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Rede Globo de Televisão

Central Globo de Produção

- TERRA DO SOL -

novela de:
Ricardo Linhares
Escrita por:
Ricardo Linhares, Nelson Nadotti, Maria Elisa Berredo
Direção de:
Marcos Paulo, Roberto Naar, Luis Henrique Rios
Direção geral de:
Marcos Paulo, Roberto Naar
Núcleo
Marcos Paulo

- CAPÍTULO 1
Personagens:
BARNABÉ
MARTINHO
CUSTÓDIA
JULIANO
BILAC
TONHA
AVA MARIA
ANTÔNIO
JACIRA
IEDA
LÍVIA
OVÍDIO
REBECA
SELMA
NÉRIS
KAJÃO
JORGETE
ZÉ DA RAPADURA
MOLEQUE DE RECADOS (PARTICIPAÇÃO)
CENA 1 - PRAIA E ESTRADA ENTRE AS DUNAS DE AREIA/EXT/DIA -

CAM aérea dá geral da praia, rodeada pelas brancas dunas de areia.


MÚSICA: alegre, bem ritmada, pra cima.
TAKES sucessivos e deslumbrantes, mostrando o mar muito verde, os infindáveis coqueirais,
as lagoas, o vento soprando sobre o areal.
Até que se vê, de longe, um ônibus moderno que avança através de uma estrada que atravessa
as dunas de areia.
CAM aérea desliza em direção ao ônibus, até dar detalhe do letreiro: FORTALEZA-SÃO
TOMÁS DE TRÁS. Em seguida, a CAM corrige e vai mostrar um dos passageiros, que está à
janela. É Antônio.
CORTA para CLOSE de Antônio, ansioso, cheio de expectativas.
Num movimento inverso, CAM sai de Antônio e volta a subir. Afasta-se do ônibus, que some
numa curva da estrada ou atrás de uma duna.
CAM passa por uma placa à beira da estrada: "SÃO TOMÁS DE TRÁS: 20 KM /
GREENVILLE: 260 KM / TUBIACANGA: 470 KM".
E a CAM continua abrindo até abarcar a infinita paisagem.
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CENA 2 - PRAÇA DE SÃO TOMÁS DE TRÁS/EXT/DIA

O ônibus já parado, despejando passageiros. Antônio já está desembarcando (com uma


mochila).
Antônio atravessa a praça, apressado, em direção ao Salão Glamour.
Vamos aproveitar a caminhada dele para mostrar o movimento habitual da praça. Muito
colorido, muita vivacidade. Gente jovem e bonita indo e voltando da praia. Há vários
vendedores ambulantes (de rede, de rendas, de caranguejos, etc) apregoando suas mercadorias.
Entre eles, Zé da Rapadura. E Tonha, que trabalha na sua carrocinha de pamonha. Tonha fala
num megafone velho. É importante que a carrocinha de pamonha esteja perto da porta
da igreja.
TONHA - (no megafone; animada, alegre) Quentinha,
fresquinha e saborosa! Eta pamonha gostosa!...
Vamos chegando, minha gente/ que a pamonha tá
quente!
CORTA para Antônio, que chega à porta do Salão Glamour. Jacira está lá na porta, olhando
furiosa para Tonha, à distância.
JACIRA - Pelo fantasma de frei Tomás! Não estou mais
aguentando ouvir os gritos daquela ambulante
desvairada!...
ANTÔNIO - (ansioso) Pode me chamar dona Ieda?
JACIRA - Ora, chame você mesmo. Entre...
ANTÔNIO - Prefiro esperar aqui. Vá, dona Jacira, se avie, é
urgente!...
JACIRA - Vixe, que abusado! Ao menos me peça por
favor... Não sou sua criada.
ANTÔNIO - Por favor, dona Jacira!
Jacira solta um muxoxo de má vontade e vai entrando no Salão. Antônio fica esperando lá
fora, inquieto.
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CENA 3 - SALÃO GLAMOUR/INT/DIA

CAM ABRE em Ava Maria, atendendo ao telefone.


AVA MARIA - Salão Glamour, bon jour!... Sim, querida, já
recebi as novas tinturas. Estão da pontinha da
orelha! Vão dar um oba pra seu cabelo!... Já
marquei sua hora. Um cheiro, minha nêga!
Ava Maria desliga e se ocupa de algo, atarefada.
CAM desvia e mostra Jacira entrando. Ela atravessa o salão, que está apinhado de mulheres
falando ao mesmo tempo, num clima alto astral. CAM aproveita a passagem de Jacira para
mostrar o ambiente.
Ieda está à parte do movimento, ensinando algumas moças a tramar renda de bilros. Entre as
alunas: Lívia. Jacira se aproxima.
IEDA - Olhem, este ponto é dificílimo, mas vocês
precisam dominar a técnica.
JACIRA - Minha sogra, o filho do padre está lá fora. Quer
lhe ver com urgência.
CAM marca reação discreta de Lívia ao ouvir o nome de Antônio.
IEDA - Jacira, largue de ser venenosa!... Você sabe
muito bem que padre Ovídio adotou o menino há
séculos. Antônio não é filho. É a-fi-lha-do do
padre.
JACIRA - (maldosa) Será mesmo?... Pois eu/
Ieda suspira, contendo-se. Interrompe Jacira e vai saindo.
IEDA - Deixe de trololó, criatura! Me poupe e se
economize, sim? (às moças) Continuem
treinando, já volto...
Ieda sai. Lívia disfarça e se encaminha para a porta.
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CENA 4 - PRAÇA DE SÃO TOMÁS DE TRÁS/EXT/DIA

Ieda já saindo do Salão. Olha procurando Antônio. Até que o vê lá adiante, junto à carrocinha
de Tonha. Ieda encaminha-se para eles.
CORTA para Tonha dando uma pamonha a Antônio, que a devora.
TONHA - Arre égua! Eu sei que minha pamonha é porreta,
mas coma de mansinho, esse menino! Depois tem
uma ziquezira aí e vai dizer que a culpa é minha.
ANTÔNIO - É que não comi nada em Fortaleza. Queria
voltar correndo pra cá.
Ieda chega e cumprimenta-os, sempre muito simpática.
IEDA - Boa tarde, dona Tonha. Antônio, pensei que
fosse voltar pra semana...
ANTÔNIO - Eu preciso que a senhora me faça um daqueles
favores... É urgente demais!
Os dois vêem que Tonha está de ouvido na conversa e disfarçam.
ANTÔNIO - Bote em minha conta, por favor.
Antônio pega outra pamonha e puxa Ieda pelo braço. Afastam-se.
TONHA - (no megafone) Chegue mais, freguesa/ que a
pamonha está na mesa!... Quem gosta de
pamonha/ vem comer na mão de Tonha!
CORTA para a porta do Salão Glamour: Lívia surge, discretamente, e reage ao ver Ieda e
Antônio cochichando, à distância.
CORTA para Ieda reagindo diante de Antônio. O tom é de segredo.
IEDA - Vou falar com Rebeca agora mesmo!
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CENA 5 - TEMPLO PROTESTANTE/INT/DIA

Um vaso com belas flores do campo está sendo ajeitado sobre a mesa. O rosto de Rebeca
surge entre as flores, reagindo ansiosa diante de Ieda. Elas falam baixo, num clima de
cumplicidade e segredo.
Em algum lugar deve estar escrito: IGREJA DA SAGRADA SALVAÇÃO.
REBECA - Aconteceu alguma coisa?
IEDA - Ele mesmo vai lhe contar.
REBECA - Mas agora? Meu pai deve estar chegando, daqui
a pouco começa o culto, se eu não estiver aqui...
IEDA - Pegue o bugre de Ava Maria. Assim você vai
num pé e volta noutro...
LÍVIA - (OFF) Posso saber pra onde?
As duas se voltam num susto: Lívia está entrando.
IEDA - (brinca) Pras ruínas, procurar o tesouro do
fantasma! (explica) Rebeca vai fazer um
favorzinho pra mim.
LÍVIA - E se o pai perguntar eu digo o quê?
REBECA - Que não me demoro. Dona Ieda, vou em casa
passar uma escova no cabelo.
Rebeca sai, apressada. Ela vai para sua casa.
IEDA - Se houver algum problema, Lívia, eu me
entendo com pastor Bilac. (sai)
Lívia pensa um instante e sai na mesma direção em que foi Rebeca.
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CENA 6 - IGREJA CATÓLICA/INT/DIA


Uma beata sai do confessionário, se benze e sai da igreja. Padre Ovídio também está saindo do
confessionário. Vai se ocupar de algo. Antônio vem da sacristia, acabando de ajeitar a roupa
que trocou, e se aproxima do padre, afetuoso.
ANTÔNIO - Padrinho... Sua benção.
OVÍDIO - (surpreso) Antônio! Deus lhe abençoe... Não
sabia que já tinha voltado de Fortaleza...
ANTÔNIO - Anteciparam o resultado das provas, aí achei
melhor voltar logo. Não tinha mais nada pra fazer
na capital.
OVÍDIO - E então? Passou no vestibular? Ande, menino,
desembuche! Já está me dando brotoeja de tanta
ansiedade!...
ANTÔNIO - Tenho uma notícia boa. Outra ruim.
OVÍDIO - Não me diga que não passou?...
ANTÔNIO - Passei... pra melhor faculdade!
OVÍDIO - Eta, você é arretado demais! Sabia que não ia
me decepcionar!... (tom) E qual é a notícia ruim?
ANTÔNIO - (saindo) Mais tarde eu lhe conto, padrinho,
agora preciso sair...
OVÍDIO - Mais tarde, não. Espere... notícia ruim a gente
tem que saber logo!...
ANTÔNIO - Desculpe, padrinho, agora não dá.
OVÍDIO - Está bem, vá, vá... (resmunga) Aonde a
juventude pensa que vai chegar correndo desse
jeito? (chama) Filho! (sorri) Parabéns...
Antônio sorri e sai; e o padre suspira, orgulhoso e feliz.
Ovídio fala para a imagem de São Tomás, comovido.
OVÍDIO - Obrigado, São Tomás, pela benção de ter me
dado esse menino de ouro...
O padre se benze e se encaminha para a porta.
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CENA 7 - IGREJA CATÓLICA/EXT/DIA


Antônio terminando de encilhar seu cavalo, que está amarrado ali. Não importa que pareça
faroeste: o cavalo de Antônio fica sempre ali. Ele acaba de apertar a barrigueira, faz um
carinho no bicho e já vai montando. O padre está saindo da igreja.
OVÍDIO - Antônio! Você volta antes da missa?
ANTÔNIO - Com certeza, padrinho. Até!
Antônio acena e afasta-se à cavalo. Ele sai da cidade.
O padre tem sua atenção voltada para Tonha, que acaba de vender uma pamonha a um
homem. A carrocinha fica perto da porta da igreja.
TONHA - (no megafone) Volte sempre, doutor/ e coma
sem temor!... Alô, vizinha/ a pamonha está
fresquinha!
OVÍDIO - (irritado, mas se contendo) Tem que ficar
berrando nessa engenhoca logo aqui, quase
dentro de minha igreja?
TONHA - (implicante, mas meio sonsa) Eu estou na praça,
que é do povo...
Bilac, que estava passando por ali, sem ser notado ainda, intervém.
BILAC - Os incomodados que se mudem.
OVÍDIO - Vamos ver quem se muda primeiro.
Padre Ovídio fuzila pastor Bilac com o olhar e entra na igreja.
BILAC - Dona Tonha, estou lhe esperando no templo
daqui a pouco, pro culto.
Bilac se afasta e Tonha volta à carga, gritando com mais força.
TONHA - Vamos chegando, minha gente/ que a pamonha
está quente!... Pamonha boa de danar/ pra comer
e se fartar!
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CENA 8 - CASA DO PASTOR/QUARTO DE REBECA E LÍVIA/INT/DIA

Rebeca, linda, de roupa trocada, está acabando de vestir a blusa. Olha-se no espelho, vaidosa.
Ajeita o cabelo, bem feminina. Lembra-se de algo. Abre uma gaveta e vasculha no fundo.
Reage estranhando ao não encontrar o que procura. Abre outra gaveta, procura mais.
CAM desvia para a porta, que entreabre sem que Rebeca veja. Lívia surge e fica observando a
irmã, divertindo-se, sem ser vista.
Rebeca procura em outros lugares, até que desiste.
LÍVIA - Está procurando por isso?
Rebeca volta-se para Lívia, que entra com um batom na mão.
REBECA - Meu batom! Você pegou por quê?
LÍVIA - (provoca) Já imaginou se fosse o pai que tivesse
encontrado?...
Rebeca ignora e vai pegar o batom, mas Lívia não dá, atiçando-a.
LÍVIA - E se eu falasse pro pai que encontrei escondido
no fundo de sua gaveta? Acha que ele faria o
quê?
REBECA - Por que você contaria, me diga?
LÍVIA - (debocha) Pra lhe proteger, minha irmã! O pai
não diz que pintura é artifício de Satanás pra
tentar os homens? Você está se entregando à
luxúria, Rebeca... E o caso perdido nessa família
sou eu. Você é a filha boazinha. Pelo menos por
fora.
Rebeca avança e toma o batom das mãos de Lívia, que ri.
REBECA - (firme) De minha vida cuido eu.
Rebeca sai, decidida. Lívia vai atrás, já falando.
LÍVIA - Mudou de roupa por quê?
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CENA 9 - CASA DO PASTOR/SALA/INT/DIA

Rebeca vindo do quarto, seguida por Lívia, que já vem falando, provocadora. Juliano está
estudando a Bíblia, sentado à mesa.
LÍVIA - Pra prestar um favorzinho à dona Ieda precisa se
botar nos trinques desse jeito? Vai se fingir de
surda? (segura-a) Responda, minha irmã! Aonde
você vai? Fazer o quê?!
REBECA - Não lhe devo satisfação nenhuma!
Rebeca encara-a e solta-se com firmeza. Sai para a rua.
Lívia vai segui-la, mas Juliano cresce sobre ela e impede, firme.
JULIANO - Você devia parar de perseguir sua irmã e se
ocupar de sua própria vida.
LÍVIA - E você devia estudar sua Bíblia e não se meter
em minha vida.
JULIANO - Um dia eu vou ser pastor, feito seu pai. Escreva
o que lhe digo: vou ser o pastor mais importante
dessa região!... (intenso) E queria demais que
você estivesse ao meu lado, Lívia, me ajudando
nessa missão...
LÍVIA - Nem morta! Eu quero ir embora desse fim de
mundo. Quero ser rica!...
JULIANO - (passional) E eu quero você...
Juliano segura Lívia, que não gosta daquilo.
JULIANO - (com emoção) Se você me quiser, eu lhe dou o
possível e o impossível, lhe dou até as riquezas de
Salomão...
LÍVIA - Pare com isso, me deixe em paz...
JULIANO - Você sabe que eu sou desatinado por você... Por
que vive fugindo de mim?
LÍVIA - (tenta se soltar dele) Já disse que não quero nada
contigo, Juliano.
JULIANO - Por quê? Você gosta de outro?
LÍVIA - (solta-se) Não é de sua conta!
Lívia diz isso abrindo a porta da rua para sair. Ela reage num susto: é Bilac quem está lá, com
a chave na mão. Ia entrar em casa.
BILAC - Está gritando por quê?
LÍVIA - (recua) Nada, não senhor.
BILAC - Vai sair?
LÍVIA - Vou até a padaria, meu pai.
BILAC - E Rebeca, cadê?
JULIANO - Saiu...
BILAC - Sem me pedir permissão? Foi aonde?
JULIANO - Não sei, não senhor.
BILAC - Pois tenho certeza que Lívia sabe.
LÍVIA - Talvez eu saiba, talvez não...
BILAC - Eu confio em Rebeca. Sei que ela não está
fazendo nada de mal.
LÍVIA - Se o senhor tem tanta certeza...
Lívia lança um olhar provocador e sai para a rua.
BILAC - Deus colocou esta filha em meu caminho pra
me testar... mas me deu a benção de ter a outra.
(se emociona) Rebeca vai ser nossa salvação.
Minha e sua. Já disse, Juliano: antes de se tornar
pastor, você deve se casar com Rebeca. E
constituir uma boa família. Foi pra isso que lhe
criei... pra dar continuidade ao meu trabalho e à
minha família. E tenho certeza que você não vai
me decepcionar.
Bilac sai, deixando Juliano lá, incomodado com a cobrança.
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CENA 10 - PRAÇA DE SÃO TOMÁS DE TRÁS/EXT/DIA

Diante do Salão, Rebeca já está colocando o cinto, dentro do bugre de Ava Maria - que não
deve ter capota. Ava Maria e Ieda com ela.
REBECA - Ava, nem sei como agradecer.
Rebeca sorri agradecida e dá a partida no bugre. Afasta-se.
CAM desvia e mostra Lívia escondida, observando a saída da irmã.
CORTA para Ava Maria e Ieda voltando para o Salão Glamour.
AVA MARIA - Olhe lá, minha mãe: eu sei que você está
acobertando alguma coisa...
IEDA - (fazendo mistério) Será?...
AVA MARIA - Só espero que essa menina não esteja fazendo
nada que contrarie o pai dela, senão...
CORTA para Lívia agradecendo a um rapaz, que lhe dá a chave de seu bugre. Ela entra no
carro e parte, indo na mesma direção de Rebeca.
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CENA 11 - OUTRA RUA DA CIDADE/EXT/DIA

DETALHE dos lábios de Rebeca, refletidos no espelho do bugre, que está parado numa rua de
pouco movimento. Ela está passando batom. Rebeca sorri aprovando o que vê. Acelera e sai
da cidade.
CAM desvia e mostra Lívia em outro bugre, seguindo-a.
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CENA 12 - DUNAS, FALÉSIAS E PRAIA/EXT/DIA

Antônio vindo à cavalo, conduzindo com a maior destreza o animal.


Ele amarrou a camisa na cabeça, para se proteger do sol.
MÚSICA: tema orquestrado, grandioso, num crescendo de emoção.
CORTES DESCONTÍNUOS de Antônio atravessando dunas, coqueirais, lagoas e falésias,
vencendo obstáculos, másculo e seguro de si.
EDIÇÃO: alternar com takes de Rebeca passando pelos mesmos lugares, de bugre, à
toda, algum tempo depois de Antônio. E alternar também com Lívia, em outro bugre,
seguindo a trilha deixada por Rebeca.
DIREÇÃO: é preciso que Lívia esteja afastada de Rebeca, para ela não vê-la pelo
espelho, na imensidão daqueles descampados.
Rebeca está com os cabelos ao vento. Sente-se livre e feliz.
Um tempo no clipe, explorando as belezas da região.
Até que Antônio desemboca numa praia deserta e segue por ela. Se possível, a praia da Pedra
Furada.
CORTA DESCONTÍNUO para o bugre com Rebeca desembocando na praia.
Rebeca avista ao longe o cavalo de Antônio, numa ponta ou curva da praia, um local mais
recolhido. Ela reage animada. E acelera.
CORTA DESCONTÍNUO para o bugre parando junto ao cavalo.
Rebeca salta e olha em volta, procurando Antônio, ansiosa.
Até que o vê de pé no alto de uma pedra ou rochedo, junto ao mar. Uma figura majestosa
contra o horizonte e contra a luz do sol.
REBECA - Antônio!!!
Antônio volta-se e vê Rebeca. Abre um sorriso, feliz.
MÚSICA: tema de amor de Antônio e Rebeca, versão cantada.
Antônio desce da pedra; Rebeca corre em sua direção. Os dois tomados pela emoção do
reencontro. Antônio abre os braços; Rebeca se joga sobre ele. Antônio a abraça com força e
carinho. E os dois giram, unidos por um forte abraço. EM SLOW MOTION.
Até que eles param. Olham-se nos olhos, intensos.
ANTÔNIO - Meu amor. Quanta saudade...
Antônio puxa Rebeca para si e a beija. Rebeca retribui o beijo, que vai num crescendo de
paixão.
CORTA para Lívia observando-os, escondida. Ela está bem afastada deles. CLOSE de
Lívia, com ciúme e inveja.
LÍVIA - Ele tinha que ser meu.
CAM volta para Antônio e Rebeca. E afasta-se deles, até mostrar os dois pequenos, em meio à
magnífica paisagem desmedida.
Corta pra:

C O M E R C I A L

CENA 13 - PRAIA DESERTA/EXT/DIA

Continuação imediata da cena anterior.


Antônio e Rebeca saem do beijo. E se abraçam fortemente.
EDIÇÃO: alternar com Lívia, escondida, observando-os.
REBECA - Que bom que você voltou antes...
ANTÔNIO - Não aguentava mais de saudade...
REBECA - Meu amor, como é que você pôde ficar tanto
tempo longe de mim?...
Eles se beijam novamente, afogueados. Falam entre-beijos.
REBECA - Sentiu muito a minha falta?
ANTÔNIO - O tempo inteiro... E você, meu benzinho,
sonhou comigo?
REBECA - Sonhei acordada... perdi o sono, a fome, perdi a
vontade de fazer qualquer coisa... (sedutora) Só
pensava em você, querido, na vontade de lhe ver,
lhe tocar, lhe beijar...
ANTÔNIO - (acaricia com muita atração) Fico desatinado
cada vez que lhe beijo...
REBECA - (retribui o carinho) Saudade de seu cheiro, de
sua pele, sua boca...
ANTÔNIO - Me deixe matar essa saudade...
E eles se atracam num beijão apaixonado e sensual.
CORTA para Lívia, cheia de raiva. Ela se afasta. Entra no bugre e vai embora. CAM volta ao
beijão apaixonado de Antônio e Rebeca.
Corta para:

CENA 14 - IGREJA CATÓLICA/INT/DIA

A missa já vai à meio. A igreja cheia. Entre os fiéis, Jacira. Padre Ovídio em seu lugar, já
lendo o Evangelho de Mateus 5,38.
OVÍDIO - (com sentimento) ..."Ouvistes o que foi dito:
olho por olho, dente por dente. Eu porém vos
digo: não resistais contra a maldade. Pelo
contrário, se alguém te ferir na face direita
oferece-lhe também a outra/
O padre se corta porque ouve-se a voz de Tonha, no megafone.
TONHA - (OFF, no megafone) Quentinha, fresquinha e
saborosa! Eta pamonha gostosa!... Vamos
chegando, minha gente/ que a pamonha está
quente!
Zunzum na igreja, todos comentando chocados o berreiro.
O padre perde a concentração, mas tenta ignorar. Segue lendo, tentando falar mais alto que
Tonha. Eles falam ao mesmo tempo.
TONHA - (OFF, no megafone) Qualidade e garantia/ aqui
tem todo dia!...
OVÍDIO - "Ouvistes o que foi dito: amarás o teu próximo e
odiarás teu inimigo!...
TONHA - (OFF, no megafone) Pamonha boa de danar/ pra
comer e se fartar!
OVÍDIO - "Eu porém vos digo: amai os vossos inimigos e
fazei o bem aos que vos odeiam. Orai pelos que
vos caluniam!
TONHA - (OFF, no megafone) Quem gosta de pamonha/
vem comer na mão de Tonha!
O padre perde a paciência. Vai tirando os paramentos e saindo.OVÍDIO- Os senhores me
desculpem... mas assim não dá! Essa criatura já foi longe demais. Vou botar um ponto final
nessa provocação agora mesmo!
O padre sai da igreja, sob o olhar de aprovação de Jacira.
Corta rápido para:

CENA 15 - PRAÇA DE SÃO TOMÁS DE TRÁS/EXT/DIA

O padre saindo da igreja; Tonha falando no megafone.


TONHA - Em São Tomás de Trás/ é a pamonha que
satisfaz!...
OVÍDIO - Agora a senhora ultrapassou todos os limites...
Na hora da missa, não!
Pastor Bilac está se aproximando e intervém.
BILAC - O senhor quer impedir dona Tonha de ganhar a
vida honestamente?
OVÍDIO - Não falei com o senhor.
BILAC - Como se eu fizesse questão de lhe dirigir a
palavra... (tom) Por favor, dona Tonha: três
pamonhas.
TONHA - (no megafone, de implicância) Vai levar três?/
Isso que é freguês!...
Ovídio vai se afastar, mas não resiste e volta.
OVÍDIO - O senhor sempre me provocando...
BILAC - Eu?... Não sei do que está falando.
OVÍDIO - Largue de ser sonso, criatura!... Pensa que eu
não sei que o senhor é o cérebro por trás de tudo?
BILAC - Não entendi. De tudo o quê?
OVÍDIO - Foi o senhor quem mandou esta mulher fazer
ponto em frente à minha igreja! Negue. Quero
ver: negue!
BILAC - Que acusação leviana! Que ultraje! Saiba que eu
apenas aconselhei dona Tonha da Pamonha a
parar a carrocinha aqui. Afinal, este é o trecho de
maior circulação da praça.
Tonha vai replicar, mas o padre não a deixa falar.
OVÍDIO - Não se meta, que o assunto é entre ele e eu. É
questão pessoal!
Pastor Bilac faz gesto para Tonha se afastar e encara Ovídio.
Ao fundo, Ava Maria, Ieda e o mulherio saem do salão, atraídos pelo bate-boca. Jacira e os
que estavam na missa saem da igreja. O povo se aproxima. E todos ficam a observar a
discussão. Ritmo!...
BILAC - Todos aqui estão de prova que é o senhor que
está me desafiando...
OVÍDIO - Eu lhe desafio, sim. Desafio a mandar que ela
pare de berrar nessa engenhoca diante de minha
igreja!
BILAC - Mas eu não mando em dona Tonha da
Pamonha. Ela apenas frequenta meu templo
como tantos outros fiéis que/
OVÍDIO - (corta) Mentira! Vocês dois estão de conluio!
Eu sou vítima de uma conspiração. Trata-se de
um complô contra mim e contra minha igreja!
BILAC - Vixe, que mania de perseguição... Por que não
chama o tal fantasma de frei Tomás pra lhe
proteger?
OVÍDIO - Deixe de pirraça, homem!
BILAC - Quem está de pirraça é o senhor! E não ouse me
chamar de mentiroso outra vez! O senhor não tem
moral pra isso!
OVÍDIO - (se enfurece) Quer que eu diga agora, diante de
todos, quem de nós dois não tem moral, e por
quê?
Ieda e Ava Maria não aguentam mais e intervêm.
IEDA - Francamente, senhores!
AVA MARIA - Eta, lelê! Que desfrute!
Ovídio se cala, vendo que estava indo longe demais.
Bilac tenta não demonstrar que ficou muito abalado.
BILAC - É guerra o que o senhor quer? Se for, se
prepare: eu dou um boi pra não entrar e uma
boiada pra não sair!
OVÍDIO - Pois eu vou mandar soltar a boiada em cima do
senhor. Me aguarde!
Ovídio diz isso e se afasta, decidido, cruzando a praça.
Tonha vai dar as pamonhas ao pastor, que ficou alheado.
BILAC - Só pedi pra provocar aquele/ (se corta) Quer
dizer, não se esqueça que o culto já vai começar.
O pastor segue em direção ao templo protestante.
CAM desvia para Ava Maria, Ieda e Jacira.
AVA MARIA - Afinal, minha mãe, por que foi que começou
essa briga entre os dois?
IEDA - Ninguém sabe. Eles eram tão amigos, e de
repente... Há quase quinze anos se pegam assim,
feito cão e gato.
JACIRA - Vão brigar pelo resto da vida...
IEDA - (pensando em Antônio e Rebeca) E ái de
quem ficar no caminho deles...
Corta para:

CENA 16 - CASA DO PASTOR/SALA/INT/DIA

Juliano impaciente, agoniado. Lívia entra da rua, irritada.


JULIANO - (despeja) Eu fui na padaria atrás de você, e você
nem passou lá. Lhe viram saindo da cidade, de
bugre! Mentiu por quê? Onde você foi?
LÍVIA - Quer saber? Fui atrás de Rebeca!
JULIANO - Arre! Por que essa perseguição?!...
LÍVIA - Sabe com quem minha irmã está?
JULIANO - Você fala como se Rebeca estivesse fazendo
coisa errada...
LÍVIA - Está com homem. O nome não vou dizer, ainda
não é hora de contar. Mas lhe garanto que eles
não estavam estudando a Bíblia!... É isso mesmo,
Juliano: sua prometida tem outro.
JULIANO - Não me interessa com quem ela está, nem
fazendo o quê. Eu não quero me casar com ela...
quero você, só você!
Ele avança para beijar Lívia, que empurra-o com força para longe.
JULIANO - Lhe quero demais! Não me afronte, senão sou
capaz de perder a cabeça...
LÍVIA - (séria) Você é quase meu irmão...
JULIANO - (em cima) Quase! Mas não sou!
LÍVIA - É como se fosse. Juliano, você não me
interessa... Eu gosto de outro!
JULIANO - Quem é, me diga? Quem é?!
LÍVIA - Por que eu lhe contaria?...
Lívia sai para o quarto e tranca a porta.
Juliano tem um gesto forte, extravasando a raiva e a paixão.
Corta para:

CENA 17 - PRAIA DESERTA/EXT/DIA

Antônio e Rebeca estão num ponto da praia diferente do final da Cena 13, talvez sobre as
pedras, ou deitados na areia, de costas, olhando o céu - para mostrar que algum tempo se
passou.
Estão vestidos, deve ficar claro que não transaram.
Eles estão abraçados, mais calmos, trocando carinhos.
REBECA - Dona Ieda disse que você tem uma notícia
importante pra me dar... Sei lá, me deu um
pressentimento ruim.
ANTÔNIO - Na verdade, Rebeca, eu tenho duas notícias.
Uma boa. Outra má.
REBECA - Prefiro que fale a boa primeiro...
ANTÔNIO - Eu passei no vestibular. Pra melhor faculdade
de medicina de Fortaleza.
REBECA - Meu amor, que coisa boa! Parabéns! (tom) E a
má notícia... qual é?
ANTÔNIO - Pra estudar em Fortaleza eu vou ter que ir
embora de São Tomás de Trás. Vou ter que me
mudar pra capital.
Reação forte de Rebeca.
Corta para:

C O M E R C I A L

CENA 18 - PRAIA DESERTA/EXT/DIA

Continuação imediata da cena anterior.


Rebeca reagindo diante de Antônio.
REBECA - Eu imaginei que isso pudesse acontecer, mas
não quis/ (se corta) É seu projeto de vida... Eu
devia ficar contente, eu estou muito contente por
você, mas se você for/ (se corta) Nossa vida já é
tão difícil! Mas pelo menos nós moramos na
mesma cidade. Não consigo lhe encontrar, lhe
beijar todo dia, mas lhe vejo cruzando a praça, a
gente se olha, meu dia fica feliz... Mas você se
mudando pra capital, longe de mim...
Antônio quer falar, mas Rebeca não deixa, desabafando forte.
REBECA - Antônio, a gente tem que se ver às escondidas,
como se estivesse fazendo coisa errada... Qual é o
nosso crime? Me diga! A gente se amar demais?
É esse o nosso crime?! O que é que nós temos a
ver com a briga entre meu pai e o padre? Eu lhe
digo: nada! Eles se odeiam, brigam, e nós é que
sofremos! Está errado! Não é justo!
ANTÔNIO - Nós temos que reconciliar meu padrinho e o
pastor. Eles têm que voltar a ser amigos, como
eram antes.
REBECA - Como é que a gente vai fazer isso se não
consegue descobrir o motivo da rixa?... Ninguém
na cidade sabe!
ANTÔNIO - Só consegui assuntar que começou na mesma
época em que o padre me adotou, quando eu
tinha cinco anos. (tom) Mas tenho certeza que é
questão de tempo, meu amor. Nós vamos
descobrir tudo e reconciliar os dois. E aí a gente
vai ser feliz, com a benção deles. Tenha
paciência, querida. Confie em mim.
REBECA - Eu confio, Antônio, mas... não vou aguentar
viver longe de você...
ANTÔNIO - Nem sei se vou mesmo pra capital e/
REBECA - (corta) Vai, sim! Não posso deixar que você
abra mão do sonho de sua vida, que é estudar, ser
médico/
ANTÔNIO - (em cima) O sonho de minha vida é ser feliz ao
seu lado. E eu lhe juro, meu amor: nosso sonho
vai se tornar realidade. Lhe dou minha palavra.
Rebeca encara Antônio, comovida. Faz um carinho nele, que retribui. Antônio a abraça com
força. E os dois ficam assim, unidos.
De repente Antônio quebra o clima, corre e joga água em Rebeca.
REBECA - Não molhe minha roupa!... Como eu vou
explicar pra meu pai que/
Ela se corta porque Antônio joga mais água sobre ela, rindo.
ANTÔNIO - Agora é tarde... nós já estamos molhados... O
jeito é aproveitar!
Rebeca ri e joga água nele. Os dois então brincam, alegres e felizes. E acabam se atracando
num beijo e caindo no mar.
Corta para:

CENA 19 - TEMPLO PROTESTANTE/INT/DIA

O culto já em andamento. O templo está cheio. Entre os fiéis, Ieda. Pastor Bilac está
empolgado, conduzindo o coro de gospel que canta, cheio de bossa e suingue, uma música
vibrante (no estilo do grupo que Nelson Motta descobriu em Nova York, "Mount Moriah"). A
solista é Tonha da Pamonha. Os cantores vestem batas coloridíssimas. Juliano acompanha
tocando violão. Lívia trabalha em algo.
Um tempo. Até que Ava Maria irrompe salão adentro, num fôlego só.
AVA MARIA - Desculpe interromper! Mil perdões! Dona
Tonha, venha correndo. Começou uma Operação
Arrastão! Pra varrer os ambulantes da cidade!
Corta rápido para:

CENA 20 - PRAÇA DE SÃO TOMÁS DE TRÁS/EXT/DIA

Muito ritmo, please! O maior tumulto. Os fiscais da prefeitura arrastando os vendedores


ambulantes que reclamam, gritam, lutam para que não levem suas coisas. Um dos ambulantes
é Zé da Rapadura. Dois fiscais tentam arrastar a carrocinha de Tonha. O povo em volta,
metade gritando a favor, metade contra a Operação Arrastão. Ainda não vemos Barnabé.
Tonha sai correndo do templo protestante, seguida pelo pastor Bilac, Ava Maria, Ieda e outros.
Juliano e Lívia não estão.
TONHA - Minha carrocinha, minhas pamonhas!
Tonha se atraca aos fiscais, lutando pela carrocinha.
BILAC - (a um fiscal) Com ordem de quem vocês estão
fazendo isso?
Num golpe teatral, Barnabé surge no meio do tumulto, impondo sua autoridade. Na mesma
hora todos param e fazem silêncio.
BARNABÉ - Com ordem minha! Por quê?
BILAC - (firme) Acontece, seu Barnabé/
BARNABÉ - (corta, furioso) Alto lá! Meça suas palavras!
"Seu" é dono de botequim, eu sou doutor! Dr.
Barnabé de Barros, exijo respeito! Sou o prefeito
dessa cidade! Sou autoridade! Aqui mando eu! E
quem tiver contra mim está contra a lei! Eu
prendo e arrebento!
O pastor e Ieda trocam um olhar vendo que a situação é séria.
Barnabé pega o megafone sobre a carrocinha e volta-se para eles.
BARNABÉ - Esse troço estava azucrinando a paciência de
todo mundo. Vou levar comigo! E vou levar as
mercadorias de todo mundo também. Resolvi
cassar as licenças de todos os ambulantes.
IEDA - Não era mais simples pedir pra dona Tonha da
Pamonha parar de usar o megafone pra apregoar
a mercadoria?
TONHA - (desaforada) Já me pediram mas eu não parei.
As pamonhas são minhas e eu vendo como me
der na telha!
Barnabé se irrita e vai responder, mas antes que ele fale...
OVÍDIO - (OFF, em cima) De jeito e maneira!
Todos se voltam para a igreja, de onde saem o padre e Jacira.
OVÍDIO - Não no meio de minha missa!
BILAC - Bem que eu adivinhei que o senhor estava por
trás disso...
Ovídio e Bilac se medem de alto à baixo, se enfrentando.
OVÍDIO - Não disse que ia mandar soltar a boiada em
cima do senhor?...
TONHA - (explode) Peraí! Vocês ficam de pinimba e eu é
que pago o pato?!
Tonha caminha para Barnabé, reclamando esquentada.
TONHA - Eu não tenho nada a ver com o banzeiro
daqueles dois! Sou pobre, não encontrei o tesouro
do fantasma, tiro o sustento de meus filhos das
pamonhas que vendo, o senhor não/
BARNABÉ - (corta) Basta! Chega de bacafuzada!
AVA MARIA - Padre, por favor, retire a queixa, senão o que vai
ser de dona Tonha?
BARNABÉ - Padre Ovídio não apita mais. Ele pediu pro
prefeito dr. Barnabé de Barros intervir... e agora
quem decide essa quizila sou eu.
Barnabé fala aos fiscais:
BARNABÉ - Se mexam, rebolem! Arrebanhem tudo! Até a
carrocinha de pamonha!
Reação de Tonha, em pânico.
Corta para:

CENA 21 - DELEGACIA/INT/DIA

CAM ABRE nos pés do delegado Néris, que estão descansando em cima da mesa. Ele está
recostado na cadeira, fazendo palavras cruzadas. Ao fundo, os dois guardas estão dormindo.
NÉRIS - Tumulto... Com oito letras.
Ieda está entrando, agitadíssima, e já vai respondendo.
IEDA - Furdunço!
NÉRIS - Furdunço... Coube direitinho!
IEDA - Furdunço é o que está sucedendo lá na praça. E
você tem que intervir!
NÉRIS - (descansado) Mas Iedinha, falta tão pouco pra
eu me aposentar...
IEDA - Não interessa. Néris, levante! Enquanto a
aposentadoria não chega você é a autoridade
policial desta cidade. E não pode fugir a seu
dever de impor a ordem e a segurança!...
NÉRIS - (suspira e levanta) Não vejo a hora de pendurar
a cartucheira...
Ieda bate nas mesas, acordando os guardas.
IEDA - Chega de leseira, minha gente!...
NÉRIS - (incorporando a autoridade) Está bem, mulher!
Deixe que eu cuido de minha função. Guardas,
atenção. Sentido! Há um furdunço tomando conta
da cidade. E é preciso resolvê-lo!
Corta rápido para:

CENA 22 - PRAÇA DE SÃO TOMÁS DE TRÁS/EXT/DIA

Agora o tumulto está pior do que no início da Cena 20.


Os fiscais recolhendo as mercadorias, os ambulantes lutando, entre eles Tonha, que tenta
defender sua carrocinha. Muito ritmo!
TONHA - Só passando pelo meu cadáver!
À parte: Barnabé, o padre e Jacira, observando.
Em outro ponto do praça: o pastor e Ava Maria, esperando Néris.
Logo chega o delegado Néris, com os guardas e Ieda.
NÉRIS - O senhor não pode causar um tumulto desses,
seu Barnabé.
BARNABÉ - Barnabé de Barros é doutor! Eu sou prefeito,
sou autoridade!
NÉRIS - Também sou autoridade em São Tomás de Trás.
E preferia estar fazendo minhas palavrinhas/ (se
corrige) Quer dizer, cuidando de meus afazeres
na delegacia em vez de me meter em/
BARNABÉ - (corta) Pois então não se meta onde não foi
chamado! Rode nos calcanhares e volte pras suas
palavras cruzadas!
NÉRIS - Não me afronte! Senão o senhor vai me obrigar
a agir com firmeza.
BARNABÉ - E tu tem topete pra isso, homem? Quem manda
nessa cidade sou eu, que tenho aquilo roxo!...
Nesse momento, um dos fiscais vira um grande isopor cheio de enormes guaiamuns vivos. As
pessoas correm e gritam, com medo.
BARNABÉ - Arre égua! Vão ficar de faniquito por causa
duns guaiamunzinho besta?
Barnabé tenta pegar um dos grandes guaiamuns, mas não consegue.
CAM dá detalhe das garras enormes e ameaçadoras do bicho.
Barnabé fica com receio mas disfarça. Volta-se para os fiscais.
BARNABÉ - Vocês é que são pagos pra isso... Peguem os
guaiamuns, seus frouxos!
A CAM executa um travelling hitchcockiano e vai fechar numa das janelas do 2º andar do
casarão de Custódia. Vemos que há um vulto observando por trás das cortinas.
Sonoplastia: marcar com suspense a aparição do vulto de Custódia.
Corta rápido para:

CENA 23 - CASARÃO DE CUSTÓDIA/QUARTO DE CUSTÓDIA/INT/DIA

Custódia se afasta da janela. A CAM não deve mostrar seu rosto, nem revelá-la de corpo
inteiro. Apenas através de detalhes que passem seu estilo e sua postura autoritária. As mãos
com longas unhas muito bem feitas. Talvez ela fume piteira. Seu vulto, talvez de turbante,
visto de relance no espelho. A echarpe que voa.
Deve haver sempre um clima em torno da figura de Custódia.
Custódia vai até um cordão e puxa-o várias vezes, com decisão.
Corta rápido para:

CENA 24 - CASARÃO DE CUSTÓDIA/COZINHA/SALA/INT/DIA

CAM ABRE no detalhe de um sino preso à parede por um cordão tocando muitas vezes,
histericamente.
Jorgete, Selma e Kajão correm vindo de diferentes lugares, feito baratas tontas. Eles se
esbarram para passar nas portas, derrubam móveis, atropelam-se para chegar mais depressa ao
sino. E ficam lá parados, bestificados, olhando para o sino que não pára de tocar.
SELMA - Dona Custódia está com a moléstia!
KAJÃO - Alguém tem que atender a patroa!
JORGETE - Vá você, que é homem!...
KAJÃO - Sou homem mas não sou besta! Vá a senhora,
que é a secretária dela!
JORGETE - Arre, sempre sobra pra mim!...
Jorgete vai para a sala, seguida pelos dois. CAM vai com eles, aproveitando o trajeto para
revelar a imponência do casarão.
Eles param diante da escadaria. Jorgete toma coragem e sobe, sob o olhar cheio de expectativa
dos dois.
Corta rápido para:

CENA 25 - CASARÃO DE CUSTÓDIA/QUARTO DE CUSTÓDIA/INT/DIA

Custódia ainda puxando o cordão, impaciente. Jorgete entra.


CAM pode enquadrar Custódia contra a luz, sem revelá-la.
CUSTÓDIA - Mande buscar o delegado.
Corta rápido para:

CENA 26 - PRAÇA DE SÃO TOMÁS DE TRÁS/EXT/DIA

CAM ABRE no delegado reagindo em pânico diante de Jorgete. Os mesmos da Cena 22 estão
à parte, na expectativa, em silêncio.
NÉRIS - Dona Custódia mandou me buscar?!...
JORGETE - Disse que ela mesma é quem vai resolver o
sangangu aqui da praça.
Néris se volta para o padre e o pastor, explodindo.
NÉRIS - A culpa é de vocês dois, que vivem de rififi! E
quem não tem nada com a briga é que se dana!
(tom) Agora eu vou ter que enfrentar a fera...
BARNABÉ - Delegado, não caia na esparrela!
O delegado nem dá ouvidos. Se afasta em direção ao casarão, seguido por Jorgete. O povo,
temeroso, abre espaço para eles passarem.
BARNABÉ - Dona Custódia mandou lhe chamar só pra me
provocar, como sempre!
O delegado pára diante do casarão. E lança um último olhar à Ieda e à Ava Maria, como se
estivesse indo para a guilhotina.
BARNABÉ - Há 30 anos ela não põe os pés fora de casa, que
direito pensa que tem de meter o bedelho na vida
da cidade?
Selma abre a porta. O delegado e Jorgete entram. A porta fecha atrás deles. Sonoplastia:
estrondo exagerado na porta se fechando.
BARNABÉ - Não me interessa o que ela fale. A palavra final
vai ser minha, que sou o prefeito, sou autoridade!
Todos olham para Barnabé, sem acreditar muito nisso.
Corta para:

C O M E R C I A L

CENA 27 - PRAIA DESERTA/EXT/DIA

Antônio e Rebeca saindo do mar, correndo e rindo, felizes. (Eles devem ter tirado parte da
roupa, é claro.)
REBECA - A gente perdeu a noção da hora...
ANTÔNIO - (sedutor) Mas não valeu a pena?
Rebeca sorri, fazendo que sim. Beija-o mais, mais, mais...
REBECA - A gente vai ter que inventar uma desculpa pro
sal no cabelo...
ANTÔNIO - Eu sei de um jeito ótimo de nos secar. Ao
vento!...
CORTA DESCONTÍNUO para os dois, vestidos, montando o cavalo.
REBECA - Aonde você vai me levar?
ANTÔNIO - Ao céu. Até as estrelas!...
Antônio toca o cavalo para subir uma duna de areia dura ou um barranco. Deve ser uma coisa
mágica, sem preocupação com realismo. A CAM enquadra-os de baixo, sem mostrar as patas
do cavalo tocando o chão, como se estivessem subindo em direção ao céu, contra o vento. Um
tempo na subida, talvez em SLOW.
Fusão para:

CENA 28 - ALTO DA DUNA DE AREIA/EXT/DIA/NOITE

Antônio e Rebeca, à cavalo, chegam no alto da duna, de onde descortinam uma vista
deslumbrante do mar.
Eles saltam, vão até a beira do penhasco.
CAM enquadra os dois, abraçados, recortados contra o horizonte.
EFEITO ESPECIAL: neste momento, lentamente anoitece. O céu se torna estrelado. Uma
estrela cadente risca o céu. Importante: não há lua. Sob a luz das estrelas, os dois se
beijam.
Corta para:

CENA 29 - PRAÇA DE SÃO TOMÁS DE TRÁS/EXT/NOITE

Já é noite. Os mesmos da Cena 26 olhando para o casarão de Custódia, cheios de expectativa.


A porta abre e surge Néris.
OVÍDIO - O que dona Custódia decidiu?
NÉRIS - Mandou prender Tonha da Pamonha.
Reações gerais de surpresa. E Barnabé explode.
BARNABÉ - Há 30 anos aquela desvairada me afronta!
Quem ela pensa que é pra passar por cima de
minha autoridade de prefeito?! (tom) Delegado,
tu não vai fazer o que ela mandou, não é?
NÉRIS - (firme) Vou, sim.
Corta rápido para:

CENA 30 - DELEGACIA/SALA DO DELEGADO/INT/NOITE

Tonha já implorando ao padre. Néris e o pastor com eles.


TONHA - Padre, eu prometo, pela saúde de meus filhos...
nunca mais falo meus versinhos naquela
geringonça na hora de sua missa. Nunca mais.
Palavra.
OVÍDIO - (se quebra) Eu só queria que a senhora
aprendesse a lição, claro que não quero vê-la
atrás das grades. Se a senhora está arrependida,
por mim botamos uma pedra nesse assunto.
BILAC - Então, delegado: solte dona Tonha!
NÉRIS - (definitivo) Só solto quando dona Custódia
mandar. E ponto final!
Corta para:

CENA 31 - CASA DOS PÃES/SALÃO/INT/NOITE

Casa cheia. Gente jovem. Movimento habitual de fregueses e garções.


Ava Maria entra, apressada, e pergunta algo a um funcionário, que aponta a porta da cozinha.
Ava Maria dirige-se para lá.
Corta para:

CENA 32 - CASA DOS PÃES/COZINHA/INT/NOITE

CAM ABRE numa enorme bandeja de maravilhosos pães sendo retirada do forno e posta
sobre a mesa. CAM corrige e mostra Martinho, que examina os pães e fala para o forneiro,
aprovando.
MARTINHO - No ponto certo!... Podem levar pro balcão, já
tem uma fila de fregueses atraídos pelo cheiro...
Ava Maria entra e vai até Martinho, bastante sem jeito.
AVA MARIA - Seu Martinho, desculpe incomodar...
Martinho deve passar, pelo olhar, o amor que sente por Ava Maria, que não se toca disso.
MARTINHO - A senhora não incomoda nunca, dona Ava
Maria. Em que posso lhe ser útil?
AVA MARIA - O senhor sabe se Inácio/ (olha os funcionários e
se corrige) Dr. Inácio já voltou da fazenda?
MARTINHO - Me disse que só ia voltar amanhã.
AVA MARIA - Diacho!... (explica) É que dona Custódia
mandou prender dona Tonha da Pamonha. E eu
queria que Inácio fizesse a irmã voltar atrás.
MARTINHO - Sinto demais não poder lhe ajudar. (à sério) Só
de pensar em me meter em quizila política, olhe
só... (coça o braço) Começa a me dar urticária.
AVA MARIA - (à sério) Não se apoquente, eu sei que o senhor
é alérgico a política. (tom) Eta, até quando dona
Custódia vai mandar e desmandar nesta cidade?!
MARTINHO - O que se pode esperar de um povo que sonha
em enriquecer achando um tesouro escondido há
300 anos?...
AVA MARIA - (suspira) Até Inácio voltar, não há nada que se
possa fazer...
Corta para:

CENA 33 - CASA DO PASTOR/SALA/INT/NOITE

Lívia fazendo renda de bilros, distraída.


Juliano se aproxima, silencioso. Fica a observar Lívia.
LÍVIA - (sem se virar) Não adianta se chegar de
mansinho feito cobra... eu sei que você está aí,
Juliano.
JULIANO - Eu sou sorrateiro quando quero... (se aproxima)
Vai me dizer agora?
LÍVIA - O quê?...
JULIANO - O nome do sujeito de quem você gosta. Quem
quer lhe roubar de mim.
LÍVIA - (acha graça) Vixe, como alguém pode lhe
roubar o que você não tem?
JULIANO - Ele também gosta de você?... Tanto quanto eu
gosto?
Lívia faz como se não ouvisse, deixando-o aperreado.
JULIANO - Vocês estão namorando, me diga?
LÍVIA - Por que isso lhe interessa? Preocupação de
irmão?
JULIANO - Você sabe que eu tenho preocupação de irmão
só por Rebeca. Por você/
LÍVIA - (em cima) Por que você parou de ter cuidados
de irmão comigo?... Lhe deixaram na porta do
templo, ainda bebê. Nós três fomos criados
juntos, eu, você e Rebeca. Como irmãos.
(maliciosa) Por que você passou a me olhar com
outros olhos, hem?
JULIANO - Não sei o que aconteceu, foi de repente... Um
dia parei de sentir por você afeto de irmão. Abri
os olhos e passei a lhe ver com olhos de homem.
LÍVIA - Pra quem quer ser pastor, sabe que você é bem
atrevidinho?
JULIANO - Mas eu também sou homem. Tenho sangue
correndo em minhas veias. Sangue quente
demais, que às vezes me faz arder de febre...
Você pode ser o bálsamo pra minha consumição.
Ele segura Lívia e a atrai para junto de si. Ela se deixa levar.
JULIANO - Posso lhe dar um beijo?
LÍVIA - (ri, debochada) Tolinho. Não sabe que beijo não
se pede? Se toma.
Diante disso, Juliano perde um pouco da ousadia.
Neste instante, há barulho na porta da rua. Bilac está entrando.
Eles se afastam rapidamente, mas Bilac percebe o clima.
BILAC - O que está sucedendo aqui?
Juliano sente-se culpado diante de Bilac. Lívia na dela, sonsa.
JULIANO - Eu estava estudando a Bíblia, no quarto. Aí vim
conversar com Lívia...
Rebeca interrompe-os. Ela vem do interior da casa, de banho tomado. Vai até o pai e beija-o,
sempre muito carinhosa com ele.
REBECA - Que tal um peixinho com verdura pro jantar,
meu pai? Não foi pescado pelo senhor... Mas eu
comprei, fresquinho, hoje cedo no mercado.
BILAC - Se não for lhe dar trabalho...
Rebeca sorri, fazendo que não. Sai para a cozinha.
BILAC - (seco) Lívia, vá ajudar sua irmã.
Lívia engole seu ressentimento e não diz nada, sai para a cozinha.
Bilac vai sair para seu quarto, antes volta-se para Juliano.
BILAC - Juliano. Não se esqueça do que Jesus disse a
Pedro: "Vigiai e orai, pra não cair em tentação. O
espírito está pronto. Mas a carne é enfêrma."
Bilac sai, deixando Juliano lá, sofrendo dividido.
Corta para:

CENA 34 - CASA PAROQUIAL/SALA/INT/NOITE

Ovídio reage diante de Antônio, já de banho tomado. Estão jantando.


OVÍDIO - Então era essa a notícia ruim? Você vai ter que
se mudar pra Fortaleza?
ANTÔNIO - Eu não pensei que fosse conseguir passar pra
faculdade de lá. Achei que ia passar pruma mais
perto, que eu pudesse ir e voltar no mesmo dia...
OVÍDIO - Vixe, menino!... É impressão minha ou você
está lamentando ter passado pra melhor faculdade
de medicina da capital? Antônio, você devia estar
arrebentando de orgulho, feito eu.
ANTÔNIO - Não é isso, padrinho. Mas é que a minha vida é
aqui, não queria deixar pra trás tantas pessoas,
tantas coisas. É uma mudança grande...
OVÍDIO - Pra nós dois. Eu vou sentir demais a falta de sua
companhia, mas é o melhor pra seu futuro... Não
me diga que está pensando em desistir?
ANTÔNIO - (faz que não) Daqui a dois dias eu vou voltar
pra capital. Tenho que tirar documentos, cuidar
da matrícula, procurar onde morar...
OVÍDIO - Já sei o que está lhe aperreando assim... O
sustento. O dinheiro pra viver na capital. Não é
isso?
ANTÔNIO - Eu me viro. Vou procurar vaga numa casa de
estudante, vou ver se consigo trabalho de meio
expediente...
OVÍDIO - Antônio, olhe. Não quero que você se descuide
de seu estudo. Ele é o mais importante. Eu não
posso lhe ajudar muito, você sabe que nossa vida
nunca foi folgada... mas vou encontrar um jeito
de lhe ajudar. Confie em mim. Só não quero lhe
ver com esse olho abuticado, filho.
ANTÔNIO - É ansiedade, padrinho. Vai passar.
Corta para:

CENA 35 - ARREDORES DE SÃO TOMÁS DE TRÁS/EXT/AMANHECER

MÚSICA: alegre, pra cima, alto astral.


Stock-shots de um novo dia. O sol nascendo no mar. Takes das praias, do coqueiral, das
lagoas, das dunas, dos campos de algodão da fazenda de Custódia...
Takes da cidade. Último take é CASA DOS PÃES, localizando.
Corta para:

CENA 36 - CASA DOS PÃES/SALÃO/INT/DIA

Movimento habitual das manhãs. Muita gente comprando o pão quente. Estão na fila,
afastadas: Lívia e Jacira, que fala ao atendente:
JACIRA - Seis pãezinhos carecas. Mas não me dê os
quimadinhos, não...
Ela pega o pão, paga e vai saindo. Cruza com Antônio, que entra.
Lívia reage discreta ao ver Antônio. Fica à parte, de olho nele.
JACIRA - Antônio, quem diria que você fosse tão
estudioso... Passar pra melhor faculdade de
medicina de Fortaleza!
Antônio reage surpreso ao ouvir aquilo.
JACIRA - O padre me contou as novas, depois da missa
das seis. Ele disse que você vai ter que se mudar
pra capital...
CAM mostra que Lívia fica abalada com o que ouve.
JACIRA - Coitado, vai sentir sua falta.
ANTÔNIO - E eu a dele. Com licença.
Antônio afasta-se e vai para a fila.
Jacira comenta, venenosa, com uma vizinha de fila.
JACIRA - Padre Ovídio é tão apegado a esse menino.
Impressionante! Como se fosse pai de verdade...
(sai)
CORTA para Lívia, que toma uma decisão e sai.
CORTA para Antônio, na fila, respondendo ao atendente.
ANTÔNIO - Tudo bem, eu espero a broa sair...
Corta para:

CENA 37 - CASA DO PASTOR/QUARTO DE REBECA E LÍVIA/INT/DIA

Rebeca arrumando suas roupas; Lívia entra e reage ao ver isso.


LÍVIA - Está arrumando suas roupas por quê? Você vai
embora, vai se mudar?
REBECA - Maluqueceu, Lívia? Acabei de passar as
roupas... Olhe, não passei sua blusinha amarela
porque estava úmida.
Lívia fecha a porta à chave e volta-se para Rebeca, com decisão.
LÍVIA - Você teria coragem de enfrentar o pai se ele
descobrisse com quem você passou a tarde toda
ontem? Responda.
Reação de Rebeca, atônita.
Corta para:

C O M E R C I A L

CENA 38 - CASA DO PASTOR/QUARTO DE REBECA E LÍVIA/INT/DIA

Continuação imediata da cena anterior.


Rebeca desconversa diante de Lívia.
REBECA - Que despautério é esse, menina? Nem sei de
que você está falando...
LÍVIA - Largue de ser fingida, Rebeca! O pai diz que a
sonsa nessa família sou eu. Quero que você me
responda!
REBECA - (enfrenta) Quem vai me responder é você! Você
sabe com quem eu estava?
LÍVIA - (mente, jogando) O nome, não. Mas tenho
certeza que é uma pessoa que o pai não aprovaria.
REBECA - (firme) Quem lhe disse isso?
LÍVIA - Eu tenho olhos de ver... Basta olhar pra você pra
descobrir que estava fazendo coisa errada.
REBECA - (se irrita) De jeito nenhum! Eu não estava
fazendo nada errado! E não admito que você se
meta em minha/
LÍVIA - (corta) Se o pai descobrisse com quem você
estava, ia ser um inferno pra ele. Você seria capaz
disso, Rebeca? Botar o pai no inferno?
REBECA - Pare de me arreliar! Por que tudo isso? Diga!
Onde você quer chegar?!
LÍVIA - Quero saber se você é capaz de lutar pela sua
felicidade, mesmo que cause um desgosto danado
ao pai.
Rebeca hesita. Não sabe o que responder.
Neste momento, alguém tenta abrir a porta e vê que está trancada.
Batem à porta e as duas levam um susto.
LÍVIA - Só me responda isso. Seja sincera!
REBECA - Não tenho nada pra lhe responder!
Rebeca vai abrir a porta, mas Lívia não deixa: segura-a.
Ao fundo, continuam batendo na porta. Muito ritmo!...
LÍVIA - Você está pronta pra agarrar sua felicidade, com
unhas e dentes? Pra não deixar que ela escape?
REBECA - Você não tem nada a ver com minha felicidade!
De minha vida cuido eu!
JULIANO - (OFF, batendo na porta) Por que vocês se
trancaram? Abram a porta!
LÍVIA - Você é mulher bastante pra lutar pelo que quer,
mesmo que tenha que destruir todos os sonhos do
pai?
JULIANO - (OFF) O que está acontecendo aí?
REBECA - Eu quero saber porque você está perguntando
isso! A troco do quê?!
LÍVIA - Não precisa mais responder. Já vi que você não
tem coragem de enfrentar o pai. Por nada. Por
ninguém.
Lívia vai até a porta, destranca-a. Juliano entra, já falando.
JULIANO - O que foi que sucedeu aqui?
Lívia ignora-o e volta-se para Rebeca.
LÍVIA - Mas eu tenho coragem. (sai)
JULIANO - Lívia lhe fez alguma coisa?
Ela faz que não e fica ali, irritada e griladésima com aquilo.
Juliano sai ventado atrás de Lívia.
Corta rápido para:

CENA 39 - CASA DO PASTOR/SALA/INT/DIA

Lívia abrindo a porta para sair. Juliano entra e a alcança.


JULIANO - Por que você não deixa ela em paz?
LÍVIA - Por que você não me deixa me paz?!
JULIANO - Porque eu amo você!
Ele diz isso e avança para Lívia, que se afasta, irritada.
LÍVIA - Já lhe disse que eu gosto de outro! Você é
surdo? Não quer entender?... Fique com Rebeca,
vocês se merecem. Eu mereço muito mais! E vou
correr atrás do que é meu! Minha felicidade não
me escapa, de jeito nenhum!
Lívia diz isso e sai para a rua, correndo. Juliano hesita um instante. Mas toma uma decisão e
sai correndo para a rua.
Corta para:
CENA 40 - DELEGACIA/ANTE-SALA/INT/DIA

Ieda e Ava Maria (recém-chegadas) já diante de Tonha.


IEDA - Nós viemos assim que recebemos seu recado...
Como é que a senhora está?
AVA MARIA - Vamos fazer tudo o que estiver a nosso alcance
pra lhe ajudar. Só não podemos ir contra dona
Custódia.
TONHA - (com emoção) Eu estou vexada de incomodar...
mas coração de mãe não pode ter vergonha. Não
é por mim que eu estou pedindo, é por meus
filhos. Passei a noite inteirinha pensando neles.
Eu preciso saber como eles estão, se comeram
direitinho, o mais velho estava com dor de
ouvido...
AVA MARIA - Quer que a gente vá na sua casa?
TONHA - Na casa de minha irmã. A gente mora de favor
lá, desde que a chuva carregou meu muquifo. Eu
sei que é longe, na periferia...
IEDA - (amiga) Nem que fosse no fim do mundo! É
claro que nós vamos até lá.
TONHA - Mas não deixe meus filhos saberem que eu fui
presa. Eu não ia aguentar de tanta vergonha...
As duas tocam no braço de Tonha, com muito afeto.
Corta para:

CENA 41 - CASA DOS PÃES/EXT/DIA

Antônio saindo, com embrulho. Um moleque de recados o espera.


MOLEQUE - Eu tenho um recado pra lhe dar!... Tão lhe
esperando na Lagoa Linda.
ANTÔNIO - (estranha) Quem mandou o recado?
MOLEQUE - (segreda) A filha do pastor.
Reação de Antônio, surpreso.
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CENA 42 - LAGOA LINDA/EXT/DIA

Uma lagoa belíssima, deserta, cercada por coqueiros e dunas.


Antônio surge no alto de uma duna, a cavalo, galopando.
Do PONTO-DE-VISTA de Antônio: há uma mulher dentro d'água.
Ela deve estar mergulhando, não é possível distinguir quem é.
Antônio desce a cavalo até a margem da lagoa. Desmonta lá.
ANTÔNIO - (grita) Meu amor!...
A mulher sai de dentro d'água: é Lívia, sensual, com a blusa molhada colada ao corpo. SLOW
marcando a aparição de Lívia.
Reação de Antônio, perplexo.
Lívia, sedutora, caminha até Antônio, que ainda está atônito.
LÍVIA - Se você soubesse há quanto tempo eu quero lhe
falar o que sinto... Adiei até agora porque/ (se
corta) Mas eu não posso lhe deixar ir embora da
cidade sem saber do meu amor por você. Pode ser
minha última chance. Eu tenho que aproveitar.
Antônio retoma o controle da situação, firme mas sempre gentil.
ANTÔNIO - Isso não faz sentido, Lívia. Vamos parar com
essa conversa agora.
LÍVIA - (se atira) Você tem namorada?
ANTÔNIO - (recua) Não. Mas/
LÍVIA - (corta) Então me dê uma chance...
Ela diz isso e lhe dá um beijo na boca. Antônio não retribui: afasta-se na hora e segura Lívia
pelos pulsos, freiando-a.
Cuidado, pessoal: em nenhum momento deve passar a impressão que Antônio hesita ou
retribui o beijo de Lívia.
CAM desvia e só agora mostra que Juliano sempre esteve escondido por ali, observando-os
sem ser visto.
Importante: Juliano tem que estar bem distante deles, para ficar claro que não ouviu nada da
conversa.
CLOSE de Juliano, atormentado, achando que os dois estão juntos.
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FIM DO NOVO 1º CAPÍTULO

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