da cultura», lembrando
as trocas desequilibradas entre Pequena Tradição e Grande Tradição que, na linha de
Robert Redfield
Movimentos sociais rurais: questões de teoria e métodos 91

(1956), nos permitem compreender a paroquialização de certos elementos e a


universalização de outros. Estas transacções, quotidianas ou remetidas para momentos bem
específicos, dão visibilidade à relação entre as«sociedadesades parciais» e o todo
(nacional/transnacional) e desvelam os lugares ou as entidades que favorecem a mediação
entre elas (a escola, o mercado, a igreja, a rede social, o partido, o sindicato).
1-
A produção teórica acerca das condições de vida nos campos e das rebeliões
camponesas foi desencadeada, no contexto anglo-saxónico, sob o impacte da guerra do
Vietnam. Os estudos vão centrar-se nos camponeses quandoeles se tornam visíveis, por
perturbação ou afronta dos poderes instituídos2. No final da década de 60, Eric Wolf publicou
uma obra marcante na relação entre a Antropologia e a História na abordagem de revoltas
rurais que emergiram em situações em que o campesinato, devido à penetração capitalista,
fora despojado de meios de subsistência tradicionais (Wolf, 1969). Esta obra conferiu
visibilidade etnográfica às dificuldades de passagem de uma situação de reconhecimento das
injustiças à participação política. Impotentes, em situações em que o seu peso social
decrescera, ao mesmo tempo que se dilatava a importância da economia capitalista, os cam-
poneses tornavam-se vítimas fáceis e sem capacidade de manobra.

Olhar para os indivíduos como seres com capacidade para alterar o percurso da história,
ver neles agentes sociais que podem apropriar-se de situações e encaminhá-las no sentido
dos seus interesses é reconhecer que a inventividade constitui uma arma em relação à
incorporação hegemónica. A recusa de constrangimentos sociais através da criatividade
permite edificar um grupo e dinamizar a acção colectiva. Para os que não integram as
elites, a forma de acção colectiva tem de ser o movimento social, por não terem outros
recursos através dos quais possam fazer-se ouvir e ver vingar os seus pontos de vista
(Bouchier, 1986:4). Porém, no quotidiano, com um mínimo de custos e um máximo de
benefícios, os indivíduos resistem, por vezes sem provocar cabeçalhos de jornal, mas corroendo
e desgastando.

Poucas terão sido, de facto, ao longo da História, as situações em que os grupos


sociais subordinados desencadearam formas de luta política aberta, mesmo de maneira
clandestina e revolucionária — que é, segundo James Scott, típica das classes médias e da
intelligentsia (Scott, 1985: XV). Como escreve Alain Touraine, e ainda que considere que as
razões para a rebelião são generalizadas, a História não é sempre heróica, e as revoltas não
são constantes. De forma rotineira, usam-se os interstícios do sistema, com escassos custos
e com eventuais benefícios imediatos. Assim, a resistência abrange os actos dos grupos
dominados com vista a mitigar ou a negar exigências por parte das classes elevadas e do
estado, ou ainda com a finalidade

2
O debate acerca do campesinato e da existência de um «tipo camponês universal» durante as décadas de 60 e
70, animou a antropologia, sendo inúmera a bibliografia produzida.
Movimentos sociais rurais: questões de teoria e métodos 101

gem dos movimentos colectivos que eclodiram no Sul de Portugal, reenvia para a capilaridade
de uma rede social, para a interrelação entre o nível local e o translocal.

A ligação da História e da Antropologia no tratamento desta problemática, alicerça-se


na compreensão de que sem estruturas e sem relações sociais, os eventos são
essencialmente arbitrários (Davis, 1992). À dimensão espacial, que dá conta das ligações em
termos do espaço e das relações das micro-sociedades dentro de um estado, deve juntar-se uma
abordagem histórica: todas as sociedades detém um lugar na História, que determina a utili-
zação de uma grelha teórica derivada da História. Dificilmente se poderão abordar
comunidades impregnadas pela Grande Tradição estatal e centralizadora, sem recorrer a
uma perspectiva histórica que tenha em linha de conta os antecedentes e os percursores
duma dada situação actual. O pensamento acerca do passado é um elemento importante na
criatividade social (Davis, 1994), constituindo uma parte da informação que os indivíduos
utilizam para tomar decisões que afectam o seu futuro. Todavia, e porque, tal como Marx
havia notado, os homens fazem a sua história, mas não a fazem como desejariam, na
abordagem dos movimentos sociais temos de contar com consequências da interacção
humana não previsíveis à partida, que sublinham as interações previsíveis (Blok, 1992:121-
2).

Sem sectarismos de fidelidade a um campo disciplinar, a Antropologia deve descobrir a


História, uma história que dê conta das formas através das quais os sistemas sociais se
formaram e evoluíram, e que sirva para analisar as sociedades (Wolf, 1980). Por outro lado,
não pode continuar a contar-se a História das elites vitoriosas, com detalhes sobre a subjugação
dos grupos dominados: os elementos dos grupos socialmente subalternizados devem ser olhados
como agentes de um processo social, bem como suas vítimas e testemunhas, frequentemente
remetidas para o silêncio. Entre a Antropologia e a História, numa fase em que, mais do que
espartilhado por fronteiras disciplinares, o conhecimento tem de buscar orlas de convivência
nas Ciências Sociais, urge procurar sentidos mais gerais para as conclusões intuídas num
estudo localizado.

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O MOVIMENTO OPERÁRIO E O PROBLEMA RURAL NA I
REPÚBLICA

João Freire
professor catedrático de Sociologia do ISCTE

1. Ideias sobre a "questão agrária" nos inícios do movimento operário

Parece não suscitar grande controvérsia a ideia de que o movimento operário nascente
nos finais do século XIX e princípios do século XX ignorou largamente a questão da terra,
do campesinato, da produção e do trabalho agrícolas1. Se percorrermos as actas e as
resoluções dos congressos socialistas e operários — por exemplo, as recolhidas por Carlos
de Fonseca para Portugal, entre 1865 e 18922— raras e genéricas serão as referências que aí se
podem encontrar a tal respeito.

Do lado das sensibilidades libertárias, não existe maior detença sobre o assunto, mas
podem decifrar-se duas posições que virão a ter alguma importância na orientação futura
do movimento face ao mundo rural.

Em primeiro lugar, uma adesão afectiva a movimentos insurreccionais camponeses ou


rurais, supostamente convergentes com os ideais da anarquia, ou, pelo menos, de uma
transformação social emancipadora. Sobretudo em Portugal — onde, à vista dos ecos da
imprensa coeva, os eventos que agitam os campos seriam os das intempéries ou catástrofes
naturais, os da criminalidade quotidiana ligada à propriedade3 e os movimentos migratórios

1
Ver, em especial:

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3
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homicídio voluntário condenados nesse ano foram perpetrados por jornaleiros. Por outro lado, grande parte da
violência e litigiosidade rural tinham a ver com questões de delimitação da propriedade, de uso de água para
regas, etc.

Mundo Rural — Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições Colibri,
2004, pp. 107-118
108 Mundo Rural

forçados pela miséria — as notícias de levantamentos em Itália, em Espanha ou no México


associados a nomes de heróis ou mártires anarquistas provocavam inevitavelmente ondas de
simpatia e de vontade de reprodução de tais feitos. Em Itália, o próprio Bákunin andara
envolvido em preparativos insurreccionais na Emilia Romagna dos pequenos camponeses e
artesãos (1873) e Malatesta começara a ser conhecido ao levantar-se em armas com campone-
ses do Benevento, perto de Nápoles (1877)4 Em Espanha, as violências na região andaluza de
Jerez de la Frontera incluiram mais uns tantos nomes de "agarrotados" no martirológio do
anarquismo5. E no México, antes e depois de Zapata, a ideia de revolução ficou sempre
associada a legiões de pobres camponeses que lutariam por "terra e liberdade"6.

A segunda referência que deve fazer-se é a da razoável confusão existente, nos


discursos ideológicos dos militantes, entre camponeses e assalariados agrícolas, como se uns
e outros fossem — e se sentissem igualmente vítimas das injustiças do capitalismo moderno

e do regime de propriedade vigente. Assim, quando as personagens do panfleto (inúmeras


vezes reeditado, inclusivamente entre nós) de Malatesta entre Camponeses 7 dialogam
acerca das causas da escravidão a que se acham sujeitas, constroem uma parábola onde se
projecta uma sociedade ideal de pequenos produtores independentes, enraizados na terra
como na estrutura social, para quem o trabalho dá sentido e dignidade, e onde ninguém
explora ninguém, antes se entreajudam pela cooperação e solidariedade. Mas quando Neno
Vasco, nas suas Geórgicas8 — igualmente um panfleto, dirigido ao trabalhador rural —ataca
tão frontalmente os proprietários, os "amos" e os patrões, propondo, em vez disso, "pôr
tudo em comum e trabalharem todos juntos e combinados", é de crer que tal discurso
confundisse seriamente qualquer pequeno camponês, ao Norte como ao Sul do país,
predispondo-o a escutar antes as vozes mais avisadas dos notáveis locais e da tradição.

Assim o movimento operário que se vai constituindo e forjando em greves e lutas


sociais — e não nas campanhas eleitorais nos primeiros anos do século XX envolve

fundamentalmente artífices e operários de oficinas e fábricas situadas nas zonas urbanas, ou


em certos núcleos industriais isolados na paisagem rural. Até à queda da Monarquia, não
parece haver influência, atenção ou dinâmica própria que minimamente articule ou integre
movimento operário com movimentos sociais rurais.

4
MASINI, Pier Carlo, Storia degli anarchici italiani, Milano, Rizzoli, 1969.
5
MORAL, Juan Díaz del, Historia de las agitaciones campesinas andaluzas, Alianza, 1973.
6
NUNES, Americo, Les révolutions du Mexique, Paris, Flammarion, 1975.
7
Editado provavelmente pela primeira vez em Portugal em 1900.

8
Editado pela primeira vez em 1913.
O movimento operário e o problema rural na I República 109

2. O proletariado rural ribatejano e alentejano e as lutas sociais de 1910-12

Assim, as lutas sociais que ocorrem no Ribatejo e no Alentejo a partir da implementação


da República e do desemprego sazonal do Inverno de 1910-11 são uma surpresa para quase
todos, pela dimensão, profundidade e radicalidade de deram mostras, como muito bem mostrou
José Pacheco Pereira9.

Evidenciou-se que tanto a forma de luta basicamente empregue — a greVe, ou a sua


ameaça —, como a organização destes movimentos — com assembleias e comités de grevistas,
modos de contactos com o adversário, aatitudes para com os poderes políticos e as forças armadas,
a imprensa, a procura de apoios de solidariedade entre outras classes profissionais, etc. — e ainda as
reivindicações avançadas — salários, etc. — correspondiam ao tipo e ao estilo de acções que os
operários industriais desenvolviam e que os sindicalistas libertários teorizavam sob o conceito de
"acção directa".

Deve notar-se que estes movimentos tocaram a zona de agricultura ribatejana, até concelhos
mesmo às portas de Lisboa, na margem Sul do Tejo, como o Montijo, Moita ou Palmela.

A identificação da convergência de interesses entre operários e assalariados rurais — pelo menos


em termos de dinâmica de um processo de lutas contra os proprietários e patrões burgueses, e de
enfrentamento com as novas autoridades republicanas — foi imediatamente captada pela elite diri-
gente do associativismo operário. É um eloquente exemplo disto a interessantíssima série de artigos
que o militante da construção civil Jorge Coutinho assina na revista anarquista Lúmenl° entre
Setembro de 1911 e Março de 1912 sobre os títulos "O despertar dos trabalhadores rurais" e "As
minhas impressões". E é meridianamente significativo que a direcção central do movimento
operário libertário (a então designada Comissão Executiva do Congresso Sindicalista) tenha
despachado para o Alentejo, durante a Primavera de 1912, após a greve geral de Janeiro em Lisboa
e arredores e a repressão, não menos alargada, que se lhe seguiu, missões de militantes operários
de Lisboa para andarem, de terra em terra, a organizar sindicatos locais e uma rede estável de
relações, informação, acção e resistência: foi a tournée de propaganda alentejana, como então foi
designada e que envolveu homens como José Carlos Rates, Evaristo Marques Esteves, Manuel da
Conceição Afonso e outros, além dos rurais Joaquim José Candieira, Tiago José Varela e Vital
José.
Como António Ventura desde cedo apontou", a organização sindical

9
PEREIRA, J.P., Conflitos Sociais nos Campos do Sul de Portugal, si, Europa-América, sd.
10
Revista de Sociologia e Arte editada em Lisboa, entre 1911 e 19134, com 24 números publicados, sob a
direcção de Severino de Carvalho.
11
VENTURA, A, Subsídios para a História do Movimento Sindical Rural no Alto Alentejo (1910-1914), Lisboa,
Seara Nova, 1976; e O Sindicalismo no Alentejo: a "tournée" de Propaganda de 1912, Lisboa, Seara Nova,
1977.
"NAS NOSSAS TERRAS O PARTIDO SOMOS NÓS". A REDE DO PARTIDO
COMUNISTA PORTUGUÊS NOS CAMPOS

João Madeira
Doutorando na FCSH/UNL

Em Até amanhã, camaradas, o romance de Álvaro Cunhal escrito nos anos cinquenta na
prisão, o universo comunista nos campos do sul ocupa sugestivas páginas. Recriando uma
reunião ampliada de assalariados rurais, a determinada altura um dos participantes afirma: "— O
Partido é grande e tem muita experiência, amigo. Mas o que é o Partido ? Aqui nas nossas
terras o Partido somos nós (...)"1, como se de uma identificação completa entre partido, massa e
território se tratasse.
O Partido Comunista, a partir da "reorganização" de 1940-41, mas particularmente a partir do
final da guerra e nos anos cinquenta, construiu uma rede orgânica ancorada num conjunto de
aldeias e vilas, fortes concentrações de trabalhadores rurais, que configuraram importantes
bastiões, por onde se sedimentaria uma influência social e política duradoura.
É, pois, a sul e no período que arqueia entre a guerra e os tempos próximos do 25 de Abril
que aqui nos situamos.
Em 1942, quando ainda se travava a batalha interna pela reorganização, Pedro Soares vai a
Beja puxar os militantes para o partido que se refundava, mas os militantes do Baixo Alentejo
têm pouco que ver com a realidade rural. São sapateiros, barbeiros, funcionários públicos,
empregados e apenas um trabalhador rura12.
Seguramente por isso, quando Manuel Guedes apresenta ao I Congresso Ilegal do PCP, o
informe sobre organização, refere que o trabalho entre os camponeses, como então designavam os
assalariados rurais, "tem sido e continua sendo bastante fraco. (...) as nossas organizações (...)
ainda não souberam ligar-se às massas camponesas"3.

1
Manuel Tiago [Álvaro Cunhal], Até amanhã, camaradas, ed. Avante!, Lisboa, 1975, p. 160.
2
Cf IAN/TT, Pide-DGS, PC 469/42.
3
Santos [Manuel Guedes], Tarefas de Organização, ed.00MLP, Porto, 1976, p. 15.

Mundo Rural — Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições Colibri,
2004, pp. 119-132
120 Mundo Rural

Isto significava que em conjuntura de guerra, perante um quadro de falta de géneros,


racionamento, desemprego, grandes fomes, não se estava à espera do Partido Comunista, que aliás
não dispunha de capacidade para intervir.

Logo no início de 1941, num inverno particularmente rigoroso, é de forma perfeitamente


espontânea que populações famintas de Ermidas, no Vale do Sado, percorrem os montados à
procura dos tacos de cortiça que iam depois vender a receptadores do mercado negro,
movimento que se estenderia pelo concelho de Ferreira.

Em 1943, com o Despacho de 14 de Maio, o governo procura impor limites para os salários,
quando já nalgumas localidades, na prática, a situação já havia sido ultrapassada pela via
reivindicativa, chegando-se a rasgar os editais ou pura e simplesmente ignorá-los. Nas praças de
jorna exigiam-se salários mais altos e ia-se para a greve para o conseguir4.

Enquanto isto, O Militante de Novembro de 1943 constatava que "As nossas organizações nas
regiões rurais e os nossos militantes continuam a fechar-se em grupos sectários, isolados das
massas rurais "5.

É preciso dizer que a orientação táctica dos comunistas nesta fase se orientava basicamente para o
entrismo nas Casas do Povo, onde vislumbravam "o melhor ponto de contacto do Partido e o
campesinato"6, o que suscitará sempre duradouras resistências por parte dos assalariados rurais
comunistas.

Vão ser as movimentações na zona do Ribatejo, à volta das praças de jorna, ainda antes da greve
de Maio de 1944, que acabam por fornecer ao Partido Comunista um quadro de luta mais amplo e
polifacetado, que é lido no sentido de encontrar uma linha de intervenção para o que, até aí,
havia sido fundamentalmente espontâneo.

O racionamento do pão vai, pelo menos na zona de Vila Franca acelerar o processo de greve de
8 e 9 Maio de 44, com expressão rural em A-dos-Loucos, Vila Franca de Xira, S. João dos
Montes, A-dos-Bispos, lavrando em várias direcções até Almeirim, Arruda, Loures, ou Santarém.

Na zona de Vila Franca, centro do designado Baixo Ribatejo, que havia sido um dos berços da
"reorganização" do PCP, muitos militantes trabalham na defesa, apoio e incentivo às Praças de
Jorna, perante oposições fortes no interior do próprio partido, que levam O Militante a justificar:
"(...)As praças de homens, que na realidade são mercados medievais da força de trabalho,
1 -
tornam-se num instrumento de luta nas mãos dos can P° neses havendo assim que lutar (no que
respeita a algumas regiões) contra a tentativa para a sua extinção.

4 cf Fernando Rosas, O Estado Novo, in História de Portugal, Sétimo Volume, (Dir. Jos Mattoso), Círculo de
Leitores, Lisboa, 1994, pp 364-365.
5
Mobilizemos os camponeses para a luta, in O Militante, 25, Novembro de 1943.
6 O trabalho do Partido nos organismos massivos. O trabalho partidário nas Casas do P in O Militante, 16,
Outubro de 1942.
Nas nossas terras o Partido somos nós 121
Eis as razões porque é completamente justa a consigna lançada pelas organizações partidárias
de alguns sectores rurais (...):
que os camponeses se recusem a ir esmolar trabalho a casa dos patrões e obriguem os patrões a
irem contratá-los à praça"7.

De qualquer forma, vai ser o IV Congresso, em 1946, que dispõe as forças e recursos
partidários para operar uma verdadeira viragem para os campos do sul, mesmo que muitas
das organizações se estivessem a constituir ou a reconstruir em localidades de velhas
tradições comunistas, como Vale de Vargo, Pias, Ficalho, Sobral da Adiça, Amareleja, Serpa
ou Mouras, já na primeira metade dos anos quarenta.

Alvaro Cunhal a quem coube apresentar o Informe de Organização reconhece os


avanços verificados nas zonas de assalariados nos três anos que separavam o I do II
Congresso Ilegal, embora reconheça também a debilidade de muitas das organizações, a
exigirem um apoio particular. Insistindo no incremento das Comissões de Praça, na criação
de uma imprensa específica para o trabalho no campo, continua a insistir no apelo para que os
assalariados se interessassem pelas Casas do Povo, a tal ponto que, sustenta, de modo
espantoso que se "pudessem ir transformando as Casas do Povo em organismos de defesa
dos trabalhadores rurais com vista à sua futura transformação em sindicatos dos
trabalhadores rurais"9.

Para as regiões rurais são destacados dirigentes experientes recém eleitos. À frente do
Comité Provincial do Ribatejo é colocado Soeiro Pereira Gomes. No Alentejo, o responsável
é Francisco Miguel, que vai lançar o jornal O Camponês'°, em Maio de 1946 com um caderno
reivindicativo unificador para os assalariados, onde se defendia já uma jorna a seco de 50$00
para os homens e de 30$00 para as mulheres, entre outras reclamações".

Por sua vez, em Agosto também desse ano, Soeiro Pereira Gomes redige a importante
brochura Praça de Jorna, onde rebate com empenho e argúcia as opiniões dos que se lhes
opunham:

"(...) a antipatia de muitos camponeses pelas praças, só pode filiar-se no atraso da sua
consciência de classe, no seu individualismo característico, por via do qual julgam obter,
12
sozinhos, as condições de vida que só colectivamente, unidos e em luta conseguirão."

7
Acerca de uma palavra de ordem no movimento camponês, in O Militante, 29, Maio de 1944.
8
Memórias políticas de uma família de Vale de Vargo, in João Honrado, Falando Alentejo, AMDB, Beja, 1999,
p. 76.
9
Duarte [Álvaro Cunhal], Organização, in IV Congresso. Relatórios e Resoluções, II, Ed. Avante!, Lisboa,
2000, pp 96-97.
1
° Cf Francisco Miguel, Uma vida na Revolução, A Opinião, Porto, 1977, p. 103.

11
Cf Caderno de reivindicações mínimas, in O Camponês, 1, Maio de 1947.

12
Soeiro Pereira Gomes, Praça de Jorna, ed. da OTA da DORL do PCP, Lisboa, 1976, pp 7-8.
MOBILIZACIÓN CAMPESINA, CLIENTELISMO POLÍTICO E
EMIGRACIÓN DE RETORNO NA GALICIA RURAL (OURENSE, 1890-
1936)

Raúl Soutelo Vázquez

Professor no CPI Alfonso VII de Caldos dos Reis, Pontevedra

"El pueblo gallego carece de verdadera representación en tas Cortes porque no


puede emitir su veredicto con libertad y las opiniones políticas de los diputados
gallegos son siempre idénticas a las dei poder... Alcaides y caciques conducen al
colegio electoral como un rebario de borregos a los que ejercen el derecho de
sufragio... Se valen de todos los medios para esclavizar a su pueblo: prestamos a
rédito escandaloso, cereal adelantado para ia siembra que luego se cobra
recuperado y se creen con derecho a imponerse en ia conciencia campesina"'

Introducción
A mobilización agrarista do campesiriado galego, a intermediación caciquil das
relacións entre as comunidades rurais locais e o estado e a emigración de retorno son os tres
fenómenos más característicos da Galicia rural do século XX, que nós presentaremos acó
partindo das aportacións historiográficas recentes e analizando as interaccións entre os catro
grupos sociais que actuaban na sociedade rural galega de antes da guerra civil: 1) os labregos
que protagonizan o movemento campesião coriecido como agrarismo, mercantilizan as súas
explotacións domésticas, redimen as vellas rendas forais para convertérense en donos de seu e
emigran a América creando un podente tecido asociativo nas cidades de alén mar que
financiou centos de escolas e organizacións agrarias nas súas parroquias de orixe ata 1936; 2)
as elites rurais que controlan as fontes do poder económico e social (propiedade da terra,
traballo a xornal, préstamos e gando en aparcería...), ocupan unha posición central nas redes
microsociais e monopolizan a administración local como caciques que intermedian a
relación diádica entre a comu-

1
Vide Valentin Lamas Carvajal, "El estado de la población rural" (Heraldo Gallego, 5-111-1880).

Mundo Rural — Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições Colibri,
2004, pp. 133-187
134 Mundo Rural

nidade rural e o Estado Liberal espariol, ineficaz á hora de crear unhas infraestructuras materiais
e identitarias que uniformizasen ós habitantes do territorio; 3) os americanos e indianos que
retornaban con pequenas fortunas e novas ideas (individualistas, laicas e republicanas ou
socialistas) converténdose en activos líderes agrarios locais ou integrándose nas elites rurais
de caciques, rendistas e propietarios; 4) e finalmente, as organizacións políticas (partidos
dinásticos, republicanos, nacionalistas...) e sindicais que interpelaron ó campesiriado con
discursos rexeneracionistas en clave populista para controlar os seus sufraxios durante a
Restauración (1876-1923) e a Segunda República (IV-1931 / VII-1936).

Estudiaremos a actuación destes grupos na periferia rural de Ourense e na comarca


vitivinícola do Ribeiro, dúas áreas de grande tradición migratoria a Latinoamérica ata os
anos sesenta do século XX, comparándoa cos resultados que terien acadado outras
investigacións empíricas realizadas nas restantes bisbarras galegas: Lavadores nos arredores
de Vigo, Teo nos de Santiago, a comarca gandeira do Ortegal ou a vitivinícola do Baixo
Mifío. Veremos ós emigrantes de Vilamarín, A Peroxa e Coles creando asociacións étnicas en
Bos Aires ou na Habana e ós retornados participando nas dinámicas sociopolíticas das súas
parroquias de orixe, sexa como novos caciques integrados nas elites locais ou dirixindo a
confrontación das sociedades agrarias cos caciques de turno dinástico. Analizaremos
tamén a ausencia dese protagonismo sociopolítico dos retornados nas terras do Ribeiro empre-
gando, ademais das fontes escritas convencionais, as lembranzas dos coetáneos que
conservan a memoria das mobilizacións campesirias e da grande emigración de retorno así
como a correspondencia persoal dos emigrados cos familiares que ficaron nas parroquias de
orixe. E intentaremos establecer finalmente, unha perspectiva comparada cos escenarios,
incentivos e actores que condicionaron as dinámicas sociopolíticas nas restantes
sociedades rurais penínsulares.

I. O Liberalismo sin Democracia: clientelismo político e turno diná tico na


restauración

1. O debate historiografíco sobre o sistema político da Restauración.

A discusión historiográfica sobre a Restauración garrou en actualidad e co centenario


do Desastre do 98, centrada nos rasgos máis visibles do sistema, tanto os positivos como os
negativos, valorando as intencións reformistas dos líderes monárquicos e sublifiando os
factores que impediron 3 conversión daquel réxime liberal nunha auténtica democracia.
Hai suposto, dúas percepcións distintas sobre o significado do réxime da Restay ración, pero
agromou nese contexto, un revisionismo daquel sistema preriado de exculpacións do
fracaso do proxecto restauracionista e de loa, banzas á figura de Cánovas como arquitecto
do Turno dinástico, que aga
Mobilización campesina, clientelismo político e emigración de retorno 181

cha ademáis, inconfesas areias lexitimadoras dun presente no que España,


por fin, seica xa 'vai ben'. A visión máis crítica enfatiza os aspectos negati-
vos do sistema político: a exclusión política dos discrepantes, a marxinación das clases
medias urbanas e das camadas populares, o predominio do caciquismo, a acentuación do
uniformismo político, xurídico e administrativo e o sistemático fraude electoral efectuado
dende os propios gobernos. Mentres que as teses benevolentes destacan a pacífica
alternancia do poder, o disÉrute de dereitos e libertades pola cidadanía e a estabilidade do
liberalismo turnista ideado por Cánovas que acadou a convivencia pacífica entre as elites
políticas e un amplio consenso entre a burguesía debido tamén, ó desenvolvemento económico
da época.2

Este revisionismo apacible da historiografía política da Restauración rexeita a tese da


`excepcionalidade espariola' para exculpar ó sistema canovista co argumento da
contemporaneidade europea dos problemas espariois (Forner, 1997). Centran a defensa do
sistema dinástico na intuición de que a vontade reformista dos políticos conservadores
espariois chocou coa escasa autonomía do Estado e coa falta de respaldo social dos sectores que
deberían converter en realidade as decisións do Boletín Oficial e que optaron por saídas
autoritarias conforme avanzaba a crise da Restauración (Suárez Cortina, 1997). Coinciden en
subliriar que a corrupción e o caciquismo -os dous trazos máis senlleiros do sistema que os
críticos rexeneracionistas consideraban especificamente espariois e causantes do atraso
comparativo de Esparia- eran fenómenos comúns á maioria dos réximes liberais dos estados
europeos máis próximos'.
O factoide máis repetido é que o sistema liberal da Restauración puido transformarse nun
réxime democrático e ofrecen varias explicacións de por que non se producíu ese paso
definitivo, de xeito que sitúan a cerna deste debate historiográfico na causalidade da
frustración do suposto proceso de modernización dos comportamentos políticos na Esparia
da Restauración que impediron unha democratización semellante á dos outros estados do
entorno europeo porque asumir a representatividade do voto, a extensión real do exercicio
dos dereitos civiles, a formación dunha opinión pública ou

2
Esquecendo estes últimos que o réxime político da Restauración foi o máis inmovilista de Europa
occidental -tanto que non resiste a comparación cos progresivos cambios democratizadores introducidos nas
lexislacións e nos mecanismos de representación política de Francia, Gran Bretafia, Alemania, Italia, Bélxica
ou Portugal no medio século que vai dende 1875 ata 1923- e omiten que Cánovas deixou notablemente
hipotecada a vida política espailola, foi o principal responsable da humillante derrota militar de 1898 que
desprestixiou internacionalmente a Espafia e que construíu un sistema político inmobilista e blindado que era
dificilmente transformable (Riquer i Permanyer, 1998: 10).
3
O que non explica que o liberalismo espafiol sendo un dos máis temperáns de Europa, fracasase no
proceso de democratización, producindo unha saída autoritaria en 1923 e a breve e serodia democracia do
quinquenio republicano, e mesmo na construcción dun Estado liberal centralizado pois foi xustamente neste
período cando maduraron as identidades nacionais periféricas (Beramendi, 1999).
180 Mundo Rural

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OS BALDIOS DA DISCÓRDIA:
AS COMUNIDADES LOCAIS E O ESTADO

Dulce Freire
Investigadora do CEEP,
bolseira de Doutoramento da FCT

«Em despeito do desagrado latente das aldeias em face do anunciado plano


de arborização da serra dos Milhafres, o Estado português, potência hirta, de
molde ainda mais farónico que afonsino, entendeu executar a obra projectada nas
carteiras teóricas dos Serviços Florestais» (Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos
Uivam)

Em 1959, a publicação de Quando os lobos uivam, de Aquilino Ribeiro surgiu à elite


intelectual como, nas palavras de Mário Soares, «um retrato contundente, realista,
oportuníssimo e demasiado incómodo para o regime, de uma revolta de agricultores contra a
brutalidade e o arbítrio dos Serviços Florestais» (Caldeira e Andringa, 1994:14). A obra levou
o Estado Novo a mover um processo judicial contra o autor. Sendo Aquilino Ribeiro um dos
mais importantes escritores contemporâneos e um oposicionista ao regime, o caso obteve a
solidariedade de diversos grupos da oposição e suscitou interesse fora das fronteiras
portuguesas1.

Tanto o conteúdo do romance como o processo levantaram intensas polémicas em


vários grupos da sociedade. Para os que estiveram directa ou indirectamente envolvidos nessas
polémicas, Quando os lobos uivam continua a ser uma referência incontornável na
abordagem da "questão da florestação dos baldios". Mas as razões não são as mesmas. Para
os que estavam na oposição, o romance "é a própria realidade": um claro exemplo das

1
Refere Mário Soares: «Quando os Lobos Uivam foi um romance que despertou o interesse dos leitores
habituais de Aquilino e conheceu uma divulgação excepcional, dentro e fora de Portugal, em virtude da ira da
PIDE e da Censura que, com a sua acção intempestiva e arbitrária, lhe deram uma aura que nunca teria tido
de outro modo» (Caldeira e Andringa, 1994:14). O romance vendeu nove mil exemplares em três meses
(quando a maior parte dos livros não chegava a vender 1000 por edição).

Mundo Rural — Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições Colibri,
2004, pp. 191-224
192 Mundo Rural

imposições e injustiças a que o Estado Novo sujeitava a população2. Para os engenheiros e


outros funcionários ligados aos Serviços Florestais (SF), é uma ficção que por se inspirar
num espaço e num tempo próximos induziu à formulação de juízos deturpados da acção
destes serviços e conduziu a que se tomassem por gerais acontecimentos pontuais3.

As circunstâncias que envolveram a publicação desta obra contribuíram para que as


elites urbanas politicamente empenhadas tomassem consciência das continuadas acções de
protesto contra a florestação dos baldios protagonizadas por grande parte da população que
habitava as aldeias serranas do Norte e Centro do país. As movimentações e solidariedades
suscitadas por Quando os lobos uivam enquadraram-se no confronto político entre as opo-
sições e o regime, que estava particularmente aceso em finais da década de

50 e início da seguinte devido à forma como decorreu a campanha eleitoral de 1958, às


denúncias e exílio do Bispo do Porto, etc. Estes confrontos influenciaram as atitudes das
oposições e dos serviços oficiais perante a "questão dos baldios".

O "caso Aquilino" promoveu a visibilidade do assunto na "agenda de luta política",


suscitando maior interesse por parte de alguns intelectuais, nomeadamente dos afectos ou
próximos do Partido Comunista Português (PCP), em participar em acções especificamente
dirigidas às "gentes serranas". A partir de meados dos anos 60, nota-se que há maior
divulgação de "injustiças", "arbitrariedades" e "abusos" e, principalmente, multiplicam-se as
actividades de organização dos usufrutuários dos baldios para contestarem a acção dos SF
usando as fórmulas legais ou toleradas (abaixo-assinados, petições, pedidos, artigos na
imprensa, etc.). A florestação poderia tornar-se o elemento que faltava para mobilizar as
populações do Norte e Centro na "luta unitária" contra o Estado Novo. Assim parece ter
acontecido, pelo menos em alguns momentos e locais4.

2
Tanto no livro escrito por Caldeira e Andringa (1994) como em conversas informais com diversos intelectuais
ligados à oposição durante o Estado Novo este romance é apresentado como pouco fíccionado no que se refere
à "questão dos baldios" e à acção dos Serviços Florestais. O romance é frequentemente a única referência
evocada e as situações generalizam-se de forma vaga para todos os baldios do Norte e Centro.
3
Nenhum dos silvicultores com quem falámos foi indiferente ao romance. Na entrevista realizada a um
engenheiro, que desde os anos 50 foi o responsável pelos SF na área de Viseu ; refere-se que todo o rancor foi
motivado por um litígio pessoal de Aquilino com funciona -rios dos SF no local onde nasceu (Sernancelhe,
Viseu) e que isso fez com que ampliasse os conflitos ocorridos na Serra de Leomil. Monteiro Alves (2000: 148)
questiona: «E o que,, representa a fábula mal contada do livro de Aquilino Ribeiro Quando os lobos uivam"(
Apenas uma crítica unilateral à obra de arborização?». O autor considera que o que esta de facto em causa «são
as formas autoritárias de actuação, a ditadura política e alguns desenvolvimentos...».

4
Um advogado, a exercer em São Pedro do Sul (Viseu) desde finais dos anos 50, explico u-nos como ele e
outros colegas de Aveiro promoviam a realização de abaixo-assinados, petições e outras formas de protesto nas
aldeias serranas onde os distritos de Aveiro e Viseu
Os baldios da discórdia: as comunidades locais e o Estado 193

Nota-se também que, desde finais dos anos 50, os SF ficaram mais “sensiveis" às
exigências dos órgãos da administração local e menos impe-nos seus propósitos. E
certamente que a forma tumultuosa como estava a decorrer a florestação dos baldios
contribuiu para a viragem da política florestal notória a partir de 1962: mesmo não estando
cumpridos os objectivos definidos para o Norte do Tejo, os investimentos passam a con-
centrar-se nas extensas propriedades privadas do Sul. Seguiam-se agora as Propostas avançadas
desde o início dos anos 50 por alguns técnicos, entre os quais Ernesto de Castro Caldas.
Ainda que o romance remeta para acontecimentos ocorridos nos anos 50, na verdade,
os protestos das populações começaram muito antes. Há registos de inúmeras situações em
que, pelo menos desde a segunda metade do século XVIII, as populações se opõem às
tentativas desenvolvidas por particulares ou pelo Estado de reduzir as áreas comuns (Cavaco,
1999; Cravidão, 1985; Devy-Vareta, 1993; Neto, 1997; Radich e Alves, 2000; Silbert, 1966,
1968; Tengarrinha, 1993/1994). Alguns destes litígios transitaram do século XIX para o XX.
Apesar de se considerar que a apropriação por particulares de extensas áreas comuns
continuou e não foi pacífica (Baptista, 1978: 165-193; Estevão, 1983), o que marca o século
é o continuado empenho do estado em "usurpar" e "reflorestar" os baldios.

No século XX, tornou-se mais nítida a contradição entre duas perspectivas para
aproveitamento dos baldios. De um lado, o estado que desejava exercer uma jurisdição
efectiva sobre esses "territórios de liberdade" e retirar daí o maior rendimento possível.
Promovia-se a florestação como forma de afirmação de poder administrativo, económico e
político. A acção do estado assentava em inquestionáveis vantagens dos novos métodos
científicos e do aumento da rentabilidade económica do solo. Do outro, os habitantes das
aldeias que tinham recebido em herança centenas ou milhares de hectares de serra que
rodeavam a povoação e dos que tiravam bens essenciais à manutenção da economia
doméstica. Os argumentos da população valorizam os "usos tradicionais" e a necessidade
de garantir a reprodução das comunidades como até aí. Alguns confrontos entre interesses
contraditórios verificaram-se em vários pontos do País em períodos anteriores, mas foi quando
o Estado Novo, entre os anos 40 e 60, assumiu a florestação dos baldios como tarefa inadiável
que os protestos da população aumentaram.

Os responsáveis pela direcção da política de florestação revelaram várias vezes


perplexidade perante essas reacções da população: «Represen-

se juntam. No Préstimo (Aveiro) confirmamos que os documentos enviados para os órgãos do poder central não
eram escritos no local, mas mandados por «um advogado». A mobilização do "povo" para a "luta" nesta zona
está registada, na imprensa local e no livro publicado no Outono de 1973 por A.P. da Silva (1973). Os baldios
são tema de um documento do PCP (1967) e são referidos na intervenção de Jaime Gralheiro no III Congresso
de Oposição Democrático, realizado em Aveiro em Abril de 1973 (CD 25Abril, Coimbra, 3302.02 GRA).
222 Mundo Rural

ou de algumas personalidades ligadas às oposições ao Estado Novo, no fomento e


continuidade das reivindicações e também como se articulam a defesa das comunidades com
o apoio ao Estado Novo; finalmente, quais os factores que permitiram que em alguns locais a
florestação se fizesse com poucos ou nenhuns protestos.

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POLÍTICA FORESTAL E CONFLICTIVIDADE NAS TERRAS COMUNAIS DE
GALIZA DURANTE O FRANQUISMO (1939-1975)1

David Soto Fernández


Departamento de Humanidades, Universidad Pablo de Olavide de Sevilha
Lourenzo Fernández Prieto
Departamento de História Contemporânea Universidade de
Santiago de Compostela

Introducción

A importancia das terras comunais e dos aproveitamentos que delas se derivaban para o
mantemento dunha agricultura de pequena explotación ten sido sinalado repetidas veces pola
historiografía recente2. Mais non convén esquecer que este recoriecemento é mui recente e
nen sequera é unanimemente admitido nos ámbitos académicos e políticos. Pola contra, as
relacións entre pensamento económico, políticas forestais e espazos comunais conterien a
historia dunha incomprensión. O emperio declarado dos Estados Liberais contemporáneos
dende o século XIX, foi o de acabar coas terras comunais como taes ou, cando menos,
rematar cos aproveitamentos vecifiais destas terras, doctrinalmente incompatibeis coa
propiedade privada perfecta napoleónica e co que de forma hexemónica entenden por
mercado.

O caso galego permite un achegamento privilexiado a esta cuestión, xa que, dada a


vixencia da propiedade comunal en Galiza durante toda a época contemporánea, aínda resulta
máis acusado o divorcio entre a política e a realidade. Os montes comunais de Galiza,
coriecidos como Montes Veciíiais en Man Común (MVMC), non pertencían, como no
resto do Estado aos concellos, xa que a institución municipal non se desenvolveu en
Galiza antes da implantación do Estado liberal no terceiro terzo do século XIX. Pola
contra, estes espazos pertencían aos vecirios de cada lugar sen distinción de cotas e polo
feito de residir nese lugar, non por herdanza ou venda.

1
Este traballo enmárcase no proxecto subvencionado pola Unión Europea: "Propiete et gestion communale
et leurs implications pour le developpement rural des zones peripheriques", FAIR-CT98-41111.

2
Por exemplo Bouhier, 1979; Balboa López, 1990; Sabio Alcutén, 1997; Ortega Santos, 1999. Unha
recopilación da bibligrafía recente do caso espailol en Balboa López,1999.

Mundo Rural Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições Colibri,

2004, pp. 225-249


226 Mundo Rural

Eran, polo tanto de propiedade privada, pero colectiva (non pública), xa que non existía
ningunha institución pública que os administrase.

O Estado Liberal español, no seu xacobino afán homoxeneizador, non aceptou este
carácter peculiar da propiedade do monte en Galiza e desde mui axiña, as Cortes de Cadiz
en 1814, asimilounos aos montes municipais do resto do estado. Os montes veciñais
deixaron de existir xuridicamente por espazo de século e medio. Sen embargo, esta
desaparición só foi efectiva sobre o papel e os montes veciñais continuaron aproveitandose e
xestionándose polos veciños. Da merma forma ningunha das políticas deseñadas para estes
montes tiveron éxito antes de 1936; nen a desamortización primeiro nen a intervención dos
servicios forestais despois. Se ben como reacción á desamortización si tivo éxito a
individualización de boa parte dos espazos comunais levada a cabo polas propias
comunidades ao marxe da lei e do control do estado. Esta individualización levou a que o
monte particular pasase de ser case inexistente a principios do século XIX a ser a forma
depropiedade dominante no século XX (Balboa López, 1990)3. Aínda que este traballo pretende
centrarse nas relacións entre a política forestal e a conflictividade campesiña na etapa do
franquismo convén explicar brevemente as causas socioeconómicas do fracaso da intervención
estatal previa, xa que en boa medida axudan a comprender a resistencia á política forestal
posterior.

1. 0 monte como espazo agrario e non forestal para a agricultura orgánica

O fracaso deltas políticas ao longo do século XIX debeuse a oposición de numerosos


sectores sociais do pais, desde os propios labregos aos propietarios rendistas ou os
concellos, que en teoría eran os beneficiarios da reforma legal, e en xeral os poderes locais,
mesmo as elites intelectuais urbanas se manifestaron contrarias (Balboa López, 1990;
Artiaga Rego, 1990). Un consenso tal respecto da propiedade das terras comunais, que non
se deu noutras cuestións fundamentais como a reforma do réxime foral, so pode explicarse
pola importancia das terras a monte para o mantemento do sistema agrario e polo tanto do
status quo socioeconómico. Cunhas elites rendistas que levaban séculos alonxadas da
explotación directa e que buscaban garantir o mantemento das súas condicións de
reproducción, o que beneficaba aos labregos, dando lugar a unha alianza vertical que non f °1
infrecuente no século do desenvolvemento do estado e do mercado.

A razón desta importancia é que o monte non era, como moitas veces se ten suposto, un
espazo inculto nen tampouco era, nen principal nen prilito dialmente un espazo forestal. O
monte ocupaba na Galiza a principios do

3
É imposible cuantificar o peso do monte privado particular nas distintas épocas 21e grandes rasgos Xesús
Balboa sitúa o peso do proceso entre o último tercio do século XIX e o primeiro do XX.
Política forestal e conflictividade nas terras comunais de Galiza 227

século XIX uns 2,3 millóns de hectáreas, 3/4 da superficie total do país, a mediados do
século XX aínda ocupaba arredor dos 2 millóns de hectáreas, da superficie tota14. A dimensión
do espazo forestal é dificil de precisar cuantitativamente con anterioridade ao século XX pero todas
as referencias coinciden en que a superficie arborada supuria unha pequena porcentaxe do otal do
monte.

É necesario explicar estas altas porcentaxes de monte nunha agricultura que se caracteriza
por un predominio case absoluto da pequena explotación, tul uso mui intensivo da terra e unha
presión demográfica (derivada da capacidade de producción agrogandeira) que non se puido
resolver polo incremento da superficie cultivada a costa do monte, senón polo recurso á emigración.

Entre as funcións do monte comunal xoga un papel primordial, ao igual que noutras zonas de
Europa, o servir de sostén para os sectores máis desfavorecidos: labregos sen terra ou con terra
insuficiente para manterse, xornaleiros, mulleres soas, etc.. É obvio que este feito non pode ser
suficiente para explicar o consenso social alcanzado en torno a defensa do monte, pero si foi
utilizado como xustificación nos múltiples escritos que no XIX defenden o mantemento da
propiedade vecirial.

A verdadeira razón reside en que no horizonte tecnolóxico daquela agricultura de base


orgánica, todo o sistema agrogandeiro desfaríase sen o monte, e con el os propietarios rendistas
perderían a súa fonte principal de recursos. Tres son as funcións principais que xogaba o monte
para o complexo agrogandeiro no sistema de policultivo intensivo: fornecedor de fertilizante
orgánico para as terras de cultivo, sostén da cabana gandeira, e complemento dos cultivos
mediante a práctica das rozas. Ademais doutras función complementarias, pois fornecía ás
poboación rurais de madeira, carbón vexetal, plantas menciriais, etc.s

O uso agrícola do monte estaba en regresión a comezos do século XIX, regresión que continuará ó
longo dos dous séculos posteriores até a súa completa desaparición a finais dos anos sesenta
do século XX (Bouhier, 1979:878-906). Esta perda de importancia do uso agrícola do monte
débese a que o incremento da producción agraria pennitiu non depender en tan gran medida deste
sistema. O sistema empregado era o da limpeza do monte mediante rozas (incendios
controlados de parte do monte)) e o seguinte reparto temporal do monte entre os veciños para o
seu cultivo. Hai que indicar que as parcelas cultivadas mediante este sistema non se volvían
cultivar ata pasados un número de anos suficiente para a súa recuperación segundo a calidade da
parcela. Nalgunhas comarcas do norte de Galicia o cereal obtido polas rozas podía supoñer entre o
20% e o 50% (Saavedra, 1994). 0 cultivo mediante rozas vivirá unha recuperación temporal
despois da Guerra Civil

4
Saavedra, 1995; Soto Fernández, 1999.
5
Bouhier, 1979; Balboa López, 1990; Soto Fernández, 1999.
248 Mundo Rural

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O MOVIMENTO DE OCUPAÇÕES NO DISTRITO DE BEJA

Constantino Piçarra

Mestre em História do Século XX, FCSH-UNL

1. Introdução

Em simultâneo com as manifestações de júbilo pela deposição da ditadura, as diversas


classes da sociedade rural do distrito de Beja começam a dar os primeiros passos no sentido
da sua organização com o objectivo de melhor defenderem os seus interesses no novo
quadro político emergente do 25 de Abril.

Os primeiros a movimentar-se são os grandes proprietários agrícolas, o que não é de


estranhar uma vez que já se encontravam organizados nas estruturas corporativas ligadas à
agricultura, casos, por exemplo, das cooperativas agrícolas e grémios. Liderada pelo seu
elemento capitalista, a aristocracia agrária do distrito de Beja, aproveitando logisticamente os
grémios da lavoura, trata rapidamente de organizar-se à margem das estruturas corporativas
por forma a integrar-se dentro da nova ordem criada no país pelo golpe militar e aí constituir-
se em grupo de pressão junto do poder político-militar saído do 25 de Abril.

Este processo organizativo dos grandes proprietários agrícolas, que se traduzirá na


constituição da A.L.A. (Associação Livre de Agricultores), cujo ponto de partida são os
concelhos, num movimento ascendente da base para o topo, vai culminar, no distrito de
Beja, na eleição da "Comissão Provisória Distrital" desta associação, em reunião
realizada a 21 de Maio de 1974 no Grémio da Lavoura de Beja 1. Nesta reunião, para além
da eleição do órgão coordenador distrital da A.L.A., é, ainda, aprovado o "Programa para
uma reestruturação agrícola"2, com o qual os grandes empresários capitalis-

1
A "Comissão Provisória Distrital" da A.L.A. era composta pelos seguintes proprietários agrícolas: Raul
Miguel Rosado Fernandes, José Rodrigues Palma Júnior e Henrique de Mira Coroa. Diário do Alentejo, de
27/5/74.
2
O "Programa para uma reestruturação agrícola" foi apresentado na reunião pelo Dr. Raul Miguel Rosado
Fernandes e dele faziam parte, os seguintes pontos: "FUNÇÃO SOCIAL DA TERRA — impedir que haja terras
mal exploradas; revisão de estruturas fundiárias com

Mundo Rural — Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições Colibri,
2004, pp. 251-275
252 Mundo Rural

tas pretendem mostrar ao país e ao 1.° Governo Provisório, empossado a 16 de Maio de


1974, que tipo de política de "dinamização da agricultura" e de "reforma gradual da estrutura
fundiária", estão dispostos a aceitara. E o que estão dispostos a aceitar é, em síntese, uma
política capitalista agrícola capaz de conduzir à modernização da agricultura e ao aumento
da produtividade, mesmo que tal significasse alterações ao nível da estrutura fundiária.

O "Programa para uma reestruturação agrícola" ao preconizar "a função social da


terra" e, portanto, medidas destinadas "a impedir que haja terras mal exploradas", bem
como "novas leis de arrendamento favorecendo quem explore a terra" sobrepunha com
clareza, conforme refere Fernando Oliveira Baptista, "a defesa dos interesses dos empresários
capitalistas relativamente aos dos proprietários fundiários"4, o que punha em causa um dos
aspectos centrais da ideologia dominante no seio da aristocracia agrária do Alentejo: a
oposição irredutível a qualquer alteração da estrutura fundiária.

Apesar de não possuírem qualquer estrutura organizativa à data do 25 de Abril e das


últimas lutas reivindicativas remontarem a 19625, os assalariados

vista à criação de unidades de produção; novas leis de arrendamento favorecendo quem explora a terra;
imposto agrícola progressivo; crédito agrícola selectivo e com responsabilidade na sua utilização;
aproveitamento integral e adequado das barragens e regadios nacionais. NECESSIDADE DE ESTUDO E
EXPERIMENTAÇÃO — fomento de investigação cientifica; exploração piloto de apoio agrícola, florestal,
pecuário, aproveitando para esse fim as propriedades da Junta de Colonização Interna espalhadas por todo o
país. ESTATÍSTICA OBRIGATÓRIA — consumo; produção; importação; exportação. REPRESENTAÇÃO DA
CLASSE NO SECTOR TÉCNICO E ECONÓMICO — presença de representantes da classe nos organismos
de divulgação agrícola e de coordenação económica; representação recíproca de comissões consultivas das
classes de trabalhadores e empresários agrícolas nos respectivos sindicatos. SEGURANÇA SOCIAL —
extensiva a todos os trabalhadores intervenientes no sector (trabalhadores e empresários agrícolas).
INFORMAÇÃO — divulgação efectiva, técnica, social e económica; Boletim de Informação Agrícola; e
programas na rádio e televisão". Diário do Alentejo de 27/5/74.
3
Em matéria de política agrícola o programa do 1.° Governo Provisório referia unicamente , como objectivos,
a "dinamização da agricultura e reforma gradual da estrutura fundiána • D.L. N.° 203/74 de 15 de Maio.
D.G. I Série, N.° 113 de 15/5/74.
4
Fernando Oliveira Baptista, Portugal 1975 — Os Campos, Porto, Edições Afrontamento' 1978, p. 17.
5
Em 1962 os trabalhadores rurais desencadearam uma greve que se prolongou por todo o mês de Maio e a qual
se estendeu praticamente a todo o Alentejo. Do caderno reivindicativo trabalhadores faziam parte a garantia de
trabalho, uma proposta de jornas mínimas de 307_,u.para os homens e 20$00 para as mulheres e a exigência
dum horário de trabalho de 8.har°Esta última reivindicação, apesar de não surgir em primeiro plano, é a que irá
dono_ lutas de Abril e Maio de 1962. Esta greve que deu origem à conquista do horário de traloat:f. de 8 horas
por parte dos assalariados rurais, foi a ultima grande luta no Alentejo até ao2 )01:5 Abril de 1974 em termos,
quer de amplitude geográfica, quer do numero de trabalhada_e_[ envolvidos. As greves que todos os anos
ocorriam na freguesia de Pias (concelho de Serpa - distrito de Beja), na véspera das ceifas durante a década de
60, referidas por Manuel Godinho Tagarroso, ex-dirigente do sindicato dos trabalhadores agrícolas do distrito
de Beja, citeduzido Manuel Carvalho no jornal Público de 30/7/95, para além de envolverem um número
reduzido de trabalhadores, nunca conseguiram alastrar a outras freguesias vizinhas.
O Movimento de ocupação no Distrito de Beja 253

rurais do distrito de Beja, impulsionados pela comissão pró-sindicato da freguesia de Pias,


concelho de Serpa, realizam em Beja a sua primeira reunião à -se cala distrital, a 2 de Junho de
1974, com o objectivo de debaterem a constituição e organização do seu sindicato. Aqui
constitui-se o S.T.A. (Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas) do distrito de Beja e decide-se
realizar reuniões de trabalhadores em cada uma das localidades do distrito visando a eleição de
comissões locais pró-sindicato, bem como constituir uma comissão distrital formada por dois
representantes de cada uma dessas comissões.

A 9 de Junho, na 1.a reunião da comissão distrital efectuada também em seja, para além
da constituição dum secretariado6, decide-se prosseguir com a realização de reuniões de
trabalhadores por localidade com vista à eleição de comissões pró-sindicato, dão-se
instruções no sentido destas comissões utilizarem as Casas do Povo como sede e aprova-se
um caderno reivindicativo que depois de discutido pelos trabalhadores rurais de cada
concelho é entregue pelas comissões pró-sindicato locais aos empresários agrícolas por forma
a estabelecer-se negociações'.

Será com base neste caderno reivindicativo cujos principais pontos são uma proposta de
tabela salarial contemplando melhorias significativas da jorna diária pelas 8 horas de
trabalho (200$00 para os tractoristas, 170$00 para os trabalhadores gerais e 120$00 para as
mulheres)8, a exigência da garantia de emprego para todos os trabalhadores e trabalhadoras
e a reclamação da semana de 44 horas, que os assalariados rurais do distrito de Beja irão
desenvolver a sua luta contra os grandes proprietários agrícolas nos meses imediatamente a
seguir a Abril de 19749.

6
Reflectindo a implantação do sindicato no distrito, o primeiro secretariado da comissão distrital Pró-Sindicato é
dominado pelos delegados da comissão Pró-Sindicato de Pias. A partir da reunião de 16 de Junho de 1974 da
comissão distrital o secretariado alarga-se passando a ser constituído por 3 delegados da comissão de Pias e 2 de
cada uma das seguintes comissões: Brinches, Vidigueira e Aljustrel. Em Julho de 1974 o secretariado sofre novo
alargamento com a inclusão de delegados das comissões do concelho de Beja. Nesta fase de afirmação do
sindicato os membros mais activos do secretariado são Manuel Godinho Tagarroso e Francisco da Ascenção
Baptista, ambos de Pias, a quem se junta José Baptista Mestre Soeiro, da freguesia da Cabeça Gorda, concelho
de Beja.
7
As primeiras convenções de trabalho para o distrito de Beja, assinadas a seguir ao 25 de Abril, resultaram de
negociações efectuadas ao nível do concelho. Como o secretariado da comissão distrital pró-sindicato reconhece
em circular, a debilidade organizativa do sindicato não permitia uma negociação à escala distrital. Circular às
Comissões Pró--sindicato das diversas terras. S.T.A. do distrito de Beja, 12/6/74.
8
Se tomarmos em consideração que, segundo as estatísticas agrícolas para o distrito de Beja publicadas em 1976,
o salário médio dum trabalhador geral, em 1973, não ultrapassava para os homens os 80$00 por dia e para as
mulheres os 45$00, verifica-se que a proposta de tabela salarial apresentada em Junho de 1974 introduzia
aumentos substanciais, mesmo tendo em linha de conta que o período de aplicação da referida tabela se
circunscrevia à época das ceifas.
9
Sobre esta proposta de tabela salarial ver Comunicado do Secretariado da Comissão Distrital Pró-Sindicato dos
Trabalhadores Agrícolas do Distrito de Beja de 18/6/74.
274 Mundo Rural

controle por parte, nem do S.T.A., nem do Conselho Regional, este intervém com o objectivo
de estabelecer a ordem possível numa situação que ameaçava ser caótica.

No que se refere à participação dos partidos políticos no processo de ocupações é vulgar


a insinuação de que esta realidade resultou dum plano preparado pelo P.C.P. Não parece que
tal tivesse acontecido. É a força do movimento de massas dos assalariados rurais que irá
obrigar o P.C.P., na I Conferência dos Trabalhadores Agrícolas do Sul, realizada em Évora a 9
de Fevereiro de 1975, a passar da "retórica" programática delineada no VI Congresso de
1962 à tentativa efectiva de dirigir o movimento de ocupações. Não foi, portanto, o P.C.P.
que impôs ao movimento social dos assalariados o caminho das ocupações, mas sim este que
o impôs ao P.C.P.

Quanto à acção do M.F.A. no processo de ocupações de terras no distrito de Beja,ela é


muito reduzida. Ao contrário da zona de Évora, onde os militares tiveram um papel mais
interventivo, no Baixo Alentejo o seu protagonismo limitou-se à presença nos actos de
ocupação, com isso lhes conferindo uma espécie de legitimidade que o S.T.A sempre
procurou que todo o processo se revestisse.

8. Fontes e bibliografia

Fontes Primárias

1 - DOCUMENTOS DA ADMINISTRAÇÃO CENTRAL

Boletim do Ministério do Trabalho, Julho a Dezembro de 1974.

Diário do Governo, I Série, Abril de 1974 a Dezembro de 1975.

Diário do Governo, II Série, Abril de 1974 a Dezembro de 1975.

2 ARQUIVOS
-

Arquivo do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas do Distrito de Beja.

3 JORNAIS
-

"Avante", Órgão Central do P.C.P., Abril de 1974 a Dezembro de 1975. "Boletim


Informativo das Forças Armadas", anos de 1974 e 1975. "Diário do Alentejo", Abril
de 1974 a Agosto de 1975.

"Diário de Lisboa", Abril de 1974 a Dezembro de 1975.

"Diário de Notícias", Abril de 1974 a Dezembro de 1975.

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Publicações Europa — América, Lisboa, s.d.

Idem, Memória da reforma agrária, Publicações Europa — América, Lisboa, s.d. BARROS, Afonso
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da Ciência, Oeiras, 1973

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produção, Instituto Gulbenkian da Ciência, Oeiras, 1979 BICA, António, Agricultura e reforma
agrária em Portugal 1974, ed. Inova, Porto,1975

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e pobres no Alentejo — uma sociedade rural portuguesa, ed. Sá da Costa, Lisboa, 1977

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agrícolas do sul (28/12/75), Sindicato Agrícola de Évora, 1975

FERNANDES, Blasco Hugo, Reforma agrária, contributo para a sua história, Seara Nova,
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CONJUNTURAS, CONTEXTOS E ESTRATÉGIAS

Margarida Fernandes
Departamento de Antropologia da FCSH, UNL

A designação de Movimento Social aplica-se a uma variedade de acções humanas


que de algum modo revelam atitudes de protesto face a uma qualquer situação vigente ou,
alternativamente, a uma tentativa de a alterar.

Esta multiplicidade de situações dificulta uma análise global. A literatura actual sobre
Movimentos Sociais é de tal modo abrangente que a designação se revela demasiado ampla, o
que dificulta qualquer tentativa de estabelecer uma teoria geral.

Os contributos das várias disciplinas das ciências sociais revelam-se indispensáveis à


compreensão de fenómenos que, pelas suas características, podemos designar por factos sociais
totais, no sentido que Marcel Mauss1 atribui a instituições que afectam todos os aspectos da
vida de um grupo, na medida em que operam no seio de um sistema, isto é, qualquer alteração
em qualquer das partes desse sistema provoca efeitos nas restantes componentes do mesmo.

É talvez aqui que a antropologia pode fazer luz nesta matéria, ao trazer para a discussão
não só os protagonistas mas os cidadãos anónimos que pelas mais variadas razões
participam, ou não, num dado movimento social.

O tema desta comunicação prende-se com os movimentos sociais nos campos do


Alentejo, com especial referência à reforma agrária em Baleizão, onde decorreu, entre 1992 e
1995, o meu trabalho de campo, e aos processos dinâmicos entre os contextos local e nacional
na conjuntura do PREC (Processo Revolucionário Em Curso). Quando se fala numa nova
reforma agrária importa perceber o que se passou nesse passado ainda recente e saber tirar
daí as devidas conclusões.

A chamada reforma agrária portuguesa foi alvo de grande número de publicações em


finais de anos 70 início dos anos 80. A proximidade temporal e a conjuntura política e social
em que surgiram estes textos não permitia ainda um distanciamento suficiente para uma
abordagem mais aprofundada. Estas primeiras obras são, no entanto, contributos
preciosos para que se

1
MAUSS, Marcel (1974[1950]) Essai sur le don, Paris, Presses Universitaires de France.

Mundo Rural — Transformação e Resistência na Península Ibérica (século XX), Lisboa, Edições Colibri,
2004, pp. 277-289
278
Mundo Rural

possa, agora, à distância, passado um quarto de século, perspectivar a especificidade deste


processo, quer num quadro mais geral de reformas agrárias em vários países, quer no
contexto português em geral e alentejano, em particular, na segunda metade dos anos 70,
fazendo eco dos movimentos de trabalhadores agrícolas das décadas anteriores, área que, por
circunstâncias várias, está também ainda por aprofundar.

Podem distinguir-se duas vertentes na reforma agrária portuguesa dos anos 70. Por um
lado um processo eminentemente local que contemplou, efectivamente uma reforma agrária
popular nos moldes clássicos a que se refere a vasta literatura nesta área e trata-se aqui, de
um movimento social. Por outro lado, encontramos um processo institucional a que se
convencionou chamar "reforma agrária", e que, para além de uma imensa confusão de
discursos oficiais de órgãos de poder e de representantes de partidos políticos da época, se
consumou na legislação, abundante e igualmente confusa, que tentava, desesperadamente, e
com pouco sucesso, enquadrar legalmente um movimento social em marcha acelerada.

Esta é, de resto, uma das facetas a destacar no âmbito do das relação entre o nacional e
o local. Verifica-se como que uma interdependência entre o que se passa a nível local e que
reflecte necessariamente as dinâmicas do contexto específico em que se foram desenrolando
estes movimentos sociais de grande envergadura e, ao mesmo tempo, se enquadra num
processo de âmbito mais vasto que se estende não só à totalidade do Alentejo mas ainda a
partes do Algarve da Estremadura, do Ribatejo e da Beira Baixa, tendo ainda repercussões
a nível nacional, não só pelas implicações que uma nova modalidade da posse da terra teria
em termos da economia nacional como pelos receios de que estas novas unidades de
produção pudessem escapar ao controle do estado e, pior ainda, viessem a cair nas mãos de
interesses políticos que, ao controlar uma parte significativa dos recursos agrícolas e uma
vasta área do território nacional, poderiam vir a utilizar estas circunstâncias para um reforço
considerável da sua posição no jogo do poder.

Para dar uma ideia da relevância destas questões, note-se que, segundo Afonso de Barros
(1982), o Sul de Portugal correspondia a 41% da área total do país, 46% do total de área
cultivada e 58% do total de terra arável, e contribuía, em 1970, com 18,7% do Produto
Interno Bruto e cerca de 30% do Produto Agrícola Bruto.2

A reforma agrária enquadra-se ainda no processo mais geral do 25 de Abril, que


possibilitou a explosão de movimentos sociais de grande vulto na sociedade portuguesa.
Destes, para além da reforma agrária gostaria de destacar, até pela sua dimensão
internacional e pelo destaque que lhe é dado no Programa do MFA, o movimento de
libertação das colónias.

2
A. de Barros, 1981[1979]:31; Macedo, n.d.:117.
Conjunturas, contextos e estratégias 279

Em plena Guerra Fria e no auge da crise do petróleo, as repercussões internacionais do


golpe de Estado do 25 de Abril são visíveis na preocupação que causou nos Estados Unidos
da América, nessa altura envolvidos na Guerra do Vietname. A substituição do Embaixador
dos Estados Unidos em Lisboa por Frank Carlucci, um homem que tinha uma grande
experiência de situações revolucionárias na América Latina, tanto no Brasil dos Coronéis
como no Chile — no período de tomada de poder pela Junta de Pinochet — e que falava
português, reflecte essa apreensão. Pressões de vária ordem, incluindo as descritas num
artigo de Tad Szulc (1975:6), são reveladoras da preocupação suscitada não só pelo golpe de
Estado em Portugal mas também pelas mudanças de regime em outros dois países da NATO:
a queda do regime na Grécia e a transição verificada em Espanha após a morte de
Franco, pouco tempo depois do derrube do Estado Novo em Portugal

Se a reforma agrária diz respeito, de forma directa, ao Alentejo, e à área designada por
ZIRA (Zona de Intervenção da Reforma Agrária), não é dispensável uma compreensão da
conjuntura que influenciou o curso dos acontecimentos, nas suas várias fases, incluindo os
constrangimentos inerentes às negociações de adesão à Comunidade Económica Europeia
a à PAC (Política Agrícola Comum).

O processo de ocupação de terras e a constituição das cooperativas e das Unidades


Colectivas de Produção (UCP) a parte mais visível da reforma agrária e, a partir de 1977, as
desocupações estão intimamente ligadas ao curso dos acontecimentos no país como um todo
que, por sua vez, devem ser analisadas tendo em conta factores relevantes de ordem
internacional.

As reacções contrárias a uma qualquer tentativa de reforma agrária no Norte do país,


reflecte bem o impacte que este processo teve no país em geral. Isto para não falar no
pânico que gerou entre os proprietários das terras e as repercussões que, ainda hoje, tem na
resolução e na clarificação das questões da posse da terra.

As estratégias locais reflectiram, sem qualquer margem para dúvida 'as realidades de
cada uma das freguesias em que ocorreram. O caso de Baleizão servirá para demostrar este
argumento, dando destaque a algumas das suas especificidades à medida que se enquadra
no caso mais geral da reforma agrária no Sul de Portugal.

O caso de Baleizão
As ocupações colectivas de terras da "reforma agrária" dos meados dos anos 70,
constituíram uma enorme mudança na vida dos trabalhadores agrícolas3 do Alentejo.4
Grandes extensões de terra do Sul de Portugal que,

3
Digo trabalhadores agrícolas e não trabalhadores rurais, na medida em que estando ocupados na agricultura,
eles não se enquadram naquilo a que poderíamos chamar espaço rural. De resto, a distinção entre o urbano e
o rural, já amplamente contestada, não será aplicável a grande parte do contexto alentejano.
288 Mundo Rural

cias e os seus interesses. As tensões resultantes desta ambiguidade contribuíram para


conflitos, não só no seio da UCP como também na aldeia como um todo. Enquanto
membros da UCP podiam participar na gestão da empresa e decidir, por exemplo, qual a
remuneração que lhes era devida pelo seu trabalho, votando aumentos de ordenado mesmo
quando a situação financeira da UCP era crítica. Como as remunerações pelo trabalho
prestado era feita, como no tempo dos latifundiários, através de um salário e lhes assistiam
todos os direitos legais dos trabalhadores, os membros da UCP agiam em conformidade
sempre que viam lesados os seus legítimos interesses enquanto trabalhadores.

O recurso à greve, o não acatamento de instruções e os desvios de bens e de fundos,


embora não suficientemente graves para explicar o desmoronamento do projecto de
exploração colectiva da terra no seio da UCP — que ficou a dever-se mais às iniciativas do
poder central do que às dinâmicas locais — contribuiu para a desilusão reinante e reflecte
uma ética de trabalho que não traduz as transformações operadas ao nível das relações de
produção.

A dificuldade em manter uma exploração da terra de base socialista no seio de um


sistema económico dominante, com características predominantemente capitalistas, — numa
conjuntura nacional e internacional cada vez mais desfavorável — e a dificuldade em
entender a necessidade de implementar mudanças significativas nas relações de produção e das
mentalidades contribuiu, em larga medida, para a gestação de conflitos internos e para um
crescente desinteresse pela globalidade do projecto.

Em última análise — e apesar da democraticidade que, em princípio, deveria imperar


dentro da UCP — as relações de produção, a proeminência dada à criação e manutenção
dos postos de trabalho sobre a posse da terra e as práticas e éticas de trabalho não sofreram
as transformações correspondentes à alteração da forma de exploração da terra.

Bibliografia

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Outras fontes:
CONSERVATÓRIA DO REGISTO PREDIAL DE BEJA — Registos de Propriedade
SECRETARIADO DAS UCPs E COOPERATIVAS AGRÍCOLAS DO DISTRITO DE BEJA
SINDICATO DOS TRABALHADORES RURAIS DO DISTRITO DE BEJA
UCP "TERRA DE CATARINA"/COOPERATIVA "BANDEIRA DE ESPERANÇA"